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MÉTODOS PSICANALÍTICOS
AULA 1
 TEMA 1 – FUNDAMENTOS HISTÓRICOS E EPISTEMOLÓGICOS DA PSICANÁLISE
Na origem da psicanálise encontramos o paradigma das mulheres histéricas, as quais, para exprimir as suas aspirações pela liberdade, não tinham outro recurso a não ser os seus corpos atormentados. Foi, então, por meio da presença estarrecedora e de seus relatos clínicos que Freud pôde erigir uma nova teoria que se inaugurava como uma práxis.
Depois de sua experiência como residente no hospital La Salpêtrière, em Paris, quando teve a oportunidade de atuar ao lado de seu mestre, Charcot, médico renomado no trato das histéricas, Freud retorna a Viena com o objetivo de retomar o caso de Anna O., uma antiga paciente de Breuer, que lhe deixara imensamente impactado. Trata-se de uma jovem paciente, de boa educação, que adoecera quando cuidava de seu pai acamado. Vale sublinhar que Ana O. era devotamente afeiçoada a seu pai.
Seus sintomas consistiam em um quadro de variadas paralisias com contraturas, inibição e confusão mental. Foi observado pelo seu médico que, quando Ana O. conseguia expressar com palavras as suas fantasias emotivas, ela tinha um alívio desses estados nebulosos de consciência, aos quais se encontrava submetida no momento. Por meio dessa descoberta Breuer passou a hipnotizá-la, com o objetivo de questioná-la para fazê-la dizer o que lhe oprimia a mente. Dessa forma, os ataques de confusão depressiva foram separados e, em seguida, Breuer usou a mesma técnica para eliminar suas inibições e distúrbios físicos. Contudo, em seu estado de vigília, a paciente não conseguia fazer nenhum tipo de ligação com a origem dos seus sintomas, mas, quando hipnotizada, de pronto descobria a ligação que faltava.
O fato é que todos os seus sintomas retornavam quando ela voltava a cuidar de seu pai, o que fez levantar a hipótese de que eles tinham um significado, mas ficavam sob efeito de um resíduo ou reminiscência daquela situação emocional. No decorrer do seu tratamento, foi possível verificar que, toda vez que lhe vinha um pensamento ou impulso que ela evitava ou o suprimia estando na cabeceira do enfermo, o que surgia no lugar desses pensamentos era o sintoma.
O Caso Anna O. surpreendeu tanto a Freud que, quando ele retorna a Viena, volta disposto a construir um novo saber científico que pudesse tratar esse tipo de paciente, mesmo que o preço a pagar fosse a sua amizade com Breuer.
1.1 ESTUDOS SOBRE A HISTERIA
O Estudo sobre a histeria, publicado em 1895 por Freud e Breuer, pode ser lembrado como o ponto de partida da psicanálise, pois de fato podemos afirmar que as investigações e as descobertas clínicas feitas com base nesse fenômeno, preparam o terreno para a prática da clínica psicanalítica.
As observações feitas nesse estudo de Freud e Breuer revelaram que a origem dos sintomas histéricos não podia ser estabelecida por interrogatório, mesmo que ele fosse feito de forma minuciosa, pois de fato as pacientes não seriam capazes de recordar da experiência vivida e, muitas vezes, não existia nenhuma suspeita de conexão casual entre o evento desencadeador e fenômeno patológico.
Nesse período, a principal técnica utilizada nos pacientes era a hipnose, pois ao hipnotizá-los as lembranças da época em que os sintomas surgiram pela primeira vez poderiam ser evocados por sugestão.
Em busca da origem dos sintomas Freud e Breuer passaram a estabelecer uma relação comum entre a patogênese da histérica e as neuroses traumáticas:
Nas neuroses traumáticas a causa atuante da doença não é o dano físico insignificante, mas o afeto do susto – o trauma psíquico. De maneira análoga, nossas pesquisas revelam para muitos, se não para a maioria dos sintomas histéricos, causas desencadeadoras que só podem ser descritas como traumas psíquicos. Qualquer experiência que possa evocar afetos aflitivos – tais como os de susto, angustia, vergonha ou dor física – pode atuar como um trauma dessa natureza. (Freud, 1996a, p. 41)
Assim, o trauma psíquico ou, como especifica Freud, a lembrança traumática, atua no psiquismo como um corpo estranho, que, mesmo muito tempo depois de sua entrada, permanece como um agente em plena função, portanto mente e corpo não funcionam de forma separada.  
A novidade trazida por Freud e Breuer foi que, por meio de suas observações, puderam constatar, com grande surpresa, que “cada sintoma histérico individual desaparecia, de forma imediata e permanente, quando conseguíamos trazer à luz com clareza a lembrança do fato que o havia provocado e despertado o afeto que o acompanhara” (Freud, 1996a, p. 42). Desse modo, quanto mais o afeto fosse transformado em palavras, maior alívio era experimentado pelas pacientes. De igual modo, se as lembranças não fossem recordadas sem afeto, invariavelmente não produziam resultados. Portanto, segundo essas constatações, o processo psíquico deve ser levado de volta à sua nascente para então ser concebido em expressão verbal.
1.2 CLÍNICA COM AS HISTÉRICAS: PRIMEIRAS DESCOBERTAS
O sofrimento histérico consistiria, então, em lembranças traumáticas, cujo tratamento seria a rememoração do acontecimento, no entanto, para produzir um efeito de suspensão do sintoma, era necessário que houvesse uma reação energética, a qual diz respeito ao modo como o paciente descarrega os afetos, de ordem voluntária ou involuntária. Segundo Freud, tal reação deve ocorrer em grau suficiente, ou seja, a ponto de produzir um alívio; caso contrário, quando a reação é reprimida, o afeto permanece vinculado à lembrança. Ele ainda destaca que a linguagem tem a mesma característica, pois, quando reprimida, tende a fazer adoecer. Dessa forma, um afeto só poderia ser ab-reagido, ou seja, elaborado, se passasse por um processo catártico.
Paradoxalmente as lembranças traumáticas não estariam inteiramente disponíveis na lembrança, sendo impossível acessá-las em estado de vigília. Freud então adere à técnica da hipnose, sob a declaração de que “Apenas quando o paciente é inquirido sob hipnose é que essas lembranças emergem com a nitidez inalterada de um fato recente” (Freud, 1996a, p. 45).
TEMA 2 – TÉCNICAS E MÉTODOS QUE PRECEDERAM A PSICANÁLISE   
Nos primeiros anos de trabalho clínico de Freud, momento em que também ocorrera a publicação do Estudo sobre a histeria, o principal método terapêutico utilizado era o catártico, descoberto por Breuer, cuja função se resumia em transformar em palavras a cota de afeto preso de uma experiência traumática e responsável por manter o sintoma. No entanto, para que houvesse uma ab-reação do afeto, era indispensável que essa produção viesse com uma quantidade necessária de carga energética, pois só dessa forma proporcionaria uma descarga emocional. O fato é que “a lembrança do trauma psíquico atuante não se encontra na memória normal do paciente, mas em sua memória ao ser hipnotizado” (Freud, 1996a, p. 47).
2.1 HIPNOSE
A hipnose foi a principal técnica utilizada com as histéricas no período que precedeu a publicação do Estudo. Mas, ao contrário do modo como a utilizavam naquela época, via sugestão ou proibição, Freud a empregou pelo método de Breuer, cuja técnica era usada para determinar a origem dos sintomas. Quando obtinha o conhecimento da origem do sintoma, esse conteúdo era comunicado aos pacientes a fim de despertar o afeto que acompanhara o momento traumático e produzir uma catarse para que enfim houvesse uma ab-reação do afeto.
Mas, ainda que Freud tenha insistido e demostrado um grande interesse pela hipnose, ele apontou para algumas dificuldades ao trabalhar com ela, pois, em sua experiência clínica, pôde verificar que “nem todas as pessoas que exibiam sintomas histéricos [...] podiam ser hipnotizadas” e que, portanto, havia neuroses menos suscetíveis à sugestão hipnótica (Freud, 1996a, p. 272).
Outro ponto levantado por Freud é que nem sempre as comunicações feitas sobre as revelações hipnóticas suscitavam no paciente de vigília as mesmas reações do estado hipnótico. Assim, questionando suas habilidades como hipnotizador, pouco a pouco Freud foi introduzindo novas técnicasque pudessem substituir a hipnose.
2.2 CONCENTRAÇÃO 
Outra das técnicas adotadas por Freud nesse período foi o método de concentração, que consistia em deitar o paciente, pedir que ele fechasse os olhos deliberadamente e fazer uma pressão sobre a sua fronte a fim de se concentrar e evocar novas lembranças. Nessas circunstâncias, Freud pôde se dar conta de que havia outro problema a ser superado – a resistência. Portanto, o trabalho psíquico deveria ir na direção onde pudesse superar as forças psíquicas que se opunham à tomada de consciência das representações patogênicas.
Com base nessa elaboração, Freud começa a pensar na ideia de defesa, em que uma força psíquica, por parte do ego, se oporia ao seu retorno à memória, afirmando que “o não saber do paciente histérico seria, de fato, um não querer saber” (Freud, 1996a, p. 284).
2.3 MÉTODO CATÁRTICO EM FREUD
Ao abandonar a hipnose, Freud foi se aprofundando no método catártico, oriundo de Breuer, e se empenha em descobrir novas formas de análise. O termo análise passa a ser empregado por ele para se referir a essa nova técnica clínica. A primeira impressão de Freud sobre seus avanços na análise com seus pacientes é relatada assim:
O material psíquico patogênico aparentemente esquecido, que não se acha à disposição do ego e não desempenha nenhum papel na associação e na memória, não obstante está de algum modo à mão, e em ordem correta e adequada. Trata-se apenas de remover as resistências que barram o caminho para o material [...] O material psíquico patogênico parece constituir o patrimônio de uma inteligência não necessariamente inferior à de um ego normal. A aparência de uma segunda personalidade é muitas vezes apresentada de maneira mais enganosa. (Freud, 1996a, p. 299-300)
Com o desenvolvimento da técnica, agora ela visava remover as barreiras da resistência. Para isso, era necessário, segundo as orientações de Freud, que o médico se mantivesse na periferia da estrutura psíquica, ou seja, que acolhesse a fala sem muitos questionamentos para não criar barreiras, fazendo com que o paciente dissesse aquilo de que se lembrasse e soubesse. Assim, aos poucos suas resistências eram superadas e isso lhe abriria novos caminhos para uma camada mais interna, ainda que o material trazido parecesse desconexo, logo seria possível descobrir ligações lógicas.
Freud passo a passo se aproximava do que, mais tarde, ele vai conceber como psicanálise. Por enquanto, o método catártico não vislumbrava o problema da etiologia das neuroses, ainda que, para ele, o caso Anna O. demonstrasse evidências da etiologia sexual, contudo não podia prescindir da colaboração de Breuer que inaugurou o método, mas privilegiava a causalidade fisiológica.
TEMA 3 – INVENÇÃO DA PSICANÁLISE 
O Estudo sobre a histeria permanecia incompleto, visto que o problema da etiologia continuava sem solução, mas com as novas descobertas de Freud, o terreno se encontrava preparado para as novas investigações. Inevitavelmente, essas investigações custariam a sua popularidade como médico, motivo pelo qual Breuer não estava disposto a se arriscar, pois já era um médico de renome. Assim, o rompimento com Breuer representou um novo começo para Freud, que passou a investigar a vida sexual dos neuróticos e fortaleceu a sua amizade Fliess, a quem endereçou muitas cartas contendo a sua autoanálise e falando sobre suas descobertas teóricas.
As correspondências a Fliess são indiscutivelmente um grande arquivo de notas e ideias que resultariam na invenção da psicanálise. Foram nessas correspondências que Freud revelou no Rascunho K o grande segredo de sua clínica – a experiência primária de gozo, que resultaria em duas repartições da clínica: a histeria e a neurose obsessiva (Freud, 1996a, p. 267).
O mecanismo de defesa seria responsável por essas repartições, pela qual a experiência de gozo na histeria provoca uma repulsa e na neurose obsessiva, uma autorrecriminação, pois em ambas estruturas a experiência de gozo sofre uma repressão.
A teoria da repressão assumiu o lugar central dos estudos com os neuróticos, em que o objetivo do tratamento não era mais ab-reação, mas revelar os afetos reprimidos substituindo-o por julgamentos que resultariam em uma aceitação.
Em março de 1896, Freud apresenta pela primeira vez no artigo “A hereditariedade e etiologia das neuroses”, o seu novo método, que deixa de ser chamado de catarse para ser nomeado de psicanálise. Esse novo método de tratamento por meio da fala, inventado por Breuer e adaptado por Freud, visava encontrar a origem da doença, pois uma vez revelada e confessada, com a ajuda do terapeuta, os distúrbios psíquicos podiam ser entendidos, tratados e às vezes curados. 
De início, para Freud, a origem da neurose residia em traumas sexuais vividos na infância, quando crianças entre dois e cinco anos de idade sofriam atentados precoces, acometidos por adultos do seio familiar. No entanto, essa teoria não se sustentava por si só. Logo Freud se viu obrigado a abandonar a ideia de um adulto abusador de criança na ordem da família burguesa e desloca-se para a interpretação do discurso, passando a considerar que tais cenas de sedução se tratavam, na verdade, de uma fantasia, ou seja, uma representação imaginária. Em carta à Fliess, datada de 6 de abril de 1897, escreve sobre a sua descoberta:
O aspecto que me escapou na solução da histeria está na descoberta de uma nova fonte a partir da qual surge um novo elemento da produção inconsciente. O que tenho em mente são as fantasias histéricas, que, habitualmente, segundo me parece, remontam a coisas ouvidas pelas crianças em tenra idade compreendidas somente mais tarde. A idade em que elas captam informações dessa ordem é realmente surpreendentes – dois seis ou sete meses em diante!... (Freud, 1996g, p. 293)
Sobre a fantasia, que é um material robusto de análise, não nos cabe agora abordá-la, mas deixamos mencionado para que se detenham sobre sua relevância. Por ora, vamos ao que nos importa – o inconsciente.
3.1 O INCONSCIENTE NA PSICANÁLISE
O termo inconsciente já era empregado muito antes de Freud e a psicanálise, mas a conotação do termo ganhou uma nova ordem a partir de toda a contribuição da psicanálise como um novo saber: “A psicanálise considera tudo de ordem mental como sendo, em primeiro lugar, inconsciente”, ou seja, de uma qualidade ulterior da “consciência” (Freud, 1996e, p. 37).
Para a filosofia, a consciência e o mental tinham a mesma conotação, não se concebendo a ideia de algo mental ser inconsciente. Assim, com o rigor que a psicanálise deu ao inconsciente, foi possível instaurar um novo status para a compreensão dessa instância psíquica. Garcia-Roza, no livro Introdução a metapsicologia freudiana 3, entoa a preocupação de Freud em distinguir o conceito de inconsciente para psicanálise da antiga noção dominante:
A preocupação de Freud é assinalar as diferenças entre o inconsciente tal como é concebido por ele e o inconsciente tal como era pensado pela filosofia e pela psicologia, e uma das formas de se marcas a diferença é apontando o que o inconsciente freudiano não é. Ele não é uma franja ou margem da consciência, também não é o profundo da consciência, assim como não é o lugar do caótico e do misterioso. E Freud em plena razão, estava preocupado em assinalar essas diferenças e em afirmar a irredutibilidade do seu conceito às noções até então dominantes. (Garcia-Roza, 2008, p. 209)
3.2 O INCONSCIENTE: O QUE É ISSO?  
É possível que ainda hoje encontremos pessoas querendo localizar o inconsciente em alguma parte do cérebro, mas o único lugar possível de localizar o inconsciente é na fala. Lacan, que foi o melhor intérprete de Freud, foi categórico ao afirmar: “o inconsciente é um fato, na medida em que se sustenta no próprio discurso que o estabelece” (Lacan, 2003, p. 479).
A dificuldade em responder de forma abrangente à questão do inconsciente tem sido a razão de vários equívocos. Freud, no texto Alguns comentários sobre o conceito de inconsciente na psicanálise, de 1912, forneceu um importante estudoteórico sobre o inconsciente, ele diz:
o inconsciente é uma fase inevitável que ocorre regularmente nos processos que constituem nossa atividade psíquica, e todo ato psíquico começa com ato inconsciente e pode assim permanecer, ou pode desenvolver-se em direção à consciência, dependendo de encontrar ou não resistência. (Freud, 1996c, p. 87)
Assim, o inconsciente postulado por Freud não se restringe apenas ao âmbito patológico neurótico, mas a toda região da mais legítima produção humana, ou seja, “nenhuma de nossas ações, escolhas, tendências, desejos escapam à ação do inconsciente” (Oliveira, 2013).
As formações do inconsciente (atos falhos, lapsos de linguagem, esquecimentos etc.) foram formalizadas no texto A psicopatologia da vida cotidiana, de 1901, em que Freud sublinha que tais acontecimentos oriundos dessa formação não são exclusivos do tratamento psicanalítico, mas fazem parte da vida comum, em que todas as escolhas revelam um “determinismo do inconsciente” (Jorge, 2005, p. 11)
A introdução da noção do inconsciente concebido pelo pai da psicanálise foi mais um golpe desferido sobre a humanidade, ao lado de Copérnico, que retirou a Terra do centro do universo e de Darwin, que tirou o homem do centro da criação. Freud, ao subverter o cogito cartesiano – “Penso, logo, sou”, por ele pensa onde não é, descentralizou o homem de si mesmo.
A complexidade do funcionamento do inconsciente se apresenta ao tentarmos nos aproximar dele, visto que a única forma é por meio de desvios e nunca por via direta. Foi assim que Freud chegou até ele pelos sonhos e pôde constatar seu funcionamento.  
TEMA 4 – INTERPRETAÇÃO DO SONHO
O sonho é uma das facetas da formação do inconsciente, cujo conteúdo, segundo Freud, é constituído de mensagens cifradas, como as dos rádios transmissores durante a guerra, que emitiam comunicados que confundiam os inimigos. Essas mensagens criptografadas são construídas como um rébus ou uma linguagem hieroglífica, termos que foram utilizados por Freud, como nos lembra Colette Soler (2012), em seu livro O inconsciente: que é isso?
A obra freudiana A Interpretação dos sonhos, de 1900, representa um marco na história da psicanálise, visto que, em termos acadêmicos, trata-se, de fato, do ato fundante da teoria psicanalítica, pois é nesse momento que Freud revela um rico campo de investigação do inconsciente – os processos oníricos.
O sonho passou a ser objeto de investigação para Freud quando seus pacientes, de forma espontânea, em seus relatos de associação, citavam os sonhos em suas conversas. Mas a descoberta do método de interpretação do sonho surge com os sonhos do próprio Freud, que ele submente a uma autoanálise no capítulo 2 do livro e conclui: “Quando o trabalho de interpretação se conclui, percebemos que o sonho é a realização de um desejo” (Freud, 2001, p. 135). Trata-se de desejos infantis e reprimidos de caráter sexual; particularidade esta que excede as categorias de saúde e enfermidade e que permite discernir, para além das neuroses, a eficácia do inconsciente. 
4.1 MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO DO SONHO
O sonho apresenta o conteúdo manifesto, que são as imagens de nossa memória. Pelo conteúdo manifesto do sonho, podemos chegar ao conteúdo latente, que são as conclusões da investigação. Dito de outra maneira, são os pensamentos do sonho que se obtêm por meio da análise. Freud (2001, p. 276) declara: “É desse pensamento do sonho, e não de seu conteúdo manifesto, que depreendemos seu sentido”.
Transformar o sonho manifesto em sonho latente é a problemática do método, pois, na maioria dos casos, o sonho latente não é iminente nem para o sonhador. Assim, para realizar a tarefa de fazer do sonho uma comunicação, é necessário utilizar algumas técnicas. Em Novas conferências introdutórias sobre psicanálise, de 1932, Freud retoma as concepções do livro A interpretação dos sonhos, para uma nova reflexão sobre a técnica de interpretação e a teoria dos processos oníricos. 
Sobre a técnica de interpretação do sonho, que diz respeito ao método psicanalítico, o psicanalista que ouve o relato do sonho deve estar disposto a manter-se atento ao que é narrado, mas não manter uma reflexão sobre o conteúdo manifesto, pois, ainda que posteriormente possam ser encontrados muitos elementos que contribuam com a interpretação, na hora do relato deve-se desprezá-los.
Deve-se pedir ao sonhador para livrar-se das impressões que o sonho lhe causou num todo e referir-se a cada parte do sonho contando o que lhe vem à mente sucessivamente. Essas associações, providas desde aí, logo lançarão luz sobre diferentes partes do sonho, levando ao entendimento do porquê das associações com o conteúdo manifesto. Mas Freud adverte: “as associações ao sonho ainda não são os pensamentos oníricos latentes” (Freud, 1996f, p. 22) e sim o material que servirá para a interpretação da mensagem do conteúdo latente. Esse será, portanto, o método para a interpretação do sonho.
4.2 PROCESSO DA ELABORAÇÃO ONÍRICO
O processo de elaboração onírica consiste em uma das mais importantes descobertas de Freud, visto que foi por meio dela que se revelou o funcionamento do sistema inconsciente: “A importância dessa constatação foi ainda acrescida da descoberta de que, na construção dos sintomas neuróticos, estão em atividade os mesmos mecanismos” (Freud, 1996f, p. 27).
Trata-se da metáfora, um mecanismo de trabalho do sonho, que revela o máximo de alcance da equivocidade da linguagem e é desde esse momento que se abre para o inconsciente. A esse funcionamento Freud nomeia de deslocamento e condensação.
A condensação transforma um pensamento em imagem, dando uma equívoca preferência a imagens que admitem um agrupamento, sujeitando o material a uma condensação. Freud conclui:
Em consequência da condensação, um elemento do sonho manifesto pode corresponder a numerosos elementos dos pensamentos oníricos latentes; mas também, inversamente, um elemento dos pensamentos oníricos pode estar representado por diversas imagens no sonho. (Freud, 1996f, p. 29)
O deslocamento, por sua vez, é, segundo Freud (1996f), o responsável pelas distorções oníricas, os quais estão submetidos à censura. Por meio do deslocamento, os afetos são despojados das ideias oníricas e deslocados para alguma coisa no sonho que não o configurem como o principal, pois essa é a única forma de encontrar passagem para o sonho, visto que se trata de um conteúdo proibido para a consciência.
Mabel Levato (2012) escreve, em seu livro Matapsicología – el inconsciente freudiano, que o deslocamento não se esgota em seu efeito descentralizador, mas revela ainda um enorme esforço de subversão do que está em torno de uma fixação psíquica. “O deslocamento da intensidade comporta uma fixação de determinadas representações, demonstrando indícios do reprimido” e, citando a Freud, conclui que “O resultado do deslocamento é que [...] o sonho só devolve (reflete) uma desfiguração (desloca) o desejo inconsciente” (Levato, 2012, p. 80, tradução livre).
Com a publicação do livro A interpretação dos sonhos, a psicanálise ascende no meio acadêmico e para além dele, ganhando novos adeptos como um novo movimento de renovação da psicologia e psiquiatria, criando, informalmente, um círculo de discípulos em torno de Freud.
TEMA 5 – MOVIMENTO PSICANALÍTICO
A I Guerra Mundial, iniciada em julho de 1914, coincide com os novos rumos tomados por Freud para a psicanálise, pois foi nesse período que ele inicia uma série de textos de revisão sobre a sua produção teórica. Paralelamente à guerra que se espalhava por toda a Europa, uma outra guerra em particular emergia dentro dos corredores da psicanálise, dessa vez travada entre Freud e seus principais discípulos Adler e Jung, criando instabilidade à recém-fundada Associação Psicanalítica Internacional (IPA).
As revelações sobre esse período conturbado para o futuro da psicanálise foram descritas por Freud no texto A história do movimento psicanalítico, de 1914, onde retrata a necessidade de firmar o rigor da teoria psicanalítica, a fim de que os seus desertores nãoa levassem para um eterno equívoco teórico e conceitual.
Na biografia de Freud escrita por Elizabeth Roudinesco, ao considerar esse momento histórico da psicanálise, a autora descreve a tensão e a luta travada pelo pai da psicanálise:
A psicanálise, essa estranha disciplina meio caminho da arqueologia, da medicina, da analise literária, da antropologia e da psicologia mais abissal – a de um mais além do íntimo –, jamais foi reduzida pelo seu inventor a uma abordagem clínica da psique. [...] Numa época de expansão do feminismo, do socialismo e do sionismo, Freud também sonhava conquistar a terra prometida, tornando-se o Sócrates dos tempos moderno. E, para executar seu projeto, não podia se limitar ao ensino universitário. Precisava fundar um movimento político. (Roudinesco, 2016, p. 135)
5.1 MÉTODO PERIGOSO
Freud, sempre preocupado com o futuro de sua teoria, buscou um nome para zelar por ela quando ele partisse, e o escolhido foi Jung, um jovem médico que demonstrava inteligência, grandeza e afinidade com a psicanálise. A ele Freud entregou a presidência da recém-fundada Sociedade Psicanalítica Internacional, que dera início de forma muito intimista em reuniões na casa de Freud nas quartas-feiras à noite.
Com o avanço da sociedade rumo ao internacional, alguns conflitos sobre a doutrina começaram a surgir e o maior entre elas se deu justamente entre Freud e aquele que ele escolhera para ser o herdeiro da psicanálise, Jung. Sobre sua escolha, Freud revela a sua decepção dizendo:
Eu não tinha, na ocasião, a menor ideia de que a escolha era a mais infeliz possível, que eu havia escolhido uma pessoa incapaz de tolerar a autoridade de outra, mais incapaz ainda de exercê-la ele próprio, e cujas energias se voltavam inteiramente para a promoção de seus próprios interesses. (Freud, 1996d, p. 42)
Jung pretendia uma concepção da libido entendida como energia vital, ou seja, uma libido estendida. Freud o acusava de ter cedido à “lama negra do ocultismo”. O rompimento se deu em 1912, após Jung ter voltado do EUA e apresentado um relatório de suas atividades onde descaracterizava completamente a teoria da sexualidade e negava o pulsional, justificando que assim a psicanálise seria mais bem aceita.
As modificações introduzidas por Jung na psicanálise foram comparadas por Freud à famosa espada de Linchtenberg, explica Garcia-Roza (2008, p. 14): “mudou o cabo e botou uma lâmina nova, e porque gravou nela o mesmo nome espera que seja considerada como o instrumento original”.
NA PRÁTICA
As elucubrações que foram expostas nesta etapa visam trazer uma noção histórica dos acontecimentos que deram origem ao ato de fundação da teoria e clínica psicanalíticas. A importância de conhecer a sua história e os passos dados por Freud na criação da psicanálise consiste, pelo mesmo método que se aplica a esta, em construir um saber para além da pura e simples teoria.
Na clínica, quando ouvimos o sonho de um paciente, devemos cuidar para não nos apressarmos, pois uma interpretação de sonho nem sempre tem seu desfecho na sessão. Imagine-se recebendo uma jovem para entrevista, mas, como esta já havia feito análise, ela já veio em transferência com a psicanálise e foi assim que ela contou o seu sonho. Ela relata que várias vezes sonha com uma casa em que morou na infância, e nessa casa ela tem a sensação de ter esquecido no terraço um cachorro, que foi muito importante para ela, pois este lhe fez companhia no momento mais solitário de sua vida. Então, ela acorda muito angustiada, tentando recordar se realmente ela esqueceu o cachorro e se dá conta de que é só um sonho, pois o animal já havia morrido há muitos anos.
A casa de infância representa a própria moça que conta o sonho; o cachorro representa um trauma de sua vida, que ela pôde abordar durante a análise; e a sensação de angústia é o que de real retorna no sonho e pode ser simbolizado ao falar dos seus afetos. Tudo isso levou anos de análise para ganhar uma simbolização.
FINALIZANDO
Sigmund Freud foi um homem capaz de sucumbir às imposições morais de seu tempo e ouvir para além da dor orgânica a voz de mulheres que gritavam em silêncio por socorro, pois foi por meio desse apelo das mulheres histéricas que a voz do inconsciente que emergia em seus corpos contorcidos foi ouvida, e assim foi criada a psicanálise.
Com a publicação dos Estudos sobre a histeria, Freud começa a tatear uma nova forma de clinicar que ia para além de um diagnóstico de doença biológica, pois, ao deixar o doente falar, permitia que este mesmo se conduzisse à sua cura.
Com A interpretação dos sonhos, Freud pôde decifrar a mensagem que surgia em forma de um hieróglifo e conceber o funcionamento do inconsciente, que fala por metáfora, utilizando-se do mecanismo de deslocamento e condensação visando driblar as resistências, realizando no sonho um desejo inconsciente.
A duras penas Freud logrou estabelecer as doutrinas de sua teoria, mas morreu temendo que, com o passar dos anos, ela viesse a desaparecer pelo próprio conceito que ele concebeu como resistência, pois a psicanálise existe no que se sobrepõe a ela. Assim, o retorno a Freud é sempre um bom caminho para mantê-la viva.
MÉTODOS PSICANALÍTICOS
AULA 2
 TEMA 1 – PSICANÁLISE E CIÊNCIAS
Desde a sua criação, a psicanálise sofre ataque pelos que se dizem do lado da ciência, considerada por eles um sistema de interpretação literária dos afetos e dos desejos, que, por assim ser, não depende da experimentação. Assim, em nome de uma “ciência cognitiva”, a única capaz de atestar uma “ciência verdadeira”, insistem em repensar a organização de todos esses campos, tal como a sociologia, a história, a antropologia, a linguística etc.
Segundo os comentários de Roudinesco (2000) em seu livro Por que a psicanálise?, “esses procedimentos cientificistas pressupõem que existiria uma separação radical entre as chamadas ciências ‘exatas’ e as chamadas ciências ‘humanas’”(p. 113). Essa concepção se inclina para uma aberração. A exemplo disso, temos a comemoração do centenário da psicanálise, que teve seu evento adiantado na Library of Congress (LOC) por conta de uma petição que considerava o evento demasiadamente institucional.
O fato é que a psicanálise propõe uma ruptura com os “saberes oficiais”, e reconhece de forma racional os fenômenos que outrora foram marginalizados. No texto Sonhos e ocultismo, de 1932, Freud, ao afirmar o caminho estreito que a psicanálise trilha, evidencia os seus critérios:
O ocultismo afirma que existem, de fato, ‘mais coisas no céu e na terra do que sonha a filosofia’. Pois bem, não precisamos nos sentir amarrados pela estreiteza de vistas da filosofia acadêmica; estamos prontos a acreditar naquilo que nos é demonstrado de forma a merecer crédito.
Propomos lidar com essas coisas da mesma forma como o fazemos com qualquer outro material científico: antes de mais nada, estabelecer se se pode realmente demonstrar que tais eventos acontecem, e então, e somente então, quando sua natureza factual não pode ser posta em dúvida, dedicar-nos a sua explicação. (Freud, 1932, p. 39)
Freud recusou-se a tornar a psicanálise uma ciência demasiadamente positivista, mas teve todo o cuidado de construir uma lógica, assim, “existe em sua doutrina um pacto original que liga a psicanálise à filosofia do iluminismo e, portanto, a uma definição de um sujeito fundamentado na razão” (Roudinesco, 2000, p. 126).
1.1 AS MODALIDADES DO IRRACIONAL
A ciência a partir de Galileu foi definida como o conhecimento das leis que regem os processos naturais e, em seguida, originou novas abordagens que têm como ponto comum o ato de retirar a análise da realidade humana da antiga dominação das ciências ditas divinas, baseadas na Revelação.
Surgem, então, as ciências formais (lógica e matemática), as ciências naturais (física e biologia) e as ciências humanas (sociologia, antropologia, história, psicologia, linguística e psicanálise). A que nos interessa – a humana – oscila entre duas atitudes, explica Roudinesco (2000, p. 120):
uma toma como modelo uma únicarealidade humana, os processos físico-químicos, biológicos ou cognitivos, eliminando, assim, toda forma de subjetividade, de significação ou símbolo; a outra reivindica as categorias eliminadas.
No entanto, nenhuma ciência está protegida do processo de irracionalidade que a permeia. A exemplo disso, Roudinesco (2000) cita Gilles Gaston, que, em um recente livro, evidencia três modalidades do irracional da própria história da ciência.
1. Obstáculos constituídos por um conjunto de doutrinas que regem uma época, da qual o cientista tem que contestar o modelo dominante, sendo o recurso ao irracional o meio de suscitar uma imagem da razão e, assim, lograr novamente uma nova racionalidade.
2. Surge quando se está com um pensamento fixo em uma doutrina, ficando incapaz de avançar sobre ela. Então, prolonga-se o ato criador que lhe deu origem, influindo nele um novo vigor.
3. Delibera-se um modo de pensar estranho à racionalidade, pela qual se assiste uma rejeição ao saber dominante.
Roudinesco (2000, p. 122) assinala que, assim como essas três modalidades do irracional perpassam por todas as ciências, também estão presentes na história da psicanálise. “Contudo, Freud sempre se manteve dentro dos limites das duas primeiras”.
Verificamos o primeiro momento no período entre 1887 e 1900, quando Freud abandonou a teoria da sedução e construiu uma nova teoria da sexualidade. Depois, entre 1920 e 1935, quando Freud introduziu a dúvida no cerne da racionalidade da psicanálise com a finalidade de combater o positivismo que a ameaçava por dentro, em primeiro lugar com a hipótese da pulsão de morte que transformava por completo o modo de pensar da teoria e, em seguida, Freud passou por um “irracional especulativo”, que o conduziu a outras inovações.
Diferentemente do percurso de Freud, a terceira modalidade do irracional surge apenas na história da psicanálise e, segundo Roudinesco, apresentou-se mesmo durante a vida de Freud, quando alguns retornam à prática de negar a própria ideia de uma explicação racional do psiquismo.
1.2 O FUTURO DA PSICANÁLISE
O que pudemos observar até aqui é que se Freud em algum momento tentou integrar a psicanálise às ciências da natureza, nenhum passo foi dado por ele nessa direção. Em vez disso, ele elaborou um modelo especulativo e passível de dar conta de uma conceituação não restritiva da experiência clínica, mas que se amplia em relação à metafísica (ramo da filosofia), que trata das coisas especulativas, do ser ou da imortalidade da alma. A esse modelo nomeou de metapsicologia.
Assim, com a sua nova doutrina do inconsciente, rompeu com a psicologia clássica, traduziu a metafisica numa metapsicologia e inventou um método interpretativo que convocou e convoca até os dias de hoje a desconstrução de “mitos”, “bem e mal”, “imortalidade” etc.
Desse modo, poderá a psicanálise resistir ao imperativo da ciência? Cabe, então, a cada um de nós o futuro da psicanálise.
TEMA 2 – A ESPECIFICIDADE DA PSICANÁLISE
Quanto ao termo especificidade, precisamos ter a clareza do que representa. No dicionário on-line Dicio, encontramos a seguinte definição: “qualidade daquilo que é específico; particularidade/ qualidade própria”. Dito isso, podemos compreender que, para tomarmos a responsabilidade do futuro da psicanálise, é imprescindível que mantenhamos o rigor daquilo que caracteriza a sua especificidade. Em decorrência disso, decidimos dividir o que a psicanálise revela como sua especificidade em duas partes a fim de obtermos uma melhor compreensão. A primeira, quanto à especificidade da clínica, ou seja, sobre o tratamento; a segunda, quanto à formação do psicanalista, sobre aquilo que concerne à especificidade para a sua prática.
2.1 A ESPECIFICIDADE DO TRATAMENTO
O termo “psicanálise” foi usado pela primeira vez por Freud em 1896, em seu texto redigido em francês, mas, o que o precedera foi a publicação do livro Estudo sobre a histeria, que traz o caso da Anna O., uma paciente que se tornou referência para a psicanálise por evidenciar um método – o tratamento fundamentado na fala.
A fala para a psicanálise é um agente de cura, a cura pela fala, vindo desde o método catártico que, a princípio, visava à ab-reação e, depois, revelou-se a principal via de acesso à psique humana. Foi ao escutar o sofrimento de seus pacientes que Freud pôde descobrir o funcionamento do inconsciente e elaborar o conceito de resistência, de recalque e de transferência, entre outros conceitos base da psicanálise.
No texto Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise (1953), Lacan resgata a especificidade da clínica psicanalítica – a linguagem – já acrescida de toda significação e denuncia os pós-freudianos por terem se afastado dela:
A descoberta de Freud é a do campo das incidências, na natureza do homem, de suas relações com a ordem simbólica, e do remontar do seu sentido às instâncias mais radicais da simbolização no ser. Desconhecer isso é condenar a descoberta ao esquecimento, a experiência à ruina. (Lacan, 1953, p. 276)
No livro Fundamentos da psicanálise (2005), Marco Antônio Coutinho Jorge afirma que a psicanálise opera por meio de um único meio, a palavra do analisando. Lacan estabeleceu sob a obra de Freud a relação inevitável entre as diversas formações do inconsciente e a linguagem, meio pela qual ela necessariamente se manifesta (Jorge, 2005, p. 65).
Assim, quando se fala, o que entra em jogo é o inconsciente, mesmo quando se depara apenas como o silêncio, diz Lacan, se tiver um ouvinte. Aí está o cerne da função da análise (1953, p. 249). O aforisma lacaniano “o inconsciente é estruturado como uma linguagem” reflete a diferença entre o inconsciente de Freud, que seguia o modelo biológico, e o inconsciente de Lacan, que se apoia no modelo linguístico. É o que nos explica Roudinesco no livro Dicionário de psicanálise (1998).
A incisão feita no conceito de inconsciente, depositando nele o saber da linguística, do qual Freud não teve a mão, Lacan pôde identificar algumas evidências que o levariam ao entendimento de que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, logrando ampliar o entendimento sobre a fala do analisante, destacando que toda produção é da ordem do sentido, portanto, da ordem simbólica, isto é, um sistema de representação baseado na linguagem, cujos signos e significações determinam o sujeito.
Dessa forma, o sujeito está mais implicado na sua fala do que ele possa imaginar, e o verbo realiza no discurso o ato que devolve ao sujeito a história, que lhe dá a sua verdade. Luciano Elia, no livro O conceito de sujeito (2004), afirma:
Só a fala permite que o sujeito, que emergirá nos tropeços das intenções conscientes daquela fala, possa, além de emergir nesses tropeços, ser reconhecido como tal pelo falante, que, a partir desse reconhecimento, não será mais o mesmo porquanto terá sido levado a admitir como sua uma produção que desconhecia, mas que, ainda assim, faz parte dele. (Elia, 2004, p. 23)
A fala, como linguagem concreta na experiência psicanalítica, revela ao sujeito o seu inconsciente, um inconsciente não caótico ou biológico, mas estruturado como uma linguagem, ou seja, com elementos materiais simbólicos que desembocam em significantes engendradores de sentido, mesmo não portando sentidos constituídos em si, mas que faz produzir sentidos, faz significar (Elia, 2004, p. 23).
Enfim, por meio da experiência psicanalítica, que torna a fala a sua especificidade, é possível compreender “que é no dom da fala que reside toda a realidade de seus efeitos; pois foi através desse dom que toda realidade chegou ao homem, e é por seu ato contínuo que ele mantém” (Lacan, 1953, p. 323).
2.2 A ESPECIFICIDADE DA FORMAÇÃO DO PSICANALISTA
Quanto à especificidade da formação do psicanalista, cuja direção é lacaniana, existe uma frase que nos orienta tanto quanto nos desorienta: “o analista só se autoriza de si mesmo!”. Ao fazer essa declaração, Lacan conseguiu, mais do que nunca e mais do que qualquer outra pessoa, implicar o sujeito em sua formação.
Retomemos um pouco a história para lembrar quea Associação de Psicanálise Internacional (IPA) foi inicialmente fundada para normatizar a análise e formar os profissionais de psicanálise. A necessidade surgiu pela iminente expansão da teoria psicanalítica pelo mundo. Mas ao mesmo tempo em que a IPA exportava os modelos de formação, com o intuito de manter-se fiel às doutrinas freudianas, ela foi se tornando uma fábrica de produção de grandes notáveis que, segundo Roudinesco (2000), pela força de cultivas mais a norma do que a originalidade, e de cultivar a globalização em detrimento do internacionalismo, o terreno do debate político e intelectual foi banido. Nesse sentido, foram se desinteressando pelo mundo real para se voltar à fantasia de seres intocáveis.
Ao recusar os moldes enrijecidos da IPA na França, em 1963 Lacan teve sua excomunhão, como ele mesmo nomeou (um modo crítico para expressar o seu não aceite em relação à IPA). A partir do ano de 1964, fundou em Paris, como o seu “Ato de Fundação”, a Escola Francesa de Psicanálise, com o objetivo de resgatar a práxis e a doutrina psicanalítica, cujo valor maior é prezado pelo bem-fundado da experiência (Lacan, 1964, p. 235).
Com efeito, para Dominique Fingermann, no livro A (de)formação do psicanalista (2016), o que qualifica a sua eficiência específica (referindo-se à formação do psicanalista) não é a autoridade de uma teoria, o pertencimento a uma associação de pares ou a aplicação de uma cartilha técnica, menos ainda a conformidade à demanda de quem solicita sua presença e sua escuta (Fingermann, 2016, p. 21).
O que institui um sujeito analista é, em primeiro lugar, a sua experiência com o seu próprio inconsciente, apreendida em sua análise, “o analista não opera a partir do senso comum, mas a partir do ponto fora do comum” (p. 22).
No texto A questão da análise leiga (1926)[1], ao tratar da formação do analista, Freud diz que “somente no curso de sua análise, quando vivencia de fato os processos postulados pela análise em seu corpo – dito de outro modo: em sua própria alma – que se adquirirá as convicções que o guiará como analista[2]. (p. 186). Resumidamente, o que Freud nos ensina e reafirma durante toda sua obra é que a condição de analista é pela própria análise do analista.
No entanto, a análise pessoal como especificidade da formação do analista não esgota a resposta à questão sobre a formação do psicanalista, pois a ela se acrescenta o estudo teórico e a supervisão, o tripé que estabelece a especificidade da formação do analista.
2.2.1 Supervisão
Sobre a questão da supervisão que soa tão contraditório ao ato de autorizar-se por si mesmo, Lacan afirma que ela se “impõe” para o analista. O que isso significa? Fingermann (2015), ao interpretar o sentido dessa imposição, declara que o fato de o analista não ter a garantia no autorizar-se de si mesmo torna a supervisão necessária. “A supervisão convoca o analista a ‘dar as razões da sua clínica’, dar prova da sua posição e de suas consequências que só podem qualificar um ato propriamente sem qualidade” (Fingerman, 2016, p. 181).
Outro ponto para o qual a supervisão se impõe para o analista em formação permanente diz respeito ao impossível da transmissão, dito de outro modo, sobre um ponto que é foracluído para analista e, que, apenas ao dispor de um terceiro (outro analista com mais experiência) ele poderá tornar audível o que ficou esquecido atrás dos ditos. Diz ainda:
Engajar-se em um trabalho de supervisão coerente com o discurso analítico consiste, antes de qualquer coisa, em manter viva a sensação de um risco absoluto. O supervisor precisa estar à altura dessa responsabilidade se quiser colaborar para a manutenção da aposta do ato do psicanalista, que inquieta justamente o supervisionando. (Fingermann, 2016, p. 26)
A supervisão é o primeiro lugar em que se pratica a práxis da teoria.
2.2.2 Estudo teórico
Por meio das escolas de psicanálises, Lacan almejou o “ensino verdadeiro”, aquele que não parasse de se submeter às chamadas “novações”. Para isso, criou o dispositivo “cartel”, cuja fórmula podemos resumir pela frase: “para que a psicanálise, ao contrário, volte a ser o que nunca deixou de ser: um ato por vir” (Lacan, 1968, p. 293).
O cartel é o “órgão base” da Escola de psicanálise proposta por Lacan. Ela indica um caminho indispensável para quem se responsabiliza por sua formação permanente e se engaja na tarefa de transmissão. Não nos propomos a ir mais fundo sobre esse tema, pois, por hora, queremos apenas por acento no que concerne ao estudo teórico como parte da especificidade da formação em psicanálise.
Com a entrada do ensino da psicanálise nas universidades, podemos considerá-la como mais um aporte ao conjunto que integra o tripé da formação do psicanalista, ou mais bem dito, uma porta de entrada para a modalidade dos estudos teóricos que visam ser permanentes no processo de formação.
Freud e Lacan deram insistentes orientações a respeito do que o psicanalista tinha que saber para estar à altura de sua operação (Fingermann, 2016). O não saber do analista jamais pode se equivaler à ignorância. “A aparente incompatibilidade entre o ensino e a experiência não pode ser um motivo, uma desculpa, para não saber nada, satisfazer-se na posição do não saber, da ignorância” (Fingerman, 2016, p. 60).
TEMA 3 – A PRÁXIS PSICANALÍTICA
A ética da psicanálise é a práxis de sua teoria, declara Lacan no Ato de fundação (1964). Para nos orientar a respeito dessa afirmação, nos guiaremos de acordo com as seguintes questões: quais são as consequências dessa prática? A escola de psicanálise pode garantir essa prática? Afinal, o que é a psicanálise? É o que tentaremos responder a seguir.
3.1 O QUE É A PSICANÁLISE?
Iniciaremos pela última pergunta, acreditando que ela abrirá caminhos para responder às demais questões. Pois bem, certa vez Lacan foi interrogado a respeito da nossa questão – o que é a psicanálise?
“A psicanálise [...] é o tratamento que se espera de um psicanalista”[3]. A resposta dada por ele foi um tanto quanto provocativa, recolocando a questão da formação do analista ao mesmo tempo em que devolve a responsabilidade da psicanálise aos seus operadores, fazendo-os lembrar, iminentemente, que a psicanálise é um tratamento, ou como diz Lacan, uma cura. Assim, para entendermos melhor, buscaremos mais referências com outros autores.
No livro Fundamentos da psicanálise (2017), Jorge traz à luz uma citação de Lacan que nos remete ao que estamos buscando responder: “É de meus analisandos que aprendo tudo, que aprendo o que é psicanálise” (p. 7). Desde então, podemos pensar que a psicanálise não é um saber circunscrito, ou seja, a psicanálise se produz a cada início de sessão, sendo sua apreensão da ordem do impossível.
No livro A estranheza da psicanálise (2009), Antonio Quinet reafirma que a psicanálise não é uma ciência, visto que não tem o propósito de transmitir tudo sem resto, pois sabe que a verdade jamais será dita por inteiro por conta do recalque originário, assim, ela se sustenta pela lógica do não todo (p. 75). Amelia Imbriano, no seu livro La Odiseia del siglo XX (2010), declara que a psicanálise se funda como uma práxis delimitada no campo da experiência psicanalítica, na qual o que está em tratamento é o sujeito do inconsciente, sendo essa a invenção freudiana. Assim, podemos entender que a psicanálise tampouco se reduz a uma simples técnica, mas parece ser mais um tipo de trabalho inspirado pelo seu analista durante a análise. Desse modo, a práxis que instaura a experiência psicanalítica decorre de seu procedimento próprio, que transforma a dor e o mal-estar em fala dirigida ao psicanalista.
Com esses autores, observamos que a psicanálise é um trabalho psicanalítico que, por sua complexidade, jamais será abarcado em sua totalidade, sendo apenas possível apreendê-la pela experiência. Assim sendo, quem poderá garantir a sua prática? A Escola?
3.2 AS ESCOLAS DE PSICANÁLISE OU UNIVERSIDADES GARANTEM A PRÁXIS DA PSICANÁLISE?
Em sua época, Freud foi questionado sobre quem poderia exercer a psicanálise. Assim, dedicou-se aotexto A questão da análise leiga (1926)[4] para responder à sociedade que acusava de charlatanismo aquele que praticava a psicanálise não sendo médico. A pergunta que não se calava era: como e onde se aprende o necessário para exercer a psicanálise?[5] O acento dado por Freud foi que “a análise é leiga: é uma experiência subjetiva, singular, que implica uma ética peculiar”. Para Freud, a psicanálise poderia ser exercida por qualquer campo do saber, desde que o sujeito em questão assumisse um compromisso ético com a sua práxis. E foi seguindo esses trilhos que Lacan propôs a sua Escola, no Ato de fundação.
Imbuída em reaver a que se propõe a formação do analista no que tange à ética de sua prática, Fingermann declara:
A ética da psicanalise é a práxis de sua teoria [...] a ética do analista, sua disposição para o ato, que, enquanto tal, dispensa qualquer modelo e modelização, depende da sua disponibilidade para algo que excede o simples estudo da teoria. Esta não é o modelo que se aplica, mas uma práxis que a produz à medida das ocorrências, e, por isso, é coerente com o que se espera de um psicanalista à altura do ato e do real.
Do próprio exercício da transmissão da prática clínica depende a formação permanente da analista. A práxis da teoria é o exercício do analista, o qual põe à prova o seu saber, não o seus conhecimentos. (Fingermann, 2016, p. 25)
Dessa forma, podemos concluir que a prática que põe em ato a psicanálise só pode partir da própria ética daquele que se pretende psicanalista.
3.3 QUAIS SÃO AS CONSEQUÊNCIAS DA PRÁTICA PSICANALÍTICA?
A partir de então, podemos refletir sobre as consequências da prática psicanalítica. Se nos remetermos ao ato inaugural da psicanálise, podemos extrair como consequência o ato que nos deu acesso ao inconsciente e à sua formalização. Segundo Quinet (2016), o ato tem marca de um antes e um depois, que traz em si a descontinuidade e, por ser assim, tem a estrutura de corte (p. 7).
Assim, quando um psicanalista autoriza uma análise, o ato fundador de Freud se renova. É preciso compreender que não se trata de uma consequência que tente ao místico, pois os fundamentos e alicerces que compõem o ato psicanalítico estão entrelaçados ao tripé da formação permanente do psicanalista e, por assim ser, as consequências do tratamento instituem o valor de verdade aos sintomas, de modo que se valida a angústia como indicador da singularidade real de um sujeito. Posto isso, conclui Fingermann: “Que extravagância nesses tempos de cólera do discurso da ciência e do capitalismo: como ousar dar valor de uso para algo que não tem valor de troca” (2016, p. 71).
TEMA 4 – PARA ALÉM DA CLÍNICA
No texto que se intitula Proposição sobre o analista da Escola (1967), Lacan, já no âmago da sua Escola, insere os termos “psicanálise em extensão” e “psicanálise em intensão”. A primeira diz respeito a toda função da Escola cujo objetivo é presentificar a psicanálise no mundo; a segunda refere-se à afirmação dos conceitos aos seus operadores, pelo qual depende da qualificação da primeira (psicanálise em extensão).
Os termos (extensão/intensão) que foram retirados da lógica por Lacan buscam refletir a operação da formação do psicanalista que coexiste à própria psicanálise e ao seu emprego na sociedade. Assim, a prática psicanalítica pode ser reexaminada toda vez que pensada sobre seu alcance e limitações.
4.1 PSICANALÍTICA EXTENSÃO X INTENSÃO
A psicanálise em extensão diz respeito à ética política da Escola em sua transmissão, cujo viés que a orienta a essa experiência original é a psicanálise em intensão, visto que somente a prática funda a teoria e o lugar da Escola. Desse modo, a psicanálise em intensão é anterior à experiência da psicanálise em extensão, que, por sua premissa, implica na destituição de um mestre, visto que é só num depois que ela acontece.
O dualismo se configura como uma banda de moebius, na qual dentro e fora constituem-se um só, como o funcionamento de uma engrenagem que promove o avanço da psicanálise em sua intensão (sua prática) e extensão em sua pólis.
TEMA 5 – A NOÇÃO DE SUJEITO
Quando se fala em sujeito, logo pensamos em uma persona ou em uma espécie de construto, pois o termo “sujeito” não diz respeito a um conceito no sentido filosófico ou científico, mas trata-se de uma categoria.
A categoria de sujeito se impõe na elaboração da teoria psicanalítica com base em Lacan, que o aborda pela sua constituição, sendo assim, sua tese se baseia nas concepções freudianas sob a constituição do aparelho psíquico, pelo qual o sujeito não nasce ou se desenvolve, mas se constitui no campo da linguagem.
Sob esses argumentos, no texto dos Escritos – A subversão do sujeito e dialética do desejo (1960), Lacan demarca uma distinção entre a concepção de sujeito da ciência e da fenomenologia hegeliana e o sujeito da psicanálise:
Nossa dupla referência ao sujeito absoluto de Hegel e ao sujeito abolido da ciência dá o esclarecimento necessário para formular em sua verdadeira medida a dramaticidade de Freud: reingresso da verdade no campo da ciência, ao mesmo tempo em que ela se impõe no campo de sua práxis: recalcada, ela ali retorna. (Lacan, 1960, p. 813)
Nesse contexto, ao apontar para a diferença entra a ciência e a psicanálise, Lacan localiza a psicanálise por meio da ciência, visto que o sujeito sobre o qual operamos é o sujeito da ciência.
5.1 SUJEITO DA CIÊNCIA E SUJEITO DA PSICANÁLISE
O sujeito sobre quem operamos em psicanálise só pode ser o sujeito da ciência, declara Lacan no texto A ciência e a verdade (1956). Tal declaração, então, desemboca em três situações: que a psicanálise opera sobre um sujeito e não, por exemplo, sobre um eu; que há um sujeito na ciência; e, por último, que esses dois sujeitos constituem apenas um. Essas reflexões foram trazidas por Jean-Claude Milner em A obra clara: Lacan, a ciência, a filosofia (1996).
Assim, podemos situar o sujeito da ciência por meio do nascimento da ciência moderna estabelecido a partir de Descartes, no que confere o chamado Cogito, em que se inaugura um “ancoramento no ser”, pelo qual o ato de pensar determina a existência do sujeito – penso, logo sou (ou penso, logo existo).
O surgimento do sujeito concebido pela ciência moderna, no entanto, não opera com ele nem sobre ele, segundo o que nos explica Luciano Elia (2004). O autor declara, ainda, que é ao contrário disso, pois o que a ciência faz é excluir o sujeito do seu campo operatório, ou seja, “o sujeito é posto pela ciência para, no mesmo ato, ser dela excluído, ou, mais exatamente, ser excluído do campo de operação da ciência” (Elia, 2004, p. 14).
Ao passo que a ciência exclui o sujeito, é sobre ele que a psicanálise opera. Isso significa que a psicanálise não opera sobre uma pessoa humana ou um indivíduo, mas sobre o mesmo sujeito da ciência. É aí que está a subversão declarada pela psicanálise, em criar condições de operar nesse sujeito por meio da regra fundamental da psicanálise – fale o que lhe vier à mente. Ao instituir a associação livre, Freud se dirige diretamente ao sujeito, supondo-lhe um saber inconsciente sobre si, saber esse que emerge pela fala e por meio de falhas da fala.
NA PRÁTICA
Autorizar-se psicanalista é uma posição ética e não institucional, visto que não há um lugar que forme psicanalista a não ser pela implicação do sujeito com o seu desejo. A escola de psicanálise ou as universidades jamais poderão ser o lugar de garantia da prática da psicanálise, ainda que ofertem o título.
O que garante a práxis do psicanalista é a psicanálise pura, ou seja, a experiência que inclui o tripé da formação: análise pessoal, supervisão e estudo teórico. Na escola não se ensina, só “se copia”, parafraseando Estamira, no documentário que levava o seu nome. O modelo pensado por Freud e Lacan considera o sujeito na sua peculiaridade e leva até as últimas consequências o seu saber na experiência.
A responsabilidade de não permitir que a psicanálise seja sucumbida aos anseios de se fazer ciência cabe a cada um que se pretenda psicanalista, sendo necessáriosustentar as suas especificidades com o mesmo rigor estabelecido por Freud. Para isso, Lacan nos deixou advertidos para um permanente retorno aos textos freudianos.
FINALIZANDO
Podemos, agora, retomar a nossa questão inicial: por que a psicanálise hoje? A psicanálise é a ciência que toma o sujeito como objeto e se coloca como testemunha de sua verdade. Talvez essa seja a forma mais resumida de expressar a sua práxis, mas o que decorre numa sessão de análise é território infinito de possibilidade, visto que, ao devolver a fala ao sujeito, faz emergir em seu ser todo o emaranhado de sua fantasia que dá suporte aos seus sintomas. A psicanálise hoje e sempre será a cura para o sujeito, o sujeito que a ciência não alcança, pois ele não faz parte de seu campo de experiência.
A invenção de Freud – a psicanálise – como uma experiência do discurso visa alcançar o bem-dizer da ética do desejo ao tocar no singular do sujeito, sem que, com isso, deixe de reconhecer o caminho da ciência e as mudanças sociais, pois a psicanálise anda ao seu tempo em extensão e intensão (transmissão e tratamento).
A garantia de sua prática será sempre um lugar problemático, pois é assim que deve se manter, no debate. É essa a estranheza da psicanálise em relação a outras disciplinas e à própria civilização. É neste ponto que Lacan situa o âmago de sua Escola, escreve Antonio Quinet (2009).
MÉTODOS PSICANALÍTICOS
AULA 3
TEMA 1 – TALKING CURE
A palavra foi tomada como instrumento por Freud desde que iniciou sua clínica. Coutinho Jorge, em seu livro Fundamentos da psicanálise, v. 3, lembra-nos de um artigo de Freud intitulado Tratamento psíquico ou mental, que embora tenha sido datado de 1905, trata-se, na verdade, de um texto de 1890.
O que impressiona o autor é que mesmo sendo um texto tão percursor, já continha todo um projeto clínico que foi desenvolvido ao longo de toda obra de Freud.
A capacidade de afirmar a importância da linguagem foi salientada por Jorge, que cita Freud quando declara o poder “mágico” das palavras que evoca o célebre artigo de Claude Lévi-Strauss, A eficácia simbólica, que esteve no cerne da elaboração do simbólico em Lacan.
Voltado para as suas investigações sobre a histeria, mas sem ainda dimensionar a sexualidade em sua gênese, Freud concebeu a ideia de uma fronteira tênue entre os sintomas histéricos e psicossomáticos; uma ação igual da mente sobre o corpo, e não apenas do corpo sobre a mente. Além disso, Freud também faz referência a “curas milagrosas”, como uma força mental que se reverte a favor do crente, ou à cura com um médico da moda (fator que podemos relacionar hoje com o conceito de transferência).
Freud (1905) foi, ao longo de suas elaborações, estabelecendo uma relação intima entre os fenômenos transferências e o poder da palavra, que veio a constituir, tempos depois, a base do seu método. O autor afirma no artigo:
As palavras são um bom meio de provocar modificações mentais na pessoa a quem são dirigidas, e por isso já não soa enigmático afirmar que a mágica das palavras pode eliminar os sintomas de doenças, e especialmente daquelas que se fundam em estados mentais. (Freud, 1905, p. 279)
No mesmo período em que ele escreveu esse artigo, estava às voltas também com a hipnose, à qual se referiu como um “estranho e imprevisível método”. Seu interesse pela hipnose havia surgido alguns anos antes, quando estagiou com Charcot em Paris, momento em que foi confrontado diretamente com a clínica das histerias. Mas, logo, pôde observar as falhas do métodos e se sentiu convencido de que seria melhor abandonar a hipnose para dar início a um novo rumo para a sua clínica.
Sobre a técnica da hipnose, no entanto, Freud pode apreender, embrionariamente, o fenômeno da transferência, em que vislumbrou o aspecto da sugestão, acentuando a atitude do paciente hipnótico em relação ao hipnotizador. Ele declara que, embora o paciente se comporte como se estivesse dormindo para o mundo exterior, o mesmo se mantém desperto em relação à pessoa que o hipnotizou (p. 282).
Para Jorge, o que Freud salienta é que deve-se estabelecer uma boa relação de transferência no início do tratamento com o paciente, de modo a conquistar a sua confiança, deixando com que sua desconfiança e seu senso crítico se neutralizem (Jorge 2017, p. 23).
Jorge ainda sublinha o modo incisivo como Freud aborda o tema da sugestão, questionando o ponto nevrálgico da prática da hipnose, em que distingue a sugestão de outros tipos de influência psíquica. Freud também incide na ideia de que a sugestão não pode ser considerada apenas um fenômeno psíquico patológico, visto que pode ser produzida com frequência nas relações humanas. Assim, a questão da transferência e do amor transferencial começa a ser tocada e, mais tarde, a mesma o levou ao inconsciente.
A transferência vai se tornar um precioso conceito para a psicanálise, e Freud fez questão de distingui-la da sugestão hipnótica, pois, de fato, trata-se de outra coisa. A transferência traz à tona o inconsciente. No Esquema del psicoanálisis, texto de 1938, Freud declara que “o paciente nunca mais se esquecerá do que vivenciou nas formas da transferência, pois ela tem uma força de convencimento para ele maior do que qualquer outra coisa” (tradução livre, p. 177), o que não é o caso da hipnose, que suspende por um tempo a resistência, mas volta em seguida.
Assim, logo após abandonar de vez o método sugestivo da hipnose, Freud passa a empregar como princípio do seu tratamento a palavra. Lacan, descreve Jorge, reafirmou esse posicionamento ao dizer que o que especifica a psicanálise como prática é o fato de que o analista não utiliza o poder que a transferência lhe outorga (p. 28). Isso significa que é o paciente que certamente “dirige o tratamento” com a sua fala.
Desse modo, quando os cincos casos clínicos foram apresentados em Estudos sobre a histeria, algo sobre os métodos que vieram a fundamentar a prática da psicanálise já estava em processo de elaboração por Freud. Ana O., o primeiro caso apresentado, tratada por Breuer, foi quem nomeou o método de Talking Cure (cura pela fala). E, nos quatro casos seguintes que receberam tratamentos por Freud, é possível verificar uma crescente posição de escuta, como também de invocação da fala, pela qual Freud incita os seus pacientes a uma experiência de associação livre, método que se tornará a regra de ouro da psicanálise.
TEMA 2 – ASSOCIAÇÃO LIVRE
Laplanche e Pontalis, em Vocabulários da psicanálise (2001), definem a associação livre como um método que consiste em exprimir indiscriminadamente todos os pensamentos que ocorrem ao espírito, quer por meio de um elemento dado (palavra, número, imagem de um sonho, qualquer representação), quer de forma espontânea (p. 38).
Roudinesco (1998), em Dicionário de psicanálise, disponibiliza o conceito de associação livre no tema de regra fundamental, já deixando evidenciada a sua importância para a prática psicanalítica. Para a autora, a associação livre consta ser a regra constitutiva da situação psicanalítica, segundo a qual o paciente deve esforçar-se por dizer tudo o que lhe vier à cabeça, principalmente aquilo que se sentir tentado a omitir, seja por qual razão for (p. 649). A associação livre representa uma derivação do método catártico do período pré-psicanalítico. Freud também desenvolveu esse método por meio de sua autoanálise ao analisar os seus próprios sonhos, que serviram como ponto de partida para a descoberta das cadeias associativas.
A ação que funda a associação livre se acentua na “liberdade” do analisando falar o que lhe vier à mente mesmo sem fornecer nenhum ponto de partida. Contudo, Laplanche chama a atenção para o fato de que não se deve tomar a liberdade no sentido de uma indeterminação: “a regra de associação livre visa em primeiro lugar eliminar a seleção voluntária dos pensamentos”, ou seja, eliminar a censura para que, então, entre em cena o que está inconsciente.
Em sua autobiografia, Freud (1924) retorna à evolução do seu método e insiste na necessidade de se manter o respeito à regra fundamentalda psicanálise, visto que só por meio dela é possível fazer emergir as resistências e, consequentemente, dar a elas uma interpretação. Roudinesco sublinha o caráter irremediável da associação livre e evidencia também os seus limites. Para isso, cita um exposição feita por Ferenczi:
Todo o método psicanalítico se apoia na regra fundamental formulada por Freud [...]. sob nenhum pretexto devemos tolerar qualquer exceção a essa regra, e é preciso tirar a limpo, sem indulgência, tudo aquilo que o paciente, seja por que razão for, procurar subtrair a comunicação. Entretanto, depois de o paciente ter sido educado, não sem alguma dificuldade, para seguir essa regra ao pé da letra, pode suceder que sua resistência se apodere precisamente dessa regra e que ele vencer o médico com suas próprias armas. (Ferenczi, citado por Roundinesco, 1998, p. 650)
O efeito da regra fundamental, segundo Laplanche e Pontalis, não é dar livre curso ao processo primário puro e simples de abrir acesso às cadeias associativas inconscientes, mas sim favorecer a emergência de um tipo de comunicação em que o determinismo inconsciente é mais acessível pela elucidação de novas conexões ou lacunas significativas no discurso (Laplanche; Pontalis, 2001, p. 439).
A associação livre – regra fundamental da psicanálise – é colocada por Freud como via de acesso ao inconsciente no mesmo patamar que as interpretações dos sonhos e os atos falhos. Outras consequências que implicam o ato da associação livre foram enumeradas, também, por Laplanche e Pontalis:
1. Ao aceitar o convite de dizer tudo o que lhe vier à mente, apenas ao dizer suas emoções, impressões corporais e ideias, o sujeito tem suas recordações canalizadas para a linguagem. “A regra tem como corolário implícito fazer surgir como acting-out um certo campo do sujeito”;
2. A observância da regra põe em evidência a forma como derivam as associações e os “pontos nodais” em que se entrecruzam;
3. No próprio uso e efeito da regra, o analisante tem algumas resistências conscientes e inconscientes ao aplicá-la, de forma que ele recorre sistematicamente a disparates sem nexo ou tenta demostrar que ela é absurda.
Assim, para esses autores, além de ser uma técnica de investigação, a associação livre dá a estruturação do conjunto da relação analítica. Nesse sentido, ela pode ser tomada como fundamental. Portanto, os autores concluem que
a regra de dizer tudo não deve ser compreendida como um simples método entre outros para ter acesso ao inconsciente [...]. Ela está destinada a fazer surgir no discurso do analisando a dimensão de pedido dirigido a outro. Combinado com o não-agir do analista, leva o analisando a formular os seus pedidos sob diversas modalidades que para ele assumiram, em determinadas fases, um valor de linguagem. (Laplanche; Pontalis, 2001, p. 440)
No texto A direção do tratamento e os princípios de seu poder (1958), Lacan destacou que a regra fundamental da psicanálise encaminha o paciente a se confrontar com uma fala livre, cujo controle ele não detém, uma fala “plena” suscetível à verdade e, por isso, dolorosa.
TEMA 3 – ATENÇÃO FLUTUANTE
Ao lançar o analisante na experiência de deixá-lo falar o que lhe vier à mente, Bruce Fink (2020), em seu livro Fundamentos da técnica psicanalítica, supõe uma pergunta: o que a analista escuta? A atenção flutuante é o que possibilita ouvir o que é novo e diferente na fala do analisante. Freud recomendou que a cada novo caso, ele fosse tomado como o primeiro, o que significa não presumir nada do que possa ocorrer, desse modo, deve-se manter a “atenção uniformemente suspensa em face de tudo o que se escuta” (Freud, 1911, p. 125).
A atenção flutuante é oposta a se prender a uma determinada afirmação dada pelo paciente, tentando analisá-la profundamente ou associá-la a outra coisa, pois, quando isso ocorre, o analista acaba perdendo a continuidade da fala do paciente. Fink afirma que a atenção flutuante é uma atenção que compreende no mínimo um nível de significado e consegue ouvir todas as palavras e a maneira como são pronunciadas, incluindo velocidade, volume, entonação, emoção, deslize, hesitação e assim por diante (Fink, 2020, p. 28).
La Planche e Pontalis (2001), ao estabelecerem a definição da atenção flutuante seguindo as instruções de Freud, concluem que trata-se do modo como os analistas devem escutar seus analisandos, não devendo privilegiar a priori qualquer elemento do discurso deles, uma vez que isso implica deixar funcionar o mais livremente possível a própria atividade inconsciente, suspendendo as motivações que dirigem habitualmente sua atenção. Os autores destacam que essa recomendação aos analistas equivale à regra da associação livre proposta aos analisandos (Laplanche; Pontalis, 2001, p. 40).
Freud declara: “ele (referindo-se ao médico) deve simplesmente escutar e não se preocupar se está se lembrando de alguma coisa” (p. 126), e o que sucede a isso será suficiente para todas as exigências durante o tratamento. A atenção flutuante é a regra que, segundo Freud, vai permitir ao analista as conexões inconscientes do discurso do analisando. Por isso, é graças a ela que o analista consegue conservar na memória uma multidão de elementos aparentemente insignificantes, das quais suas correlações só poderão ser feitas num a posteriori.
Laplanche e Pontalis apontam para os problemas teóricos e práticos levantados pela atenção flutuante, que apresenta em seu próprio termo uma aparente contradição.
1. O fundamento teórico do conceito fica evidente quando encaramos a questão pelo lado do analisando: pois, para os autores, como as estruturas inconscientes, tais como Freud as descreveu, surgem de múltiplas deformações, cabe que os elementos mais importantes podem se esconder por detrás de elementos insignificantes. Dessa forma, a atenção flutuante deve ser adaptada de forma objetiva aos objetos essencialmente desformados;
2. Pelo lado do analista, a problemática da questão teórica da atenção flutuante é ainda mais difícil: é concebível que o analista tente suprimir a influência de seus preconceitos conscientes e de suas defesas inconscientes que poderiam exercer força contra a sua atenção. Freud preconiza que sejam eliminados o máximo possível por meio de sua analise didática, visto que todo recalque não liquidado tem ação sobre a percepção analítica. O que Freud almeja é uma comunicação de inconsciente a inconsciente.
De modo geral, anuncia Laplanche e Pontalis, é preciso compreender a regra da atenção flutuante como uma regra ideal, que, na prática, encontra exigências contraditórias. Em Lacan (1956), em seu texto Situação da psicanálise e formação do psicanalista, verificamos sua crítica aos analistas que se tornam obcecados em compreender todo o significado que seus pacientes dizem conscientemente, deixando passar os esquecimentos de seu discurso, o modo como usam as palavras e seus sons indistintos. Lacan diz ainda:
Nós repetimos a nossos alunos: “abstenham-se de compreender!” e deixem essa categoria nauseante para os senhores Jaspers e consortes. Que um de seus ouvidos ensurdeça, enquanto o outro deve ser aguçado. E é esse que vocês devem espichar na escuta dos sons ou fonemas, das palavras, locuções e frases, sem omitir as pausas, escansões, cortes, períodos e paralelismo, pois é aí que se prepara a literalidade da versão sem a qual a intuição analítica fica sem apoio e sem objeto. (Lacan, 1956, p. 474)
Assim, a história contada é uma das maiores armadilhas que pode prender os novos analistas. Fink ressalta que o importante para os pacientes, principalmente aqueles que estão no início da análise, é que o analista, assim como qualquer outra pessoa com quem conversem nas diversas situações da vida, alcance sua fala, compreenda o ponto de vista que eles tentam formar. Pois, o paciente dificilmente começará uma análise com o desejo explícito de que o analista ouça algo, no que ele está dizendo, que seja diferente do que em sua consciência ele esteja dizendo. Por outro lado, é importante que o analista se desabitue de escutar de formaconvencional e perceba que compreender a história ou o detalhe se torna menos importante que perceber o modo como é contada.
A atenção flutuante é uma regra – na verdade, uma disciplina – designada a nos ensinar a ouvir sem entender. Além do fato de que o entendimento geralmente leva o analista a se defrontar e a se concentrar, apresentando uma infinidade de fenômenos imaginários [..], frequentemente há muito pouco que pode ser entendido no discurso do paciente. (Fink, 2020, p. 30)
Por fim, lembremos que a escuta, cuja atenção é flutuante, também não significa que não venhamos a mostrar atenção e interesse ao que é dito pelos analisandos. Sugere-se que o analista desenvolva uma ampla gama de “hums” e “hãhs”, em diversos tons e intensidades.
TEMA 4 – ENTREVISTAS PRELIMINARES
O primeiro contato do paciente com o psicanalista não diz respeito à sua entrada em análise, pois essa confere um outro momento de grande valor para o processo analítico. As primeiras consultas convêm ser o que Lacan nomeou de entrevistas preliminares, em que o próprio nome dá algumas indicações do poder vir a ser feito, pois trata-se de um tempo anterior e, portanto, preliminar, no qual questões relacionadas ao tratamento devem ser respondidas ao candidato a analisante. Por parte do analista é a hora de fazer perguntas que possam ajudar a conhecer o sujeito que está em seu consultório, pois a entrevista preliminar impõe um limiar da porta de entrada para a análise, que se distingue da porta de entrada do consultório, sendo assim, todas as dúvidas devem ser tiradas na entrevista preliminar.
Freud (1912), em seu texto Sobre o início do tratamento, declarou ter por hábito a prática de, antes de iniciar o tratamento psicanalítico propriamente dito, começar por um “tratamento experimental” (ou de ensaio). Esse tratamento experimental teria uma duração de uma a duas semanas e serviria para evitar a interrupção da análise após um certo tempo.
O propósito desse tratamento experimental seria ligar o paciente ao seu tratamento e à pessoa do analista. Mas, em particular, o principal objetivo almejado é traçar um diagnóstico diferenciado (p. 140). As elucubrações das entrevistas preliminares propostas por Lacan correspondem ao tratamento experimental de Freud. Na obra As 4+1 condições de análise, de Antonio Quinet (1991), podemos encontrar uma boa explanação, assim, a tomaremos por referência para seguirmos no tema.
4.1 CONDIÇÃO DE ANÁLISE
As entrevistas preliminares são uma ferramenta do analista para promover uma transferência entre o analisando e sua pessoa, além de dar elementos para poder estabelecer um diagnóstico. As dúvidas sobre esse início do tratamento são recorrentes entre os iniciantes da psicanálise, visto que a entrada em análise não implica uma continuidade dela, mas sim uma descontinuidade, “um corte em relação ao que era anterior e preliminar [...]. Esse preambulo a toda psicanálise é erigido por Lacan em posição de condição absoluta: ‘não há entrada em análise sem as entrevistas preliminares’” (Quinet, 1991, p. 14).
No entanto, na prática nem sempre é possível demarcar nitidamente esse umbral da análise, visto que o que está em jogo, tanto nas entrevistas preliminares quanto na própria analise, é a associação livre, estabelecida desde Freud, pelo qual declarou:
Esse experimento preliminar, contudo, é, ele próprio, o início de uma psicanálise e deve conformar-se às regras desta. Pode-se talvez fazer a distinção de que, nele, se deixa o paciente falar quase todo o tempo e não se explica nada mais do que o absolutamente necessário para fazê-lo prosseguir no que está dizendo. (Freud 1912, p. 140)
Dessa forma, Freud deixa indicado aos analistas a tarefa de apenas realçar o discurso do paciente para que entre em cena a questão diagnóstica. Quinet vai dizer que as entrevistas preliminares têm a mesma estrutura da análise, mas são distintas, de modo que seus paradoxos podem ser escritos da seguinte forma:
EP = A ↔ EP ≠ A
Lê-se: entrevistas preliminares são iguais à análise, implicando que entrevistas preliminares são diferentes da análise. Disso se conclui:
1. A associação livre mantém a identificação das entrevistas preliminares com a análise (EP=A);
2. Esse tempo de diagnóstico faz com que se distinga entrevistas preliminares da análise (EP ≠ A).
É nesse ponto que Quinet situa a questão ética do analista de tomar a decisão de aceitar ou não aquela demanda de análise. Para a análise se desencadear, é necessário, além da escolha pelo analista, uma escolha também por parte do analista. Na constituição dessa dupla escolha, o sujeito será impelido a elaborar a sua demanda de análise, ou seja, na produção do seu sintoma, dito de outro modo, acreditar no inconsciente. Com base no que foi exposto, Quinet acrescenta três funções das entrevistas preliminares, cuja distribuição é antes lógica do que cronológica:
1. A função sintomal (sinto-mal): a queixa do sujeito que busca análise por conta de um sintoma (o sinto-mal) deve ser transformada em uma demanda endereçada àquele analista. Assim, passa-se de um sintoma com estatuto de resposta ao estatuto de questão para o sujeito, pelo qual se sente instigado a decifrar. A constituição do sintoma analítico é correlato ao estabelecimento da transferência que faz emergir o sujeito do “suposto saber”;
2. A função diagnóstica: essa se coloca para a psicanálise como função na direção do tratamento, sendo que ele só pode ser buscado no registro simbólico, em que são articuladas as questões fundamentais do sujeito (sexo, morte, procriação, paternidade), constituindo a travessia do complexo de Édipo, cujo efeito indica as estruturas de neurose, perversão e psicose. “Dado que o analista será convocado a ocupar na transferência o lugar do Outro do sujeito a quem são dirigidas suas demandas, é importante destacar nesse trabalho prévio a modalidade da relação do sujeito com o Outro” (Quinet, 1991, p. 23);
3. A função transferencial: o surgimento do sujeito sob transferência é o que dá sinal de entrada em análise, de modo que esse sujeito é vinculado ao saber. A exemplo, Quinet toma a paciente de Freud, Frau Emmy von N., quando ela pede para que Freud se cale para que a deixe falar. Há para ela um saber, em seu próprio dito, momento a partir do qual podemos situar o início de uma análise, visto que a paciente reconhece um saber, o qual acredita que seu analista sabe sobre o seu sintoma, ou seja, acredita num suposto saber, sendo essa subjetividade correlata ao saber que constitui a transferência. Desse modo, Quinet afirma que a transferência não é uma função do analista, mas do analisante. A função do analista é saber utilizá-la (Quinet, 1991, p. 26).
TEMA 5 – O DINHEIRO EM PSICANÁLISE
A questão do dinheiro em psicanálise é de muita relevância, pois se refere à quantidade de libido investido. Para Freud, a libido é a energia dinâmica na vida psíquica da pulsão sexual, da qual não se tem uma representação no inconsciente, pois ela se presentifica como energia de grandeza quantitativa.
Quinet (1991) demonstra da seguinte forma:
No esquema apresentado, verificamos que no inconsciente só se encontram os representantes representativos da pulsão, ou seja, aquilo que é da ordem do significante, pelo qual Lacan escreveu o matema da pulsão ($ ◊ D), em que D se refere aos significantes da demanda oral, anal etc. Já a libido não tem representação, ela é uma grandeza quantitativa, sendo apreendida pelas suas manifestações dinâmicas – a satisfação.
A libido, diz Quinet, é o que se satisfaz no sintoma, constituindo sua resistência sob dois aspectos: resistência ao deciframento e resistência do sujeito a abandonar o seu sintoma, o gozo do sintoma (Quinet, 1991, p. 76). O autor conclui sobre o aspecto do dinheiro:
O dinheiro na análise encontra-se exatamente nessa conjunção entre o que é da ordem do ciframento e o que é da ordem dessa energia quantificável que tem valor inestimável para o sujeito e que Freud designou como libido. Assim, o dinheiro pode permitir amoedar esse capital do sujeito que é a libido. Se o queé da ordem do ciframento pode equivaler, no nível inconsciente, à própria cifra (montante das operações comerciais), podemos fazer um paralelo e dizer que, na análise, a cifra, assim como o cifrão, vem representar o montante das operações libidinais. (Quinet, 1991, p. 76-77)
Nesse sentido, o dinheiro é também o suporte material de uma inscrição simbólica – o valor. Assim, no discurso da psicanálise, no próprio estatuto do inconsciente, sem o capital e a prática que ele instaura não teria sido possível a fundação da psicanálise.
5.1 O VALOR COBRADO NA SESSÃO
Quanto aos acordos de dinheiro, no texto Sobre o início do tratamento (1912), Freud diz que
um analista não discute que o dinheiro deve ser considerado, em primeira instância, como meio de autopreservação e de obtenção de poder, mas sustenta que, ao lado disso, poderosos fatores sexuais acham-se envolvidos no valor que lhe é atribuído. (Freud, 1912, p. 146)
Com base no que Freud afirmou, Quinet situa dinheiro em cinco funções:
1. A ordem da necessidade, é preciso ter dinheiro para viver;
2. Um símbolo fálico, isto é, o dinheiro escamoteia a falta, ou seja, escamoteia a castração;
3. O dinheiro é da ordem da demanda e não do amor, visto que amor é dar o que não se tem, quando se dar dinheiro sem tê-lo se demanda amor, assim, o dinheiro entra aqui como um dos objetos que podem ser pedidos: objeto da demanda que adquire um valor que transmite o sinal de amor;
4. No nível do desejo, o dinheiro se inscreve para o sujeito como significante em sua cadeia associativa. Se para a necessidade existe um objeto de satisfação (fome-comida), no ser falante a significação da necessidade e sua articulação com a pulsão faz do objeto específico um objeto perdido e sempre buscado pelo desejo constante e indestrutível. A quantidade de dinheiro não paga a falta simbólica;
5. O gozo do dinheiro é o que designa a libidinização do capital no ser falante – o fator sexual da ordem da pulsão.
5.2 A QUESTÃO DO DINHEIRO E O SEXUAL
Freud (1912) enfatiza que dinheiro e sexo dividem o sujeito, pelo qual nunca haverá uma resposta para todos, pois elas são individuais. No entanto, o analista não deve tratar com a questão do dinheiro com a mesma hipocrisia e pudor. Ao contrário disso, sua atitude com o paciente deve ser com a mesma franqueza natural com a qual deseja educá-lo sobre as questões relativas à vida sexual, rejeitando a falsa vergonha sobre o assunto quando lhe cobra o preço do seu tempo (Freud, 1912, p. 146).
O analista se vende como objeto que tem valor inicialmente contabilizado: X por sessão. Assim, o analista se torna um objeto libidinalmente investido e amoedado com seu dinheiro. A análise só pode ser feita por um total investimento, pois nada pode ficar de fora da análise.
O sujeito vem prestar conta do seus crimes e, para tal, ele paga com dinheiro, explica Quinet (1991), sendo essa a única maneira de colocar em movimento a dívida simbólica, dívida essa que o sujeito paga pela entrada no simbólico (p. 92). Pelo lado do analista, ao fazer pagar, ele mostra que não está ali por amor, por sacrifício, para gozar das histórias de seus pacientes ou porque se interessa pelo sujeito como objeto, mas sim para ser o depositário das histórias de alto valor do sujeito. Além disso, o preço pago tem a função ainda mais precisa de não dever nada a alguém (Quinet, 1991, p. 93).
NA PRÁTICA
Os artigos técnicos escritos por Freud trazem até os dias de hoje todos os métodos de operação da clínica psicanalítica, no entanto, vale a ressalva: não se trata de fórmulas rígidas e métodos de aplicação, mas dizem respeito a orientações sobre a prática que se compreende como psicanálise em extensão, ou seja, o estudo isolado dela não implica formação do psicanalista, visto que o valor da psicanálise é na sua intenção, isto é, a psicanálise pura na sua experiência analítica. O tripé da formação – análise pessoal, estudo e supervisão é que capacita o sujeito a se apropriar do seu lugar como analista.
Ao observarmos, desde o início, o percurso de Freud com as histerias que deram o nome ao método Talking Cure e, depois, verificarmos o seu interesse pelas histórias de seus pacientes, ao ponto de se colocar na escuta do que lhes viesse à mente pelo método livre de associação até chegar ao mais íntimo do ser – o inconsciente –, podemos concluir que o método fundamental da psicanálise nos convoca a uma permanente revisão de sua prática, visto que ela caminha com o sujeito em seu tempo.
É importante ressaltar que o analista que ainda não consegue viver de seu oficio deve procurar outros meios de ganhar dinheiro, pois em hipótese alguma ele deve ficar na mão do analisante ou ter receio de dizer algo por medo de afastá-lo de sua análise. As questões econômicas do analista devem ficar de fora da sessão.
FINALIZANDO
Nesta etapa, vimos os conceitos:
· Talking Cure: um método descoberto pela paciente;
· Associação livre: método que desloca a fala até um outro lugar, muito além da intenção consciente de comunicar algo, pois ao falar, o sujeito comunica muito mais que aquilo a que inicialmente se propôs;
· Atenção flutuante: consiste na maneira pela qual o analista deve escutar o analisando, não privilegiando a priori qualquer elemento do discurso;
· Entrevistas preliminares: momento de conhecer o candidato à análise e firmar o contrato simbólico do tratamento;
· O dinheiro na psicanálise: não se poupe o analista sobre essa questão.
MÉTODO PSICANALÍTICO
AULA 4
TEMA 1 – A DINÂMICA DA TRANSFERÊNCIA  
Como vimos anteriormente, as entrevistas preliminares são um “portal” para a entrada em análise. Freud mencionou que a duração desses “tratamentos experimentais” podia ser de uma até duas semanas, mas é importante lembrar que em sua época, as consultas aconteciam cinco vezes por semana, diferente da nossa realidade – em que as consultas raramente ocorrem mais de uma vez por semana. Sendo assim, a duração das entrevistas preliminares, que antecede a entrada em análise, pode ter um tempo maior de espera. De todo modo, o objetivo é que, passado esse tempo, ela cumpra a função de estabelecer uma “transferência operativa”, ou seja, uma transferência na qual o analista esteja permitido a intervir por meio da interpretação. Antes disso, qualquer tentativa por parte do analista poder adquirir um aspecto invasor, ou sem efeito algum. Assim, é necessária a observação de uma primeira transferência para dar uma interpretação.
A transferência é dita por Freud como o motor de uma análise. A transferência, diz Coutinho Jorge em Fundamentos da Psicanálise, é a única forma do inconsciente se presentificar de modo sistemático na análise, e não apenas pontualmente, como também na formação da vida cotidiana (lapso, ato falho e chistes) (p. 156) .
Freud (1912), em A Dinâmica da Transferência, distinguia duas atitudes básicas do analisando em relação ao tratamento: de um lado, a cooperação, e de outro, a resistência. Estas atitudes, que se contrapõem entre si, receberam o nome de transferência positiva, constituída de amor e ternura e, respectivamente, transferência negativa, vetor de sentimentos hostis e agressivos.
Já sob o olhar de Roudinesco, em seu Dicionário de Psicanálise (1998), a transferência é designada como um processo constitutivo do tratamento psicanalítico mediante o qual os desejos inconscientes do analisando, concernentes a objetos externos, passam a ser repetir no âmbito da relação analítica, na pessoa do analista, colocado na posição desses diversos objetos. (p. 766-767). E Lacan (1964), finalmente, no Seminário 11, reconhece o conceito da transferência com sendo um dos quatro conceitos fundamentais da psicanálise, pois trata-se de uma operação pela qual o inconsciente se atualiza na realidade.
1.1 RECONHECENDO A TRANSFERÊNCIA
O termo Übertragung foi introduzido na literatura psicanalítica por Freud e traduzido por “transferência” – o que, segundo o autor, diz respeito aos sentimentos deslocados na direção do analista. No entanto, dada a sua presteza, Freud pode observar que não se tratava apenasda situação produzida no tratamento, mas que a origem desses afetos emergia de outro lugar e que, na verdade, o que surgia em análise era uma “nova edição” ou cópias idênticas dos impulsos e fantasias que substituem uma pessoa por aquela que ocupa o lugar do analista, ou seja, as experiências vividas no passado são revividas e deslocadas para a pessoa do analista, no momento presente. 
Fink (2017) em Fundamentos da Técnica Psicanalítica, delimita as formas como as transferências, ditas na sua literalidade como uma transposição, podem surgir em análise:
· Em nível perceptível – seja visual, auditivo, olfativo, tátil ou outro sentido. Ou seja, é algum aspecto do analista que faz com que o paciente se lembre de um de seus pais (ou de qualquer outra pessoa importante de seu passado), tais como o som de voz, a cor dos olhos, cabelo ou pele, gestos, forma de se cumprimentar e assim por diante.  Não é que realmente haja alguma dessas características no analista, mas o que ocorre é uma projeção no analista de algo preso em algum momento do ente querido do paciente, que passa a ser associado. O paciente vê seu analista como se fosse um registro perceptivo.
· Característica “codificada” – a companhia ou o próprio ambiente faz com que o paciente se lembre de um de seus pais (ou de qualquer outra pessoa importante de seu passado), tais como idade, jeito de se vestir, maquiagem ou acessório, o vocabulário usado, o modo de falar ( que pode indicar classe social ou aspiração social, região ou país), localização do consultório, decoração, etc. Todos esses aspectos, envolvendo sinais de  um tipo ou de outro, produzem no imaginário do paciente uma livre interpretação que pode promover a transferência.
· Expressão de emoção por parte do analista – todas as emoções detectáveis podem ser associadas pelo paciente como vista em outras pessoas  do seu passado e são colocadas sob o título de efeitos afetivos, envolvendo a libido. “Na verdade, a analista não precisa sentir ou manifestar qualquer emoção para o paciente “perceber” uma determinada emoção que venha dela: em vários casos o paciente projeta na analista, emoções que percebia em sua mãe – emoções que o perturbaram e com as quais ele ainda luta” (p. 216).
Mas o conceito da transferência em análise é bem mais do que tudo isso, é preciso um reconhecimento maior desse conceito para não nos equivocarmos e acreditarmos que qualquer sentimento do paciente seja o de transferência.
Pois bem, um sentimento só pode existir se consciente, ou seja, se ele for inconsciente, não é, em sentido estrito, um sentimento, pois o sentimento só pode ser quando sentido. No entanto, aspectos reprimidos podem criar posturas contrárias ao que ele perceba, - portanto, quanto maior a resistência, mais extensiva a atuação.
No texto Recordar, repetir e elaborar (1914), Freud traz novas recomendações sobre essa técnica, quando diz que a transferência é, ela própria, apenas um fragmento da repetição e que a repetição é uma “transferência do passado esquecido”, não apenas para o médico, mas também para todos os outros aspectos da situação atual. (p. 166)
 Desse modo, a transferência pode envolver uma repetição de alta complexidade, na qual se reflete toda a estrutura familiar nas sessões de análise, não se restringindo apenas ao sentimento dirigido ao analista, mas podendo se estender a uma passagem traumática da vida do paciente – e com a qual o setting analítico se torna um palco para a “encenação”.
1.2 A CONTRATRANSFERÊNCIA
A contratransferência refere-se a uma dimensão fundamental do modo como o analista se coloca diante do paciente e se deixa ser por ele afetado. Dito de outro modo, é a forma como o analista responde à transferência. Nesse aspecto, a contratransferência se inclui também na dinâmica do trabalho analítico.
Para pensar nessa modalidade, Luís Claudio Figueiredo, em Elementos para a clínica contemporânea (2018), diz que a contratransferência primordial configura-se como um “deixar-se colocar” diante do sofrimento antes mesmo de se saber do que e de quem se trata, sendo essa, justamente, a disponibilidade humana para funcionar como suporte da transferência, de modo que “todo psicanalisar, no que implica lidar com as transferências – e as outras coisinhas mais, que emergem e podem ser tratadas nesses processos – dependem, portanto, dessa contratransferência primordial” (p. 132).
Para Lacan, em comentário de Roudinesco (1998), a ideia de contratransferência é desprovida de objetivo, ou seja, se torna apenas um impasse para o processo analítico, visto que não designa nada além dos efeitos da transferência que atingem o desejo do analista, não como pessoa, mas como alguém que é colocado no lugar do Outro pela fala do analisando. Lacan vai dizer, portanto, que não é necessário fazer intervir a contratransferência, como se ela fosse algo que constituísse a parte própria e, muito mais do que isso, a parte falha do analista (p. 134).
TEMA 2 – A INTERPRETAÇÃO  
A transferência e a interpretação andam lado a lado na situação analítica. Freud recomendou que o analista só interpretasse após o aparecimento da transferência, já Lacan apontou para uma via aparentemente oposta, na qual a interpretação é o que, de fato, instaura a transferência.
Coutinho Jorge (2017) destaca que, para Lacan, é na medida em que o analisando se perceba sendo escutado, enquanto sujeito, que emerge a dimensão do sujeito de suposto saber, sendo essa a mola essencial para a transferência (p. 156).
Dessa forma, é essencialmente a posição do psicanalista que permite que se instaure a transferência, por meio do modo que ele acolhe a demanda do analisando e recebe a fala do seu sofrimento. Sendo que é do desdobramento da fala do analisando e de sua interpretação que pode advir uma possível consolidação da transferência. 
A interpretação está no cerne da teoria e da técnica freudiana. O primeiro modelo de interpretação foi apresentado através do sonho, onde ele destacou o simbolismo singular da pessoa. A formulação de Freud a respeito da interpretação, nesse ponto, é a seguinte:
A. É a partir do relato do sonho de quem sonhou que se constitui a interpretação (o conteúdo manifesto do sonho).
B. As associações livres conduzem para o sentido do sonho (o conteúdo latente).
C. A interpretação visa lançar luz sobre o desejo inconsciente que no sonho se realiza.
Na psicanálise, o sentido técnico da interpretação está desde sua origem, na Interpretação do sonho, e aplica-se a toda produção inconsciente que no discurso e comportamento surge como uma marca defensiva.   
2.1 O QUE SE INTERPRETA?
Laplanche e Pontalis, em Vocabulário de Psicanálise (2001), discorrem sobre dois pontos da interpretação (p. 245):
A. Destaque para a investigação analítica do sentido latente nas palavras e nos comportamentos de um sujeito. A interpretação traz à luz as modalidades do conflito defensivo e, em última análise, tem em vista o desejo inconsciente.
B. No tratamento, a comunicação feita ao sujeito, visando dar-lhe acesso à esse sentido latente, segundo as regras determinadas pela direção do tratamento.
Portanto, o objetivo da interpretação é trazer um modelo inconsciente para a atenção do paciente, cuja finalidade é fazer com ele reconheça o seu funcionamento e possa, no futuro, deter-se antes de repetir um comportamento compulsivo da repetição inconsciente.
Bruce Fink (2017) declara que no setting analítico a interpretação que visa amarrar um único significado tende a fazer com que o paciente pare de falar, em um certo sentido, interrompendo o fluxo de suas associações, ou seja, acaba fechando portas ao invés de abrir. “Resumindo, alguém pode dizer que o pensamento do paciente (ou seu ego) recristaliza em torno das interpretações facilmente apreensíveis, ao passo que o objetivo do trabalho psicanalítico com neuróticos seja frustrar tais cristalizações” (p. 140).
A dimensão do trabalho analítico no que tange a interpretação, pode ser equacionada pela seguinte fórmula: o psicanalista sabe que o sujeito sabe, sem saber que sabe.
Coutinho Jorge (2017)indica que enquanto o analisando se situa, de início, numa relação dual, num eixo imaginário, o analista deve tomar a relação analítica no seu conjunto ternário, onde inclui o Outro (o inconsciente). Tais etapas da relação analítica são representadas pelo autor da seguinte forma:
Quadro 1 – Etapas de relação analítica
Fonte: Elaborado com base em Coutinho Jorge, 2017.
No primeiro quadro, o analisando se dirige ao analista como sujeito do suposto saber, estabelecendo a raiz do vetor transferencial. O segundo quadro, o que especifica a posição do analista, diz o autor, é o fato do analista não responder desde esse lugar, pois ele não está identificado com o sujeito que sabe, mas sim de semblante do objeto a causa de desejo.
No terceiro quadro observa-se o analista por sua posição de escuta, que aciona a fala do analisando pela associação livre, indicando assim, o lugar terceiro – o inconsciente. O efeito desse acionamento é visto no quarto quadro, onde a interpretação surge do lugar do Outro, o saber inconsciente.
TEMA 3 – A FUNÇÃO DO DIVÃ
“Das entrevistas preliminares à conquista do divã” – foi dessa forma que Lacan passou a tratar o divã, como uma “conquista” em análise para os neuróticos, onde se deixa a posição de “face a face” com o analista, para deitar-se no divã.
Nos ensinos de Lacan, o divã é uma condição que marca o fim das entrevistas preliminares e pontua a entrada em análise. Quinet (1991) se questiona se o ato de deitar o paciente no divã trata-se apenas de procedimento técnico. O autor definiu que o divã tem um “fundamento ético” que orienta a sua técnica e, por seu turno, Lacan buscou esse fundamento ao promulgar o retorno a Freud.
O uso do divã foi uma insistência de Freud trazida do método de hipnose. No texto Sobre o Início do Tratamento (1912) ele enuncia diversas razões para se manter o divã. O primeiro motivo foi para evitar ser olhado pelo paciente. Além de ter seus próprios motivos para isso, ele explica que as expressões faciais do analista não deveriam fornecer elementos a serem interpretados pelo analisando quee pudessem influenciar na direção de sua fala. Freud ainda diz que mesmo que o paciente se sinta incomodado com essa posição, isso não deve ser negociado, visto que ela também tem o objetivo de impedir que a transferência se misture imperceptivelmente às associações do paciente.
Antonio Quinet declara, então, que a principal razão do divã na análise deve-se à estrutura da transferência. Trata-se de uma tática, cujo objetivo é dissolver a pregnância do imaginário da transferência, para que o analista possa distingui-la no momento de sua pura emergência nos dizeres do analisando. (p.39)
O analista por trás do divã ocupa o lugar da invisibilidade, na medida em que seu ato surge como real e não atuação. Dessa forma a indicação ao divã na entrada em análise tem o estatuto de ato analítico que produz em cada análise o ínicio da psicanálise.
Quinet, seguindo as orientações lacanianas, expõe o campo da visão no campo do engodo do desejo, na medida em que ele é protegido pela imagem [i(a)]. O olho institui, na relação do sujeito com o outro imaginário, o desconhecimento de que sob esse desejável há um desejante. O “desejo do analista”, enquanto função, deve ir contra esse desconhecimento e fazer surgir para o analisante a interrogação sobre sua própria posição em relação ao desejo do Outro (p. 39).
Assim, pela função de se deitar no divã, o analisante é levado a deixar a imagem do outro i(a), que representa a persona do analista, dando lugar ao ideal do Outro I(A). Sendo, portanto, este procedimento, um meio de esvaziar o imaginário e ir contra o desconhecimento do eu, fazendo, por fim, emergir o discurso do Outro.
Por último, Quinet sublinha que para não fazer do divã um uso padrão, é necessário aprender as particularidades de cada caso, assim como qualquer outro aspecto da experiência analítica.
TEMA 4 – O TEMPO DE ANÁLISE
Para o tempo, nos deparamos com duas vertentes: o tempo de duração da análise, onde o que entra em cena é o final da análise e o tornar-se psicanalista; e o tempo de duração de cada sessão, sendo essa, para os que seguem as orientações lacanianas, a que mais causa embates no meio psicanalítico e no campo das psicologias.
Quinet (1991) enumerou cinco proposições, extraídas dos ensinos de Lacan, para demonstrar a ressignificação da experiência psicanalítica após a introdução da questão do “tempo lógico”. Em seu texto Que tempo para a análise? as proposições são listadas como:
· 1ª proposição – O tempo em psicanálise deve corresponder à estrutura do campo freudiano. Isso significa que o tempo não pode ser algo meramente técnico ou empírico, mas deve responder aos conceitos fundamentais da psicanálise.
· 2ª proposição – As sessões sem tempo determinado se estabelecem num plano que não é o da burocracia e sim o da lógica do inconsciente e da ética da psicanálise. Assim, somos conduzidos pela própria transferência que é o conceito mesmo da análise, porque é o tempo da análise.
· 3ª proposição – As sessões psicanalíticas sem tempo determinado encontram sua lógica em duas definições distintas de estrutura, que implicam dois aspectos do sujeito:
· A estrutura do campo psicanalítico é equivalente à estrutura da linguagem. O sujeito é definido a partir de sua determinação pelo significante, definição essa correlata à formulação do inconsciente estruturado como uma linguagem.
· A estrutura não é apenas definida pela linguagem, visto que a estrutura não é toda feita de linguagem, mas contém o objeto a, real, exterior à linguagem e que está fora do significante. Trata-se, aqui, da estrutura do ato psicanalítico, ato fundamentado por Lacan, a partir de uma estrutura paradoxal em que o objeto seja ativo e o sujeito subvertido (a → $).
· 4ª proposição – O tempo em análise deve ir contra o tempo do neurótico.
· 5ª proposição – O tempo da sessão deve incluir em si mesmo e a cada sessão a finitude da análise. Assim, cada sessão de análise contém o final da análise.
Partindo do entendimento dessas proposições, Lacan rompeu com a tradição psicanalítica, que estabelecia a regra das sessões com tempo determinado de 50 minutos, e insere as “sessões curtas”, nas quais o que se é evocado é a experiência analítica na função da fala e no campo de linguagem.
4.1 SESSÃO CURTA – TEMPO LÓGICO
O tempo das sessões foi proposto por Freud em seus Artigos sobre Técnica (1912), texto no qual ele assinalou que trabalhava com seus pacientes seis vezes por semana, interrompendo os atendimentos nos fins de semana, e disponibilizava a eles uma hora por dia (p. 51). E, muito embora Freud não tenha estabelecido uma rigidez em relação a isso, a duração das sessões foi padronizada pela IPA, que convencionou que as sessões deviam ocorrer mínimo três vezes por semana e tivessem cinquenta minutos de duração, sem dar nenhuma justificativa para tal adoção.
Lacan se opôs enfaticamente a esse conjunto de convenções e propôs que os analistas se orientassem apenas pela fala dos seus analisantes para conduzir o tempo de análise. Para época, a declaração de sessão orientada pelo tempo do inconsciente pareceu um escarnio.
No entanto, Lacan não renunciou às sessões curtas, visto que, para ele, o inconsciente tem estrutura de linguagem, então caberia ao analista pontuar na fala do analisante aquilo que evocaria o inconsciente, transformando um discurso comum em manifestação do inconsciente. Ou seja, essa técnica se colocava em oposição a técnica que, até então, era a empregada pelos psicanalistas, em que o objetivo era tornar consciente aquilo que estava inconsciente – e que, para isso, não se abstinha de dar interpretação. 
4.2 A PONTUAÇÃO
Lacan esclarece que a suspensão da sessão deve obedecer não ao tempo do relógio, mas, sim, à trama do discurso do analisando. Para isso, ele evidencia um esquema de comunicação que diz respeito não só a análise, mas também a experiência comum do dia a dia.
O esquema de comunicação que Lacan evidenciou corresponde ao entendimento freudiano de “posteriori”, no qual, só num depoisque uma frase seja terminada é que se entenderá o seu sentido. Quinet explica desse modo: “se eu disser ‘agora vou’, ninguém entenderá”. Mas quando ele diz a frase inteira: “agora vou ao quadro escrever o que estou dizendo”, nesse momento o “agora vou” fará sentido. Portanto, se uma frase é considerada uma cadeia de significantes, só conseguiremos entender o seu sentido inicial por meio de uma retroação, ou seja, só após uma frase terminada é que se pode entender o seu sentido (p. 52).
Esse esquema de retroação é fundamental na psicanálise, pois corresponde ao esquema da constituição do trauma. Para que haja trauma são necessários dois tempos. Se tomarmos o trauma por excelência, o da castração, teremos: no primeiro momento, quando da masturbação infantil, o menino ouve ameaças reais de castração. Essas falas provocarão angústia quando o menino se defrontar à falta de pênis na mulher (da mãe), ou seja, quando se defronta com a  castração do Outro. O efeito de ameaça adquire seu sentido nesse processo de retroação, em que a primeira experiência será ressignificada.
Para exemplo, pensemos num individuo que chega em análise com pontos enigmáticos em sua história, de tal forma condensados que apontam para determinado gozo que sempre retorna em seu discurso. Esse ponto enigmático e pleno de sentido, surge para o individuo de forma completamente irracional, mas na medida em que o analista aponte para o esquecimento de algo, ou dê ênfase a uma palavra, ou interprete algo de sua fala, faz com que a frase que vinha numa cadeia de significantes retroaja, permitindo novas ressignificações. Quinet apresenta-nos um gráfico:
Gráfico 1 - Retroação
Fonte: Elaborado com base em Quinet, 1991.
O corte em sessão tem para Lacan o mesmo valor: “é por isso que a suspensão da sessão [...] desempenha aí o papel de uma escansão que tem todo o valor de uma intervenção, precipitando os momentos conclusivos” (Lacan 1953, p. 253). Isto é, não podemos ser indiferentes à trama do discurso do sujeito em detrimento puramente cronológico.
TEMA 5 – A ESCUTA CLÍNICA   
“Que se diga fica esquecido detrás do que se diz no que se ouve.” Essa declaração feita por Lacan no seminário 20 (1972-73) pode ser desdobrada em várias vertentes, mas, para início, tomemos a primeira delegação aos psicanalistas – ouça o seu paciente. 
O psicanalista, ao se colocar como ouvinte, ouve a dor, o mal-estar, a queixa do sintoma e tudo que apareça no campo da fala, e através do seu acolhimento e pontuações, todas essas queixas são transformadas em uma demanda de análise.
Agora, nesse percurso de análise, o que surgirá pela frente? De fato, é a escuta do psicanalista que dará norte a essa caminhada, e se foi através do princípio de prazer que Freud regulou o psiquismo, Lacan soube extrair as consequências lógicas dessa trama e desbravou o campo do gozo, para além do princípio de prazer. Assim, o que se segue a partir da entrada em análise, é a “travessia do rochedo” da castração.
Dominique Fingermann e Mauro Mendes Dias confluem, no livro Por causa do pior (2005), as exigências lógica, ética e clínica propostas por Lacan ao incluir o campo do gozo na escuta clínica (p. 44):
1. No ponto de origem do sujeito, dizem os autores, há um trauma, uma incompatibilidade: castração, impasse, spaltung, divisão.
2. Inibição, sintoma, angústia, repetição, obsessão, conversão, depressão, pânico, pesadelo, estranheza, culpa, masoquismo etc., testemunham essa dimensão no mundo e na clínica.
3. Diversos destinos e avatares dessa causa comum indicam que é possível haver transformação e remanejamentos. A psicanálise propõe-se a explorar as condições de tratamento da causa do pior/ gozo: analisar, descolar, desmontar, demonstrar, esvaziar, matemizar, poetizar, inverter, retroverter, subverter, sublimar, enlaçar.
A psicanálise ao acolher o sujeito e sua dor singular, ela também se coloca a escuta do modo como o sujeito trata a impossibilidade. E de certo, há infinitas formas. E sobre todas essas formas possíveis, todos sofrem com algo que dizem aos berros ou sussurros: “tem algo em mim que é mais forte do que eu”[1], dão vários nomes a essa “coisa”. Na psicanálise, Freud nomeou de isso, ou pulsão de morte e ainda sobre conotação de unheimlich, um estranho íntimo, que não cabe no eu, no Ideal e nem na lei.
Fingermann e Dias expõem que Lacan, ao interpretar Freud, colocou a experiência analítica à altura do Pior/gozo e não mais ao nível do Pai. “O Pai é o que dá sentido às coisas; a experiência da psicanálise trata do sem sentido da Coisa” (p. 46). Assim:
O sofrimento do sintoma testemunha a verdade esquecida, a essência nunca ocorrida, foracluída, que retorna no real do corpo, da vida ou dos pensamentos. O sintoma, na repetição lancinante de seu tormento, insiste como eco que dá presença ao oco que dá substância, ao vazio da identidade, insiste como se quisesse dizer alguma coisa.
É, então, desde a ausência de sentido que se pode ouvir o que atormenta e obtém a consistência do sintoma, e se configura como uma queixa tentando dizer alguma coisa, foi dessa conjugação entre sintoma e demanda que Freud respondeu com a invenção da psicanálise.
NA PRÁTICA
Os conceitos de transferência e interpretação são elementos extremamente orgânicos que cabem muito mais no campo da experimentação do que em conceitos teóricos. É de fato na experiência analítica que se pode dimensionar o modo como cada um se presentifica uma do lado do analisante e outra do lado do analista que responde com a interpretação.
A escuta por sua vez, embora seja muito enfatizada no campo psicanalítico, não se engane, os bons ouvintes são escassos e existem vários fatores para isso, inclusive razões estruturais, pois o que nosso narcisismo gosta de ouvir mesmo é sobre nós mesmo, portanto, só através da análise pessoal que podemos reduzir essa dimensão imaginaria, que constitui o campo do narcisismo para podermos ouvir de fato a alteridade do outro.
Outro fator importantíssimo de lembrarmos para a nossa prática é que a lógica capitalista - tempo e dinheiro - não deve ser confundida com o princípio de realidade, mas pode haver outra relação possível para isso, por isso a lógica do tempo da psicanálise é transferencial e deve ser buscada no discurso do sujeito.
Por exemplo, um analisando que, após algumas sessões, de muitas associações que o fizeram entrar em contato com a sua dor, subitamente tem uma melhora. Chega na análise dizendo que está ótima, que a analista é maravilhosa e que não tem nada a dizer. O analista diz: “se não tem nada pra falar, me fale o que você fez da última sessão pra cá”. A analisanda, então, começa a relatar de forma minuciosa tudo que ela fez, registrava até o horário de cada coisa, então, ela conta que quando foi estacionar o carro, bateu no carro do vizinho, e sorrindo diz: “ah, mas essa sou eu, né?” e a analista responde: essa qual é você?” E, depois de uma pausa, vem o choro: “a que sempre estraga tudo”. Deste ponto, se abre para uma nova cadeia significante...
FINALIZANDO
A transferência é o motor de uma análise. É a única forma do inconsciente se presentificar de modo sistemático na análise, e não apenas pontual, como na formação da vida cotidiana (lapso, ato falho e chistes).
A interpretação tem sua fórmula delimitada na interpretação do sonho:
A. É a partir do relato do sonho de quem sonhou que se constitui a interpretação (o conteúdo manifesto do sonho).
B. As associações livres conduzem para sentido do sonho (o conteúdo latente).
C. A interpretação viso lançar luz sobre o desejo inconsciente que no sonho se realiza.
Pela função de deitar-se no divã, o analisante é levado a deixar a imagem do outro i(a), que representa a persona do analista, dando lugar ao ideal do Outro I(A). Sendo, então, o procedimento de deitar-se no divã, um meio de esvaziar o imaginário e ir contra o desconhecimento do eu, fazendo por fim, emergir o discurso do Outro.
O tempo da sessão não obedece ao tempo cronológico, mas tempo logico do inconsciente. Assim, a suspenção da sessão deve obedecer, não ao tempo do relógio,mas, sim, a trama do discurso do analisando. Para isso, ele evidencia um esquema de comunicação que diz respeito não só a análise, mas também a experiência comum do dia a dia.
A escuta do analista é, então, desde a ausência de sentido que se pode ouvir o que atormenta e em que se obtém a consistência do sintoma, e se configura como uma queixa tentando dizer alguma coisa. Foi dessa conjugação entre sintoma e demanda que Freud correspondeu com a invenção da psicanálise.
MÉTODO PSICANALÍTICO
AULA 5
 TEMA 1 – A ESCOLA DE FORMAÇÃO DO PSICANALISTA
Não há formação do analista; há formação do inconsciente, destaca Antonio Quinet em seu livro A estranheza da psicanálise (2009), no qual aponta para a impossibilidade de generalizar a formação do analista, visto que ela deve ser pautada na análise do inconsciente, ou seja, de sujeito a sujeito.  
A pergunta que surge é: então, o que quis Lacan ao fundar a Escola de psicanálise? A resposta é dada por ele nos textos fundadores do capítulo V, em os Outros Escritos. Nesses textos, Lacan (1964) destaca seu posicionamento sobre a análise e o analista, as precisões organizacionais e os manifestos dos quais ele participou. E é sobre esses textos que nos debruçaremos agora.  
O uso do termo “Escola” foi utilizado pretensiosamente para enfatizar o lugar de ensino e do estudo, distinguindo das “associações e sociedades” das quais já se presume um centro cientifico ou um lugar de corporativismo. A Escola de psicanálise consiste em um lugar para o psicanalista e também o não analista, desde que a causa seja a psicanálise. Assim, o principio da Escola se liga à permutação e a duas estruturas inovadoras instituídas por Lacan: o cartel e o dispositivo do passe.
Colette Soler, em seu livro A psicanálise na civilização (1998), defronta-nos com esses princípios da Escola e nos indica que espera-se que a permutação quebre a consistência da hierarquia que configurou na IPA, visto que contraria a própria transmissão analítica. O cartel deve servir ao trabalho para todos, ou seja, tanto para os galonados quanto para os novatos, pois se não há grupo sem traço unário, mais vale a identificação ao trabalhador analisante que a identificação ao colégio dos mestres, complementa Soler (1998, p. 144).
Quanto ao passe, é a estrutura da Escola que se destina a fazer da Escola uma verdadeira escola de psicanálise, ao dar evidências ao fim de uma análise. Soler declara que “ele visa, mais-além do título que ele outorga, uma nova compilação de testemunhos verídicos sobre análise que torna possível o analista” (1998, p. 144).
No entanto, conforme nos expõe Soler, a Escola proposta por Lacan não alcançou o seu objetivo, uma vez que a permutação foi ali uma palavra em vã, esquecida no Ato de fundação, erigindo rapidamente uma oligarquia. Os cartéis permanecem adormecidos e, mesmo que tenha incitado alguma euforia, houve mais causadores do que trabalhadores. E quanto ao passe, ele tampouco alcançou o seu objetivo.
Desse modo, segundo Soler, a Escola serviu mais aos seus membros do que propriamente à psicanálise, visto que foi útil para publicidade e para autorizar quem a consumiu. “Enfim, para dar a última palavra a Lacan, ela tornou seu ensino ‘água de esgoto’” (Soler, 1998, p. 144-45).
A crítica às sociedades de psicanálise, que foram se propagando mundo a fora com objetivo aparente de identificar os psicanalistas na sociedade, é grande. Pois, para Soler, os psicanalistas adoram se reunir para falar de psicanálise, mas, isso torna-se uma irresponsabilidade de dimensão coletiva, já que, a propósito da psicanálise se constituir por hiâncias irredutíveis, com as quais Lacan não se cansou de compor experiências, no entanto, vê-se uma tentativa de tamponar suas fendas com suas “tagarelices”.
1.1 AS ESCOLAS DE PSICANÁLISE: O CONCEITO LACANIANO
A Escola inventada por Lacan tem a mesma estrutura do sujeito, cuja organização se dá a partir do furo. É pela ausência de conceitos pré-estabelecidos sobre o analista e sua formação que ela se organiza e faz progredir a psicanálise. Quinet (2009, p. 91) diz: “A formação do analista é necessária e estranhamente desregulamentada e está, em sua essência, referida e pautada pela psicanálise pura – a análise que produz um psicanalista”.
Sendo assim, ao fundar a Escola, Lacan cria um novo conceito que tira do centro das atenções o saber do mestre e coloca o ensino em seu lugar, incluído, desse modo, o discurso como o agente da causa. A Escola, portanto, é um lugar que abriga o objeto a.  E se o objeto a, como objeto pulsional e causa de desejo, diz Quinet, é aquilo que é rejeitado pela civilização, a Escola é a instituição que, apesar de ser da civilização, deve abrigá-lo, sabendo que, por sua estrutura e por ser próprio a cada um, o objeto a, diferente do significante, não é coletivizador (Quinet, 2009, p. 93).
A Escola é um organismo de trabalho, situou Lacan em seus artigos fundador de 1964. O aspecto skolé não é o de lazer, o seu sentido é de trabalho, um trabalho para a psicanálise, em que analistas se empenham a produzir saber, através de estudos e escritas. Segundo Quinet, tal atitude mudou completamente a história da psicanálise, a partir da qual os psicanalistas passam a responder a uma exigência ética e epistêmica para que deem conta dos seus atos a partir da elaboração de seu saber (2009, p. 94).
A Escola tem, em seu âmbito, a “transferência de trabalho”, visto que a transmissão da psicanálise só é efetiva em transferência. Sendo assim, a transmissão se realiza no um a um, fazendo objeção à normatização, pois o que está em jogo é o estilo, que é tributário, daquilo que ele tem de mais particular – o objeto a. Desse modo, o ensinante transmite a psicanalise como sujeito dividido, interrogando outro sujeito com o seu estilo, transferindo assim o trabalho que a psicanalise o leva a realizar. “A transmissão implica, portanto, transferir o trabalho provocado pela psicanálise” (Quinet, 2009, p. 94).
O “trabalhador decidido”, ou seja, a decisão do sujeito de trabalhar pela psicanálise é o critério para se entrar na Escola, e não necessariamente os analistas, ou mesmo quem querer ser analista, pois, na Escola, são os trabalhadores que serão aceitos.
Assim, no Ato de fundação, testifica o trabalhador como referência da Escola, não impondo distinção entre os membros, mas sim categorias de membros, nas quais os mais experientes e os mais novos, os didatas e os candidatos, os analistas e os não analistas encontram-se no mesmo nível trabalhando juntos em cartéis (Quinet, 2009, p. 76).
1.2 A PROPOSIÇÃO DE 9 DE OUTUBRO 1967
Nesse texto, Lacan introduz a desigualdade dos membros em relação à psicanálise, visto que nem todos se mantêm iguais perante a formação analítica e o reconhecimento como analista pela Escola. A diferença surge na designação do analista, em que uns fazem ali a sua formação, e outros são os analistas da Escola.
Lacan ainda traz a hierarquia que compõe os órgãos de gestão da Escola – presidente, conselho, diretor, diretoria, comissão de publicação, biblioteca e carteis. Tais hierarquias, situa-nos Quinet, deve estar desarticulada das comissões responsáveis pelas designações dos analistas da Escola.
Totalmente desligada da hierarquia de mando da instituição, Lacan institui um grau para o analista que fez sua formação na Escola e deu provas de sua prática, são eles: AME, analista membro da Escola, cujo título é dado pela Escola; AE, analistas da Escola, cujo título é conferido àqueles que fizeram o passe e é pedido à Escola. Ambos os títulos são conferidos por um júri, de recepção e de confirmação, respectivamente.
Os juris são compostos por seis membros escolhidos entre AME e AE, e o diretor faz parte de ambos. Quinet nos explica que, para o júri de confirmação, são escolhidos os candidatos que se apresentarem por votação em assembleia geral. Eles são nomeados por três anos, sendo um terço renovado todo ano por sorteio dos que saem nos dois primeiros anos e, em seguida, por antiguidade e por eleição a novos membros. No júri de recepção, são escolhidosnove candidatos pelo diretor os quais a assembleia geral optará por seis em votação, sendo a permuta idêntica a do júri de confirmação (Quinet, 2009, p. 79).
Os títulos de garantias na Escola obedecem, portanto, a duas necessidades de ordem diferentes, as quais Quinet dispõe da seguinte forma:
1. Para o interior da Escola, o titulo de AE qualifica aquele que se compromete a participar na elaboração da doutrina a partir de sua experiência pessoal como analisante;
2. Para fora, a Escola garante para o corpo social a qualidade profissional daqueles entre seus membros que receberam o título de AME.
Sendo assim, Quinet conclui que, “a autorização do analista, que Lacan reconhece como uma situação de fato e que sempre existiu, só tem sentido dentro da Escola da qual a garantia da formação do analista é parte integrante.” (2009, p. 80-81).
TEMA 2 – O CARTEL
Como apresentado, a Escola é um organismo de trabalho, cujo objetivo é manter a verdade do campo aberto por Freud e fazer cumprir o dever da psicanálise na sociedade. Para isso, o órgão base da escola, proposto por Lacan, é o trabalho do cartel. O cartel é um dos pilares da Escola, que induz a produção de saber em psicanálise e favorece o vínculo pelo trabalho ao invés de uma pseudofraternidade.
Os cartéis são pequenos grupos de estudo, formados por quatro a cinco pessoas, que se escolhem e se juntam em torno do seu não saber que se fez questão, e a escolha pelo Mais-um (a função do mais um será abordada mais adiante) segue o mesmo princípio. Na lógica do cartel, inclui-se a sua dissolução, que está presente desde o início, pois o tempo de concluir já esta em seu horizonte, influindo sobre o tempo de compreender.
O cartel se opõe aos efeitos da lógica dos grupos, os quais Freud concebeu em ser texto Psicologia das massas (1921), já que nele busca esvaziar as identificações aos lideres e aos seus pares. No cartel, cada um entra com um projeto pessoal de trabalho. Sendo assim, o que enlaça o sujeito ao cartel é a transferência ao tema de estudo.
Engajar-se num cartel não é confortável, afirma Fingermann (2016). “Fazer” cartel é jogo duro, assim como todos os tempos da formação do psicanalista, porque o não sabido, o Unbewüsst, o saber que falta, constitui o ponto de partida (Fingermann, 2016, p. 156). Segundo o autor:
O cartel começa com um incômodo, um não saber que atormenta, um sintoma, que pela graça da aposta se transforma em questão. O não sabido não é inefável, ele pode se formular, e fazer questão. A questão formulada por cada um no grupo chamado cartel tem consequência: ela expõe e compromete quem a formulou e assina o seu engajamento de uma produção, de uma elaboração de saber digna da psicanálise perante a comunidade analítica. Melhor ela “faz”, ela produz essa comunidade na base da aposta, do risco e da “transferência de trabalho”
As referências à montagem do cartel estão discriminadas por Lacan no texto chamado D’Écolage, no qual é proposta uma “fórmula refinada do cartel”. Tal momento dá início à Causa Freudiana, em 1980, quando culminou a dissolução da EFP, e, não sem propósito, deixa de chamar Escola e passa a ser nomeada de campo. O cartel, por Lacan, confere então:
· Primeiro – quatro se escolhem para empreender um trabalho que deve ter seu produto. Esclareço: produto próprio a cada um e não coletivo.
· Segundo – o conjunto dos quatro se faz em torno do mais-um, que, se ele é qualquer um, deve ser alguém. Cabe a ele a tarefa de velar pelos efeitos internos à empreitada e de provocar nela a elaboração.
· Terceiro – para prevenir o efeito de cola, a permutação deve se feita ao final pré-fixado de um ano, no máximo dois.
· Quarto – não se espera nenhum progresso além daquele de uma exposição periódica, tanto dos resultados quanto das crises de trabalho.
· Quinto – o sorteio assegurará a renovação regular dos limites demarcados com a finalidade de vetorizar o conjunto.
A inspiração do cartel veio através da experiência clínica de pequenos grupos realizada por Bion, um médico inglês que se interessou pela psicanálise e que, durante a Segunda Grande Guerra, instalou a primeira comunidade terapêutica, na qual desenvolveu um trabalho com homens atrasados na instrução, devastados pelo sentimento de inferioridade, desajustados e facilmente delinquentes. Para esse grupo, foi utilizado o principio do “grupo sem líder”, status que despertou o interesse de Lacan para pensar o cartel e designar a função do Mais-um.  
2.1 A FUNÇÃO DO MAIS-UM
A posição do Mais-um no cartel é problemático, já que, em sua própria estrutura, força-se a designação de um líder, mas sua tarefa é justamente não ocupar o lugar de liderança. A função do Mais-um é simplesmente um a mais que balizará o princípio do cartel, não com o seu saber, pois o Mais-um pouco sustenta o discurso do mestre, sendo, pelo contrário, um lembrete da estrutura, isto é, um significante a mais que marca e presentifica a falta do significante. Nesse modelo, ele é menos-um – S(A), encarnação da falta.
Para Quinet, o Mais-um é aquele que aponta para o furo da função do líder, que barra esse lugar de suposição de saber para fazê-lo circular, fazendo de cada um, um mestre (2009, p. 86). Sendo assim, o Mais-um fica a serviço do saber dos outros membros, isto é, ele evidencia o destino de produção de cada um, fazendo funcionar o cartel ao apontar para sua dissolução.
TEMA 3 – O PASSE
O passe, em primeiro lugar, não tem nenhuma relação conceitual ou de definição termológica com rituais espirituais. Na verdade, a palavra passe vem da língua francesa – la passe, que significa passagem – e é utilizada em dois sentidos: para passar de um lugar para outro, como também evocando um local, logradouro ou passadouro.
O termo em português o passe, portanto, não é uma tradução, é antes um neologismo, já que recebe um novo sentido. É a passagem, uma mudança subjetiva de analisante para analista, é a isto que o dispositivo do passe da Escola se destina, sendo um convite ao analisante para oferecer a sua experiência de análise a outros.
Lacan formulou esse dispositivo quando a Escola passava por uma grave crise, na qual o saber e as novas práticas cediam aos velhos hábitos, portanto era necessário estabelecer uma reforma que indicasse os analistas da Escola.
O passe se distingue em três funções que foram destacados por Simone Perelson (2009) em seu artigo O passe: da articulação entre a autonomia e a dependência. A primeira vem dar lugar à produção de um trabalho teórico sobre a enigmática passagem do sujeito da posição de analisando para a de analista, passagem esta que será também chamada por Lacan de passe. Na segunda, ele deve funcionar como um mecanismo de nomeação do analista da Escola (AE), a partir da autenticação da passagem em questão. E a terceira diz respeito à viabilização um novo tipo de laço social para a comunidade de sua Escola, o qual seria marcado pela transmissão do real em jogo nesta passagem do analisando ao analista.
O dispositivo do passe estabelece, então, um continuum, usando as palavras de Quinet, que inclui a experiência psicanalítica (individual, privada e particular) e a transmissão da psicanálise e sua doutrina (pública e transindividual), o que leva Lacan a propor a topologia moebiana para a Escola, situando, no plano projetivo, a vinculação da psicanálise em intensão e extensão. (Quinet, 2009, p. 81). Portanto, verificamos que a proposta do passe se articula como mais uma tarefa da Escola, a de fazer avançar a psicanálise para além da clínica propriamente transferencial. Quinet conclui assim: “O passe tem como direção elaborar um saber (fora da transferência) sobre esse final, a partir da lógica da construção de caso e de um trabalho de doutrina sobre a própria análise e a passagem de psicanalisante a psicanalista” (2009, p. 82).
A esse respeito, Farias questiona em seu artigo “O que nos dizem os analistas no passe?”. Ali ele vai dizer que conduzir a análise até o seu fim implica tornar-se analista de sua própria experiência, isto é, tomar uma distância diferente diante de sua própriaanálise. Isso permite ver a sua própria neurose, a teoria e seus problemas em relação à psicanálise, como também que o que essa análise lhe ensinou não é guardado para si, mas transmitido a outros pelo dispositivo do passe.
O testemunho vem situar o núcleo da verdade particular, do qual surge a elaboração do saber, que se torna transmissível, possibilitando essa inédita articulação entre o mais singular do sujeito e o generalizável de um saber exposto. Trata-se, pois, de um testemunho que mostra a possibilidade de fazer série com a diferença, sendo esse o ponto indicado por Lacan com clareza.
3.1 O PASSE NA PRÁTICA
Para nos situarmos a respeito da prática do passe, buscaremos fazer um breve apanhado, a fim de expor os processos que conduzem a sua prática.
1. O candidato ao passe deve endereçar o seu pedido a uma comissão, que designará um membro para entrevistá-lo;
2. Quando aceito, é feito um sorteio sem que o candidato veja, para que sejam eleitos dois passadores escritos;
3. Se o candidato ao passe aceitar o nome dos passadores, ele deve entrar em contato com eles de modo individual e agendar um encontro para contar-lhes o seu passe;
4. Após terminar o relato do passe, o passante comunica à comissão, e esta avisa ao júri ou ao cartel do passe;
5. A comissão/cartel do passe convoca os dois passadores, que, por sua vez, relatam o que ouviram.
Assim, declara Quinet, o passador recolhe o testemunho do passante e passa-o ao cartel do passe. Ele passa a fala; os enunciados; a enunciação, de uma margem a outra; passa a fala e a carrega de um lado para o outro. Desse modo, ele passa a palavra. Eis que o passador, segundo Lacan, é o passe (Quinet, 2009, p. 110).
3.2 O CARTEL DO PASSE
O cartel do passe é formado para ouvir o relato dos passantes narrado pelos passadores e é quem concede a nomeação de AE. Em sua composição termológica, está composto por dois elementos que constituem o pilar da Escola: cartel e passe.
O passe, segundo Fingermann, é a aprovação da Escola que nunca é constituída, pois ela ex-siste no “fazer” escola. Assim, o cartel do passe configura o nó que conecta a psicanálise em intensão (verificação da análise) à psicanálise em extensão (transferência de trabalho pelo cartel).
O cartel do passe responde a três níveis de atuação: a experiência do encontro com os passadores, a elaboração dessa experiência e a comunicação dos resultados. O seu trabalho termina depois de dois anos, mas o seu compromisso com a Escola não tem fim, pois a responsabilidade do seu trabalho ecoará por muito tempo.
TEMA 4 – O FINAL DE ANÁLISE
Colette Soler (1998, p. 309) traduz o final de análise como um final de amor. O par analista e analisante corresponde a um amor verdadeiro, visto que, ao final, seus desdobramentos uma ideia sobre o amor, um amor lúcido do qual só o ódio se aproxima.
Há um final de análise, mas Freud, em seu texto Análise terminável e análise interminável (1937), depreende a experiência psicanalítica no desembocar do “rochedo da castração”, ou seja, na falta que desvela a negatividade do falo, para ambos os sexos, sendo intransponível. 
A castração, como o impasse para um final de análise, foi tomada, então, por Lacan, como algo a ser transponível, isto é, ele propõe a sua ultrapassagem ou, dito de outro modo, a sua travessia, a partir do conceito da fantasia.
A fantasia sustenta o desejo para o sujeito, constituindo uma ficção, na qual o sujeito fica “fixado” em um gozo ao qual estará submetido. Através do trabalho da associação livre, o inconsciente, estruturado como linguagem, leva o analisante, sustentado pela transferência como o analista, a decifrar o saber inconsciente.
Nesse exercício, o sujeito se experimentará como faltante sob dois aspectos, apontados por Quinet (1991). De um lado, falta o significante que diria o que ele é, visto que os significantes identificatórios do sujeito perdem sua função em análise (ou, no mínimo, ficam abalados), revelando-se tal como são – significantes que não definem o sujeito, mas aos quais ele está assujeitado. Por outro lado, um significante que defina o sujeito não é o que lhe falta apenas, mas falta o próprio ser: o sujeito é falta-a-ser.
Tal experiência, levada a cabo, assemelha-se ao que Freud designou como “rochedo da castração” – ponto incurável do sujeito. Para Lacan, trata-se de um ponto de chegada, visto que o sujeito se cura da sua divisão. E Quinet (1991, p. 97) sublinha que: “’Fazer da castração sujeito’ é o dever do analista. Este ser que lhe falta é o que sua fantasia ($◊a) lhe indica como sendo o objeto com o qual ele, como sujeito, se encontra em conjunção (^) e disjunção (v) – o objeto condensador de gozo: objeto (a)”.
O final de analise implica, então, a decifração do enigma do sujeito (x), em que esse (x) equivale ao ser, que pode ser apresentado com dois valores distintos: (-φ) e (a). O -φ corresponde à castração, ao seja, a falta no Outro, indicada pela falta do significante que designa o ser do sujeito e, portanto, o Outro como faltoso aponta para a falta de garantias, que retorna para o sujeito como complexo de castração. O objeto a, causa de desejo, surge como solução do ser, obturando a falta e dividindo o sujeito pela sua alternância: presença/ausência. É, pois, pela impossibilidade de ser alcançado como significante, conjugada à indestrutibilidade do desejo do sujeito, que o objeto a se articula como objeto mais-de-gozar.  
Assim, pela lógica traçada por Lacan, o trabalho de análise deve levar o sujeito ao atravessamento de sua fantasia ($◊a), sendo os dois termos disjuntos, e o sujeito deve adquirir uma espécie de saber que colocará o seu mais-de-gozar a seu serviço, fazendo-se ser. O sentido de “se fazer ser” é evocado por Soler (1998, p. 316) quando diz: “Qual é o benefício do final pelo “se fazer ser”? Evidentemente, ele toma seu sentido e seu peso da falta-a-ser. O sujeito que se experimentou como falta-a-ser e como divisão na experiência, chega a, ou então encontra uma posição de ser que cuida a sua falta-a-ser”.
Mas, a questão sobre o fim de análise não se esgota aí, pois ainda é preciso saber se o analisante, ao receber a chave de sua divisão, a chave que o coloca frente à causa do seu desejo, diante do impossível e sobre sua singularidade que, por consequência, descerra-o de toda impotência neurótica, há ainda um desejo de saber. O que Soler vai responder lançará luz sobre o passe, pois, para ela, o seu sentido está justamente em fazer evocar um novo saber.
4.1 ELABORAÇÃO DO SABER
Na elaboração do saber, admite-se, logo de início, uma aquisição de saber na análise, que faz o analisando verificar a causa do seu desejo. Essa experiência o leva ao reconhecimento de uma falha estrutural que proporciona a dimensão do impossível, pois, sobre o recalque originário, existe os significantes que lhe escapam, sendo cobertos pelo objeto a, que responde pelos significantes que ficaram de fora da simbolização.
Na passagem de analisando para analista, Lacan, segundo Soler, faz uma exortação ao evocar no analista o desejo de saber, para, então, fazer-se ser, “ser nomeado” AE. Mas, é necessária a elaboração do saber, e eis a astúcia do dispositivo. Produzir saber, na falta de uma causa, é a tese de Soler: “Um testemunho preciso constitui o primeiro passo de uma elaboração de saber e há seguramente testemunho mais ou menos precisos” (1998, p. 322).
TEMA 5 – O ATO PSICANALÍTICO 
O ato psicanalítico por excelência é aquele em que o analisante passa para analista, assim o dispositivo do passe é o momento de leitura do ato. Quinet (2009) nomeia de “textoato”, no qual o ato é transmitido pela fala e, nesse momento, recebe o nome de passe.
Todo ato é sem o Outro, dispensando a presença de plateia, pois o ato só pode ser de um, um sozinho, uma vez que, segundo Quinet, não há ato coletivo. Entretanto, o autor adverte sobre o que o próprio Lacan evidenciou, que, apesar de ser um, ele não é solitário, pois a Escola é o suporte dessa solidão – não como cola, pois cada um se vira sozinho (Quinet, 2009, p. 134). Assim, a Escola não partilhada relação com a causa analítica, mas somente oferece o lugar para dispor do seu ato.
A relação com o ato analítico não é, no entanto, uma coisa evidente ou automática, visto que ele se impõe no interior de uma análise, no momento de passagem de analisante para analista. Dessa relação, o analista se depreenderá para conduzir as análises operadas por ele.
Desse modo, o termo “ato analítico” se refere ao que Lacan nomeou tanto como passe, quanto ao que ocorre no interior de uma prática clínica entre analista e analisante.
Dispor da relação com o ato analítico significa estabelecer, falar, escrever, restituir, transmitir o ato analítico para que dele o analista possa dispor. Esse dispor se conjuga com expor. Assim como o ato da “Proposição...” necessitou de um escrito para ser lido, da mesma forma, o ato analítico precisa passar pelo relato para ser escutado. (Quinet, 2009, p. 135)
Lacan ainda implica o ato analítico ao manejo da transferência, pois, como Freud ressaltou, a transferência é a única dificuldade com a qual o analista realmente se depara em sua prática. O ato está no inicio de uma análise, visto que, para aceitar uma demanda de análise, é necessário o ato de decisão do analista. O ato, pelas palavras de Lacan no seminário Ato psicanalítico (1967-68), "consiste em autorizar a tarefa psicanalisante, com o que isso comporta de profissão de fé no sujeito suposto saber" (p. 140).
A fé no sujeito suposto saber é simplesmente poder apostar que haja analista para sustentar a análise. Isso significa que a presença do analisante apenas não é suficiente, sendo necessário o ato do psicanalista, isto é, um ato que, por um lado, implique o analisante em sua tarefa, e, por outro lado, possa garantir a manutenção do sujeito suposto saber, visto que, para isso, há de dispor do de-ser desse sujeito.
Fingermann (2016) declara que o ato do analista é a-normal, pois ele se apresenta (a-presenta) em descontinuidade em relação à neurose, e não em continuidade, sendo a sua manifestação em corte, discordância, desconcerto em relação à previsão neurótica. Diz ainda:
O ato do analista é a-anormal pois sua “norma” é o objeto a, isto é, essa função lógica que, ao mesmo tempo, marca limite da linguagem e funda a sua lógica de encadeamento infinito. Por isso podemos dizer que o ato de psicanalista se apresenta, ou seja, que o analista se dispõe a intrometer nas cadeias significantes da associação livre, uma presença do objeto a, objeto do qual não se sabe nada, mas fundamentalmente descompleta o sujeito, indica sua incompletude. (Fingermann, 2016, p. 46)
O ato adquire a sua propensão na dedução da própria análise do analista, quando ele é levado até esse ponto de consequência lógica em sua experiência.
NA PRÁTICA
Para pensarmos o “Na prática” dessa etapa, quero evidenciar como se forma um cartel, pois é o órgão base das Escolas de psicanálise e se tornou imprescindível na formação do psicanalista, visto que nele ecoa toda a estrutura do sujeito.
Nas Escolas de orientação lacaniana, qualquer pessoa interessada em psicanálise pode fazer cartel. Para isso, basta inscrever o tema que se deseja estudar ou se inscrever em algum tema que já esteja aberto no mural destinado ao cartel na Escola, pois em toda Escola tem um mural destinado ao cartel.
Quando o cartel estiver formado, ou seja, quando estiver inscrito 3+1 ou no máximo 5+1, o Mais-um, escolhido pelos integrantes do cartel, deverá declarar o cartel na Escola. Para isso, o tema é retirado do mural, e todos os integrantes do cartel devem preencher um formulário com nome, tema da produção individual e telefone. Depois de declarado, a contagem do tempo é iniciada.
O modo como cada cartel se organizará vai variar de acordo com o desejo do grupo, pois não há uma regra especifica para esses encontros, podendo acontecer semanalmente, quinzenalmente ou até mensalmente. Podem ser presenciais ou virtuais.  
A implicação do sujeito com o seu desejo é exposta no grupo, pois, após iniciar o cartel, se um dos integrantes por algum motivo desistir, todo esforço do grupo para sustentar o espaço de circulação de saber é perdido e o cartel tem que dissolver.
Quanto às produções de cartel, a Escola oferece um espaço destinado à divulgação, que pode variar de acordo com cada instituição. Assim, vale lembrar que, do mesmo modo que o cartel parece ser muito atrativo para ingressar no trabalho da Escola, ele apresenta todos os impasses criados por um grupo, de modo que, para concluir um trabalho de cartel, é certo que os que mais têm sucesso são aqueles que aprenderam, em sua análise, a suportar a falta no Outro.
FINALIZANDO
· Escola de psicanálise – lugar para abrigar o ensino psicanalítico; o psicanalista faz Escola, e não o contrário.
· Cartel – sua estrutura remete ao funcionamento de trabalho da Escola, na qual a falta é que coloca em movimento o saber.
· Passe – é a possibilidade de transmitir o que descobriu em sua análise a uma experiência coletiva.
· Final de análise – é ali que o sujeito se encontra, no lugar onde não se procurava, pois trata-se de uma verdade perdida que foi recuperada, em um puro fala-ser.
· O ato psicanalítico – causa sem saber, pois é essa relação de sujeito suposto saber que o psicanalista deve suportar em seu ato.
MÉTODO PSICANALÍTICO
AULA 6
 TEMA 1 – DESEJO DO ANALISTA
O estatuto do desejo é localizado pela falta, pois é por ela que se constitui a relação com o Outro. O desejo do Outro é o eixo do desejo do psicanalista, pelo qual, inicialmente, Lacan afirma em a Direção do tratamento (1958) que o desejo do psicanalista tem que causar o desejo do sujeito como desejo do Outro, ou seja, fazer-se causa desse desejo. Portanto, a análise trata-se de desejo como causa, que na transferência faz demanda entrelaçando o desejo do sujeito ao desejo do analista, evidentemente inconsciente, declara Soler em O inconsciente: que isso? (2012).
Por meio da elaboração das estruturas do discurso, Lacan situa o analista na posição de objeto a, em que o discurso do analista coloca o objeto a no lugar do semblante, isto é, no lugar em que se efetuam todos os efeitos analíticos. Notem aí a passagem da função causal do Outro para a função causal do objeto. Tal passagem, com efeito, diz Soler (2012, p. 80), encontra a sua coerência no fato de que o próprio objeto a é efeito do Outro.
Esses desdobramentos tem relação com a operação do analista. Quanto ao desejo, ele é imprescindível para sustentar esse lugar, no entanto, para poder situar o desejo é preciso pensar o fantasma ou, do mesmo modo como questionou Soler, “qual é a função do objeto a no desejo do psicanalista”?
O desejo, como apontado por Lacan, é não identificado, mas fixado, tendo o seu suporte sustentado no fantasma do sujeito. O desejo do analista, de igual modo, não vai ser puro, ou seja, o desejo puro como o descrito por Emmanuel Kant se define por excluir todo objeto. Lacan declara:
O desejo do analista não é um desejo puro. É um desejo de obter a diferença absoluta, aquela que intervém quando, confrontado com o significante primordial, o sujeito vem, pela primeira vez, à posição de se assujeitar a ele. Só aí pode surgir a significação de um amor sem limite, porque fora dos limites da lei, somente onde ele pode viver. (Lacan, 1964/1979, p. 260)
Soler (2012, p. 81), então, declara que se o desejo do analista não é puro, uma coisa podemos admitir: “o analista em seu ato não opera com seu fantasma de desejo pessoal, aquele que o sustenta em sua vida”, pois a própria definição do ato diz respeito a uma suspensão do sujeito.
Pensar o ponto da suspensão é, segundo a autora, o ponto certo, pois o fantasma está presente nas alocuções que surgem na transferência, rateado o seu ato por vias da contratransferência. Entretanto, o desejo do psicanalista deve ser esvaziado de qualquer substância identificatória, pois vem aos moldes do objeto a.
Sendo assim, a questão do desejo do analista, de largada, não é o desejo de um que se diz analista, mas o desejo que torna o processo analítico possível, isto é, tem que ser um desejoadvertido, ou seja, que pressuponha para o psicanalista a posição de objeto da transferência. Para isso, é preciso que o analista tenha se destituído de sua subjetividade, efeito de sua análise pessoal, cuja advertência sobrevém após atravessar a sua fantasia, em que os seus enganos e desenganos são vividos na experiência transferencial.
Portanto, é o analista no lugar do objeto a, objeto de causa de desejo, que leva o analisante a tomá-lo como Outro e que faz desvelar aí o próprio desejo, o desejo motor da análise, sublinhado por Lacan, e o mesmo do qual Freud (1915) já assinalava em seus artigos sobre a técnica, para tratar sobre o amor transferencial:
A técnica analítica exige do médico que ele negue à paciente que anseia por amor a satisfação que ela exige. O tratamento deve ser levado a cabo na abstinência. Com isto não quero significar apenas a abstinência física, nem a privação de tudo o que a paciente deseja, pois talvez nenhuma pessoa enferma pudesse tolerar isto. Em vez disso, fixarei como princípio fundamental que se deve permitir que a necessidade e anseio da paciente nela persistam, a fim de poderem servir de forças que a incitem a trabalhar e efetuar mudanças, e que devemos cuidar de apaziguar estas forças por meio de substitutos. (Freud, 1915, p. 182)
Desse modo, o que Freud assinalou como “força” para que incite o trabalho de análise, é a mesma coisa que Lacan nomeou como desejo do analista. O desejo do analista é, então, por livre associação entre Freud e Lacan que haja análise, é um desejo que entra no jogo em posição de objeto. Para dizer de outro modo, o desejo do analista é o desejo pelo saber.
Andrade Júnior (2007, grifo do autor), em seu artigo “O desejo em questão: a ética da psicanálise e desejo do analista”, faz a seguinte declaração:
um desejo pelo saber: um saber do desejo, um convite ao reconhecimento de algo que, para o analisante, fala a despeito de suas convicções morais. O analista é então convocado a criar o desejo pelo saber disso, onde antes existia apenas um nada querer saber. Portanto, do lado do analista, existe também um desejo, desejo causa da análise.
1.1 CONTRATRANSFERÊNCIA E DESEJO DO ANALISTA
Freud (citado por Jorge, 2017, p. 182) constatou a contratransferência como um dos problemas mais complexos da psicanálise, pois, segundo o autor “nenhum analista vai mais longe do que os seus próprios complexos de resistências internas”. Portanto, ultrapassá-la leva à necessidade de o analista submeter-se a uma análise pessoal.
A contratransferência é algo que diz respeito somente aos sentimentos do analista, ou seja, não tem nada a ver com o analisando, pois trata-se do analista como sujeito. Desse modo, quando a contratransferência não é percebida, o analista coloca em cena a sua posição subjetiva, colocando em risco a condução da análise.
Lacan evidencia a relação analítica entre o sujeito e o analista, na qual dividi-la em termos de transferência e contratransferência (eu do sujeito e eu do analista) significaria eliminar o que se coloca em jogo em análise – a relação ternaria, em que o Outro é um terceiro presente-ausente.
A contratransferência se opõe, de todas as formas, ao desejo do analista que coloca em função o trabalho de análise, visto que o primeiro se relaciona ao desejo do sujeito psicanalista e, Lacan, ao evidenciar o desejo do analista, declara que ele é categoricamente o desejo que impõe uma diferença absoluta, isto é, um desejo que conduz a análise na direção de isolar os significantes do seu campo simbólico de uma posição subjetiva particular.
Dessa forma, na contratransferência há o fantasma do analista na análise que não lhe pertence, e de outro modo, o desejo do analista é um desejo que se situa além do fantasma e é denominador comum a todos os objetos a.
TEMA 2 – LUGAR DO ANALISTA
Talvez o que se pense sobre o lugar do analista é que seja em um setting terapêutico, e a resposta seria sim, se o lugar do analista fosse uma localização espacial, mas, de fato, quando abordamos o tema do lugar do analista estamos falando precisamente de uma posição subjetiva, que para ocupar é imprescindível mantê-lo vazio. Eis então mais um paradoxo da psicanálise, o lugar do analista é vazio.
Lacan, no Seminário 8 – A transferência (1960-1961) –, empreende a ofertar as coordenadas sobre a posição que o analista deve alcançar; posição que ele nunca deixou de esboçar durante todo o seu ensino, visto tratar de um lugar fundamental para que haja trabalho de análise.
Diana Rabinovich toma Lacan com base no Seminário 8 para escrever seu livro O desejo do psicanalista, liberdade e determinação em psicanálise (2000). Ela aponta para o que Lacan concebeu a respeito do lugar do analista: “[...] talvez possamos definir, em termos de longitude e latitude, as coordenadas que o analista deve ser capaz de alcançar para simplesmente ocupar o lugar que é seu, que se define como o que deve oferecer vazio para o desejo do paciente para que se realize como desejo do Outro” (Lacan, citado por Rabinovich, 2000, p. 14).
A autora então sublinha que o psicanalista deve oferecer o vazio, que significa dizer que ele deve deixar livre o lugar do próprio desejo, isto é, que o desejo não esteja ocupado pelo objeto, o desejo do Outro seu particular.
Nasio, em seu livro, Como trabalha um psicanalista? (1999), destaca que a relação analítica só se efetua no momento em que o analista assume a sua posição, visto que só a partir daí que ele pode operar, pois o lugar do psicanalista é o desejo do analista, sendo os dois uma coisa só. No entanto, ousaremos demarcar essa diferença entre desejo e lugar para compor essa estranha posição subjetiva que o analista ocupa no setting terapêutico.
2.1 CADA ANALISTA DEVE REINVENTAR A PSICANÁLISE
Jorge (2017) elabora essa questão evocada por Lacan, que afirma: cada analista deve reinventar a psicanálise. O termo “reinvenção” é frisado, pois não se trata de recriação, visto que ela foi criada por Freud, como também evoca outro dito de Lacan, que diz que a psicanálise é intransmissível. Além disso, indica que, na psicanálise a intransmissibilidade e a reinvenção estão intimamente ligadas, ou melhor, uma deve muito à outra, visto que o analista deve submeter essa intransmissibilidade à sua capacidade de reinvenção, pois é disso que constitui o nó da psicanálise. Assim, desde sua invenção até os dias de hoje, o que pode ser exigido do analista é em termos do que foi e a sua reinvenção a cada sessão.
Jorge (2017) nos adverte que o desejo de ser analista não protege o lugar que deve ser ocupado pelo analista, visto que compreende um lugar subjetivo, no qual a realidade externa não pode preencher.
É interessante sublinhar que, se a construção de um quadro radicalmente neutro visa precisamente “neutralizar” a interferência da subjetividade do analista, na medida em que ela se apoia demasiadamente na dimensão imaginaria dessa neutralidade, ela esquece a verdadeira neutralidade requisitada ao analista, a simbólica. (Jorge, 2017, p. 234)
Esse deslocamento da neutralidade simbólica para a neutralidade imaginária impele a um dos maiores equívocos da situação analítica, em que o desejo de ser analista substitui ao desejo do analista. Para ilustrar, Jorge (2017) narra uma situação clínica que nos servirá de exemplo:
Trata-se de uma primeira entrevista, e, percorrendo o breve caminho que vai da sala de espera – onde foi chamar seu paciente – ao consultório, Bataille (a analista tomada como exemplo) faz várias reflexões: o paciente estava lendo o jornal e pareceu se perturbar com sua intrusão; seu olhar a desafiava; ele caminha lentamente e olha tudo. Ao entrar no consultório, ele pede fogo e ela lhe responde: “certamente não foi para fumar um cigarro que você veio aqui.” Ela mesmo observa que atribuiu à conduta desse homem uma significação que lhe concernia. E conclui: cada vez que eu atribuo uma intenção ao paciente, eu me sinto visada pelo paciente como sujeito; que eu quero representar alguma coisa para ele e inclusive representar a analista, eu estou fora da posiçãode analista. (Jorge, 2017, p. 234-235)
Esse exemplo demostra o desejo de ser analista no lugar do desejo do analista. Isso leva o autor a concluir que o medo de sair do lugar do analista, isto é, de não intervir como analista, manifesta sempre, paradoxalmente, um deslocamento do lugar do objeto que lhe é próprio da transferência e uma entrada em uma posição subjetiva qualquer (Jorge, 2017, p. 235).
Para Fingermann (2016, p. 67), a posição ética do analista implica suportar a psicanálise e, cada vez, reinventá-la. Tal precisão se estende ao entendimento de que entre o psicanalisando e o psicanalista não há uma continuidade, não há uma reprodução da experiência, nem prolongação e tampouco uma identificação. “O que se indica, a cada vez, é um momento inaugural que recomeça a psicanálise e começa pela transferência.”
Assim, suportar a psicanálise é suportar a transferência, dando suporte ao trabalho e ao produto, mas, sem assim, se enrascar nela, nem tropeçar topando contra a contratransferência.
TEMA 3 – DISCURSO ANALÍTICO
De um desejo que se faz lugar, imprescindível para o analista, ao discurso do analista, que é o único capaz de dar ao setting imaginário uma dimensão amplamente maior. Foi por meio da teoria do discurso que Lacan pode situar a estrutura de cada discurso, cuja matriz pode ser caracterizada por quatro lugares: a verdade; o semblante; o gozo; e o mais-gozar. Esses lugares vêm alojar-se nas respectivas letras que as designam: $ – sujeito dividido; S¹ – significante mestre; S² – o saber; a – o objeto a. Por meio dessa matriz, Lacan demonstra que podem ser escritos quatro tipos de discurso, apenas deslocando as letras e respeitando as regras da estrutura.
Assim, Lacan distingue cada estrutura em função do agente que está no lugar de comando, isto é, quando o agente é o S¹, o discurso do mestre; quando S², o discurso universitário; quando a, o discurso psicanalítico, quando $, o discurso do histérico.
Dessa forma, no jogo da análise, podemos observar que a formulação lacaniana sobre o discurso psicanalítico é, como destacou Jorge (2017, p. 237), “um ponto de chegada fundamental de toda reflexão sobre o lugar do analista.”
O analisando entra em análise pelo discurso da histérica, cuja estrutura é a de um sujeito ($) que busca um mestre (S¹) para que ele lhe produza um saber (S²) sobre o objeto desejado (a). A fórmula do discurso da histérica é a seguinte:
O psicanalista, quando responde do lugar do analista, faz girar o discurso. Desse modo, o saber buscado no discurso histérico no outro (tomado como mestre), quando é pelo discurso analítico, o saber passa a estar no sujeito, pois o outro é sempre o sujeito para a psicanálise.
Outra forma de acionar o discurso do psicanalista é na posição do Outro, demostrado por Jorge (2017, p. 161) pelo seguinte esquema:
Lê-se: SsS – sujeito suposto saber/ a – objeto a/ S² – saber do Outro / $ – sujeito do inconsciente/ S¹ – significante mestre.
O discurso psicanalítico na dimensão do objeto a (silêncio) e lugar do Outro, S² (interpretação), são esses os desdobramentos dos diferentes tempos do ato analítico, em que na posição de objeto a o analista aciona a associação livre e, na posição de S², produz a interpretação. Isso só se torna possível na medida em que o analista se abdica do seu saber.
3.1 DISCURSO DO MESTRE X DISCURSO PSICANALÍTICO
Na psicanálise, o lugar do analista é evidenciado ao evitar a produção de sentido para o sofrimento do sujeito. Em contrapartida, o discurso do mestre é aquele que representa a entrada da criança no mundo da linguagem, pois na relação mãe e bebê, quando ele chora, tem seu choro imediatamente interpretado por ela, ao passo que, com o passar do tempo, para cada gesto do choro há uma interpretação (é fome, é sono, é sede etc.). Logo, a criança, por esse discurso, não só encontra representação diante do Outro, S¹ → S², como também, por meio desses significantes, se aliena para se constituir como sujeito (Jorge, 2017, p. 163).
O discurso do analista, quando interpreta, interpreta para esvaziar o sentido. Temos pronta, aí, a fórmula que diferencia o discurso do mestre do discurso do analista. A mãe para o bebê tem o discurso do mestre, pois o mestre oferece os significantes que, ao produzirem o sujeito, faz o laço social entre o mestre e o escravo, suprime a sua divisão, S¹/$. Já o discurso do analista leva o analisando a produzir um saber sobre o significante que o produziu como sujeito dividido, $/S¹, ou seja, faz o laço social entre o analista e o analisando.
A psicanálise parte da constatação do caráter inarredável dessa alienação originária e, portanto, se pressupõe a necessidade de uma radical desalienação do sujeito, ela não pode propor nenhum significante que venha inflar ainda mais seus extenso rol de identificações. A psicanálise parte, ao contrário, do acionamento do real, a, sobre sujeito: a → $. E, em vez de lhe propor novos significantes alienantes, ela convoca o sujeito à separação, ou seja, a produzir em seu discurso os significantes fundadores de sua própria história, os significantes que estiveram na origem de sua constituição como sujeito, isto é, de sua alienação originária: $ → S¹. (Jorge, 2017, p. 163)
TEMA 4 – ÉTICA DA PSICANÁLISE
A etimologia grega da palavra “ética” diz respeito a uma ciência dos costumes, isto é, que tem como objeto de estudo os atos humanos como certos ou errados, segundo os critérios da moral. Na ética filosófica de Aristóteles, o bem está no cerne das atitudes humanas, ou seja: “toda arte e todo saber, assim como tudo que fazemos e escolhemos, parece visar algum bem”.
Na psicanálise, desde quando Freud formulou a questão sobre a pulsão de morte, no texto Além do princípio de prazer (1920), a questão do “bem” ganha uma outra dimensão. Posteriormente, no texto Mal-estar da civilização (1930[29]) Freud demonstra que o caminho da felicidade será restrito ao modo própria de cada constituição, e que a busca pela satisfação do prazer recalcado, na verdade, pode gerar grande desprazer na consciência.
Sendo assim, o caminho para o bem do sujeito não tem uma via garantida. Portanto, o tratamento psicanalítico não deve propor um bem qualquer para o sujeito, visto que não há caminhos que comportam a garantia de um sucesso antecipado. Freud, desde os seus artigos técnicos, já previa uma relação ética no trato da psicanálise com os pacientes, em que o analista, ao seguir o caminho da análise, trilha “um caminho para o qual não existem modelos na vida real”. (Freud, 1915, p. 183). Portanto, não há um caminho único, mas para cada análise se descobre uma nova possibilidade.
Lacan, seguindo as mesmas trilhas de Freud, dedica todo um seminário para pensar a ética que deve conduzir a prática psicanalítica: o Seminário 7, A ética da psicanálise (1959-1960).
Nesse seminário, Lacan coloca a questão da ética pela via do desejo, e, portanto, pela falta que a constitui, situado desse modo, a dimensão simbólica que depreende o seu gozo. Desse modo, a castração se impõe para o sujeito ao interditar o acesso ao gozo, que agora só poderá ser obtido mediado pela linguagem, mas com isso deixando parte do gozo de fora.
Com base nessa lógica simbólica, que deixa parte do gozo fora da simbolização, Lacan introduz a noção freudiana de das Ding, como essa parte do Outro absoluto do sujeito que ele busca se reencontrar. Assim, das Ding está no impasse da ética, como um gozo inacessível e irredutível ao sujeito.
No artigo “Ética da psicanálise e modalidades de gozo”, Fabio Bispo e Luis Couto (2011, p. 3) declaram que das Ding demarca um núcleo problemático para o sujeito, na medida em que a castração marca a inacessibilidade à mãe como objeto e, inevitavelmente, nenhum outro é capaz de substituí-la totalmente. Assim, não há nada no campo dos bens capaz de substituir esse “bem primordial”, reconhecido como supremo e julgado a suprir toda a falta do desejo.
Nesse sentido, Lacan contrapõe a ideia de Bem Supremo de Aristóteles, que o consentia como aquilo que é desejável em si, e não por outra coisa, ou seja, umbem insubstituível. Por essa perspectiva, Aristóteles não inclui o que fica de fora, e, para Lacan (1959-1960, p. 385), “não há outro bem senão o que pode servir para pagar o preço do acesso ao desejo – na medida em que esse desejo, nós o definimos alhures como a metonímia de nosso ser”.
Nesse sentido, o que se coloca para o sujeito como insuperável é a sua falta a ser, visto que a linguagem jamais alcançará traduzir o essencial do desejo. Desse modo, toda predicação do ser se resulta insuficiente.
No seminário 20 (1972-1973), Lacan (2008) lança luz sobre a ética de uma nova perspectiva, já não mais dando foco ao modelo universal da estrutura, mas ao particular de cada posição de gozo. Ou seja, se, no seminário 7, havia uma concentração do simbólico e da linguagem, pelo qual o inconsciente se estruturava em torno da falta fundamental, fazendo emergir o desejo referenciado ao reconhecimento do Outro, no seminário 20, o problema crucial gira em torno do gozo como não todo, que se ordena pela linguagem, ou seja, o sujeito tem um modo particular de gozar da língua.
Lacan, no seminário 20, formaliza o impasse da ética ao tomar a experiência por uma lógica da contingência, isto é, ao abandonar a pretensão de se forjar um saber que seja bom para todo mundo, que se pode demarcar a ética. Desse modo, Lacan nomeia o que vem a ser a ética da psicanálise ao responder: “devo extrair de minha prática a ética do Bem-dizer” (Lacan, 1974, p. 539).
4.1 ÉTICA DO BEM-DIZER
A ética do Bem-dizer deve ser compreendida por sua relação entre o dito e o dizer, de modo que o bem na psicanálise é a propósito de que ela não seja apenas bem dita, mas que se suporte o ato de dizer, isto é, “que não se recue da enunciação de uma solução contingente diante da impossibilidade de formalização de um enunciado válido para todos.” (Bispo; Couto, 2011, p. 127).
A ética do Bem-dizer diz respeito às palavras que produzem efeitos operatórios. Lacan, em seu texto “Função e campo da fala e linguagem” (1953) já evocava os efeitos da palavra na prática clínica, pelo qual poderíamos citar diversos momentos do texto que contribuiriam para o nosso entendimento do bem dizer, que vamos deixar para o próximo tópico.
Enquanto isso, podemos destacar que o Bem-dizer da psicanálise é um bem amoral e não deve ser confundido com um belo-dizer, mas trata-se de dizer o que quer ser dito em sua verdadeira enunciação. Nesses termos, a psicanálise só pode ser composta pela ética do bem-dizer o desejo, reconhecendo assim as distintas maneiras de lidar com o objeto a, abrindo novas possibilidades aos sintomas.
Assim, a ética do Bem-dizer evidenciada por Lacan é posta sob três formulações feitas por Ferreira Netto, em seu artigo “O sentido da ética no contexto psicanalítico”:
1. sendo a psicanálise uma prática que se dá pelas vias das palavras, no campo da linguagem, a ética é uma “ética do discurso”, do particular no que se opõe ao imperativo categórico universal kantiano e ao direito ao gozo sadeano;
2. a ética do Bem-dizer é a ética que leva o sujeito a dizer o seu próprio desejo; tem a ver, da parte do analista, com a interpretação e a construção; por parte do analisando, a ética implica o meio-dizer, já que a verdade não pode ser toda dita, de modo que a regra da associação livre não pode ser cumprida totalmente;
3. o Bem-dizer que satisfaça e que cause uma mutação na economia do desejo, tomando-o mais forte, pela modificação da posição do sujeito em relação ao dito. A ética do Bem-dizer e do gozo é também a ética do supereu, de onde se pode falar da clínica do real.
TEMA 5 – FUNÇÃO E CAMPO DA FALA E LINGUAGEM
“Numa libertação do sentido aprisionado que vai da revelação do palimpsesto à palavra dada do mistério e o perdão da fala”, declara Lacan no seu texto que ficou conhecido como “O discurso de Roma”.
Nesse texto, encontram-se as características do pensamento lacaniano da década de 1950, em que ele busca resgatar os fundamentos da psicanálise que se instituem precisamente no campo da fala e linguagem, visto que os que se nomeavam pós-freudianos haviam traçado um caminho que se desviava dos conceitos básicos que compunham a própria técnica psicanalítica.
A relevância do texto é marcada pelo próprio Lacan, que inicia o texto assim: “o discurso que encontraremos aqui merece ser introduzido por suas circunstâncias. Pois ele traz delas a marca” (p. 237).
Apesar de esse texto trazer o estilo lacaniano de ser, em que fica exposto o seu tipo erudito e toda complexidade de sua escrita, é um texto indispensável para a reflexão da psicanálise. Por ora, traremos alguns pontos para a nossa reflexão.
Lacan, ao fazer a distinção “fala vazia e fala plena”, diz que a fala vazia é aquela que habita o registro imaginário e diz respeito ao eu e, consequentemente, aos seus processos de identificação pelo qual o sujeito se perde na linguagem como objeto. Muitas das vezes vêm a funcionar como obstáculo para estabelecer a transferência. A fala plena é a fala que faz ato, e por consequência que forma a verdade, estabelecendo um reconhecimento dialético na relação analítica. Nesse momento da obra, Lacan impõe ao trabalho o anúncio da verdade do desejo e o reconhecimento desse desejo pelo outro.
A fala vazia é a que o analista tem ao seu dispor, e mesmo que ela deva ser ultrapassada e seguir na direção da palavra plena, não há como deixar de passar pela estrutura imaginária do eu.
O único objeto que está ao alcance do analista é a relação imaginária que o liga ao sujeito como eu, e, na impossibilidade de eliminá-la, é lhe possível servir-se dela para regular o afluxo de seus ouvidos, segundo o uso que a fisiologia, de acordo com o Evangelho, mostra ser normal fazer: ouvidos para não ouvir, ou, dito de outra maneira, para fazer a detecção do que deve ser ouvido. (p. 255, grifos do autor)
Assim, a fala é o único meio operador, na medida em que ela confere um discurso que dá sentido às funções do individuo, sendo em suas histórias o que constitui a emergência da verdade no real. No entanto, Lacan enfatiza que, na retransmissão desse discurso, o analisante não pode receber de volta, da mesma forma alienante, portanto, há que se fazer emergir o terceiro termo, que é descoberta freudiana – o inconsciente. “O inconsciente é a parte do discurso concreto, como transindividual, que falta à disposição do sujeito para restabelecer a continuidade de seu discurso consciente” (Lacan, [S.d.], p. 260). Lacan completa essa reflexão com a seguinte declaração, que jamais pode ser esquecida pelos psicanalistas: “o inconsciente é o capítulo de história que é marcado por um branco ou ocupado por uma mentira: é o capítulo censurado. Mas a verdade pode ser resgatada; na maioria das vezes, já está escrita em outro lugar.” E lista da seguinte maneira:
· nos monumentos – e esse é meu corpo, isto é, o núcleo histérico da neurose em que o sintoma histérico mostra a estrutura de uma linguagem e se decifra como uma inscrição que, uma vez recolhido, pode ser destruída sem perda grave;
· nos documentos de arquivo, igualmente – e esses são as lembranças de minha infância, tão impenetráveis, quando não lhes conheço a procedência;
· nas evoluções semânticas – e isso corresponde ao estoque e às acepções do vocabulário que me é particular, bem como ao estilo de minha vida e a meu caráter;
· nas tradições também, ou seja, nas lendas que sob forma heroicizadas veiculam minha história;
· nos vestígios, enfim, que conservam inevitavelmente as distorções exigidas pela reinserção do capítulo adulterado nos capítulos que o enquadram, e cujos sentidos minha exegese se restabelecerá.
Nesse sentido, Lacan sublinha que no valor da fala essa reverberação do discurso do outro que constitui a fala plena. Ou seja, o que parece ser prolixidade no nível da informação funciona como ressonância no nível do inconsciente, visto que o que importa é o ato de endereçamento ao outro; “pois, nela, a função da linguagem não é informar, mas evocar.” ([S.d.], p. 299).
NA PRÁTICA
A ética da psicanálise se inscreve pela sua prática, ou seja, o queé a psicanálise? É aquilo que o psicanalista faz, disse Lacan. O desejo do analista é o que deve entrar na análise em parceria com o analisante, e não o desejo do analista, portanto, a fúria sanante, a orientação política, religiosa não esta em causa, pois o analista em sua posição de analista é um depositario das historias que enlaçam a estrutura que constitui o sujeito.
Em nossa época, estamos presenciando muitos psicanalistas que usam a teoria psicanalítica para tentar validar o seu discurso político, se colocam como tendo posse de uma verdade e abandonam a lógica que sustenta o discurso psicanalítico que é a ética do Bem-dizer. Portanto, é importante ressaltar que o psicanalista, quando faz isso, não age como analista, mas como sujeito desejante, que se utiliza da teoria para tamponar a sua falta, portanto, trata-se muito mais de uma posição perversa, que se distancia da verdade da prática psicanalítica.
FINALIZANDO
· O desejo do analista é por excelência o desejo de que haja análise.
· O lugar do analista é o lugar do vazio, para que emerja o discurso do sujeito.
· O discurso do analista entra assumido o lugar do objeto a que vai na direção do sujeito, colocando em causa o seu saber.
· A ética da psicanálise é a ética do Bem-dizer do sintoma do sujeito.
· A função e o campo da fala e linguagem marcam o ensino lacaniano e reiteram o retorno à essência do conceito freudiano, restaurando a fala na direção da fala plena.
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