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DESENVOLVIMENTO DAS HABILIDADES MOTORAS FUNDAMENTAIS E ESPECIALIZADAS COMO BASE PARA PRÁTICA ESPORTIVA Francisco Cristiano Sousa Paulo Souza 2 Expediente Copyright @ 2024 by Fundação Demócrito Rocha FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA Presidente Luciana Dummar Gerente-Geral Marcos Tardin Gerente Educacional Deglaucy Jorge Teixeira Gerente de Criação de Projetos Raymundo Netto Gestores Editoriais Interinos Marcos Tardin Deglaucy Jorge Teixeira Juliana Oliveira Gerente de Marketing e Design Andrea Araújo Gerente de Audiovisual Chico Marinho Gerente Técnico Ronald Almeida Coordenadora de Operações Juliana Oliveira Coordenadora de Projetos e Relacionamento Fabrícia Gois Analista de Contas Narcez Bessa Analista Financeiro Lecinda Mesquita Analista de Licitação Aurelino Freitas UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE – UANE Gerente Pedagógica Josy Cavalcante Coordenaora de Cursos Marisa Ferreira Secretária Escolar Márcia Maria Doudement Desenvolvedora Front-End Isabela Marques Assistentes educacionais Alisson Aragão Ana Lívia Cavalcante Estagiários Bianka Silva Lucas Gomes Matheus Andrade MARKETING E DESIGN Gerente de Marketing e Design Andrea Araujo Designers Gráficos Kamilla Damasceno Welton Travassos Analista de Mídia Social Beatriz Araújo PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DA PRÁTICA ESPORTIVA Coordenadora Geral Valéria Xavier Analista de Operações Alexandra Carvalho Coordenador de Conteúdo Ricardo Catunda Analista de Projetos Daniele Andrade Editora Lia Leite Ilustrador Rafael Limaverde Revisora Daniele Andrade Este fascículo é parte integrante do projeto Programa de capacitação dos Princípios da Prática Esportiva em decorrência do Contrato de Patrocínio celebrado entre a Fundação Demócrito Rocha (FDR) e a Secretaria do Esporte do Estado do Ceará, sob o nº 000114038-15201900. FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA | UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE2 Sumário Introdução .........................................................................4 1. Definição de conceitos ...................................................5 2. Habilidades motoras fundamentais como base para o esporte ............................................................7 3. Habilidades motoras especializadas ............................ 10 Conclusão ........................................................................ 13 Referências ...................................................................... 14 CURSO PRINCÍPIOS DA PRÁTICA ESPORTIVA 3 O esporte se apresenta como um im- portante elemento para a formação humana na medida em que agrega numa mesma atividade as dimensões físi- cas, motoras, lúdicas, corporais, culturais, técnicas e táticas, espirituais, psicológicas, sociais e afetivas (Tani; Bento & Petersen, 2006). Todo este potencial formativo con- tribui para que o esporte esteja presente como um dos elementos da cultura de di- versos países do mundo. As evidências cien- tíficas apontam para o papel que o espor- te desempenha na saúde e bem-estar dos adolescentes (Mckay et al., 2019). A prática de esportes contribui para o pleno desenvolvimento humano (Gaya, Marques & Tani, 2004) e a prática esportiva se materializa por meio da execução das diversas técnicas esportivas específicas de cada modalidade, que por sua vez são precedidas pela correta execução das ha- bilidades motoras fundamentais (HMF) e habilidades motoras especializadas (HME), ou seja, a habilidade motora vem primeiro, depois vem a técnica esportiva (Tani; Bento & Petersen, 2006). Para além de servir de base para o de- sempenho nas técnicas esportivas, a pro- ficiência nas HMF contribui com melho- res níveis atividade física (AF) e saúde das crianças (Duncan, Bryant, & Stodden, 2017; Jones et al., 2020) e a proficiência nas HMF e HME favorece a obtenção de melhores ní- veis de saúde dos indivíduos ao longo da vida (Barnett, Van Beurden, Morgan, Brooks, & Beard, 2008; Cattuzzo et al., 2016; Barnett et al., 2019; Sackett & Edwards, 2019; Dun- can, Hall, Eyre, Barnett, & James, 2021), o que leva ao entendimento de que propor- cionar esta educação motora de base con- tribui para a formação esportiva, para a saú- de e cidadania das crianças e adolescentes. Ao final deste módulo, você deverá ser capaz de: Introdução • Diferenciar os conceitos de HMF, HME, competência motora e proficiência motora, compreendendo a transição das HMF para as HME e habilidades es- portivas. • Estabelecer relação da proficiência motora com os níveis de AF, saúde e prática esportiva ao longo da vida. • Compreender as HMF e HME como ele- mentos preditores para a prática espor- tiva no contexto da educação, partici- pação e do rendimento. FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA | UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE4 Definição de conceitos 1 A compreensão dos conceitos é funda- mental para que os profissionais de educação física possam desenvolver práticas que levem ao cumprimento dos objetivos de ensino. Diante do exposto, você deve se familiarizar os seguintes conceitos: Habilidades motoras fundamentais São padrões básicos de movimento consi- derados como “blocos de construção” de habilidades mais complexas e específicas do contexto, como os esportes, as danças, as lutas e as ginásticas (Malina et al., 2009; Logan et al., 2018). Habilidade motora especializada São padrões de movimentos formados pela combinação de duas ou mais HMF que atin- giram sua fase madura, podendo ser utiliza- das nas atividades cotidianas e na prática dos esportes, danças, lutas, jogos e ginásti- cas (Gallahue & Ozmun, 2005). Competência motora É a capacidade do indivíduo de realizar uma ampla gama de movimentos coordenados e controlados que permitam alcançar um resultado satisfatório em tarefas da vida diária, ou dos esportes (Estevan & Barnet, 2018). Proficiência motora É a performance e/ou resultado obtido em testes motores, sendo também utilizado como sinônimo de competência motora (Venetsanou & Kambas, 2016). CURSO PRINCÍPIOS DA PRÁTICA ESPORTIVA 5 Habilidades motoras fundamentais As HMF estão dividas em habilidades de equilíbrio, de controle de objetos e locomo- toras e seu desenvolvimento é influenciado por fatores genéticos, da tarefa e ambien- tais, sendo o ambiente e a tarefa modifi- cáveis, tornando possível a intervenção do profissional de educação física na estrutu- ração destes dois fatores com vistas ao ple- no desenvolvimento das HMF por parte dos alunos. As crianças podem apresentar diferen- tes níveis de desenvolvimento das HMF, podendo ser classificado em elementar, in- termediário e maduro (proficiente), sendo que todas elas têm potencial para alcançar níveis maduros da maior parte das HMF por volta dos 6/7 anos (Malina et al., 2009), po- dendo alcançar a proficiência até por volta dos 10 anos quando submetidas a interven- ções de boa qualidade metodológica (Ban- deira, De Souza, Zanella, & Valentini, 2017). A figura abaixo mostra um exemplo dos três estágios de desenvolvimento de uma habi- lidade motora. Conhecendo as habilidades motoras fundamentais Habilidade de locomoção: Cami- nhada, corrida, salto de uma deter- minada altura, salto vertical, salto em distância, saltito, galope e deslizamen- to, pulo, salto misto. Habilidades de manipulação: Rola- mento de bola, arremesso por cima, recepção, chute, ato de aparar, rebati- da, quicar bola, voleio. Habilidades de equilíbrio: Movi- mentos axiais, giro corporal, desvio, equilíbrio em um só pé, rolamento do corpo, caminhada direcionada, apoios invertidos. FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA | UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE6 2 Habilidades motoras fundamentais como base para o esporte A literatura indica que a participação em esportes organizados contribui para a proficiência nas HMF de crianças (Da Silva Sousa et al., 2016; Ribeiro-Silva et al., 2018; Schembri et al., 2019), contudo, o objetivo nesta seção é analisar se o inverso também é verdadeiro, ou seja, se a profici- ência nas HMF contribui para o desenvolvi-mento das habilidades esportivas. Ser proficiente nas HMF, HME e ter boa percepção de competência motora contri- buiu mais que a aptidão física para o apren- dizado das habilidades técnicas do futebol por parte de crianças de 7 a 12 anos (Dun- can et al., 2022a) e adolescentes (Duncan et al., 2022b). Estimular o desenvolvimento das HMF juntamente com o treino das capa- cidades físicas pode ser relevante para a for- mação de jogadores. Crianças praticantes de futebol da categoria sub-10 proficientes nas HMF apresentaram melhores qualida- des técnicas e táticas quando comparadas com crianças não proficientes. Ainda sobre o futebol, ser proficiente nas HMF já na primeira infância pode favorecer um melhor nível técnico de controle da bola, precisão de passe, chute mais eficien- te e desempenho técnico geral por parte de adolescentes (Subhan & Suripto, 2024), resultado que evidencia que estimular o desenvolvimento das HMF na fase correta pode gerar melhorias de longo prazo na performance atlética dos futebolistas. Ao que parece, crianças e adolescentes proficientes nas HMF apresentam melhores níveis de autoconfiança física (McGrane et al., 2017), o que pode estimular a adesão à prática de esportes organizados como o futebol portanto, o profissional de educa- ção física deve entender que ser proficiente nas HMF é tão importante quanto ter boa aptidão física para desempenhar bem no futebol (Kokstejn & Musalek, 2019), já que é necessário um certo nível de domínio des- tas habilidades motoras para desenvolver as habilidades específicas do jogo. Deve-se partir do entendimento de que a proficiência nas HMF se apresenta como uma barreira potencial para o aprendizado das habilidades esportivas, é o que Costa et al., 2021 indica ao identificar que a pro- ficiência nas HMF influenciou no desenvol- vimento das habilidades relacionadas ao saque do vôlei de crianças e no padrão de movimento e precisão na execução do sa- que e ataque (Costa et al., 2018). Outro exemplo de associação positiva entre proficiência e aprendizado de habi- lidades esportivas é o da ginástica rítmica, onde crianças proficientes nas HMF apre- sentaram melhor aprendizado das habilida- des para todos os aparelhos (Kezić, Miletić & Lujan, 2018). Estimular a proficiência nas HMF é possibilitar a inclusão das crianças nas práticas físicas e esportivas, assim sen- do deve-se atentar para não ensinar as ha- bilidades esportivas antes das HMF. CURSO PRINCÍPIOS DA PRÁTICA ESPORTIVA 7 Ensinando as habilidades motoras fundamentais As HMF não “emergem naturalmente” du- rante a infância e são desenvolvidas como resultado da interação entre vários fatores (Haywood & Getchell, 2016), dentre os quais, o ensino desempenha um papel importante ao possibilitar o acesso a experiências que estimulem as crianças a desenvolver níveis proficientes nas HMF. A evidência científica aponta que a in- tervenção docente de qualidade orientada para o ensino das HMF pode contribuir para que os alunos alcancem a proficiência nes- sas habilidades (McDonough, Liu, & Gao, 2020) para tanto, a estruturação das ativida- des de ensino deve seguir alguns princípios para garantir que todas as crianças se tor- nem proficientes nas HMF. Segundo Valen- tini & Toigo, 2006 os princípios são: 1. Criação de um ambiente favorável à prática que promova a inclusão de todos os alunos por meio de ativida- des adequadas às crianças de dife- rentes níveis de habilidade. 2. Implementação de um protocolo a ser combinado com os alunos, dei- xando claro o tempo necessário para a prática, como se organizar para as atividades, a atenção nos momentos de instrução e de mudança de uma atividade para a outra. 3. Estimulação da socialização e coo- peração entre os pares para induzir o desenvolvimento das habilidades socioemocionais e a troca de feed- backs entre os alunos sobre as habi- lidades praticadas. 4. Organização do ambiente e dos materiais antes do início das aulas como forma de aumentar o tempo efetivo de aula, garantir a seguran- ça dos alunos durante as práticas e evitar a dispersão da turma durante a troca de atividades. 5. Demonstração como facilitadora da aprendizagem por meio da execu- ção de uma habilidade por parte do professor, de um aluno, bem como, da apresentação de uma figura ou de um vídeo, já que o desempenho motor do aluno tende a ser influen- ciado pela exibição de um modelo. 6. Utilização de dicas verbais como facilitadoras da aprendizagem para direcionar a atenção dos alunos para aspectos relevantes das habi- lidades. 7. Feedback contínuo para motivar o aluno e facilitar a aprendizagem, guiando-o na execução correta da tarefa e reforçando o desempenho correto da HMF. FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA | UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE8 Existe alguma proposta interventiva que nos ajude a estruturar as aulas e treinos de esportes de forma a estimular o desen- volvimento das HMF? A resposta é sim! No Brasil, temos o modelo do “Clima motiva- cional para a maestria” que é uma proposta interventiva estruturada a partir de evidên- cias científicas com foco na proficiência das HMF. Neste modelo, as aulas estão estrutu- radas com a prática de atividades analíticas e jogos orientados para as HMF (Valentini & Toigo, 2006). As premissas pedagógicas deste mo- delo são: 1. Tarefa: oferta de uma variedade de tarefas dirigidas e jogos orientados. 2. Autonomia: o professor estimula que as crianças executem as tarefas e resolvam as situações problemas de forma independente, a partir das suas capacidades. 3. Reconhecimento: as crianças rece- bem estímulos positivos para todos os avanços na proficiência motora e o erro de execução é valorizado como meio para a aquisição da pro- ficiência nas HMF. 4. Grupo: todas as atividades são de- senvolvidas sempre em grupos para estimular a socialização e a percep- ção de avanços e dificuldades entre as crianças. 5. Evaluation (avaliação): as crian- ças são estimuladas a autoavaliar seu desempenho em todas as ta- refas e jogos como forma de bus- car um progresso contínuo, tendo como referência o processo (evolu- ção no nível de proficiência) e o pro- duto (nível de proficiência). 6. Tempo: o professor estimula a prá- tica contínua das tarefas e jogos para que as crianças percebam que a persistência temporal na execu- ção das atividades levará à profici- ência motora. CURSO PRINCÍPIOS DA PRÁTICA ESPORTIVA 9 As HME são formadas a partir da combi- nação entre duas ou mais HMF madu- ras. A proficiência no maior o número de HMF possibilitará um maior repertório de HME e dificulta o desenvolvimento de auto- matismos motores (Güllich, Macnamara & Hambrick., 2022), mostrando que a varieda- de das práticas é um importante elemento para o desempenho esportivo de excelência sustentado a longo prazo, seja no esporte educacional, participação ou rendimento. Habilidades motoras especializadas 3 FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA | UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE10 O desenvolvimento das HME é influen- ciado positivamente por diversos fatores como o peso saudável, sexo (masculino), bom estatuto socioeconômico, níveis ade- quados de AF e a participação esportiva (Barnet et al., 2016), sendo negativamente influenciado por um número limitado de oportunidades para a prática, ausência ou deficiência de ensino, falta de encoraja- mento e por não ser proficiente nas HMF (Gallahue & Ozmun, 2005). Observa-se que os profissionais de edu- cação física podem intervir em muitos dos fatores que influenciam o desenvolvimen- to das HME já que são modificáveis. Assim sendo, as intervenções devem estimular o desenvolvimento e manutenção da coorde- nação das HME, já que esta capacidade co- ordenativa pode diminuir com o avanço da idade, especialmente em crianças com so- brepeso ou obesidade (Giuriato et al., 2019). Habilidades motoras especializadas relacionadas à prática esportiva É comum escutar que a proficiência nas HME é a base para osucesso na prática es- portiva. Nesta seção serão listadas evidên- cias que respondam à questão: a profici- ência nas HME de fato contribui para uma melhor performance esportiva? Atletas de elite de badminton que se mostraram proficientes nas HME apresen- taram melhor nível de habilidades especí- ficas da modalidade (Jaworski et al., 2021), de forma que essas habilidades devem ser levadas em consideração no treinamento técnico desses atletas, especialmente nas categorias de base. Estimular a proficiência nas HME vai além da performance esportiva, visto que possibilita a inclusão social do indivíduo que se sente apto a se inserir na prática es- portiva, é o que mostra Chagas, Ozmun & Batista, 2017 ao identificar que mesmo em contexto de esporte participação a profici- ências nas HME favoreceu a correta execu- ção das habilidades do vôlei. Mesmo quando os adolescentes não apresentam força e velocidade desenvolvi- das nos níveis desejados para a prática com- petitiva deve-se considerar a proficiência nas HME e habilidades específicas do futebol como um critério para detecção de talentos esportivos (Romers et al., 2019). Em outras palavras, a aptidão física não deve ser o úni- co critério para decidir se um indivíduo reúne as condições para se tornar um competidor, visto que há a possibilidade de um indivíduo habilidoso desenvolver suas capacidades fí- sicas no decorrer dos treinamentos. É consenso que a criatividade é um dife- rencial para a vida e para o desempenho es- portivo, seja na competição ou no lazer. As- sim sendo, o estímulo ao desenvolvimento da criatividade passa a ser um dos objetivos a serem alcançados por meio das aulas e/ou treinos esportivos. Contudo, até que ponto a proficiência nas HME pode contribuir para a formação de jogadores criativos? CURSO PRINCÍPIOS DA PRÁTICA ESPORTIVA 11 Zahno & Hossner (2023) demonstraram que jogadores de futebol com melhor re- pertório de HME e habilidades específicas da modalidade apresentaram melhores ní- veis de criatividade nas situações reais de jogo quando comparados com jogadores submetidos a treinos direcionados ao de- senvolvimento do pensamento divergente, portanto há indícios de que a criatividade no futebol tem suas bases na proficiência nas HME. A proficiência motora nas HME também pode ser utilizada como um dos critérios para subsidiar os profissionais de educação física na definição do nível de competição para o qual os atletas estão aptos a partici- par, seja competitivo ou recreativo (O’Brien- -Smith et al., 2019). Fica claro que a profici- ência nas HME é fundamental para garantir melhores níveis de prática esportiva, seja para a saúde, para a educação ou para a competição. Ensinando as habilidades motoras especializadas A fase motora na qual são desenvolvidas as HME é composta por três estágios que devem ser conhecidos pelo profissional de educação física que deverá dinamizar ati- vidades apropriadas para cada um destes estágios (Gallahue & Ozmun, 2005). Estágio de transição – É caracterizado pelas primeiras tentativas de refino e com- binação de habilidades motoras maduras por parte do indivíduo, que se esforça para entender como fará para desempenhar determinada habilidade. Neste estágio a competência motora é limitada. O indiví- duo tende a buscar vários tipos de esportes como forma de experimentar um maior nú- mero de habilidades motoras. Estágio de aplicação – É marcado pela ênfase do indivíduo na melhoria da profi- ciência motora. Neste estágio, o treino é a peça principal para proporcionar maior do- mínio das habilidades motoras. Estágio de utilização permanente – Os indivíduos escolhem algumas atividades para participar, seja na dimensão recreativa ou competitiva como forma de buscar uma maior refinamento das HME. Não proporcionar os estímulos adequa- dos para cada um destes estágios pode acarretar sérios prejuízos ao alcance da pro- ficiência nas HME. Como forma de orientar o ensino das HME, sugere-se: 1. Estruturar o ambiente de prática de acordo com a natureza da habilida- de a ser desenvolvida. Aqui cabe ao professor conhecer a classificação das habilidades motoras como sen- do fechadas ou abertas. 2. Iniciar com atividades que possam ser controladas pelo praticante. Um exemplo seria iniciar o ensino de uma habilidade priorizando inicial- mente as tarefas motoras fechadas. 3. Introduzir situações que exijam rea- ções a fatos inesperados, na medida em que a habilidade se desenvolve. Exemplo: A cada silvo do apito o alu- no deverá executar uma habilidade diferente dentre um leque de habili- dades previamente definidas. 4. Reduzir progressivamente o grau de liberdade de execução da HME para níveis de execução com maior estabilidade, consistência e preci- são. Não se trata de mecanizar os movimentos dos alunos e sim de estimular que os alunos executem as habilidades motoras de forma proficiente. 5. Estimular o aprendiz a pensar na execução da HME, principalmente nos primeiros estágios de aprendi- zado. Ao executar o passe de futsal a bola está chegando ao colega de forma adequada? Por que o resulta- do obtido com o passe não foi satis- fatório? Questionamentos como es- tes levam os alunos a refletir sobre a execução das habilidades motoras. 6. Conhecer e respeitar o estado cogni- tivo e os objetivos do aprendiz, pois, propor atividades de baixa ou alta complexidade, ou propor atividades inadequadas para os objetivos dos alunos (Competição ou lazer) pode- rá desestimulá-los para a prática. CURIOSIDADE Você sabia que é possível prever o desempenho de jovens atletas nas habilidades específicas do vôlei ao identificar seus níveis de pro- ficiência nas HME? Esse achado científico pode auxiliar os profis- sionais de educação física e técni- cos esportivos na tomada de deci- são sobre a formação das equipes (Marinho & Vargas, 2022). FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA | UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE12 Conclusão PARA SABER MAIS Conheça outras classificações das habilidades motoras importantes para nosso módulo: Habilidades motoras abertas – São realizadas em ambientes onde a execução da habilidade por parte do indivíduo é influenciada pelas condições externas que mudam constantemente. Exemplo: Jogos e esportes coletivos onde o indivíduo executa a habilidade de acordo com o posicionamento de colegas de equipe e dos adversários. Habilidades motoras fechadas – São realizadas em ambiente estável ou previsível, permitindo ao indivíduo definir quando a ação deve iniciar. O ambiente influencia muito pouco na execução deste tipo de habilidade. Exemplo: Atividades onde os alunos executam dribles de basquete, ou condução e chute de futsal deslocando- se entre pontos pré- definidos. Após compreender que a proficiência nas HMF e HME está diretamente re- lacionada com a saúde, com a par- ticipação e com a performance esportiva algumas reflexões se fazem necessárias: Devemos continuar ensinando os esportes focando apenas nas habilidades específi- cas das modalidades, desconsiderando o desenvolvimento das HMF e HME? Seria cor- reto ensinar os esportes somente com base nas experiências esportivas que tivemos em nossas vidas, ignorando a evidência cien- tífica que disponibiliza métodos de ensino validados? Ao que parece, o conhecimento acessa- do neste módulo abre um leque de opor- tunidades de melhoria das aulas e treinos esportivos, permitindo a dinamização de práticas de ensino que conduzam o aluno/ atleta ao pleno desenvolvimento através do esporte. Mãos à obra! CURSO PRINCÍPIOS DA PRÁTICA ESPORTIVA 13 BANDEIRA, Paulo Felipe Ribeiro et al. Impact of motor interventions oriented by mastery motivational climate in fundamental motor skills of children: A systematic review. Motri- cidade, v. 13, n. S1, p. 50, 2017. BARNETT, Lisa M. et al. Correlates of gross motor competence in children and adoles- cents: a systematic review and meta-analysis. Sports medicine, v. 46, p. 1663-1688,2016. BARNETT, Lisa M. et al. Does childhood mo- tor skill proficiency predict adolescent fit- ness?. 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É curador das seguintes exposições: “Eco Barroco” no Centro Cultural Banco do Nordeste – Fortaleza/CE (2011) e “Bestiário Nordestino” com 8 edições. Lei de Incentivo ao Esporte do Ceará Patrocínio Apoio Realização AUTORES Francisco Cristiano Sousa Graduado em Educação Física pela Universidade Federal do Ceará (UFC), mestre em Ciências do Desporto pela UTAD - Portugal, doutor em Ciências da Educação pela Faculdade de Motricidade Humana - Portugal e membro da Comissão de Educação Física Escolar do Conselho Federal de Educação Física. Também é professor do IFCE Campus Quixadá, ministrando aulas de Educação Física Escolar e treinamento de equipes esportivas. Possui 17 anos de experiência como coordenador de cursos superiores de licenciatura e bacharelado em educação física, além de 30 anos de experiência no ensino em Educação Física Escolar e treinamento de equipes esportivas. Paulo Souza Licenciado e bacharel em Educação Física pela Unicatólica e especialista em Fisiologia do Exercício também pela mesma universidade. É mestre em Ensino na Saúde pela Universidade Estadual do Ceará - UECE e professor efetivo da Rede Pública do Estado do Ceará desde 2012. Referências Conclusão Habilidades motoras especializadas Habilidades motoras fundamentais como base para o esporte Definição de conceitos Introdução