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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS 
ESCOLA DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES E HUMANIDADES 
LICENCIATURA EM HISTÓRIA 
 
 
 
AS CONTROVÉRSIAS DE GALILEU GALILEI PELA AUTONOMIA DA 
CIÊNCIA (1610-1616) 
 
 
 
CAIO BISMARCK SILVA XAVIER 
 
 
 
 
Goiânia, 
2018 
 
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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS 
ESCOLA DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES E HUMANIDADES 
LICENCIATURA EM HISTÓRIA 
 
 
 
AS CONTROVÉRSIAS DE GALILEU GALILEI PELA AUTONOMIA DA 
CIÊNCIA (1610-1616) 
 
 
 
 
CAIO BISMARCK SILVA XAVIER 
 
 
Monografia apresentada à Banca Examinadora 
da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, 
como exigência para a obtenção da graduação 
em História sob a orientação do Prof. Me. 
Leandro Alves Martins de Menezes. 
 
 
Goiânia, 
 2018 
 
3 
AGRADECIMENTOS 
 
Agradeço primeiramente aos meus pais, Isione e Enoque, sem os quais eu não 
teria tido a oportunidade de entrar na universidade. Agradeço ao meu orientador, 
Leandro Menezes, pelas dicas e por aguentar minhas tardanças. Agradeço aos 
professores de História da PUC, por ter me introduzido no ensino desta ciência. 
Agradeço aos professores de Filosofia da UFG, por ter me introduzido no ensino deste 
saber. Agradeço a minha estrela secreta, Maria, pelo amor e carinho. Por ser meu alento. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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RESUMO 
Esta monografia é uma pesquisa em que procuro historiar, de um ponto de vista 
filosófico, os eventos na história moderna que provocam a controversa desvinculação da 
ciência com a teologia. Considerando isso, tomo como hipótese de trabalho o critério de 
possibilidade da ciência estabelecido por Galileu como “experiências sensatas e 
demonstrações necessárias”, sobre o qual a reivindicação de Galileu pela autonomia da 
ciência se sustenta. Este critério, que pode se chamar ‘critério especial’, é introduzido 
por Galileu em sua Carta a Castelli, para argumentar que tal critério é uma condição 
sine qua non para a ciência, o que a faz ser autossuficiente, e consequentemente, ser 
autônoma. Argumento que o significado deste critério se baseia em um pressuposto 
tripartite (lógico, epistemológico e ontológico), a partir do qual é possível avaliar em 
que medida este critério especial sustenta a autossuficiência da ciência e, 
consequentemente, o direito à autonomia, e como ele expressa a Revolução Científica 
dos séculos XVI-XVII. Não obstante, minha narrativa se situa dentro do recorte 
temporal de 1610 até 1616, intervalo que é delimitado pela publicação do Sidereus 
Nuncius e pelo decreto de condenação do Copernicanismo, sendo este último, o 
desfecho da polêmica teológica-cosmológica, que se inicia com a Carta a Castelli, em 
1613. Mostrarei que a intervenção do cardeal Bellarmino na controvérsia copernicana 
demonstra o veredito instrumentalista determinante na relação entre ciência e teologia. 
Palavras-chave: autonomia da ciência; autossuficiência da ciência; copernicanismo; 
cosmologia; polêmica teológica-cosmológica. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
5 
ABSTRACT 
This monograph is a research in which I quest to narrate, from a philosophical point of 
view, the events in modern history that lead to the controversial disconnection of 
science from theology. Considering this, I take as a working hypothesis the criterion of 
the possibility of science established by Galileo as “sensible experiments and necessary 
demonstrations”, on which Galileo's claim for the autonomy of science rests. This 
criterion, which may be called a 'special criterion', is introduced by Galileo in his Letter 
to Castelli, to argue that such a criterion is a sine qua non condition for science, which 
makes it self-sufficient, and consequently autonomous. I argue that the meaning of this 
criterion is based on a tripartite assumption (logical, epistemological and ontological), 
from which it is possible to assess to what extent this special criterion supports the self-
sufficiency of science and, consequently, the right to autonomy, and how it expresses 
the Scientific Revolution of the 16th-17th centuries. Nevertheless, my narrative lies 
within the time frame from 1610 to 1616, a range that is delimited by the publication of 
the Sidereus Nuncius and the decree of condemnation of Copernicanism, the latter being 
the outcome of the theological-cosmological polemic, beginning with the Letter to 
Castelli in 1613. I will show that Cardinal Bellarmino's intervention in the Copernican 
controversy demonstrates the instrumentalist verdict determining the relationship 
between science and theology. 
Keywords: autonomy of science; self-sufficiency of science; Copernicanism; 
cosmology; theological-cosmological controversy. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
6 
 
 SUMÁRIO 
 
Introdução __________________________________________________________7 
 
1. A gênese da polêmica teológica-cosmológica ____________________________11 
1.1. O Sidereus Nuncius e seus propósitos ________________________________12 
1.2. O espectro da autonomia da ciência na propaganda de Galileu___________18 
1.3. O significado da “mensagem das estrelas” ____________________________38 
 
2. O núcleo da polêmica teológica-cosmológica ____________________________40 
2.1. A autonomia da ciência na Carta a Castelli____________________________43 
2.2. A semântica do critério de “experiências sensatas e demonstrações 
necessárias”_________________________________________________________57 
 
3. A intervenção de Bellarmino_________________________________________82 
3.1. O problema do instrumentalismo na carta de Bellarmino a Foscarini _____83 
3.2. A censura do Copernicanismo ______________________________________ 91 
 
Considerações finais__________________________________________________95 
 
Referências ________________________________________________________100 
 
 
7 
Introdução 
 O problema que procuro responder neste trabalho é: qual é o momento e quais 
são os eventos que provocam a desvinculação da teologia pela ciência moderna? 
Contudo, deste problema se desdobram outros, a saber, como essa desvinculação 
ocorreu? Em que medida essa desvinculação ocorreu de fato? Quantas temporalidades 
estão relacionadas a essa desvinculação? Quais são os critérios que decidem acerca 
desta desvinculação? Qual o modo de operar desta desvinculação? 
O pleito de autonomia da ciência em Galileu é o que produz a polêmica 
teológica-cosmológica. Esta polêmica se caracteriza justamente pelo problema da 
desvinculação da teologia pela ciência. Expressa pelas chamadas epístolas copernicanas, 
tal polêmica é fundamental para que se possa compreender a marcante tentativa resoluta 
de alguém de separar a ciência daquilo cuja competência não era adequada para julgá-la, 
a saber, as Escrituras. 
Tal polêmica é inaugurada com a carta de Galilleu ao padre Benedetto Castelli. 
E se encerra com a carta do cardeal Roberto Bellarmino ao carmelita Antonio Foscarini. 
Sendo esta última carta, a preparação para a promulgação do famoso decreto de 1616, 
publicado pela Sagrada Congregação do Índice, através do qual o Copernicanismo foi 
condenado, e toda ciência envolvida com ele submetida ao princípio de autoridade 
teológico. No entanto, isso é trabalho para o terceiro capítulo desta monografia. 
Primordialmente, é necessário entendermos a gênese dessa polêmica. O que só é 
possível mediante a análise dos seus antecedentes e a conexão que eles possuem entre 
si. Imediatamente anterior à polêmica teológica-cosmológica é a polêmica de Galileu 
sobre as manchas solares de 1612. Contudo, recuar um pouco mais se faz necessário 
para entender a própria gênese da autonomia da ciência. 
 Tendo em vista que Galileu era copernicano e que a autonomia da ciência foi 
reivindicada em funçãojá haviam publicado algo sobre 
este brilho secundário da lua, de modo que 
é possível que Galileu não estivesse a par de que um século antes já Leonardo 
da Vinci havia sugerido uma tal explicação, num dos seus apontamentos 
manuscritos, mas sabia certamente que Michael Maestlin (1550-1631), na sua 
Disputatio de eclipsibus solis et lunae (Tübingen, 1596), já tratara do 
assunto, e que Kepler já dera uma explicação completa do fenômeno na sua 
Optica (1604) (LEITÃO, int., p. 65-6, in: GALILEI, 2010). 
Mas conforme a própria ressalva de Leitão, a relevância da explicação de 
Galileu, na medida em que “revela uma simetria entre a Lua e a Terra, servia como um 
das indicações mais convincentes a favor do estatuto planetário da Terra, isto é do 
 
38 “Cum itaque eiusmodi secundarius fulgor, nec Lunæ sit congenitus, atque proprius, nec à Stellis vllis, 
nec à Sole mutuatus, cumq; iam in Mundi vastitate corpus aliud superfit nullu, nisi sola Tellus; quid 
quæso opinandum? [...] æqua grataque permutatione rependit Tellus parem illuminationem ipsi Lunæ, 
qualem & ipsa à Luna in profundioribus noctis tenebris toto ferè tempore recipit.” (Ibid.) 
39
 “Dum enim Luna sub Sole circa coniunctiones reperitur, superficien terrestres emispherij Soli expositi, 
viuidisque radijs illustrati integram respicit, reflexumque ab ipsa lumen concipit: ac proide ex tali 
reflexione inferius emisphærium Lunæ, licet Solari lumine destitutum, non modicè lucens apparet.” 
(Ibid.) 
 
29 
copernicanismo” (LEITÃO, int., p. 66, in: GALILEI, 2010). Saliente-se ainda que, ser 
bem sucedido no estabelecimento da familiaridade entre Terra e Lua significava para 
Galileu mais que explicar satisfatoriamente tais fenômenos lunares, mas, sobretudo, se 
posicionar a favor do copernicanismo e ter a sustentação necessária para engendrar sua 
campanha por tal doutrina. A seguir temos um trecho no qual Galileu faz referência 
explícita ao caráter planetário da Terra e a falsidade da cosmologia vigente: 
Diremos mais no nosso Sistema do Mundo, onde, com muitos argumentos e 
experiências, demonstraremos a reflexão muito forte da luz solar pela Terra 
àqueles que defendem que a Terra deve ser excluída da dança das estrelas, 
especialmente porque não tem movimento nem luz. Mostraremos, pois, que 
ela é [um astro] errante e que ultrapassa a Lua em brilho, e que não é a lixeira 
da porcaria e detritos do universo, e confirmaremos isto com inumeráveis 
argumentos a partir da natureza (GALILEI, 2010, p. 173).40 
Aqui, depara-se com a referência ao livro que Galileu pretendia escrever já em 
1610, a saber, o Dialogo, que só seria publicado em 1632, sendo o golpe mais forte de 
Galileu na cosmologia tradicional. É nesta obra que Galileu condensou toda a campanha 
do copernicanismo que inicia com o Sidereus Nuncius. Por conseguinte, ao falar da 
exclusão da Terra da “dança das estrelas”, Galileu denota o posicionamento 
geocêntrico, para o qual a Terra não é uma estrela errante, isto é, um planeta. Sendo o 
que Galileu quer demonstrar o contrário, o fazendo pela identificação da Terra com a 
Lua, pelo menos em natureza. 
Por outro lado, quando Galileu fala sobre a “Terra não ser a lixeira da porcaria e 
detritos do universo”, ele critica outro significado da cosmologia geocêntrica. Segundo 
Leitão, “a posição da Terra no geocentrismo, no centro do mundo, sempre foi 
considerada como a mais ignóbil. O centro era também ‘o fundo’, o ‘em baixo’. Foi o 
heliocentrismo copernicano que elevou a Terra e o homem a uma nova dignidade” 
(LEITÃO, nota 64, p. 219, in: GALILEI, 2010). Vale ressaltar que, ainda conforme 
Leitão, “a ideia de que, com o heliocentrismo, a Terra teria sido afastada de uma 
posição privilegiada no centro do Mundo e, portanto, menorizada, é um dos clichês 
herdados do Iluminismo” (LEITÃO, nota 64, p. 219, in: GALILEI, 2010). Assim, ao 
contrário do que os iluministas no século XVIII pensavam, em uma perspectiva 
cosmológica, estar no centro do mundo no século XVII não era privilégio algum, mas 
 
40 “[...] susius enim in nostro Systemate Mundi; vbi complurimis & rationibus, & experimentis 
validíssima Solaris luminis è Terra reflexio ostenditur illis, qui eam à Stellarum corea arcendam esse 
iactitant, ex eo potissimum, quòd à motu, & à lumine fit vacua: vagam enim illam, ac Lunam splendore 
superantem, non autem sordium, mundanarumque fecum sentinam, esse demonstrabimus, & naturalibus 
quoque rationibus sexcentis confirmabimus.” (Ibid.) 
 
30 
sim, estar no lugar mais baixo e inferior. Não há dúvidas de que esta concepção da 
inferioridade do centro era sustentada, sobretudo, pela física aristotélica, a qual era 
qualitativista, onde os corpos possuíam lugares naturais nos quais permaneceriam e 
tendiam a voltar, caso fossem submetidos ao movimento violento. Paradoxalmente, na 
cultura remanescente41 do humanismo renascentista, o homem no centro do mundo não 
significava estar no centro literalmente, mas em movimento ao “redor” do centro. 
Doravante, o que se segue é a parte final da minha análise do Sidereus Nuncius, 
na qual farei a exposição dos enunciados e argumentos de Galileu sobre as observações 
das estrelas fixas, das nebulosas, dos satélites de Júpiter e por fim das próprias 
considerações finais de Galileu sobre sua obra, para que eu possa esclarecer o 
significado desta para a polêmica teológica-cosmológica, em específico, e para história 
da ciência, no geral. 
Dando continuidade, após a explicação do fenômeno da reflexão da luz solar 
pela Terra, Galileu trata do fenômeno da aparência diminuta das estrelas fixas, o que já 
expus anteriormente nesta monografia. Dado, então, que já fiz a análise desta 
explicação, passo adiante para outras considerações de Galileu sobre as estrelas fixas. 
De acordo com (LEITÃO, int., p. 68, in: GALILEI, 2010), em relação às estrelas 
fixas, “no Sidereus Nuncius, Galileu referiu-se apenas às suas observações da 
constelação de Orion e das Plêiades”42. E assim, com base na observação pelo 
telescópio, Galileu escreve: 
Com a luneta poderá ver-se uma tal multidão de outras estrelas abaixo da 
sexta grandeza, que escapam à vista desarmada, tão numerosa que é quase 
inacreditável, pois podem observar-se mais do que seis outras ordens de 
grandeza (GALILEI, 2010, p. 175).43 
Aqui temos novamente a referência à virtude do telescópio: poder enxergar o 
que a “vista desarmada” não consegue, isto é, a visão natural, que no caso, não é capaz 
de oferecer ao observador a gigantesca quantidade de estrelas que existem para além das 
 
41 No século XVII, temos o período no qual a concepção humanista do mundo dá lugar ao racionalismo 
da Revolução Científica. Pode-se dizer que o século XVII é a cultura remanescente do humanismo 
renascentista, pois, embora não possua os mesmos valores, a cultura científica do século XVII foi 
implicada pelo humanismo. 
42 De acordo com Leitão, por apontamentos manuscritos, é possível saber que Galileu examinou também 
com atenção outras constelações (LEITÃO, int., p. 68, in: GALILEI, 2010). 
43 “Verùm infra Stellas magnitudinis sextæ, adeò numerosum gregem aliarum, naturalem intuitum 
fugientium, per Perspicillum intueberis, vt vix credibile sit, plures enim quam sex aliæ magnitudinum 
differentiæ videas licet.” (Ibid.) 
 
31 
que são conhecidas comumente. Tais estrelas que Galileu relata estão para além do que 
podemos ver ao olharmos para o céu noturno sem o auxílio do telescópio. Por 
conseguinte, no excerto a seguir podemos identificar uma afirmação de Galileu sobre o 
grande número de estrelas desconhecidas: “com efeito, dentro do limite de um ou dois 
graus existem e disseminam-se, em torno das antigas, mais de quinhentas novas 
estrelas” (GALILEI, 2010, p. 175)44. Diga-se de passagem, que quando Galileu fala de 
“quinhentasnovas estrelas” ele não fala em sentido literal, conforme afirma Leitão, 
“mas simplesmente a querer significar uma grande multidão de estrelas” (LEITÃO, nota 
70, p.221, Ibid.). Esta hipérbole é uma forma de Galileu dar ênfase a imensa quantidade 
de estrelas descobertas. Pode-se notar que esta é uma figura de linguagem bastante 
utilizada por ele em todo o Sidereus Nuncius. 
O que anteriormente foi mencionado sobre a utilização de argumentos visuais 
por Galileu no tratamento da Lua, o mesmo vale para o tratamento das estrelas fixas: o 
convencimento através da evidência gráfica. Nesse sentido, Galileu faz quatro desenhos 
no Sidereus Nuncius representando a posição das estrelas fixas no firmamento através 
de asterismos45. Dois destes asterismos representam as constelações de Órion e Plêiades 
e os outros dois a nebulosa de Órion e a nebulosa do Presépio46. Todavia, segundo 
Leitão, estas “gravuras de Galileu não são totalmente rigorosas quanto à localização das 
estrelas, mas são surpreendentemente completas já que apresentam quase sem falhas 
todas as estrelas até uma magnitude de +6” (LEITÃO, int., p. 72, Ibid.). Da mesma 
forma com a Lua, as gravuras dos asterismos é um recurso persuasivo, de modo a 
colocar em evidência o que foi observado. 
Passando do relato das estrelas fixas, Galileu dá início à exposição da 
interessante descoberta sobre a Via Láctea, desvelando sua real natureza. Sobre isso, 
Galileu diz: 
Aquilo que foi por nós observado em terceiro lugar foi a essência ou a 
matéria da própria Via LÁCTEA que, com o auxílio da luneta, pode ser 
observada com os sentidos, de modo que todas as disputas que durante tantas 
gerações torturaram os filósofos são derimidas pela certeza visível, e nós 
somos libertados de argumentos palavrosos. De fato, a GALÁXIA não é 
 
44 “[...] adstant enim, & circa veteres intra vnius, aut alterius gradus limites disseminantur plures 
quingentis.” (Ibid.) 
45 Asterismo é um padrão reconhecível de estrelas no céu noturno, que é obtido pelo traçado de linhas 
imaginárias ligando as estrelas e que representam as constelações. 
46 “O Presépio [Praesepe] (M44), que os gregos designavam por Manjedoura, está na constelação do 
Caranguejo (Câncer)” (LEITÃO, nota 75, p. 222, Ibid.). 
 
32 
outra coisa senão um aglomerado de incontáveis estrelas reunidas em grupo 
(GALILEI, 2010, p. 177).47 
Deste modo, mais uma vez deixando claro o “auxílio da luneta” aos sentidos, 
potencializando-os, Galileu mostra como é a natureza da Galáxia, ao passo que critica 
aqueles que disputaram sobre o tema com argumentos equivocados. Neste excerto, 
podemos identificar claramente a revolução epistemológica causada pelo telescópio, de 
tal modo que Galileu ironiza aqueles que não tiveram o acesso a tal instrumento. Ao 
dizer assim, Galileu se afirma enquanto diferencial por ter sido o primeiro a fazer o uso 
astronômico do telescópio e, por isso mesmo, iniciar uma nova era na astronomia. 
Portanto, Galileu descobre que a Via Láctea, não é “leitosa”, como foi suposto, mas um 
aglomerado de estrelas, que são tão numerosas que dão o aspecto opaco na aparência da 
galáxia. 
Em seguida, sabendo que o aspecto leitoso da galáxia é dado pela multidão de 
estrelas aglomeradas, Galileu deduz que outros pontos no céu que possuem tal aspecto 
são também, nesse sentido, outros aglomerados de estrelas. Como podemos identificar 
no excerto que se segue: 
E como não é apenas a GALÁXIA que se observa essa luminosidade leitosa, 
como uma nuvem esbranquiçada, mas muitas outras zonas de cor semelhante 
brilham tenuamente, dispersas por todo o éter, se se aponta uma luneta a 
qualquer uma delas, topa-se com uma densa multidão de estrelas. Além disso 
(e que é ainda mais notável), as estrelas que foram designadas de 
NEBULOSAS por todos os astrônomos até hoje são enxames de pequenas 
estrelas reunidas de forma espantosa (GALILEI, 2010, p. 177-8).48 
Com efeito, esta descoberta de Galileu é notável, pois de fato, muito do que 
parecia ser nebulosas eram, na verdade, aglomerados de estrelas. Contudo, isso não quer 
dizer que não se conheciam verdadeiras nebulosas na época. Este corpos celestes já 
eram conhecidos nos mais variados tipos, como é confirmado pela astronomia moderna. 
É provável que Galileu não tivesse este conhecimento, pois em nenhum momento ele dá 
indicação que algumas nebulosas eram mesmo nebulosas, deixando parecer que ele 
 
47 “Quòd tertio loco à nobis fuit obseruatum, est ipsiusmet LACTEI Circuli essentia, seu materies, quam 
Perspicilli beneficio adeò ad sendum licet intueri, vt & altercationes omnes, quæ per tot fæcula 
Philosophos excrucia runt ab oculata certitudine dirimantur, nosquè à verbosis disputationibus liberemur. 
Est enim GALAXYA nihil aliud, quam innumerarum Stellarum coaceruatim consitarum congeries.” 
(Ibid.) 
48 “At cum non tantum in GALAXYA lacteus ille candor, veluti albicantis nubis spectetur, sed complures 
consimilis coloris areolæ sparsim per æthera subfulgeant, si in illarum quamlibet Specillum conuertas 
Stellarum constipatarum cetum coetum offendes. Amplius (quod magis mirabilis) Stellæ ab Astronomis 
singulis in hanc vsque dié NEBVLOSAE appellatæ, Stellularum mirum immodum consitarum greges 
sunt.” (Ibid.) 
 
33 
atribuiu a aglomeração estelar para tudo o que parecia ser nebulosas. Mas de qualquer 
forma, Galileu foi notável em fazer esta distinção em detalhes para diversas 
“nebulosas”, como por exemplo, a mencionada nebulosa do Presépio. Vale ressaltar 
também que, questionar a natureza das nebulosas não foi um feito inédito de Galileu. 
Pois, de acordo com Leitão, 
na altura em que publicou estes resultados, o consenso em torno deste 
assunto começava a desaparecer, pois desde o início do século XVII, antes 
mesmo do aparecimento do telescópio, já vários autores haviam questionado 
a descrição antiga: no famoso catálogo de Johannes Bayer (1564-1617), 
Uranometria (Augsburg, 1603), o mais influente atlas celeste do século 
XVII, a “nebulosa” da cabeça de Órion aparece já resolvida em três estrelas, 
sendo o aspecto nebular abandonado (LEITÃO, int., p. 72, Ibid.). 
 Ainda em relação às estrelas fixas, é importante expor aqui um fato que marcou 
o Sidereus Nuncius, conforme escreveu Leitão em seu estudo. Este fato diz respeito à 
ausência de uma investigação sobre a paralaxe49 anual dessas estrelas observadas, o que 
poderia ter sido feito com o telescópio. “Galileu tinha perfeitamente presente a 
importância da observação de paralaxe estelar, o que seria uma confirmação indiscutível 
do movimento anual da Terra e, portanto, do copernicanismo” (Ibid., p. 72-3). Não há 
dúvidas de que a medição da paralaxe estelar por Galileu seria de importância capital 
para a defesa do copernicanismo, mas embora soubesse disso, ele nunca conseguiu fazer 
tal medição. Sendo tal fato, umas das grandes falhas de Galileu em toda sua campanha. 
 Agora, acompanhando o próprio texto de Galileu, farei a exposição do relato da 
observação dos satélites de Júpiter, sendo, conforme Galileu, a principal novidade de 
todo o Sidereus Nuncius, o que é justificado pelo ineditismo e pela força corroborativa 
do copernicanismo, como se pode constatar a seguir. Portanto, ao terminar a discussão 
das estrelas fixas, Galileu escreve: 
Falta-nos revelar e divulgar aquilo que parece ser o mais importante da 
presente matéria: quatro PLANETAS nunca vistos desde o princípio do 
mundo até aos nossos dias, as circunstâncias da sua descoberta e observação, 
as suas posições e as observações feitas nos últimos dois meses acerca dos 
seus deslocamentos e mudanças (GALILEI, 2010, p. 179).50 
 
49 A paralaxe consiste no deslocamento aparente de um objeto observado quando o observador muda de 
posição. No caso em questão, a paralaxe estelar é a mudançada posição de uma dada estrela quando 
observada durante um ano, pois enquanto a Terra se move em torno do Sol, este deslocamento aparente 
ocorre, fenômeno este que Galileu não tratou no Sidereus Nuncius e nunca conseguiu medir em toda a sua 
vida. 
50 “Superest vt, quod maximum in præsenti negotio existimandum videtur, quatuor PLANETAS à primo 
mundi exordio ad mostra vsque tempora nunquam conspectos, ocasionem reperiendi, atque obseruandi, 
nec non ipsorum loca, atque per duos proximè menses obseruationes circa eorundem lationes, ac 
mutationes habitas, aperiamus, ac promulgemus [...].” (Ibid.) 
 
34 
Pode-se ler nas próprias palavras de Galileu a importância dedicada ao assunto. 
Ademais, ressalta-se a ênfase no ineditismo, o que para Galileu configurava o porquê de 
tanta importância, pois foi ele quem descobriu e tal descoberta vinha ao encontro do 
sistema copernicano. De acordo com Leitão, 
nenhuma teoria astronômica do passado, por mais exótica que fosse, tinha 
alguma vez sugerido a existência de planetas menores rodando em torno dos 
planetas conhecidos, nem qualquer observação tinha fornecido indícios nesse 
sentido (LEITÃO, int., p. 77-8, Ibid.). 
Com base nisso, Galileu afirmava sua primazia resolutamente. E como consta da 
dedicatória à Cosme de Médici, por ser o descobridor, Galileu reclamava para si o 
direito de batizá-las com o nome que lhe fosse necessário, sendo tal necessidade, como 
vimos, um lugar profissional na corte da Toscana. Por conseguinte, sabe-se que, as 
observações feitas nos “últimos dois meses”, significa: entre 7 de janeiro de 1610 e 2 de 
março de 1610. Isso pode ser observado com a leitura do relato, no qual Galileu expõe 
detalhadamente o dia e a hora da observação, iniciando no “sétimo dia de janeiro” 
(como se pode ver na citação a seguir) e terminando no “segundo dia de março”, do ano 
de 1610. Tendo em vista que, “em janeiro de 1610, Júpiter estava em condições 
particularmente favoráveis para ser observado” (Ibid.). Continuando com sua exposição, 
Galileu escreve: 
Assim, então, no sétimo dia de janeiro do presente ano de 1610, na primeira 
hora da noite, quando eu examinava os astros no céu através da luneta, 
Júpiter mostrou-se, e, como me tinha munido de um instrumento excelente, vi 
(o que não tinha acontecido antes devido à fraqueza do outro instrumento) 
que três pequenas estrelas estavam perto dele – pequenas, mas muito 
brilhantes. Embora, achasse que eram do número das estrelas fixas, apesar de 
tudo intrigaram-me, pois pareciam estar dispostas exatamente ao longo de 
uma linha reta paralela à eclíptica, e ser mais brilhantes do que as outras da 
mesma grandeza (GALILEU, 2010, p. 179).51 
Note-se que Galileu ainda não sabia que tais estrelas eram satélites, o que será 
determinado apenas no dia 11 de janeiro. Antes disso, também Galileu ainda não sabia 
que a permutação era das “estrelas”, acreditando que tal movimento era de Júpiter, o 
que será concluído apenas no dia 10 de janeiro, isto é, um dia antes de estabelecer que 
tais estrelas eram satélites de Júpiter. Dessa forma, ele escreve: “no oitavo dia voltei a 
estas observações, guiado não sei por qual destino, encontrei uma arranjo muito 
 
51 “Die itaque septima Ianuarij instantis anni millesimi sexcentesimi decimi, hora sequentis noctis prima, 
cum celestia sydera per Perspicillum specatarem, Iupiter sese obuiam fecit, cumque admodum excelens 
mihi parassem instrumentum, (quod antea ob alterius Organi debilitatem minime contigerat) três illi 
adstare steliulas, exiguas quidem, veruntamen clarissimas, cognouni; quæ licet è numero inerrantium à 
me crederentur, non nullam tamen intulerunt admirationem, eo quod secundum exactam lineam rectam, 
atque Eclypticæ pararellam dispositæ videbantur: ac ceteris magnitudine paribus splendidiores.” (Ibid.) 
 
35 
diferente. As três pequenas estrelas estavam todas para o Oeste de Júpiter [...]” 
(GALILEU, 2010, p. 180)52. E Galileu continua: “comecei, no entanto, a ficar intrigado 
por que razão Júpiter podia estar para Leste das ditas estrelas fixas quando no dia 
anterior ele estava para Oeste de duas delas” (Ibid.)53. 
 Assim, chegado o décimo dia de janeiro, ao apontar seu telescópio para o céu 
novamente, Galileu escreve: 
Tendo visto estas coisas e porque não me era possível de maneira nenhuma 
atribuir semelhantes mutações a Júpiter e porque, além disso, me dei conta de 
que eram sempre as mesmas estrelas (pois nenhumas outras, quer 
precedendo, quer seguindo Júpiter, estavam presentes ao longo do Zodíaco 
por uma grande distância), mudei desde aí minha perplexidade em 
admiração, concluindo que a permutação aparente tinha a sua origem não em 
Júpiter, mas nas ditas estrelas (Ibid., p. 181).54 
Galileu, então, muda sua opinião sobre o movimento dos intrigantes astros, 
concluindo no dia 10 de janeiro que não poderia ser Júpiter a se permutar, mas as 
estrelas em torno dele, o que implicava outra conclusão admirável, a saber, que tais 
“estrelas” não eram estrelas, mas satélites naturais de Júpiter, como a Lua em torno da 
Terra. Sobre isso, Galileu escreve: 
Então, estabeleci e determinei, sem a mais pequena dúvida, que existiam no 
céu três estrelas errantes em torno de Júpiter, como Vênus e Mercúrio em 
torno do Sol. Isto acabou por ser constatado com uma clareza meridiana por 
muitas observações posteriores; e que não eram apenas três mas sim quatro 
astros errantes, fazendo as suas revoluções em torno de Júpiter (Ibid.).55 
Portanto, no dia 11 de janeiro Galileu estabelece que tais estrelas errantes são, 
não apenas errantes, mas, acima de tudo, orbitantes de Júpiter. Sendo, no entanto, 
apenas no dia 13 de janeiro que Galileu observou que eram quatro satélites e não três, 
como só havia observado nos dias anteriores. O que, segundo Leitão, pode ter decorrido 
do fato de que o campo visual do seu telescópio era pequeno e que nos dias anteriores 
 
52 “[...] cum autem die octaua, nescio quo Fato ductus, ad inspectionem eadem renersus essem, longe 
aliam cõstitutionem reperi; erant enim tres Stellulæ occidentales omnes à Ioue [...].” (Ibid.) 
53 “[...] exitare tamen cæpit, quonam pacto Iuppiter ab omnibus prædictis fixis posset orientalior reperiri, 
cum à binis ex illis pridie occidentalis fuisset [...].” (Ibid.) 
54 “Hæc cum viddifen, cumque mutationes consimiles in Ioue nulla ratione repondi posse intelligerem, 
atque insuper spectatas Stellas semper asdem fuisse cognoscerem, (nullæ enim aliæ, aut præcedentes, aut 
consequentes intra Magnum interuallum iuxta longitudinem Zodiaci aderant) iam ambiguitatem in 
admirationem permutans, aparentem commutationen non in Ioue, sed in Stellis adnotatis repositã esse 
comperi [...].” (Ibid.) 
55 “Statum ideò, omnique procul dubio à me decretum fuit, tres in coelis adesse Stellas vagantes circa 
Iouem, instar Veneris, atque Mercurij circa Solem: quod tandem luce meridiana clarius in alijs 
postmodum compluribus inspectionibus obseruatu est; ac non tantum tres, verum quatuor esse vaga 
Sydera circa Iouvem suas circumuolutiones obcurantia [...].” (Ibid.) 
 
36 
alguns satélites estavam quase sobrepostos ou demasiado próximos de júpiter (LEITÃO, 
int., p. 79, Ibid.). 
 Contudo, não cabe aqui fazer toda a exposição das observações de Galileu. Os 
trechos que escolhi para expor são aqueles nos quais podemos constatar o momento 
mais importante da descrição de Galileu, que é quando ele descobre o que são tais 
estrelas em torno de Júpiter. De acordo com a contagem das observações no texto, 
constata-se que foram feitas ao todo 65 observações das posições dos satélites em torno 
de Júpiter, as quais foram desenhadas representando cada posição dos astros (Júpiter por 
um círculo e as estrelas circundantes por asteriscos) o que configura, dessa forma, um 
aspecto notável do trabalho de Galileu, que mais uma vez, se utiliza dorecurso visual 
para demonstrar o que se passa no céu. Essa é uma das razões de o Sidereus Nuncius 
inaugurar um novo conceito de astronomia. Sobre estas observações dos satélites 
jovianos, segundo Leitão, 
Galileu apresentou as suas observações, dia-a-dia, numa sequência de 
diagramas: uma apresentação verdadeiramente inovadora, quase 
cinematográfica, em que a enorme profusão de imagens ilustrando as 
diferentes posições dos satélites em torno de Júpiter, impõe-se quase 
dispensando mais argumentos, mas simplesmente pelo peso esmagador da 
evidência visual (LEITÃO, int., p. 80, Ibid.). 
Portanto, ao que se segue, me atentarei às considerações finais de Galileu. Sendo 
a primeira dessas considerações a seguinte: 
Em primeiro lugar, como eles algumas vezes seguem, e outras vezes 
precedem Júpiter com intervalos iguais, e estão afastados dele para Leste e 
também para Oeste apenas com intervalos muito estreitos, acompanhando-o 
quer no movimento retrógrado quer no direto, ninguém pode duvidar que 
completam as suas revoluções em torno dele, ao mesmo tempo que, todos 
juntos, completam um período de doze anos em torno do centro do mundo 
(GALILEU, 2010, p. 204).56 
Neste trecho, temos a segunda explicitação de Galileu da sua posição 
copernicana, bem como o significado de “experiências sensatas”. Reiterando o que já 
escrevi anteriormente, a órbita dos satélites em torno de Júpiter, é por analogia, um 
minissistema solar, o que será tomado por Galileu como um forte argumento pelo 
copernicanismo, como se pode perceber no excerto a seguir: 
 
56 “Ac primo cum Iouem consimilibus interstijs modo consequantur, modo præeant, ab eoq; tum versus 
ortum, tum in occa fum angustissimis tantum diuaricationibus elogentur, eun demq; retrogradum pariter, 
atq; directum concomitentur, quin circa illum suas conficiant conuersitiones, interea dum circa mundi 
centrum omnes vnà duo decenales periodos absoluunt, nemini dubium esse potest.” (Ibid.) 
 
37 
Temos [...] um excelente e esplêndido argumento para eliminar os escrúpulos 
daqueles que, embora admitindo tranquilamente a revolução dos planetas em 
torno do Sol no sistema copernicano, ficam tão perturbados pela circulação 
de uma única Lua em torno da Terra, enquanto as duas juntas completam um 
orbe anual em torno do Sol, que concluem que esta constituição do universo 
deve ser recusada como impossível. Pois aqui temos não apenas um planeta 
revolvendo em torno de outro enquanto ambos se deslocam ao longo de um 
grande círculo em torno do Sol, mas os nossos sentidos mostram-nos quatro 
estrelas vagueantes em torno de Júpiter, à semelhança da Lua em torno da 
Terra, ao mesmo tempo que todas elas com Júpiter percorrem um grande 
orbe em torno do Sol no intervalo de doze anos (GALILEI, 2010, p. 205).57 
 As palavras de Galileu já dizem tudo por si só. Do sistema jupiteriano deduz-se, 
o sistema copernicano. Compreender que Júpiter com seus satélites orbitam o Sol no 
intervalo de doze anos, implica a compreensão de que a Terra, juntamente com a Lua, 
faz o mesmo no intervalo de doze meses. Eis a razão de esta descoberta ser tomada por 
Galileu como a mais importante que está sendo relatada no Sidereus Nuncius, pois ela 
significa uma evidência para a possibilidade do sistema de Copérnico. 
 Para terminar essa análise, é importante expor por último um fato curioso, a 
saber, a não aceitação por Galileu das órbitas elípticas. Sobre isso, Galileu escreve na 
última página do Sidereus Nuncius: “quanto a um movimento oval (que neste caso teria 
que ser quase direito), parece ser inconcebível e de maneira nenhuma concordante com 
as aparências” (Ibid., p. 206)58. Galileu nunca aceitou a teoria das órbitas elípticas de 
Kepler, pois segundo ele só o movimento circular seria possível para as órbitas 
planetárias. E provavelmente essa recusa se deve a fatores estéticos, pois Galileu era 
pensante da ideia da perfeição do movimento circular, ideia, por sinal, aristotélica e 
também platônica. 
 Portanto, a análise que fiz sobre os enunciados e os argumentos de Galileu sobre 
suas observações astronômicas está em função de mostrar o espectro da autonomia da 
ciência que pode ser identificado em sua criatividade e na sua índole filosófica que será 
desenvolvida para o próprio pensamento filosófico. Este espectro se tornará uma “luz 
brilhante” na polêmica teológica-cosmológica, resultando no florescimento da ciência 
 
57 “Eximium præ terea præclarumq; habemus argumentum pro scrupulo ab illis demendo, qui in 
Systemate Copernicano conuersitionem Planetarum circa Solem æquo animo ferentes, adeò perturbantur 
ab vnius Lunæ circa terram latione, intereadum ambo annuum orbem circa Solem absoluunt, vt hanc 
vniuersi conflitutionem tanq impossibilem enertendam esse arbitrentur; nunc enim nedum Planetam, 
unum circa alium conuertibilem habemus, dum ambo Magnum circa Solem perlustrant orbem; verum 
quatuor circa Iouem instar Lunæ circa Tellurem, sensos nobis vagantes offert Stellas, dum oems simul 
cum Ioue I2. [sic] annorum spacio Magnum circa Solem permeant orbem.” (Ibid.) 
58 “[...] oualis verò motus (qui in hoc casu rectus ferè esset) & inopinabilis, & ijs quam apparent nulla 
romne consonus esse ur.” (Ibid.) 
 
38 
moderna enquanto uma atividade autônoma, o que será o objeto de análise do segundo 
capítulo. Doravante, será feita a discussão sobre o que significa a “mensagem das 
estrelas”. 
 
1.3. O significado da “mensagem das estrelas” 
Na nota 1 deste capítulo, expus os dois sentidos da tradução da palavra latina 
“Nuncius”, a saber, “mensagem” ou “mensageiro”, completando ao final dizendo que a 
escolha por qual tradução fica a critério do tradutor/pesquisador. O próprio Galileu 
queria a ambiguidade59 do título para que o significado60 da sua obra pudesse ser 
abarcado satisfatoriamente, sendo, desse modo, provável que não exista uma tradução 
“certa” entre as duas opções. 
Por conseguinte, como é evidente, o título do presente tópico traz em si o 
primeiro sentido da tradução de “Nuncius”. No entanto, a escolha não é gratuita, mas 
pelo que representa o Sidereus Nuncius essencialmente: a adesão pública de Galileu ao 
copernicanismo e o início de sua campanha por tal doutrina, resumindo-se numa crítica 
(ainda que implícita) à tradição cosmológica. Dessa forma, a opção por “Mensagem” é 
motivada por pensar na representação metafórica das descobertas astronômicas e o que 
uma mensagem vinda dos céus significou para a esta campanha, bem como para a 
inovação intelectual característica da Revolução Científica. Mesmo que “Mensageiro” 
também represente esta inovação intelectual, visto que o telescópio (que é o 
mensageiro) determina uma mudança metodológica, e, sobretudo, epistemológica da 
astronomia, ocorre que “Mensageiro”, mesmo trazendo consigo algo substancial do 
Sidereus Nuncius, configurando, assim, um dos propósitos de Galileu com a obra, não 
simboliza essencialmente o grande objetivo de Galileu. Ou seja, como já escrevi nos 
“propósitos” do Sidereus Nuncius, o primeiro uso61 do telescópio como instrumento 
 
59 Segundo Leitão, “não há dúvida que Galileu tinha em mente o sentido de ‘Mensagem’, mas é também 
certo que nunca se opôs nem corrigiu quando vários dos seus contemporâneos usaram o sentido de 
‘Mensageiro’” (LEITÃO, nota 1, p. 207, Ibid.). Dado isso, é sustentável que Galileu não só aceitava a 
ambiguidade, como se utilizou dela conscientemente. 
60
 Pois, como já vimos anteriormente, o Sidereus Nuncius anuncia duas coisas: as observações feitas sobre 
o cosmo e o instrumento pelo qual se realizou tais observações; isto é, as descobertas astronômicas e o 
telescópio. De modo que a totalidade do significado se refere aos dois sentidos da anunciação. 
61 Como já foi dito, embora não fora Galileu o primeiro ausar o telescópio para visualizar o céu, pois isso 
já tinha sido feito por Thomas Digges (ver nota 3). Contudo, o primeiro uso científico do telescópio é 
atribuído a Galileu justamente por ele o usar como experimentação, de tal modo sabendo de suas 
implicações epistemológicas. 
 
39 
científico, feito por Galileu foi de tal maneira notável que ele buscou noticiar este feito 
ao mesmo tempo em que deixava seu nome marcado na história de tal instrumento, não 
como o criador do mesmo, mas como um inovador. No entanto, este foi apenas um dos 
propósitos com a obra, (substancial sem dúvida), mas que estava implícito nos outros 
dois, que eram o de noticiar as novidades e o de pleitear um emprego na corte da 
Toscana, os quais eram propósitos primários. 
É claro que podem existir outras interpretações, e que estas podem colocar o 
anúncio do telescópio como instrumento científico como o propósito mais importante 
do Sidereus Nuncius. Contudo, como se pode constatar na presente análise, o 
“Perspicilli”62 tinha papel secundário em tal obra em relação ao que as descobertas 
astronômicas em si significavam para os assuntos cosmológicos, os quais eram centrais 
na Revolução Científica, cujo “Perspicilli” foi apenas um meio, embora determinante, 
para as conclusões nestes assuntos cosmológicos. 
Ademais, o que também já foi anteriormente relatado, o próprio Galileu elege 
como a principal (e inédita) notícia de todo o Sidereus Nuncius a descoberta das estrelas 
errantes na órbita de Júpiter. Assim, se a observação de tal fenômeno é o mais 
importante segundo Galileu, e que a mesma observação é uma descoberta, então a 
descoberta astronômica é mais relevante que o propiciador de tal descoberta. Logo, a 
opção por “Mensagem” parece ser mais “adequada”63. 
Considerando, então, que o Sidereus Nuncius é essencialmente uma divulgação 
de descobertas astronômicas em detrimento da tradição cosmológica – descobertas estas 
de tal modo que corroboram a hipótese contrária a tradição aristotélico-ptolomaica, elas 
são afirmadas metaforicamente como sendo uma mensagem. 
Feito estas considerações, portanto, podemos afirmar que a “mensagem das 
estrelas” significa a justificação pela qual Galileu pôde se posicionar publicamente 
frente ao saber astronômico e cosmológico tradicional. Com efeito, a mensagem era a 
manifestação da própria natureza do cosmo através das lentes do telescópio, 
determinando, dessa maneira, a defesa de Galileu ao copernicanismo e a certeza de uma 
campanha em prol de tal doutrina. Uma vez que Galileu necessitava de uma evidência 
de que o copernicanismo era o caso, as descobertas em questão vieram como uma 
 
62 “Perspicilli” é como Galileu nomeia em latim o telescópio no Sidereus Nuncius (ver nota 16). 
63 Adequada para os propósitos de minha análise, no entanto, não implica que seja a tradução certa. 
 
40 
mensagem, evidenciando, e, mesmo “avisando”, que, de fato, o sistema de Copérnico 
poderia ser provado. Se bem que tais descobertas não provavam em sentido estrito o 
copernicanismo e que Galileu nunca conseguiu fazer essa prova estritamente, contudo, 
elas foram o estopim da realização de uma campanha que durou vinte e dois anos, 
campanha esta decidida por descobertas traduzidas metaforicamente como uma 
mensagem que mostrava a possibilidade de provar, mediante “experiências sensatas e 
demonstrações necessárias”, que a Terra se move e que não é o centro do Universo. 
Ao que foi proposto para o primeiro capítulo desta monografia, foi escrita uma 
narrativa satisfatória para o entendimento do leitor. Enfim, ressalta-se que a decorrida 
análise feita sobre o Sidereus Nuncius está em função de mostrar a gênese do pleito da 
autonomia da ciência por Galileu, que caracteriza essencialmente a polêmica teológica-
cosmológica, a qual será trabalhada no capítulo que se segue. 
 
Capítulo 2. O núcleo da polêmica teológica-cosmológica 
Após a publicação do Sidereus Nuncius, Galileu inicia uma campanha de defesa 
e propaganda do copernicanismo, e que, em função dessa doutrina, se empenha na 
defesa da autonomia da ciência em relação às Escrituras, ao passo que critica o princípio 
de autoridade reforçado pela Reforma Católica. Tal episódio é designado pela 
historiografia como polêmica teológica-cosmológica. 
Porquanto, a polêmica teológica-cosmológica é uma controvérsia caracterizada 
pela defesa da autonomia da ciência por Galileu revestida pelo problema da 
concordância do copernicanismo com as Escrituras64, cuja discussão específica é sobre 
as relações entre a ciência e a teologia, que ocorre entre 1613 e 1615. Esta polêmica é 
expressa em um conjunto de cinco cartas, sendo quatro delas escritas por Galileu: a 
primeira e que inaugura a polêmica é endereçada ao matemático Benedetto Castelli65; 
depois, já em 1615, há duas cartas ao clérigo Piero Dini66, e outra do cardeal Roberto 
Bellarmino endereçada ao carmelita Paolo Antonio Foscarini67, na qual Bellarmino faz 
 
64 Referente à Bíblia; exatamente as passagens: Salmos 19(18), 6 e 104(103), 5; 1 Crônicas 16,30; 
Eclesiastes 1,4-6; Josué 10,12. 
65 “O beneditino Benedetto Castelli (1578-1643) foi discípulo e colaborador de Galileu e professor de 
matemática na universidade de Pisa” (NASCIMENTO, int., p. 17, nota 1, in: GALILEI, 1988). 
66 “Monsenhor Piero Dini era grande amigo de Galileu e, na época da carta endereçada a ele, ocupou o 
cargo de relator apostólico em Roma” (Ibid., p. 23, nota 5). 
67 Paolo Foscarini (1565-1616) foi um cientista carmelita defensor do copernicanismo. 
 
41 
seu pronunciamento sobre o problema em questão. Por último, configurando a quinta 
carta, temos a de Galileu endereçada à grã-duquesa da Toscana Cristina de Lorena68, na 
qual Galileu responde aos argumentos de Bellarmino presentes na carta do mesmo, 
supramencionada. Em síntese, é nesse conjunto de documentos epistolares que 
encontramos a polêmica teológica-cosmológica, e é paralelamente o momento em que 
ocorre “a intervenção dos teólogos no debate sobre o copernicanismo, com o 
consequente deslocamento do centro de gravidade do campo da filosofia natural e da 
astronomia para o da teologia escriturística [...]” (FANTOLI, 2008, p. 149). 
Desse conjunto de cartas, destaco as mais importantes (segundo os meus 
propósitos) para compreendermos a autonomia da ciência – considerando os argumentos 
de Galileu, nos quais defendem as razões desse pleito e ao mesmo tempo criticam o 
princípio de autoridade – a saber, a carta a Castelli e a carta de Bellarmino a Foscarini. 
A Carta a Castelli caracteriza-se por ser a que inaugura a polêmica teológica-
cosmológica e que traz a primeira formulação dos famosos argumentos contra a 
autoridade das Escrituras nos assuntos de filosofia natural, entre os quais, o argumento 
das “duas linguagens”. E que relativo a isso, há os argumentos sobre a má interpretação 
do sentido das palavras das Escrituras e sobre a função a que se destinam. E o mais 
importante para a presente análise: a introdução do critério especial das “experiências 
sensatas e demonstrações necessárias”, que aludi no primeiro capítulo ao tratar da 
criatividade galileana. Sem dúvida, tal critério é essencial para a compreensão de como 
Galileu defende a autonomia da ciência. Em vista disso, nesta carta, Galileu 
declara-se acerca da compatibilidade da astronomia e da cosmologia 
copernicanas com as Sagradas Escrituras ou, numa formulação mais ao gosto 
de Galileu, acerca da propriedade de se envolver questões teológicas nas 
disputas naturais (MARICONDA, int., p. 27, in: GALILEI, 2011). 
Pois, os setores conservadores da Igreja “não tendo como responder às críticas 
de Galileu aos princípios cosmológicos aristotélicos, mudam o campo de batalha e 
passam ao ataque levantando uma oposição teológica ao sistema de Copérnico” (Ibid.,p. 25). Destarte, a carta a Castelli é a inauguração desta controvérsia, que tem como 
pano de fundo a relação entre fé e ciência. 
A Carta de Bellarmino a Foscarini é bem curta e direta, na qual o cardeal 
apresenta três pontos respondendo ao “opúsculo de Foscarini intitulado Carta ao 
 
68 Cristina de Lorena (1565-1637) foi a grã-duquesa da Toscana, mãe de Cosme II. 
 
42 
reverendo padre mestre Antonio Foscarini, carmelita, concernente à opinião dos 
pitagóricos e de Copérnico sobre a mobilidade da Terra e a instabilidade do Sol e o 
novo sistema do mundo pitagórico etc. que reproduzia uma carta enviada pelo próprio 
Foscarini ao superior geral dos carmelitas” (FANTOLI, 2008, p. 164). Ainda de acordo 
com Fantoli, a resposta de Bellarmino expressa a sua posição como o principal teólogo 
da Igreja romana, de modo a não ficar indiferente à polêmica em questão. 
Considerando isso, em relação à polêmica teológica-cosmológica, minha análise 
se restringirá apenas nestas duas cartas, a saber, a carta de Galileu a Castelli e a carta de 
Bellarmino a Foscarini respectivamente, com ênfase nos argumentos de Galileu em 
defesa da autonomia da ciência perante o julgamento teológico e o princípio de 
autoridade. De modo que eu possa ter condições de mostrar a importância dessa 
polêmica para a história da ciência. O que é suficiente com o exame destes dois 
documentos. Haja vista que as cartas a Piero Dini e a carta a Cristina de Lorena ficarão 
em segundo plano apenas por motivo de recorte. Com toda certeza que o estudo da 
polêmica teológica-cosmológica no geral demanda a análise das cinco cartas sobre as 
quais se atesta tal polêmica. 
Vale dizer que essa polêmica precede e, ao mesmo tempo causa, a condenação 
do copernicanismo pelo Santo Ofício em 1616, tendo como consequência a relegação da 
obra de Copérnico De revolutionibus orbium coelestium (“Das revoluções das esferas 
celestes”), ao Índice69. Após o impacto das controvérsias epistolares, o copernicanismo 
sofre um processo de censura, sendo pouco tempo depois declarado formalmente 
herético. 
Em seguida, dois dias após a censura do copernicanismo que ocorre no dia 26 de 
fevereiro de 1616, Galileu é convidado por Bellarmino à sua residência para receber 
uma admoestação70, isto é, uma advertência para que tomasse cuidado com a defesa do 
copernicanismo, ao passo que a mantivesse no nível da hipótese matemática, impondo 
assim o compromisso metodológico do instrumentalismo (MARICONDA, int., p. 55-
 
69
 Índice dos Livros Proibidos (Index Librorum Prohibitorum) da Sagrada Congregação do Índice, criado 
em 1559 no Concílio de Trento, cuja função era censurar as obras que fossem contrárias à doutrina 
católica e, sobretudo, heréticas. 
70 De acordo com Mariconda, há uma “declaração do cardeal Bellarmino obtida por Galileu em 26 de 
maio de 1616, na qual o cardeal afirma que: ‘somente lhe foi confirmada a declaração, feita por Nosso 
Senhor e publicada pela Sagrada Congregação do Índice, na qual se afirma que a doutrina atribuída a 
Copérnico, de que a Terra se move ao redor do Sol e que o Sol está no centro do mundo sem mover-se de 
oriente para ocidente, é contrária às Sagradas Escrituras, e por isso não se pode defender nem sustentar’” 
(MARICONDA, int., p. 55, in: GALILEI, 2011). 
 
43 
56, Ibid.). A próxima vez que Galileu for convocado novamente será para ir a Roma e 
abjurar suas teses que serão publicadas no Dialogo. Ou seja, Galileu não acata a censura 
de 1616, na medida em que rejeita o compromisso instrumentalista e insiste na defesa 
da realidade do copernicanismo frente à tradição cosmológica, o que levará a proibição 
da obra pela Sagrada Congregação do Índice e a sua consequente condenação em 22 de 
junho de 1633 pelo Santo Ofício. Doravante, segue-se a análise dos argumentos para o 
inquérito e narrativa do pleito da autonomia da ciência por Galileu. 
 
2.1. A autonomia da ciência na carta a Castelli 
A Carta a Castelli, datada de 21 de dezembro de 1613, Galileu a inicia relatando 
estar satisfeito em ouvir de Nicolò Arrigheti71 que o copernicanismo fora discutido na 
corte da Toscana. A satisfação de Galileu pela notícia da conversa ocorrida mostra que 
discutir o copernicanismo em qualquer lugar era sempre relevante (principalmente na 
corte), tendo em vista a falta de liberdade para conversar sobre tal assunto, dadas as 
dificuldades impostas pela Reforma Católica na Itália, que agora contava com um 
severo sistema jurídico que funcionava de modo implacável com qualquer que fosse a 
ameaça à doutrina, bem como a heresia. Como se não bastasse, também a censura 
ganhava o aval institucional mediante o Tribunal do Santo Ofício, donde a Inquisição 
Romana operava. 
Isso tinha como consequência o cerceamento do espaço para as discussões sobre 
o copernicanismo. Sendo assim, qualquer chance devia ser aproveitada e Galileu não 
deixa de expressar sua satisfação no início da carta a Castelli. Além de que Galileu 
sempre esperava um diálogo franco, como podemos perceber no seguinte excerto da 
carta, onde ele pergunta: “Que maior favor poderia V. Revª desejar que o de ver Suas 
Altezas mesmas dialogar convosco, apresentar-vos dúvidas, escutar soluções, e 
finalmente satisfazer-se com vossas respostas?” (GALILEI, 1988, p. 18, [281])72. Pois, 
 
71 “Nicolò Arrighetti (1586-1639), natural de Florença, foi encarregado por Castelli de contar a Galileu os 
pormenores da discussão sobre o sistema copernicano havida na corte da Toscana” (GALILEI, 1988, p. 
18, nota 2). 
72 A edição das epístolas copernicanas utilizadas nesta monografia, a saber, GALILEI, Galilei. Ciência e 
fé. Trad. Carlos A. R. do Nascimento. São Paulo: Nova Stella; Rio de Janeiro: MAST, 1988, trás a 
marcação do texto original indicada entre colchetes. Dessa forma, opto por fazer a referência a esta 
marcação do texto original nas citações, em que referenciarei também entre colchetes ao final das 
citações. 
 
44 
como Castelli era um discípulo de Galileu, este contempla a conversa daquele na corte 
junto aos Médici e outros notáveis, onde a hipótese copernicana pôde ser debatida73. 
Vale ressaltar que, de acordo com Mariconda, “Galileu segue a tradição das 
contendas renascentistas italianas, em que os defensores das partes contrárias escolhem 
um intermediário pelo qual tornam públicas suas posições” (MARICONDA, int., p. 55, 
in: GALILEI, 2011). Isso explica as várias correspondências e o próprio formato da 
polêmica teológica-cosmológica. Por outro lado, a forma com a qual as principais obras 
de Galileu, Dialogo e Discurso, foram escritas, desvela também o método filosófico da 
dialética, característico dos diálogos platônicos. De fato, o platonismo é a referência 
filosófica74 de Galileu, como poderemos ver logo mais. 
Voltando a carta, por conseguinte, Galileu inaugura sua argumentação, o 
fazendo da seguinte maneira: após considerar a afirmação de “a Escritura não poder 
jamais mentir ou errar, e possuírem os seus decretos absoluta e inviolável verdade” 
(Ibid., [282]), Galileu argumenta: 
se bem que a Escritura não possa errar, os seus intérpretes e expositores 
poderiam, entretanto, incorrer por vezes em erros, e de várias maneiras. Entre 
esses erros, um seria gravíssimo e frequentíssimo, ocorrendo sempre que tais 
intérpretes quisessem ater-se ao mero significado das palavras, porque assim 
produziriam não só diversas contradições, mas graves heresias e também 
blasfêmias. Pois, se assim fosse, seria necessário então dar a Deus pés, mãos 
e olhos, e também sentimentos materiais e humanos como a ira, o 
arrependimento, o ódio, e por vezes também o esquecimento das coisas 
passadas e a ignorância das coisas futuras. Portanto, encontramos na Sagrada 
Escritura muitas proposições que têm aspectoliteral diferente do verdadeiro, 
mas que estão assim redigidas para acomodarem-se à capacidade de 
entendimento do povo. Por isso, torna-se necessário que os sábios intérpretes 
expliquem os seus verdadeiros sentidos para aqueles poucos que e merecem 
ser distinguidos da plebe, e que indiquem as razões específicas pelas quais 
esses sentidos foram ocultados sob tais palavras (GALILEI, 1988, p. 18, 
[282]). 
Este argumento introdutório de Galileu pode ser analisado e interpretado da 
seguinte maneira. Sobretudo, considera-se a exegese bíblica: o fato das “Escrituras e da 
filosofia natural não poder se contradizer, visto que Deus é fonte tanto da natureza 
 
73 De acordo com Mariconda, no palácio grão-ducal, “durante a recepção, Castelli havia sido obrigado, 
por instigação do filósofo peripatético Boscaglia, a participar de uma disputa de fundo evidentemente 
teológico sobre o modo de conciliar as Sagradas Escrituras com os movimentos da Terra.” 
(MARICONDA, int., p. 25, in: GALILEI, 2011). 
74 Não é a toa que a revolução inaugurada por Galileu é a matematização da natureza. Por um lado, 
Galileu toma a física matemática de Arquimedes. Por outro, toma a “ontologia matemática” de Platão, na 
qual o ser é substancialmente geométrico. Ademais, pode-se constatar o plantonismo mais evidentemente 
no argumento dos “dois livros”, que é formulado no Il Saggiatore, de 1623, o qual será analisado mais 
adiante. 
 
45 
quanto das Escrituras” (FRIEDMAN, 2011, p. 82) é tomado como a primeira premissa 
do argumento. Para Galileu, as Escrituras não podem errar quanto à sua função moral, 
mas suas sentenças podem ser falsas quanto aos assuntos de filosofia natural. Nesse 
sentido, quem erra são os intérpretes, na medida em que estes interpretam literalmente 
as palavras das Escrituras. 
Dessa maneira, o que está por trás deste argumento de Galileu é que se Deus é a 
causa de ambas, Escrituras e natureza, então elas não podem ser incompatíveis. Ora, há 
uma incompatibilidade. Portanto, Galileu faz um movimento dialético ao mostrar como 
superar tal incompatibilidade. Distinguindo os sentidos e mostrando a possibilidade do 
erro interpretativo pelos padres, quando estes se atentam ao “mero significado das 
palavras” das Escrituras. De acordo com Fantoli, 
uma vez que duas verdades (que provém do mesmo Verbo divino, fonte de 
toda verdade) não podem jamais se contradizer, toda vez que estivéssemos 
seguros [...] de certos “efeitos naturais”, os teólogos deveriam esforçar-se por 
encontrar o verdadeiro sentido das passagens bíblicas que têm relação com 
eles, de modo a obter a concordância das duas verdades (FANTOLI, 2008, p. 
151). 
Paralelamente, segundo Mariconda, “Galileu inicia seu pronunciamento 
movendo um ataque à própria base da exegese ortodoxa do relato bíblico, que via uma 
contradição entre as afirmações de mobilidade da Terra e centralidade do Sol” 
(MARICONDA, int., p. 30, in: GALILEI, 2011). Dessa forma, o deslocamento do eixo 
do debate sobre o copernicanismo da filosofia natural para a teologia escritural implica 
o debate sobre a exegese bíblica, domínio este que Galileu se vê obrigado a adentrar 
para refutar os teólogos. Ainda conforme Fantoli, 
Na Carta a Castelli, Galileu tinha entrado e questões teológicas, pretendendo 
– ele, simples homens de ciência – tratar de problemas de interpretação 
bíblica. Isso era extremamente grave (os outros padres também 
concordavam), porque constituía um caso daquela interpretação particular da 
Sagrada Escritura que fora condenada pela Igreja católica (FANTOLI, 2008, 
p. 154). 
Sobre isso, vale dizer que uma das medidas tomadas pela Reforma Católica foi o 
combate à interpretação particular das Escrituras, o que, pode-se dizer, era uma resposta 
ao princípio protestante de sola scriptura, segundo o qual as Escrituras tinham primazia 
sobre o legado pela tradição75. Consequentemente então, a carta a Castelli acarreta o 
 
75 O Concílio Ecumênico de Trento (1545-1563), realizado na cidade Italiana de Trento, foi convocado 
para estabelecer a Reforma Católica. Segundo Fantoli, “a respeito da interpretação da Sagrada Escritura, o 
Concílio de Trento havia decretado, na Sessão IV (8 de Abril de 1546), Decreto 786: “Além disso, para 
 
46 
desagravo de muitos padres, entre eles o dominicano Niccolò Lorini, que em 7 de 
fevereiro de 1615 “enviou uma cópia da Carta ao cardeal Paolo Sfodrati, prefeito da 
Congregação do Índice, para que fosse examinada” (FANTOLI, 2008, p. 155). Ou seja, 
Lorini denuncia76 Galileu para o Santo Ofício, de tal modo fazendo com que esta carta 
se tornasse por suas mãos peça central de um processo inquisitorial que só se conclui 
em 1633 (MARICONDA, int., p. 26, Ibid.). 
Retornando ao argumento de Galileu, por conseguinte, ele faz a distinção de 
sentidos utilizando-se da filosofia como a habilidade de distinguir o verdadeiro do falso, 
na medida em que as sentenças das Escrituras são falsas em correspondência com a 
realidade física, mas são verdadeiras em relação à moral. Isso ocorre da seguinte 
maneira: por um lado, podemos entender que a verdade das Escrituras corresponde à 
totalidade do texto enquanto relativo à persuasão de fiéis para que acreditem na palavra 
de Deus. Por outro lado, as sentenças das Escrituras são metafóricas, as quais possuem 
sentido conotativo e não denotativo. Portanto, não é o caso de que o valor de verdade 
das sentenças das Escrituras sejam relativos, o que ocorre é que tais sentenças são falsas 
quanto à realidade física, mas que, como um poema, tais sentenças são verdadeiras em 
sua totalidade, “holisticamente”77. Sendo assim, para Galileu, é necessário que os 
intérpretes não se atentem ao mero significado das palavras, mas que se esforcem para 
diferenciar e interpretar o sentido real delas, as quais não possuem o compromisso com 
a realidade física, mas com a moral e com a fé. Conseguinte a isso, Galileu conclui seu 
argumento da seguinte maneira 
visto, pois, que a Escritura, em muitas passagens, não apenas permite, mas 
necessariamente exige exposições diferentes do aparente significado das 
palavras, parece-me que nas discussões naturais ela deveria ser citada 
somente em última instância (GALILEI, 1988, p. 19 [282]). 
 
manter no freio os espíritos presunçosos, este Concílio decreta que ninguém, fundando-se no próprio 
juízo, em matéria de fé e de costumes que fazem parte da edificação da doutrina cristã, ouse interpretar a 
Sagrada Escritura, distorcendo-a segundo própria interpretação, contra o que sustentou e sustenta a santa 
madre Igreja, a quem compete julgar sobre o verdadeiro sentido e interpretação das Sagradas Escrituras, 
ou também contra o unânime consenso dos Padres”. Como se vê, o Concílio restringira essas normas às 
questões de fé e de moral. Para Galileu, o problema do movimento da Terra não era problema de fé” 
(FANTOLI, 2008, p. 154, nota 10). Este decreto pode ser encontrado também no seguinte endereço 
eletrônico: http://www.montfort.org.br/bra/documentos/concilios/trento/#sessao4. 
76 Além de Lorini, outro dominicano, o padre Tommaso Caccini, em 20 de março, depõe contra Galileu, 
também em decorrência da carta a Castelli. (MARICONDA, int., p. 16, in: GALILEI, 1985). 
77 “O holismo considera o significado de um termo ou sentença unicamente compreensível se for 
considerado em sua relação com uma totalidade linguística maior, através da qual adquire sentido” 
(DICIONÁRIO). 
 
47 
Com este primeiro argumento, Galileu já afirma a separação entre ciência e 
teologia, mostrando que esta última não pode servir de base para as conclusões em 
assuntos naturais, enquanto que faz na carta a primeira crítica ao princípio de 
autoridade.Com base nisso, segundo Mariconda, pode-se afirmar que 
o argumento introdutório de Galileu prepara o ataque à aplicação do princípio 
de autoridade teológica sobre as questões naturais, porque questiona a própria 
base ortodoxa que, no caso da compatibilidade entre Copérnico e a Bíblia, 
assenta-se numa interpretação literal do relato bíblico (MARICONDA, int., 
p. 30, in: GALILEI, 2011). 
Considerando, então, que a incompatibilidade entre natureza e as Escrituras é 
derivada da má interpretação destas, quando os intérpretes se atentam ao mero sentido 
literal das palavras, por sua vez, se bem interpretadas, tais proposições são concordantes 
com as demonstrações científicas. Portanto, 
sempre que um resultado e uma passagem das Escrituras parecem estar em 
conflito, essa aparência de conflito sempre pode ser removida por meio de 
interpretações apropriadas: ou o juízo científico foi inadequadamente 
confirmado (“demonstrado”) ou a passagem escritural foi incorretamente 
interpretada (MARICONDA; LACEY, 2001, p. 59). 
Dado que é indispensável a exegese das sentenças bíblicas para a superação da 
dificuldade imposta por estas sentenças, neste argumento introdutório de Galileu 
também se encontra a distinção de duas linguagens, isto é, a linguagem ordinária e a 
linguagem científica (MARICONDA, int., p. 30, Ibid.). A linguagem das Escrituras é 
diferente da linguagem científica. Aquela é uma linguagem corrente, “ambígua e repleta 
de imprecisões” (Ibid.), voltada para o homem ordinário; enquanto a linguagem 
científica é uma linguagem rigorosa, demonstrativa e, sobretudo, matemática. 
 Ademais, quando na passagem bíblica de Josué78 em que é escrito que o Sol 
parasse de se mover, de acordo com Galileu, tal efeito não é o real, mas simplesmente o 
que está voltado para o entendimento comum. Pois, esta linguagem ordinária, é voltada 
para os que procuram a salvação. Assim, de acordo com Mariconda, “Deus, quando 
ditou as Escrituras pela boca do Espírito Santo, para fazer-se entender pela audiência a 
que se dirigia, tinha de usar a linguagem comum que é a única que o homem comum 
entende” (MARICONDA, int., p. 30-31, Ibid.). Em contrapartida, a linguagem 
 
78 Eis a passagem de Josué 10,12: “Então Josué falou ao Senhor, no dia em que o Senhor entregou os 
amorreus às mãos dos israelitas. Na presença de Israel, ele exclamou: “Sol, detém-te sobre Gabaon, e tu, 
lua, sobre o vale de Aialon!”. E o sol se deteve, e a lua parou, até que o povo se vingasse dos inimigos. É 
o que está escrito no Livro do Justo. Parou, pois, o sol no meio do céu e não se apressou a descer pelo 
tempo de quase um dia.” (BÍBLIA SAGRADA, CNBB). 
 
48 
científica possui o compromisso com explicação da estrutura da natureza. Ela está 
voltada para a exatidão física. No entanto, mesmo assim não contradiz as Escrituras, 
pois “a verdade é uma, mas as linguagens para exprimi-la são duas” (MARICONDA, 
int., p. 31, Ibid.). 
Ainda de acordo com Mariconda, “essa distinção entre dois tipos de linguagens 
ou discursos serve também ao propósito de elaborar outra distinção entre dois tipos de 
disciplinas: as ético-religiosas e as naturais” (MARICONDA, int., p. 31, Ibid.). De tal 
modo que as primeiras ensinam sobre a salvação e as segundas ensinam sobre a 
natureza, não cabendo a nenhuma das duas interferir no domínio da outra. Para Galileu, 
se as Escrituras não podiam julgar conclusões naturais, o mesmo se dava com a ciência, 
a qual não tinha competência para julgar as matérias de fé. Conforme Mariconda, “a 
linguagem da ciência não pode ser empregada normalmente na comunicação comum e 
carece dos aspectos necessários para o discurso teológico” (MARICONDA; LACEY, 
2001, p. 61). Contudo, embora não possam julgar as matérias de fé, as conclusões 
naturais devem, isso sim, clarear seu verdadeiro sentido, como se pode notar no 
argumento que se segue. 
Continuando, então, Galileu apresenta outro argumento, derivado do primeiro. 
Neste segundo argumento, Galileu reforça o motivo das passagens das Escrituras 
exigirem exposições diferentes. Segundo ele, 
a fim de adaptarem-se ao entendimento de todos, e sendo, todavia, a natureza 
inexorável, imutável e indiferente a que suas recônditas razões e modos de 
operar sejam acessíveis ou não ao entendimento dos homens, razão pela qual 
jamais transgride os termos das leis a ela impostas, parece-me que o 
concernente aos efeitos naturais, que a experiência sensível coloca-nos diante 
dos olhos, ou que as necessárias demonstrações comprovam, não deva de 
maneira alguma ser colocado em dúvida pelas passagens da Escritura devido 
ao fato de haver nas palavras uma aparência de significado diferente. Pois 
nem toda afirmação da Escritura amarra-se a uma obrigação tão severa como 
cada efeito da natureza (GALILEI, 1988, p. 19, [283]). 
Para Galileu, certas passagens nas Escrituras são de tal maneira para 
acomodarem-se ao entendimento do povo. Assim, estas palavras não estão em função de 
representar verdadeiramente a natureza. E por conta disso, as conclusões naturais não 
podem ser colocadas em dúvida por elas. Neste segundo argumento, é importante notar 
que Galileu apresenta a primeira formulação do critério especial sobre o qual se baseia a 
autonomia da ciência: “as conclusões que a experiência sensível fornece e que as 
necessárias demonstrações comprovam, não devem ser colocadas em dúvida pelas 
 
49 
passagens das Escrituras” (Ibid., grifo meu). Em outras palavras, as conclusões naturais 
não podem ser submetidas ao julgamento teológico. Ressalta-se que este critério é 
determinante no pleito da autonomia da ciência por Galileu, pois é sobre ele que será 
assentada a autossuficiência do método científico, isto é, método matemático. E por fim, 
Galileu afirma que 
quando a Sagrada Escritura falou sobre estas coisas criadas, não se referiu à 
finalidade principal delas, usando de termos que, caso manifestassem a 
verdade crua e descoberta, deturpariam mais rapidamente a intenção 
fundamental, pois talvez tornassem o vulgo arredio às persuasões dos artigos 
concernentes à salvação (GALILEI, 1988, p. 19 [283]). 
Essa intenção fundamental é justamente a fé. Isto é, as Escrituras não foram 
escritas para tratarem de ciência, mas sim da salvação da alma, considerando, assim, a 
distinção das duas linguagens. De modo que, se as Escrituras falassem fielmente da 
estrutura física do mundo, sua finalidade real seria deturpada, visto que sua linguagem 
deve ser dirigida às questões de fé e não ao conhecimento científico. Uma vez fieis ao 
físico, as expressões escriturais não concordariam com a capacidade de entendimento do 
povo. “Além de que seria desrespeitoso com a própria escritura utilizá-la para fins aos 
quais não foi destinada” (NASCIMENTO, int., p. 13, in: GALILEI, 1988). Portanto, 
essa distinção das duas linguagens é essencial para o pleito da autonomia da ciência, 
pois delimita o domínio do discurso de ambas “disciplinas”, além de distinguir as suas 
particulares funções. Acrescentando-se a isso, segundo Mariconda, 
[...] dado que a ciência emprega um método autônomo para aferir a verdade 
das concepções naturais, que é também o único método acessível à 
capacidade humana, as conclusões naturais devem não só prevalecer sobre a 
letra da Escritura, mas também servir de base para a determinação de seu 
verdadeiro sentido (MARICONDA, int., p. 33, Ibid.). 
Conforme a isso, como indiquei logo menos sobre as conclusões científicas 
serem “guias” da exegese bíblica, Galileu considera que 
é função dos sábios expositores e intérpretes empenharem-se em estabelecer 
o verdadeiro sentido das passagens sagradas, de forma a concordarem elas 
com as conclusões naturais acerca das quais o sentido ou as necessárias 
demonstrações tornaram-nos certos e seguros (GALILEI, 1988, p. 19-20 
[283]). 
Note-se novamente o critério. As necessárias demonstrações, juntamente com asexperiências sensatas, são o que determina as conclusões naturais, sendo por elas que se 
obtém o grau de certeza. Em resumo, neste segundo argumento, Galileu trata da 
 
50 
distinção das finalidades e funções da ciência e das Escrituras, respondendo, dessa 
forma, às dificuldades por elas impostas ao copernicanismo. 
 Até aqui já temos condições de identificar que Galileu é contra a interferência da 
fé no conhecimento científico. É bom reiterar, segundo ele, que as Escrituras devem ser 
interpretadas sob sua própria natureza, como um texto moral, e não como um texto 
sobre filosofia natural. Isso nos mostra a reivindicação galileana para a autonomia da 
ciência. O fazer científico, de acordo com ele, deveria estar separado da teologia, pois, 
“a ciência matemática da natureza possui um método independente (autônomo) de aferir 
a verdade e de chegar a decisões racionais nas polêmicas acerca de questões naturais” 
(MARICONDA, int., p. 32, Ibid.). Por isso, então, segundo Mariconda, “ela não precisa 
apoiar-se em nenhuma autoridade exterior a sua própria esfera de competência” (Ibid.). 
Mais adiante veremos como é que o critério de “experiências sensatas e demonstrações 
necessárias” determina a pesquisa científica para Galileu. De certo, ainda conforme 
Mariconda, 
a distinção clara entre ciência e fé, traçada de modo que o domínio científico 
fica separado do domínio moral e religioso, que a ciência é distinta e 
independente da moral, em suma, que existe uma distinção entre fato e valor; 
constitui um dos traços marcantes da cultura da modernidade 
(MARICONDA, int., 2011, p. 30 in: Ibid.). 
Essa distinção entre fato e valor é afirmada por Mariconda como essencial para o 
pleito da autonomia da ciência, porque “a autonomia refere-se à carência (ou ausência) 
de um papel legítimo para os fatores de fora (externos) (tal como valores sociais, 
crenças religiosas e ideológicas e o ‘testemunho de autores’) para as práticas internas da 
metodologia científica” (MARICONDA; LACEY, 2001, p. 50). Dessa forma, para 
Galileu, a ciência basta a si mesma, na medida em que é produzida sob critérios 
independentes de valores (interferência externa). E é justamente isso que caracteriza a 
Revolução Científica dos séculos XVI-XVII, a qual se faz também pela recusa da 
autoridade da tradição (mas veremos adiante que há um ‘porém’). Contudo, só a 
independência de valores, embora possa reivindicar, não é suficiente para assegurar a 
autonomia da ciência. Por isso, é necessário saber o que Galileu realmente queria dizer 
com “experiências sensatas e demonstrações necessárias”, critério este, como já foi dito 
anteriormente, está diretamente relacionado com a autossuficiência do método 
científico. 
 
51 
 Assim como na conclusão do primeiro argumento da carta a Castelli, Galileu 
argumenta novamente contra o princípio de autoridade. Após reiterar que “duas 
verdades não podem jamais se contradizer” e que os intérpretes deveriam tentar 
estabelecer o verdadeiro sentido das passagens bíblicas, Galileu, afirmando mais 
claramente sua posição em relação a tal princípio, escreve assim: 
Não nos sendo possível assegurar com absoluta certeza que todos os seus 
intérpretes falam sob inspiração divina, eu acredito que seria prudente não 
permitir a ninguém o emprego das passagens das Escrituras de forma que 
venham a sustentar como verdadeiras algumas conclusões naturais, quando a 
experiência racional e necessária evidenciar o contrário (GALILEI, 1988, p. 
20, [283, 284]). 
Note-se que neste terceiro argumento, Galileu formula o tal critério da 
autonomia científica como “experiência racional e necessária”, indicando 
explicitamente que a ciência basta a si mesma também enquanto proveniente da razão, 
tendo esta faculdade, a primazia na qualificação da natureza sob as conclusões 
necessariamente demonstradas conforme as experiências sensatas. 
Não obstante, a ousadia de Galileu em adentrar no campo da teologia ao julgar 
como se deve interpretar as Escrituras não é gratuita. O que ocorre na realidade é a 
retórica de Galileu respondendo ao movimento dos teólogos ao furtarem-se para as 
Escrituras quando não mais conseguiam disputar com Galileu ‘em filosofia’. Dessa 
forma, como vimos, ele busca refutar os teólogos com base na exegese. Por 
conseguinte, Galileu afirma: 
Eu acredito antes que a autoridade das Letras Sagradas tenha tão-somente o 
objetivo de persuadir os homens daqueles artigos e proposições que, sendo 
necessários à sua salvação e colocando-se acima de qualquer possibilidade da 
mente humana, não possam fazer-se críveis por nenhum outro meio senão 
pela palavra do próprio Espírito Santo (GALILEI, 1988, p. 20, [284]). 
Aqui, mais uma vez, mediante a crítica do princípio de autoridade, temos Galileu 
distinguido a finalidade (ou função) das Escrituras: persuadir os homens quanto à sua 
salvação. E que essa é a verdadeira e única finalidade de tal texto. Sem dúvida, esta 
passagem é bem explícita quanto ao lugar da autoridade das Escrituras, “lugar” este, que 
para Galileu, é delimitado por uma finalidade e assentado numa linguagem específica 
(ordinária e de simples entendimento). Em relação a isso, Galileu afirmaria na carta a 
Cristina de Lorena: “a intenção do Espírito Santo é ensinar-nos como se vai para o céu e 
não como vai o céu” (GALILEI, 1988, p. 52, [319]). 
 
52 
Por conseguinte, na carta a Castelli, Galileu também afirma que Deus não dotou 
o homem de razão para que seu uso fosse desprezado. Diz ele: “não penso que seja 
necessário acreditar que Deus que nos dotou de sentidos, de razão e de intelecto, tenha 
querido, desprezando o seu uso, dar-nos por outro qualquer meio as notícias que 
podemos obter através deles” (GALILEU, 1988, p. 20, [284]). Isto é, se Deus nos dotou 
com tais faculdades, então estas mesmas devem ser aproveitadas, tanto no entendimento 
da natureza, como também na interpretação correta das passagens escriturais. Com 
efeito, constata-se claramente neste trecho a defesa da autonomia da razão – o que está 
diretamente relacionado com a autonomia da ciência – em Galileu. De acordo com ele, a 
razão é necessária e, mediante a experiência, suficiente para o entendimento da 
natureza, de modo que não é necessário outro meio para tal entendimento. Nesse 
sentido, de acordo com Mariconda, “o que Galileu faz é reivindicar a suficiência do 
método científico para decidir acerca das questões naturais, para as quais se pode usar a 
experiência, o discurso e o intelecto, em suma, para as quais se pode empregar a razão 
natural” (MARICONDA, int., p. 33, Ibid.). Dado isso, consequentemente se torna 
ilegítima a autoridade das Escrituras nas questões naturais. 
 Conquanto, outro fator que deslegitima a autoridade das Escrituras nos assuntos 
naturais, segundo Galileu, é a irrisória existência de trabalho astronômico nestas. Isto é, 
não se encontra nas Escrituras um trabalho rigoroso sobre astronomia, com um catálogo 
ou mesmo um inventário de todos os corpos celestes e de seus movimentos, por 
exemplo, como um digno trabalho de astronomia faria. De fato, conforme o seguinte 
argumento de Galileu: 
Se os primeiros escritores sacros tivessem a intenção de instruir o povo sobre 
as disposições e os movimentos dos corpos celestes, não teriam dedicado a 
tal assunto um tratamento tão restrito que é como se nada fosse em 
comparação com as infinitas, admiráveis e altíssimas conclusões que tal 
ciência contém (GALILEI, 1988, p. 21, [284,285]. 
Dessa forma, o que se encontra nas Escrituras sobre os corpos celestes não se 
compara ao tratamento dado a eles pela “tal ciência” (astronomia). E que se a função 
daquela fosse ensinar os homens sobre os astros, deveria então, tratar com detalhe de tal 
assunto como a astronomia faz. Concomitantemente, é bom sublinhar os adjetivos 
utilizados por Galileu – “infinitas”, “admiráveis”, “altíssimas” – ao se referir às 
conclusões da astronomia. Pode-se entenderque essa é uma forma retórica de Galileu 
valorizá-la, bem como mostrar que objeto de estudo dela deve ser tratado com a devida 
 
53 
atenção e detalhamento. Ora, as conclusões são infinitas tendo em vista as potenciais 
novas descobertas; as quais são admiráveis (espantosas), como visto no Sidereus 
Nuncius; e altíssimas, ao considerar sobre o quê concluem – a estrutura do firmamento – 
e sendo ao mesmo tempo a manifestação da natureza ela mesma conforme Deus criou 
(assim, de acordo com Galileu). Pois com o advento do telescópio, tais conclusões se 
tornam mais precisas, as quais passam a ser controladas por um método específico, de 
tal modo baseado no critério das “experiências sensatas e demonstrações necessárias”. 
Portanto, esse argumento reforça a função reservada para as Escrituras, a qual não foi 
escrita para tratar de astronomia, e por conta disso, seu julgamento não pode ter força 
assertória sobre a estrutura do céu. 
 Veja que cada argumento de Galileu na Carta a Castelli estabelece os limites 
das Escrituras e aponta (mesmo que indiretamente) para o critério supramencionado. 
Como já foi afirmado, a autonomia da ciência não decorre do simples fato de ser julgada 
independente da teologia, isto é, por não poder ser submetida à fatores externos. Com 
efeito, deve se estabelecer um fundamento sobre o qual essa autonomia se assenta, o que 
se constitui, como irei argumentar mais adiante, com um pressuposto tripartite: lógico 
epistemológico e ontológico. Em vista disso, adianto desde já, que é preciso ter em 
mente, em primeiro lugar, um manuscrito de Galileu intitulado Tractatio de 
praecognitionibus et praecognitis & Tractatio de demonstratione (conhecido sob a sigla 
MS 27)79 e a obra Il Saggiatore que Galileu publica em 1623. Mostrarei que esta última 
obra, embora seja posterior à polêmica teológica-cosmológica, traz em si dois 
argumentos que explicam o critério da “demonstração necessária” na perspectiva 
epistemológica e ontológica, pois Galileu não nos explica o que é esse critério nas cartas 
polêmicas, cabendo, então, fazer essa análise comparativa para que possamos saber o 
 
79 Este manuscrito é um ensaio de lógica de Galileu apropriando-se dos Analíticos Posteriores de 
Aristóteles, escrito com base nos cursos de lógica do Collegio Romano. Segundo William Wallace, as 
principais fontes de Galileu foram outros manuscritos dos professores de lógica desta instituição, entre 
eles, as notas de Vallius sobre esta mesma obra de Aristóteles, e o próprio Carbone, o qual foi suspeito de 
ter plagiado Vallius. Também o curso de Lorinus e inclusive a influência de Zabarella. Wallace também 
argumenta a respeito da data de redação deste manuscrito de Galileu, o qual, justificado por ele, foi 
escrito entre 1588 e 1592, quando Galileu ainda lecionava em Pisa. Em síntese, este manuscrito de 
Galileu (que na verdade é dividido em dois), tem como primeiro tema ou parte o tratamento da 
presciência e do conhecimento dos princípios. A segunda parte trata das demonstrações, sendo esta 
mesma, o que é importante para esta monografia. Veremos que este tratado das demonstrações pode ser 
usado para explicar o significado do critério de “demonstrações necessárias” pela perspectiva lógica. Vale 
ressaltar ainda que há outra tradução deste manuscrito feita por Adriano Carugo e Alistair Crombie, mas 
que não tive acesso. Desta, li apenas os comentários citados por Maurice Clavelin em seu artigo A 
revolução galileana: revolução metodológica ou teórica?. Dessa forma, irei me utilizar da tradução de 
Wallace que tive acesso direto e dialogarei com a análise de Clavelin com base em Carugo e Crombie. 
 
54 
que significa tal critério. Em contrapartida, a perspectiva lógica será extraída dos 
fragmentos do MS 27 e que a outra parte do critério, as “experiências sensatas”, pode 
ser explicada80 com base no Sidereus Nuncius. 
 Nesse meio tempo, por conseguinte, voltando à argumentação de Galileu na 
Carta a Castelli, temos a continuação. Mais uma vez, questionando a interpretação das 
Escrituras e sua autoridade nos assuntos naturais, Galileu toca em um ponto importante, 
o qual será fundamental na réplica à Bellarmino. Assim, Galileu diz: 
veja, portanto, V. Rev.ª, salvo engano meu, quão erradamente procedem 
aqueles que, nas discussões naturais, contendas que não são diretamente “de 
Fide”, colocam imediatamente em evidência as passagens da Escritura, 
frequentemente por eles mal compreendidas (GALILEI, 1988, p. 21, [285]). 
Ou seja, nas questões que não são “de Fide” (de fé) as Escrituras não podem 
tomar parte. Pois, se são utilizadas em tais assuntos, é porque não foram devidamente 
interpretadas. Sem dúvidas, o ataque à interpretação equivocada das Escrituras pelos 
padres é de suma importância na argumentação de Galileu, pois ele mostra que antes de 
possuir qualquer efeito sobre as conclusões naturais, as palavras escriturais devem 
passar pelo escrutínio. Contudo, com o propósito de fazer valer essa objeção, Galileu 
lança um “desafio”, de tal modo argumentando com base nas práticas do trivium (ver 
nota 5). Diz ele: 
Mas, se essas pessoas acreditam realmente possuir o verdadeiro sentido de 
determinada passagem da Escritura e, por consequência, se acreditam seguras 
de possuir a absoluta verdade da questão que pretendem debater, que me 
digam então, sinceramente, se elas julgam que aquele que defende a verdade 
em uma discussão natural tem grande vantagem sobre o outro a quem se 
atribuiu a defesa do falso. Sei que me responderão que sim: que aquele que 
sustém a parte verdadeira poderá ter mil experiências e mil demonstrações 
irrefutáveis em seu apoio, e que o outro não pode apresentar senão sofismas, 
paralogismos e falácias. Mas se eles, atendo-se exclusivamente aos termos 
naturais e não lançando mão de outras armas que não as filosóficas, sabem 
ser tão superiores ao adversário, porque então no momento da discussão 
lançam subitamente mão de uma arma tremenda, cuja simples visão 
aterroriza o mais hábil e esperto campeão? Eu creio que eles próprios é que 
são os primeiros aterrorizados e que, sentindo-se incapazes de sustentar os 
ataques do adversário, procuram encontrar um meio de não deixar-se 
encurralar (GALILEI, 1988, p. 21, [285]). 
 
80 Como já indiquei na nota 2, a grande obra científica de Galileu é o Discursos, de 1638. É nesta obra 
que ele apresenta as argumentações mais técnicas, como por exemplo, a experiência do plano inclinado e 
o teorema da queda dos corpos, de tal modo explorando rigorosamente as experiências sensatas. No 
entanto, prefiro, por questões práticas, explicar esta parte do critério com o Sidereus Nuncius, pois esta 
obra é suficiente para lançar luz sobre o que Galileu queria dizer com experiências sensatas, além de que 
como já foi analisada no primeiro capítulo desta monografia, o leitor pode acompanhar a narrativa com 
mais cuidado. 
 
55 
Note-se neste argumento como é feito o ataque ao princípio de autoridade. O 
ataque agora é direcionado à própria capacidade argumentativa e conhecimento 
científico dos padres e teólogos (alguns deles), pois estes, não conseguindo mais se 
sustentar em filosofia, buscam o refúgio na Bíblia, a qual é tomada como um baluarte. E 
é notável também a ironia de Galileu em explicitar a limitação destes homens nas 
contendas sobre a natureza. Pode-se dizer até, conforme Galileu, que tais pessoas estão 
“aterrorizadas” desde 1610, com o Sidereus Nuncius, dado o impacto causado por tal 
obra na tradição astronômica e cosmológica. Enquanto que o “desafio” que Galileu 
lança é justamente o de mostrar que se os conservadores defendem a posição verdadeira, 
então eles têm a vantagem no debate, pois, no caso, possuiriam as razões certas ao seu 
favor. Logo, não faz sentido eles se “esconderem” sob as letras escriturais. Basta que 
saibam argumentardessa doutrina, qual é a ciência específica pela qual tal doutrina 
foi construída? Só pode ser a astronomia, cujo modus operandi é revolucionado pelo 
próprio Galileu em 1610, donde temos a primeira publicação de Galileu: o Sidereus 
Nuncius. Ao usar o telescópio para observar o céu e colocar em prática primitivamente 
o método experimental, Galileu cria um novo conceito de astronomia e é justamente na 
criação deste novo conceito que temos a gênese do pleito da autonomia da ciência em 
 
8 
particular e da polêmica teológica-cosmológica no geral. Segundo a distinção biográfica 
de Mariconda, após a publicação do Sidereus Nuncius, Galileu dá início ao período 
polêmico de sua vida, o qual começa em 1610 e se encerra em 1632 com a publicação 
do Dialogo. 
 Mediante o exposto, reforço que o primeiro capítulo desta monografia trata do 
Sidereus Nuncius, de tal modo que faço uma análise detalhada de grande parte dos 
argumentos que compõe a obra e sua função na propaganda copernicana. Isso está em 
função de se encontrar a gênese do pleito da autonomia da ciência. Essa gênese, eu 
identifico como um espectro. Entende-se aqui uma metáfora com a luz. Assim, o 
capítulo 1 é dividido em três tópicos, cada um dos quais eu me dedico a aspectos 
diferentes da obra. No tópico 1.1 eu trato dos propósitos de Galileu com o Sidereus 
Nuncius. No tópico 1.2 eu trato da criatividade de Galileu, sendo neste ponto específico 
onde procuro identificar o espectro da autonomia da ciência. No tópico 1.3 eu trato do 
significado de “mensagem das estrelas”, sendo essa uma das possíveis traduções para o 
nome em latim do título da obra. Basicamente, faço uma análise semântica desta 
expressão para mostrar o que foi de fato o significado do Sidereus Nuncius enquanto 
defensor do Copernicanismo e seu significado histórico enquanto inaugurador de uma 
campanha. 
Por conseguinte, abre-se o capítulo 2. Como indiquei, é neste capítulo que 
desenvolvo meu problema, enquanto no primeiro eu me dedico a encontrar o referido 
espectro do pleito da autonomia da ciência. Com efeito, neste segundo capítulo eu trato 
da reivindicação e da própria autonomia da ciência, partindo da Carta a Castelli. Dessa 
forma, o tópico 2.1 é no qual se trata da reivindicação da autonomia da ciência por 
Galileu, o que faço analisando todos os argumentos dele na sua carta, detalhando os 
pontos sobre o que ele argumenta, como por exemplo, o princípio de autoridade; a 
distinção das funções das Escrituras e da ciência, a concordância de duas verdades etc. 
Após a análise desta carta, há o tópico 2.2. Este tópico é o núcleo do presente trabalho. 
Pois é nele que examino a estrutura conceitual do pleito da autonomia da ciência, ou 
seja, é neste tópico que eu trato da autonomia da ciência propriamente, de tal modo que 
tomo como hipótese o critério especial formulado na Carta a Castelli: “as experiências 
sensatas e demonstrações necessárias”. Procuro mostrar que o significado de 
“demonstrações necessárias” se assenta em um pressuposto tripartite (lógico, 
epistemológico e ontológico), a partir do que se pode determinar em que medida a 
 
9 
ciência que Galileu defende é autônoma. Para isso, desenvolvo uma análise relacional 
entre a Carta a Castelli e duas outras obras de Galileu, sem as quais não se poderia 
saber ao certo o que este critério especial significa. Estas obras são: um manuscrito de 
lógica de Galileu, intitulado Tractatio de demonstratione (também conhecido sob a 
sigla MS 27), datado de 1588-1592, que na realidade é parte de um manuscrito maior 
composto por uma primeira parte que se intitula Tractatio de praecognitionibus et 
praecognitis. No entanto, só a segunda parte deste manuscrito nos interessa, onde 
Galileu trata da definição de demonstração; e a outra obra relacionada é o Il Saggiatore, 
datado de 1623, onde Galileu apresenta dois argumentos metafísicos (pitagórico-
platônicos), a partir dos quais é possível compreender a primeira parte do critério 
especial. O Tractatio de demonstratione é utilizado na narrativa para que se possa 
explicar o significado do critério especial pela perspectiva lógica. Já com os referidos 
argumentos do Il Saggiatore, se explica tal significado pela perspectiva ontológica e 
epistemológica. Sobre o significado de “experiências sensatas” argumentarei que se 
pode compreendê-lo pela análise da nova astronomia do Sidereus Nuncius. 
 Por último, chega-se ao terceiro capítulo, no qual trato da intervenção de 
Bellarmino na polêmica teológica-cosmológica e seu desfecho pelo decreto de 1616. 
Procuro mostrar quão importante é o papel desempenhado por Bellarmino na contramão 
da autonomia da ciência. Dessa forma, no tópico 3.1 trato da Carta a Foscarini, na qual 
Bellarmino decide sobre o Copernicanismo asseverando para tal doutrina o princípio 
instrumentalista. O que é algo que Galileu considera ser totalmente contrário à 
autonomia da ciência. No tópico 3.2 trato da censura do Copernicanismo mediante o 
decreto de 1616. Dessa forma, o terceiro capítulo indica que, embora o processo da 
autonomia da ciência ocorra, com a censura do Copernicanismo, tal autonomia não 
poderia ter se concluído imediatamente, visto que a doutrina da nova ciência fora 
condenada. No entanto, o conhecimento histórico e filosófico do caso se dá pela 
compreensão de que a própria reivindicação já se configura como algo concreto 
manifestando-se na história e determinando o futuro da ciência. Seria apenas uma 
questão de tempo, talvez não muito curto, até que, de fato, a autonomia da ciência em 
relação à teologia se efetivasse, o que teve como ponto de partida a própria 
reivindicação galileana. 
É bom ressaltar que, o trabalho científico de Galileu se desenvolve em relação à 
uma outra coisa, que é justamente a tradição. Ou seja, a autonomia da ciência se 
 
10 
conquista diante de uma tradição. Tradição esta que vem desde os gregos antigos. 
Ademais, tal tradição está para Galileu ora como “modo de não fazer”, ora como “modo 
de fazer”. Já adiantando, por exemplo, de um lado, a lógica aristotélica tradicional está 
para Galileu como “modo de fazer”. De outro, a filosofia natural aristotélica tradicional 
está para Galileu como “modo de não fazer”. Tendo isso em vista, a discernibilidade da 
influência de Aristóteles em Galileu é importante. 
Ressalva-se que, em se tratando de um trabalho monográfico sobre Galileu, 
neste aqui, curiosamente, nomes de intérpretes e comentadores como Antonio Favaro, 
Stillman Drake, Richard Blackwell, Pierre Duhem, Fátima Évora, Maurice Finocchiaro 
e Pietro Redondi não aparecerão ao longo destas linhas. Isso não decorre de simples 
escolha, mas por questões materiais e, sobretudo, pragmáticas. Sem dúvidas que uma 
pesquisa de pós-graduação exigiria a utilização destes comentadores supracitados. No 
entanto, neste trabalho de graduação aparecerão nomes como Alexandre Koyré, Pablo 
Mariconda, William Wallace, Maurice Clavelin, Paolo Rossi, Alistair Crombie, o que já 
compensa talvez na mesma medida a falta dos outros. De fato, para meus propósitos, os 
comentadores e intérpretes de Galileu que me utilizei foram suficientes para eu 
desenvolver o problema proposto. Então, considere-se que a ausência dos comentadores 
e intérpretes do primeiro grupo mencionado se deveu principalmente ao fato da 
dificuldade de acesso a tal bibliografia. Dificuldade esta que pode ser superada com 
mais tempo de estudo e preparação. Mas que esta ausência fique clara. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
11 
Capítulo 1. A gênese da polêmica teológica-cosmológica 
Quando Galileu se torna uma figura pública? Quando é que ele aparece diante da 
Companhia de Jesus – a égide do saber no século XVII – como um impacto (e um 
adversário em potencial da tradição)? A resposta para este “quando” é: 1610. Em 13 de 
março daquele ano, Galileu publicou seu Sidereus Nuncius (Mensagem das Estrelas)1, 
obra na qual relata as descobertascom a destreza característica da filosofia e com o conhecimento do 
procedimento científico. Porém, como se pode perceber até aqui, não é isso que ocorre. 
Tanto que a polêmica teológica-cosmológica é exatamente a investida dos padres na 
questão copernicana com uma postura de rescisão do debate mediante tal autoridade 
descrita aqui exaustivamente. 
Por conseguinte, caminhando para a finalização de sua carta, Galileu diz assim: 
“para comprovação do que foi afirmado examinarei a passagem específica de Josué, 
através da qual apresentastes três conclusões a suas Altezas Sereníssimas” (GALILEI, 
1988, p. 22). Lembrando que Galileu tem como interlocutor Castelli, assim, quem 
apresentou tais conclusões sobre a referida passagem foi tal homem, no banquete no 
palácio grão-ducal. De tal modo que Galileu, agora, argumentaria em vista disso. Sendo 
tal argumentação final, em função de comprovar o afirmado sobre a posse da vantagem 
de quem defende a posição verdadeira na contenda. 
Seguindo, então, Galileu formula uma última argumentação, na qual “dedica-se 
a uma operação de concordismo entre o sistema copernicano e o texto bíblico que não é 
dos aspectos mais felizes de suas propostas referentes às relações entre ciência e a 
revelação bíblica” (CHAVES, p. 22, nota 4, in: GALILEI, 1988). Isso ocorre porque 
Galileu se atrapalha (ou simplesmente abusa da retórica negativa) ao tentar mostrar que 
a passagem bíblica de Josué contradiz o próprio sistema ptolomaico. Considerando isso, 
segue o argumento: 
Tendo eu, portanto, descoberto e logicamente demonstrado que o globo do 
Sol se movimenta em torno de si mesmo, fazendo uma inteira evolução em 
 
56 
um mês lunar, aproximadamente na exata direção em que se processam todas 
as outras evoluções celestes; e sendo, ainda mais, muito provável e razoável 
que o Sol como instrumento e regente máximo da natureza, quase coração do 
mundo, dê não somente, como claramente dá, a luz, mas também o 
movimento aos planetas que giram em torno dele; e se, conforme a tese de 
Copérnico, atribuirmos principalmente à Terra a evolução diurna; quem não 
vê que para deter todo o sistema bastou deter o Sol, como exatamente 
indicam as palavras dos texto sagrado, sem alterar o restante das recíprocas 
relações dos planetas, alterando somente o espaço e o tempo da iluminação 
diurna? (GALILEI, 1988, p. 24, [287/288]). 
Antes de chegar a esse ponto, Galileu afirma estranhamente que o dia e a noite 
não dependem do movimento do Sol, mas sim do movimento do primeiro móvel81. 
Sendo dependentes do Sol apenas as estações e o próprio ano. Supondo então, que Deus 
tivesse detido o Sol, na verdade, o que ocorreria seria o encurtamento do dia e não o 
prolongamento, como Josué desejava. Pois, segundo Galileu, 
sendo o movimento do Sol contrário ao da evolução diurna, quanto mais o 
Sol se movesse em direção ao oriente tanto mais seria retardado o seu curso 
em direção ao ocidente; e, diminuindo-se ou anulando-se o movimento do 
Sol, em tanto mais breve tempo ele atingiria o ocaso [...] (Ibid., p. 23). 
Sem dúvidas, Galileu está fazendo uma confusão (se é proposital ou não, não 
vem ao caso) com um suposto duplo movimento do Sol, isto é, Galileu afirma que o 
sentido da rotação do Sol, sendo contrário ao sentido do movimento de oriente a 
ocidente, faria com que, parando o Sol (a rotação), ele chegasse ao ocaso mais 
rapidamente, pois não haveria tal movimento que sopesasse seu curso pelo céu. Logo, 
sem a rotação o Sol “deslizaria” pelo céu mais rapidamente até se pôr; e assim, o dia 
seria mais curto, e não mais longo. Afora outros detalhes, o que Galileu pretende é 
persuadir os padres quanto uma contradição entre o próprio sistema ptolomaico e as 
Escrituras, o fazendo com esse argumento que é no mínimo embaraçoso. 
Todavia, Galileu está certo em dizer que o Sol se move em torno de si mesmo e 
que o movimento dos planetas decorre deste movimento do Sol, tal como ele 
demonstrou nas cartas sobre as manchas solares, de 1612, na polêmica com o padre 
jesuíta Scheiner, já aludida no primeiro capítulo desta monografia. O problema aqui é 
outro. Disposto a conceder tudo do sistema ptolomaico aos adversários, Galileu se 
emaranha em uma argumentação circular, na qual ele já pressupõe que o Sol está no 
centro do mundo e que é ele o provedor de movimento de todos os orbes celestes. Dessa 
forma, acaba tendo que aplicar complexidade a astronomia e comete petição de 
 
81 Conforme a ordenação cosmológica aristotélica-ptolomaica, o primeiro móvel é a esfera mais alta ou 
mais externa do universo. Segundo Galileu, é “o céu altíssimo, que arrebata consigo o Sol e os outros 
planetas, e ainda a esfera estrelada” (GALILEI, 1988, p. 22, [286]). 
 
57 
princípio ao tomar como premissa o que quer concluir, de tal modo não sendo bem 
sucedido nesta tentativa de concordar as Escrituras com o sistema de Copérnico. 
O que podemos concluir disso, portanto, é que o próprio Galileu, com este 
último argumento, a fim de vencer os adversários a um custo dobrado, se valeu de uma 
retórica desmedida (falaciosa na pior das hipóteses) e não cumpre com a comprovação 
do afirmado sobre a vantagem da defesa da posição verdadeira em contenda, pelo 
menos com esse argumento final. No entanto, com os demais argumentos da carta a 
Castelli, Galileu já fora bem sucedido em fazer tal comprovação. Pois ele acerta 
brilhantemente em criticar o princípio de autoridade na justa medida da distinção das 
“duas linguagens” e junto a isso lançar mão do critério das “experiências sensatas e 
demonstrações necessárias”, o que já é, em princípio, necessário e suficiente para 
defender a realidade do copernicanismo, e consequentemente, o pleito da autonomia da 
ciência em relação à teologia. 
Doravante, o que se segue é um exame do significado do critério 
supramencionado, a partir do qual, chegaremos ao entendimento do que sustenta a 
autonomia da ciência em Galileu. 
 
2.2. Os significados do critério de “experiências sensatas e demonstrações 
necessárias” 
Como já foi afirmado, para compreendermos o que significa “experiências 
sensatas e demonstrações necessárias” é forçoso operar uma análise relacional entre a 
Carta a Castelli e outras três obras de Galileu, a saber, Sidereus Nuncius, Il Saggiotore, 
e o manuscrito Tractatio de demonstratione. Digo até que sem isso, não se saberia ao 
certo o que está por trás desse binômio que configura tal critério, o qual, como já 
indiquei, é a base em que a autonomia da ciência se fundamenta. 
Entretanto, no caso da obra Il Saggiatore, como ela poderia explicar o que 
significa tal critério se foi publicada posteriormente à carta a Castelli? Dada esta 
questão, é necessário justificar esse movimento narrativo que pretendo fazer. 
Em termos historiográficos, a presente monografia se situa no domínio da 
História da Ciência, e conjuntamente na História das Ideias e Intelectual. O que, de 
 
58 
acordo com José D’Assunção Barros (2007, p. 205), tem o “pensamento sistematizado” 
como objeto. Isso quer dizer que, a abordagem neste ato historiográfico se vale muito 
mais de implicações conceituais, do que materiais, pelo menos em princípio. Sem 
dúvidas, que as condições políticas e econômicas determinam as mais edificantes ideias 
científicas e isso82 é exatamente o que ocorre com Galileu. Porém, o que quero deixar 
claro é que para compreendermos o pensamento deste cientista, é fundamental 
entendermos os conceitos que preenchiam seu universo de discurso e que motivaram 
seu trabalho intelectual. Ora, tudo o que foi narrado até agora representa as 
controvérsias situadas dentro de uma campanha: a propaganda e defesa do 
copernicanismo; o que, além de ser uma doutrina cosmológica, é um conceito de 
ciência. Em vista disso, de acordo, com Mariconda, 
Dois aspectos são responsáveis pela fascinação e também pela reação e 
resistência produzidaspelo sistema heliocêntrico. O primeiro diz respeito ao 
elemento nevrálgico e essencial da história do pensamento sobre o qual age a 
chamada revolução copernicana. O segundo refere-se a uma espécie de forma 
pura, como que invariante, que permite caracterizar o copernicanismo como 
um tipo específico de postura científica e filosófica (MARICONDA, int., p. 
27, GALILEI, 2011). 
Esse “tipo específico de postura científica e filosófica” característica do 
copernicanismo é justamente o princípio da Revolução Científica dos séculos XVI-
XVII. Não é sem motivo que o marco desta grande revolução é o ano de 1543, quando 
Copérnico publica seu De revolutionibus. Nesse sentido, é o copernicanismo que 
inaugura o “paradigma”83 sob o qual a ciência moderna nasce. Nascimento este, 
provavelmente promovido pelo próprio Galileu. Mediante o exposto, pode-se dizer, 
então, que a Revolução Científica é caracterizada por uma mudança de paradigma, a 
saber, a mudança do fundamento84 do conhecimento do polo do objeto para o polo do 
sujeito. Isso significa que o primado do conhecimento passa a ser o sujeito, o qual é o 
 
82 Sobre as condições materiais que estão imbricadas com o pensamento da Galileu, podemos falar do 
próprio Sidereus Nuncius, que como vimos, tinha como um dos propósitos o pleito de um emprego na 
corte florentina, visando, além de tudo, vantagens pecuniárias. No entanto, embora determinante, esse 
fator não foi o principal na redação de tal obra. Muito menos o significado dela. Com efeito, o Sidereus 
Nuncius foi acima de tudo, a criação de um novo conceito de astronomia. 
83 Segundo Thomas Kuhn, “‘paradigma’ significa as realizações científicas universalmente reconhecidas 
que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de 
praticantes de uma ciência” (KUHN, 1978, p. 13). 
84 Para Aristóteles, o conhecimento se fundamenta nos objetos, de modo que a coisa é como parece ser. É 
a partir deles que se pode estabelecer as categorias. Segundo Mariconda, “a aparência, para Aristóteles, é 
constituída a partir de categorias que são como uma sintaxe do próprio ser das coisas e não dependem da 
maneira pela qual podemos conhecer essas coisas. Entende-se, assim, que a tese copernicana do 
movimento da Terra, ao descentralizar o observador e coloca-lo em movimento, terá um impacto de 
fundamental importância sobre o conjunto especificamente organizado da cultura, opondo-se diretamente 
ao conjunto do saber, da ciência, de religião e da opinião comum” (MARICONDA, int., p. 27-8, Ibid.). 
 
59 
agente do conhecimento. Dessa forma, o mundo se torna o objeto do conhecimento 
enquanto representação no entendimento, de modo que as propriedades das coisas 
representadas passam a ter seu valor de verdade pela relação que possuem com o 
entendimento, não mais como propriedades intrínsecas às coisas. Sendo isso, de tal 
modo, fundamental para que a ciência seja afirmada enquanto autônoma, pois com esse 
novo paradigma, o conhecimento do mundo passa a ter um modo necessário de 
proceder. Tal como Mariconda afirma: “Existe, portanto, um paradigma copernicano 
como conceito filosófico de uma nova forma de desenraizamento do mundo sensível. 
Esse conceito é construído a partir de uma nova concepção da aparência e envolve a 
descoberta da subjetividade” (MARICONDA, int., p. 28, Ibid.). Para o copernicanismo, 
a descoberta da subjetividade determinou o deslocamento da Terra do centro do 
universo, na medida em que provocou o questionamento da natureza humana. 
Assim sendo, por trás da Revolução Científica, que é, sobretudo, uma revolução 
epistemológica85 – em que ocorre a “inversão do polo” do conhecimento, colocando, 
desse modo, o sujeito como primazia do conhecimento da realidade – há uma nova 
ontologia. Ontologia esta, que aparece expressa na obra Il Saggiatore, mais 
especificamente, nos parágrafos § 6 e § 48, os quais apresentam uma ideia pitagórica 
que explica em uma perspectiva o porquê de o critério das “experiências sensatas e 
demonstrações necessárias” fundamentar a autonomia da ciência. Esta autonomia da 
ciência é defendida novamente no Dialogo, obra na qual Galileu “retoma” a campanha 
pelo copernicanismo, visto que a censura de 1616 implicou posteriormente que não se 
defendesse quovis modo (a qualquer modo) esta doutrina. Dessa forma, o Il Saggiatore 
que é de 1623, foi escrito sob esta condição de não poder defender o copernicanismo de 
modo algum. Assim, Galileu precisou trazer o pitagorismo-platonismo à luz do debate 
para que retoricamente pudesse permanecer defendendo o copernicanismo. Apesar 
disso, o Dialogo volta com a defesa explícita do copernicanismo e por isso mesmo é 
tido como a retomada da campanha por tal doutrina. Segundo Alexandre Koyré, 
o que constitui o verdadeiro assunto do Diálogo é o direito da ciência 
matemática, da explicação matemática da Natureza, em oposição à 
explicação não matemática do senso comum e da física aristotélica, muito 
mais do que a oposição entre dois sistemas astronômicos (KOYRÉ, 1982, p. 
166). 
 
85 Ressaltando que, quem faz a sistematização epistemológica é Descartes. Copérnico apenas inaugura o 
paradigma e Galileu o desenvolve cientificamente. Com efeito, a verdadeira fundamentação filosófica da 
Revolução Científica é feita por Descartes. 
 
60 
Veremos como essa explicação matemática da natureza está diretamente 
envolvida com as “experiências sensatas e demonstrações necessárias”. Para Koyré, a 
matematização da natureza é justamente o fator que faz de Galileu o provável fundador 
da ciência moderna, pois a revolução galileana é essencialmente uma revolução 
conceitual. Tendo em vista que essa matematização não se faz sem uma nova concepção 
ontológica. Pelo menos, uma que não implica qualidades, mas apenas quantificação 
geométrica. 
Considerando, então, que em História das Ideias e Intelectual pode-se 
metodologicamente fazer uma relação conceitual entre os documentos analisados, de tal 
modo construindo uma narrativa que correlacione os discursos do personagem analisado 
e assim reconstruir seu pensamento dentro de uma totalidade, a obra Il Saggiatore, 
mesmo sendo posterior a formulação do critério em questão, lança luz sobre o 
significado de tal critério, na medida em que trazem argumentos que balizam o discurso 
filosófico de Galileu. Dessa forma, quando falo de implicações conceituais e universo 
do discurso, em vista do pensamento de Galileu, falo sobre as relações de significado 
desenvolvidas dentro desta nova estrutura de pensamento implicada pela revolução 
copernicana. Portanto, quando Galileu falou de “experiências sensatas e demonstrações 
necessárias” na carta a Castelli, ele tinha em mente esse novo paradigma e que o 
significado desse critério só pode ser interpretado considerando a sistematização do seu 
pensamento, independentemente da ordem cronológica da publicação da mencionada 
obra de Galileu. Justifica-se, assim, a utilização do Il Saggiatore para explicar o critério 
em questão, pela perspectiva ontológica e epistemológica. 
Por enquanto, eis a explicação da primeira parte do critério – “experiências 
sensatas” – que pode ser explicada satisfatoriamente com base no Sidereus Nuncius. 
Como vimos no primeiro capítulo desta monografia, em que analisei esta obra, 
argumentei que uma das principais características da ciência moderna é a 
experimentação, cujo exercício teve sua expressão também na utilização do telescópio 
por Galileu. De acordo com Koyré, “a experimentação consiste em interrogar 
metodicamente a natureza. Essa interrogação pressupõe e implica uma linguagem na 
qual se formulam as perguntas, como um dicionário nos permite ler e interpretar as 
respostas” (KOYRÉ, 1982, p. 154). Isto é, a experimentação não é simples experiência, 
mas experiência sensata, em que sensatez aqui significacontrole metódico e 
conhecimento das causas. Ora, o apontamento do telescópio para o céu por Galileu não 
 
61 
foi por acaso, mas foi pensado previamente. Pois, ao ficar sabendo das notícias vindas 
de Flandres de um tal instrumento ótico, se apressou em confeccionar um para si, tendo 
em mente que tal capacidade ótica seria útil na observação do céu. 
E ainda, quando Koyré fala de “uma linguagem na qual se formulam as 
perguntas”, ele fala da linguagem matemática. Linguagem esta que Galileu dominava, 
visto que era professor desta disciplina nas universidades de Pisa e Pádua antes das 
descobertas astronômicas. De modo que tais descobertas foram interpretadas com base 
nesta linguagem. Nesse sentido, entende-se também que a experimentação decorre do 
entendimento do que vai ser experimentado. Isto é, a experimentação nunca é anterior à 
razão, pois é esta que determina86 como experimentar. Com isso, já podemos entender o 
que é essencial para o critério: o conhecimento matemático. 
Considerando isso, então, o que no Sidereus Nuncius é evidente como uma 
experiência sensata, sendo de tal modo fundamental para compreendermos o significado 
disso? A resposta não poderia ser outra coisa senão a principal experiência que Galileu 
quis mostrar: a descoberta dos satélites de Júpiter. Para meu propósito aqui, não a 
descoberta em si, mas o procedimento pelo qual lançou mão para demonstrá-la. Como 
eu havia dito, foram ao todo 65 observações das posições dos satélites em torno de 
Júpiter. E é justamente o método de mostrar estas posições que configuram a sensatez 
da experiência. Galileu soube controlar o procedimento na medida em que desenhou a 
primeira disposição observada dos astros. E partir daí, repetiu 64 vezes até concluir que 
o fenômeno que avistava era uma evidência inquestionável de um minissistema solar, a 
partir do qual se poderia deduzir a mesma relação para o sistema Terra-Lua. 
Porquanto, como indiquei na nota 81, é no Discorsi que são apresentadas 
exaustivas experimentações das quais foram deduzidas as grandes contribuições de 
Galileu para a ciência. No entanto, as experimentações relatadas no Sidereus Nuncius 
mostram a gênese do procedimento. O que é fundamental para podermos compreender o 
significado de “experiências sensatas”. Pois é através das características que são comuns 
às experimentações do Sidereus Nuncius e do Discorsi que se pode afirmar o 
 
86 Podemos entender isso melhor com Kant. Segundo ele, no prefácio da 2ª edição de sua Crítica da 
Razão Pura: “A razão, tendo por um lado os seus princípios, únicos a poderem dar aos fenômenos 
concordantes a autoridade de leis e, por outro, a experimentação, que imaginou segundo esses princípios, 
deve ir ao encontro da natureza, para ser por esta ensinada, é certo, mas não na qualidade de aluno que 
aceita tudo o que o mestre afirma, antes na de juiz investido nas suas funções, que obriga as testemunhas 
a responder aos quesitos que lhes apresenta” (KANT, 2013, p. 18, [B XIII]). 
 
62 
significado de experiências sensatas: controle dos efeitos mediante o conhecimento das 
causas previamente observadas. Isso é o núcleo comum das experiências de Galileu. É 
bom ressaltar ainda que no Sidereus Nuncius o foco é a astronomia, diferentemente do 
Discorsi, no qual o foco é a mecânica. Nesse sentido, o novo conceito de astronomia é 
fundamental para compreendermos a autonomia da ciência, pois as primeiras 
experiências sensatas foram realizadas em função desta ciência. Tal como afirma 
Koyré, 
A ciência moderna havia nascido em estreito contato com a astronomia. Mais 
precisamente: ela tem sua origem na necessidade de se afrontarem as 
objeções físicas opostas por muitos sábios da época à astronomia copernicana 
(KOYRÉ, 1982, p. 187). 
 De modo que tais objeções físicas eram refutadas, sobretudo, através da 
observação do céu mediante o telescópio. Observações estas que proporcionaram o 
conhecimento das causas dos fenômenos que se mostravam contrários à cosmologia 
tradicional. 
Portanto, quando Galileu defendeu as experiências sensatas como um dos 
constituintes do critério especial de cientificidade para a autonomia da ciência na carta a 
Castelli, ele quis mostrar que esta autonomia se sustenta na medida em que as 
conclusões da ciência – que no caso da carta fala-se de filosofia natural – se baseia em 
efeitos controlados enquanto derivados de causas sabiamente conhecidas pela 
observação rigorosa. De tal modo que a teologia, não procedendo assim, não pode julgar 
nenhuma conclusão natural. Por isso, experiências sensatas, sendo seu significado o que 
foi exposto acima. Doravante, veremos a outra parte do critério, cujo significado 
completa o das experiências sensatas. 
Sabendo, então, o que são experiências sensatas, o significado de demonstrações 
necessárias fica mais fácil de entender. Ainda que as duas partes do critério possuam 
definições diferentes, elas só podem ser compreendidas satisfatoriamente uma em 
relação à outra, pois as demonstrações necessárias são operadas mediante as 
experiências sensatas e vice-versa. E vimos também que o núcleo do critério é o 
matematismo. Segundo Mariconda, “o método científico consiste em geral numa 
combinação peculiar de experiência com raciocínio matemático” (MARICONDA, int., 
p. 32, Ibid.). Dessa forma, eis o que se segue. 
 
63 
Como havia mencionado anteriormente, há um pressuposto87 tripartite na defesa 
da autonomia da ciência, a saber, lógico, epistemológico e ontológico. Sendo através do 
entendimento dessa tripartição que explicarei a parte do critério referente às 
demonstrações necessárias. 
Primeiramente, tomemos a perspectiva lógica, a qual explicarei conforme foi 
indicado na nota 80, analisando o Tractatio de demonstratione em particular, do qual 
selecionarei os argumentos de Galileu que dizem respeito ao procedimento 
demonstrativo, a partir do que possamos compreender o significado de “demonstrações 
necessárias”. Veremos que esta explicação de Galileu das demonstrações responde a 
pergunta sobre o significado de “ser necessário” conforme as regras de inferência da 
lógica aristotélica. Conforme indicado também, farei o diálogo com o artigo A 
revolução galileana: revolução metodológica ou teórica?, de Maurice Clavelin88. 
Antes de prosseguir, o leitor deve ter em mente que este manuscrito é uma 
apropriação de Galileu dos Analíticos Posteriores de Aristóteles. Curiosamente (ou 
não89), a lógica aristotélica é o cânon pelo qual Galileu faz sua ciência da mecânica. É 
assim porque o problema de Galileu com Aristóteles não era com respeito ao 
conhecimento científico em si (com a natureza da demonstração e da definição) – 
 
87 Segundo Mariconda, vinculado a este pressuposto, há “quatro critérios de avaliação de teorias 
científicas que Galileu emprega explicitamente em seus argumentos, a saber, (I) adequação empírica; (II) 
poder explicativo; (III) limitação do uso de “ficções”; e (IV) simplicidade. Critérios estes, que podem ser 
tomados como valores cognitivos. Eles são distintos dos valores sociais e morais ou das crenças 
religiosas. Galileu mantinha que uma teoria que satisfaça bem esses critérios (valores cognitivos) é 
superior a outra que não os satisfaça. [...] Deste modo, Galileu antecipou detalhadamente a ideia de 
imparcialidade: aceitam-se as teorias se, e somente se, elas manifestam em alto grau os valores cognitivos 
e manifestam esses valores em graus mais elevados que as teorias rivais” (MARICONDA; LACEY, 
2001, p. 56). 
88 CLAVELIN, Maurice. A revolução galileana: revolução metodológica ou teórica?. São Paulo: 
Unicamp: Cadernos de história e filosofia da ciência, vol. 9, série 1, 1986. É bom ressaltar que este artigo 
trata da questão de qual foi a real contribuição de Galileu para a ciência moderna. Segundo a conclusão de 
Clavelin,a revolução galileana não pode ter sido metodológica, pois o método utilizado por Galileu já se 
encontrava nos escolásticos, a saber, o método do regressus. Método este, que como Clavelin bem 
mostrou neste artigo, Galileu se valeu para demonstrar todas as suas conclusões científicas. No entanto, 
não quero entrar neste mérito. Meu objetivo com a análise do regressus não é para mostrar o caráter 
revolucionário de Galileu; mas sim, para definir o que é “ser necessário” para uma demonstração, o que 
está relacionado à autonomia da ciência que Galileu pleiteava. Dessa forma, analiso esse procedimento 
metodológico a luz de uma definição e não de uma consideração de originalidade por parte de Galileu, 
neste quesito. Ademais, veremos que tal originalidade de Galileu é constatada, na verdade, no nível 
conceitual, o qual, já adiantando, está vinculado à sua concepção ontológica de matematização da 
natureza. 
89 Não tão curioso, pois a lógica (e aqui, lógica é a lógica de Aristóteles) foi a base de toda a ciência até o 
século XIX. Assim, tudo o que era ciência até esse período estava determinado pela lógica aristotélica, e 
Galileu estava incluso nisso. Só a partir dos trabalhos de Gottlob Frege e Bertrand Russell que a lógica foi 
alterada. 
 
64 
inclusive, Galileu estava de acordo com Aristóteles (modo de fazer) sobre a ciência ser 
conhecimento demonstrativo – mas sim, que a física aristotélica e, portanto, sua 
ontologia (modo de não fazer) precisava ser substituída. Ou seja, Galileu considerava e 
se apoiava na filosofia tradicional no sentido da lógica, e não da filosofia natural, que 
era baseada na física aristotélica. Dessa forma, deve-se entender que em certo sentido, 
Aristóteles e a própria escolástica foram também uma influência para o trabalho 
intelectual de Galileu. 
Doravante, segue o exame dos argumentos de Galileu do Tractatio de 
demonstratione (MS 27)90. Este manuscrito trata das demonstrações mediante uma 
estrutura argumentativa organizada em três “disputas”, as quais Galileu resolve 
formulando objeções e respostas para elas, a partir do que ele consegue explicar como 
funciona o procedimento científico. Assim, segundo Wallace, 
A cobertura de demonstração de Galileu, como ele indica no prólogo, contem 
três disputas, uma sobre a natureza e importância da demonstração [01], uma 
segunda sobre as propriedades da demonstração [02] e uma terceira sobre 
suas espécies ou tipos [03]. Todas essas disputas, ao que parece, foram 
apropriadas das notas de Vallius de 1588 (WALLACE, 1992, p. 157).91 
 Como é sabido, de acordo com Wallace, as notas dos Analíticos Posteriores 
manuscritas por Vallius92 foi uma das, senão a principal fonte de Galileu para a redação 
do MS 27. Indubitavelmente, Galileu se utilizou dos cursos de lógica do Collegio 
Romano para sua empreitada científica. Lembrado que o Collegio Romano era 
praticamente uma universidade jesuíta. Com efeito, a influência dos estudos de lógica 
desta instituição explica a prontidão de Galileu em levar o Sidereus Nuncius para lá, 
para que fosse anuído pelos professores jesuítas, inclusive pelo próprio Clavius, o qual 
era um correspondente de Galileu, como vimos no primeiro capítulo. 
 
90 Como se sabe, o manuscrito de Galileu englobando as duas partes ou temas também é conhecido pela 
sigla MS 27. No entanto, mesmo eu analisando apenas a segunda parte do manuscrito que é referente às 
demonstrações, o designarei como MS 27 por questões práticas. Assim, sempre que eu escrever “MS 27” 
ao longo do texto estarei falando do Tractatio de demonstratione e não do manuscrito completo incluindo 
o Tractatio de praecognitionibus et praecognitis. 
91 “Galileo's coverage of demonstration, as he indicates in the prologue, contains three disputations, one 
on the nature and importance of demonstration [01], a second on the properties of demonstration [02], and 
a third on its species or kinds [03]. All of these disputations, it would appear, were appropriated from 
Vallius's lecture notes of 1588.” (Tradução livre) 
92 Paulus Vallius (1561-1622) foi um lógico jesuíta italiano que lecionou no Collegio Romano nos anos 
de 1580. 
 
65 
 Considerando então a primeira disputa do MS 27 ([D 1] Sobre a natureza e 
importância da demonstração) e a primeira questão ([D 1.1]93 Sobre a definição de 
demonstração), Galileu argumenta que existem cinco tipos de demonstrações. Segundo 
ele, 
[1] Note, primeiro: há muitas espécies de demonstração, como é evidente em 
Aristóteles neste livro, a saber: ostensivo; para o impossível; do fato; do fato 
racionado; e mais poderosa. Uma demonstração ostensiva é aquela que prova 
algo verdadeiro a partir de princípios verdadeiros. Uma demonstração do 
impossível é aquela que leva da concessão de uma impossibilidade a outra 
que é mais conhecida. Uma demonstração do fato é aquela que prova algo de 
um efeito ou de uma causa remota. Uma demonstração do fato racionado é 
aquela que demonstra um predicado de um sujeito através de princípios 
verdadeiros e apropriados. Uma demonstração mais poderosa é aquela que 
manifesta alguma propriedade primeira e universal de um assunto adequado 
através de princípios próprios e próximos; se alguma das condições anteriores 
estiver ausente, ela não será mais poderosa. Aqui eu não faço menção da 
divisão em universal e particular, afirmativa e negativa. O problema atual 
para nós diz respeito à demonstração do fato racionado e, especialmente, à 
demonstração mais poderosa (GALILEI, 1992, p. 127, [D.1.1.1]).94 
Note-se que Galileu indica cinco tipos de demonstrações com base em 
Aristóteles, tal como este apresenta em seus Analíticos Posteriores. Sendo dispensável 
parafrasear Galileu, afirmo apenas que se preste atenção em dois dos tipos de 
demonstrações expostas, a saber, a demonstração do fato (demonstration of the fact) e a 
demonstração do fato racionado (reasoned fact). Para propósitos primários, estes são os 
dois tipos de demonstrações que importa para nós entendermos as “demonstrações 
necessárias”, principalmente a demonstração do fato, a qual diz respeito às ciências 
naturais (ou filosofia natural). Em síntese de acordo com Wallace, 
Os tipos de demonstração enumerados por Galileu em D 1.1.1 são cinco: os 
dois primeiros são tipos gerais, demonstração ostensiva e redução ao 
impossível, e os três restantes são tipos especiais, demonstração do fato 
 
93 Sobre a notação da referência ao manuscrito Tractatio de demonstratione de Galileu: Disputa 1. 
Questão 1. Parágrafo 1. 
94 “[1] Note, first: there are many species of demonstration, as is apparent from Aristotle in this book, 
namely: ostensive; to the impossible; of the fact; of the reasoned fact; and mostpowerful. An ostensive 
demonstration is one that proves something true from true principles. A demonstration to the impossible 
is one that leads from the concession of one impossibility to another that is more known. A demonstration 
of the fact is one that proves something from an effect or from a remote cause. A demonstration of the 
reasoned fact is one that demonstrates a predicate of a subject through true and proper principles. A most 
powerful demonstration is one that manifests some first and universal property of an adequate subject 
through proper and proximate principles; if any of the foregoing conditions be absent, it will not be most 
powerful. Here I make no mention of the division into universal and particular, affirmative and negative. 
The problem at present for us concerns demonstration of the reasoned fact and especially most powerful 
demonstration.” (Tradução livre) 
 
66 
(quia), demonstração do fato racionado (propter quid), e demonstração mais 
poderosa (potissima) (WALLACE, 1992, p. 158).95 
Ou seja, os três últimos tipos de demonstrações são especiais porque podem ser 
convertidos uns aos outros. Veremos sucintamente comoisso acontece. Por 
conseguinte, Wallace explica: 
Cada um dos cinco tipos, observa Galileu, pode ser considerado como um 
tipo de discurso ilativo, isto é, como um processo argumentativo em curso no 
intelecto, ou como um instrumento de conhecimento científico, isto é, como 
uma demonstração necessária produtiva da ciência [D 1.1.2] (WALLACE, 
1992, 158).96 
Ilativo significa intuitivo, pois ocorre no intelecto. Com efeito, o intelecto é de 
tal maneira por desempenhar o papel de causa eficiente, pela qual a demonstração 
opera, tendo o conhecimento científico como causa final. Por sua vez, reiterando às 
definições de demonstração, no parágrafo [3] Galileu afirma o seguinte: 
duas definições de demonstração podem ser reunidas de Aristóteles neste 
livro: uma é que é um silogismo que produz ciência; o outro é um silogismo 
que consiste em premissas verdadeiras, primeiro, imediatas, mais conhecidas 
do que antes e causas da conclusão (GALILEI, 1992, p. 127, [D 1.1.3]).97 
 Para Galileu, pelo silogismo se define dois tipos de demonstrações, em que a 
primeira vale para a demonstração do fato, a posteriori e a segunda vale para a 
demonstração do fato racionado, procedimento este que opera a priori. No ‘fato 
racionado’, as próprias premissas são as causas da conclusão. Para ilustrar, considere-se 
o seguinte: se A é B e se B é C, então A é C. Neste caso, a proposição conclusiva já está 
contida nas premissas, as quais teriam sua verdade afirmada imediatamente, pois o fato 
racionado é demonstrado a partir de proposições verdadeiras indemonstráveis. 
Posto isso, Galileu continua no parágrafo [5]: “onde eu coloco ‘produzindo 
ciência’, isso deve ser entendido instrumentalmente98, porque a causa apropriada da 
 
95 “The kinds of demonstration enumerated by Galileo in D 1.1.1 are five: the first two are general types, 
ostensive demonstration and reduction to the impossible, and the remaining three are special kinds, 
demonstration of the fact (quia), demonstration of the reasoned fact (propter quid), and most powerful 
demonstration (potissima)”. (Tradução livre) 
96 “Each of the five types, Galileo observes, may be regarded either as a kind of illative discourse, that is, 
as an argumentative process going on in the intellect, or as an instrument of scientific knowing, that is, as 
a necessary demonstration productive of science [D 1.1.2]” (Tradução livre) 
97 “two definitions of demonstration can be gathered from Aristotle in this book: one is that it is a 
syllogism producing science; the other that it is a syllogism consisting of premises that are true, first, 
immediate, more known than, prior to, and causes of the conclusion.” (Tradução livre) 
98 É bom saber que este “instrumentalmente” não tem relação com o princípio metodológico do 
instrumentalismo. 
 
67 
ciência é o intelecto, ou dispositivamente99, porque a demonstração é um tipo de 
condição que é necessário conhecer cientificamente” (GALILEI, 1992, p. 128, [D 
1.1.5]).100 Conhecer a cientificamente a demonstração significa defini-la, tal como 
Galileu procura fazer na disputa 1 do seu De demonstratione (MS 27). E considerando 
que definir é mostrar as causas, assim, deve-se mostrar as causas da demonstração. 
É bom lembrar-se da Carta a Castelli, quando Galileu, minimizando o princípio 
de autoridade, afirma que o intelecto (conjuntamente com a experiência) já é suficiente 
para concluir acerca dos assuntos naturais. Isso ocorre porque ele é a causa eficiente da 
ciência. Pois, segundo Galileu: “Aristóteles define a ciência através da demonstração 
como um efeito através de sua causa eficiente, e ele define demonstração através da 
ciência [como um fim] através de sua causa final” (GALILEI, 1992, p. 129, [D 
1.2.10])101. Sendo assim, a ciência enquanto um efeito do intelecto não deve responder 
às Escrituras. Embora no final do século XVI Galileu ainda não esteja preocupado com 
a autonomia da ciência em relação à teologia, é irônico ver que esta definição de ciência 
de Aristóteles anunciada por Galileu pode ser utilizada para manter a ciência fora do 
domínio da doutrina escolástica. 
Por conseguinte, cabe aqui fazer a comparação daquele comentário de Wallace 
sobre os cinco tipos de demonstrações com as considerações sobre o mesmo ponto feito 
pelos historiadores Carugo e Crombie apud Clavelin, em seu artigo aqui mencionado. 
Segundo estes comentadores, o De demonstratione 
refere-se à demonstração científica que Galileu compreendia e analisava de 
acordo com a tradição tomista, ou seja, levado pela convicção de que é 
possível uma ciência da natureza. Ele distingue então dois tipos de 
demonstração. A demonstração propter quid, em primeiro lugar, na qual a 
causa e sua conexão necessária com o efeito são conhecidas previamente, e 
que conclui a priori; em segundo lugar, a demonstratio quia (“demonstração 
que”, também chamada demonstratio signi ou demonstração pelo signo) que, 
pelo contrário, procede a posteriori a partir dos efeitos e que, uma vez 
descoberta a causa adequada, permite também concluir de forma necessária. 
Essa segunda demonstração é certamente aquela que se encontra na filosofia 
natural (CARUGO e CROMBIE, 1983, p. 28-30, apud CLAVELIN, 1986, p. 
40). 
 
99 Significa que prescreve. Denota necessidade. 
100 “where I put "producing science," this is to be understood either instrumentally, because the proper 
cause of science is the intellect, or dispositively, because demonstration is a kind of condition that is 
necessary for us to know scientifically.” (Tradução livre) 
101 “Aristotle defines science through demonstration as an effect through its efficient cause, and he defines 
demonstration through science [as an end] through its final cause.” (Tradução livre) 
 
68 
 Ser tomista é ser aristotélico, com algumas ressalvas que não vem ao caso. De 
certo, o procedimento demonstrativo em filosofia natural deve ser a demonstratio quia, 
que é a mesma coisa que a demonstração do fato, a qual parte dos efeitos (fatos). 
Conforme o próprio Galileu, ele conclui na ‘terceira disputa’, que na verdade, 
existem apenas duas espécies de demonstração, do fato e do fato racionado. 
[...], pois a demonstração do fato é verdadeira demonstração, [...], e a 
demonstração mais poderosa não difere da demonstração do fato racionado; 
portanto [existem apenas duas espécies] (GALILEI, 1992, p. 177, [D 
3.1.13]).102 
 Essa relação de indistinguibilidade entre as demonstrações mediante as 
premissas expressa a característica especial que Wallace havia apontado anteriormente. 
Dessa forma, Galileu explica 
A demonstração do fato racionado e a demonstração do fato são 
analogicamente iguais, porque o último e o primeiro procedem de premissas 
verdadeiras e necessárias, e porque a demonstração do fato tem as mesmas 
propriedades que a demonstração do fato racionado (GALILEI, 1992, p. 179, 
[D 3.2.1]).103 
Visto que a definição de “experiências sensatas” fala de efeitos controlados 
enquanto derivados de causas sabiamente conhecidas pela observação rigorosa, percebe-
se o mesmo com a demonstração do fato, em que, partindo dos efeitos, chega-se ao 
conhecimento das causas de tais efeitos, pois a observação rigorosa diz respeito à 
observação do efeito (o fato). Daí, a conclusão que os conecta se segue necessariamente. 
Ademais, Galileu afirma: “pode acontecer que se conheça um efeito e, mesmo assim, 
não se conheça a causa e, consequentemente, se prove a existência da causa a partir da 
existência do efeito” (GALILEI, 1992, p. 182, [D 3.3.10])104. Sobre isso, de acordo com 
Wallace, “no caso especial em que causa e efeito se tornam conversíveis, a 
demonstração do fato pode até preparar o caminho para a demonstração do fato 
racionado pelo que é chamado de regressão demonstrativa, explicado por Galileu em 
03.3” (WALLACE, 1992, p. 160-161).105 Mais adianteveremos que esse procedimento 
 
102 “there are only two species of demonstration, of the fact and of the reasoned fact. [...], for 
demonstration of the fact is true demonstration, [...], and most powerful demonstration is no different 
from demonstration of the reasoned fact; therefore [there are only two species].” (Tradução livre) 
103 “The demonstration of the reasoned fact and demonstration of the fact are analogically the same, 
because the latter and the former both proceed from true and necessary premises, and because 
demonstration of the fact has much the same properties as demonstration of the reasoned fact.”(Tradução 
livre) 
104 “it can happen that one would know an effect and yet not know the cause, and consequently one might 
prove the existence of the cause from the existence of the effect.” (Tradução livre) 
105 “In the special case where cause and effect turn out to be convertible, demonstration of the fact can 
even prepare the way for demonstration of the reasoned fact by what is called the demonstrative 
regressus, explained by Galileo in 03.3” (Tradução livre). 
 
69 
de regressão demonstrativa (regressus demonstrativus) é essencial para o caráter 
apodítico da ciência. Ainda conforme Wallace, 
a regressão demonstrativa foi um tema favorito de discussão entre os 
aristotélicos paduanos e é considerado por muitos estudiosos como 
desempenhando um papel importante no desenvolvimento da metodologia da 
ciência moderna (Ibid., p. 181).106 
Como foi dito anteriormente, a lógica aristotélico-escolástica influenciou o 
desenvolvimento da ciência moderna. E mediante o exposto, já podemos compreender o 
que sustenta a necessidade da demonstração: a regra de inferência. Pois, uma conclusão 
necessária só pode ser obtida por uma regra de inferência, que no caso, é o Modus 
Ponens
107. Segundo Clavelin, formalmente, a demonstratio quia ou demonstração do 
fato se encaixa no seguinte esquema: 
sejam p o efeito a explicar e q a causa percebida e proposta; o esquema da 
demonstratio quia é então claramente: se p (um efeito), então se p → q (a 
causa), então q. O ponto crucial é claro, é evidenciar uma conexão necessária 
entre a causa e o efeito, ou seja, tal que se o efeito está presente a causa não 
pode estar ausente e vice-versa – de tal modo que o esquema correto é 
finalmente este: se p, então se p ↔ q, então q. Galileu o diz muito bem em 
seu manuscrito: “Quinta condição: [é necessário] que a regressão 
demonstrativa ocorra entre termos convertíveis. Pois, se o efeito possuir uma 
extensão superior à da causa, o primeiro movimento progressivo [do efeito à 
causa] será impossível” (CARUGO e CROMBIE, 1983 apud CLAVELIN, 
1986, p. 41). 
Ou seja, se o efeito ocorre, então ocorre o efeito se, e somente se, a causa ocorre, 
então a causa ocorre. De tal modo que o conectivo bicondicional é a conexão 
determinante na necessidade da conclusão. Melhor dizendo, este esquema de Clavelin 
mostra o regresso demonstrativo em termos semi-formais, pois em termos estritamente 
formais, temos a seguinte formalização em lógica de ordem zero: [𝑝 → ((𝑝 ↔ 𝑞) → 𝑞)] 
O que nos mostra ser um argumento tautológico, isto é, verdadeiro em todos os 
mundos possíveis. Dessa forma, o argumento é sempre verdadeiro, implicando, assim, 
que o regressus demonstra uma necessidade. Mas note-se a chamada “quinta condição” 
de Galileu: o bicondicional só pode ser usado quando o efeito possui a mesma extensão 
que a causa, pois caso contrário, não seria possível ir do efeito à causa. Isto é, é 
 
106 “The demonstrative regress was a favorite topic of discussion among Paduan Aristotelians and is 
regarded by many scholars as playing an important role in developing the methodology of modern 
Science.” (Tradução livre) 
107 Regra de inferência segunda a qual, a verdade do antecedente garante a verdade do consequente. 
 
70 
necessário que p e q sejam coextensivos para que a demonstração implique uma 
necessidade. Conforme Wallace, 
Em vez de rotular isso como um circulus, os aristotélicos paduanos se 
referiam a ele como um regressus. Como o nome sugere, envolve argumentar 
a partir do efeito para a causa como o primeiro passo em uma progressão 
dupla, seguido por um segundo passo se movendo para trás na ordem inversa 
de causa para efeito (WALLACE, 1992, p. 184).108 
Infere-se, então, que, de acordo com Galileu, “segue-se que a regressão é 
circular num sentido impróprio, já que nela se avança de um efeito para o conhecimento 
material da causa, e depois do conhecimento formal da causa para a razão apropriada 
para o efeito.” (GALILEI, 1992, p. 183, [D 3.3.14])109. Isto é, o regressus só pode ser 
operado sob esta condição, a qual, uma vez dada, a demonstração decorre 
necessariamente. 
Mas qual a importância desta coextensividade entre a causa e o efeito para a 
ciência? O próprio Galileu pergunta: “Em que ciências pensamos que tal circularidade é 
útil?” E ele mesmo responde: 
a progressão demonstrativa é útil para o aperfeiçoamento de todas as 
ciências, mas é mais freqüentemente usada na física porque a maior parte das 
causas físicas é desconhecida para nós. Na matemática quase não tem 
utilidade, porque em tais disciplinas as causas são mais conhecidas tanto com 
respeito à natureza como com respeito a nós (Ibid., [D 3.3.13]).110 
Portanto, com respeito à física, isto é, aos assuntos naturais, o regressus é 
fundamental para a conclusão de proposições que afiguram os fatos causadores dos 
efeitos experimentados. Logo, o regressus é a regra de inferência sobre a qual a ciência 
natural conclui necessariamente, implicando assim que esta mesma seja autossuficiente 
mediante lógica proposicional tradicional. 
Por conseguinte, de acordo com Clavelin, podemos observar a formulação do 
regressus no Dialogo (quarenta anos depois de seu tratamento no MS 27), exatamente 
na Quarta Jornada, na qual Galileu busca provar o movimento da Terra através do fluxo 
 
108 “Rather than labeling this a circulus the Paduan Aristotelians referred to it as a regressus. As the name 
suggests, it involves arguing from effect to cause as the first step in a twofold progression, followed by a 
second step moving backward in the reverse order from cause to effect.” (Tradução livre) 
109 “From this it follows that the regress is circular in an improper sense, since in it one progresses from 
an effect to material knowledge of the cause, and then from formal knowledge of the cause to the proper 
reason for the effect.” (Tradução livre) 
110 “the demonstrative progression is useful for the perfecting of all the sciences but it is most frequently 
used in physics because for the most part physical causes are unknown to us. In mathematics it has almost 
no use, because in such disciplines causes are more known both with respect to nature and with respect to 
us.” (Tradução livre) 
 
71 
e refluxo das marés. Embora este argumento seja incorreto111 enquanto explicação das 
marés, ele pode ser considerado correto enquanto explicação do movimento da Terra 
pelas marés, o que é feito mediante o regressus. Dessa maneira, antes de uma 
explicação mais definitiva de tal procedimento, Galileu tendo Salviati112 como seu 
porta-voz sugere o seguinte: 
Posto que nas questões naturais, das quais uma é esta que temos em mãos, o 
conhecimento dos efeitos é o que nos conduziu à investigação e à descoberta 
das causas, e sem ele caminharíamos às cegas, ou até mais incertamente, 
porque não saberíamos onde queremos chegar, [...] é necessário o 
conhecimento dos efeitos dos quais procuramos as causas [...] (GALILEI, 
2011, p. 494, [443]). 
 Referindo-se ao efeito do fluxo e refluxo do mar, Galileu expressa o princípio do 
regressus: “é necessário o conhecimento dos efeitos dos quais procuramos as causas”; 
causas estas, o movimentoda Terra. Pois esta, enquanto um recipiente imóvel, não teria 
as águas do mar em constante fluxo. Assim, se ocorre o fluxo do mar (efeito), então 
ocorre o fluxo do mar se, e somente se, ocorre a causa (movimento duplo da Terra), 
então ocorre a causa. Fazendo o movimento “progressivo” (do efeito à causa) e 
“regressivo” (da causa ao efeito), infere-se que a Terra tem de se mover (movimento 
duplo), sendo isso, a causa do fluxo e refluxo da maré. Isso é basicamente o argumento 
de Galileu, o qual não cabe aqui ser citado na íntegra pela estrutura de sua formulação. 
Portanto, segundo Burstyn, “as marés são diferentes numa Terra movente do que seriam 
se a Terra estivesse estacionária e, portanto, pelo menos em princípio, as marés 
constituem um prova do movimento da Terra” (BURSTYN, 1962, p. 165 apud 
MARICONDA, apêndice, p. 841, Ibid.). 
 Dado isso, por conseguinte, Galileu apresenta a caracterização última do 
regressus: 
Afirma, portanto, que se é verdade que de um único efeito somente uma é a 
causa primária, e que entre a causa e o efeito existe uma conexão firme e 
constante, é necessário que, toda vez que se veja uma alteração firme e 
 
111 Segundo Mariconda, “a partir do juízo unânime dos intérpretes de que a teoria das marés é falsa, 
desenvolveram-se duas linhas interpretativas divergentes quanto ao valor da Quarta Jornada no conjunto 
do Diálogo. A primeira despreza a Quarta Jornada, ao passo que critica Galileu. A segunda, pelo 
contrário, busca recuperar o valor científico da Quarta Jornada, na medida em que considera que Galileu 
não estava primariamente preocupado em explicar as marés, mas que sua teoria foi desenvolvida com o 
objetivo claro de provar que a Terra se move” (MARICONDA, apêndice, p. 840, in: GALILEI, 2011). 
112 Entre as personagens do Diálogo, Salviati é quem representa o próprio Galileu. Além de Salviati, o 
Diálogo conta com mais dois personagens, Sagredo e Simplício, os quais são interlocutores de Salviati. 
Por sua vez, o Salviati histórico foi um amigo e colaborador de Galileu. 
 
72 
constante no efeito, exista uma alteração firme e constante na causa (Ibid., p. 
521, [471]). 
 Tal formulação coloca em evidência o critério de coextensividade entre a causa e 
o efeito, para que o regressus seja possível e a demonstração do fato se identifique com 
a demonstração do fato racionado e, dessa forma, implique uma conclusão necessária. 
 Mediante o exposto, fica a questão: qual a real importância do regressus para o 
significado de “demonstrações necessárias” e, consequentemente, para a 
autossuficiência da ciência em Galileu? Ela expressa a forma lógica das demonstrações 
da ciência natural, mostrando em que medida elas concluem necessariamente, de modo 
que, tal como as experiências sensatas, a teologia não se utiliza e, logo, esta não tem o 
direito de julgar as conclusões que procedem demonstrativamente. Ressaltando ainda 
que, como indicamos também na nota 80, Wallace argumenta que o MS 27 foi redigido 
entre 1588 e 1592. Logo, quando Galileu formulou o critério das “experiências sensatas 
e demonstrações necessárias” na carta a Castelli, ele já conhecia todo esse aparato 
lógico para lhe respaldar. 
Portanto, pode-se dizer que a autonomia da ciência em relação à teologia é 
afirmada mediante a autossuficiência da ciência explicitada pelo significado de 
“demonstrações necessárias” pela perspectiva lógica, na medida em que a definição de 
demonstração tomada por Galileu expressa uma necessidade formal, isto é, tal 
necessidade é assegurada pela forma do procedimento demonstrativo do regressus, a 
qual prescreve que a conclusão deve ser derivada necessariamente, sendo tal conclusão 
a proposição que afigura o fato causador do efeito experimentado. Assim, o predicado 
“ser necessária” do sujeito “demonstração” do critério de Galileu tem seu significado 
determinado pela própria forma da demonstração que opera na ciência natural. Logo, a 
autossuficiência da ciência é assegurada pelo critério de “demonstrações necessárias” 
mediante o caráter apodítico da própria ciência. 
Sendo este, o segundo passo para a explicação do critério de “experiências 
sensatas e demonstrações necessárias”. Doravante, mostrarei o significado da segunda 
parte do critério mediante a perspectiva epistemológica e ontológica, que será feita ao 
mesmo tempo. Com efeito, enquanto o significado de “demonstrações necessárias” na 
perspectiva lógica envolve um detalhamento técnico de como é definida, a perspectiva 
que se segue baseia-se em implicações conceituais que exigem, por seu turno, uma 
 
73 
explicação mais conceitual, de modo que será mais bem entendida na medida em que 
for considerada conjuntamente. Pois, como afirmamos, a nova epistemologia da 
revolução copernicana está diretamente envolvida com o descobrimento da real 
estrutura do mundo, o que Galileu irá defender nos parágrafos 6 e 48 do Il Saggiatore (e 
nas demonstrações do Dialogo). 
 Doravante, eis a explicação do significado de “demonstrações necessárias” pelas 
perspectivas epistemológica e ontológica, de modo que ao final deste tópico, eu tenha 
condições de mostrar a importância desse critério para a abertura da fenda entre a 
ciência e a teologia, configurando assim sua função filosófica e histórica. 
 Vimos anteriormente que o núcleo comum entre as duas partes do critério é a 
matemática, de tal modo que a defesa da autonomia da ciência por Galileu não poderia 
ser feita sem esta consideração. Por conseguinte, é a própria concepção matemática da 
substância do mundo que, segundo Koyré, faz de Galileu o fundador da ciência 
moderna. Entretanto, não é (muito) meu objetivo nesta monografia defender esse 
mérito, mas sim, mostrar como a matematização da natureza está envolvida com a nova 
epistemologia e ontologia mencionadas. Assim, segundo Koyré, “com Galileu, e depois 
de Galileu, presenciamos uma ruptura entre o mundo percebido pelos sentidos e o 
mundo real, ou seja, o mundo da ciência. Esse mundo real é a própria geometria 
materializada, a geometria realizada” (KOYRÉ, 1882, p. 55). Lembrando que o 
deslocamento da Terra do centro do universo por Copérnico também expressa esta 
ruptura com o mundo percebido pelos sentidos e o mundo real. Por exemplo, Copérnico 
concluiu que o movimento retrógrado dos planetas, na verdade era um movimento 
aparente. Pois, o que acontece de fato, é a ultrapassagem destes planetas pela Terra, 
enquanto esta descreve sua órbita em torno do Sol, causando, dessa forma, a aparência 
“errante” daqueles. Logo, o aparato ptolomaico de epiciclos e deferentes não era mais 
necessário. Daí, a inauguração da Revolução Científica dos séculos XVI-XVII. 
Por um lado, o deslocamento da Terra do centro do universo expressa uma nova 
concepção ontológica do mundo (heliocêntrica); por outro, conduz o pensamento a uma 
nova maneira de proceder, considerando que os fenômenos observados são de tal 
maneira em relação ao observador, o que implica uma nova epistemologia. Dessa 
forma, segundo Mariconda, 
 
74 
no plano científico, com Copérnico, o movimento do observador passa a ter 
uma função radical ou primitiva, de modo que “salvar as aparências” quer 
dizer agora restaurar sob as aparências os princípios da física que as explicam 
e que, portanto, tornam possíveis essas aparências (MARICONDA, int., p. 
28, Ibid.) 
 E com base nisso, Galileu defendeu a matemática, pois só essa poderia desvelar 
a real estrutura do mundo na medida em que salva as aparências de maneira necessária. 
Ou seja, salvar as aparências aqui não é condizente com o princípio instrumentalista que 
Clavius anunciou quando as descobertas do Sidereus Nuncius vieram a lume e que 
Bellarmino sentenciou para a hipótese copernicana (como veremos). Na verdade, salvar 
as aparências é necessário113, mas não é suficiente. Suficiência esta, que só pode ser 
obtida enquanto as aparênciassejam concordes com os princípios ontológicos 
estabelecidos pela matemática. 
 É através desse problema de “salvar as aparências” que se assentam várias das 
inquietações da Revolução Científica. Em que medida o falso funciona? Qual o critério 
da verdade? O que separa o verdadeiro do falso? É visando responder tais perguntas, 
ainda que indiretamente, que Galileu lança mão de seu pleito de autonomia da ciência. E 
que, se existe um critério da verdade, este só pode ser determinado pelo conhecimento 
matemático. Veremos, então, a justificação disso. 
 Agora é que o Il Saggiatore entra em cena. Tendo em vista a distinção das “duas 
linguagens” formulada na carta a Castelli para mostrar que natureza e Escrituras não são 
incompatíveis, no parágrafo 6 aparece um desdobramento de tal tese, no qual Galileu 
apresenta seu famoso argumento dos “dois livros”. Eis o argumento: 
A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que continuamente se abre 
perante nossos olhos (isto é, o universo), que não se pode compreender antes 
de entender a língua e conhecer os caracteres com os quais está escrito. Ele 
está escrito em língua matemática, os caracteres são triângulos, 
circunferências e outras figuras geométricas, sem cujos meios é impossível 
entender humanamente as palavras; sem eles nós vagamos perdidos dentro de 
um obscuro labirinto (GALILEI, 1983, §6). 
 Com efeito, essa é a ontologia que Galileu defende. Para ele, a estrutura 
subjacente do mundo é tal que geométrica. Isso significa que o conhecimento desta 
estrutura possui um modo necessário de proceder. Sendo este modo necessário o 
 
113 Necessário aqui é no sentido de que é indispensável, e não no sentido demonstrativo, tal como vimos 
com a regressus. Distingue-se, então, o seguinte: “salvar as aparências é necessário” é diferente de 
“salvar as aparências de maneira necessária”. A primeira diz respeito à indispensabilidade de salvar as 
aparências; a segunda significa salvar as aparências necessariamente, não tendo outra maneira de fazê-lo. 
 
75 
conhecimento matemático, pois os objetos dessa ciência são os mesmos objetos que 
constituem a ontologia do mundo. Dessa forma, a ciência da natureza é autônoma 
porque se funda na matemática, e sendo esta, uma ciência tal que possui seus objetos 
próprios, e enquanto estes objetos são os mesmos que constituem a estrutura subjacente 
da realidade, a ciência que opera por estes mesmos objetos é autossuficiente. Pois seu 
campo de estudo, ao dizer respeito justamente aos elementos primeiros que constituem a 
realidade, implica que esta mesma ciência seja única e necessária para o conhecimento 
do mundo. É aqui que vemos a revolução galileana, a qual é a matematização da 
natureza: “a matematização (geometrização) da natureza e, por conseguinte, a 
matematização (geometrização) da ciência” (KOYRÉ, 1982, p. 155). Com isso, já se 
aponta para o significado de “demonstrações necessárias” pela perspectiva ontológica e 
epistemológica. 
Enquanto a perspectiva lógica denota a necessidade lógica, mediante a regra de 
inferência; a perspectiva ontológica e epistemológica denota uma relação conceitual 
entre o que a ciência é e o mundo é, de tal modo identificando a estrutura objetual da 
matemática com a substância do mundo. Portanto, segundo esta perspectiva, a ciência é 
autônoma, porque ela é essencialmente matemática e por ser matemática, ela está de 
acordo com o “ser do mundo”. Logo, ela também é autossuficiente enquanto trata do 
mundo, enquanto o explica, porque, sendo assim, ela o conhece naturalmente. Mas um 
teólogo qualquer adversário de Galileu poderia perguntar assim: o que garante que o ser 
do mundo é geométrico (matemático)? Talvez esta questão pudesse desabilitar a 
autonomia da ciência mediante o significado do critério de “demonstrações necessárias” 
pela perspectiva ontológica e epistemológica, porque uma hipótese metafísica poderia 
não ser passível de ser provada necessariamente. Decorrendo daí, que a 
significatividade do critério não pudesse ser derivado de tal hipótese. Pois, uma hipótese 
metafísica não implica que esta mesma metafísica seja fundamentada. Tal como 
Mariconda alerta, “o sucesso de Galileu em explicar um âmbito de fenômenos 
interessantes com um léxico matemático não é suficiente para fundamentar a 
metafísica” (MARICONDA; LACEY, 2001, p. 63). No entanto, há como contornar essa 
questão e ainda manter a significatividade do critério pela perspectiva ontológica e 
epistemológica. Uma vez que já se conhece a perspectiva lógica, isto é, o regressus, a 
hipótese metafísica pode ser “experimentada”. Conhecendo os efeitos, e sabendo que o 
efeito ocorre se, e somente se, a causa ocorre, então, com o “movimento progressivo” 
 
76 
(do efeito à causa) chega-se à causa, a qual, considerando um efeito mecânico (ou 
dinâmico) qualquer, teria que ser reduzida a princípios geométricos, pois o efeito foi 
observado, experimentado e concluído com base em uma regularidade pela qual o efeito 
se mostra. Sendo tal regularidade possível apenas pelos princípios que lhe provocam, 
dado que a regularidade é a própria natureza da geometria. Nesse sentido, estes 
princípios que causam o efeito em questão só podem ser geométricos. Portanto, a 
hipótese metafísica de que o ser do mundo é geométrico poder ser “experimentada” e, 
logo, a significatividade do critério de “demonstrações necessárias” pela perspectiva 
ontológica e epistemológica se sustenta. 
Mas mesmo assim, enquanto a resposta metafísica pode se sustentar por um 
lado, para Mariconda, ela falha, por outro, a saber, em relação ao critério da 
imparcialidade (ver nota 89). Ele diz que a “tese de que a natureza (abstraída da mente) 
é de caráter profundamente matemático não representa um resultado científico aceito de 
acordo com a imparcialidade” (MARICONDA; LACEY, 2001, p. 63). Continua ele: “a 
aceitação da concepção da natureza “escrita na linguagem matemática” está fortemente 
vinculada a compromissos com formas modernas de valorar o controle da natureza” 
(Ibid.). Isto é, a vontade de domínio sobre a natureza característica da modernidade está 
expressa no raciocínio de Galileu. Dessa forma, “a aquisição de autonomia com relação 
à autoridade da Igreja estaria acompanhada por uma nova subordinação da ciência às 
ideologias e aos poderes modernos” (MARICONDA; LACEY, 2001, p. 63). Portanto, 
uma resposta metafísica como a dos “dois livros”, ainda poderia estar sendo 
determinada por fatores externos, contradizendo, assim, um dos critérios específicos de 
autonomia da ciência. De fato, esse é um problema a se considerar. Contudo, o 
problema é claro: a subordinação da ciência agora é, no caso, em relação a outro poder, 
um que é estrutural (ideológico). Por sua vez, em relação à teologia a autonomia da 
ciência é viabilizada (e futuramente conquistada), pelo menos. De tal modo, se livrando 
da autoridade das Escrituras. E isso já basta para o propósito da minha investigação. 
 Não obstante, essa concepção ontológica de Galileu também é proveniente de 
fatores intelectuais. Como mencionei anteriormente, o platonismo é a referência 
filosófica de Galileu. Haja vista que, com a revalorização das obras clássicas pelo 
renascimento, o neoplatonismo, sobretudo de influência agostiniana, foi fundamental 
para a formação intelectual de Galileu, de modo que, com as leituras de Platão, ele pôde 
compreender a mecânica geometrizada. Segundo Koyré, “foi o platonismo (e, 
 
77 
naturalmente, o pitagorismo) que inspirou a ciência matemática da natureza do século 
XVII (e seus métodos) e a opôs ao empirismo dos aristotélicos (e sua metodologia)” 
(KOYRÉ, 1982, p. 71). Todavia, antes de continuar, deixe-me, mais uma vez, esclarecer 
algo, para não dá margens a suspeita de contradição em minha exposição. Essa 
metodologia que é impugnada pela ciência moderna não é o método da demonstraçãocientífica em si, mas a metodologia da filosofia natural tradicional. Tal como afirma 
Koyré, de acordo com Crombie, 
“quanto à ciência do século XVII, e à sua filosofia, não acarretaram eles, 
segundo Crombie, nenhuma modificação fundamental nos métodos 
científicos existentes. Apenas substituíram o procedimento qualitativo pelo 
procedimento quantitativo e adaptaram à pesquisa experimental um novo tipo 
de matemática” (CROMBIE, p. 9-10 apud KOYRÉ, 1982, p. 58). 
Como vimos, o regressus não é abandonado pela ciência matemática da 
natureza. Pelo contrário, tal procedimento prescreve a técnica e o método da ciência 
moderna. O que é abandonado, na verdade, é a epistemologia e o procedimento 
qualitativista aristotélico-escolástico, mas não a lógica aristotélica. 
Prosseguindo, então, percebe-se que a antiga disputa sobre a ontologia entre 
Platão e Aristóteles teve palco no século XVII. Galileu, sendo um platônico, defendeu a 
autonomia da ciência em relação à teologia à luz desta filosofia, o que, mediante a 
geometrização do espaço, lhe garantiu a criação de um novo conceito de movimento114. 
De tal maneira que para isso (repetindo a nota 13) a mecânica de Galileu teve que se 
basear em uma nova física, a qual precisou ser formulada com base em uma ontologia 
diferente da de Aristóteles, tal como constamos pelo argumento dos “dois livros”. Isto é, 
Galileu não mudou a física aristotélica, mas sim a destruiu, na medida em que mudou o 
mundo no qual esta operava. É bom ressaltar que, a ciência moderna nasce mediante a 
destruição do cosmo aristotélico. Assim, segundo Koyré, “a dissolução do Cosmo 
significa a destruição de uma ideia, a ideia de um mundo de estrutura finita, 
hierarquicamente ordenado, de um mundo qualitativamente diferenciado do ponto de 
vista ontológico.” (KOYRÉ, 1982, p. 155). Para Aristóteles, o mundo era 
qualitativamente diferenciado, de tal modo não sendo possível um conhecimento da 
 
114
 Este novo conceito de movimento está expresso no “argumento da torre” na Segunda Jornada do 
Diálogo. Segundo Galileu, o movimento tal como o repouso não tem causa, sendo dessa maneira um 
estado, no qual permanecerá. Por isso, a pedra lançada do alto da torre cai no pé dela, e não longe dela, 
como queriam seus adversários aristotélicos, caso a Terra se movesse. Com isso, Galileu expressa a noção 
física de movimento compartilhado, o que implica a concepção da relatividade do movimento. De fato, 
Galileu é um dos desenvolvedores da concepção de movimento inercial. 
 
78 
natureza que tivesse pretensões universalistas. Como afirma Koyré, tal é o “pensamento 
aristotélico: ‘Nas demonstrações relativas à natureza, diz ele, não se tem de procurar a 
exatidão matemática’” (KOYRÉ, 1982, p. 167). Conforme Aristóteles, a matemática 
não é necessária para o conhecimento da natureza, pois a ontologia desta não se 
identifica com características universais e de caráter infinito. Mas que o estudo da 
natureza devia se situar na “compreensão da essência dos fenômenos, a realidade em 
seus múltiplos movimentos, e não a explicação das leis que regem os conjuntos dos 
fenômenos independentemente da especificidade de cada um” (LEOPOLDO E SILVA, 
2005, p. 43). Tal é a diferença do estudo da natureza entre Galileu e Aristóteles. 
Para este último, não haveria uma forma ideal da natureza a partir da qual o 
conhecimento dela se basearia e, logo, não se deveria procurar a exatidão matemática. 
Este pensamento, evidentemente, não agradava Galileu. Para ele, muito pelo contrário, 
as demonstrações relativas à natureza só poderiam ser certas mediante o conhecimento 
matemático; ou melhor, o conhecimento da natureza deveria ser necessariamente 
matemático, pois só este está de acordo com a forma ideal que a natureza possui. Sendo 
esta forma ideal, um mecanicismo geometrizado. Conforme Leopoldo e Silva, Galileu 
“despreza a consideração das essências qualitativas no estudo dos fenômenos naturais. 
A compreensão das essências é substituída pela visão das relações matemáticas que os 
fenômenos mantêm entre si” (LEOPOLDO E SILVA, 2005, p.44). É bom entender que 
a natureza ter uma forma ideal, de acordo com Galileu, não implica a existência de 
essências. Mas que ser ideal é ser universal, em que as leis são válidas para todos os 
fenômenos do universo enquanto este é um espaço geométrico. Ao contrário de 
Aristóteles, que considerava as essências qualitativas. Para ele, estas não implicam 
universalidade, mas qualitativismo, com o que o universo é absolutamente 
hierarquizado e diferenciado essencialmente. 
Dessa forma, o cosmo hierarquizado de Aristóteles foi substituído pelo Cosmo 
homogêneo de Galileu, o qual unificava as mecânicas sub e supralunar, de tal modo, 
passando a ser passíveis de submissão às mesmas leis. Como veremos ainda, a 
dissolução do cosmo aristotélico também implicava outro problema, a saber, “um 
questionamento do sistema de organização institucional das disciplinas ditas científicas 
nas universidades da época” (MARICONDA, int., p. 27, Ibid.). Universidade estas, 
mantidas pela Companhia de Jesus sob um rigoroso sistema doutrinário. Em suma, o 
século XVII trouxe a baila a contramão de Platão e Aristóteles relativa à concepção da 
 
79 
substância do mundo. Pois, o grande problema na aurora da ciência moderna ainda era 
justamente a ontologia, o que tinha implicações em toda a estrutura do próprio sistema 
educacional jesuíta. Assim, ainda segundo Koyré, 
O que está em jogo, aqui, não é a certeza – nenhum aristotélico jamais pôs 
em dúvida a certeza das proposições ou demonstrações geométricas –, mas o 
Ser; nem mesmo o emprego das matemáticas na física – nenhum aristotélico 
jamais negou nosso direito de medir o que é mensurável e de contar o que é 
contável –, mas a estrutura da ciência e, portanto, a estrutura do Ser 
(KOYRÉ, 1982, p. 167). 
Veja então que a estrutura da ciência é identificada com a estrutura do ser. Por 
isso, reitera-se que a autonomia da ciência perante a teologia se funda na determinação 
da substância do mundo. Indubitavelmente, para os modernos, a estrutura da ciência é 
“igual” à estrutura do mundo, as quais estão proporcionalmente relacionadas. Por isso 
que o problema ontológico é tão fundamental. 
Por conseguinte, para reforçar o papel da ontologia no significado do critério de 
“experiências sensatas e demonstrações necessárias” e consequentemente na autonomia 
da ciência sobre a teologia, mais uma vez trago à narrativa, o Il Saggiatore. Agora 
vejamos o argumento do parágrafo 48, quando Galileu faz a distinção das qualidades 
primárias e secundárias. Enquanto estas são subjetivas – fruto dos sentidos, a saber, 
“cheiros, sabores, cores, etc, em relação ao sujeito onde nos parecem residir, não sendo 
outra coisa que puros nomes” (GALILEI, 1983, §48); aquelas são objetivas e 
necessárias – 
concebendo uma matéria ou substância corpórea, como termo e aspecto 
daquela ou outra substância, grande ou pequena em relação a outras, 
colocada naquele ou neste lugar, naquele ou neste tempo, em movimento ou 
parada, em contato ou não com outro corpo, como sendo única ou poucas ou 
muitas, nem posso imaginá-la de forma alguma separada destas condições” 
(GALILEI, 1983, §48). 
Isto é, as qualidades primárias são aquelas referentes à forma, figura, movimento 
e quantidade. Qualidades estas que constituem a estrutura subjacente da realidade, a 
qual só pode ser conhecida pelo tratamento geométrico. As qualidades primárias são 
identificadas com os princípios primeiros, os quais são objetos matemáticos. Vale 
ressaltar que Descartes, ao fundamentar a epistemologia moderna, se vale dessa 
distinção de Galileu, atribuindo à res extensa (coisa extensa) estas qualidades primárias, 
deixando as secundárias com a subjetividade, “excluindo do âmbito da análise 
 
80 
matemática fenômenos humanos importantes” (MARICONDA; LACEY,2001, p. 63) 
tal como Galileu nos apresenta. 
De certo, essa distinção das qualidades primárias e secundárias também pode 
responder (não com tanto rigor como a primeira resposta, mas exemplar pelo menos) 
àquela possível objeção do teólogo adversário de Galileu sobre a realidade da hipótese 
metafísica. Mediante a observação do mundo, percebe-se que as coisas possuem certas 
características físicas necessárias, como por exemplo, a figura (forma). E também a 
relação espacial de “estar ao lado de” ou “acima de”. Dessa forma, uma hipótese 
metafísica que considera o ser do mundo como sendo geométrico é, de acordo com 
Galileu, algo que a experiência cotidiana nos oferece, pois tudo o que percebemos 
cotidianamente poderia ser reduzido a princípios geométricos. Concomitantemente, essa 
ideia de redução é fundamental para compreendermos o significado de “demonstrações 
necessárias” mediante a perspectiva epistemológica. Não é a toa que as perspectivas 
ontológica e epistemológica são entendidas juntas. Para Galileu, o conhecimento 
científico se justifica na justa medida em que opera a partir do raciocínio matemático, 
pois só este é adequadamente justificável enquanto autossuficiente. Essa virtude do 
conhecimento matemático é, como vimos, proveniente de sua operacionalidade 
identificada como a estrutura do real, isto é, com o ser, segundo a argumentação de 
Galileu. Pois, isso é tal como está formulado na segunda disputa do De demonstratione: 
“como uma coisa está relacionada ao ser [por isso está relacionada ao conhecimento], e 
como é dependente de suas causas para o seu ser, ela também deve ser conhecida 
através delas”. (GALILEI, 1992, p. 142 [D 2.2.9])115. 
Paralelamente, as considerações de ordem epistemológica devem estar de acordo 
com a simplicidade, há “maior facilidade de entendimento e de operação com uma 
teoria que utiliza menos hipóteses ou hipóteses matematicamente mais simples” 
(MARICONDA; LACEY, 2001, p. 55). De tal modo que Galileu 
opera entre a perspectiva realista (“nós não buscamos aquilo que Deus podia 
fazer, mas aquilo que ele fez”) e a concepção metafísica da simplicidade 
(“Ele tem sempre, no operar, os modos mais fáceis e simples” ou “Ele gosta 
da simplicidade e da facilidade”), que preside na ordenação real do mundo, a 
verdadeira disposição das partes do universo (MARICONDA; LACEY, 
2001, p. 55) 
 
115 “as a thing is related to being [so it is related to knowing], and since it is dependent on its causes for its 
being it must also be known through them.” (Tradução livre) 
 
81 
Assim, o viés epistemológico do significado do critério é, com efeito, a 
justificabilidade do conhecimento matemático pela proporcionalidade com a ontologia. 
Dessa forma, fazendo-se indispensável citar a conclusão de Mariconda, infere-se que 
a autonomia da ciência está, assim, assentada numa tese de suficiência do 
método científico para aferir a verdade das teorias naturais mediante um 
escrutínio crítico baseado em “experiências sensíveis” e “demonstrações 
necessárias” (estas últimas identificadas por Galileu com o raciocínio 
demonstrativo matemático) (MARICONDA, int., p. 32, Ibid.). 
Considerando, então, o regressus e a relação entre os dois argumentos 
metafísicos apresentados neste tópico – “dois livros” e “distinção das qualidades 
primárias e secundárias” – compreende-se mediante tudo o que foi exposto até as atuais 
linhas, o significado do critério de “experiências sensatas e demonstrações necessárias” 
pela defendida perspectiva tripartite (lógica, ontológica e epistemológica). Este critério, 
como vimos, desempenha papel fundamental no pleito da autonomia da ciência em 
relação à teologia por Galileu, pois é com ele e a partir dele que o cientista abre a fenda 
da ruptura da ciência com a teologia em um dado momento no tempo. Ao compreender 
que a natureza deveria ser conhecida pela matemática e pela experimentação 
conjuntamente, apoiando-se no caráter apodítico da ciência, Galileu estabelece o marco 
histórico no qual a ciência moderna iniciou seu caminho pela emancipação teórica. 
Assim, muito mais que direito ao método, Galileu defende o direito à teoria. 
Com efeito, a tentativa de concordância da ciência com a fé vista na carta a 
Castelli conota algo mais decisivo, que é justamente a liberdade teórica. O que implica 
também a liberdade de pesquisar, concluir e defender os resultados obtidos sobre a 
natureza sem a restrição de uma autoridade alheia a esta competência. Pois como vimos, 
a ciência é feita sob critérios que lhe garantem a autossuficiência operacional. Dessa 
forma, se o critério de “experiências sensatas e demonstrações necessárias” possui um 
significado filosófico e histórico, pode-se dizer que é o questionamento do domínio da 
teologia sobre a ciência natural, a qual se desvincula da filosofia natural aristotélica para 
se sustentar na própria física matemática de Arquimedes, Euclides, Pitágoras e, 
sobretudo, Platão. Assim, poderíamos questionar se a Revolução Científica representou 
o “triunfo” do platonismo sobre o aristotelismo. A ascensão do paradigma moderno de 
ciência poderia sugerir esse triunfo. Pois a estrutura da natureza se configura de maneira 
platônica. No entanto, ainda que isso seja aceitável, não podemos nos comprometer com 
isso absolutamente, dado que o método não deixou de ser aristotélico. 
 
82 
Doravante, tendo em vista que tudo o que foi exposto neste tópico se refere ao 
significado do critério especial de “experiências sensatas e demonstrações necessárias” 
anunciado por Galileu em sua carta a Castelli, o que se segue é a discussão da análise da 
carta de Bellarmino a Foscarini, pela qual o cardeal intervém na polêmica teológica-
cosmológica, respondendo indiretamente a própria carta a Castelli de Galileu, ao passo 
que assevera o princípio metodológico do instrumentalismo para a hipótese 
copernicana. 
 
Capítulo 3. A intervenção de Bellarmino 
 O que significa a intervenção de Bellarmino? Por que dedico o último capítulo 
desta monografia a esse fato? Porque o cardeal Roberto Bellarmino é o símbolo da 
repressão e do intervencionismo contrarreformista, sendo ele, determinante no desfecho 
da polêmica teológica-cosmológica. Com efeito, embora a ciência moderna possuísse 
todas as condições de ser efetivamente desvinculada da teologia, como Galileu nos 
mostrou, essa autonomia efetiva não foi aceita de súbito. Por isso mesmo que 
Bellarmino é o grande antagonista de Galileu. 
O cardeal, segundo Mariconda, “ocupava uma posição de destaque na cúria 
romana, como principal consultor teológico dos pontífices Clemente VIII e Paulo V” 
(MARICONDA, int., p. 46, Ibid.). Isto é, entre todos os teólogos da Igreja, Bellarmino 
era o principal deles e também o mais preparado controversalista. Conforme Mariconda, 
“Em 1576, assume a cátedra de controvérsias do Colégio Romano e durante 
esse período escreve seu trabalho mais conhecido, Disputationes de 
controversiis christianae fidei adversus hujus temporis haereticos
116, no qual 
desenvolve uma refutação sistemática das heresias, organizando os 
argumentos católicos de modo a conduzir a uma controvérsia efetiva 
(MARICONDA, int., p. 46, Ibid.) 
 Ora, o especialista em controvérsias que envolvem heresias não poderia ser 
indiferente com respeito ao problema da concordância das Escrituras com o 
Copernicanismo. Sendo assim, a polêmica teológica-cosmológica precisou ter uma 
conclusão; uma que não fosse, é claro, favorável ao lado suspeito de heresia. Mais 
adiante veremos como isso ocorre. Ainda segundo Mariconda, 
 
116 “Disputas sobre as controvérsias da fé cristã contra os heréticos deste tempo”. 
 
83 
As discussões empreendidas por Bellarmino da base natural e da origem 
jurídica do Estado, da fonte da autoridade política, dos direitos e deveres dos 
magistradosrealizadas com o telescópio mediante as observações 
que vinha fazendo desde outubro ou novembro de 1609 (LEITÃO, introdução, p. 20, in: 
GALILEI, 2010). Após a publicação desta obra, Galileu deu início a um período 
decisivo na história da ciência. Com duração de 22 anos, tal período é denominado pela 
historiografia como período polêmico, o qual se encerra em 1632 com a publicação do 
Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo tolemaico e copernicano (Diálogo 
sobre os dois máximos sistemas de mundo ptolomaico e copernicano), acarretando na 
proibição do mesmo e na consequente condenação de Galileu pelo Santo Ofício um ano 
depois. 
A publicação do Sidereus Nuncius oficializa a adesão (ainda que discreta) de 
Galileu ao copernicanismo. Dessa forma, de 1610 até 1613, ano este que marca o início 
da polêmica teológica-cosmológica, temos o evento no qual Galileu deu início a sua 
campanha copernicana, isto é, Galileu, após suas descobertas com o telescópio, deixa de 
lado2 suas investigações mecânicas e passa a se empenhar na astronomia e na 
cosmologia, de modo a defender a realidade do copernicanismo com argumentos 
poderosos o bastante para incomodar a Companhia de Jesus. Iremos ver que de início os 
jesuítas aclamaram as descobertas de Galileu e até deram assentimento à maioria delas, 
entretanto, não tardaram a ficarem em alerta. 
 
1 O significado desta expressão guarda ambiguidades, sendo motivo de discussão pelos tradutores. A 
palavra em latim “Nuncius” significa tanto “mensagem”, quanto “mensageiro”. Por um lado, 
“mensagem” parece ser o significado que Galileu adotava, visto que ele se refere a seu livro como 
“Avviso astronomico” em italiano, numa carta que escreveu a 30 de janeiro de 1610, quando iniciava a 
produção tipográfica da obra (LEITÃO, int., p. 22, nota 5, in: GALILEI, 2010), o que parece indicar 
justamente o sentido de uma mensagem recebida e que será divulgada. Por outro lado, em outras cartas, 
Galileu denomina em italiano como “Nunzio Sidereo”, o que seria “mensageiro” (ÉVORA, 1987, p. 172). 
E também pelo fato de que o próprio telescópio fazia parte das novidades relatadas na obra, o significado 
“mensageiro” parece ser correto, pois é um adjetivo-substantivo para o telescópio, instrumento que traz a 
mensagem. Assim, a palavra “Nuncius” ou se refere às observações em si mesmas ou se refere ao 
telescópio, que “trouxe” as observações. De qualquer forma, as duas traduções estão corretas, ficando a 
critério do tradutor por motivos que não precisam ser decididos aqui. 
2 Galileu deixa a mecânica de lado neste período, no entanto, não a abandona, sendo tais investigações 
retomadas logo após o fim do período polêmico. Inclusive, a mecânica será sua maior contribuição para a 
ciência (lei da queda dos corpos), sendo sua obra Discorsi e dimostrazioni matematiche, intorno à due 
nuove scienze (Discursos e demonstrações matemáticas sobre as duas novas ciências), de 1638, sua 
principal no sentido científico, a qual será a mais demonstrativa e técnica. 
 
12 
Portanto, antes de tratar do conteúdo da Carta a Castelli – da autonomia da 
ciência exatamente (meu objeto central) – é necessário que seja feita uma narrativa 
daquilo que influenciou a redação de tais documentos. Por isso, este capítulo é dedicado 
ao tratamento do Sidereus Nuncius, no que diz respeito ao seu significado e a suas 
consequências, sendo o período de 1610 até 1613 o prenúncio da polêmica teológica-
cosmológica. 
 
1.1. O Sidereus Nuncius e seus propósitos 
O Sidereus Nuncius foi a primeira obra publicada por Galileu, na qual relatou as 
deduções sobre a superfície da Lua, além de incríveis desenhos sobre tal; relatou a vasta 
quantidade de estrelas existentes no universo para além daquelas vistas a olho nu3; e deu 
a conhecer os quatro satélites de Júpiter, sendo esta, segundo o próprio Galileu, a 
principal descoberta, não só pelo ineditismo, mas também por ser uma evidência da 
possibilidade do copernicanismo. Descobertas estas de tal magnitude que colocaram em 
xeque “a visão cosmológica estabelecida desde a Antiguidade, consolidada 
culturalmente pela teologia cristã e pelo ensinamento universitário oficial” 
(MARICONDA, introdução, p. 17-8, in: GALILEI, 2011). 
Tendo o fim de divulgação e propaganda, o Sidereus Nuncius de Galileu é uma 
obra pretensiosa, oportunista e, sobretudo, incisiva, na qual podemos perceber vários 
propósitos, mas nenhum deles distintos, se completando um ao outro. De tal modo que, 
com esta obra Galileu “matou três coelhos numa cajadada só”, isto é, conseguiu muitos 
proveitos com uma publicação apenas. 
O principal desses propósitos foi, claramente, o de dar notícias de novidades. 
Estas eram tanto as observadas (descritas acima), como também o que possibilitou as 
observações; ou seja, noticiar o conteúdo astronômico observado e o próprio telescópio, 
 
3 Ainda que a descoberta por Galileu da infinidade de estrelas além das vistas a olho nu foi algo notável, 
no entanto, este feito não é inédito. Segundo Annibale Fantoli, Thomas Digges (um astrônomo inglês) foi 
quem realizou a primeira observação do céu com um telescópio, embora rudimentar e bem menos potente 
que o instrumento confeccionado por Galileu. Este astrônomo “descobriu um enorme número de estrelas 
fixas que o levou à afirmação de que o Universo era infinito, trinta anos antes de Galileu [...]” 
(FANTOLI, 2008, p. 105). Em contrapartida, ainda segundo Fantoli, “mesmo que Thomas Digges tivesse 
realizado, de fato, tais observações bastante tempo antes de Galileu, a verdade é que tais descobertas 
permaneceram ignoradas (e, portanto, sem resultados científicos) por mais de quatro décadas, ao passo 
que as de Galileu contribuíram de modo fundamental para a evolução do pensamento científico ocidental” 
(Ibid.). 
 
13 
instrumento que, segundo Henrique Leitão, foi Galileu quem converteu em instrumento 
científico. Sobre as novidades, Galileu escreve logo no início de seu texto: 
Grandes coisas, na verdade, são as que proponho neste pequeno tratado para 
que sejam examinadas e contempladas por cada um dos que estudam a 
natureza. Coisas grandes, digo, pela própria excelência do assunto, pela sua 
novidade absolutamente inaudita e ainda por causa do instrumento com o 
auxílio do qual se tornaram manifestas aos nossos sentidos (GALILEI, 2010, 
p. 151).4 
Dessa forma, entre as novidades se encontram as descobertas, sendo o próprio 
telescópio uma delas, ao passo que seu uso representará uma das características 
fundamentais da ciência moderna, a saber, a experimentação, o que implica a 
legitimidade dos instrumentos. Legitimidade esta que antes não existia, visto que o 
saber anterior à Revolução Científica distinguia as artes mecânicas (o que envolve a 
experimentação e os instrumentos), das artes liberais5 (o trabalho intelectual), sendo 
aquelas consideradas “baixas” e “vis”, identificadas com a materialidade da vida terrena 
e com o trabalho servil (REALE, 2004, p. 146). Reiterando, percebe-se nas palavras de 
Galileu que o próprio telescópio é uma das novidades inauditas, e que seu uso 
inaugurou o caráter experimental e metodologista da ciência moderna, o que, em 
contrapartida, causou a relutância de alguns clérigos conservadores, incluindo os 
jesuítas, que levantaram muitas objeções quanto à confiabilidade de tal instrumento. 
Muitos perguntaram: como uma parafernália que ninguém conhece direito, pode ser 
tomada como argumento para a refutação de Aristóteles? 
No entanto, a princípio, nem todos os jesuítas se posicionaram contra a verdade 
das observações. Inclusive, as observações de Galileu encontraram respaldo no Colégio 
 
4
 “Magna æquidem in hac exigua tractatione singulis de Natura speculantibus inspicienda, 
contemplandaque propono. Magna, inquam,e das relações entre o poder secular e o poder eclesiástico 
representam a versão mais sistemática e clara da concepção contrarreformista 
do Estado e do poder político, versão pela qual Bellarmino se firma como 
principal teórico e teólogo da Contrarreforma (Ibid.) 
Veja então que Bellarmino tinha muita autoridade no seio da sociedade 
contrarreformista. Por conseguinte, Mariconda nos chama atenção para o impacto 
cultural de Bellarmino, como por exemplo, sua atuação em relação ao processo de 
Bruno, “que se alongava por sete anos sem que se formasse uma acusação clara, quando 
Bellarmino intervém, levando Bruno à condenação a morte” (Ibid.). De acordo o 
comentador, isso foi um “ato extremo da intolerância e da repressão a ideias e 
concepções, realizado pelo extermínio de seu autor, devidamente justificado por razões 
de Estado e de soberania política” (Ibid.). Haja vista o caso117 do próprio Galileu. 
Dessa forma, fechar esta monografia com o posicionamento de Bellarmino está 
em função de mostrar que a autonomia da ciência não foi conquistada sem resistência. 
Pois existia uma concepção oficial de ciência na época, a qual não cedeu lugar ao passo 
que Galileu reclamava. Destarte, 
a posição do cardeal Bellarmino no debate sobre a incompatibilidade de 
Copérnico com a Bíblia não representa uma mera posição ou opinião pessoal, 
mas é a expressão clara da concepção oficial da ciência, não só aceita pela 
Igreja, mas posta em prática pelos jesuítas em todos os níveis de sua política 
educacional (MARICONDA, int., p. 47, Ibid.). 
Portanto, a intervenção de Bellarmino não significa um posicionamento 
individual, mas uma posição oficial e própria da institucionalização do conhecimento na 
Itália do século XVII. 
Doravante, o que se segue é o exame da carta de Bellarmino a Foscarini, através 
da qual podemos compreender o primeiro movimento intervencionista do cardeal 
mediante seu pronunciamento sobre a polêmica teológica-cosmológica. 
 
3.1. O problema do instrumentalismo na carta de Bellarmino a Foscarini 
 
117 Com a publicação Dialogo, foi obrigado a abjurar as teses contidas na obra, e mesmo assim foi 
condenado pela Inquisição à prisão domiciliar perpétua. Mesmo Bellarmino morrendo em 1621, seu 
legado intolerante influencia a condenação de Galileu doze anos depois. 
 
84 
Como já mencionado, Foscarini havia publicado em 1615 um opúsculo que 
reproduzia uma carta118 que foi enviada para o superior geral dos carmelitas, na qual 
defendia o copernicanismo. Evidentemente, essa publicação chamou bastante atenção, 
visto que Foscarini era um teólogo de renome, tal como afirma Fantoli: 
o Santo Ofício já devia estar bem preocupado com a defesa do 
copernicanismo por parte de um teólogo do gabarito de Foscarini. Foi aí que 
a Carta deve ter sido entregue a um consultor, para a censura teológica. O 
julgamento foi severo. O censor afirmou que a Carta demasiado favorável à 
opinião “temerária” de que a Terra se move e o Sol está parado (FANTOLI, 
2008, p. 162). 
É justamente para o detalhe do “gabarito” de Foscarini que quero chamar a 
atenção. Parece que a publicação deste carmelita configurou uma ameaça que até então 
a Carta a Castelli de Galileu não tinha produzido. Pois, a temeridade de Galileu 
enquanto “simples homem de ciência”, ainda era “tolerável”. Mas quando um teólogo, 
investido de suas funções doutrinais, aparece defendendo a hipótese copernicana, isso 
causa uma preocupação mais adiantada do Santo Ofício, sendo tal temeridade mais 
preocupante com relação a um próprio membro da Igreja romana. E sendo o cardeal 
Bellarmino o principal teólogo dessa instituição nessa época, e também, como vimos, o 
“especialista em heresias”, dessa forma, ele precisou intervir de tal modo representando 
a posição oficial da Igreja. Segundo Mariconda, “a intervenção do cardeal Bellarmino 
não pode ser subestimada, pois ela expressa com clareza a posição oficial da Igreja com 
relação ao uso e lugar da matemática na cultura contrarreformista” (MARICONDA, int., 
p. 46, in: GALILEI, 2011). Isto é, o lugar da matemática na cultura da reforma católica 
dependia de como estava organizado o currículo do ensino universitário, o qual, por sua 
vez, baseava se na hierarquização aristotélica das ciências119. Porquanto, eis a análise da 
carta. 
Datada de 12 de abril de 1615120, a carta de Bellarmino é, em termos estruturais, 
um pronunciamento que está divido em três tópicos. É bom ressaltar ainda que a carta 
de Bellarmino a Foscarini está em função de responder o próprio Foscarini, o qual 
 
118 “Carta ao reverendo padre mestre Antonio Foscarini, carmelita, concernente à opinião dos 
pitagóricos e de Copérnico sobre a mobilidade da Terra e a instabilidade do Sol e o novo sistema do 
mundo pitagórico etc.” (FANTOLI, 2008, p. 164). 
119 Segundo Mariconda, “a classificação aristotélica da ciência, devidamente interpretada por Tomás de 
Aquino e consolidada pela escolástica, foi utilizada como base teórica para indicar a existência de uma 
hierarquia que será respeitada, quando se passa do plano abstrato e teórico da classificação das ciências 
para o plano da organização institucional das disciplinas nas universidades: a autoridade de Aristóteles na 
filosofia natural e a autoridade da teologia” (MARICONDA, int., p. 37, Ibid.). 
120 Dois anos após a Carta a Castelli. 
 
85 
havia lhe solicitado seu parecer sobre o copernicanismo. Como se pode perceber no 
seguinte excerto da carta: “visto que o Sr. pede meu parecer, o darei de modo muito 
breve porque o Sr. tem agora pouco tempo de ler e eu tenho pouco tempo de escrever” 
(NASCIMENTO, p.105, [171]). Isso explica a pontualidade da carta. 
O primeiro tópico da carta de Bellarmino versa sobre o modo de tratamento pelo 
qual se deve proceder a respeito do movimento da Terra e da estabilidade do Sol. É 
neste ponto que ele assevera a condição ex suppositione (por suposição) para este 
tratamento: 
Primeiro. Digo que me parece que Vossa Paternidade e o Senhor Galileu 
ajam prudentemente, contentando-se em falar “por suposição” e não de modo 
absoluto, como eu sempre cri que tenha falado Copérnico. Porque dizer que, 
suposto que a Terra se move e o Sol está parado, salvam-se todas as 
aparências melhor do que com a afirmação dos excêntricos e epiciclos, está 
dito muitíssimo bem e não há perigo algum. E isto basta para o matemático. 
Mas querer afirmar que realmente o Sol está no centro do mundo e gira 
apenas sobre si mesmo sem correr do oriente ao ocidente e que a Terra está 
no 3º céu e gira com suma velocidade em volta do Sol, é coisa muito perigosa 
não só de irritar todos os filósofos e teólogos escolásticos, mas também de 
prejudicar a Santa Fé ao tornar falsas as Sagradas Escrituras 
(NASCIMENTO, 1988, p.105, [171]). 
A concepção instrumentalista está, dessa forma, bem expressa na condição ex 
suppositione, segundo a qual, deve-se defender o sistema de Copérnico na medida em 
que esta doutrina seja tomada como mero recurso matemático para “salvar as 
aparências”. Dessa forma, Bellarmino 
explicita, de certo modo, o compromisso metodológico tradicionalista 
articulado em torno da concepção instrumentalista de que a astronomia é um 
ciência matemática cujas hipóteses não têm alcance real, sendo meros 
instrumentos de cálculo (MARICONDA, int., p. 48, Ibid.) 
Ou seja, deve-se tratar do copernicanismo enquanto uma suposição, sem o 
compromisso de verdade, de tal modo que assim não se cairia em problemas. 
Entretanto, na medida em que este tratamento estivesse em função de afirmar a 
realidade da doutrina copernicana, isso já seria perigoso. Ainda segundo Mariconda, a 
advertência de Bellarmino expressa a recusa em subscrever as prerrogativas 
copernicanas, claramente enunciadas por Galileu, de jurisdição da ciência matemática 
sobre a filosofia natural e de independênciada mesma com relação à teologia 
(MARICONDA, int., p. 48, Ibid). Portanto, com este primeiro tópico do 
pronunciamento de Bellarmino já se pode perceber a sua tentativa de negar o pleito da 
autonomia da ciência de Galileu. Considerar a astronomia como mero recurso 
 
86 
matemático tem como consequência tomar a matemática como um mero instrumento, de 
tal modo que seus princípios não correspondam em nada à natureza. E se, de acordo 
com Galileu, a ciência é autossuficiente justamente porque existe uma 
proporcionalidade entre ela e os princípios da natureza, então a afirmação de Bellarmino 
implica que a ciência não pode ser autossuficiente e, logo, não pode ser autônoma. 
Pode-se perceber então que o primeiro tópico de Bellarmino vai de encontro com o 
pleito de autonomia da ciência de Galileu na medida em que assevera o 
instrumentalismo para a matemática. De acordo com Rossi, Galileu considerava a 
“pesquisa de Copérnico não como um meio para chegar a cálculos conforme à 
observação, mas como um discurso que concerne ‘à constituição das partes do universo 
in rerum natura’ e a ‘verdadeira constituição das partes do mundo’” (ROSSI, 2001, p. 
161). Pois, a doutrina de Copérnico era assentada na matemática, mas não tomando esta 
como instrumento, mas como a linguagem dos próprios princípios constituintes do 
universo. 
 O segundo tópico explana sobre a interpretação das Escrituras, afirmando o 
poder de lei do Concílio de Trento. Sobre isso, Bellarmino escreve assim: 
2º. Digo que, o Concílio proíbe explicar as Escrituras contra o consenso 
comum dos Santos Padres. [...] Verá que todos concordam em explicar 
literalmente que o Sol está no céu e gira em torna da Terra com suma 
velocidade e que a Terra está muitíssimo distante do céu e está imóvel no 
centro do mundo (NASCIMENTO, 1988, p.106, [172]). 
 Então, para Bellarmino, não é o caso que se deva interpretar as Escrituras como 
Galileu queria na sua carta a Castelli. Estas devem, isso sim, ser interpretadas de acordo 
com a interpretação comum dos Santos Padres, tal como foi determinado pelo Concílio 
de Trento (ver nota 76). Segundo Mariconda, 
A interpretação de Galileu do decreto conciliar insiste justamente sobre o 
domínio de aplicação previsto pelo Concílio de Trento: a fé e a moral; e 
extrai como consequência que fora dessas questões, particularmente em 
matéria de questões naturais, o consenso dos Santos Padres e da tradição não 
é decisivo, de modo que a circunscrição da autoridade dá lugar ao exercício 
da razão autônoma (MARICONDA, int., p. 50, Ibid.) 
 No entanto, no mesmo tópico, Bellarmino se declara sobre um detalhe que 
inutiliza o desvio da interpretação literal dos padres. Para o cardeal, as sentenças 
bíblicas acerca do movimento do Sol e da imobilidade da Terra “se não é matéria de fé 
‘por parte do objeto’, é matéria de fé ‘por parte de quem fala’” (FANTOLI, 2008, p. 
166; NASCIMENTO, 1988, p. 106, [172]). Isto é, “Bellarmino que conhecia bem a 
 
87 
interpretação de Galileu, procura retirar-lhe a força, dizendo que o movimento da Terra 
e a estabilidade do Sol são matérias de fé não em si mesmas (ex parte objectis), mas 
porque são afirmadas pela Escritura (ex parte discentis) (MARICONDA, int., p. 50, 
Ibid.). Ser matéria de fé ex parte discentis se refere ao Espírito Santo, o qual é “aquele 
que fala” (FANTOLI, 2008, p. 166), que ditou as palavras bíblicas de acordo com Deus. 
Dessa forma, com esta distinção, Bellarmino tenta 
suprimir a interpretação restritiva do decreto conciliar, deixando aberto o 
campo para a censura das teses copernicanas pela Sagrada Congregação do 
Índice com base em evidência textual de sua incompatibilidade com 
passagens das Sagradas Escrituras, permitindo assim a aplicação jurídica dos 
decretos conciliares (Ibid.). 
 Veja, então, que é isso que significa se apoiar no poder de lei do Concílio de 
Trento. De modo que pelos seus decretos, acabava sendo permitido legalmente aplicar a 
censura nas afirmações perigosas que contradiziam o consenso dos Padres. Pois a 
jurisprudência nessa época era determinada pela Igreja, estando esta, além de tudo, 
reformada e com isso, para melhor combater a heresia e assegurar a doutrina, um 
magistrado eclesiástico tinha o direito de acusar e determinar a pena de morte. 
Assim, mesmo Galileu procurando restringir o decreto conciliar, Bellarmino 
nega sua interpretação introduzindo essa distinção (ex parte objectis e ex parte 
discentis), a qual foi fundamental para que se prosseguisse com a censura das teses 
copernicanas. 
 Por conseguinte, o terceiro e último tópico da carta de Bellarmino trata da 
dúvida da demonstração do Copernicanismo, de tal modo introduzindo também outra 
distinção determinante que está relacionada com o instrumentalismo. Leia-se então o 
argumento de Bellarmino: 
3º. Digo que, se houvesse verdadeira demonstração de que o Sol esteja no 
centro do mundo e a Terra no 3º céu e de que o Sol não circunda a Terra, mas 
a Terra circunda o Sol, então seria preciso proceder com muita atenção na 
explicação das Escrituras que parecem contrárias e dizer, antes, que não as 
entendemos, do que dizer que é falso aquilo que se demonstra. Mas não 
crerei que há tal demonstração até que e seja mostrada. Nem é o mesmo 
demonstrar que, suposto que o Sol esteja no centro e a Terra no céu, salvam-
se as aparências, e demonstrar que na verdade o Sol esteja no centro e Terra 
no céu. Porque a primeira demonstração creio que possa haver, mas da 
segunda tenho dúvida muitíssimo grande e, em caso de dúvida, não se deve 
abandonar a Escritura Sagrada, explicada pelos Santos Padres 
(NASCIMENTO, 1988, p. 106, [172]). 
 
88 
 Bellarmino é claro quando diz que se houvesse uma demonstração do 
copernicanismo, então, só assim, se deveria revisar a interpretação das Escrituras. Mas 
para ele, tal demonstração não existe. No entanto, sobre essa concessão de Bellarmino, 
Fantoli nota uma contradição com a matéria de fé ex parte discentis, a saber, 
Se as afirmações da Escritura sobre o movimento do Sol são “matéria de fé” 
no sentido precisado por Bellarmino, elas constituem verdades indubitáveis, 
que jamais poderão ser desmentidas por qualquer progresso da ciência. Como 
podia, pois, conceder Bellarmino, justamente no início do terceiro ponto, que 
caso acontecesse uma verdadeira demonstração de que o Sol está no centro 
do mundo e a Terra gira em torno dele seria necessário “antes dizer que não a 
entendemos [Escritura] do que dizer que seja falso o que se demonstra? A 
possibilidade de que a Escritura não tivesse sido bem compreendida não tinha 
porventura ficado excluída por todo o raciocínio do segundo ponto? [...] 
(FANTOLI, 2008, p. 167). 
 A contradição identificada por Fantoli se dá justamente entre a proposição que 
afirma ser impossível interpretar as Escrituras de outra maneira e a proposição que 
afirma ser possível interpretar as Escrituras de outra maneira, caso haja demonstração. 
Assim, dado que o Espírito Santo falando por Deus jamais possa errar – matéria de fé ex 
parte discentis –, se a demonstração implica a reavaliação da interpretação, então a 
matéria de fé ex parte discentis pode ser alterada. Logo, o Espírito Santo falando por 
Deus incorreu em erro. Tal é o problema que se impõe entre o segundo e o terceiro 
tópico de Bellarmino. Por conseguinte, Fantoli sublinha a ressalva de Bellarmino, 
quando este diz que, tal demonstração é duvidosa de que possa algum dia ocorrer. 
 Conquanto, Bellarmino faz outra distinção, agora entre dois tipos de 
demonstração: “demonstrar que é suposto” e “demonstrar que é na verdade”, isto é, 
demonstrar ex suppositione e demonstrar ex veritate. Diz Bellarmino: “a primeira 
demonstração creio que possa haver”, a qual pode ser o De revolutionibus de Copérnico 
ou o próprio Sidereus Nuncius, por exemplo. Mas a do segundo tipo não, diz ele: “tenho 
muitíssimo dúvida”. A ressalva de Fantoli da contradição de Bellarmino se baseiajustamente nessa distinção. Pois, para Bellarmino, mesmo que a demonstração obrigasse 
a reinterpretação das Escrituras, tal demonstração é duvidosa de ocorrer. Segundo 
Fantoli, “o fundamento de tal ceticismo não é mais de natureza teológica, mas 
filosófica” (FANTOLI, 2008, p. 167). De tal modo que Bellarmino defende isso com 
“base na certeza filosófica fundada na evidência da experiência comum: ‘porque 
claramente experimenta que a Terra está parada’” (FANTOLI, 2008, p. 167). Ou com o 
que se pode chamar de “argumento da percepção”. Eis o argumento: 
 
89 
parecendo-nos que o Sol gira enquanto a Terra gira, como a quem se afasta 
da praia parece que a praia se afaste do navio, responderei que quem se afasta 
da praia, embora lhe pareça que a praia se afaste dele, sabe, no entanto, que 
isto é um erro e o corrige, vendo claramente que o navio se move e não a 
praia. Mas, no que se refere ao Sol e à Terra, não há nenhum perito na 
matéria que tenha necessidade de corrigir o erro porque experimenta 
claramente que a Terra está parada e que o olho não se engana quando julga 
que o Sol se move, como também não se engana quando julga que a Lua e as 
estrelas se movem (NASCIMENTO, 1988, p. 107, [172]). 
 Este argumento de Bellarmino diz que para ver que é o Sol que se move em 
torno da Terra e não o contrário, basta olhar. O cardeal conclui simplesmente assim. De 
tal modo baseando-se na mera aparência sensível. Percebe-se que com esse argumento 
Bellarmino nega o novo conceito de aparência da epistemologia moderna inaugurada 
com o De revolutionibus, que mostra que a aparência depende da posição e do 
movimento do observador. Segundo Mariconda, 
Bellarmino se aferra, assim, ao fundamento fenomenológico antropocêntrico 
da concepção tradicional, recusando-se a aceitar que o sujeito seja de tal 
modo constitutivo da percepção que o repouso ou o movimento do 
observador possa alterar signitificativamente o conteúdo aparente ou real dos 
movimentos observados (MARICONDA, int., p. 52, Ibid.). 
Todavia, Galileu conseguiria, na Segunda Jornada do Dialogo, refutar o 
argumento de Bellarmino com o princípio da relatividade, segundo o qual, nenhuma 
experiência feita no interior de um sistema mecânico inercial pode decidir se o sistema 
com um todo está em movimento uniforme ou repouso (MARICONDA, p. 840; 
GALILEI, p. 224 In: GALILEI, 2011.). Assim, para Mariconda, 
A aceitação ou recusa das teses copernicanas não se dá em base estritamente 
empírica ou fenomenológica, mas depende de considerações de outra ordem, 
tais como a ordenação harmoniosa entre as partes e o todo, a maior 
simplicidade de um sistema com relação aos sistemas concorrentes e, talvez 
mais importante, a persecução consciente de um ideal explicativo 
(MARICONDA, int., p. 53, Ibid.). 
Note-se então que, se Galileu consegue bloquear o argumento de Bellarmino 
com o princípio de relatividade, bloqueia-se também a ressalva da contradição indicada 
por Fantoli e, portanto, a contradição ocorre. Pois, para Bellarmino, se a impossibilidade 
de houver demonstração era determinada pela aparência, alterando-se a natureza da 
aparência, destrói-se, assim, a impossibilidade de não haver demonstração. Logo, se a 
demonstração é possível, então é possível reavaliar a interpretação das Escrituras. Sendo 
possível reavaliar a interpretação das Escrituras, como vimos, então decorre o erro da 
matéria de fé ex parte discentis. Portanto, Bellarmino, por implicação lógica, está 
comprometido em alguma medida com a possibilidade do Espírito Santo errar. Ora, 
 
90 
para que essa conclusão fosse evitada, teria que ser necessário que a aparência fosse 
necessária. Isto é, teria que ser necessário que a percepção mostrasse o ser como de fato 
ele é. Pode-se objetar que, pressupondo a epistemologia aristotélica, a ressalva da 
contradição se sustenta. No entanto, a própria ressalva é feita com base na dúvida da 
possiblidade de houver demonstração. Assim, em sentido geral, a epistemologia 
aristotélica teria que ser necessária, não havendo desse modo a possibilidade de outra 
epistemologia, para que ressalva se sustentasse. Havendo a possibilidade de outra 
epistemologia, a contradição de Bellarmino se segue. 
Por conseguinte, após apresentar seu argumento, Bellarmino termina sua carta o 
fazendo com as seguintes palavras: “E baste isto por agora”. Ou seja, está decidido. Mas 
decidido o que? Segundo Fantoli, 
Concluindo, a resposta de Bellarmino continha uma clara negação das ideias 
levantadas por Foscarini e pelo próprio Galileu a respeito da conciliabilidade 
do copernicanismo com a Escritura. Era uma negação baseada, como vimos, 
tanto em motivos teológicos como numa consideração filosófica “de bom 
senso”. Assim, concretamente, Bellarmino não deixava aberta senão uma 
única saída: a consideração do copernicanismo como uma mera hipótese 
matemática. Contudo, era exatamente isso que Galileu sempre tinha se 
negado a fazer (FANTOLI, 2008, p. 168). 
 Assim, o que ficava decidido é que o copernicanismo é mera suposição, uma 
mera hipótese. Mas, para Galileu isso era inaceitável, porque o Copernicanismo, 
conforme Rossi indicou, é “um discurso que concerne ‘à constituição das partes do 
universo in rerum natura’”, isto é, um discurso sobre como a natureza é. E além de 
tudo, para Galileu, a matemática não podia ser um modo hipotético pelo qual o 
Copernicanismo salvava as aparências. Na verdade, a matemática é a própria hipótese 
(metafísica). Para ele, os entes matemáticos constituem a própria natureza – o ser. 
Portanto, como se pôde perceber, a carta de Bellarmino a Foscarini é, sobretudo, 
uma resposta, ainda que indireta, à carta de Galileu a Castelli. De tal modo, que ela tenta 
responder ao longo de três tópicos com a afirmação da impossibilidade do pleito de 
autonomia da ciência de Galileu. De acordo com Bellarmino, a ciência da natureza que 
Galileu afirma não é autônoma, pois a matemática na qual ela se baseia é mero artifício 
de cálculo, usado apenas para “salvar as aparências”. A condição ex suppositione 
determinou que Galileu não pudesse defender a verdade do copernicanismo, mas apenas 
tratá-lo como mero recurso matemático para salvar as aparências. No entanto, Galileu 
não aceitava tal condição, justamente por ela submeter a razão a prerrogativas 
 
91 
teológicas. Pode-se entender que a condição ex suppositione para o copernicanismo 
estava em função de resguardar a doutrina, tanto teológica, como a filosofia natural de 
Aristóteles. 
“Em carta de 20 de junho de 1615, também Cesi, aconselha Galileu a “fazer 
com que seja usada ex hipothesi, para salvar de forma mais cautelosa e 
simples as aparências, como já fez o primeiro autor (refere-se a Copérnico): 
numa palavra, não opor-se à verdade da mesma, nem afirmar tê-la por 
verdadeira” (MARICONDA, 1985, p. 18). 
Com isso, tanto a condição ex suppositione, quanto ex hipothesi, semanticamente 
idênticas, feriam o princípio de racionalidade e de autonomia da ciência defendido por 
Galileu, de modo que considerava como “duas coisas distintas para um sistema 
astronômico ser verdadeiro e salvar as aparências” (FRIEDMAN, 2011, p. 82). Para 
Galileu, 
“os astrônomos filosóficos [são aqueles] que, indo além da exigência de 
salvar as aparências, procuram investigar a verdadeira constituição do 
universo – o problema mais importante e admirável que existe; ela é única, 
verdadeira e real e não poderia ser de outra forma” (Ibid.) 
Portanto, o instrumentalismo é um problema na medida em que contradiz a 
autonomia da ciência. Galileu não aceitou absolutamente a condição e continuou a 
defender a verdade do copernicanismo até ser submetido à condição de não defender 
quovis modo (a qualquer modo) o Copernicanismo. Ou seja, a princípio, Galileu poderia 
defender o copernicanismo, desde que fosse ex suppositione e como recurso 
matemático. No entanto, não se submeteu ao instrumentalismo, acabando por não poder 
defendê-lode modo algum, o que teve como consequência a sua condenação em 1633 
pelo Santo Ofício. Mas que condição quovis modo é essa? Veremos a seguir o que isso 
significa com as implicações do decreto de 1616 e finalizo, dessa maneira, a presente 
narrativa. 
3.2. A censura do copernicanismo 
A campanha que começou com a publicação do Sidereus Nuncius sofreu um 
duro golpe em 1616, embora não findasse. De fato, a campanha galileana pelo 
Copernicanismo, que traz em si o pleito da autonomia da ciência dura até 1632, 
encerrando-se com a publicação do Dialogo. Sendo tal golpe sofrido justamente a 
censura do copernicanismo. Doutrina esta que passa a ser oficialmente herética 
mediante o famoso decreto de 1616. Publicado em 5 de março daquele ano, parte deste 
decreto pode ser lido a seguir: 
 
92 
Visto fazer já algum tempo que vieram a luma, entre outros, alguns livros que 
contêm várias heresias e erros, a Sagrada Congregação dos Ilustríssimos 
Cardeais da Santa Igreja Romana, delegados para o Índice, foi de parecer que 
eles deviam ser totalmente condenados e proibidos para que, de sua leitura, 
não surgissem, com o passar dos dias, prejuízos cada vez mais graves em 
toda a República Cristã. Assim, pelo presente decreto, condena-os e proíbe-
os inteiramente, quer já impressos, quer a serem-no em qualquer lugar e não 
importa em qual idioma. Ordenado, sob as penas contidas no Sagrado 
Concílio de Trento e no Índice dos livros proibidos, que ninguém daqui para 
frente, seja qual for o seu grau ou condição, ouse imprimi-los ou cuidar de 
sua impressão, ou de qualquer maneira que seja guardá-los consigo ou lê-los. 
(NASCIMENTO, 1988, p. 107). 
A partir de sua promulgação, qualquer relação com tal doutrina estaria passível 
de penalidade. Com efeito, mesmo distando dezessete anos desta censura, a condenação 
do Dialogo de Galileu tem relação direta com este decreto. Pois, a publicação do 
Dialogo desprezou qualquer ordem presente nele. Mas o que significava tal decreto? 
Segundo Fantoli, a “intensa atividade de Galileu em favor do copernicanismo, 
juntamente com a tomada de posição de um teólogo como Foscarini” (FANTOLI, 2008, 
p. 194), configuraram fatores tais que tinham “criado confusão demais para que a Igreja 
ainda hesitasse em tomar uma clara posição a respeito” (Ibid.). Ou seja, a promulgação 
do decreto de 1616 significa justamente esta tomada de posição da Igreja, a qual ocorre 
imediatamente posterior à polêmica teológica-cosmológica, sendo por esse modo o 
desfecho de tal polêmica. No entanto, segundo Mariconda, neste decreto “não há 
significativamente nenhuma referência explícita ao nome de Galileu” (MARICONDA, 
int., p. 55, Ibid.). Embora possa não haver nenhuma referência explícita ao nome de 
Galileu, no entanto, a campanha de Galileu por tal doutrina foi uma das motivações 
reais para a decisão do decreto. 
 É bom ressaltar que, a princípio, é feito a censura de duas proposições 
específicas, as quais encerram em si toda a doutrina copernicana. Logo em seguida, o 
Santo Ofício comunica sua censura à Sagrada Congregação do Índice, órgão este, 
encarregado de proibir sumariamente o De revolutionibus e qualquer outra121 obra que 
contivesse proposições semelhantes. Estas proposições que foram censuradas são as 
seguintes: 
1) Que o Sol seja o centro do mundo, e consequentemente imóvel de 
movimento local; 2) Que a Terra não é o centro do mundo, nem imóvel, mas 
move-se em relação a si mesma, inclusive com movimento diurno (XIX, 320 
apud FANTOLI, 2008, p. 195). 
 
121 Também Dídaco Astunica no comentário de Jó e o próprio Foscarini. 
 
93 
 Segundo Fantoli e Mariconda, “os qualificadores e consultores do Santo Ofício 
concordaram sobre as seguintes qualificações que deveriam ser dadas às proposições”. 
Assim, sobre a primeira proposição, os teólogos julgaram que ela é 
tola e absurda in philosophia e formalmente herética, na medida em que 
contraria expressamente as afirmações da Sagrada Escritura em muitas 
passagens conforme o uso apropriado das palavras e segundo a exposição 
comum e o sentido dos Santos Padres e Doutores de Teologia (FANTOLI, 
2008, p. 196; MARICONDA, int., p. 54 Ibid.). 
 De acordo com Mariconda, os teólogos não tinham competência suficiente para 
julgar que tal proposição era “tola e absurda” in philosophia. Tal como vimos com o 
critério especial de Galileu das “experiências sensatas e demonstrações necessárias”, os 
teólogos, para decidirem com acerto sobre esta proposição, precisariam avaliá-la 
segundo este critério. Ora, de acordo com Galileu, apenas quem é versado em 
demonstração que poderiam concluir a verdade ou falsidade de tal proposição. O que 
não foi realizado durante o processo de censura, mas apenas a aplicação do princípio de 
autoridade (Ibid.). 
 Quanto à segunda proposição, segundo Mariconda, ela é também censurada ex 
parte objectis como “tola e absurda” in philosophia. Ou seja, por parte do objeto, de tal 
modo recebendo a mesma qualificação filosófica; e do ponto de vista da verdade 
teológica é pelo menos errônea na fé ex parte discentis, pois não há nas Escrituras 
nenhuma afirmação que lhe confirme a verdade (FANTOLI, 2008, p. 196; 
MARICONDA; int., p. 54, Ibid.). 
 Por conseguinte, o papa Paulo V expede uma notificação na qual ordena que 
Galileu seja admoestado122 por Bellarmino, para que ele abandone o copernicanismo 
(Ibid.). A mesma notificação também ordenava que se Galileu se recusasse a obedecer, 
deveria então intimá-lo. E se ainda permanecesse desobediente, então que fosse 
encarcerado (MARICONDA, int., p. 54, Ibid.). Com isso já podemos perceber o efeito 
da censura. Se antes, ocorria a falta de liberdade para discutir o copernicanismo, tal 
como vimos no segundo capítulo, agora, semelhante discussão passava a ser 
expressamente proibida. É por isso que no Il Saggiatore temos Galileu defendendo a 
doutrina pitagórica e o atomismo de Demócrito. Pois esta era uma forma retórica de 
salvaguardar o copernicanismo, o qual estando sob o véu da censura não poderia ser ao 
 
122 Ver nota 70. 
 
94 
menos mencionado. Haja vista a expressão que pode ser lida naquela passagem do 
decreto. 
 Dessa forma, no dia 26 de fevereiro de 1616, Galileu comparece à casa de 
Bellarmino para receber a admoestação. Segundo Mariconda, “tudo parece indicar que 
Bellarmino procurasse impor a Galileu o compromisso metodológico instrumentalista, 
tal como expresso no primeiro tópico de sua carta a Antonio Foscarini” (Ibid., p. 55). E 
conforme Rossi, Galileu, então, foi admoestado, 
e que logo depois (sucessive et incontinenti), em nome do Pontífice e da 
inteira Congregação do Santo Ofício, foi-lhe ordenado ‘abandonar totalmente 
a referida opinião, deixar de aceitá-la, defendê-la e ensiná-la de qualquer 
forma (quovis modo) mediante palavras e escritos” (ROSSI, 2001, p. 163). 
 Mas pode se perguntar: Galileu teve que abjurar perante Bellarmino? De fato, 
não foi esse o caso. Segundo uma declaração do próprio Bellarmino, datada de 26 de 
maio de 1616 (ver nota 70) “somente lhe foi notificada a declaração publicada pela 
Sagrada Congregação afirmando que a doutrina copernincana era contrária às Sagradas 
Escrituras e, portanto, não se podia defender nem sustentar” (ROSSI, 2001, p. 164; 
MARICONDA, int., p. 55, Ibid.). Conclui-se então que Galileu não teve que abjurar 
nada, mas que ficasse ciente que o Copernicanismo foi censurado e por isso mesmo não 
poderia ser defendido. Isso mostra também que Galileu não foi submetido à condição do 
quovis modo na admoestação. Mas que, conforme Rossi, foi sucessive et incontinenti, 
isto é, imediatamente depois. Pela bibliografia analisada, nada se encontra sobre a causa 
de Galileu ser censurado mediante a condição quovis modo. De certo, o que se sabe é 
que Galileu nunca aceitou o instrumentalismo. E considerandoseu temperamento, é 
provável que tenha resistido explicitamente, não o suficiente para precisar ser preso (até 
então), mas que lhe fosse ordenado tal condição. Dessa forma, como já foi afirmado, 
com o quovis modo, passa a ser negado a Galileu defender o copernicanismo 
absolutamente. De tal modo que, se antes lhe era concedido “salvar as aparências” com 
a matemática, agora nem salvar as aparências poderia mais, pois o próprio 
Copernicanismo enquanto hipótese foi lhe negado. Com efeito, essa condição é 
determinante para sua condenação em 1633. 
 Portanto, a intervenção de Bellarmino, o instrumentalismo, o decreto de 1616, 
mais o agravante da condição quovis modo veio de encontro ao pleito de Galileu da 
autonomia da ciência. Pois, cada um destes posicionamentos eram medidas de censura 
para acabar com qualquer possibilidade de defesa de da autonomia. 
 
95 
Mediante tudo que foi exposto acima, a impressão que fica é que o 
instrumentalismo e o princípio de autoridade “venceram”. E que o pleito de autonomia 
da ciência foi frustrado, levando consigo o critério especial de “experiências sensatas e 
demonstrações necessárias”. De fato, por um lado, Galileu é derrotado, sendo o ano de 
1633 a efetivação disso: sua prisão domiciliar perpétua significa claramente isso para a 
cultura e para o desenvolvimento da ciência. No entanto, por outro lado, e isso é o que 
importa para este trabalho monográfico, Galileu obteve êxito, o fazendo na medida em 
que esteve junto à liberdade, de tal modo se tornando símbolo de resistência e de 
racionalidade. Com efeito, quem foi derrotado foi a pessoa Galileu, de carne e osso. 
Mas o Galileu cientista e filósofo, pelo contrário, se constituiu como um dos pilares da 
Revolução Científica dos séculos XVI-XVII. 
Uma das teorias standards da física contemporânea, a saber, a relatividade geral 
se conecta de alguma maneira com o princípio de relatividade123 de Galileu. Embora 
esta conexão não seja direta, e que também a geometria einsteiniana, ao contrário de 
Galileu, é não-euclidiana, no entanto, Galileu e Einstein concordam com a ideia da 
geometria, independente de qual seja, ser o ser do mundo, concordam na noção da 
linguagem na qual o universo está escrito. Isto é, os princípios matemáticos configuram 
a estrutura da realidade. 
 
Considerações finais 
Para finalizar, então, gostaria de fazer algumas considerações sobre o caminho 
percorrido para a resolução do problema proposto. Este trabalho é tanto uma investida 
histórica, quanto filosófica. De tal modo que para responder o problema foi necessário 
argumentar também em filosofia. Dessa forma, compreender o momento em que a 
ciência apontou para uma desvinculação com a teologia me exigiu saber em que medida 
essa desvinculação ocorreu e saber os pressupostos que garantiam a reivindicação dessa 
desvinculação. 
Partindo da análise do Sidereus Nuncius, foi possível identificar o espectro da 
autonomia da ciência na medida em que Galileu criava um novo conceito de 
astronomia, pois este novo conceito implicava uma nova maneira de se proceder nesta 
 
123 Tratado principalmente no Dialogo e também no Discorsi. 
 
96 
ciência. Vimos que esta maneira permitiu a Galileu saber o que era decisivo para se 
concluir a respeito do campo de estudo da astronomia, a saber, o movimento dos corpos 
celestes. Assim, este novo conceito trazia em si a experimentação, juntamente com a 
necessária demonstração da causa dos fenômenos observados pelo novo instrumento 
adquirido. Demonstrações estas, que exigia a criatividade de Galileu para lidar com as 
próprias imagens obtidas pelo telescópio. A eficácia deste curioso instrumento para 
chegar àquela decisão de como concluir em relação à natureza dos astros contribuiu 
para que Galileu soubesse o que era necessário para a ciência se desenvolver, e 
consequentemente, saber o que garantia a sua autonomia. Tal como Koyré afirmou, “o 
desenvolvimento da ciência moderna se deu em estreito contato com a astronomia”. 
Com isso em vista, sabe-se então que quando Galileu anunciou o critério especial de 
“experiências sensatas e demonstrações necessárias”, ele falava de acordo com a 
experiência que teve com as descobertas anunciadas no Sidereus Nuncius. 
Não foi uma decisão arbitrária ir buscar o significado de “experiências sensatas” 
no Sidereus Nuncius. Foi justamente porque nesta obra se encontra a experiência que foi 
decisiva para Galileu entender o que era a própria ciência. Isto é, quando Galileu teve 
sua experiência sensata com os astros, ele soube o que era necessário para que a ciência 
fosse mais adequada. Dessa forma, uma astronomia que até então era realizada apenas 
com os olhos nus, passava agora a ter sua base epistemológica alterada, causando assim 
seu necessário desenvolvimento. Mas é bom fazer a seguinte ressalva: fala-se da ciência 
em si enquanto demonstração, tal como Galileu escreveu no Tractatio de 
demonstratione de acordo com Aristóteles; e fala-se da ciência com o qualitativo 
“moderna”, a qual é a ciência enquanto demonstração mais o paradigma experimental. 
Assim, o conceito de ciência que Galileu pôde compreender melhor com a experiência 
astronômica foi em sentido de metodologia e não de método. Este, como vimos, era a 
lógica, a qual não foi alterada, nem por Galileu, nem por ninguém até o século XIX. 
Em seguida, com o segundo capítulo, vimos então, a carta a Castelli, a partir da 
qual estivemos diante dos argumentos de Galileu que reivindicavam a autonomia da 
ciência. O problema da concordância com as Escrituras era um problema retórico. O 
que Galileu desejava no fundo era a autonomia da ciência e a liberdade teórica. Dessa 
forma, para este pleito, teve que tentar convencer a Igreja que as proposições científicas 
não contradiziam a revelação, pois era justamente com base nas letras escriturais que os 
teólogos não aceitavam a liberdade científica. Ou seja, o que gera o problema da 
 
97 
concordância é um problema mais fundamental, o próprio princípio de autoridade. É em 
decorrência deste princípio que se pode falar em concordar as Escrituras com a ciência. 
Se tal princípio não existisse, esse movimento concordista seria dispensável. Visto que 
as matérias de fé são subjetivas, logo, não precisariam estar em conflito com a ciência. 
 Com efeito, o princípio de autoridade eram um dos obstáculos para o pleito da 
autonomia da ciência. Para que se pudesse defender esse pleito com base na própria 
ciência, Galileu lançou mão do critério especial. De acordo com ele, as “experiências 
sensatas” e as “demonstrações necessárias” circunscreviam o princípio da necessidade e 
suficiência. Isto é, para Galileu, as experiências sensatas e as demonstrações necessárias 
eram necessárias e suficientes para que a ciência fosse autônoma. Dessa forma, 
nenhuma matéria de fé teria competência para julgar as conclusões científicas. O que 
Galileu queria era mostrar que as decisões científicas só dependiam da demonstração 
mediante a experimentação. É bom também ver que experiência sensata não é simples 
experiência, mas experimentação. 
Dado isso, foi necessário procurar saber o que Galileu queria realmente dizer 
com tal critério. De certo, só com a explicitação do significado de “experiências 
sensatas e demonstrações necessárias” que foi possível saber o que garantia a 
autossuficiência da ciência e, consequentemente, o direito à reivindicação por sua 
autonomia. Pois, de acordo com Galileu, a ciência é autônoma porque possui um 
método autossuficiente de assentir a verdade de suas proposições. Dessa forma, a 
investigação do significado do critério em questão esteve em função de mostrar o que 
garante esta autossuficiência. Para isso, apresentei três perspectivas que poderiam 
cumprir o papel de garantir a autossuficiência da ciência. 
Em relação à primeira parte do critério – experiênciassensatas – busquei seu 
significado no Sidereus Nuncius, pelo mesmo motivo que apresentei no início dessas 
considerações. Pois foi em tal obra que Galileu demonstrou as causas do fenômeno dos 
satélites de Júpiter mediante uma experiência que tinha condições de receber o 
predicado “ser sensata”. Vimos então que experiência sensata é o mesmo que 
experimentação de efeitos controlados enquanto derivados de causas sabiamente 
conhecidas pela observação rigorosa. Estando essa definição da primeira parte do 
critério especial apta a lançar luz sobre o significado geral e seu papel na garantia da 
autossuficiência do método científico. 
 
98 
Já em relação à outra parte do critério – demonstrações necessárias – busquei seu 
significado no Tractatio de demonstratione e no Il Saggiatore, obras estas tão 
interessantes quanto importantes para o trabalho científico de Galileu. A primeira 
demonstra que Galileu era versado nos Analíticos Posteriores de Aristóteles, sendo de 
tal modo indubitável que Galileu era um filósofo. O que lhe garantiu saber que as 
demonstrações, em termos aristotélicos, é a causa eficiente da ciência, enquanto esta é a 
causa final daquela. Munido desse conhecimento, Galileu mostrou que existia um modo 
necessário de concluir acerca da física, a saber, com o método inferencial caracterizado 
por um regresso demonstrativo (regressus). Dessa forma, de acordo com Galileu, ficou 
explicitado o significado de “demonstrações necessárias” pela perspectiva lógica, a 
partir da qual foi compreendido que o predicado “ser necessária” do sujeito 
“demonstração” do critério de Galileu tem seu sentido determinado pela própria forma 
da demonstração que opera na ciência natural. Logo, a autossuficiência da ciência foi 
mostrada ser assegurada pelo critério de “demonstrações necessárias” mediante o 
caráter apodítico da própria ciência. De tal modo que através disso a epistemologia e a 
ontologia eram determinadas, perfazendo assim, a outra perspectiva de explicação do 
significado do critério. 
 De acordo com essa segunda perspectiva, mediante os argumentos metafísicos 
do Il Saggiatore, a saber, o argumento dos “dois livros” e a distinção das “qualidades 
primárias e segundárias”, foi explicado que o significado de “demonstrações 
necessárias” poderia ser entendido em relação a uma resposta de ordem metafísica. Essa 
metafísica habilitada por Galileu também era responsável por fundamentar 
epistemologicamente e ontologicamente a necessidade da demonstração. Visto que a 
ciência é, sobretudo, matemática, sendo assim, a demonstração seguia por um caminho 
necessário, justamente pela identificação dos princípios desta ciência com os princípios 
da natureza. Portanto, a ciência seria autossuficiente na medida em que ocorre a 
tradutibilidade do mundo na própria ciência. Dessa forma, a segunda perspectiva de 
explicitação do significado do critério especial toma a ontologia e a epistemologia 
conjuntamente porque, para Galileu, o conhecimento científico se justifica na justa 
medida em que opera a partir do raciocínio matemático, pois só este é adequadamente 
justificável enquanto autossuficiente. Essa virtude do conhecimento matemático é, 
como vimos no tópico 2.2, proveniente de sua operacionalidade identificada como a 
estrutura do real, isto é, com o ser. 
 
99 
 Mediante o exposto, pudemos compreender o significado do critério especial em 
Galileu. Munidos do seu significado, foi possível inferir seu papel na garantia da 
autossuficiência da ciência, sendo justamente isso, seu direito de ser autônoma. Com 
base nisso, então, Galileu fez a reivindicação da autonomia da ciência perante a 
teologia. 
 E por último, foi mostrada a importância da intervenção de Bellarmino no pleito 
da autonomia da ciência de Galileu. Se não mostrássemos isso, ficaria suposto que a 
autonomia da ciência conseguiu ser conquistada de modo pleno. Pelo contrário. Por 
mais fundamentada que estivesse a reivindicação de Galileu, a Igreja romana reformada 
pela Companhia de Jesus tinha um verdadeiro programa educacional e doutrinário. De 
tal modo que não iria admitir em hipótese alguma a desvinculação da ciência da 
autoridade da teologia e da filosofia natural de Aristóteles. Dessa forma, a reivindicação 
de Galileu não foi atendida, mas sim, confrontada com um movimento reacionário, 
marcado, como afirma Mariconda, por uma política de “consenso ou repressão”. 
 Busquei mostrar que o decreto de 1616 foi a resposta da Igreja para o avanço do 
Copernicanismo. De tal modo que após a publicação do opúsculo de Foscarini sobre a 
opinião copernicana, a Igreja se viu verdadeiramente ameaçada e assim, precisou tomar 
as devidas providências para frear qualquer disseminação de tal doutrina. 
 Portanto, com a intervenção de Bellarmino e o decreto de 1616 mostro uma 
contra resposta ao problema proposto para a minha investigação. Enquanto fui atrás do 
momento na história em que a ciência apontou para autonomia em relação à teologia, 
descobri que foi mediante a reivindicação de Galileu, a qual, por sua vez, era bem 
fundamentada, de tal modo causando bastante efeito e mudando o curso da história da 
ciência, que, no entanto, este próprio efeito se virou contra si, isto é, que a reivindicação 
da autonomia da ciência foi a causa do endurecimento do princípio de autoridade. 
Portanto, ao que concerne a ser considerado aqui sobre a resolução do problema, 
o que é mais urgente afirmar é que o pleito de autonomia da ciência era 
fundamentalmente um pleito de liberdade teórica. Galileu não suportava ter que tomar 
cuidado com as conclusões em assuntos naturais porque estas contradiziam as Escrituras 
e a opinião dos padres. Para ele era um desperdício de racionalidade. Lembrando que 
ele afirmava na carta a Castelli que “Deus não dotou os homens de razão para que seu 
uso fosse desprezado”. Isso é justamente não concordar em ter que se submeter a um 
 
100 
discurso que não tinha competência para julgar as matérias científicas. É certo que para 
a história, o posicionamento de Galileu foi efetivo, pois o curso da história da ciência se 
alterou após esse fato. Mas a controvérsia permanece. 
 
Referências 
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Dordrecht/Boston/Londres: Kluwer Academic Publishers, 1992. (Boston Studies in the 
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of his apropriated latin questions on Aristotle’s Posterior analytics. 
Dordrecht/Boston/Londres: Kluwer Academic Publishers, 1992. (Boston Studies in the 
Philosophy of Science, 138)tum ob rei ipsius præstantiam, tum ob inauditam per æuum 
nouitatem, rogenies propter Organum, cuius beneficio ædem sensui nostro obuiam sese fecerunt” 
(GALILEI, Galileo (1564-1642). Sidereus nuncius magna, longeque admirabilia spectacula pandens. 
Venice: Tommaso Baglioni, 1610). Optei por fazer as notas com o original para que o leitor possa 
acompanhar como eu acompanhei o texto de 1610, pois a edição usada para a realização desta monografia 
é bilíngue, assim, julguei adequado fazer as notas com o original. Indico, desde já, a referência da edição 
original, de modo que nas próximas notas contendo o texto em latim faço a referência com a notação 
“Ibid.”. Portanto, aparecerão dois tipos de notações “Ibid.” nesta monografia: as das notas contendo o 
texto original em latim de Galileu e as do corpo do texto, referenciando a citação seguida que se encontra 
na mesma obra citada anteriormente na mesma página da minha monografia. Ou seja, quando eu fizer 
duas ou mais citações seguidas da mesma obra numa mesma página desta monografia, também usarei a 
notação “Ibid.” com a devida paginação, o que não significa que estou fazendo referência à edição de 
1610 do Sidereus Nuncius. 
5 As artes liberais eram aquelas realizadas pelos intelectuais nas universidades. Dividia-se em dois grupos 
de “artes”: o trivium (dialética ou lógica, gramática e retórica) e o quadrivium (música, aritmética, 
geometria e astronomia). 
 
14 
Romano. “A 17 de Dezembro de 1610, Christopher Clavius6 escreveu a Galileu uma 
carta cheia de louvores, informando que todas as observações haviam sido confirmadas 
pelas observações do Colégio Romano” (LEITÃO, int., p. 111, in: GALILEI, 2010). 
Com a circulação das novidades astronômicas e seu consequente impacto no círculo 
jesuíta – o Colégio Romano era a principal instituição de ensino da Companhia de Jesus 
– o cardeal Roberto Bellarmino7, a 19 de Abril de 1611, questionou os matemáticos8 
jesuítas acerca das novas observações (LEITÃO, int., p. 111, in: GALILEI, 2010). Vale 
ressaltar que Bellarmino é o grande antagonista de Galileu durante sua campanha pelo 
copernicanismo, de tal modo simbolizando na sua figura o instrumentalismo, o que é o 
expediente do conhecimento matemático na cultura da Reforma Católica. Nesse sentido, 
como foi dito, a princípio, as observações foram confirmadas, mas logo se viram em 
contradição com a cosmologia tradicional. Sem margens de dúvidas de que as 
observações eram o caso e que colocavam em xeque o conhecimento tradicional, 
Clavius publica em 1611, a Opera Mathematica, obra na qual escreve as palavras que 
caracterizam o posicionamento jesuíta: 
Quae cum ita sint, videant astronomi, quo pacto orbes coelestes constituendi 
sint, ut haec phaenomena possint salvari [“Sendo as coisas assim vejam os 
astrônomos de que modo se devem construir os orbes celestes de modo a 
salvar estes fenômenos”] (Ibid. p. 115). 
A resposta de Clavius ao Sidereus Nuncius desvela o princípio instrumentalista – 
“salvar os fenômenos” – sobre o qual os jesuítas, principalmente Bellarmino, 
conduziriam a “aceitação” do copernicanismo. Nessas condições, a Companhia 
precisava construir um sistema astronômico e cosmológico que concordasse com as 
descobertas de Galileu. Todavia, Clavius nunca viu o sistema do dinamarquês Tycho 
Brahe9 com bons olhos. Diante disso, os anos que se seguiram à confirmação das 
descobertas de Galileu foram de 
 
6 Cristopher Clavius (1538-1612) foi um matemático jesuíta alemão, sendo o principal matemático no 
período, responsável por diversas obras importantes e por grandes avanços na matemática, inclusive 
redigiu uma versão latina da obra Elementos, de Euclides. 
7 Roberto Bellarmino (1542-1521) foi um cardeal jesuíta, sendo o principal teólogo da Companhia de 
Jesus. Figura importante para a Reforma Católica e determinante na censura do copernicanismo. 
8 “Em 23 de março de 1611, Galileu faz sua segunda viagem a Roma, onde defende suas descobertas 
astronômicas diante de quatro matemáticos do Colégio Romano – Grienberger, Clavius, Maelcote e 
Lembo – os quais confirmam a verdade de suas descobertas.” (MARICONDA, int., p. 15, in: GALILEI, 
1985). 
9 Tycho Brahe (1536-1601) foi um astrônomo dinamarquês que propôs um sistema cosmológico 
alternativo ao de Ptolomeu e de Copérnico. “O grande mérito desse astrônomo foi ter intuído que, para 
construir uma teoria satisfatória do movimento dos planetas, era necessário ter à disposição um grande 
número de observações, realizadas com um grau de precisão bem maior do que aquele obtido 
 
15 
intenso debate interno na Companhia, debates que em certo sentido 
terminaram com a publicação, em 1620, da Sphaera mundi cosmographica, 
de Giuseppe Biancani (1566-1624), que marca a adoção oficial pela 
Companhia de Jesus do sistema de Tycho Brahe (LEITÃO, int., p. 116, in: 
GALILEI, 2010). 
Dessa forma, devido o impacto das descobertas de Galileu, a Companhia de 
Jesus se viu forçada a se adaptar às evidências, mas sem ter que adotar o herege10 
sistema copernicano. Portanto, viram como melhor opção o sistema braheniano, que, 
acima de tudo, ainda mantinha a Terra no centro do universo e, em certo sentido, 
salvaguardava a física aristotélica e a doutrina. Cabe destacar que a polêmica teológica-
cosmológica se encontra no período anterior a adoção oficial dos jesuítas ao sistema de 
Brahe, adoção esta que ocorre quatro anos após o decreto de 1616 que condenou o 
copernicanismo, sendo tal decreto a resposta à polêmica. 
Por conseguinte, outro propósito de Galileu com o Sidereus Nuncius era o de 
conquistar um lugar junto à corte da Toscana, objetivo não só material, em função das 
vantagens pecuniárias, como também político. Neste caso, a corte poderia oferecer a 
Galileu a proteção necessária para divulgar o copernicanismo. Desse modo, Galileu 
buscou uma forma de dedicar tal obra aos Medici e assim lograr o desejado posto. 
Já havia algum tempo que Galileu vinha tentando se aproximar da corte do 
Grão-Ducado da Toscana e à família Medici. Para tal se comportava como um bom 
cortesão11 (LEITÃO, int., p. 26-7, in: GALILEI, 2010). “Foi tutor de matemática do 
jovem Cosme de’ Medici, tendo passado várias temporadas na corte toscana: quase todo 
 
anteriormente” (FANTOLI, 2008, 49). Foi a partir da enorme quantidade de dados acumulados por Brahe 
sobre a posição dos planetas e das estrelas fixas que Kepler descobriu suas três leis das órbitas dos 
planetas (Ibid., p. 49-50). Além disso, Tycho Brahe também teve grande influência na refutação da tese 
aristotélica da incorruptibilidade dos céus, pois ao observar uma nova (brilho estelar causado por uma 
supernova: explosão decorrente da morte de uma estrela massiva) argumentou que ela se encontrava na 
esfera das estrelas fixas, e não no céu sublunar como muitos defensores de Aristóteles haviam defendido, 
os quais alegavam que era um fenômeno meteorológico, a fim de salvar a tese aristotélica. Também, 
Brahe descobriu que os cometas que apareceram entre 1577 e 1596, estavam na esfera mais alta do céu, 
mostrando que estas não eram sólidas como a cosmologia aristotélica postulava, pois os cometas 
descreviam órbitas ovais ao redor do Sol, atravessando a esfera das estrelas fixas (Ibid.). Contudo, 
principalmente sobre a cosmologia, “do ponto de vista matemático, o sistema de Brahe era quase 
exatamente equivalente ao de Copérnico, mas, deixando a Terra imóvel no centro do mundo, tinha a 
vantagem de evitar todos os problemas que se apresentavam no caso da teoria copernicana, 
particularmente o da ausência da paralaxe” (Ibid.). Por conta de que Brahe nunca conseguiu concordar o 
compromisso matemático com os quesitos físicos que ele próprio havia levantado, Galileu sempre lhe 
direcionouduras críticas e nunca considerou seu sistema como digno de estar ao lado dos “dois máximos 
sistemas de mundo”(Ibid.), que será tema da já menciona obra de 1632. 
10 Em 1616 o copernicanismo é declarado formalmente herético. 
11 Uma vez que, segundo Peter Burke, nesse período de inovação intelectual do século XVII as cortes dos 
príncipes, no caso, a de Florença, ofereciam oportunidades para a prática da nova filosofia natural 
(baseada na matemática), mas que em contrapartida, cobravam um preço, o que fez com que Galileu 
tivesse que se comportar como um cortesão (BURKE, 2003, p. 46). 
 
16 
o verão de 1605, algumas semanas em outubro de 1606 e quase todo o verão de 1608” 
(Ibid., p. 87). No entanto, tal relação não teve efeito duradouro. 
Insatisfeito com a situação na Universidade de Pádua, onde estava desde 1592, 
Galileu tinha o desejo de ir a Florença, pois assim pensava obter mais prestígio como 
professor de matemática, além de poder ter um salário maior. Mas para isso, precisava 
de alguma indicação mais influente. Foi então que a descoberta dos satélites de Júpiter 
pareceu aos olhos de Galileu a grande chance. Nomeando os satélites jovianos12 como 
Medicea Sydera (Estrelas Mediceias), Galileu dedicou tal descoberta à família Medici, 
sendo, dessa forma, recompensado com a nomeação de matemático e filósofo da corte 
florentina, e como professor de matemática da Universidade de Pisa, mas sem a 
obrigação de lecionar e recebendo com um vencimento anual 1000 scudi florentinos 
(LEITÃO, int., p. 88, in: GALILEI, 2010). 
Antes de tudo, Galileu era um matemático, mas sabia que isso não seria 
suficiente para dar credibilidade a sua defesa do copernicanismo, pois o “baixo estatuto 
disciplinar das matemáticas aplicadas [...], era um dos principais, se não mesmo o 
principal, obstáculo para a legitimação epistemológica do copernicanismo” (Ibid., p. 
89). De tal modo que a filosofia era o saber necessário, juntamente com a matemática, 
para poder defender a realidade do heliocentrismo. Assim, insistiu para que fosse 
incluída nos termos contratuais de seu ingresso à corte dos Medici a denominação de 
“filósofo”. 
De fato, Galileu era um filósofo, ainda que só venha dar provas concretas disso 
apenas a partir de 1613. Tanto que podemos constatar argumentos filosóficos explícitos 
em diversas obras, entre as quais as próprias epístolas copernicanas, de 1613-1615; o Il 
Saggiatore (O Ensaiador),13 de 1623; o Diálogo, de 1632 e também, como veremos, em 
 
12 Relativo ao planeta Júpiter; jupiteriano. 
13 A mecânica de Galileu se baseia em uma nova física, que para tal, precisou ser formulada com base em 
uma ontologia diferente da de Aristóteles. Esta nova ontologia pode ser constatada em algumas 
proposições d’O Ensaiador, por exemplo, quando Galileu faz a distinção das qualidades primárias e 
secundárias, sendo estas, subjetivas – fruto dos sentidos, a saber, “cheiros, sabores, cores, etc, em relação 
ao sujeito onde nos parecem residir, não sendo outra coisa que puros nomes” (GALILEI, 1983, §48); e 
aquelas, objetivas e necessárias, “concebendo uma matéria ou substância corpórea, como termo e aspecto 
daquela ou outra substância, grande ou pequena em relação a outras, colocada naquele ou neste lugar, 
naquele ou neste tempo, em movimento ou parada, em contato ou não com outro corpo, como sendo 
única ou poucas ou muitas, nem posso imaginá-la de forma alguma separada destas condições” (Ibid.). 
Isto é, as qualidades primárias são aquelas referentes à forma, figura, movimento, quantidade. Qualidades 
estas que constituem a estrutura subjacente da realidade, a qual só pode ser conhecida pelo tratamento 
 
17 
um manuscrito de lógica (que de fato é anterior a 1613). Contudo, mesmo no Sidereus 
Nuncius, Galileu nos dá mostras da atividade filosófica, como por exemplo, a 
criatividade para explicar os fenômenos observados que não eram totalmente evidentes, 
o que irei descrever mais adiante. Ademais, nas primeiras páginas desta obra, após 
explicar sucintamente sobre a construção e a configuração correta do telescópio, Galileu 
escreve: “vamos agora relatar as observações feitas por nós nos dois últimos meses, 
convidando todos os amantes da verdadeira filosofia para o início, seguramente, de 
grandes contemplações”14 (GALILEI, 2010, p. 155). É evidente que isto não é a 
filosofia galileana, tampouco um argumento filosófico, no entanto, tal trecho revela o 
seu temperamento, a índole que já guiava seu trabalho nesse período. Tendo em vista 
que é essa mesma índole que levou Galileu ao pleito da autonomia da ciência. 
Por conseguinte, outro propósito de Galileu com o Sidereus Nuncius, propósito o 
qual está implícito nos dois anteriores, era o de se apresentar como um cientista notável 
ao oferecer ao mundo novidades revolucionárias, as quais implicavam um novo jeito de 
se fazer astronomia, de modo que este novo jeito estaria ligado ao seu nome para 
sempre. E esta nova astronomia não só reflete um traço fundamental da Revolução 
Científica, já mencionado anteriormente, como também coloca em evidência a falsidade 
da cosmologia tradicional, mostrando que esta não tinha a necessária sustentação 
empírica. Dessa forma, o Sidereus Nuncius tem o propósito de impugnar a cosmologia 
aristotélico-ptolomaica, com as observações corroborativas do copernicanismo, na 
medida em que este sistema cosmológico, além de ser mais simples e mais plausível 
matematicamente, podia ser deduzido também das observações telescópicas, as quais 
eram incompatíveis com a concepção de Aristóteles e Ptolomeu, que não tiveram tal 
instrumento para poder observar o comportamento dos céus. Instrumento este que 
auxilia os sentidos, para, deste modo, atingir melhores resultados sobre como o mundo 
é. Certamente, é com o telescópio que Galileu revoluciona a astronomia (juntamente 
com a teoria das órbitas elípticas de Kepler15). Segundo Alexandre Koyré, 
 
geométrico. O tratamento geométrico, isto é a matematização da natureza, é segundo Koyré, a principal 
característica da Revolução Científica dos séculos XVI-XVII, tendo em Galileu sua afirmação. 
14 “Nunc obseruationes à nobis duobus proximè elapsis mensibus habitas recenseamos, ad 
magnaruprofectò contemplationum exordia emnes veræ Philosophiæ cupidos conuocantes.” (Ibid.) 
15
 Em 1609, Kepler publica sua obra Astronomia Nova, na qual aparecem as duas primeiras leis sobre o 
movimento dos planetas. “Baseando-se em numerosas e precisas observações do planeta Marte realizadas 
por Tycho Brahe, Kepler havia finalmente chegado [...] à conclusão de que sua órbita não era circular, 
mas elíptica, e que o Sol se encontrava em um dos dois focos de tal elipse. Em seguida, estendera sua 
descoberta também para as órbitas dos outros plantes” (FANTOLI, 2008, p. 103). A dedução de que as 
 
18 
foi precisamente construindo um telescópio e utilizando-o, observando 
cuidadosamente a Lua e os planetas, descobrindo os satélites de Júpiter, que 
Galileu desferiu um golpe mortal na astronomia e na cosmologia de sua 
época (KOYRÉ, 1982, p. 153). 
Em suma, para Galileu o Sidereus Nuncius foi ao mesmo tempo uma obra em 
função de noticiar novidades – observações astronômicas e o próprio instrumento que 
possibilitou tais observações – as quais eram revolucionárias; intentar um emprego na 
corte da Toscana e valorizar seu nome no “meio científico” (fato paradoxal, 
considerando que é Galileu quem cria a ciência moderna, assim não haveria, em sentido 
estrito, um meio científico, mas um ambiente intelectual), ao passo, que servia para 
divulgar o sistema copernicano em detrimento do ptolomaico-aristotélico. Portanto, 
sobre os propósitos do Sidereus Nuncius, o que foi exposto acima é necessário esuficiente para que o leitor compreenda o que estava envolvida na redação de tal obra 
por Galileu. Doravante, o que se segue é a análise das próprias sentenças enunciadas por 
Galileu sobre suas observações, de modo que se possa entender como Galileu desfere tal 
golpe mortal afirmado por Koyré. 
 
1.2. O espectro da autonomia da ciência na criatividade de Galileu 
Logo no frontispício do Sidereus Nuncius, Galileu já anuncia o que o leitor irá 
encontrar. Em tom espetaculoso, ele informa as novas descobertas, dando ênfase à 
luneta
16, instrumento que possibilitou as mesmas, proclamando, de tal maneira, um 
ostentoso ineditismo. Ainda no frontispício, reservando um pouco mais de linhas para 
prenunciar a novidade dos satélites de Júpiter, logo em seguida já revela o nome pelo 
qual designou estes satélites: “Estrelas Mediceias”. Constata-se, de imediato, a 
atribuição do opúsculo à família Medici, mostrando ao público que o texto é uma 
homenagem, e que ao mesmo tempo, deixa transparecer um aval17 necessário. 
Prontamente, Galileu escreveu uma dedicatória “ao sereníssimo Cosme II de 
Medici quarto Grão-Duque da Toscana” manifestando em tom cortesão que as Estrelas 
 
órbitas planetárias descrevem uma trajetória elíptica e não circular, também se configura como uma 
revolução na astronomia. Curiosamente, o próprio Galileu não concorda com Kepler sobre isso, mantendo 
para os corpos celestes o movimento circular, sendo isso, um de seus equívocos. 
16 Luneta é sinônimo de telescópio. Nas citações de Galileu aparecerá a palavra “luneta”. No entanto, no 
corpo do texto optarei por escrever “telescópio”. Visto ainda que, o nome em latim pelo qual Galileu 
designava o telescópio é “Perspicilli”. 
17 A chancela da família Medici é o respaldo necessário para Galileu divulgar e defender suas 
descobertas. 
 
19 
Mediceias, assim designadas, “hão-de narrar e celebrar por todo o tempo as vossas 
extraordinárias virtudes”18 (GALILEI, 2010, p. 146). Por conseguinte, no penúltimo 
parágrafo da dedicatória, Galileu escreve: 
E, assim, uma vez que sob os vossos auspícios, Sereníssimo COSME, 
descobri essas estrelas, desconhecidas de todos os anteriores astrônomos, 
decidi, com todo o direito, adorná-las com o muito augusto nome da Vossa 
família. Se fui o primeiro a descobri-las, quem me negará o direito de 
também lhes atribuir um nome e as chamar ESTRELAS MEDICEIAS, 
esperando que tanta dignidade seja adicionada a estes astros por esta 
designação como foi conferida a outras estrelas por outros heróis? 
(GALILEI, 2010, p. 148).19 
Nesse sentido, Galileu reclamava para si o direito de batizá-las com o nome que bem 
entendesse, e por isso mesmo, resolve colocar o nome dos Medici, para que, como já foi 
dito anteriormente, recebesse as devidas honrarias pela atribuição generosa, ao passo 
que por trás de tal atribuição estaria uma forma de Galileu lograr um posto na corte e 
assim estar protegido o bastante para iniciar sua companha pelo copernicanismo. 
No entanto, o mais interessante da dedicatória de Galileu é um trecho no qual dá 
mostras da sua adesão ao referido copernicanismo, adesão esta que será bastante sutil no 
Sidereus Nuncius, estando muitas vezes implícita em seus relatos, e que estará explícita 
apenas algumas vezes no decorrer do texto. Assim, no final do segundo parágrafo da 
dedicatória, Galileu escreve: [as novas “estrelas” descobertas] 
fazem os seus percursos e órbitas com uma velocidade maravilhosa em torno 
da estrela de Júpiter, a mais nobre de todas elas, com sua autêntica 
descendência, enquanto todas juntas, em mútua harmonia, completam as suas 
revoluções cada doze anos em torno do centro do mundo, isto é, em torno do 
próprio Sol (GALILEI, 2010, p. 146).20 
Esta passagem é notável justamente por ser o primeiro testemunho público do 
copernicanismo de Galileu. Vale ressaltar que a dedicatória foi escrita por último, e que 
tal trecho não aparece gratuitamente, mas como uma afirmação resoluta da centralidade 
do Sol no universo, o que em meio ao tom cortesão da dedicatória é um movimento 
perspicaz. Com isso, temos o primeiro enunciado de Galileu que afirma o 
 
18
 “PræHan-stantissimas virtutes tuas in omne tempus loquantur, ac celebrent.” (Ibid.) 
19
 “Quæcum ita sint, cum te Auspice COSME Serenissime, has Stellas superioribus Astronomis omnibus 
incognitas explorauerim, optimo iure eas Augustissimo Prosapiæ tuænomine insignire rogeni. Quod si 
illas primus indagaui, quis me iure repræhendat, si ÿsdem quoque nomen imposuero, ac MEDICAEA 
SYDERA appelaro? sperans fore, uttantùm dignitatis ex hac appelatione ÿs Syderibus accedat, quantum 
alia cæteris Heroibus attulerunt.”(Ibid.) 
20 “[...] inter se motibus circum Iovis Stellam cæterum nobilissimam, tanquam germana eius progenies, 
cursus suos, orbesque conficiunt celeritate mirabili interea dum unanimi concordia circa mundi centrum, 
circa Solem nempe ipsum, omnia simul duodecimo quoque anno magnas convolutiones absoluunt.” 
(Ibid.) 
 
20 
copernicanismo, e consequentemente o início de seu posicionamento refutador face à 
doutrina tradicional. Como se pode observar, os satélites orbitando Júpiter é, por 
analogia, um minissistema solar, fato que Galileu tomará como sendo de alto valor 
corroborativo, ou mesmo uma evidência, para o sistema copernicano. Afora outras 
objeções, havia quem argumentava, baseando-se em Aristóteles, que: “se a Terra se 
movesse, então a Lua não poderia lhe acompanhar, isto é, ficaria “para trás”. Ora, a Lua 
está sempre junto à Terra, fazendo sua revolução diária em torno dela. Logo, não seria o 
caso que a Terra se movesse”. Tal era o argumento. Eis aí como Galileu irá destruí-lo. A 
constatação de que as estrelas jupterianas são satélites, implica a conclusão de que a Lua 
também é, e que por causa disso, não fica para trás enquanto a Terra se move ao redor 
do Sol. Portanto, a premissa condicional era bloqueada. 
Por conseguinte, passado a dedicatória, já na primeira página do corpo do texto, 
Galileu, após anunciar que suas observações são novidades inauditas (“grandes coisas”), 
logo diz: 
Grande, na verdade é o fato de à incontável multidão de estrelas fixas que, 
com as faculdades naturais, se puderam observar até hoje, acrescentar e expor 
abertamente aos olhares incontáveis outras, nunca antes vistas e que 
ultrapassam mais de dez vezes o número daquelas que se conhecem de há 
muito (GALILEI, 2010, p. 151).21 
O descobrimento da existência de incontáveis estrelas no universo para além das 
observadas pela visão natural vem ao encontro das afirmações de Giordano Bruno,22 
que defendia um universo infinito e eterno. Contudo, esta descoberta implicava 
hipóteses que aproximava Galileu de um condenado pela Inquisição, o que configurou 
um dos motivos de alerta dos jesuítas. 
Em contrapartida, a observação das estrelas fixas levantava questões não só 
cosmológicas, mas também questões práticas. De acordo com o próprio Galileu, a 
observação das estrelas fixas revelava imprevistos, a saber, que “quando são observadas 
por meio da luneta, as estrelas, quer fixas quer errantes, não se veem aumentadas na 
mesma proporção em que os outros objetos, e também a própria Lua, são aumentados” 
(GALILEI, 2010, p. 173). Indicando, dessa forma, que “o telescópio parecia funcionar 
 
21 “Magnum fanè est supra numerosam Inerrantium Stellarum multitudinem, quæ naturali facultate in 
hunc vsquè diem conspici potuerunt, alias innumeras supperadere, oculisquè palàm exponere, antehac 
conspectas nunquam, & quæ veteres, ac notas plusquam supra decuplam multiplicitatem superent.” (Ibid.) 
22 Para Bruno, “nesse Universo existiam infinitos mundos, cada um deles constituindoum sistema 
planetário tendo ao centro, como Sol, uma das infinitas estrelas” (FANTOLI, 2008, p. 54). Giordanno 
Bruno foi um filósofo queimado vivo na fogueira da Inquisição em 1600. 
 
21 
de modo diferente para diferentes objetos celestes, um complicado problema que 
Galileu tinha que explicar” (LEITÃO, int., p. 69, in: GALILEI, 2010). Podemos 
perceber, então, que as observações obtidas pelo telescópio não foi algo fácil de tratar, 
mas criou problemas sobre o próprio instrumento. Em relação a isso, muitas perguntas 
foram levantadas sobre sua confiabilidade, como por exemplo, a questão de saber em 
que medida as imagens geradas pelo telescópio eram reais, ao invés de ilusões óticas 
criadas pelas próprias lentes do instrumento. Com base nessa e noutras objeções, 
Galileu explicou o fenômeno do tamanho diminuto das estrelas da seguinte maneira: 
A razão para isto está em que, quando as estrelas são observadas à vista 
desarmada, não aparecem de acordo com o seu tamanho simples e, por assim 
dizer, nu, mas sim irradiadas de um certo brilho e com uma cabeleira de raios 
brilhantes, especialmente quando a noite já é avançada. Por causa disto, 
parecem muito maiores do se lhes fossem retiradas essas cabeleiras 
emprestadas, pois o ângulo visual é determinado não pelo corpo primário da 
estrela mas pelo brilho circundante. [...] A luneta [...] retira às estrelas o 
brilho emprestado e acidental e, depois, aumenta os seus globos simples (se 
de fato as suas figuras são globulares), e por isso parecem aumentadas por 
uma razão muito menor (GALILEI, 2010, 173-4).23 
Dessa forma, fica explicada a causa do estranho fenômeno: o tamanho das 
estrelas não é aumentado com a observação pelo telescópio, pois este tira o brilho 
circundante delas (“rapa a cabeleira”) e mostra apenas seus discos de refração, fazendo 
com que pareçam trivialmente como observadas sem o telescópio. Esta explicação 
desvela o que anteriormente escrevi sobre a criatividade de Galileu para explicar 
fenômenos observados que não tinha suas causas totalmente evidentes. Esta passagem 
contém claramente um argumento no qual Galileu mostra seu gênio criativo. Com 
efeito, é em passagens como estas que identificamos a filosofia de Galileu no Sidereus 
Nuncius, ainda que não seja sua filosofia propriamente dita. Destarte, entre outras 
características, esta obra é um marco da criatividade galileana. Como se não bastasse, 
estas passagens fazem a indicação do futuro combate de Galileu pela autonomia da 
ciência, que teve como argumento a autossuficiência do método científico, o qual 
 
23 “[...] ratio autem huius est, quod scilicet Astra dum libera, ac naturali oculorum acie spectantur, non 
secundum suam simplicem, nudamque, vt ita dicam, magnitudinem sese nobis offerunt, sed fulgoribus 
quibusdam irradiata, micantibusque radijs crinita, idque potissimum, cum iam increuerit nox; ex quo 
longe maiores videntur, quam si ascitijs illis crinibus essenr exuta: angulus enim visorius non à primario 
Stellæ copusculo, sed à latè circunfuso splendore terminatur. [...] Perspicillum, prius enim adscititios, 
accidentalesque à Stellis fulgores adimit, illarum inde globulos simplices (si tamen figura fuerint globosa) 
auget, atque adeo secundum minorem multiplicitatem adaucta videntur.” (Ibid.) 
 
22 
bastando a si mesmo, tendo como critério o que ele chamará de “experiências sensatas” 
e “demonstrações necessárias”24, caracterizou essencialmente o pensamento galileano. 
 Nesse meio tempo, voltando às primeiras páginas do Sidereus Nuncius, 
encontramos, após o relato introdutório da observação das estrelas fixas, o relato 
prefacial sobre a Lua, no qual Galileu diz: 
a Lua não é de maneira nenhuma revestida de uma superfície lisa e 
perfeitamente polida, mas sim de uma superfície acidentada e desigual, e que, 
como a própria face da Terra, está coberta em todas as partes por enormes 
protuberâncias, depressões profundas, e sinuosidades (GALILEI, 2010, p. 
152).25 
Esta passagem constitui um argumento contra a tese aristotélica da incorruptibilidade 
dos céus. Segundo Aristóteles, os corpos celestes eram perfeitos, tanto em relação ao 
movimento, quanto em relação à sua natureza física26. Logo, a Lua não poderia ter 
depressões e saliências, mas ser uma esfera perfeita. Ademais, além da Lua até mesmo a 
superfície do Sol servirá de argumento contra esta tese aristotélica dois anos após a 
publicação do Sidereus Nuncius: a polêmica de Galileu com o astrônomo jesuíta alemão 
Christoph Scheiner, em carta intitulada Primeira carta sobre as manchas solares, de 
1612, na qual Galileu defende que o Sol possui manchas solares27, após constatar isso 
com observações telescópicas, de tal modo, contrariando também a incorruptibilidade 
dos céus. Scheiner, em contrapartida, recusa a realidade das observações de Galileu, 
como medida para salvaguardar a tese aristotélica, afirmando que as manchas são 
“‘estrelas errantes’ (isto é, planetas) diferentes de Mercúrio e Vênus” (FANTOLI, 2008, 
p. 138) orbitando o Sol. Contudo, as demonstrações geométricas de Galileu são 
suficientemente satisfatórias para a conclusão da existência das manchas na própria 
 
24 Este critério científico, embora ainda não apareça formulado e aludido no Sidereus Nuncius, o que 
aparecerá apenas nas epístolas, pode ser identificado indiretamente nas explicações dos fenômenos em 
questão. 
25 “Lunam superficieleni, & perpolita nequaquam esse indutam, sed aspera, & inæquali; ac veluti 
ipsiusmet Telluris facies ingentibus tumoribus, profundis lacunis, atque anfractibus vndiquaque confertam 
existere.” (Ibid.) 
26 Esta teoria de Aristóteles é formulada em sua obra De Caelo (Sobre o céu ou Do céu). 
27 De acordo com (FANTOLI, 2008, p. 135), “as manchas solares, na verdade, não foram descobertas no 
século XVII [...]. De fato, as manchas solares tinham sido observadas no mundo greco-romano, como 
também na China. Todavia, tinham sido interpretadas, geralmente, como provocadas pelo movimento dos 
planetas em conjunção com o Sol.” Considerando isso, no entanto, não cabe ao presente estudo fazer uma 
exposição detalhada da polêmica de Galileu com Scheiner, visto que faço alusão a ela como um exemplo, 
além de que tal exposição seria uma digressão quanto ao seguimento da presente monografia. Dessa 
forma, apenas aludo o tema. Para mais informações ver “FANTOLI, A. As manchas solares e o início da 
polêmica com Scheiner. In: FANTOLI, A. Galileu: pelo copernicanismo e pela Igreja. São Paulo, 
Loyola, 2008, pag.-135-146”. 
 
23 
superfície solar, sendo isso um forte indício de que o sistema do mundo não é como 
Aristóteles e Ptolomeu propuseram. 
Se bem que a observação da Lua com o telescópio é um feito inédito por 
Galileu, as discussões sobre sua natureza não são recentes a ele. Segundo Henrique 
Leitão, desde a Antiguidade e ao longo da Idade Média, as manchas e a própria Lua 
como um todo tiveram várias interpretações. “Anaxágoras havia já declarado que a Lua 
era feita como a Terra, com planícies e ravinas e vários outros, como Heraclides e 
Platão (pela boca de Sócrates no Fédon), haviam argumentado que a Lua era como uma 
outra Terra” (LEITÃO, int., p. 57, in: GALILEI, 2010). Além destes havia Plutarco, que 
também considerava a Lua como outra Terra, inclusive publicou uma obra dedicada ao 
assunto, Die facie quae in orbe lunae apparet (Sobre a face que se vê no disco lunar) 
(Ibid.). O próprio Galileu já possuía esta opinião, a qual será confirmada com suas 
observações. É importante notar que o ponto máximo da discussão não é sobre se a 
natureza da Lua já era ou não discutida historicamente, mas saber que esta mesma 
discussão, mudava sua base epistemológica com o telescópio, independentemente das 
opiniões já conhecidas. O que antes só estava no nível da especulação, tateio, passa a ser 
discutido coma experimentação, com a observação rigorosa. Considerando ainda que, 
se a opinião passada era correta, nada mais acontecia que sua confirmação e o 
assentimento do acerto. Dessa forma, Galileu mostra que o telescópio é o determinante 
do conhecimento sobre a natureza dos corpos celestes. 
Ainda sobre a superfície da Lua, a seguinte passagem que consta na 6ª página 
(da edição original e na que está sendo usado aqui) do Sidereus Nuncius, é mais 
evidente quanto à referência a Aristóteles: 
Do seu exame muitas vezes repetido deduzimos que podemos discernir com 
certeza que a superfície da Lua não é perfeitamente polida, uniforme e 
exatamente esférica, como um exército de filósofos acreditou, acerca dela e 
dos outros corpos celestes [...] (GALILEU, 2011, p. 156).28 
Fica, pois, claro que Aristóteles está incluído no “exército de filósofos”, os quais 
estão sendo refutados, sobretudo, por “argumentos visuais”. Uma forma que Galileu 
achou para convencer o público foi se utilizar inteligentemente de sua veia artística. 
Além de matemático e filósofo, em geral, um cientista, Galileu era também um artista 
 
28
 “[...] ex ipsarum autem sæpius iteratis inspectionibus, in eam deducti sumus sententiam, vt certò 
intelligamus, Lunæ superficiem, non perpolitam, æquabilem, exactissimæque sphæricitatis existere, vt 
magna Philosophorum coors de ipsa, deque reliquis corporibus coelestibus opinata est [...]” (Ibid.). 
 
24 
gráfico. Utilizando uma linguagem visual, o Sidereus Nuncius estabeleceu um novo 
conceito de astronomia, de modo que “as gravuras da Lua foram determinantes na 
aceitação da natureza rugosa da superfície do satélite” (LEITÃO, int., p. 26, in: 
GALILEI, 2010). A precisão com a qual foram ilustradas as fases crescente e minguante 
da Lua e as disposições das sombras e pontos de luz serviram como dados valiosos para 
a dedução da rotação lunar. Compreender que a Lua gira em torno de seu próprio eixo, 
implica a hipótese que a Terra também pode ter tal movimento, e assim compreender 
seu caráter planetário. 
 Nota-se que a disposição dos pontos de luz na zona escura da superfície lunar 
indica a existência de montanhas, as quais têm seus cumes iluminados primeiramente 
que o resto da montanha até a base. Sobre isso, Galileu escreve: “esses pontos 
aumentam pouco a pouco, passado algum tempo, em grandeza e luminosidades, e, 
passadas duas ou três horas, juntam-se ao resto da zona brilhante que então aumentou”29 
(GALILEI, 2010, p. 158). Tais pontos luminosos ao aumentarem mostram também que 
a Lua girou em torno deu eixo. Na seguinte passagem podemos ler mais sobre a 
evidência da existência de montanhas na Lua e a afirmação de Galileu da força da 
mesma: 
Na Lua, está rodeada de cordilheiras tão elevadas que o lado que é vizinho à 
parte escura da Lua se vê banhado de Luz antes que a linha divisória entre a 
luz e as sobras chegue ao diâmetro que secciona em dois essa figura. [...] se 
deve considerar um argumento muito forte acerca da rugosidade e 
irregularidade espalhadas em toda região brilhante da Lua (Ibid., p. 163).30 
As figuras, sobretudo, significam para Galileu as evidências de como os 
fenômenos são, no caso, a natureza lunar, e como elas podem ser interpretadas sob seu 
futuro critério científico das “experiências sensatas” e “demonstrações necessárias”. 
Pois, quem observa a lua, desenha e quem vê tal desenho participa da “experiência 
sensata”, ao mesmo tempo, que tais desenhos, juntamente com suas explicações, 
agregam a “demonstração necessária”31. No excerto seguinte pode-se ler um argumento 
de Galileu que se apoia em seus desenhos para convencer os leitores de sua verdade: 
 
29 “[...] quæ paulatim aliqua interiecta mora magnitudine, & lumine augentur; post verò secundam horam, 
aut tertiam, reliquæ partilucidæ, & ampliori iam factæ inguntur; [...]” (Ibid.) 
30 “[...] in Luna enim adeò elatis iugis vallatur, vt extrema hora tenebrosæ Lunæ parti contermina Solis 
lumine persusa spectetur, priusquàm lucis vmbræque terminus ad mediam ipsius figuræ diametrum 
pertigat. [...] tanquam firmissimum argumentum, asperitatum, inæqualitatunque per totam Lunæ 
clariorem plagam dispersarum [...]” (Ibid.). 
31 Todavia, veremos que o significado de “demonstração necessária” vai além disso. 
 
25 
na Lua, vê-se que as grandes manchas são mais cavadas do que as zonas mais 
claras, pois tanto na fase crescente como na fase minguante, vê se sempre 
surgir no limite da luz e das trevas, aqui e ali, em torno das próprias manchas 
grandes, os bordos da parte mais clara, como tivemos o cuidado de mostrar 
nas figuras (GALILEI, 2010, p. 160).32 
Conclui-se, portanto, que as gravuras da Lua no Sidereus Nuncius indicam uma 
escolha premeditada por Galileu para que, desse modo, pudesse confirmar, de acordo 
com ele, “a antiga opinião pitagórica segundo a qual a Lua seria uma outra Terra” (Ibid., 
p. 159). Para Galileu, os desenhos seriam suficientes para que a discussão sobre as 
manchas e a totalidade da natureza da Lua fosse encerrada, pela força das evidências 
oferecidas. E não há dúvidas que identificar a Lua com a Terra é um dos primeiros 
passos na defesa do copernicanismo, que, como foi dito anteriormente, a observação da 
disposição da luminosidade na superfície lunar indica que tal corpo celeste tem 
movimento rotativo e que, sendo identificado como sendo outra Terra, esta mesma 
também é iluminada conforme sua própria rotação. Nessas condições, considerar a 
Terra como um planeta já estava nos planos de Galileu com o Sidereus Nuncius. 
Por conseguinte, caminhando para a reta final da minha análise desta obra, 
retrato a seguir dois argumentos de Galileu: o “argumento da aparência perfeitamente 
uniforme da Lua” e o “argumento da reflexão da luz pela Terra”, os quais ilustram o que 
anteriormente escrevi como sendo demonstrações de sua criatividade: o que era 
determinado por sua índole filosófica, a qual foi ficando ainda mais explícita nos anos 
que se seguiram a 1610. 
O “argumento da aparência perfeitamente uniforme da Lua” responde àqueles 
que defendiam que se a Lua tivesse montanhas e depressões, sua borda não pareceria 
lisa, mas como uma “roda dentada”. Dessa forma, não poderia haver tais montanhas e 
depressões, pois assim, a borda da Lua vista da Terra não seria vista perfeitamente lisa. 
Eis como Galileu responde a esta objeção: 
Primeiro, se as proeminências e depressões no corpo lunar estivessem 
espalhadas apenas ao longo da periferia circular que delimita o hemisfério 
visto por nós, então a Lua poderia, sem dúvida, e deveria mesmo, mostrar-se-
nos numa forma análoga a uma roda dentada, isto é, delimitada por uma linha 
eriçada e sinuosa. Se, contudo, não houvesse apenas uma única cadeia de 
proeminências distribuídas apenas ao longo de uma única circunferência, mas 
antes muitas filas de montanhas, com as suas lacunas e sinuosidades, 
dispostas ao longo do circuito externo da Lua – e estas não apenas no 
 
32
 “in Luna cernuntur magnæ maculæ, quàm clariores plagæ, in illa enim tam crescente, quam decrescente 
semper in lucis tenebrarumque confinio, prominente hincindè circa ipsas magnas maculas contermini 
partis lucidioris, veluti in describendis figuris obseruauimus [...]” (Ibid.) 
 
26 
hemisfério visível mas também do outro lado (mas perto da fronteira entre os 
dois hemisférios) – então o olho, vendo de longe, não poderia de modo algum 
distinguir entre os montes dispostos num mesmo círculo ou numa mesma 
cadeia estão escondidos pela interposição de fila após fila de outras 
proeminências; e isto especialmente se o olho do observador estiver 
localizado numa mesma linha com os cumes dessas elevações. [...] Uma vez, 
pois, que na própria Lua e em torno do seu perímetro há uma disposição 
complexa de proeminênciase depressões, e o olho, vendo de longe, está 
localizado aproximadamente no mesmo plano que esses picos, ninguém se 
deve surpreender que, com os raios visuais rasantes, eles se mostrem numa 
linha uniforme e nada sinuosa (GALILEI, 2010, p. 165-6).33 
Assim, fica demonstrada a causa do observador ver a borda da Lua lisa e não 
“dentada”, como Galileu diz, o que não poderia ocorrer por conta da existência das 
montanhas e depressões, segundo os objetores. Dessa forma, tais objetores se veem 
bloqueados, pois este argumento consegue contornar o problema levantado, o fazendo 
com uma notável simplicidade e com alto poder explicativo. Reiterando o que já escrevi 
anteriormente, é em argumentos como esse também que podemos identificar o quanto 
Galileu era criativo, o que caracterizava sua índole filosófica no Sidereus Nuncius. 
 Todavia, Galileu oferece uma explicação alternativa para o fenômeno em 
questão, afirmando que tal como a Terra, a Lua também pode possuir um “orbe” em sua 
volta (uma camada atmosférica como a nossa camada de ozônio). Considerando isso, a 
rugosidade da borda lunar não seria vista, pois esta camada de gases manteria a 
visualização da borda sem a tal rugosidade. Entretanto, essa sugestão é falsa. A Lua não 
possui atmosfera. De qualquer forma, essa era uma explicação alternativa, ao passo que, 
embora falsa, ilustra a criatividade galileana, pois se a Lua é como outra Terra, então é 
capaz de que também pudesse possuir uma atmosfera. De acordo com Henrique Leitão, 
“Galileu abandonaria mais tarde, só depois da publicação do Sidereus Nuncius, a ideia 
de qualquer fenômeno atmosférico na Lua” (LEITÃO, int., p. 65, in: GALILEI, 2010). 
Portanto, embora esteja claro que não é o caso de uma atmosfera lunar, pelo menos a 
primeira explicação é satisfatória. 
 
33 “Primo enim, si tumores, & cauitates in corpore Lunari secundum vnicam tantum circuli periphæriam, 
emisphærium nobis conspicuum terminantem, protenderentur; tunc posset quidem, imo deberet Luna sub 
specie quasi dentatæ rotæ sese nobis ostendere, tuberoso nempe, ac sinuoso ambitu terminata; at si non 
vna tantum eminentiarum series, iuxta vnicam solummodo circumferentiam dispositarum, sed permulti 
montium ordines cum suis lacunis, & anfractibus circa extremum Lunæ ambitum coordinati fuerint, ijq; 
non modo in emisphærio aparente, sed in auerso etiá (propè tamen emisphęriorum finitorem) tunc oculus 
à longe prospicien eminentiarum cauitatumque discrimina depræhendere minimè poterit; intercapedines 
enim montium in eodem circulo, seu in eadem serie dispositorum, obiectu aliarum eminentiarum in alijs, 
atque alijs ordinibus constitutarum, occultantur; idque maximè, si oculus aspicientis in eadem recta 
cudictarum eminentiarum verticibus fuerit locatus. [...] Quia igitur in ipsa Luna, & circa eius perimetrum 
multiplex est eminentiarum, & cauitatum coordinatio, & oculus è longínquo spectans in eodem ferè plano 
cum verticibus illarum locatur; nemini mirum esse debet quod radio visorio illos abradenti, secundum 
æquabilem lineam, minimeque anfractuosam sese offerant.” (Ibid.) 
 
27 
 Após demonstrar as causas do fenômeno da aparência perfeitamente polida da 
Lua, Galileu se empenha em explicar outro fenômeno lunar. Segundo Galileu, a 
explicação deste outro fenômeno contribui para o estabelecimento do parentesco da Lua 
com a Terra. Assim ele escreve: 
mas uma vez que a sua observação é facilitada e mais notória com o auxílio 
da luneta, pareceu-me que não era desajustado repeti-la aqui, especialmente 
para que o parentesco e a semelhança entre a Lua e a Terra apareçam mais 
claramente (GALILEI, 2010, p. 169).34 
O fenômeno em questão diz respeito ao fato de que quando a Lua está em fase 
nova, de modo que apenas um arco muito estreito aparece com brilho no céu noturno, 
todo o corpo lunar banhado pela escuridão não fica completamente escuro, mas pelo 
contrário, a parte escura permanece com um brilho sutil, o suficiente para que um 
observador na Terra possa ver, além do arco brilhante, a parte escura da Lua no céu 
noturno. Conforme Galileu: 
Quando a Lua, quer antes quer depois das conjunções, se encontra próxima 
do Sol, oferece à nossa vista não apenas aquela parte do seu disco que está 
adornada com cornos brilhantes, mas também um tênue círculo, levemente 
reluzente, que parece delimitar o contorno da parte escura (isto é, a parte 
afastada do Sol) e separá-la do fundo mais escuro do próprio éter (Ibid.).35 
Ou seja, mesmo sem receber a luz do Sol diretamente, a face da Lua voltada para 
nós na Terra permanece com um brilho perceptível, o suficiente para destacar o disco 
lunar do fundo negro do céu noturno36. E muitas foram as tentativas de explicar tal 
fenômeno, como relata Galileu: 
Alguns disseram tratar-se do brilho natural e intrínseco da própria Lua, outros 
que lhe é conferido por Vênus, outros pelas estrelas; e ainda outros disseram 
que é dado pelo Sol, que penetraria a vasta massa da Lua com os seus raios. 
Mas tais sugestões refutam-se sem muito esforço e demonstra-se serem falsas 
(GALILEI, 2010, p.170).37 
 
34 “[...] quia tamen eius obseruatio Perspicilli opefacilior redditur, atque euidentior, non incongruè hoc in 
loco reponen dam esse duxi; idque etiam tum maximè, vt cognatio, atque similitudo inter Lunam, atque 
Telluren clarius appareat.” (Ibid.) 
35 “Dum Luna tum ante, tum etiam post coniunctione non proçul à Sole reperitur, non modo ipsius globus 
ex parte qua lucentibus cornibus exornatur visui nostro spectandum sese offert, verum etiam tenuis 
quædam sublucens periphæria, tenebrosæ partis, Soli nempè auerfæ orbitam delineare, atque ab ipsius 
ætheris obscuriori campo seiungere vid ur.” (Ibid.) 
36 O éter, também chamado de quinta-essência, é a substância do cosmo. No tempo de Galileu, o vácuo 
era uma hipótese matemática, de modo que a substância do cosmo deveria ser um elemento sobre o qual o 
céu noturno é visualizado. 
37 “Quidam enim proprium esse, ac naturalem ipsiusmet Lunæ splendorem dixerunt; alij à Venere illi esse 
impertitum, alij à Stellis omnibus, alij à Sole, qui radijs suis profundam Lunæ soliditatem permeet. 
Verùm huiuscemodi prolata exiguo labore coarguuntur, ac falsitatis euincuntur.” (Ibid.) 
 
28 
De acordo com Galileu, a causa deste brilho secundário da Lua não poderia ser 
Vênus, pois perto das conjunções a parte da Lua oposta ao Sol é impossível de ser vista 
por Vênus, de modo que a luz refletida por este planeta não atingiria a Lua, que se posta 
a 60º de distância (Ibid.). Ou seja, é geometricamente impossível que um raio de luz 
sendo refletido por Vênus atingisse a face da Lua virada para a Terra. E também, este 
brilho secundário não pode ser conferido pelo Sol, pois sua luz não penetra o corpo 
sólido lunar. E se fosse assim, este brilho nunca diminuiria (Ibid.). Portanto, segundo 
Galileu: 
Uma vez, pois, que esta luz secundária não é intrínseca e própria à Lua, e 
também não é emprestada por nenhuma estrela nem pelo Sol, e visto que na 
vastidão do mundo não resta nenhum outro corpo a não ser a Terra, pergunto 
então o que devemos pensar? [...] a Terra, numa troca igual e agradecida, 
retribui à Lua uma luz igual àquela que recebe da Lua durante quase o tempo 
na mais profunda escuridão da noite (Ibid.).38 
Feita estas considerações, em seguida Galileu apresenta o “argumento da 
reflexão da luz pela Terra”: 
Quando a Lua está sob o Sol, próximo das conjunções, ela está diante da 
superfície inteira do hemisfério da Terra exposta ao Sol e iluminada por raios 
vigorosos, recebendo luz refletida dela. E, assim, por causa desta reflexão, o 
hemisfério inferior da Lua, embora destituído de luz solar, aparece com um 
brilho considerável (Ibid., p. 172).39 
Contudo, a explicação de Galileu para o fenômeno em questão não é inédita. 
Conforme escreve Henrique Leitão, outros pensadores

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