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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO Faculdade de Direito da UERJ Transcrição de Direito Processual Civil I Professor: André Roque Transcritores: Marcos Paulo Maia, Alice Alván, Ana Beatriz Torres, Carol Santana, Fabienne Louzada, Gabriel Pegoretti, Yasmin Yunes, Gabriella Barcelos, Gizelle, Gabriella Thomaz, Caio, Hállan Fidalgo, Livia Araujo, Maria Eduarda Eiras e Maria Bruna Revisor: Luiz Felipe Rodrigues Professor: Agora a gente vai falar do interesse. Aluno: Não é intrínseco não? Pressupostos intrínsecos? Professor: Isso. Intrínsecos. Agora a gente vai falar do interesse recursal. Interesse recursal nada mais é do que o interesse de agir, aquele interesse processual que vocês já viram em condições da ação, só que agora dentro da temática dos recursos. Então, para que alguém possa recorrer, é necessário haver interesse. O que caracteriza esse interesse? Esse interesse é caracterizado pela necessidade e pela utilidade. Necessidade e utilidade. Por meio da utilidade, o que a gente verifica é: o recurso é capaz de melhorar a situação do recorrente no processo? Ou seja, há algum proveito para o recorrente daquele recurso? Em relação à necessidade, a gente avalia: esse proveito somente pode ser obtido por meio do recurso, ou há alguma alternativa? Porque, se houver alguma alternativa, o recurso não é necessário. Eu vou dar alguns exemplos. Um exemplo de falta de necessidade e um exemplo de falta de utilidade. Um exemplo de falta de utilidade: alguns recursos, quando você interpõe, você interpõe o recurso lá para a segunda instância. Eles permitem que o juiz de primeira instancia leia o seu recurso e repense sua decisão, reconsidere sua decisão. O juiz pode se convencer, ao ler o seu recurso, que aquela decisão anterior dele estava errada. Então, ele pode voltar atrás. A partir do momento em que o juiz volta atrás e dá ao recorrente o que ele queria desde o início, aquele recurso interposto deixou de ter qualquer utilidade, porque ele já conseguiu, em primeiro grau, tudo o que ele queria, porque o juiz voltou atrás. E nesse recurso, que de início até era admissível, havia interesse, há a perda do interesse por fato superveniente, que é a reconsideração do juiz, é o juiz voltar atrás. A gente dá um nome para isso. A gente chama esse recurso, quando o juiz volta atrás, a gente diz que esse recurso está prejudicado. Recurso prejudicado nada mais é que um recurso em que não há interesse processual por um fato que ocorreu depois, por um fato superveniente. Então, isso é um exemplo de falta de utilidade. Agora, um exemplo de recurso onde há falta de necessidade. Ele até é útil, mas não precisa ser por esse caminho do recurso. Vocês se lembram que quando o autor apresenta a petição inicial, o juiz, uma vez estando a petição inicial correta, válida, regular, o que o juiz faz? Ele determina a citação do réu. É a famosa decisão que o juiz normalmente escreve “cite-se”. Mas pode ser que, quando o juiz deu essa decisão, ele tenha deixado passar, por exemplo, uma prescrição que ele não viu. O juiz não viu. Ele poderia ter visto, mas ele não viu, passou em branco. O que o réu vai fazer? Claro, o réu vai alegar a prescrição, mas eu pergunto: ele deve recorrer dessa decisão? Como o réu vai alegar a prescrição? Contestação. Se ele tem a contestação para alegar isso, porque essa matéria ainda não foi decidida pelo juiz, o recurso aqui até seria útil. Claro, se ele recorresse e o tribunal dissesse ‘tá prescrito’ é útil, mas não é necessário, porque ele ainda tem como se utilizar da contestação. Claro, se o juiz chega aqui e rejeita aí tem recurso. Mas aí é porque a contestação, nesse ponto, foi rejeitada, mas nesse momento inicial aqui, é prematuro ele recorrer quanto à prescrição. Ele ainda pode discutir isso em primeiro grau, não tem porque ele ir já pra segunda instância por causa disso. Então nesse recurso há falta de interesse, mas aqui por causa da falta da necessidade, o recurso não é a via necessária pra que essa alegação seja discutida, pelo menos por enquanto. Normalmente, a gente costuma associar o interesse recursal à ideia de sucumbência. Ou seja, tem o interesse recursal aquele que sucumbiu, aquele que perdeu. E quando eu falo sucumbiu aqui não é só o cara que foi condenado não, às vezes o cara ganhou, mas ganhou menos do que pediu. Ele pediu cem mil de indenização e o juiz só deu quarenta, esse cara sucumbiu de sessenta. Ele não conseguiu sessenta. E aí normalmente a gente associa o interesse recursal à parte que não conseguiu tudo o que queria, perdeu alguma coisa, ou perdeu tudo. E essa noção, no geral, é correta. No entanto, há situações em que você tem interesse sem sucumbência. São situações pontuais, claro, específicas, mas existem. Então hoje, a ideia de interesse processual está sendo reconstruída no processo civil. Quem quiser, enfim, até entrar no tema de monografia em processo civil, esse é um dos temas que tão aí no ‘alto do dia’, que é a redefinição do interesse processual. Porque nem sempre, aqui falando de recurso, o interesse vai estar associado à sucumbência. Vou dar algumas situações em que isso não acontece. A primeira delas é em embargos de declaração. A parte que ganhou também pode embargar de declaração. Se, por exemplo, o juiz, na sua decisão, ele comete um erro material, quando ele fala o seguinte, ele diz... O réu é Paulo, e na sentença o juiz condena Pedro. O autor pode embargar de declaração pra que esse erro material seja corrigido? O erro no nome? Pode, então nos embargos de declaração o interesse recursal decorre do simples fato de aquela decisão tenha algum vício, e não do recorrente, ou embargante, como a gente chama, tenha perdido algo. Uma segunda situação, que pode acontecer é a situação da coisa julgada nas ações coletivas. E pra entender isso a gente tem que olhar o artigo 103, do CDC. Quem fez processo civil I comigo, eu cheguei a comentar desse dispositivo acho que na última aula, ou seja, aquela aula em que ninguém mais estava prestando atenção, já estava no clima do recesso. Aluna: É o 104? Roque: É o 103 e o104, só que aquilo que nos interessa está no 103, então o 104 deixa pra lá. Aluna: Eu só lembro do 104. Professor: É, mas o 103 também fala disso. Já lembra de alguma coisa, já tá melhor do que a média. Mas então, o 103 vai regular qual o regime da coisa julgada nas ações coletivas, nas ações civis públicas. E aí ele coloca um inciso pra direitos difusos, outro para direitos coletivos e outro para individual homogêneo. Mas o que nos importa aqui é o seguinte: ele fala, nesse artigo, em 2 desses incisos, o I e o II, que não haverá formação de coisa julgada quando o pedido é julgado improcedente por insuficiência de provas. Se o pedido for julgado improcedente, for rejeitado, mas o fundamento for ausência de provas, não forma coisa julgada. Ou seja, o réu está sujeito a, no dia seguinte, tomar uma ação coletiva na cabeça igualzinho. Então, diante dessa situação, o que o réu pode fazer? O pedido foi julgado improcedente, ou seja, o réu ganhou. O réu pode recorrer mesmo tendo ganhado. Não para mudar o dispositivo, já que ele já ganhou, mas para mudar o fundamento, porque ele quer formar coisa julgada. Ele não quer deixar que, lá na frente, surja uma ação coletiva porque não tinha coisa julgada. Isso não tá escrito na lei, mas hoje, na doutrina, de uma forma bem ampla diz que há interesse recursal nesse caso, mesmo que o réu tenha ganhado, ele pode apelar dessa sentença. Aqui o objetivo do recurso é só mudar o fundamento, não é só um capricho. Mudar o fundamento aqui vale mudar o regime da coisa julgada. Formalmente não há interesse recursal pra se mudar apenas fundamento, mas aqui há. Uma terceira situação de interesse sem sucumbência decorre da coisa julgada sobre questão prejudicial. Isso tá no artigo 503,§1o, CPC. O 503, §1o diz que, estabelecidas algumas condições, como competência absoluta do juízo, que a questão tenha sido objeto efetivo do contraditório, que a coisa julgada se forma não só na parte do dispositivo, do “julgo procedente”, como a questão prejudicial que o juiz decidiu pra chegar àquela conclusão. Só que pode acontecer o seguinte: normalmente, a parte que ganha, também ganha a prejudicial. Ok, vai cair na regra geral de quem pode recorrer. Só que há algumas situações em que a parte pode ter ganho lá no final do dispositivo, pode ter perdido a prejudicial. Por exemplo: Vamos supor que eu tenha uma sentença contra o Caio dizendo que a gente celebrou um contrato mas que esse contrato é nulo e por isso eu peço pro juiz que esse contrato seja reconhecido como nulo, inválido, e peço pro juiz que te condene também a me restituir o que eu paguei em decorrência desse contrato. Aí o juiz diz o seguinte: o contrato realmente é nulo, então você, autor, tem razão, mas eu vou julgar improcedente o pedido porque o Autor deixou de comprovar os valores que pagou pro Caio. Ou seja, eu perdi pela questão da prova, não pela questão da nulidade. Você pode recorrer dessa decisão? Embora você tenha ganho, Caio, não vai ter que me pagar nada. Você pode recorrer dessa decisão? Pode, porque senão não vai formar coisa julgada e lá na frente se tivermos uma nova demanda discutindo a nulidade desse contrato, você não vai poder mais discutir. Formou coisa julgada. Então, nesse caso, embora a parte, no final, tenha ganho, como ela perdeu na prejudicial e, mais do que isso, como essa prejudicial faz coisa julgada contra ela, ela pode recorrer pra reverter a prejudicial. O contrato é nulo, então ele perdeu nessa parte, porque eu entrei com a ação contra o Caio, dizendo que eu paguei um valor de 5 mil reais para o Caio, mas eu quero os 5 mil reais de volta porque esse contrato é nulo. Aí o juiz diz “o André tem razão o contrato é nulo, mas não provou que pagou os 5 mil reais para o Caio, e então julgo improcedente”. Então, assim, o Caio vai ter que me pagar? Não. Por quê? Porque eu não provei. Então foi julgado improcedente por falta de provas. Só que como o juiz disse que o contrato é nulo, partindo do pressuposto que preencheu os requisitos do art. 503, §1º, então se mais pra frente eu tiver um outro processo contra o Caio ele não vai poder mais discutir a validade do contrato. Porque vai ter incorrido em coisa julgada sobre a nulidade que foi onde ele perdeu. Entendeu? Em 90% dos casos a parte que ganha a prejudicial ganha no mérito, mas isso não é 100%. Vai ter aqueles 10% dos casos em que a parte ganhou na prejudicial, mas o mérito por algum outro motivo ela perdeu. Aí nessas situações é que vai ter o recurso, ou pode ter um recurso da parte ganhadora para reverter a prejudicial. No fundo, no fundo, no fundo, ela até sucumbiu, mas ela sucumbiu na prejudicial, não no mérito. Aluno: O perdedor pode entrar com alguma outra ação para cobrar a devolução do valor? Professor: Nesse caso não porque nesse caso foi julgado improcedente. Eu não posso entrar com uma outra ação a não ser que dissesse respeito a alguma outra parcela que não foi objeto dessa ação mas esse valor de 5 mil, por exemplo, não. Porque o pedido foi julgado improcedente por falta de provas, fora a ação coletiva, que não é o caso aqui, formaria coisa julgada material, plena, total. Já era. O regime de não formar coisa julgada por falta de prova é só na ação coletiva. E, por fim, temos um último pressuposto intrínseco que é a inexistência de fato extintivo ou impeditivo do direito de recorrer. Há determinadas situações, a gente vai ver quais, que implicam algum impedimento ou extinção do direito de recorrer. Você perde o direito de recorrer. Sobre isso nós temos que falar de 3 institutos aqui. Primeiro instituto é o instituto da desistência, que tá previsto no art. 998 do CPC. Desistência pressupõe sempre um recurso já interposto. A parte interpôs o recurso e num momento posterior desiste desse recurso. É como se fosse um arrependimento do fato de ter recorrido. Então o recorrente, ele interpôs um recurso normal, mas num momento posterior ele desistiu. Então ele pensou melhor, ou então que é muito comum na instância recursal, às vezes antes do julgamento as partes chegam a um acordo. E aí a parte desiste do seu recurso. Essa desistência, ela pode ser parcial ou total. Normalmente ela é total. Normalmente a parte desiste do recurso como um todo, mas ela pode desistir só de parte do recurso. Então, por exemplo, o recurso estava discutindo a indenização por dano moral e material e a parte desiste só do dano moral. Ela pode fazer isso? Pode. Não é comum, mas pode. Aí vocês vão me perguntar: até qual momento a parte pode desistir? Ela pode desistir logo depois de recorrer, ela pode desistir no dia seguinte, e ela pode desistir até o marco final é até o momento em que ocorre o julgamento do recurso. Quando eu falo julgamento do recurso, é até o final desse julgamento, é quando o presidente lá no órgão colegiado anuncia o resultado do julgamento, lembra quando a gente falou que é esse momento que marca a conclusão do julgamento? O advogado pode chegar lá na tribuna e desistir na sustentação oral? Pode. Pode chegar lá na tribuna e falar “estou desistindo do recurso”. Claro, vamos pressupor que ele tenha uma procuração para isso, porque desistência exige poderes especiais na procuração, mas se ele tiver esses poderes e chegar lá na tribuna “estou desistindo” desistiu, acabou. A desistência do recurso é um pouco diferente da desistência do processo. A desistência do recurso, ao contrário da desistência da ação, ela não depende de concordância da parte contrária. Você não interessa se o recorrido já apresentou contrarrazões, dane-se. A desistência independe da anuência do recorrido. E outra coisa, que também é diferente da desistência da ação: na desistência da ação, quando a gente olha o art. 200, Parágrafo Único, ele diz que: “A desistência da ação só produzirá efeitos após homologação judicial.” O juiz tem que homologar a desistência para ela produzir efeitos. Na desistência da ação. No recurso não. No recurso a desistência opera efeitos imediatos, não precisa ser homologada. Então, se o advogado apresentou a petição de desistência ele já desistiu, acabou. Uma desistência pronta e consumada instantaneamente. O art. 998 fala exatamente isso: “O recorrente poderá, a qualquer tempo [Esse a qualquer tempo é até o julgamento]1, sem a anuência do recorrido ou dos litisconsortes, desistir do recurso.” Então, a desistência produz efeitos imediatos, independente da anuência do recorrido. Agora, tem um ponto que ela precisa ser relativizada e esse ponto tá no parágrafo único. É o seguinte, ele trata da desistência em mecanismos de resolução de casos repetitivos Pode acontecer o seguinte: vocês se lembram que esses mecanismos, recursos repetitivos, o juiz seleciona, ou o desembargador, o relator, o ministro são selecionados alguns recursos representativos, os outros ficam suspensos e aí define-se a tese jurídica e depois 1 Comentários do professor se aplica àquela massa de processos que ficou suspensos. Só que pode acontecer o seguinte: aquele sujeito que teve o seu recurso escolhido, representativo, o recorrente desse processo pode desistir, pode falar: “não quero mais, eu entrei num acordo”; “ah, mas teu recurso é repetitivo, é representativo”. E aí, como resolver isso? O código adotou uma solução de compromisso aqui, o meio termo. Por um lado você tem que respeitar a posição do recorrente, ele não quer mais brigar, chegou a um acordo, sei lá, que levou ele a desistir do recurso, e, por outro lado, você tem o interesse público na definição daquela tese jurídica, que ultrapassa aquela briga do recorrente, aquela brigaindividual. Você quer pacificar a jurisprudência. Então o que o parágrafo único diz: Parágrafo único. A desistência do recurso não impede a análise de questão cuja repercussão geral já tenha sido reconhecida e daquela objeto de julgamento de recursos extraordinários ou especiais repetitivos. O que que significa o parágrafo único? Significa que para o caso individual do recorrente a desistência vai produzir efeitos. Então, a solução pro recorrente, ele aceitou a decisão anterior, a recorrida. Para todos os fins. Só que o julgamento daquela tese jurídica vai continuar, mesmo sem julgar o caso individual, por que? Porque a definição da tese jurídica é questão de interesse público. Então, nesse caso, o Tribunal vai julgar a tese jurídica sem julgar, sem aplicar a tese jurídica àquele caso concreto representativo, porque nesse caso concreto houve a desistência. Vai ser um julgamento só em tese, pra definir tese jurídica. Bom, esse é o primeiro instituto que a gente já falou aqui. O segundo instituto é a renúncia, que está no artigo 999. A renúncia ela é diferente da desistência, porque na renúncia se pressupõe que o recurso ainda não foi interposto. Na renúncia você renuncia ao direito de interpor um futuro recurso. Você já tem uma decisão desfavorável, mas você não protocolou o seu recurso, aí você renuncia. Se você renuncia, você não pode, no dia seguinte “ah, me arrependi, vou protocolar o recurso”, não, você já renunciou, já abriu mão do seu direito de recorrer. O artigo 999, ele fala: Art. 999. A renúncia ao direito de recorrer independe da aceitação da outra parte. Então nisso se parece com a desistência, você não precisa da concordância da outra parte pra você renunciar ao direito de interpor o seu recurso. E a renúncia, como a desistência do recurso, também produz efeitos imediatos. Logo que você manifesta o seu desejo de renunciar ela já está pronta e acabada. Há uma controvérsia. Uma doutrina mais tradicional vai dizer que a renúncia ela não pode ser condicionada, ou seja, você não pode impor ou colocar condições ao seu ato de renúncia; ou você renuncia sem condições ou não renuncia. Mas essa doutrina tá superada. Está superada até porque, no código atual, nós damos muita amplitude à autonomia privada, aos negócios jurídicos processuais. Inclusive é muito comum termos uma renúncia condicionada, não é algo acadêmico não. É muito comum, por exemplo, quando fechamos um acordo com a parte contrária. Os acordos, normalmente a gente coloca lá que ele vai ser homologado pelo juiz, e aí a gente coloca uma cláusula, é muito comum colocar uma cláusula nesses acordos, que é “as partes, desde logo, renunciam ao direito de interpor recurso contra a decisão que homologar o acordo, desde que o juízo homologue sem nenhuma ressalva” se o juiz começar “não, a cláusula tal é nula”, não, para aí, eu mantenho resguardado o direito de que eu vou recorrer desse decisão porque eu quero brigar pra fazer valer o acordo. Se o juiz homologou exatamente como a gente ajustou o contrato, acabou a briga, ninguém vai querer recorrer dessa decisão de homologação. É uma renúncia condicionada: “vou renunciar desde que o juízo homologue o acordo totalmente”, se o juiz criar caso eu quero recorrer. Essa renúncia condicionada acaba sendo muito comum na prática. Aluno: Pode haver um negócio jurídico processual que estabeleça que as partes não podem recorrer de uma sentença, por exemplo? Ou não? Seria cabível? Professor: Nesse exemplo que eu dei isso se aplica, mas ai você vai me perguntar "as partes podem renunciar o direito de recorrer de uma sentença que julgue o mérito e que não sabe o que vai ser, pode se dar ganho de causa para o autor ou para o réu". A doutrina hoje é razoavelmente consolidada no assunto de que pode sim fazer um pacto de irrecorribilidade, ou seja, colocar até no contrato que nos futuros litígios decorrentes desse contrato as partes abrem mão desde logo do direito de recorrer. Aluno: no contrato de locação... Professor: claro que o juiz pode olhar de dizer que foi abusivo, o locador também coloca assim "as partes abrem mão do direito de recorrer da sentença que decretar o despejo". Quer dizer, é só a favor do cara né? Não, tem que haver uma isonomia ai. Os caras quando colocam isso no contrato é abusivo, geralmente em contratos de adesão. Caso seja um contrato igualitário para os dois lados ai pode sim. Agora não pode o inverso, criar recurso porque ai você tem o princípio da taxatividade que vimos lá no início. Então você pode tirar recursos, estabelecer que ninguém vai recorrer em determinadas situações, mas desde que haja uma isonomia. Mas não pode estabelecer novos recursos. Aluno: Mas não seria uma ofensa ao duplo grau de jurisdição. Professor: Mas o duplo grau de jurisdição ele é renunciável. Tanto que se você ingressa com um processo e tem uma sentença que te arrebenta, e você protocola uma petição que você não quer recorrer, acabou. É uma garantia, mas é uma garantia disponível. Ela não pode abrir mão do contraditório, mas de recorrer, sem problema. Bom o último instituto que entra aqui é o da aceitação, que está no art. 1.000 do CPC. A aceitação tem duas modalidades: expressa ou tácita. A citação expressa é mais rara. É bem menos comum. Porque na aceitação expressa a parte diz que aceita a sentença como está, mas não renuncia o direito de recorrer, apenas diz "aceito a decisão tal como ela se encontra", mas isso não é muito comum. Os casos mais comuns são de aceitação tácita, em que embora a parte não diga que aceita a decisão ela pratica um ato no processo que é incompatível com qualquer impugnação contra aquela decisão. Manifesta uma conduta da qual você está conformado com a sentença. Por exemplo, eu fui condenado a pagar 20 mil reais para o Hállan. Ao invés de recorrer eu pego uma guia e junto para pagar. Eu não posso depois interpor o recurso, o juiz vai falar " você pagou sem ressalvar que ia recorrer" você podia ter ressalvado que ia pagar para impedir o juros de mora ou execução mas vou recorrer mas não você simplesmente pagou e depois recorreu, os atos são incompatíveis, há uma contradição na sua conduta e ai o direito veda o comportamento contraditório, então pela aceitação tácita esse recurso não é admissível. Um caso de preclusão lógica no direito de recorrer. Aluno: Mas e se você faz o contrário? Se você recorre e depois você paga? Professor: É que na prática é muito difícil fazer isso porque quando você apela e os autos sobem, é meio difícil. Eu confesso que nunca vi alguém fazer um negócio desses, eu já vi o inverso. Depositar e depois recorrer. Mas em tese eu acho que dá para extrair uma preclusão. Se a petição vem sem nenhuma ressalva… Não é simplesmente assim “vou depositar para evitar uma execução”, “vou depositar para garantir juros e multa”. Não. O cara diz “vou pagar a condenação”. Ainda mais depois que ele recorreu, a gente vai ver que apelação tem efeito suspensivo, ela suspende a ação. Você está pagando por que? Você não tem que pagar. Me parece que sim. E aí o art. 1, ele simplesmente diz: A parte que aceitar expressa ou tacitamente a decisão não poderá recorrer. Parágrafo único. Considera-se aceitação tácita a prática sem nenhuma reserva [porque se ressalvar não é aceitação]2 de ato incompatível com a vontade de recorrer. 2 Comentários do professor Então isso aqui tudo, gente, aqui no nosso esquema, são os pressupostos intrínsecos. Eles são um total de quatro: cabimento, legitimidade, interesse recursal e inexistência de fato extintivo ou impeditivo. Aluno: Professor, sobre aceitação, aquele “ciente” vale como... Professor: Ciente da decisão ele vai dizer “fui intimado”. O MP está ciente e aceita a decisão ou está ciente e está de acordo com a decisão, isso é aceitação. Ciente só é “fui intimado”,ponto. Bom, pressupostos extrínsecos. Nos pressupostos extrínsecos, a gente verifica não se há ou não o direito de recorrer, mas se ele foi exercido de forma regular, de forma correta. E o primeiro pressuposto processual extrínseco é a tempestividade. Ou seja, o recurso tem que ser interposto dentro do prazo. Recurso fora do prazo, recurso interposto depois do prazo, ele é inadmissível porque ele não é tempestivo e porque ele não tem esse pressuposto extrínseco. Aliás, eu acho que eu não comentei com vocês. Por que a gente costuma, quando fala de recurso, a gente fala de interpor? Já pararam para pensar sobre isso aqui? Por que esse verbo? Ação a gente fala que propõe, que ajuíza, e recurso “interpor”. Por que interpor? Vocês se lembram que a gente comentou que recurso é sempre dentro do mesmo processo? Interpor nada mais é do que “por entre”. Por entre dois atos processuais. Por entre duas instâncias do mesmo processo. É só uma curiosidade mesmo. Eu fico agoniado quando as pessoas falam impetrar recurso. Cada vez que um jornalista escreve no jornal - porque jornalista adora fazer isso - que alguém impetrou uma apelação, um panda morre no mundo. É sério. Mas vamos lá, qual é o prazo que temos? Qual é o prazo dos recursos? Quantos dias você tem para interpor recurso? Turma: 15 dias. Professor: Essa é uma boa saída, você está correta. Ou melhor, quase correta. O prazo, né, tá lá no artigo 1003, parágrafo 5º. O parágrafo 5º vai dizer “excetuados os embargos de declaração, o prazo para interpor recursos e para respondê-los será de 15 dias.” Logo, todos os recursos tem prazo de 15 dias, exceto os embargos. E qual o prazo dos embargos? 5 dias. E claro, como todos são prazos processuais, são dias úteis. Sempre. Agora, de quando começa esse prazo? Qual o termo inicial desse prazo? Quando começa a correr esses 15 dias? Como qualquer prazo processual, a parte vai ser intimada da decisão, e normalmente ela é intimada pelo diário da justiça e ai tem a data da publicação. Muitas vezes tem a data da disponibilização – é quando é inserido no sistema. Data da publicação e ai no dia útil seguinte ao da publicação é que começa a contar o prazo. Ai um, dois, três... até o 15º dia, se for qualquer recurso fora embargos. Só que isso é a regra geral. A regra geral é da publicação. Só que nós temos duas situações especiais. A primeira situação especial tá no art. 1003, §1º. Ele diz: Art. 1.003. O prazo para interposição de recurso conta-se da data em que os advogados, a sociedade de advogados, a Advocacia Pública, a Defensoria Pública ou o Ministério Público são intimados da decisão. Essa é a regra geral. Normalmente pelo Diário da Justiça, mas se for Fazenda Pública a intimação tem que ser pessoal. E aí no dia seguinte também começa o prazo pra Fazenda Pública recorrer. “Parágrafo primeiro: os sujeitos previstos no caput considerar-se-ão intimados em audiência quando nesta for proferida decisão.” Então, se tiver uma audiência sendo realizada, e nesta audiência for proferida alguma decisão, o prazo pra recorrer dessa decisão conta-se a partir do dia útil seguinte à audiência. Então, se a audiência for numa sexta feira começara a correr na segunda feita seguinte. Não precisa haver uma nova intimação, você já sai intimado. Essa é a primeira situação especial, decisão em audiência. A segunda situação especial está no 1003, §2º. São chamadas decisões ‘inaudita altera partes’”. O que que são as decisões inaudita altera partes? São aquelas decisões que são proferidas antes da citação do réu. Liminares, enfim. O réu não foi citado ainda, mas já foi proferido uma decisão, por exemplo, uma tutela antecipada foi concedida contra o réu. E ai o §2º ele diz: “aplica-se o disposto no art. 231 incisos 1 a 6 ao prazo de interposição de recurso pelo réu contra decisão proferida anteriormente à citação.” Esse parágrafo segundo está aqui simplesmente pra dizer que o prazo pra recorrer desta decisão se conta, por exemplo, da juntada do AR aos autos, da juntada do mandado de citação aos autos, da juntada da carta precatória aos autos. Aí são todas as hipóteses do 231. Não é obviedade, tá? Porque no código anterior havia divergência. Tinha gente que dizia o seguinte, que o prazo pra contestar começava da juntada, mas o recurso já começava no momento que o oficial de justiça entregava. Então o prazo pra recorrer do agravo começava antes da contestação. Tinha essa tese. Acabou isso. Então o 1003, §2º veio pra esclarecer que decisão inaudita altera parte começa só da juntada dos autos. Aluno: Juntada dos autos é a decisão de tutela? Professor: Não, juntada dos autos do aviso de recebimento da citação postal, juntada dos autos do mandado de citação do oficial de justiça, é isso. Aí tem que olhar o artigo 231, mas tem lá tudo certinho, são seis hipóteses conforme a modalidade de citação, pode ser por edital, pode ser carta precatória. Outro ponto ainda dentro da tempestividade. Data de cumprimento. O prazo recursal considera-se cumprido na data em que foi protocolado. E se nós estamos falando de processo eletrônico, esse prazo pode ser cumprido até o último segundo do dia do prazo, ou seja, 23:59:59. Não vão com essa de que é até meia noite, porque meia noite é o dia seguinte, tá? Se você protocolar meia noite exato parabéns você perdeu o prazo! Agora, primeira questão aqui, se por exemplo eu tenho um processo no Acre? E porque esse exemplo? Porque no Acre são duas horas a menos que aqui. Hoje é o último dia do prazo. Eu pergunto para vocês: até que momento, que horas eu posso protocolar o meu recurso no último dia do prazo? Aluna: Vou ter que saber o fuso horário de cada parte? Aluno: Horário de Brasília? Professor: Então, gente essa questão toda é regulada pelo artigo 213 do CPC: “A prática eletrônica de ato processual pode ocorrer em qualquer horário até as 24 (vinte e quatro) horas do último dia do prazo. Parágrafo único. O horário vigente no juízo perante o qual o ato deve ser praticado será considerado para fins de atendimento do prazo.” Ou seja, eu tenho que considerar a meia noite de onde está correndo o processo, ou seja, lá no Acre. Conclusão, eu teria até 01:59:59 daqui do Rio de Janeiro para protocolar essa petição. Vocês vão falar que bom eu tenho 2 horas a mais, o inverso que não é legal. O cara lá no Acre que tem um processo aqui no Rio vai ter que protocolar até 21:59:59, se ele protocolar 22:30 perdeu o prazo porque aqui já era mais que meia noite. Ou seja, vale o horário de meia noite de onde está tramitando o processo. Pior é quando tinha horário de verão. Ainda bem que acabou né? Aluna: Imagina o dia que fosse mudar o horário. Professor: Você sabe que isso, na prática, os advogados não esperam o último segundo para protocolar, mas isso dá um problema na audiência, isso de horário de verão. A audiência na Bahia, você tinha que se lembrar que na Bahia não tinha horário de verão. Então, era um horário diferente do daqui, era uma loucura. Mas às vezes a audiência era por vídeo conferência, você acompanha daqui, mas o horário é de lá. Enfim, mas isso acabou. Outra coisa, quando a gente fala de cumprimento do prazo. Recurso protocolado pelos Correios. Como assim recurso protocolado pelos Correios? Porque assim, nem todo estado é tão legal como o Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro você tem o Protocolo Geral (PROGER). Você pega a sua petição, vai em qualquer comarca e protocola a sua petição. Mas tem comarcas que não é assim, em grande parte dos estados, em MG não é assim. Não adianta você ter um processo em BH, e vai a Juiz de Fora protocolar. O cara vai dizer assim “não, meu amigo, a gente só recebe petição para a comarca de Juiz de Fora.”. Aí o para o advogado não precisar ficar indo para BH, o Tribunal faz convênios com os correios, então,você protocola a sua petição na agência dos correios. Isso pressupondo que o processo seja físico, hoje em dia, você pode protocolar pela internet. Eu estou falando do processo de papel. O processo raiz. A questão toda aqui é o seguinte, quando estamos falando do protocolo nos correios. Você protocola hoje e não vai chegar hoje mesmo em BH, vai chegar um ou dois dias depois. A pergunta é: considera-se cumprido o prazo na data que você entregou na agência ou na data que os correios entregaram? Alunos: na agência. Você dá para o correio entregar, e se ela atrasa? Professor: vocês vejam quando o juiz está no dia de maldade, o negócio fica difícil. O STJ editou a súmula 216. Essa súmula foi pensada em processos para Brasília. SÚMULA N. 216 A tempestividade de recurso interposto no Superior Tribunal de Justiça é aferida pelo registro no protocolo da secretaria e não pela data da entrega na agência do correio. Aluno: eu pensei que teria muita confusão o protocolo no Tribunal e protocolo na agencia. Professor: É, mas eu tenho boas notícias para vocês. O código procurou reverter essa situação. Então, essa súmula pode ser considerada superada, porque é o artigo 1.003, §4, que controla essa questão: Art. 1.003. O prazo para interposição de recurso conta-se da data em que os advogados, a sociedade de advogados, a Advocacia Pública, a Defensoria Pública ou o Ministério Público são intimados da decisão. § 4º Para aferição da tempestividade do recurso remetido pelo correio, será considerada como data de interposição a data de postagem. Professor: ou seja, a data que você apresenta na agência, é claro que hoje em dia está muito esvaziado esse §4º porque hoje, ainda mais em 2º instância, é tudo processo eletrônico. Mas onde ainda é processo físico, tiver correio, o art. 1003, §4º é aplicado. Agora, isso teve com um final feliz. Mas eu vou falar de uma enorme frustração na vida da pessoa, um caso triste, que é o feriado local. No Brasil nós temos os feriado nacionais, mas também temos os feriados locais - só no estado e só no município. Aí, pensando especialmente no STJ ou no STF, você tem um recurso que é protocolado para lá, protocolado aqui em baixo, mas quando o STJ for receber o recurso que vem do RJ, SP ou TO, eles não vão saber os feriados locais desses estados, no município do RJ, em Niterói ou em uma comarca do Tocantins. Como resolve essa situação? A Jurisprudência, pensando nessa situação, disse “o recorrente, se ele quiser se valer dessa extensão do prazo, por causa do feriado já que o prazo processual só corre em dias úteis, ele tem que comprovar o feriado local, levar a lei municipal, a lei estadual que decretou feriado naquele dia, ele anexa isso ao recurso.”. Grampeia em caso de físico ou anexo em caso de eletrônico e apresenta lá o feriado. A questão é que, claro, as pessoas às vezes esquecem de juntar seus arquivos. Correria do dia a dia, esqueceu de juntar um anexo, não apresentou a prova do feriado local. A questão é saber, esse vício – e é um vício - pode ser corrigido ou não? Você pode apresentar depois que recorreu? Por exemplo, o STJ verifica que o advogado protocolou no 17º dia, o advogado poderia se justificar posteriormente. Aí o advogado fala “não, não, eu protocolei no 15º. Olha, é que tem um feriado local no dia tal, no dia tal foi enforcado, o ato foi publicado no Diário Oficial, bonitinho. Então eu protocolei no 15º dia, STJ.” O recorrente pode sanar esse vício ou não? O Código foi um tanto quanto enigmático, porque ele tem um artigo sobre isso que é o 1003, §6º. Esse artigo fala apenas: “O recorrente comprovará a ocorrência de feriado local no ato de interposição do recurso”. Então ele diz que precisa comprovar no ato de interposição. Mas ele não especifica se o vício é sanável ou é insanável, ou seja, se ele vai ter uma segunda chance. Isso gerou uma controvérsia logo no início da vigência do código. Foi editado um enunciado, 66 da Jornada de Processo da Justiça federal. Esse enunciado, como não é uma súmula, é um enunciado doutrinário de um evento acadêmico, diz que esse vício é sanável. Ou seja, a tese é que você tem que interpretar o 1003, §6º conjugado com o 932, parágrafo único. O 932, PU diz que: “antes de considerar inadmissível o recurso, o relator concederá o prazo de 5 dias ao recorrente para que seja sanado o vício ou complementada a documentação exigida”. Começou uma discussão e a questão foi parar na Corte Especial do STJ. O STJ julgou o Agravo em REsp 957821. E o STJ, a Corte Especial, ao pacificar esse entendimento, decidiu em sentido contrária ao enunciado, dizendo que é insanável e a tese do STJ sobre o 1003, §6º é regra especial que, portanto, afasta o 932, parágrafo único. Então, resumo da ópera: se você esquecer de juntar a comprovação do feriado local e essa comprovação era decisiva para mostrar que seu recurso estava dentro do prazo, que sem ela seu recurso teria sido protocolado no 17º dia, você não terá uma segunda chance. Você perdeu o prazo. “Ah, mas eu estava dentro do prazo!”. Não interessa. O STJ julgou que não tem segunda chance. Vejam como isso é injusto, né? Porque você esqueceu de grampear um documento, ou deixou de anexar, em função da correria, já era. Você não terá segunda chance. Por que a minha frustração? Porque eu fiz escritos acadêmicos contra isso, nesse processo aqui (ARESp 957821) eu ingressei por uma associação como amicus curiae, fui para o STJ despachar. E nada. Uma tragédia. Só que agora ainda temos uma outra questão que está surgindo aqui, ainda dentro do feriado local. Aliás, antes de entrar nessa questão, uma ironia do destino: esse julgamento da Corte Especial, sabe que dia que aconteceu? Dia 20 de novembro. Porque lá em Brasília não era feriado, mas era feriado local em vários locais, inclusive no Rio de Janeiro. Assim, os caras definiram uma coisa sobre feriado local no dia que era feriado local em metade do país, mas não era em Brasília. Enfim. Há uma outra questão que essa está pendente de julgamento, essa outra questão está no REsp 1813684 e que é a discussão que a gente chama discussão do feriado notório, quê que é o feriado notório? É o feriado que não está previsto em lei federal – normalmente os feriados vêm em lei federal – só que é notório, todo mundo sabe que é feriado em todos os cantos do Brasil. E tem dois dias que entram nessa questão aqui: a segunda-feira de carnaval, acreditem, não tem lei para a segunda-feira de carnaval, mas eu desafio qualquer um aqui a achar um fórum que abra segunda-feira de carnaval, se acharem um, já ganha um ponto na prova automaticamente; e o outro dia que entra aqui é o Corpus Christi. Não tem lei dizendo que Corpus Christi é feriado, não tem lei federal, existem leis locais, só que é feriado em todo o Brasil. E aí, a tese que está sendo desenvolvida aqui é dizendo o seguinte: embora esses feriados sejam locais, não precisaria haver a comprovação porque todo mundo sabe que segunda-feira de carnaval não abre e nem Corpus Christi abre, é fora da realidade achar que poderia deixar em aberto e dizer que o recorrente não comprovou. Essa discussão está pendente no STJ, tem votos nos dois sentidos. Enfim, não sei para onde isso vai caminhar. O STJ está querendo matar recursos de tudo que é jeito, então, assim, para mim é lógico que não poderia se exigir a comprovação desses feriados. Agora, se eu acho que isso é como o STJ está decidindo? Não tenho certeza, não. Aluno: (Fala algo sobre inverter o dia do feriado). Professor: Cara, eu não entendo isso. (Tem que enforcar na sexta em alguns lugares?). Aluno: (Inaudível). Professor: Cara, esse negócio de colocar todos os feriados na sexta ou na segunda não dá certo, porque aí a pessoa vai fazer o feriado na segunda e depois também não vai abrir no dia que era para ser o feriado,no Brasil a coisa acontece assim. Assim, tudo bem, não vamos ser hipócritas, a gente gosta de feriadão, mas a coisa tem um limite, né? Já teve vezes que aconteceu o seguinte: no dia 28 de outubro, que é o dia do servidor público, sei lá, caía numa quarta- feira, dia morto. E na semana seguinte tinha o dia de finados, feriado nacional, caía na quarta, segunda, sei lá, não fiz as contas aqui. Eles pegaram isso na quarta-feira jogaram, para segunda-feira anterior, sei lá, dia 30 de outubro, para emendar com dia 1 de novembro e ganhar um feriadão que, cara, o feriadão tinha 5 dias. O negócio ia, sei lá, do sábado até quarta-feira seguinte, quase um carnaval fora de época. Não, isso é um absurdo, pegar um feriado de um dia e jogar para outro para criar um feriadão. Aluno: Bons tempos. Professor: Bom, ainda sobre prazo. Lembrando que a gente acaba essas questões de prazo ainda hoje. Será que é admissível o chamado recurso prematuro? O quê que é recurso prematuro? Aluna: A pessoa tem pressa, quer sair correndo. Professor: Exatamente, ela tem pressa, portanto, ela interpõe recurso antes de começar o prazo, ela nem foi intimada da decisão, ainda não saiu no Diário da Justiça, ela já foi lá e protocolou recurso. Teve época em que os tribunais disseram que os recursos prematuros não eram admissíveis. Isso é quase como você fazer uma prova, um concurso, chegar uma hora antes de abrirem os portões e você ser eliminado do concurso, porque chegou uma hora antes de se abrirem os portões. É quase desse nível a coisa. Bom, o recurso prematuro é admissível, só que a coisa é tão doida, os nossos tribunais são tão malucos que a gente teve que colocar isso na lei. A gente teve que escrever o óbvio. Isso está no art. 218, §4º. Art. 218. Os atos processuais serão realizados nos prazos prescritos em lei. § 4º Será considerado tempestivo o ato praticado antes do termo inicial do prazo. Atenção, para algumas situações, ainda sobre prazo, porque nós temos o chamado “prazo em dobro”. Em que casos temos prazo em dobro, gente? Alunos: Dois advogados de diferentes partes em processos físicos Outro aluno: Defensoria, Ministério Público. Professor: Não, olha só. O primeiro caso, Fazenda Pública, Defensoria, Ministério Público. Esse povo tem prazo em dobro. Então, eles terão 30 dias, exceto embargos que são 10 dias. Tudo dobrado. Pergunta: Um núcleo de prática jurídica, um escritório modelo, ele tem prazo em dobro? Aluno: Se tiver convênio com a defensoria... Professor: Pois é. O artigo 186, §3º, fala dos núcleos de prática jurídica, e ele diz: Art. 186. A Defensoria Pública gozará de prazo em dobro para todas as suas manifestações processuais. (...) § 3º O disposto no caput aplica-se aos escritórios de prática jurídica das faculdades de Direito reconhecidas na forma da lei e às entidades que prestam assistência jurídica gratuita em razão de convênios firmados com a Defensoria Pública. A parte inicial dele, fala “escritórios de prática jurídica das faculdades de direito”, só que a jurisprudência, sobretudo, do STJ tem limitado o prazo em dobro, isso não tem muito fundamento, aos escritórios modelos de faculdades públicas. Faculdade particular não tem prazo em dobro. Ou seja, alunos de faculdades particulares se ferram aí, você não vai ter prazo em dobro. A outra situação de prazo em dobro é a que vocês comentaram, a dos litisconsortes com escritórios diferentes. Não basta só isso. Os autos do processo devem ser físicos. Isso está no art. 229. Então, não basta que os advogados sejam diferentes, tem que ser de escritórios diferentes, e isso só vai acontecer, a dobra do prazo, se o processo for em papel, se ele for eletrônico, não vai ter prazo em dobro. Mas aqui, a gente tem que chamar atenção para uma súmula, que a súmula 641 do Supremo. É o seguinte: vamos supor que eu tenha dos réus, patrocinados por escritórios diferentes, processos em autos físicos. Só que na sentença, o juiz julga procedente contra o réu, condena um dos réus, e julga improcedente contra o outro réu. Ou seja, o autor ganhou de um dos réus e perdeu do outro. E aí, eu pergunto, esse réu que perdeu, o único réu que perdeu, ele tem prazo simples ou em dobro para recorrer? Simples. Por quê? Porque o prazo está correndo para ele sozinho. Ainda que tenha havido litisconsórcio passivo, como só um sucumbiu, só um perdeu, só um tem interesse processual para recorrer, o prazo só corre pra ele. Portanto, desaparece em razão de ter prazo em dobro. É isso que se fala a súmula 641: Não se conta em dobro o prazo para recorrer, quando só um dos litisconsortes haja sucumbido. Então, nesse caso, ele volta a ter o prazo comum de 15 dias ou se for embargos, 5 dias. Aluno: Mas e se o autor também tivesse interesse em recorrer? Se fosse uma obrigação divisível, cobrando 500 reais de aluguel... Professor: Cuidado. Você perguntou: e se o autor tivesse interesse em recorrer. Nesse caso tem, porque ganhou de um e perdeu de outro. Mas a dobra do prazo é só quando há prazo comum para litisconsortes, não prazo comum para autor e réu. Aluno: Não, eu sei, mas é que eu achei que a lógica dessa norma era quando o processo for físico, você tem que dar um prazo razoável para o advogado. Professor: Sim, mas essa regra de dobra nunca valeu para autor e réu. Nunca valeu. Aluno: É, mas aí o prazo para apelação vai ser comum aos dois. Professor: Sim, mas mesmo que fosse, por exemplo, um autor contra um réu e o pedido fosse julgado parcialmente procedente. É prazo comum. O autor pediu 100, o juiz deu 50. Os dois podem recorrer, o réu para zerar e o autor para jogar para cem. Nunca foi prazo em dobro isso. “Ah, mas deveria ser, porque o prazo é comum.” Nunca foi prazo em dobro. O CPC ele é muito específico. Prazo em dobro é para quando sejam litisconsortes. Autor e réu não são litisconsortes. Não tem prazo em dobro. Aluno: É, mas é porque a razão da norma seria essa Professor: Sim, sim, mas esse problema não decorre dos recursos. É um problema que decorre do regime da disciplina geral de prazos do CPC. Outro aluno: Inaudível Professor: É, é muito difícil. Eu não arriscaria. A súmula é bem objetiva: não sucumbir. Você pode dizer que não, que é uma situação em que o réu ganhou, mas que teria ainda interesse em recorrer. Cara, até você explicar isso, o juiz já disse que o recurso está fora do prazo. Aqui eu costumo brincar que tem uma frase ótima: doutrina é muito bom, mas para o prazo dos outros. No meu prazo, eu não quero correr risco. Então se a súmula fala em sucumbir, eu vou ficar (inaudível). Dá para construir que, na verdade, o que a súmula na verdade queria dizer é que quando só tem interesse recursal (inaudível). É super construível. Acho que, academicamente... mas no dia a dia da advocacia é botar a sua cabeça a prêmio. A última questão aqui para a gente acabar prazo e acabar a aula de hoje para todos irmos para casa acompanhar a eliminação do Flamengo. Prazo para terceiro. A gente já viu que algumas situações o terceiro pode recorrer, o terceiro prejudicado, isto é, aquele que tem um interesse jurídico. Falamos sobre isso quando discutimos a legitimidade. Mas e para o terceiro? Qual é o prazo para o terceiro recorrer? Ou melhor, o prazo é de 15 dias, mas quando eu começo a contar esses 15 dias? A jurisprudência é pacífica que o terceiro tem o mesmo prazo que as partes para recorrer, ou seja, a partir do momento que última das partes for intimada da decisão, também corre o prazo para eventuais terceiros que sejam os prejudicados recorrerem. “Ah professor, mas o terceiro não foi intimado, como ele vai ficar sabendo?” Problema é dele. “Mas isso não é uma injustiça com o terceiro?” Não, porque o terceiro, em princípio, não se submete a coisa julgada e pode, no limite, discutir tudo em uma nova ação. Só não vai poder recorrer.Então, para que a gente não tenha que ficar aguardando eternamente o terceiro, quem sabe, intervir, a jurisprudência diz que ele tem o mesmo prazo que as partes. Acabou o prazo das partes recorrerem, acabou, também, automaticamente, o prazo para o terceiro recorrer. Se quiser, discuta em uma nova ação.