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1 Biogeografia 2 3 1. Definições, objeto e a relação com outras Ciências 2. A Biosfera 3. A Classificação geral dos Seres Vivos 4. As Regiões e os fatores determinantes da Biogeografia 5. Os Biomas do Mundo 6. Meio Ambiente Referências Bibliográficas 3 4 1. DEFINIÇÕES, OBJETO E A RELAÇÃO COM OUTRAS CIÊNCIAS A Biogeografia apresenta-se como uma ciência que faz a interação entre a Biologia e a Geografia. O prefixo BIO: “Vida” e o radical GEO e GRAFIA: “descrição da Terra” sintetizam uma terminologia epistemológica que merecem análise mais profunda para melhor compreensão. Iniciaremos pelas “Esferas Vitais” que constituem a essência da vida no planeta. A Litosfera (rocha-pedra); Atmosfera (ar, gases) e a Hidrosfera (água) constituem a Biosfera (vida), elementos que serão tratados na Unidade II, de forma específica. Diante dessa configuração, podemos compreender que existe uma dinâmica (movimento), a partir do “tempo e espaço”, que proporciona as inúmeras mudanças sobre a superfície terrestre. Essas relações se estabelecem através de uma concepção “sistêmica”, sendo matéria e energia componentes que serão discutidos na Unidade III. Ainda que de forma sucinta, exemplificaremos a configuração construtiva dessas relações citadas. Temos o Processo Erosivo como uma “chave” de vários conhecimentos que abrangem inúmeras categorias e conteúdo. Vejamos: Desgaste (D) + Transporte (T) + Sedimentação/acúmulo (S) = Erosão Contextualizando os elementos acima, a erosão é o resultado de intemperismo (químico, físico; biológico e/ou antrópico), pode-se verificar que existem movimentos de matéria e energia. O sistema aqui está entre as relações interdependentes entre os tipos de intemperismos, seus processos e causalidades. A partir dessa exemplificação e reflexão contextualizada do processo erosivo e reconhecendo essas bases conceituais, enfocaremos o conceito principal desse estudo. O conceito de Biogeografia para Troppmair (1995, p. 01): “estuda as interações, a organização e os processos espaciais, dando ênfase aos seres vivos – vegetais e animais – que habitam determinado local: biótopo – onde constituem geobiocenoses”. Martins (1985, p. 09) também conceitua Biogeografia como sendo a “ciência que estuda a distribuição geográfica dos seres vivos de acordo com as condições climáticas e na dependência das possibilidades de adaptação”. A distribuição vegetal e animal, como a existência de verdadeiras comunidades de plantas e animais constituem, por si mesma, realidades da Geografia, no sentido de contribuírem para diferenciar a superfície da Terra (WOOLDRIGE & EAST,1967, p.58). Observamos que, nesses conceitos, o espaço e a vida são elementos máximos para a compreensão das relações sistêmicas entre ambos, além das particularidades dos autores em estudos. Definido o objeto de estudo, exemplificaremos as inúmeras relações da Biogeografia com outros objetos de algumas ciências. Primeiro a Geologia que se destaca como uma das principais dessas ciências. Apresenta-se como importante estudo da estrutura da Terra, pois investiga os acontecimentos históricos ao longo da escala do tempo geológico. Os eventos naturais e/ou mesmo catastróficos revelam muitos elementos da vida terrestre. O grande exemplo é a Deriva Continental, com o movimento dos continentes muitas espécies sofreram modificações, separações ou mesmo migrações 5 devido às alterações, principalmente, climáticas no meio ambiente que permitiram posteriormente a divisão do planeta em grandes regiões biogeográficas. Podem-se observar as diversas configurações que as massas continentais sofreram nos últimos milhões de anos, desde a Pangea (Pan = todo e gea = Terra) até a constituição dos cinco continentes atuais. A relação direta desses movimentos com a Biogeografia se estabelece na diferenciação entre os corpos sólidos e líquidos, apresentando, assim, uma grande diversidade de vida em vários reinos e biomas. Para contextualizar, é importante observar a imagem que representa a Deriva Continental e analisar as diversas transformações ocorridas na crosta terrestre ao longo dos tempos. Estas modificações determinaram à Biogeografia que estudamos atualmente. A terceira ciência é a Geomorfologia que se enquadra com a Geologia e a Climatologia, pois discute os estudos da forma da superfície terrestre. O relevo se apresenta com suas altitudes em diferentes latitudes da Terra. Desde as cordilheiras e altas montanhas, aos fundos dos vales depressivos e as planícies aluvionares, pode-se observar, temperaturas diferentes, o que proporciona vidas diferentes. Lembremos da máxima geográfica que o relevo estabelece: “maior altitude, maior a pressão e menor a temperatura”. Essa ideia configura-se através de uma rica biodiversidade em alguns locais do planeta. A Geomorfologia é parte da Geografia Física. Aqui, também, faremos alguns questionamentos que envolvem a Geomorfologia: • As espécies se adaptam melhor em alta montanha ou em planícies? • Os solos aluvionares são realmente mais férteis? • Nas áreas depressivas, o acúmulo e sedimentação de materiais são favoráveis ao aparecimento de novos microrganismos? • Os processos erosivos atuam igualmente em áreas diferentes? 6 A quarta e última ciência que exemplificaremos aqui é a Ecologia que segundo Odum (1986, p.1), “La palabra ecología deriva del vocablo griego oikos”, que significa “casa” o “lugar onde se vive”. Essa Ecologia trata da Ecologia Animal e Ecologia Vegetal. Odum (1986), afirma que a palavra é proposta pela primeira vez pelo biólogo alemão Ernst Haeckel em 1869. Aqui, enceramos as exemplificações da Biogeografia com outras ciências, reforçando o seu caráter multidisciplinar. Além dessas quatro ciências citadas acima, podemos relacionar a Biogeografia com outras mais. Algumas delas apresentam uma relação direta, tendo seus conceitos e categorias com definições próximas à similaridade, e outras uma relação indireta, abordando alguns modelos e paradigmas teóricos mais universalistas. 7 2. A BIOSFERA A definição da biosfera (do grego Bios = vida e Sfaira = esfera; “esfera da vida”) foi amplamente discutida por diversas pesquisas e estudiosos ao longo da evolução dos estudos biogeográficos, apresentando suas multíplices abordagens de difícil conceituação. Também denominada de “teia da vida”, é formada pela junção de três esferas: a litosfera, atmosfera e a hidrosfera. É exatamente nesta porção do planeta, representada pela união indissociável entre as demais esferas, que se dá a atuação da Biogeografia. Segundo Ramade (1977), a biosfera é a “região” do planeta que compreende o conjunto de todos os seres vivos e na qual se faz possível sua existência. A biosfera é considerada ainda como uma tênue, frágil e complexa camada onde é possível a existência e interação entre os seres vivos. Tênue, porque é uma “estreita” parcela do planeta onde se podem apresentar as variadas formas de vida; frágil, porque qualquer desequilíbrio em suas estruturas e esferas pode afetar a vida como um todo; e complexa, porque a vida se apresenta de forma enigmática desde sua origem até suas transformações. Até o momento atual, novas descobertas e novas teorias constroem ou desconstroem afirmativas sobre a origem e manutenção da vida no nosso planeta. A complexidade que envolve o conceito de biosfera reside na interdependência dos fatores bióticos e abióticos presentes na hidrosfera, litosfera e atmosfera. A palavra “complexo” vem do latim complexus que significa “o que está tecido junto”, indica aquilo que abrange vários elementos ou partes, transmitindo, desta forma, a ideia de tecido, rede ou teia (MORIN, 1996). Este emaranhado de fatores interdependentes proporciona à vida, tanto animalo conceito de meio ambiente é muito amplo, pois pode incluir tanto a natureza com a sociedade. Além do mais, esse conceito também é maleável, haja vista que pode ser reduzido ou ampliado em função das necessidades específicas ou dos interesses envolvidos (SÁNCHEZ, 2008). Existem conceitos mais restritos como o de Guerra & Guerra (2001), que fala que o ambiente está intimamente ligado ao meio físico ou natural e que se constitui de rochas, relevo, solos, rios, climas e os tipos vegetacionais. Para Fonseca e Prado (2008), o ambiente natural é aquele que conserva a fisionomia e a dinâmica de funcionamento próximas da situação original e que apresenta poucos indícios das ações antrópicas. O ambiente antrópico, por outro lado, diz respeito ao conjunto de elementos artificiais resultantes da apropriação da natureza pelo homem. De acordo com Silva (2000), o meio ambiente é o produto da integração entre os elementos naturais, artificiais e culturais e que proporciona o desenvolvimento da vida em suas diferentes formas. De acordo com a legislação brasileira, meio ambiente é algo mais amplo e que se define como o “conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas” (BRASIL, 1981). 32 Para Troppmair (2004), o meio ambiente é um complexo formado por elementos e fatores físicos, químicos, biológicos e sociais que interagem entre si com reflexos recíprocos sobre os seres vivos. 6.1 Proteção e Legislação Ambiental Brasileira 6.1.1 Legislação Ambiental e Meio Ambiente No Brasil As leis que compõem o corpo jurídico voltado para o meio ambiente no Brasil se destacam como uma das melhores legislações ambientais do mundo. É notório que aconteceu um grande avanço da perspectiva legal do ambientalismo no Brasil nas últimas décadas, o que se reflete na participação do poder público, sociedade civil e empresários no envolvimento das questões ambientais. No entanto, o país ainda se vê diante de uma série de problemas ambientais ligados ao não cumprimento da legislação vigente. Nesse sentido, não é pela ausência de leis que alguns problemas ambientais se tornaram frequentes no Brasil e, sim, por uma série de fatores que favoreceram a perpetuação das ações criminosas sobre o meio ambiente. Assim, os mecanismos que burlam as leis acarretam impactos sobre os ecossistemas e desencadeiam uma série de problemas para a vida das pessoas no campo e nas cidades. Entre os diversos fatores que dificultam a aplicabilidade da legislação ambiental e que favorecem os impactos ambientais, destacam-se a falta de aparato técnico e infraestrutura dos órgãos gestores, a carência de uma cultura de legalidade associada à ganância de pessoas ligadas a certos setores produtivos e, por fim, as próprias mazelas sociais do povo brasileiro. A falta de infraestrutura física e a carência de profissionais para atuar na fiscalização de empreendimentos que possam causar impactos ambientais representam um dos principais desafios dos órgãos gestores do meio ambiente no Brasil. Áreas imensas, como a Floresta Amazônica, por exemplo, não dispõem de um corpo técnico com número suficiente de pessoas para fiscalizar e punir infratores. Quando se analisa a situação das unidades de conservação também se constata que os órgãos públicos não colocaram a maioria de nossas áreas protegidas em condições de cumprir a sua principal função: manter a integridade dos ecossistemas e preservar a biodiversidade. Na maioria dos casos, unidades de conservação imensas foram criadas no papel, mas ainda não dispõem de uma infraestrutura capaz de proteger as suas riquezas naturais, o que facilita a atuação de madeireiros, caçadores e pescadores em suas áreas. Ressalta-se também que no Brasil existe uma cultura do levar vantagem em tudo que leva pessoas movidas pela ganância do lucro fácil a cometerem crimes ambientais. Certas de que a impunidade e as brechas da lei vão favorecê-las, essas pessoas representam os mais perigosos agentes destruidores do meio ambiente, uma vez que possuem poder econômico e político capaz de facilitar a isenção de suas responsabilidades perante a prática de crimes cometidos contra o patrimônio natural. A pobreza e a miséria extrema vivenciadas pelas populações do campo e das periferias das grandes cidades também são fatores responsáveis de forma direta ou indireta pela 33 geração de impactos ambientais. A carência de recursos financeiros capazes de assegurarem a aquisição dos elementos essenciais para a manutenção de uma família leva muitos trabalhadores rurais a cometerem crimes ambientais, visando atenuar os efeitos da pobreza extrema. Nesse contexto, destacam-se práticas como a caça predatória para comércio, a captura de animais para serem repassados aos traficantes da fauna silvestre, a extração de fósseis dos sítios paleontológicos e o carvoejamento. Deve-se ressaltar que a prática da caça pra saciar a fome não é crime, mas o que têm ocorrido em regiões mais pobres do interior do Brasil é caça de animais silvestres por encomenda. Nesse tipo de crime ambiental, o caçador abate animais cuja carne possui valor comercial (tatus, veados, pacas, etc) e vende para atravessadores que repassam o animal abatido para os interessados. Outro tipo de crime ambiental relacionado à fauna se refere à captura de animais exóticos para serem vendidos no exterior, o que configura o crime de biopirataria. A extração de fósseis de animais e plantas pré-históricas é uma prática muito comum no nordeste do Brasil. As populações rurais aproveitam a falta de fiscalização em dos sítios paleontológicos e retiram essas riquezas para serem vendidas a preços irrisórios. Os compradores revendem as peças por preços altíssimos para colecionadores e museus no exterior. O problema do carvoejamento clandestino praticado por populações pobres mostra uma das faces mais cruéis deste problema ambiental que afeta as áreas Cerrado do Brasil. Como mostra Martino (2011), alguns proprietários realizam todo o processo para a obtenção de licenças ambientais para produzir carvão nativo, mas essas pessoas não produzem o carvão nativo de fato. Na verdade, elas vendem o direito de produzir para outras pessoas que possuem carvão ilegal produzido a partir da vegetação nativa em terrenos de pequenos lavradores. Desta maneira, o carvão clandestino é “esquentado” com documentação falsa. Nessa perspectiva de análise, que considera a relação entre populações carentes e a natureza, não se pode perder de vista os conflitos envolvendo comunidades tradicionais e poder público. Nesse contexto, muitas pessoas são indiciadas como infratoras por desenvolverem práticas associadas aos saberes tradicionais em áreas de unidades de conservação de proteção permanente como os parques nacionais e estaduais. Assim, muitas comunidades tradicionais são impedidas de dar continuidade às suas práticas seculares como a agricultura de vazante ou a coleta de frutos. Para Belém (2008), esse problema está relacionado ao fato de as unidades de conservação terem sido implantadas, sem levar em conta os interesses das comunidades tradicionais. Nesse sentido, o grande desafio dos instrumentos legais voltados para a proteção da biodiversidade consiste em estabelecer meios capazes de compatibilizar a preservação dos ecossistemas e a exploração de seus recursos naturais por populações tradicionais (CAMARGOS, 2005). Esse problema se agrava quando as unidades de conservação estão inseridas em regiões cujas populações são muito carentes e que dependem dos recursos naturais. 34 6.1.2 As Principais Leis De Proteção Ambiental Do Brasil Como foi discutido anteriormente, o Brasil possui uma legislação ambiental muito complexa que contempla as mais diversas questões relacionadas ao meio ambiente, seu funcionamento e os possíveisproblemas que possam afetá-lo em função das ações antrópicas. Dentro desse corpo jurídico extremamente amplo se destacam seis parâmetros legais que podem ser apontados como os principais marcos da legislação ambiental brasileira e que evidenciam o aumento da preocupação com as questões voltadas para a relação entre qualidade de vida da sociedade e o meio ambiente: a Lei 6938 que dispõe sobre a política Nacional de Meio Ambiente, os Títulos III (Capítulo II) e XIII (Capítulo VI) da Constituição Brasileira de 1988; a Lei 9433 de 1997 que estabelece a política nacional de recursos hídricos; a Lei 9605 de 1998 que dispõe sobre os crimes ambientais; a Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) de 2000 que estabelece as normas para criação e gestão das unidades de conservação; e a Lei 4771 de 1965 que recentemente foi reformulada e aprovada como o Novo Código Florestal Brasileiro. 35 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CARVALHO, Carla Juliana Aguiar de & GONTIJO Bernardo Machado. A Biogeografia brasileira no âmbito de trabalhos publicados nos Simpósios de Geografia Física no período de 1997 a 2007. LEBON, J.H.G. Introdução à Geografia Humana. Tradução de Christiano Monteiro Oiticica. Coleção - A Terra e o Homem - Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1970. MARTINS, Celso. Biogeografia e ecologia. 5. ed. São Paulo: Nobel, 1985. ODUM, Eugene P. Ecologia. Traducido al español por el Sr. Carlos Gerhard Ottenwaelder.Tercera edición. Edicion Revolucionaria, 1986. RAMOS, Cristhiane da Silva. Visualização cartográfica e cartografia multimídia: conceitos e tecnologias. São Paulo: Editora UNESP, 2005. RICKLEFS,Robert E. A economia da natureza. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2003. RIOS, Ricardo Bahia. Licenciatura em Geografia – Biogeografia. Faculdade de Tecnologia e Ciências - FTC. Educação a Distância - EaD.1. ed. Disponível em: www.ftc.br/ead. ROSA, Roberto. Introdução ao sensoriamento remoto. 7. ed. Uberlândia: EDUFU , 2009. TROPPMAIR, Helmut. Biogeografia e Meio Ambiente. 4. ed. Rio Claro: Impresso Graf- Set, 1995. WOOLDRIDGE, S.W; EAST W. Gordons. Espírito e propósitos da Geografia. Tradução de Thomaz Newlands Neto. Coleção - A Terra e o Homem. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1967. BRASIL. SNUC - Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Lei Federal Nº 9.985 de 18 de julho de 2000. FIGUEIREDO, Lisa V. R.; NEVES, Sérgio L. S. Área de Proteção Ambiental e Intervenções socioambientais locais: algumas considerações sobre a APA de Pandeiros - MG. In: Colóquio Internacional Recursos na luta contra a pobreza. ANAIS... Montes Claros: UNIMONTES, 2010. FIGUEIREDO, Lisa V.R. Percepção ambiental em uma Unidade de Conservação de proteção Integral. 2011. Dissertação de mestrado. Universidade Estadual de Montes Claros, Montes Claros, 2011 36quanto vegetal, no planeta. De maneira geral, pode-se dizer que a biosfera é a parte do planeta Terra onde se encontram os seres vivos. Ela compreende a superfície terrestre e a porção inferior da atmosfera, prolongando-se até o fundo dos oceanos. Para Troppmair (1987, p. 21) a biosfera, é ocupada de forma contínua, pois mesmo nos desertos quentes e frios ou nas grandes profundezas dos oceanos há vida. As geobiocenoses formam um mosaico na superfície terrestre, existindo áreas com altas concentrações de vida como as florestas equatoriais, enquanto em outras, como nos desertos e polos, a vida é rarefeita. Fisicamente, além da hidrosfera (água, ambiente líquido), atmosfera (camada de gás que envolve a Terra como o ar e seus componentes) e a litosfera (parte sólida da terra acima do nível das águas, como as rochas e o solo) a biosfera depende da fonte de energia que é o sol. A energia solar possibilita a existência da vida no planeta da maneira pela qual a percebemos. Essas características nos permitem considerar que a biosfera é única no universo, sendo a vida, exclusividade do planeta até onde a conhecemos. A energia solar é distribuída de forma variada pela superfície da Terra, em face de fatores geográficos como altitude, latitude, distribuição das águas e terras, influi nos sistemas climáticos e, consequentemente, nos demais elementos abióticos, mas interfere principalmente no meio biótico (TROPPMAIR, 1987, p. 21). Essa complexa teia de elementos interdependentes se revela em um grande conjunto de comunidades terrestre e aquática. Desta forma, torna-se de grande relevância o entendimento da biosfera como um sistema dinâmico e suas interdependências, bem como suas relações, funcionamento e evolução para os estudos biogeográficos. 8 Essa interdependência dos elementos que compõem a biosfera torna as ações do ser humano no planeta ameaçadoras. Isto porque o homem, na atualidade, vem alterando significativamente os ecossistemas e suas dinâmicas na Terra. O conceito de ecossistema foi utilizado pela primeira vez na década de 1934, pelo ecólogo britânico Arthur Tansley, quando passou a denominar um ambiente específico povoado por seres vivos e o conjunto destes seres vivos que povoam este mesmo ambiente, de “ecossistema”. Desta maneira, os ecossistemas são unidades dinâmicas e interdependentes da biosfera. Cada uma destas unidades, em função de suas especificidades resultantes das combinações entre os elementos bióticos e abióticos (água, ar, solo, energia do sol) apresentam manifestações distintas de vida, constituindo, desta forma, diferentes ecossistemas. A presença humana e suas atividades atribuem características adicionais aos ecossistemas naturais, sejam nos ecossistemas urbanos ou nos agroecossistemas. Na biosfera, todos os seres vivos dependem mutuamente uns dos outros, consolidando um sistema onde cada elemento contribui para a permanência da vida dos demais. 9 3. A CLASSIFICAÇÃO GERAL DOS SERES VIVOS Você seria capaz de imaginar a quantidade e diversidade de seres vivos presentes na biosfera? Agora imaginemos estudar cada exemplar isoladamente, seria extremamente complicado, daí a necessidade científica de catalogar e classificar os seres vivos das mais variadas maneiras, permitindo o conhecimento específico de cada ecossistema e espécies. Ao longo da evolução dos estudos biogeográficos e da botânica sistemática, milhares de espécies e suas regiões geográficas foram identificadas e analisadas, permitindo, através da classificação um melhor entendimento de suas atuações, interações e desenvolvimento dentro de determinado ecossistema A quantidade de espécies, seja animal ou vegetal, no mundo, aumenta significativamente em direção à região equatorial e diminui para os polos. Mas o que explicaria os motivos de existirem mais espécies em direção ao equador e menos em direção aos polos? Para explicar as razões, existem diversas conjecturas. Dentre as hipóteses, podemos apontar: • A Hipótese da Estabilidade climática: Os trópicos sofrem menos perturbações nas diferentes eras geológicas, passando por menos glaciações. • A Hipótese da Competição: Nos trópicos há maior competição entre os organismos, induzindo a “especialização” no uso dos recursos disponíveis, favorecendo a adaptação. • A Hipótese Espacial: Em habitats diversos existem maior probabilidade de combinações de nichos ecológicos. Nos trópicos, os ecossistemas de grande biodiversidade contêm habitats variados que abrigam diferentes formas de vida e de endemismo. Pode-se citar, por exemplo, o Cupinzeiro no bioma cerrado, que abriga e alimenta inúmeras espécies. Isto nos ajudaria a compreender porque em determinadas regiões do planeta, como nas regiões temperadas, as espécies tanto da fauna quanto da flora são praticamente conhecidas em sua totalidade, enquanto que em outras, como as áreas intertropicais, especialmente a região equatorial, existem ainda uma diversidade de espécies ainda não identificadas (TROPPMAIR, 1987, p. 28). Para os estudos dos seres vivos, a Biogeografia, tradicionalmente, divide-se em Zoogeografia (estudos dos animais) e Fitogeografia (estudos das plantas). A Zoogeografia se dedica à investigação das características dos animais tanto passadas quanto no presente, analisando suas adaptações e distribuição destes nas regiões do planeta. Já a Fitogeografia se preocupa com os vegetais, suas interrelações nos biomas e fatores que determinarão a distribuição das espécies vegetais na Terra. Percebe-se que os estudos zoogeográficos não têm a mesma atenção e dedicação dos geógrafos, conforme Kuhlmann (1977), isso se deve ao fato da maior influência dos vegetais nas paisagens se comparados com os animais que pouco a alteram. Esta área da Biogeografia, porém, se torna especialmente importante para os geógrafos quando há uma evidente interferência dos animais na vida humana, na sociedade e no meio 10 ambiente. Como exemplo disto, podem ser citadas as pragas para as lavouras; os mosquitos e aves migratórias responsáveis pela proliferação de doenças; os insetos polinizadores responsáveis pela manutenção de diversas espécies vegetais; os animais de caça que motivaram a fixação de comunidades em determinadas regiões do planeta, ou que impulsionaram a economia local como a pesca em rios e mares e o turismo nas savanas africanas. Além das descobertas científicas para as indústrias farmacêuticas como, por exemplo, o veneno extraído das serpentes utilizado para produção de soro antiofídico, ou da pele de rã (Rana catesbiana shaw) utilizada para o tratamento de queimaduras entre diversos outros produtos. Os desequilíbrios no ambiente, provocados pelas ações antrópicas e ou naturais, causam alterações na forma de vida dos animais influenciando diretamente as paisagens e os seres humanos, intensificando a importância dos estudos zoobiográficos também para a Geografia. A Fitogeografia compreende o estudo das distribuições das plantas sobre o planeta, as causas que levaram a esta distribuição, bem como os fatores que as mantêm em uma determinada região. Esta disciplina relaciona-se também com outras ciências como a Climatologia e a Pedologia. O enfoque da Fitogeografia é dado à análise da vegetação, do ambiente e da flora. Um dos precursores da Fitogeografia foi Alexander Von Humboldt que dedicava, em suas viagens pelo mundo, a caracterização das plantas, sua evolução e distribuição, correlacionando-as com o meio local. 3.1 Classificação científica Além dos botânicos, ecólogos, zoólogos etc, os geógrafos também usam as classificações naturais para empregar as espécies da fauna e flora. Linée (1758) propôs uma nomenclatura universal para estas classificações: a) Nome da espécie latino ou latinizado; b) Devendo obrigatoriamente possuir no mínimo doisnomes, sendo o primeiro designando o gênero e o segundo designando a espécie; c) O gênero devidamente designado por um substantivo e escrito com inicial maiúscula, a espécie é designada por um adjetivo com inicial minúscula; d) Se houver necessidade, um terceiro nome deverá indicar a variedade ou subespécie. Observamos no que os organismos vivos são distribuídos em grupos sistemáticos de maior ou menor extensão: sendo eles o reino, o filo, a classe, ordem, família, gênero e espécie, além das suas subdivisões (MARTINS, 1992, p. 20). Especificaremos, a seguir, cada uma delas: • Espécie e gênero: A espécie é o conjunto de indivíduos semelhantes entre si, onde é possível o cruzamento que gerará descendentes férteis. Para melhor compreensão, daremos o exemplo do cavalo e da égua. Deles é possível o cruzamento que pode gerar um descendente fértil, logo, eles são da mesma espécie. Já do cruzamento de um jumento com uma égua não acontece o mesmo. Destes, nascerá um burro ou uma mula, ambos estéreis, impossibilitando originar novos descendentes. Sendo assim, o jumento e a égua 11 não são da mesma espécie, porém aparentados. Do mesmo modo ocorre com cães, lobos e coiotes. São semelhantes entre si, mas não são da mesma espécie. A estes “parentescos”, classifica-se como gênero, ou seja, o conjunto de espécies semelhantes. Linée classificou o cão: Canis familiaris e o lobo: Canis lupus. A primeira palavra designa o gênero: Canis (sempre escrita com a inicial maiúscula) e a segunda, a espécie: lupus ou familiaris. • Família: é o agrupamento dos gêneros mais semelhantes, formando uma família. Exemplo: o cão, coiote, lobo e a raposa fazem parte da família dos canídeos – Canidae. • Ordem: é o agrupamento das famílias mais “aparentadas” entre si. O conjunto destas famílias forma uma ordem. Ainda com o exemplo passado, o cão, lobo, raposa e o coiote, da família dos Canideos e o leão da família dos Felidae (felídeos), formam as ordem dos Carnívora (carnívoros). • Classe: consiste no agrupamento de ordens, ou seja, é o conjunto de organismos de ordem mais “aparentados” entre si, formando uma classe. Nisto, diferentes animais para nós, podem ser semelhantes e formarem uma classe. Exemplo: A raposa da ordem dos carnívoros, os seres humanos e os macacos dos primatas, os roedores como o rato, estes são mamíferos e, portanto, fazem parte da classe Mammalia. • Filo: o filo é formado a partir do agrupamento de classes mais semelhantes entre si. Por exemplo: o sapo (da classe Amphibia), o pássaro (da classe das Aves), os mamíferos e outras classes. Estes se assemelham por possuírem, ainda quando embriões, a “notocorda”, que é uma estrutura que tem a função de sustentação, podendo desaparecer posteriormente ou se transformar, por exemplo, na coluna vertebral. • Reino: Engloba o agrupamento dos filos, mais semelhantes. Semelhantes por serem pluricelulares, heterotróficos e com tecidos especializados. 3.2 Os grandes reinos da natureza Por longo período, os seres vivos foram agrupados em dois grandes reinos: o reino vegetal e o reino animal. Com a evolução dos estudos biogeográficos e de aparelhos como o microscópio foi possível conhecer outras espécies que não se enquadravam nos critérios de classificação dos dois reinos anteriormente citados. Um exemplo disto são os microorganismos que se locomovem, mas que também apresentam clorofila, não sendo possível classificá-los como um vegetal ou como um animal somente por estas características. Surge então a necessidade de novos reinos para outros agrupamentos e seus critérios de classificações. O Reino é a maior das categorias taxonômicas, inclui maior número de espécies que as demais categorias e reúne filos (tipos) com características comuns a todos, mesmo quando existem grandes diferenças. Ao longo do tempo, a classificação dos seres vivos em reinos sofreu diversas modificações, de acordo com os critérios seguidos na classificação dos seres vivos. Atualmente, são cinco os grandes reinos que agrupam as espécies por suas características: Reino Monera, Reino Protista, Reino Fungi, Reino Plantae e Reino Animália. 12 O Reino Animalia ou Metazoa abarca todos os seres vivos pluricelulares. São seres sem parede celular, multicelulares com progressiva diferenciação tecidual, heterótrofos, ou seja, não produzem seu próprio alimento, obtêm-no por ingestão e são macro consumidores. A maioria dos organismos pertencentes ao Reino animal é capaz de se locomover. Algumas que não se locomovem são aquáticas e absorvem os alimentos trazidos pela água. Nesse reino estão inseridos desde a esponja marinha até o ser humano. O Reino Plantae ou Vegetália compreende os organismos produtores, que apresentam células revestidas por uma membrana de celulose, são multicelulares, sintetizam, em maior parte, seu próprio alimento pela fotossíntese. Este reino engloba, desde as anêmonas ou algas verdes até as plantas superiores. No Reino Fungi estão os organismos multicelulares e apresentam muitas formas. São heterótrofos, portanto, não produzem seu próprio alimento, obtêm no por absorção e são micro consumidores. Nessa categoria estão presentes os cogumelos até os bolores. No Reino Protista estão presentes os organismos como algumas algas. São em maioria unicelulares, autótrofos (fotossíntese) ou heterótrofos, produtores ou consumidores. Já no Reino Monera estão os organismos procariotos (células sem núcleo organizado) englobam as bactérias. Uma vez classificados os seres vivos e agrupados em grandes reinos, novos estudos, sobretudo dos naturalistas do século XIX, favoreceu a classificação geográfica das espécies. Foram então estudadas as ocorrências dos indivíduos tanto animais quanto vegetais nas diversas regiões do planeta, bem como os principais fatores que possibilitaram a existência de determinadas espécies em determinados tipos de clima, solo etc. 13 4. AS REGIÕES E OS FATORES DETERMINANTES DA BIOGEOGRAFIA Os dados levantados pelos naturalistas do século XIX e suas pesquisas sobre a distribuição dos organismos pelo planeta, possibilitaram identificar, classificar e agrupar espécies em grandes regiões biogeográficas. O naturalista britânico Alfred Russel Wallace em 1876, durante suas análises da distribuição das espécies vegetais e animais, sobretudo dos mamíferos, propôs a divisão biogeográfica do planeta em grandes regiões. Estas regiões e suas sub-regiões são possuidoras de características físicas e biológicas que fornecem condições ambientais propícias para a adaptação e manutenção de determinadas espécies. Inicialmente a proposta de Wallace dividia a Terra em seis grandes regiões biogeográficas: Região Paleártica; Neoártica; Neotropical; Afro-tropical; Indomalaia e Região Australiana. Posteriormente, novas propostas surgiram (principalmente das sub- regiões e de regionalização por áreas como em regiões Fitogeográficas e regiões Zoogeográficas) sendo acrescentadas à divisão de Wallace duas novas regiões: a Região Antártica e a Oceânica. • Região Paleártica: abrange todo o continente europeu, norte da África (incluindo o deserto do Saara), norte da Península Arábica e toda a Ásia (incluindo a China e Japão); • Região Neoártica: esta região compreende a América do Norte até a fronteira com o México; • Região Neotropical: compreende desde o centro do México até o extremo sul da América do Sul; • Região Etiópica (Afro-tropical): delimita toda a África sub-saariana e os dois terços mais ao sul da península arábica; • Região Australiana: Perpassa pelo leste da Indonésia, ilha de Nova Guiné, Austrália e Nova Zelândia; • Região Oceânica: corresponde às demais ilhas do oceano Pacífico; • Região Antártica: abrange todo o continente e o oceano com o mesmo nome. 14 • Região Indo-malaia: compreende o subcontinenteindiano, sul da China, Indochina, Filipinas e a parte ocidental da Indonésia; 4.1 Fatores determinantes da Biogeografia Cada organismo que se origina na biosfera, este tende à ocupação de áreas favoráveis à sua existência, ou seja, onde os elementos bióticos e abióticos estejam em equilíbrio. A existência e o ritmo desta ocupação ficam totalmente dependentes deste equilíbrio que, por sua vez, está dependente de vários fatores determinantes. De acordo com Troppmair (1987), os principais fatores biogeográficos são: Fatores Geográficos: São fatores responsáveis pela distribuição dos organismos por toda a biosfera. Cada característica geográfica pode operar como um mecanismo de dispersão para determinadas espécies e ou como bloqueio, ou “barreira” para outras. Por exemplo, pode-se citar um acidente geográfico como cadeia de montanha, ou corpos d´águas como rios e mares que funcionam como rota de migração para espécies aquáticas e como barreira para as terrestres Fatores Edáficos: Os fatores edáficos são aqueles inerentes ao solo, ou que pelo solo são influenciados. Vários tipos de solos do planeta são também responsáveis pela distribuição da diversidade de espécies na biosfera. Algumas plantas são mais exigentes quanto às propriedades do solo, outras se mostram bastantes adaptadas a solos arenosos e pobres. Algumas espécies de animais inclusive de vida subterrânea, têm sua distribuição geográfica atrelada às características pedológicas como as minhocas em solos úmidos e lagartos de areia. Fatores Climáticos: O fator climático configura-se em um dos mais importantes na distribuição dos seres vivos. A vegetação, animais e os seres humanos têm um limite de tolerância em relação à temperatura, umidade e pluviosidade, etc. O desequilíbrio para mais ou para menos em uma destas medidas pode levar ao desaparecimento da espécie no ambiente, afetando o desenvolvimento do ciclo vital: germinação, crescimento, floração e frutificação. Um bom exemplo é a grande biodiversidade nos trópicos, por apresentar as condições climáticas ideais ao ciclo vital: incidência de luminosidade, umidade, temperaturas. Já nas regiões temperadas, as baixas temperaturas nos invernos rigorosos se tornam um fator dificultador para a proliferação das espécies, ocasionando uma menor diversidade biológica, se comparada com as regiões tropicais. Fatores bióticos: Já sabemos que o prefixo “bio” significa vida, logo, fatores bióticos estão associados aos organismos vivos e suas interações. Estes próprios organismos também desempenham um papel importante na distribuição das espécies pela superfície terrestre. Da mesma maneira, pode-se afirmar que a flora tem relevante participação na distribuição geográfica da fauna. A presença de alimentos em uma região contribui para que determinados animais se estabeleçam no mesmo local, definitivamente permaneçam por um período do ano. A ausência de luminosidade, provocada pelo sombreamento de grandes árvores em intensas florestas, pode impedir o aparecimento de outras espécies menores. Imagine 15 que: é através da cadeia alimentar que a fauna é naturalmente controlada, evitando uma superpopulação de uma ou mais espécies acarretando desequilíbrio ambiental. Deve-se considerar ainda o fator humano, que embora seja um fator também biótico, o ser humano, por suas características determinantes ao meio ambiente, merece destaque especial. O ser humano está distribuído por quase toda a biosfera, ele funciona como “regulador” das espécies, assim como também as distribui pelo planeta que há séculos proporcionam grandes alterações que afetam toda a dinâmica da vida. 16 5. OS BIOMAS DO MUNDO Em relação à classificação e mapeamento dos biomas do mundo, não existe consenso entre os pesquisadores, de modo que podem ser encontrados diversos mapeamentos apresentando nomes e quantidades de biomas que variam de um trabalho para outro. Neste caderno didático procurou-se fazer uma adaptação da classificação mais usada e que considera a existência de nove biomas no mundo. 5.1 As florestas tropicais As Florestas Tropicais representam o mais importante banco genético do planeta e sua cobertura original se estende por toda faixa intertropical abrangendo uma área que vai da América do Sul e Central até o Sudeste Asiático, passando pela região Centro- Ocidental africana. Entretanto, grande parte desse bioma já foi devastado em função das ações antrópicas que se intensificam devido às pressões demográficas, à expansão urbana e as crescentes necessidades por novos recursos naturais. De acordo com Brown e Lomolino (2006), as florestas tropicais úmidas são as mais ricas e mais produtivas dos biomas terrestres, pois abrigam cerca de 50% das espécies do planeta. Essa imensa biodiversidade se reflete na existência de várias formações florestais ora densas, ora mais abertas. No entanto, o predomínio das formações densas é uma realidade encontrada na maioria das Florestas Tropicais do globo devido às altas médias pluviométricas presentes nas baixas latitudes. Entre os países que apresentam as maiores áreas revestidas pela Floresta Tropical destacam-se o Brasil, o Peru, a Venezuela, o Congo, o Gabão e a Indonésia. Para Tyller e Miller (2008), as imensas árvores da Floresta Tropical Úmida formam um topo (dossel) denso e fechado que dificulta a passagem da luz até o chão, fazendo com que a vegetação presente no nível do solo seja escassa e as poucas plantas que se 17 desenvolvem nessa porção da floresta apresentem folhas grandes para capturar a mínima quantidade de luz. Encontrada entre as latitudes 10° Norte até 10° Sul, as Florestas Tropicais estão associadas a um clima equatorial quente e úmido com índices pluviométricos que podem alcançar 2.000 mm anuais. As plantas dominantes são árvores de grande porte que formam um dossel fechado que dificulta a passagem da luz solar, impedindo a proliferação de espécies herbáceas e arbustivas. Essas árvores podem alcançar 40 metros de altura e a presença de epífitas e lianas é muito forte (BROWN & LOMOLINO, 2006). A origem da distribuição das Florestas Tropicais úmidas tem gerado muita polêmica no meio científico e até hoje não existe um consenso geral em torno dessa questão. Sabe- -se que a gênese da distribuição dessas florestas possui uma íntima relação com a dinâmica das placas tectônicas e com as mudanças climáticas pleistocênicas (ocorridas há 18.000 anos). De acordo com Puig (2008), no Final da Era Paleozóica (a cerca de 245 milhões de anos), os continentes já estavam unidos, formando o Supercontinente de Pangéia que apresentava uma cobertura florestal diversificada bastante expressiva. Quando esse continente se abriu, cada fragmento levou consigo um pouco das floras existentes que em cada continente passaram a evoluir independentemente (PUIG, 2008). As florestas tropicais úmidas formam um bioma diversificado com diferentes fitofisionomias florestais, mas o tipo vegetacional predominante é a Floresta Ombrófila Densa de Terra firme que se caracteriza por apresentar árvores de grande porte com uma variedade imensa de lianas e epífitas. 5.2 As Savanas A Savana é um bioma que se encontra no entorno das florestas tropicais e que ocorre principalmente na África, América do Sul e no sul da Ásia. A sua característica mais marcante se refere à presença de uma vegetação aberta com dois estratos bem definidos: um arbóreo e um herbáceo-arbustivo. O imenso tapete graminoso pontilhado por árvores e arbustos espaçados fazem das savanas um habitat preferencial para espécies animais de grande porte. Nesse sentido, as Savanas africanas com suas girafas, leões, rinocerontes e elefantes se tornaram conhecidas no mundo todo. No entanto, as savanas do Brasil, conhecidas como Cerrados, também apresentam uma riquezafaunística e florística de destaque, haja vista que esse bioma é um dos dois únicos Hotspots brasileiros. De acordo com Brown & Lomolino (2006), as Savanas tropicais são biomas dominados por uma fitomassa quase contínua de gramí- neas e árvores ou arbustos resistentes ao fogo. Em relação à localização, as Savanas ocorrem em latitudes intertropicais que se encontram entre 25° N e 25° S e são caracterizadas por uma notável sazonalidade de precipitações, com uma ou duas estações chuvosas, seguidas por intensas secas (BROWN & LOMOLINO, 2006). Essas precipitações apresentam índices que variam entre 500 e 1600 mm anuais. 18 Para Dajoz (2006), as Savanas podem ser herbáceas com gramíneas de até 80 cm ou arbustivas com árvores esparsas. A Savana herbácea é muito representativa na África e caracteriza-se pelo predomínio das gramí- neas sobre os arbustos e árvores. Na América do Sul, as Savanas Herbáceas formam os lhanos da Venezuela (DAJOZ, 2006). As Savanas Arbustivas, por outro lado, possuem muitas árvores com até 15 metros de altura e uma casca espessa contendo muita cortiça resistente ao fogo. Na Savana Arbustiva africana se destacam árvores como o Baobá e a Acácia, enquanto na Austrália os Eucaliptos são abundantes (DAJOZ, 2006). 5.3 As florestas temperadas decíduas As Florestas Temperadas Decíduas constituem o bioma mais devastado do planeta, pois grande parte da sua cobertura original se encontrava nas regiões que hoje são as mais industrializadas, populosas e antigas do mundo. Assim, esse bioma cobria a maioria dos territórios dos Estados Unidos, Europa Ocidental e China. Sabe-se que essas regiões são as mais industrializadas do planeta e que passaram por um processo de ocupação muito antigo, sobretudo, na Europa Ocidental e na China, o que explica esse quadro de devastação encontrado nessas áreas onde deveriam ocorrer Florestas Temperadas Decíduas. As poucas manchas ainda preservadas hoje ocorrem em unidades de conservação, como o parque que preserva a famosa Floresta de Sherwood na Inglaterra ou a Floresta Negra na Alemanha. Para Troppmair (2004), em algumas áreas, essa formação vegetação é praticamente artificial, uma vez que vêm ocorrendo reflorestamentos com espécies em sua área de ocorrência desde o século XVI. As suas árvores apresentam uma altura média de 20 metros e as folhas são finas. Essas folhas caem no outono iniciando o período em que a vegetação entra em estado latente (TROPPMAIR, 2004). De acordo com Brown & Lomolino (2006), as Florestas decíduas temperadas são também denominadas como florestas decíduas verdes de verão, haja vista que têm um ritmo anual caracterizado pela presença de árvores que perdem as folhas no frio do inverno. O porte e a densidade da cobertura vegetal e a composição do sub-bosque variam muito, dependendo do clima local, tipo de solo e a frequência dos incêndios (BROWN & LOMOLINO, 2006). Entre as espécies arbóreas desse bioma merecem destaque a Faia (Fagus silvata), a Bétula (Carpinus betulus), o Carvalho (Quercus robus) e a Tília (Tilia cordata) (TROPPMAIR, 2004). 5.4 A floresta Boreal A Floresta Boreal ou Taiga é um bioma que apresenta um dos mais altos índices de preservação entre todos os grandes ecossistemas terrestres, no entanto, constitui uma importante fonte de matéria-prima para as indústrias moveleira e de celulose em países como Canadá, Noruega, Suécia e Rússia. Sua ocorrência compreende uma ampla faixa que cruza o norte da América do Norte, Europa e Ásia. Essa faixa se encontra aproximadamente entre as latitudes 55° e 75° graus e marcam as regiões de clima 19 tipicamente frio com vegetação homogênea caracterizada pelo predomínio de pinheiro, faias e abetos (BROWN & LOMOLINO, 2006). Para Dajoz (2006), a Taiga ocupa cerca de 31% das florestas do globo e seu clima é marcado por quatro meses em que a temperatura média é superior a 10° C, o que permite o estabelecimento desse bioma. As espécies arbóreas adaptadas ao frio constituem um conjunto de coníferas, tais como o Pinheiro, o Abeto, o Espruce e o Lariço, todas misturadas a outros indivíduos arbóreos como a Bétula e o Salgueiro. As espécies coníferas da Taiga são geralmente marcadas pela presença de folhas aciculadas (em forma de agulha), cobertas por uma resina que suporta o frio intenso e a aridez do inverno quando a neve é abundante (TYLLER e MILLER , 2008). De acordo com Brown e Lomolino (2006), a Taiga também ocorre em regiões de maiores altitudes, como, por exemplo, ao sul das cordilheiras do oeste dos Estados Unidos na direção meridional do México. Os solos da área de ocorrência das Florestas Boreais são geralmente ácidos que, combinados com as temperaturas relativamente baixas, criam condições estressantes que limitam a diversidade de espécies arbóreas. Para Troppmair (2004), a acidez dos solos está associada à decomposição dos acículos que caem na superfície formando uma espessa camada de matéria orgânica rica em ácidos, fato que, associado aos longos invernos de baixa atividade bacteriana, contribui para a intensa podzolisação e redução do pH. 5.5 Os desertos As áreas desérticas são ecossistemas frágeis marcados por condições geoclimáticas bastante adversas que exigem adaptações específicas das escassas formas de vida desses biomas. Os índices pluviométricos nos desertos são extremamente baixos e não ultrapassam 250 mm anuais. No entanto, deve-se ressaltar que os desertos podem ocorrer em áreas tropicais, subtropicais ou temperadas. Assim, existem desertos considerados como quentes e os desertos frios. Os desertos quentes apresentam médias térmicas relativamente altas ao longo do ano. Nesse sentido, essas áreas possuem uma amplitude térmica anual geralmente pequena (diferença entre o mês mais frio e o mês mais quente). Em relação à amplitude térmica diária, os desertos quentes apresentam variações térmicas muito elevadas ao longo das 24 horas do dia. À tarde, as temperaturas podem chegar a 45 °C e à noite, as temperaturas chegam a valores próximos de zero 0º C. No tocante à origem da aridez dos desertos, sabe-se que entre as principais causas da carência de chuvas nessas áreas se destaca o fato de a maioria dos desertos se encontrarem próximos à faixa subtropical e por essa razão sofrerem os efeitos da pressão vertical dos ventos secos vindos dos trópicos. Esses desertos se encontram em uma área de alta pressão atmosférica (áreas anticiclones), ou seja, eles ocorrem em uma grande faixa do globo que é marcada pela constante descida de ar seco que pressiona a superfície, dificultando a ascensão de 20 massas de ar que formam as chuvas. Além da pressão atmosférica, a aridez dos desertos também pode estar associada às correntes marinhas frias e ao relevo. Para Tyller e Miller (2008), os desertos estão associados às baixas precipitações e podem ser encontrados nas zonas tropical, temperada e polar. Nesse sentido, as regiões frias e áridas da Patagônia e da Antártida também devem ser consideradas como desérticas. Conclui-se que o que faz uma área ser considera da como desértica é a escassez pluviométrica e não as temperaturas. Assim, existem desertos frios e quentes, mas ambos não possuem uma precipitação anual superior a 250 mm. Para Brown & Lomolino (2006), a evaporação nos climas desérticos é tão intensa que muitas espécies têm adaptações especiais para absorver, armazenar e impedir a perda de água. Presença de espinhos, tubérculos nas raízes e caules esponjosos são exemplos de situações adaptativas nas regiões desérticas. Nas regiões menos áridas, a vegetação se caracteriza por apresentar pequenos arbustos, algumas vezes intercalados com cactáceas (BROWN & LOMOLINO, 2006). 5.6 A tundra A Tundra é um bioma que ocorre nos polos e suas adjacências. Os rigores do clima polar fazem com que a vegetação da Tundra tenha uma duração de dois a três meses. Essa curtaduração está associada ao período em que os polos apresentam temperaturas um pouco mais elevadas, possibilitando o desenvolvimento de gramíneas, musgos e líquens. Os musgos e gramíneas da Tundra constituem importante fonte de alimento para a fauna herbívora que ocupa os círculos polares nas épocas favoráveis. Para Brown e Lomolino (2006), a Tundra é um bioma sem árvores, encontrado entre a Floresta boreal e a calota polar. Esse domínio apresenta condições ambientais mais estressantes do que a realidade encontrada nas florestas boreais, e a aridez é tão intensa que muitas vezes a precipitação é menor do que nos desertos quentes. De acordo com Troppmair (2004), a cobertura vegetal da Tundra está intimamente ligada às condições climáticas polares marcadas por invernos rigorosos e verões curtos e secos. Nesse sentido, a Tundra possui uma vegetação de curta duração que se desenvolve exatamente nos dois ou três meses mais quentes do verão. Em relação aos aspectos pedológicos, a Tundra apresenta um solo conhecido como Permafrost. Os horizontes superiores do Permafrost permanecem congelados durante grande parte do ano, formando uma camada impermeável responsável por encharcamentos durante o derretimento da neve (TROPPMAIR, 2004). De acordo com Brown & Lomolino (2006), o Permafrost é uma camada congelada e impermeável que se encontra a uma profundidade de aproximadamente um metro no verão. Por isso, a diversidade biológica da Tundra é muito modesta e chega a ser inferior à maioria de outros biomas terrestres (BROWN & LOMOLINO, 2006). 5.7 As pradarias e estepes A Pradaria é um bioma encontrado nas faixas temperada e subtropical e que se caracteriza por apresentar um predomínio absoluto de espécies herbáceas. Sua 21 ocorrência está associada às condições climáticas e pedológicas das extensas planícies do meio-oeste dos Estados Unidos, dos pampas argentinos e uruguaios e de grande parte da região central da Rússia. Os solos de alta fertilidade natural que geralmente ocorrem nessas áreas submeteram as pradarias a um intenso processo de ocupação que desencadeou sérios problemas ambientais, tais como a salinização e a desertificação. De acordo com Brown & Lomolino (2006), a Pradaria é o domínio herbáceo que se encontra entre os desertos e as florestas temperadas e que ocupa uma faixa localizada entre as latitudes 30° e 60°. Essa vegetação rasteira passa a impressão de que a biomassa da pradaria é pequena, o que não é verdade, uma vez que a rede de raízes das plantas perenes constitui um grande volume de biomassa (BROW & LOMOLINO, 2006). Quanto aos aspectos pedológicos, esses autores destacam que os prados temperados tendem a ter solos de alta acumulação de matéria orgânica e significativa fertilidade natural, o que tem atraído diversas atividades agrícolas para essas áreas. Em relação à Estepe, deve-se ressaltar que esse ecossistema se refere a uma pradaria marcada pelo predomínio de gramíneas e pequenos arbustos, mas que ocorre em áreas com índices pluviométricos mais baixos, chegando às condições de semiaridez. Essa situação pode ser constatada no entorno do Mar de Aral no Cazaquistão ou no norte da Mongólia. 5.8 Os biomas semiáridos Os biomas Semiáridos apresentam uma larga distribuição na superfície terrestre e são geralmente encontrados no entorno das regiões desérticas ao longo das zonas tropical, subtropical e temperada. Apresentam índices pluviométricos que variam entre 300 e 750 mm ao longo do ano e que refletem a existência de formações vegetais marcadas pela presença de espécies xerófilas como cactáceas e bromélias entremeadas por arbustos e pequenas árvores. Em algumas regiões da Ásia Central o bioma Semiárido se faz presente através de grandes pradarias secas denominadas como Estepes. Alguns autores definem as Estepes como um bioma que pode ser considerado como sinônimo de pradaria, enquanto que outros associam as Estepes a todas as formações semiáridas. Nesse sentido, Dajoz (2006), estabelece que o bioma Semiárido ou Estepe seja um domínio que se distingue das Savanas por apresentar uma cobertura herbácea descontínua marcada pela presença de plantas lenhosas espinhosas. Assim, esse bioma apresenta fitofisionomias herbáceas ou herbáceo-lenhosas com árvores espinhentas e suculentas (DAJOZ, 2006). Ainda em relação às ideias de Dajoz (2006), os domínios Semiáridos mais expressivos ocorrem na região do Sahel africano e no Nordeste do Brasil, onde as formações semiáridas compõem o bioma Caatinga. Por fim, deve-se ressaltar que as formações semiáridas têm sido submetidas a um processo de ocupação humana que, nas últimas décadas, desencadeou a desertificação de expressivas áreas. Na região do Sahel africano, por exemplo, a 22 desertificação tem feito com que a área do deserto do Saara seja expandida pelas bordas. Da mesma forma, grandes áreas do sertão semiárido brasileiro também têm sofrido os efeitos da desertificação. 5.9 Altas montanhas O bioma Altas Montanhas se refere ao conjunto de ecossistemas que se localiza nas altitudes mais elevadas das grandes cordilheiras montanhosas do globo. São formações vegetais que, devido aos efeitos da altitude e da pressão atmosférica, apresentam características únicas e especiais. De acordo com Dajoz (2006), o ar rarefeito das grandes altitudes afeta significativamente a radiação solar, a temperatura e a umidade relativa, fazendo com que o desenvolvimento da vegetação seja totalmente influenciado por esses fatores. Assim, à medida que a altitude aumenta, vão se sucedendo várias zonas de vegetação cujos limites altitudinais variam de acordo com as regiões (DAJOZ, 2006). No entanto, as variações com suas respectivas características variam de uma montanha para outra. Nessa perspectiva, Troppmair (2004) considera para a Cordilheira dos Andes a existência de quatro ambientes que variam em função da altitude: a Terra quente com floresta até 1.100 metros de altitude, a Terra Temperada com floresta aberta entre 1.100 e 2.200 metros, a Terra Fria entre 2.200 e 3.300 metros com pequenas árvores e coníferas e a Terra Gelada em altitudes superiores a 3.300 metros. Na Terra Gelada a vegetação arbórea desaparece, dando lugar às gramíneas e às camadas de neve. Os tipos vegetacionais encontrados nas grandes altitudes são fortemente influenciados pela temperatura e pela pressão atmosférica formando um gradiente fitofisionômico caracterizado pelo aumento da biomassa vegetal de cima para baixo. Nessa perspectiva, praticamente todas as grandes cordilheiras montanhosas não apresentam vegetação em seus topos, mas apenas rocha e neve devido aos rigores climáticos que caracterizam essas áreas. 5.10 Os biomas do Brasil O Brasil possui uma grande extensão territorial que se reflete na diversidade de biomas com suas respectivas fitofisionomias associadas às mais variadas condições geológicas, geomorfológicas e edáficas. Em relação ao mapeamento dos biomas brasileiros existe muita polêmica no tocante à diferenciação entre os mapas de biomas e os mapas da vegetação brasileira. 23 O mapa da vegetação é constituído de fitofisionomias ou formações vegetais, enquanto o mapa de biomas é formado por várias fitofisionomias agrupadas formando grandes conjuntos. Esse problema se origina no tratamento simplista que muitos autores de livros didáticos conferem aos biomas brasileiros. Ao se referirem ao bioma Cerrado, por exemplo, esses livros tratam apenas de uma ou duas formações vegetais presentes nesse domínio extremamente complexo e diversificado. Também existe muita controvérsia em torno do número de biomas brasileiros. A maioria dos autores reconhece a presença de sete biomas no território brasileiro: Floresta Amazônica, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Campos Naturais, Pantanal e Mangue. No último mapeamento dos biomas brasileiros feito pelo Instituto Brasileirode Geografia e Estatística – IBGE em 2004 o bioma Mangue não foi individualizado, mas esse trabalho é o mais importante registro cartográfico sobre os biomas brasileiros, sendo muito usado no ensino básico e superior. 5.11 Floresta Amazônica A Floresta Amazônica é o maior bioma brasileiro em extensão e ocupa quase metade do território nacional, ou seja, cerca de 49,29% de todo o país (IBGE, 2004). Sendo também a mais expressiva reserva de diversidade biológica do mundo, a Floresta Amazônica também ocupa 2/5 da América do Sul e 5% da superfície terrestre (IBGE, 2004). Além do mais, sua área de aproximadamente 6,5 milhões de quilômetros quadrados, abriga a maior rede hidrográfica do planeta, o que constitui uma das maiores 24 reservas de água doce do mundo. Para o IBGE (2004), esse bioma imenso em tamanho e riquezas naturais ocupa a totalidade de cinco unidades da federação (Acre, Amapá, Amazonas, Pará e Roraima), grande parte de Rondônia (98,8%), mais da metade de Mato Grosso (54%), além de parte de Maranhão (34%) e Tocantins (9%). No meio acadêmico se discute muito sobre a diversidade vegetacional da Amazônia. Por outro lado, entre as pessoas comuns ou no âmbito do ensino básico, percebe-se uma noção de Amazônia formada por uma massa vegetacional constituída de árvores do mesmo tamanho sem nenhuma diversidade ambiental ou fitofisionômica. Mas o bioma Amazônico, na verdade, compreende um verdadeiro mosaico de formações vegetais condicionadas por fatores edáficos, geomorfológicos e climáticos. Para Rizzini (1997), na Amazônia existem três tipos florestais básicos: a Floresta de Igapó, a Floresta de Várzea e a Floresta de Terra Firme. A Floresta de Igapó é aquela que permanece sempre alagada ao longo do ano. Em outras palavras, o Igapó é uma mata pantanosa, aberta, baixa e pobre. A Floresta de Várzea se alaga apenas em determinadas épocas do ano e em relação ao porte, é bem mais desenvolvida do que a Mata de Igapó. No entanto, as Florestas de Várzeas próximas aos rios barrentos (bacia do Solimões) são mais ricas e desenvolvidas do que as florestas da bacia do Rio Negro que se assentam sobre solos muitos arenosos e distróficos. A Floresta de Terra Firme, por outro lado, não apresenta acúmulo da água na superfície em nenhuma época do ano. É a formação florestal mais exuberante e de maior porte em toda a Amazônia (RIZZINI, 1997). Ainda em relação às formações florestais o bioma Floresta Amazônica também possui outra fitofisionomia muito peculiar, a Campinarama. Essa formação vegetal ocorre nas áreas mais chuvosas do extremo Norte do Brasil, ou seja, nas bacias dos rios Negro e Branco onde os índices pluviométricos podem chegar a 4.000 mm anuais (RIZZINI, 1997). Para Ferri (1980), a Campinarama é uma fitofisionomia florestal aberta e perenifólia que está associada aos solos pobres, arenosos e extremamente lixiviados pelas constantes chuvas que ocorrem na região. A Amazônia também apresenta formações campestres, principalmente no estado de Roraima, representadas pelas disjunções do bioma Cerrado incrustadas no bioma Floresta Amazônica. Essas formações são localmente conhecidas como Campos do Rio Branco que ora caracterizam-se como um Campo Limpo ora como um Campo Cerrado com árvores espaçadas. Por fim, quando o assunto é Amazônia muito se discute sobre a fertilidade dos solos que sustentam sua exuberante floresta. Nessa perspectiva, Lepsch (2002), constata que os primeiros exploradores do norte do Brasil acreditavam que a grandiosa floresta amazônica estava associada a solos naturalmente muito férteis. Entretanto, sabe-se que a grande maioria dos solos amazônicos é pobre em nutrientes e que a maior parte dos elementos minerais necessários às plantas são oriundos da própria floresta (LEPSCH, 2002). 25 5. 12 O Cerrado O Cerrado é o segundo maior bioma brasileiro em área, apenas superado pela Floresta Amazônica. Trata-se de um complexo vegetacional com cerca de 2,0 Milhões de km², o que representa cerca de 23% do território nacional (FERRI, 1980; RIBEIRO e WALTER, 2008). Localizado basicamente no Brasil central, esse bioma abrange como área contínua os estados de Goiás, Tocantins e o Distrito Federal, além de parte dos estados da Bahia, Ceará, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Piauí, Rondônia e São Paulo (RIBEIRO & WALTER, 2008). O bioma Cerrado ainda ocorre como disjunções vegetacionais nos estados do Amapá, Amazonas, Pará e Roraima. Para Chagas et al. (1997), o bioma Cerrado é um complexo vegetacional formado por várias fitofisionomias em que se destaca o Cerrado Típico, que, do ponto de vista fisionômico, caracteriza-se por apresentar uma estrutura definida pela presença de dois estratos: um arbóreo-arbustivo e outro herbáceo. A padronização da nomenclatura vegetacional é uma tarefa muito difícil, pois diversos autores usam critérios e escalas distintas. De acordo com a terminologia usada por Ribeiro & Walter (2008), o bioma Cerrado possui 10 tipos fitofisionômicos distribuídos em três grupos vegetacionais: as formações florestais: Mata Ciliar, Mata Seca ou Floresta Estacional Decidual e o Cerradão; as formações savânicas: Cerrado sentido restrito ou Cerrado Típico, Campo Cerrado, Palmeiral e Vereda; e as campestres: Campo Sujo, Campo Limpo e Campo Rupestre. No tocante à fisionomia, as formações florestais são aquelas que apresentam o predomínio de espécies arbóreas e onde há a formação de dossel contínuo ou descontínuo. Nesse grupo se inserem as Matas Ciliares, as Matas de Galeria, a Mata Seca e o Cerradão. A expressão savana se refere a uma vegetação com árvores e arbustos esparsos e distribuídos sobre um estrato de gramíneas, sem a formação de dossel contínuo. Nesse sentido, as formações savânicas se referem a fitofisionomias abertas, tais como o Cerrado Típico, o Palmeiral, a Vereda, o Cerrado Rupestre e o Cerrado Denso. O termo campo se refere às áreas com predomínio de herbáceas e algumas arbustivas. Portanto, as formações campestres são constituídas de fitofisionomias em que a presença de árvores é extremamente escassa e onde a vegetação rasteira é predominante. O Cerrado típico ou Cerrado Senso Restrito é a mais importante formação vegetal do Bioma Cerrado. É uma fitofisionomia que ocorre em solos arenosos, geralmente ácidos e deficientes de matéria orgânica e macronutrientes como o cálcio, magnésio, fósforo e potássio (BELÉM, 1997). De acordo com Ferri (1980), o Cerrado típico é uma vegetação com dois estratos bem definidos: um arbóreo-arbustivo e outro herbáceo. As árvores e os arbustos geralmente apresentam caules e galhos tortuosos, cascas grossas, folhas coriáceas (cerosas) ou pilosas (com pêlos). O estrato arbóreo do Cerrado típico varia de 3 a 8 metros de altura. De acordo com Belém (1997), entre as espécies arbóreas predominantes nesta formação, destacam-se Caryocar brasiliense (pequizeiro), 26 Eugenia Dysentérica (Cagaita), Stryphnodendron adstringens (Barbatimão), Hymenaea stigonocarpa (Jatobá), entre outras. A Mata Seca ou Floresta Estacional Decidual pode se definida como a vegetação que se caracteriza por apresentar um longo período biologicamente seco, apresentando o estrato arbóreo predominantemente caducifólio, com mais de 50% dos indivíduos desprovidos de folhagem na época desfavorável (IBGE, 1996). O Cerradão é uma formação florestal associada a solos profundos, arenosos, de média a baixa fertilidade. Entretanto, a fertilidade do Cerradão é superior à encontrada nas áreas de Cerrado Típico. De acordo com Ribeiro& Walter (2008), do ponto de vista fisionômico, o Cerradão é uma floresta com florística similar a um Cerrado Típico. O Campo Cerrado é uma formação savâ- nica que ocorre nos solos pedregosos e cascalhentos das áreas em declive (BRANDÃO, 2000). Ocorre geralmente nas vertentes de colinas convexas e é muito raro nasáreas planas. A vereda é uma fitofisionomia savânica que ocorre nas depressões alagadas presentes no topo ou no sopé das escarpas das chapadas areníticas. Os solos são mal drenados, arenosos e com matéria orgânica (Neossolos hidromórficos). O Campo Rupestre é uma fitofisionomia que ocorre geralmente em altitudes superiores a 900 metros e que se caracteriza pela presença de um estrato herbáceo-arbustivo, com presença eventual de arvoretas pouco desenvolvidas (RIBEIRO e WALTER, 2008). A Mata Ciliar é uma formação florestal que acompanha os rios de médio e grande porte da região do Cerrado (BRANDÃO, 2000). Trata-se de uma vegetação que exerce um papel extremamente importante na dinâmica ecológica existente na relação entre os rios, o lençol freático e os solos das margens. De acordo com Brandão (2000), o Campo Sujo é constituído por um campo graminoso, no qual aparecem algumas arvoretas e arbustos muito afastados entre si. O Palmeiral é uma fitofisionomia savânica que ocorre em solos bem drenados das áreas mais elevadas, mas que também pode ocorrer em depressões alagadas (RIBEIRO & WALTER, 2008). 5.13 A Caatinga A Caatinga é um bioma exclusivamente brasileiro que possui uma área de 844.000 Mil km², o que representa cerca de 11% do território nacional (FERRI, 1980). Localizado no domínio semi-árido, esse bioma abrange os estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e Minas Gerais. A Caatinga se destaca no cenário nacional por ser o bioma menos conhecido e o menos protegido. Nesse sentido, está entre os mais ameaçados, uma vez que a intensidade da pressão antrópica sobre a região é diretamente proporcional à presença de pesquisas e unidades de conservação. Ao se analisar a etimologia da palavra Caatinga, de origem tupi, nota-se que o seu significado é Mata Branca. O motivo para esta denominação reside no fato de apresentar-se a caatinga verde somente no inverno, época das chuvas de curta duração. E esse aspecto esbranquiçado é o mais duradouro, pois a estiagem persiste por muito mais tempo (FERRI, 1980). 27 De acordo com Ferri (1980), não podemos supor que a Caatinga seja uma vegetação uniforme e homogênea. Ao contrário, a Caatinga é um substantivo que precisa ser qualificado pela adição de adjetivos que definirão os diversos tipos de Caatinga (FERRI, 1980). Para Prado (2005), a Caatinga pode ser definida como um conjunto de formações que podem ser caracterizadas como florestas arbóreas ou arbustivas, compreendendo principalmente árvores e arbustos baixos, muitos dos quais apresentam espinhos e algumas características xerofíticas. Compreende um mosaico vegetacional bastante diversificado e formado por fisionomias muito variadas. Assim, a Caatinga possui formações que variam de florestas altas e secas com até 15-20 metros de altura, a caatinga arbórea típica de solos mais férteis (a verdadeira caatinga dos índios Tupi), até afloramentos de rochas com arbustos baixos esparsos e espalhados, com cactos e bromeliáceas nas fendas (PRADO, 2005). 5.14 A Mata Atlântica Para o IBGE (2004), O bioma Mata Atlântica constitui o conjunto de formações florestais que cobriam quase toda a costa brasileira no início do século XVI. Originalmente, esse bioma ocupava inteiramente três estados - Espírito Santo, Rio de Janeiro e Santa Catarina - e 98% do Paraná, além de parte de outras 11 unidades da federação. O bioma Mata Atlântica é um domínio extremamente devastado em função do processo de ocupação do território brasileiro iniciado na faixa litorânea brasileira a partir 1530 com ciclo do Pau-Brasil. Do século XVI até hoje, a Mata Atlântica sofreu todos os impactos das atividades econômicas vinculadas a esse processo de ocupação. Assim, o bioma perdeu praticamente tudo da sua cobertura vegetacional original. Assim, dos 1,3 Milhões de Km² de área, que cobriam grande parte da faixa litorânea e boa parte de Minas Gerais, só restaram cerca de 5%. A Mata Atlântica possui diversas fitofisionomias ainda preservadas em manchas espalhadas por vários estados brasileiros, tais como Floresta Tropical perenifólia, a Floresta Subtropical, a Floresta Tropical Semi-Decidual e a Floresta Estacional Decidual ou Mata Seca. Para Ferri (1980), o bioma Mata Atlântica pode ser definido como um conjunto de Florestas Latifoliadas Higrófilas costeiras bastante semelhantes aos tipos fisionômicos da Floresta Amazônica. De acordo com Rizzini (1997), a Mata Atlântica apresenta quatro formações florestais distintas: a Floresta Pluvial 5.14.1 Montana, a floresta pluvial baixo-montana, a floresta de araucária e a floresta pluvial ripária A Floresta Pluvial Montana reveste os relevos com altitudes entre 800 e 1.500 metros. É a fitofisionomia mais densa e alta do bioma Mata Atlântica, podendo apresentar árvores de até 40 metros de altura. A Floresta Pluvial Baixo Montana encontra-se entre 300 e 800 metros e é uma formação que ocorre no Mar de Morros dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo e também nas áreas mais baixas próximas ao litoral do Nordeste. As árvores dessa fitofisionomia não ultrapassam os 25 metros e se encontram em uma região com uma estação seca de 4 a 5 meses, por isso são florestas subcaducifólias. A Floresta Riparia está associada aos cursos de rios e córregos. 28 Correspondem às matas ciliares que ocorrem na Caatinga e no Cerrado. A Floresta de Araucária é uma comunidade florestal mista em que indivíduos da espécie Araucária angustifólia (Pinheiro do Paraná) se associam a outras espécies das demais fitofisionomias do Bioma Mata Atlântica (RIZZINI, 1997). Para o IBGE (2004), o bioma Mata Atlântica constitui um mosaico formado por cinco fitofisionomias: a Floresta Ombrófila densa, a Floresta Ombrófila mista, a Floresta Ombrófila aberta, a Floresta Semi-Decidual e a Floresta Decidual. A Floresta Ombrófila densa ocorre do Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul. A Floresta Ombrófila aberta ocorre em uma faixa que vai da Paraíba a Alagoas e também no leste de Minas Gerais. A Floresta Ombrófila Mista aparece em São Paulo e na Região Sul (Araucárias). As Florestas Semideciduais ou subcaducifólias são encontradas principalmente nas regiões centro-leste de Minas Gerais, ao passo que as Florestas Estacionais Deciduais ocorrem como manchas na Bahia e no Nordeste de Minas Gerais. Para Troppmair (2004), a Mata Atlântica é o mais devastado dos biomas brasileiros e sua biodiversidade chega a ser maior do que a da Amazônia. Essa intensa diversidade biológica se explica pela existência de diferentes ambientes proporcionados pela extensão latitudinal e as diferenças de altitude encontradas dentro do domínio. Essa biodiversidade, associada ao grau de endemismo e ao fato de a Mata Atlântica ter perdido mais de 90% da cobertura original, faz com esse bioma seja um dos dois Hots spots brasileiros. 5.15 O Pantanal O Bioma Pantanal é um complexo vegetacional associado a uma imensa planície fluvial com uma área de 220 km2 distribuídos pelos estados do Mato Grosso do Sul e Mato Grosso (IBGE, 2004). O termo “Complexo do Pantanal” está associado ao fato da área apresentar uma complexidade de tipos vegetacionais condicionados por diversas condições ambientais (FERRI, 1980). Para Ferri (1980), o Pantanal apresenta vários tipos de vegetação sendo que as principais fitofisionomias são o Campo Limpo, o Campo Cerrado, o Cerrado Típico, a Florestas Subcaducifólia que acompanha a margem dos rios e as Florestas Estacionais de afloramentos calcários. De acordo com Fernandes (1998), o Pantanal é uma das áreas de maior riqueza biológica do Brasil e que apresenta uma importância ecológica que transcende os limites do país. A importância ecológica do Pantanal reside-se principalmente no fato da sua área constituir um imenso ecossistema natural em perfeito equilíbrio com os regimes de cheias e vazantesque marcam o clima regional (BRANCO,1988). Para esse autor, os rios do Pantanal são os grandes transportadores e fornecedores dos nutrientes que garantem o crescimento da vegetação e a incrível produção de peixes, jacarés e aves aquáticas que povoam a região. Assim, os rios que cortam o Pantanal inundam periodicamente imensas planícies, fertilizando os solos e garantindo a sobrevivência da vegetação que assegura o alimento da fauna. 29 De acordo com o site da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – EMBRAPA, o Pantanal não é único, mas, sim, um conjunto de pantanais com características próprias de solo, vegetação e clima. Estudos efetuados pela Embrapa Pantanal identificaram 11 pantanais: Cáceres, Poconé, Barão de Melgaço, Paraguai, Paiaguás, Nhecolândia, Abobral, Aquidauana, Miranda, Nabileque e Porto Murtinho. Nesses onze pantanais foram identificadas quase duas mil espécies de plantas com potencial para forrageiras, produção de mel, frutíferas e madeireiras. Nas três últimas décadas toda a riqueza do Pantanal tem sido ameaçada pelas atividades econômicas que vêm sendo implantadas nos planaltos do entorno da planície pantaneira. A agricultura mecanizada desenvolvida nessas áreas tem favorecido a intensificação dos processos erosivos que assoreiam os rios do Pantanal, além de contaminarem suas águas com agrotóxicos. Para Branco (1988), o turismo ecológico planejado tem se destacado como uma atividade econômica que contribui para a preservação do Pantanal. Além do mais, essa vertente do turismo tem favorecido o aumento da sensibilização da população local no sentido de proteger o Pantanal e evitar a exploração predatória. 5.16 O Manguezal O Manguezal ou Mangue é um bioma encontrado na transição entre o ambiente marinho e o terrestre e que, de acordo com Troppmair (2004), é o único domínio intertropical com características vegetacionais homogêneas. As plantas do Manguezal possuem um sistema radicular complexo formado por raízes respiratórias e raízes escora que compõem um emaranhado que contribui em muito para a fixação de sedimentos do litoral (TROPPMAIR, 2004). Os Mangues também possuem uma importância muito grande para a dinâmica ecológica da biota marinha, uma vez que esses ambientes funcionam como verdadeiros berçários de espécies de peixes e crustáceos. Entretanto, os Mangues não têm sido valorizados, haja vista o ataque indiscriminado que esses ecossistemas vêm sofrendo das pessoas que transformaram essas áreas em depósitos de lixo e esgoto, além dos desmatamentos e aterros realizados com fins imobiliários (TROPPMAIR, 2004). Os Manguezais possuem outra característica peculiar: a presença de espécies halófilas que se adaptaram ao ambiente salobro típico do contato continente/oceano. Para Viadana (2010), esse aspecto dos manguezais constitui uma adaptação equilibrada entre a vegetação e as marés com sua salinidade e pequena quantidade de oxigênio dissolvido. Essa salinidade explica a presença de plantas com raízes respiratórias (pneumatóforas) constituídas de delgadas estruturas que não mergulham por completo no solo encharcado e lamacento do Mangue. Devido a essa característica, Ab’Saber (2009) define os Mangues como helobiomas de água salobra em função da constante invasão de águas salinas durante a maré alta. 30 5.17 Os campos naturais Os Campos Naturais constituem o bioma herbáceo do Rio Grande do Sul. O domínio das pradarias brasileiras é mais complexo do que o nome possa significar. Para Ab’Saber (2009), os campos naturais Sul-Riograndenses também podem ser denominados de pradarias mistas que se assentam sobre as coxilhas (colinas) onduladas do sudoeste do Rio Grande do Sul. De acordo com Fernandes (1998), todo o território do Rio Grande do Sul deveria ser revestido por florestas subtropicais, haja vista que a região possui índices pluviométricos capazes de proporcionar esse tipo de vegetação, mas o componente edáfico do sudoeste do estado não é favorável ao desenvolvimento de formações florestais devido ao fato de os solos serem bastante arenosos. Esse autor também ressalta que os Campos Naturais do Sul não são formados apenas por um imenso tapete de gramíneas. Essas pradarias são marcadas por outras formações vegetais que pontuam os campos quebrando a monotonia herbácea. Assim, nos campos também existem as formações palustres (de brejos), as matas galeria que margeiam os rios e nas áreas de nascentes ocorrem Capões (FERNANDES, 1998). Os Campos Naturais do Rio Grande do sul são conhecidos regionalmente como pampas gaúchos e apresentam diversos tipos de gramíneas em que se destacam as espécies dos gêneros Paspalum, Andropogon, Aristida e Briza (FERNANDES ,1998). Deve-se ressaltar que, ao longo do processo de ocupação do sul do Brasil, essa vegetação foi alterada através da pecuária e da agricultura mecanizada. Como os solos dos pampas gaúchos são muitos arenosos e suscetíveis à erosão, essas atividades intensificaram o processo de arenização de uma imensa área localizada entre os municípios de Itaqui, Alegrete e Quaraí, desencadeando uma série de impactos socioambientais na região (SUERTEGARAY, 2000). Em algumas áreas a degradação dos solos e a presença de areia é tão grande que alguns autores têm considerado que a área está sendo desertificada. Em Alegrete, por exemplo, existe o famoso “Deserto de São João” ou Saara dos Pampas”. De acordo com Suertegaray (2000), o emprego do termo desertificação não é apropriado para os processos que ocorrem no sudoeste do Rio Grande do Sul, pois a região não apresenta índices pluviométricos baixos. Neste caso, mesmo que esses “areais” assumam feições desérticas, o emprego do termo desertificação não é correto. Por outro lado, o emprego do termo desertificação ao Nordeste Brasileiro ou ao Sahel africano é adequado em função das condições climáticas dessas regiões (SUERTGARAY, 2000). 31 6. MEIO AMBIENTE O vocábulo meio ambiente tem sido muito usado pelos meios de comunicação na atualidade para designar uma grande variedade de situações causando, assim, certa confusão no tocante à apreensão do verdadeiro significado dos termos. Constata-se, portanto, que se criou um esvaziamento do conceito científico e legal de meio ambiente (FONSECA e PRADO, 2008). Sabe-se que o termo meio ambiente é muito comum na Biogeografia e em diversas ciências afins, mas a terminologia empregada nas ciências ambientais com um todo é muito ampla e alguns conceitos não possuem consenso entre os profissionais, fazendo com que certas definições sejam permeadas por significados imbuídos de senso comum. Nesse sentido, faz-se necessário uma breve revisão sobre esses conceitos para facilitar a compreensão da terminologia que será usada nesse caderno. De acordo com Melo (2007), o meio ambiente consiste em algo que está ao redor de um centro e que o mesmo é formado por diversos elementos, tais como, rochas, solos luz, água, plantas, animais, o homem, entre outros. Assim, toda a vida do planeta se hospeda na natureza ou que se pode chamar de meio ambiente (MELO, 2007). Nessa perspectiva, esse autor vai além e conceitua meio ambiente como o espaço onde estão presentes as condições necessárias para que a vida se desenvolva, ou seja, o meio ambiente corresponde à biosfera. Nessa mesma linha de raciocínio, Oliveira (1982) considera o meio ambiente como um conjunto de componentes bióticos, abióticos e bióticos-abióticos. Os elementos abióticos correspondem às rochas, ao relevo e ao clima, enquanto os bióticos dizem respeito à flora e fauna, incluindo o homem. O biótico- -abiótico corresponde aos solos, um componente intermediário importantíssimo para a vida (OLIVEIRA, 1982). Para Miller Jr. (2007), o meio ambiente é algo extremamente complexo cujo funcionamento afeta todas as formas de vida do planeta. Com base nas ideias de Sánchez (2008),