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do Página Estado 118 PJERJ Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Sexta Câmara Criminal HABEAS CORPUS PROCESSO N° 0067144-20.2022.8.19.0000 IMPETRANTES: ADVS. RAPHAEL FERREIRA DE MATTOS, MARCELLO RAMALHO DA SILVA E CAROLINA DA ROSA RAMOS PACIENTES: MAURO JOSÉ GONÇALVES, MAXWELL GOMES PEREIRA E FERNANDO DE BRITO MEISTER AUTORIDADE COATORA: JUIZO DE DIREITO DA 4 VARA CRIMINAL DA COMARCA DE SÃO GONÇALO RELATOR: DES. MARCELO CASTRO ANÁTOCLES DA SILVA FERREIRA HABEAS CORPUS. HOMICÍDIO. ALEGAM os IMPETRANTES A INÉPCIA DA DENÚNCIA; EXCESSO ACUSATÓRIO POR AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA; AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA COM RELAÇÃO AO ACUSADO FERNANDO MEISTER, EM RAZÃO DE PROVA TÉCNICA QUE AFASTA SUA AUTORIA; IMPROCEDÊNCIA DAS QUALIFICADORAS ARTICULADAS NA UTILIZAÇÃO DE PROVA VIOLAÇÃO ÀS GARANTIAS DE E DEFESA OBRIGATÓRIA NO INQUÉRITO. IMPROCEDENCIA. MEDIDA CABÍVEL SOMENTE EM SITUAÇÕES EXCEPCIONAIS, o QUE NÃO SE VISLUMBRA NO CASO CONCRETO. QUANTO AO ALEGADO EXCESSO DO NÚMERO DE TESTEMUNHAS ARROLADAS PELO PARQUET. ASSISTE PARCIAL RAZÃO AOS IMPETRANTES, APENAS PARA CONFIRMAR A LIMINAR DEFERIDA, DEVENDO SEREM OUVIDAS o NÚMERO MÁXIMO DE 16 (DEZESSEIS) TESTEMUNHAS DE ACUSAÇÃO, OITO PARA CADA FATO. PARCIAL PROCEDÊNCIA, CONSOLIDANDO-SE A LIMINAR. 1 HC 0067144-20.2022.8.19.0000 APSdo Estado Página 119 PJERJ Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Sexta Câmara Criminal ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos do Habeas Corpus n° 0067144-20.2022.8.19.0000, em que figuram como pacientes MAURO JOSÉ MAXWELL GOMES PEREIRA E FERNANDO DE BRITO MEISTER e autoridade impetrada JUIZO DE DIREITO DA 4 VARA CRIMINAL DA COMARCA DE SÃO GONÇALO, ACORDAM os Desembargadores que integram a Sexta Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, por unanimidade de votos, pela PARCIAL PROCEDÊNCIA DO PEDIDO, apenas para confirmar a liminar deferida, devendo serem ouvidas o número máximo de 16 (dezesseis) testemunhas de acusação, oito para cada fato, nos termos do voto do Desembargador Relator. Rio de Janeiro, na data da sessão. MARCELO CASTRO ANÁTOCLES DA SILVA FERREIRA DESEMBARGADOR RELATOR 2 HC 0067144-20.2022.8.19.0000 APSdo Estado Página 120 Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Sexta Câmara Criminal VOTO Trata-se de Habeas Corpus, com pedido de liminar, impetrado em favor de MAURO JOSÉ MAXWELL GOMES PEREIRA E FERNANDO DE BRITO MEISTER, apontando como autoridade coatora o JUIZO DE DIREITO DA 4 VARA CRIMINAL DA COMARCA DE SÃO GONÇALO. Alegam os impetrantes, em resumo, que: "a) Os pacientes foram denunciados pela suposta prática dos crimes tipificados nos artigos 121, § 2°, incisos e II, c/c o artigo 61, inciso II, alínea "g", todos do Código Penal; e artigo 23, da Lei 13.869/2019, n/f do artigo 69, do Código Penal; b) Citados, os ora pacientes apresentaram resposta à acusação. (doc. 2), ocasião na qual, em sede preliminar anotaram as seguintes arguições: inépcia da denúncia; excesso acusatório com a consequente rejeição da denúncia por ausência de justa causa; ausência de justa causa com relação ao acusado Fernando Meister, em razão de prova técnica que afasta sua autoria; improcedência das qualificadoras articuladas na denúncia; utilização de prova ilícita e violação às garantias de notificação/citação e defesa obrigatória no inquérito.; c) na fase do artigo 397 do Código de Processo Penal, a douta autoridade coatora decidiu manter, em toda a extensão, o prosseguimento da ação penal (doc. 3), rejeitando ALGUMAS destas preliminares; d) Como se pôde conferir, a Autoridade Coatora rejeitou tais preliminares, contudo se absteve de se manifestar acerca das demais; e) Desta decisão que manteve o curso do processo, a Defesa opôs Embargos de Declaração (doc. 04), a fim de que o MM. Juízo se pronunciasse expressamente acerca das referidas arguições; f) Contudo, este foi parcialmente acolhido pela d. autoridade coatora (doc. 05), de modo que esta se manifestou SOMENTE acerca do excesso do número de testemunhas arroladas pelo Parquet; g) sem a manifestação judicial sobre a procedência das questões ventiladas, os pacientes experimentaram o malogro do devido processo legal, transformado, no caso, em tabula rasa; h) a autoridade coatora incorreu em flagrante na medida em que considerou a quantidade de réus, no caso em tela, 03, para admitir as 26 testemunhas da acusação, sendo que 08 testemunhas para cada réu, que não procede; i) tratando-se do rol da acusação, o que se deveria levar em consideração é o número de fatos, e não o de réus, sendo certo que Ministério Público imputou dois fatos; saber: homicídio e fraude processual, que, dentro dessa perspectiva, seria lícito ao parquet arrolar até 16 testemunhas; j) a autoridade coatora designou o início da instrução processual para o dia 05/09/2022, às 13h30, ocasião na qual serão ouvidas todas as testemunhas arroladas pela acusação." 3 HC 0067144-20.2022.8.19.0000 APSdo Estado Página 121 Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Sexta Câmara Criminal Requerem, liminarmente e no mérito, que seja concedida a ordem para determinar a anulação da decisão que ratificou o recebimento da denúncia por ausência de prestação jurisdicional e falta de fundamentação, assim como para que seja readequado o rol de testemunhas da acusação para o número de, até 16 testemunhas, devendo, ainda, ser o Parquet intimado para indicar sobre qual os quais fatos cada testemunha prestará declarações, sob pena de indeferimento do rol. Decisão de parcial concessão do pedido liminar (item 00024). Embargos de Declaração oposto pelos impetrantes (item 00044), rejeitados na sessão de julgamento do dia 06/09/2022 (item 00057). Parecer da Procuradoria de Justiça opinando pelo conhecimento do writ e, no mérito, pela CONCESSÃO PARCIAL DA ORDEM, apenas para que seja ouvido o número máximo de 16 (dezesseis) testemunhas de acusação, oito para cada fato. (Item 00095). É o RELATÓRIO. Entendo que assiste parcial razão aos impetrantes. Trata-se de Habeas Corpus onde alegam os impetrantes a inépcia da denúncia; excesso acusatório por ausência de justa causa; ausência de justa causa com relação ao acusado Fernando Meister, em razão de prova técnica que afasta sua autoria; improcedência das qualificadoras articuladas na denúncia; utilização de prova ilícita, violação às garantias de notificação/citação e defesa obrigatória no inquérito e excesso do número de testemunhas arroladas pelo Parquet. Aduzem, ainda, que a autoridade coatora designou o início da instrução processual para o dia 05/09/2022, às 13h30, ocasião na 4 HC N° 0067144-20.2022.8.19.0000 APSdo Estado do Página 122 Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Sexta Câmara Criminal qual serão ouvidas todas as testemunhas arroladas pela acusação. Afirmam que a realização da audiência designada causará manifesto tumulto processual. Em consulta ao sistema informatizado do Tribunal de Justiça, verifica-se que em 14/06/2022 foi proferida a seguinte decisão: "1) A preliminar arguida pela Defesa de falta de justa causa para deflagração da ação penal não deve prosperar. A materialidade delitiva está indiretamente demonstrada, assim como a autoria se encontra plenamente indiciada. Em relação à alegada inépcia da inicial, da mesma forma, tal alegação não é verdadeira, pois a denúncia descreve e individualiza detalhadamente a conduta imputada aos réus, de modo a permitir o livre exercício da ampla defesa órgão ministerial logrou expor os fatos criminosos, bem como as qualificadoras imputadas a partir dos indícios mínimos colhidos em sede policial, de forma circunstanciada, de modo que permite aos acusados o exercício de seu direito constitucional à ampla defesa, previsto no artigo 5°, LV, da Constituição da República. Foram cumpridas, assim, as normas do artigo 41 do Código de Processo Penal / Por outro lado, constituem crimes os fato imputados aos réus e não se verifica presente causa de extinção da punibilidade. Foram preenchidos todos os requisitos indispensáveis ao regular exercício do direito de ação. Logo, ausentes todas as hipóteses do artigo 395 do diploma processual legal. 2) De outro turno, não se vislumbra nulidade quanto à suposta inobservância do disposto no artigo 14-A, do Código de Processo Penal, na medida em que não demonstrado o prejuízo a qualquer dos acusados, que se veem acompanhados de defesa técnica nesta ação penal, bem como pelo fato de que, como bem salientado pelo membro do Ministério Público, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é pacífica no sentido de que eventual ilegalidade na fase inquisitorial não contamina a ação penal dela decorrente. 3) Por fim, assiste razão ao membro do Ministério Público no que diz respeito à natureza de prova documental do Relatório Técnico de Reprodução Simulada em Realidade Virtual, sendo ônus da defesa eventual impugnação da mesma por meio da 5 HC 0067144-20.2022.8.19.0000 APSdo Estado do Página 123 PJERJ Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Sexta Câmara Criminal juntada de outra prova documental ou da requisição de realização de prova pericial. 4) Diante do exposto, REJEITO as preliminares suscitadas pela Defesa. 5) Designo Audiência de Instrução e Julgamento para o dia 05/09/2022, às 13:30h. Requisitem-se os acusados e intimem-se as partes, inclusive a assistência à acusação. 6) Intimem-se/requisitem-se as testemunhas arroladas na denúncia (fls. 07/10), ficando a defesa ciente de que a oitiva das testemunhas arroladas somente pelos réus será realizada em data futura a ser designada após a oitiva das testemunhas de acusação." Pela defesa dos pacientes foi interposto embargos de declaração, tendo sido proferida decisão, em 09/08/2022, acolhendo parcialmente os embargos, nos seguintes termos: "1) Acolho parcialmente os embargos de declaração opostos pela defesa técnica dos acusados no que diz respeito ao pertinente apontamento feito acerca da omissão do Juízo em se pronunciar sobre o pedido de readequação do rol de testemunhas por parte do órgão ministerial. Nesse sentido, INDEFIRO o requerido pela defesa na medida em que a denúncia trata de dois delitos que são imputados a três acusados distintos, estando o rol apresentado pelo órgão ministerial em consonância com o entendimento do Superior Tribunal de Justiça sobre a questão: PENAL. RECURSO EM HABEAS CORPUS. CORRUPÇÃO PASSIVA E ASSOCIAÇÃO CRIMINOSA. NÚMERO MÁXIMO DE REGRA. ART. 401 DO CPP. FEITO COMPLEXO: ELEVADO NÚMEROS DE RÉUS E PROLONGADO PERÍODO DA ATIVIDADE CRIMINOSA. CERCEAMENTO DE DEFESA. LIMITAÇÃO DO ROL DE TESTEMUNHAS. EXCEÇÃO. CONSTRANGIMENTO ILEGAL CONFIGURADO. RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO. 1. A legislação processual penal dispõe que o número máximo de testemunhas que podem ser arroladas pelas partes varia conforme o procedimento adotado. Quanto ao procedimento comum ordinário, o art. 401, caput, do CPP fixa esse número máximo em 8 testemunhas. 2. número máximo de testemunhas as quais poderão ser arroladas pela defesa deve, em regra, variar não só de acordo com o número de réus, mas 6 HC 0067144-20.2022.8.19.0000 APSdo Estado Página 124 PJERJ Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Sexta Câmara Criminal também conforme o número de fatos supostamente delituosos imputados a cada réu.[...] (RHC n. 92874/SP, Rel. Ministro Ribeiro Dantas, 5a T., DJe 14/11/2018) 2) Deixo de acolher, no mais, os embargos de declaração haja vista que a decisão constante às fls. 3425/3426 contemplou as preliminares arguidas na sua íntegra, sendo certo que o juízo circunstanciado das alegações feitas pelo embargante confunde-se com o próprio mérito da causa, na medida em que deverão ser enfrentadas no momento oportuno, à luz dos elementos de prova a serem colhidos em sede judicial, sob o contraditório e a ampla defesa, e, dada a característica bifásica do Tribunal do Júri, ao fim da primeira fase processual. 3) Diante do exposto, ACOLHO PARCIALMENTE os EMBARGOS DE DECLARAÇÃO opostos pela defesa, INDEFERINDO o pedido de que seja determinada a readequação do rol de testemunhas apresentado na denúncia pelos fatos e fundamentos já expostos, mantenho os demais termos da decisão. 4) Intimem-se as partes." Foi parcialmente concedida por este Relator a liminar (item 00024) para que na audiência designada para 05/09/2022, fosse ouvido o número máximo de 16 (dezesseis) testemunhas, aguardando a oitiva das demais, após o julgamento do mérito do presente writ. (itens 00018). Quanto aos demais requerimentos, entendo que não assiste razão aos impetrantes. A alegação de nulidade, uma vez teria sido utilizada prova ilícita, com violação às garantias de notificação/citação e defesa obrigatória no inquérito, conforme disposto no artigo 14-A, do Código de Processo deve ser afastada. 1 Art. 14-A. Nos casos em que servidores vinculados às instituições dispostas no art. 144 da Constituição Federal figurarem como investigados em inquéritos policiais, inquéritos policiais militares e demais procedimentos extrajudiciais, cujo objeto for a investigação de fatos relacionados ao uso da força letal praticados no exercício profissional, de forma consumada ou tentada, incluindo as 7 HC N° 0067144-20.2022.8.19.0000 APSdo Estado Página 125 Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Sexta Câmara Criminal E isso, porque não restou demonstrado o prejuízo a qualquer dos acusados, como bem exposto na decisão hostilizada, os quais se veem acompanhados de defesa técnica nesta ação penal, bem como pelo fato de que, como bem salientado pelo membro do Ministério Público, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é pacífica no sentido de que eventual ilegalidade na fase inquisitorial não contamina a ação penal dela decorrente. A seguir, como é cediço, encontra-se pacificado pela jurisprudência das Cortes superiores o entendimento de que o trancamento da ação penal pela via do habeas corpus somente é admissível em hipóteses excepcionais, tais como a manifesta atipicidade da conduta, a inexistência de prova da materialidade do delito, a presença de causa extintiva da punibilidade e a ausência de indícios da autoria. em outror Nesse sentido: Habeas corpus. Processual penal. Crime contra o meio ambiente. Impedir ou dificultar a regeneração natural da vegetação (art. 48 da Lei 9.605/98). Pedido de trancamento da ação penal. Alegações de inépcia da denúncia, atipicidade do fato e falta de justa causa. Não ocorrência. Ordem denegada. 1. É firme a jurisprudência consagrada por esta Corte no sentido de que a concessão de habeas corpus com a finalidade de trancamento de ação penal em curso só é possível em situações excepcionais, quando estiverem comprovadas, de plano, a atipicidade da conduta, causa extintiva da punibilidade ou ausência de indícios de autoria, o que não se vislumbra neste writ. Precedentes. 2. A denúncia, embora não expondo data precisa em que se teria consumado a infração ambiental, que é de cunho permanente, foi capaz de situá-la em período certo e situações dispostas no art. 23 do Decreto-Lei n° 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal) o indiciado poderá constituir defensor. (Incluído pela Lei n° 13.964, de 2019) (Vigência) 8 HC 0067144-20.2022.8.19.0000 APSdo Estado Página 126 PJERJ Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Sexta Câmara Criminal determinado, com a possibilidade de estabelecer-se, para fins de aferição de alegada causa extintiva da punibilidade do agente, como último marco consumativo, data em que pericialmente atestada a permanência da infração. Prescrição não verificada. 3. Preenchidos os requisitos do art. 41 do Código de Processo Penal, a análise das demais questões postas na impetração, para seu correto equacionamento, demanda regular dilação probatória, escapando, portanto, da possibilidade de análise mais aprofundada dos fatos, máxime quando se considera o viés estreito do writ constitucional. Constrangimento ilegal inexistente. 4. Ordem denegada. (HC 107412, Relator(a): Min. DIAS TOFFOLI, Primeira Turma, julgado em 08/05/2012, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-100 DIVULG 22-05-2012 PUBLIC 23-05-2012) RECURSO EM HABEAS CORPUS N° 164737 GO (2022/0137844-7) DECISÃO Cuida-se de recurso ordinário em habeas corpus, com pedido liminar, interposto por MARCOS VINÍCIUS ASSIS FERNANDES contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de Goiás no julgamento do HC n. 5186525-13.2022.8.09.0000 Extrai-se dos autos que o recorrente foi denunciado pela prática da conduta inserta no artigo 65, da Lei de Contravenção Penal, na forma dos artigos 5°, inciso III, e inciso II, da Lei 11.340/06 (contravenção penal de perturbação do sossego no âmbito de violência doméstica). Irresignada, a defesa impetrou habeas corpus perante o Tribunal de origem, o qual denegou a ordem nos termos do acórdão que restou assim ementado: HABEAS CORPUS. TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. CONTRAVENÇÃO PENAL DE PERTURBAÇÃO DO SOSSEGO NO ÂMBITO DA VIOLÊNCIA REVOGAÇÃO PELA LEI 14.132, DE 2021. TESE DE AUTOMÁTICA ABOLITIO CRIMINIS. REJEIÇÃO. A depender da conduta fática apurada e denunciada, é possível sua subsunção no superveniente e novel delito 9 HC N° 0067144-20.2022.8.19.0000 APSdo Estado Página 127 PJERJ Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Sexta Câmara Criminal de stalking, positivado no art. 147-A, do Código Penal. Em hipóteses tais, contudo, observar-se-á o preceito sancionatório do revogado art. 65, da Lei de Contravenções Penais, nos termos do princípio da irretroatividade de preceito normativo criminal recrudescente. 2 -ALTERAÇÃO LEGISLATIVA QUANTO A CONDIÇÃO DEPROCEDIBILIDADE DA AÇÃO PENAL. NÃO RETROAÇÃO EMBENEFÍCIO DO RÉU. PREVALÊNCIA DO ATO A procedibilidade da ação penal se perfectibiliza no momento da propositura da denúncia. Uma vez oferecida sob acondição de ação pública incondicionada, tem-se por configurado o ato jurídico perfeito no exercício da titularidade da criminis. Eventual alteração legislativa a tornar o feito condicionado à representação da vítima não atinge acusações já apresentadas sob a égide do ordenamento jurídico anterior. Precedente do STJ. ORDEMDENEGADA. (fl. 57). Daí o presente recurso, no qual sustenta que é mais benéfico ao recorrente a aplicação do do artigo 147-A, do Código Penal, uma vez que a conduta prevista no artigo 65 da Lei de Contravenção Penal foi revogada e substituída pelo artigo 147-A, do Código Penal, com a edição da Lei n. 14.132/21. Afirma que a denúncia deve ser rejeitada, por faltar condição de procedibilidade, pela inexistência da representação da vítima, tornando inepta a peça acusatória apresentada. Assevera que a denúncia foi oferecida após a entrada em vigor do artigo 147-A, do Código Penal, que em seu § 3°, exige representação, e neste ponto, não configura ato jurídico perfeito, pois dependia da representação da vítima, o que não ocorreu. Requer, em liminar e no mérito, o trancamento da ação penal. É o relatório. Decido. No caso, ao menos em juízo perfunctório, não é possível identificar de plano o constrangimento ilegal aventado ou, ainda, a presença do fumus boni juris e do periculum in mora, elementos autorizadores para a concessão da tutela de urgência. Além do mais, confundindo-se com o mérito, a pretensão será analisada mais detalhadamente na oportunidade de seu julgamento definitivo, após as informações 10 HC 0067144-20.2022.8.19.0000 APSdo Estado do Página 128 PJERJ Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Sexta Câmara Criminal devidamente prestadas, bem como da manifestação do Parquet Federal. Por tais razões, indefiro o pedido de liminar. Oficie-se à autoridade coatora, bem como ao juízo de primeiro grau, a fim de requisitar-lhes, no prazo legal, as informações pertinentes a serem prestadas, preferencialmente, pela Central do Processo Eletrônico - CPE do STJ. Requisita-se, também, o envio de senha para acesso ao processo no site do Tribunal, se for o caso. Após, encaminhem-se os autos ao Ministério Público Federal para parecer. Publique-se. Intimem-se Brasília, 13 de maio de 2022. JOEL ILAN PACIORNIK Relator (Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, 16/05/2022) Vale lembrar que a ação de habeas corpus não se presta à discussão do mérito da ação penal. Logo, as teses sustentadas pelos impetrante devem ser ventiladas perante o Juízo competente, no momento processual oportuno, em regular contraditório judicial. * * Até porque, na presente hipótese, em análise primária, verifica-se que a acusação expôs de forma satisfatória o fato criminoso em todas as suas circunstâncias, viabilizando, com isso, o exercício da defesa plena e do contraditório, estando preenchidos os requisitos previstos no art. 41 do Código de Processo Penal. Vê-se (item 0001 do anexo 1): No dia 18 de maio de 2020, por volta das 15:00h, no interior do imóvel localizado na Rua Geraldo da Silveira, bairro de Itaoca, Complexo do Salgueiro, nesta comarca, os denunciados MAURO, MAXWELL e MEISTER, no exercício de suas funções, com vontade livre e consciente, em do comunhão de ações e desígnios, e assumindo o risco de produzir resultado, efetuaram disparos de arma de fogo contra as pessoas que se encontravam no interior da casa, Resumo vindo a atingir JOÃO PEDRO MATOS PINTO, na ocasião com 14 anos de idade, e causando-lhe as lesões descritas no Auto de Exame Cadavérico presente no IP n° 9951- 00310/2020, que por sua natureza, sede e extensão foram a causa eficiente da morte da vítima. 11 HC N° 0067144-20.2022.8.19.0000 APSdo Estado do Página 129 PJERJ Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Sexta Câmara Criminal crime foi cometido por motivo (torpe qual seja, o fato dos denunciados, na pressuposição de que existiam criminosos no interior do imóvel, terem agido ofensivamente, querendo matá-los, mesmo sem que tivessem visão de quem se encontrava no interior da casa e nem enfrentassem qualquer reação armada ou resistência partindo dali. O crime foi cometido com o emprego de recurso que dificultou a defesa da vítima, uma vez que, os denunciados, além de haverem ingressado de inopino no terreno da casa onde se encontrava a vítima, gozavam de ampla e irrestrita superioridade de meios e recursos. Nas mesmas circunstâncias de tempo e lugar, Policiais Civis ainda não identificados, no exercício de suas funções, com vontade livre e consciente, em comunhão de ações e desígnios com os denunciados MAURO, MAXWELL e MEISTER, inovaram artificiosamente no curso de diligência, consubstanciada na Operação Policial da qual faziam parte, o estado de lugar, ao plantarem no local do Homicídio da vítima JOÃO PEDRO diversos artefatos explosivos, uma pistola GLOCK, calibre 9mm, ao posicionarem uma escada junto ao muro dos fundos do imóvel em questão e ao produzirem marcas de disparos de arma de fogo junto ao portão da garagem do mesmo imóvel; tudo isso com o fim de eximir-se de responsabilidade criminal. Os denunciados MAURO, MAXWELL e MEISTER, com vontade livre e consciente, concorreram eficazmente para o crime acima descrito, ajustando-o previamente com os demais Policiais Civis, estando presente de forma encorajadora durante sua execução e acompanhando, posteriormente, a perícia realizada pela Delegacia de Homicídios (DH-NIT/SG). Policiais Na ocasião, os denunciados MAURO, MAXWELL e MEISTER, lotados na Coordenadoria de Recursos Especiais da Polícia Civil (CORE), participavam de operação conjunta com a que Polícia Federal, tendo como objetivo o cumprimento de mandados de Prisão e de Busca e Apreensão contra os elementos alcunhados "FAUSTÃO", "HELLO KITTY" e "VINTE ANOS", notoriamente integrantes da organização criminosa conhecida como "COMANDO VERMELHO", atuante na localidade do complexo do Salgueiro. 12 HC 0067144-20.2022.8.19.0000 APSdo Estado Página 130 Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Sexta Câmara Criminal Ao serem aerotransportados pelo Serviço Aeropolicial da CORE (SAER) até o bairro de Itaoca, os denunciados desembarcaram num campo de futebol próximo à Rua Geraldo da Silveira, juntamente com o Delegado de Polícia, então Coordenador da CORE, SÉRGIO SAHIONE FERREIRA e com o policial civil JAIR CORREA RIBEIRO, alegadamente com a intenção de interceptar homens armados que teriam sido observados, durante o sobrevoo, se evadindo da residência atribuída ao elemento alcunhado "FAUSTÃO", localizada na Avenida Ivan dos Santos, esquina com a Rua Geraldo da Silveira. Já no terreno, ao progredirem em conduta de patrulha, o denunciado MAURO assumiu a função de ponta 1, seguido, respectivamente, pelos denunciados MAXWELL e MEISTER, tendo o Delegado SÉRGIO SAHIONE e o policial civil JAIR CORREA, permanecido mais atrás, como responsáveis pela segurança da retaguarda do grupo. Após, alegadamente, terem observado supostos criminosos na Rua Geraldo da Silveira, ingressando na residência onde se encontravam MATHEUS DE AZEVEDO ALVARES, de dezenove anos, e os adolescentes MARIA EDUARDA BARCELLOS DOS SANTOS, de 17 anos, VÍTOR GABRIEL SOUZA DA SILVA, de 14 anos, NATAN MATOS PINTO, de 14 anos, RAPHAELA PONTES MANDRANI, de 15 anos, e a vítima fatal JOÃO PEDRO MATTOS PINTO, de 14 anos; os denunciados MAURO, MAXWELL e MEISTER, sem que houvesse qualquer resistência proveniente do interior do imóvel, efetuaram vários disparos de arma de fogo contra grupo de jovens vindo um dos disparos efetuados a atingir e causar a morte da vítima JOÃO PEDRO. Ato contínuo, enquanto guardavam o local do Homicídio, e aguardavam a chegada da equipe de peritos da DH-NIT/SG, policious civis policiais civis não identificados, mas ajustados com os denunciados MAURO, MAXWELL e MEISTER, o alteraram alteracam fraudulentamente, realizando as condutas acima descritas, com a intenção de criar vestígios de suposto confronto com load criondo criminosos. Estão os denunciados MAURO JOSÉ MAXWELL GOMES PEREIRA e FERNANDO DE BRITO 13 HC N° 0067144-20.2022.8.19.0000 APSdo Estado do Página 131 Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Sexta Câmara Criminal MEISTER incursos nas penas do artigo 121, § 2°, incisos e II, c/c artigo 61, inciso II, alínea (g), todos do Código Penal, e artigo 23 da Lei 13.869/2019; n/f do artigo 69 do Código Penal." Logo, como bem exposto pela douta Procuradora de Justiça CELMA P. D. DE CARVALHO ALVES, "No caso em tela, verifica-se que a decisão acostada às fls. 45/46 do Anexo 1 restou bem fundamentada, em atenção ao disposto no artigo 93, inciso IX da CRFB/88, uma vez que sua motivação acerca das teses defensivas apresentadas por ocasião da defesa prévia deve ser sucinta, limitando-se à admissibilidade da acusação formulada pelo órgão ministerial, evitando-se, assim, o prejulgamento da demanda. Por outro lado, na esteira do adiantado pelo d. Des. Relator, deve ser concedida a ordem para que seja ouvido o número máximo de 16 (dezesseis) testemunhas de acusação, oito para cada fato, uma vez que está sendo apurada a prática de dois delitos.". Assim, sabe-se que o número de testemunhas varia de acordo com o procedimento a ser seguido. Embora haja certa controvérsia na doutrina e na jurisprudência em relação ao número de testemunhas quando o processo versa sobre mais de um delito ou quando há mais de um corréu, prevalece o entendimento de que para a acusação, o número é estabelecido de acordo com a quantidade de fatos imputados, independente do número de acusados (Lima, Renato Brasileiro - Manual de processo penal: volume único - 8.ed.rev.ampl.e.atual, 2020). Por tais motivos, voto pela PROCEDÊNCIA PARCIAL DO PEDIDO, apenas para confirmar a liminar deferida, devendo serem ouvidas o número máximo de 16 (dezesseis) testemunhas de acusação, oito para cada fato. Rio de Janeiro, na data da sessão. MARCELO CASTRO ANÁTOCLES DA SILVA FERREIRA DESEMBARGADOR RELATOR 14 HC 0067144-20.2022.8.19.0000 APS