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Brasília-DF. Ergonomia, ambiEntE E as DoEnças Do trabalho Elaboração Elisa Maria Amate Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário APRESENTAÇÃO ................................................................................................................................. 5 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA .................................................................... 6 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 8 UNIDADE I ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR ................................................................................... 9 CAPÍTULO 1 UM POUCO DE HISTÓRIA... ....................................................................................................... 9 CAPÍTULO 2 MEDICINA DO TRABALHO, SAÚDE OCUPACIONAL E SAÚDE DO TRABALHADOR ........................ 18 CAPÍTULO 3 SAÚDE DO TRABALHADOR: O COLETIVO E O INDIVIDUAL......................................................... 27 CAPÍTULO 4 ANAMNESE OCUPACIONAL .................................................................................................... 36 CAPÍTULO 5 AGRAVOS À SAÚDE RELACIONADOS AO TRABALHO E AO AMBIENTE ....................................... 39 UNIDADE II DIRETRIZES E ATORES DA ESFERA PÚBLICO-PRIVADA DA SAÚDE DO TRABALHADOR ................................ 43 CAPÍTULO 1 POLÍTICAS PÚBLICAS EM SAÚDE DO TRABALHADOR ................................................................. 43 CAPÍTULO 2 SERVIÇOS ESPECIALIZADOS E PROGRAMAS DE SAÚDE E SEGURANÇA DO TRABALHADOR ....... 49 UNIDADE III SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO .................................................................. 58 CAPÍTULO 1 DOENÇAS DO TRABALHO CAUSADAS POR FATORES DE RISCO FÍSICO, QUÍMICO E BIOLÓGICO, PSICOERGONÔMICO E MECÂNICO – ACIDENTES .................................................................. 58 CAPÍTULO 2 ACIDENTE COM EXPOSIÇÃO A MATERIAL BIOLÓGICO RELACIONADO AO TRABALHO ............. 61 CAPÍTULO 3 CÂNCER RELACIONADO AO TRABALHO (DECORRENTE DA EXPOSIÇÃO AO BENZENO) ........... 67 CAPÍTULO 4 DERMATOSES OCUPACIONAIS ................................................................................................ 72 CAPÍTULO 5 DISTÚRBIOS OSTEOMUSCULARES RELACIONADOS AO TRABALHO (DORT) ................................. 76 CAPÍTULO 6 PERDA AUDITIVA INDUZIDA POR RUÍDO (PAIR) RELACIONADA AO TRABALHO ............................ 81 CAPÍTULO 7 PNEUMOCONIOSES RELACIONADAS AO TRABALHO ............................................................... 85 CAPÍTULO 8 TRANSTORNOS MENTAIS RELACIONADOS AO TRABALHO ......................................................... 88 CAPÍTULO 9 TRABALHO INFANTIL ................................................................................................................ 97 UNIDADE IV ERGONOMIA ...................................................................................................................................... 99 CAPÍTULO 1 ORIGENS E CARACTERÍSTICAS DA ERGONOMIA ..................................................................... 99 CAPÍTULO 2 CONTEXTO DE PRODUÇÃO DE BENS E SERVIÇOS (CPBS) ...................................................... 111 CAPÍTULO 3 ANÁLISE ERGONÔMICA DO TRABALHO (AET) ........................................................................ 118 CAPÍTULO 4 NORMA REGULAMENTADORA 17 ......................................................................................... 125 PARA (NÃO) FINALIZAR ................................................................................................................... 130 REFERÊNCIAS ................................................................................................................................ 131 5 Apresentação Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 6 Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. 7 Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 8 Introdução No cenário contemporâneo, as transformações ocorridas nos processos produtivos (precarização, informalidade, globalização etc.) implicam a necessidade de construção de conhecimento sobre agravos relacionados ao trabalho para além do estudo de suas manifestações clínicas. Essa construção será fomentada como categoria fundamental de reconhecimento da relação “causa e efeito”, resultante da interação da tríade ambiente-saúde-trabalho. O ponto de partida será a definição dos principais conceitos até o rol de agravos relacionados ao assunto em questão. O assunto não se esgota porque ele faz interface direta com as demais disciplinas do curso e o cotidiano de profissionais da área de Segurança e Saúde do Trabalhador, pública ou privada. Portanto, a disciplina contribui para a discussão dos entrecruzamentos dos campos do Ambiente, Saúde e Trabalho, por intermédio da compreensão dos aspectos conceituais e históricos. Assim, possibilita-se avaliar todas aquelas situações que ofereçam risco de acidentes e adoecimento associados aos processos produtivos, à avaliação de procedimentos utilizados na investigação das situações de risco, bem como as metodologias utilizadas na suaprevenção e controle. Dá-se ênfase às morbidades mais prevalentes. Objetivos » Aprofundar os aspectos conceituais e históricos do campo da Saúde Ambiental e do Trabalhador. » Identificar as relações entre saúde, ambiente e trabalho, de maneira a estimular a prevenção de fatores de riscos que levariam à redução de NTEP. » Identificar os principais sujeitos envolvidos nos procedimentos de investigação de situações de risco para a saúde do trabalhador. » Analisar os procedimentos utilizados para a investigação de situações de risco, bem como as metodologias utilizadas em sua prevenção e controle. » Avaliar as situações de risco e dos acidentes e patologias associadas aos processos produtivos. 9 UNIDADE I ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR CAPÍTULO 1 Um pouco de História... Os acidentes e doenças relacionadas ao trabalho são antigos e a sua origem está vinculada ao surgimento do trabalho: ao longo de toda História, as condições do ambiente de trabalho têm causado incapacidades e mortes para um grande número de trabalhadores (MATTOS; MÁSCULO, 2011). Observe: » Na Antiguidade, essa associação foi encontrada em papiros antigos, no Império Babilônico e em escrituras greco-romanas. Nesse período, predominava o conceito de fenômenos de origem mágico-religiosa e, posteriormente, naturalista. » No Egito, há registros de 2360 a.C., como o Papiro Seler II e o Anastasi V, sendo este último conhecido como “Sátira dos Ofícios”, de 1800 a.C., no qual estão evidenciados problemas relativos à insalubridade, periculosidade e penosidade dos profissionais à época (MATTOS; MÁSCULO, 2011). » Em 1750 a.C., o código de Hamurabi trazia em seu bojo cerca de 281 artigos a respeito das relações de trabalho, família, propriedade e escravidão. Um deles, em especial, tratava da pena de morte ao arquiteto que projetasse uma casa que desmoronasse e causasse a morte de seus ocupantes. » As civilizações greco-romanas não tinham interesse em estudar o trabalho em si, uma vez que essa área era de competência dos escravos. Entretanto, houve estudos relevantes, como o tratado de Hipócrates, Sobre os Ares, Águas e Lugares, no século IV a.C., cujo conteúdo indicava ao médico a relação entre ambiente e saúde, bem como descreveu um quadro de intoxicação saturnina em um mineiro. No séc. I a.C., o naturalista romano Plínio escreve um tratado chamado História 10 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR Natural, evidenciando o aspecto dos trabalhadores expostos a chumbo, mercúrio e poeiras (MATTOS; MÁSCULO, 2011). » No período entre o apogeu do Império Romano e o final da Idade Média, poucos relatos foram encontrados sobre doenças. Porém, nessa época, foram criadas ordens hospitalares para prestar atendimento a enfermos (MATTOS; MÁSCULO, 2011). A sociedade feudal caracterizava-se pela produção de bens e serviços efetuados pelo trabalho servil e artesanal. Mas qual era a relação de servidão com o acúmulo de capital? Os camponeses não eram trabalhadores livres e não possuíam direito de propriedade ou de venda de sua força de trabalho em troca de salário, onde quer que estivessem. O senhor feudal e o clero exigiam os dízimos e impostos, pouco se importando com o estado de saúde de seus subalternos. A assistência ao doente ou inválido era arcada pela família, pois o trabalho e as doenças decorrentes disso não eram objetos de regulamentação e interferência do Estado (VASCONCELOS; OLIVEIRA, 2011). O artesão era capaz de realizar todas as tarefas do ofício, conhecendo o início e o fim do trabalho, não o distanciando de seu objeto de atuação, o que ocorrerá na Revolução Industrial. Após anos, apenas em 1473, Ulrich de Elsborg desenvolveu o estudo sobre vapores metálicos, em que há o descritivo de sinais e sintomas de envenenamento ocupacional por monóxido de carbono, chumbo, mercúrio e ácido nítrico, além de sugerir medidas preventivas (MATTOS; MÁSCULO, 2011). Até o final do século XV, muitas pesquisas tratavam de doenças causadas por agentes químicos, como o estudo completo De Re Metallica (George Bauer ou Georgius Agricola, Inglaterra), que se compõe de: problemas relacionados às atividades de extração e fundição de prata e ouro; acidentes de trabalho; doenças comuns entre mineiros; e meios de prevenção (MATTOS; MÁSCULO, 2011). Já no início do século XVIII, o mundo do trabalho sofreu grandes transformações com o surgimento de novos estudos pela Europa e, por conseguinte, com as grandes contribuições para a medicina do trabalho, como a obra De Morbis Artificum Diatriba, de Bernadino Ramazzini. Em seu estudo, o autor descreveu as doenças, os riscos e as precauções relacionados a 50 profissões da época. É considerado o pai da medicina do trabalho (MATTOS; MÁSCULO, 2011). No final do XVIII e início do século XIX, ocorre na Europa a Revolução Industrial, inicialmente na Inglaterra, França e Alemanha, tendo como marcos a invenção da máquina a vapor por James Watts (1784) e a publicação polêmica de Adam Smith da 11 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR │ UNIDADE I obra Riqueza das nações (1776), apontando as vantagens econômicas na divisão do trabalho (MATTOS; MÁSCULO, 2011). Nesse espectro, a forma de fabricação industrial caracterizou-se por: 1. Divisão técnica do trabalho; 2. Uso intensivo de máquinas do dono da empresa; e 3. Uso de energia motriz capaz de movimentar um conjunto de máquinas. A operação das máquinas gerava uma divisão técnica do trabalho e as atividades passaram a ser parceladas, com tarefas divididas, exigindo movimentos de partes específicas do corpo do trabalhador (VASCONCELOS; OLIVEIRA, 2011). Com o furor causado pela Revolução Industrial, houve grande aumento da produtividade e ampliação do consumo de bens pela sociedade em geral, necessitando de mais mão de obra para conduzir as máquinas. Para isso, foram empregadas mulheres, homens e crianças (a partir dos 6 anos), em condições de trabalho degradadas, como jornada de trabalho prolongada, ruído exacerbado, más condições de higiene no local de trabalho, somando-se a esses aspectos o elevado número de acidentes e adoecimentos (MATTOS; MÁSCULO, 2011). A indústria capitalista demandou legiões de trabalhadores e trouxe consigo efeitos devastadores, como alta frequência de mortes, epidemias e mutilações, contudo, em função disso, várias leis começaram a ser editadas, principalmente na França e Inglaterra (VASCONCELOS; OLIVEIRA, 2011). A situação só se modificou com os movimentos sociais de trabalhadores, que obrigaram legisladores e políticos a repensar o papel do Estado na regulação das condições de trabalho nas fábricas. Desta forma, em 1802, foi aprovada a Lei da Preservação da Saúde e da Moral dos Aprendizes e de Outros Empregados, constituindo-se, portanto, na primeira legislação de amparo e proteção aos trabalhadores. E aí foi feita uma comissão de inquérito do parlamento britânico, que estabelecia a jornada diária de trabalho de 12 horas, proibia o trabalho noturno e obrigava a ventilação e lavagem das paredes das fábricas pelos empregadores (MATTOS; MÁSCULO, 2011). As ações dessa comissão parlamentar resultaram na primeira legislação no campo da saúde do trabalhador, a Factory Act (Lei das Fábricas), que, apoiada pela sociedade britânica, obrigou todos os empregadores a proibirem o trabalho noturno para menores de 18 anos e montarem escolas para menores de 13 anos. 12 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR Além disso, a idade mínima para o trabalho passou a ser de 9, e não mais de 6 anos, e o desenvolvimento físico do trabalhador menor deveria ser avaliado por um médico. No mesmo ano, a Lei Operária foi aprovada na Alemanha (MATTOS; MÁSCULO, 2011). A Factory Act tomou por base o conselho de Baker, que foi um médico contratado por um industrial inglês, Robert Derham, em 1830, para estudar a melhor forma de preservar a saúde dos trabalhadores de sua fábrica. Após seu estudo, Baker sugeriu que Derhamcontratasse um médico que visitasse a fábrica diariamente e estudasse a influência do trabalho na saúde dos trabalhadores – aqui foi criado o ensaio do primeiro serviço médico industrial do mundo. Quatro anos depois, Baker foi nomeado inspetor médico do parlamento inglês. A criação da legislação ocupacional na Inglaterra contou também com a contribuição de Charles Turner Thackrah, em 1830, quando ele publicou um livro sobre doenças ocupacionais. Quando os trabalhadores começaram a ser contratados massivamente pela via salarial, costumava-se pagá-los por produção, e as jornadas de trabalho eram muito mais longas do que as atuais – podiam atingir de 16 a 18 horas seguidas – e, comumente, eram empregadas crianças e mulheres para realizar tarefas árduas, fato gerador de duras críticas por parte das primeiras associações formadas por trabalhadores (primeiros sindicatos, por assim dizer). A partir daí, obteve-se a melhoria das condições de trabalho e o advento das primeiras leis no século XVIII, que se consolidariam especialmente no século XIX, em alguns países da Europa, como França e Inglaterra, e nos Estados Unidos da América (MATTOS; MÁSCULO, 2011). No auge da Revolução Industrial, muitos artesãos habilitados foram contratados e mantiveram suas tradições e regras de ofício até a difusão da “organização científica do trabalho”, por Frederic Taylor, a partir do século XX. Dessas tradições e regras de ofício, partiram muitos marcos regulatórios que determinariam a organização do trabalho e cuidados aos riscos profissionais para a saúde do trabalhador (VASCONCELOS; OLIVEIRA, 2011). A transição ocorreu com as profundas transformações provocadas pelo taylorismo e fordismo. O fordismo desencadeou a 2a Revolução Industrial quando Henry Ford estabeleceu, em sua montadora de carros nos Estados Unidos, o gerenciamento científico de Taylor, valorizando todas as formas de intensificação das tarefas e automação industrial (VASCONCELOS; OLIVEIRA, 2011), instituindo a produção em série e o consumo em massa. Aqui o trabalhador entra como uma equipagem merecedora de processos de análise seletiva na sua inserção na indústria. Nessa condição, a manutenção da sua saúde destina-se a evitar o absenteísmo por meio 13 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR │ UNIDADE I de práticas de medicina, psicologia, higiene industrial, com vias de não interferir na produtividade e no lucro. Leia o artigo “Fordismo, taylorismo e toyotismo: apontamentos sobre suas rupturas e continuidades”, de Érika Batista, disponível em nossa biblioteca virtual. A partir do século XX, algumas organizações criaram resoluções e convenções na tentativa de melhorar as condições de trabalho e atendimento à saúde em todos os países membros que tivessem aderido às referidas convenções. Estamos falando das organizações multigovernamentais tais como a ONU e suas afiliadas: OIT (Organização Internacional do Trabalho) e OMS (Organização Mundial da Saúde) (MATTOS; MÁSCULO, 2011). Em 1979, foi retomado o movimento sindical no Brasil, e várias entidades tiveram acesso às informações das empresas, prontuários, laudos e exames médicos de trabalhadores para constituir dossiês e instigar a discussão das suas condições de vida e trabalho, divulgando essas informações na imprensa e estações de rádio e de televisão daquela época (MATTOS; MÁSCULO, 2011). É importante ressaltar que esse movimento deu fruto a uma obra pioneira na integração das atividades sindicais com a pesquisa em saúde e área jurídica: “De que adoecem e morrem os trabalhadores”, organizado pelo médico Herval Ribeiro e Francisco Lacaz. Obras como essa foram fruto de pesquisas organizadas pelos sindicatos para melhoria de base técnica em defesa dos direitos dos trabalhadores (MATTOS; MÁSCULO, 2011). Muitos sindicalistas conseguiram espaço com direito a voto nos processos de criação e retificação das normas regulamentadoras, bem como a participação nos embrionários Conselhos-Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (MATTOS; MÁSCULO, 2011). O movimento de redemocratização e a abertura cultural e política, aliados ao intercâmbio entre entidades ambientalistas, pesquisadores, sindicatos e outros intelectuais da época, resultaram na inserção de leis de proteção ao meio ambiente e saúde do trabalhador na Constituição Federal de 1988 e em legislações estaduais (MATTOS; MÁSCULO, 2011). Essa pressão incisiva, fomentada pelos sindicatos sobre os parlamentares e Administração Pública, foi em sua maioria integrada por categorias de trabalhadores atreladas diretamente às atividades econômicas com dependência direta dos recursos 14 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR naturais, das águas, compostos químicos, além de trabalhadores rurais, sem-terras e extrativistas (MATTOS; MÁSCULO, 2011). Ora, essas categorias possuíam a real dimensão dos impactos ambientais e da saúde dessas atividades econômicas... Você sabia que a implantação da NR 5 começou, de fato, nas plantas industriais químicas e refinarias de petróleo? Em 1990, multiplicaram-se casos de contaminação por exposição a compostos químicos, em que as doenças mais prevalentes apresentadas foram leucemia e outros tipos de cânceres. Na indústria química, trabalhadores e comunidade em volta desses complexos industriais são expostas à toxicidade variada dos insumos, produtos e subprodutos efluentes. Por isso, a preocupação da comunidade veio se somar ao foco ocupacional, e a noção de perigo foi cada vez mais agregada ao conhecimento dos sindicalistas sobre os riscos químicos para a saúde humana e ambiental. Os problemas de saúde ocupacional pioraram com a 2a Revolução Industrial, advinda pela descoberta da eletricidade e motor de explosão, culminando no surgimento de várias obras que tratavam da situação do mundo do trabalho naquela época, como o livro O Capital, de Karl Marx, que trata principalmente dos mecanismos de acumulação de capital pelos empregadores por meio da mais-valia, além de descrever a exploração da mão de obra na Inglaterra. Nesse período, a enfermeira italiana Florence Nightingale publicou, em 1861, “Notas sobre a enfermagem para as classes trabalhadoras”, tornando-se pioneira em sua área de atuação. Diante do quadro preocupante, muitos países do continente europeu aprovaram leis sobre a reparação de acidentes e doenças profissionais, como a Alemanha (1884), Inglaterra (1897), França (1898), Portugal (1913) e, no continente americano, os Estados Unidos (1911) (MATTOS; MÁSCULO, 2011). Em 1900, foi criada a Internacional Association for Labour Legislation – embrião da OIT, que seria formalmente criada após 19 anos. As duas primeiras convenções internacionais sobre o trabalho, especificamente sobre trabalho noturno das mulheres e eliminação de fósforo branco da indústria de máquinas, foram originadas em conferências diplomáticas realizadas em Berna, na Suíça (1905). A medicina do trabalho foi reconhecida enquanto especialidade somente em 1954. Os movimentos mundiais pela conscientização do papel fundamental da saúde do trabalhador foram motivadores para o trabalho em conjunto da OIT e OMS de tal modo que, na década de 1950 do século passado, uma comissão conjunta foi formada para tratar da saúde ocupacional, na Suíça, e, desde essa época, o tema tem sido debatido em vários encontros da Conferência Internacional do Trabalho (MATTOS; MÁSCULO, 2011). 15 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR │ UNIDADE I Na história brasileira colonial e imperial, a mão de obra escrava teve uma importância central no panorama econômico, perfazendo um total de 400 anos de trabalho escravo. Diferentemente do que imaginamos, naquela época, surgiu uma prática de medicina do trabalho dirigida aos escravos com um foco do que hoje seria a zootecnia ou medicina veterinária: o escravo era considerado mercadoria animal, cujo senhorio era proprietário de corpo físico, da liberdade e da prole do escravo por toda eternidade. Considerandoa escravidão em larga escala nas Américas, o mercado de escravos organizou-se de maneira distinta do mercado de força de trabalho desenvolvido no modo capitalista industrial. A visibilidade da doença do trabalho se perdia em um mundo de extrema violência e crueldade, o que se configuraria em um massacre moral extremo e desastre epidêmico (VASCONCELOS; OLIVEIRA, 2011). Quando doentes, os escravos eram tratados por seu valor patrimonial, caso houvesse interesse do proprietário, caso não sobrevivesse, era substituído por outro hígido. Segundo Vasconcelos e Oliveira (2011), a medicina do trabalho no Brasil surge como aquela assistência à saúde dos escravos por meio de práticas de medicina veterinária aplicadas aos seres humanos em cativeiros. Algumas leis foram promulgadas para amenizar o sofrimento dos escravos durante o Império, culminando com a Lei Áurea, em 1888. Pouco se diferenciava as condições de trabalho no Brasil com aquelas encontradas na Europa, quando do advento da indústria em território nacional. Com aumento da atividade fabril, principalmente em São Paulo, os movimentos sociais pressionaram o Estado à criação de legislação trabalhista em 1917, ainda que rudimentar, e também uma lei sobre acidentes de trabalho em 1919. Aqui, a Revolução Industrial foi tardia, assim como em toda América Latina, lá pelos idos dos anos de 1930, tendo-se a promulgação da Consolidação das Leis do Trabalho (1943), por Getúlio Vargas, como marco principal do século XX (MATTOS; MÁSCULO, 2011). A 8a Conferência Nacional de Saúde e seus desdobramentos na Assembleia Nacional Constituinte, bem como a criação do Sistema Único de Saúde, advieram dos ideais e bases teóricas fomentados pela Epidemiologia Social. Ela apresentou avanços tecnológicos importantes na América Latina, desde o final da década de 1970, tendo grande reflexo na saúde pública brasileira. A ênfase no processo de produção estimulou a expansão conceitual da “Saúde Ocupacional” para “Saúde dos Trabalhadores”, paralela à implantação de políticas de saúde coerentes com esse novo marco. Em paralelo, a pauta da saúde ambiental ganhava espaço nas esferas políticas do mundo inteiro. Após a Rio 92, no Brasil, o campo da saúde ambiental teve uma abertura maior não apenas ao debate específico 16 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR sobre o saneamento básico e as doenças infectocontagiosas, mas também ao enfoque de problemáticas a respeito de agrotóxicos, metais pesados, contaminação das águas para consumo humano, ambiente urbano, além de outros. Isso representaria os primeiros passos para o delineamento de uma política de saúde ambiental consistente (RIGOTTO, 2003). Do ponto de vista institucional, as questões ambientais, tradicionalmente relacionadas à saúde no Brasil – numa preocupação quase que exclusiva de instituições voltadas ao saneamento básico (água, esgoto, lixo etc.) –, estiveram, durante muitos anos, pautadas nas propostas do Governo e atreladas aos diversos campos internos do aparelho de Estado, notadamente em alguns ministérios, como o da Saúde e do Interior, secretarias estaduais e municipais, além de algumas Universidades. A partir da década de 1970, com a piora dos problemas ambientais gerados pelo crescimento industrial, novas instituições surgiram ou foram criadas, como a Companhia Estadual de Tecnologia em Saneamento Ambiental (CETESB) e a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (FEEMA). Essas instituições contribuíram para o desenvolvimento de ações de monitoramento e controle da poluição ambiental, sem sequer ter ligação com o sistema de saúde. Em outra via, a elaboração de novas teorias e abordagens que renovavam esse aporte institucional estava latente no mundo acadêmico – estando majoritariamente associado a outras organizações civis no bojo da luta pela redemocratização do país (TAMBELINNI; CÂMARA, 1998). Com o crescimento da saúde do trabalhador, a partir do final da década de 1970, e durante toda a década de 1980, ficou explícito o elo existente entre essas questões e o sistema de saúde, abrindo o caminho para a incorporação de uma saúde ambiental moderna no setor. O período anterior à realização da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (UNCED), em 1992, no Rio de Janeiro, também corroborou para aumentar as preocupações com os problemas de saúde relacionados ao ambiente. Além disso, esse período pode ser caracterizado pelo crescimento dos movimentos ecológicos – ONGs e outras formas organizadas de luta da sociedade civil pela preservação do ambiente e da saúde –, que ganharam dia após dia mais publicidade. Esse desenrolar de fatos históricos concatenados demonstra e explicita o convencimento do meio político e social a respeito da importância da questão ambiental em seus desdobramentos para a saúde humana, atingindo todo o planeta também (TAMBELINNI; CÂMARA, 1998). O SUS resulta de movimentos inusitados na área de saúde do trabalhador: influencia a organização da saúde do trabalhador na rede pública como direito universal e dever do Estado, incorpora princípios institucionais nas legislações estaduais, introduz o conceito ampliado de saúde do trabalhador – diferente dos conceitos reducionistas 17 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR │ UNIDADE I de medicina do trabalho e saúde ocupacional –, e vislumbra a saúde como elemento central na proteção dos trabalhadores diante das imposições econômicas e sociais dos processos de trabalho historicamente arraigados (VASCONCELOS; OLIVEIRA, 2011). Falaremos detidamente sobre esse assunto nos próximos capítulos, quando da evolução das políticas de Saúde no Trabalho (ST) no SUS até a atualidade, partindo da década de 1980. 18 CAPÍTULO 2 Medicina do trabalho, saúde ocupacional e saúde do trabalhador A medicina do trabalho está pautada principalmente na presença de um serviço médico dentro das empresas, para monitorar a saúde dos trabalhadores, modelo ainda muito próximo à sua origem na Revolução Industrial (vide história de Baker). Mendes e Dias (1991) descrevem, além dessas, outras características típicas da especialidade em questão: é-lhe atribuída a tarefa de cuidar da “adaptação física e mental dos trabalhadores”, supostamente contribuindo na colocação deles em lugares ou tarefas correspondentes às aptidões. Essa adaptação estaria mais limitada à seleção de candidatos mais sadios e à adequação dos trabalhadores às suas atividades, e não o inverso. É atribuída a essa tarefa “a contribuição à manutenção do nível mais elevado possível do bem-estar biopsicossocial dos trabalhadores”, conferindo-lhe ainda um caráter de plenitude e inerente à própria concepção positivista da prática médica. No campo das ciências da administração, a medicina do trabalho vai sustentar o desenvolvimento da “Administração Científica do Trabalho”, em que os princípios de Taylor, ampliados por Ford, encontraram uma aliada para aumentar produtividade nas empresas (MENDES; DIAS, 1991). Entretanto, essa onipotência começa a dar espaço a uma nova abordagem de relação saúde versus trabalho, denominada saúde ocupacional, que visava à adequação à nova realidade resultante das inovações tecnológicas introduzidas após a Segunda Guerra Mundial (MATTOS; MÁSCULO, 2011). Assim, o contexto econômico e político – como o pós-guerra, o custo provocado pela perda de vidas e as doenças do trabalho – começou a ser também sentido pelos empregadores e pelas companhias de seguro, às voltas com o pagamento de pesadas indenizações por incapacidade provocada pelo trabalho (MENDES; DIAS, 1991). Uma vez que o modelo positivista centrado na figura do médico não respondia às inovações tecnológicas e da sociedade, repensou-se a metodologia que aliasse médicos e engenheiros para higienizar os ambientes insalubres, ou seja, o que antes tinha como centro das atenções o trabalhador, agora extrapola para o ambiente em volta. Eis que surge a saúde ocupacional.19 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR │ UNIDADE I Entretanto, nas escolas de saúde pública dos Estados Unidos, o desenvolvimento do novo modelo proposto não promoveu a multidisciplinariedade na íntegra, acompanhado de certa desqualificação do aspecto epidemiológico do trabalho (MENDES; DIAS, 1991). Para Mattos e Másculo (2011), essa abordagem é tecnicista, valoriza os ambientes de trabalho e agentes ambientais com atenção à saúde do trabalhador sadio, quantifica os riscos ambientais e despreza a análise dos processos de trabalho e organização da produção com o contexto social. O trabalhador permanece como objeto de análise – para melhor produtividade – e não como sujeito ativo de transformação do seu meio. A partir do final dos anos 1960, começam as críticas à concepção de saúde e à denúncia dos efeitos negativos da medicalização e do caráter ideológico e reprodutor das instituições médicas. Nesse intenso processo social de discussões teóricas e de práticas alternativas, ganha corpo a teoria da determinação social do processo saúde-doença (MENDES; DIAS, 1991). O modelo operário italiano contribuiu para as mudanças na relação saúde versus trabalho, por meio do Estatuto dos Direitos dos Trabalhadores (1970), em que foram incorporadas as reivindicações dos trabalhadores ao corpo da lei. Dessa forma, surge um novo conceito de trabalho versus saúde, enquanto modelo participativo, em que: 1. O trabalhador é sujeito de transformações do ambiente de trabalho; 2. A epidemiologia estuda as questões sanitárias da massa de trabalhadores e não do indivíduo; e 3. O indivíduo agora é considerado ser holístico, traduzindo esse modelo quanto ao cuidado biopsicossocial, levando-se em conta os macrocondicionantes externos ao trabalho nos determinantes em saúde para o desenvolvimento de doenças e agravos relacionados ao trabalho (MATTOS; MÁSCULO, 2011; ANAMT, 2014). As ações vinculadas à relação saúde e trabalho são resultados de diferentes conceitos e práticas de diversas correntes que tentaram, ao longo de anos, trazer a hegemonia do conceito (conhecimento) para si. Esse modelo de análise nos permite conceber alguns conceitos de áreas específicas no campo da saúde e das normas (jurídico) segundo a sua abordagem em relação ao processo de trabalho, reflentindo-se em algumas áreas específicas, como a medicina do trabalho, saúde ocupacional e saúde do trabalhador (MATTOS; MÁSCULO, 2011). 20 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR A relação saúde, ambiente e trabalho O homem é ao mesmo tempo criatura e criador do meio ambiente, que lhe dá sustento físico e lhe oferece a oportunidade de desenvolver-se intelectual, moral, social e espiritualmente (...) Natural ou criado pelo homem o meio ambiente é essencial para o bem-estar e para o gozo dos direitos humanos fundamentais, até mesmo o direito à própria vida (ONU, 1972). Quaisquer ações do homem têm impacto sobre a natureza, sejam positivas ou negativas: a sua criticidade, determinada pela intensidade e a natureza do impacto, é equivalente à organização social e às atividades econômicas desenvolvidas pelo homem. Dentre alguns problemas apresentados por essa relação entre o homem e a natureza, ressaltam-se os ambientais, que incidem sobre a saúde. Em meados do século XIX, o intenso processo de industrialização e urbanização acelerou os efeitos do meio ambiente na saúde humana, acometendo as condições de vida e trabalho das populações (RADICHI; LEMOS, 2009). É pacificado o entendimento dos cientistas e estudiosos do assunto acerca da existência de uma crise generalizada e profunda, insistentemente denominada por alguns deles como “crise da modernidade”. Um dos aspectos evidentes dessa crise diz respeito à questão ambiental. Depois de longa trajetória de crescimento, marcada pela infinita capacidade do desenvolvimento tecnológico em dar resposta aos problemas externos produzidos pelos processos produtivos, no início dos anos 1970 do século passado, a economia contemporânea tem seus padrões de produção e consumo questionados (RADICHI; LEMOS, 2009). Os problemas ambientais são decorrentes tanto da modernidade expansiva quanto do atraso e da pobreza: países pobres e ricos, ambientes aquáticos e terrestres, a atmosfera e as aglomerações urbanas, todos vivem as consequências (impactos) dos modos de produção e reprodução material criados pela e na modernidade. Esses impactos ambientais gerados sobre a saúde humana podem se manifestar sob a forma de eventos agudos de grandes proporções, como os acidentes industriais ampliados – Seveso, Chernobyl, Bhopal, entre outros –, bem como o adoecimento em doses homeopáticas traduzido em mortes, cânceres, malformações congênitas e intoxicações crônicas geradas por contaminações ambientais devido à prolongada exposição a doses variadas de diferentes poluentes. Desigualdades entre povos, países ou até mesmo regiões fazem com que muitos problemas ambientais atinjam populações mais pobres e marginalizadas pelo processo 21 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR │ UNIDADE I de desenvolvimento de forma diferenciada. Riscos ambientais modernos atingem com mais gravidade os “excluídos”, como aquelas pessoas que moram em áreas de risco como encostas, áreas de enchentes ou de poluição. Os processos que mais consomem recursos naturais e os mais geradores de poluentes se caracterizam por processos de trabalho muito insalubres e perigosos e tenderiam a se localizar naqueles locais que apresentam legislações ambientais e trabalhistas mais flexíveis, onde a população (trabalhadores) esteja mais suscetível a aceitar precárias condições de vida e trabalho, bem como onde a desinformação é o canal mantenedor de injustiças ambientais (RIGOTTO, 2003). Em nível de industrialização, essa desigualdade é traduzida enquanto “perigos tradicionais” como, por exemplo, a contaminação dos alimentos por organismos patógenos, a falta de acesso à água potável, saneamento básico deficitário em moradias e na comunidade pobres etc. Jáos “perigos modernos estão relacionados ao desenvolvimento rápido e ao consumo insustentável dos recursos naturais” (RIGOTTO, 2003), que não levam em conta a proteção a saúde e o meio ambiente . Esses “perigos modernos” são oriundos de processos produtivos – particularmente os de natureza industrial –, nos moldes do padrão de consumo que o modo de produção capitalista impõe à sociedade bem como na indução da utilização de mão de obra das aglomerações urbanas, de forma a atender às necessidades de força de trabalho e infraestrutura. Seriam os perigos modernos a seguir: contaminação da água pelos núcleos de população, indústria e agricultura intensiva; contaminação do ar urbano pelas emissões de motores de veículos, centrais energéticas e indústria; acumulação de resíduos sólidos e perigosos etc. (RIGOTTO, 2003). Para saber mais sobre injustiça ambiental e o mapa de conflitos atuais no Brasil, acesse o link a seguir. Disponível em: <http://www.conflitoambiental.icict. fiocruz.br/>. A alteração dos elementos do sistema cria desequilíbrio e, ao tender para o equilíbrio, pode significar benefício ou não para os seres humanos e/ou biológicos. Segundo Rigotto (2003), reconhecer que este tema é complexo e demanda práticas inter e transdisciplinares de produção de conhecimento torna-se essencial à superação dos reducionismos por meio de uma ciência mais dirigida à identificação dos problemas e reconhecimento dos seus limites. Legitimando esse entendimento da autora, no mesmo sentido, as políticas intersetoriais e participativas devem ter ciência dessa dimensão complexa dos problemas ambientais. Reitera-se a necessidade de 22 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR redelineamento e reorientação da função do setor de saúde diante do tema “ambiente”, na elaboração de um modelo mais amplo, fundamentado na promoção da saúde e na perspectiva ampliada de vigilância ema saúde – superando o modelo hegemônicoassistencial-sanitarista vigente (RADICCHI; LEMOS, 2009). Segundo Rigotto (2003), um indivíduo é considerado exposto a um fator de risco quando existem vias de ingresso do fator ao organismo (inalação, ingestão, contato dérmico etc.). Nas situações de exposição a algum poluente, é estritamente necessário o conhecimento a respeito de: » Toxicologia do contaminante, características como a capacidade de transformação, tempo de atividade no ambiente e vias ingresso no organismo, por exemplo; » Grupo de pessoas exposto a esse poluente; » Local de exposição ao risco e fonte do mesmo; e » Tempo , intensidade e frequência de exposição das pessoas ao risco. Para a saúde ambiental, as evidências maiores são representadas pelos acidentes, doenças e outros agravos causados por condições do ambiente. Contudo, quanto às doenças e aos agravos, é complexo definir qual fator ambiental adverso interferiu diretamente na saúde de uma pessoa exposta. Esse fator deveria ser estudado. Essa situação é agravada quando a sintomatologia apresentada pelo exposto é inespecífica, podendo o quadro clínico ficar inalterado muito tempo após a fase inicial da exposição. Essa peculiaridade na saúde ambiental é latente nos estudos epidemiológicos, em que é comum a existência de casos suspeitos, que posteriormente podem ser confirmados ou não. Por isso a importância da vigilância em saúde e da valorização desses sinais e sintomas precoces dos agravos nos estudos epidemiológicos, uma vez que as ações de saúde nessa fase são mais efetivas e podem evitar o desenvolvimento completo do agravo (RADICCHI; LEMOS, 2009). Nos anos 1990, a Organização Mundial da Saúde desenvolveu um “marco causa-efeito para a saúde e o ambiente”, voltado para a elaboração de indicadores de sustentabilidade ambiental pela Comissão de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e pela Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico (OCDE). No campo das relações saúde-ambiente, Briggs, Corvalán e Nurminen, em 1996, construiram um amplo arcabouço de indicadores de saúde ambiental, incluindo temáticas afetas ao contexto sociodemográfico, às condições de saneamento básico, aos fatores de riscos 23 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR │ UNIDADE I ocupacionais, à segurança alimentar, à poluição do ar, entre outras, relacionado abaixo (RIGOTTO, 2003): » Forças motrizes: são responsáveis pela criação das condições que podem desenvolver ou evitar distintas ameaças ambientais para a saúde. Estão assentadas nas políticas que estabelecem as linhas mestras do desenvolvimento econômico, tecnológico, dos padrões de consumo e do crescimento da população. São elas: população, urbanização, pobreza e desigualdade, avanços técnicos e científicos, pautas de produção e consumo, desenvolvimento econômico. Elas exercem... » Pressões sobre o meio ambiente, como a superexploração, contaminação e desigualdade na distribuição da água; a urbanização; a disputa pela terra, a degradação do solo e as mudanças ambientais decorrentes do desenvolvimento agrícola; a industrialização que, embora traga melhores perspectivas, tem consequências desfavoráveis, como as emissões, os resíduos, a utilização de recursos naturais, os acidentes industriais maiores; a energia, em que o uso doméstico de biomassa e carvão ameaça a qualidade do ar em ambientes fechados; as centrais térmicas, as indústrias e os meios de transporte que usam combustíveis fósseis e contaminam o ambiente; e as hidrelétricas que provocam deslocamento de populações e causam mudanças ecológicas; além da energia nuclear. Essas pressões podem produzir mudanças no... » Estado do meio ambiente, alterando a qualidade do ar ambiental urbano, contaminando o ar das moradias; expondo-o a radiações ionizantes; gerando resíduos domésticos; contaminando ou promovendo acesso desigual à água, ou facilitando a transmissão de doenças transmitidas por vetores relacionados à água; contaminando biológica ou quimicamente os alimentos; degradando o solo; trazendo problemas relacionados à habitação – escassez, confinamento, qualidade dos materiais; acidentes e lesões; trazendo exposições nos locais de trabalho e, finalmente, gerando mudanças ambientais de impacto global, como as mudanças climáticas, o esgotamento da camada de ozônio, a contaminação atmosférica transfronteiriça e o movimento dos resíduos perigosos; além do problema das exposições combinadas procedentes de distintas fontes. Para que esse estado alterado do ambiente exerça algum efeito sobre a saúde humana, entre outros fatores, tem que haver a... » Exposição, enquanto interação entre o ser humano e o perigo ambiental. Dessa exposição vão resultar... 24 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR » Efeitos sobre a saúde, que variarão em intensidade, magnitude e tipo de acordo com a natureza do perigo, nível de exposição e número de afetados. Eles atuam junto com os fatores genéticos, a nutrição, os riscos ligados ao estilo de vida e outros fatores para provocar a doença. São eles: as infecções respiratórias agudas, as doenças diarreicas, as preveníveis por vacinação, as doenças tropicais transmitidas por vetores e as doenças emergentes, os acidentes e intoxicações – ocupacionais ou não –; as alterações de saúde mental relacionadas aos fatores físicos, químicos e psicossociais; as doenças cardiovasculares; o câncer – de origem ocupacional, por agentes infecciosos, por contaminantes do ar, da água ou dos alimentos, das radiações ionizantes e não ionizantes, ou dos fumos de tabaco –; as doenças respiratórias crônicas, alergias e problemas de saúde da reprodução (RIGOTTO, 2003). Instrumentos para o estudo das relações produção-trabalho-ambiente-saúde – roteiro para estudo dos processos de trabalho em sua relação com o ambiente interno e externo às atividades produtivas Ao longo desta unidade, verificou-se a intrínseca relação entre a saúde, ambiente e trabalho. A construção histórica de conceitos cruciais se desvelou em processos humanos impactantes no meio ambiente, bem como os efeitos desses processos na saúde humana, constituindo-se enquanto ciclo. Assim, não há que se falar de saúde do trabalhador sem vinculá-la à saúde ambiental e vice-versa. Mas como se poderia analisar os processos de trabalho, considerando o ambiente externo à fábrica? Para facilitar essa análise, Rigotto (2003) elaborou um estudo de processos de trabalho e sua relação com o meio ambiente, abrangendo os ambientes internos e externos às atividades produtivas. Este roteiro a seguir foi adaptado segundo diretrizes estabelecidas pela autora. a. Identificação da empresa: razão social, localização, ramo de atividades. b. Instalação da empresa: área física, tipo de construção, ventilação e iluminação. Condições de conforto e higiene (refeitórios, instalações sanitárias e fornecimento de água potável, vestiário, transporte dentro da empresa). c. Aspectos históricos da organização da empresa: origens da empresa e do capital, evolução, procedência, unidades, produção e mercado consumidor, matérias-primas, subprodutos e produtos finais. 25 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR │ UNIDADE I d. Etapas do processo produtivo (fluxograma): descrever cada uma das etapas do processo de produção, materiais utilizados, ferramentas, máquinas, processos auxiliares ou paralelos bem como produtos finais, resíduos e subprodutos. e. Trabalhadores e relações de trabalho: procedência, distribuição por sexo, idade e etnia, escolaridade, treinamento para a função, critérios para seleção, formas de contrato de trabalho, remuneração, benefícios e jornada de trabalho. f. Organização do trabalho: percepção do trabalhador sobre seu trabalho, grau de satisfação, mecanismos de controle do ritmo e da produção. Jornada diária, salário, pausas, horas extras, férias, contrato de trabalho, relacionamento com colegas e chefias. g. Condições ambientais de trabalho eatenção à saúde: riscos químicos, físicos, biológicos, ergonômicos, de acidentes; natureza, dose, fontes, momentos críticos; medidas de proteção individual e coletiva com adequação, manutenção, eficácia, uso efetivo de equipamentos ou remodelagem de processos; política de assistência médica, ações de segurança e saúde no trabalho; dados epidemiológicos sobre doenças e acidentes. h. Relação com o meio ambiente: área: recursos físicos e espaço ocupado. Fonte e consumo de água, consumo de energia elétrica e de combustíveis. Poluentes da água: vazamentos de tanques, dutos, canalizações, válvulas, bacias, valas e canaletas; borras e lamas; efluentes líquidos; descarte de fluidos, saídas líquidas das estações de tratamento de esgotos e de despejos industriais (dimensionamento e adequação do tratamento). Poluentes do ar: produtos da combustão, gases combustíveis residuais, emanações de substâncias químicas (formas de captação e tratamento). Poluentes do solo: resíduos sólidos, aparas e sucatas, borras, cinzas e poeiras coletadas, embalagens utilizadas (tratamento e destinação). Geração de ruído. Transporte de matérias-primas e de produtos finais: eixos. Coletividades humanas concernidas: vizinhos e transeuntes. a. Relações institucionais: com o município, o estado, os órgãos fiscalizadores do trabalho e do ambiente. 26 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR » Ao final deste capítulo o aluno conseguirá definir: » A evolução histórica da saúde do trabalhador no mundo e Brasil; » A relação entre ambiente, saúde e trabalho; e » A análise preliminar dos processos produtivos e seus efeitos no ambiente. 27 CAPÍTULO 3 Saúde do trabalhador: o coletivo e o individual Aspectos epidemiológicos em saúde do trabalhador A epidemiologia, como área moderna do conhecimento científico, foi fundamental para a elaboração de questões que permitiram a incorporação da relação ambiente-saúde, em termos atuais, no campo da saúde coletiva. Com a introdução das ciências sociais no campo da epidemiologia, o estudo com foco no indivíduo passou a ser na coletividade, possibilitando o debate com as categorias “população” ou “grupos populacionais” tradicionalmente adotadas pela epidemiologia (TAMBELINNI; CÂMARA, 1998). Rigotto (2003) aborda que todo o perfil de adoecimento e morte de uma população poderia ser interpretado no contexto da relação sociedade-natureza, em que doença é sinal de alteração do equilíbrio homem-ambiente, produzida por transformações produtivas, territoriais, demográficas e culturais. E, segundo Tambelinni e Câmara (1998), a intromissão do homem nas coisas da natureza, ou por ela conservadas – ecossistemas –, cria condições de aparecimento e difusão de doenças causadas por agentes etiológicos biológicos, o que determinaria os fatores condicionantes de agravos e, consequentemente, de epidemias. Cada indivíduo tem uma resposta à exposição ambiental, que varia de acordo com a sua suscetibilidade condicionada por fatores relacionados à idade, estado nutricional, predisposição genética, estado geral de saúde, comportamento e estilo de vida, entre outros. Há o fator de que algumas doenças podem ter longo tempo de latência para se manifestar, a exemplo da silicose, que tem um percurso insidioso e prolongado. O conhecimento das condições patológicas mais comumente observadas numa população é de grande relevância e interesse para gestores públicos e profissionais que atuam na promoção, prevenção e assistência em saúde. Os levantamentos epidemiológicos e o processamento de dados advindos de arquivos e sistemas de informação devem servir de base para o correto planejamento e elaboração de medidas de saúde contextualizadas às reais necessidades da população assistida. Nesse contexto, a epidemiologia ganha destaque como ferramenta útil e indispensável. 28 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR A definição de exposição humana e de populações expostas é crucial para identificação das situações de risco (RADICCHI; LEMOS, 2009) e, principalmente, para orientar as ações de saúde relativas à gestão SST, definir o perfil de saúde e adoecimento dos trabalhadores, elaborar indicadores e estatísticas de saúde e acidentes de trabalho, entre outras. Para tanto, o conhecimento de epidemiologia é crucial para o devido acompanhamento dos trabalhadores, delineando-se estudos com metodologias adequadas a resultados palpáveis. Uma forte aliada da epidemiologia, como ferramenta de análise da associação do fator de risco ao agravo do trabalho, é a estatística. Ela é importante ferramenta para constatar a associação de variáveis de causa e efeito e, por conseguinte, a relação causal. Os estudos epidemiológicos devem valorizar os sinais e sintomas precoces dos agravos, uma vez que as ações de saúde nessa fase são mais efetivas e podem evitar o desenvolvimento completo do agravo. Há muitas incertezas em estimar tanto as exposições como os efeitos e suas relações (RIGOTTO, 2003). Por outro lado, a reação adversa a um contaminante pode assumir várias formas que afloram, desde sinais mais simples como um desconforto físico ou psicológico, passando por alterações fisiológicas de difícil interpretação, doenças clínicas de intensidade variável, até a morte (RADICCHI; LEMOS, 2009). Segundo Rigotto (2003), algumas patologias podem ter largo tempo de latência para se manifestar. Não obstante os avanços na produção de conhecimento nas últimas décadas, principalmente no campo da epidemiologia, ainda tem-se muita incerteza no bojo das relações saúde-doença-ambiente, especialmente quando se é incisivo no estabelecimento das correlações ou na medição de impactos das condições do ambiente sobre a saúde. Contudo, a sociedade em si – muito marcada pelo positivismo – sempre demandará evidências, valores, medições, avaliações quantitativas, em suma, números para justificar mudanças de prioridades ou do modo de agir, permitindo o monitoramento de níveis de poluição, estabelecer prioridades de acordo com os recursos disponíveis e com a relação custo-benefício de algumas ações (RIGOTTO, 2003). A consciência da importância da relação do trabalho com a saúde da população trabalhadora e não trabalhadora cresceu à medida que os profissionais da área de saúde do trabalhador e afins detiveram o conhecimento das tecnologias e metodologias para a avaliação e controle dos riscos originados a partir dos ambientes de trabalho. Essa é outra das razões que levou grupos de instituições de pesquisa e ensino a definirem 29 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR │ UNIDADE I seu campo de atuação de forma mais abrangente, sob a denominação de “Trabalho, Ambiente e Saúde”. Esse motivo vem fortalecendo o desenvolvimento de uma área técnica de intervenção nos serviços públicos sob a denominação de Saúde Ambiental dentro do Ministério da Saúde e de outras instituições de pesquisa, como a Fiocruz (TAMBELINNI; CÂMARA, 1998). De forma a atender às demandas da sociedade, supracitadas, enquanto alternativa viável e tangente ao conhecimento e à detecção de qualquer mudança nos fatores determinantes e condicionantes do meio ambiente que interferem na saúde humana, veio a proposta do Sistema Nacional de Vigilância Ambiental em Saúde. Além da definição do escopo de atuação desse sistema, ele tem a finalidade de identificar as medidas de prevenção e controle dos fatores de risco ambientais relacionados às doenças ou a outros agravos (CÂMARA, 2005). Vigilância em saúde A este respeito, acompanhe o seguinte trecho da revista Ciência e Saúde Coletiva: O termo Vigilância tem sua origem nas ações de isolamento e quarentena no pós II Guerra Mundial, especialmente nos Estados Unidos da América (EUA) do período da Guerra Fria, o conceito de Vigilância esteve associado à ideia de “inteligência”, em razão dos riscos de guerra química e ou biológica. Nos EUA, a vigilância evoluiu, passando a significara ação coordenada para controle de doenças na população, constituída de monitoramento, avaliação, pesquisa e intervenção. No Brasil, até a década de 1950 do século passado, o conceito de Vigilância era compreendido como o conjunto de ações de observação sistemática sobre as doenças na comunidade, voltadas para medidas de controle. Somente a partir da década de 1960, essas ações ganham uma estruturação de programa, incorporando as medidas de intervenção. Desde então, essas ações foram estendidas ao controle da produção, do consumo de produtos e da fiscalização de serviços de saúde, sob a denominação de Vigilância Sanitária. As ações de controle sobre o meio ambiente relacionadas à saúde – como a vigilância da qualidade da água para o consumo humano – embora restritas, estiveram, até o final da década de 1990, subordinadas à Vigilância Sanitária. As ações de vigilância foram agrupadas em Vigilância Epidemiológica e Vigilância Sanitária, ambas 30 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR com praticamente os mesmos objetivos: prevenir e controlar os riscos e agravos à saúde. Foi apenas na década de 1980 que “a vigilância passou a ser apresentada mais claramente sob o ponto de vista de articulação com outras ações de saúde”. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), por exemplo, definiram esse novo sistema onde “as ações referentes aos dados coletados (coleta, análise e interpretação) se articulam à informação periódica como instrumento da prevenção”, o que implica uma ação de controle sobre os riscos ambientais para a saúde. Também no Brasil, somente em meados da década de 1980 é que são promovidas iniciativas para se instituir, no âmbito do setor Saúde, ações de Vigilância da Saúde do Trabalhador e do Meio Ambiente, de acordo com a Constituição de 1988 e a Lei Orgânica de Saúde de 1990. Mas é a partir do ano 2000 que o Ministério da Saúde formula a denominada Vigilância Ambiental, onde “a vigilância ambiental em saúde se configura como um conjunto de ações que proporcionam o conhecimento e a detecção de qualquer mudança nos fatores determinantes e condicionantes do meio ambiente que interferem na saúde humana, com a finalidade de recomendar e adotar as medidas de prevenção e controle dos fatores de riscos e das doenças ou agravos relacionados à variável ambiental”. No novo enfoque a necessidade de monitorar o ambiente é decorrente do reconhecimento de que ele não é dado, mas está em permanente construção e transformação pela ação do homem e da própria natureza. Nos setores ambientais e do trabalho, adota-se o termo Monitorar, para o qual são utilizados indicadores quantitativos, geralmente. Entretanto, para a Vigilância em Saúde, sob a ótica da Saúde Coletiva, monitorar é mais do que um ato de medição instrumental. Uma nova compreensão da causalidade com a crescente importância de eventos e doenças não relacionadas com agentes biológicos transmissíveis, houve a exigência de agregar-se mais um nível de prevenção, ditado pelas condições social, econômica e cultural das populações que não podem mais ser reduzidas a um único agente causal. Para o qual, aliás, não haveria uma vacina ou antibiótico capaz de prevenir ou curar. Então, o foco das ações passou, obrigatoriamente, para as condições determinantes. 31 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR │ UNIDADE I Na investigação de um acidente de trabalho, o contexto é conformado pelas características do processo produtivo, política de recursos humanos, condições de vida do trabalhador; a causa, dependendo do tipo de acidente, pode ser uma prensa sem mecanismo protetor, a falta de manutenção de uma máquina, o vazamento de uma tubulação, um curto circuito, o piso irregular, o rompimento de um cabo etc. A Saúde Coletiva trouxe um novo enfoque para o entendimento do processo saúde-doença, visto como “algo em permanente transformação e que a (cuja) ação se dá em um meio que não é só reativo, mas sobretudo transformável.” A construção de um sistema de vigilância ambiental de interesse para a saúde requer que o contexto seja devidamente valorizado. Para tanto, não só as bases de dados oriundas de monitoramentos quantitativos são necessárias, como também devem ser integradas técnicas de avaliação de risco que incluam dados qualitativos. O Princípio da Precaução é outro conceito que deve servir de guia para a ação em vigilância ambiental, isto é, não se deve priorizar a ação apenas pela ocorrência de doenças e desastres ou acidentes, mas antecipar esses eventos pelo reconhecimento, anterior, dos riscos e dos contextos nocivos à saúde. O Princípio da Precaução foi desenvolvido na Alemanha, para justificar a intervenção regulamentadora e de restrição das descargas de poluição marinha – na ausência de provas consensuais quanto aos seus efeitos e danos ambientais. Esse princípio tem sido tomado como referência em outras áreas e caracteriza-se por requerer que as decisões acerca de processos industriais e produtos perigosos sejam deslocadas da ponta final do processo para a ponta inicial. Por essa razão, a promoção e a prevenção terão, necessariamente, que prevalecer no enfoque da vigilância ambiental. A Saúde Ambiental, assim proposta, integra as dimensões histórica, espacial e coletiva das situações, a partir de um compromisso ético com a qualidade de vida das populações e dos ecossistemas em questão. A necessidade de implementar ações de Vigilância em Saúde Ambiental e do Trabalhador (VISAT) é uma questão que surge desde que essa ação pública foi consignada na Constituição Federal de 1988 e, particularmente, ao longo da trajetória de construção da área da saúde do trabalhador no Brasil. É uma estratégia que visa ultrapassar a dimensão assistencial que prevalecia (e ainda 32 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR prevalece em certa medida) nos primeiros programas de saúde do trabalhador, anteriores ao advento do Sistema Único de Saúde (SUS), e precursores dos Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST). O foco principal dessas iniciativas era diagnosticar, orientar e acompanhar as doenças decorrentes do trabalho, com a perspectiva de criar condições para que a rede pública viesse a se constituir em instância efetiva para assistência à saúde dos trabalhadores, além de iniciar algumas ações de vigilância de acidentes de trabalho. Com a atuação da VISAT, voltada para a intervenção nos ambientes, processos e formas de organização do trabalho geradoras de agravos à saúde, passa-se a incorporar a dimensão preventiva da saúde do trabalhador. Ou seja, somente com ações interventoras de vigilância é possível interromper o ciclo de doença e morte no trabalho. Esta dimensão prevencionista de atenção à saúde cabe, principalmente, à Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador - RENAST, por meio dos CEREST, os seus núcleos executivos de ação efetiva. A VISAT é um componente do Sistema Nacional de Vigilância em Saúde que visa à promoção da saúde e à redução da morbimortalidade da população trabalhadora, por meio da integração de ações que intervenham nos agravos e seus determinantes decorrentes dos modelos de desenvolvimento e dos processos produtivos. Na Portaria no 1.823, de agosto de 2012, que instituiu a Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (PNSTT), consta como objetivo prioritário o fortalecimento da Vigilância em Saúde do Trabalhador. Coerente com a PNSTT, na agenda do Ministério da Saúde foi definido como prioridade fortalecer a VISAT e a sua integração com os demais componentes da Vigilância em Saúde, com vistas à promoção da saúde e de ambientes e processos de trabalho saudáveis. A partir daí, a proposta nacional de ação estratégica, estabelecida pela Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), foi intensificar as ações de vigilânciana área de saúde do trabalhador, tendo como meta ampliar o número de CEREST desenvolvendo essas ações, de modo que, até 2015, todos eles estejam realizando essas ações. Existe uma razoável produção de textos de VISAT, onde encontramos material detalhado sobre seu conceito e sua forma de ser. Parte desta produção diz respeito às diversas modalidades de VISAT, inclusive no trato com agravos específicos, caso dos vários tipos de acidentes, agrotóxicos, silicose, asbestose, benzeno, lesões por esforços repetitivos, entre outras. 33 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR │ UNIDADE I É possível também observar algumas experiências de VISAT sobre determinados segmentos econômico-produtivos, caso dos ramos químico, petroquímico, siderúrgico, frigorífico, agronegócio (agroindústria), construção civil, transporte, elétrico, setor saúde e educação, e sobre determinados contextos socioeconômicos de grupos populacionais específicos, caso do trabalho infantil, trabalho informal e cooperativado, entre outros. Observamos, também, que existe uma base legal para a ação em VISAT dispersa em várias legislações nacionais, estaduais e municipais, a exemplo da Lei Orgânica da Saúde 8.080, da Portaria MS no 3.120, de 1 de julho de 1998, de nível federal e das constituições e códigos sanitários de vários entes estaduais e municipais. Entretanto, ao observarmos a VISAT numa perspectiva de ação pública coordenada, articulada e harmônica entre aqueles que vêm se esforçando para desenvolver suas ações, vemos o quanto ainda falta para afirmarmos que existe um sistema de Vigilância em Saúde do Trabalhador no Brasil, sob essa ótica. Apesar de serem muitas as iniciativas, são minoritários os casos em que se pode falar de implementação de ações sistemáticas de VISAT, isto sem contar que em muitos locais do país sequer elas existem (VASCONCELOS; GOMEZ; MACHADO, 2014) Este texto, sintético e simplificado em suas indagações e formulações, traz alguns elementos para discussão que poderão ser considerados na IV Conferência Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (CNSTT), a ser realizada este ano, 2014, em Brasília, e também por todos aqueles que vêm de alguma forma contribuindo para o aprimoramento da VISAT no Brasil. Em síntese, nosso roteiro de discussão baseia-se nos seguintes tópicos: (1) o lugar de fala da VISAT – para passar do discurso à ação; (2) a formação de agentes de VISAT; (3) o resgate dos trabalhadores enquanto sujeitos da ação de VISAT; (4) as estratégias de articulação intersetorial com outras áreas do Estado; (5) o diálogo estruturante dos pares. (VASCONCELOS; GOMEZ; MACHADO, 2014) Não se pode falar em integração de setores, de participação da comunidade ou de estruturação de um sistema de VISAT sem a matéria-prima básica: informação sobre saúde. E a disciplina básica que mais nos oferece meios para produzir as informações acerca da saúde da população é a epidemiologia (CÂMARA, 2005). 34 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR O sistema de informação (SI) sobre acidentes e agravos do trabalho – em específico o SINAN – trata da constituição de “um conjunto de procedimentos organizados que, quando executados, proveem informação de suporte à organização” de serviços de saúde (BRASIL, 2004). A princípio, o propósito dos sistemas de informação a respeito de acidentes de trabalho é fornecer informações fidedignas sobre o impacto desses acidentes, seja pelas lesões provocadas, seja no tocante a aspectos associados às suas origens, o que pode ser usado como ferramenta de prevenção. Segundo Freitag e Hale (BRASIL, 2004), os procedimentos relacionados a seguir visam facilitam ao usuário a melhor visualização e compreensão das fases de um SI, que inclui a seleção e análise de eventos em saúde: 1. Detecção ou reconhecimento e registro dos eventos com criação de banco de dados. 2. Seleção de eventos para análise aprofundada; análise e criação de banco de dados complementar. 3. Exploração dos bancos de dados e emissão de relatórios com descrição de aspectos identificados distribuídos no mínimo segundo características de pessoa, tempo e lugar, incluindo aspectos do processo causal dos acidentes. Sempre que possível, os dados serão distribuídos de modo a permitir visualização de sua evolução temporal. 4. Interpretação, incluindo tentativa de reconhecimento de necessidades de saúde; padrões de processos causais; necessidades de aprimoramento da formação de pessoal; identificação, seleção de prioridades a serem abordadas e recomendações. 5. Implementação e monitoramento das recomendações com avaliação de impacto de providências recomendadas e efetivamente adotadas e também de aspectos do próprio sistema. Isso significa avaliar aspectos como o tempo decorrido entre a ocorrência de agravos e sua detecção pelo sistema. Também implica em avaliação dos tipos e da proporção de eventos ocorridos que o sistema efetivamente detecta. Esse conjunto de medidas deve servir de fonte de retroalimentação do sistema, contribuindo para o seu aperfeiçoamento contínuo. 35 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR │ UNIDADE I Quadro 1. Relação de alguns sistemas de informação (SI) da Vigilância em Saúde. SIs importantes para a Vigilância: SIAB: Sistema de Informações de Atenção Básica. SIAMED: Sistema de Informações de Medicamentos. SIA-SUS: Sistema de Informações Ambulatoriais de Saúde. SIH/SUS: Sistema de Informações Hospitalares. SIM: Sistema de Informação de Mortalidade. SINAN: Sistema de Notificação de Agravos. SINASC: Sistema de Informações de Nascidos Vivos. SINITOX: Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas. SISAGUA: Sistema de Inf. de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano. Fonte: Próprio autor. A Notificação Compulsória é obrigatória para os médicos, outros profissionais de saúde ou responsáveis pelos serviços públicos e privados de saúde, que prestam assistência ao paciente, em conformidade com o art. 8o da Lei no 6.259, de 30 de outubro de 1975 (BRASIL, 1975), e deve ser realizada diante da suspeita diagnóstica ou confirmação de doença ou agravo, de acordo com o estabelecido no anexo da referida lei, observando-se, também, as normas técnicas estabelecidas pela Secretaria de Vigilância em Saúde/MS. A relação das doenças e agravos monitorados por meio da estratégia de vigilância em unidades sentinelas e suas diretrizes constam na Portaria no 1.984, de 12 de setembro de 2014 (BRASIL, 2014), situação prevista no art. no 11, da Portaria anterior: “A relação das doenças e agravos monitorados por meio da estratégia de vigilância em unidades sentinelas e suas diretrizes constarão em ato específico do Ministro de Estado da Saúde”. Monitorar indicadores-chave em unidades de saúde selecionadas (unidades sentinelas) que sirvam como alerta precoce para o sistema de vigilância é o objetivo da estratégia de vigilância sentinela. Ela se configura enquanto modelo de vigilância realizada a partir de estabelecimento de saúde estratégico para a vigilância de morbidade, mortalidade ou agentes etiológicos de interesse para a saúde pública, com participação facultativa, segundo norma técnica específica estabelecida pela Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS/MS). Para a VISAT, é nítido que os Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CERESTs) serão essas unidades sentinelas, servindo de apoio técnico a toda rede do SUS. Os dados públicos adquiridos por meio dessas notificações serão divulgados pelas autoridades de saúde aos profissionais de saúde, órgãos de controle social e população em geral. Demais informações referentes aos canais de comunicação para notificação (endereço eletrônico oficial, o número de telefone, fax, endereço de e-mail institucional ou formulário para notificação compulsória) serão divulgadas pela SVS/MS, as secretarias de Saúde dos estados, do Distrito Federal e dos municípios. 36 CAPÍTULO4 Anamnese Ocupacional Na anamnese ocupacional, deve ficar evidente o que o(a) trabalhador(a) faz, como faz, com que produtos e instrumentos ele entra em contato, quanto faz, onde, em que condições e há quanto tempo faz (LUCCA, 2012). Segundo Lucca (2012), as doenças relacionadas ao trabalho, em sua maioria, apresentam quadro clínico similar ao das doenças comuns: estabelecer o nexo com o trabalho não é tarefa fácil, em especial para aquele profissional que não está habilitado ou habituado a relacionar as informações aos fatores de risco presentes no ambiente de trabalho com as atividades desenvolvidas pelo paciente trabalhador durante a sua anamnese clínica. A anamnese é fundamental porque objetiva tanto construir a história clínica-ocupacional completa quanto não se limitar à profissão do paciente, explorando sintomas, sinais clínicos e exames complementares. Segundo diretrizes do Conselho Federal de Medicina (1998), alguns parâmetros devem ser considerados no estabelecimento de nexo causal, além do exame clínico (físico e mental) e dos exames complementares, quando necessários, deve o profissional de saúde considerar as seguintes informações: 1. O histórico clínico-ocupacional, primordial em qualquer diagnóstico e/ ou investigação de nexo causal; 2. Conhecimento a respeito do local de trabalho e da organização do trabalho, incluindo a realização da atividade; 3. As informações epidemiológicas da empresa e de grupos ocupacionais similares (homogêneos); 4. A literatura atualizada; 5. O aparecimento de quadro clínico ou subclínico em trabalhador exposto a condições agressivas; 6. O reconhecimento de riscos físicos, químicos, biológicos, mecânicos, estressantes e outros; 7. O relato de vida e a experiência dos trabalhadores; e 8. conhecimento e as práticas de outras disciplinas e de seus profissionais, sejam ou não da área da saúde. 37 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR │ UNIDADE I O objetivo é o de avaliar se as queixas e o quadro clínico possuem relação com as atividades de trabalho. O profissional deve considerar a multiplicidade de fatores envolvidos na determinação das doenças e, em especial, daquelas desencadeadas ou agravadas pelas condições em que o trabalho é realizado. Nesse sentido, é de fundamental importância valorizar o conhecimento e sentimentos dos pacientes sobre seu trabalho e os fatores de risco potencialmente causadores de doença. Em alguns casos, são de natureza química; em outros, intrinsecamente relacionados às formas de organização e gestão do trabalho ou mesmo da ausência de trabalho e, em muitos casos, decorrem de uma ação sinérgica desses fatores. Além do adoecimento que resulta da articulação de agravos que atingem a “população geral”, em função de sua idade, gênero, grupo social ou inserção em um grupo específico de risco, o trabalhador pode ter sua condição clínica agravada pelo trabalho. No entanto, o médico deve suspeitar de uma doença desencadeada ou agravada pelas condições de trabalho a partir da anamnese ocupacional, cujos componentes básicos incluem: » análise detida das queixas que motivam a busca de atenção médica; » a história ocupacional pregressa; » a descrição detalhada do processo de trabalho no emprego atual ou do trabalho supostamente relacionado à doença sob investigação; e » as características da organização do trabalho do emprego atual ou do trabalho supostamente relacionado à doença sob investigação, além do compartilhamento de informações individuais e coletivas. Durante a investigação das queixas, devem ser valorizadas as informações sobre o momento de surgimento dos sintomas e sua relação com o trabalho, exposição a agentes de risco específicos ou a realização de determinadas tarefas são fundamentais, verificando-se a relação temporal entre o surgimento de sinais e sintomas e a jornada de trabalho. Na mesma linha de atuação médica, o levantamento de informação quanto ao desaparecimento ou melhora de sintomas quando de finais de semana, feriados prolongados e férias pode fortalecer a hipótese de tratar-se de um agravo relacionado ao trabalho. A associação dos sintomas com mudanças recentes no ambiente ou processo de trabalho também deve ser investigada (LUCCA, 2012). A anamnese ocupacional tem que contemplar todos os riscos pelos quais o trabalhador está exposto, assim como avaliar as condições psicossociais desse trabalhador para realmente atingir o nível de prevenção adequado. Além disso, o profissional de saúde deve adotar uma postura ética para com o cliente interno e externo, preservando a 38 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR identidade do trabalhador, acolhendo-o de forma humanizada, pois a origem de suas demandas ou queixas, em suma, está associada às angústias ou condições de vida, ora manifestadas por sintomas que traduzem o sofrimento na mente, no corpo ou insatisfação com o trabalho (LUCCA, 2012). Por meio do Manual de Anamnese Ocupacional (2001), o Ministério da Saúde concebe um instrumento a ser utilizado nos Centros de Referência em Saúde do Trabalhador que compõem a Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador (RENAST), a Ficha de Resumo de Atendimento Ambulatorial em Saúde do Trabalhador (Firaast). Ela foi elaborada ainda como instrumento passível de utilização como prontuário eletrônico e de informatização a partir das experiências dos CEREST/MG, CEREST/BH e CEREST/Contagem. Essa ficha foi criada enquanto instrumento epidemiológico que contribui para conhecimento, investigação, sistematização, padronização e intercambiação de dados e informações úteis ao planejamento em saúde, à capacitação de recursos humanos, ao atendimento, à vigilância, à avaliação de serviços de saúde do trabalhador e à divulgação pública mais ampliada (PINHEIRO et al., 1993), por meio dos Sistemas de Informação em Saúde componentes do SUS. O manual explicita todos os itens necessários na ficha de consulta e de retorno, sendo um norteador importante para aqueles serviços que ainda não dispõem de instrumentos validados para o atendimento em SST. Importante atentar para o Manual de Anamnese Ocupacional (2006a), lá você vai encontrar perguntas-chave para a investigação de agravos em ST em seu serviço de saúde. 39 CAPÍTULO 5 Agravos à saúde relacionados ao trabalho e ao ambiente Para Rigotto (2003), a ocorrência de acidentes e doenças ocupacionais é oriunda de novas tecnologias e novas relações de trabalho. Estas por sua vez trazem novos valores, novos hábitos e introduzem novos riscos tecnológicos, de natureza física, química, biológica, mecânica, ergonômica e psíquica, que interferem na saúde humana no ambiente de trabalho. O acidente tem o caráter de um evento agudo, que causa lesão corporal ou perturbação funcional temporária ou permanente, como seria o caso de uma amputação de dedos ou de uma intoxicação aguda por agrotóxico, ou mesmo dos acidentes ocorridos no trajeto do trabalhador entre sua residência e o local de trabalho, seguindo ao que se define como: Todo evento súbito ocorrido no exercício de atividade laboral, independentemente da situação empregatícia e previdenciária do trabalhador acidentado, e que acarreta dano à saúde, potencial ou imediato, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que causa, direta ou indiretamente (concausa) a morte, ou a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho. Inclui-se ainda o acidente ocorrido em qualquer situação em que o trabalhador esteja representando os interesses da empresa ou agindo em defesa de seu patrimônio; assim como aquele ocorrido no trajeto da residência para o trabalho ou vice-versa (BRASIL, 2006d). Devido ao seu expressivo impacto na morbimortalidade da população, os acidentes constituem-se em importante problema de saúde pública e objeto prioritário das ações do SUS, que, em conjunto com outros segmentos dos serviços públicos e da sociedade civil, devem continuar a buscarformas efetivas para o seu enfrentamento. Entre esses outros setores dos serviços públicos e sociedade civil, encontramos universidades e institutos de pesquisa, Ministério Público, Ministério do Trabalho e Emprego e outros correlatos. São pouco estudadas as sequelas crônicas e de instalação tardia de acidentes adequadamente reconhecidos como provenientes do trabalho, e aquelas que só tardiamente são identificadas como relacionadas aos acidentes, inicialmente não são registradas como do trabalho (BRASIL, 1999). 40 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR Em 2011, foram registrados cerca de 700 mil acidentes e doenças do trabalho entre os trabalhadores assegurados da Previdência Social. Observe que esse número, que já é alarmante, não inclui os trabalhadores autônomos (contribuintes individuais) e as empregadas domésticas. Tais eventos provocam enorme impacto social e econômico sobre a saúde pública no Brasil. Entre esses registros, foram contabilizadas 15.083 doenças relacionadas ao trabalho. Parte desses acidentes e doenças resultou em afastamento de 611.576 trabalhadores de suas atividades devido à incapacidade temporária (309.631 até 15 dias e 301.945 com tempo de afastamento superior a 15 dias), e com incapacidade permanente, contabilizou-se 14.811 trabalhadores. Os óbitos ocorreram com 2.884 cidadãos (BRASIL, 2013). Para se ter a real dimensão da importância do tema saúde e segurança do trabalho, basta observar que no Brasil, em 2011, registrou-se cerca de 1 morte a cada 3 horas, motivada pelo risco decorrente dos fatores ambientais do trabalho e ainda uma média de 81 acidentes e doenças do trabalho reconhecidos a cada 1 hora na jornada diária. Nesse mesmo ano (2011), foi observada uma média de 49 trabalhadores por dia que não mais retornaram ao trabalho devido à invalidez ou morte (BRASIL, 2013). Em 2012, ocorreram 423.935 acidentes típicos, índice 0,5% menor que o de 2011 (426.153), mas 1,6% maior que o de 2010 (417.295); 14.955 doenças apuradas, em 2012, atingiram o total mais baixo em 20 anos, desde 1993, e acentuam a curva descendente já observada em 2011 (16.839 adoecimentos), 2010 (17.177) e na segunda metade dos anos 2000. Entretanto, ainda representam números elevados de acidentes, ainda que os sistemas de notificação de doenças e acidentes de trabalho venham sendo aperfeiçoados (PROTEÇÃO, 2014). Na classificação proposta por Schilling (1984), segundo a sua relação com o trabalho (nexo de causalidade), as doenças do trabalho podem ser reunidas em três grupos. A saber: Quadro 2. Divisão em categorias segundo classificação de Schilling. Grupos de doenças Exemplos de patologias » Grupo I: doenças em que o trabalho é causa necessária e suficiente; tipificadas pelas “doenças profissionais” em que o nexo com o trabalho é direto. Intoxicações por chumbo devido à exposição a esse agente químico nas atividades de fabricação de baterias; silicose, nas atividades da fabricação de cerâmica; e asbestose nas atividades de mineração, extração e fabricação de cimento amianto. » Grupo II: doenças em que o trabalho pode ser um fator de risco, contributivo, mas não necessário, denominadas “doenças do trabalho”, exemplificadas pelas doenças “comuns”, mais frequentes ou mais precoces em determinados grupos ocupacionais e para as quais o nexo causal é de natureza eminentemente epidemiológica. Doenças osteomusculares relacionadas ao trabalho, à hipertensão arterial; as neoplasias malignas em determinados grupos ocupacionais ou ramos de atividade constituem exemplos típicos. » Grupo III: doenças em que o trabalho é provocador de um distúrbio latente, ou agravador de doença já estabelecida ou preexistente, ou seja, com causa, também denominada “doenças do trabalho”. Doenças alérgicas de pele e respiratórias, e distúrbios mentais em determinados grupos ocupacionais ou ramos de atividade. Fonte: Schilling, 1984. 41 ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR │ UNIDADE I Por sua vez, as doenças relacionadas ao trabalho surgem de modo insidioso, após manifestação aguda, como as intoxicações por substâncias químicas, a perda da audição, dermatoses, lesões por esforços repetitivos e incluem, ainda, sofrimento psíquico, desgaste, doenças crônico-degenerativas e alterações genéticas que podem se manifestar em câncer ou alterações da reprodução (RIGOTTO, 2003). Em 1999, os Ministérios da Saúde e da Previdência Social no Brasil elaboraram uma lista que discrimina 210 patologias reconhecidas como relacionadas ao trabalho, a Lei no 3.048 de 1999. Cumprindo também a determinação do art. 6o, §3o, inciso VII, da Lei no 8.080 (BRASIL, 1990), o Ministério da Saúde elaborou a Lista Brasileira de Doenças, segundo a Classificação Internacional de Doenças (CID-10), em que são atribuídos os agentes patogênicos causadores das doenças profissionais ou do trabalho. Veja também o Manual de Doenças Relacionadas ao Trabalho (2001) e outros protocolos do MS, disponíveis em nossa biblioteca virtual. Enquanto norteadora das ações de vigilância compulsória no SUS, incluindo os agravos relacionados ao trabalho supracitados, a Portaria no 1.271, de 6 de junho de 2014 (BRASIL, 2014), trata da Lista Nacional de Notificação Compulsória de Doenças, e aquelas de notificação exclusiva das unidades sentinelas do SUS estão previstas na Portaria no 1.984 (BRASIL, 2014). Essas normas constituem uma parte do variado leque de acervo criado pelos órgãos públicos responsáveis pelo monitoramento em SST, direta ou indiretamente, portanto, é importante frisar os materiais que foram frutos de anos de trabalho do Ministério da Saúde, tais como: Manual de Doenças Relacionadas ao Trabalho (2001), protocolos de atendimento e notificação para acidentes graves, fatais e com crianças e adolescentes, DORT, PAIR, pneumoconioses etc. Esses materiais visam ao atendimento igualitário, em todo território nacional, a todos os trabalhadores atendidos pelo SUS, compreendendo os procedimentos entre o primeiro atendimento até a notificação, recomendações e parâmetros para seu diagnóstico, tratamento e prevenção de incapacidade laboral. Veja os principais protocolos a seguir. Quadro 3. Principais protocolos na área de Saúde do Trabalhador. Principais protocolos em ST 1. Trabalho infantil. 2. Anamnese ocupacional. 3. Acidentes de trabalho graves, fatais. 4. Exposição a material biológico. 5. Expostos ao chumbo metálico. 6. Perda Auditiva Induzida pelo Ruído (PAIR). 7. Pneumoconioses. 8. Risco químico. 9. Câncer relacionado ao trabalho. 10. Dermatoses ocupacionais. 11. Doenças osteomusculares. Fonte: Próprio autor. 42 UNIDADE I │ ASPECTOS GERAIS DA SAÚDE DO TRABALHADOR Neste capítulo, pudemos aprender um pouco mais sobre a investigação de agravos relacionados à saúde do trabalhador, tanto em abordagem coletiva quanto individual, e a responsabilização dos entes públicos e privados no monitoramento desses agravos – dados que refletem o impacto direto no nível de saúde da população brasileira (número de incapacitados, mortes, famílias seguradas etc.). Reiteramos, ainda, que a notificação compulsória não exime o empregador de emitir o Comunicado de Acidente de Trabalho (CAT), direcionado principalmente à concessão do benefício previdenciário daqueles trabalhadores regidos pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). A partir deste ponto, você já se perguntou de que forma é realizado o monitoramento dos agravos em saúde da imensidão de trabalhadores informais? Se sim, reflita a respeito da abordagem do profissional de saúde da rede que não consegue visualizar a determinação do trabalho na saúde do paciente atendido em sua unidade de saúde. Esses e outros questionamentos poderemos trazer para o nosso cotidiano em busca de respostas. 43 UNIDADE II DIRETRIZES E ATORES DA ESFERA PÚBLICO-PRIVADA DA SAÚDE DO TRABALHADOR CAPÍTULO 1 Políticas públicas em saúde do trabalhador No SUS, a área de saúde do trabalhador constitui-se enquantoo conjunto de práticas sanitárias que articula ações de assistência, reabilitação, vigilância, prevenção e promoção à saúde, e possui a intervenção na relação saúde-doença dos trabalhadores como especificidade (TAKAHASHI et al., 2012). A saúde do trabalhador constitui uma área da saúde pública e é um campo de práticas de conhecimento cujo enfoque teórico-metodológico, no Brasil, emerge da saúde coletiva, buscando conhecer e intervir nas relações de trabalho-saúde-doença (LACAZ, 2007). No Brasil, segundo Dias e Hoefel (2005), o movimento da saúde do trabalhador articula-se no final dos anos 1970, com os seguintes eixos: a participação dos trabalhadores nas decisões sobre a organização, a defesa do direito ao trabalho digno e saudável e a gestão dos processos produtivos, e a busca pela garantia de atenção integral à saúde. A sua inserção no campo da saúde pública teve seu marco na VIII Conferência Nacional de Saúde, em 1986, e contribuiu para reafirmar a saúde como direito de cidadania e dever do Estado. A I Conferência Nacional de Saúde do Trabalhador, realizada no mesmo ano, consagrou a institucionalização política desse movimento, cuja luta favoreceu a incorporação das questões da saúde do trabalhador na Constituição Federal de 1988, ao enunciar o conceito ampliado de saúde e ao atribuir ao Sistema Único de Saúde (SUS) a responsabilidade de coordenar as ações no país. 44 UNIDADE II │ DIRETRIZES E ATORES DA ESFERA PÚBLICO-PRIVADA DA SAÚDE DO TRABALHADOR As atribuições previstas pela Constituição foram regulamentadas, em 1990, pela Lei Orgânica da Saúde no 8.080 e no 8.142, que definiram os princípios e formatação do SUS. Nas palavras de Dias e Hoefel (2005, p. 819): “consolida-se, assim, no plano legal e institucional, o campo da Saúde do Trabalhador”. As ações desencadeadas no setor saúde, sob a tutela do Ministério da Saúde, foram frutos de decreto presidencial sobre a Política Nacional de Saúde e Segurança no Trabalho (PNSST) (BRASIL, 2011), ratificação da Convenção 155 da OIT no Brasil. Segundo Gomez (2013), essa política pretenderia superar a fragmentação das ações interministeriais no âmbito do trabalho, da saúde e da previdência, ministérios estes citados no corpo do texto da Política. Na sua concepção, a PNSST estava em consonância com os princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), uma vez que a Constituição institui que: [...] toda a Política de saúde do Trabalhador para o SUS tenha como propósito a promoção da saúde e redução da morbimortalidade dos trabalhadores, mediante ações integradas, intra e intersetorialmente, de forma contínua, sobre os determinantes dos agravos decorrentes dos modelos de desenvolvimento e processos produtivos, com a participação de todos os sujeitos sociais envolvidos (BRASIL, 2011). Nesse contexto, a PNSST surge como marco estratégico para trazer significativas contribuições na área de segurança e saúde do trabalhador no Brasil e, por conseguinte, a instituição da Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (PNSTT) (BRASIL, 2012), por meio da portaria GM/MS no 1.823, de 23 de agosto de 2012, alinhada ao decreto assinalado pelo presidente em 2011. A nova portaria contempla uma proposta que entidades representativas da sociedade civil e profissionais de saúde vêm almejando desde a I Conferência Nacional de Saúde do Trabalhador (GOMEZ, 2013). A PNSTT tem o intuito de definir os princípios, as diretrizes e as estratégias a serem observadas nas três esferas de gestão do SUS – federal, estadual e municipal – para o desenvolvimento das ações de atenção integral à saúde do trabalhador, enfatizando-se a vigilância, visando à promoção e à proteção da saúde dos trabalhadores e à redução da morbimortalidade decorrente dos modelos de desenvolvimento e dos processos produtivos. Ela enfatiza a integralidade na atenção à saúde do trabalhador, inserindo as ações desse campo em toda a rede SUS, da atenção primária até a especializada (reabilitação, atenção pré-hospitalar, serviços de urgência e emergência e hospitais, rede de laboratórios), sistemas de informações em saúde e na vigilância à saúde. Compreende, 45 DIRETRIZES E ATORES DA ESFERA PÚBLICO-PRIVADA DA SAÚDE DO TRABALHADOR │ UNIDADE II ainda, a articulação intra e intersetorial, a estruturação da rede de informações em saúde do trabalhador, o apoio e desenvolvimento de estudos e pesquisas nessa área, com o desenvolvimento e capacitação de recursos humanos e participação comunitária na gestão das ações. Os princípios, diretrizes, objetivos e estratégias da PNSTT estão listadas a seguir. 1. Princípios e diretrizes: › Universalidade; › Integralidade; › Controle social, com a participação da comunidade, dos trabalhadores; › Descentralização; › Hierarquização; › Equidade; › Precaução. 2. Objetivos (cap. II, art. 8o): › Fortalecer a Vigilância em Saúde do Trabalhador e a integração com os demais componentes da Vigilância em Saúde; › Promover a saúde e ambientes e processos de trabalho saudáveis; › Garantir a integralidade na atenção à saúde do trabalhador; › Ampliar o entendimento de que a saúde do trabalhador deve ser concebida como uma ação transversal, devendo a relação saúde-trabalho ser identificada em todos os pontos e instâncias da rede de atenção; › Incorporar a categoria trabalho como determinante do processo saúde-doença dos indivíduos e da coletividade, incluindo-a nas análises de situação de saúde e nas ações de promoção em saúde; › Assegurar que a identificação da situação do trabalho dos usuários seja considerada nas ações e serviços de saúde do SUS e que a 46 UNIDADE II │ DIRETRIZES E ATORES DA ESFERA PÚBLICO-PRIVADA DA SAÚDE DO TRABALHADOR atividade de trabalho realizada pelas pessoas, com as suas possíveis consequências para a saúde, seja considerada no momento de cada intervenção em saúde; e › Assegurar a qualidade da atenção à saúde do trabalhador usuário do SUS. 3. Estratégias (cap. III, art. 9o): › Integração da Vigilância em Saúde do Trabalhador nos demais componentes da Vigilância em Saúde e com a Atenção Primária em Saúde; › Análise do perfil produtivo e da situação de saúde dos trabalhadores; › Estruturação da RENAST no contexto da Rede de Atenção à Saúde: ações de ST jna APS; na Urgência e Emergência; e na Atenção Especializada (Ambulatorial e Hospitalar). › Ampliação após o fortalecimento da articulação intersetorial; › Incentivo à participação da comunidade, dos trabalhadores e do controle social; › Desenvolvimento e capacitação de recursos humanos; e › Apoio ao desenvolvimento de estudos e pesquisas. Segundo Gomez (2013), a PNSTT é um texto bastante consistente e pormenorizado sobre o patrimônio reflexivo e de práticas acumuladas, ao longo das últimas décadas, por setores acadêmicos, movimentos de trabalhadores e profissionais que atuam nos serviços. Ele pondera que todos os trabalhadores (homens e mulheres), independentemente de sua localização (urbana ou rural), de sua forma de inserção no mercado de trabalho (formal ou informal) e de seu vínculo empregatício (público ou privado, assalariado, autônomo, avulso, temporário, cooperativado, aprendiz, estagiário, doméstico, aposentado ou desempregado) são dignamente contemplados pela Política. Rede nacional de atenção integral à saúde do trabalhador No final do ano de 2002 foi criada a Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador (RENAST), pela Portaria no 1.679 (BRASIL, 2002), que, pela primeira 47 DIRETRIZES E ATORES DA ESFERA PÚBLICO-PRIVADA DA SAÚDE DO TRABALHADOR │ UNIDADE II vez, disponibilizou recursos para a operacionalização das ações nos âmbitos estadual e municipal. A RENAST impôs-se como uma prioridade e como uma das principais estratégias da Política Nacional de Saúde do Trabalhador (PNST) para o SUS. A Portaria no 2.437 (BRASIL, 2005) dispôs sobre a ampliação e o fortalecimento da RENAST, prevendo maior número de Centrosde Referência em Saúde do Trabalhador (CERESTs), incluindo as ações de saúde do trabalhador na atenção básica e em ações de vigilância em saúde do trabalhador. Ela instituiu uma rede de serviços sentinelas para retaguarda de média e alta complexidade e de registro de doenças/agravos de notificação compulsória, bem como estabeleceu municípios sentinelas. Já a Portaria no 2.728 (BRASIL, 2009) adequou a RENAST ao Pacto de Gestão do SUS. Conceitualmente, a RENAST é uma rede nacional de informação e de práticas de saúde, organizada com o objetivo de implementar ações assistenciais, de vigilância e de promoção da saúde na perspectiva da saúde do trabalhador no âmbito do SUS, sob o controle social. A RENAST integra e articula a atenção básica, a média e alta complexidade ambulatorial, pré-hospitalar e hospitalar, sob o controle social, nos três níveis de gestão: municipal, estadual e nacional. Com a RENAST, os CERESTs deixam de ser porta de entrada do sistema e assumem o papel de suporte técnico e científico dos princípios e fundamentos teóricos da saúde do trabalhador, no âmbito da saúde pública, e passam a ser núcleos disseminadores da cultura da centralidade do trabalho e da produção social das doenças. Além disso, refletem o ponto privilegiado de articulação e pactuação das ações de saúde, intra e intersetorialmente, no seu território de abrangência, que pode ser na esfera municipal, estadual e nacional, abrangendo municípios polos de assistência das regiões e microrregiões de saúde. Em uma análise da incorporação da saúde do trabalhador ao longo dos 20 anos do SUS, Santana e Silva (2009) verificaram que os CERESTs e as ações de saúde do trabalhador haviam sido ampliados, nacionalmente, a todas as unidades da federação, alcançando-se uma razão CEREST: população de trabalhadores aproximadamente homogênea no país. No nível local, as ações de saúde do trabalhador poderão ser organizadas, em municípios sentinelas, interferindo em situações de riscos à saúde decorrentes de processos produtivos danosos ou por contaminação ambiental em um dado território, com base em critérios epidemiológicos, previdenciários, socioeconômicos, além da presença efetiva do controle social. 48 UNIDADE II │ DIRETRIZES E ATORES DA ESFERA PÚBLICO-PRIVADA DA SAÚDE DO TRABALHADOR A Rede Sentinela é uma estrutura da RENAST que organiza o fluxo de atendimento em todos os níveis de atenção do SUS: na rede de básica, média e alta complexidades, de modo articulado com as vigilâncias sanitária, epidemiológica e ambiental. Machado et al. (2013) aglutinam uma série de estudos de outros autores que indicam os pontos positivos dos CERESTs porque (1) representam um avanço na institucionalização das ações de saúde do trabalhador, embora estejam ausentes definições claras dos critérios de regionalização, das estruturas componentes da RENAST, do papel dos CERESTs, entre outros pontos; concluem que (2) a potencialidade delas está na formação de redes intra e interinstitucionais em torno de projetos de ação ditos prioritários; (3) na possibilidade de transcender a abordagem do processo saúde e doença, pautada no modelo tradicionalmente médico assistencialista com foco no indivíduo para a perspectiva de ações que visem à prevenção, à promoção e à vigilância em saúde do trabalhador. A RENAST é uma rede constituída de todos os CERESTs, concretizada com ações integradas em saúde do trabalhador (ST), incluindo a governabilidade do novo modelo de atenção à ST, como a gestão, os dados e informações correlatas, o delineamento e o compartilhamento das ações de vigilância e de assistência em todos os níveis de atenção. Nesse cenário, os CERESTs são compreendidos como polos estratégicos responsáveis pela disseminação e padronização da ação de matriciamento da RENAST no SUS (MACHADO et al., 2013). Eles têm o papel de dar provimento às políticas e diretrizes técnicas especializadas em saúde do trabalhador para o conjunto de ações e serviços da rede SUS. Essa retaguarda deve ser organizada segundo o método do apoio matricial às equipes de referência das diversas instâncias da rede de atenção, promoção e vigilância em saúde, garantindo funções de suporte técnico, de educação permanente, de assessoria ou coordenação de projetos de assistência, promoção e vigilância à saúde dos trabalhadores, no âmbito da sua área de abrangência, além de atuar como articulador e organizador das ações intra e intersetoriais de saúde do trabalhador. 49 CAPÍTULO 2 Serviços especializados e programas de saúde e segurança do trabalhador Serviços Especializados em Medicina do Trabalho e sua relação com a Engenharia de Segurança do Trabalho (SESMT) Os Serviços Especializados em Medicina do Trabalho (SESMT) são um grupo de profissionais habilitados a exercer a segurança em medicina do trabalho, técnica e legalmente, de modo a garantir a integridade física e psíquica dos trabalhadores, de caráter obrigatório em empresas públicas e privadas, órgãos públicos da administração direta e indireta e dos poderes Legislativo e Judiciário que possuam empregados regidos pela Consolidação da Lei do Trabalho, estabelecendo as responsabilidades da empresa e dos trabalhadores quanto às normas de SST. Reitera-se que todos aqueles programas afetos à SST (PPRA e PCMSO, por exemplo) estão sob a responsabilidade dessa equipe, bem como de outros grupos de trabalhadores que contribuem para o monitoramento dos riscos no trabalhão, tais como CIPA, sindicatos etc. Os SESMT estão regulamentados conforme dispositivo da Lei no 6.514/1977 e Portaria no 3.214/1978, e especificado na Norma Regulamentadora NR-4. Conforme o art. no 157 da CLT (BRASIL, 1943), cabe às empresas: » Cumprir e fazer cumprir as normas de segurança e medicina do trabalho; » Instruir os empregados, através de ordens de serviço, quanto às precauções a tomar no sentido de evitar acidentes do trabalho e doenças ocupacionais; » Adotar as medidas que lhes sejam determinadas pelos órgãos competentes; » Facilitar o exercício da fiscalização pela autoridade competente. O art. 158 da CLT (BRASIL, 1943) estabelece as responsabilidades dos empregados: » Observar as normas de segurança e medicina do trabalho, bem como as instruções dadas pelo empregador; » Colaborar com a empresa na aplicação das leis sobre segurança e medicina do trabalho; » Usar corretamente o EPI quando necessário. 50 UNIDADE II │ DIRETRIZES E ATORES DA ESFERA PÚBLICO-PRIVADA DA SAÚDE DO TRABALHADOR Quanto ao dimensionamento dos SESMT, eles estão vinculados à graduação do risco da atividade principal e ao número total de empregados do estabelecimento. Para que o funcionamento dos SESMT atinja seus objetivos, é necessário que a política vise à segurança e à saúde do trabalhador, seja bem definida e garantida pelo apoio da administração e pela conscientização de cada trabalhador da empresa em todos os níveis hierárquicos. Atribuições dos SESMT resumem-se em: » Aplicar os conhecimentos de Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho no ambiente de trabalho e a todos os seus componentes, inclusive máquinas e equipamentos, de modo a reduzir até controlar os riscos ali existentes à saúde do trabalhador; » Exigir a utilização pelos trabalhadores de equipamentos de proteção individual (EPI), quando esgotados todos os meios conhecidos para a eliminação do risco como determina a NR 6 e se mesmo assim houver sua persistência, e desde que a concentração, a intensidade ou característica do agente assim o exijam; » Colaborar, quando solicitado, nos projetos e na implantação de novas instalações físicas e tecnológicas da empresa; » Responsabilizar-se, tecnicamente, pela orientação quanto ao cumprimento do disposto nas NRs aplicáveis às atividades executadas pelos trabalhadores das empresa e/ou estabelecimentos; » Manter permanente relacionamento com a CIPA, valendo-se ao máximo de suas observações, além de apoiá-la, treiná-la e atendê-la, conformedispõe a NR 5; » Promover a realização de atividades de conscientização, educação e orientação dos trabalhadores para a prevenção de acidentes do trabalho e doenças ocupacionais, tanto por meio de campanhas quanto de programas de duração permanente (treinamentos); » Esclarecer e conscientizar os empregados sobre acidentes do trabalho e doenças ocupacionais, estimulando-os em favor da prevenção; » Analisar e registrar em documentos específicos todos os acidentes ocorridos na empresa ou estabelecimento e todos os casos de doença ocupacional, descrevendo a história e as características do acidente 51 DIRETRIZES E ATORES DA ESFERA PÚBLICO-PRIVADA DA SAÚDE DO TRABALHADOR │ UNIDADE II e/ou da doença ocupacional, os fatores ambientais, as características do agente e as condições dos indivíduos portadores de doença ocupacional ou do acidentado; » As atividades dos profissionais integrantes dos SESMT são essencialmente prevencionistas, embora não seja vedado o atendimento de emergência, quando se tornar necessário. A elaboração de planos de controle de efeitos de catástrofes, a disponibilidade de meios que visem ao combate a incêndios e ao salvamento e a de imediata atenção à vítima de qualquer outro tipo de acidente estão incluídas em suas atividades. Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) Atualmente, este programa é regulamentado pela NR 9 do Ministério do Trabalho (MTE) e versa sobre a obrigatoriedade da elaboração e implementação por parte de todos os empregadores e instituições que admitam trabalhadores como empregados, focando a preservação da saúde e integridade deles, por meio da antecipação, reconhecimento, avaliação e controle da ocorrência de riscos ambientais presentes ou que venham a existir no ambiente de trabalho, em consideração à proteção do meio ambiente e dos recursos naturais; sua revisão é atualizada a cada ano. É fundamental a verificação da existência dos aspectos estruturais no documento base do PPRA, que dentre todos os legalmente estabelecidos, cabe especial atenção para os seguintes: » Discussão do documento base com os empregados (CIPA); » Descrição de todos os riscos potenciais existentes em todos ambientes de trabalho, internos ou externos e em todas as atividades realizadas na empresa (trabalhadores próprios ou de empresa contratadas); » Realização de avaliações ambientais quantitativas dos riscos ambientais levantados (radiação, calor, ruído, produtos químicos, agentes biológicos, entre outros), contendo descrição de metodologia adotada nas avaliações, resultados das avaliações, limites de tolerância estabelecidos na NR 15 e medidas de controle sugeridas, devendo ser assinado por profissional legalmente habilitado; » Descrição das medidas de controle coletivas adotadas; e » Cronograma das ações a serem adotadas no período de vigência do programa. 52 UNIDADE II │ DIRETRIZES E ATORES DA ESFERA PÚBLICO-PRIVADA DA SAÚDE DO TRABALHADOR O PPRA deve estar articulado com os demais documentos de saúde e segurança do trabalho (SST), como PCMSO, Programa de Conservação Auditiva e o PCMAT (em caso de construção de linhas elétricas, obras civis de apoio a estruturas, prediais), e inclusive com todos os documentos relativos ao sistema de gestão em SST adotado pela empresa. Programa de Controle Médico em Saúde Ocupacional (PCMSO) É fundamental que o Programa de Controle Médico em Saúde Ocupacional (PCMSO) seja elaborado e planejado anualmente com base em um preciso reconhecimento e avaliação dos riscos presentes em cada ambiente de trabalho, em conformidade com os riscos levantados e avaliados no Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA), no Programa de Condições e Meio Ambiente de Trabalho na Indústria da Construção (PCMAT), bem como em outros documentos de saúde e segurança e, inclusive, no mapa de riscos desenvolvido pela Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA). Seu objetivo é promover e preservar a saúde do conjunto de trabalhadores, considerando as questões incidentes sobre o indivíduo e a coletividade, além de ter o caráter de prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce dos agravos à saúde relacionados ao trabalho, inclusive os de natureza subclínica. Esse programa constitui-se num dos elementos de saúde e segurança do trabalho (SST) da empresa e não pode prescindir de total engajamento e correspondência com o sistema de gestão adotado na empresa, se houver, integrando-o tanto na fase de planejamento de ações quanto na fase de monitoração dos resultados das medidas de controle implementadas. Além da avaliação individual periódica de cada trabalhador envolvido, tem o caráter de um estudo de corte, longitudinal, em que a medicina do trabalho tem a oportunidade de acompanhar determinada população de trabalhadores ao longo de sua vida laboral, estudando o possível aparecimento de sintomas ou patologias, a partir da exposição conhecida a fatores agressores – riscos químicos, físicos e biológicos, de acidente e ergonômicos. Em relação a isso, temos os fatores: » De ordem psicossocial, relacionados à presença do risco de vida no trabalho, o estresse associado a tais riscos, grande exigência cognitiva e de atenção, necessidade de condicionamento psíquico e emocional para execução dessas tarefas, entre outros fatores estressores; 53 DIRETRIZES E ATORES DA ESFERA PÚBLICO-PRIVADA DA SAÚDE DO TRABALHADOR │ UNIDADE II » De natureza biomecânica, relacionados às atividades em posturas pouco fisiológicas e inadequadas, com exigências extremas de condicionamento físico; » De natureza organizacional, relacionados às tarefas planejadas sem critérios de respeito aos limites técnicos e humanos, levando a premência de tempo, atendimento emergencial, pressão produtiva. O controle médico deverá incluir: » Avaliações clínicas cuidadosas, admissionais e periódicas, com ênfase em aspectos neurológicos e ósteo-músculo-ligamentares de modo geral; » Avaliação de aspectos físicos do trabalhador pertinentes a outros riscos levantados, incluindo ruído, calor ambiente e exposição a produtos químicos; » Avaliação psicológica voltada para o tipo de atividade a desenvolver; e » Avaliação de acuidade visual (trabalho a distância e com percepção de detalhes). Exames complementares poderão ser solicitados, a critério médico, conforme cada caso. Ainda, ações preventivas para situações especiais devem ser previstas, como vacinação contra tétano e hepatite, influenza, no caso de atividades com riscos biológicos, Programas de Conservação da Voz e ou Auditiva, Qualidade de Vida no Trabalho, Acompanhamento de Doentes Crônicos, entre outros. Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) Conforme determina a NR 5, as empresas privadas, públicas, sociedades de economia mista, órgãos da administração direta e indireta, instituições beneficentes, associações recreativas, cooperativas, bem como outras instituições que admitam trabalhadores como empregados, devem constituir CIPA por estabelecimento e mantê-la em regular funcionamento. A CIPA tem como objetivo prevenir acidentes e doenças decorrentes do trabalho, de forma a tornar compatível permanentemente o trabalho com a preservação da vida e a promoção da saúde do trabalhador. O empregador deverá garantir que seus empregados indicados tenham a representação necessária para a discussão e 54 UNIDADE II │ DIRETRIZES E ATORES DA ESFERA PÚBLICO-PRIVADA DA SAÚDE DO TRABALHADOR o encaminhamento das soluções de questões de segurança e saúde no trabalhado analisados pela Comissão (BARSANO, 2014). A empresa designará entre seus representantes o presidente da CIPA, e o vice-presidente será escolhido entre os representantes dos empregados titulares. Serão indicados, em comum acordo, um secretário e seu substituto entre os componentes, ou não, da comissão, necessitando, nesse caso, da concordância do empregador (BARSANO, 2014). Atribuições da CIPA: » Identificar os riscos do processo de trabalhoe elaborar o mapa de riscos com a participação do maior número de trabalhadores, com assessoria dos SESMT, onde houver; » Elaborar plano de trabalho que possibilite a ação preventiva na solução de problemas de segurança e saúde no trabalho; » Participar da implementação e do controle da qualidade das medidas de prevenção necessárias, bem como da avaliação das prioridades de ação nos locais de trabalho; » Realizar, periodicamente, verificações nos ambientes e condições de trabalho, visando à identificação de situações que tragam riscos para a segurança e saúde dos trabalhadores; » Realizar, a cada reunião, avaliação do cumprimento das metas fixadas em seu plano de trabalho e discutir as situações de risco identificadas; » Divulgar aos trabalhadores informações relativas à segurança e saúde no trabalho; » Participar, com os SESMT, onde houver, das discussões promovidas pelo empregador para avaliar os impactos de alterações no ambiente e processo de trabalho relacionado à segurança e saúde dos trabalhadores; » Requerer aos SESMT, quando houver, ou ao empregador a paralisação de máquina ou setor em que considere haver risco grave e iminente à segurança e saúde dos trabalhadores; » Colaborar no desenvolvimento e implementação do PCMSO e PPRA e de outros programas relacionados à segurança e saúde no trabalho; 55 DIRETRIZES E ATORES DA ESFERA PÚBLICO-PRIVADA DA SAÚDE DO TRABALHADOR │ UNIDADE II » Divulgar e promover o cumprimento das Normas Regulamentadoras, bem como cláusulas de acordos e convenções coletivas de trabalho, relativas à segurança e saúde no trabalho; » Participar, em conjunto com os SESMT, onde houver, ou com o empregador da análise das causas das doenças e acidentes de trabalho e propor medidas de solução dos problemas identificados; » Requisitar ao empregador e analisar as informações sobre questões que tenham interferido na segurança e saúde dos trabalhadores; » Requisitar à empresa as cópias das CATs emitidas; » Promover, anualmente, em conjunto com os SESMT, onde houver, a Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho (SIPAT); » Participar, anualmente, em conjunto com a empresa, de campanhas de prevenção da AIDS. A CIPA terá reuniões ordinárias mensais, de acordo com calendário preestabelecido, e extraordinárias sempre que houver denúncia de situação de risco grave e iminente que determine aplicação de medidas corretivas de emergência, acidente do trabalho grave ou fatal e solicitação expressa de uma das representações (BARSANO, 2014). O treinamento dos integrantes da CIPA será antes da posse, promovido pela empresa, para titulares e suplentes, no prazo máximo de 30 dias contados da data da posse. Sob a responsabilidade da CIPA está a elaboração do mapa de risco. Esse instrumento é a representação gráfica do mapeamento de riscos ambientais, por meio de círculos de cores e tamanhos proporcionalmente diferentes (riscos pequeno, médio e grande), definida a partir do levantamento dos riscos presentes nos locais de trabalho, sentidos e/ou observados pelos próprios trabalhadores, de acordo com a sua sensibilidade. Fora os riscos, é elaborado sobre o leiaute da empresa, devendo ficar afixado em local visível a todos os trabalhadores. Participação e controle social A participação na perspectiva do controle social no Sistema Único de Saúde (SUS) foi um dos eixos dos debates da VIII Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1986, e é tida como um dos princípios fomentadores da reformulação do sistema nacional de saúde e como via imprescindível para a sua democratização. Essa participação foi instituída pela Lei no 8.142/1990 dentro do SUS, por meio de seus Conselhos 56 UNIDADE II │ DIRETRIZES E ATORES DA ESFERA PÚBLICO-PRIVADA DA SAÚDE DO TRABALHADOR de Saúde e de diversas modalidades como conselho nacional, estadual, municipal. Esses conselhos têm composição paritária entre os representantes dos usuários que congregam setores organizados da sociedade civil e dos demais segmentos (gestores públicos, filantrópicos e privados e trabalhadores da saúde), e que objetivam o controle social (CORREIA, 2000). Na saúde do trabalhador, área de práticas eminentemente intersetoriais, a Lei no 8.142/1990 previu, desde 1990, a criação e funcionamento das Comissões Intersetoriais de Saúde do Trabalhador (CIST) como assessoras dos conselhos de saúde. No SUS, o controle social é efetivado pela RENAST por meio do controle direto das ações do CEREST, pela participação efetiva de organização de trabalhadores na definição de prioridades de intervenção, na implementação da política de ST e aplicação de recursos disponíveis segundo a realidade do setor produtivo local. As CISTs foram criadas para elaborar normas, técnicas e parâmetros de qualidade em SST, a fim de implementar políticas relativas às condições de trabalho e o seu controle. O objetivo dessa comissão é participar em conjunto com entidades representativas de empregados e empregadores, instituições da sociedade civil e órgãos públicos, direta e indiretamente responsáveis pela preservação da saúde. Sua composição não segue a paridade do Conselho de Saúde, porém ela deve ser a mais representativa possível dos trabalhadores, tendo na sua composição técnicos da área de ST. A população pode recorrer a outros mecanismos de garantia dos direitos sociais para além dos conselhos e conferências de saúde, em especial, o direito à saúde, por exemplo, o Ministério Público, a Comissão de Seguridade Social e/ou da Saúde do Congresso Nacional, das Assembleias Legislativas e das Câmaras de Vereadores, a Promotoria dos Direitos do Consumidor (Procon), os conselhos profissionais etc. A denúncia por intermédio dos meios de comunicação como rádios, jornais, televisão e internet também é forte instrumento de pressão na defesa dos direitos (CORREIA, 2000). É importante reiterar a importância dos sindicatos representativos de categorias profissionais no processo de construção da saúde do trabalhador no Brasil. O sindicato é uma associação de direito privado, criado por decisão de seus membros, com o objetivo de representar, promover e defender, de forma permanente, os direitos e interesses da categoria profissional ou econômica, em especial, podendo ser de empregados, empregadores ou profissionais liberais. Eles fizeram parte de toda a evolução da política trabalhista no nosso país em defesa dos direitos dos trabalhadores. E até hoje, via acordos ou dissídios coletivos, conselhos deliberativos etc., garantem melhores condições de trabalho e saúde para sua classe. 57 DIRETRIZES E ATORES DA ESFERA PÚBLICO-PRIVADA DA SAÚDE DO TRABALHADOR │ UNIDADE II A Constituição Federal de 1988 prevê, enquanto função dos sindicatos, a defesa de direitos e interesses coletivos ou individuais de uma categoria, tanto em questões judiciais quanto em questões administrativas (art. 8o, III) e a atuação nas negociações coletivas de trabalho (art. 8o, VI). No art. 513 da CLT (BRASIL, 1943), dispondo das seguintes prerrogativas: a. Delegação, judicial e administrativa, dos interesses gerais e individuais da categoria ora representada; b. A celebração de acordos ou convenções coletivas; c. Eleger seus representantes; d. Cooperar com o Estado, como órgãos técnicos e consultivos, em temas relacionados à categoria representada; e e. Impor contribuições aos participantes da categoria representada. Além da assistência jurídica, muitos sindicatos detêm uma estrutura de saúde de profissionais que orientam os trabalhadores filiados em caso de acidentes, contribuindo, desta forma, para a vigilância em saúde do trabalhador. Você percebeu os principais sujeitos envolvidos no monitoramento da saúde dos trabalhadores em uma organização? Não podemos nos esquecer de que existem outros atores nessa relação, como os órgãos ambientais, a Vigilância Sanitária, ONGs, instituições públicas de ensino, entre outros. Para complementar a leitura desta unidade, leia naíntegra as NRs 4, 5, 7, 9 e 17. 58 UNIDADE III SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO CAPÍTULO 1 Doenças do trabalho causadas por fatores de risco físico, químico e biológico, psicoergonômico e mecânico – acidentes O diagnóstico das doenças relacionadas ao trabalho é também influenciado pelo conhecimento e pelo grau de consciência do profissional a respeito da relação entre o agente (fator de risco) e ocorrência da doença, por outros diversos fatores que interferem na relação médico-paciente, pela disposição do paciente em buscar tratamento médico e reconhecimento da doença provocada pelo trabalho (LUCCA, 2012). Para a NR 9, os riscos ambientais resumem-se em agentes físicos, químicos e biológicos presentes nos ambientes de trabalho que, em função de sua natureza, concentração ou intensidade e tempo de exposição, são capazes de causar danos à saúde do trabalhador. Entretanto, a visão reducionista dos riscos ambientais a três grupos perdeu força quando a NR 17 estabeleceu que a análise do ambiente de trabalho deve levar em consideração as características psicofisiológicas do trabalhador, por meio de uma análise ergonômica do trabalho. Essas condições de trabalho incluem aspectos relacionados ao levantamento, transporte e descarga de materiais, ao mobiliário, aos equipamentos e às condições ambientais do posto de trabalho e à própria organização do trabalho. Os fatores de risco presentes, ou não, nos ambientes de trabalho são classificados, quanto a sua natureza, em cinco grupos: 59 SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO │ UNIDADE III Quadro 4. Resumo dos agentes ambientais causadores de agravos à saúde. Tipo de risco Descrição 1. Físicos Ruídos; vibrações; radiação (não) ionizante; temperaturas extremas (frio e calor); e pressões anormais (hiperbarismo). 2. Químicos Agentes e substâncias químicas na forma líquida, gasosa (gases e vapores), partículas e névoas, poeiras minerais e vegetais (aerodispersoides). 3. Biológicos Vírus, bactérias, fungos e parasitas. 4. Ergonômicos e psicossociais Decorrem da organização e gestão do trabalho, da utilização de equipamentos, máquinas e mobiliários inadequados, impondo posturas e posições incorretas; más condições de iluminação nos postos de trabalho; podem desencadear fadiga visual no trabalho e acidentes; ventilação e desconforto interferem na produtividade dos trabalhadores; trabalhos em turnos noturnos; monotonia ou ritmo de trabalho excessivo; exigências cognitivas acentuadas e/ou de produtividade; falhas no treinamento e supervisão autoritária, entre outros. Aqui é importante salientar o processo e o ritmo de trabalho enquanto risco ergonômico. 5. Mecânicos Ligados ao funcionamento das máquinas e equipamentos; arranjo físico; ordem e limpeza do ambiente de trabalho; ou falta de sinalização, que pode levar a acidentes de trabalho. Fonte: Próprio autor. Você se lembra da classificação das doenças por Schiling? Resgate esse conhecimento e verifique o anexo desta apostila, no qual consta a lista de doenças e CIDs relacionados a determinadas atividades econômicas. Alguns autores atribuem os riscos relacionados à organização do trabalho ao que chamaríamos de “Riscos Sociais”. Eles são oriundos de comportamentos sociais incompatíveis com a preservação da saúde e seriam o pano de fundo de doenças mentais (MATTOS; MÁSCULO, 2011). Lucca (2012, p. 204) já os atribui aos riscos ergonômicos e psicossociais, a saber: Os aspectos relacionados à organização do trabalho podem estar relacionados à doença sob investigação e devem incluir a duração da jornada, realização de horas extras, duração de pausas, folgas e gozo regular de férias. A duração da jornada constitui um poderoso indicador não apenas do tempo de exposição aos demais riscos presentes no ambiente de trabalho e a possibilidade de fadiga, mas do impacto que o trabalho tem sob as demais dimensões da vida, como participação em atividades familiares e comunitárias, atividades de lazer, realização de atividade física regular, estudo etc. O grau de monotonia, autonomia, isolamento, ritmo de trabalho, sobrecarga cognitiva, sobrecarga afetiva, grau de responsabilidade e suporte social, impostos pela organização do trabalho, exercem efeitos distintos sobre as formas de uso do corpo, a sobrecarga de determinados segmentos e grupos musculares, a satisfação com o trabalho e o sentimento de gratificação pessoal no trabalho. A NR 9 elenca uma série de medidas essenciais para a eliminação, a minimização ou o controle dos riscos ambientais, pela identificação antecipada do risco potencial à saúde; 60 UNIDADE III │ SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO constatação de risco evidente à saúde, quando os resultados das avaliações quantitativas da exposição dos trabalhadores excederem os valores dos limites previstos na NR 15 ou, na ausência destes, os valores limites de exposição ocupacional adotados pela ACGIH (American Conference of Governmental Industrial Hygienists), ou aqueles que venham a ser estabelecidos em negociação coletiva de trabalho e quando, por meio do controle médico da saúde, ficar caracterizado o nexo causal entre danos observados na saúde dos trabalhadores e a situação de trabalho a que eles ficam expostos. Diferenças entre doenças profissionais e doenças do trabalho: a primeira é aquela produzida ou desencadeada pelo exercício do trabalho peculiar à determinada atividade ou profissão e constante da respectiva relação elaborada pelo Ministério do Trabalho e Emprego e o da Previdência Social. A segunda, a doença do trabalho, é adquirida ou desencadeada em função de condições especiais em que o trabalho é realizado e com ele se relaciona diretamente (também constante da relação supracitada) como, por exemplo, saturnismo (intoxicação provocada pelo chumbo) e silicose (intoxicação provocada pela sílica). Ou surdez por trabalho realizado em local ruidoso. Em seguida, verificaremos os principais grupos de agravos em ST, vinculando-os aos protocolos de atendimento em saúde estabelecidos pelo Ministério da Saúde. O estudo desta unidade estará sempre vinculado ao protocolo em questão e o Manual de Doenças do Trabalho do Ministério (2001), disponíveis em nossa biblioteca virtual. 61 CAPÍTULO 2 Acidente com exposição a material biológico relacionado ao trabalho Os acidentes com material biológico, como sangue ou outros fluidos orgânicos potencialmente contaminados, correspondem às exposições mais comumente relatadas entre todos os profissionais e trabalhadores que atuam, direta ou indiretamente, na assistência à saúde, assistência domiciliar e atendimento pré-hospitalar. Podemos considerar como grupo de risco as manicures e pedicures dos salões de beleza. Os ferimentos com material perfurocortante são potencialmente capazes de transmitir mais de 50 tipos de patógenos diferentes. É importante conhecer os procedimentos quando da exposição a material biológico com risco de soroconversão (HIV, hepatite B e C), estabelecendo conduta de atendimento inicial, orientação e segmento dos trabalhadores acidentados, uso de quimioprofilaxia e notificação de casos (BRASIL, 2006b). Em termos percentuais, o risco de infecção por HIV pós-exposição ocupacional percutânea com sangue contaminado é de aproximadamente 0,3%, de 6 a 30%, podendo chegar até a 60%, para hepatite B (HBV) e de cerca 1,8% quanto ao vírus da hepatite C (HCV). Frisa-se que o risco de adquirir infecção pós-exposição ocupacional é variável e depende de diversos fatores como o tipo de acidente, tamanho e gravidade da lesão, presença e volume de sangue envolvido, condições clínicas do paciente-fonte e seguimento adequado pós-exposição. Condutas após o acidente a. Cuidados com a área exposta: › Lavagem do local exposto com água e sabão nos casos de exposição percutânea ou cutânea. › Nas exposições de mucosas, deve-se lavar exaustivamente com água ou solução salina fisiológica.› Não há evidência de que o uso de antissépticos ou a expressão do local do ferimento reduzam o risco de transmissão, entretanto, o uso de antisséptico não é contraindicado. 62 UNIDADE III │ SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO › Não devem ser realizados procedimentos que aumentem a área exposta, tais como cortes e injeções locais. A utilização de soluções irritantes (éter, glutaraldeído, hipoclorito de sódio) também está contraindicada. b. Avaliação do acidente: › Estabelecer o material biológico envolvido: sangue, fluidos orgânicos potencialmente infectantes (sêmen, secreção vaginal, liquor, líquido sinovial, líquido pleural, peritoneal, pericárdico e amniótico), fluidos orgânicos potencialmente não infectantes (suor, lágrima, fezes, urina e saliva), exceto se contaminado com sangue. › Tipo de acidente: perfurocortante, contato com mucosa, contato com pele com solução de continuidade. › Conhecimento da fonte: fonte comprovadamente infectada ou exposta à situação de risco ou fonte com origem fora do ambiente de trabalho. › Fonte desconhecida. Quadro 5. Situações de maior inoculação viral. Maior inoculação viral Paciente-fonte com HIV/aids em estágio avançado. Infecção aguda pelo HIV. Situações com viremia elevada. Ainda com a carga viral baixa e pequeno volume de sangue, há a possibilidade de transmissão. Fonte: Adaptada de Brasil, 2006b. c. Orientações e aconselhamento ao acidentado com relação ao risco do acidente: › Possível uso de quimioprofilaxia. › Consentimento para realização de exames sorológicos. › Comprometer o acidentado com seu acompanhamento durante seis meses. › Prevenção da transmissão secundária. › Suporte emocional devido estresse pós-acidente. 63 SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO │ UNIDADE III › Orientar o acidentado a relatar de imediato os seguintes sintomas: linfoadenopatia, rash, dor de garganta, sintomas de gripe (sugestivos de soroconversão aguda). › Reforçar a prática de biossegurança e precauções básicas em serviço. d. Notificação do acidente: › Registro do acidente em CAT. › Preenchimento da ficha de notificação do Sinan. e. Manejo frente ao acidente com material biológico. Condutas frente ao acidente com exposição ao HIV Quadro 6. Resumo sobre a conduta pós-acidente versus situação do paciente-fonte. Paciente-fonte Descrição Conduta Tratamento Paciente-fonte HIV positivo Um paciente-fonte é considerado infectado pelo HIV quando há documentação de exames anti-HIV positivos ou o diagnóstico clínico de aids. Análise do acidente e indicação de quimioprofilaxia antirretroviral (ARV)/profilaxia pós-exposição (PPE), conforme o fluxograma do Manual do MS. Indicação de profilaxia pós- exposição (PPE) quando indicada. A PPE deverá ser iniciada o mais rápido possível, idealmente, nas primeiras duas horas após o acidente. Recomenda-se que o prazo máximo, para início de PPE, seja de até 72 horas após o acidente. A duração da quimioprofilaxia é de 28 dias. Atualmente, existem diferentes medicamentos antirretrovirais potencialmente úteis, embora nem todos indicados para PPE, com atuações em diferentes fases do ciclo de replicação viral do HIV. Paciente-fonte HIV negativo Envolve a existência de documentação laboratorial disponível e recente (até 60 dias para o HIV) ou no momento do acidente, por meio do teste convencional ou do teste rápido. Não está indicada a quimioprofilaxia antirretroviral. Paciente-fonte com situação sorológica desconhecida Um paciente-fonte com situação sorológica desconhecida deve, sempre que possível, ser testado para o vírus HIV, depois de obtido o seu consentimento. Deve-se colher também sorologias para HBV e HCV. Paciente-fonte desconhecido Na impossibilidade de se colher as sorologias do paciente-fonte ou de não se conhecer o mesmo (p. ex., acidente com agulha encontrada no lixo). Recomenda-se a avaliação do risco de infecção pelo HIV, levando-se em conta o tipo de exposição, dados clínicos e epidemiológicos. Fonte: Adaptada de Brasil, 2006b. 64 UNIDADE III │ SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO Na escolha do esquema profilático em exposições envolvendo pacientes-fonte infectados pelo HIV/aids, deve-se avaliar a história prévia e atual de uso dos antirretrovirais e os parâmetros que possam sugerir a presença de vírus resistentes, como o tratamento antirretroviral prolongado e a ocorrência, durante o tratamento, de progressão clínica, aumento de RNA viral, queda dos níveis de linfócitos CD4+ e falta de resposta na troca do esquema medicamentoso. Na prevenção secundária, trata-se de o profissional acidentado (exposto ao HIV) realizar atividade sexual com proteção pelo período de monitoramento, especialmente, nas primeiras 6 a 12 semanas pós-exposição. Deve também evitar: gravidez, doação de sangue, plasma, órgãos, tecidos e sêmen. O aleitamento materno deve ser interrompido. Condutas frente ao acidente com exposição ao HBV Aqui a conduta vai variar segundo os parâmetros sorológicos do paciente-fonte e do acidentado (níveis de anti-HBs), resumidos no quadro a seguir. Quadro 7. Condutas segundo paciente-fonte e acidentado. Situação vacinal sorológica do trabalhador acidentado Paciente-fonte: HBsAg reagente Paciente-fonte: HBsAg não reagente Paciente-fonte: BHsAg desconhecido Não vacinado IGHAHB + completar vacinação Iniciar vacinação Iniciar vacinação Com vacinação incompleta IGHAHB + iniciar nova vacinação Completar vacinação Completar vacinação Com resposta vacinal conhecida e adequada (>10UI/ml) Nenhuma medida específica Nenhuma medida específica Nenhuma medida específica Sem resposta vacinal após a 1a série de vacina IGHAHB + iniciar nova vacinação Iniciar nova série de vacinação (3 doses) Iniciar nova série de vacinação (3 doses) Sem resposta vacinal após a 2a série de vacina IGHAHB (2 doses) com intervalo de 30 dias Nenhuma medida específica Resposta vacinal desconhecida Testar o profissional de saúde: Se anti-HBs >10 – Nenhuma Se Anti-HBs <10 – Fazer segunda série de vacinação Testar o profissional de saúde: Se anti-HBs >10 – Nenhuma Se Anti-HBs <10 – Fazer segunda série de vacinação Testar o profissional de saúde: Se anti-HBs >10 – Nenhuma Se Anti-HBs <10 – Fazer série de vacinação Fonte: Adaptado de Brasil, 2006b. Condutas frente ao acidente com exposição ao HCV A incubação do HCV é de 2 a 24 semanas (em média seis a sete semanas). Pode ocorrer alteração na TGP em torno de 15 dias, e a positividade do RNA-HCV (PCR – reação em cadeia da polimerase) aparece entre 8 e 21 dias. O Anti-HCV (3a geração) já pode ser detectado cerca de seis semanas após a exposição. 65 SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO │ UNIDADE III A positivação do Anti-HCV pode ser tardia, e grande parte dos profissionais acidentados terá a eliminação espontânea do vírus até 70 dias após a exposição, por isso é recomendada a realização do RNA-VHC qualitativo (que já se apresenta detectável dias após a contaminação), no prazo de 90 dias após a data do acidente. Em caso de resultado positivo, o profissional acidentado será orientado a realizar o tratamento. Assim, o monitoramento preestabelecido para trabalhadores, que se acidentaram com fonte HCV positiva ou desconhecida, consiste na realização dos seguintes exames (em locais que disponham de laboratórios de Biologia Molecular): Quadro 8. Tipo de exame e periodicidade de acompanhamento. EXAME/TEMPO Momento zero 90 dias 180 dias ALT(TGP) Realizar Realizar Realizar Anti-HCV Realizar Realizar PCR(RNA-HCV) Realizar * Nota: *Se positivo, encaminhar para tratamento da hepatite C aguda em centro de referência. Se negativo, um novo Anti-HCV deverá ser feito em 180 dias. Fonte: Adaptada de Brasil, 2006b. Em caso de soroconversão, deve-se realizar teste confirmatório por PCR. Quando se identifica precocemente a infecção pelo HCV, o acidentado deve ser informado sobre a possibilidade de tratamentoe encaminhado para um serviço de referência. Concomitantemente, realizar a prevenção da transmissão secundária. Sempre é importante focar na prevenção e solicitar do profissional de saúde a carteira de vacinação atualizada em que conste a dose da vacina contra a hepatite B, além das exigidas pela NR 32 e a adoção de condutas mais seguras em seu ambiente de trabalho, sem negligenciar o fato de que o paciente pode ser portador de uma patologia ainda desconhecida pela equipe de saúde. Assim, ao longo da vida do profissional de saúde, o monitoramento, desde a admissão, e os cuidados durante os procedimentos são de extrema importância para a manutenção de sua saúde. É o cuidado com o cuidador. Recomendamos a leitura da NR 32 para a complementação das precauções adotadas pelos profissionais de saúde, ainda que tenhamos um breve resumo logo a seguir. Medidas de precaução individuais » Adotar precauções padrão: sempre utilizar luvas, óculos, máscara e avental quando manipular sangue e secreções (independentemente do diagnóstico do paciente); 66 UNIDADE III │ SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO » Lavar as mãos antes e após qualquer procedimento, ainda que tenha utilizado EPI; » Manter atenção durante a realização dos procedimentos; » Manipular com cuidado as agulhas e instrumentos cortantes; » Não utilizar os dedos como anteparo durante a realização de procedimentos que utilizem materiais perfurocortantes; » Não reencapar as agulhas e não as entortar, quebrá-las ou retirá-las das seringas com as mãos; » Desprezar conjunto seringa/agulha sem desmontá-lo; » Seguir as recomendações para montagem e preenchimento das caixas de perfurocortantes; » Desprezar todo material perfurocortante, mesmo que estéril, em recipientes adequados; e » Manter atualizada a carteira de vacinação e os exames médicos periódicos. 67 CAPÍTULO 3 Câncer relacionado ao trabalho (decorrente da exposição ao benzeno) O câncer ocupacional é decorrente da exposição a riscos ambientais capazes de causar tal enfermidade, alguns descritos nas Normas Regulamentadoras 7 e 15: benzeno, 4-aminodifenil, benzidina, beta-naftilamina e 4-nitrodifenil. Adota-se no país a concepção de “níveis de tolerância” para a exposição ocupacional para a maior parte dos cancerígenos, conflitando com o atual conhecimento científico sobre carcinogênese, em que não há o reconhecimento de limites seguros para a exposição do trabalhador aos agentes cancerígenos, tais como a radiação ionizante, amianto e a sílica, que estão entre as que possuem exposições toleradas (BRASIL, 2006c). O benzeno caracteriza-se como um hidrocarboneto aromático que se apresenta sob a forma líquida e incolor, diante das condições normais da temperatura do ambiente e da pressão atmosférica, e sua fonte principal de exposição dá-se no ambiente ocupacional. A preocupação em torno do benzeno está na variedade de processos produtivos cujo composto é matéria-prima ou solvente: de um lado, colocam-se as indústrias siderúrgicas, químicas, petroquímicas e de petróleo, que utilizam e produzem o benzeno e suas misturas com mais de 1% de concentração por volume; de outro, representando um grupo maior, aparecem as atividades com concentrações inferiores a 1%, tais como postos de gasolina, indústrias de produção e uso de cola, solventes, tintas, indústria de borracha, indústria gráfica, entre outras (BRASIL, 2006c). Seu alto poder de volatilização faz com que sua presença se manifeste, principalmente, na atmosfera, sendo a sua principal via de absorção no organismo humano a respiratória, podendo ocorrer também a penetração por via cutânea. Além de causar intoxicação aguda e crônica, o quadro clínico de toxicidade pode se caracterizar pelo comprometimento da medula óssea e, consequentemente, de diversas alterações hematológicas: “os órgãos hematopoiéticos como a medula óssea são muito sensíveis ao benzeno e este malefício tem sido usado como base para a construção da regulamentação do uso deste composto” (BRASIL, 2006c). 68 UNIDADE III │ SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO Segundo o Ministério da Saúde (2006c), os sinais e sintomas de intoxicação por benzeno são: “astenia, mialgia, sonolência, tontura e infecções repetidas. Os dados hematológicos mais relevantes são neutropenia, leucopenia, eosinofilia, linfocitopenia, monocitopenia, macrocitose, pontilhado basófilo, pseudo Pelger e plaquetopenia. O diagnóstico é obtido através de histórico clínico ocupacional, além de sinais e sintomas característicos do quadro de benzenismo” (BRASIL, 2006c). Segundo Militão et al. (2000 apud FERREIRA et al., 2015), os principais efeitos nocivos provocados são a mielotoxicidade, imunotoxicidade e carcinogênese. a. Efeito mielotóxico – oriundo de três diferentes manifestações do benzeno condizentes à: › Depressão das células progenitoras primitivas e indiferenciadas; › Dano ao tecido da medula óssea; e › Formação clonal de células primitivas afetadas em decorrência de lesões cromossômicas. b. Efeito imunotóxico – está vinculado aos efeitos produzidos na medula óssea, que provocam interferências na imunidade humoral e celular do organismo. c. Efeito carcinogênico – a capacidade de gerar câncer vem do fato de provocar danos cromossômicos e à medula óssea. Diagnóstico das alterações hematológicas Suspeita diagnóstica: » Documentação do nexo causal (risco ocupacional) – anamnese ocupacional; » Hemograma completo com plaquetometria e contagem de reticulócitos; » Hematoscopia. 69 SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO │ UNIDADE III Confirmação diagnóstica: » Mielograma e citoquímica incluindo a coloração para o ferro; » Biópsia de medula óssea; » Citometria de fluxo do material medular nos casos suspeitos de leucemia aguda; » Citogenética do material obtido por meio do mielograma. Complicação da exposição ao benzeno Segundo Ministério da Saúde (2006c), as complicações mais graves são a leucemia mieloide aguda ou síndrome mielodisplásica. A leucemia mieloide aguda (LMA) é caracterizada pela presença de células imaturas (blastos) na medula óssea e/ou sangue periférico, em percentual maior ou igual a 20% em relação às células nucleadas, mostrando diferenciação mieloide comprovada (citoquímica e/ou imunofenotipagem), geralmente expressa num contexto de citopenia(s) periférica(s), de início rápido. Já a síndrome mielodisplásica é caracterizada pela presença de hematopoiese ineficaz, geralmente expressa por citopenia(s) periférica(s) em uma medula hipercelular, às vezes hipocelular, com a existência de anormalidades de diferenciação celular, em pelo menos uma das três linhagens hematopoiéticas mieloides e cuja propensão para evolução em leucemia mieloide aguda varia conforme os subtipos encontrados (BRASIL, 2006c). Vigilância e notificação O trabalhador exposto a benzeno que apresenta quadro clínico compatível com leucemia mieloide aguda ou síndrome mielodisplásica deverá ser encaminhado a um serviço de referência em oncologia. Nessa área, os médicos deverão estar capacitados para adotar os seguintes procedimentos: a. Completa e minuciosa anamnese clínica e ocupacional; b. Reavaliar os exames hematopatológicos e, quando for o caso, solicitar que um patologista faça a revisão da lâmina; c. Consultar os sistemas de informação e vigilância para verificar se o trabalhador está cadastrado como exposto a agentes mielotóxicos. 70 UNIDADE III │ SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO Monitoramento e prevenção no ambiente de trabalho Segundo a NR 7, os parâmetros mínimos de acompanhamento da exposição ao benzeno se dão por meio do hemograma completo e contagem de plaquetas na admissão do trabalhador e a cada semestre. Quanto ao monitoramento das condições de trabalho, as empresas que utilizam benzeno em suas atividades deverão elaborar o Programa de Prevenção da Exposição Ocupacional ao Benzeno(PPEOB), contemplando mais aspectos que aqueles descritos para o PPRA da NR 09: » Caracterização das instalações contendo benzeno ou misturas que o contenham em concentração maior do que 1% (um por cento) em volume; » Avaliação das concentrações de benzeno para verificação da exposição ocupacional e vigilância do ambiente de trabalho segundo a Instrução Normativa (IN) no 1; » Ações de vigilância à saúde dos trabalhadores próprios e de terceiros, segundo a IN no 2; » Descrição do cumprimento das determinações da Portaria e acordos coletivos referentes ao benzeno; procedimentos para o arquivamento dos resultados de avaliações ambientais previstas na IN no 1 por 40 (quarenta) anos; » Adequação da proteção respiratória ao disposto na IN no 1, de 11 de abril de 1994; » Definição dos procedimentos operacionais de manutenção, atividades de apoio e medidas de organização do trabalho necessárias para a prevenção da exposição ocupacional ao benzeno; » Nos procedimentos de manutenção, deverão ser descritos os de caráter emergencial, rotineiros e preditivos, objetivando minimizar possíveis vazamentos ou emissões fugitivas; » Levantamento de todas as situações em que possam ocorrer concentrações elevadas de benzeno, com dados qualitativos e quantitativos que contribuam para a avaliação ocupacional dos trabalhadores; » Procedimentos para proteção coletiva e individual dos trabalhadores, do risco de exposição ao benzeno nas situações críticas, verificadas no item 71 SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO │ UNIDADE III anterior, por intermédio de medidas como: organização do trabalho, sinalização apropriada, isolamento de área, treinamento específico, ventilação apropriada, proteção respiratória adequada e proteção para evitar contato com a pele; descrição dos procedimentos usuais nas operações de drenagem, lavagem, purga de equipamentos, operação manual de válvulas, transferências, limpezas, controle de vazamentos, partidas e paradas de unidades que requeiram procedimentos rigorosos de controle de emanação de vapores e prevenção de contato direto do trabalhador com o benzeno; » Descrição dos procedimentos e recursos necessários para o controle da situação de emergência até o retorno à normalidade; » Cronograma detalhado das mudanças que deverão ser realizadas na empresa para a prevenção da exposição ocupacional ao benzeno e a adequação ao Valor de Referência Tecnológico; » Exigências contratuais pertinentes que visem adequar as atividades de empresas contratadas à observância do programa de contratante; » Procedimentos específicos de proteção para o trabalho do menor de 18 (dezoito) anos, mulheres grávidas ou em período de amamentação. 72 CAPÍTULO 4 Dermatoses ocupacionais As dermatoses são compreendidas nas alterações da pele, mucosas e anexos, direta ou indiretamente causadas, mantidas ou agravadas pelo trabalho. Podem estar vinculadas às substâncias químicas, o que ocorre em 80% dos casos, ou a agentes biológicos ou físicos, e ocasionam quadros do tipo irritativo (a maioria) ou do tipo sensibilizante. Dentre os principais agentes químicos causadores de dermatoses estão cimento, borracha, plástico, solventes orgânicos, graxas e óleo de corte, resinas, níquel, cosméticos, madeira, cromo e outros. Segundo Ministério da Saúde (2001), as dermatoses ocupacionais são as alterações da pele, mucosas e anexos mantidas pelo trabalho e determinadas pela interação de dois grupos de fatores: » Causas indiretas, como idade, sexo, etnia, antecedentes mórbidos e doenças concomitantes, fatores ambientais, como o clima (temperatura, umidade), hábitos e facilidades de higiene; » Causas diretas constituídas pelos agentes biológicos, físicos, químicos ou mecânicos presentes no trabalho que produzem ou agravam uma dermatose preexistente. Incluem-se nesse grupo insetos e animais peçonhentos (ALI, 2009). Em média, cerca de 80% das dermatoses ocupacionais são provocadas por agentes químicos, substâncias orgânicas e inorgânicas, irritantes e sensibilizantes. A maioria é de tipo irritativo e um menor número é de tipo sensibilizante. Dentre as dermatoses ocupacionais mais frequentes estão as dermatites de contato. Estima-se que, juntas, as dermatites alérgicas de contato e as dermatites de contato por irritantes representem cerca de 90% dos casos das dermatoses ocupacionais. Apesar de, na maioria dos casos, não produzirem quadros considerados graves, são, com frequência, responsáveis por desconforto, prurido, ferimentos, traumas, alterações estéticas e funcionais que interferem na vida social e no trabalho. 73 SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO │ UNIDADE III Quadro 9. Alterações na pele e anexos por causas ocupacionais. Estrutura Função Alterações cutâneas Camada córnea Barreira para agentes biológicos, físicos e químicos Descamação, fissuras, desocloração, absorção percutânea Epiderme: camada espinhosa e basal Síntese da camada córnea Dermatite de contato, queimadura, infecções, câncer cutâneo Melanócitos Absorção de radiação UV, regeneração tecidual; absorção da luz solar Hiper-/Hipopigmentação, vitiligo, melanoma Células de Langerhans Imunorregulação Dermatite alérgica de contato, micose fungoide Células sensoriais e de Merkel Percepção tátil Neuropatias tóxicas Vasos e mastócitos Nutrição e termorregulação Choque térmico, urticária, eritema, dedos brancos Tecido conjuntivo Proteção, reparo tecidual Traumas, infecções, granuloma, escara, elastose, escleroderma Glândulas sudoríparas, écrinas Termorregulação Miliária cristalina e rubra Glândulas sebáceas Síntese lipídica, formação do manto lipídico, pH cutâneo Erupções acneiformes, cloracne, furúnculos Pelos, ósteofolicular Proteção sensorial, estética Foliculites, alopecia tóxica Unhas Função de garra e preensão de pequenos objetos Distrofias, paroníquia, onicólises Fonte: Ali (2009). Diagnóstico Para um diagnóstico preciso, é importante observar: a. Anamnese ocupacional (história de exposição ocupacional, melhora com o afastamento e piora com o retorno ao trabalho); b. Exame físico; c. Diagnóstico diferencial**; d. Exames de laboratório: histopatologia, testes de contato (teste epicutâneo* positivo, nos casos de dermatites de contato por sensibilização); e. Inspeção do local de trabalho***; f. Informações fornecidas pelo empregador****. *Os testes epicutâneos consistem na reexposição, de forma controlada, da pele do paciente ao contato com substâncias químicas, em concentrações não irritantes, podendo-se diferenciar a dermatite irritativa de contato (DIC) da dermatite alérgica de contato (DAC). “Elas são colocadas de modo ordenado, identificadas sobre uma tira de micropore e fixadas na pele do dorso do paciente. Depois de 48 horas, retira-se a fita e, decorridos de 30 a 60 minutos, faz-se a primeira leitura. Novas leituras deverão ser feitas de 24 a 48 horas após a primeira” (BRASIL, 2001). Não se deve coçar, molhar a área do teste, e devem ser evitados movimentos bruscos (MENDES, 2013). 74 UNIDADE III │ SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO **Diagnóstico Diferencial – existem algumas dermatites e afecções dermatológicas que apresentam características comuns àquelas de origem ocupacional, ou foram agravadas no ambiente de trabalho. Tais dermatites de contato não ocupacional são: erupções por drogas, disidroses, fotodermatoses, neurodermatites, escabiose, dermatite atópica, líquen plano, eczema numular, picadas de insetos e reação a insetos, dermatofitoses e dermatite artefacta (simulação, ou malingering). ***Inspeção do ambiente de trabalho – aqui os profissionais podem ter de identificar as condições de trabalho e possíveis agentes potencialmente irritantes ou alergênicos. ****Informações junto ao empregador – obter as informações necessárias para se estabelecer nexo entre o agente e a dermatose. Atente-se para o nome comercial do produto suspeito – ficha técnica;composição química; presença de substâncias sensibilizantes; presença de substâncias irritantes (ALI, 2009). Segundo Mendes (2013), em dermatologia ocupacional, as lesões são frequentes em membros superiores, pescoço, face e pernas, podendo atingir toda a pele, em alguns casos. Tratamento De um modo geral, o tratamento local contempla cuidados higiênicos em locais para prevenir a infecção secundária. Aliado ao uso tópico de corticoides e/ou antibióticos, emolientes, hidratantes; e o sistêmico com a prescrição de anti-histamínicos sistêmicos e, nos casos mais extensos, corticoidoterapia sistêmica (BRASIL, 2012). Em caso de infecção secundária, usa-se: antibiótico tópico, ou sistêmico, dependendo da extensão das lesões. O afastamento da exposição é essencial, utilizando-se de critérios para a sua recomendação, conforme “Tabela 2 – Estadiamento, indicadores e parâmetros para afastamento do trabalhador de sua função” do protocolo do Ministério da Saúde (2012). A exposição de trabalhadores desprotegidos à radiação solar é a maior causa atual de câncer cutâneo ocupacional, tendo como maior incidência de tumores cutâneos os indivíduos de pele clara. Outros agentes químicos quando em contato habitual com a pele podem igualmente causar cânceres cutâneos. Dentre os mais importantes, destacamos: creosoto, piche, arsênico, óleos usados, graxa usada, agentes químicos com presença de alguns hidrocarbonetos policíclicos aromáticos e outros. 75 SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO │ UNIDADE III Prevenção O conhecimento dos riscos implica esforços que visem sua neutralização e devem ser avaliados de acordo com a atividade executada, a fim de adequar as ações de saúde com o nível necessário de prevenção (BRASIL, 2012). Ali (2009) resume em um fluxograma as ações de prevenção das dermatoses, por níveis, conforme Quadro 10. Quadro 10. Resumo de ações de prevenção ao câncer ocupacional. Conceito de prevenção – avaliar previamente o ambiente de trabalho e propor medidas que evitem danos à integridade física dos trabalhadores Prevenção primária Prevenção secundária Prevenção terciária » Ambiente de trabalho com instalações adequadas e seguras. » Estrutura sanitária de fácil acesso para boa higiene pessoal. » Refeitório ou restaurante com ambientação adequada. » Treinamento sobre riscos e a sua prevenção. » Orientação sobre doenças de modo geral. » Males sociais, como álcool e outras drogas. » Normas de higiene, imunização, campanhas etc. » Detecção precoce de agravos à pele. » Neutralização/minimização de riscos. » Inspeção periódica dos locais de trabalho. » Exames médicos periódicos. » Tratamento precoce. » Diagnóstico clínico, exame de laboratório, testes epicutâneos. » Tratamento: cura, cura com sequelas ou cronificação. » Reabilitação para a mesma atividade. » Reabilitação para outra atividade, em caso de alergia severa. Fonte: Adaptado de Ali (2009). 76 CAPÍTULO 5 Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT) Dados recentes do Anuário Estatístico da Previdência Social (2012) revelam que, em 2012, ocorreram 385.991 casos de doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), o aumento dessas doenças está relacionado à revolução tecnológica, a fatores biomecânicos, psicossociais, bem como ligados à psicodinâmica do trabalho e aos fatores organizacionais, tais como inflexibilidade, ritmo elevado de trabalho com movimentos repetitivos e sem pausa, grande exigência de produção e posto de trabalho desconfortável e ergonomicamente favorável ao adoecimento (BRASIL, 2001). A ocorrência de LER/DORT em grande número de pessoas, em diferentes países e em atividades consideradas leves, provocou uma mudança no conceito tradicional de que o trabalho pesado, envolvendo esforço físico, é mais desgastante do que o trabalho leve. No Brasil, segundo dados do boletim epidemiológico publicado na 4a Conferência de Saúde do Trabalhador (2014), em Brasília, as doenças de interesse exclusivo de notificação por estratégia sentinela contabilizam 8% dos agravos, e as LER/DORT predominam com 74% das notificações no país. Sinais e sintomas Segundo Ministério da Saúde (2001), os sinais e sintomas de LER/DORT são múltiplos e diversificados, destacando-se: » Dor espontânea ou relativa à movimentação passiva, ativa ou contrarresistência; » Alterações sensitivas de fraqueza, cansaço, peso, dormência, formigamento, sensação de diminuição, perda ou aumento de sensibilidade, agulhadas, choques; » Dificuldades para o uso dos membros, particularmente das mãos, e, mais raramente, sinais flogísticos e áreas de hipotrofia ou atrofia. A descrição específica dos sinais e sintomas relacionada à localização, forma da lesão; momento de início, duração e caracterização da evolução temporal, bem como a sua intensidade, são cruciais para o diagnóstico. Além disso, devem ser especificados os fatores que contribuem para a melhora ou agravamento do quadro. 77 SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO │ UNIDADE III Outros sintomas desse grupo podem ser confirmados por testes específicos, mas isso nem sempre é um processo direto, porque a ausência de sinais conclusivos não permite descartar a presença da doença se o paciente continua a queixar-se de dor intensa. A dor é subjetiva, podendo decorrer de situações de conflito no trabalho ou um sofrimento maior. O reconhecimento das patologias específicas no grupo LER/DORT é muito útil na orientação do plano terapêutico. A demora do reconhecimento de uma LER/DORT na fase aguda pode favorecer a apresentação de mais de uma patologia específica na fase crônica. Por exemplo, pacientes com inflamações teciduais podem apresentar também alterações sensitivas originadas de uma compressão do nervo periférico e uma sobrecarga emocional muito grande no trabalho e assim sucessivamente. Daí a necessidade de se ter um olhar clínico para além da sintomatologia do agravo, percebendo as condições ambientais de trabalho. Plano de tratamento A definição de plano de tratamento para membros superiores depende: 1. Da presença de inflamação e/ou degeneração; 2. De alterações sensitivas e/ou motoras e/ou edema; e 3. Desequilíbrios psíquicos gerados em certas situações especiais de trabalho, na origem do adoecimento e/ou associados à sua evolução quando, por exemplo, exige afastamento do paciente de sua atividade laboral. Assim, deve-se contemplar ainda: » Explicação ao paciente de que a dor advém de um longo tempo de exposição aos fatores de risco no trabalho e que o tratamento também será longo; » Orientação de que a postura nas atividades domésticas e outras deverão ser corrigidas; » Orientação quanto à postura para dormir; » Uso de gelo, ou calor, dependendo do caso, três vezes ao dia durante 20 minutos; 78 UNIDADE III │ SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO » Consideração da unidade do membro superior e estabelecimento de conduta focada nos objetivos de: › Aliviar a dor e paresia; › Reduzir o edema; › Manter ou aumentar a amplitude de movimentos (adm) dos mmss; › Aumentar a força muscular dos mmss; › Reeducar a função sensorial; › Aumentar a resistência à fadiga; › Melhorar a funcionalidade dos mmss; e › Proteger a função articular; » Eficácia do uso do anti-inflamatório, acompanhado ou não de relaxante muscular; » Necessidade de se introduzir outros medicamentos, como, por exemplo, antidepressivos tricíclicos em doses baixas; » Recursos de eletrotermoterapia, com programação individualizada, avaliando sempre sua eficácia; » Atividades de relaxamento muscular com massageador elétrico, de hidromassagem, massagem manual e outras técnicas de terapia corporal; » Na presença de edema, massagem retrógrada para reduzi-lo; » Exercícios passivos, ativo-assistidos e com resistências; » Exercícios isométricos, com estimulaçãotátil com diferentes texturas e exercício de pinça; » Atividades de terapia ocupacional, visando propiciar a recuperação da capacidade de desenvolver atividades da vida diária, gradativamente; » Em alguns casos, uso do splint para reduzir a dor, manter a integridade articular e melhorar a função (recomendado por terapeuta); » Avaliação de desequilíbrios psíquicos existentes, procurando identificar formas precoces de seu aparecimento; » Observação de que, quando houver mais de um diagnóstico específico, não é aconselhável somar as terapias, pois uma prescrição fisioterápica para um quadro clínico específico pode agravar os sintomas de outro; 79 SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO │ UNIDADE III » Evolução dos sintomas da patologia específica, pois a maioria das lesões da coluna cervical inicia-se com dor e, posteriormente, surgem os sintomas de disfunção neurológica, que podem acentuar os sintomas de outra patologia; » Identificação do estado das estruturas musculoesqueléticas atingidas para, então, instituir a terapêutica conveniente. » Diagnóstico da origem da dor no membro superior e as possíveis alterações anatômicas e funcionais que incluem testes de força dos grupos musculares de ambos os membros, sempre comparados com o lado normal, se houver; e » Na perspectiva de avaliar o membro superior enquanto unidade, os testes irritativos que reproduzem sintomas, estalos e sensação de instabilidade podem ajudar na avaliação dos efeitos da exposição aos fatores de risco de LER/DORT sobre as diferentes estruturas do membro superior. Os procedimentos cirúrgicos não têm se mostrado úteis nos casos de LER/DORT. Frequentemente, os pacientes com história relativamente longa, submetidos a procedimentos cirúrgicos, evoluem para dor crônica de difícil controle (BRASIL, 2012). Temos uma extensa relação de CIDs enquadrados como LER/DORT na Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho do Ministério da Saúde (1999) e a conduta terapêutica específica para cada agravo no Manual de Doenças Relacionadas ao Trabalho (2001). Seguem a seguir as descrições de algumas delas. Quadro 11. LER/DORTS mais comuns. Algumas LER/DORT A tenossinovite é um processo inflamatório provocado por um problema mecânico: o atrito entre os tendões e os ossos lesa a bainha que fica entre tais estruturas, gerando sintomas inflamatórios. Este quadro pode gerar a compressão dos nervos periféricos localizados na região do punho. Temos como exemplo a tenossinovite estenosante (“dedo em gatilho”) quando um espessamento nos tendões flexores superficiais dos dedos o leva a ficar encarcerado em flexão. A síndrome de impacto exemplifica a evolução de LER/DORT: é consequência de uma disfunção do manguito rotatório (ombro) por atrofia ou por lesão degenerativa dos tendões dos músculos – muito solicitados nas tarefas que o trabalhador desempenhava – que o compõem, devido a gestos e movimentos estereotipados e certas exigências do posto de trabalho. A dor denominada síndrome do impacto é resultante de uma alteração mecânica, ou seja, o aumento do atrito na região subacromial quando o braço é elevado. Epicondilite lateral “cotovelo de tenista” decorre do envolvimento da origem dos tendões extensores do carpo; já a epicondilite medial denominada “cotovelo de golfista” tem sua origem nos tendões flexores do carpo. Em geral, são desencadeadas por movimentos repetitivos de punho e dedos, com flexão brusca ou frequente, esforço estático e preensão prolongada de objetos, por exemplo, preensão de chaves de fenda, condução de veículos cujos volantes exigem esforço e transporte de cargas pesadas. Fonte: Próprio autor. 80 UNIDADE III │ SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO Notificação No Protocolo de atendimento à LER-DORT, recentemente lançado, tem-se duas situações que prescindem de notificação em um momento inicial, não descartando a possibilidade de uma futura notificação, caso seja confirmado o diagnóstico: 1. Ainda que o ramo de atividade não seja de conhecido risco para tal agravo, com quadro clínico sugestivo e anamnese pouco elucidativa dos riscos para LER e ocupação, deve-se apenas encaminhar o paciente para tratamento clínico e acompanhamento. 2. Quando sem quadro característico e/ou com a permanência de dúvidas, encaminhar para avaliação clínica especializada (reumatologista, neurologista, ortopedista) e/ou exames complementares (radiografia, ultrassonografia, ressonância magnética). 81 CAPÍTULO 6 Perda Auditiva Induzida Por Ruído (PAIR) relacionada ao trabalho Segundo Mendes (2013), o sistema auditivo pode ser atingido de diversas formas na atividade laboral por meio da exposição a ruído intenso, produtos químicos e outros, podendo sofrer até traumas acústicos. Entre esses agentes, o ruído aparece como o maior causador de perda auditiva, expondo maior número de trabalhadores. Este agravo é conhecido como PAIR. A Perda Auditiva Induzida Pelo Ruído (PAIR) consiste na diminuição gradual da acuidade auditiva, decorrente da exposição continuada a níveis elevados de ruído no ambiente de trabalho. Ela é neurossensorial, irreversível e passível de não progressão uma vez cessada a exposição ao ruído. A NR 7 estabelece que, inicialmente, o acometimento dos limiares auditivos acontecem em uma ou mais frequências da faixa de 3.000 a 6.000 Hz e, nas mais altas e mais baixas, poderão levar mais tempo para serem afetados. “O trauma acústico é a perda súbita da acuidade auditiva, ocasionada por uma única exposição a pressão sonora intensa, como as explosões e detonações por exemplo, ou devido a trauma físico do ouvido, crânio ou coluna cervical direto ” (BRASIL, 2001). Diagnóstico Um conjunto de procedimentos que envolve anamnese clínica e ocupacional, exame físico, avaliação audiológica e, se necessário, testes complementares são fundamentais para o diagnótico de PAIR ocupacional (BRASIL, 2001). Distinguem-se em estágios de evolução clínica os seguintes: Quadro 12. Estágios de evolução da PAIR ocupacional. Estágios de evolução clínica 1o Estágio: compreende as primeiras 2 ou 3 semanas de início da exposição. O trabalhador pode referir tinidos (acufeno) em finais de jornada, sensação de plenitude auricular, cefaleia e tontura. A audiometria pós-exposição ao ruído pode mostrar aumento de limiares auditivos em frequências agudas, reversíveis após afastamento da exposição. 2o Estágio: caracteriza-se por ser completamente assintomática, exceto por eventuais tinidos. Pode durar de meses a anos e a audiometria pode mostrar perda de 30 a 40 dB (NA) na frequência de 4 KHz, atingindo às vezes as frequências de 3 e 6 KHz. 3o Estágio: o trabalhador passa a referir dificuldades para ouvir o tique-taque de relógios, o som de campainhas de residências e/ou telefones, necessidade de aumentar o volume do rádio e TV, dificuldade para compreender alguns sons de consoantes principalmente em ambientes com ruídos de fundo (inclusive de baixa intensidade), pode começar a pedir que repitam o que foi falado. O déficit audiométrico nas frequências atingidas na fase 2 aumenta de intensidade, podendo atingir de 45 a 60 dB (NA). 4.o Estágio: coincide com a surdez pelo ruído. O trabalhador tem dificuldade para ouvir a voz de familiares e colegas de trabalho, pede para que falem mais alto. Por causa do recrutamento, os sons são percebidos de maneira distorcida, já descrita como “se fosse um rádio mal sintonizado”. A audiometria mostra comprometimento também das frequências de 2, 3 e 8 KHz. Fonte: Brasil, 2001. 82 UNIDADE III │ SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO De modo resumido, os sinais e sintomas da PAIR são: a. Auditivos: perda auditiva, zumbidos, dificuldades no entendimento de fala, outros sintomas menos frequentes, como algiacusia (sensação de audição “abafada”) e dificuldade na localização da fonte sonora. b. Não auditivos: alterações do sono e vigília; transtornos da comunicação, transtornos neurológicos, vestibulares, digestivose comportamentais. c. Outros efeitos do ruído: transtornos cardiovasculares e hormonais. Avaliação audiológica Para a confirmação da existência de alterações auditivas, é fundamental a realização da avaliação audiológica. Ela requer equipamento calibrado, cabine audiométrica e repouso acústico de no mínimo 14 horas e é formada por uma bateria de exames, tais como: » Audiometria tonal por via aérea; » Audiometria tonal por via óssea; » Logoaudiometria; e » Imitanciometria. Situação A: quando o diagnóstico for feito a partir de apenas uma avaliação audiológica, deve-se considerar, principalmente que: » A perda auditiva é sempre neurossensorial e, geralmente, nas duas orelhas, com padrões similares, podendo, em alguns casos, haver diferenças entre os graus de perda bilateral. » Geralmente, não produz perda maior que 40 dB (NA) nas frequências baixas e 75 dB (NA) nas altas. » O trabalhador pode desenvolver intolerância a sons intensos, queixar-se de zumbido e diminuição de inteligibilidade da fala, com prejuízo da comunicação oral. Situação B: quando houver avaliações audiológicas anteriores, elas devem ser comparadas, observando se há ou não a progressão da perda auditiva, que na PAIR tem seu início e predomínio nas frequências de 3, 4 ou 6kHz, progredindo, 83 SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO │ UNIDADE III posteriormente, para 8, 2, 1, 0,5 e 0,25kHz. Em condições estáveis de exposição, as perdas em 3, 4 ou 6kHz geralmente atingirão um nível máximo, em cerca de 10 a 15 anos. Avaliação dos efeitos não auditivos Essa avaliação visa à verificação do impacto que a perda auditiva está gerando na vida do trabalhador, possibilitando o real dimensionamento do problema, assim como direcionando possíveis ações de reabilitação (BRASIL, 2006e). Pode ser feita utilizando-se a própria anamnese ocupacional para caracterização dos sintomas não auditivos da PAIR assim como outros instrumentos padronizados específicos para o levantamento de dificuldades de vida diária (principalmente comunicação), como questionários de autoavaliação e/ou a CIF. A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde, publicada em 2003, pela OMS/OPAS, fornece uma descrição de situações relacionadas ao funcionamento humano e suas restrições, envolvendo funções e estruturas corporais, atividades e participação relacionados às ações tanto individuais quanto coletivas (BRASIL, 2006e). Tratamento Não existe até o momento tratamento para PAIR. Além da notificação do agravo quando ele existir, faz-se necessário o monitoramento das condições do ambiente de trabalho e da saúde dos trabalhadores, por meio de avaliações periódicas de saúde que incluam avaliações audiológicas, caso haja exposição a ruído. A reabilitação pode ser feita por meio de ações terapêuticas individuais e em grupo, a partir da análise cuidadosa da avaliação audiológica do trabalhador. Medidas de prevenção As medidas de prevenção estão previstas principalmente nas NR 7, quanto ao acompanhamento de saúde, e na NR 9, em relação ao monitoramento dos níveis de pressão sonora no ambiente de trabalho, utilizando-se como parâmetro as referências constantes da NR 15. De modo geral, as ações de monitoramento do ruído focam a redução da fonte geradora em níveis menores a 85dB (o nível de ação de 80dB, Portaria no 25 MTB, 1994), considerando-se a carga horária de 8 horas por dia. Caso essa medida não possa ser 84 UNIDADE III │ SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO tomada, a recomendação de uso de EPIs se faz obrigatória, com o acompanhamento da sua utilização, guarda e higiene pelo empregador, além do comprometimento dos trabalhadores na prevenção da perda auditiva. Mendes (2013) resume em seu tratado de patologias do trabalho alguns tópicos obrigatórios para o sucesso do Programa de Conservação Auditiva, onde quer que ele seja implantado. Confira o Quadro 13. Quadro 13. Programa de prevenção de PAIR ocupacional. Programa Preventivo Com o trabalhador Exames audiométricos Afastamento do risco Instrução e treinamento Participação ativa e comprometimento no uso do EPI Com o ambiente Identificação das causas Avaliação ambiental Controle do risco Novos projetos (previsão de regras de Engenharia) Vigilância ambiental Avaliação do Programa Checklist Resultados Acompanhamento permanente Fonte: Adaptado de Ali, 2009. 85 CAPÍTULO 7 Pneumoconioses relacionadas ao trabalho As pneumoconioses são genericamente designadas pneumopatias relacionadas etiologicamente à inalação de poeiras em ambientes de trabalho. São excluídas dessa denominação as alterações neoplásicas, as reações de vias aéreas, como asma e a bronquite, e o enfisema. Apesar de esse conceito englobar a maior parte das alterações pulmonares envolvendo o parênquima, alguns autores apontam para o fato de que o termo pneumoconiose pode não ser adequado quando aplicado a determinadas pneumopatias mediadas por processos de hipersensibilidade, atingindo o parênquima pulmonar, como as alveolites alérgicas por exposição a poeiras orgânicas e outros agentes, a doença pulmonar pelo berílio ou a pneumopatia pelo cobalto, por exemplo (BRASIL, 2006f). Um dos maiores causadores de pneumoconioses, o cimento, tem a sua produção em diversos ramos de atividades econômicas – mineração e transformação de minerais em geral – nos quais há exposição dos trabalhadores ao risco de inalação de poeiras causadoras de pneumoconioses (BRASIL, 2006f). Dados de 1999 a 2000, no Brasil, apontaram que cerca 1.815.953 trabalhadores vinculados a empregos formais estavam expostos à sílica por mais de 30% de sua jornada de trabalho (BRASIL, 2006f). De acordo com Ribeiro et al. (2008), sobre a saúde do trabalhador nas fábricas de cimento, pouco se conhece sobre a realidade das indústrias brasileiras, pois é pequeno o número de estudos disponível na literatura, mas há uma alta correlação entre o nível de exposição ao material particulado e doenças respiratórias dos trabalhadores em alguns estudos internacionais. Trabalhar com material sólido, em que a possibilidade de geração de poeiras é elevada, expõe o trabalhador a riscos, sem contar que a exposição de trabalhadores a material particulado na indústria de produção de cimento é potencialmente uma das mais preocupantes. Observe a divisão desses riscos no Quadro 14. 86 UNIDADE III │ SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO Quadro 14. Tipos de pneumoconioses. Tipo Descrição 1 Pneumoconioses não fibrogênicas Ausência de fibrose, não se excluindo a presença desta. Na dependência do conhecimento do tipo de poeira inalada, a pneumoconiose leva denominação específica como siderose (Fe), baritose (Ba), estanose (Sn) etc. Normalmente, ocorrem após exposições ocupacionais de longa duração. Os sintomas respiratórios costumam ser escassos, sendo que a dispneia aos esforços é o principal deles. A disfunção respiratória é praticamente ausente e a evolução clínica é considerada benigna quando comparada à evolução possível das pneumoconioses fibrogênicas. Apesar da ausência de fibrose, o padrão de alteração radiológica é bastante semelhante à silicose. 2 Pneumoconioses fibrogênicas Reações pulmonares à inalação de material particulado que leva à fibrose intersticial do parênquima pulmonar. Silicose e asbestose Os processos de instalação e desenvolvimento da silicose e da asbestose são similares, muito embora a primeira dê origem a uma fibrose intersticial focal, que se inicia com a formação de granulomas de deposição concêntrica de colágeno, e a segunda com a proliferação de colágeno no interstício, sem a presença relevante de células inflamatórias de defesa, diferença não bem compreendida até o momento. Se a exposição (inalação) tiver sido grande ou por longo período, o processo inflamatório com dano celular persiste instalando-se a fibrose difusa e progressiva do parênquima pulmonar. Pneumoconiosedos trabalhadores de carvão Ocorre a passagem de partículas para o pulmão e tem início a formação de acúmulos de carvão e de células de defesa macrófagos ao redor dos bronquíolos respiratórios, com presença de fibras de reticulina e deposição de pequena quantidade de colágeno (máculas de carvão). Essas lesões são intralobulares, pouco ou não visíveis à radiografia e geralmente acompanhadas de enfisema focal adjacente às áreas das máculas. Com a progressão da doença, decorrente da continuada inalação ou mesmo após o afastamento da exposição, pode ocorrer a formação de nódulos maiores. A exposição crônica pode dar origem à forma de fibrose maciça progressiva (FMP), que costuma ser bilateral e predomina nos lobos superiores, lobo médio e segmentos superiores dos lobos inferiores do pulmão. Geralmente são assimétricas, apresentando às vezes características de lesão maligna, podendo cavitar, com o paciente expectorando material enegrecido, conhecido como melanoptise. Nesse estágio, o trabalhador pode cursar mais com dispneia (dificuldade em respirar), distúrbio ventilatório misto (oscilações no ritmo da respiração), hipertensão pulmonar e cor pulmonale. Pneumoconiose por poeira mista Poeiras mistas são aerossóis minerais com baixo conteúdo de sílica, como por exemplo a mica, sericita, caulim e outros. Podem produzir quadros de fibrose nodular, diferentes da silicose clássica. Ocasionalmente, essas pneumoconioses cursam com FMP (ver item b). Doenças relacionadas ao asbesto Ver item a. Pneumoconiose por abrasivos É causada pela exposição inalatória a poeiras de abrasivos: alumina ou corindo (Al 2 O 3 ) e o carbeto de silício ou carborundum (SiC). Ocupações de risco: trabalhadores na produção de abrasivos, em operações de acabamento em fundições, metalúrgicas em geral, afiação de ferramentas e moagem de sucatas de rebolos. Pneumoconiose por metais duros Envolve reação inflamatória desencadeada por liga metálica que se manifesta por meio de mecanismos imunológicos, apresentando quadros subagudos de alveolite ou evoluindo insidiosamente para fibrose intersticial, convivendo com as fases de pneumonia intersticial descamativa e de fibrose crônica. Pneumopatia por berílio Apresenta três características importantes: 1) pode ser desencadeada por baixas doses ou curta exposição (< 1 ano); 2), manifesta-se após longo período de latência (geralmente > 10 anos após início da exposição), mesmo estando o indivíduo afastado da exposição há vários anos; e 3) menos de 5% dos indivíduos expostos desenvolvem a doença, provavelmente por maior suscetibilidade genética. É indistinguível da sarcoidose e, diferentemente das demais pneumoconioses, pode ser tratada com uso de corticosteroide. Pneumonite por hipersensibilidade É caracterizada por episódios agudos de acúmulo de líquidos nos espaços aéreos e no interstício, poucas horas após o contato com antígeno (alergia). Clinicamente pode se manifestar com febre, tosse, dispneia, cefaleia, mialgia, sintomas de curta duração (1 a 3 dias) e que se resolvem espontaneamente. A exposição repetida leva a quadros recorrentes de pneumonia exsudativa, podendo evoluir para a forma crônica da doença com presença de granuloma não necrotizante, bronquiolite obliterante e fibrose intersticial difusa. Pelos mecanismos implicados em sua fase de atividade geralmente responde ao tratamento com corticosteroides. Fonte: Brasil, 2006f e Ribeiro et al., 2008. Diagnóstico Qual a conduta diagnóstica para as pneumoconioses? De modo geral, contempla a história ocupacional de exposição a poeiras, história clínica com sintomas ausentes 87 SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO │ UNIDADE III ou com presença de sintomas que são precedidos pelas alterações radiológicas, radiografia simples de tórax interpretada de acordo com os critérios da OIT (2000). Alguns agravos requerem exames complementares mais específicos, como a tomografia computadorizada de alta resolução ou lavado brônquio alveolar. Tratamento Existe indicação obrigatória de afastamento da exposição para todos e quaisquer trabalhadores com pneumoconioses diagnosticadas. A terapêutica medicamentosa está indicada somente nas pneumoconioses com patogenia relacionada à resposta de hipersensibilidade, como a pneumopatia pelo cobalto, a pneumopatia pelo berílio e as pneumonites por hipersensibilidade. Aqui, além do afastamento obrigatório e definitivo da exposição, indica-se corticoterapia prolongada. Existem muitas outras doenças associadas à pneumoconioses, tendo o seu tratamento embasado nos consensos atuais de manejo, como a tuberculose, DPOC e o câncer de pulmão. Prevenção As medidas de prevenção estão relacionadas à higiene ocupacional, visando à redução de partículas dispersas no ar, a exemplo da umidificação do ambiente com lavagem do piso, exaustão local, boa ventilação, utilização de máscaras faciais apropriadas, entre outras formas de prevenção às pneumoconioses. 88 CAPÍTULO 8 Transtornos mentais relacionados ao trabalho Transtornos mentais e comportamentais relacionados ao trabalho são: aqueles resultantes de situações do processo de trabalho, provenientes de fatores pontuais como exposição à determinados agentes tóxicos, até a completa articulação de fatores relativos à organização do trabalho, como a divisão e parcelamento das tarefas, as políticas de gerenciamento das pessoas, assédio moral no trabalho e a estrutura hierárquica organizacional (BRASIL, 2001). Segundo Leão e Gomez (2014), a questão da saúde mental dos trabalhadores é atualmente uma das demandas mais prementes para os serviços de ST. As características da organização dos trabalhos atuais induzem uma série de sofrimentos físicos, psíquicos e sociais – as queixas relativas a assédio moral e violência psicológica, insatisfação, cansaço, mal-estar e sofrimentos constantes e duráveis são cada vez mais frequentes no meio trabalhista. Também emergem manifestações mais agudas e graves que levam à depressão, estresse pós-traumático, neuroses profissionais e até suicídio – dado certos contextos de concorrência em que estão inseridos, e a tendência a desenvolver e manter performances de alto nível inibem ou camuflam qualquer manifestação de sofrimento (LEÃO; GOMEZ, 2014). Quadro 15. Lista de transtornos mentais relacionados ao trabalho. LISTA DE TRANSTORNOS MENTAIS E COMPORTAMENTAIS RELACIONADOS AO TRABALHO » Demência em outras doenças específicas classificadas em outros locais (F02.8) » Delirium, não sobreposto à demência, como descrita (F05.0) » Transtorno cognitivo leve (F06.7) » Transtorno orgânico de personalidade (F07.0) » Transtorno mental orgânico ou sintomático não especificado (F09.-) » Alcoolismo crônico (relacionado ao trabalho) (F10.2) » Episódios depressivos (F32.-) » Estado de estresse pós-traumático (F43.1) » Neurastenia (inclui síndrome de fadiga) (F48.0) » Outros transtornos neuróticos especificados (inclui neurose profissional) (F48.8) » Transtorno do ciclo vigília-sono devido a fatores não orgânicos (F51.2) » Sensação de estar acabado (síndrome de burnout ou síndrome do esgotamento profissional) (Z73.0) Fonte: Brasil, 2001. 89 SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO │ UNIDADE III Trataremos de três patologias aqui: alcoolismo e outras drogas; transtornos depressivos; e síndrome de burnout. Alcoolismo crônico relacionado ao trabalho É o modo crônico e continuado de usar bebidas alcoólicas, caracterizado pelo descontrole periódico da ingestão ou pelo padrão de consumo de álcool com episódios frequentes de intoxicação e preocupação com o álcool e o seu uso, a despeito das consequências adversas desse comportamento para a vida e a saúde do usuário. A perturbação do controle de ingestão de álcool caracteriza-se por ser contínua ou periódica e por distorções do pensamento, caracteristicamente a negação, isto é, o bebedor alcoólico tende a não reconhecer que faz uso abusivo do álcool (BRASIL, 2001). O trabalhoé considerado um dos fatores psicossociais de risco para o alcoolismo crônico. Segundo Ministério da Saúde (2001), o alcoolismo é mais frequente em determinadas ocupações, principalmente naquelas desprestigiadas socialmente, como as que têm contato com cadáveres, lixo ou dejetos em geral, apreensão e sacrifício de cães; atividades em que a tensão é constante e elevada, como nas situações de trabalho perigoso, grande exigência e atividade mental (repartições públicas, estabelecimentos bancários e comerciais), de trabalho monótono, tedioso, trabalhos em isolamento do convívio humano e/ou com afastamento prolongado do lar. Com evidências epidemiológicas de excesso de prevalência de alcoolismo crônico em determinados grupos ocupacionais, a ocorrência poderá ser classificada como doença relacionada ao trabalho, do Grupo II da Classificação de Schilling. O trabalho pode ser considerado como fator de risco, no conjunto de fatores de risco associado à etiologia multicausal do alcoolismo crônico. Trata-se, portanto, de um nexo epidemiológico, de natureza probabilística, principalmente quando as informações sobre as condições de trabalho forem consistentes com as evidências epidemiológicas disponíveis. Quadro clínico e diagnóstico Os critérios diagnósticos foram adaptados daqueles previstos para a caracterização das demais síndromes de dependência, segundo os quais três ou mais manifestações devem ter ocorrido, conjuntamente, por pelo menos um mês, ou se persistirem por períodos menores do que um mês. E devem ter ocorrido juntas, de forma repetida durante um período de 12 meses, tendo sido explicitada sua ocorrência em relação à situação de trabalho, como: 90 UNIDADE III │ SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO » Forte desejo ou compulsão de consumir álcool em situações de forte tensão presente ou gerada pelo trabalho; » Comprometimento da capacidade de controlar o comportamento de uso da substância, evidenciado pelo uso da substância em quantidades maiores, ou por um período mais longo que o pretendido, ou por um desejo persistente ou esforços infrutíferos para reduzir ou controlar o seu uso; » Estado fisiológico de abstinência quando o uso do álcool é reduzido ou interrompido; » Evidência de tolerância aos efeitos da substância de forma que há uma necessidade de quantidades crescentes da substância para obter o efeito desejado; » Preocupação com o uso da substância, manifestada pela redução ou abandono de importantes prazeres ou interesses alternativos por causa de seu uso ou pelo gasto de uma grande quantidade de tempo em atividades necessárias para obter, consumir ou recuperar-se dos efeitos da ingestão da substância; » Uso persistente da substância, a despeito das evidências das suas consequências nocivas e da consciência do indivíduo a respeito. Tratamento O tratamento tem inúmeras estratégias terapêuticas que demandam, muitas vezes, mudanças do ambiente de trabalho, sendo a abstinência completa de álcool fundamental para o sucesso do tratamento. A maioria das pessoas com transtornos relacionados ao álcool busca tratamento pressionada por alguém da família (a esposa, geralmente) ou por um empregador, chefe ou amigo. Os pacientes que são persuadidos ou encorajados ao tratamento por pessoas significativas do seu ciclo social têm maiores chances de ter um prognóstico melhor. Já para Mendes (2013), o sucesso do tratamento depende do estágio da doença em que este se inicia, além do diagnóstico precoce. As estratégias de tratamento do alcoolismo crônico incluem: 1. Psicoterapia; 2. Tratamento farmacológico com ansiolíticos e ou antidepressivos; 91 SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO │ UNIDADE III 3. Grupos de mútua ajuda, como Alcoólicos Anônimos (AA) ou Grupos Anônimos de Familiares de Alcoólicos (Al-Anon); e 4. Acompanhamento de CAPSad, com a reinserção do trabalhador à sociedade e ao trabalho, com medidas de suporte emocional, orientação e reabilitação psicossocial (BRASIL, 2001). Além disso, as recaídas fazem parte da evolução prognóstica e devem ser entendidas como oportunidades de melhoria (MENDES, 2013). Prevenção Ações de prevenção do alcoolismo que se limitam a realizar cursos e palestras com a finalidade de procurar transmitir conhecimentos científicos e aconselhamento sobre as ações prejudiciais do álcool no organismo são frequentemente inócuas. Transformações em aspectos organizacionais do trabalho de risco para o alcoolismo: » Valorização do trabalhador e tratamento digno pela chefia nas situações de trabalho socialmente desprestigiadas; » Fornecimento de equipamentos adequados, disponibilidade de chuveiros e material para a higiene pessoal; » Desenvolvimento de estratégias de redução das situações de exposição às ameaças, como agressão armada e ira popular, com a participação dos próprios trabalhadores no desenvolvimento de tais estratégias; » Alívio de tensão em pausas no trabalho em ambientes agradáveis; » Disponibilizar meios de comunicação e de interação com outras pessoas durante a jornada de trabalho nas situações de trabalho em isolamento; » Redução e controle dos níveis de ruído e de vibração nos ambientes de trabalho (esses riscos induzem o trabalhador a ingerir álcool para suportar a exposição por meio do efeito hipnótico do álcool). Episódios depressivos Episódios depressivos, nas variedades leve, moderada ou grave sem sintomas psicóticos; caracterizando-se por humor deprimido, perda do interesse e prazer, fadiga aumentada e atividade diminuída, ansiedade, sensação de cansaço acentuado após 92 UNIDADE III │ SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO esforços leves. Ainda há queixas de dificuldade de concentração, baixa autoestima e autoconfiança, desesperança, ideias de culpa e inutilidade; visões desoladas e pessimistas do futuro, ideias ou atos suicidas, problemas de sono, diminuição do apetite, acompanhado de perda de peso. A angústia tende a ser tipicamente mais intensa pela manhã. As alterações da psicomotricidade podem variar da lentificação (do pensamento também) à agitação. Episódios depressivos também estão associados à exposição ocupacional às seguintes substâncias químicas tóxicas: » Brometo de metila; » Chumbo e seus compostos tóxicos; » Manganês e seus compostos tóxicos; » Mercúrio e seus compostos tóxicos; » Sulfeto de carbono; » Tolueno e outros solventes aromáticos neurotóxicos; » Tricloroetileno, tetracloroetileno, tricloroetano e outros solventes orgânicos halogenados neurotóxicos; » Outros solventes orgânicos neurotóxicos. Em trabalhadores expostos a essas substâncias químicas neurotóxicas, entre outras, o diagnóstico de episódios depressivos, excluídas outras causas não ocupacionais, pode ser enquadrado no Grupo I da Classificação de Schilling, em que o trabalho desempenha o papel de causa necessária. A sintomatologia depressiva nesses casos geralmente não constitui o quadro primário, estando geralmente associada aos transtornos mentais orgânicos induzidos por essas substâncias, como a demência, o delirium, o transtorno cognitivo leve, o transtorno orgânico de personalidade, o transtorno mental orgânico ou sintomático não especificado, conforme descritos nos itens específicos. Assim, sempre que ficar caracterizada uma síndrome depressiva e houver história ocupacional de exposição a substâncias tóxicas, deve-se investigar a coexistência de um transtorno mental orgânico, ou seja, indicativo de disfunção ou lesão cerebral (BRASIL, 2001). Quadro clínico e diagnóstico A caracterização da síndrome somática dos episódios depressivos requer a presença de pelo menos cinco dos sintomas abaixo: 93 SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO │ UNIDADE III » Evidente perda de interesse ou prazer em atividades naturalmente agradáveis; » Ausência de reações emocionais a eventos ou atividades que normalmente produzem uma resposta emocional; » Levantar pela manhã 2 horasa mais ou a menos do horário usual; » Depressão pior pela manhã; » Evidência objetiva de retardo ou agitação psicomotora marcante (observado ou relatado por outras pessoas); » Perda de apetite; » Perda de peso (5% ou mais do peso corporal, no último mês) » Marcante perda da libido. Em episódios depressivos graves, a síndrome somática pode estar ausente. Tratamento A prescrição dos recursos terapêuticos disponíveis depende da gravidade e da especificidade de cada caso, entretanto, é consenso em psiquiatria que o tratamento de episódios depressivos envolva: 1. Psicoterapia; 2. Tratamento farmacológico com antidepressivos – frequentemente estão indicados os benzodiazepínicos para controle de sintomas ansiosos e da insônia no início do tratamento, pois o efeito terapêutico dos antidepressivos tem início, em média, após duas semanas de uso; e 3. Apoio social (BRASIL, 2001). Segundo Ministério da Saúde (2001), é muito importante que a equipe multiprofissional esteja capacitada a: » Avaliar cuidadosamente a indicação de afastamento do trabalho por meio de licença para tratamento; » Justificar cada uma de suas recomendações perante a organização em que o paciente trabalha, o seguro social e o sistema de saúde, buscando garantir o respeito à situação clínica do trabalhador; 94 UNIDADE III │ SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO » Auxiliar o paciente a lidar com as dificuldades envolvidas em um processo de afastamento e retorno ao trabalho, como, por exemplo, a ameaça de demissão após a volta ao trabalho. Entre outras medidas. Prevenção Os episódios depressivos relacionados ao trabalho podem ser prevenidos, basicamente, pela vigilância dos ambientes, das condições de trabalho e dos efeitos ou danos à saúde. Quanto aos agentes químicos causadores de depressão, as medidas de controle ambiental visam à eliminação ou à redução da exposição por meio de: » Enclausuramento de processos e isolamento de setores de trabalho, se possível, utilizando sistemas hermeticamente fechados; » Normas de higiene e segurança rigorosas, incluindo sistemas de ventilação exaustora adequados e eficientes; » Monitoramento sistemático das concentrações no ar ambiente; » Adoção de formas de organização do trabalho que permitam diminuir o número de trabalhadores expostos, bem como o tempo de exposição; » Medidas de limpeza geral dos ambientes de trabalho, de higiene pessoal, recursos para banhos, lavagem das mãos, braços, rosto e troca de vestuário; » Fornecimento, pelo empregador, de equipamentos de proteção individual adequados, de modo a complementar as medidas de proteção coletiva. » Análise ergonômica do trabalho, buscando conhecer entre outros fatores, conteúdo das tarefas, processo e posto de trabalho, ritmo e intensidade do trabalho; fatores mecânicos e condições físicas dos postos de trabalho e das normas de produção; sistemas de turnos; sistemas de premiação e incentivos; fatores psicossociais e individuais; relações de trabalho entre colegas e chefias; medidas de proteção coletiva e individual implementadas pelas empresas; e as estratégias individuais e coletivas adotadas pelos trabalhadores. Síndrome de burnout ou síndrome do esgotamento profissional A síndrome do esgotamento profissional (burnout) é um tipo de resposta prolongada a estressores emocionais e interpessoais crônicos no trabalho. Mendes (2015, p. 45) expõe que pessoas com perfil dinâmico e propensas a assumir papel 95 SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO │ UNIDADE III de liderança ou idealistas são mais suscetíveis, é aquele “alguém que vive uma fadiga ou frustração crônica, causada por uma devoção a uma causa a um modo de vida que não produziu o resultado esperado”. Todos os fatores de insegurança social e econômica aumentam o risco (incidência) de esgotamento profissional em todos os grupos etários. A síndrome de burnout envolve atitudes e condutas negativas com relação aos usuários, aos clientes, à organização e ao trabalho, sendo uma experiência subjetiva que acarreta prejuízos práticos emocionais para o trabalhador e a organização. Principalmente relacionadas às profissões afetas ao cuidado e ao ensino (profissionais de saúde e professores, por exemplo). Pode estar associada a uma suscetibilidade aumentada para doenças físicas, uso de álcool ou outras drogas (para obtenção de alívio) e para o suicídio (BRASIL, 2001). Quadro clínico e diagnóstico No quadro clínico podem ser identificados: » Perda de autocontrole emocional; » Aumento de irritação, manifestação de agressividade; » Perturbações do sono; e » Manifestações depressivas marcadas pela decepção e perda de interesse no trabalho e consequente diminuição do desempenho. Tratamento e outras condutas O tratamento envolve psicoterapia, tratamento farmacológico e intervenções psicossociais, em especial o apoio social. Entretanto, a intensidade da prescrição de cada um dos recursos terapêuticos depende da gravidade e da especificidade de cada caso. Prevenção A prevenção demanda estabelecimento de restrições à exploração do desempenho individual, diminuição da competitividade no ambiente organizacional, diminuição da intensidade de trabalho, busca de metas coletivas que incluam o bem-estar de cada um, e de modo geral, mudanças na cultura da organização do trabalho. 96 UNIDADE III │ SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO Hoje existem serviços especializados na linha de cuidado relacionado ao trabalho e saúde mental que atendem os seguintes ramos: clínicas do trabalho, enfoques de estresse, assédios e violências psicológicas; linhagens da psicopatologia do trabalho e da psiquiatria, incluindo a vertente do desgaste mental; psicossociologia e análises institucionais; e abordagens organizacionais e da subjetividade (LEÃO; GOMEZ, 2014). No Brasil, durante a primeira década do século XXI, 33% da população economicamente ativa sofreu alguma forma de assédio e, em 2010, os transtornos mentais e do comportamento foram o terceiro maior motivo de afastamento por incapacidade (auxílio doença). Essa situação traz o desafio urgente de inserir as questões de saúde mental no escopo das ações de Vigilância à Saúde do Trabalhador (Visat) (LEÃO; GOMEZ, 2014). Portanto, há necessidade de se ampliar o âmbito das intervenções, com a incorporação de estratégias de identificação e atuação sobre o sofrimento originado nos processos de trabalho, principalmente por haver ainda dificuldade em distinguir o transtorno mental relacionado com o trabalho com aquele advindo de outras causas. 97 CAPÍTULO 9 Trabalho Infantil As atividades econômicas e/ou atividades de sobrevivência, com ou sem finalidade de lucro, remuneradas ou não, realizadas por crianças ou adolescentes em idade inferior a 16 (dezesseis) anos, ressalvada a condição de aprendiz a partir dos 14 (quatorze) anos, independentemente da sua condição ocupacional são considerados trabalho infantil (BRASIL, 2011). Dados publicados pela OIT (2013) indicam que 168 milhões de crianças em todo o mundo são trabalhadoras; esse número representa cerca de 11% da totalidade da população infantil. No Brasil, cerca de 36,5% das crianças estão em granjas, sítios e fazendas, e 24,5% em lojas e fábricas. No Nordeste, 46,5% aparecem trabalhando em fazendas e sítios (ZEVALLOS, 2013). Geralmente, jovens e crianças são diariamente inseridos no mundo do trabalho em condições precárias, percebendo baixos salários e um grande risco para o seu desenvolvimento psicomotor. A inserção desse público no trabalho deve-se a duas questões centrais: a pobreza e o caráter “educativo e disciplinar” do trabalho. Em relação à pobreza, dela resulta a necessidade de complementar a renda familiar e, dada a importância do trabalho em nossas sociedades, é costumeiro ser atribuído a ele poderes de cura, salvação, formação ao indivíduo enquanto ser social, com certa dificuldade em observar seus efeitos negativos no desenvolvimentoe na saúde (LIMA, 2002). Segundo Ministério da Saúde (2005), muitos são os prejuízos à saúde dessa população, que além de estar exposta aos riscos do ambiente de trabalho insalubre, tem a redução do tempo disponível para ser criança. Isso implica impactos no lazer, na vida em família, educação e de estabelecer relações de convivência com seus pares e outras pessoas da comunidade. Crianças forçadas a serem adultas, pelo compromisso e responsabilidade assumidos. Elas possuem como características o retardo no desenvolvimento de peso e estatura, desnutrição proteico-calórica, fadiga precoce, maior ocorrência de doenças infecciosas (gastrointestinais e respiratórias) e parasitárias. Esses prejuízos são agravados pelas condições de trabalho, que levam à formação de adultos com menor capacidade de trabalho e aumentando o contingente de trabalhadores incapazes parcial ou totalmente para o trabalho (LIMA, 2002). 98 UNIDADE III │ SOBRE ALGUNS AGRAVOS RELACIONADOS AO TRABALHO O Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990) prevê, em seu artigo no 67, que ao adolescente empregado, aprendiz, em regime familiar de trabalho, aluno de escola técnica, assistido em entidade governamental ou não governamental, é vedado o trabalho perigoso, insalubre ou penoso, e o realizado em locais prejudiciais à sua formação e ao seu desenvolvimento físico, psíquico, moral e social. A Convenção no 182 da OIT, que trata das Piores Formas de Trabalho Infantil, ratificada pelo Brasil, preconiza como ação prioritária absoluta a eliminação imediata dos trabalhos que prejudicam a saúde, a segurança e a moral da criança. Essas legislações foram norteadoras para o Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil em nosso país, estabelecido entre vários órgãos do Governo. A Área Técnica de Saúde do Trabalhador (Cosat), do Ministério da Saúde, elaborou uma Política Nacional de Saúde para a Erradicação do Trabalho Infantil e Proteção do Trabalhador Adolescente, tendo como desdobramento a elegibilidade de crianças e adolescentes acidentadas no trabalho como evento passível de notificação compulsória (BRASIL, 2005). Nele, os profissionais de saúde poderão verificar o fluxo de atendimento de crianças e adolescentes em situação de risco e alguns efeitos do trabalho no desenvolvimento e crescimento psicomotor com reflexos sociais. Quer saber mais sobre os efeitos do trabalho precoce na saúde de crianças e adolescentes? Consulte a Cartilha do MTE “Saiba tudo sobre o trabalho infantil”, disponível em nossa bibliografia recomendada. 99 UNIDADE IVERGONOMIA CAPÍTULO 1 Origens e características da ergonomia Conceito de atividade O trabalho é uma atividade representativa do resultado e do valor agregado a um determinado bem e/ou serviço no contexto de produção. A forma como os indivíduos realizam a atividade e o que eles produzem impactam a visão de mundo que eles têm a respeito do que, como e por que fazem algo no decorrer do processo de trabalho. Para o indivíduo identificar-se com o trabalho que realiza, é necessário que o faça de maneira eficiente e com resultados; que represente bem-estar; que seja moralmente aceitável; que seja favorável às relações satisfatórias entre pares; que garanta segurança e autonomia; e que possibilite a criatividade no executar (MACHADO, 2003). O trabalhador identifica-se na organização quando se vincula ao perfil da atividade, tendo espaço para agir e interagir no cotidiano de trabalho (FARIAS, 2000). O contexto de trabalho, consequentemente, deve garantir ao trabalhador um espaço bem definido pelos valores, normas e crenças organizacionais que serão apoiados pelas condições de trabalho favoráveis e, ainda, que possibilitem a dimensão social entre pares no lócus do trabalho (FERREIRA; MENDES, 2003, p. 52). Considerando esse pressuposto, quem de fato deve ser a variável de ajuste: o trabalhador ou seu contexto de trabalho? O trabalhador é forjado ou é o seu contexto de trabalho? Para respondermos tais questionamentos, a ciência da Ergonomia, desde a sua origem, discute tais papeis. Confira a seguir. 100 UNIDADE IV │ ERGONOMIA De onde veio e quais são as características da ergonomia da atividade? Etimologicamente, a palavra ergonomia é composta pelos termos ergon + nomos, significando, ambos, trabalho e normas com leis naturais respectivamente. Em suma, pode-se apreender que a palavra represente os preceitos da forma adequada de se trabalhar normas e leis naturais do trabalho (GRANDJEAN, 1998; IIDA, 2005). O primeiro registro de uso da palavra ergonomia foi primeiramente utilizado no ano de 1947, na Grã-Bretanha, pelo engenheiro Murrel, apoiado pelo fisiologista Floyd e pelo psicólogo Welford.Aqui foram trazidas as perspectivas conceituais e caracterizadoras da ergonomia, baseadas em sua origem e em seu principal objeto de estudo. No contexto social, houve a consolidação da ergonomia principalmente para atender a um nicho específico: o da guerra. Foi por meio das necessidades militares e tecnológicas prementes da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, entre 1914-1917 e 1939-1945, que ocorreu a propulsão de pesquisas a respeito da relação homem-trabalho (IIDA, 2005). Os principais fisiologistas e psicólogos da época foram incumbidos de promover o projeto bélico melhorando e aumentando a produção de armamentos, com a finalidade de melhorar o desempenho da indústria bélica, diminuir fadiga, erros e acidentes entre os trabalhadores. Ainda que o início tenha ocorrido no contexto de guerra, os conhecimentos adquiridos naquelas experiências foram aplicados, posteriormente, na produção civil (FEITOSA, 2010). Assim, a nomenclatura “ergonomia” foi disseminada formalmente após a Segunda Guerra Mundial, quando cientistas britânicos se utilizaram desse termo para descrever os aspectos anatômicos, fisiológicos e psicológicos que começavam a ser aplicados para compreender a relação entre seres humanos e seu ambiente de trabalho (LEAMON, 1995). Porém, somente em 194,9 esse termo obteve o reconhecimento oficial perante a comunidade científica, quando foi constituída a Ergonomic Research Society – a primeira sociedade de Ergonomia – definida como “o estudo do relacionamento entre o homem e seu trabalho, equipamento, ambiente e, particularmente, a aplicação dos conhecimentos de anatomia, fisiologia e psicologia na solução dos problemas que surgem desse relacionamento” (IIDA, 2005, p. 2). Segundo Wisner (2004), a ergonomia surgiu em meados dos anos 1950, na França, consolidando-se apenas na década seguinte (1960). Tal consolidação foi legitimada com a criação do primeiro laboratório de “Estudos Fisiológicos” – lembrando que neste caso a palavra ergonomia foi desconsiderada, e tal laboratório criado para realizar estudos e pesquisas na área (WISNER, 2004). 101 ERGONOMIA │ UNIDADE IV O campo da ergonomia da atividade foi sendo construído fundamentado na constatação dos efeitos deletérios na saúde humana produzidos pela administração científica do trabalho e seus modelos clássicos de produção estruturados em princípios taylor-fordistas. Nesses modelos, a ideia era guiada por um paradigma, vigente no início do século XX, no qual o homem se adapta ao trabalho enquanto variável de ajuste e em cuja máxima reside a concepção de um “operário médio” bem treinado e que trabalhe em um posto estável (WISNER, 1977). Diferentemente dessa análise, a ergonomia da atividade sustenta-se na inversão desse paradigma, ou seja, a necessidade de adaptar o trabalho para quem trabalha (FERREIRA, 2008), integrando em suas análises a variabilidade (intra- e inter-) individual dos trabalhadores, noção desconsiderada nos pressupostos de feição taylor-fordistas. Para a ergonomia, o operário médio, bem treinado, que trabalha em um posto estável é um “mito”, muito bem aceito por sinal, que, entretanto, não corresponde à realidade da variabilidade humana, uma vez que pressupõe a padronização de performances sem consideraradequadamente as capacidades (fisiológicas e psicológicas) e limites de funcionamento do ser humano (FERREIRA, 2008). Na perspectiva de expansão, a ergonomia apresentou-se sob duas dimensões, conforme segue abaixo: a. Dos estudos empenhados na adaptação da máquina ao homem; e b. Dos estudos direcionados à adaptação do trabalho ao homem. No pós-guerra, mais especificamente, nos Estados Unidos, a ergonomia foi fortalecida com a criação do Human Factors Society (Fatores Humanos), que possibilitou associação verossimilhante com o termo ergonomia (IIDA, 2005). Na década de 1990, houve uma alteração na nomenclatura dessa instituição para Human Factors and Ergonomics Society, o que significou maior representatividade ao termo e ao interesse pela área de conhecimento, caracterizando, assim, a abordagem anglo-saxônica da ergonomia (FEITOSA, 2010). Em consonância com os pressupostos da corrente anglo-saxônica, segundo a abordagem da International Ergonomics Association (IEA), a ergonomia define-se por ser: A disciplina que trata da compreensão das interações entre os seres humanos e outros elementos de um sistema. [...] os ergonomistas contribuem para o planejamento, projeto e avaliação de tarefas, 102 UNIDADE IV │ ERGONOMIA postos de trabalho, produtos, ambientes e sistemas para torná-los compatíveis com as necessidades, habilidades e limitações das pessoas (International Ergonomics Association, 2000,p. ?). Aqui se observa o início da evolução conceitual do termo ergonomia, repercutindo nas possibilidades de atuação do ergonomista e na reflexão da dimensão de análise indivíduo versus trabalho. Nessa mesma ótica, o objetivo da ergonomia é ter eficiência e eficácia na condução das atividades humanas para o alcance dos objetivos organizacionais. Para tanto, é imprescindível que haja a redução da fadiga e do estresse, possibilitando o aumento da segurança, garantia do conforto e da satisfação das pessoas (STANTON,1998; IIDA, 2005). Já na a dimensão franco-belga, a ergonomia é definida como “[...] um conjunto de conhecimentos científicos, relativos ao homem e necessários para a concepção de ferramentas, máquinas e dispositivos que possam ser utilizados com o máximo conforto, segurança e eficácia” (WISNER, 1977, p.12). No contexto dos países francofônicos, a concepção de ergonomia apresentava-se diferente dos pressupostos do Human Factors: aqui, a preocupação estava centrada em conceber novos postos de trabalho a partir da situação real de trabalho, elaborando-se análise da atividade em situação real de trabalho Essa concepção também foi influenciada pelo período pós-guerra, bem como pelas demandas de reconstrução do polo industrial europeu, que teve as primeiras investigações nessa abordagem em fábricas de automóveis (WISNER, 1977, p.12). Posteriormente, os estudos empenhados na compreensão da relação ser humano-trabalho deram origem à Análise Ergonômica do Trabalho (WISNER, 2004). Dessa forma, o enfoque está no contexto real de trabalho, entendendo que os trabalhadores são sujeitos atuantes nessa análise (LAVILLE, 2001). Em suma, sintetizando os parágrafos anteriores, a ergonomia anglo-saxônica (Human Factors) dá prioridade à relação homem-máquina, enquanto que a ergonomia francofônica está preocupada, substancialmente, em compreender o contexto de trabalho na sua complexidade e contradições (WISNER, 2004). É importante ressaltar que as duas abordagens não existem no intuito de serem eleitas como a mais ou menos eficaz, mas como construtos complementares ao estudo da demanda da realidade de trabalho a ser investigada. O Quadro 16 apresenta um resumo das características e dimensões analíticas das abordagens anglo-saxônica e francofônica da ergonomia. 103 ERGONOMIA │ UNIDADE IV Quadro 16. Características e dimensões das abordagens anglo-saxônica e francofônica. Características Anglo-saxônica Francofônica Quanto à origem Tradicional, com forte influência americana. Mais recente, com forte influência francesa. Da Ergonomia Ciência do trabalho aplicada ao contexto de projeto. Estudo específico do trabalho orientado para a avaliação dos contextos de trabalho. Quanto aos objetivos Adaptação da máquina ao homem, melhoria das condições de trabalho e cuidados com a segurança. Análise do trabalho (tarefa e atividade). Da pesquisa Experimentos em laboratório, predomínio do delineamento quantitativo, possibilidade de generalização. Análise antropométrica e fisiológica. Análise de processos, das atividades, das tarefas, observações e registro do trabalho real, predomínio do delineamento qualitativo. Análise psicológica e cognitiva. Quanto ao foco analítico Nas características do trabalhador. Na atividade do trabalhador. Da tarefa Prescrita. Entre o prescrito e o real, ênfase na atividade. Quanto à atividade de trabalho Considerada como estática, reduzida a movimentos do corpo humano. Considerada com dinâmica, enfoque tanto na variabilidade do contexto quanto na variabilidade do trabalhador. Quanto aos aspectos do trabalhador a serem investigados Características anatômicas e psicológicas gerais. Comportamentos físicos e mentais. Fonte: FEITOSA (2010). Diante da demonstração irrefutável da evolução conceitual e social da ergonomia, pode-se constatar que essa ciência veio para acompanhar os avanços dos conhecimentos científicos e sanar os problemas no contexto de trabalho, tendo como pedra fundamental a saúde dos trabalhadores e a eficácia econômica (LAVILLE, 1977; DANIELLOU, 2004). Fundamentada nos pressupostos da corrente franco-belga e alicerçada nesse contexto de mudanças teórico-metodológicas que envolveram a ergonomia, vamos discorrer um pouco mais a respeito da ergonomia da atividade. A ergonomia da atividade destaca-se pelo seu caráter prático e aliado intrinsecamente às situações reais de trabalho. Constitui-se enquanto abordagem científica interessada em investigar a relação entre os trabalhadores e o contexto de produção (FERREIRA; MENDES, 2003). Tem por principal característica o estudo da relação homem-trabalho, baseado em três dimensões de análise interdependentes, a saber: 1. Os indivíduos (trabalhadores, consumidores, usuários); 2. As atividades (de trabalho, uso e consumo); e 3. Ambientes (de trabalho, consumo, prestação de serviços). Além disso, também tem como característica o enfoque interdisciplinar na psicologia e fisiologia, principalmente, e interface com outras disciplinas científicas aplicadas, tais 104 UNIDADE IV │ ERGONOMIA como a engenharia, a administração e a arquitetura. E, finalmente, empreende entender o trabalho ou as situações de uso de bens e serviços num viés de transformação do ambiente e dos seres ali envolvidos, formulando e aplicando medidas que visem adaptar tarefas, serviços e produtos aos indivíduos que neles atuem (FERREIRA, 2003). Fora os aspectos outrora citados, a ergonomia da atividade encontra-se como uma abordagem focada no homem (antropocêntrica) e humanizadora dos espaços de trabalho (FERREIRA, 2003), buscando alocar o processo de humanização do ambiente e do indivíduo no cerne das práticas diárias e políticas dos gestores organizacionais (FEITOSA, 2010). Desse modo, a ergonomia da atividade tem como principal objetivo privilegiar o bem-estar dos trabalhadores e a eficácia dos processos produtivos, promovendo a transformação das condições laborais e a adaptação do contexto de trabalho à necessidade de todos. Compreende também os indicadores críticos existentes no contexto de trabalho, para que haja transformação com compromisso real de todos os envolvidos, contemplando desde as necessidades e os objetivos de trabalhadores, gestores, usuários e consumidores aos organizacionais (FERREIRA; MENDES, 2003). Para tanto, a produção teórica em ergonomia da atividade, opera uma distinção importante entre os conceitos de atividade e tarefa. O conceito de tarefa expressa o trabalho prescrito que estabelece, principalmente,o que e o como do trabalho a ser executado, dando visibilidade aos “braços invisíveis” da organização do trabalho, cuja pretensão é, em certa medida, fixar os “trilhos da atividade” (FERREIRA; MENDES, 2001). Assim, a tarefa, que representa um quadro formalizado pela organização não corresponde necessariamente à atividade, ou seja, o trabalho efetivo dos trabalhadores se trata, portanto, de uma imposição ao trabalhador e constitui-se num referencial indispensável para que ele possa agir (GUÉRIN et al., 2001). Em que consiste a atividade? Ela consiste na utilização do corpo e da inteligência para realizar as tarefas (ABRAHÃO; SZNELWAR, 2008) e integra diversos aspectos, logicamente concatenados em extrair as informações de algum lugar, decidir a ação sobre comandos, a adoção de posturas diferentes, a execução de esforços, os deslocamentos e as comunicações com outras pessoas. Ferreira e Mendes (2001) ressaltam que, na ergonomia, a atividade aparece inseparável, em amplo entendimento, de um corpo no espaço e de um contexto sociotécnico, figurando-se em uma categoria teórica central, pragmática, sem vocação para a abstração. 105 ERGONOMIA │ UNIDADE IV Desta forma, a ergonomia da atividade tem como missão orientar-se para a melhoria da qualidade de vida e bem-estar dos trabalhadores, auxiliando com as ciências do trabalho, diante de um contexto empresarial da organização pouco ou nada flexível nesse início de século (ABRAHÃO; SZNELWAR, 2008). Abrahão e Sznelwar (2008) afirmam que flexíveis mesmo são os trabalhadores. Um ponto importante a ser evidenciado refere-se à descontinuidade existente entre o trabalho prescrito (tarefa prescrita) e o trabalho real (a atividade) dos trabalhadores: isso constitui uma dimensão crucial a ser investigada, buscando-se identificar e analisar principalmente o custo humano do trabalho, conceito detalhado em tópico específico nos próximos capítulos. Para trabalhar bem, os trabalhadores “elaboram estratégias operatórias para responder às exigências físicas, cognitivas e afetivas inerentes às tarefas e as condições de trabalho disponibilizadas pela organização” (FEITOSA, 2010, p. 52). Outro ponto fundamental a ser comentado refere-se a algumas características da ergonomia que autorizam sua interlocução com a abordagem de QVT preventiva. Nesse sentido, destacam-se: a. Seu caráter multidisciplinar e aplicado que articula diversos saberes e profissionais para a produção de conhecimento sobre um mesmo objeto; b. O foco no bem-estar dos trabalhadores e na eficácia dos processos produtivos; c. A adaptação do contexto de trabalho a quem nele trabalha; d. A transformação dos ambientes de trabalho com foco no bem-estar dos trabalhadores, na prevenção de agravos à saúde, compatibilizando esses aspectos com a eficiência e eficácia dos processos produtivos. Qualidade de vida no trabalho: evolução histórica, conceitos e características A qualidade de vida no trabalho (QVT) é afetada consideravelmente pelas frequentes modificações e exigências nos contextos de trabalho que alteram a rotina organizacional e dos trabalhadores. Isto posto, nessas possíveis dificuldades relacionadas entre o local de trabalho, o trabalhador e a QVT, fizeram-se necessários um breve relato histórico a respeito da QVT e a sua respectiva evolução conceitual, dispondo as principais características em um recorte analítico da história desse campo da saúde do trabalhador. 106 UNIDADE IV │ ERGONOMIA Diante do conjunto de exigências presentes e contínuas nos mais diversos contextos organizacionais, por meio do excesso de ritmo de trabalho, do aumento dos prazos e cobranças, do incentivo à polivalência e da individualização da tomada de decisão, por exemplo, legitima-se mais uma vez a ratificação da premissa do trabalhador como a “variável de ajuste” – premissa esta tão criticada pela ergonomia da atividade, (FERREIRA, 2008). Cada vez mais esse cenário crítico representa um desafio para as organizações repensarem os seus modelos de gestão, dos quais emergem questionamentos (dúvidas) a respeito do possível diálogo entre bem-estar e produtividade. Há de se ter em mente que as políticas cotidianas organizacionais devem incorporar a temática da qualidade de vida no trabalho para lograr êxito. Assim, o bem-estar dos trabalhadores, dos usuários e o alcance dos objetivos organizacionais inter-relacionam-se favoravelmente quando colocados na QVT (FERREIRA; ANTLOGA; BERGAMASCHI, 2009). O interesse pelo campo da qualidade de vida no trabalho teve seus primeiros registros após a Primeira Guerra Mundial, quando diversos fenômenos econômicos, políticos e sociais influenciaram no ajuste entre a forma de tratamento dos trabalhadores e as necessidades de mudanças nos ambientes de trabalho. Nesse período, o objetivo maior das organizações era obter maiores lucros, com metas baseadas no caráter econômico, e manter a produtividade dos seus empregados a qualquer custo (FERREIRA et al., 2009). No período imediatamente pós I Guerra, entre as décadas de 1930 e 1940, os programas de saúde e segurança do trabalho apresentaram bons resultados quanto às mudanças em relação ao bem-estar dos trabalhadores – o que imediatamente repercutiu no velho mundo. Posteriormente, em 1950, instituiu-se, na Inglaterra, o primeiro modelo de QVT (RODRIGUES, 1991; FERNANDES, 1996), baseado nos estudos de Eric Trist e colaboradores no Tavistock Institute. Os estudos conduzidos por Trist tinham como enfoque a satisfação do trabalhador e eram aplicados nas minas de carvão e indústrias têxteis. Essa abordagem de QVT, denominada sociotécnica, referia-se à inter-relação entre indivíduo-trabalho-organização, privilegiando o redelineamento da tarefa, com o objetivo de amenizar as condições sacrificantes e penosas na vida dos trabalhadores (FERNANDES, 1996; VIEIRA,1996). No Novo mundo, em específico nos Estados Unidos, em 1960, houve aumento das preocupações a respeito da qualidade de vida no trabalho: primeiro com a criação da National Comission Produtivity, sendo possível a análise das causas da baixa produtividade nas indústrias norte-americanas; segundo, a estruturação de um laboratório para o desenvolvimento de estudos sobre a produtividade e qualidade de 107 ERGONOMIA │ UNIDADE IV vida do trabalhador, construído pela National Center for Productivity and Quality of Working Life (FERNANDES, 1996). Na década de 1970, o cenário econômico mundial aponta para uma crise energética e a alta inflação dos mercados, assolando as potências ocidentais, principalmente os Estados Unidos. Diante disso, grandes empresas foram forçadas a preocuparem-se, estritamente, com a sua sobrevivência no mercado, voltando o olhar apenas para a produtividade e os aspectos técnicos do trabalho, provocando, assim, a desaceleração nos avanços e investimentos científicos na área de QVT (FEITOSA, 2010). Na contramão do supracitado, ainda nesse período, Walton (1973) desenvolveu uma pesquisa focada na produtividade, destacando a importância da satisfação e motivação como forma de proposta para o equilíbrio entre trabalho e vida. Esse estudo é uma referência clássica de QVT, sendo um dos mais citados na literatura científica (LIMA, 2008; FERREIRA et al., 2009). No modelo teórico de Walton, oito categorias conceituais são selecionadas para abordar a QVT, como segue abaixo: a. Compensação justa e adequada; b. Condições de trabalho; c. Uso e desenvolvimento das capacidades; d. Oportunidades de crescimento e segurança; e. Integração social na empresa; f. Constitucionalismo; g. Trabalho e espaço total de vida; e h. Relevância social de trabalho (FERNANDES, 1996; VASCONCELOS, 2001). Ao final da década de 1970 e início dos anos 1980, a competição acirrada dos grandes polos internacionais e das incursões toyotistas trouxe a reflexão a respeito do modelo de gestão dentro do contexto norte-americano no que diz respeito à eficácia. Em seguida, é dado novo impulso à qualidadede vida no trabalho, seja em todo cenário das organizações ocidentais, seja nas norte-americanas em específico (FERNANDES, 1996). Ou seja, aquela disputa de fatia de mercado entre oligopólios empresariais contribuiu para o contexto de desenvolvimento da QVT. 108 UNIDADE IV │ ERGONOMIA A perspectiva da QVT está intimamente associada aos aspectos de motivação interna, satisfação e enriquecimento do cargo, em consonância com as contribuições de Walton (1973), (HACKMAN; OLDHAM, 1975). Segundo esse modelo, a gestão de QVT tem como suporte 1. A força de necessidade de crescimento do trabalhador; 2. A percepção do significado da tarefa;O significado da tarefa, a tarefa em si e autonomia em fazê-la (FERREIRA; ALVES; TOSTES, 2009). › À luz dessa mesma ótica, estudos destacaram mais dois aspectos envolvendo a QVT que estão associados à eficácia organizacional: 3. O envolvimento do trabalhador na tomada de decisões e nos problemas da organização e 4. A preocupação com o bem-estar do trabalhador (HUSE; CUMMINGS, 1985). No Brasil, a produção científica sobre qualidade de vida no trabalho ganhou força nas áreas da administração e psicologia a partir de 1990 (FERREIRA et al., 2009). A QVT manifesta preocupação pelo equilíbrio de interesses entre as organizações e os trabalhadores; saúde e ambientes de trabalho; conflitos das relações interpessoais; fatores de gestão em nível crítico; saúde mental e contexto de trabalho ainda com a gama de aspectos a serem tratados (FERNANDES, 1996; SILVA; MARCHI, 1997; BOM SUCESSO, 2002; LIMONGI-FRANÇA, 2004; SAMPAIO, 2004). Frequentemente, os estudos e pesquisas em QVT evidenciam a dificuldade em se obter uma definição consensual do referido termo (MARTEL; DUPUIS, 2006). Pesquisadores da área afirmam que não se tem uma definição única e fechada a respeito da qualidade de vida no trabalho, na academia e, tampouco, na literatura específica da temática. Tais pesquisadores consensuam que o termo QVT apresenta-se como um continuum construto multidimensional não reconhecido como universal o que, portanto, justifica as controvérsias no conceito de QVT (ROYUELA; LÓPEZ-TAMAYO; SURINÃCH, 2007; MAY; LAU; JOHNSON, 1999; GRAMKOW, 1999). Embora não fazendo menção ao termo QVT, os primeiros registros conceituais associavam a melhoria das condições de trabalho à saúde do trabalhador e ao bem-estar dos funcionários (NADLER; LAWLER, 1983). Posteriormente, discutiu-se o conceito da temática por meio da concepção de que o ambiente de trabalho é o fator responsável para que os trabalhadores se sintam com 109 ERGONOMIA │ UNIDADE IV possibilidades para o crescimento e desenvolvimento como sujeitos, seguros e satisfeitos (MAY et al., 1999). Na tentativa de estabelecer um conceito que representasse o estudo das dimensões analíticas do termo, outras definições conceituais de QVT foram consideradas pelos estudiosos da área. Registrou-se a QVT como um conjunto de consequências positivas para a vida ocupacional do indivíduo, empresa e sociedade. Em outro momento, a QVT é vista como um suporte da organização ao desenvolvimento do trabalho onde há o envolvimento dos trabalhadores nos processos organizacionais. A compreensão sobre QVT perpassou também a forma de pensar sobre pessoas, trabalho e a organização (BOISVERT, 1980; CARLSON, 1980; NADLER; LAWLER, 1983). Tendo em vista essas perspectivas, identificam-se, portanto, duas abordagens para os estudos na área de QVT: a clássica, de caráter fundamentalmente assistencialista; e a contra-hegemônica, com enfoque preventivo (FERREIRA et al., 2009). Na maioria dos estudos na área de QVT, predomina a abordagem assistencialista (FERREIRA et al., 2009). Aqui, as ofertas de ações práticas em QVT cumprem somente o seu papel quando estão em equilíbrio com as demandas e o contexto de trabalho. Caracteriza-se, ainda, por julgar o trabalhador como variável de ajuste diante das exigências do ambiente organizacional. Assim, quando em desequilíbrio com a realidade dos trabalhadores e das práticas gerenciais, as ações em prol da QVT, como massagens terapêuticas, aulas de dança, ioga, coral, dentre outras, tornam-se apenas paliativas e com o papel de compensar o desgaste físico e mental desses indivíduos, tornando-os resistentes (ou resilientes?) aos problemas existentes nas organizações, e ainda com o enfoque na produtividade. Logo, implementar ações no ambiente de trabalho, sob essa perspectiva, resultará, ao longo do tempo, no aumento das reclamações por parte dos gestores e no desinteresse dos trabalhadores (FERREIRA, 2006c; ANTLOGA; LIMA, 2007). Já no enfoque preventivo, como produto dos primeiros estudos em QVT, têm-se as produções bibliográficas e os resultados de pesquisa do Grupo de Estudos e Pesquisas Aplicadas ao Setor Público (ErgoPublic), da Universidade de Brasília, que alicerçam (VIEIRA; FERREIRA, 2006; 2006a, 2006b, 2008) e apresentam propostas de ações interventivas nas instituições públicas investigadas (CARNEIRO; FERREIRA, 2007; ANTLOGA; LIMA, 2007; LIMA, 2008; FERREIRA et al. 2009; FERREIRA; ALVES; TOSTES, 2009; FERREIRA, 2010; LEITE; FERREIRA; MENDES, 2010), assim como complementadas por estudos em andamento que fundamentam esta abordagem considerada contra-hegemônica. 110 UNIDADE IV │ ERGONOMIA A QVT, no enfoque preventivo, vem no intuito de minimizar e/ou sanar os fatores causadores de mal-estar no trabalho, elencando três dimensões analíticas interdependentes de atuação, a saber: condições laborais, organização e relações sociais de trabalho, de forma que esta é compreendida como uma responsabilidade de todos os envolvidos, no empenho de manter o equilíbrio entre o bem-estar, a eficiência e a eficácia no trabalho e não se limitando ao enfoque na produtividade exclusivamente (FERREIRA, 2006b). Neste material, sob a perspectiva da abordagem preventiva, adotar-se-á como definição a qualidade de vida no trabalho sob dois enfoques interdependentes e intrinsecamente relacionados: organizacional e dos sujeitos. Na ótica das organizações, a QVT é uma premissa para a gestão organizacional que se expressa por um conjunto de normas, diretrizes e práticas no âmbito da organização, das condições e das relações socioprofissionais de trabalho, que intenta o desenvolvimento pessoal dos trabalhadores, a promoção do bem-estar individual e coletivo e o exercício da cidadania organizacional nos ambientes de trabalho. De acordo com a ótica dos sujeitos, ela se define pelas representações globais que estes constroem sobre o contexto de produção no qual estão inseridos, indicando o predomínio de vivências de reconhecimento institucional e coletivo, de respeito às características individuais, de bem-estar no trabalho e de possibilidade de crescimento profissional (FERREIRA, 2006b, p. 219). Dessa forma, a elaboração de programas e campanhas de QVT demanda a consideração do modelo antropocêntrico da gestão do trabalho, em que os trabalhadores são vistos como ponto central e sujeitos ativos em todo o processo, para que, assim, viabilizem-se cooperação intra e intergrupal, criatividade e autonomia e participação nos processos de tomada de decisão que interferem no bem-estar individual e coletivo (FERREIRA, 2006b). Considera-se portanto que o aporte preventivo da QVT possui uma interface direta de interesses com a ergonomia da atividade em relação, principalmente, aos objetivos e às afinidades teóricas respectivas. Globalmente, as abordagens em QVT filiam-se a uma dimensão de análise macroprocessual, ou seja, no cenário geral da organização; enquanto que as pesquisas e estudos em ergonomia da atividade têm tradição no enfoque microprocessual, em que se se investiga a demanda de determinados setores específicos da organização (FERREIRA, 2008; FERREIRA et al., 2009). A partir da discussão iniciada nesta Unidade, sugere-se a leitura e/ou aquisição do livro Compreender o Trabalho para Transformá-lo: A Prática da Ergonomia, de 2001, dos autores Guérin, Laville,Daniellou, Duraffourg e Kerguelen. 111 CAPÍTULO 2 Contexto de Produção de Bens e Serviços (CPBS) A experiência no mundo do trabalho é imprescindível para a constituição dos aspectos identitários, pois conduz o trabalhador a incorporar características, hábitos e valores compartilhados por um grupo com o qual passa a maior parte do tempo. Assim, o trabalho que os modifica, os torna semelhantes em alguns aspectos, ao tempo em que os separa e os diferencia em outros. No entanto, com as mudanças no cenário do trabalho contemporâneo, frutos das incursões da revolução tecnológica, as quais, por sua vez, tornam as atividades de trabalho intensas, despersonalizadas e com maior nível de exigência por cobrança de resultados, é que se reforçou a pauta da lógica produtivista (FERREIRA, 2009). As implicações dessas transformações refletem-se na forma de concepção e execução do trabalho, na qual o trabalhador é a variável de ajuste (SENNETT, 2001). E é sob essa perspectiva que a corrente franco-belga da ergonomia se contrapõe ao cenário atual do contexto de produção. No viés da análise da relação homem-trabalho, o indivíduo depara-se constantemente com as contradições existentes no contexto de trabalho, que podem obstaculizar e/ou desafiá-lo a enfrentá-las, fazendo com que esse trabalhador desprenda esforço nas esferas física, cognitiva e afetiva. Estar atento às contradições faz toda a diferença no sucesso do uso de uma intervenção ergonômica. Você já pensou sobre isso? Os elementos organizacionais, o lócus e as relações socioprofissionais do trabalho Por entender que a atividade de trabalho tem a funcionalidade de mediar a interação entre sujeito e ambiente (FERREIRA, 2000; 2003), na qual tanto o sujeito atua sobre o ambiente, modificando-o via trabalho, quanto o ambiente transforma o sujeito, também por meio do trabalho, é imprescindível caracterizar o trabalhador em seu contexto de produção. Nesse sentido, neste tópico, será discutido o conceito de Contexto de Produção de Bens e Serviços (CPBS) e as dimensões constituintes respectivamente. 112 UNIDADE IV │ ERGONOMIA No referencial teórico-metodológico da ergonomia da atividade, o contexto de trabalho assume especificidades que caracterizam o viés da ergonomia da atividade. Ele pode ser denominado genericamente como um Contexto de Produção de Bens e Serviços (CPBS) singular, espacial e formalmente circunscrito, que disponibiliza parâmetros estruturadores da ação humana. Esses parâmetros manifestam-se, sobretudo, sob a forma de tarefas prescritas, recursos materiais, instrumentais, tecnológicos e organizacionais, disponibilizados aos trabalhadores que os utilizam para exercer suas atividades. O CPBS é definido por ser o lócus organizacional, material e social onde se desenvolvem a atividade de trabalho e as estratégias individual e coletiva de mediação que são utilizadas pelos trabalhadores ao interagirem com a realidade de trabalho (FERREIRA; MENDES, 2003). É constituído pelas dimensões organização do trabalho, condições de trabalho e relações socioprofissionais. Abaixo, a Figura 1 apresenta a estrutura interligada e exemplificada dessas dimensões, garantindo “maior e melhor visualização das características de cada uma das dimensões que integram a concretude do trabalho” (FERREIRA; MENDES, 2003, p. 40). Figura 1. Interações hierárquicas ascendentes; Interações hierárquicas descendentes Interações coletivas intragrupos; Interações coletivas intergrupos; Interações com demandantes de produtos e serviços; Interações com fornecedores; Interações com representantes de órgãos responsáveis por legislação e fiscalização. Ambiente físico; Instrumentos; Equipamentos; Matéria-prima Suporte organizacional Práticas de remuneração e benefícios; Política de seleção e desenvolvimento de pessoal Divisão do trabalho Exigências de qualidade e produtividade Regras formais e informais (jornada, pausas) Ritmos (prazos) Controles exercidos Características das tarefas prescritas. Organização do trabalho Relações sociais de trabalho Condições de trabalho Fonte: Adaptado de Ferreira e Mendes (2003, p. 41). Em ”organização do trabalho”, têm-se os elementos prescritos, sejam formais ou informais, que expressam as concepções e as práticas de gestão de pessoas e do trabalho. Em ”condições de trabalho”, caracterizam-se os elementos estruturais contidos no 113 ERGONOMIA │ UNIDADE IV lócus de produção e que constituem sua infraestrutura, apoio institucional e práticas administrativas. E, em ”relações socioprofissionais”, constituem-se os elementos interacionais que expressam as relações sociais de trabalho, contidas no lócus de produção, definidoras de sua dimensão social (FERREIRA, 2003). Em seu conjunto, as dimensões do CPBS refletem a estrutura, os processos e a cultura organizacional, e entrelaçam a complexidade do contexto de produção em função, da diversidade, da variabilidade, da dinâmica e da imprevisibilidade de seus elementos. Dessa forma, tais dimensões não seguem uma linha reta, pelo contrário, são dinâmicas e continuamente articuladas. A noção de CPBS resume uma parte do mundo objetivo do trabalho e representa a compreensão do diálogo entre sujeito-atividade-mundo, no qual cada sujeito atua transformando o seu ambiente por meio do trabalho; e o ambiente, por meio do trabalho também, “deixa (ou impõe)” marcas, às vezes, inextinguíveis nos indivíduos (MEDEIROS, 2011). Entende-se, assim, que essas dimensões do CPBS abarcam elementos da cultura organizacional, em que se concebe o caráter interacional entre trabalhador-atividade-contexto. Custo Humano do Trabalho (CHT): as exigências vinculadas ao trabalho As contradições existentes no cotidiano de trabalho de determinado CPBS requerem dos trabalhadores dispêndio físico, cognitivo e emocional. Tais exigências, apresentadas como empecilhos e/ou desafios a serem enfrentados, são denominadas de Custo Humano do Trabalho (CHT). Sob essa perspectiva, nesta seção, foi apresentado e descrito o conceito de CHT na tentativa de esclarecer a predominância da exigência ao trabalhador quanto ao distanciamento entre o que é prescrito e o que é real no contexto de trabalho. O CHT expressa o dispêndio dos trabalhadores, individual e coletivamente, nas esferas físicas, cognitivas e afetivas para lidar com as contradições existentes no contexto de produção que impedem e desafiam a inteligência dos trabalhadores (FERREIRA; MENDES, 2003). Os níveis de exigências que constituem o CHT são representados pelos seguintes custos, a saber (FERREIRA, 2006a): » Custo físico – expressa o custo corporal vinculado ao dispêndio fisiológico e biomecânico, sob a forma de posturas, gestos, deslocamentos e emprego 114 UNIDADE IV │ ERGONOMIA da força física, produto da imposição das características do CPBS aos trabalhadores. » Custo cognitivo – expressa o custo em termos de exigência mental, sob a forma de aprendizagem, formação de esquemas de ação, resolução de problemas e de tomada de decisão, também impostas aos trabalhadores em decorrência das características do CPBS. » Custo afetivo – expressa o custo emocional, sob a forma de reações afetivas, de sentimentos e de estado de humor, resultante das características do CPBS. O CHT mantém relação de proximidade com a atividade, sofrendo imposição externa na forma de constrangimentos às atividades dos trabalhadores, conduzindo-os a desenvolverem estratégias de trabalho (FERREIRA, 2006a). Nos estudos conduzidos por Medeiros (2011), a literatura apontou que toda atividade requer do trabalhador algum esforço, podendo aparecer com diferentes ênfases. Porém, os três aspectos sempre estarão presentes (ABRAHÃO; PINHO, 2002). As características principais do CHT podem ser assim sintetizadas: a. Ele é imposto externamente aos trabalhadores sob a forma de constrangimentos(contraintes) para suas atividades; b. Ele é gerido por meio das estratégias de mediação individual e coletiva que visam, fundamentalmente, responder à discrepância entre as tarefas prescritas pelos modelos de gestão e as situações reais de trabalho; e c. Ele está na origem das vivências de bem-estar e de mal-estar no trabalho, modalidades de representações mentais, que os trabalhadores constroem sobre os efeitos do CHT (FERREIRA, 2008a; FERREIRA et al., 2009a). O conhecimento das exigências que compõem o CHT apresenta-se como um elemento fundamental para ações que visam à melhoria da QVT. As situações vivenciadas pelos atendentes impactam positivamente ou negativamente no CHT. Quanto mais difícil for lidar com as exigências do CHT maiores serão os riscos para o trabalhador vivenciar o mal-estar no trabalho. A superação desse quadro é possibilitada com as estratégias de mediação, conforme apresentação adiante (MEDEIROS, 2011,p. ?). 115 ERGONOMIA │ UNIDADE IV Estratégias de Mediação Individual e Coletiva (EMICs): o suporte das contradições do trabalho Tendo em vista que o CHT, em determinado contexto de trabalho, pode exigir em demasia dos trabalhadores, faz-se necessário o desenvolvimento de estratégia de mediação individual e coletiva (EMIC), que objetiva atenuar as contradições, discrepâncias e/ou adversidades nessa realidade. Dessa forma, nesta seção, foi definido EMIC para que melhor se entenda a reação dos trabalhadores ao CHT. As estratégias de mediação individual e coletiva representam o “modo de pensar, de sentir e de agir frente a um contexto de produção específico” (FERREIRA; MENDES, 2003, p. 43), com o objetivo de garantir a “integridade física, psicológica e social” do trabalhador (FERREIRA; MENDES, 2003, p. 44). Quando a EMIC é gerida com sucesso, configuram-se as fontes de bem-estar no trabalho; caso contrário, têm-se as fontes de mal-estar nesse local. Tanto o bem-estar quanto o mal-estar no trabalho definem-se como representações mentais, nas quais os trabalhadores manifestam o seu estado geral em determinados momentos e contextos de trabalho. Pontualmente, define-se bem-estar no trabalho como representações positivas que os trabalhadores fazem sobre o seu estado físico, psicológico e social relativo ao contexto de produção no qual estão inseridos; e mal-estar no trabalho define-se como representações negativas que os trabalhadores fazem sobre tais estados em determinado contexto de produção (FERREIRA, 2006a). Sob essa perspectiva é que se compreende a inter-relação entre contexto de produção, CHT e representações de bem-estar e mal-estar no trabalho, uma vez que quanto mais eficientes e eficazes forem as estratégias de mediação individuais e coletivas dos trabalhadores para lidarem com as exigências de determinado contexto de produção, menor será o CHT, tendo-se o predomínio das representações positivas, isto é, bem-estar individual e coletivo. E quanto menos eficientes e eficazes forem tais estratégias de mediações individuais e coletivas dos trabalhadores para gerirem as mesmas exigências do contexto de produção, maior será o CHT, predominando as representações de mal-estar individual e coletivo (FERREIRA, 2006a). As principais estratégias de mediação individual e coletiva dos trabalhadores subdividem-se em estratégias operatórias, fundamentadas conceitualmente pela ergonomia da atividade, e as estratégias de mobilização coletiva defensivas, discutidas pelo enfoque da psicodinâmica do trabalho. 116 UNIDADE IV │ ERGONOMIA » Estratégias operatórias – são modos, individual e coletivo, de ação finalística dos trabalhadores, com a intenção de responderem às exigências externas existentes em determinado CPBS, especificamente aquelas originadas pela distância entre o trabalho prescrito e o real (FERREIRA; MENDES, 2003). São centrais na análise ergonômica do trabalho, uma vez que possibilitam a compreensão das respostas dos trabalhadores frente às situações de trabalho. Estas estratégias elaboradas pelos trabalhadores constituem-se no processo de manutenção de sua saúde, mas podem falhar quando não mais permitem dar respostas às exigências do contexto de trabalho, podendo, então, acarretar adoecimento no trabalho (FERREIRA; MENDES, 2003). » Estratégias de mobilização coletiva – são modos de ação que se configuram de forma conjunta, envolvendo grupos de trabalhadores, e buscam modificar a organização, as condições e as relações sociais de trabalho em fontes representativas de bem-estar. A operacionalização dessas estratégias desenvolve-se por meio do espaço público de discussão, representado pelo local onde os trabalhadores têm espaço público e livre para expressarem suas opiniões, compartilhar estratégias operatórias mediante o sofrimento enfrentado; e, por meio da cooperação, na qual se desenvolve uma ação coordenada, fundamentada na confiança e solidariedade, caracterizando-se pela articulação de contribuições individuais, com impacto transformador. » Estratégias defensivas – frequentemente são inconscientes e podem ser tanto individuais quanto coletivas. Apesar de ter função de proteção, se assumirem caráter constante de uso pelos trabalhadores, podem produzir alienação e fracasso como estratégia de mediação, pois se apresentam inúteis e preditoras de doenças, sejam elas de origem psicossomáticas, psíquicas e/ou físicas. Portanto, considerando que o escopo deste trabalho se fundamenta na ergonomia da atividade, tem-se que as estratégias operatórias podem, de fato, reduzir o custo humano do trabalho e possibilitar nele representações de bem-estar. Ao considerar o conjunto de exigências presentes nos mais diversos contextos de trabalho, que se exemplificam por meio do excesso de ritmo de trabalho, do aumento dos prazos e cobranças, do incentivo à polivalência e da individualização da tomada de decisão, tem-se mais uma vez a confirmação da premissa, tão criticada pela ergonomia da atividade, do trabalhador como a “variável de ajuste” 117 ERGONOMIA │ UNIDADE IV (FERREIRA, 2008). Esse contexto crítico torna-se um desafio para as organizações repensarem nos respectivos modelos de gestão que questionam o possível diálogo entre bem-estar e produtividade. Para Medeiros (2011), o papel das estratégias de mediação é propiciar uma margem de manobra para o trabalhador lidar com as contradições presentes no contexto de trabalho, com a finalidade de transformar as adversidades e, ao mesmo tempo, assegurar as integridades física, psicológica e social, buscando, consequentemente, a prevalência de vivências de bem-estar no trabalho sobre as de mal-estar. Quanto mais eficientes e eficazes forem as estratégias de mediação individuais e coletivas dos trabalhadores, para gerirem as exigências do contexto de trabalho, menor será o CHT, configurando o predomínio de representações e sentimentos de bem-estar individual e coletivo; e quanto menos eficientes e eficazes forem as estratégias de mediação individuais e coletivas dos trabalhadores, para gerirem as exigências do contexto de trabalho, maior será o CHT, configurando o predomínio de representações e sentimentos de mal-estar individual e coletivo (FERREIRA, 2006). 118 CAPÍTULO 3 Análise Ergonômica do Trabalho (AET) Pressupostos e características da AET Para compreender as situações de trabalho em sua totalidade e dimensões, a ergonomia faz uso de um método particular de intervenção: a Análise Ergonômica do Trabalho (AET), cujo elemento central organizador e estruturante da situação de trabalho é a atividade de trabalho (GUÉRIN et al., 2001). A AET mescla diferentes instrumentos e procedimentos de pesquisa para o diagnóstico de situações de trabalho e constrói recomendações focadas em aspectos que visem transformar as situações-problemas investigadas no âmbito de propor alternativas que articulem o bem-estar dos trabalhadores e a efetividade organizacional. Ressalta-se que o processode investigação, tendo a AET como método, evolui por um trajeto não linear e tampouco direto. O delineamento metodológico é marcado por idas e vindas, orientadas segundo a dinâmica das situações analisadas, que permitam a adequação (em qualquer tempo) da escolha dos instrumentos e procedimentos de investigação (FERREIRA, 2003). Dessa maneira, encara-se como um poderoso diferencial pertencente a este método, uma vez que as etapas não são engessadas. Isso proporciona ao ergonomista maior flexibilidade e possibilita, conforme posto, ajustes nos diferentes estágios de análise. O Modelo teórico-metodológico da ergonomia A Análise Ergonômica do Trabalho (AET) tem seu registro como método baseado nos estudos desenvolvidos por pesquisadores franceses (WISNER, 2004; DANIELLOU, 2004; GUÉRIN et al., 2001). A principal característica desse método é investigar o que acontece no contexto da realidade sem utilizar um modelo técnico a priori (WISNER, 2004), não desmerecendo a relação de diferentes variáveis nas situações de trabalho como possíveis responsáveis pela situação-problema identificada (FERREIRA, 2003). Desta feita, a AET é utilizada para trazer respostas a uma pergunta específica a fim de propor soluções operatórias, que acarretem mudanças de aprimoramento de uma determinada realidade. Assim, de modo geral, ela possibilita a descrição alternada das fases de concepção e de resolução dos problemas, o que não significa o estabelecimento 119 ERGONOMIA │ UNIDADE IV de um receituário predefinido para atuação e intervenção na análise da demanda, mas sim de um estudo da situação-problema de forma imparcial que compartilhe, quando necessário, de campos disciplinares que melhor respondam às questões levantadas na investigação (FERREIRA, 2003; WISNER, 2004). A Figura 2, a seguir, apresenta o esquema das etapas da AET que destacam o valor da atividade no estudo da interação indivíduo-ambiente. A ideia é elencar os níveis de interdependência que há entre o contexto de trabalho e a atividade que, se permanecerem em sincronia, alcançam o objetivo de “responder eficiente e eficazmente às exigências das tarefas prescritas e garantir o próprio bem-estar do indivíduo” (FERREIRA, 2003, p. 43). Figura 2. Atividade a) Análise da demanda b) Análise da tarefa c) Análise da atividade d) Análise do ambiente e) Diagnós- tico f) Recomen- dações Fonte: Adaptado de Feitosa (2010). Recorrendo aos trabalhos desenvolvidos por Wisner (1996), Guérin et al. (2001), Ferreira (2003) e Iida (2005), descrevem-se as etapas que compõem a AET, a saber: a. Análise da demanda: representa a descrição de uma determinada situação-problema (IIDA 2005); é o recorte necessário para estruturar a ação (GUÉRIN et al., 2001). Ressalta-se ainda que para identificar a situação-problema é necessário verificar a análise da atividade concreta de trabalho e a análise da distância existente entre o trabalho prescrito e o real (GUÉRIN et al., 2001). Contribuem para a formação da situação-problema os diretores, trabalhadores, sindicalistas, entre outros 120 UNIDADE IV │ ERGONOMIA (FERREIRA, 2003). Este elemento pode ser considerado como a ponta do iceberg, submergindo outros possíveis reais determinantes; é valido destacar que a análise da demanda é o guia norteador da AET no decorrer da trajetória de investigação (FERREIRA, 2003). b. Análise da tarefa: corresponde à identificação das normas e objetivos prescritos formalmente que devem ser executados pelos trabalhadores. Contempla o planejamento do trabalho e pode preexistir em documentos formais, tais como regimentos, manuais, descrição de cargos, instruções e normas de segurança do bem ou do serviço a ser prestado (GUÉRIN et al., 2001; IIDA, 2005). Montmollin (1990) acrescenta que a tarefa se opõe à atividade, antecede a atividade e visa conduzir de forma plena a sua execução. c. Análise da atividade: constitui um dos pilares da ergonomia (GUÉRIN et al., 2001). Envolve a observação da realidade dos fatos vivenciados pelos trabalhadores, descrevendo como esses profissionais atuam para alcançar as metas que lhes foram repassadas (IIDA, 2005). Nesta etapa, verificam-se todos os determinantes considerados pelos trabalhadores, como as variáveis intra e interindividual, para construir as estratégias e modos operatórios para responder às prescrições da tarefa (FERREIRA, 2003; COSTA, 2003). d. Análise do contexto de trabalho: representa os elementos materiais que estruturam o trabalho (WISNER, 1994). Na perspectiva de Ferreira e Mendes (2003), esses elementos constituem a dimensão condições de trabalho, inserida no Contexto de Produção de Bens e Serviços (CPBS). e. Diagnóstico: nesta etapa, têm-se as ações que buscam identificar as causas da demanda apresentadas na análise da situação-problema (IIDA, 2005). Para contribuir nesse nível de análise, pode-se recorrer à colaboração dos gestores e trabalhadores que podem prestar informações sobre a situação real de trabalho, via entrevistas, aplicação de questionários, observações livres e/ou sistemáticas e a análise documental (FERREIRA, 2003). f. Recomendações: consiste nas sugestões e indicações de mudanças a serem tomadas para a resolução dos problemas identificados (IIDA, 2005). Tendo em vista a contribuição das etapas constituintes da AET, pode-se considerar que a atividade se caracteriza por ser “finalística; enigmática; organizada/organizante e, sobretudo, busca responder às lacunas do trabalho prescrito e à variabilidade das situações de trabalho” 121 ERGONOMIA │ UNIDADE IV (FERREIRA, 2003, p. 20). Além disso, ela “estabelece, portanto, pela sua própria realização, uma interdependência e uma interação estreita entre esses componentes” (GUÉRIN et al., 2001, p. 26). A escolha pela utilização da AET, para o diagnóstico da situação-problema, justifica-se pelo seu comprometimento em responder a uma demanda específica, orientando propostas de soluções operatórias (WISNER, 2004), além de se empenhar em analisar situações reais em que o trabalho se inscreve (FERREIRA; FREIRE, 2001), quando são identificadas as contradições presentes no contexto de produção. Soma-se a isso as estratégias de mediação utilizadas pelos trabalhadores, na tentativa de atenuar a distância entre o trabalho prescrito e o real, minimizando o custo humano do trabalho e, consequentemente, possibilitando uma prospecção da qualidade de vida no trabalho. Ressalta-se que, durante o processo de investigação, no qual a AET serve de suporte, há uma seleção criteriosa dos instrumentos e procedimentos a serem utilizados; corroborando, portanto, com a perspectiva de que a AET permite uma flexibilidade instrumental e procedimental no seu decorrer metodológico, configurando o “ir e vir” no estudo do recorte analítico da pesquisa (FERREIRA, 2003). A ergonomia da atividade, como referencial teórico, e a análise ergonômica do trabalho como estratégia metodológica atuam em demandas específicas ou situações-problema socialmente estabelecidas que, de modo geral, apresentam-se como uma queixa ou um problema formalizado, seja pela organização, seja pelos trabalhadores. Assim, o ponto de partida para a AET é uma demanda inicial, que cumpre o objetivo de delimitar o objeto de estudo de análise. Com a demanda evidenciada, procura-se esclarecê-la com vistas a propor formas de intervenção. Para tanto, é necessário o aprofundamento de alguns aspectos para melhor compreensão do contexto no qual se desenvolve a atividade (PINHO, 2002). Wisner (1984) apresenta argumentos esclarecedores sobre a “condição” da demanda, porque para ele a demanda inicial nem sempre representa a demanda real. A analogia com um iceberg ilustra de forma satisfatória essa questão: a demanda inicial revela a “ponta do iceberg”, isto é, a parte aparente da questão, sinalizando para os indicadores críticos presentes no contexto de trabalho sem, contudo, revelar o que estaria na gênese de tais indicadores, aspectoencoberto e representado pelo restante do que está submerso. Assim, há muita coisa não visível que convida a ser revelada. A demanda inicial é importante em informações e traz consigo o potencial de sinalizar uma situação-problema socialmente estabelecida no contexto organizacional, o que corrobora para nortear os passos subsequentes da investigação que caminha no sentido de nomear e revelar o que está encoberto. 122 UNIDADE IV │ ERGONOMIA Análise ergonômica do trabalho aplicada à qualidade de vida no trabalho Nesta seção são apresentados, a caráter de exemplo, os elementos principais que constituem abordagem metodológica possível para a ergonomia da atividade. São descritas as características do estudo de caso como método de procedimento utilizado, assim como o delineamento metodológico da pesquisa de natureza quantitativa e qualitativa, filiada à abordagem teórico-metodológica da ergonomia da atividade aplicada à aualidade de vida no trabalho (EAA/QVT) (FERREIRA, 2008). Ela é subdividida em duas etapas interdependentes, a saber: análise macrodiagnóstico e análise microergonômica, esta última como objeto da démarche clássica da análise ergonômica do trabalho, cuja aplicação se alicerçou nos pressupostos de Guérin et al. (2001), complementados por estudos de Montmollin (1990), Laville (1993), Wisner (1995), Daniellou (2004), Grandjean (1998) e Ferreira (2003). A abordagem da QVT de viés preventivo reserva nítida interface de interesses com o campo da ciência ergonômica, diante, principalmente, das aproximações teóricas conforme argumentado nos capítulos anteriores. Tais afinidades possibilitam a construção da abordagem ergonomia da atividade aplicada à qualidade de vida no trabalho (EAA/QVT). No entanto, alguns autores apontam que a construção dessa abordagem traz implicações de natureza metodológica (FERREIRA, 2008; FERREIRA et al., 2009; FEITOSA, 2010), em especial, ao que concerne à AET, pois, segundo Ferreira et al. (2009), as abordagens de QVT, de modo geral, filiam-se a uma perspectiva analítica de natureza macroprocessual (foco no estudo da organização como um todo), enquanto a tradição de estudos e pesquisas em ergonomia da atividade alinha-se a uma perspectiva de natureza microprocessual (foco em setores específicos da organização, nos quais se manifestam determinados problemas). Nos estudos da área, observa-se que uma parcela significativa de pesquisas com bases epistemológicas vinculadas à ergonomia utiliza em suas coletas de dados um conjunto de técnicas e instrumentos predominantemente de cunho qualitativo, os quais caracterizam a démarche metodológica e em larga medida tradicional da ergonomia da atividade. Em tais pesquisas, observa-se de forma recorrente a utilização da análise documental, as entrevistas do tipo semiestruturadas, as observações livres e sistemáticas e a mensuração físico-ambiental. A partir dessa constatação buscou-se alternativas que possibilitassem a investigação da QVT, de viés preventivo, aliada à ergonomia da atividade, o que permitiu a combinação de procedimentos quantitativos e qualitativos. Com esse entendimento, 123 ERGONOMIA │ UNIDADE IV incluiu-se o uso de escalas psicométricas que, embora pouco presentes nos estudos “clássicos” em ergonomia, segundo Mendes e Ferreira (2007), são instrumentos pertinentes para estudos em contextos laborais, pois viabilizam dimensionar as representações de grandes grupos. Para compreender as situações de trabalho em sua totalidade e dimensões, a ergonomia utiliza metodologia própria de intervenção – a análise ergonômica do trabalho (AET), cujo elemento central organizador e estruturante da situação de trabalho é a atividade de trabalho (GUÉRIN et al., 2001). A AET combina diferentes instrumentos e procedimentos de pesquisa para o diagnóstico de situações de trabalho e formula recomendações focadas em aspectos que visem transformar as situações-problema investigadas na perspectiva de propor alternativas que articulem o bem-estar dos trabalhadores e a efetividade organizacional. Por isso, diferentemente de outros estudos que investigam o trabalho, a AET procura identificar como o trabalhador elabora os problemas que deve resolver em confronto com a situação real de trabalho. Nessa perspectiva, a abordagem da ergonomia centrou-se na atividade dos atendentes das agências de atendimento ao público, ligadas ao governo municipal. Os traços característicos que orientam a AET são assim sumarizados: a. Compreensão de que a natureza do objeto de investigação (mediação indivíduo- trabalho) subordina o método, e em consequência, o instrumental e os procedimentos adotados; b. A AET não tem como propósito demonstrar modelos teóricos preestabelecidos, pois se constitui em instrumento de diagnóstico da gênese e ocorrência de indicadores críticos no contexto de trabalho; c. Ancora-se na lógica de análise ascendente do tipo bottom-up, ou seja, tem como ponto de partida uma demanda posta; e d. A participação dos trabalhadores de forma efetiva, voluntária e abrangente. Para conhecer as diversas ferramentas ergonômicas que podem auxiliar no uso do método da análise ergonômica do trabalho, pesquise como e quando aplicar os seguintes métodos: » Método NIOSH (equação de levantamento de carga); » Método OWAS; 124 UNIDADE IV │ ERGONOMIA » Método RULA; » Método REBA; » Método Suzanne Rodgers; » Moore e Garg (Strain Iindex); » Questionário bibolar; » Método Lehmann; » Checklist de Couto; » Método QEC; » Análise de imagem; » Análise de vídeo; » Antropometria; » Cálculo de força; » Uso de EPI (NR 6); » Avaliação de calor (NR 15); » Avaliação de ruído (NR 15); » Avaliação de digitação (NR 17); » Avaliação de iluminação (NBR 8.995); » Checklist para escritório. O software Ergolândia, versão 5.0, é uma alternativa para conhecer e aplicar esses métodos no momento de estudo da análise de determinada situação-problema. 125 CAPÍTULO 4 Norma Regulamentadora 17 NR 17: orientação e aplicação O bem-estar dos trabalhadores, dos usuários e o alcance dos objetivos organizacionais inter-relacionam-se favoravelmente quando colocados nas políticas cotidianas das organizações e ao se tornarem pertinentes na temática qualidade de vida no trabalho (QVT) (FERREIRA; FERREIRA; ANTLOGA; BERGAMASCHI, 2009) e também da saúde do trabalhador. As questões ergonômicas constituem-se pela análise do ambiente de trabalho, posturas, ritmos de trabalho, leiaute, conforto térmico, ruído, iluminação, formas de trabalho, aspectos envolvendo quantidade de horas trabalhadas, entre muitos outros elementos que podem levar ao desconforto ou até mesmo a doenças ocupacionais. Dessa forma, caberá ao ergonomista, por meio de suas técnicas, proporcionar ao trabalhador a aproximação com o equilíbrio entre si mesmo, o seu contexto de trabalho e a infraestrutura na qual este é realizado, em todas as suas dimensões. São, portanto, imprescindíveis para a aplicação da ergonomia nos ambientes de trabalho por conta da existência de elevado número de equipamentos e pessoas nesses ambientes, para os quais não foram considerados os princípios ergonômicos quando da realização de seus projetos de instalação. O dispositivo legal da ergonomia Atualmente o Brasil dispõe de 36 Normas Regulamentadoras (NRs) que obrigam as empresas a cumprirem o disposto nas normas relativas à segurança e à medicina do trabalho. A NR 17, especificamente, orienta a respeito da adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, possuindo os seguintes fundamentos jurídicos: » Redação atual dada pela Portaria MTPS no 3.751, de 23 de setembro de 1990. » Art. no 7, XXII e XXXIII, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. » Arts. nos 72, 198, 199, 253, 390 da Consolidação das Leis do Trabalho. » Súmula do Tribunal Superior do Trabalho no 346. 126 UNIDADE IV │ ERGONOMIA Trata-se de uma regulamentação resultanteda intervenção das entidades sindicais sobre o reconhecimento das doenças osteomusculares relacionadas ao trabalho informatizado e de enfrentamentos para melhoria das condições de trabalho de bancários, digitadores, entre outros. Por conta do seu processo de elaboração, a NR 17 foi aplicada especialmente na área de informática, porém sua redação contém parâmetros que devem ser observados e seguidos, de forma ampla e abrangente e em todos os segmentos laborais. A redação atual da NR 17, Ergonomia, prescrita pela Portaria Ministério do Trabalho e da Previdência Social no 3.751, de 23 de novembro de 1990, dispõe sobre os seguintes subitens, que são imprescindíveis para os trabalhadores que executam suas atividades laborais sentados e possam ter à disposição um posto de trabalho adaptado às suas capacidades psicofisiológicas, antropométricas e biomecânicas humanas. Dentre os vários aspectos investigados pela NR 17, destacam-se os seguintes: » Postura e movimentos corporais: trabalho sentado, trabalho em pé, movimentação de cargas, levantamento de peso; » Informações captadas pela visão e audição; » Controle (relação de mostradores e controles); e » Cargos e tarefas. O objetivo geral da norma é permitir a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, incluindo aspectos relacionados à organização do trabalho, condições ambientais dos postos de trabalho, equipamentos utilizados, mobiliário, transporte e descarga de materiais. Sob essa ótica, Wachowicz (2008) acrescenta que a investigação ergonômica deve buscar os seguintes objetivos: » Ajustar as exigências do trabalho às possibilidades do homem, com o fim de reduzir a carga externa. » Conceber máquinas, os equipamentos e as instalações, pensando na maior eficácia, precisão e segurança. » Estudar cuidadosamente a configuração dos postos de trabalho, com o intuito de assegurar ao trabalhador uma postura correta. » Adaptar o ambiente físico às necessidades físicas do homem. 127 ERGONOMIA │ UNIDADE IV Entende-se que, com a criação da NR 17, ergonomia, tem-se uma inovação nos marcos regulatórios das instituições organizacionais porque gera parâmetros para um ambiente de trabalho mais adequado e, consequentemente, pode auxiliar na prevenção de doenças ocupacionais, como Lesão por Esforços Repetitivos (LER) ou Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT). Contêm na NR 17 orientações a respeito dos levantamentos ergonômicos das atividades de trabalho, inclusive nas operações que exigem posturas rígidas e fixas, introdução de novas tecnologias, absenteísmo elevado, rotatividade elevada de pessoal, conflitos frequentes, trabalho em turnos, situações essas que estão diretamente ligadas ao tema principal deste trabalho, o teleatendimento. Recomendamos que a norma seja consultada, na íntegra, para complementar o estudo desta disciplina. Ainda sobre esse assunto, a Revista Proteção publica dicas sobre saúde e segurança no trabalho mensalmente. Como sugestão de estudo complementar desta unidade, acesse o seguinte endereço eletrônico: <http://www.protecao.com.br/protegildo/pagina=2>. Nesta disciplina vocês conheceram o conteúdo da Norma Regulamentadora 17 (NR-17), que se refere à regulamentação do trabalho informatizado e de enfrentamentos para melhoria das condições de trabalho de bancários, digitadores, entre outros, resultante da intervenção das entidades sindicais contra as doenças osteomusculares oriundas destas atividades específicas. A Portaria MTPS no 3.751, de 23/11/1990; art. 7o, XXII e XXXIII, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988; arts. 72, 198, 199, 253; 390 da Consolidação das Leis do Trabalho e Súmula do Tribunal Superior do Trabalho no 346 foram os marcos legais que deram respaldo a NR-17. Cabe ainda falar dos aspectos psicossociais relacionados ao trabalho, cujo aprofundamento se faz imprescindível dentro da nova realidade do trabalho no Brasil: o aumento de casos de transtornos mentais entre os trabalhadores. A NR 17 apenas menciona algo sobre os aspectos psicossociais interferentes no ambiente de trabalho. Assim, como forma de preencher essa lacuna, dentro do campo da psicologia organizacional e do trabalho, foram criadas várias metodologias de abordagem do sofrimento e prazer vinculados ao trabalho bem como instrumentos valiosos na identificação e diagnósticos de riscos à saúde mental, tais como questionário de Lipp, ICT, entre outros. O índice de capacidade para o trabalho (ICT) é um instrumento que avalia a percepção do trabalhador em relação ao quão bem está, ou estará, neste momento ou num futuro próximo, e quão bem ele pode executar seu trabalho, 128 UNIDADE IV │ ERGONOMIA em função das exigências, de seu estado de saúde e capacidades físicas e mentais (SILVA JUNIOR et al., 2016). O ICT é construído com base em um questionário autoaplicável composto de dez itens, sintetizados em sete dimensões: 1. Capacidade para o trabalho comparada com o melhor de toda vida, 2. Capacidade para o trabalho em relação a exigências físicas, 3. Número de doenças atuais diagnosticadas pelo médico, 4. Perda estimada para o trabalho por causa de doenças, 5. Faltas ao trabalho por doenças nos últimos 12 meses, 6. Prognóstico próprio da capacidade para o trabalho daqui a 2 anos e 7. Recursos mentais. A pontuação do ICT varia de 7 (pior índice) a 49 pontos (melhor índice). Sua aplicação no Brasil demanda como escolaridade mínima a quarta série do Ensino Fundamental 1. A versão em português e as instruções detalhadas para o cálculo do escore são encontradas em Tuomi et al. Quadro 17. Estrutura do Índice de Capacidade para o trabalho. Item No de questões Pontuação 1. Capacidade atual para o trabalho comparada com o melhor de toda vida 1 De 0 a 10 pontos 2. Capacidade para o trabalho em relação às exigências do trabalho 2 De 0 a 10 pontos (considera a natureza do trabalho física e ou mental) Número de doenças atuais diagnosticadas por médico 1 (lista de 51 doenças) De 0 a 7 pontos (inversamente proporcional ao número de doenças diagnosticadas apenas, sendo nenhuma doença de 0, e 5 ou mais doenças, 1 ponto) Perda estimada para o trabalho por causa de doenças 1 De 1 a 6 pontos Faltas ao trabalho (dias) por doenças nos últimos 12 meses 1 De 1 a 5 pontos (inversamente proporcional ao valor apontado). Para nenhum dia 5 pontos e no mínimo 100 dias 1 ponto. Prognóstico próprio da capacidade para o trabalho daqui a 2 anos 1 1,4 ou 7 pontos (respectivamente incapaz, incerto e capaz) Capacidade de apreciar a vida, de se sentir alerta e da esperança no futuro. 3 Cada questão varia de 0 a 4, sendo respectivamente nunca e sempre. Os valores das questões são somados e a pontuação final varia de 1 a 4 proporcional a soma. Fonte: adaptação de Tuomi et al. (2010). 129 ERGONOMIA │ UNIDADE IV Quadro 18. Pontos do ICT e seus objetivos. Pontos Capacidade para o trabalho Objetivos das medidas Ações 7-27 Baixa Restaurar a capacidade para o trabalho Agir sobre o ambiente de trabalho e a capacidade de restaurar as condições do trabalhador 28-36 Moderada Melhorar a capacidade para o trabalho Incentivar atitudes positivas como a prática de exercícios físicos, dieta, sono, repouso e atividades sociais. 37 – 43 Boa Apoiar a capacidade para o trabalho Esclarecer o trabalhador acerca dos fatores ligados ao trabalho e ao estilo de vida que auxiliam ou deterioram sua capacidade para o trabalho. 44 - 49 Ótima Manter a capacidade para o trabalho Esclarecer o trabalhador acerca dos fatores ligados ao trabalho e ao estilo de vida que auxiliam ou deterioram sua capacidade para o trabalho. Fonte: adaptado de TUOMI et al. (2010). 130 Para (não) Finalizar A identificação de indivíduos e populações expostas é crucial para visualizar no ambiente de trabalho todas as situações de riscos, além de direcionar as orientações de saúde dentro de uma organização,pois esse é um objetivo especial da gestão em SST. Aliada a isso, a investigação dos agentes presentes no ambiente de trabalho trará subsídios para o estabelecimento do nexo causal do agravamento do estado de saúde do trabalhador com a sua atividade. Contudo, a investigação (coletiva ou individual) deve ser criteriosamente desenhada, para que reflita fidedignamente a realidade laboral e mitigue os riscos à saúde do trabalhador, diminuindo o número de adoecimentos, afastamentos pelo INSS e acidentes de trabalho, entre outros agravos, além de contribuir para a promoção da saúde e prevenção de doenças. Algumas doenças dessa natureza sequer são diagnosticadas (associadas) como efeito do “ambiente e do trabalho”, podendo passar despercebidas por anos, levando o trabalhador da incapacidade física e mental leve-moderada até ao óbito. Podemos listar, ainda, neste rol: os impactos ambientais em comunidades circunvizinhas aos grandes empreendimentos; o envenenamento cumulativo da cadeia alimentar humana; o esgotamento de recursos naturais; injustiça ambiental entre ricos e pobres, sendo estes últimos afetados em maiores proporções; entre outros agravos. Dessa forma, finalizamos esta etapa da disciplina carregando o seguinte questionamento: quantas vidas serão lesadas até que possamos efetivar uma sólida gestão dos agravos relacionados ao ambiente de trabalho, envolvendo todos os atores da complexa relação entre Estado, empregadores e sociedade? 131 Referências ALI, S. A. Dermatoses ocupacionais. 2. ed. São Paulo: Fundacentro, 2009. ANAMT – ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS MÉDICOS DO TRABALHO. 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