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CBI of Miami 1 CBI of Miami 2 DIREITOS AUTORAIS Esse material está protegido por leis de direitos autorais. Todos os direitos sobre ele estão reservados. Você não tem permissão para vender, distribuir gratuitamente, ou copiar e reproduzir integral ou parcialmente esse conteúdo em sites, blogs, jornais ou quaisquer veículos de distribuição e mídia. Qualquer tipo de violação dos direitos autorais estará sujeito a ações legais. CBI of Miami 3 Análise Funcional Aída Brito A análise funcional do comportamento está relacionada a uma variedade de abordagens e ferramentas utilizadas como medidas para identificar os antecedentes e as consequências que fortalecem e mantêm os comportamentos. Durante a avaliação, também são coletados os dados topográficos, como a intensidade, frequência e a duração dos comportamentos avaliados. Compreende-se por comportamento toda e qualquer interação do sujeito com o ambiente. Portanto, quando pensamos, decidimos, movimentamos, sentimos, estamos nos comportando e, desse modo, somos passíveis de observações e análises funcionais dos nossos comportamentos, visando compreender o que mantém tais respostas. Para que possamos defini-los enquanto comportamentos, precisamos nos atentar a uma certa cadeia, devendo estar presente o ANTECEDENTE, a RESPOSTA e a CONSEQUÊNCIA que poderá aumentar ou diminuir a frequência do comportamento em questão. Ao contrário do que, de modo geral, se compreende por comportamento, que comumente é reduzido apenas à emissão da resposta, na verdade, está inter-relacionado, ou seja, não existe comportamento sem o evento que o antecede e sem a presença de uma consequência dada. Portanto, só existe comportamento quando há uma interação entre os três elementos, formando uma relação funcional. (Skinner, 1953; Fonseca, Pacheco, 2010; Martin, Pear, 2018). À vista disso, a análise funcional do comportamento consistirá na observação ou na manipulação das variáveis chamadas independentes, ou seja, o que antecede e o que será consequência da resposta (variável dependente) emitida, visando compreender a função desse comportamento e avaliar possíveis formas mais favoráveis e saudáveis para o sujeito. Portanto, conforme afirmam Fonseca e Pacheco (2010, p. 3): CBI of Miami 4 A análise funcional realizada na avaliação do cliente objetiva desenvolver hipóteses sobre o efeito de variáveis ambientais na modelagem e na manutenção de comportamentos-problema e, dessa forma, identificar a função do comportamento-problema. A partir da análise funcional, Skinner propõe uma nova forma de avaliar o fenômeno comportamental, a partir da qual deixa de lado uma noção de “causa e efeito” e passa a avaliar de forma mais abrangente, no que irá considerar diversos aspectos na aquisição, emissão e manutenção dos comportamentos, apresentando um modelo de “seleção por consequências” (Neno, 2003). Conforme apresenta Matos (1999, p.10), “comportamentos evoluem (isto é, se modificam) porque têm uma função de utilidade na luta pela sobrevivência do indivíduo” e, dessa forma, a avaliação funcional dos comportamentos terá como intuito identificar quais são esses valores que mantêm tais comportamentos, ou seja, quais as funções que operam na emissão dos comportamentos avaliados e quais poderão fortalecer ou não a resposta desse comportamento no futuro. Portanto, com base na função da análise funcional, Matos (1999) apresenta as demais funcionalidades de tal ferramenta, como a possibilidade de planejar condições para a generalização e manutenção dos comportamentos observados, contribuindo para uma avaliação de comportamentos adequados e estratégias que poderão ser utilizadas como forma de contribuir no desenvolvimento do sujeito, como segue afirmando: Se a resposta identificada não for adequada, podemos substitui-la por uma outra mais aceitável, e que, por pertencer à mesma classe, continuará a produzir os mesmos reforçadores que a resposta anterior. Se uma condição ambiental não estiver mais disponível, podemos recorrer a outra condição ambiental equivalente, na certeza de que esta nova condição continuará a exercer o controle desejado sobre a resposta em questão (Matos, 1999, p. 13). Em função dessa ferramenta, imprescindível na prática do analista do comportamento, é que podemos distinguir a prática deste com o de outros profissionais e, até mesmo, de outras práticas na Psicologia. O analista do comportamento trabalha por observação e, portanto, toma as relações funcionais como objeto de estudo, sendo elas que vão delimitar o trabalho do analista, considerando-as como fundamentais. CBI of Miami 5 Análise Funcional Experimental e Descritiva Diante do que foi exposto na aula anterior, compreende-se que a Avaliação Funcional está relacionada a uma variedade de abordagens e ferramentas utilizadas como medidas para identificar os antecedentes e as consequências que fortalecem e mantêm os comportamentos. Durante a avaliação, também serão coletados os dados topográficos, como a intensidade, frequência e a duração dos comportamentos avaliados. Portanto, ao longo dessa aula serão discutidas as diferenças e as características da análise experimental, bem como da análise descritiva do comportamento. A análise funcional, também denominada enquanto “avaliação funcional experimental”, consiste na manipulação das variáveis ambientais, a partir da qual visa experimentar a sua relação no controle ou manutenção de comportamentos problemáticos observados. Dessa forma, o analista do comportamento avaliará e experimentará diretamente as variáveis que podem manter ou não determinados comportamentos. Como exemplo, lembremos a situação exemplificada na aula: Maria vai até o supermercado com a sua mãe. Ao chegar ao supermercado e ficar diante de uma fileira de chocolates, Maria se joga ao chão e começa a chorar. Sua mãe, envergonhada com a situação, entrega uma barra de chocolates à filha e, assim, cessa o choro dela. Analisando que ao entregar o chocolate, a filha para de chorar, a mãe resolve fazer alguns “testes”, o que podemos chamar de “avaliação funcional experimental”. A mãe leva a filha mais algumas vezes até o supermercado, mas altera algumas variáveis, como: ao chegar à seção de chocolates e Maria começar a chorar, a mãe tenta abraçá-la e dizer que a ama, verificando se o que Maria queria era atenção. Ao observar que ao dar determinada consequência, Maria não cessava o choro, mas sim aumentava, a mãe verifica, após todas as outras tentativas, se ao dar chocolates, a filha pararia de chorar e, assim, chega a uma hipótese de possível consequência reforçadora e mantenedora do comportamento inadequado - tangível. Assim apontam Martin e Pear (2018), ao apresentarem um estudo realizado por alguns pesquisadores, no ano de 1994, no qual chegaram à conclusão que: CBI of Miami 6 (...) diferentes tipos de reforçador estavam controlando o comportamento autolesivo de seis das nove crianças. Duas crianças mostraram um comportamento mais autolesivo durante a condição A, indicando que a atenção social, um reforço social positivo, estava mantendo o comportamento autolesivo delas. Duas crianças mostraram comportamento autolesivo durante a condição B, indicando que a fuga de demanda, um reforço social negativo, mantinha o comportamento autolesivo delas. Duas criançasmostraram comportamento mais autolesivo durante a condição C, sugerindo que um reforço não social estava mantendo seu comportamento autolesivo. Isto poderia ser algum tipo de reforço sensorial interno a partir do comportamento autolesivo (Martin, Pear, 2018, p. 551). Portanto, através desse estudo, além de compreender a funcionalidade e a forma da avaliação funcional experimental, tornou-se possível considerar que o tratamento deve sempre considerar a função pela qual o comportamento se mantém e não apenas a sua topografia, visto que um comportamento emitido por um sujeito pode ser similar ao outro, mas nem sempre a sua função. Entretanto, tal avaliação apresenta algumas dificuldades, como: Quantidade de tempo necessária para conduzir uma análise funcional; não poderá ser aplicada com sujeitos que apresentam comportamentos perigosos e, por fim, alguns comportamentos, necessários de serem avaliados, ocorrem com baixa frequência, impossibilitando uma previsão de quando poderia ser feita a avaliação. Além desta avaliação citada, os analistas do comportamento também contam com uma avaliação feita por meio de observações ou descrições detalhadas do comportamento, a chamada “avaliação funcional descritiva”. A partir dessa avaliação, o analista do comportamento poderá avaliar e identificar o que controla o comportamento do sujeito a partir de entrevistas, questionários, narrativas descritivas do comportamento, como o ABC (Antecedente, comportamento e consequente). Dessa forma, tal avaliação poderá contar com a ajuda de familiares, amigos, demais profissionais e, também, com o relato do próprio sujeito. Apesar de não ter a mesma confiabilidade e validade que a avaliação experimental, a avaliação descritiva permite uma coleta rápida de informação, as quais poderão ser úteis no surgimento de outros comportamentos e, por fim, CBI of Miami 7 na economia do tempo, possibilitando a exclusão de possíveis consequências do comportamento observado. Assim sendo, a avaliação funcional descritiva contribuirá para um plano de tratamento construído com base em hipóteses levantadas a partir das narrativas obtidas, ou seja, “se o tratamento for bem-sucedido, a análise descritiva é validada” (Martin, Pear, 2018, p.557). Além disso, torna-se importante considerar as vantagens da análise funcional, que são: Identificar as variáveis importantes para a ocorrência do fenômeno (como no caso de Maria), que estão sob controle desse fenômeno; permitir intervenções futuras; planejar generalização e manutenção dessas respostas; planejar respostas com a mesma função (pedir ao invés de se jogar, para garantir a consequência desejada - chocolate); transferência de função de estímulos; mudança a longo prazo. Fazer análise funcional permite uma série de vantagens extremamente importantes para o trabalho do analista de comportamento. Análise Funcional Descritiva Na aula anterior foram discutidos alguns pontos acerca da análise funcional experimental e descritiva. Portanto, considerando os aspectos já discutidos, nesta aula serão apresentados alguns exemplos e características complementares da análise funcional descritiva. Como já apresentado em aula, a análise descritiva do comportamento permite com que o analista faça algumas predições em relação às possíveis funções dos comportamentos emitidos. Para isso, a seguir estão 5 passos básicos para realizar uma avaliação funcional: 1. Definir precisamente um comportamento de interesse (Caso Maria: Se jogar no chão). 2. Identificar e descrever o efeito comportamental (Qual o efeito do comportamento de Maria?). 3. Identificar relações ordenadas entre variáveis ambientais e o comportamento de interesse (Identificar relações entre o comportamento de interesse e os comportamentos existentes). CBI of Miami 8 4. Formular predições sobre esses efeitos, manipulando possivelmente essas variáveis do comportamento, sobre o comportamento de interesse. (Se eu der ou não der o chocolate, o que acontece com o choro da Maria?). 5. Testar as predições (Dar ou não dar o chocolate). Para seguir o primeiro passo, ocasionalmente o analista do comportamento terá que reformular o comportamento de interesse, visto que a descrição poderá não estar tão compreensível e bem detalhada. Portanto, para que a avaliação prossiga de forma fidedigna e confiável, torna-se necessário deixar a informação o mais evidente possível. Dessa forma, algumas afirmações não são bem aceitas na análise do comportamento, como: descrições subjetivas (“ele está muito “danado” hoje”, “hoje ele está bem “complicadinho””), descrições os quais negam um comportamento (“após isso, ela não chorou”, “após não dar o chocolate ela não gritou”), sendo consideradas descrições que não são possíveis de serem discriminadas. Dessa forma, torna-se necessário que a descrição dos comportamentos seja feita de forma empírica e explícita. Além disso, é necessário destacar alguns erros mais comuns cometidos na prática da avaliação funcional, como: ● Achar que tudo o que vem depois do comportamento que a criança emitiu tem efeito de consequência, o que não pode ser afirmado sem que antes seja observado a relação funcional do comportamento. ● Afirmar que a consequência foi reforçadora ou punitiva sem observar o efeito. Entretanto, só será possível dar tal resposta ao ver se tal comportamento veio a acontecer novamente no futuro, ou não. ● Confundir reforçamento negativo com punição. Portanto, a análise funcional descritiva, se encarregará de descrever essas relações entre os eventos (antecedente, resposta e consequência), identificando os comportamentos de interesse, descrevendo as relações entre esses eventos, buscando compreender as relações possíveis e, por fim, chegar a predições, contribuindo para o melhor desempenho e qualidade do indivíduo, assim como os que fazem parte do seu círculo social. CBI of Miami 9 Referências Bibliográficas FONSECA, R.P.; PACHECO, J.T. Análise funcional do comportamento na avaliação e terapia com crianças. Rev. Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, v.12, n.1, p.1-19, 2010. MATOS, M.A. Análise funcional do comportamento. Rev. Estudos de Psicologia, v.16, n.3, p.8-18, 1999. MARTIN, G.; PEAR, J. Avaliação Funcional de Comportamento Problemático. In: MARTIN, G.; PEAR, J. Modificação de Comportamento: O que é e como fazer. 10. ed, Rio de Janeiro: Roca, 2018, p. 548-578. NENO, S. Análise funcional: Definição e aplicação na Terapia Analítico- Comportamental. Rev. Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, v.5, n.2, p.151-165, 2003.