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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 
Faculdade de Direito da UERJ 
 
Transcrição de Direito Processual Civil I 
Professor: André Roque 
 
Transcritores: Marcos Paulo Maia, Alice Alván, Ana Beatriz Torres, Carol 
Santana, Fabienne Louzada, Gabriel Pegoretti, Yasmin Yunes, Gabriella 
Barcelos, Gizelle, Gabriella Thomaz, Caio, Hállan Fidalgo, Livia Araujo, Maria 
Eduarda Eiras e Maria Bruna 
 
Revisor: Luiz Felipe Rodrigues 
 
 
Bom, pessoal, boa noite. 
A gente continua falando dos recursais. Pressupostos extrínsecos. A 
gente já viu ontem a tempestividade e agora a gente vai falar do segundo, que é 
a regularidade formal. 
Regularidade formal. Ou seja, os recursos necessitam preencher alguns 
requisitos de forma para poderem ser admitidos. Quando a gente for ver os 
recursos em espécie, a gente vai examinar os requisitos específicos de forma 
que cada um deles tem, mas como requisitos gerais que todo recurso tem de ter, 
o que precisa ter em um recurso? Primeiro, ele precisa observar a forma escrita. 
Todo recurso é apresentado de forma escrita. A única exceção, que depois a 
gente vai ver, é a petição de embargos de declaração nos juizados especiais, 
que podem ser apresentados oralmente, na audiência. Mas, fora essa exceção, 
que depois a gente vai ver com mais calma, todos os outros recursos são 
apresentados na forma escrita. 
Uma outra questão que tem que ser observada na forma desse recurso é 
a chamada impugnação especificada. Alguns chamam isso aqui de dialeticidade. 
Dialeticidade recursal. O que é isso? Essa impugnação especificada, essa 
dialeticidade recursal é a exigência de que o recurso ataque os fundamentos da 
decisão recorrida. Então, por exemplo, você ingressou com uma demanda, aí o 
juiz vai e julga improcedente por uma razão, por prescrição. O seu direito está 
prescrito. Quando você apela dessa sentença, a sua apelação tem de mostrar 
por que afinal não houve prescrição. Não adianta você pegar e fazer um recorta 
e cola da petição inicial e jogar na apelação se ela não fala nada de prescrição. 
Se isso acontecer, o seu recurso é inadmissível. Por quê? Porque você não 
atacou, você não impugnou os fundamentos da decisão recorrida. 
Vocês podem achar isso talvez algo muito bobo, mas no dia-a-dia muitos 
advogados fazem isso. No dia-a-dia muitos advogados, até a apelação ela ataca 
normalmente a sentença, aí perde na segunda instância, aí quer recorrer para o 
STJ, interpõe recurso especial, só que só troca o nome da petição, a petição é a 
mesma, os fundamentos são os mesmos, só que ele só trocou de apelação para 
recurso especial. Se os fundamentos do acórdão que julgou a apelação são 
outros, esse Recurso Especial não vai ter jeito, ele não vai prosperar, ele não vai 
ser conhecido. 
Uma outra questão que tem que se observar a respeito da forma do 
recurso é o pedido. O pedido recursal. Todo recurso tem de ter um pedido ao 
final. Esse pedido vai ser pra anular, pra reformar, pra esclarecer ou pra integrar. 
Eu não falei nada porque isso já estava na definição de recurso. Claro, você pode 
fazer mais de um desses pedidos. Você pede pra anular, e, caso assim não se 
entenda, pra reformar. Não tem problema. Mas tem que ter, pelo menos, um 
desses. Se você não pede nada no recurso o seu recurso também é inepto. 
E a última coisa que tem que se observar em todos os recursos, em 
termos de forma, é que esse é um ato postulatório, e se é um ato postulatório, 
todo recurso precisa de quê? Precisa estar assinado por algum sujeito com 
capacidade postulatória. Leia-se, um advogado, ou, um promotor, um defensor 
público, ou, um procurador. A parte não pode assinar um recurso sozinha. Nem 
mesmo no juizado. Inclusive no juizado, em que ela pode, em determinados 
casos, ingressar com a demanda sem advogado, para ela recorrer pra turma 
recursal a Lei 9.099 exige a participação do advogado. E aí no passado o STJ 
tinha alguns precedentes dizendo que quando o recurso não estava assinado 
ele era considerado inexistente, a parte não tinha chance de regularizar. Isso 
hoje está superado. Então se, eventualmente, você protocola um recurso que 
não tenha a assinatura de nenhum advogado isso é um vício, problema de 
regularidade formal, mas você vai poder ser intimado pra regularizar esse vício 
no prazo de cinco dias, que é a regra do 932, § único. 
Bom, visto isso, a gente entra então no último pressuposto. O último 
pressuposto recursal é o preparo. A gente já comentou sobre isso. O que é 
preparo? Preparo nada mais é do que você pagar as custas, as despesas 
processuais exigidas pra um determinado recurso. Então quando você diz que 
um recurso está preparado é porque você recolheu as custas. Nem todos os 
recursos exigem preparo não. Por exemplo, embargos de declaração não exige 
preparo. Mas apelação exige preparo, agravo de instrumento, na maioria dos 
lugares, não todos, exige preparo, recurso especial exige preparo... Quase todos 
exigem, quando não exigir a gente vai falar. Então não precisa se preocupar, 
ficar decorando qual recurso tem e qual recurso não tem preparo. A regra é: 
todos precisam, mas em algumas situações a própria lei vai dizer ó esse recurso 
não tem preparo. 
É claro, né, que se o recurso não tiver o preparo, ele não preenche esse 
pressuposto, e a gente dá um nome específico pra isso. Quando a gente 
inadmite um recurso por falta de preparo, a gente fala, dá o nome de deserção. 
Então, o que é o recurso deserto? O recurso deserto é aquele que foi inadmitido 
por falta de preparo. Bom, em que momento tem que apresentar as custas deste 
recurso? Qual é o prazo para pagar essas custas, o momento de juntar essas 
custas no processo? A regra geral é no ato da interposição. Sobre isso, nós 
temos o artigo 1.007, caput, do CPC, que diz: 
 
Art. 1.007. No ato de interposição do recurso, o recorrente 
comprovará, quando exigido pela legislação pertinente, o 
respectivo preparo, inclusive porte de remessa e de 
retorno, sob pena de deserção. 
 
Só uma observação: esse "porte de remessa e de retorno" hoje em dia 
quase não é cobrado, mas ele era cobrado pelas custas para transportar o 
processo de um lado para o outro, quando o processo era de papel. Se o 
processo, por exemplo, sai para Brasília, junto com as custas do recurso você 
tinha que pagar esse porte de remessa e de retorno. Como hoje é tudo 
eletrônico, é muito raro esse porte de remessa e de retorno ser cobrado. Então, 
como regra geral, você tem que juntar essas custas no ato da interposição. Só 
que há duas exceções para isso. 
Uma primeira exceção está nos juizados. Nos juizados, a gratuidade de 
justiça é só no primeiro grau. No momento que você interpõe o recurso para a 
turma recursal, no segundo grau, chamado recurso inominado, você tem que 
recolher custas. Só que a lei dos juizados diz que você não precisa apresentar 
essas custas no ato de interposição. Você pode apresentá-las em até 48 horas 
depois da interposição. "Ah, professor, mas eu posso apresentar junto com o 
recurso?". Pode, claro, mas a lei dá um prazo extra para você. Se você interpôs 
no dia 2, tem até o dia 4 para apresentar as custas deste recurso, não tem 
nenhum problema. Então, juizados: até 48 horas da interposição. 
A segunda situação é uma hipótese que está sumulada. Súmula 484, STJ. 
Que situação é essa? 
 
Súmula 484, STJ: Admite-se que o preparo seja efetuado 
no primeiro dia útil subsequente [ou seja, no dia seguinte à 
interposição]1, quando a interposição do recurso ocorrer 
após o encerramento do expediente bancário. 
 
Qual é o problema aqui? É que nós temos um expediente bancário cujo 
horário termina antes do fechamento do fórum, se for um processo físico, e 
obviamente antes da meia-noite, quando se trata de processo eletrônico. Então, 
alguém pode pensar: "Ah, mas posso pagar pelo internet banking". O advogado 
não é obrigado a ter internet banking. Então, se ele for na agência do banco,essa vai estar fechada depois das 16h. Aí a súmula permite o quê? O advogado 
tem que cumprir o prazo, tem que protocolar o recurso naquele dia, mas ele pode 
apresentar as custas pagas no dia seguinte. Por que? Porque o banco já estava 
fechado quando foi protocolado o recurso. Só que isso só vai ser aceito se o 
advogado protocolar depois das 16h, porque se protocolou na manhã do último 
dia não vai ser aceito, é apenas pro recurso que foi protocolado depois que já 
 
1 Comentários do professor 
encerrou o expediente bancário e no último dia do prazo. Então fora essas duas 
exceções, sempre no ato da interposição. 
Aluno: Eu estou pensando na hipótese de sexta-feira depois das 16h? 
Professor: No juizado você tá falando? Prorroga para o dia seguinte. Se 
as 48h terminam num domingo prorroga para o dia seguinte. 
Aluno: então se você interpuser sua apelação, por exemplo, no 12º dia 
útil, mas só juntasse o comprovante de pagamento das custas no 15º dia útil? 
Professor: Não, não pode. Seria um vício insanável. A gente vai ver o 
quê que acontece. Não é que você vai perder o seu recurso. O código estabelece 
uma sanção pra isso. Mas aí você não afasta essa sanção. Porque no décimo 
12º dia útil, ainda que você protocole depois que o banco fechou, o Tribunal vai 
falar: por quê que você não protocolou no 13º dia? Agora, no último dia não tem 
jeito, se você protocolasse no 16º dia você perderia o prazo. Então aquela 
Súmula ela só se aplica quando você protocola no último dia do prazo e depois 
que o banco fechou. É uma hipótese bem específica. 
Bom, às vezes acontece dessa guia, de ter alguma falha na comprovação, 
falha na guia. Normalmente essa falha se dá porque teve um código errado de 
recolhimento, né, o estagiário se confundiu lá com o número. A culpa é sempre 
do estagiário. Ou o advogado errou o número do processo daquela guia, porque 
a guia exigia colocar o número do processo e ele errou. Às vezes acontecem 
esses problemas. E aí, o quê que o código diz pra esse tipo de situação. Ele diz 
no art. 1.007, §7º: 
 
“§ 7º O equívoco no preenchimento da guia de custas não 
implicará a aplicação da pena de deserção, cabendo ao 
relator, na hipótese de dúvida quanto ao recolhimento, 
intimar o recorrente para sanar o vício no prazo de 5 (cinco) 
dias.” 
 
Então se tiver algum vício na guia, você preencheu errado a guia, isso não 
vai tornar o seu recurso deserto, mas, se aquele vício realmente compromete a 
verificação se as custas foram realmente recolhidas ou não, o relator vai intimar 
o recorrente pra corrigir aquele problema em 5 dias. E aí, claro, se ele não 
corrige, aí sim o recurso é considerado deserto. 
Agora, pode ser que o problema não seja porque você preencheu errado. 
Pode ser que você pagou menos do que devia. Você errou o cálculo das custas. 
Então as custas eram R$250,00 e você só pagou R$200,00. Aí o quê que vai 
acontecer nessa situação? Nessa situação nós temos o art. 1.007, §2º: 
 
§ 2º: A insuficiência no valor do preparo, inclusive porte de 
remessa e de retorno, implicará deserção se o recorrente, 
intimado na pessoa de seu advogado, não vier a supri-lo 
no prazo de 5 (cinco) dias. 
 
Então se você pagou menos do que devia, você vai ser intimado para 
pagar a diferença e se você não pagar o seu recurso é considerado deserto. Até 
aqui tudo bem, mas tem um probleminha nessa história. O probleminha são os 
juizados. Tem se entendido, é um entendimento praticamente pacífico, que nos 
juizados não há segunda chance. Se você errou no cálculo, pagou menos do 
que deveria, embora você tenha aquele prazo de 48 horas a mais, mas você não 
vai ter uma segunda chance, você pagou menos o seu recurso vai ser 
considerado deserto, você vai perder o seu recurso. Isso é muito chato nos 
juizados, porque se você errar uma continha que seja, recolheu um real a menos, 
você perdeu o seu recurso. Se as custas eram 500 reais, você pagou 499, já era. 
Porque o tribunal não devolve os 499, o negócio é pior que cassino. Você só tem 
uma chance. 
Isso é muito criticado pela doutrina, dizendo que isso torna os juizados 
mais formais do que a própria justiça comum e esse entendimento é sustentado 
pelos tribunais pela tese da celeridade. Porque em função da celeridade não se 
dá uma segunda chance. É um entendimento para julgar menos recursos. Mas, 
o discurso é a tese da celeridade. 
Então o que os advogados fazem na prática nos juizados, você tem uma 
guia, vocês já viram um GRERJ? É um inferno, tem 300 campos para preencher. 
O que os advogados fazem na prática e pegar um desses campos e recolher um 
valor a mais aqui. Porque o entendimento da jurisprudência é que se você 
recolhe a menos aqui, mas recolheu a mais ali, na compensação salva o seu 
recurso no juizado. Então o que importa é a soma final dar o mínimo e não que 
você tenha acertado todos os campos. O que é outra tese muito conveniente 
para o Tribunal, porque isso obriga os advogados a pagarem mais do que é 
devido no âmbito dos juizados para diminuir o risco de perder um recurso porque 
errou no cálculo. 
Bom, falamos de GRERJ não preenchida, falamos de pagamento que foi 
feito menos do que o devido, mas temos uma terceira situação, que é a seguinte: 
e se no ato da interposição não foi pago nenhum valor? Ou seja, aqui é um 
pouquinho diferente, porque ali você pagou menos do que era devido, aqui você 
pagou 0. Ou porque você não pagou mesmo ou porque você esqueceu de juntar 
ali, protocolou o recurso e esqueceu de juntar aquilo ali como anexo. O que 
acontece nesse caso? O que vocês acham que acontece? 
Aluno: Também perde, pela lógica. 
Professor: No Código antigo, essa situação significava deserção 
instantânea, ou seja, morte súbita, você perdeu o seu recurso. O Código atual 
achou isso muito drástico e resolveu dar uma segunda chance, mas com alguma 
punição. Isso também está no artigo 1007, § 4º: 
 
“O recorrente que não comprovar, no ato de interposição 
do recurso, o recolhimento do preparo, inclusive porte de 
remessa e de retorno, será intimado, na pessoa de seu 
advogado, para realizar o recolhimento em dobro, sob pena 
de deserção.” 
 
Ou seja, o cara que não pagou nada, pagou zero, ele vai ser intimado nos 
mesmos cinco dias, mas agora ele vai ter que pagar duas vezes, vai ter que 
pagar em dobro. 
Aluno: e se já tiver pago ele vai ter que pagar mais uma vez? 
Professor: Se ele pagou, mas esqueceu de juntar, sim, vai ter que pagar 
mais uma vez. 
Aluno: Mesmo se extrapolar o teto de custas? 
Professor: Não interessa. É como se fossem dois andares. Isso pode ser 
complicado, gente, porque aqui no Rio, por exemplo, uma apelação nem é tão 
cara assim, uma apelação sai por 500, 600 reais. Mas por exemplo, se você vai 
em São Paulo, que é aqui do lado, vai ter apelação lá que pode ser 75.000 reais. 
Imagina ter que pagar isso em dobro, virou 150.000. 
Pra evitar que alguém use aqui pra procrastinar, temos o § 5 também. O 
§ 5º ele vai dizer: 
 
§ 5º É vedada a complementação se houver insuficiência 
parcial do preparo, inclusive porte de remessa e de retorno, 
no recolhimento realizado na forma do § 4º. 
 
Ou seja, o cara que foi intimado pra pagar em dobro, ele não terá uma 
terceira chance, ele já tá tendo uma segunda chance. Na primeira ele não pagou 
nada, na segunda ele é intimado pra recolher em dobro e ele não tem direito de 
recolher a menor dessa vez, se ele fizer isso não haverá terceira chance, se ele 
fizer isso ele será considerado deserto. É um tratamento menos rigoroso que o 
código anterior, mas, claro, mais rigoroso que a simples insuficiência do valor 
que você pagou de custas. 
Bom, há uma série de pessoas que estão dispensadas do preparo. Há 
uma série de sujeitos que não necessitam recolher custas para o recurso. Que 
pessoas são essas? O beneficiário da gratuidade de justiça é um deles. O cara 
que tem justiça gratuita, esse cara não tem que pagar custas. 
Aluno:Advogado da União. 
Professor: Então, o outro sujeito que entra aqui, a gente tem que olhar o 
1.007, § 1º, ele fala: 
 
§ 1º São dispensados de preparo, inclusive porte de 
remessa e de retorno, os recursos interpostos pelo 
Ministério Público, pela União, pelo Distrito Federal, pelos 
Estados, pelos Municípios, e respectivas autarquias, e 
pelos que gozam de isenção legal. 
 
Então o Ministério Público e Fazenda Pública. A gente também tem que o 
olhar um outro artigo sobre essa dispensa de preparo, é o artigo 4º da lei 
9.289/96, que diz: 
 
Art. 4° São isentos de pagamento de custas: 
 
I - a União, os Estados, os Municípios, os Territórios 
Federais, o Distrito Federal e as respectivas autarquias e 
fundações; 
 
II - os que provarem insuficiência de recursos e os 
beneficiários da assistência judiciária gratuita; 
 
III - o Ministério Público; 
 
(...) 
 
Lembrando que não é só o sujeito que já tem justiça gratuita, pode ser 
que ele ainda não tenha justiça gratuita, mas ele peça justiça gratuita no próprio 
recurso. Essa possibilidade é dada pelo artigo 99, §7 do CPC. Nesse caso 
específico, como a gente já viu esse artigo, ele pede que o relator de a 
gratuidade. Se o relator não der a gratuidade, ele vai ser intimado para recolher 
as custas. Como não foi uma simples falta de recolhimento sem justificativa, ele 
será intimado para recolher as custas de forma simples, não em dobro. Então, 
bom o inciso I a gente já falou, o inciso II do art. 4º quem tem gratuidade de 
justiça, inciso III ministério público e inciso IV que não está no CPC: 
 
"IV - os autores nas ações populares, nas ações civis 
públicas e nas ações coletivas de que trata o Código de 
Defesa do Consumidor, ressalvada a hipótese de litigância 
de má-fé." 
 
Então autor em ação coletiva ele não tem que recolher custas para ajuizar 
ação e nem para recorrer. Então a associação que ingressa com ação civil 
pública não tem que recolher custas. Se o sindicato ingressa com uma ação 
coletiva não tem que recolher custas. Uma pessoa física que ingressa com uma 
ação popular não tem que recolher custas. O parágrafo único apenas esclarece 
que essa isenção prevista nesse artigo não alcança as entidades fiscalizadoras 
profissional, então essa isenção não beneficia a OAB, o conselho de medicina, 
CREA. Essas instituições tem que pagar custas como qualquer outra pessoa 
física ou pessoa jurídica. 
Visto isso, a gente encerrou o ponto dos pressupostos recursais. Então, 
todos os requisitos de admissibilidade a gente viu, de um a um. E agora no ponto 
seguinte, ainda dentro da teoria geral do recurso a gente vai falar do juízo de 
mérito dos recursos. E claro só haverá esse juízo de mérito se passamos da 
admissibilidade, ou seja, se o recurso foi conhecido. O recurso é admissível o 
tribunal vai analisar o mérito e vai decidir se mantém ou não mantém a decisão 
recorrida. 
Quando a gente fala de juízo de mérito, a gente quer saber se afinal o 
tribunal vai reformar a decisão recorrida, vai anular ou não vai anular, vai integrar 
ou não vai integrar ou se vai esclarecer ou não vai esclarecer a decisão recorrida. 
A questão do juízo de mérito é a verificação do que se pede no recurso. É o 
momento em que o tribunal vai decidir se acolhe ou não aquele pedido que você 
formulou quando interpôs aquele recurso. O mérito do recurso não 
necessariamente é o mérito do processo. A gente já falou disso. Por exemplo, 
se a gente está discutindo uma preliminar de ilegitimidade passiva então o mérito 
do recurso é se aquela preliminar deve ou não ser acolhida, mas claro que essa 
preliminar não é o mérito da causa. O mérito da causa ainda não foi julgado. Aqui 
quando falamos de juízo de mérito nos referimos ao mérito do recurso e não 
necessariamente da causa. 
Nós podemos ter dois grandes grupos de causas de pedir recursais. O 
primeiro grupo desses fundamentos que eu posso trazer pro meu recurso é 
aquilo que eu chamo de erros de procedimento ou error in procedendum. 
Quando eu alego um erro de procedimento eu digo que houve um vício 
processual eu digo que houve um equívoco dentro do procedimento processual. 
Por exemplo, quando eu alego cerceamento de defesa, ou seja, que o juiz 
não me permitiu produzir uma prova que teria que ter sido produzida, isso é um 
erro de procedimento. Eu estou dizendo que o juiz deveria ter deferido aquela 
prova. Quando eu alego que a decisão não está fundamentada é um erro de 
procedimento. Eu estou dizendo o seguinte: “O juiz ao proferir sua decisão 
deveria ter fundamentado sua decisão de forma adequada”. Bom, tudo isso, a 
gente reúne sob esse nome: erro de procedimento. 
E normalmente, o erro de procedimento, ele vai conduzir à anulação da 
decisão. Ou seja, ele vai conduzir ao desfazimento daquela decisão recorrida 
para que esse vício de procedimento seja corrigido e, uma vez corrigido, seja 
proferida uma nova decisão. Então, no cerceamento de defesa eu vou anular a 
sentença para produzir a prova que o juiz não permitiu para depois dar uma nova 
sentença. Na decisão não fundamentada, o tribunal vai anular essa decisão, para 
que o juiz profira uma nova decisão, dessa vez bem fundamentada. Então, erro 
de procedimento. 
O outro grupo de argumentos que a gente coloca aqui são os chamados 
erros de julgamento ou error in judicando. No erro de julgamento, o que eu digo 
é o seguinte: “Olha, o que ocorreu foi um problema no momento em que o juiz 
foi apreciar a questão.”. Ou ele apreciou mal a prova, ou ele interpretou errado a 
lei. É um vício não no procedimento que levou àquela decisão, mas um vício 
intrínseco àquela decisão. Um vício na tarefa mesmo de julgar. O juiz 
formalmente foi ok, mas na sua sustância ele julgou mal. Ele não viu que algo 
estava provado. Ele adotou uma interpretação que era contrária à jurisprudência 
sem nenhuma justificativa. 
E os erros de julgamento, normalmente, eles levam a reforma da decisão. 
Ou seja, como o procedimento que levou até aquela decisão está ok, não precisa 
desfazer a decisão, você vai mudá-la para corrigir aquele erro de julgamento. Já 
que o vício foi só intrínseco a decisão, basta mudar a decisão para corrigir o erro 
de julgamento. Então, o juiz que tinha por exemplo julgado improcedente o 
pedido, o pedido vai passar a ser julgado procedente, se for o caso de reforma; 
ou o juiz que tinha dado uma indenização de 20 mil, o tribunal majora pra 50 mil 
– isso é uma outa hipótese de reforma. Por isso, são vícios de julgamento. 
É claro que na pratica embora a gente faça essa separação, é muito 
comum que os recursos tenham as duas causas de pedir ao mesmo tempo. O 
advogado pode alegar por exemplo, cerceamento de defesa, primeira matéria de 
mérito, vamos dizer assim. E em seguida dizer “mas se ainda assim não fosse, 
o juiz interpretou errado a lei”. Então pode pedir no seu recurso, não tem nenhum 
problema, para que o Tribunal anule aquela sentença ou caso assim não se 
entenda, pra que reforme aquela mesma sentença. Então você pode cumular 
pedidos como também pode cumular essas causas de pedir recursais. Tudo 
bem? 
Partindo pro ponto seguinte, vamos falar algo bastante da realidade de 
vocês. Vocês vão entender o porquê. Vamos supor que a Maria cursava a minha 
matéria. E na p1 ela tirou nota 7, e pede revisão de prova, por qualquer razão. E 
aí eu, ao recorrigir a sua prova, eu chego à conclusão de que 7 foi até muito e 
baixo sua nota pra 6. Eu pergunto: eu posso fazer isso? 
Aluno: Não pode como não deve 
Professor: Não posso fazer isso? Por que que eu não posso fazer isso? 
Aluno: Inaudível 
Professor: É, no ordenamento, claro que isso a gente está não falando 
de processo civil, foi apenas um exemplo ilustrativo, mas o ordenamento né de 
processo civil ele proíbe a chamada “reformatio in pejus”. Ou seja, a chamada 
‘reforma para pior”. A reforma para pior seria a pessoa sair ao final do recurso 
pior do queela entrou. Então imagina, o autor foi condenado em R$ 80 mil e 
apela. Só ele apela, o réu não apelou. Aí o Tribunal diz “não, R$ 80 mil foi até 
pouco, agora é R$ 150 mil.”. O Tribunal não pode fazer isso. Isso é uma reforma 
para pior. 
Cuidado, gente, que as vezes acontece de as duas partes recorrerem e 
aí pode acontecer isso. Mas isso não é reforma para pior, é porque o réu também 
apelou. Ai claro, você apelou, você perdeu o seu recurso e a outra parte também 
apelou. Mas aí não é uma reforma para pior isso. Não é algo proibido. O Tribunal 
estará julgando os dois recursos ao mesmo tempo. Reforma para pior, o que é 
proibido é só uma das partes recorrer e no final ela sair pior do que entrou. 
Agora, por que que é proibida a Reformatio in Pejus? 
Aluna: É um desestímulo né. 
Professor: Segurança jurídica, desestímulo. Mas tem uma razão 
fundamental, vamos supor que eu fosse um cara maluco, doido. Então, eu 
interponho uma apelação, eu sou réu, requerendo ao tribunal que aumente a 
condenação contra mim. Esse recurso é admissível? Tem alguma utilidade? 
Não, ele só vai servir para piorar a situação. 
Aluna: Inaudível 
Professor: Ou seja, esse recurso é inútil, não há interesse recursal nele. 
Logo, se nem eu pedindo, eu quero aumentar a minha condenação, isso seria 
possível por falta de interesse recursal, quanto mais o tribunal fazer isso sem 
ninguém ter pedido. É um raciocino lógico, o tribunal não pode fazer reforma 
para pior. Porque isso seria incorrer numa situação de completa incoerência. Se 
a parte não pode fazer isso voluntariamente, o tribunal também não pode fazer 
isso. 
Agora, há uma súmula que é a 45 do STJ, que ela estende esse mesmo 
raciocínio para a chamada remessa necessária, lembram? É aquela situação em 
que a Fazenda Pública era condenada, mesmo sem haver recurso na Fazenda 
Pública, o processo era submetido à segunda instância. Então, essa súmula ela 
diz o seguinte, olha na Remessa Necessária o tribunal não pode piorar a situação 
da Fazenda Pública. Remessa Necessária é para proteger os interesses da 
Fazenda Pública. O Tribunal não pode chegar e falar “não eu estou revendo aqui 
e já vi que a Fazenda Pública perdeu foi de pouco, ela vai tomar mais uma 
condenação aqui, o juiz pegou leve demais”. Não, ele não pode fazer isso. Para 
isso acontecer, o autor, a parte contrária à Fazenda Pública tem que apelar. 
Então, a súmula 45 também estende essa proibição a chamada Remessa 
Necessária. 
Agora, há algumas situações no ordenamento processual, que são uma 
relativização a essa proibição. Não chega a ser uma exceção, mas uma 
relativização. A primeira situação são os chamados honorários recursais, estão 
lá no artigo 85, §11, CPC. O que são os honorários recursais? 
Aluno: Por exemplo, quando tem um perito que é contratado, é o valor 
que a parte perdedora tem que pagar à ganhadora. 
Professor: Você acabou de definir os honorários sucumbenciais, e os 
recursais? 
Aluno: Geralmente é uma majoração dos honorários de sucumbência... 
Professor: Isso, os honorários recursais estão previstos para 
desestimular a interposição de recursos com baixa chance de êxito. E qual é a 
ideia dos honorários recursais? É a seguinte, a parte sofreu condenação de 
honorários de sucumbência 10%. Se ela recorre e perde o recurso - isso só vai 
acontecer se o recorrente pede o recurso - o tribunal, ao julgar esse recurso, vai 
pegar aqueles honorários sucumbenciais de 10% e vai elevá-los. E pode elevar 
até 20%, não significa que é necessariamente 20%, pode elevar a 12%, 14%, 
18% e o limite máximo de 20%. Isso acontece a cada recurso, então por exemplo 
você tem uma sentença de 10% e apelou o tribunal elevou para 14%. E você foi 
para o STJ, perdeu e o STJ elevou para 18%. E se você levar para o Supremo, 
pode ser levado até para 20%. Então, a ideia aqui é justamente inibir. Se você 
não tem reais chances de êxito, melhor sair. “Eu não só não vou conseguir mudar 
a decisão como os honorários sucumbenciais são muito caros”. 
Isso não deixa de ser uma relativização da reformatio in pejus porque, no 
final, você acaba saindo pior do que entrou. Antes você tinha sido condenado a 
pegar R$50.000,00 mais 10% honorários, perdeu o recurso, agora, vai ter que 
pagar mais 14% de honorários. Mas é uma previsão legal expressa que relativiza 
essa reformatio in pejus. 
Agora, o art. 85, §11, que é a previsão desses honorários sucumbenciais, 
ele diz o seguinte: 
Art. 85. A sentença condenará o vencido a pagar 
honorários ao advogado do vencedor. 
(...) 
§ 11. O tribunal, ao julgar recurso, majorará os honorários 
fixados anteriormente levando em conta o trabalho 
adicional realizado em grau recursal, observando, 
conforme o caso, o disposto nos §§ 2º a 6º, sendo vedado 
ao tribunal, no cômputo geral da fixação de honorários 
devidos ao advogado do vencedor, ultrapassar os 
respectivos limites estabelecidos nos §§ 2º e 3º para a fase 
de conhecimento. 
 
Eu chamo a atenção porque ele fala em “majorará”. Só cabem honorários 
recursais se a decisão recorrida arbitrou honorários de sucumbência. Se a 
decisão recorrida não tem honorários de sucumbência, por exemplo, uma 
decisão que só apreciou a liminar, não tem honorários recursais no agravo. O 
Tribunal não está autorizado a criar honorários recursais do nada. Ele apenas 
aumenta os horários sucumbenciais que já foram arbitrados na decisão 
recorrida. 
Essa é a primeira situação da relativização da proibição da reformatio in 
pejus. A segunda situação decorre da aplicação da Teoria da Causa Madura, 
que está no art. 1013, §3º. Vamos supor que o juiz julgou extinto o processo sem 
resolução de mérito por ilegitimidade passiva. Aí o autor apelou, e o Tribunal 
reformou aquela decisão. Afastou, então, a preliminar de ilegitimidade passiva. 
O que acontece no processo depois disso? Normalmente, ele teria que voltar 
para primeira instância para que o juiz, desconsiderando a ilegitimidade passiva, 
porque o Tribunal já afastou, para que se examine o mérito. Só que a causa 
madura possibilita que a gente ganhe tempo. Permite que o Tribunal, se ele 
considerar que já está em condições de examinar o mérito, por isso o nome 
causa madura, ou seja, que não há necessidade de produção de novas provas, 
ele não vai mandar para o 1º grau de volta para o juiz julgar. O próprio Tribunal 
que já está com a mão na massa, vai fazer o exame do mérito. Já afasta a 
preliminar e no mesmo julgamento já examina o mérito da causa. Não é o mérito 
do recurso, é da causa. No mesmo julgamento. 
Aluno: Mas não seria decisão surpresa? 
Professor: Então, depois a gente vai discutir um pouco sobre isso, a 
hipótese do Tribunal achar que tem a possibilidade de ingressar no mérito e 
ninguém se manifestou, ele deve intimar todas as partes. Mas se as partes já se 
manifestaram, aí ele pode julgar. E isso pode, em determinadas situações, 
caracterizar uma reformatio in pejus. Porque o autor que ingressou com a ação 
teve o seu pedido extinto sem a resolução sem resolução de mérito, apelou. Aí 
o Tribunal afasta a preliminar, só que no mérito julga improcedente. No final das 
contas, se vocês forem parar para pensar, o autor saiu um pouquinho pior. 
Porque a improcedência, se aquela decisão não for mudada, vai formar coisa 
julgada material. Ele nunca mais vai poder discutir aquele assunto em uma outra 
demanda. Mas essa outra relativização da vedação à reformatio in pejus. É 
permitida pelo sistema em função da economia processual, da celeridade. 
Aluno: O senhor poderia explicar novamente? 
Professor: Tá, olha só. O autor recorreu de uma sentença que julgou 
extinto por ilegitimidade. Se essa sentença fosse mantida, ele podia ingressar 
com uma nova ação. Um exame novo. Aí o tribunal vai e afasta a preliminar, só 
que no mérito ele julga contrário ao autor. Ele julga improcedente. Se você parar 
para pensar, esse julgamento é pior que o outro, porque se elenão conseguir 
mudar essa decisão, ela vai transitar em julgado, e vai formar coisa julgada 
material. Ou seja, ele não vai poder discutir aquele assunto em nenhuma nova 
demanda. É uma certa forma de reformatio in pejus. Tudo bem, o autor tinha 
perdido nas duas situações, só que agora teve exame do mérito. É uma certa 
reformatio in pejus, mas que é permitida pelo sistema. É permitida pela 
celeridade e economia processual. 
Aluno: Mas é sempre em casos de decisão (...) inaudível. 
Professor: a gente depois vai ver todas as hipóteses, mas essa teoria é 
representada por esta situação. O exemplo da legislação brasileira são os das 
sentenças terminativas. Nós vamos ver outros exemplos quando falarmos de 
apelação. 
Tem uma última relativização, que é o que a gente chama de reformatio 
in pejus indireta. Reformatio in pejus indireta é o seguinte: vamos supor que o 
réu foi condenado a indenizar o autor de danos materiais de R$30.000,00. Aí o 
réu apela alegando cerceamento de defesa. O argumento é o seguinte: ele alega 
que o juiz não permitiu a produção de uma prova pericial que mudaria o resultado 
do processo. O tribunal acolhe essa alegação. Logo, se ele acolhe cerceamento 
de defesa, ele anula a sentença. Anulou a sentença, devolveu para o primeiro 
grau. Na prova pericial começa a caminhar muito mal com o tempo. A prova 
pericial apura que o dano sofrido pelo autor não foi de R$30.000,00, mas 
R$90.000,00. O juiz acolhe, considerando essa perícia e agora a condenação 
fica em R$90.000,00. O juiz pode fazer isso? 
A gente já comentou no semestre passado, e isso até é uma decorrência 
da ideia de comunhão da prova. A prova não é do réu. A prova é do processo, e 
o réu ficou insistindo, mas, no final das contas, saiu muito pior. Paciência, a prova 
é do processo. Essa reformatio in pejus é indireta porque, no fundo, não ocorre 
instantaneamente, ela decorre de uma sentença A, que o Tribunal anula, e vira 
uma sentença B, que é pior ainda para quem tinha recorrido antes. Isso é 
permitido pelo ordenamento jurídico processual civil. O juiz, se ele se 
convenceu, na segunda vez na sentença, de que a situação do réu é ainda pior, 
ele vai julgar assim. Ele não está limitado pela primeira sentença que tinha sido 
anulada. 
Essa proibição da reformatio in pejus indireta, ela só existe no processo 
penal. Lá no processo penal, sim, se o acusado é condenado a uma pena, e 
depois ele consegue anular essa sentença, o juiz não pode dar uma nova 
sentença que seja pior ainda. Mas isso é lá no processo penal. Aqui no processo 
civil, não. Essa reformatio in pejus indireta – porque aqui não está em jogo a 
liberdade do réu – essa reformatio in pejus indireta é admitida. Então, é uma 
terceira relativização a essa proibição da reformatio in pejus. Agora, tudo ou um 
mais, assim, né, fora essas exceções, o juiz está proibido de piorar a situação 
do recorrente, se não houver um outro recurso da parte contrária. 
Aluno: Essa reformatio in pejus indireta, ela é só em caso de prova? 
Professor: Não, não é só em caso de prova, mas em caso de prova talvez 
seja o exame mais didático. Pode ser, por exemplo, uma outra forma de 
fundamentação. O juiz, na segunda sentença, pode piorar a situação. Pode 
acontecer isso. Em caso de prova isso seja mais evidente, mas isso pode 
acontecer. 
Aluno: É só com a anulação de sentença? 
Professor: Só. A indireta, sim, porque a indireta pressupõe você dar uma 
segunda sentença que era pior do que a primeira que foi anulada. É só nessa 
situação. 
Aluno: (Inaudível). 
Professor: A causa madura, ela... qual que é a diferença de uma para a 
outra? Na causa madura o Tribunal ia invalidar a sentença, mas não invalida 
porque já está em condições de examinar o mérito. Então, não há anulação. 
Nesse meu exemplo houve anulação, então, uma situação é diferente da outra 
justamente por isso. Em um caso não há anulação, embora pudesse ter havido, 
mas a causa madura salvou; e na outra houve efetivamente anulação e uma 
segunda sentença que é pior que a anulada. Tá bom? 
Bom, visto isso, a gente entra num outro ponto, ainda dentro da teoria 
geral. Nesse ponto a gente vai só começar a falar hoje, que são os efeitos dos 
recursos. A interposição de um recurso produz vários efeitos no processo. E 
agora a gente vai ver um a um quais são esses efeitos. 
O primeiro efeito que qualquer recurso produz é o de impedir o trânsito 
em julgado. Ele impede que transite em julgado a decisão recorrida. E todos os 
recursos produzem esse efeito, claro, desde que o recurso seja admissível. Se 
a apelação foi interposta no 18º dia, o trânsito já ocorreu ao final dos 15 dias, 
não é a apelação interposta no 18º dia que vai impedir o trânsito. Se você 
interpôs um recurso que não era cabível, não é isso que vai impedir o trânsito 
em julgado. Mas qualquer recurso que seja admissível, uma apelação, agravo, 
embargos de declaração, o que quer que seja, todos eles impedem o trânsito em 
julgado. 
Um outro efeito, esse efeito bastante conhecido, é o chamado efeito 
devolutivo. Esse também é o efeito que todos os recursos produzem. O que é 
efeito devolutivo? 
Aluno: Mandar para a primeira instância? 
Professor: Mandar para a primeira instância? Não, não. Você deve ter 
pensado em efeito devolutivo como em devolver. A gente vai falar porque esse 
nome devolutivo. Devolutivo, o nome devolutivo, significa provocar um reexame 
da decisão recorrida. 
Como a gente já falou na definição do recurso, quando a gente conceituou 
o recurso, que eles consistem em um meio voluntário para provocar um reexame 
da decisão recorrida. Então, é claro que todos os recursos tem esse efeito. Todo 
recurso implica em um reexame daquela decisão, em maior ou menor extensão, 
mas todo recurso implica em um reexame daquela matéria recorrida. 
Então, no fundo, o efeito devolutivo significa, se eu estou pensando em 
recurso no tribunal, fazer a matéria subir para o tribunal. Aí você vai me 
perguntar, por que esse nome “devolutivo”, está devolvendo o que? É porque a 
gente fala, “esse recurso devolveu a matéria para o tribunal”, a gente usas essa 
expressão. Devolver o que? A razão desse nome, ela não parece fazer muito 
sentido, ela é histórica. Ela remonta ao tempo do estado absolutista. 
No estado absolutista, o rei tinha com ele todos os poderes, inclusive o de 
julgar todos os conflitos que ocorriam no reino. Só que, o que acontecia? É claro, 
o rei tem mais o que fazer que ficar julgado briga de vizinho. Então, ele delegava 
esses poderes para determinados funcionários da coroa. Esses caras que 
apreciavam os conflitos. Só que, em determinadas situações, por razões de 
justiça, de clemência ou qualquer que seja, os súditos podiam pedir que aquela 
decisão fosse reexaminada pelo rei. E o recurso fazia com que aquele poder que 
tinha sido delegado para o funcionário fosse devolvido para o rei. 
Por isso, efeito devolutivo. Claro que hoje não faz sentido a gente falar 
“efeito devolutivo”, mas ainda hoje, a gente se refere, mesmo hoje em dia, a 
gente fala que o recurso devolveu a matéria para o tribunal. Quando a gente fala 
que o recurso devolveu a matéria para o tribunal, quer dizer que ele provocou o 
reexame dessa matéria pelo tribunal. 
Esse efeito devolutivo tem duas dimensões. Tem a dimensão horizontal e 
a dimensão vertical. Na dimensão horizontal, o que eu quero saber é: afinal, 
quais são os capítulos impugnados. 
Vocês se lembram, quando a gente comentou aquela classificação de 
recurso, total e parcial, a gente falou: o recurso parcial é aquele que não inclui 
todos os capítulos que poderiam ser atacados. Em outros termos, o recurso 
parcial é aquele cujo efeito devolutivo não atinge todos os capítulos que 
poderiam ser reexaminados. Então, o efeito devolutivo nessa dimensão, 
horizontal, quando eu falo dos capítulos, ele é delimitado pela parte. O recorrente 
é que vai delimitar em seu recursose esse recurso ataca todos os capítulos ou 
não ataca todos os capítulos. É uma escolha do recorrente. Então, esse efeito 
devolutivo horizontal, a amplitude dele, vai depender dos capítulos que foram 
atacados na Apelação, por exemplo. É o recorrente que escolhe. 
É importante e já comentamos isso aqui. Capítulo não impugnado não 
pode ser reexaminado pelo tribunal, porque o efeito devolutivo não atinge esse 
capítulo que não foi impugnado. Ainda que o tribunal veja “ah em matéria de 
ordem pública” não interessa. Capítulo não impugnado não pode. 
Antes de falar na dimensão vertical, tem uma expressão latina para se 
referir a esse efeito devolutivo nessa dimensão horizontal, que é o “Tantum 
devolutum quantum appellatum”, ou seja, o efeito devolutivo nos limites da 
questão apelada. 
Agora, nessa dimensão vertical, o que eu quero saber é: quais matérias 
serão reexaminadas dentro desse capítulo impugnado? O que eu quero saber 
aqui, é o seguinte: quais os fundamentos que o tribunal vai reexaminar quando, 
por exemplo, a gente estiver revendo indenizações por danos morais? Ele pode 
rever questões de fato? Ele pode rever questões de direito? Ele pode rever 
prescrição? Ele pode rever até condições da ação? O que ele pode rever dentro 
desse capítulo comum? Esse efeito devolutivo vertical, ao contrário do 
horizontal, ele, não pode ser limitado pela parte. Por exemplo, você tem 
condições da ação, você não pode proibir o tribunal de, dentro daquele capítulo 
que você impugnou, de não rever condição da ação, não tem como impedir, é 
matéria de ordem pública. 
Então, a parte consegue limitar o efeito devolutivo dentro dessa dimensão, 
quais capítulos, mas uma vez que limitou “ah eu quero rever dano moral e 
material”, os fundamentos, as questões que serão reexaminadas pelo tribunal, o 
recorrente não consegue limitar. Por que? Porque o ordenamento jurídico vai 
estabelecer várias questões que o tribunal pode examinar até de ofício. 
Sobre o efeito devolutivo horizontal, nós temos o art. 1013, caput, CPC, 
que diz: 
 
Art. 1.013. A apelação devolverá ao tribunal o 
conhecimento da matéria impugnada. 
 
 Esse dispositivo é aplicado a todos os recursos. E quando for pro efeito 
devolutivo vertical nós temos o artigo 1013, §§ 1º e 2º, CPC. Esses parágrafos, 
eles merecem uma atenção mais detalhada para a gente saber quais são as 
matérias que o tribunal vai poder reexaminar no julgamento de um recurso. Isso 
eu deixo para a próxima aula.

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