Prévia do material em texto
1 COAGULAÇÃO SANGUÍNEA FÁTIMA MENEZES ‒ MEDICINA 116 (UFRN) Fonte: Aula Assíncrona Elizeu COAGULAÇÃO SANGUÍNEA Principal causa de morte no Brasil: doenças cardiovasculares, como acidente vascular encefálico (AVE) e infarto agudo do miocárdio (IAM). Funções do sangue: Transporte de nutrientes e excretas. Transporte de gases e hormônios. Balanço hídrico. Equilíbrio ácido-básico. Termorregulação. Defesa e coagulação. Coagulação: sangue sofre alteração de suas propriedades, formando malha sólida de proteínas, as quais impedem o seu extravasamento após um corte. Hemostasia: contenção de hemorragia. Ocorre de forma integrada e quase simultânea. FASES DA HEMOSTASIA 1. Vasoconstrição: contração da musculatura lisa do vaso, reduzindo o fluxo sanguíneo local e a perda de sangue. 2. Atividade plaquetária: colágeno exposto promove adesão de plaquetas no local. Degranulação das plaquetas: libera serotonina, ADP e tromboxano A2. Essas substâncias contribuem para manter a vasoconstrição e ativar mais plaquetas. A agregação das plaquetas forma um tampão plaquetário: tampão plaquetário ou trombo branco. É uma barreira física que contém pequenos sangramentos. 2 3. Coagulação sanguínea: gerada por substâncias liberadas pelas plaquetas e pelo endotélio danificado. Sequência de reações com várias proteínas, cálcio e fosfolipídeos. Resultado: formação da fibrina, uma proteína insolúvel. Forma-se estrutura estável: coágulo ou trombo vermelho. A rede de fibrina aprisiona plaquetas, eritrócitos e outras células. 4. Fibrinólise: destruição do coágulo via plasmina (enzima proteolítica). Juntamente com o reparo, objetiva restaurar o fluxo sanguíneo normal e a integridade original dos tecidos. COMO A FIBRINA SURGE NO PLASMA? A fibrina não existe em sua forma ativa no plasma antes do início da coagulação. Com a ativação da coagulação, fibrinogênio sobre modificações estruturais, virando fibrina. Isso ocorre por modificação enzimática gerada pela trombina. O fibrinogênio é uma glicoproteína sintetizada pelo fígado, como a maioria dos fatores da coagulação. É composto por: 2 cadeias alfa, 2 beta e 2 gama, unidas por ligações dissulfeto. Alfa e beta: ricas em resíduos de aminoácidos carregados negativamente, que contribuem para sua solubilidade no plasma e evitam sua agregação. A atuação da trombina é remover esses segmentos, os fibrinopeptídeos A e B (FPA e FPB). Sua retirada expõe sítios que permitem a associação das fibrinas, formando polímero. POR QUE A FIBRINA É TÃO RESISTENTE? Uma enzima (fator estabilizante de fibrina, fator XIII) atua promovendo ligações covalentes entre resíduos de lisina e glutamina de fibrinas adjacentes. Essas ligações cruzadas permitem a formação de um polímero mais estável e resistente à proteólise: coágulo compacto. TEMPO DE COAGULAÇÃO DO SANGUE 10 a 15 segundos após lesão vascular. 30 a 50 segundos em tubo de vidro. Isso indica que há mecanismos distintos para acionar a coagulação. QUE ESTÍMULOS ATIVAM A COAGULAÇÃO? A protrombina é ativada por proteólise parcial, virando trombina. 3 A trombina ativa o fibrinogênio, que vira fibrina. Fator proteico não enzimático: fator V ativado, que atua como cofator para a catálise gerada pelo fator X. Os fatores da coagulação são designados por algarismos romanos e estão ativados quando há um "a" ao lado. Cascata de coagulação: a coagulação é possível em razão de uma sequência de eventos, que podem ser divididos em duas vias. Via intrínseca: antes da coagulação, os fatores são encontrados no plasma na forma inativa. A via é iniciada em resposta à presença de uma substância estranha, sem ser necessária injúria tecidual. Superfície ativadora ativa fator XII (12) → fator XI (11) → fator IX (9) + cofator VIII (8)→ fator X (10). Via extrínseca: ocorre por injúria vascular. Fator X (10) é ativado por fator VII (7) + cofator III (3). Também ativa fator IX (9), o que estabelece conexão com via intrínseca. Via comum: as duas vias convergem para uma via final de ativação do fator X, levando à formação do coágulo. Fator X, junto com cofator V, ativa a protrombina (vira trombina), o que permite a ativação do fibrinogênio (vira fibrina). A fibrina interage com o fator estabilizante de fibrina (fator XIII), o que confere resistência ao coágulo. 4 COMO A RESPOSTA A ESSES ESTÍMULOS É TÃO RÁPIDA? Como cada fator ativa várias unidades do fator seguinte, o estímulo inicial é amplificado, gerando formação de grande quantidade de coágulo. Amplificação por retroativação: a trombina, além de ativar a fibrina, ativa fatores acessórios 5, 8 e 11, o que gera a formação de mais trombina. O fator 7 é capaz de se ativar ou ser alvo da catálise ativadora da trombina. POR QUE O CÁLCIO É FUNDAMENTAL? O cálcio e a vitamina K atuam como cofatores de proteínas da coagulação. Complexo protrombinase: fator 10 + fator 5, os quais, juntos, ativam a protrombina. Esse complexo requer a presença de cálcio e de fosfolipídeos carregados negativamente. Fator tissular (III): atua como adaptador para fator 7 se encaixar ao 10 e ativá-lo. Esse acoplamento requer fosfolipídeos carregados negativamente, como a fosfatidilserina. Como a fosfatidilserina predomina na face citosólica da membrana, a ativação da coagulação fica condicionada ao rompimento de células. Na via intrínseca, sem lesão, os fosfolipídeos são fornecidos pelas plaquetas. Mais especificamente, o cálcio atua como ponte eletrostática entre fator de coagulação e fosfatidilserina, estabilizando esse complexo. COMO A VITAMINA K PARTICIPA? Os fatores da coagulação se ligam ao cálcio pela presença de resíduos de aminoácidos especiais, que sofreram carboxilação adicional. 5 2 carboxilas permitem forte ligação com o cálcio. A reação de carboxilação é feita no fígado, usando vitamina K como cofator. Fatores de coagulação produzidos na ausência de vitamina K são inativos, uma vez que não se ligam do modo adequado ao cálcio. Sem essa ligação, fator não se liga adequadamente a fosfolipídeos negativos e a cascata de coagulação é prejudicada. Resultado: risco de quadro hemorrágico. POR QUE HEMOFÍLICO SANGRA COM CORTE SE NÃO HÁ DEDFEITO NA VIA EXTRÍNSECA? Ou seja: se não há problema na via extrínseca, por que a coagulação não funciona como deveria? A hemofilia é mais comumente causa por deficiência do fator 8: hemofilia A. A falta desse fator compromete não apenas a via intrínseca, mas também a extrínseca, uma vez que a integração das vias é maior do que o que propõe o modelo clássico. MODELO DA COAGULAÇÃO BASEADO EM SUPERFÍCIES CELULARES A ativação da coagulação se dá por meio de 3 etapas, as quais se sobrepõem: 1. Iniciação: disparada por células que expressam o fator tissular (III), o qual se liga ao fator VII. Fatores IX e X são ativados. Fator X ativado transforma protrombina em trombina, porém em pequena quantidade (não é suficiente para conter sangramento em hemofílico). 2. Amplificação: ocorre na superfície das plaquetas. Fibrina produzida na primeira etapa ativa os cofatores 5 e 8, além do fator 11. Também são ativadas mais plaquetas. 3. Propagação: ocorre na superfície das plaquetas. Produção de grande quantidade de trombina e, consequentemente, de fibrina. As reações pró-coagulantes são amplificadas. Incapacidade de formação de coágulos pelo hemofílico: a ausência do fator 8 gera bloqueio da coagulação a nível de formação do fator 10. INIBIDORES DA COAGULAÇÃO São anticoagulantes, isto é, freiam a coagulação: AntitrombinaIII: liga-se aos principais fatores de coagulação das vias intrínseca e comum, inativando-os. Proteína C: inativa os fatores 5 e 8. Proteína S: aumenta o efeito anticoagulante da proteína C ativada. 6 TFPI: fator inibidor da via tecidual, inibe o complexo TF-fator VIIa. Defeitos de antitrombina III, proteína C ou S geram síndrome de hipercoagulabilidade (trombofilia). Ou seja, tendência ao surgimento de trombos (trombose). TEMPO DE PROTROMBINA É o tempo que o plasma leva para coagular após a adição de um ativador de protrombina na solução. Valor normal: 12 a 15 segundos.