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O AMBIENTE E AS DOENÇAS DO TRABALHO UNIDADE I ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR Autoria Elisa Maria Amate Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração SUMÁRIO INTRODUÇÃO ..........................................................................................................................................4 UNIDADE I ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR ..................................................................................................5 CAPÍTULO 1 UM POUCO DE HISTÓRIA ............................................................................................................................................... 5 CAPÍTULO 2 MEDICINA DO TRABALHO, SAÚDE OCUPACIONAL E SAÚDE DO TRABALHADOR ........................ 15 REFERÊNCIAS ........................................................................................................................................25 4 INTRODUÇÃO No cenário contemporâneo, as transformações ocorridas nos processos produtivos (precarização, informalidade, globalização etc.) implicam a necessidade de construção de conhecimento sobre agravos relacionados ao trabalho para além do estudo de suas manifestações clínicas. Fundamentalmente, essa construção será iniciada pelo reconhecimento da relação causa e efeito, resultante da interação da tríade ambiente-saúde-trabalho. O ponto de partida será a definição dos principais conceitos até o rol de agravos relacionados ao trabalho, cujo cerne envolve a matéria em questão. O assunto não se esgota porque ele faz interface direta com as demais disciplinas do curso e com o cotidiano de profissionais da área de Segurança e Saúde do Trabalhador, pública ou privada. Portanto, a disciplina contribui para a discussão dos entrecruzamentos dos campos ambiente, saúde e trabalho, também por intermédio da compreensão dos aspectos conceituais e históricos. Assim, possibilita-se avaliar todas aquelas situações que ofereçam risco de acidentes e adoecimento associados aos processos produtivos, à avaliação de procedimentos utilizados na investigação das situações de risco, bem como às metodologias utilizadas na sua prevenção e controle. Objetivos » Aprofundar os aspectos conceituais e históricos do campo da saúde ambiental e do trabalhador. » Identificar as relações entre saúde, ambiente e trabalho, de maneira a estimular a prevenção de fatores de riscos que levariam à redução do estabelecimento de Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário (NTEP). » Identificar os principais sujeitos envolvidos nos procedimentos de investigação de situações de risco para a saúde do trabalhador. » Analisar os procedimentos utilizados para a investigação de situações de risco, bem como as metodologias utilizadas em sua prevenção e controle. » Avaliar as situações de risco e dos acidentes e patologias associados aos processos produtivos. 5 UNIDADE I ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR CAPÍTULO 1 UM POUCO DE HISTÓRIA Os acidentes e as doenças relacionados ao trabalho são antigos, e a sua origem está vinculada ao surgimento do trabalho: ao longo de toda história, as condições do ambiente de trabalho têm causado incapacidades e mortes para um grande número de trabalhadores (Mattos; Másculo, 2011). » Na Antiguidade, essa associação foi encontrada em papiros antigos, no Império Babilônico e em escrituras greco-romanas. Nesse período, predominava o conceito de fenômenos de origem mágico-religiosa e, posteriormente, naturalista. » No Egito, há registros de 2360 a. C., como o Papiro Seler II e o Anastasi V, sendo este último conhecido como “Sátira dos Ofícios”, de 1800 a. C., no qual estão evidenciados problemas relativos à insalubridade, periculosidade e penosidade dos profissionais à época (Mattos; Másculo, 2011). » Em 1750 a.C., o código de Hamurabi trazia em seu bojo cerca de 281 artigos a respeito das relações de trabalho, família, propriedade e escravidão. Um deles, em especial, tratava da pena de morte ao arquiteto que projetasse uma casa que desmoronasse e causasse a morte de seus ocupantes. » As civilizações greco-romanas não tinham interesse em estudar o trabalho em si, uma vez que essa área era de competência dos escravos. Entretanto, houve estudos relevantes, como o tratado de Hipócrates, “Sobre os Ares, Águas e Lugares”, no século IV a. C., cujo conteúdo indicava ao médico a relação entre ambiente e saúde, bem como descrevia um quadro de intoxicação saturnina em um mineiro. No séc. I a. C., o naturalista romano Plínio escreveu um tratado chamado “História Natural”, evidenciando o aspecto dos trabalhadores expostos a chumbo, mercúrio e poeiras (Mattos; Másculo, 2011). 6 UNIDADE I | ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR » No período entre o apogeu do Império Romano e o final da Idade Média, poucos relatos foram encontrados sobre doenças. Porém, nessa época, foram criadas ordens hospitalares para prestar atendimento a enfermos (Mattos; Másculo, 2011). A sociedade feudal caracterizava-se pela produção de bens e serviços efetuados pelo trabalho servil e artesanal. Mas qual era a relação de servidão com o acúmulo de capital? Os camponeses não eram trabalhadores livres e não tinham direito de propriedade ou de venda de sua força de trabalho em troca de salário, onde quer que estivessem. O senhor feudal e o clero exigiam os dízimos e impostos, pouco se importando com o estado de saúde de seus subalternos. A assistência ao doente ou inválido era arcada pela família, pois o trabalho e as doenças decorrentes disso não eram objeto de regulamentação e interferência do Estado (Vasconcelos; Oliveira, 2011). Ainda, o artesão era capaz de realizar todas as tarefas do ofício, conhecendo o início e o fim do trabalho, não o distanciando de seu objeto de atuação, o que veremos que ocorrerá na Revolução Industrial. Após anos, apenas em 1473, Ulrich de Elsborg desenvolveu o estudo sobre vapores metálicos, em que há o descritivo de sinais e sintomas de envenenamento ocupacional por monóxido de carbono, chumbo, mercúrio e ácido nítrico, além de sugerir medidas preventivas (Mattos; Másculo, 2011). Até o final do século XV, muitas pesquisas tratavam de doenças causadas por agentes químicos, como o estudo completo “De Re Metallica” (George Bauer ou Georgius Agricola, Inglaterra), que se compõe de: problemas relacionados às atividades de extração e fundição de prata e ouro; acidentes de trabalho; doenças comuns entre mineiros; e meios de prevenção (Mattos; Másculo, 2011). Já no início do século XVIII, o mundo do trabalho sofreu grandes transformações com o surgimento de novos estudos pela Europa e, por conseguinte, com as grandes contribuições para a medicina do trabalho, como a obra “De Morbis Artificum Diatriba”, de Bernadino Ramazzini. Em seu estudo, o autor descreveu as doenças, os riscos e as precauções relacionados a cinquenta profissões da época; é considerado o pai da medicina do trabalho (Mattos; Másculo, 2011). No final do XVIII e início do século XIX, ocorreu na Europa a Revolução Industrial, inicialmente na Inglaterra, na França e na Alemanha, tendo como marcos a invenção da máquina a vapor, por James Watts (1784), e a publicação polêmica de Adam Smith da obra “Riqueza das Nações” (1776), apontando as vantagens econômicas na divisão do trabalho (Mattos; Másculo, 2011). 7 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR | UNIDADE I Nesse espectro, a forma de fabricação industrial caracterizou-se por: » divisão técnica do trabalho; » uso intensivo de máquinas do dono da empresa; » uso de energia motriz capaz de movimentar um conjunto de máquinas. » A operação das máquinas gerava uma divisão técnica do trabalho e as atividades passaram a ser parceladas, com tarefas divididas, exigindo movimentos de partes específicas do corpo do trabalhador (Vasconcelos; Oliveira, 2011). Com o furor causado pela Revolução Industrial, houve grande aumento da produtividade e ampliação do consumoavanços e desafios. 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Acesso em: 29 dez. 2023. _Hlk154739245 _Hlk172984063 _Hlk172986373 Introdução UNIDADE i Aspectos gerais da saúde do trabalhador Capítulo 1 Um pouco de história Capítulo 2 Medicina do trabalho, saúde ocupacional e saúde do trabalhador Referênciasde bens pela sociedade em geral, necessitando de mais mão de obra para conduzir as máquinas. Para isso, foram empregados mulheres, homens e crianças (a partir dos 6 anos), em condições de trabalho degradantes, como jornada de trabalho prolongada, ruído exacerbado, más condições de higiene no local de trabalho, somando-se a esses aspectos o elevado número de acidentes e adoecimentos (Mattos; Másculo, 2011). A indústria capitalista demandou legiões de trabalhadores e trouxe consigo efeitos devastadores, como alta frequência de mortes, epidemias e mutilações, contudo, em função disso, várias leis começaram a ser editadas, principalmente na França e na Inglaterra (Vasconcelos; Oliveira, 2011). A situação só se modificou com os movimentos sociais de trabalhadores, que obrigaram legisladores e políticos a repensar o papel do Estado na regulação das condições de trabalho nas fábricas. Dessa forma, em 1802, foi aprovada a Lei da Preservação da Saúde e da Moral dos Aprendizes e de Outros Empregados, constituindo-se, portanto, na primeira legislação de amparo e proteção aos trabalhadores. Então, foi criada uma comissão de inquérito do Parlamento britânico, que estabelecia a jornada diária de trabalho de 12 horas, proibia o trabalho noturno e obrigava a ventilação e a lavagem das paredes das fábricas pelos empregadores (Mattos; Másculo, 2011). As ações dessa comissão parlamentar resultaram na primeira legislação no campo da saúde do trabalhador, em 1833, a então chamada Factory Act (Lei das Fábricas), que, apoiada pela sociedade britânica, obrigou todos os empregadores a proibirem o trabalho noturno para menores de 18 anos e a montarem escolas para menores de 13 anos. Além disso, a idade mínima para o trabalho passou a ser de 9, e não mais de 6 anos, e o desenvolvimento físico do trabalhador menor deveria ser avaliado por um médico. No mesmo ano, a Lei Operária foi aprovada na Alemanha (Mattos; Másculo, 2011). 8 UNIDADE I | ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR A Factory Act tomou por base o conselho de Baker, que foi um médico contratado por um industrial inglês, Robert Derham, em 1830, para estudar a melhor forma de preservar a saúde dos trabalhadores de sua fábrica. Após seu estudo, Baker sugeriu que Derham contratasse um médico que visitasse a fábrica diariamente e estudasse a influência do trabalho na saúde dos trabalhadores – aqui foi criado o ensaio do primeiro serviço médico industrial do mundo. Quatro anos depois, Baker foi nomeado inspetor médico do parlamento inglês. A criação da legislação ocupacional na Inglaterra contou também com a contribuição de Charles Turner Thackrah, em 1830, quando ele publicou um livro sobre doenças ocupacionais. Quando os trabalhadores começaram a ser contratados massivamente pela via salarial, costumava-se pagá-los por produção, e as jornadas de trabalho eram muito mais longas do que as atuais – podiam atingir de 16 a 18 horas seguidas – e, comumente, eram empregadas crianças e mulheres para realizar tarefas árduas, fato gerador de duras críticas por parte das primeiras associações formadas por trabalhadores (primeiros sindicatos, por assim dizer). A partir daí, obteve-se a melhoria das condições de trabalho e pôde-se ver o advento das primeiras leis no século XVIII, que se consolidariam especialmente no século XIX, em alguns países da Europa, como França e Inglaterra, e nos Estados Unidos da América (Mattos; Másculo, 2011). No auge da Revolução Industrial, muitos artesãos habilitados foram contratados e mantiveram suas tradições e regras de ofício até a difusão da “organização científica do trabalho”, por Frederic Taylor, a partir do século XX. Dessas tradições e regras de ofício, partiram muitos marcos regulatórios que determinariam a organização do trabalho e os cuidados aos riscos profissionais para a saúde do trabalhador (Vasconcelos; Oliveira, 2011). A transição ocorreu com as profundas transformações provocadas pelo taylorismo e pelo fordismo. O fordismo desencadeou a 2ª Revolução Industrial quando Henry Ford estabeleceu, em sua montadora de carros nos Estados Unidos, o gerenciamento científico de Taylor, valorizando todas as formas de intensificação das tarefas e automação industrial (Vasconcelos; Oliveira, 2011), instituindo a produção em série e o consumo em massa. Aqui o trabalhador entra como uma equipagem merecedora de processos de análise seletiva na sua inserção na indústria. Nessa condição, a manutenção da sua saúde destina-se a evitar o absenteísmo por meio de práticas de medicina, psicologia, higiene industrial, a fim de não interferir na produtividade e no lucro. Leia o artigo “Fordismo, taylorismo e toyotismo: apontamentos sobre suas rupturas e continuidades”, de Érika Batista, disponível em nossa biblioteca virtual. 9 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR | UNIDADE I A partir do século XX, algumas organizações criaram resoluções e convenções na tentativa de melhorar as condições de trabalho e atendimento à saúde em todos os países membros que tivessem aderido às referidas convenções. Estamos falando de organizações multigovernamentais tais como Organização das Nações Unidas (ONU) e suas afiliadas: Organização Internacional do Trabalho (OIT) e Organização Mundial da Saúde (OMS) (Mattos; Másculo, 2011). Em 1979, foi retomado o movimento sindical no Brasil, e várias entidades tiveram acesso a informações das empresas, prontuários, laudos e exames médicos de trabalhadores para constituir dossiês e instigar a discussão das suas condições de vida e trabalho, divulgando essas informações na imprensa e nas estações de rádio e de televisão daquela época (Mattos; Másculo, 2011). É importante ressaltar que esse movimento deu fruto a uma obra pioneira na integração das atividades sindicais com a pesquisa em saúde e área jurídica: “De que adoecem e morrem os trabalhadores”, organizado pelo médico Herval Ribeiro e Francisco Lacaz. Obras como essa foram fruto de pesquisas organizadas pelos sindicatos para melhoria de base técnica em defesa dos direitos dos trabalhadores (Mattos; Másculo, 2011). Muitos sindicalistas conseguiram espaço com direito a voto nos processos de criação e retificação das normas regulamentadoras, bem como a participação nos embrionários Conselhos-Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (Mattos; Másculo, 2011). O movimento de redemocratização e a abertura cultural e política, aliados ao intercâmbio entre entidades ambientalistas, pesquisadores, sindicatos e intelectuais da época, resultaram na inserção de leis de proteção ao meio ambiente e à saúde do trabalhador na Constituição Federal de 1988 e em legislações estaduais (Mattos; Másculo, 2011). Essa pressão incisiva, fomentada pelos sindicatos sobre os parlamentares e a administração pública, foi, em sua maioria, integrada por categorias de trabalhadores atreladas diretamente às atividades econômicas com dependência direta dos recursos naturais, das águas, dos compostos químicos, além de trabalhadores rurais, Sem Terras e extrativistas (Mattos; Másculo, 2011). Ora, essas categorias conheciam a real dimensão dos impactos ambientais e da saúde dessas atividades econômicas. Você sabia que a implantação da NR-5 começou, de fato, nas plantas industriais químicas e nas refinarias de petróleo? Em 1990, multiplicaram-se casos de contaminação por exposição a compostos químicos, em que as doenças mais prevalentes apresentadas foram leucemia e outros tipos de cânceres. Na indústria química, trabalhadores e comunidade em volta desses complexos industriais são expostas à toxicidade variada dos insumos, produtos e subprodutos efluentes. 10 UNIDADE I | ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR Por isso, a preocupação da comunidade veio a se somar ao foco ocupacional, e a noção de perigo foi cada vez mais agregada ao conhecimento dos sindicalistas sobre os riscos químicos para a saúde humana e ambiental. Os problemas de saúde ocupacional pioraram com a 2ª Revolução Industrial, advindada descoberta da eletricidade e do motor de explosão, culminando no surgimento de várias obras que tratavam da situação do mundo do trabalho naquela época, como o livro “O Capital”, de Karl Marx, que trata principalmente dos mecanismos de acumulação de capital pelos empregadores por meio da mais-valia, além de descrever a exploração da mão de obra na Inglaterra. Nesse período, a enfermeira italiana Florence Nightingale publicou, em 1861 as “Notas sobre a enfermagem para as classes trabalhadoras”, tornando-se pioneira em sua área de atuação. Diante do quadro preocupante, muitos países do continente europeu aprovaram leis sobre a reparação de acidentes e doenças profissionais, como Alemanha (1884), Inglaterra (1897), França (1898), Portugal (1913) e, no continente americano, Estados Unidos (1911) (Mattos; Másculo, 2011). Em 1900, foi criada a Internacional Association for Labour Legislation, embrião da OIT, que seria formalmente criada após 19 anos. As duas primeiras convenções internacionais sobre o trabalho, especificamente sobre trabalho noturno das mulheres e eliminação de fósforo branco da indústria de máquinas, foram originadas em conferências diplomáticas realizadas em Berna, na Suíça (1905). A medicina do trabalho foi reconhecida enquanto especialidade somente em 1954. Os movimentos mundiais pela conscientização do papel fundamental da saúde do trabalhador foram motivadores para o trabalho em conjunto da OIT e da OMS de tal modo que, na década de 1950 do século passado, uma comissão conjunta foi formada para tratar da saúde ocupacional, na Suíça, e, desde essa época, o tema tem sido debatido em vários encontros da Conferência Internacional do Trabalho (Mattos; Másculo, 2011). Na história brasileira colonial e imperial, a mão de obra escrava teve uma importância central no panorama econômico, perfazendo um total de 400 anos de trabalho escravo. Diferentemente do que imaginamos, naquela época, surgiu uma prática de medicina do trabalho dirigida aos escravos com um foco do que hoje seria a zootecnia ou medicina veterinária: o escravo era considerado mercadoria animal, cujo senhorio era proprietário do corpo físico, da liberdade e da prole do escravo por toda a eternidade. 11 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR | UNIDADE I Considerando a escravidão em larga escala nas Américas, o mercado de escravos organizou-se de maneira distinta do mercado de força de trabalho desenvolvido no modo capitalista industrial. A visibilidade da doença do trabalho se perdia em um mundo de extrema violência e crueldade, o que se configuraria num massacre moral extremo e num desastre epidêmico (Vasconcelos; Oliveira, 2011). Quando doentes, os escravos eram tratados por seu valor patrimonial, caso houvesse interesse do proprietário. Se não sobrevivesse, era substituído por outro hígido. Segundo Vasconcelos e Oliveira (2011), a medicina do trabalho no Brasil surge como aquela assistência à saúde dos escravos por meio de práticas de medicina veterinária aplicadas aos seres humanos em cativeiros. Algumas leis foram promulgadas para amenizar o sofrimento dos escravos durante o Império, culminando com a Lei Áurea, em 1888. Pouco se diferenciavam as condições de trabalho no Brasil com aquelas encontradas na Europa, quando do advento da indústria em território nacional. Com o aumento da atividade fabril, principalmente em São Paulo, os movimentos sociais pressionaram o Estado à criação de legislação trabalhista em 1917, ainda que rudimentar, e também de uma lei sobre acidentes de trabalho em 1919. Aqui, a Revolução Industrial foi tardia, assim como em toda a América Latina, lá pelos idos dos anos de 1930, tendo-se a promulgação da Consolidação das Leis do Trabalho (1943), por Getúlio Vargas, como marco principal do século XX (Mattos; Másculo, 2011). A 8ª Conferência Nacional de Saúde (em 1986) e seus desdobramentos na Assembleia Nacional Constituinte (1988), bem como a criação do Sistema Único de Saúde (1988), advieram dos ideais e das bases teóricas fomentados pela epidemiologia social. Ela apresentou avanços tecnológicos importantes na América Latina, desde o final da década de 1970, tendo grande reflexo na saúde pública brasileira. A ênfase no processo de produção estimulou a expansão conceitual da “saúde ocupacional” para “saúde dos trabalhadores”, concomitante à implantação de políticas de saúde coerentes com esse novo marco. Em paralelo, a pauta da saúde ambiental ganhava espaço nas esferas políticas do mundo inteiro. Após a Rio 92 (Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, também conhecida como Eco-92), no Brasil, o campo da saúde ambiental teve uma abertura maior não apenas ao debate específico sobre o saneamento básico e as doenças infectocontagiosas, mas também ao enfoque de problemáticas a respeito de agrotóxicos, metais pesados, contaminação das águas para consumo humano, ambiente urbano, além de outros. Isso representaria os primeiros passos para o delineamento de uma política de saúde ambiental consistente (Rigotto, 2003). 12 UNIDADE I | ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR As questões ambientais são histórica e tradicionalmente relacionadas à saúde no Brasil – do ponto de vista institucional – em uma preocupação quase que exclusiva de instituições voltadas ao saneamento básico (água, esgoto, lixo etc.). Durante muitos anos estiveram pautadas nas propostas do Governo e atreladas a diversas áreas internas do aparelho estatal, notoriamente em alguns ministérios, como o do Interior e o da Saúde, além de secretarias estaduais e municipais e algumas universidades. A partir da década de 1970, com a piora dos problemas ambientais gerados pelo crescimento industrial, novas instituições surgiram ou foram criadas, como a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (FEEMA) e a Companhia Estadual de Tecnologia em Saneamento Ambiental (CETESB). Essas instituições contribuíram para o desenvolvimento de ações de monitoramento e controle da poluição ambiental, sem sequer ter ligação com o sistema de saúde. Em outra via, a elaboração de novas teorias e abordagens que renovavam esse aporte institucional estava latente no mundo acadêmico – estando majoritariamente associada a outras organizações civis no bojo da luta pela redemocratização do país (Tambelinni; Câmara, 1998). Com o crescimento da área de saúde do trabalhador, a partir do final da década de 1970, e durante toda a década de 1980, ficou explícito o elo existente entre essas questões e o sistema de saúde, abrindo o caminho para a incorporação de uma saúde ambiental moderna no setor. Em 1992, no Rio de Janeiro, um período anterior à realização da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (UNCED) também corroborou para aumentar as preocupações com os problemas de saúde relacionados ao ambiente. Além disso, esse período pode ser caracterizado pelo crescimento dos movimentos ecológicos – ONGs e outras formas organizadas de luta da sociedade civil pela preservação do ambiente e da saúde –, que ganharam dia após dia mais publicidade. Esse desenrolar de fatos históricos concatenados demonstra e explicita o convencimento do meio político e social a respeito da importância da questão ambiental em seus desdobramentos para a saúde humana, atingindo todo o planeta também (Tambelinni; Câmara, 1998). O Sistema Único de Saúde (SUS) é resultado de vários movimentos inesperados na área de saúde do trabalhador: influencia a organização da saúde do trabalhador na rede pública como direito universal e dever do Estado, incorpora princípios institucionais nas legislações estaduais, introduz o conceito ampliado de saúde do trabalhador – diferente dos conceitos reducionistas de medicina do trabalho e saúde ocupacional –, e vislumbra a saúde como elemento central na proteção dos trabalhadores diante das imposições econômicas e sociais dos processos de trabalho historicamente arraigados (Vasconcelos; Oliveira, 2011).13 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR | UNIDADE I Em resumo, sobre as explanações contidas neste capítulo, trazemos um quadro resumo dos anos e eventos históricos no Brasil que têm relação com a evolução histórica da legislação trabalhista e saúde do trabalhador, como segue. Quadro 1. Sequência histórica de fatos importantes para a saúde do trabalhador. Período Evento 1700 Lançamento do livro “De morbis articum Diatriba”, pelo médico italiano Ramazzini. 1760-1820 Revolução industrial, gerando grande número de mutilados e doentes. 1884 Surgem as primeiras leis a respeito do acidente de trabalho na Alemanha. 1888 Lei Áurea - abolição da escravidão. 1919 Lançado o Decreto 3724, sobre a saúde do trabalhador. 1919 Criação da OIT pelo tratado de Versalhes. 1943 Publicada a Consolidação das Leis Trabalhistas, no governo de Getúlio Vargas. 1946 Criação da OMS. O Brasil amplia as normas de Segurança e Saúde no trabalho (SST), instituindo o SESMT (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho) e a CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes). 1977 Mudança do cap. V título II da CLT, por intermédio da Lei 6514, de 1977, para aprofundar as medidas preventivas para retirar o Brasil do topo das estatísticas de acidente de trabalho. 1978 Publicação das NRs, pela Portaria 3214. Houve questionamento dos sindicatos sobre o adicional de remuneração para compensar a exposição aos riscos ocupacionais, que chamaram de “adicional de suicídio”. 1981 Publicação da Convenção da OIT 155 sobre a segurança e saúde dos trabalhadores, tratando a participação ativa deles nas questões envolvendo SST. A partir de então, configura-se a saúde do trabalhador 1986 8a Conferência Nacional de Saúde, que trouxe em seu relatório final o texto que embasaria não apenas a Constituição Federal em seus artigos 196 a 200, como a elaboração de uma lei para o futuro SUS. 1988 Instituição da Constituição Federal, na qual a saúde é tida como direito social com garantia aos trabalhadores da redução dos riscos inerentes ao trabalho. 1990 Ratificação da Convenção 161, sobre a Segurança e Saúde dos trabalhadores. Criada a Lei Orgânica do SUS, Lei 8080. Aqui as vigilâncias epidemiológica e sanitária seriam responsáveis pelas ações de promoção e proteção à saúde do trabalhador. 1998 Publicada a Portaria Ministerial do Ministério da Saúde tratando da vigilância em saúde do trabalhador. 2002 A Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador (RENAST) é criada por meio da Portaria 1679. A RENAST constituiu-se assim uma rede pública dos núcleos de vigilância em saúde do trabalhador estabelecida pelo Ministério da Saúde. Essa rede é explicitada nos próximos capítulos. 2009 A Portaria 2728 estabelece as atribuições dos CERESTs, enquanto uma rede estruturada, hierarquizada e provida de ações específicas de prevenção e promoção à saúde do trabalhador. ... ... 2011 Instituída a Política Nacional de Saúde e Segurança do trabalho, com vistas a atender à Convenção 155 da OIT. 2012 Instituída a Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora. 2014 Realização da 4a Conferência de Saúde do trabalhador. 2018 2a Jornada de Saúde do Trabalhador e Trabalhadora, além de ter publicado o Atlas do Câncer, o Conselho Nacional de Saúde ratifica as propostas apresentadas no relatório final da 4a Conferência de ST e apresenta proposta de reorganização da atenção integral à saúde dos trabalhadores no SUS a ser submetida à análise do Ministério da Saúde. Fonte: adaptado de Teixeira, 2016; 2018. 14 UNIDADE I | ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR Costa (2018) demonstra que, segundo a Organização Mundial da Saúde, os maiores desafios atuais e do futuro para a saúde do trabalhador são os problemas de saúde ocupacional ligados a: » novas tecnologias de informação e automação; » novas substâncias químicas e energias físicas; » riscos de saúde associados a novas biotecnologias; » transferência de tecnologias perigosas; » envelhecimento da população trabalhadora; » problemas especiais dos grupos vulneráveis (doenças crônicas e deficientes físicos), incluindo migrantes e desempregados; » problemas relacionados com a crescente mobilidade dos trabalhadores; » ocorrência de novas doenças ocupacionais de várias origens. Falaremos detidamente sobre esse assunto nos próximos capítulos, quando da evolução das políticas de Saúde no Trabalho (ST) no SUS até a atualidade, partindo da década de 1980. 15 CAPÍTULO 2 MEDICINA DO TRABALHO, SAÚDE OCUPACIONAL E SAÚDE DO TRABALHADOR A medicina do trabalho está pautada principalmente na presença de um serviço médico dentro das empresas, para monitorar a saúde dos trabalhadores, modelo ainda muito próximo à sua origem na Revolução Industrial (vide história de Baker). Segundo a ANAMT (2019), a medicina do trabalho pode ser definida como: Especialidade médica que lida com as relações entre a saúde dos homens e mulheres trabalhadores e seu trabalho, visando não somente a prevenção das doenças e dos acidentes do trabalho, mas a promoção da saúde e da qualidade de vida, através de ações articuladas capazes de assegurar a saúde individual, nas dimensões física e mental, e de propiciar uma saudável inter-relação das pessoas e destas com seu ambiente social, particularmente, no trabalho (Fernandes, 2002). Ela visa especificamente à promoção e à preservação da saúde do trabalhador, sendo competências do médico do trabalho a avaliação e a detecção de condições adversas nos locais de trabalho, ou a sua ausência. Mendes e Dias (1991) descrevem, além dessas, outras características típicas da especialidade em questão: é-lhe atribuída a tarefa de cuidar da “adaptação física e mental dos trabalhadores”, supostamente contribuindo na colocação deles em lugares ou tarefas correspondentes às aptidões. Essa adaptação estaria mais limitada à seleção de candidatos mais sadios e à adequação dos trabalhadores às suas atividades, e não o inverso. É atribuída a essa tarefa “a contribuição à manutenção do nível mais elevado possível do bem-estar biopsicossocial dos trabalhadores”, conferindo-lhe ainda um caráter de plenitude e inerente à própria concepção positivista da prática médica. Na área das ciências da administração, o desenvolvimento da administração científica do trabalho encontrou uma forte aliada para aumentar a produtividade nas empresas: a medicina do trabalho, a qual dá sustentação ao desenvolvimento da “Administração Científica do Trabalho”, fundamentando os princípios de Taylor que posteriormente serão ampliados por Ford (Mendes; Dias, 1991). Entretanto, essa onipotência começa a dar espaço a uma nova abordagem da relação saúde versus trabalho, denominada saúde ocupacional, que visava à adequação à nova realidade resultante das inovações tecnológicas introduzidas após a Segunda Guerra 16 UNIDADE I | ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR Mundial (Mattos; Másculo, 2011). Assim, o contexto econômico e político – como o pós-guerra, o custo provocado pela perda de vidas e as doenças do trabalho – começou a ser também sentido pelos empregadores e pelas companhias de seguro, às voltas com o pagamento de pesadas indenizações por incapacidade provocada pelo trabalho (Mendes; Dias, 1991). Uma vez que o modelo positivista centrado na figura do médico não respondia às inovações tecnológicas e da sociedade, repensou-se a metodologia que aliasse médicos e engenheiros para higienizar os ambientes insalubres, ou seja, o que antes tinha como centro das atenções o trabalhador, agora extrapola para o ambiente em volta. Eis que surge a saúde ocupacional. Entretanto, nas escolas de saúde pública dos Estados Unidos, o desenvolvimento do novo modelo proposto não promoveu a multidisciplinariedade na íntegra, acompanhado de certa desqualificação do aspecto epidemiológico do trabalho (Mendes; Dias, 1991). Para Mattos e Másculo (2011), essa abordagem é tecnicista, valoriza os ambientes de trabalho e agentesambientais com atenção à saúde do trabalhador sadio, quantifica os riscos ambientais e despreza a análise dos processos de trabalho e organização da produção com o contexto social. O trabalhador permanece como objeto de análise – para melhor produtividade – e não como sujeito ativo de transformação do seu meio. A partir do final dos anos 1960, começam as críticas à concepção de saúde e a denúncia dos efeitos negativos da medicalização e do caráter reprodutor e ideológico das instituições médicas. Nesse intenso processo social de práticas alternativas e discussões teóricas, a teoria da determinação social do processo saúde-doença ganha corpo (Mendes; Dias, 1991). O modelo operário italiano contribuiu para as mudanças na relação saúde versus trabalho, por meio do Estatuto dos Direitos dos Trabalhadores (1970), em que foram incorporadas as reivindicações dos trabalhadores ao corpo da lei. Dessa forma, surge um novo conceito de trabalho versus saúde, enquanto modelo participativo, em que: » o trabalhador é sujeito de transformações do ambiente de trabalho; » a epidemiologia estuda as questões sanitárias da massa de trabalhadores e não do indivíduo; » o indivíduo agora é considerado ser holístico, traduzindo esse modelo quanto ao cuidado biopsicossocial, levando-se em conta os macrocondicionantes externos 17 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR | UNIDADE I ao trabalho nos determinantes em saúde para o desenvolvimento de doenças e agravos relacionados ao trabalho (Mattos; Másculo, 2011; ANAMT, 2014). As ações vinculadas à relação saúde-trabalho são resultado de diferentes conceitos e práticas de diversas correntes que tentaram, ao longo de anos, trazer a hegemonia do conceito (conhecimento) para si. Esse modelo de análise nos permite conceber alguns conceitos de áreas específicas no campo da saúde e das normas (jurídicas) segundo a sua abordagem em relação ao processo de trabalho, refletindo-se em algumas áreas específicas, como a medicina do trabalho, a saúde ocupacional e a saúde do trabalhador (Mattos; Másculo, 2011). A saúde do trabalhador amplia o conceito de saúde voltada especificamente a uma população e agrega outros valores vinculados à transversalidade e à multifatorialidade da saúde humana, vendo o trabalhador como um sujeito ativo em seu ambiente de trabalho e no próprio autocuidado, como mostra a figura seguinte. Figura 1. Transversalidade da saúde do trabalhador. Saúde do trabalhador Saúde Relações sociais Micro e macroambiente de trabalho ReligiãoTrabalho Economia Lazer Fonte: elaborada pela autora. 18 UNIDADE I | ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR Bernardino Ramazzini, médico italiano nascido em Carpi, em 1633, é considerado o pai da medicina do trabalho, estando abaixo a foto do renomado médico (Wikipedia, 2018). Figura 2. Fotografia do médico Bernadino Ramazzini. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Bernardino_Ramazzini#/media/Ficheiro:Bernardino_Ramazzini.jpg. Na figura acima, observamos a imagem do livro “As Doenças dos Trabalhadores”, de 1700, traduzido para o português pelo dr. Raimundo Estrela. Nele, Ramazinni descreve os principais problemas de saúde de cerca de 54 profissões. A obra ressalta a necessidade de os médicos conhecerem a ocupação atual e anterior dos seus pacientes ao fazer o diagnóstico correto e adotar os procedimentos adequados (ANAMT, 2019). 2.1. A relação saúde, ambiente e trabalho O homem é ao mesmo tempo criatura e criador do meio ambiente, que lhe dá sustento físico e lhe oferece a oportunidade de desenvolver-se intelectual, moral, social e espiritualmente [...] Natural ou criado pelo homem o meio ambiente é essencial para o bem-estar e para o gozo dos direitos humanos fundamentais, até mesmo o direito à própria vida (ONU, 1972). Quaisquer ações do homem têm impacto sobre a natureza, sejam positivas ou negativas: a sua criticidade, determinada pela intensidade e pela natureza do impacto, é equivalente à organização social e às atividades econômicas desenvolvidas pelo homem. Entre alguns problemas apresentados por essa relação entre o homem e a natureza, ressaltam-se os ambientais, que incidem sobre a saúde. Em meados do século XIX, o intenso processo de industrialização e urbanização acelerou os efeitos do meio ambiente na saúde humana, acometendo as condições de vida e trabalho das populações (Radicchi; Lemos, 2009). 19 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR | UNIDADE I É pacificado o entendimento dos cientistas e estudiosos do assunto acerca da existência de uma crise generalizada e profunda, insistentemente denominada por alguns deles como “crise da modernidade”. Um dos aspectos evidentes dessa crise diz respeito à questão ambiental. Depois de longa trajetória de crescimento, marcada pela infinita capacidade do desenvolvimento tecnológico em dar resposta aos problemas externos produzidos pelos processos produtivos, no início dos anos 1970, a economia contemporânea tem seus padrões de produção e consumo questionados (Radicchi; Lemos, 2009). Os problemas ambientais são decorrentes tanto da modernidade expansiva quanto do atraso e da pobreza: países pobres e ricos, ambientes aquáticos e terrestres, a atmosfera e as aglomerações urbanas, todos vivem as consequências (impactos) dos modos de produção e reprodução material criados pela e na modernidade. Esses impactos ambientais gerados sobre a saúde humana podem se manifestar sob a forma de eventos agudos de grandes proporções, como os acidentes industriais ampliados – Seveso, Chernobyl, Bhopal, entre outros –, bem como do adoecimento em doses homeopáticas traduzido em mortes, cânceres, malformações congênitas e intoxicações crônicas geradas por contaminações ambientais devido à prolongada exposição a doses variadas de diferentes poluentes. Desigualdades entre povos, países ou até mesmo regiões fazem com que muitos problemas ambientais atinjam populações mais pobres e marginalizadas pelo processo de desenvolvimento de forma diferenciada. Riscos ambientais modernos atingem com mais gravidade os “excluídos”, como aquelas pessoas que moram em áreas de risco como encostas, áreas de enchentes ou de poluição. Os processos que mais consomem recursos naturais e os mais geradores de poluentes se caracterizam por processos de trabalho muito insalubres e perigosos e tenderiam a se localizar naqueles locais que apresentam legislações ambientais e trabalhistas mais flexíveis, onde a população (trabalhadores) esteja mais suscetível a aceitar precárias condições de vida e trabalho, bem como onde a desinformação é o canal mantenedor de injustiças ambientais (Rigotto, 2003). Em nível de industrialização, essa desigualdade é traduzida enquanto “perigos tradicionais” como, por exemplo, a contaminação dos alimentos por organismos patógenos, a falta de acesso à água potável, ao saneamento básico deficitário em moradias e nas comunidades pobres etc. Já os “perigos modernos estão relacionados ao desenvolvimento rápido e ao consumo insustentável dos recursos naturais” (Rigotto, 2003) que não levam em conta a proteção à saúde e ao meio ambiente. 20 UNIDADE I | ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR Esses “perigos modernos” são oriundos de processos produtivos – particularmente os de natureza industrial –, nos moldes do padrão de consumo que o modo de produção capitalista impõe à sociedade, bem como na indução da utilização de mão de obra das aglomerações urbanas, de forma a atender às necessidades de força de trabalho e infraestrutura. Tais perigos, entre outros, são: » indústria e agricultura intensiva; » contaminação do ar urbano pelas emissões de motores de veículos, centrais energéticas e indústria; » acumulação de resíduos sólidos e perigosos; » contaminação da água pelos núcleos de população (Rigotto, 2003). Para saber mais sobre injustiça ambiental e o mapa de conflitos atuais no Brasil, acesse o link: https://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/. A alteração dos elementos do sistemacria desequilíbrio e, ao tender para o equilíbrio, pode significar benefício ou não para os seres humanos e/ou biológicos. Para Rigotto (2003), reconhecer que esse tema é complexo e demanda práticas inter e transdisciplinares de produção de conhecimento torna-se essencial à superação dos reducionismos por meio de uma ciência mais dirigida à identificação dos problemas e ao reconhecimento dos seus limites. Legitimando esse entendimento da autora, no mesmo sentido, as políticas intersetoriais e participativas devem ter ciência dessa dimensão complexa dos problemas ambientais. Reitera-se, então, a necessidade de redelineamento e reorientação da função do setor de saúde diante do tema “ambiente”, na elaboração de um modelo mais amplo, fundamentado na promoção da saúde e na perspectiva ampliada de vigilância em saúde – superando o modelo hegemônico assistencial-sanitarista vigente (Radicchi; Lemos, 2009). Ainda segundo a pesquisadora (Rigotto, 2003), um indivíduo é considerado exposto a um fator de risco quando existem vias de ingresso do fator ao organismo (inalação, ingestão, contato dérmico etc.). Nas situações de exposição a algum poluente, é estritamente necessário o conhecimento a respeito de: » toxicologia do contaminante, características como a capacidade de transformação, tempo de atividade no ambiente e vias de ingresso no organismo, por exemplo; » grupo de pessoas exposto a esse poluente; 21 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR | UNIDADE I » fonte do risco e local de exposição a ele; » tempo, intensidade e frequência de exposição das pessoas ao risco. Para a saúde ambiental, as evidências maiores são representadas pelos acidentes, pelas doenças e por outros agravos causados por condições do ambiente. Contudo, quanto às doenças e aos agravos, é complexo definir qual fator ambiental adverso interferiu diretamente na saúde de uma pessoa exposta. Esse fator deveria ser estudado. Essa situação é agravada quando a sintomatologia apresentada pelo exposto é inespecífica, podendo o quadro clínico ficar inalterado muito tempo após a fase inicial da exposição. Essa peculiaridade na saúde ambiental é latente nos estudos epidemiológicos, em que é comum a existência de casos suspeitos, que posteriormente podem ser confirmados ou não. Por isso, é importante a vigilância em saúde e a valorização desses sinais e sintomas precoces dos agravos nos estudos epidemiológicos, uma vez que as ações de saúde nessa fase são mais efetivas e podem evitar o desenvolvimento completo do agravo (Radicchi; Lemos, 2009). Nos anos 1990, a Organização Mundial da Saúde desenvolveu um “marco causa-efeito para a saúde e o ambiente”, voltado para a elaboração de indicadores de sustentabilidade ambiental pela Comissão de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e pela Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico (OCDE). No campo das relações saúde-ambiente, Briggs, Corvalán e Nurminen, em 1996, construíram um amplo arcabouço de indicadores de saúde ambiental, incluindo temáticas afetas ao contexto sociodemográfico, às condições de saneamento básico, aos fatores de riscos ocupacionais, à segurança alimentar, à poluição do ar, entre outras (Rigotto, 2003). Observe: Forças motrizes: são responsáveis pela criação das condições que podem desenvolver ou evitar distintas ameaças ambientais para a saúde. Estão assentadas nas políticas que estabelecem as linhas mestras do desenvolvimento econômico, tecnológico, dos padrões de consumo e do crescimento da população. São elas: população, urbanização, pobreza e desigualdade, avanços técnicos e científicos, pautas de produção e consumo, desenvolvimento econômico. Elas exercem [...] Pressões sobre o meio ambiente, como a superexploração, contaminação e desigualdade na distribuição da água; a urbanização; a disputa pela terra, a degradação do solo e as mudanças ambientais decorrentes do desenvolvimento agrícola; a industrialização que, embora traga melhores perspectivas, tem consequências desfavoráveis, como as emissões, os resíduos, a utilização de recursos naturais, os acidentes 22 UNIDADE I | ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR industriais maiores; a energia, em que o uso doméstico de biomassa e carvão ameaça a qualidade do ar em ambientes fechados; as centrais térmicas, as indústrias e os meios de transporte que usam combustíveis fósseis e contaminam o ambiente; e as hidrelétricas que provocam deslocamento de populações e causam mudanças ecológicas; além da energia nuclear. Essas pressões podem produzir mudanças no [...] Estado do meio ambiente, alterando a qualidade do ar ambiental urbano, contaminando o ar das moradias; expondo-o a radiações ionizantes; gerando resíduos domésticos; contaminando ou promovendo acesso desigual à água, ou facilitando a transmissão de doenças transmitidas por vetores relacionados à água; contaminando biológica ou quimicamente os alimentos; degradando o solo; trazendo problemas relacionados à habitação – escassez, confinamento, qualidade dos materiais; acidentes e lesões; trazendo exposições nos locais de trabalho e, finalmente, gerando mudanças ambientais de impacto global, como as mudanças climáticas, o esgotamento da camada de ozônio, a contaminação atmosférica transfronteiriça e o movimento dos resíduos perigosos; além do problema das exposições combinadas procedentes de distintas fontes. Para que esse estado alterado do ambiente exerça algum efeito sobre a saúde humana, entre outros fatores, tem que haver a [...] Exposição, enquanto interação entre o ser humano e o perigo ambiental. Dessa exposição vão resultar [...] Efeitos sobre a saúde, que variarão em intensidade, magnitude e tipo de acordo com a natureza do perigo, nível de exposição e número de afetados. Eles atuam junto com os fatores genéticos, a nutrição, os riscos ligados ao estilo de vida e outros fatores para provocar a doença. São eles: as infecções respiratórias agudas, as doenças diarreicas, as preveníveis por vacinação, as doenças tropicais transmitidas por vetores e as doenças emergentes, os acidentes e intoxicações – ocupacionais ou não; as alterações de saúde mental relacionadas a fatores físicos, químicos e psicossociais; as doenças cardiovasculares; o câncer – de origem ocupacional, por agentes infecciosos, por contaminantes do ar, da água ou dos alimentos, das radiações ionizantes e não ionizantes, ou dos fumos de tabaco; as doenças respiratórias crônicas, alergias e problemas de saúde da reprodução (Rigotto, 2003, p. 391). 23 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR | UNIDADE I 2.2. Instrumentos para o estudo das relações produção-trabalho-ambiente-saúde – roteiro para estudo dos processos de trabalho em sua relação com o ambiente interno e externo às atividades produtivas Ao longo desta unidade, verificamos a intrínseca relação entre a saúde, o ambiente e o trabalho. A construção histórica de conceitos cruciais se desvelou em processos humanos impactantes no meio ambiente, bem como nos efeitos desses processos na saúde humana, constituindo-se enquanto ciclo. Assim, não há que se falar de saúde do trabalhador sem vinculá-la à saúde ambiental, e vice-versa. Mas, como poder-se-ia analisar os processos de trabalho, considerando o ambiente externo à fábrica? Para facilitar essa análise, Rigotto (2003) elaborou um estudo de processos de trabalho e sua relação com o meio ambiente, abrangendo os ambientes internos e externos às atividades produtivas. O roteiro a seguir foi adaptado segundo diretrizes estabelecidas pela autora. » Identificação da empresa: razão social, localização, ramo de atividades. » Instalação da empresa: área física, tipo de construção, ventilação e iluminação. Condições de conforto e higiene (refeitórios, instalações sanitárias e fornecimento de água potável, vestiário, transporte dentro da empresa). » Aspectos históricos da organização da empresa: origens da empresa e do capital, evolução, procedência,unidades, produção e mercado consumidor, matérias- primas, subprodutos e produtos finais. » Etapas do processo produtivo (fluxograma): descrever cada uma das etapas do processo de produção, materiais utilizados, ferramentas, máquinas, processos auxiliares ou paralelos bem como produtos finais, resíduos e subprodutos. » Trabalhadores e relações de trabalho: procedência, distribuição por sexo, idade e etnia, escolaridade, treinamento para a função, critérios para seleção, formas de contrato de trabalho, remuneração, benefícios e jornada de trabalho. » Organização do trabalho: percepção do trabalhador sobre seu trabalho, grau de satisfação, mecanismos de controle do ritmo e da produção. Jornada diária, salário, pausas, horas extras, férias, contrato de trabalho, relacionamento com colegas e chefias. » Condições ambientais de trabalho e atenção à saúde: riscos químicos, físicos, biológicos, ergonômicos, de acidentes; natureza, dose, fontes, momentos críticos; medidas de proteção individual e coletiva com adequação, manutenção, eficácia, 24 UNIDADE I | ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR uso efetivo de equipamentos ou remodelagem de processos; política de assistência médica, ações de segurança e saúde no trabalho; dados epidemiológicos sobre doenças e acidentes. » Relação com o meio ambiente: área: recursos físicos e espaço ocupado. Fonte e consumo de água, consumo de energia elétrica e de combustíveis. Poluentes da água: dutos, canalizações, bacias, valas e canaletas; vazamentos de tanques, válvulas, borras e lamas; efluentes líquidos; saídas líquidas das estações de tratamento de esgotos e de despejos industriais (dimensionamento e adequação do tratamento) e descarte de fluidos. Poluentes do ar: produtos da combustão, gases combustíveis residuais, emanações de substâncias químicas (formas de captação e tratamento). Poluentes do solo: resíduos sólidos, aparas e sucatas, borras, cinzas e poeiras coletadas, embalagens utilizadas (tratamento e destinação). Geração de ruído. Coletividades humanas concernidas: transeuntes e vizinhos. Transporte de matérias-primas e de produtos finais: eixos. » Relações institucionais: com o município, o estado, os órgãos fiscalizadores do trabalho e do ambiente. Ao final deste capítulo o aluno conseguirá definir: » a evolução histórica da saúde do trabalhador no mundo e Brasil; » a relação entre ambiente, saúde e trabalho; » a análise preliminar dos processos produtivos e seus efeitos no ambiente. 25 REFERÊNCIAS ACIDENTES de Trabalho caem 25,6% no Brasil em 10 anos. Ministério da Previdência Social, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/previdencia/pt-br/noticias/2023/maio/acidentes-de-trabalho-caem- 25-6-no-brasil-em-10-anos#:~:text=Os%20dados%20s%C3%A3o%20do%20Anu%C3%A1rio,%2C2%20 acidentes%20(2021). Acesso em: 30 dez. 2023. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Cartilha sobre agrotóxicos. Brasília, DF: Anvisa, 2011. (Série Trilhas do Campo). Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/ agrotoxicos/publicacoes/cartilha-sobre-agrotoxicos-serie-trilhas-do-campo-1.pdf/view. Acesso em: 15 jul. 2024. ALI, S. A. Dermatoses ocupacionais. 2. ed. São Paulo: Fundacentro, 2009. 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