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Disciplina | Introdução Avaliações Indiretas| 1 DISCIPLINA AVALIAÇÃO E PLANEJAMENTO DE INTERVENÇÕES NO AUTISMO CONTEÚDO Avaliação Comportamental Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Sumário Avaliações Indiretas| 2 A Faculdade Focus se responsabiliza pelos vícios do produto no que concerne à sua edição (apresentação a fim de possibilitar ao consumidor bem manuseá-lo e lê-lo). Nem a instituição nem os autores assumem qualquer responsabilidade por eventuais danos ou perdas, a pessoa ou bens, decorrentes do uso da presente obra. É proibida a reprodução total ou parcial de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive através de processos xerográficos, fotocópia e gravação, sem permissão por escrito do autor e do editor. 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CDD 23 ed.: 372.486 http://www.faculdadefocus.com.br/ mailto:tutoria@faculdadefocus.com.br http://www.faculdadefocus.com.br/ Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Sumário Avaliações Indiretas| 3 Sumário Sumário ----------------------------------------------------------------------------------------------------- 3 Introdução -------------------------------------------------------------------------------------------------- 4 1 Função da Avaliação do Comportamento ---------------------------------------------------- 4 2 Métodos de Avaliação Comportamental ----------------------------------------------------- 6 2.1 Avaliações Indiretas ---------------------------------------------------------------------------------------------- 6 2.1.1 Entrevistas --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 7 2.1.2 Escalas e Checklists ---------------------------------------------------------------------------------------------------------- 8 2.2 Avaliações Diretas ------------------------------------------------------------------------------------------------ 8 2.2.1 Análises Descritivas --------------------------------------------------------------------------------------------------------- 9 2.3 Análise Funcional do Comportamento -------------------------------------------------------------------- 12 3 Avaliação de Potenciais Reforçadores -------------------------------------------------------- 15 3.1 Importância do Reforçador Adequado -------------------------------------------------------------------- 15 3.2 Avaliação de Preferência X Avaliação de Reforçador ------------------------------------------------- 20 Conclusão -------------------------------------------------------------------------------------------------- 21 Referências ------------------------------------------------------------------------------------------------ 22 Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Introdução Avaliações Indiretas| 4 Introdução Veremos nesta unidade o que é e qual a finalidade da avaliação comportamental. No primeiro momento, apresentamos a função da avaliação do comportamento, considerada uma ferramenta essencial na Análise do Comportamento. Em seguida, detalhamos os métodos envolvidos na avaliação comportamental, divididos em avaliações indiretas e diretas. Aqui, exploraremos as particularidades e aplicações de cada método, incluindo entrevistas, escalas, checklists e análises descritivas, culminando na análise funcional do comportamento. Para finalizar, abordamos a avaliação de potenciais reforçadores, um aspecto crítico na modificação e no reforço de comportamentos. Discutiremos a importância da identificação de reforçadores adequados, o que implica na diferenciação da avaliação de preferência da avaliação de reforçadores. 1 Função da Avaliação do Comportamento No campo da Análise do Comportamento, a avaliação é um componente-chave de um modelo de intervenção sistemático, abrangendo avaliação, planejamento, implementação e análise. Ao contrário das avaliações tradicionais em Psicologia e Educação, que geralmente utilizam testes padronizados para avaliar os pontos fortes e fracos de uma criança em áreas como cognição, acadêmicas, sociais e habilidades psicomotoras, a avaliação comportamental centra-se em métodos como observações diretas, entrevistas, listas de verificação e testes. Esses métodos são utilizados para identificar e definir comportamentos específicos que serão o foco da intervenção. Além de determinar os comportamentos-alvo, a avaliação comportamental fornece detalhes sobre recursos, habilidades, pessoas envolvidas no controle do comportamento da criança, contingências concorrentes, fatores que mantêm e generalizam o comportamento e potenciais reforçadores ou punidores. Esses detalhes são essenciais para o desenvolvimento de um plano de intervenção eficaz para modificar o comportamento-alvo (RIBEIRO; SELLA; SOUZA, 2018). Em outros termos, as autoras resumem que o objetivo da avaliação comportamental consiste em identificar o problema do cliente e como melhorá-lo. Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Função da Avaliação do Comportamento Avaliações Indiretas| 5 Esta definição destaca que a avaliação comportamental tem como objetivo principal compreender a função do comportamento do indivíduo, identificando tanto habilidades quanto déficits comportamentais. Portanto, os resultados de uma avaliação comportamental fornecem ao analista do comportamento uma percepção das variáveis que influenciam o aumento, a diminuição, a manutenção ou generalização do comportamento-alvo. Como resultado, isto permite um planejamento mais direcionado de intervenções com maior probabilidade de sucesso. A eficácia do planejamento de uma intervenção comportamental depende de uma avaliação inicial cuidadosa e de uma descrição clara de objetivos. Antes da primeira sessão de avaliação, é fundamental determinar quais as habilidades que serão examinadas, os procedimentos de coleta de dados, a escolha do ambiente, a seleção de materiais apropriados e métodos de registo eficientes. Além disso, é importante o desenvolvimento de estratégias para se comportar em sessão, aumentando a cooperação e mantendo a motivação do indivíduo avaliado. O sucessoda intervenção depende em grande parte desta preparação inicial, ou seja, esses aspectos iniciais são considerados a base que estruturará o processo de intervenção (KRACKER, 2018). Conforme menciona a autora, protocolos específicos tornaram-se importantes ferramentas na sistematização das etapas do planejamento de intervenções baseadas na Análise Aplicada do Comportamento (ABA). Eles fornecem informações detalhadas sobre habilidades essenciais para o desenvolvimento e autonomia em diversos contextos, oferecendo ainda orientações para avaliação, desenvolvimento curricular e concepção de programas, com base em anos de investigação e experiência de equipes qualificadas em intervenções eficazes. Existem diversos materiais disponíveis para avaliação comportamental, variando em abrangência e foco quanto aos tipos de repertórios avaliados. Por exemplo, o "The Assessment of Basic Language and Learning Skills — Revised" (ABLLS-R) é projetado para avaliar 544 habilidades em áreas como linguagem, interação social, autocuidado, habilidades motoras e acadêmicas. Por outro lado, o "Socially Savvy: An Assessment and Curriculum Guide for Young Children" foca em avaliar 110 habilidades sociais, fornecendo sugestões de atividades, estratégias de intervenção e diretrizes para desenvolver currículos centrados no ensino de habilidades sociais. Esses exemplos ilustram como os manuais podem variar quanto aos tipos de repertórios que avaliam e ao conteúdo que incluem (KRACKER, 2018). Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Métodos de Avaliação Comportamental Avaliações Indiretas| 6 2 Métodos de Avaliação Comportamental Uma avaliação comportamental consiste em 1. métodos de avaliação indireta, que fornecem informações gerais iniciais sobre o caso do indivíduo, e 2. métodos de avaliação direta, que são mais demorados e geralmente requerem pessoal especializado ou treinado em observação. Os métodos indiretos incluem entrevistas e checklists que envolvem a participação da criança e daqueles que a rodeiam. Os métodos diretos são divididos em (a) análises descritivas, onde o comportamento é observado diretamente sem alterar as variáveis que podem influenciá-lo, e (b) análises funcionais experimentais, onde o comportamento não é apenas observado diretamente, mas também as variáveis que podem estar envolvidas em sua manutenção são sistematicamente manipuladas (RIBEIRO; SELLA; SOUZA, 2018). Os métodos de avaliação comportamental podem ser visualizados na imagem abaixo. Em seguida, descrevemos cada um dos métodos, com base em Ribeiro; Sella; Souza (2018). Figura 1 - Representação dos métodos de avaliação comportamental Fonte: (adaptado de Ribeiro; Sella; Souza, 2018). 2.1 Avaliações Indiretas As avaliações indiretas visam compreender as variáveis que influenciam o comportamento por meio de informações fornecidas pela criança ou por pessoas próximas a ela. Esses métodos, como entrevistas, escalas e checklists, baseiam-se em Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Métodos de Avaliação Comportamental Avaliações Indiretas| 7 memórias ou análises subjetivas de eventos. As vantagens incluem menor custo de resposta, menor tempo para aplicação e treinamento mais rápido para o administrador. No entanto, existem desvantagens significativas: os dados são menos precisos, logo, menos confiáveis do que os das avaliações diretas, não incluem observações diretas do comportamento, dependem das memórias de pessoas próximas da criança e muitos instrumentos de avaliação indireta não são validados, afetando sua confiabilidade (RIBEIRO; SELLA; SOUZA, 2018). 2.1.1 Entrevistas As entrevistas comportamentais são realizadas para coletar informações sobre os comportamentos-alvo e as variáveis que os mantêm. Essas informações auxiliam na formulação de hipóteses sobre funções comportamentais e no planejamento de intervenções. As entrevistas podem ser com a criança ou com quem ela convive diariamente, como pais, professores e terapeutas (RIBEIRO; SELLA; SOUZA, 2018). Fonte: (OpenAI's DALL-E, 2024). As autoras pontuam que uma entrevista comportamental foca em questões como “O quê” e “Quando” relacionados às condições ambientais de comportamento presentes antes, durante e após a ocorrência de um comportamento. As vantagens da entrevista, segundo Ribeiro; Sella; Souza (2018), incluem ser a etapa inicial da avaliação, estabelecer relacionamento com o entrevistado, adquirir informações sobre episódios comportamentais e oportunidade para perguntas de acompanhamento. No entanto, apresentam desvantagens significativas, como a falta de observação direta do comportamento, informações não quantificáveis, o risco de memórias imprecisas ou respostas influenciadas pelas expectativas do entrevistador e o desafio de avaliar a confiabilidade das respostas devido à natureza aberta das questões. Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Métodos de Avaliação Comportamental Avaliações Diretas| 8 2.1.2 Escalas e Checklists De acordo com Ribeiro; Sella; Souza (2018), escalas comportamentais e checklists são ferramentas complementares às entrevistas para identificar comportamentos-alvo, mas também podem ser utilizados sozinhos. Um checklist comportamental fornece uma lista de comportamentos específicos e as condições sob as quais cada um deve ocorrer. Checklists específicos podem ser desenvolvidos para avaliação de um comportamento particular ou uma área específica, entretanto, muitos analistas do comportamento usam checklists já desenvolvidos. As vantagens dos checklists incluem: (1) fornecer dados quantificáveis; (2) a capacidade de passar por testes de confiabilidade e validade; e (3) menor risco de viés, pois podem ser preenchidos sem entrevistador. Porém, apresentam como desvantagens: (1) não observar diretamente o comportamento-alvo; (2) confiança na precisão da memória do respondente; (3) nenhuma flexibilidade para questões de follow-up; e (4) não facilitar a construção de relacionamento com o entrevistado (RIBEIRO; SELLA; SOUZA, 2018). 2.2 Avaliações Diretas Na abordagem analítico-comportamental aplicada, tem-se preferência por avaliações diretas e repetidas do comportamento do indivíduo avaliado em seu ambiente natural para identificar comportamentos a serem alterados. Os métodos de avaliação direta baseiam-se na observação direta do comportamento, incluindo 1. análises descritivas e 2. análises funcionais experimentais. As observações diretas, conforme Ribeiro; Sella; Souza (2018), envolvem o monitoramento de comportamentos que precisam ser mudados enquanto ocorrem. Estas observações são base para as avaliações diretas, pois visam principalmente compreender as variáveis que influenciam a ocorrência do comportamento, o que tem maior grau de confiabilidade em relação a relatos. Contudo, quando a fala da criança é o comportamento em questão, somente a observação do comportamento-alvo enquanto ocorre é denominada observação direta. As vantagens da observação direta incluem dados mais confiáveis, pois se baseiam no comportamento observado, e a capacidade de analisar em que circunstâncias específicas o comportamento acontece. Contudo, as desvantagens Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Métodos de Avaliação Comportamental Avaliações Diretas| 9 residem na viabilidade, em razão dos custos associados com equipamentos, materiais, e à necessidade de pessoal especializado e treinado, bem como ao tempo necessário para observação (RIBEIRO; SELLA; SOUZA, 2018). 2.2.1 Análises Descritivas As análises descritivas descrevem as relações entre o comportamento e o ambiente natural, porém não estabelecem uma relação funcional direta, pois não há manipulação de variáveis que possam influenciar o comportamento. Estas análises envolvem a mediçãodo comportamento e de vários eventos ambientais através de repetidas observações diretas. Dentre os tipos de análises descritivas, menciona-se: scatterplot, narrativas ABC e observações semiestruturadas e estruturadas. O objetivo das análises descritivas é reunir informações a respeito de instâncias específicas de comportamentos-alvo, conforme ocorrem no ambiente natural. 2.2.1.1 Scatterplot O scatterplot é um modo de registro de dados em intervalos de tempo pré- estabelecidos, usado para identificar padrões entre comportamentos-alvo e períodos específicos. Os dados coletados indicam correlações, mas não relações funcionais, já que não manipulam diretamente as variáveis que podem causar o comportamento (RIBEIRO; SELLA; SOUZA, 2018). Por exemplo, ao analisar uma criança com um comportamento-problema de atirar objetos na parede, um scatterplot ajudaria a identificar em quais horários ou situações esse comportamento é mais comum. Quadro 1 – Scatterplot de Luiza Eixo X (hora) Hora Scatterplot de Luiza 13h00 ● ● ◆ X ◆ 13h15 ◆ X X ◆ X 13h30 ● ● ● X ● 13h45 ● ◆ ● X X 1 2 3 4 5 Eixo Y (dias) Legenda: X nenhum objeto atirado; ◆ 1 objeto atirado; ● 2-3 objetos atirados Fonte: (NÚCLEO EDITORIAL). Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Métodos de Avaliação Comportamental Avaliações Diretas| 10 Dentre as vantagens desta forma de registro, menciona-se: (1) facilidade de implementação, necessitando apenas da marcação de símbolos em intervalos de observação; (2) estimativa aproximada da frequência do comportamento-alvo; (3) identificar padrões temporais de comportamento em condições naturais; (4) o registro dos dados ocorre apenas quando o comportamento acontece; (5) permitir a análise visual direta dos dados. Contudo, as desvantagens são: (1) eles não medem eventos que ocorrem antes ou após o comportamento; (2) avaliações adicionais são necessárias para isolar variáveis relacionadas ao comportamento; (3) a análise e representação dos dados não revelam padrões temporais previsíveis; (4) são ineficientes para comportamentos que não possuem uma organização temporal clara (RIBEIRO; SELLA; SOUZA, 2018). 2.2.1.2 Observação Narrativa Observações narrativas ABC (antecedente - comportamento - consequência) consistem em uma forma de registro que abrange a descrição de eventos observados por escrito, com informações específicas sobre os antecedentes e as consequências dos comportamentos. As narrativas são particularmente úteis para avaliar comportamentos novos, generativos e peculiares, que são difíceis de definir ou especificar antecipadamente. Importante O modelo ABC vem do inglês “Antecedent-Behavior- Consequence” (Antecedente-Comportamento- Consequência). Antecedente: o que acontece antes ou junto da ação do organismo (inclui antecedentes ambientais e antecedentes comportamentais). Comportamento (resposta): aquilo que um organismo faz (sua ação). Consequência: o que acontece após a ação de um organismo. Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Métodos de Avaliação Comportamental Avaliações Diretas| 11 As vantagens incluem a coleta de uma grande quantidade de informações qualitativas, a capacidade de capturar comportamentos novos e generativos devido à flexibilidade do método e o fornecimento de informações para o desenvolvimento de observações mais estruturadas. Contudo, as desvantagens são que estas observações são baseadas nas inferências do observador, sem manipulação de variáveis, o que pode levar a suposições sobre os eventos serem antecedentes ou consequências; limitações na concordância dos observadores e na seleção de variáveis para investigação; e a falta de dados quantitativos, dificultando o estabelecimento de prioridades pelo profissional (RIBEIRO; SELLA; SOUZA, 2018). Quadro 2 – Exemplar de uma folha de registro de narrativa ABC Hora Evento antecedente (A) Comportamento (B) Consequência (C) 17h00 Ao chegar no shopping, EEL e sua mãe caminhavam em direção a loja de materiais escolares. Chegando na loja, EEL começou a fazer um escândalo, chorava e gritava por cerca de 6-8 minutos. Sua mãe pediu para escolher algum material de sua preferência. Dados Local Shopping Central Data 06/02/2022 Início do período de observação Término do período de observação Observador (iniciais) Criança (iniciais) EEL Idade (a, m) 6, 8 Resumo da observação Observações importantes Fonte: (NÚCLEO EDITORIAL). 2.2.1.3 Observações Semiestruturadas e Estruturadas Consistem em um modo de registro que envolve a pré-identificação e definição operacional de antecedentes, comportamentos e consequências, obtendo, assim, uma folha de registro onde o observador simplesmente aplica uma notação predefinida. O objetivo dessa observação é a obtenção de dados mais objetivos do que as narrativas ABC, pré-identificando e definindo o que observar. As vantagens incluem a identificação e definição prévia dos eventos, registrando todas as ocorrências de A-B- C durante o período de observação e gerando dados quantificáveis (por exemplo, o comportamento ocorreu três vezes em uma hora). No entanto, citam-se como Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Métodos de Avaliação Comportamental Análise Funcional do Comportamento| 12 desvantagens o fato de que os comportamentos observados podem não ser os mais relevantes, pois são pré-definidos. Além disso, em muitas observações (semi)estruturadas, a frequência e a duração do comportamento não são registradas (RIBEIRO; SELLA; SOUZA, 2018). As autoras acrescentam que as avaliações semiestruturadas geralmente oferecem orientações sobre habilidades gerais a serem avaliadas, baseando-se na sequência de desenvolvimento infantil. Elas frequentemente sugerem a manipulação de variáveis ambientais para avaliar a função do comportamento, mas não equivalem a uma análise funcional experimental completa. Os resultados dessas avaliações fornecem indicações para a definição de prioridades, objetivos e Plano de Ensino Individualizado (PEI). Alguns exemplos incluem o Verbal Behavior Milestones Assessment and Placement Program - VB-MAPP e o Inventário Portage Operacionalizado. 2.3 Análise Funcional do Comportamento A análise funcional, conforme descrevem Ribeiro; Sella; Souza (2018), é uma avaliação que visa identificar a função dos comportamentos problemáticos por meio da manipulação de variáveis que podem controlá-los. Considerada como “padrão ouro” na avaliação da função comportamental, fornece os dados mais confiáveis por meio da manipulação direta de variáveis. Esta análise requer a observação direta das relações entre o ambiente e o comportamento, com manipulação deliberada das variáveis responsáveis pelo comportamento. As autoras citam como exemplo o caso em que uma criança se joga no chão ao ser chamada para realizar tarefas (existindo a hipótese de que com esse comportamento a criança esquiva-se da realização da tarefa). Com a análise funcional seria observado as reações da criança em dias diferentes: quando a mãe chama para a tarefa e permite que a criança se esquive (condição de teste) e quando a mãe não apresenta a tarefa (condição controle). Quadro 3 – Exemplo de uma análise funcional Variável antecedente (A) Comportamento (B) Consequência (C) Hipótese Condição de teste Demanda dada pela mãe para fazer a tarefa A criança se joga no chão Permissão da mãe para que a criança se esquive da tarefa A variável antecedente (A) e a consequência (C) influenciam o Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Métodos de Avaliação Comportamental Análise Funcional do Comportamento| 13 comportamento-alvo (B) Condição controle Nenhuma tarefa é apresentada A variável antecedente(A) influencia o comportamento Fonte: (feito com base no exemplo mencionado por Ribeiro; Sella; Souza, 2018). Durante a condição de teste, a variável antecedente (demanda dada pela mãe para fazer a tarefa) e a consequência (permissão da mãe para que a criança se esquive da tarefa) tidas como hipótese de serem aquelas que influenciam o comportamento- alvo, são sistematicamente apresentadas. Enquanto, durante a condição de controle, a hipótese é que o antecedente seria aquele que influencia o comportamento é omitido, ou seja, não há apresentação de tarefa. A comparação dos altos níveis de comportamento-problema entre as condições de controle indica que as variáveis manipuladas na condição de teste estão controlando o comportamento-problema, (esquiva de demanda). Portanto, de acordo com as autoras, o propósito das análises funcionais é identificar quais variáveis antecedentes e consequentes estão influenciando a ocorrência de comportamento-problema, ou seja, entender as razões por trás desses comportamentos. Esta análise é fundamental, pois possibilita o desenvolvimento de tratamentos altamente individualizado. Um dos procedimentos mais utilizados na análise funcional é baseado na descrição de Iwata et al. (1982/1994) e é comumente chamado de “análise funcional tradicional”, considerada uma análise ABC, uma vez que consiste na avaliação da função de eventos antecedentes e consequentes durante a ocorrência do comportamento-problema. Na análise funcional do comportamento, organizam-se as variáveis antecedentes e as consequentes de modo que permita avaliar o efeito individual de cada variável. Geralmente, a análise funcional possui uma condição de controle e quatro condições de teste: atenção, item favorito, demanda e sozinho. Descrevemos cada condição, a seguir, a partir de Ribeiro; Sella; Souza (2018). • Condição de controle: os resultados obtidos nessa condição serão comparados com os resultados de cada condição de teste. Nessa condição, disponibiliza-se todos os itens preferidos do indivíduo, assim como a atenção do terapeuta, e nenhuma tarefa ou instrução é apresentada ao indivíduo. Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Métodos de Avaliação Comportamental Análise Funcional do Comportamento| 14 Ressalta-se que nessa condição não há nenhuma consequência específica para os comportamentos-alvo, que são, geralmente, ignorados. • Condição de teste (atenção): o objetivo é avaliar se o comportamento-alvo é mantido por reforço social positivo, como receber atenção de um adulto. Por exemplo, uma criança que faz birra e recebe atenção dos pais está sendo reforçada socialmente. Nessa condição, o terapeuta concentra-se em outra pessoa ou atividade (ler um livro, preencher um formulário) e, quando a criança apresenta o comportamento-problema, interrompe para dar atenção à criança. A atenção pode ser na forma de um sermão ou de palavras de conforto, correspondente ao tipo de comportamento-problema. Por exemplo, para comportamento agressivo, o terapeuta pode expressar desaprovação, enquanto para comportamento autolesivo, pode oferecer palavras de consolo. Após um tempo determinado (20 segundos), o terapeuta retoma a atividade inicial (dirigida a uma pessoa ou atividade), desviando a atenção da criança. • Condição de teste (item favorito): trata-se de uma variação da condição de atenção, sendo bastante utilizada nas análises funcionais. Para esta condição, o terapeuta retira da criança um item altamente preferido e dá-o a ela sempre que ela apresentar o comportamento-problema alvo. Nesse cenário, o terapeuta não interage nem dá atenção à criança, manipulando apenas seu item preferido. Após um período determinado, o terapeuta retira o item e restringe o acesso da criança a ele. • Condição de teste (demanda): visa avaliar se o comportamento-alvo é mantido por reforço social negativo, como o encerramento de uma demanda. O “social” implica que o fim da situação aversiva (demanda) seja mediado por outra pessoa. Durante esta condição, o terapeuta apresenta repetidamente tarefas que parecem associadas ao comportamento-problema alvo (como recolher brinquedos). Se a criança obedecer sem apresentar o comportamento- problema, receberá breves elogios seguido de outras tarefas. Caso a criança não cumpra, o terapeuta utiliza modelo e ajuda física até que ela complete a tarefa, e segue com a apresentação de outras tarefas. Sempre que a criança apresenta o comportamento-problema, o terapeuta interrompe a tarefa, dizendo "Tudo bem, você não precisa fazer isso", logo após, retira os materiais e se afasta da criança. Durante as tarefas ou durante o intervalo de fuga da demanda, o terapeuta não oferece nenhum tipo de atenção para a criança. Passado certo tempo (20 segundos), o terapeuta volta-se para a criança e reinicia a apresentação das tarefas. Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Avaliação de Potenciais Reforçadores Importância do Reforçador Adequado| 15 • Condição de teste (sozinho): busca avaliar se o comportamento-alvo é mantido por reforçamento automático, isto é, comportamentos que são reforçados sem a mediação de outro indivíduo (estereotipias, comportamento autoestimulátorio). Durante essa condição, o terapeuta deixa a criança sozinha ou em um ambiente com pouca ou nenhuma estimulação (sem brinquedos, parede sem decoração). Se o terapeuta permanecer na sala com a criança, deve se posicionar em um canto sem manter contato visual. Nessa condição, não há nenhuma consequência para os comportamentos-alvo que são, normalmente, ignorados. Normalmente, implementa-se a análise funcional tradicional em um delineamento de múltiplos elementos, alternando aleatoriamente as diferentes condições de teste e controle. Ao final, compara-se o resultado de cada condição de teste exclusivamente com os resultados da condição de controle. Portanto, demonstra-se a função do comportamento quando o nível de respostas nas condições de teste difere do nível da condição controle. O delineamento de elementos múltiplos tem como vantagem a eliminação da necessidade de realizar várias reversões, contudo, envolve certas dificuldades na discriminação entre as condições e possível interação dos efeitos das condições (RIBEIRO; SELLA; SOUZA, 2018). De acordo com as autoras, a análise funcional experimental é uma ferramenta muito apropriada para intervir em comportamentos-problema, mas não deve ser conduzida sem a supervisão de um analista do comportamento com experiência neste procedimento, visto que a implementação incorreta e a desatenção as medidas de segurança podem causar danos físicos e materiais à criança e aos terapeutas. 3 Avaliação de Potenciais Reforçadores 3.1 Importância do Reforçador Adequado Antes de iniciar intervenções baseadas em ABA, é fundamental descobrir os reforçadores, o que implica em compreender o papel das avaliações de preferência do indivíduo. A partir das avaliações de preferência são identificados os reforçadores em potencial dentre uma grande quantidade de itens, diminuindo o volume de itens e o tempo gasto nos testes de reforçadores diretos (RIBEIRO; SELLA, 2018). Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Avaliação de Potenciais Reforçadores Importância do Reforçador Adequado| 16 Lembramos que as consequências resultantes de um comportamento influenciam a probabilidade de ele ser repetido no futuro. Certas consequências podem intensificar a frequência, duração ou intensidade do comportamento, aumentando assim a chance de ele ocorrer novamente em situações similares aos estímulos antecedentes. Essas consequências específicas são conhecidas como reforçadoras (RIBEIRO; SELLA, 2018). Vejamos um exemplo de contingência ABC retratando as consequências reforçadoras, o reforçador, o reforçamento e o reforço. Contexto: Igor está aprendendo opareamento das cores do semáforo aos seus comandos respectivos. Instrução: Diante do círculo verde, falar avance; Diante do círculo laranja, falar pare; Diante do círculo vermelho, falar pare. Fonte: (OpenAI's DALL-E, 2024). Antecedente (A) Comportamento (B) Consequência (C) Círculos de cor verde, laranjada e vermelha Diante do círculo vermelho, Igor fala “pare” Elogio: “muito bem; ótimo; isso aí” Propriedade da consequência: Reforçadora ( ) / Não reforçadora ( ) A consequência será reforçadora se após outras tentativas, Igor continuar com um nível de acerto esperado, do contrário, não será uma consequência reforçadora. Reforçador: nesse exemplo, o elogio poderá ser considerado como um estímulo reforçador se aumentar a frequência da resposta (comportamento). Reforçamento: no exemplo dado, consiste em apresentar o elogio (estímulo reforçador) após a resposta (comportamento). Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Avaliação de Potenciais Reforçadores Importância do Reforçador Adequado| 17 Reforço: considera-se o aumento da frequência das repostas, independentemente de corretas ou não. Dependerá do tipo de resposta que será reforçada, nesse caso, pretende-se reforçar a resposta “pare” diante da cor vermelha e laranjada e “avance” diante da cor verde. Perceba que o reforço está associado à consequência e ao reforçador. Se, por exemplo, o reforçador (elogio) não estiver funcionando, mas continuar sendo utilizado, a frequência das repostas incorretas aumentará, evidenciando um reforço inadequado, ou seja, o reforço de repostas incorretas. Ao afirmar que um comportamento foi reforçado, a interação entre o organismo e o ambiente deve resultar em três fenômenos: 1. as respostas devem produzir consequências; 2. a probabilidade das respostas deverá aumentar, o que significa que se tornarão mais frequentes do que quando não tinham as consequências. 3. esse aumento na probabilidade deve ser atribuído somente à consequência da resposta (CATANIA, 1999). Não confunda! Conforme Ribeiro e Sella (2018), consequências reforçadoras podem ser entendidas como a propriedade de um estímulo (indicando que uma consequência é reforçadora) e um reforçador, como um estímulo específico (por exemplo, um item reforçador — objetos, atividades, brinquedos, atenção, comidas etc.). Esses conceitos são diferentes de reforçamento e reforço. Reforçamento é a ação de apresentar um reforçador após uma resposta (o reforçamento é feito em relação a resposta, não em relação ao indivíduo). O termo reforço se relaciona com dois fenômenos: primeiro, o processo que leva ao aumento na frequência ou em outra dimensão da resposta; segundo, o procedimento de apresentar consequências após a emissão de uma resposta. Observação: entende-se o termo “resposta” como “comportamento” emitido pelo indivíduo. Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Avaliação de Potenciais Reforçadores Importância do Reforçador Adequado| 18 Quando estas condições são satisfeitas, pode-se afirmar que a resposta foi reforçada e o estímulo atuou como um reforçador. É importante lembrar que não se pode determinar ou supor antecipadamente qual será o reforçador para dada resposta, pois exige-se a realização de testes. Por exemplo: a pessoa emite uma resposta; é apresentada a consequência escolhida (estímulo reforçador); a resposta não se repete. Nessa situação, deve-se analisar a viabilidade da consequência nos procedimentos, pois ela não resultou no aumento da probabilidade de emissão da resposta, logo, não se pode atribuir-lhe valor reforçador (RIBEIRO; SELLA, 2018). Para ilustrar o reforçador, mencionamos o seguinte exemplo: uma criança sensível a reforçadores aprende a imitar um macaco somente na presença desse animal, pois recebe elogios imediatos ao fazê-lo, mas ao imitar um macaco na presença de outros animais, sua resposta não é reforçada. Isso indica que uma contingência de reforçamento foi estabelecida: na presença de estímulos antecedentes específicos (macaco), a resposta (imitar o macaco) tem uma maior probabilidade de resultar em estímulos consequentes que são reforçadores (elogios). Roncati et al. Fonte: (OpenAI's DALL-E, 2024). (2018) argumentam que é por meio desse processo que a maioria dos comportamentos dos indivíduos é aprendida, incluindo desde respostas relativamente simples até habilidades elaboradas. Assim, o reforçador, de certa maneira, age como um seletor dos comportamentos que serão mantidos no repertório de cada indivíduo. Comportamentos que não são reforçados e aqueles que param de ser reforçados, deixam de ocorrer (RONCATI et al., 2018). Vejamos novamente outro exemplo mencionado por Roncati et al. (2018): ao ficar com dúvidas sobre as explicações do professor, o aluno pode emitir uma série de repostas: levantando a mão para fazer uma pergunta, expressando sua dúvida diretamente sem pedir permissão, ou mesmo levantando-se e caminhando até o professor. Supõe que o professor responda consistentemente às perguntas do aluno Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Avaliação de Potenciais Reforçadores Importância do Reforçador Adequado| 19 quando ele levanta a mão, repreendendo quando fala sem permissão e o instruí a sentar-se quando se aproxima sem ser chamado. Nesta situação, é muito provável que o aluno deixe de gritar ou de se levantar sem autorização, pois esses comportamentos não são reforçados. Por outro lado, o comportamento de levantar a mão para fazer perguntas pode se tornar mais frequente, pois é reforçado pela resposta do professor às dúvidas. Diante da importância do processo de reforçamento para a aprendizagem, Roncati et al. (2018) sinalizam a importância de os terapeutas programarem bons reforçadores, o que é especialmente relevante em intervenções com pessoas com TEA, visto que muitos são pouco sensíveis às consequências comumente planejadas para o ensino, tais como elogios, notas, pontos etc. Os autores mencionam que sessões sem reforçadores eficazes tendem a ser mais demoradas e, consequentemente, custosas tanto para o terapeuta quanto para o cliente. Isso acontece porque reduz-se a quantidade de demanda por tempo e aumenta-se a latência entre a pergunta do terapeuta e a resposta do cliente (pois o engajamento do cliente se torna mais dificultoso sem o reforçador adequado). Além disso, comportamentos inadequados (choro, gritos, tentativas de agressão, destruição de materiais, bocejos, distração, postura excessivamente relaxada na cadeira ou levantar-se frequentemente) são comuns nessas situações. Roncati et al. (2018) pontuam a necessidade da avaliação funcional para cada um desses comportamentos, porém sinalizam que a ocorrência durante uma sessão de intervenção comumente Alguns comportamentos geram reforçadores naturais; por exemplo, um amante de livros lê simplesmente por gostar de ler, portanto, não precisa de elogios para continuar lendo. No entanto, muitos comportamentos necessitam ser reforçados para serem aprendidos. Nesses contextos, a ausência de reforçadores apropriados leva a efeitos indesejáveis, sendo o mais crítico a possibilidade de que a aprendizagem não ocorra de fato, pois depende de reforçadores. Além disso, uma intervenção que carece de reforçadores eficazes pode levar a uma situação de ensino adversa, onde o aluno responde unicamente para escapar das tarefas (RONCATI et al., 2018). Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Avaliação de Potenciais Reforçadores Avaliação de Preferência X Avaliação de Reforçador| 20 indica uma tentativa de fuga às tarefas, o que sugere a necessidade de reavaliar e mudar os reforçadores. Para a escolha do reforçadorideal também é necessário considerar que o que funciona como reforçador para um indivíduo pode não funcionar para outro, por exemplo, elogios, acesso a tablets, guloseimas, brinquedos etc. não funcionam como reforçadores para todos os indivíduos. Lembre-se: para ser considerado um reforçador, o estímulo deve manter ou aumentar a probabilidade de ocorrência da resposta que o produziu (RIBEIRO; SELLA, 2018; RONCATI et al., 2018). Além disso, segundo os autores, deve-se ter em conta a mudança do valor dos estímulos reforçadores em função de eventos chamados de Operações Motivadoras. Por exemplo, numa sessão terapêutica, um brinquedo preferido do cliente que é guardado para ser utilizado somente durante a intervenção provavelmente será um reforçador eficaz, mas pode perder temporariamente sua eficácia se for apresentado continuamente. Em vista disso, é importante constar com mais de uma opção de reforçador. A partir do exposto, evidencia-se a importância de realizar as avaliações de preferência, uma vez que é totalmente inadequado considerar que estímulos altamente preferidos funcionarão como reforçadores eficazes, pois o valor reforçador de um determinado item está relacionado a muitas variáveis contextuais, como por exemplo a disposição de outras formas de reforçamento e a história recente de privação (exemplo do brinquedo mencionado no parágrafo anterior) ou de saciação do item. 3.2 Avaliação de Preferência X Avaliação de Reforçador O processo de identificação de reforçadores para um indivíduo pode ser dividido em duas etapas complementares: a primeira é a avaliação de preferências e a segunda, a avaliação de reforçadores. Vejamos, a seguir, as duas formas de avaliação com base em Roncati et al. (2018). • Avaliação de preferências: visa identificar estímulos que podem ser reforçadores, como aqueles com os quais o indivíduo interage mais ou escolhe primeiro dentre várias opções. Três métodos gerais são utilizados para essa avaliação: avaliação indireta, observação e testes diretos. Na avaliação indireta, entrevistas ou questionários são utilizados para identificar, através dos relatos Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Conclusão Avaliação de Preferência X Avaliação de Reforçador| 21 do próprio indivíduo, pais ou cuidadores, os estímulos que atraem mais a sua atenção. Na observação, o comportamento do indivíduo é observado diretamente em seu ambiente natural, registrando-se os estímulos com os quais ele mais interage. Já nos testes diretos, estímulos potencialmente reforçadores são apresentados, avaliando-se o tempo de interação com cada um e a ordem de escolha quando são oferecidos em grupos. • Avaliação de reforçadores: os estímulos escolhidos na avaliação de preferências são testados para avaliar se realmente atuam como reforçadores. Há diferentes avaliações para realizar essa avaliação, como por exemplo a avaliação por operante simples e por operantes concorrentes. Na avaliação por operante simples, um único estímulo potencialmente reforçador é testado em relação a um comportamento específico. Para os operantes concorrentes, dois potenciais estímulos reforçadores são testados para dois comportamentos distintos. Conclusão A avaliação comportamental abrange uma variedade de métodos de coleta de dados, desde entrevistas abertas até análises funcionais experimentais, cada uma com seu propósito e limitações. Evidenciamos que a escolha do método de avaliação depende das necessidades específicas de cada caso. Como pontuam Ribeiro e Sella (2018), uma avaliação precisa, minuciosa e sistemática é essencial para identificar os déficits e as competências das crianças. A insuficiência desse conhecimento dificulta estabelecer prioridades eficazes, levando a tratamentos sem uma direção clara, desperdiçando tempo e recursos das crianças, de seus familiares, cuidadores e profissionais. Quanto a avaliação de potenciais reforçadores, sublinhamos a relevância de compreender não apenas o que aumenta a frequência de um determinado comportamento, mas também como e por que certos estímulos podem ser mais eficazes que outros na promoção de mudanças comportamentais desejadas. Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Referências Avaliação de Preferência X Avaliação de Reforçador| 22 Referências CATANIA, A. C. Aprendizagem: comportamento, linguagem e cognição. Porto Alegre, RS: Artmed, 1999. KRACKER, C. Importância do uso de protocolos de avaliação e elaboração de currículo individualizado. In: DUARTE, C. P.; SILVA, L. C. e; VELLOSO, R. de L. Estratégias da Análise do Comportamento Aplicada para pessoas com Transtornos do Espectro do Autismo. 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Avaliação e Planejamento de Intervenções no Autismo | Referências Avaliação de Preferência X Avaliação de Reforçador| 23 Sumário Introdução 1 Função da Avaliação do Comportamento 2 Métodos de Avaliação Comportamental 2.1 Avaliações Indiretas 2.1.1 Entrevistas 2.1.2 Escalas e Checklists 2.2 Avaliações Diretas 2.2.1 Análises Descritivas 2.2.1.1 Scatterplot 2.2.1.2 Observação Narrativa 2.2.1.3 Observações Semiestruturadas e Estruturadas 2.3 Análise Funcional do Comportamento 3 Avaliação de Potenciais Reforçadores 3.1 Importância do Reforçador Adequado 3.2 Avaliação de Preferência X Avaliação de Reforçador Conclusão Referências