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24 Ecologia da paisagem e manejo de ecossistemas CONCEITOS-CHAVE CONCEITO 24.1 A ecologia da paisagem examina padrões espaciais e suas relações com os processos ecológicos. CONCEITO 24.2 Perda e fragmentação de hábitat diminuem as áreas de hábitat, isolam populações e alteram condições nas bordas dos hábitats. CONCEITO 24.3 A biodiversidade pode ser mais bem preservada por grandes reservas conectadas através da paisagem e protegidas de áreas de uso humano intenso. CONCEITO 24.4 O manejo de ecossistemas é um processo colaborativo cuja meta principal é a manutenção da integridade ecológica em longo prazo. Lobos na paisagem de Yellowstone: Estudo de Caso Imagine que você tenha caminhado com calçados de neve até um local es- tratégico para observar a vida selvagem na parte norte do Parque Nacional de Yellowstone. Você tem seu binóculo apontado para um bando um tanto espalhado de alces que atravessa um campo congelado, afastando a neve com os cascos para alcançar tufos de grama encoberta. De repente, você percebe alguns animais erguendo a cabeça e dirigindo a atenção para o leste. Você olha para a mesma direção e percebe que uma matilha de lobos está se aproximando. O bando de alces se reúne e começa a se mover, fu- gindo descampado abaixo. Um jovem macho em más condições de saúde fica para trás, separa-se do bando e é cercado por lobos que pulam sobre seus quartos traseiros e pescoço. Ele cai e é rapidamente morto. Em Yellowstone, esse ataque faz parte de uma cena antiga que ago- ra ocorre novamente devido à reintrodução dos lobos nas montanhas do norte em 1995 e 1996; após 70 anos ausentes, eles voltaram a caçar uma variedade de ungulados e outras presas (Figura 24.1). A reintrodução dos lobos foi o resultado de anos de esforço em pesquisa e debates políti- cos acaloradamente contestados, com objeções veementes de alguns mo- radores da região. Quase vinte anos depois, as consequências ecológicas mostraram-se multifacetadas e profundas, e a opinião pública tornou-se mais favorável. O Grande Ecossistema de Yellowstone (GEY) é uma área que simbo- liza tanto a alma da América selvagem quanto os desafios do manejo de terras públicas. No entanto, o quão “selvagem” é ele? Mais extenso do que o estado da Virgínia do Oeste, o GEY abrange dois parques nacionais e sete florestas nacionais, assim como outras terras públicas e privadas (Figura 24.2). A região é manejada ativamente por mais de 25 órgãos fe- derais e estaduais, além de corporações privadas, ONGs e donos de terras privadas. As decisões sobre o uso dessa terra e de seus recursos naturais são complexas e frequentemente descoordenadas, mas, analisadas em conjunto, essas decisões determinam qual espécie será ou não sustentada pelo ecossistema (Parmenter et al., 2003). Figura 24.1 Um predador de topo retorna Lobos-cinzentos (Canis lupus) encaram uma de suas presas unguladas, um alce macho (Cervus canadensis). Os lobos foram reintroduzidos no Parque Nacional de Yellowstone em 1995 após quase 70 anos de ausência, onde agora são os principais predadores dos alces. Capítulo 24 • Ecologia da paisagem e manejo de ecossistemas 547 Apesar de sua gestão fragmentada, o GEY muitas ve- zes é visto como um dos ecossistemas mais preservados do ponto de vista biológico na América do Norte. Ele sus- tenta sete espécies de ungulados nativos e cinco espécies de carnívoros de grande porte. Entender como esses pre- dadores e essas populações de presas interagem e como seus números relativos afetam todo o ecossistema tem sido um desafio recorrente para os ecólogos que estudam o GEY, particularmente à luz de um século de gestão das populações de animais selvagens. Depois da erradicação dos lobos em meados da década de 1920, havia preocupa- ções de que os alces estavam pastando excessivamente os prados na parte norte do parque. As populações de alces eram reguladas desde a década de 1920 até os fins da dé- cada de 1960 pela retirada de animais para fazendas de al- ces e pelo descarte seletivo. Em 1968, uma nova política de “regulação natural” foi implementada. A população dos alces quase quadruplicou ao longo de 30 anos e suprimiu as plantas das quais se alimenta. A reintrodução de lobos não apenas reduziu a população de alces, como também afetou a população de muitas outras espécies. Como? Para começar a responder a essa pergunta, voltaremos à década de 1950 quando os ecólogos perceberam que os castores tinham se tornado escassos no Parque Nacional de Yellowstone. Aos poucos, a alta taxa de herbivoria por parte dos alces sobre os recursos preferenciais dos casto- res (salgueiros e álamos), foi se tornando evidente. Porém, toda uma gama de outras espécies depende das represas dos castores para sua própria subsistência, e a abundância dessas espécies havia decaído juntamente com a dos cas- tores. A decisão de erradicar os lobos não havia previsto essas mudanças ecológicas para o ecossistema de Yello- wstone. Como ecólogos de hoje podem ajudar gestores de reservas naturais a tomar decisões que levem em conside- ração consequências futuras? Introdução Neste capítulo, daremos um passo para trás e expandi- remos o escopo de nossa visão para ver a ecologia pela perspectiva da paisagem. O surgimento dessa perspectiva tem sido acompanhado, ou talvez dirigido, por uma po- derosa junção de ferramentas que nos permite monitorar o ambiente em variadas dimensões e em muitas escalas. Por exemplo, o surgimento da fotografia aérea propiciou aos ecólogos um modo fiel de visualizar “o quadro geral”. Mais recentemente, nosso acesso ao espaço expandiu bas- tante nossa capacidade de adquirir imagens da Terra por sensoriamento remoto e permitiu a interpretação de muitos padrões ecológicos de grande escala, tais como padrões glo- bais de produção primária líquida (ver Ferramentas Eco- lógicas 20.1). O uso de sistemas de informação geográfica (SIGs) tornou-se padrão em esforços de planejamento da paisagem, tanto para o desenvolvimento urbano como para a conservação (Ferramentas Ecológicas 24.1). No campo, as informações do sistema de posicionamento global (GPS, de global positioning system) possibilitam aos ecólogos docu- mentar com mais precisão locais de interesse e integrá-los com outras variáveis com a ajuda do SIG. A radiotelemetria aumentou muito nossa capacidade de seguir movimentos de animais selvagens e padrões de migração, novamente com o auxílio do SIG. E nossa habilidade para analisar to- das essas informações está crescendo constantemente gra- ças a melhores computadores e novos métodos estatísticos de análise espacial. Vimos no Conceito 23.3 que a perda, a fragmentação e a degradação de hábitats são as principais causas atuais da queda da biodiversidade. Neste capítulo, veremos como as ferramentas e os métodos de ecologia da paisagem são usados para tratar a perda da biodiversidade na escala de paisagens e de ecossistemas. Uma vez que as áreas natu- rais protegidas são o principal alvo das estratégias de con- servação, também consideraremos como biólogos da con- servação as identificam e projetam a fim de maximizar sua eficácia. Finalmente, examinaremos como o manejo dos ecossistemas integra princípios ecológicos com os dados sociais e econômicos visando melhores decisões no uso da terra e da água. Cody Bozeman Livingston Jackson Rexburg Idaho Lander 50 km Reserva indígena Wind River Parque Nacional de Yellostone Parque Nacional de Grand Teton Montana Wyoming Wyoming Fronteira ecológica (GEY) Limites de florestas nacionais Limites de parques nacionais Figura 24.2 O Grande Ecossistema de Yellowstone O GEY abrange os parques nacionais de Yellowstone e de Grand Te- ton, outras sete florestas nacionais, ter- ras manejadas pelo Bureau of Land Ma- nagement, assim como áreas privadas. (Segundo Parmenter et al., 2003.) 548 Parte 7 • Ecologia aplicada e de larga escala Sistemas de Informação Geográfica (SIGs) Os SIGs são sistemas compu- tacionais que permitemavançado de regeneração, fora dos limites da ação das ma- deireiras. Os ânimos estavam acirrados entre madeireiros e outros apoiadores da indústria madeireira. “Quando se trata de escolher entre corujas e o bem-estar das famílias, de minha parte, para o inferno as corujas”, disse um polí- tico. Em alguns momentos, determinados discursos eram abafados pelas buzinas dos caminhões de carga. O debate controverso sobre a derrubada de florestas no Noroeste do Pacífico foi reduzido a “corujas contra empregos” e resul- tou em adesivos e camisetas com slogans, vandalismo por ambos os lados e a troca de muitas palavras de raiva. Algumas pessoas reconheceram que poderia haver uma maneira melhor de tomar decisões sobre o uso dos recursos naturais. O conflito no noroeste do Pacífico foi em parte o resultado de uma longa história de gestão de cima para baixo dos recursos naturais, com foco na produção de recursos e na extração. Em 1995, uma força-tarefa para manejo de ecossistemas com agências federais foi formada para desenvolver alternativas para essa questão (DellaSala e Williams, 2006). Os métodos de manejo de recursos naturais tornaram-se mais colaborativos com o passar do tempo Durante a maior parte do século XX, a gestão dos recursos naturais em terras públicas norte-americanas teve como foco a manutenção de recursos individuais de valor eco- nômico, seja madeira, veados, patos ou cenário para os vi- sitantes. Esse foco sempre esteve no centro de muitas polí- ticas de gestão da terra até o Congresso aprovar, em 1960, Três anos após a restauração, densidades tanto de ostras adultas quanto jovens foram muito mais altas em hábitats restaurados do que hábitats próximos não restaurados. D en si da de m éd ia (o st ra s/ m 2 ) Restaurado Não restaurado Tipo de hábitat 200 0 400 600 800 1.000 Adultos (A) (B) Jovens 0 2 4 6 8 Antes da restauração Após a restauração Figura 24.20 Efeitos drásticos de um projeto de restauração ecológica Populações de ostras nativas têm co- lapsado ao redor do globo devido à perda de hábitat e à coleta excessiva. (A) Em um experimento de restaura- ção ecológica que começou em 2004, corais foram construídos com propá- gulos de ostras em nove áreas pro- tegidas ao longo do rio Wicomico na Virgínia. Três anos depois, as popula- ções de ostras nativas recuperaram-se drasticamente nos 35 hectares do pro- jeto de restauração. As barras de erro mostram um erro-padrão da média. (B) Hábitat das ostras antes e depois da restauração. O objeto à direita em cada fotografia é um braço robótico que pode coletar ostras para análise. Vídeos desses locais antes e depois da restauração podem ser encontra- dos em Saiba Mais 24.2. (Segundo Schulte et al., 2009.) 564 Parte 7 • Ecologia aplicada e de larga escala a Lei de Produção Sustentada de Múltiplo Uso. Ao final de 1980, as agências de recursos naturais haviam expandido gradualmente suas missões para incluir “uso múltiplo”, em reconhecimento de que pessoas diferentes tinham in- teresses diferentes e que era possível administrar as terras públicas para atender a demandas diversas, e às vezes até concorrentes. Isso foi feito recorrentemente pela compar- timentalização de usos, quando diferentes partes de terra são designadas como zonas de extração de madeira, zonas de recreação ou áreas naturais. Desde a década de 1980, com nossa maior consciência da necessidade de preservação da biodiversidade, nossos objetivos para o manejo de áreas foram modificados nova- mente. A abordagem do manejo de ecossistemas emergiu como uma maneira de expandir a visão da gestão para in- cluir a proteção de todas as espécies nativas e ecossistemas quando focado na sustentabilidade de todo o sistema, e não apenas a sustentabilidade dos recursos de interesse. O que é manejo de ecossistemas? De uma forma sim- ples, é “gerenciar ecossistemas de modo a assegurar sua sustentabilidade” (Franklin, 1996). Em 1996, um comitê da Ecological Society of America chegou a uma definição menos simples, porém mais abrangente: “O manejo de ecossistemas é o manejo motivado por metas explícitas, executado por políticas, protocolos e práticas, e adaptado por monitoramento e pesquisa com base em nosso melhor entendimento sobre as interações e processos ecológicos necessários para sustentar a função e a estrutura de um ecossistema” (Christensen et al., 1996). Essa definição en- fatiza a sustentabilidade, mas também reconhece a neces- sidade de estipular metas e de se utilizar a ciência para avaliar e ajustar as práticas de manejo ao longo do tempo. O conflito no final da década de 1980 sobre as flores- tas em estágio avançado de regeneração no Noroeste do Pacífico nos Estados Unidos foi um estímulo a ecólogos, silvicultores, indústrias e cidadãos a procurar um meio menos conflituoso para se tomar decisões. Desde aquela época, decisões mais colaborativas têm sido combinadas com conhecimentos científicos para se chegar a planos de manejo que não apenas sustentem a biodiversidade e o homem, mas também sejam responsivos a condições de mudança. No manejo de ecossistemas, o foco é um ecos- sistema biofísico em particular, ou ecorregião, delineado por fronteiras naturais em vez de fronteiras políticas: uma bacia hidrográfica, uma cadeia de montanhas, uma faixa litorânea. Uma gama de investidores ou empre- endedores – cidadãos com algum interesse no projeto – envolve-se nas tomadas de decisão para a ecorregião, unidos pelo objetivo comum de manter a integridade ecológica e a viabilidade econômica. O manejo de ecossistemas define metas sustentáveis, programa políticas, monitora a efetividade e faz os ajustes necessários O manejo de ecossistemas é um processo que pode ser implantado de várias maneiras para diferentes projetos. A maioria dos projetos de manejo de ecossistemas começa com a reunião de dados científicos para definir a natureza dos problemas no ecossistema. Essas informações são en- tão usadas para propor objetivos sustentáveis. Para se atin- gir essas metas, uma série de ações é necessária, muitas das quais podem necessitar da adaptação de novas políticas. Quando um novo plano de ação é implementado, o ecos- sistema é monitorado para avaliar se as ações estão trazen- do os resultados esperados. Ajustes às políticas são feitos conforme necessário. Nesse processo iterativo, conhecido como manejo adaptativo (Figura 24.21), ações de gestão são vistas como experimentos, e decisões de gestão futuras são determinadas pelo resultado das decisões presentes. O monitoramento é um componente vital para o ma- nejo adaptativo. Por exemplo, Mark Boyce desenvolveu um modelo prevendo a dinâmica populacional de alces e lobos no Parque Nacional de Yellowstone após a reintro- dução de lobos descrita no Estudo de Caso deste capítulo. Ele e seu colega Nathan Varley adotaram uma abordagem de manejo adaptativo, ajustando seu modelo com base em dados demográficos dos primeiros 10 anos da presença de lobos. Como o modelo original estimou bem o número de alces, mas subestimou o número de lobos, eles perceberam que algumas das suposições do modelo necessitavam de ajustes (Varley e Boyce, 2006). No futuro, essa abordagem será importante para determinar os níveis aceitáveis de caça para os alces e os ajustes futuros em resposta à mu- dança das circunstâncias. Embora seja extremamente útil, a gestão de ecossiste- mas tem limitações e desvantagens. Uma desvantagem é que pode levar um longo tempo para se chegar a um con- senso – ainda que prevenindo uma crise ambiental, pode ser necessário que as ações preventivas sejam tomadas imediatamente. Existe também um potencial de conflito contínuo gerado por aqueles que simplesmente querem interromper o processo, mesmo quando grandes esforços Esclarecer a missão e as metas Desenvolver plano de monitoramento Desenvolver modelo conceitual do sistema a ser conservado Desenvolver plano de manejo: metas, objetivos e ações Implementar planos demanejo e monitoramento Analisar dados e discutir resultados Adaptar e aprender Figura 24.21 O manejo adaptativo é um componente vital do manejo de ecossistemas O manejo adaptativo é uma for- ma sistemática de se aprender com as ações de manejo passa- das e, com base nesse aprendizado, ajustar as decisões futuras. (Segundo Margoluis e Salafsky, 1998.) Capítulo 24 • Ecologia da paisagem e manejo de ecossistemas 565 no envolvimento das partes interessadas são feitos. Em al- guns casos, a informação parcial, a luta pelo poder entre as diferentes agências governamentais, a corrupção ou as necessidades não satisfeitas das comunidades locais pro- duzem situações que não contribuem para a administra- ção participativa. Os seres humanos são parte integral dos ecossistemas Ações humanas afetam ecossistemas naturais, e as econo- mias humanas são alteradas pelos estoques de recursos naturais. Gerenciadores de ecossistema não devem apenas administrar recursos naturais e biodiversidade em amplas áreas; devem também arquitetar planos que protejam tan- to os ecossistemas naturais quanto as economias humanas. O manejo de ecossistemas incorpora fatores sociais e eco- nômicos como partes fundamentais do processo decisório, em conjunto com requisitos legais e, é claro, integridade ecológica (Figura 24.22). A integração desses diferentes componentes é vista como necessária para atingir o suces- so no manejo. Como temos visto, pessoas necessitam dos ecossiste- mas naturais por muitas razões, desde econômicas até es- pirituais. O manejo de ecossistemas incorpora a educação do público sobre sua dependência dos serviços do ecossis- tema como parte de sua missão. Também engaja o público no auxílio para resolver os problemas que degradam os serviços do ecossistema dos quais ele depende. Qualquer plano de conservação que exclua o compo- nente humano não será aceito, em último caso, pelos in- vestidores interessados. O plano para o Parque Nacional de Masoala levou em consideração as necessidades das pessoas que vivem ao redor do parque. Os planejadores da conservação não apenas calcularam suas necessidades de madeira e criaram uma zona de amortecimento desti- nada ao corte sustentado, mas também pesquisaram na região três espécies que teriam valor no mercado de ex- portação e incluíram-nas em um plano econômico para uso futuro. A ideia foi remover as pressões econômicas sobre os recursos do parque indicando meios pelos quais as pessoas poderiam se sustentar e aumentar seus ganhos utilizando recursos de fora da área do parque. Além disso, o grupo de Kremen trabalhou em conjunto com a popula- ção local e com o governo de Madagascar para desenvol- ver o projeto, reconhecendo a importância da aceitação do povo local de quaisquer propostas que fizessem. No final, o planejamento do parque levou em conta as necessidades econômicas das pessoas, identificando recursos florestais que poderiam ser utilizados para enriquecer a região, as- sim como as necessidades de hábitat de todos os táxons incluídos na análise dos planejadores. Só o tempo dirá se o parque atingirá essas metas (Kremen et al., 1999). ESTUDO DE CASO REVISITADO Lobos na paisagem de Yellowstone A reintrodução dos lobos no grande ecossistema de Yello- wstone em 1995 repercutiu em uma mudança na aborda- gem do processo decisório do manejo de ecossistemas. Foi um passo corajoso após anos de estudo e de preparação. Esse fato reflete uma considerável mudança nas atitudes humanas para com a natureza no último século. No final do século XIX e início do século XX, os lobos eram temidos e insultados. Eles eram tidos como um ameaça aos seres humanos e aos rebanhos – uma percepção acurada por parte dos rebanhos. Os lobos foram caçados até a extinção na área do Parque Nacional de Yellowstone até o final da década de 1930 e praticamente em todo o território dos Estados Unidos não muito tempo depois. A remoção de um predador de topo pode alterar a pai- sagem substancialmente, em parte porque os herbívoros, cujas populações são controladas pelo predador, podem aumentar em número, afetando negativamente a dinâmica da vegetação. Em Yellowstone, o crescimento e a repro- dução das espécies de árvores ribeirinhas, como choupos, álamos e salgueiros, decaíram após a remoção dos lobos (Ripple e Beschta, 2007). Uma possível razão é que as árvo- res sofriam forte herbivoria, como pelos alces, que vague- avam livremente ao longo de rios e córregos uma vez que os lobos tinham desaparecido. Quão forte é o apoio para essa explicação? Muitas observações corroboram com essa ideia. A reintrodução iniciou no inverno de 1995 a 1996, quando 31 lobos capturados no Canadá foram soltos no parque. A população aumentou rapidamente; em 2004, havia cerca de 250 lobos no parque. Na sequência da reintrodução, as populações de alces, principais presas dos lobos, diminuí- ram em 50%. Alces foram inicialmente ingênuos e muito vulneráveis à predação pelos lobos, mas desde então têm CONTEXTO ECOLÓGICO Dados, modelos matemáticos, conceitos, entendimento e responsabilidades científicas CONTEXTO INSTITUCIONAL Leis, planos de ação, autoridade, terras e outros bens e responsabilidades do setor público CONTEXTO SOCIOECONÔMICO Valores, interesses, informações, terras e outros bens e responsabilidades do setor privado AC D B Figura 24.22 Os seres humanos são parte integral do ma- nejo de ecossistemas O manejo de ecossistemas integra in- teresses oriundos de contextos ecológicos, institucionais e so- cioeconômicos. As letras representam a sobreposição dos três contextos: (A) zona do manejo da regulação ou da autoridade; (B) zona das obrigações sociais; (C) zona das decisões informais (em oposição às exigências legais); (D) zona das parcerias de sucesso, em que todas as partes ganham. 566 Parte 7 • Ecologia aplicada e de larga escala modificado seu comportamento, mostrando preferência pelo forrageio em locais que fornecem alta visibilidade. Além disso, álamos, choupos e salgueiros começaram a se recuperar em algumas áreas. Os primeiros sinais de re- cuperação parecem estar concentrados em locais onde os alces encontram maiores riscos de predação, como locais onde a visibilidade é ruim, onde não há rotas de escape ou onde emboscadas são frequentes. Assim, alces podem es- tar evitando áreas onde são mais vulneráveis aos ataques dos lobos, permitindo que árvores se recuperem nesses lo- cais – e possivelmente levando a uma série de efeitos em cascata (Figura 24.23). No entanto, alguns estudos têm questionado se uma cascata trófica como a da Figura 24.23 está ocorrendo. Em um teste sobre a hipótese de que alces forrageiam menos em áreas com lobos, levando à recuperação de espécies lenhosas nesses locais, Kauffman e colaboradores (2010) verificaram que a sobrevivência dos álamos não foi altera- da pela presença de lobos. Da mesma forma, Creel e Chris- tianson (2009) descobriram que a predação do salgueiro por alces foi mais fortemente afetada pelas condições da neve do que pela presença de lobos; na verdade, ao con- trário das expectativas, o consumo de salgueiro aumentou quando os lobos estavam presentes! A reintrodução de lobos pode ter alterado a sobrevivência do salgueiro e do álamo, o que parece ter ocorrido pela diminuição da popu- lação de alces devido à predação pelos lobos, e não porque o medo da predação levou a mudanças de forrageio dos alces. Seja qual for o resultado desse debate, a reintrodu- ção de lobos proporciona uma excelente oportunidade para testar hipóteses sobre como os ecossistemas funcio- nam em uma ampla paisagem. CONEXÕES NA NATUREZA Futuras mudanças na paisagem de Yellowstone Se as árvores ripárias continuarem a se recuperar no GEY, uma série de efeitos em cascata (como os descritos nos Conceitos 16.3 e 21.3) pode ocorrer. Em alguns locais, o au- mento do número de salgueiros reduziu o fluxo de água e aumentou as taxas de sedimentação (Beschta e Ripple, 2006). Espera-se também que o aumentodo crescimento de espécies arbóreas ripárias proporcione sombra e hábi- tat para as trutas, que preferem águas frias e a sombra, e para as aves migratórias. Um maior número de espécies de aves ripárias tem sido observado em um ecossistema em recuperação bastante parecido em Alberta (Hebblewhite et al., 2005). Com o aumento da população dos salgueiros – recurso preferido dos castores –, novas colônias de castores estão surgindo. Por sua vez, as barragens construídas pelos castores mudaram os padrões de fluxo de água, criando zonas pantanosas que podem favorecer o retorno de lon- tras, patos, ratos-almiscarados e visons. No entanto, outras mudanças ainda mais fundamen- tais podem estar ocorrendo no ecossistema de Yellowsto- ne. Lembre-se dos Capítulos 2 e 4 que o clima é o fator mais importante para determinar onde as espécies vivem. Com o aumento das concentrações dos gases do efeito es- tufa na atmosfera, o aquecimento do clima antecipa-se no MODELO DE CASCATA TRÓFICA Predador CASCATAS TRÓFICA SEM OS LOBOS CASCATA TRÓFICA COM OS LOBOS Presa Plantas Outras respostas do ecossistema Lobos ausentes (1926-1995) Alces forrageiam espécies lenhosas sem correr risco de serem predados Diminuição no recrutamento de espécies lenhosas (choupos, álamos, salgueiros, entre outros) Perda das funções ripárias Alargamento e perda de canais, perda de urzais, perda da conectividade entre rios e planícies de inundação Ausência dos castores Perda dos recursos da teia alimentar que sustentam a fauna aquática, avária e outras Lobos reintroduzidos (1995) Os padrões de forrageio e de deslocamento dos alces são ajustados ao risco da predação Aumento no recrutamento de espécies lenhosas Recuperação das funções ripárias Estabilização dos canais, recuperação dos urzais e da conectividade hidrológica Recolonização dos castores Recuperação dos recursos da teia alimentar que sustentam a fauna aquática, aviária e outras Figura 24.23 A hipótese da cas- cata trófica Os lobos são predado- res de topo, e sua reintrodução no Grande Ecossistema de Yellowstone (GEY) tem o potencial de causar efeitos de cascata trófica. De acordo com a hipótese apresentada, alces passaram a evitar os locais onde são mais vulneráveis à predação, e árvores e arbustos estão retornando a esses locais depois de décadas de pastoreio pelos alces. Os pesqui- sadores estão testando ativamente essa e outras hipóteses sobre os efeitos de lobos no GEY. (Segundo Ripple e Beschta, 2004.) Capítulo 24 • Ecologia da paisagem e manejo de ecossistemas 567 próximo século (ver Capítulo 25). Yellowstone será capaz de manter sua diversidade biológica atual com a mudança global do clima? Um estudo de modelagem mostrou como a vegetação da região ao redor do Parque Nacional de Yellowstone pode parecer com a duplicação das concentrações de CO2 na atmosfera, que poderia acontecer dentro de um século (Figura 24.24). Geralmente, as projeções apontam para altas temperaturas, sem aumento de precipitação e com incêndios mais frequentes. Com base nessas projeções para o ambiente físico, o modelo previu migrações de muitas espécies para partes mais altas e para o norte. Essas migrações poderão causar mudanças nas comunidades florestais, com o declínio de espécies dentro do parque e o aumento da área de ocorrência de outras espécies. En- tre as espécies atualmente raras ou ausentes no GEY e que podem ter sua abundância aumentada substancialmente estão o carvalho-gambel, o cedro-vermelho-do-oeste e o pinheiro-ponderosa. A quase eliminação do pinheiro-de- -casca-branca é esperada com o deslocamento para o norte de seu hábitat adequado (Bartlein et al., 1997). A perda do pinheiro-de-casca-branca poderia iniciar uma série de mudanças ecológicas. Essa árvore é uma espécie-chave, pois produz grandes amêndoas ricas em calorias, sendo uma fonte de recursos importantes para o pássaro quebra-nozes, assim como para os ursos pretos e cinzentos. O quebra-nozes, por sua vez, é o dispersor pri- mário das sementes do pinheiro-de-casca-branca (Tom- back, 1982). Uma consequência dos invernos menos frios das últimas décadas tem sido a expansão da ocorrência do besouro-do-pinheiro-da-montanha (Dendroctonus pondero- sae) para florestas de pinheiros de altas altitudes, incluin- do aquelas onde o pinheiro-de-casca-branca cresce (Logan e Powell, 2001). Esse besouro tem efeitos devastadores sobre o pinheiro-de-casca-branca (Figura 24.25). Esse pi- nheiro também tem sido muito impactado na América do Norte pelo fungo Cronartium ribicola, um patógeno intro- duzido que produz bolhas enferrujadas nos troncos e nos ramos (Tomback e Achuff, 2010). Os efeitos combinados do besouro-dos-pinheiros e das bolhas de ferrugem têm causado uma grande mortandade de pinheiros-de-casca- -branca, e dados preliminares indicaram que essas perdas têm reduzido a ocorrência do quebra-nozes em algumas áreas (McKinney et al., 2009). A redução dos pinheiros-de- -casca-branca também significa uma redução de recursos alimentares para os ursos. Assim, parece que a mudança climática e que um patógeno exótico estão causando fortes influências nas populações de pinheiros-de-casca-branca, e esses efeitos podem ser sentidos pelos animais selva- gens, como os ursos-cinzentos. (Ver Conexão às Mudan- ças Climáticas 24.1 para mais informações sobre como a mudança climática está afetando a biodiversidade em florestas e outros ecossistemas.) Como vimos neste capítulo, a ecologia da paisagem e o uso de ferramentas como o sensoriamento remoto e Em condições atmosféricas com o dobro de CO2, prevê-se que o cedro-vermelho-do-oeste, que atualmente não ocorre no parque, estenda a área de ocorrência até os arredores de Yellowstone. O pinheiro-de-casca-branca provavelmente desaparecerá de muitos dos parques e regiões em que é encontrado atualmente. (A) Cedro-vermelho-do-oeste (Thuja plicata) (B) Pinheiro-de-casca-branca (Pinus albicaulis) Sem mudanças: presente hoje e em 2 × CO2 Redução da área de ocorrência: presente hoje, ausente 2 × CO2 Aumento da área de ocorrência: ausência hoje, presente em 2 × CO2 Parque Nacional de Yellowstone Grande Ecossistema de Yellowstone Figura 24.24 Projeção dos efeitos da mudança climática nas Montanhas Rochosas do Norte Alterações na distribuição de algumas espécies principais de árvores nas Montanhas Rocho- sas do Norte do Parque são projetadas por um modelo de clima futuro regido por concentrações de CO2 duas vezes maiores do que as atuais. Essas mudanças incluem (A) o aumento da distribuição do cedro vermelho-do-oeste, que atualmente é in- comum na região, e (B) o quase desaparecimento do pinheiro- -de-casca-branca. (Segundo Bartlein et al., 1997.) Figura 24.25 Invernos pouco frios promoveram uma explo- são populacional devastadora de insetos Expulso das flores- tas de pinheiros-de-casca-branca pelas temperaturas frias do inverno, o besouro-dos-pinheiros expandiu sua área de ocor- rência com o aumento da temperatura nas últimas décadas. Esses besouros têm contribuído para a morte de milhões de pinheiros, que ficam avermelhados quando morrem (como nesta floresta em Wyoming). Em julho de 2010, o U.S. Fish and Wildlife Service anunciou que está considerando a possibilida- de de listar o pinheiro-de-casca-branca como em perigo ou ameaçado de extinção na Lei de Espécies Ameaçadas. 568 Parte 7 • Ecologia aplicada e de larga escala o SIG podem elucidar os atuais padrões de biodiversida- de e nos ajudar a prever futuros padrões. Ao longo dos últimos 30 anos, temos dedicado muitos esforços na se- leção, na implantação e no gerenciamento de novas Uni- dades de Conservação, mas agora precisamos questionar a eficiência dessas áreas em abrigar suas espécies com a elevação da temperatura global. Se perdas estão previstas com a alteração climática, existem ações que podemos to- mar para aumentar a conectividade, para criar ou melho- rar zonas de amortecimento ao redor de áreas-núcleo, ou para restaurar áreas degradadase melhorar a integridade ecológica? Ou teremos que deslocar espécies para novas áreas com hábitats adequados, especialmente se não con- seguem migrar com a agilidade suficiente para se adaptar à mudança climática? Com o aumento da população humana e das deman- das sobre os ecossistemas, esses desafios serão ainda maiores. Ecólogos terão o papel fundamental de gerar in- formações científicas necessárias para tomarmos decisões sobre como proceder em sociedade. O futuro de incontá- veis números de espécies depende de nossa eficácia nessa tarefa. CONCEITO 24.1 A ecologia da paisagem examina padrões espaciais e suas relações com os processos ecológicos. •A paisagem é uma área heterogênea de terra com- posta por um mosaico dinâmico de componentes distintos que interagem entre si pela troca de mate- riais, energia e organismos. •Paisagens são caracterizadas por sua composição (os elementos que as constituem), assim como por sua estrutura (o modo como esses elementos estão arran- jados na paisagem). •Os padrões de paisagem influenciam processos eco- lógicos, pois determinam o quão fácil organismos se deslocam entre fragmentos, e alteram propriedades de ecossistemas, como as taxas dos ciclos biogeoquí- micos. •Os padrões de paisagem moldam e são moldados pelos distúrbios. CONCEITO 24.2 Perda e fragmentação de hábitat diminuem as áreas de hábitat, isolam populações e alteram condições nas bordas dos hábitats. •Fragmentos de hábitat em geral são biologicamente empobrecidos se comparados aos hábitats intactos de onde foram separados. •Quando um fragmento de hábitat é isolado pela fragmentação, os organismos remanescentes podem ficar ilhados ou podem cruzar a matriz modificada até outro. •As bordas possuem condições abióticas diferentes das partes internas dos fragmentos e, portanto, apre- sentam dinâmicas populacionais diferentes. •O isolamento de populações e as alterações nas co- munidades ecológicas resultantes da fragmentação dos hábitats modificam os processos evolutivos. CONCEITO 24.3 A biodiversidade pode ser mais bem preservada por grandes reservas conectadas através da paisagem e protegidas de áreas de uso humano intenso. •A configuração espacial ideal de uma área-núcleo natural é ampla, compacta e conectada ou próxima a outras áreas naturais protegidas. •As áreas-núcleo naturais devem ser circundadas por zonas de amortecimento onde usos antrópicos com- patíveis com a preservação da biodiversidade são permitidos. •Corredores de hábitat são instrumentos que faci- litam o deslocamento dos organismos entre áreas naturais. •A restauração ecológica de áreas degradadas pro- move o retorno das espécies nativas e dos processos ecossistêmicos. CONCEITO 24.4 O manejo de ecossistemas é um processo colaborativo cuja meta principal é a manutenção da integridade ecológica em longo prazo. •A colaboração entre todos os investidores ou inte- ressados é fundamental para se chegar a planos de manejo efetivos. •O manejo de ecossistemas é um processo de fixar metas sustentáveis, desenvolver e implementar políticas de manejo para o uso do solo, monitorar a eficácia das decisões anteriores e adaptar os planos de acordo com esse monitoramento. •Os seres humanos são parte integral dos ecossiste- mas. Planos de conservação que consideram a eco- nomia e o bem-estar da população local estão mais propensos ao sucesso em longo prazo. RESUMO Capítulo 24 • Ecologia da paisagem e manejo de ecossistemas 569 Questões de revisão 1. Quais as semelhanças entre as ilhas de hábitat terres- tres resultantes da fragmentação e as ilhas circundadas pela água? Quais as diferenças? Como os princípios da biogeografia de ilhas se aplicam às ilhas fragmentadas de hábitat? 2. Os corredores são apenas fragmentos longos e estrei- tos? Descreva as semelhanças e as diferenças entre o corredor e os fragmentos de hábitat que ele une e des- taque as implicações aos organismos que o utilizam. Você entende que corredores são benéficos? Que são necessários? Por quê? 3. A borda oeste do Parque Nacional de Yellowstone, divi- sa com uma Floresta Nacional, pode ser vista do espaço (confira no Google Earth 44º21’45” N, 111º05’50” O). Ex- plique isso em termos das metas contrastantes de um parque nacional e de uma floresta nacional. Quais são as implicações ecológicas para a biodiversidade dessas propostas institucionais contrastantes? E para o manejo dos ecossistemas? 4. Descreva as áreas protegidas nas proximidades de sua sala de aula. Classifique-as por tamanho, descreva que jurisdição é responsável por elas e avalie sua eficácia na proteção da biodiversidade nativa. Considere-as como uma rede. Quão bem conectadas estão? Existe alguma forma de melhorar a conectividade em sua re- gião? Qual o potencial e a necessidade de se aumentar a área de terra conservada em sua região? 5. Dê um exemplo de um esforço de conservação em sua região que possua a abordagem do manejo de ecossis- temas. Que ecossistema está sendo protegido? Quais espécies, ou qual espécie-chave ou qual comunidade biológica esse esforço busca proteger? Quem são os in- teressados envolvidos na tomada de decisão? Qual a eficácia desse ato no auxílio na questão fundamental de se manter a integridade ecológica? O site inclui o resumo dos capítulos, testes, flashcards e termos-chave, sugestão de leituras, um glossário completo e a Revisão Estatística. Além disso, os seguintes recursos estão disponíveis para este capítulo: Exercício Prático: Solucionando Problemas 24.1 Você não consegue chegar lá saindo daqui: o deslocamento em paisagens heterogêneas Saiba Mais 24.1 Ilhas de hábitat e o leste de Wallaroo 24.2 Efeitos de um experimento de restauração ecológica Conexão às Mudanças Climáticas 24.1 Efeitos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade MATERIAL DA INTERNET (em inglês) sites.sinauer.com/ecology3eo ar- mazenamento, a análise e a apre- sentação de dados relativos a áreas geográficas específicas. Os dados utilizados no SIG são derivados de várias fontes, incluindo fotografias aéreas, imagens de satélite e es- tudos de campo (Figura A). En- tre os exemplos de tais dados estão a precipitação, a altitude e a cobertura vegetal em locais específicos. Cada uma dessas e muitas outras variáveis podem ser utilizadas em uma aplicação específica de SIG; no entanto, in- dependentemente da variável a ser utilizada, os dados são combinados ou referenciados por coordenadas espaciais ou geográficas, de modo que eles possam ser sobrepostos em um único mapa de muitas camadas. Camadas de dados mapeados podem ser reunidas de modo a au- xiliar na solução de questões parti- culares. Ilustraremos esse processo com uma abordagem frequentemen- te usada na biologia da conservação, chamada de análise de lacunas (gap analysis). O acrônimo GAP (de gap analysis program) refere-se ao pro- grama de pesquisa geológica dos Es- tados Unidos, cuja missão é ajudar a prevenir o declínio da biodiversidade pela identificação de espécies e co- munidades que não estão adequa- damente representadas em áreas de conservação existentes. O passeriforme Calamospiza me- lanocorys é uma dessas espécies. De- pendente das pradarias para repro- dução, perdeu muito desse hábitat para a agricultura. Como resultado, suas populações têm diminuído em média 1,6% ao ano nos últimos 40 anos, tornando-se uma espécie de especial interesse para a conservação (U.S. Fish and Wildlife Service, 2008). Para essa, ou quaisquer ou- tras espécies, a análise de lacunas é um processo de duas etapas. Em primeiro lugar, os dados sobre a co- bertura vegetal (ver a camada supe- rior do SIG na Figura A) e de outras condições ambientais necessárias ou preferenciais do pássaro são usados para prever sua distribui- ção geográfica (a segunda camada do SIG na Figura A). Em seguida, a distribuição esperada é sobrepos- ta a uma terceira camada de SIG com as localizações das unidades de conservação e de áreas protegi- das. Ao combinar essas duas cama- das, percebemos que apenas uma pequena porcentagem da área de distribuição da ave está protegida (Figura B). Essa informação é fun- damental para decisões como quais terras devem ser protegidas para evitar perdas futuras de biodiversi- dade. (Ver Saiba Mais 24.1 para um segundo exemplo do uso de SIG na biologia da conservação.) FERRAMENTAS ECOLÓGICAS 24.1 Distribuição prevista de Calamospiza melanocorys Unidade de conservação/ áreas protegidas Calamospiza melanocorys Figura B Lacunas de conservação Menos de 3% da área de ocorrência do passe- riforme Calamospiza melanocorys estão em unidades de conservação. Previsão da distribuição de Calamospiza melanocorys Use um computador para produzir camadas de dados: Satélite para captação de imagem Cobertura vegetalFotografias aéreas Dados obtidos no solo Figura A O SIG integra dados espa- ciais de múltiplas variáveis Capítulo 24 • Ecologia da paisagem e manejo de ecossistemas 549 CONCEITO 24.1 A ecologia da paisagem examina padrões espaciais e suas relações com os processos ecológicos. Ecologia da paisagem A ecologia da paisagem é uma subdisciplina da ecologia que enfatiza as causas e as consequências da variação es- pacial ao longo de uma gama de escalas. Desse modo, ecó- logos de paisagem registram os padrões espaciais obser- vados – incluindo aqueles que ocorrem em amplas áreas geográficas – e estudam como essas métricas afetam e são afetadas pelos processos ecológicos. Eles se interessam pelo arranjo espacial de diferentes elementos da paisagem na superfície da Terra. Exemplos de elementos da paisagem incluem manchas (ou fragmentos) de florestas circundadas por pastagens ou lagos espalhados por uma grande região de floresta boreal. Em escalas espaciais menores, arbustos de creosotos no deserto ou áreas de um tipo específico de solo podem ser considerados como elementos da paisa- gem. No entanto, quaisquer que sejam os elementos, eles estão dispostos de certo modo no espaço. Como veremos, a métrica dos elementos da paisagem pode influenciar na composição de espécies residentes, assim como na dinâmi- ca de processos ecológicos como distúrbios e dispersão. A paisagem é uma área heterogênea composta por um mosaico dinâmico de ecossistemas que interagem uns com os outros Uma paisagem é uma área em que ao menos um elemen- to é espacialmente heterogêneo (varia de um local para outro) (Figura 24.3). Paisagens podem ser heterogêneas tanto por sua composição – a paisagem é composta por 12 tipos de cobertura vegetacional ou apenas três? – quanto pelo modo com que seus elementos estão arranjados – exis- tem muitas manchas pequenas dispostas regularmente na paisagem ou existem poucas manchas grandes? Ecólogos chamam essa composição (ou padrão) de elementos que formam a paisagem de mosaico. As paisagens com frequência incluem diversos ecos- sistemas. Os diferentes ecossistemas que formam a paisa- gem são dinâmicos e interagem continuamente uns com os outros. Essas interações podem ocorrer pelo fluxo da água, da energia, dos nutrientes ou dos poluentes entre os ecossistemas. Há também o fluxo biótico entre as manchas de hábi- tat no mosaico à medida que indivíduos ou seus game- tas (p. ex., pólen) movem-se entre elas (Forman, 1995). Para tal movimento ocorrer, os fragmentos com o mes- mo tipo de hábitat devem estar ligados uns aos outros, ou o hábitat do entorno (a matriz) deve ser de um tipo que possibilite a dispersão (Figura 24.4). Na Austrália, Fragmento (A) (B) Matriz 1 Matriz 2 Corredor Figura 24.4 Migrações ao longo da paisagem Interações entre elementos adjacentes da paisagem podem ocorrer com frequência (setas largas) ou raramente (setas finas). (A) Trocas entre fragmentos do mesmo tipo ocorrem frequentemente se um corredor que conecta os fragmentos propicia essa movi- mentação. (B) Trocas entre fragmentos do mesmo tipo ocorrem frequentemente, mas trocas com a matriz raramente ocorrem. (Segundo Hersperger, 2006.) Organismos deslocam-se mais livremente na matriz em (A) ou em (B)? Explique. Lago Areia seca e ácida sem subsolo firme Areia seca e ácida com subsolo firme Argila calcárea úmida Argila ácida úmida Argila calcárea encharcada Areia ácida encharcada e lodo (B)(A) Figura 24.3 A heterogeneidade da paisagem Paisagens podem ser heterogêneas em muitos tipos dife- rentes de elementos, que podem ser dispostos de modo independente. (A) Fotografia aérea da Península Superior de Michigan. (B) Mapa com seis tipos diferentes de solo na mes- ma área. (Segundo Delcourt, 2002.) Na parte (B), qual tipo de ele- mento da paisagem cobre a menor área? 550 Parte 7 • Ecologia aplicada e de larga escala Apenas remanescentes de florestas mais velhas permanecem após focos recentes de incêndio. Grandes populações de árvores mais velhas são encontradas nesta região sem queimadas. 1–25 Classes etárias das manchas 26–158 159–247 248–323 324–560 0 16 km Lago Yellowstone por exemplo, ratos saem regularmente de manchas de hábitat florestal para forragear nas plantações de maca- dâmia adjacentes (a parte da matriz circundante). Como resultado, as perdas de amêndoas ao longo dos limites da plantação com as florestas são maiores do que ao lon- go dos limites adjacentes às pastagens ou aos campos agrícolas (White et al., 1997). A seguir, teremos como foco dois aspectos da hetero- geneidade da paisagem: como é descrita e a escala na qual é estudada. Descrevendo a heterogeneidade da paisagem A hete- rogeneidade que vemos nas paisagens pode ser descrita em termos de sua composição e estrutura. A composição da paisagem refere-se aos tipos de elementos ou de man- chas em uma área natural, assim como o quanto de cada tipo se faz presente. Esses elementos são definidos pelo pesquisador e são influenciados pela fonte de dados usa- da. Em um exemplo do Parque Nacional de Yellowstone,pesquisadores designaram cinco diferentes classes etárias de florestas de pinheiro-lodgepole utilizando dados de campo, imagens aéreas e SIG (Tinker et al., 2003). A com- posição da paisagem na Figura 24.5 pode ser classificada pela contagem dos tipos de elementos na área mapeada (cinco neste caso), pela proporção da área coberta por cada tipo de elemento mapeado, ou pela medição da diversida- de e da dominância dos diferentes elementos da paisagem como se faz para espécies, com o índice de Shannon (des- crito no Conceito 16.2). Se notarmos que uma parte de uma paisagem é mais fragmentada do que outra, estamos comparando a estru- tura da paisagem: a configuração física dos diferentes ele- mentos que compõem a paisagem. Na Figura 24.5, pode- mos ver que algumas partes da paisagem contêm grandes áreas contíguas de floresta preservadas, enquanto outras partes são mais fragmentadas e contêm manchas menores de floresta de idades variadas. Como os ecólogos da paisa- gem quantificam essas diferenças? Centenas de diferentes medições quantitativas têm sido desenvolvidas para medir, analisar e interpretar métricas de paisagem, muitas envol- vendo análises complexas. De modo geral, elas verificam se a paisagem é composta por fragmentos pequenos ou grandes, qual o grau de conexão ou de dispersão dos frag- mentos, se os fragmentos possuem formatos simples ou recortados e o quão fragmentada é a paisagem (Turner et al., 2001). Tinker e colaboradores foram capazes de utilizar as medidas de estrutura da paisagem que eles mapearam para Yellowstone para comparar a fragmentação natural causada pelo fogo dentro do parque com a fragmentação causada por corte raso em Florestas Nacionais adjacentes (nos Estados Unidos, as árvores não podem ser cortadas em Parques Nacionais, mas podem ser removidas de Florestas Nacionais). Como neste exemplo, análises quantitativas de estrutura da paisagem nos permitem comparar uma paisa- gem com a outra e relacionar padrões de paisagem aos pro- cessos ecológicos e à dinâmica da mudança da paisagem. A importância da escala Considerações sobre escala não podem ser ignoradas na ecologia da paisagem. A paisa- gem pode ser heterogênea em uma escala importante para um besouro, mas homogênea para um pássaro ou um alce. A escala que se escolhe para estudar uma paisagem deter- mina os resultados que serão obtidos. Parte da ecologia da paisagem, portanto, é dedicada a compreender as implica- ções da escala. Escala, a dimensão espacial ou temporal de um obje- to ou processo, caracteriza-se pelo grão e pela extensão. Grão (grain), que é o tamanho da menor unidade ho- mogênea de estudo (como um pixel de uma imagem di- gital), determina a resolução na qual vemos a paisagem (Figura 24.6A). A seleção do tamanho do grão afetará a quantidade de dados que devem ser manipulados na aná- lise: usar uma abordagem com grãos maiores pode ser apropriado quando se está olhando para os padrões de escala regional a continental. Extensão refere-se à área ou ao período de tempo compreendido por um estudo. Considere o quão diferente podemos descre- ver a composição de uma paisagem, dependendo de como definimos sua extensão espacial. O painel 4 da Figura 24.6B, por exemplo, mostra pouco pinheiro- -de-casca-branca em estágio de sucessão tardio, enquanto o painel 6 contém uma área considerável dele (Turner et al., 2001). Pode haver limites naturais ou criados pelo homem que determinam a amplitude de um estudo, ou eles podem ser definidos pelo pesquisador. Ao examinar questões de escala, estudos de ecossis- temas e de paisagens também devem permitir escalonar Figura 24.5 Composição e estrutura da paisagem Esse mapa de 1985 das florestas de pinheiro-lodgepole (Pinus con- torta var. latifolia) no Parque Nacional de Yellowstone mostra cinco diferentes classes de idade. A complexidade estrutural va- ria ao longo da paisagem, como pode ser visto no grau de va- riação da fragmentação natural. (Segundo Tinker et al., 2003.) Capítulo 24 • Ecologia da paisagem e manejo de ecossistemas 551 os processos para mais ou para menos. Por exemplo, um pesquisador que estuda a troca de carbono ao nível da pai- sagem precisa saber como medições baseadas em trocas de CO2 em uma folha podem ser ampliadas para a planta inteira, o ecossistema e, finalmente, o mosaico de ecossis- temas que compõem a paisagem. Como neste exemplo, muitas vezes é necessário conectar processos em diferen- tes escalas; assim, os ecólogos têm desenvolvido métodos para analisar como os padrões e os fenômenos em uma escala podem afetar aqueles que ocorrem em escalas maio- res ou menores (ver Levin, 1992). Padrões de paisagem afetam os processos ecológicos A estrutura da paisagem desempenha um papel impor- tante na dinâmica ecológica. Por exemplo, ela pode afetar se os animais se movem e como eles fazem isso, e pode, portanto, influenciar as taxas de polinização, dispersão ou consumo. Na Guiana Francesa, Mickaël Henry e co- laboradores estudaram os movimentos de um morcego frugívoro (Rhinophylla pumilio) em uma floresta tropi- cal que tinha sido fragmentada pela construção de um reservatório. Por meio das métricas da paisagem que quantificaram o grau de conectividade de seus locais de amostragem, eles descobriram que os fragmentos mais isolados da floresta eram menos propensos a serem visi- tados por morcegos, mesmo se contivessem abundantes recursos alimentares (Henry et al., 2007). Assim, a estru- tura da paisagem afetava o comportamento de forrageio do morcego. Além disso, como morcegos frugívoros dis- persam sementes, também é provável que a estrutura da paisagem tenha alterado a dispersão das plantas das quais eles se alimentam. A estrutura da paisagem também influencia os ciclos biogeoquímicos. Ecólogos de ecossistemas identificaram “hot spots” onde as taxas de reação química são mais ele- vadas do que na paisagem circundante. Muitos desses locais são encontrados nas interfaces entre ecossistemas terrestres e aquáticos (McClain et al., 2003), mas outros fatores também podem estar relacionados. Por exem- plo, Kathleen Weathers e colaboradores constataram que acréscimos de enxofre, cálcio e nitrogênio oriundos de deposição atmosférica eram maiores nas bordas das florestas do que em seu interior, basicamente em decor- rência da maior interceptação de partículas aéreas pelas copas mais densas das árvores e da maior complexidade As imagens 1-3 são de uma só região de 5 x 5 km no Parque Nacional de Yellostone. À medida que o grão aumenta de 1 para 3... ...a resolução piora, mas existem menos pixels para armazenar e analisar. De 4 a 6, o tamanho do pixel é de 50 x 50 m em cada painel, mas o número de pixels aumenta. 50 x 50 m 10.000 100 x 100 m 2.500 200 x 200 m 625 (1) (A) (B) (4) (5) (6) (2) (3) Não florestal Pinheiro-lodgepole, sucessão inicial (queimado) Pinheiro-lodgepole, sucessão intermediária Pinheiro-lodgepole, sucessão tardia Pinheiro-de-casca-branca, sucessão inicial (queimado) Pinheiro-de-casca-branca, sucessão intermediária Pinheiro-de-casca-branca, sucessão tardia Tamanho do pixel: Número de pixels: Figura 24.6 Efeitos dos grãos e da extensão (A) Os painéis 1 a 3 mostram o efeito do aumento do grão, medido aqui pelo tamanho do pixel. (B) Os painéis 4 a 6 mostram o efeito do aumento da extensão. (Segundo Turner et al., 2001.) O grão no painel 1 da parte (A) é idêntico ao grão de qual(is) painel(éis) da parte (B)? 552 Parte 7 • Ecologia aplicada e de larga escala física em geral encontrada nas bordas florestais. Dessa forma, as florestas fragmentadas próximas de áreas ur- banas podem ser significativamente influenciadas por entradas de poluentes e nutrientes – descoberta que tem implicações na dinâmica de microrganismos de solo, no crescimento da vegetação herbácea e nas comunidades animais nas bordas desses fragmentos (Weathers et al., 2001). (Discutiremos outros fatores como o “efeito de borda” no Conceito 24.2.) Manchas de hábitatnormalmente variam em qualida- de e disponibilidade de recursos. Essa variação pode afe- tar a diversidade e a densidade populacional das espécies que habitam cada fragmento, o tempo gasto no forrageio e o movimento de organismos entre as manchas. Os limites dos fragmentos, as conexões entre eles e a matriz entre os fragmentos também podem afetar a dinâmica da popula- ção, dentro das manchas e entre elas. Por exemplo, Schti- ckzelle e Baguette estudaram os padrões de movimento da borboleta fritilaria-das-turfeiras (Proclossiana eunomia) em paisagens fragmentadas na Bélgica (Figura 24.7). Onde os fragmentos apropriados de hábitat estavam agregados, as fêmeas atravessavam prontamente de um fragmento a outro. No entanto, onde o hábitat era mais fragmentado e havia uma distância maior de matriz para atravessar, as borboletas hesitavam mais em deixar a mancha (Schti- ckzelle e Baguette, 2003). Considerando que os processos ecológicos são in- fluenciados por padrões de paisagem, como acabamos de ver, os padrões de paisagem são, por sua vez, influen- ciados por processos ecológicos. Grandes mamíferos herbívoros, por exemplo, muitas vezes moldam as pai- sagens que habitam. Os efeitos do alce (Alces alces) na Ilha Royale no Lago Superior têm sido estudados pelo uso de cercas instaladas desde a década de 1940. Esses estudos têm mostrado que altas taxas de herbivoria por alces diminuem a produção primária líquida, não ape- nas diretamente pela remoção de biomassa, mas também indiretamente, ao diminuir as taxas de mineralização de nitrogênio e as taxas de decomposição de serapilheira. A ação dos alces também muda a composição de espé- cies arbóreas favorecendo os espruces, e a predominân- cia de espruces, por sua vez, responde determinando as taxas dos processos biogeoquímicos (Pastor et al., 1988). Assim, ao mesmo tempo, os alces respondem à paisagem e atuam como seus modificadores. Em escala mais am- pla, padrões de paisagem interagem com distúrbios de larga escala, como veremos adiante. O distúrbio tanto cria heterogeneidade da paisagem quanto responde a ela As paisagens são dinâmicas. Na natureza, a mudança nos ecossistemas às vezes acontece repentinamente sob a forma de grandes distúrbios – florestas e pradarias são queimadas em grandes áreas, ou inundações ocasionam entradas repentinas de sedimentos nos ecossistemas fluviais. (As alterações também podem ocorrer mais lentamente, como resultado da mudança de clima ou da deriva dos continentes, mas essas alterações não são nosso foco aqui.) Vimos no Capítulo 17 que o distúrbio é um fator importante na determinação da composição da comunidade. Ecólogos da paisagem questionam en- tão se determinados padrões de paisagem diminuem ou aceleram a disseminação de distúrbios e se aumentam ou diminuem a vulnerabilidade de um ecossistema aos distúrbios. Considere, por exemplo, as queimadas florestais de 1988 que queimaram quase um terço dos 898.000 hecta- res do Parque Nacional de Yellowstone. Essas queimadas ocorreram em um verão de seca intensa e fortes ventos. Nos últimos 10 mil anos, em intervalos de 100 a 500 anos, grandes queimadas como essa parecem ter ocorrido nas Montanhas Rochosas da parte norte do Parque. As quei- madas de 1988 consumiram com maciços florestais de di- ferentes idades e composições de espécies, deixando um complexo mosaico de manchas que foram incendiadas em diferentes intensidades (Figura 24.8). O tipo e a disposi- ção dessas manchas provavelmente ditarão a composição da paisagem ao longo de décadas, se não de séculos a vir (Turner et al., 2003). Aqui, o distúrbio – fogo – era a força primária a moldar o padrão da paisagem futura. Ao mes- mo tempo, também respondia à estrutura da paisagem existente. Essa interação recíproca entre os padrões da pai- sagem e os distúrbios é comum. Ações antrópicas têm alterado drasticamente os tipos e as extensões dos distúrbios sobre a paisagem. Alguns locais estão mais sujeitos aos distúrbios humanos do que outros. Os seres humanos primeiro se estabeleceram e modificaram as áreas com os solos mais férteis e foram atraídos aos locais com características propícias para ser- vir de porto, sujeitando esses ecossistemas aos primeiros distúrbios antrópicos. Áreas próximas às aldeias tiveram a madeira extraída, foram convertidas em lavouras e Figura 24.7 A borboleta fritilaria-das-turfeiras Os padrões de deslocamento dessa borboleta (Proclossiana eunomia) são influenciados pelas características da paisagem ao redor. As borboletas hesitam em deixar os fragmentos onde habitam se não houver outro fragmento com hábitat apropriado nas cer- canias, mas atravessam uma matriz de hábitat não apropriado do entorno quando o fragmento seguinte estiver próximo. Capítulo 24 • Ecologia da paisagem e manejo de ecossistemas 553 sofreram com a caça mais cedo do que as áreas restan- tes. Esses padrões de distúrbio podem ser detectados em comunidades ecológicas mesmo séculos após os povos terem deixado a terra e a área ter voltado a ser floresta (Butzer, 1992). Tais legados à paisagem moldaram as comunidades de tal modo que só agora isso é compreendido. No centro da França, Etienne Dambrine e colaboradores (2007) desco- briram que as comunidades de plantas florestais em as- sentamentos agrícolas romanos recentemente descobertos ainda apresentavam marcas desses distúrbios 1.600 anos mais tarde (Figura 24.9). Os pesquisadores estudaram a diversidade de plantas na floresta em diferentes distâncias das ruínas romanas. A área de floresta que eles estudaram não tinha mudado substancialmente desde 1665 e, prova- velmente, foi mantida como floresta durante séculos antes disso. Dambrine e colaboradores descobriram que a rique- za de espécies de plantas aumentava com a aproximação do local das ruínas. A análise das propriedades do solo revelou que esse aumento era principalmente devido a um pH mais elevado, que parece decorrer da argamassa de cal utilizada nas construções romanas e de suas prá- ticas de agricultura. Os níveis de fósforo no solo também eram mais altos no entorno dos antigos povoados. Quan- tos outros lugares na Terra, depois de serem abandonados, devem apresentar as marcas das atividades humanas em suas estruturas de comunidade? Distúrbio, sendo ele natural ou antrópico, é um fator determinante no delineamento da paisagem. Algumas das atividades humanas estão criando distúrbios com efeitos ecológicos de longo alcance, como veremos na próxima seção. CONCEITO 24.2 Perda e fragmentação de hábitat diminuem as áreas de hábitat, isolam populações e alteram condições nas bordas dos hábitats. Perda e fragmentação de hábitat Em 1986, um grande projeto de hidrelétrica no vale do Rio Caroni na Venezuela inundou uma extensa área de terreno irregular criando um reservatório conhecido como Lago Guri (Figura 24.10). O resultado foi a for- mação de ilhas de floresta tropical seca circundadas por água. Essa mudança na paisagem oportunizou a John Figura 24.8 Distúrbios podem moldar os padrões da paisagem As queimadas que consumiram quase um terço do Parque Nacional de Yellowstone no verão de 1988 geraram um complexo mosaico de frag- mentos que foram queimados e de outros que não foram. As áreas que aparecem em preto nessa vista aérea do Cânion Madison foram queimadas por intensas chamas no dossel, e os fragmentos de cor marrom fo- ram queimados por fogo intenso próximo ao solo; ambos os modos de queimada ma- taram a maior parte ou toda a vegetação. N úm er o de e sp éc ie s ve ge ta is –5 –10 0 5 10 15 20 25 30 Distância do centro do vilarejo (m) Ruínas romanas recentemente descobertas na França. 100 200 300 400 5000 Figura 24.9 Legados à paisagem Na França Central, o lega- do dos acampamentos e das práticas de agricultura dos roma- nos, abandonados há quase dois milênios, ainda é percebido na riqueza das espécies vegetais na floresta que ocupou es- ses locais. A riqueza de espécies foi maior perto do centrodos vilarejos, incluindo mais espécies que preferem solos com pH mais alto. O eixo y representa o desvio da média calculada para parcelas entre 100 e 500 m do antigo povoado. (Segundo Dambrine et al., 2007.) 554 Parte 7 • Ecologia aplicada e de larga escala Terborgh e seus alunos e colegas estudarem os efeitos da fragmentação em um ecossistema de floresta tropical seca. Eles descobriram que nas ilhas pequenas e médias os principais predadores encontrados no continente, como gatos selvagens (jaguatiricas, onças e pumas), aves de rapina e grandes serpentes, estavam ausentes (Terbor- gh et al., 2006). Como resultado, os herbívoros genera- listas, predadores de sementes e de invertebrados foram de 10 a 100 vezes mais abundantes nas ilhas do que na floresta intacta remanescente. Entre as espécies que tive- ram aumento na abundância estão formigas-cortadeiras, pássaros, roedores, sapos, aranhas, micos-pretos, porcos- -espinhos, tartarugas e lagartos. O aumento de abun- dância dessas espécies gerou um efeito drástico sobre a vegetação dessas ilhas: a germinação e o desenvolvimen- to de novas árvores decaíram, e a taxa de mortalidade aumentou devido à alta taxa de herbivoria, em especial pelas formigas-cortadeiras (Figura 24.11). Que lições podemos tirar desse “experimento” e aplicar a outros ecossistemas fragmentados? A perda e a fragmentação de hábitat estão entre as alterações antrópicas mais destacadas e importantes nas paisagens da Terra (Figura 24.12). Quando extensas áreas de hábitat são removidas das florestas, inundadas pela construção de barragens, divididas por estradas, ou convertidas em usos antrópicos de terra, diversas con- sequências recaem sobre a paisagem e sobre as espécies que ali vivem. A primeira é a simples perda de área de hábitat. Reduções na área de hábitats apropriados dispo- níveis têm contribuído para o declínio de milhares de es- pécies, como a do pica-pau-do-topete-vermelho (ver Es- tudo de Caso no Capítulo 23). Em segundo lugar, como o hábitat restante fica dividido em manchas menores e menores, ele é cada vez mais degradado e influenciado por efeitos de borda, como o Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais mostrou (ver Estudo de Caso no Capítulo 18). Em terceiro lugar, a fragmentação leva ao isolamento espacial das populações, tornando-as vul- neráveis aos problemas das pequenas populações descri- tos no Conceito 11.3. O processo de perda e fragmentação de hábitat pode perdurar por muitas décadas. O padrão típico começa com uma clareira em uma floresta, que é então alargada pouco a pouco, até que restam apenas fragmentos isola- dos de hábitat (Figura 24.13). As estradas muitas vezes são catalisadores de conversão de hábitats (ver Figura 3.6), embora o acesso humano ao longo dos rios também possa servir para acelerar o desmatamento. Os principais agen- tes da fragmentação de hábitat são a conversão de terras para a agricultura e a expansão urbana. A fragmentação de hábitat é um processo reversí- vel. O nordeste dos Estados Unidos, por exemplo, tem mais cobertura florestal do que há um século – mas serão necessários muitos anos para que essas jovens florestas contenham tantas espécies quanto aquelas encontradas Figura 24.10 As ilhas do Lago Guri Vista aérea do Lago Guri, Venezuela. Esse lago foi formado quando 4.300 km2 de flores- tas foram inundadas por um reservatório de hidrelétrica, for- mando ilhas de floresta tropical. Em ilhas pequenas e médias, muitas plântulas pequenas morreram... ...e apenas algumas das poucas plântulas grandes cresceram ou reproduziram. Po rc en ta ge m d e pl ân tu la s Pequena Média Grande Mortalidade Crescimento Recrutamento Tamanho da ilha 10 0 (A) Plântulas pequenas 20 30 40 50 60 70 Po rc en ta ge m d e pl ân tu la s Pequena Média Grande Tamanho da ilha 10 20 30 0 (B) Plântulas grandes 40 Figura 24.11 Os efeitos da fragmentação de hábitats no Lago Guri As altas abundâncias de herbívoros em ilhas pe- quenas e médias no Lago Guri geraram um drástico declínio no estabelecimento e na sobrevivência de novas plantas. As barras mostram os percentuais de plântulas (A) pequenas e (B) gran- des em parcelas amostrais que mudaram de classe de tamanho tanto pela mortalidade quanto pelo crescimento, assim como o número de plântulas que se desenvolveram em cada classe de tamanho, ao longo de cinco anos. As barras de erro mostram um erro-padrão da média. (Segundo Terborgh et al., 2006.) Capítulo 24 • Ecologia da paisagem e manejo de ecossistemas 555 nas florestas primárias que uma vez recobriram a região. Além disso, a tendência global é a perda de áreas de flo- restas (FAO, 2005), estando os campos, os ecossistemas ribeirinhos e as florestas cada vez mais fragmentados. Quais são as consequências ecológicas e evolutivas dessa fragmentação? Os hábitats fragmentados são biologicamente empobrecidos se comparados aos hábitats intactos Quando um hábitat é fragmentado, algumas espécies se tornam localmente extintas dentro de muitos dos fragmen- tos. Há um grande número de razões para isso ocorrer. Podem faltar recursos alimentares, abrigos ou locais de nidificação adequados nos fragmentos. Talvez os animais necessitem forragear por áreas maiores do que se estives- sem em hábitats conservados, usando muitos fragmentos. Mutualismos podem ser rompidos se, por exemplo, o po- linizador vier a desaparecer, ou se os fungos micorrízicos não conseguirem permanecer em um fragmento. Alguns fragmentos podem não ter os microambientes necessários para a germinação das sementes. No entanto, a extinção local ou o declínio populacional não são inevitáveis; na verdade, algumas espécies florescem sob as novas condi- ções após a fragmentação. A fragmentação costuma levar à perda dos predadores de topo, dando origem a efeitos em cascata, algumas vezes com consequências drásticas para a comunidade remanes- cente, como vimos no Lago Guri. Um exemplo desse tipo de efeito cascata com implicações para a saúde humana é o aumento do risco da doença de Lyme devido à frag- mentação das florestas no nordeste dos Estados Unidos. Brian Allan, Felicia Keesing e Richard Ostfeld descobriram que, no vale do Rio Hudson em Nova York, fragmentos florestais de menos de 2 hectares continham elevadas Pé de tulipeiro em uma floresta primária, Parque Nacional Great Smokey Mountains Florestas primárias mostradas em vermelho. Cada ponto representa ~10 mil ha de floresta primária. 1620 1926 1990 Figura 24.12 Perda e fragmentação de florestas primárias nos Estados Unidos Iniciando em 1620, amplas áreas de flo- restas maduras (também conhecidas como primárias ou vir- gens) nos Estados Unidos foram cortadas para fornecer madei- ra e para abrir espaço para agricultura, loteamentos e outras formas de ocupação. 556 Parte 7 • Ecologia aplicada e de larga escala populações de camundongos-de-patas-brancas (Peromys- cus leucopus). Fragmentos desse tamanho não sustentam populações substanciais de predadores, e havia poucos concorrentes para os camundongos. Os camundongos-de- -patas-brancas são os principais hospedeiros de Borrelia burgdorferi, a bactéria espiroqueta que causa a doença de Lyme. Os carrapatos são os vetores dessa doença. Ninfas de carrapatos coletadas nesses pequenos fragmentos es- tavam significativamente mais propensas a transmitir a doença e ocorreram em densidades mais elevadas do que em fragmentos maiores (Figura 24.14). A consequência – aumento do risco de infecção humana da doença de Lyme – é, em última análise, resultado do empobrecimento bio- lógico dos fragmentos de hábitat (Allan et al., 2003). A matriz entre os fragmentos de hábitat possui diferentes permeabilidades Os modelos de paisagens fragmentadas, que foram ini- cialmente derivados da teoria do equilíbrio da biogeogra- fia de ilhas (ver Conceito 18.3), retratam fragmentos de hábitat como ilhas isoladas em um “mar” composto por matriz inadequada, assim como sãoliteralmente as ilhas do Lago Guri. No entanto, esses modelos são realmente compatíveis? Para algumas espécies, tais como o marsu- pial wallaroo (Macropus robustus) da Austrália, os fragmen- tos de hábitat parecem funcionar como ilhas rodeadas por uma matriz que ocasionalmente é atravessada, como des- crito em Saiba Mais 24.1. Em outros casos, no entanto, paisagens fragmentadas provaram ser mais complexas do que os modelos de ilha sugeriam. A matriz pode ser mais (B)(A) (C) (D) Figura 24.13 O processo de perda e fragmentação de hábitat Hábitats historica- mente intactos são gradual- mente reduzidos com o au- mento da presença humana. Essas fotografias contempo- râneas (feitas em diferentes locais) ilustram um processo que geralmente leva décadas para ser finalizado. (A) Uma floresta intacta de eucalip- tos no oeste da Austrália. (B) Áreas dentro da floresta desmatadas para a pecuária. (C) A floresta tornou-se ainda mais fragmentada ao longo do tempo. (D) Apenas alguns poucos remanescentes de floresta permanecem. Densidades de ninfas de carrapatos infectadas em fragmentos florestais inferiores a 2 ha são mais altas... ...do que em fragmentos florestais maiores. D en si da de d e ni nf as in fe ct ad as (n o /m 2 ) 0 1 2 3 4 5 6 7 8 Área (ha) 0,02 0,04 0,06 0,08 0,10 0,12 Figura 24.14 A fragmentação de hábitat pode trazer con- sequências diretas à saúde humana A perda dos predado- res em pequenos fragmentos florestais no Estado de Nova Iorque tem levado a um crescimento da população de camun- dongos-de-patas-brancas nesses fragmentos. Como resulta- do, as densidades de ninfas de carrapatos contaminadas com a bactéria espiroqueta, causadora da doença de Lyme, são maiores do que em áreas florestais mais amplas. (Segundo Allan et al., 2003.) Capítulo 24 • Ecologia da paisagem e manejo de ecossistemas 557 permeável em certos graus e formar um mosaico com tipos diferentes de fragmentos, dos quais alguns são mais per- meáveis do que outros. Em um exemplo da América do Sul, Traci Castellón e Kathryn Sieving estudaram a dispersão de um peque- no pássaro insetívoro de sub-bosque, o chucao tapaculo (Scelorchilus rubecula). As pesquisadoras mudaram pássa- ros para fragmentos localizados em diferentes contextos de paisagem e seguiram seus movimentos posteriores. Elas concluíram que as aves transferidas para fragmentos circundados por pastagens relutavam muito mais em dei- xar o fragmento à procura de áreas mais preservadas do que as aves que tinham um caminho com arbustos entre os fragmentos ou até mesmo um corredor florestal ligan- do as manchas de vegetação (Castellón e Sieving, 2006). Observações semelhantes foram feitas em um estudo com roedores na Mata Atlântica do Brasil, em que algumas es- pécies se deslocaram prontamente pela matriz, enquanto outras foram mais hesitantes em atravessar tipos de man- chas não familiares (Pardini, 2004). Como esse estudo mostrou, a permeabilidade da matriz depende do tipo de espécie. Efeitos de borda mudam condições abióticas e abundâncias de espécies em fragmentos Quando um hábitat conservado é fragmentado, uma fronteira abrupta é criada entre dois tipos de fragmen- tos distintos. O comprimento total das bordas de um há- bitat aumenta à medida que aumenta a fragmentação. Os efeitos de borda são as diversas mudanças bióticas e abióticas que estão associadas com limites de hábitats (Figura 24.15). O efeito da formação de borda é uma al- teração no ambiente físico ao longo de certa distância da borda para o interior do fragmento remanescente. Como resultado, interações biológicas e processos ecológicos também podem mudar, como você pode explorar em Análise de Dados 24.1. O curso de tais mudanças se desenrola ao longo do tempo, o que permite separar as respostas imediatas à fragmentação das respostas que se desenvolvem mais tarde, a partir da formação da borda (ver Figura 18.24). Experimentos de larga escala do efeito de borda fei- tos no Brasil são abordados na Análise de Dados 24.1 e no Estudo de Caso Revisitado do Capítulo 18. Os efeitos das mudanças abióticas na borda da floresta também são ilustrados por um estudo de microclimas 10 a 15 anos após o desmatamento de uma antiga floresta de abetos- -de-douglas no noroeste do Pacífico (Chen et al., 1995). As bordas geralmente eram caracterizadas por tempera- turas mais altas, maior velocidade do vento e maior pe- netração de luz. As amplitudes térmicas também eram maiores na borda, pois o calor era irradiado à noite. Esses efeitos abióticos de borda variaram quanto a sua capa- cidade de penetração no interior da floresta. As conse- quências bióticas causadas pelas modificações abióticas incluíam maiores taxas de decomposição, mais árvores derrubadas pelo vento (e, portanto, mais restos de ma- deira no solo da floresta) e uma sobrevivência diferencia- da das plântulas de algumas espécies de árvores (abeto- -do-pacífico) em detrimento de outras (abeto-de-douglas e espruce-hemlock). Bordas de hábitat podem servir tanto como barreiras quanto como facilitadores de dispersão. Novas interações entre espécies podem se estabelecer na junção entre os dois ambientes. Algumas espécies podem ser beneficiadas pelo forrageio em um hábitat e pela reprodução em ou- tro. Espécies invasoras são comumente mais abundantes em bordas de hábitat, e a dinâmica demográfica pode ser alterada para muitas espécies nativas (Fagan et al., 1999). Por exemplo, aves adaptadas ao interior da floresta muitas vezes têm menor sucesso reprodutivo quando seus ninhos estão perto de bordas; isso pode resultar de maiores taxas de predação de ovos por guaxinins, corvos e outros preda- dores, bem como maiores taxas de parasitismo de ninho, especialmente por chopins. Na vegetação campestre das pradarias de Wisconsin, Johnson e Temple (1990) estuda- ram o sucesso reprodutivo de cinco espécies de aves que nidificam junto ao solo. Eles descobriram que quanto mais próximos os ninhos estavam da borda da pradaria com florestas, maior a probabilidade de exposição a predado- res de médio porte e parasitismo de ninho por chopins, e menor a taxa de sucesso reprodutivo. Padrões parecidos foram observados em outras pradarias, nas florestas es- candinavas, nas florestas decíduas do leste e nos trópicos (Paton, 1994). Alguns biólogos têm caracterizado as bordas como “armadilhas biológicas” pelo risco aumentado que algumas espécies encontram nesses locais (Battin, 2004). Distância da penetração dos efeitos de borda floresta adentro Borda da floresta Figura 24.15 Efeitos de borda O desmatamento cria novas áreas de borda para a floresta, expondo árvores que antes eram circundadas por floresta aos efeitos de borda como maior luminosidade, maiores temperaturas, maiores velocidades de vento, diminuição da umidade do solo e invasão de plantas e animais adaptados a esse distúrbio. Alguns efeitos de borda penetram algumas dezenas de metros floresta adentro, en- quanto outros penetram centenas de metros (ver Análise de Dados 24.1). 558 Parte 7 • Ecologia aplicada e de larga escala A fragmentação altera processos evolutivos Desde a época da representação de G. Evelyn Hutchin- son “o teatro ecológico e a peça evolutiva” em 1965, o palco foi substancialmente modificado pelas ações hu- manas. A “peça evolutiva” continuará de fato, mas de modos modificados que só agora estamos tentando en- tender. Quais serão as consequências evolutivas quando populações de todas as espécies estiverem divididas em populações menores e mais isoladas e forem colocadas juntas em novas comunidades que não possuem prece- dentes históricos? Você já leu nos Capítulos 11 e 23 sobre os proble- mas genéticos e demográficos de populações pequenas e isoladas. Marcel Goverde e colaboradores estudaram as consequências evolutivas da fragmentação observan- do o comportamento das mamangabas nas Montanhas Jura da Suíça (Goverde et al., 2002). Suas parcelas expe- rimentais incluíram fragmentosde campos de diferentes tamanhos (criados por meio de roçada) e parcelas-con- trole em campos não fragmentados. Os pesquisadores estudaram o comportamento de forrageio das maman- gavas quando elas visitavam as flores de uma betônia- -lenhosa (Stachys officinalis), de ocorrência comum nas parcelas dos fragmentos e nas parcelas-controle. As mamangavas visitaram as parcelas dos fragmentos com menor frequência do que as parcelas-controle e ten- diam a permanecer nos fragmentos por mais tempo. No fim das contas, essas duas mudanças no comportamento das mamangavas em resposta à fragmentação causaram menor probabilidade de polinização e maiores chances de endocruzamento para a betônia nos fragmentos – levando a uma alteração na trajetória evolutiva dessas plantas. Em muitos outros casos, a fragmentação de hábi- tat tem aumentado as taxas de endogamia e a deriva genética nas espécies isoladas. Por exemplo, Keller e Largiadèr (2003) encontraram divergência genética significativa entre populações de um besouro terrestre (Carabus violaceus) que tinham sido isoladas por estra- das, especialmente por uma rodovia. A fragmentação também pode alterar pressões seletivas sobre os orga- nismos. Onde as populações das plantas se tornam me- nores e isoladas, as chances de serem encontradas por polinizadores, transmissores de patógenos, herbívoros, dispersores e competidores tendem a diminuir, geran- do consequências evolutivas. Efeitos similares têm sido observados em animais, que em pequenos fragmentos podem ter seus padrões reprodutivos e de sobrevivência alterados (Barbour e Litvaitis, 1993). Apenas começamos a estudar as implicações evolu- tivas da fragmentação de hábitat e temos ainda muito a aprender. Como veremos na próxima seção, contudo, tais informações evolutivas são apenas uma parte do que deve ser considerado ao se projetar reservas naturais que sejam apropriadas para manter a biodiversidade em pai- sagens cada vez mais alteradas pelos seres humanos. Até que ponto os efeitos de borda penetram em fragmentos florestais? Quando uma floresta intacta é fragmen- tada, as condições abióticas mudam na borda da floresta remanescente, dan- do origem a alterações bióticas (ver Figura 24.15). Em um estudo de referência sobre os efeitos de borda, William Laurance e co- laboradores (2002)* sintetizaram 22 anos de dados do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais, maior experimento ecológico do mundo (ver o Estudo de Caso que abre o Capítulo 18). O gráfico mostra algumas das mudanças que foram medidas em fragmentos da floresta Amazônica. 1. De acordo com o gráfico, o quão longe a partir da borda deve estar uma árvo- re para não ter aumento do distúrbio pelo vento? 2. Se o efeito da mortalidade de árvores penetrasse 300 m em cada lado de um fragmento de 800 m x 800 m de floresta, a mortalidade de árvores au- mentaria em qual porcentagem? 3. Estão os efeitos de borda como os mostrados aqui propensos a causar outras mudanças (não abordadas) nas interações entre espécies, na estrutu- ra da comunidade ou nos processos do ecossistema? Explique. *Laurance, W. F. and 10 others. 2002. Ecosystem decay of Amazonian forest fragments: A 22-year investigation. Conservation Biology 16: 605-618. ANÁLISE DE DADOS 24.1 0 50 100 150 200 250 300 350 400 Profundidade do efeito de borda para dentro da floresta (m) Efeito de borda Invasão de besouros adaptados ao distúrbio Maior mortalidade de árvores Maior distúrbio pelo vento Menor umidade do solo Maior temperatura do ar Invasão de plantas adaptadas ao distúrbio Maior conteúdo de fósforo em folhas depositadas Capítulo 24 • Ecologia da paisagem e manejo de ecossistemas 559 CONCEITO 24.3 A biodiversidade pode ser mais bem preservada por grandes reservas conectadas através da paisagem e protegidas de áreas de uso humano intenso. Planejamento de reservas naturais Talvez você tenha um Parque Nacional favorito, como o Parque Nacional dos Everglades na Flórida, o Parque Na- cional do Grande Cânion no Arizona, o Parque Nacional de Bialowieski na Polônia ou o Parque Nacional de Torres del Paine no Chile.* Como esses lugares se tornaram par- ques nacionais? O que eles eram antes de se tornarem uni- dades de conservação? Não existem melhores opções para se conservar a biodiversidade em suas regiões? Agora considere o quanto as terras ao seu redor colaboram para a manutenção das espécies nativas. Sua percepção é sem sombra de dúvida moldada pelo local no qual você está agora, pela história humana em sua região e por quão efe- tivo foi o trabalho de conservação realizado desde o passa- do. A seguir analisaremos os modos pelos quais as pessoas podem trabalhar para melhorar a chance de sobrevivência das espécies nativas de suas regiões. Para contrabalançar a perda de hábitat, planejadores da conservação pelo mundo afora estão trabalhando para localizar e planejar áreas protegidas nas quais espécies *N. de R.T. Dentre os 71 Parques Nacionais no Brasil, encontram-se: o Par- que Nacional da Amazônia, dos Aparados da Serra, da Chapada Diaman- tina, da Chapada dos Veadeiros, da Serra dos Orgãos, do Pantanal Matro- grossense e da Lagoa do Peixe. nativas possam existir. A identificação e a preservação das áreas-núcleos naturais, das zonas de amortecimento em seu entorno e dos corredores de hábitat que as conectam são essenciais para manter e permitir o desenvolvimento de populações. Em alguns casos, como veremos, ecossiste- mas degradados podem ser restaurados em hábitats pro- pícios para espécies nativas. Áreas-núcleos naturais devem ser grandes e compactas Os precursores da ecologia da paisagem e da biologia da conservação se uniram para guiar biólogos na seleção das áreas mais vitais para a conservação. O projeto de novas unidades de conservação busca por áreas-núcleo naturais, onde a conservação da biodiversidade e a integridade eco- lógica são prioritárias aos outros valores ou usos, e “onde a natureza pode atuar sem interferências, em seu próprio tempo” (Noss et al., 1999). Populações aptas a se manter em áreas-núcleo podem servir de fonte de indivíduos para po- pulações fora da área protegida. A propósito, áreas-núcleo devem ter área de terra suficiente para que predadores de topo possam suprir suas necessidades de hábitats amplos. Madagascar é uma grande ilha e é uma das prioridades globais para a conservação. Possui uma biota muito rica e muitas espécies endêmicas, incluindo mais de 70 espécies de lêmures, grupo de primatas encontrado apenas em Ma- dagascar. A biota dessa ilha corre sério perigo, pois apenas 15% da floresta original da ilha foram conservados. Esforços têm sido feitos para incluir mais terras como unidades de conservação. No planejamento de um novo parque nacional no nordeste de Madagascar, Claire Kremen e colaborado- res examinaram as circunstâncias biológicas e socioeconô- micas da região. O projeto deles (Figura 24.16) baseou-se A área-núcleo natural não é perturbada por atividades humanas. A derrubada sustentável de madeira é permitida na zona-tampão ou zona de amortecimento, a qual ainda assim reserva alguma qualidade de hábitat. Península de Masoala 0 20 km Madagascar Limites do parque Desmatado Zona de amortecimento Área-núcleo Oceano Índico Remanescentes da floresta pluvial Figura 24.16 Planejando o Parque Na- cional de Masoala O Parque Nacional de Masoala, no nordeste de Madagascar, foi criado após um planejamento detalhado que considerou aspectos ecológicos e so- cioeconômicos. Ele preserva hábitat para muitas espécies ameaçadas, incluindo o lê- mure-de-tufos-vermelhos (Varecia variegata rubra), que é endêmico dessa região de Ma- dagascar. Esse mapa foi simplificado de ou- tros mapas mais complexos gerados a partir de técnicas de SIG para análise das imagens de satélite. (Segundo Kremen et al., 1999.) 560 Parte 7 • Ecologia aplicada e de larga escala em uma área-núcleo natural que se estendia sobre uma área de relevo acidentado,abrangendo um amplo gradiente de tipos de vegetação. A área-núcleo proposta abrangia hábitat para todas as espécies raras da região, incluindo borboletas, aves e primatas, além de ter sido pouco afetada por desma- tamento. Os pesquisadores excluíram áreas próximas das vilas que já tinham sido fragmentadas e onde a caça já havia causado prejuízo no contingente populacional dos animais (Kremen et al., 1999). O Parque Nacional de Masoala, que foi inaugurado em 1997, é agora o maior parque nacional de Madagascar, com 211.230 hectares. Com o manejo apropria- do, o parque proverá melhores oportunidades para que a inigualável biodiversidade dessa região se perpetue. De modo ideal, áreas-núcleo naturais devem ser amplas e não cortadas por estradas, nem mesmo por trilhas. Dessa forma, nem todas as áreas protegidas se qualificam como áreas-núcleo naturais. Muitas não contemplam na totalida- de os propósitos de proteção de toda a biota da interferên- cia humana. A maioria dos parques nacionais nos Estados Unidos não foi instituída tendo como missão principal a conservação da biodiversidade, mas sim a preservação de cenários, frequentemente em terras que não eram úteis para outras atividades. Os biólogos da conservação reconhecem que muitos países não podem alocar milhares de hectares para dedicar unicamente à conservação da biodiversidade. Dessa forma, as áreas-núcleo de muitas reservas não cum- prem todos os critérios das áreas-núcleo naturais. No planejamento das unidades de conservação, al- gumas configurações espaciais são melhores que ou- tras para promover a manutenção da biodiversidade (Figura 24.17). De modo geral, as melhores reservas são grandes, compactas e conectadas, mas pode haver casos em que reservas menores e isoladas sejam mais apropriadas; por exemplo, doenças podem se espalhar com menos facilidade entre reservas pequenas desconectadas do que em grandes reservas. Os princi- pais objetivos biológicos da configuração de uma reserva são a manutenção das maiores populações possíveis, o forneci- mento de hábitats para espécies em suas áreas de ocorrência e o fornecimento de área adequada para a manutenção dos re- gimes de distúrbios naturais. De um ponto de vista realista, em muitos cenários onde a conservação está sendo alcançada, a paisagem ou o contexto social não permite a adesão aos princípios cita- dos (Williams et al., 2005). Existem muitas reservas meno- res que foram estabelecidas com o objetivo primordial de conservar uma simples espécie ou comunidade ecológica. Essas reservas biológicas, que podem ter apenas alguns hectares, são, de toda a forma, partes importantes no es- forço da conservação. Particularmente onde a densidade populacional humana é alta e grandes reservas são impra- ticáveis, criar reservas menores situadas em pontos cru- ciais pode ser a melhor opção disponível. Áreas-núcleo naturais devem ser amortecidas por usos de solo compatíveis Devido aos muitos obstáculos, apenas áreas relativa- mente pequenas de terra podem ser designadas como áreas-núcleo naturais. Contudo, se buscamos conservar a maior parte das espécies do mundo, áreas bem mais amplas de terra terão de ser capazes de suprir hábitats adequados para a sobrevivência da biodiversidade (Soulé e Sanjayan, 1998). Podemos aumentar a eficácia das áreas protegidas cercando-as com zonas de amortecimento (ver Figura 24.17), áreas amplas, com controles menos rigorosos sobre o uso da terra, mas que sejam ao menos parcialmente compatíveis com as necessidades de recur- sos de muitas espécies. Essas terras podem ser manejadas de forma que possam permitir a produção de recursos necessários aos seres humanos, como madeira, fibras, frutas selvagens, amêndoas e remédios, mas que ainda mantenham alguma qualidade de hábitat. Atividades que podem ser compatíveis com a função de preservação Reservas maiores são melhores do que reservas menores. Uma reserva grande é melhor do que várias pequenas com a mesma área total. Várias reservas próximas umas das outras são melhores do que várias reservas afastadas. Reservas conectadas por corre- dores de hábitats são melhores do que reservas sem conexão. Formas compactadas são melhores para minimizar o comprimento de fronteira. Uma reserva circundada por uma zona de amortecimento é preferível a uma reserva sem essa zona. Tamanho da reserva Número de reservas Proximidade das reservas Conectividade das reservas Formato da reserva Zonas-tampão ou de amortecimento Melhor Pior Figura 24.17 As melhores configurações espaciais para uma área-núcleo natu- ral Algumas configurações espaciais cos- tumam ser melhores do que outras para impulsionar a biodiversidade. (Segundo Diamond, 1975, e Williams et al., 2005.) Para as primeiras cinco característi- cas (tamanho da reserva, número de reservas, proximidade, conectividade e formato), destaque as razões pelas quais o planejamento à esquerda é melhor do que o planejamento à di- reita. Capítulo 24 • Ecologia da paisagem e manejo de ecossistemas 561 em zonas de amortecimento incluem corte seletivo de árvores, pastejo, agricultura, turismo e desenvolvimento residencial limitado (Groom et al., 1999). No plano do Parque Nacional de Masoala, Kremen e co- laboradores incluíram uma zona de amortecimento na parte leste do parque, que corresponde a mais de 71 mil hectares de florestas destinadas ao corte sustentável de madeira (ver Figura 24.16). Os pesquisadores primeiro identificaram as áreas de alto risco de desmatamento relacionando-as com a proximidade de vilarejos. Após, estabeleceram quanta ma- deira cada família (e, assim, cada vila) consumia e calcula- ram a área necessária para permitir um manejo sustentável. A zona de amortecimento aumentou a área efetiva do par- que para muitas espécies das terras baixas, mesmo que elas estivessem sujeitas a pressão de caça ou extração. Para fins de precaução, zonas de amortecimento po- dem servir como drenos populacionais de algumas espécies (áreas onde as taxas de mortalidade são mais elevadas do que as taxas de natalidade), cujos animais vagueiam fora das áreas-núcleo e, em zonas de amortecimento, tornam-se vulneráveis à caça, a atropelamentos ou a outras fontes de mortalidade. No Peru, por exemplo, onde a queima é co- mumente praticada após a colheita, nas áreas próximas às unidades de conservação, animais selvagens, como cutias, tatus e antas, muitas vezes danificam a produção dos agri- cultores. Como resultado, esses animais são alvo de caça- dores, e tal caça alterou a abundância relativa de mamífe- ros na floresta (Naughton-Treves et al., 2003). Em outros casos, no entanto, zonas de amortecimento não parecem atuar como drenos populacionais. Uma análise de dados sobre 785 espécies animais mostrou que zonas de amorteci- mento podem permitir que populações se mantenham em fragmentos de hábitat que poderiam ser muito pequenos ou muito isolados para manter populações viáveis (Prugh et al., 2008). A chave do sucesso se resume a simples demografia: se a zona de amor- tecimento fornece a uma espécie ameaçada hábitat onde as taxas de natalidade são mais altas do que as de mortalidade, ela estará auxiliando os objetivos da conservação. Se formos bem-sucedidos no estabele- cimento de áreas-núcleo para proteção e de zonas de amortecimento esparsamente po- voadas ao seu redor, teremos feito tudo que é necessário para a conservação? Lembre-se que a conectividade da paisagem é outra consideração importante no planejamento de uma reserva. Corredores podem ajudar a manter a biodiversidade em paisagens fragmentadas Corredores de hábitat – manchas lineares que conectam remanescentes – tem se tor- nado uma marca do planejamento urbano, suburbano e rural (Figura 24.18). Estava claro para muitos ecólogos desde cedo que, se a fragmentação era um problema, a conectividade po- deria ser a solução: se as populações estiverem em risco de isolamento, então temos que nos assegurar de que existam corredores de hábitatpara conectá-las. Essa solução faz sentido intuitivamente. Quando projetaram o Parque Nacional de Masoala, Kremen e colaboradores olharam para uma área maior de paisagem e anteciparam conexões que seriam importantes no futuro. Muitas das espécies-alvo de Masoala também se encontram em áreas a noroeste do parque, em terras que se situam entre o parque e duas importantes áreas protegidas ao norte. O planejamento do parque incluiu três estreitos corredores, buscando fornecer conexão entre essas áreas protegidas. Os pesquisadores desenvolveram essa parte do projeto com a ajuda conveniente de análises de mapa, mas não estudaram na prática os deslocamentos dos animais (Kremen et al., 1999). A função pretendida pelo corredor de hábitat é preve- nir o isolamento de populações em fragmentos. No entan- to, sabemos se os corredores de fato auxiliam a solucionar esse isolamento? E os corredores são úteis em qualquer es- cala, tanto para besouros quanto para lobos? Um corredor de arbustos ciliares em um arroio fornece a conectividade necessária para todas as espécies? Em uma escala conti- nental, poderíamos ligar o grande ecossistema de Yello- wstone ao Yukon por corredores de hábitat, como foi pro- posto? Experimentos e estudos de observação da utilidade dos corredores têm mostrado resultados contrastantes. Nick Haddad e colaboradores estabeleceram um modo para testar a utilidade de corredores no Laboratório Ecoló- gico de Savannah River na Carolina do Sul. Eles montaram parcelas de hábitats em estágio inicial de regeneração em uma matriz de floresta de pinheiros, algumas das quais conectadas por corredores, e observaram o deslocamento Figura 24.18 Um corredor de hábitat Ursos-cinzentos e outros animais sel- vagens podem atravessar a estrada por essa passagem no Parque Nacional Banff, no Canadá. 562 Parte 7 • Ecologia aplicada e de larga escala dos organismos entre as manchas (Figura 24.19). Seus resultados mostraram que de fato os corredores serviam para facilitar o deslocamento de borboletas, pólen e frutos dispersos por aves (Tewksbury et al., 2002). Outros estudos, no entanto, não verificaram benefícios nos corredores, e outros ainda evidenciaram efeitos nega- tivos. Por exemplo, no sistema experimental do Laborató- rio Ecológico de Savannah River, a predação aos ninhos de um pequeno cardeal-azul (Passerina cyanea) foi maior em manchas ligadas por corredores (Weldon, 2006). Há também a preocupação de que os corredores poderiam fa- cilitar a circulação de agentes patogênicos (Hess, 1994) ou espécies invasoras (Simberloff e Cox, 1987). A restauração ecológica pode incrementar a biodiversidade de paisagens degradadas E se estão faltando corredores de hábitat e a capacidade de movimento for incompatível com uma matriz de hábitat degradado? Esse era o caso na Província de Guanacaste no litoral do Pacífico da Costa Rica, onde o Parque Nacional de Santa Rosa, em uma área de terras baixas de floresta tropical seca, foi drasticamente separado do hábitat das florestas das montanhas da região por 35 km de pastagem para o gado e alguns fragmentos florestais. O ecólogo tropical Dan Janzen sabia que muitos inse- tos, aves e mamíferos precisariam migrar entre as florestas das terras baixas e das terras altas. Ele também observou que a floresta tropical seca, sobre a qual passou anos es- tudando, estava desaparecendo rapidamente. O esforço de Janzen para reverter essa tendência se tornou um dos maiores e mais ambiciosos projetos de restauração eco- lógica já desenvolvidos nos neotrópicos. Cobrindo hoje 120.000 hectares de terra e 70.000 acres de reserva mari- nha, a Área de Conservação Guanacaste (ACG) inclui três parques nacionais, um corredor ecológico ligando-os e as áreas agrícolas do entorno. Na região foram observadas 230 mil espécies, o que corresponde a 65% do total de es- pécies da Costa Rica (Daily e Ellison, 2002). Dentro da ACG, os rebanhos bovinos ocuparam muitos hectares entre os três parques por décadas. Janzen propôs um esforço para restaurar 75 mil hectares dessas pastagens a sua fitofisionomia natural de floresta. Suas estratégias incluem plantio de árvores, repressão de queimadas e li- mitações à caça (para manter a dispersão de sementes por mamíferos e aves). A supressão das queimadas se fez ne- cessária para conter as chamas que queimam rapidamen- te as pastagens cobertas pela grama-jaraguá (Hyparremia rufa), espécie invasora proveniente da África. A pecuária foi mantida em algumas áreas para conter o crescimento dessa gramínea; descobriu-se que vacas e cavalos também auxiliam na dispersão de sementes de árvores. A restauração ecológica está sendo aplicada em mui- tos ecossistemas com variados graus de sucesso. Para ter sucesso, ecólogos da restauração precisam diagnosticar corretamente o estágio ecológico da área, decidir os obje- tivos da restauração e então aplicar seu entendimento de processos ecológicos para recriar o tipo de ecossistema Para testar se seus resultados foram determinados pela conectividade dos corredores criados ou pelo simples acréscimo de novas áreas, os pesquisadores usaram alguns fragmentos com “alas” – estreitos prolongamentos dos fragmentos que lembravam corredores, mas que não estavam conectados a outros fragmentos. Borboletas se deslocavam mais entre fragmentos conectados por corredores. A produção de frutos foi maior em fragmentos conectados por corredores. Bo rb ol et as q ue s e de sl oc ar am (% ) 2 0 4 6 Carolina do Sul 2 0 4 6 Fr ut os p or fl or Conectado Com alas Tipo de fragmento Retangular Conectados Com alas Retangular (A) (B) (C) Figura 24.19 Qual é a eficácia dos corredores de hábitat? (A) Nick Haddad e colaboradores testaram a eficácia de cor- redores entre manchas criando manchas experimentais de hábitat em estágio inicial de regeneração em uma floresta de pinus e criando corredores entre algumas dessas man- chas. Eles observaram (B) deslocamentos da borboleta-ju- nônia (Junonia coenia) entre fragmentos e (C) produção de frutos (que são evidências da polinização) no azevinho (Ilex verticillata) nesses ambientes. As barras de erro em (B) e (C) mostram um erro-padrão da média. (Segundo Tewksbury et al., 2002.) Capítulo 24 • Ecologia da paisagem e manejo de ecossistemas 563 desejado. Anthony Bradshaw, um dos fundadores da ecologia da restauração, referiu-se a esse processo como a “prova de fogo” da ecologia: “cada vez que desenvolve- mos processos de restauração estamos testando se, à luz de nosso conhecimento, conseguimos recriar ecossistemas que não só funcionem, mas funcionem apropriadamente” (Bradshaw, 1987). Em alguns casos, tais como a recuperação das popula- ções de ostras nativas destacada na Figura 24.20, os re- sultados rapidamente sugerem que passamos nessa “pro- va de fogo”. No entanto, em outros, como nos esforços de Janzen para restaurar florestas tropicais secas em Guana- caste, o processo pode ser muito longo e demorado. Isso não é surpreendente: mudanças de larga escala em comu- nidades ecológicas podem levar muitas décadas e também pode levar um longo tempo para que as pessoas mudem suas formas de se relacionar com a natureza e manejá-la. Na próxima seção, olharemos mais de perto o modo como princípios ecológicos são aplicados às tomadas de decisão sobre como gerir os recursos naturais de forma sustentável. CONCEITO 24.4 O manejo de ecossistemas é um processo colaborativo cuja meta principal é a manutenção da integridade ecológica em longo prazo. Manejo de ecossistemas O ano era 1989. O cenário era uma audiência pública lota- da em Olympia, Washington. Um comboio de caminhões de carga e cerca de 300 madeireiros tinham feito uma viagem para defender seus empregos. Havia rumores de que a coruja-malhada-do-norte (Strix occidentalis cauri- na; ver Figura 11.18) poderia constar como uma espécie ameaçada na Lista de Espécies Ameaçadas dos Estados Unidos, o que colocaria seu hábitat, florestas em estágio