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Karitiana Disponível em: . Acesso em:09 mar. 2021. Autodenominação: Yjxa Família linguística: Arikén Os Karitiana constituem um dos muitos grupos do estado de Rondônia ainda pouco estudados pela Antropologia. Nos últimos anos, suas principais batalhas em nome de sua reprodução física e sócio-cultural têm sido a reivindicação do reestudo dos limites de sua Terra Indígena e o investimento na educação escolar, como forma de reforçar o ensino da língua karitiana – a única remanescente da família lingüística Arikém –, bem como de valorização dos costumes e histórias que os particularizam como povo. Denominação e população Rapaz karitiana trançando uma peça de cestaria a ser comercializada. Foto: Felipe Ferreira Vander Velden, 2003. Não se conhece a origem ou a etimologia da palavra Karitiana, que os próprios índios afirmam ter-lhes sido atribuída por seringueiros que penetraram seu território no final do século XIX e início do século XX. Os Karitiana denominam-se simplesmente Yjxa, pronome da primeira pessoa do plural inclusivo – “nós”, também traduzido como “gente” –, em oposição aos Opok, os “não-índios” em geral, e aos opok pita, os “outros índios”. A população Karitiana atual é de cerca de 320 pessoas (comunicação pessoal, Nelson Karitiana). Em agosto de 2003, Felipe Ferreira Vander Velden realizou um recenseamento que registrou 270 pessoas, das quais cerca de 230 residiam na aldeia Karitiana, ao passo que os outros 40 estavam distribuídos nas cidades de Porto Velho e Cacoal. A depressão demográfica do passado [ver item Histórico do contato] foi revertida com sucesso e, nos últimos trinta anos a população Karitiana vem crescendo de forma espetacular. Os dados comprovam: População Ano Fonte 64 1970 Monteiro 1984 65 1973 D.Landin & R.Landin 1973 78 1976 D.Landin 1988 109 1983 Leonel & Junqueira 1983 168 1994 Lúcio 1996 185 1997 Storto 1997 220 1999 ISA 2000 270 2003 Vander Velden 2004 320 2005 Nelson Karitiana (com. pessoal) Ou seja, somente na última década (até o censo de Vander Velden) a população Karitiana cresceu em 60%! Uma rápida visita à aldeia surpreende pelo elevado número de recém-nascidos e crianças, bem como de http://img.socioambiental.org/d/213009-1/karitiana_2.jpg mulheres grávidas. Os Karitiana observam com alegria e contentamento a superação das antigas perspectivas de extermínio, apontando para um posicionamento ativo do grupo que, mesmo conhecendo técnicas anticoncepcionais, as teriam abolido como forma de fazer crescer novamente a população. Histórico do contato A fotografia mais antiga de que se tem notícia de um Karitiana. Foto: membro da Expedição de Carlos Chagas à Amazônia, 1912. Muito pouco se sabe da história dos Karitiana antes do despontar do século XX. A primeira referência a esse grupo na literatura data de 1909, pelo capitão Manoel Teophilo da Costa Pinheiro, um dos membros da Comissão Rondon; em 1910 o próprio Marechal Rondon menciona os Karitiana, então nas imediações do médio rio Jaci-Paraná: estes são os dados anotados por Curt Nimuendajú no seu Mapa Etno-histórico. Entretanto, ao que parece, os primeiros contatos com os brancos teriam ocorrido ainda no final do século XVIII, e intensificados com a chegada maciça de seringueiros e caucheiros em fins do século XIX. Todavia, os Karitiana permaneceram arredios ao contato sistemático até os anos 50, e a presença dos brancos tornou- se permanente apenas a partir de meados desta década, com a intervenção do SPI e de missionários salesianos. O grupo parece ter apresentado notável mobilidade no transcorrer do século XX, possivelmente pressionado pelas frentes de penetração da sociedade envolvente. Se a referência do capitão Manoel da Costa Pinheiro indica a presença dos Karitiana no Jaci-Paraná em 1909, um mapa esboçado por J. Barboza em 1927 localiza os Karitiana na margem esquerda do médio e baixo Candeias, entre este rio e o Jaci-Paraná; a área compreendida entre os rios Candeias e Jamari, importantes afluentes da margem direita do rio Madeira, é declarada território dos Arikém (Ariquême). Nesta mesma área, em 1948 os registros da 9a. Inspetoria Regional do SPI situam os Karitiana ligeiramente mais para o leste. Entre 1950 e 53 eles são localizados no médio rio Candeias, no que parecia ser uma nova movimentação rumo ao ocidente; provavelmente nas proximidades deste local o grupo recebeu a visita de três padres salesianos em 1958. Ainda mais ao poente, em 1967-69 o Posto Indígena Karitiana foi instalado, no alto rio das Garças. Aparentemente, alguns anos depois o grupo dirigiu-se um pouco mais para o oeste, vindo a ocupar o sítio atual, às margens do igarapé Sapoti. De acordo com suas narrativas históricas, os Karitiana experimentaram um brutal declínio demográfico após o contato com os brancos; Darcy Ribeiro considerou-os extintos em 1957. Tal situação levou o grupo a medidas extremas para evitar sua completa extinção. Primeiro, um antigo líder, Antônio Morais, teria desposado várias mulheres Karitiana (7 ou 10, de acordo com diferentes versões), inclusive algumas em princípio interditas pelas regras matrimoniais. Este evento acabou por gerar uma população densamente relacionada do ponto de vista genealógico e também genético: um estudo da Universidade Federal do Pará, de 1991, demonstrou que o coeficiente de consanguinidade médio – que mede o grau de parentesco genético de uma população – dos Karitiana é de 0,142 (entre primos de primeiro grau este valor é de 0,125). Todos os Karitiana menores de 16 anos, ainda segundo a pesquisa, descendem do chefe Morais, muitas vezes por diferentes vias genealógicas. O grupo liderado pelo chefe Morais mantinha-se no médio Candeias, trabalhando para um seringueiro em troca de bens industrializados. Em algum momento, possivelmente por volta dos anos 1930 ou 40, este grupo deixou a região, repudiando o contato com os brancos. Dirigiram-se para o oeste, encontrando um outro grupo – chamado Capivari ou Joari, segundo versões diversas – dos quais provavelmente se separaram nos momentos iniciais do contato, no começo do século XX (os Karitiana, ao narrarem o episódio do encontro, sublinham a possibilidade de comunicação, uma vez que os dois grupos falariam a mesma língua). Os dois grupos http://img.socioambiental.org/d/213016-1/karitiana_3.jpg reuniram-se na área atualmente ocupada pelos Karitiana, que eles reconhecem, hoje, como o antigo território Capivari\Joari. Nesta região retomaram o contato com os brancos, no final da década de 50. Suas tradições históricas sublinham a vital importância do encontro entre os dois grupos: com as populações de ambos os grupos muito reduzidas, os casais formados após a união mostraram-se fundamentais para a posterior recuperação demográfica e cultural do povo. Desconhece-se a razão pela qual o grupo formado a partir da reunião de Karitiana e Capivari\Joari preservou a denominação dos primeiros, mas é provável, a crer nas memórias atuais, que Antônio Morais tenha se tornado um doador pródigo de mulheres – pois os Karitiana contam que Morais buscara entre os Capivari\Joari homens que desposassem suas muitas filhas – e seu prestígio tenha crescido enormemente em função dos muitos genros que trouxe para sua órbita; ao mesmo tempo, Morais já era um líder conhecido na região à época dos primeiros contatos permanentes com os brancos, peça-chave na mediação entre estes e os Karitiana: em 1957 foi levado a Porto Velho com seu filho José Pereira, e os dois teriam sido os primeiros Karitiana batizados, conforme o registro existente na Catedral da capital rondoniense. A terra indígena e a aldeia Casa karitiana na aldeia Kyõwã. Foto: Felipe Ferreira Vander Velden, 2003. A Terra Indígena Karitiana apresenta-se como um quadrilátero localizado inteiramente no município de Porto Velho, estadode Rondônia. Uma porção considerável do leste do território homologado incide sobre a Floresta Nacional do Bom Futuro. A área apresenta cobertura vegetal do tipo floresta ombrófila aberta, com alguns trechos de floresta ombrófila fechada. Cortado por inúmeros igarapés afluentes do rio Candeias, o terreno eleva-se na direção leste, onde está a Serra Morais, local de importância histórica e simbólica para os Karitiana. Esta área foi deixada de fora da terra demarcada, assim como todo o território que se estende dos limites da área indígena até o rio Candeias, e entre este e o rio Jamari, que os Karitiana apontam como território tradicional do grupo e almejam, algum dia, recuperar. A recente tentativa (2003) de reocupar a área a partir da instalação de uma aldeia às margens do Candeias – fora, portanto, da demarcação atual – e da criação de um GT da Funai para estudar a ampliação do território foi violentamente frustrada por fazendeiros locais que atearam fogo à maloca, destruindo-a (em setembro de 2003). No momento, a Terra Indígena Karitiana apresenta-se livre de invasões. Num passado recente, foi alvo da exploração madeireira e mineradora (cassiterita). Fazendas de gado cercam os limites setentrionais da área, mas o perímetro restante é integralmente ocupado pela mata. Distante aproximadamente 100 km de Porto Velho, o acesso à única aldeia Karitiana é feito pelo asfalto da BR-364. Na altura do quilômetro 50 da rodovia inicia-se uma estrada de terra de cerca de 45 km que leva, pelo meio da floresta, à aldeia. A aldeia atual – Kyõwã, literalmente “boca [sorriso] de criança”, “pois a aldeia é bonitinha como sorriso de criança” –, é dividida ao meio pelo igarapé Sapoti, afluente do rio Candeias. Na margem esquerda do igarapé, onde desemboca a estrada de acesso à aldeia, localizam-se a sede administrativa e as estruturas instaladas pela Funai, além das residências de parte das famílias. Na margem direita do igarapé, está situada a maior parte das residências familiares. As casas karitiana atuais seguem o modelo regional, de duas águas, mas a matéria de sua construção varia: há moradias de madeira, de taipa e mesmo algumas construções de alvenaria. As construções antigas, erguidas com troncos, cipó e palha de babaçu– ambi atyna, “casa redonda” – foram abandonadas há algumas décadas, mas os Karitiana orgulham-se de recordar sua construção: há duas delas na aldeia, na extremidade meridional http://img.socioambiental.org/d/213022-1/karitiana_4.jpg de cada uma das margens do igarapé; a da margem direita é bem maior e representa, aos olhos dos índios, modelo fiel das casas de antigamente, aquele ensinado aos índios por Botyj a divindade criadora. Construídas com esforço demorado de alguns mais velhos, essas imponentes construções funcionam, hoje, não mais como moradias, mas como “igrejas” (o termo é dos Karitiana): reinterpretadas à luz da oposição religiosa que cinde os Karitiana atualmente, as ambi atyna são, hoje, literalmente, “casas de Deus”. No passado, dizem, abrigavam uma família extensa organizada em torno de um homem de prestígio – “chefe” –, que com sua família ocupava a porção mais distante da porta; os homens casados situavam-se na parte central, e os jovens solteiros junto à entrada. As residências atuais abrigam, em sua maioria, uma família conjugal. A proximidade com Porto Velho resulta em intensa mobilidade dos índios, que visitam freqüentemente a cidade em busca, sobretudo, da Funai e dos serviços de saúde. O órgão indigenista mantém alojamentos anexos ao seu prédio principal – a Casa do Índio – quase sempre ocupada por uma ou mais famílias karitiana de passagem por Porto Velho. O transporte é facilitado pelas viaturas da Funasa, da Cunpir (Coordenação das Organizações Indígenas de Rondônia e Oeste do Mato Grosso, entidade que integra as numerosas associações indígenas na região), do Cimi-RO e da própria Funai que, ao menos uma vez na semana, cumprem o trajeto entre a aldeia e a capital. Por esta razão, os Karitiana contam com um sistema de atendimento à saúde razoavelmente eficaz. O posto médico possui material e medicamentos básicos para atendimento local, e – isso é importante reter – é administrado por uma auxiliar de enfermagem e dois agentes de saúde, todos Karitiana. Alguns jovens resolveram dedicar-se ao aprendizado de conceitos básicos de enfermagem, com o objetivo de que a comunidade se tornasse independente de enfermeiros brancos. A enfermaria local fica por vários meses nas mãos dos membros da comunidade, que sabem administrar remédios para as principais doenças e a diagnosticar os casos de malária de forma mais exata, através da leitura de lâminas de sangue. Os casos mais complicados são encaminhados para Porto Velho. No entanto, muito resta por ser feito. A ocorrência de malária, por exemplo, ainda é bastante elevada: como se sabe, Rondônia registra uma das taxas mais altas de incidência da doença no Brasil. Atividades econômicas Mulher karitiana preparando a farinha de milho. Foto: Felipe Ferreira Vander Velden, 2003. Os Karitiana são, ainda hoje, agricultores, caçadores e pescadores. A agricultura de coivara – sobretudo macaxeira, milho, arroz, feijão e café – é realizada nas terras ao redor da aldeia, pelas unidades familiares, o que não exclui a troca de trabalho entre famílias. Nos roçados, algumas famílias mantêm casas – chamadas “sítios” – para onde se transferem por vários dias na ocasião da intensificação das atividades agrícolas. Da agricultura ocupam-se homens e mulheres, ainda que a derrubada e a queima dos terrenos caibam exclusivamente aos homens (um mito, recolhido por Rachel Landin, destaca o grande perigo associado a esta atividade). Ao redor das residências cada família mantém o que denominam de “quintais”, onde são plantadas sobretudo fruteiras, cuja diversidade é bastante grande. A caça é uma atividade eminentemente masculina. Os homens em geral caçam sozinhos, ou em grupos de dois ou três; utilizam armas de fogo, ainda que alguns mais velhos afirmem ainda utilizar arco e flechas. Armadilhas diversas também são utilizadas. Os Karitiana dizem que a carne de macaco é a “carne primeira dos índios”, a mais apreciada. Macaco-preto, macaco-prego, queixada, caititu, paca, cutia, veado (roxo e capoeira) e diversas aves (especialmente mutum, tucano, jacu e diferentes espécies de nambu) são os principais animais caçados. http://img.socioambiental.org/d/213025-1/karitiana_5.jpg A pesca é, em geral, uma atividade coletiva, que envolve também crianças. É realizada com redes, anzol e arco e flechas. Nos meses de seca aguda – agosto e setembro –, em que o volume dos igarapés se reduz drasticamente, organizam-se pescas com timbó. Nesta época a abundância de pescado possibilita a realização de um dos principais rituais karitiana, a festa da jatuarana, um peixe muito apreciado. É preciso destacar que a intenção dos Karitiana de recuperar ao menos parte de seu território tradicional, com a ampliação da Terra Indígena, além da importância histórica e simbólica, remete também a uma preocupação de ordem prática. Todos na aldeia são unânimes em destacar o esgotamento das reservas de caça e pesca no interior da área: as expedições têm chegado cada vez mais longe, muitas vezes extrapolando os limites demarcados; e os resultados têm sido mais e mais desapontadores. De todo modo, a ampliação do território garantiria aos Karitiana uma reserva inestimável de recursos, necessária ao bem-estar do grupo. A dependência de gêneros alimentícios e bens industrializados leva os Karitiana a comercializarem parte dos produtos de suas atividades na cidade. Milho, café e feijão – além de algumas frutas como a laranja e o açaí – são os principais gêneros que, em Porto Velho, encontram fácil comprador. O artesanato – bastante diversificado e produzido por todas as famílias da aldeia – é comercializado nas dependênciasda Associação do Povo Karitiana (Akot Pytim’adnipa), com sede própria, ou em feiras permanentes e esporádicas de artesanato na capital de Rondônia e outras cidades da região. O volume de vendas, contudo, é pequeno, em função, principalmente, do reduzido fluxo de turistas que visitam Porto Velho. Por esta razão, os Karitiana vêm buscando alternativas para expandir as praças de comercialização de sua cultura material. O modelo de apropriação dos lucros obtidos na cidade espelha aquele das atividades produtivas: cabe a cada produtor e sua família o resultado monetário da venda dos gêneros agrícolas: isso porque o artesanato é uma atividade da qual se ocupam homens, mulheres e crianças. O mesmo pode ser dito do comércio do produto – as etiquetas de identificação e preço das peças em exposição trazem sempre o nome do artesão –, ainda que uma pequena parcela do valor seja retida pela Associação, que assim mantém-se em funcionamento. Esta prerrogativa da Associação aponta, ainda, para uma tentativa, entre os Karitiana, de administrarem coletivamente os problemas que se apresentam hoje. No entanto, se a iniciativa de assembleias gerais do povo – realizadas na aldeia, com a presença de praticamente todos os adultos – cabe aos jovens dirigentes da Associação, durante as reuniões a estrutura política vigente na aldeia é desvelada na crucial importância dos discursos dos homens mais velhos – especialmente do pajé e do chefe tradicional, byj – e na participação ativa das mulheres no processo decisório