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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO Faculdade de Direito da UERJ Transcrição de Direito Processual Civil I – Aula 8 Professor: André Roque Transcritores: Marcos Paulo Maia, Alice Alván, Ana Beatriz Torres, Carol Santana, Fabienne Louzada, Gabriel Pegoretti, Yasmin Yunes, Gabriella Barcelos, Gizelle, Gabriella Thomaz, Caio, Hállan Fidalgo, Livia Araujo, Maria Eduarda Eiras e Maria Bruna Revisor: Luiz Felipe Rodrigues Professor: O que a gente falou foi que os recursos abaixam o trânsito em julgado e depois a gente começou a falar do efeito devolutivo, nas suas duas dimensões, na dimensão horizontal, que é aquela que pode ser limitada pelas partes, ou seja, quais capítulos as partes querem impugnar e na dimensão vertical, que não pode ser limitada pelas partes, ou seja, dentro daquele capítulo há uma variedade de questões e as partes não podem afastar a apreciação desses atributos. Mas, afinal, quais são essas questões que devem ser apreciadas pelo tribunal nessa dimensão vertical? Então, foi nesse ponto que a gente parou. [Escrevendo no quadro] Efeito devolutivo vertical, quais questões poderão ser reexaminadas pelo Tribunal? A primeira delas é óbvia, são as questões, ou seja, os argumentos, que foram decididos, que foram examinados. São os argumentos que foram examinados pela decisão recorrida. Então, se a decisão recorrida, por exemplo, afastou a prescrição em relação a um capítulo, você pode rediscutir essa questão da prescrição. Se a decisão recorrida considerou provar determinado pagamento, você pode rediscutir que aquele pagamento não estava provado. Mas não é só isso, não é só o que tá na decisão recorrida que pode ser reexaminado não. Tem também as chamadas questões suscitadas, mas não decididas. Aqui nessas questões suscitadas, ou seja, que foram alegadas pelas partes, mas não foram decididas, pode ser tanto no caso de alguma omissão da decisão recorrida e em vez de você apresentar embargos de declaração, que é o recurso pra sanar essa omissão, você já interpõe uma apelação, por exemplo, isso é possível, então é uma questão que deveria ter sido decidida, mas não foi, ou até questões que não foram decididas porque não precisavam. O que eu quero dizer com isso? Vamos supor que eu tenha alegado, que eu esteja sendo cobrado, e que eu tenha alegado três matérias de defesa. 1ª, que estava prescrito, 2ª que não havia provas de que o contrato havia sido celebrado, e 3ª que ainda que o contrato tivesse sido celebrado, ele tinha alguma invalidade. Aí o juiz vai e acolhe logo a minha primeira defesa, tá prescrito. Uma pergunta: precisa examinar as outras duas defesas? Não, já ganhei. Tá prescrito o juiz não vai examinar se tá provado, se não tá provado, se o contrato é nulo, se não é nulo. Rejeitou o pedido do autor. E eu preciso, eu que só tive uma defesa examinada, eu preciso recorrer pra que aprecie as outras duas defesas? Claro que não, eu não tenho interesse processual, qual a utilidade, se eu já ganhei tudo? Então, o que acontece? O recurso da parte contrária, nessa situação, então se a parte contrária interpõe uma apelação, essa apelação vai fazer com que o Tribunal examine não só a prescrição, que entra ali no item 1 (questões decididas), mas todas as outras defesas que eu suscitei, mas não foram decididas porque não precisava. Se o Tribunal afastar a prescrição ele vai ter que enfrentar as outras defesas. Claro, se o Tribunal continuar dizendo, confirmar que tá prescrito, vai continuar não examinando. Então, isso tá dentro desse efeito devolutivo vertical. A parte contrária quando for recorrer dessa prescrição não pode afastar isso, não pode dizer ‘não, examina só a questão da prescrição’, não. Eu tenho outras defesas, que só não foram acolhidas porque não precisava. Aluna: Professor, mas aí, por exemplo, talvez precise da produção de provas... [inaudível]. Como fica isso? Roque: Não, claro. Aí o que acontece, se houver necessidade de alguma produção de provas, das duas uma, ou o tribunal vai determinar a conversão do julgamento em diligência, pra que a prova possa ser produzida depois e continuar o julgamento depois, ou ele vai dizer ‘afasto a prescrição e retorno pro primeiro grau pra dar continuidade ao processo e produzir as demais provas’. Então aí o Tribunal não vai decidir, ele não vai decidir não porque tava fora [inaudível], porque não tinha provas necessárias. Sobre isso que tô falando gente, isso tá no 1.013, § 1º, ele fala: “Serão, porém, objeto de apreciação e julgamento pelo tribunal todas as questões suscitadas e discutidas no processo, ainda que não tenham sido solucionadas, desde que relativas ao capítulo impugnado”. Então, deixa sempre claro que esse efeito devolutivo vertical ele tá limitado sempre ao capítulo que você impugnou. Mas também não são só essas duas questões não. Há um outro conjunto de questões que entra aqui, mas sempre dentro do capítulo impugnado, que são as chamadas questões de ordem pública. E aqui entra condições da ação, pressupostos processuais, pra alguns entraria até a prescrição, já que ela pode ser conhecida de ofício, então, por exemplo, a sentença me condenou ao pagamento de 10 mil reais e eu apelo. O Tribunal pode, no julgamento desta apelação, reconhecer minha ilegitimidade passiva pra pagar esse valor? Pode. ‘Ah professor mas teve [inaudível]...’ Claro, tem que submeter a [inaudível] processual, mas o Tribunal pode suscitar, inclusive de ofício, uma questão de ordem pública. Mas, cuidado, eu já falei isso aula passada, sempre dentro do capítulo impugnado. Se eu tenho dois pedidos, dano moral e dano material, e recorro só do dano material, a legitimidade só pode ser reconhecida contra esse capítulo que eu recorri. O outro capítulo aqui transitou em julgado, é coisa julgada, já era. Ah, mas a ilegitimidade... Não interessa, coisa julgada. Você que entre com ação rescisória. A doutrina costuma dar um nome pra essa apreciação de questões de ordem pública, tem um nome bonito pra isso, o nome bonito pra isso é efeito translativo. Então se vocês encontrarem algum julgado falando do efeito translativo, algum autor falando disso, nada mais é do que a apreciação de questões de ordem pública sempre dentro do capítulo impugnado. Tudo bem? Legal. Então efeito devolutivo já foi, a gente já viu dois efeitos. Efeito do trânsito em julgado e efeito devolutivo. O terceiro efeito é o chamado efeito suspensivo. O que significa o efeito suspensivo? O efeito suspensivo significa justamente o efeito de sobrestar, paralisar, a produção de efeitos da decisão em conflito enquanto o recurso não é julgado. Então, se um recurso tem efeito suspensivo, enquanto o recurso não for julgado, aquela decisão não produz efeitos, de modo que não se pode exigir nem o seu cumprimento. Em Processo Civil III, vocês verão a execução de decisões judiciais. Uma decisão atingida por recurso de efeito suspensivo é uma decisão que não pode ser executada porque ela não produz efeitos. A rigor, o efeito suspensivo não decorre do recurso em si. Ele decorre da recorribilidade da decisão, ou seja, o fato de esta decisão estar sujeita a recurso com esse efeito. “Ah Professor, não é a mesma coisa?” Não. Vou explicar. Não é o fato de já ter um recurso interposto, mas o fato da decisão estar sujeita a um recurso com esse efeito. Qual é o prazo que nós temos para a apelação? 15 dias. Então será que eu poderia, malandrão, celebrar um acordo com o réu condenado? Será que eu poderia, malandrão, sair correndo e executar a sentença dizendo “não, pera aí, já vou executar a sentença porque não tem apelação interposta”? Não, porque essa sentença está ainda sujeita a uma apelação que tem efeito suspensivo. Logo, não é a apelação em si mesma que produz esse efeito, mas o fato de você poder interpor. Mas claro, se você não interpuser, vem o trânsito em julgadoe acabou. Agora, se você interpuser, o efeito suspensivo vai se prolongar pela pendência do recurso. Eu faço apenas e simplesmente essa ressalva pra ninguém achar que, enquanto eu não interpor um recurso, enquanto estiver correndo aquele praz, pode chegar um doido executando aquela decisão. Se o recurso tiver efeito suspensivo, isso não é possível. Bom, a gente já viu o conceito do efeito suspensivo. Só que esse efeito, ao contrário dos outros 2 que vimos até aqui, não se verifica em todos os recursos. Efeito devolutivo de provocar o reexame: qualquer recurso. Mas nem todo recurso produz efeito suspensivo. E a regra geral, inclusive, é de que não tenha esse efeito. Isso tá no artigo 995: Art. 995. Os recursos não impedem a eficácia da decisão, salvo disposição legal ou decisão judicial em sentido diverso. O 995 vai dizer que, em regra, não há esse efeito. Agora, o efeito suspensivo ele pode acontecer - e o 995 fala disso - salvo disposições legais ou decisão judicial em sentido diverso. Ou seja, o efeito suspensivo pode decorrer da le. E quando decorrer da lei, a gente diz que determinado recurso que a lei prevê que tem efeito suspensivo, ele tem o chamado efeito suspensivo automático. Ou seja, pelo simples fato de ter sido interposto recurso que a lei prevê que tem efeito suspensivo, tem efeito suspensivo. Ponto. Alguns dão um nome bonito pra isso: efeito suspensivo ope legis, que em latim quer dizer “por obra da lei”. Autoexplicativo. Só que o 995 fala de uma outra situação: “salvo disposição legal ou decisão judicial em sentido diverso”. Pode ser que o recurso pela lei não tenha efeito suspensivo, mas ainda assim, em caráter excepcional, e depois a gente vai ver quando, o juiz pode dar efeito suspensivo ao recurso no caso concreto. Ou seja, normalmente aquele tipo de recurso não tem efeito suspensivo, mas no caso concreto, em específico, o juiz diz que aquele recurso tem. E a gente tem um outro nome bonito pra isso: efeito suspensivo ope judicis, que nada mais é do que “por obra do juiz”. Tá, eu disse que era excepcional. Mas quando? Os requisitos para o efeito suspensivo ope judicis estão no próprio 995, parágrafo único: Parágrafo único. A eficácia da decisão recorrida poderá ser suspensa por decisão do relator [então essa é uma atribuição do relator, se dá ou não dá o efeito suspensivo], se da imediata produção de seus efeitos houver risco de dano grave, de difícil ou impossível reparação [ou seja, o perigo da demora], e ficar demonstrada a probabilidade de provimento do recurso [a plausibilidade do recurso, ou seja, fumus boni iuris]. Os requisitos, não há nenhum mistério sobre isso, você tem que demonstrar que seu recurso é plausível, que tem uma chance razoável de ser acolhido e que se não der efeito suspensivo, se não paralizar os efeitos da decisão recorrida, você vai sofrer um dano grave de difícil ou até de impossível reparação. “Ah, Professor, mas quando que eu vou saber que o recurso tem efeito suspensivo automático, quer dizer, eu não preciso ficar indicando isso pro juiz porque a le já me deu esse efeito suspensivo?” A gente quando for falar de cada recurso vai dizer se aquele recurso tem efeito suspensivo ou não. Embora, apenas para vocês terem uma ideia, a apelação em regra tem esse efeito suspensivo e o agravo de instrumento que é o recurso contra decisões que são proferidas ao longo do processo, chamadas interlocutórias, não tem esse efeito suspensivo automático. Então, no caso da antecipação de tutela a gente já resolveria por aí. Normalmente é uma decisão interlocutória e não vai ter efeito suspensivo automático mas você pode pedir pro relator suspender. Uma coisa que deve ser dita, e aí é quando a gente tá falando do efeito suspensivo ope juidicis, o que pode acontecer é o relator só suspender parte da decisão recorrida. Não é uma relação de 8 ou 80, não é ele suspender toda a decisão recorrida ou nada. As vezes ele só suspende parte. As vezes a decisão recorrida tem mais de um capítulo e você pode dar efeito suspensivo para um ou alguns dos capítulos. O efeito suspensivo previsto no parágrafo único também dá essa possibilidade Vou dar outro exemplo: você tem uma sentença, a sentença condenou o réu a pagar indenização por danos morais e determinou na própria sentença a antecipação de tutela pra tirar o nome do autor do SERASA. Ou seja, o autor ingressou com uma ação reclamando de uma negativação indevida. O juiz, na sentença, dá uma tutela antecipada pro réu tirar o nome do autor do SERASA e condena o réu por danos morais pela negativação indevida. Se o réu interpuser apelação, a apelação vai ter efeito suspensivo automático quanto aos danos morais, mas não quanto à antecipação de tutela. A gente vai ver que essa é uma exceção, das várias exceções que tem, ao efeito suspensivo na apelação. Então, a apelação, ela vai ter efeito suspensivo da parte que condenou o réu, mas não na parte da antecipação de tutela. Entenderam? Eu só tô falando isso, depois a gente vai voltar a esse exemplo. Vai voltar às exceções. Apenas pra vocês saberem que o recurso pode ter efeito suspensivo numa parte da decisão, e não ter efeito suspensivo em outra parte da decisão, isso é possível. Bom, o próximo efeito é o efeito substitutivo. O que é o efeito substitutivo? O nome é até autoexplicativo. Na verdade o efeito substitutivo ele não decorre do recurso, ele decorre do julgamento do recurso. De acordo com esse efeito substitutivo, uma vez julgado o recurso a decisão que aprecia esse recurso toma o lugar da decisão recorrida. A decisão recorrida deixa de existir e no lugar dela temos a decisão que julgou o próprio recurso. Então, por exemplo, se eu tenho uma sentença e daí tem uma apelação, o acórdão que julga a apelação irá substituir a sentença. Esse efeito, ele tá previsto no art. 1008. O art. 1008 diz: Art. 1.008. O julgamento proferido pelo tribunal substituirá a decisão impugnada no que tiver sido objeto de recurso. Leia-se, nos limites do capítulo impugnado. O capítulo que não foi impugnado está fora do recurso, então não vai ter efeito substitutivo. Agora, esse efeito substitutivo, embora o art. 1008 passe a impressão de que ocorre em qualquer julgamento de recurso, não é sempre assim. Vocês se lembram que a gente falou de dois juízos no julgamento do recurso? O primeiro é o juízo preliminar, ou seja, o Tribunal não conhece ou ele conhece do recurso - e ele conhecendo o Tribunal pode prover ou não prover o recurso. Se o Tribunal não conhece para aqui, não vai examinar o mérito; se ele conhece, se o recurso é admissível, ele examina o mérito e ele decide se ele altera a decisão recorrida ou se ele mantém. Bom, o que acontece? Por quê que eu tô voltando a isso? Se o recurso ele não é conhecido, vocês concordam que não pode ter efeito substitutivo. Então, por exemplo, a sentença condenou o réu a pagar R$10mil reais a título de danos morais. Se a apelação não é conhecida porque tá fora do prazo, o Tribunal não redecidiu a questão de mérito. Então não pode ter efeito substitutivo. A decisão do Tribunal vai se limitar a dizer: a apelação é inadmissível. Ponto. E a sentença continua lá, bela, como sempre, como se nunca tivesse sido recorrida. Então aqui nós já vemos: não tem efeito substitutivo. Bom, conhecendo. Aqui que talvez seja contra intuitivo. Como que o Tribunal ele não provê o recurso, ele mantém a decisão recorrida, o manter é só na substância porque o acórdão mesmo assim toma o lugar da decisão recorrida. Ainda que seja o mesmo conteúdo. Ainda que o Tribunal diga: “tá certo, tinha que ter sido condenado em R$10mil de dano moral”. Não interessa, agora o que vale é o acórdão. Se o acórdão trouxe pra ele a mesma decisão que a sentença, tudo bem, mas o que vale é o acórdão. Então, no “não prover” há efeito substitutivo. E o prover? Ah,o prover vocês vão falar “claro, há o efeito substitutive”. Quase sempre. Porque, lembrem-se que nós temos aqui o prover, né, pra reformar, anular, e blá blá blá e blá blá blá. Bom, reformar, ok. Se reformar haverá o efeito substitutivo. Mas quando vai para anular não. Por quê? Porque o Tribunal ele não fez um novo julgamento do mérito. Ele simplesmente desfez a decisão recorrida. E tanto não há o efeito substitutivo que com a anulação da decisão recorrida, o juiz vai ter que dar uma nova decisão. Ou seja, ele só desconstituiu a decisão recorrida, mas não fez um reexame do mérito que foi apreciado na decisão recorrida. Então não há o efeito substitutivo. Então sintetizando, o efeito substitutivo ele só não vai acontecer em duas situações: ou quando o recurso não é conhecido, porque o Tribunal só disse que o recurso é inadmissível, ou quando o recurso é provido para anular, porque aí o Tribunal se limita a desfazer a decisão recorrida. Ele não rejulga o mérito, ele só destrói, ele não constrói nada. “Ah, Professor, mas por que essa questão de saber quando substitui, quando não substitui. Que coisa teórica. Qual é a utilidade prática desse negócio?’ A utilidade prática a gente vai ver quando for falar lá de rescisória. Sabe ação rescisória, que você ajuíza contra decisão transitada em julgado? Pois é, agora tem um monte de recurso, um atrás do outro, em que você precisa saber: transitou em julgado onde aquilo lá? Foi em 1º grau, foi em 2º, foi no STJ? Porque a ação rescisória vai ser ajuizada onde transitou em julgado. Aluna: inaudível Professor: Se por exemplo, você só recorreu quanto a um capítulo, a gente não vai entrar muito nessa questão quando a gente for falar de rescisória... [Aluna e Professor entram em um diálogo em que ficam se interrompendo – inaudível] Professor: Mas rescisória que vai tudo, vai ser ajuizada na última instância, onde o último capítulo... Aluna: inaudível Aluno: Inaudível Professor: Os embargos de declaração são um pouco, vamos dizer assim, suis generis, porque o principal efeito deles é o efeito integrativo, ou seja, é ok Tribunal decidir algo ou aperfeiçoar algo, isso se somar à parte que não foi viciada. Você vai pegar duas decisões a decisão dos embargos elas somam formando uma só. Isso as vezes ocorre. Depois a gente vai ver que as vezes ocorre os Embargos com Efeitos Modificativo, que é quando o próprio Tribunal for sanar um vício ou omissão, ele não viu que tinha uma preliminar, aí ele acolhe a preliminar e aquilo que ele tinha julgado no mérito. Agora, ele julgou sem resolução de mérito, aí vai ter o efeito substitutivo. Mas normalmente não acontece, normalmente é só efeito de intervenção. Bom, um outro efeito, prometo que eu já estou acabando os efeitos, é o chamado efeito regressivo. O efeito regressivo, nada mais é do que a possibilidade do chamado Juízo de Retratação. Ou seja, é a possibilidade de um juiz olhar o recurso, se convencer do equívoco que cometeu e voltar atrás na sua decisão. Por exemplo, o juiz proferiu uma decisão liminar. Aí você que é o réu não ficou muito feliz e reclamou, e o juiz se convenceu: "é, você tem razão". Volta atrás e reconsidera. Aquela preliminar que eu tinha dado, eu revogo. Isso é chamado de juízo de retratação. Não são todos, mas alguns recursos produzem esse efeito. Quais recursos? Temos 2 grandes grupos principais aqui. Na verdade, são alguns casos de apelação. Não é toda apelação que tem esse efeito, aliás, normalmente a apelação não tem esse efeito. Mas tem 3 situações em que a apelação tem. Primeiro, no caso de indeferimento da inicial. Segundo caso, da apelação contra o julgamento de improcedência liminar. E o terceiro caso, de sentença que extinguiu o processo sem resolução do mérito. Aí vocês vão me falar "por que esses 3 casos?". Bom, porque simplesmente o legislador previu isso. Todos os 3 casos têm previsão no CPC. O primeiro caso, do indeferimento liminar da petição inicial está no artigo 331; o segundo caso, do julgamento de improcedência liminar tá no 332, §3º; e o terceiro caso está no artigo 485, §7º. Todos do CPC. E são só esses casos. Então por exemplo, se a sentença examinou o mérito... [não concluiu]. No fundo é fácil guardar, se a sentença não examinou o mérito tem juízo de retratação. Você já mata os primeiros e terceiros casos. Indeferimento de inicial é caso de extinção do processo sem resolução do mérito. O único caso de julgamento por mérito que tem juízo de retratação é o julgamento de improcedência liminar. Bom, eu disse que esse era o primeiro conjunto de casos. Para o segundo conjunto de casos há uma forma fácil também de guardar. São 3 outros recursos que tem esse efeito. O primeiro deles é o agravo de instrumento, e aqui em qualquer caso. O segundo é o recurso chamado agravo interno. Só para vocês saberem, Agravo Interno é um recurso que a gente interpõe contra as decisões do relator. E o terceiro é o agravo em Recurso Especial ou extraordinário. Bom, já deve ter ficado evidente pra você que pra esse segundo grupo de casos, pra que eu saiba se um recurso tem juízo de retratação ou não, basta que o nome desse recurso seja agravo. Se for algum agravo do raio que o parta que o seja, tem juízo de retratação. E apenas pra colocar os artigos onde está isso, porque também tem previsão no código: artigo 1018, §1º; artigo 1021 §2º e artigo 1042, §4º. Nos outros recursos, fora desses casos, não tem esse efeito. Último efeito. Então, são seis efeitos. Tem alguns autores que são mais empolgados, botam uns 20 efeitos, uma coisa doida, mas, aí estão forçando a barra. Os principais são esses seis. O efeito expansivo subjetivo. O que que é isso? É também um efeito que decorre do julgamento dos recursos. E pode acontecer em qualquer recurso. O efeito expansivo subjetivo nada mais é do que a possibilidade do julgamento de um recurso beneficiar alguém que não seja o próprio recorrente. Nós já vimos um caso clássico de efeito expansivo subjetivo: o recurso do assistente. Se o recurso do assistente é provido, quem é beneficiado? O assistido. É o efeito expansivo subjetivo, por isso o nome expansivo subjetivo, ele se expande pra beneficiar outros sujeitos. Agora, o recurso do assistente ele é uma, no caso de efeito expansivo subjetivo, mas tem uma outra figura aqui que a gente tem que examinar, que é o recurso do litisconsorte. Isso tá lá no artigo 1005. Que que acontece? Será, por exemplo, eu tenho um processo com três réus, os três são condenados. Se um dos réus apenas recorre, será que o recurso desse único réu - se acolhido, se provido - ele irá beneficiar os outros dois réus que não recorreram? Ou seja, os seus litisconsortes? Aqui a gente tem que separar duas situações. A primeira: se o litisconsórcio é unitário, ou seja, a decisão tem que ser a mesma pra todo mundo, a resposta é muito clara: sim, sempre. Vamos pensar, exemplo básico, houve anulação do casamento. Só o marido recorreu, se o recurso for provido é lógico que o casamento está reestabelecido pra ambos, não tem como o marido ser casado e a esposa continuar solteira. Não existe isso, a relação jurídica é una, é indivisível. Agora, se o litisconsórcio for simples, aí depende. Depende do quê? Depende de aquelas defesas, aquelas questões, aqueles argumentos que são trazidos pelo recorrente serem comuns aos outros, aproveitarem aos outros. Por exemplo, dois réus, o locatário e o fiador, eles foram condenados a pagar os aluguéis. E aí só o fiador recorre, normalmente o locatário não tem patrimônio nenhum, não tá nem aí, abandonou o imóvel, to falando coisas da vida real, acontece, mas o fiador tá lá com o nome dele lá como devedor. E ele diz que tá prescrito. Se o recurso do fiador der certo isso vai beneficiar o locatário? Claro, se tá prescrito, está prescrito pra todo mundo. Agora, mesmo exemplo, mas vamos suporque o fiador recorra dizendo o seguinte: "a fiança é inválida por ausência de vênia conjugal. Eu sou casado e você não pegou a autorização da minha esposa ou do meu marido; é a minha fiança". Esse recurso vai beneficiar o locatário? Não. Pro tribunal a minha fiança é inválida, ok, a cobrança vai ser afastada do fiador. Então, no litisconsórcio simples pode acontecer, pode não acontecer. Depende se a defesa for adequada, vamos dizer assim, para os demais litisconsortes. É isso que fala o artigo 1005. Ele diz: Art. 1.005. O recurso interposto por um dos litisconsortes a todos aproveita, salvo se distintos ou opostos os seus interesses. "Salvo se distintos ou opostos" no fundo tá querendo dizer, "salvo no caso de litisconsórcio simples e que as defesas sejam distintas ou até opostas". Aluno: Inaudível Professor: O autor conseguiu a gratuidade e o réu recorreu pra atacar a gratuidade, é isso? Aluno: Aí abrangeria todos também? Professor: Vai abranger todo mundo, porque na defesa dele tá assim "o autor tem condições de pagar as custas do processo". Aluno: [inaudível] Professor: Nem beneficia e nem prejudica. (Inaudível) mas assim do ponto de vista psicológico da coisa, por ele estar sozinho ali, (inaudível) mas do ponto de vista jurídico não. E esse mesmo regime do litisconsórcio simples vale para as obrigações em que há solidariedade passiva. Isso por causa do parágrafo único: “Parágrafo único. Havendo solidariedade passiva, o recurso interposto por um devedor aproveitará aos outros quando as defesas opostas ao credor lhes forem comuns." Então no fundo o parágrafo único apenas explicita que no caso de solidariedade passiva, os réus foram condenados solidariamente, o regime jurídico para efeito de expansão subjetiva é o mesmo do litisconsórcio simples. A gente viu então todos os efeitos dos recursos e agora entramos em um ponto dentro da teoria geral de recurso, que é a figura do recurso adesivo. O que é o recurso adesivo? Formalmente os recursos admitem uma segunda classificação que a gente ainda não vi. eles podem se dividir em recursos independentes e adesivos. O recurso adesivo não é um novo recurso, uma nova espécie recursal. Não é. Na verdade, é uma forma especifica de interposição do recurso. O que eu quero dizer com isso? Existe apelações que são independentes e as apelações interpostas na modalidade adesiva. Existe recurso especial independente e recurso especial adesivo. Mas o que é um recurso adesivo? A regra é eles serem independentes. Tudo que a gente viu até agora, todos os exemplos, são recursos independentes. O recurso adesivo é uma figura criada pelo legislador, depois vamos ver o artigo, criada pelo legislador com o objetivo de inibir a interposição de recursos. O objetivo é esse. Inibir. Como isso funciona? Vamos supor que eu entrei com uma ação contra o Pedro. E aí o que acontece? Pedi 100 mil para o Pedro, mas não ganhei tudo, apenas 20 mil. E aí Pedro, 20 mil está bom ou está ruim para você? Aluno: Podia ser zero... Professor: Podia ser zero..., mas tá maneiro, reduziu bastante. E se nos dois chegarmos a essa conclusão, ninguém vai recorrer e aí acabou, ótimo. Mas daí porque tem o recurso adesivo? Eu fico com uma pulga atrás da orelha. R$ 20 mil não é o que eu queria. Mas caramba, será que o Pedro vai apelar para zerar esse negócio? E o Pedro, do lado dele, também vai ficar com uma pulga atrás da orelha: "R$ 20 mil vai me fazer falta, mas não foram R$ 100.000. Será que o André vai recorrer para aumentar isso para 100 mil?" Então, se nós dois ficarmos nessa insegurança, o que vai acabar acontecendo? Nós dois vamos acabar recorrendo. Vai que né? Não vou correr o risco. Então o recurso adesivo surge só no caso de sucumbência recíproca. Então, se qualquer uma das partes ganhar tudo não tem recurso adesivo. Ponto. Mas, se houver sucumbência recíproca, ou seja, cada um ganhou uma parte, o ordenamento jurídico diz o seguinte: Pedro e André, vocês podem aguardar para ver se a outra parte vai recorrer ou não. Se ninguém recorrer? Aí acabou. E se alguma das partes recorrer? Por exemplo, o Pedro recorreu. Então você não vai ser prejudicado. Por que? Porque eu vou te dar uma segunda oportunidade. Você não recorreu antes porque está esperando para ver se Pedro ia recorrer. Como Pedro recorreu, não teria que o abrir prazo para as contrarrazões dele? Então nas contrarrazões eu te dou a segunda oportunidade para você apelar. Isso é uma apelação adesiva. Eu dei todo esse histórico o porquê do Recurso Adesivo. Mas, na prática, o Recurso Adesivo só tem duas distinções em relação aos Recursos Independentes: o prazo de interposição - porque o prazo de interposição do recurso adesivo é nas contrarrazões ao recurso independente da outra parte. Ou seja, porque o Pedro apelou nas minhas contrarrazões eu vou ter o meu recurso adesivo. Se o Pedro não tivesse apelado, e eu também não, ninguém teria recurso adesivo. Então essa é a primeira peculiaridade, o prazo de interposição. Segunda peculiaridade: o recurso adesivo também é chamado de subordinado, por que? Porque ele só vai ser admitido, só passa do conhecimento, se o Recurso Independente do Pedro também passar pelo conhecimento. Ou seja, se por qualquer razão o Recurso Independente do Pedro for não conhecido - porque ele não recolheu custas ou até porque ele desistiu depois - o Recurso Adesivo cai junto. Também não é conhecido. “Ah Professor, mas é um absurdo o seu recurso vai ser prejudicado porque o Pedro desistiu do recurso dele”. Claro, a lógica do sistema é essa. Eu só recorri porque o Pedro recorreu. Se ele disse "pensando bem deixa isso para lá", como eu já tinha deixado para lá antes e só estava no prazo do adesivo, o meu recurso também cai. Entenderam a lógica? Vamos agora ler o artigo. Aluna: Professor, então a parte que interpôs o recurso adesivo não vai ter prazo para contrarrazões, só a parte que interpôs o primeiro recurso. Professor: O que acontece é o seguinte, você tem o recurso independente, aí vai abrir prazo para ele de contrarrazões e, ao mesmo tempo, para o recurso adesivo. São dois prazos que correm juntos. Não tem 15 + 15. São duas petições diferentes, mas com um só prazo. E claro, porque eu interpus o recurso adesivo, terá que abrir um prazo de contrarrazões para o Pedro ao meu recurso adesivo. Então no fundo tem 3 prazos. Aluno: (inaudível) Professor: Nada, são iguais, só tem essas duas peculiaridades: prazo de interposição e a subordinação do seu conhecimento à admissibilidade do recurso da outra parte. O resto, custas..., tudo igual. Sem tirar nem por. Aluno: Honorários também? Professor: Tudo igual. Tudo, tudo, tudo. Professor: Vamos agora ler essa questão que está regulada no artigo 997 que fala no caput sobre o recurso independente. Ele diz: “Cada parte interporá o recurso independentemente, no prazo e com observância das exigências legais. § 1º Sendo vencidos autor e réu [ou seja, sucumbência recíproca] 1 , ao recurso interposto por qualquer deles poderá aderir o outro.” Uma observação: para fins de sucumbência recíproca, eu olho a decisão como um todo. Pode ser que uma das partes tenha ganho tudo em um capítulo e a outra parte tenha ganho tudo em outro capítulo. Tem recurso adesivo, tem sucumbência recíproca. Por exemplo: eu ingressei com uma ação contra o Pedro, pedi R$ 100 mil de dano material e mais R$ 100 mil de dano moral. O juiz me deu 100 mil de dano material e zero de dano moral. Eu ganhei tudo em um capítulo e ele ganhou tudo em outro. Tem recurso adesivo nesse caso. Então, o §1º fala do cabimento do recurso adesivo: sucumbência recíproca. Aluna: Mas se uma parte ganhou em tudo no mérito e ela pediu para fixar em 20% os honorários advocatícios, o juiz fixou em 10%. Seria uma sucumbência recíproca nesse ponto? Professor: O réu pediu 20% e o juizsó deu 10? Não. O mero não acolhimento de um capítulo acessório não justifica. A sucumbência recíproca é no mérito e não em um capítulo acessório. 1 Comentários do Professor Aluna: Nem em questões preliminares? Professor: Nas preliminares depende. Porque, por exemplo, eu pedi dano moral e material. O moral foi extinto sem resolução de mérito e no material eu ganhei. Aí tem sucumbência recíproca, mas repercutiu em um dos pedidos. Tem que repercutir no mérito. Aluna: Então questões de multa, nada disso poderia porque não questões acessórias? Professor: Questões acessórias, juros de mora, esse tipo de questão por si só, não. Mas multa é uma coisa muito ampla. Se for multa contratual pode. Aluna: Astreinte? Professor: É porque você não pede. Por exemplo, se você pedir 500 de astreintes e o juiz só der 200 isso não é sucumbência recíproca. Até porque o juiz poderia dar até mais do que você pediu de astreintes. Isso é uma medida coercitiva para decisão judicial ser cumprida. Aí temos o parágrafo segundo que também fala de recurso adesivo: “§ 2º O recurso adesivo fica subordinado ao recurso independente [por isso ele também é chamado de subordinado]2, sendo-lhe aplicáveis as mesmas regras deste quanto aos requisitos de admissibilidade e julgamento no tribunal [aquilo que eu falei, ele é todo igualzinho ao recurso independente]3, salvo disposição legal diversa, observado, ainda, o seguinte: [aí as peculiaridades] I - será dirigido ao órgão perante o qual o recurso independente fora interposto, no prazo de que a parte dispõe para responder; [ou seja o prazo das contrarrazões]4 2 Comentários do Professor 3 Comentários do Professor 4 Comentários do Professor II - será admissível na apelação, no recurso extraordinário e no recurso especial; Cuidado! Não existe agravo de instrumento adesivo! Ele só cabe nesses três recursos: apelação, REsp e RE. “Ah, mas nos outros teve sucumbência recíproca”. Dane-se. Não cabe adesivo. Fale agora ou cale-se para sempre. Ou você recorre ou não interessa se a outra parte recorreu, você não tem recurso adesivo. III - não será conhecido, se houver desistência do recurso principal ou se for ele considerado inadmissível. Ou seja, o inciso III fala justamente da subordinação da admissibilidade do recurso adesivo à admissibilidade do recurso principal. Cuidado! O recurso principal ele só precisa ser conhecido. Obviamente ele não precisa ser provido. O recurso principal só precisa passar pela admissibilidade. Duas observações finais sobre recursos adesivos são as seguintes: recurso adesivo não pode servir para emendar recurso independente. O que eu quero dizer com isso? Quando você, mesmo num caso em que caberia recurso adesivo, interpõe um recurso independente - você poderia ter esperar o recurso adesivo, mas você não quis esperar, foi lá e interpôs o recurso independente - esse recurso independente acarreta preclusão consumativa para o recurso adesivo. Onde eu quero chegar com isso? Meu exemplo contra o Pedro: vamos supor que eu pedi R$ 100 mil de dano moral e R$ 100 mil de dano material. O juiz me deu 50 de dano material e zero de dano moral. Aí eu interpus apelação para dizer que não gostei do dano material e quero aumentar de 50 para 100. E quanto ao dano moral, não falei nada. Transitou em julgado. Aí o Pedro apelou para pegar o dano material e zerar também. Eu não posso, agora sabendo que o Pedro recorreu, dizer “Ah Pedro, agora além da minha apelação contra o dano material, eu vou entrar com uma apelação adesiva também quanto ao dano moral”. Não. Aquele recurso independente matou a possibilidade do recurso adesivo. Só pode interpor o recurso adesivo quem não interpôs o recurso independente antes. Você não pode emendar a sua apelação se valendo da apelação adesiva. “Ah, eu esqueci um negócio na minha apelação lá atrás e vou interpor agora adesiva para emendar.” Não. Ou você bem entrou com independente e matou a adesiva ou você não entrou com o independente e aí vem com a adesiva. Então essa é a primeira observação. A segunda observação é a seguinte: será que cabe recurso adesivo no âmbito dos juizados especiais? E quando eu falo dos juizados especiais estou me referindo ao recurso inominado. O recurso inominado é a apelação dos juizados. É o recurso cabível contra a sentença do juizado especial. Será que cabe recurso adesivo inominado? O que vocês acham? Palpite? Já adianto não há previsão na lei 9.099. O entendimento quase pacífico nos juizados - aqui no Rio é pacífico - é que não cabe, por conta do princípio da celeridade. O entendimento quase pacífico nos juizados, inclusive muito pacífico, é de que não cabe. Não cabe por causa da ideia da celeridade. Tudo no juizado é coisa da celeridade. Isso é muito criticado pela doutrina pelo fato de que, caramba, o recurso adesivo foi criado pra inibir recursos. Então no fundo, ele não conspira contra a celeridade, ele caminha a favor. Mas não é esse o entendimento então a jurisprudência considera que não é possível recurso adesivo, não só porque não há previsão na Lei 9099, mas também porque eles consideram que não pode usar a aplicação subsidiaria do CPC, porque seria incompatível com o Princípio da Celeridade dos juizados. Juizado é que nem UFC: vale tudo. Eles só aplicam algumas partes do CPC que eles acham bonitinhas. Bom gente, paramos por aqui, nós terminamos teoria geral dos recursos e aí na próxima aula a gente já começa a falar dos recursos em espécie, já vamos falar de Apelação.