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PROJETOS INTERDISCIPLINARES ENTRE HISTÓRIA E GEOGRAFIA AULA 4 Prof. Alexandre Olsemann 2 CONVERSA INICIAL Para dar continuidade ao processo de interdisciplinaridade entre Geografia e História, precisamos primeiro entender um pouco mais sobre a própria disciplina de Geografia. Na aula de hoje, vamos estudar os estudos geográficos, assim como os conceitos espaciais, de modo a esclarecer o objeto de estudo dessa área do conhecimento, traçando uma relação com a prática de ensino. Durante a aula, também abordaremos os conceitos básicos de representação e orientação espacial, seguindo com os estudos do meio, que é um método interdisciplinar, em que os alunos interagem com outros ambientes ao deixarem a sala de aula. Por fim, vamos apresentar o documento Base Nacional Comum Curricular, que irá nortear os processos de construção de aprendizagens em todo o país, aplicado à disciplina de Geografia e às demais áreas do conhecimento. TEMA 1 – INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS GEOGRÁFICOS O significado da palavra geografia vem das palavras gregas geo, que significa “terra”, e grafos, que significa “escrever”. Ou seja, a geografia é o estudo da superfície da Terra. Esses estudos reúnem os conhecimentos sobre a variação espacial dos efeitos físicos, biológicos e humanos que acontecem na superfície do globo terrestre. A disciplina de Geografia pode abranger também o estudo de uma civilização habitante em uma determinada área da Terra, assim como a relação entre o ser humano e o ambiente, tendo como resultado o espaço geográfico. O espaço geográfico é o principal objeto de estudo da Geografia. É o estudo sobre os resultados da atividade humana e as consequentes alterações da natureza relacionadas a tais atividades. Segundo o geógrafo brasileiro Milton Santos, podemos considerar o espaço geográfico como um sistema articulado de ações e objetos, sendo os objetos tudo aquilo que está fixo em um local, como construções ou o relevo, enquanto as ações estão relacionadas à interferência humana sobre os objetos. marjo Realce marjo Realce 3 A história do pensamento geográfico já tem uma longa caminhada, tendo início com os gregos na antiguidade. Heródoto e Eratóstenes apresentavam estudos sobre a dinâmica dos fenômenos naturais e a descrição das paisagens. Já na modernidade, o filósofo Immanuel Kant traz a sistematização dos conceitos sobre o espaço. Ainda na modernidade, surge a sistematização dos fundamentos teórico-metodológicos, concedendo à geografia um aspecto mais científico, a partir de conceito apresentado por Humboldt e Ritter, considerados os pais da geografia. A área do conhecimento geografia, como ciência, apresenta a geografia teorética-nova, em que são utilizados métodos matemáticos e estatísticos para estudos do espaço geográfico. Nesse contexto, surgem novas maneiras de estudo, como o que é feito, por exemplo, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Há ainda outras correntes da geografia, como a geografia crítica, que traz temas como as desigualdades e o desenvolvimento dos países. Também temos a geografia humanística, que analisa as experiências do indivíduo e a valorização do lugar. A geografia ambiental é outra importante corrente, e trata sobre as interações entre os seres humanos e o mundo natural. TEMA 2 – CONCEITOS ESPACIAIS O espaço geográfico é toda a área utilizada e transformada por atividades humanas. Atualmente, o espaço geográfico é o principal tema de estudos da geografia. Existem quatro principais espaços geográficos dentro desse conceito: paisagem, lugar, região e território. A seguir, vamos entender um pouco mais sobre cada uma dessas categorias. A paisagem se refere ao ambiente que as pessoas conseguem sentir, incluindo todos os sentidos, e não só a visão. As paisagens podem ser divididas em duas classes: naturais e as humanizadas. Enquanto as paisagens humanizadas trazem elementos e aspectos da humanidade, as naturais se referem à natureza, como um rio ou uma cachoeira. O lugar é definido como o espaço percebido, ou seja, como as pessoas entendem uma área ou ponto do espaço. Um mesmo lugar pode ter diferentes definições, considerando que cada indivíduo tem sua própria visão de mundo. Logo, para uma determinada pessoa, uma rua ou praça pode ser caracterizada de uma forma diferente, com certa familiaridade peculiar. marjo Realce marjo Realce marjo Realce marjo Realce marjo Realce marjo Realce marjo Realce 4 A região é uma área da superfície terrestre que obedece a critérios específicos. Tem uma extensão variável e apresenta características similares e específicas, que as diferenciam das demais. Uma região pode ser dividida em uma área através de suas práticas culturais, por suas diferentes paisagens naturais, entre outros critérios. Um território é definido como um espaço delimitado. Tal delimitação ocorre através de fronteiras, sejam naturais ou criadas pelo homem. Um exemplo é o espaço de um país, estabelecido pelas relações de poder – neste caso, o poder do Estado. Tal conceito também se aplica a situações menores, como o território de traficantes em uma favela, onde o poder se dá através da violência. TEMA 3 – NOÇÕES DE REPRESENTAÇÃO E ORIENTAÇÃO ESPACIAL Para o adequado desenvolvimento da aprendizagem do aluno, principalmente no trabalho com a educação infantil, é importante transmitirmos noções e orientações básicas espaciais, sempre respeitando a faixa etária e o momento de aprendizagem dos alunos. Uma boa maneira de iniciar esse processo é realizando práticas que utilizem o próprio corpo da criança como meio de experimento, estimulando a aprendizagem, como a identificação de qual é o braço direito ou qual é a perna esquerda, e assim por diante, exercitando conhecimentos de forma lúdica e prática. No início da vida escolar, as práticas de aprendizagens podem ocorrer através de jogos ou brincadeiras, em que a criança desenvolve uma noção sobre o próprio corpo, conseguindo se orientar sobre sua posição no espaço, além de desenvolver e internalizar conceitos importantes, de forma divertida e significativa. Ainda através de jogos, é possível trabalhar as noções de localização, ao realizar atividades em que ela precise identificar a posição de determinados lugares para se orientar. Por exemplo, ao criarmos uma brincadeira em que o aluno precisa encontrar um objeto através de um mapa do tesouro, cria-se um universo de possibilidades, com a ideia de mediar, mas deixando a criatividade tomar conta. Existem várias maneiras de nos orientarmos quanto à nossa localização. A orientação pelo sol é o instrumento mais antigo da humanidade. É possível demonstrar esse conceito ao aluno com um exercício simples. Ao apontarmos a mão direita na direção do nascer do sol, temos: à direita leste, à esquerda oeste, marjo Realce marjo Realce marjo Realce marjo Realce 5 à nossa frente norte e atrás sul. Este é um exercício simples de introdução para o desenvolvimento da orientação espacial. Muitas vezes, é preciso simplificar para obter resultados significativos. A bússola é outro exemplo de instrumento de orientação. A ponta da sua agulha aponta para o polo norte magnético do planeta. Ainda sobre instrumentos de orientação, temos o GPS, que é tecnologia de localização por satélite. Tanto a bússola quanto o GPS podem ser utilizados dentro da sala de aula, dependendo da faixa etária atendida. Assim, cabe ao professor criar práticas atrativas que interessem aos alunos, adequando-as ao momento de aprendizagem. Figura 1 – Bússola Créditos: Alex Staroseltsev/Shutterstock. Figura 2 – Esquema de navegação por GPS Créditos: Aleksorel/Shutterstock 6 Símbolos são fundamentais para a localização espacial. Em um mapa, muitas informações são dadaspor meio de símbolos, como a representação de uma floresta ou um rio. A legenda também tem uma grande importância para transmitir essas informações, trazendo uma compreensão mais clara do mapa. Figura 3 – Mapa da África Créditos: Peter Hermes Furian/Shutterstock. Um mapa pode ser trabalhado desde as séries iniciais até o término da vida escolar. As possibilidades são inúmeras. TEMA 4 – OS ESTUDOS DO MEIO Estudos do meio nada mais é do que um método de ensino interdisciplinar que tem como finalidade proporcionar aos alunos e ao professor um contato mais próximo com certa realidade, um certo qualquer, rural ou urbano, que seja o objeto de estudo desses alunos. Ao levar os estudantes para o ambiente, o marjo Realce 7 professor oportuniza uma maior imersão dos alunos. Essa é uma atividade pedagógica que possibilita um entendimento melhor do meio, com a construção de novos conhecimentos. Para tudo o que temos oportunidade de visualizar, sentir, ouvir, usamos nossos sentidos; com essa interação, há mais facilidade para se compreender e internalizar o conteúdo. Ao pensarmos nesses estudos pela perspectiva interdisciplinar, podemos trazer uma ou mais disciplinas para o contexto do meio a ser pesquisado realizando a interdisciplinaridade. Dessa forma, é possível criar, também, correlações de questões naturais, humanas e econômicas com a realidade dos estudantes. Ao realizar essas aulas de campo, o professor proporciona uma vivência educativa para além dos muros escolares. Toda experiência que os alunos adquirem ao realizar essa atividade traz um significado às aprendizagens, sem contar o benefício do entusiasmo, pois essa prática tira o estudante da rotina escolar, o que normalmente é visto com bons olhos pelos alunos. Outro aspecto positivo dos estudos do meio é a aproximação da escola com a comunidade. Ao realizar visitas pelo bairro, os moradores, que normalmente são pais ou parentes dos alunos, têm contato com o ensino dos estudantes, interagindo e acompanhando as atividades e, de certa forma, contribuindo para o processo de ensino. TEMA 5 – A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR E A DISCIPLINA DE GEOGRAFIA A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento norteador das aprendizagens em nosso país, estabelece competências, conhecimentos e habilidades a serem transmitidos aos estudantes. Traz princípios para o desenvolvimento do aluno como um cidadão, direcionando para uma formação humana integral, pautada em conceitos voltados à construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. A base traz cinco áreas do conhecimento que precisam ser trabalhadas durante a formação do estudante: • ciências da natureza • ciências humanas • linguagens marjo Realce marjo Realce 8 • matemática • ensino religioso As ciências humanas precisam auxiliar o aluno a desenvolver noções de tempo e espaço. Dentro dessa área, estão a história e a geografia. A BNCC está embasada em conceitos atuais da geografia, organizados por níveis de complexidade. A geografia contribui para que o aluno compreenda e interprete o mundo em que vive. Essa análise é referente tanto à paisagem quanto às pessoas e relações com esse lugar; dessa forma, é possível que ele crie uma denotação de vínculo (sentimental/emocional, por vezes). Lugar, em geografia, é um ambiente que tem relação com valores de pertencimento – é, por exemplo, o local de nascimento e criação, que criou um vínculo para determinada pessoa, se tornando um espaço e também um vínculo de identidade. Ao criar a consciência de que somos sujeitos da história, distintos uns dos outros, o aluno aprende que existem diferenças entre povos e culturas, contribuindo assim para a formação de sua identidade cultural. Trabalhando os temas apresentados pela BNCC, o aluno desenvolve raciocínio geográfico, o que o ajuda a entender melhor como ocorrem os fenômenos e suas interações. Outro ponto que o raciocino geográfico traz é a compreensão do espaço, identificando-se a sua extensão e localização. A BNCC traz uma nova perspectiva paro o ensino de Geografia e para as ademais áreas do conhecimento, enfocando a realidade de vida dos alunos, com conceitos fundamentais para o desenvolvimento integral dos alunos, buscando sempre formar um sujeito transformador da sua própria realidade e da realidade que o circunda. NA PRÁTICA O raciocínio geográfico permite ao aluno entender melhor o mundo, a vida e o cotidiano. A Base Nacional Comum Curricular estabelece os princípios que os estudantes precisam para desenvolver esse raciocínio. Ao observar os fenômenos com essa perspectiva, o aluno compreende melhor o que está acontecendo ao seu redor. Por exemplo, ao observar um desmoronamento de terra, ele vai procurar entender o que causou aquilo, pensando nas relações desse fenômeno com a sua localização e com as condições geográficas. Para trazer esses raciocínios para a sala de aula, o professor precisa desenvolver atividades que estimulem as noções espaciais dos alunos. Um marjo Realce marjo Realce marjo Realce marjo Realce 9 exemplo prático é trabalhar com um mapa conceitual. Os alunos devem montar esse mapa a partir de conceitos espaciais, trazendo as noções de paisagem, lugar, território e região. Por meio de imagens, é possível associar os diferentes espaços geográficos com seu significado. A demonstração visual auxilia os alunos a desenvolverem uma noção espacial e a compreenderem melhor os conceitos apresentados. A tarefa prática desafiadora da aula de hoje é, assim, montar um mapa conceitual utilizando os conceitos espaciais vistos durante a aula. Realize a atividade usando os cinco conceitos trabalhados, fazendo uma relação entre eles. Você deve usar conectores de modo a complementar a tarefa o melhor possível. A atividade envolve também a utilização de imagens e a sua descrição, representando o conceito apresentado. FINALIZANDO Nesta aula, pudemos inferir que o espaço geográfico é o principal objeto de estudo da geografia. Tal estudo está relacionado com as consequências da ocupação humana em uma área. Dentro desse conceito, temos paisagens, lugares, regiões e territórios; com isso, vamos nos familiarizando com o objeto de estudo da área do conhecimento de geografia. Também fomos apresentados a alguns conceitos para podermos entender a dinâmica da disciplina, como os estudos referentes ao meio. Observe que tais vieses apresentam um caráter interdisciplinar, proporcionando aos alunos um contato mais próximo com a realidade do objeto de estudo. No fim, fomos apresentados à Base Nacional Comum Curricular, e sua proposta para o ensino da geografia. A BNCC estabelece as competências e conhecimentos que devem ser desenvolvidos nas instituições de ensino, para oportunizar aos alunos uma formação integral, na sua totalidade, pensando no sujeito cidadão. 10 REFERÊNCIAS CAVALCANTI, L. de S. Geografia, escola e construção de conhecimentos. 18 ed. Campinas: Papirus, 2011. COSTA, F. R. da; ROCHA, M. M. 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