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Copyright do texto © 2021 os autores e as autoras. Copyright da edição © 2021 Pimenta Cultural. Esta obra é licenciada por uma Licença Creative Commons: Atribuição-NãoComercial- SemDerivações 4.0 Internacional - CC BY-NC (CC BY-NC-ND). Os termos desta licença estão disponíveis em: . Direitos para esta edição cedidos à Pimenta Cultural. O conteúdo publicado não representa a posição oficial da Pimenta Cultural. CONSELHO EDITORIAL CIENTÍFICO Doutores e Doutoras Fauston Negreiros Universidade Federal do Ceará, Brasil Felipe Henrique Monteiro Oliveira Universidade Federal da Bahia, Brasil Fernando Barcellos Razuck Universidade de Brasília, Brasil Francisca de Assiz Carvalho Universidade Cruzeiro do Sul, Brasil Gabriela da Cunha Barbosa Saldanha Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil Gabrielle da Silva Forster Universidade Federal de Santa Maria, Brasil Guilherme do Val Toledo Prado Universidade Estadual de Campinas, Brasil Hebert Elias Lobo Sosa Universidad de Los Andes, Venezuela Helciclever Barros da Silva Vitoriano Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, Brasil Helen de Oliveira Faria Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil Heloisa Candello IBM e University of Brighton, Inglaterra Heloisa Juncklaus Preis Moraes Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Brasil Ismael Montero Fernández, Universidade Federal de Roraima, Brasil Jeronimo Becker Flores Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Brasil Jorge Eschriqui Vieira Pinto Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Brasil Jorge Luís de Oliveira Pinto Filho Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Brasil José Luís Giovanoni Fornos Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Brasil Josué Antunes de Macêdo Universidade Cruzeiro do Sul, Brasil Júlia Carolina da Costa Santos Universidade Cruzeiro do Sul, Brasil Juliana de Oliveira Vicentini Universidade de São Paulo, Brasil Juliana Tiburcio Silveira-Fossaluzza Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Brasil Julierme Sebastião Morais Souza Universidade Federal de Uberlândia, Brasil Karlla Christine Araújo Souza Universidade Federal da Paraíba, Brasil Laionel Vieira da Silva Universidade Federal da Paraíba, Brasil Leandro Fabricio Campelo Universidade de São Paulo, Brasil Leonardo Jose Leite da Rocha Vaz Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil Leonardo Pinhairo Mozdzenski Universidade Federal de Pernambuco, Brasil Lidia Oliveira Universidade de Aveiro, Portugal Luan Gomes dos Santos de Oliveira Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Brasil Luciano Carlos Mendes Freitas Filho Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil Lucila Romano Tragtenberg Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil Lucimara Rett Universidade Metodista de São Paulo, Brasil Marceli Cherchiglia Aquino Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil Marcia Raika Silva Lima Universidade Federal do Piauí, Brasil Marcos Uzel Pereira da Silva Universidade Federal da Bahia, Brasil Marcus Fernando da Silva Praxedes Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Brasil Margareth de Souza Freitas Thomopoulos Universidade Federal de Uberlândia, Brasil Maria Angelica Penatti Pipitone Universidade Estadual de Campinas, Brasil Maria Cristina Giorgi Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca, Brasil Maria de Fátima Scaffo Universidade Federal do 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Universidade Federal do Ceará, Brasil Ramofly Bicalho Dos Santos Universidade de Campinas, Brasil Ramon Taniguchi Piretti Brandao Universidade Federal de Goiás, Brasil Rarielle Rodrigues Lima Universidade Federal do Maranhão, Brasil Raul Inácio Busarello Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil Renatto Cesar Marcondes Universidade de São Paulo, Brasil Ricardo Luiz de Bittencourt Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil Rita Oliveira Universidade de Aveiro, Portugal Robson Teles Gomes Universidade Federal da Paraíba, Brasil Rodiney Marcelo Braga dos Santos Universidade Federal de Roraima, Brasil Rodrigo Amancio de Assis Universidade Federal de Mato Grosso, Brasil Rodrigo Sarruge Molina Universidade Federal do Espírito Santo, Brasil Rosane de Fatima Antunes Obregon Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil Sebastião Silva Soares Universidade Federal do Tocantins, Brasil Simone Alves de Carvalho Universidade de São Paulo, Brasil Stela Maris Vaucher Farias Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil Tadeu João Ribeiro Baptista Universidadefinanceiras e simbólicas, proposições de tarefas desafiadoras e atividades criativas são recursos de valia. Por esse prisma, uma medida bastante comum entre professores de jiu-jitsu era a graduação do aluno que se sagrasse campeão em torneios importantes. No outro extremo, como premiação simbólica “negativa”, os discentes que se envolvessem em brigas em locais públicos acabavam sofrendo punições internas pelos mestres. Os dois casos encontram respaldo justificador na presente teoria. Diferentemente dos dois construtos anteriores, a teoria da atribuição procura desvelar os parâmetros norteadores dos juízos das pessoas sobre seus sucessos e fracassos. Ela postula que indivíduos procuram explica-los por meio da conjugação de disposições internas com elementos exteriores. Suas principais categorias são sintetizadas no esquema abaixo (Figura 5): 42 S U M Á R I O Figura 5: esquema da teoria da atribuição Fonte: Adaptado de Samulski (2002) De acordo com ela, atletas que associam seus resultados ao talento, habilidades, esforço pessoal, força de vontade e preparo mental denotam mais força motivacional do que aqueles que auto avaliam os desempenhos como dados ao acaso (sorte ou azar); condicionados pelo meio externo (temperatura favorável, boa iluminação etc.) e devido a insuficiência técnica e física dos adversários. A quarta das teorias que estamos a apresentar denomina-se teoria de metas. Ela presume que os gradientes motivacionais de atletas radicam em três eixos interligados: metas de performance; percepção de si e comportamento de performance. Sobre os atletas, os mesmos dividem-se em dois grupos atitudinais: enquanto alguns focalizam os resultados, outros valorizam o aprendizado e execução de tarefas. Estes últimos demonstram ter acurada percepção de si e senso crítico elevado, cujos comportamentos de rendimento pautam-se no empenho, esforço e auto proposição de tarefas realistas. Já o primeiro grupo tende a creditar os comportamentos de vitória e derrota a externalidades. Enfim, pela teoria de metas, indivíduos com foco em aprendizado de tarefas motivam-se mais do que os com foco em resultados. 43 S U M Á R I O A penúltima de nossas teorias é a teoria de competências. De acordo com ela, a motivação esportiva advém da percepção de auto competência e de controle na execução de tarefas motoras. A comunicação de feedbacks positivos na elevação do conceito pessoal de eficiência deve ser levado em conta. Assim, esportistas com percepção de alto grau de competência e controle de suas atividades, acrescidos de feedback positivos, geralmente sentem-se bastante motivados. A orientação motivacional do sujeito deve ser contabilizada. Atletas com orientação intrínseca, para tarefas e pouca ansiedade possuem viés motivacional elevado. Por fim, tem-se a teoria da auto-eficácia, a qual advoga que seis diferentes parâmetros provocam nos atletas a percepção de auto- eficácia. Esta relação é esquematizada a seguir (Figura 6): Figura 6: esquema da teoria da auto-eficácia Fonte: Adaptado de Samulski (2002) Realizações de performance são significativas para a formação de expectativas positivas de auto-eficácia porque é com base nelas que os esportistas projetam suas habilidades e competências futuras. As lesões possuem um papel significativo nesta avaliação. Diversos lutadores esportivos definem a continuidade ou o encerramento de suas carreiras competitivas segundo o impacto das lesões na queda de desempenho. Na última década, decisões nesse sentido foram tomadas pelos lutadores profissionais de MMA Rodrigo “Minotauro” Nogueira (Brasil) e Georges Saint Pierre (Canadá). 44 S U M Á R I O A organização das experiências é crucial pelo fato de possibilitar ao atleta revisar seus pontos fortes e fracos através de memórias pessoais e via observações dos atos de companheiros e adversários. Estes diagnósticos são importantes para que ele cobre de si e dos pares o alcance das metas estabelecidas e intensifique o conhecimento das circunstâncias a lhe envolverem. Outro quesito indispensável é o aprendizado da leitura e interpretação das emoções nos ambientes de treino e competição. Sem embargo, a identificação precisa da atmosfera afetiva ao seu redor permite a composição de expectativas realistas de performance. Some-se a isso a certeza de que as emoções que o lutador vivencia no seu cotidiano em função de sucessos e insucessos influem na qualidade de suas respostas bioquímicas e biofísicas à dor, fadiga e esforço. Portanto, passa a integrar o rol de elementos preditivos de rendimento. Por fim, impera que o atleta seja provocado a criar imagens mentais exercitando-se nas técnicas de luta, vencendo adversários ou recebendo reconhecimento público. Em suma, são essas as prerrogativas da teoria da auto-eficácia que podem alavancar a motivação esportiva. Muito embora as teorias expostas realizem abordagens próprias do fenômeno motivacional, todas elas, a seu modo, reiteram a dependência do mesmo de elementos subjetivos e situacionais. Dessa feita, a título de complementação, algumas recomendações são factíveis de serem propostas para despertá-lo. Caso o indivíduo encontre-se em um quadro de baixa motivação, alguns exercícios são capazes de intensificar essa disposição antes de treinos, competições ou sessões de aula. Ei-los: elevar a frequência respiratória com ênfase em inspirações profundas; mover segmentos corporais (braços, pernas, antebraços etc.) em velocidades e 45 S U M Á R I O combinações crescentes; imaginar mentalmente situações de movimento que envolvam potência muscular; repetir frases estimulantes (“Eu consigo!”; Eu vou fazer!”) e pensar em palavras-chaves (“Garra!”; “Força!”). Mas se for necessário diminuir o estado motivacional, devido a percepção de ansiedade excessiva, deve-se efetuar o oposto: expirar mais fortemente; mover-se lentamente; imaginar situações tranquilas; formular frases apaziguadoras (“Devagar!”; “Relaxe!”). No plano pessoal, são reconhecidamente significativas, pelos seus efeitos, as técnicas cognitivas e de autoafirmação. Para melhor efeito, há que serem executadas em conjunto. As técnicas cognitivas são centradas em: mentalizações das capacidades (“Posso fazer isto.”; “Acredito na preparação que fiz.”; “Tenho condições de fazer boas lutas.”); mentalização de metas concretas de treino (“Vou melhorar meu condicionamento físico.”; “Devo aperfeiçoar-me nesta habilidade.”; “Devo e vou perder peso.”); estabelecer e mudar metas (“Passarei a exigir mais de mim”; “No próximo treino, não serei derrotado.”). As técnicas de autoafirmação supõem: reforço positivo após boas ações (“Vou me presentear pelo meu resultado.”; “Eu me digo: Fui bem!”); antecipação mental do auto-reforço (“Farei algo bom para mim depois.”); antecipação mental de reforços externos (“Serei elogiado.”, “Ganharei o prêmio”.). Quando criam ambientes positivos de treino e competição, professores e treinadores de lutas fazem com que seus atletas/alunos se orientem positivamente para tais exigências. A autoconfiança e a motivação estão enraizadas na forma do mestre se comportar. A autonomia e responsabilidade dos discípulos só floresce se eles se sentirem depositários da confiança de quem lhes ensina. 46 S U M Á R I O ESTRESSE E ANSIEDADE O estresse é uma reação individual a determinados agentes ambientais, cujas consequências atingem os sistemas biológicos, psíquicos e sociais. Em outras palavras, estes agentes correspondem a estímulos estressores que, ao incidirem sobre a pessoa, lhe causam um certo desequilíbrio. Em função da intensidade e tempo de permanência desses estímulos, somados ao poder de resistência em suportá-los, reações são geradas e consequências produzidas. Nos casos em que os estímulos estressores acabam percebidos como ameaçadores à integridade física, emocional e cognitiva, reações de ansiedade são verificadas. Nessa situação, vê-se o desencadeamento daquilo que na literatura édenominado de ansiedade de estado: sentimentos de tensão, apreensão, nervosismo e ativação (MAGILL, 1998). Além da ansiedade de estado, todo sujeito também apresenta ansiedade de traço, que é uma tendência comportamental inata que lhes faz perceber situações não necessariamente ameaçadoras como danosas. No universo dos esportes de combate e lutas, diversos recortes têm sido dados aos estudos que procuram esclarecer os vínculos entre estresse, ansiedade e performance. Em pesquisa realizada com judocas indianos de nível nacional e internacional, Singh e Gurjar (2017) exploraram as associações entre estresse e ansiedade com as estruturas de personalidade e componentes motivacionais destes atletas. Ao final dela, identificaram que elevados níveis de ansiedade de traço e de estado associavam-se a frustração excessiva diante de derrotas; baixa resiliência; impaciência e mau humor. Por sua vez, estas reações eram mais extremas nos atletas menos experientes e pouco autocontrolados. Em outro estudo apenas com judocas de nível internacional, Çutuk et al. (2017) mostraram que os lutadores mais experientes conseguiam dominar melhor o estresse 47 S U M Á R I O e ansiedade pré-competitivos e superar a dor e o mal-estar quando comparados aos colegas calouros. Portanto, o tempo de prática parece ser uma variável interveniente no controle destes estados. Se o tempo de prática interfere, o que dizer do tempo livre? Na investigação que conduziram com 119 atletas turcos de luta livre olímpica de ambos os sexos, Yasarturk et al. (2018) identificaram que as horas e o conteúdo de tempo livre não influenciavam a ansiedade de estado dos lutadores, porém a idade, o ano de ingresso na modalidade e na seleção nacional mostraram relações com o grau de estresse. Além disso, as idades acusaram associações negativas com a ansiedade. Não identificou-se diferenças em estresse e ansiedade no tocante ao gênero. Por outro lado, questões relativas a gênero emergiram no trabalho conduzido por Merino Fernández et al. (2019) com 444 lutadores de judô, jiu-jitsu, karatê, kendô, tae- kwon-do e luta greco romana. Os autores concluíram que mulheres iniciantes eram mais ansiosas que homens na mesma situação, mas, em compensação, as veteranas demonstravam mais inteligência emocional que os veteranos. Os exemplos elencados corroboram que a experiência do lutador e o patamar de expertise interferem na forma com que ele administra a ansiedade e o estresse. A respeito do gênero, ainda é necessário a geração de mais informações. Acrescente-se ainda que pouco se investigou sobre ansiedade e estresse entre árbitros e treinadores de esportes de combate. A intervenção do professor/treinador é seminal para motivar seus discentes/atletas sem que isso implique em elevação demasiada do estresse e ansiedade. Isso não significa que o praticante não tenha como manter-se em estágios adequados na ausência dos mestres. Tal processo incide sobre a adequação do meio externo e o reconhecimento de sintomas. 48 S U M Á R I O Em relação ao meio externo, o atleta precisa, no dia a dia, estar nutrido e descansado o suficiente; levantar informações constantes sobre a sua luta e aprender técnicas de psico-regulação (mentalização de objetivos, relaxamento e positivação das emoções). Cotidianamente, os sintomas de estresse e ansiedade são aliviados por meio de conversas desinteressadas com colegas. As rotinas de lazer devem ser mantidas. O treinador auxilia bastante quando motiva para a realização de tarefas; varia os métodos de treinamento; corrige os erros e se mostra parceiro (CUNHA, 2016). O ensino e a exercitação de técnicas de relaxamento por intermédio da respiração é uma estratégia de valia a ser empregada como meio coadjuvante de enfrentamento do estresse. O lutador e mestre de jiu-jitsu Rickson Gracie é um adepto delas, declarando-se um praticante de Yoga desde a adolescência. Reitere-se que a literatura no campo do treinamento desportivo menciona outros procedimentos nesta linha, como a autossugestão e o método psicotônico de Winter (TUBINO; MOREIRA, 2003). Todavia, as suas aplicações precisam ser chanceladas por especialistas. COMENTÁRIOS FINAIS Ao longo desta exposição, procurou-se apresentar e discutir minimamente temáticas conceituais provenientes da Psicologia do Esporte que são consideradas imprescindíveis à compreensão das performances atléticas. A construção de interfaces com o universo das lutas e esportes de combate fez parte deste exercício. Longe de estar encerrado, o mesmo demanda posteriores e constantes complementações. Diversas outras questões deixaram de ser contempladas aqui, como, por exemplo: criatividade; elementos psicológicos envolvidos 49 S U M Á R I O na recuperação de lesões; lideranças; emoções positivas e negativas; agressividades. Não que elas sejam menos relevantes; no entanto, os tópicos desenvolvidos no presente texto, por possuírem elos com estas últimas, fornecem ao leitor um mínimo de subsídios conceituais que o habilitam à explorá-las já com algum conhecimento de causa. Para finalizar, nunca é demais lembrar que a adesão aos esportes de combate e às lutas passam por um momento de franca expansão no mundo todo. Programas televisivos os incorporaram como conteúdos permanentes; novas modalidades encontram-se na iminência de integrarem a agenda Olímpica; indivíduos em todo o globo matriculam-se em academias e clubes com a intenção de aprendê-los devido aos mais variados motivos: defesa pessoal, desejo de ser atleta, promoção da saúde, melhoria da qualidade de vida. Tal acontecimento reitera a necessidade de descrever, compreender e explicar as suas causas assim como mapear as suas consequências na vida mental dos sujeitos. REFERÊNCIAS BAUMANN, Sigurd. 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These issues concerns to the individual personality traits; perception; attention and concentration; motivation; stress and anxiety. It is important to underline that such presentation focuses the theoretical aspects of these concepts, having the main purpose to stimulate readers to deep the state of their knowledge through posterior empirical research. Keywords Psychology; Education; Fighting; Perspectives; Guidelines. Capítulo 2 APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO MOTOR NO ENSINO DE LUTAS Jomilto Praxedes DOI: 10.31560/pimentacultural/2021.601.53-88 2 Jomilto Praxedes APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO MOTOR NO ENSINO DE LUTAS 54 S U M Á R I O INTRODUÇÃO: UMA VISÃO GERAL SOBRE A TEMÁTICA EM QUESTÃO A movimentação humana, entendida como algo observável e mensurável, ou seja, um deslocamento do corpo ou de suas partes no espaço em função do tempo e; como produto final de todo um processo interno que acontece no sistema nervoso central (TANI; CORRÊA, 2016), forma a base fundamental de trabalho no processo de ensino-aprendizagem de habilidades motoras no contexto das artes marciais. O ato de ensinar habilidades motoras (HMs) inerente às lutas deve ser amparado em conhecimentos prévios, como por exemplo, sobre como as pessoas as adquirem e de que modo o desenvolvimento ocorre, pois, caso contrário, o processo de ensino se torna sem propósito e não ocorre efetivamente (GALLAHUE, OZMUN; GOODWAY, 2013; SCHMIDT; LEE, 2016). Estes conhecimentos estão relacionados a diversas áreas, tais como a aprendizagem motora (AM) e o desenvolvimento motor (DM). Os fundamentos provenientes dos processos do desenvolvimento estão na essência do ensino, porém, estes conhecimentos não determinam como as HMs devem ser ensinadas, ou seja, não são conhecimentos referentes aos métodos de ensino ou prescrições de treinamento de intervenção. Constituem, sim, importantes fontes de informação que podem auxiliar o profissional, a interpretar comportamentos motores dos alunos e a elaboração de novas estratégias de ensino de HMs (TANI; CORRÊA, 2004). Contudo, sem um conhecimento consistente sobre os aspectos do desenvolvimento do comportamento humano, pode- se apenas conjecturar procedimentos educativos ou de intervenção apropriados. Portanto, o ensino das HMs das artes marciais 55 S U M Á R I O deve levar em consideração vários aspectos e estes devem ser respeitados no processo de ensino-aprendizado, os quais serão vistos durante este capítulo. APRENDIZAGEM MOTORA E DESENVOLVIMENTO MOTOR: PRINCÍPIOS BÁSICOS PARA O ENSINO DE ARTES MARCIAIS Conceitos básicos relacionados à aprendizagem e ao desenvolvimento motor, e termos relacionados No contexto do ensino de lutas, ao falar sobre o estudo das áreas da AM e do DM, torna-se prudente conceituar alguns termos importantes, que serão utilizados em futuras abordagens. Magill (1984, 2000) conceitua a AM como sendo a mudança interna no indivíduo, deduzida de uma melhoria relativamente permanente na potencialidade para a performance qualificada, como resultado da prática ou experiência (MAGILL, 1984, 2000, SCHMIDT; LEE, 2016). Apesar de em alguns momentos ser equivocadamente considerada como sinônimo de AM, o DM, na realidade, significa a mudança contínua no comportamento motor de um indivíduo ao longo do ciclo da vida (GALLAHUE, OZMUN; GOODWAY, 2013). Como exemplo, pode-se chamar de AM quando o aluno, que não consegue realizar um golpe, passa a realizá-lo de algum modo. Já o DM é o fato do indivíduo evoluir; do ponto de vista do comportamento 56 S U M Á R I O motor, o modo como executa o golpe, saindo de um estágio precário para um estágio de boa performance. A performance também é um conceito muito utilizado nas duas áreas, o qual é entendido como nível de proficiência ou como execução de movimento. Como nível de proficiência, a performance significa o patamar atual de desempenho em que uma pessoa executa uma habilidade. Por exemplo, Aurélio Miguel e Roger Gracie, por muitas vezes, presentearam os amantes de judô e Brazilian Jiu Jitsu (BJJ) com golpes e lutas incríveis, sempre com a excelência de suas performances. Por outro lado, como execução, a performance pode ser entendida simplesmente como o comportamento observável, como por exemplo, o modo como se realiza um golpe (TANI; CORREA,2016, GALLAHUE, OZMUN; GOODWAY, 2013). Um outro conceito pertinente no processo de ensino das HMs das lutas é a experiência, a qual se refere a fatores no ambiente que podem alterar o aparecimento de várias características do desenvolvimento ao longo do processo de aprendizado. As experiências da criança podem afetar o ritmo de surgimento de determinados padrões de comportamento (GALLAHUE, OZMUN; GOODWAY, 2013). ESTÁGIOS DE APRENDIZAGEM No processo de ensino e aprendizagem de HMs, deve-se atentar para o desenvolvimento do aluno e o modo como isto ocorre. Para tanto, faz-se necessária a compreensão dos estágios de aprendizagem, que foram descritos por Fitts e Posner (1967). O primeiro estágio é conhecido como estágio cognitivo, e é caracterizado pela presença de uma quantidade elevada de erros durante o desempenho do executante, e a natureza destes erros cometidos tende a ser grosseira. 57 S U M Á R I O Consequentemente, ele necessitará de informação específica do Professor que o analisa para tentar corrigir o que está executando errado (MAGILL, 1984). O segundo estágio é o associativo, o qual, a natureza da atividade cognitiva, que caracterizou o estágio cognitivo, muda durante o estágio associativo. Muitos dos elementos ou mecanismos básicos da HM foram aprendidos até certo ponto e os erros são menos frequentes e menos grosseiros, no que se refere à sua natureza. Neste momento, o aprendiz está concentrando ou refinando a habilidade, pois ele desenvolveu uma capacidade de identificar alguns de seus próprios erros ao desempenhar a tarefa. Apesar dessa capacidade em detecção de erros não ser perfeita, ele já está capacitado para identificar alguns de seus erros. Isso proporciona ao aprendiz algumas diretrizes específicas sobre como continuar sua própria prática motora (MAGILL, 1984). Após muita exercitação e experiência com a HM, o aprendiz enquadra-se no estágio final de aprendizagem, o autônomo. Neste momento, a habilidade torna-se quase automática ou habitual e o indivíduo não tem que dar atenção à produção completa da habilidade, pois aprendeu a desempenhar quase toda a habilidade sem pensar absolutamente na mesma (MAGILL, 1984). Na fase autônoma, o aprendiz desenvolve a capacidade tanto para detectar seus próprios erros quanto para identificar que ajustes são necessárias para corrigi- los. O estágio autônomo é o resultado de uma quantidade enorme de treinamento, e permite ao indivíduo produzir uma resposta sem ter que se concentrar no movimento inteiro. Deste modo ele estará livre para dar atenção a outros aspectos que lhe permitirão um desempenho ótimo (MAGILL, 1984). Assim sendo, pode-se dizer que os professores envolvidos no processo de preparação técnica dos alunos devem atentar para o estágio de aprendizado desses praticantes, com o intuito de entender 58 S U M Á R I O qual a melhor estratégia a ser utilizada no processo de ensino- aprendizagem de condutas motoras. FATORES QUE AFETAM A APRENDIZAGEM MOTORA Aqui serão apresentados rapidamente os fatores que afetam a AM, os quais serão utilizados, no decorrer deste capítulo, e melhor explicados mais adiante, a saber: estabelecimento de metas, instrução verbal e demonstração, prática e, feedback e conhecimento dos resultados. O estabelecimento de metas é um fator que interfere de modo positivo a motivação e o comprometimento do aluno com a aprendizagem, possibilitando definir claramente o ponto em que se pretende chegar (SCHMIDT; LEE, 2016). Em função das metas estabelecidas, o procedimento básico para informar ao aluno o que, como, quando e quanto ele deve fazer é denominado de instrução (MAGILL, 1984), a qual pode ser transmitida de vários modos, tais como, verbal, escrito e cinestésico (MAGILL, 1984, SCHMIDT; LEE, 2016). O ato de praticar uma HM é repetir vários processos subjacentes, tais como intenção, percepção, decisão, programação, execução e avaliação. Um importante aspecto no processo de ensino diz respeito à decisão dos professores quanto à estrutura de prática eficientemente capaz de promover uma melhor aprendizagem das HM, neste caso, utilizadas nas lutas. Deste modo, podem-se considerar, basicamente, as estruturas de prática por blocos e aleatória (SCHMIDT; LEE, 2016). O feedback pode ser visto como aquela informação sobre a diferença entre o que o aluno queria executar e o que ele realizou. O 59 S U M Á R I O conhecimento de resultados e o conhecimento de performance são dois tipos de feedback sendo utilizados (SCHMIDT; LEE, 2016). FATORES QUE AFETAM O PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO MOTOR NA AQUISIÇÃO DAS HMS Modelo de Newell (MN) Para compreender o movimento, o professor deve entender as relações entre as caraterísticas do indivíduo que se movimenta, o meio que o cerca e o propósito de sua movimentação, o que resulta, por meio da integração dessas características, o movimento específico a ser realizado (NEWELL, 1986). Este Modelo de Newell (MN) reflete as interações dinâmicas e em constante modificação no desenvolvimento motor, ao mesmo tempo em que enfatiza as influências de onde o indivíduo se movimenta, nesse caso o ambiente, e o que o indivíduo realiza, sendo esta a tarefa. O MN é formado por três restrições, a saber: individuais, ambientais e da tarefa. A primeira representa as características físicas e mentais inerentes do indivíduo e podem ser divididas em estruturais, relacionadas a estrutura corporal, e funcionais, relacionada a função comportamental. As ambientais representam as características do mundo que nos envolve, e as da tarefa, que incluem as metas de uma atividade ou movimento particular, a estrutura das regras que envolvem aquele movimento ou atividade e as escolhas de equipamento (HAYWOOD; GETCHELL, 2004). 60 S U M Á R I O Exemplificando, pode-se identificar essa estrutura em situações do taekwondo, no qual se tem o indivíduo que é o aluno, o ambiente de prática que é a academia de lutas, e a tarefa, no caso, o ato de aplicar e defender os golpes com o seu companheiro de treino. Quando o aluno está em uma competição, a situação de ambiente e tarefa muda, portanto, a resposta motora do indivíduo também muda. Ou seja, qualquer alteração em uma das restrições no MN representará a modificação do produto final, neste caso, o desenvolvimento do indivíduo. Sequência desenvolvimentista Como foi aludido anteriormente, o MN é determinante no processo de desenvolvimento motor a partir da relação entre o indivíduo, a tarefa e o ambiente. Quando se trata do estudo do indivíduo, uma variedade de fatores desenvolvimentistas interfere no processo, os quais serão apresentados em seguida. A primeira é a sequência desenvolvimentista, que se refere a uma sequência de controle motor ordenada e previsível, a qual é dividida em céfalo-caudal, que indica a progressão gradual de controle motor sobre a musculatura, iniciando pela cabeça e seguindo em direção ao pé; e próximo-distal, a qual refere-se a direção do centro do corpo até as suas partes mais distantes (GALLAHUE, OZMUN; GOODWAY, 2013). No processo de ensino-aprendizagem, o professor deve levar em consideração esta sequência no instante em que organiza as estratégias de ensino de um golpe, sendo elas em partes ou do todo, selecionando as atividades que contribuam e facilitem o aprendizado. 61 S U M Á R I O COMPREENDENDO O MOVIMENTO HUMANO Habilidade Motora: Definições, Componentes e Classificações HM é uma tarefa ou ação de movimento voluntária, aprendida, orientada para um objetivo, realizada por uma ou mais partes do corpo. É importante observar que a definição de habilidade, como utilizada aqui, é de uma ação aprendida, que tem um objetivo específico e, em resultado disso, é de natureza voluntária e exige a movimentação de alguma parte ou partes da anatomia humana (GALLAHUE; OZMUN; GOODWAY, 2013). Magill (1984) complementa afirmando que habilidades são atos ou tarefas que requerem movimento e devem ser aprendidosa fim de ser executados corretamente. Um modo de classificar as HMs atenta-se com a extensão até a qual o ambiente é estável e previsível durante toda a performance. Uma HM aberta é aquela na qual o ambiente é variável e imprevisível durante a ação (SCHMIDT; LEE, 2016), ou seja, implica dar respostas a situações em constante mudança ou ambientes imprevisíveis (GALLAHUE; DONNELLY, 2008). Como exemplos, tem-se o judô e o BJJ, nos quais os praticantes podem selecionar e executar um golpe, dentre a grande variedade de opções, em uma mesma situação de combate. Esse tipo de habilidade requer rapidez e flexibilidade do praticante para a tomada de decisão (GALLAHUE; DONNELLY, 2008). O Professor deve reconhecer a natureza de atividades dinâmicas para criar situações que promovam tomadas rápidas de decisão e comportamentos de adaptação em uma variedade de situações semelhantes aos de combates (GALLAHUE; DONNELLY, 2008). Uma habilidade fechada, por outro lado, é aquela para a qual o ambiente é estável e previsível, ou seja, requer uma performance 62 S U M Á R I O fixa em um dado conjunto de condições ambientais. Esportes como boliche, golfe, arco e flecha, natação e levantamento olímpico podem ser considerados como exemplo de habilidades deste tipo. O praticante tem o luxo de poder se mover em seu próprio ritmo durante a atividade e de ter tempo para reconhecer e responder às condições estáticas do ambiente (GALLAHUE; DONNELLY, 2008). O professor, durante essas atividades, precisa fornecer amplas oportunidades para as crianças repetirem a atividade sob condições que reproduzem o ambiente da performance do modo mais semelhante possível com o real (GALLAHUE; DONNELLY, 2008). Essas designações, aberta e fechada, na verdade determinam os pontos finais de um contínuo, com as habilidades ficando entre ter vários graus de previsibilidade ou variabilidade ambiental (SCHMIDT; LEE, 2016). Um modo também utilizado para classificar as habilidades está relacionado com o ponto até o qual o movimento é um fluxo contínuo de comportamento, em oposição breve, bem-definida. De um lado tem a habilidade discreta, que geralmente tanto o início quanto o fim são definidos, sendo um movimento breve, como por exemplo, arremessar, chutar e empurrar (SCHMIDT; LEE, 2016). Na outra extremidade desta classificação está a habilidade contínua, que não tem nenhum início ou fim especial, sendo que o comportamento por muitos minutos, ou seja, movimentos repetidos por um período de tempo específico, como por exemplo, fintar no muay thai ou MMA. Como discutido adiante, as habilidades discretas e contínuas podem ser bem diversas, exigindo processos diferentes para performance e demandando que elas sejam ensinadas de modo um pouco diferente como resultado (SCHMIDT; LEE, 2016). Outra forma de classificação é quanto aos grupos musculares envolvidos na execução de habilidades. Assim, as habilidades são 63 S U M Á R I O classificadas como grossas, quando são utilizados grupos musculares grandes, e finas, quando fazem uso de grupos musculares pequenos. Utilizando o judô como exemplo, pode-se dizer que a maioria dos golpes realizados são classificados como habilidades motoras grossas. Contudo, também são identificadas habilidades finas em movimentos que envolvem a percepção e o controle cinestésico da postura e movimentação do oponente, principalmente durante as esquivas e na escolha dos contragolpes a ser aplicado. Hierarquia de movimento A hierarquia de movimento diz respeito à progressão do movimento, do mais simples para o mais complexo, relacionando os movimentos corporais em vários níveis de especificidade. Após as categorias de movimentos reflexo e rudimentar, que correspondem aos movimentos involuntários e aos primeiros movimentos voluntários, respectivamente, identifica-se os movimentos que estão atrelados ao alcance de objetivos gerais para uma determinada tarefa, os quais são classificados como HMs, as quais consistem em uma série de movimentos voluntários do corpo humano realizados com exatidão e precisão, designados para atingir um objetivo especial (GALLAHUE; OZMUN, 2005; GALLAHUE; DONNELLY, 2008). No contexto das práticas das artes marciais, o chute lateral no caratê, o soco no boxe e a queda no BJJ são exemplos de habilidades motoras (HAY; REID, 1985, SCHIMIDT; WRISBERG, 2001). Os movimentos com um propósito bem geral são denominados habilidade motora fundamental (HMF); eles são de ordem natural do ser humano, ou seja, desenvolver-se-ão de modo natural, por necessidade inerente do ser vivo. Tais habilidades podem ser exemplificadas como: marchar, trepar, subir e escalar. Segundo Gallahue e Ozmun (2005), 64 S U M Á R I O Gallahue e Donnelly (2008), este tipo de HM é uma série organizada de movimentos básicos que implica a combinação de padrões de movimento de dois ou mais segmentos do corpo. Uma habilidade motora especializada (HME) é uma HMF, ou a combinação de HMF aplicadas à realização de uma atividade específica relacionada ao esporte. Portanto, as HMFs de contorcer o corpo e chutar um oponente podem ser aplicadas em sua forma horizontal, como o chute lateral no taekwondo ou em sua forma vertical, ao realizar um chute frontal no muay thai (GALLAHUE; DONNELLY, 2008). A fase de HMEs do desenvolvimento é, na essência, a evolução da fase fundamental. Habilidades especializadas são mais precisas do que habilidades fundamentais, pois frequentemente envolvem a combinação de HMFs e requerem maior grau de precisão (GALLAHUE; OZMUN, 2005). No primeiro momento, o chute é uma HMF, porém, quando se torna um chute mais específico, como no caso do chute semicircular ou o chute frontal, tem-se um chute em função do objetivo maior, que é chutar num certo tempo com determinada qualidade. Ou seja, o chute semicircular é uma HME, pois é um movimento corporal que tem um objetivo claramente definido, no qual já existe um grau maior de especificidade. O indivíduo, ao chutar um oponente, pode realizar esta habilidade motora de várias formas, ou seja, chute lateral, frontal, semicircular, com salto, assim pode admitir várias técnicas motoras ao movimento. O domínio da HM proporciona a boa utilização da técnica motora TM. A técnica é adquirida principalmente por processos de aperfeiçoamento da coordenação de diversos grupamentos musculares que intervêm na conduta motora visada. É observada uma grande facilidade e naturalidade nos movimentos realizados, quando ocorre o domínio da técnica (TANI; BENTO; PETERSEN, 2006). 65 S U M Á R I O O esclarecimento destes termos contribuirá para melhor desenvolvimento das estratégias pedagógicas durante o processo de ensino das habilidades motoras desejadas. Estes aspectos serão aludidos logo em seguida. Categoria de Movimento O movimento pode ser alocado em três tipos de categorias, a saber: equilíbrio, locomoção e manipulação. As HMs de equilíbrio formam a base para todas as outras HMs e são habilidades em que o corpo permanece no lugar, mas se move ao redor de seu eixo horizontal ou vertical; as HMs de locomoção em que o corpo é transportado em uma direção vertical ou horizontal de um ponto para o outro; e as HMs manipulativas são aquelas que envolvem transmitir força a um objeto ou receber força dele (GALLAHUE; DONNELLY, 2008; GALLAHUE; OZMUN; GOODWAY, 2013). Como exemplos de cada categoria tem-se, o curvar, o alongar, o contorcer, o virar, o balançar, o apoio invertido, o rolamento do corpo, o esquivar e o equilibrar, para a categoria de equilíbrio; o marchar, o correr, o saltar, o pular em um pé, o saltitar, o impulsionar, o galopar, o escorregar e o escalar, para a categoria de locomoção e; o lançar, o pegar, o chutar, o receber, o rebater, o voleio com as mãos, o driblar, o rolar a bola e o empurrar, para a categoria manipulativa (GALLAHUE; DONNELLY, 2008; GALLAHUE; OZMUN; GOODWAY, 2013). Interpretando uma técnica motora Quando se fala de uma HME, sabe-se que a mesmaé uma evolução da HMF ou um conjunto de HMFs, logo, pode-se dizer que a HME ou até mesmo um TM são compostas por HMFs. Este fato deve 66 S U M Á R I O ser levado em consideração quando o professor for ensinar um golpe em suas aulas de artes marciais. Neste caso, fragmenta-se a TM para identificar o seu nível de complexidade, por exemplo, nos esportes de combate pode-se citar como HMFs, o curvar, o contorcer, o virar, o rolamento do corpo, o esquivar, o equilibrar, o pular em um pé, o saltitar, o impulsionar, o pegar, o chutar, o puxar e o empurrar. Essa interpretação deve ser feita para cada esporte e cada TM. No chute frontal no caratê, que será o primeiro exemplo, podem- se identificar as HMFs chutar, empurrar e equilíbrio unipodal. Cada HM desta deve ser analisada e treinada, de modo que trabalhem em sinergia durante a execução do golpe. Estas HMFs podem ser semelhantes em outro golpe do mesmo esporte, como por exemplo, o chute semicircular, ou em outro esporte, como é o caso do taekwondo. O segundo exemplo, será o esporte propriamente dito, neste caso pode-se escolher o BJJ, nele cita-se como HMFs o curvar, contorcer, virar, rolamento do corpo, equilibrar, impulsionar, pegar, puxar e empurrar, sendo estas HM fundamentais para a prática do esporte. Desta forma, pode-se compreender que a TM a ser ensinada em uma arte marcial é a evolução de uma HME, e esta é o aprimoramento e ou o conjunto de HMFs. O PROCESSAMENTO DA INFORMAÇÃO, A TOMADA DE DECISÃO, A MEMÓRIA E A ATENÇÃO NO ENSINO DAS LUTAS Processamento de informação Durante uma situação prática de combate real ou treinamento, a informação, proveniente da tarefa, é apresentada para o indivíduo 67 S U M Á R I O como input ou entrada; vários estágios do processamento dentro do sistema motor humano geram uma série de operações sobre essa informação; e a resposta subsequente, chamada de output ou saída, é a própria tarefa motora. Pode-se dizer que existem três estágios de processamento da informação, entre input e output, a saber: identificação do estímulo; seleção da resposta; e programação do movimento (SCHMIDT; LEE, 2016). No Muay Thai, quando o adversário realiza um chute semicircular na direção da coxa, essa atitude corresponde ao input, já o output é a resposta a esse ataque, que pode ser o bloqueio com a perna direita ou com a perna esquerda, por exemplo. Acredita-se que os estágios não são sobrepostos, ou seja, todo o processamento em um determinado estágio é concluído antes do produto de classificação ser encaminhado para o estágio seguinte; ou seja, o processamento da informação em dois ou mais estágios diferentes, não pode ocorrer ao mesmo tempo (SCHMIDT; LEE, 2016). Esse processo finalmente resulta em um output, que representa a ação. No estágio de identificação do estímulo, o problema do sistema é decidir se um estímulo foi apresentado, e em caso positivo, identificar qual é ele. Assim, a identificação do estímulo é principalmente um estágio sensorial, que analisa as informações ambientais a partir de uma variedade de origens, tais como, a visão, a audição, o tato, a cinestesia e o olfato. Os componentes da ação começam a ser “montados”, os padrões de movimento também são detectados, como, por exemplo, se outras partes do corpo estão se movendo, em qual sentido e com que rapidez, e assim por diante, sendo esta informação enviada para o próximo estágio (SCHMIDT; LEE, 2016). As atividades no estágio de seleção da resposta iniciam logo após o estágio de identificação do estímulo fornecer informações sobre a natureza do estímulo ambiental. Esse estágio tem o objetivo 68 S U M Á R I O de decidir que resposta executar, dada a natureza da situação e o ambiente. Neste caso, a escolha de respostas disponíveis pode ser bloquear o chute com a perna ou receber o golpe na coxa. Assim, esse estágio requer um tipo de processo de transição entre input sensorial e output de movimento (SCHMIDT; LEE, 2016). O tempo para a seleção da reposta pode variar em função do número de alternativas disponíveis, de acordo com a Lei de Hick (HICK, 1952), sendo maior o tempo para um maior número de alternativas. Um iniciante, por não conhecer as respostas mais adequadas a determinadas situações, considera mais “possibilidades inadequadas”: podendo necessitar de mais tempo para a seleção da resposta. No que diz respeito à programação da resposta, aquelas que envolvem um maior número de componentes demandarão mais tempo para serem organizadas e iniciadas. No último estágio, o início do seu processamento ocorre após receber a decisão sobre que movimento realizar, como determinado pelo estágio anterior. O estágio de programação do movimento tem a tarefa de organizar o sistema motor para a execução do movimento desejado. Ou seja, se o estágio de seleção da resposta determinou que uma resposta de bloqueio com a perna direita era necessária, então, a organização do programa motor responsável pela execução de uma ação de bloquear ocorreria no estágio de programação do movimento (SCHMIDT; LEE, 2016). Considerando a execução do movimento, quanto mais complexas, ou seja, quanto maior a quantidade de estruturas corporais envolvidas ou o número de HMs, mais tempo seria necessário para o processo de programação motora. Dessa forma, assim que o padrão de movimento foi identificado e a forma de bloqueio foi selecionada, a representação mental do movimento deve ser lida, ou seja, recuperada da memória e preparada para ser ativada, bem como porções do sistema motor devem ser preparadas para a execução. Só então se dá início ao movimento de bloqueio propriamente dito. 69 S U M Á R I O Se todos os processos forem finalizados de modo eficiente, o tempo de resposta, que compreende o tempo de reação e o tempo de movimento, será concluído num intervalo inferior ao tempo de movimento do adversário, levando a um bloqueio bem-sucedido. Na luta combinada, duas etapas do processamento de informação estão ausentes em relação ao combate propriamente dito: a identificação do estímulo e a seleção da resposta. Não há necessidade de identificar o padrão de movimento do parceiro ou selecionar uma resposta em função dessa identificação. Na luta combinada é necessário somente recuperar da memória a ação motora a ser executada e realizar ajustes relacionados a parâmetros do movimento, como força, velocidade e distância em relação ao outro, por exemplo. MEMÓRIA E AGRUPAMENTO DE INFORMAÇÃO O processo de aquisição de uma HM implica a formação de memória, ou seja, a persistência de informação sobre o movimento para uso posterior. Entretanto, durante a prática da habilidade, diferentes sistemas de armazenamento de informação tomam parte do processo, a saber: o armazenamento sensorial de curto prazo (ASCP), a memória de curto prazo e a memória de longo prazo (SCHMIDT; WRISBERG, 2001), os quais são regiões onde a informação seria armazenada. No caso de um “item de informação” quando se pensa em uma na sequência e ou etapas de um golpe, como por exemplo, para manter esse golpe na memória de curto prazo, por alguns segundos, faz-se chunks ou pedaços, ou seja, agrupam-se conjuntos de ações de forma que cada conjunto, e não cada ação isoladamente seja um item de informação. Se forem considerados os detalhes de movimento presentes na transição de uma postura para outra, será visto que há uma 70 S U M Á R I O série de itens de informação, como a posição dos pés, a angulação do tronco, joelho e quadril, a posição dos braços, a posição dos punhos, o modo como ocorre a transferência de peso entre as pernas, a força aplicada durante a contração isométrica dos dedos, entre outros aspectos. Os praticantes experientes agrupam os itens de informação, de modo a reduzir a quantidade de itens de informação, não sendo preciso que cada posição de cada estrutura corporal seja item de informação. Como por exemplo, o “punho cerrado” consiste em uma posição, sendo esta um único item de informação.Com o tempo de prática, a aprendizagem de mais padrões e a melhora na capacidade de identificar esses padrões e posturas, passam a constituir um único item de informação (TANI; CORREA, 2016). TEMPO DE REAÇÃO Como foi mencionada anteriormente, os processos de identificação do padrão, seleção da resposta e programação da resposta, ocorrerem dentro de um intervalo de tempo que passa após um estímulo subitamente apresentado, frequentemente não previsto até o início da resposta, conhecido como tempo de reação (TR), que é uma medida importante de performance que indica a velocidade e a eficácia da tomada de decisão - é o intervalo de TR. O TR simples é a situação que envolve apenas um estímulo e uma resposta. No TR de escolha, existirão mais de um estímulo e uma resposta específica. No TR de discriminação, acontecerá mais de um sinal, mas a resposta está condicionada. Já o período de tempo desde o final do TR até a conclusão do movimento é chamado de tempo de movimento (TM). 71 S U M Á R I O TOMADA DE DECISÃO Além da capacidade de execução da técnica, é essencial a capacidade de tomada de decisão sobre qual técnica empregar. Sabe-se que a tomada de decisão é dificultada em situações de imprevisibilidade, nesse sentido, fica claro que, na perspectiva do lutador que ataca, deixar o oponente desequilibrado ou em desvantagem é fundamental para a tomada de decisão de qual golpe executar, pois é a partir do sucesso no desequilíbrio que muitas vezes se escolhe o golpe mais apropriado para aquela situação. A finta para a execução de um golpe é feita explorando-se o TR. Este é definido como o intervalo de tempo entre a apresentação de um estímulo e o início da resposta, sem que a resposta seja antecipada ao estímulo (SCHMIDT; WRISBERG, 2001). O tempo de latência varia de acordo com o receptor sensorial que recebe o estímulo, visual, auditivo ou cinestésico; e com as diferenças individuais. No caso do judô, o principal receptor sensorial é o cinestésico, visto que se está segurando o judô-gui do oponente. O TR é composto por duas fases: a fase pré-motora, que se refere ao intervalo de tempo entre o estímulo e a primeira alteração muscular detectada por eletromiografia; e a fase motora, que é o intervalo de tempo da primeira alteração muscular até o início do movimento. De acordo com Júnior e Almeida (2013), o processo da tomada de decisão não é uma simplesmente escolha dentre muitas possibilidades, mas sim, um processo que ocorre levando em consideração outros processos cognitivos, os quais podem atuar tanto de forma positiva, auxiliando o aluno a decidir corretamente, como negativa, se o aluno não tiver essas capacidades cognitivas bem trabalhadas durante sua fase de formação. No entanto, não são apenas as capacidades de antecipação, percepção e memória que atuam na tomada de decisão 72 S U M Á R I O (AFONSO; GARGANTA; MESQUITA, 2012), mas também a intensidade do exercício, a interação espacial entre os praticantes (CLAVIJO et al, 2016; FRIGOUT et al, 2020), assim como a massa corporal dos mesmos (SOTO et al, 2020). LEI DE HICK Hick (1952) descobriu que a relação entre o tempo de reação de escolha e o logaritmo do número de alternativas de estímulo-resposta é linear, ou seja, o tempo de reação de escolha aumenta a uma razão constante cada vez que o número de alternativas de estímulo-resposta é duplicado, sendo assim, esse fenômeno ficou conhecido na literatura como “lei de Hick”. No judô, a partir de um mesmo estímulo, no caso a pegada, por exemplo, puxar a manga para a realização do kouchi gari, o uke sabe que o seu oponente tem condições de lhe aplicar mais dois golpes partindo da mesma posição: seoi nague, caso o uke ajuste a puxada na manga realizada pelo tori com o passo da perna direita curto e, consequentemente, inclinando o tronco para frente; tai otoshi, caso o uke ajuste a puxada na manga realizada pelo tori com um deslocamento para diagonal direita, inclinando o tronco para essa direção. Com isso a sua resposta é retardada (uke), oportunizando mais tempo para o adversário realizar com sucesso a projeção ao solo (SCHMIDT; LEE, 2016, TANI; CORREA, 2016). Outro fator muito importante, e talvez o principal, é o período refratário psicológico (PRP), que é um atraso na resposta a um segundo estímulo quando os dois estímulos estão próximos. Esse atraso é explicado pela capacidade do ser humano de processar apenas uma informação por vez. Existe um intervalo de tempo de 60 a 100 ms aproximadamente entre os estímulos para que o PRP seja eficiente. Se o tempo for inferior a 40 ms o indivíduo tende a responder 73 S U M Á R I O aos dois estímulos concomitantemente, e se ultrapassar 100 ms ele poderá responder aos dois estímulos, cada qual como um estímulo único. Um exemplo é a finta utilizando o ato de “empurrar e puxar” para causar o desequilíbrio do judô ou no BJJ. Na aprendizagem de uma HM, observa-se que com a prática há melhoria de vários aspectos, entre eles o aperfeiçoamento de selecionar as informações relevantes para a atividade a se realizar. Um bom judoca deve possuir a capacidade de analisar o oponente em um combate, antecipando os seus movimentos. Um praticante que consegue antecipar com eficiência terá uma vantagem sobre os seus oponentes, possibilitando a preparação de seus movimentos antecipadamente. Inteligentemente, esta antecipação é o único modo de reduzir ou eliminar a latência do TR, sendo este um dos fatores que mais diferença faça entre atletas (LADEWIG, 2000). ATENÇÃO A atenção parece ser limitada pelo fato de que apenas uma determinada quantidade de capacidade de processamento da informação parece existir. Quando sobrecarregada, uma parte considerável desta informação pode ser perdida. Além disso, a atenção parece ser seriada, pois parece concentrar-se primeiramente em uma coisa, depois em outra, apenas com grande dificuldade, caso seja necessário, pode-se concentrar atenção em duas coisas ao mesmo tempo. Em alguns momentos, a atenção é direcionada para eventos sensoriais externos, no caso do exemplo supracitado, as atitudes correspondentes aos outros atletas. Em determinadas ocasiões, a atenção é concentrada nas operações mentais internas, por exemplo, quando tenta lembrar a perna preferida do adversário para aplicar o 74 S U M Á R I O golpe. Em outras é direcionada para informações sensoriais internas, quando se trata das sensações dos músculos e articulações. Considera-se como atenção, o recurso, ou “conjunto” de recursos ligeiramente diferentes, que está disponível e que pode ser usado para várias finalidades (SCHMIDT; LEE, 2016). A atenção assemelha-se a um banco de dados, que contém várias informações que possibilita realizar as atividades desejadas, a forma pelas quais esses recursos de atenção são alocados define como será utilizada a atenção. De acordo com Schmidt e Lee (2016) o processamento automático de informações é considerado resultado de uma grande quantidade de prática. Esta prática de uma determinada HM leva a execução automática e coerente do ponto de vista da Biomecânica. Por isso que o treinamento é primordial para o sucesso de qualquer praticante esportivo, pois, este indivíduo possuirá condições de realizar as HMs inerentes a sua arte marcial e ainda executar outros movimentos específicos. Exemplificando, pode-se citar um ambiente de luta, no caso o Muay Thai: o lutador executa diversos golpes, mas a sua preocupação não é com a técnica motora, pois esta já está refinada por causa dos treinos realizados, mas sim com a sequência de golpes e a defesa dos golpes adversários. Caso ele não defenda adequadamente os golpes do oponente, corre o risco de perder a luta. A eficiência do processamento automático tem fortes implicações tanto para HMFs quanto para as TMs. Se uma tarefa é realizada de forma automática, muitas atividades de processamento da informação importantes podem ser produzidas não apenas rapidamente, mas em paralelocom outras, tarefas simultâneas e sem performance perturbadora. É como se certos estágios, como por exemplo a seleção de resposta, fossem ignorados todos juntos (SCHMIDT; LEE, 2016). 75 S U M Á R I O FEEDBACK Informação sensorial Anteriormente foi apresentado que o feedback pode ser intrínseco ou extrínseco (ou aumentado), sendo este último fornecido de modo verbal, cinestésico e visual. O termo feedback é usado para situações em que, durante o movimento, surgem sensações decorrente da movimentação corporal, o que produz informações que são retroalimentadas para o executante. Por exemplo, quando ocorre o deslocamento de um corpo, a informação está disponível a partir dos músculos que se contraem, e da mudança espacial que é observada durante o deslocamento. O feedback pode ser considerado como a informação sobre a diferença entre o que o aluno pretende fazer e o que ele fez. Deve-se considerar, com certa relevância, quanto ao ensino de HMs de uma arte marcial que, apesar do feedback intrínseco ser uma informação disponível ao aluno, ele pode mostrar limitada competência de captá-la e, consequentemente a não utilizar, principalmente na primeira fase de aprendizagem definida por Fitts e Posner (1967). Assim, a intervenção do professor torna-se essencial para que o aluno possa realizar as devidas correções. Ou seja, sugere-se que o professor forneça feedback extrínseco numa frequência relativamente moderada, como por exemplo, a cada duas ou três execuções. Isso possibilita que o aluno desenvolva a capacidade de percepção do feedback intrínseco e sua associação com o feedback extrínseco (TANI; CORREA, 2016). Já durante a prática para o alcance da meta de médio prazo, que corresponde à segunda fase de aprendizagem (associativa), a quantidade de feedback pode ser menor e mais espaçada entre as 76 S U M Á R I O execuções. E, por fim, na fase autônoma, no caso a terceira fase, a quantidade e o momento de fornecimento de feedback podem ser definidos pelas necessidades estabelecidas pelo próprio aluno, ou seja, feedback autocontrolado (TANI; CORREA, 2016). Dentre as formas de feedback, pode-se destacar o conhecimento de resultados, que se refere a informação sobre o alcance ou não da meta da habilidade, e o conhecimento de performance, que diz respeito a informação relativa ao padrão de movimento. Desse modo, a maior parte das informações relevantes para o aprendiz se refere ao padrão de movimento, seja o de referência ou o executado. Nesse sentido, tanto o fornecimento de instrução quanto o de feedback extrínseco devem considerar essa necessidade. No judô, pode-se dizer que a maioria dos golpes utilizada nesta arte marcial implica a execução de movimentos rápidos em que o uso do feedback é limitado, ou seja, habilidades de circuito aberto, logo, a utilização do feedback pode acontecer somente após a execução do golpe, isto é, entre as tentativas. Dessa forma, especialmente considerando a facilidade de acesso à filmagem dos movimentos existentes atualmente, esta associação entre feedback visual e feedback verbal pode representar uma forma de reduzir a quantidade de prática necessária para a aprendizagem de um kata ou um golpe, ou mesmo uma forma eficiente de permitir que o aprendiz identifique posturas e os movimentos executados erroneamente. Os estudos afirmam que a utilização do feedback extrínseco durante os treinos pode melhorar as adaptações do treinamento (QUINZI et al, 2013, WEAKLEY et al, 2019, NAGATA et al, 2018), assim como aumentando as capacidades de detecção e correção de erros (GORMAN; WILLMOTT; MULLINEAUX, 2019) e melhorar o equilíbrio dinâmico em caratecas (VANDO et al, 2014) e em judocas (MASZCZYK et al, 2018). 77 S U M Á R I O O conhecimento do resultado e sua função no aprendizado motor O conhecimento dos resultados (CR) é importante para a aprendizagem de uma HM. Esta importância pode ser identificada nas três funções principais que o CR tem na aprendizagem, a saber: uma fonte de informação para auxiliar o aprendiz na escolha da sua resposta para a próxima tentativa; funciona como um reforço, quando a tentativa de prática está total ou parcialmente correta, quando o aprendiz recebe este tipo de informação, o CR serve para reforçar a resposta correta; e o CR é um meio de motivação. Isto pode ser notado em uma situação de estabelecer objetivos, na qual o CR serve como informação ao aprendiz sobre como está progredindo em relação ao objetivo de desempenho estabelecido, por exemplo, no processo de aprendizado de posturas ou golpes (SCHMIDT; LEE, 2016). Estas três funções muitas vezes se sobrepõem. O ponto importante a apreciar em cada uma destas situações é que a responsabilidade em proporcionar a informação de resposta, o CR, está inteiramente com professor (MAGILL, 1984, SCHMIDT; LEE, 2016). AQUISIÇÃO, RETENÇÃO E TRANSFERÊNCIA DE HABILIDADE Aquisição de habilidade De modo simples e direto; o fator mais importante que possibilita à aquisição de HMs é a prática. Contudo, essa prática é também, por muitas vezes, mal utilizada e compreendida no contexto da aprendizagem motora (SCHMIDT; LEE, 2016). 78 S U M Á R I O Entende-se que, quanto mais prática maior a produção de aprendizagem, porém, a quantidade de tempo de prática não é a única preocupação aqui, e nem todos os métodos de prática são iguais em seus impactos sobre a aprendizagem (SCHMIDT; LEE, 2016). A repetição é necessária para uma prática bem sucedida, porém, essa repetição deve ser orientada e controlada, tendo início, meio e fim, além de objetivos específicos e intencionalidade pedagógica (BATISTA, 2004). De modo importante, no entanto, os componentes do sistema de processamento tornam-se mais eficientes com a aprendizagem. Pode-se entender que a aprendizagem mais efetiva ocorre quando uma repetição ativa tantos componentes individuais do sistema quanto possível (SCHMIDT; LEE, 2016). Retenção de habilidade Aqui se trata do “destino” de HMs, após um período de tempo durante o qual nenhuma outra prática é adotada e pode ocorrer esquecimento. Esse intervalo de tempo é conhecido como “intervalo de retenção”, sendo a ausência de prática frequentemente prejudicial para a performance de habilidosos (SCHMIDT; LEE, 2016). Transferência de habilidade A transferência, também conhecida como generalização, é um propósito importante da prática. Refere-se à ideia de que a aprendizagem adquirida durante a prática de uma determinada tarefa pode ser aplicada a, ou transferida para outras situações desejadas. Um professor não pode estar satisfeito se os alunos conseguem executar apenas as variações de tarefas que eles praticaram de modo específico. O professor deve almejar que os alunos sejam capazes de 79 S U M Á R I O generalizar a aprendizagem específica para as muitas novas variações que eles possivelmente enfrentarão em outras situações. Pode-se exemplificar com o rolamento para frente: no caso, um indivíduo que realizou ginástica olímpica por muito tempo saiba realizar essa HME, quando inserido no contexto do judô, mesmo que o rolamento anterior não seja idêntico do ponto de vista da HME, porém, são semelhantes em relação a HMF rolamento. Ou seja, as características fundamentadas dos dois rolamentos são semelhantes, o que difere são os elementos específicos de cada modalidade. Porém, a preocupação do professor está voltada para a organização da prática e como fazer com que esta organização possa maximizar a generalização (MAGILL, 1984, SCHMIDT; LEE, 2016), para tornar a transferência mais eficiente. A transferência é definida como o ganho ou perda da capacidade de executar uma tarefa como resultado da prática ou experiência em outra tarefa. A transferência é tarefa positiva (TP) se melhora a performance em uma outra habilidade; negativa (TN) no caso de degradação da tarefa, e zero (TZ) quando não proporciona qualquer efeito. No que tange a TP, pode-se fazer uso do exemplo citado anteriormentedo rolamento para frente; na TN pode ser representada pelo chute giratório da capoeira e o muay thai, pois, apesar da ocorrência do giro, a postura corporal é bem diferente. E no TZ, como exemplo, tem-se o chute do futebol comparado ao chute semicircular no taekwondo, apesar de serem chutes, um tende a não interferir no outro. No entanto, várias questões que envolvem a transferência, assim como, muitos elementos interferem para maximizar a transferência ajustando os métodos de ensino e estilos (SCHMIDT; LEE, 2016), ou seja, a transferência pode estar atrelada as HMFs de 80 S U M Á R I O cada HME, a complexidade da tarefa, partes específicas desta HME e a sequência da HM. De acordo com Januário et al (2016), as organizações de prática que forneceram menor variabilidade conduziram ao aprendizado da conduta motora, enquanto que as que forneceram maior variabilidade resultaram na melhora da capacidade de definir os parâmetros necessários. Segundo Nhamussua et al (2012), os participantes com nível superior de habilidade apresentaram melhor desempenho no teste de transferência imediato, e a ausência de diferenças significativas no teste de transferência retardado sugere que o efeito da interferência contextual pode ser temporário. A PRÁTICA NO ENSINO DAS TAREFAS MOTORAS NAS LUTAS Classificação das HMs e TMs A classificação das HMs tem fortes implicações na estratégia de ensino a ser utilizada. Tratando-se das HMs do judô, estas são classificadas como abertas em razão da sua natureza motora, contudo, ainda se vê o ensino dos golpes como se fossem HMs fechadas. Um exemplo disso é o uchi-komi parado, no qual o ensino tem como embasamento dois argumentos principais: reduzir o nível de dificuldade da tarefa para os alunos, viabilizando a sua execução, e promover a automatização do golpe por meio da repetição mecânica de movimentos. Independentemente dos argumentos, é indiscutível que as características inerentes da tarefa estão sendo sacrificadas, ou seja, 81 S U M Á R I O a aquisição de HMs está ocorrendo sem relação com a especificidade da luta; isto pode resultar no desenvolvimento da capacidade de executar o golpe com perfeição do ponto de vista mecânico, mas não de sua utilização eficiente numa luta (TANI; CORREA, 2016). Outro exemplo é a característica seriada das HMs do judô, a qual não é considerada quando um golpe está sendo ensinado do modo em partes. A característica seriada tem como elemento essencial a interação entre os componentes da HM, de modo que não se trata simplesmente da execução dos componentes em sequência, como se a soma das partes resultasse no todo. O uso do ensino fracionado da habilidade se justifica pelo fato de reduzir a dificuldade da tarefa para o aprendiz e, assim, viabilizar a sua execução. Além disso, o ensino em partes possibilita corrigir elementos e ou fundamentos específicos de uma conduta motora, ou que fazem parte de uma sequência específica. Os professores e técnicos esportivos se deparam com alguns questionamentos durante a sua prática. Um deles está relacionado com o modo que uma habilidade motora será ensinada. Quais as estratégias a serem utilizadas e o tempo dedicado? Outro questionamento pertinente diz respeito a melhor alternativa para um aprendiz praticar a HM. Dentre as possibilidades, o treinamento pode ser realizado como um todo ou em partes (MAGILL, 1984). Segundo MAGILL (2000), praticar uma habilidade como um todo ajuda a sentir melhor o fluxo contínuo, o ritmo da tarefa e o timing de todos os componentes dos movimentos da conduta motora. A prática em partes tende a reduzir a complexidade da habilidade e permite que o executante reforce o desempenho de cada parte corretamente antes de desenvolver a prática como um todo. No que se refere ao ensino–aprendizagem de uma habilidade, a prática em partes, como foi anteriormente aludido, tem como característica a exercitação específica de uma fase importante do 82 S U M Á R I O movimento que ainda não está bem desenvolvida. Por meio dela, podem-se determinar quais das partes que compõem uma habilidade devem ser praticadas separadamente. O que norteia a escolha da prática em partes é o nível de complexidade da habilidade; ou seja, quando se tem uma habilidade muito complexa, no que se refere a sua execução motora, observa-se a necessidade de trabalhar cada parte por vez, até conseguir praticar como um todo, possibilitando o aprimoramento da habilidade motora em cada fase do movimento (MAGILL, 2000). Cabe ao Professor selecionar as ferramentas e as estratégias para aperfeiçoar as habilidades em cada fase do movimento. Acredita-se que a AM é bem específica, ou seja, a especificidade de aprendizagem representa que tudo o que foi aprendido e depende em grande parte da prática. Como por exemplo, no caso de um atleta de BJJ que deseja um bom rendimento no dia da luta. O indivíduo deve treinar nas condições mais próximas da realidade da competição, ou seja, com o clima e temperatura do evento, e longe dos seus torcedores. Treinar em um ambiente ou espaço de trabalho em particular com frequência leva a uma performance melhor, principalmente, às vezes apenas, nesse espaço de trabalho, em comparação com um outro de trabalho diferente ou alterado (MAGILL, 1984). Outro achado importante é que o feedback sensorial, como por exemplo, visual, auditivo, tátil resultante da performance durante tipos ou locais específicos de prática torna-se parte da representação aprendida para a habilidade, de tal modo que a performance posterior é mais hábil quando essa mesma informação sensorial está disponível, em comparação com as situações em que um ou mais desses canais de feedback são alterados. Assim, enquanto um importante objetivo da prática é facilitar a transferência, isto é, melhoria da performance para situações ou contextos não praticados, é importante reconhecer 83 S U M Á R I O que a especificidade da aprendizagem é a característica dominante (MAGILL, 1984; WEINECK, 2003; SCHMIDT; LEE, 2016). Fatores que afetam a aquisição de HM De acordo com Gomes et al. (2002) ao investigarem a especificidade de prática na aquisição do golpe osoto gari, comparando a prática tradicional ou estática (GE) com a prática em movimento (GM), identificaram que o GM apresentou superioridade em relação ao GE nos testes de retenção e nos dois testes de transferência. Os autores concluíram que aprender o osoto gari num contexto mais dinâmico é mais eficiente, o que vai ao encontro da hipótese de especificidade de prática (WEINECK, 2003), que indica como importante a aprendizagem das HMs de luta serem realizadas em situações específicas, mais próximas da realidade. Em uma HM, entende-se por complexidade o número de componentes ou de partes de uma habilidade e, por organização, a interação entre as partes. Singer (1980) afirma que, quando a complexidade é alta e a organização é baixa, seria mais eficaz a prática por partes; em contrapartida, quando a organização é alta e a complexidade baixa, é indicada a prática do todo. De acordo com Magill (2000), deve haver habilidades que estejam em estágios intermediários entre as proposições de Singer (1980), em que a combinação dos dois tipos de prática pode ser mais eficiente. Organização da prática na aprendizagem Classificações podem auxiliar a identificar demandas das HMs, ou de partes dessas habilidades. Num exemplo mais específico, 84 S U M Á R I O as classificações podem auxiliar a pensar em possibilidades de organização da prática para uma maior eficiência. Reduzir a quantidade de tempo para a aprendizagem de uma HM ou melhorar a adaptabilidade e ou permanência de sua representação mental estão entre as principais questões referentes à aprendizagem de habilidades (TANI; CORREA, 2016). No que tange as categorias de movimento, quando há o fracionamento de um golpe, o professor pode identificar tanto as HMFs quanto as categorias envolvidas - por exemplono judô, a grande maioria dos golpes envolvem HMFs como pegar, puxar, empurrar, andar, contorcer o corpo e flexionar o tronco. Essas HMs enquadram- se nas categorias de manipulação, equilíbrio e locomoção, sendo esta última em sua minoria. Portanto, para o ensino de determinadas TMs do judô, seria interessante focar nessas categorias de movimento, respeitando a especificidade das TMs. Evidências indicam que o foco externo de atenção beneficia o controle das HMs quando o executante está num estágio de aprendizagem avançado. Os benefícios do foco externo estariam relacionados à ausência de interferência consciente em mecanismos de controle motor que seriam automáticos (TANI; CORREA, 2016). Essa hipótese prevê que, quando a atenção é focada nos movimentos corporais, ou nos efeitos que ocorrem próximos ao corpo, um executante tenderia a intervir mais ativamente no controle dos movimentos do que faria caso estivesse focando a atenção num efeito mais distante. A tentativa de controlar ativamente os movimentos imporia uma restrição ao sistema motor, interferindo em processos de controle automáticos, que normalmente seriam responsáveis por regular o movimento. A hipótese prevê que o controle seria mais efetivo caso o executante colocasse seu foco de atenção no efeito que o movimento tem no ambiente, permitindo que o sistema motor 85 S U M Á R I O se organizasse “naturalmente”: sem as restrições impostas pelo controle consciente. De acordo com WULF et al (2010) e Sá et al (2013) o foco de atenção externo afeta positivamente sobre o desempenho e aprendizagem de habilidades motoras. O foco interno-externo também contribui para um desempenho mais consistente (SILVA et al, 2013). CONSIDERAÇÕES FINAIS Quando o professor considera os princípios básicos da AM e do DM no processo de ensino-aprendizagem possibilita a elaboração de um programa de treinamento mais específico, com intencionalidade pedagógica e respeitando as características inerentes do aluno, assim como as HMs e TMs pertinentes as artes marciais, corroborando com o desenvolvimento pleno do aluno. REFERÊNCIAS AFONSO, José; GARGANTA, Júlio; MESQUITA, Isabel. A tomada de decisão no desporto: o papel da atenção, da antecipação e da memória. Revista Brasileira de Cineantropometria & Desempenho Humano, v. 14, n. 5, p. 592-601, 2012. BATISTA, Luís Alberto. Aplicabilidade da biomecânica no ensino de habilidades motoras esportivas. Ação e Movimento, v.1, n.4, p.211-224, 2004. BOYCE, B. Ann; COKER, Cheryl A.; BUNKER, Linda K. Implications for variability of practice from pedagogy and motor learning perspectives: finding a common ground. Quest, v. 58, n. 3, p. 330-343, 2006. 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PARECERISTAS E REVISORES(AS) POR PARES Avaliadores e avaliadoras Ad-Hoc Adaylson Wagner Sousa de Vasconcelos Universidade Federal da Paraíba, Brasil Adilson Cristiano Habowski Universidade La Salle - Canoas, Brasil Adriana Flavia Neu Universidade Federal de Santa Maria, Brasil Aguimario Pimentel Silva Instituto Federal de Alagoas, Brasil Alessandra Dale Giacomin Terra Universidade Federal Fluminense, Brasil Alessandra Figueiró Thornton Universidade Luterana do Brasil, Brasil Alessandro Pinto Ribeiro Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Brasil Alexandre João Appio Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Brasil Aline Corso Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Brasil Aline Marques Marino Centro Universitário Salesiano de São Paulo, Brasil Aline Patricia Campos de Tolentino Lima Centro Universitário Moura Lacerda, Brasil Ana Emidia Sousa Rocha Universidade do Estado da Bahia, Brasil Ana Iara Silva Deus Universidade de Passo Fundo, Brasil Ana Julia Bonzanini Bernardi Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil Ana Rosa Gonçalves De Paula Guimarães Universidade Federal de Uberlândia, Brasil André Gobbo Universidade Federal da Paraíba, Brasil Andressa Antonio de Oliveira Universidade Federal do Espírito Santo, Brasil Andressa Wiebusch Universidade Federal de Santa Maria, Brasil Angela Maria Farah Universidade de São Paulo, Brasil Anísio Batista Pereira Universidade Federal de Uberlândia, Brasil Anne Karynne da Silva Barbosa Universidade Federal do Maranhão, Brasil Antônia de Jesus Alves dos Santos Universidade Federal da Bahia, Brasil Antonio Edson Alves da Silva Universidade Estadual do Ceará, Brasil Ariane Maria Peronio Maria Fortes Universidade de Passo Fundo, Brasil Ary Albuquerque Cavalcanti Junior Universidade do Estado da Bahia, Brasil Bianca Gabriely Ferreira Silva Universidade Federal de Pernambuco, Brasil Bianka de Abreu Severo Universidade Federal de Santa Maria, Brasil Bruna Carolina de Lima Siqueira dos Santos Universidade do Vale do Itajaí, Brasil Bruna Donato Reche Universidade Estadual de Londrina, Brasil Bruno Rafael Silva Nogueira Barbosa Universidade Federal da Paraíba, Brasil Camila Amaral Pereira Universidade Estadual de Campinas, Brasil Carlos Eduardo Damian Leite Universidade de São Paulo, Brasil Carlos Jordan Lapa Alves Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Brasil Carolina Fontana da Silva Universidade Federal de Santa Maria, Brasil Carolina Fragoso Gonçalves Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Brasil Cássio Michel dos Santos Camargo Universidade Federal do Rio Grande do Sul-Faced, Brasil Cecília Machado Henriques Universidade Federal de Santa Maria, Brasil Cíntia Moralles Camillo Universidade Federal de Santa Maria, Brasil Claudia Dourado de Salces Universidade Estadual de Campinas, Brasil Cleonice de Fátima Martins Universidade Estadual de Ponta Grossa, Brasil Cristiane Silva Fontes Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil Cristiano das Neves Vilela Universidade Federal de Sergipe, Brasil Daniele Cristine Rodrigues Universidade de São Paulo, Brasil Daniella de Jesus Lima Universidade Tiradentes, Brasil Dayara Rosa Silva Vieira Universidade Federal de Goiás, Brasil Dayse Rodrigues dos Santos Universidade Federal de Goiás, Brasil Dayse Sampaio Lopes Borges Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Brasil Deborah Susane Sampaio Sousa Lima Universidade Tuiuti do Paraná, Brasil Diego Pizarro Instituto Federal de Brasília, Brasil Diogo Luiz Lima Augusto Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Brasil Ederson Silveira Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil Elaine Santana de Souza Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Brasil Eleonora das Neves Simões Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil Elias Theodoro Mateus Universidade Federal de Ouro Preto, Brasil Elisiene Borges Leal Universidade Federal do Piauí, Brasil Elizabete de Paula Pacheco Universidade Federal de Uberlândia, Brasil Elizânia Sousa do Nascimento Universidade Federal do Piauí, Brasil Elton Simomukay Universidade Estadual de Ponta Grossa, Brasil Elvira Rodrigues de Santana Universidade Federal da Bahia, Brasil Emanuella Silveira Vasconcelos Universidade Estadual de Roraima, Brasil Érika Catarina de Melo Alves Universidade Federal da Paraíba, Brasil Everton Boff Universidade Federal de Santa Maria, Brasil Fabiana Aparecida Vilaça Universidade Cruzeiro do Sul, Brasil Fabiano Antonio Melo Universidade Nova de Lisboa, Portugal Fabrícia Lopes Pinheiro Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Fabrício Nascimento da Cruz Universidade Federal da Bahia, Brasil Francisco Geová Goveia Silva Júnior Universidade Potiguar, Brasil Francisco Isaac Dantas de Oliveira Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Brasil Francisco Jeimes de Oliveira Paiva Universidade Estadual do Ceará, Brasil Gabriella Eldereti Machado Universidade Federal de Santa Maria, Brasil Gean Breda Queiros Universidade Federal do Espírito Santo, Brasil Germano Ehlert Pollnow Universidade Federal de Pelotas, Brasil Glaucio Martins da Silva Bandeira Universidade Federal Fluminense, Brasil Graciele Martins Lourenço Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil Handherson Leyltton Costa Damasceno Universidade Federal da Bahia, Brasil Helena Azevedo Paulo de Almeida Universidade Federal de Ouro Preto, Brasil Heliton Diego Lau Universidade Estadual de Ponta Grossa, Brasil Hendy Barbosa Santos Faculdade de Artes do Paraná, Brasil Inara Antunes Vieira Willerding Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil Ivan Farias Barreto Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Brasil Jacqueline de Castro Rimá Universidade Federal da Paraíba, Brasil Jeane Carla Oliveira de Melo Universidade Federal do Maranhão, Brasil João Eudes Portela de Sousa Universidade Tuiuti do Paraná, Brasil João Henriques de Sousa Junior Universidade Federal de Pernambuco, Brasil Joelson Alves Onofre Universidade Estadual de Santa Cruz, Brasil Juliana da Silva Paiva Universidade Federal da Paraíba, Brasil Junior César Ferreira de Castro Universidade Federal de Goiás, Brasil Lais Braga Costa Universidade de Cruz Alta, Brasil Leia Mayer Eyng Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil Manoel Augusto Polastreli Barbosa Universidade Federal do Espírito Santo, Brasil Marcio Bernardino Sirino Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Marcos dos Reis Batista Universidade Federal do Pará, Brasil Maria Edith Maroca de Avelar Rivelli de Oliveira Universidade Federal de Ouro Preto, Brasil Michele de Oliveira Sampaio Universidade Federal do Espírito Santo, Brasil Miriam Leite Farias Universidade Federal de Pernambuco, Brasil Natália de Borba Pugens Universidade La Salle, Brasil Patricia Flavia Mota Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Raick de Jesus Souza Fundação Oswaldo Cruz, Brasil Railson Pereira Souza Universidade Federal do Piauí, Brasil Rogério Rauber Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho,an external focus. Human movement science, v. 29, n. 3, p. 440-448, 2010. LEARNING AND MOTOR DEVELOPMENT IN TEACHING FIGHTS Abstract This chapter aims to present the fundamental aspects of motor learning (AM) and motor development (DM), with regard to the production, control and education of movements inherent to martial arts. Both AM and DM are important areas of knowledge in the teaching-learning process of HM, in this chapter it will be treated about the basic concepts and factors that affect AM and DM, leading to the understanding of the human movement, where it will be addressed on motor skills and techniques. It will also be addressed on information processing, decision making, feedback, memory and attention in the teaching of struggles; as well as knowledge of the result and its role in motor learning; and the importance of practice in teaching motor tasks in fights. Thus, this work can contribute to the understanding of the aspects related to the execution of the movements in the perspective of the mentioned areas, enabling the elaboration of efficient strategies that guarantee the success of the teaching-learning process of the motor skills and techniques inherent to the practice of martial arts. Capítulo 3 TREINAMENTO E APERFEIÇOAMENTO DAS CAPACIDADES FÍSICAS E MOTORAS APLICADAS Sidnei Jorge Fonseca Junior DOI: 10.31560/pimentacultural/2021.601.89-123 3 Sidnei Jorge Fonseca Junior TREINAMENTO E APERFEIÇOAMENTO DAS CAPACIDADES FÍSICAS E MOTORAS APLICADAS 90 S U M Á R I O INTRODUÇÃO A ciência do treinamento desportivo envolve diretamente as capacidades físicas. Todo programa de treino, seja qual for a modalidade esportiva, tem o planejamento periodizado de acordo com a dominância de capacidades físicas que são decisivas para o sucesso do atleta (DANTAS, 2014). Em modalidades de lutas, é importante um cuidado maior, devido cada arte marcial ter características e regras diferentes, o que sugere dotação de capacidades físicas distintas no que tange ao alto rendimento. Diante da complexidade da temática, o presente texto pretende refletir, com bases científicas, o treinamento e aperfeiçoamento das capacidades físicas aplicadas às lutas. Schmidt e Wrisberg (2001) define capacidade como “traços estáveis e duradouros que, na sua maior parte, são geneticamente determinados e que embasam a performance habilidosa dos indivíduos.” Com base nos conceitos de Magill (2000), Schmidt e Wirisberg (2001) e Weineck (1999) entende-se por capacidade física, também chamadas de capacidades motoras ou, ainda, qualidades físicas, os traços herdados, estáveis e permanentes, necessários ou subjacentes, que embasam a execução e desempenho de habilidades motoras no cotidiano e na prática esportiva. Por mais que com muita prática se adquira habilidades motoras para a participação recreativa de um determinado desporto, estudos na área de desenvolvimento do talento esportivo se preocupam de maneira exacerbada com a identificação das capacidades físicas básicas essenciais em um desporto, pois no alto rendimento é necessário um conjunto de atributos necessários (SCHMIDT; WIRISBERG, 2001; SILVA-FILHO et al., 2016; CARON et al., 2017). O nível das capacidades físicas abaixo dos padrões pode limitar um indivíduo na prática esportiva. Em adendo, estudos com intuito de identificar 91 S U M Á R I O características das capacidades físicas em atletas de alto rendimento nas modalidades esportivas são comuns na literatura internacional, permitindo comparações em demais praticantes (NORJALI et al., 2019; CARON et al., 2017; FRANCHINI; TAKITO; KISS, 2000). Schmidt e Wirisberg (2001) cita que uma das primeiras descrições das capacidades físicas foi idealizada por Fleishman (1964), um dos principais defensores da necessidade de observar as capacidades físicas existentes na natureza do ser humano. Desta maneira, descreve um grupo de “capacidade perceptivo-motora”, formado pela coordenação multimembros, precisão de controle, orientação da resposta, tempo de reação, controle de velocidade, destreza manual, destreza de dedos, estabilidade braço-mão, velocidade punho-dedo e mirar; e outro grupo de “capacidades de proficiência física”, composto pela força explosiva, estática, dinâmica e de tronco, flexibilidade, flexibilidade dinâmica, equilíbrio amplo e com dicas visuais, velocidade de movimento de segmento, coordenação corporal ampla e estâmina (resistência). É comum na literatura, observar alguns autores dividindo as capacidades físicas ou motoras em condicionantes e coordenativas. Em geral, as capacidades condicionantes são dependentes do metabolismo energético. Weineck (1999) cita a força, velocidade, resistência e flexibilidade. As capacidades coordenativas envolvem a qualidade motora e fatores psicomotores provenientes de todo o sistema de transmissão do impulso nervoso, desde informações sensoriais e sua cognição até a contração muscular, gerando movimentos proporcionados por contrações musculares voluntárias, constituindo- se, portanto, na base para a aprendizagem, para a execução e para o domínio dos gestos técnicos (WEINECK, 1999). Reconhecendo que há diversas classificações na literatura, Dantas (2014) cita Tubino e Moreira (2003), descrevendo as “qualidades físicas” divididas em dois grupos: qualidades da forma 92 S U M Á R I O física, que são desenvolvidas com o treinamento; e as qualidades das habilidades motoras, que são inatas e que seriam aperfeiçoadas pelo treinamento. Seriam então a força (dinâmica, estática, e explosiva), a resistência (aeróbia, anaeróbia e muscular localizada) e a flexibilidade, as “qualidades de forma física”; a coordenação, a descontração (total e diferencial), a agilidade, a velocidade (reação e de movimento), e o equilíbrio (dinâmico, estático e recuperado), as “qualidades das habilidades motoras”. Entretanto, para que habilidades motoras específicas de uma luta sejam realizadas com sucesso, faz-se necessário a interação entre capacidades coordenativas e condicionantes. Logo, tal divisão é contestada a partir do raciocínio da importância da interação de ambas as capacidades para o total domínio e bom desempenho em ações motoras específicas nos desportos. Partindo desta premissa, Gomes (2009) sem dividir as capacidades físicas, descreve a seguinte divisão: resistência, força, velocidade, flexibilidade e coordenação. AS LUTAS E SUAS CAPACIDADES FÍSICAS Seguindo a idealização da necessidade de conhecer a modalidade de luta para compreender as capacidades físicas específicas, em um estudo com praticantes de Brazilian Jiu-Jitsu de diferentes níveis de experiência, Brasil et al. (2015) observaram, baseados em especialistas, que a flexibilidade, força geral, resistência muscular localizada e aeróbia e o equilíbrio são necessários para o alto rendimento. Este estudo demonstrou que praticantes mais experientes tinham melhor equilíbrio. Em complemento, em outro estudo com atletas experientes de Brazilian Jiu-Jitsu, Del Vecchio et al. (2007) observaram a necessidade 93 S U M Á R I O de alta potência anaeróbia, com alto pico de lactato sanguíneo e frequência cardíaca durante o combate, sugerindo atenção à resistência anaeróbia. Tais parâmetros fisiológicos aumentaram em decorrência de ações motoras típicas da luta em pé e no solo, com fins de projeção do adversário ao solo, dominá-lo com técnicas específicas que se baseiam em posições e alavancas biomecânicas, buscando a desistência do adversário utilizando chaves e estrangulamentos, ou um maior número de pontos. Para a eficiência e eficácia durante a luta, além das capacidades coordenativas necessárias para as ações motoras que fazem parte do Brazilian Jiu-Jitsu, as capacidades consideradas condicionantes para o sucesso devem estar aliadas. Em adendo, faz-se necessário observar que outras lutas necessitam de ênfase em outras capacidades físicas, para compreensão do treinamento e aperfeiçoamento em diferentesartes marciais. Como já foi abordado, por mais que uma modalidade esportiva de combate tenha proximidades com outra, uma simples alteração nas regras do desporto precisa ser considerada para maior eficiência no treinamento. Uma modalidade esportiva de combate que desperta interesse por suas inovações e evolução nas regras são as artes marciais mistas (Mixed Martial Arts - MMA). Mudanças nesse esporte após 2001 fizeram que deixasse de ser um encontro de lutadores de artes marciais distintas para uma categoria de combate em que o atleta de alto rendimento precisa ser bom o suficiente em diferentes técnicas, necessárias para o combate no solo e em pé. Atualmente, uma seleção de técnicas contundentes de modalidades como judô, jiu-jitsu, wrestling, boxe, muaythai e caratê são utilizadas na formação de um atleta de MMA. Todavia, estudos científicos ainda são necessários para uma melhor compreensão das capacidades físicas que merecem atenção especial da equipe de fisiologistas e preparadores físicos, principalmente no que se refere ao sexo feminino. 94 S U M Á R I O Em uma revisão sistemática da literatura publicada com objetivo de analisar o conhecimento existente a respeito das características antropométricas e fisiológicas de atletas de MMA, Spanias et al. (2019) resume uma visão inicial para a modalidade no sexo masculino, pois para o feminino, estudos científicos não haviam sido encontrados. Desta maneira, como limitação, os estudos apresentaram métodos diferentes de avaliação das capacidades físicas, além de poucos atletas como amostra. Foi observada nos estudos selecionados a resistência cardiorrespiratória compatível com lutadores de outras modalidades de combate, exceto em um dos estudos investigados, que foi desenvolvido com atletas de nível internacional e apresentou maior média; foi apresentado, ainda, outras características dos lutadores, como alto nível de flexibilidade, força muscular, resistência muscular e potência anaeróbia; importante colocar que a massa corporal foi alta devido a hipertrofia muscular e baixa quantidade de gordura corporal. Os dados apresentados pelos estudos da revisão de literatura citada auxiliam a equipe técnica a avaliar seus atletas. Mas vale considerar que o MMA ainda é novo para as ciências do esporte, mesmo considerando a quantidade de atletas envolvidos e quantidades de eventos pelo mundo. CONCEITOS, TREINAMENTO E APERFEIÇOAMENTO DAS CAPACIDADES FÍSICAS Os conceitos de capacidades físicas são importantes para diferenciá-las e aprender suas subdivisões. Faz-se necessário, ainda, a compreensão de sua aplicação no treinamento, pois em um processo de periodização algumas são trabalhadas durante todo o processo de treino, outras formam a base do treinamento para, em fases posteriores, 95 S U M Á R I O específicas e competitivas, outras capacidades físicas, fundamentais para o sucesso esportivo, sejam priorizadas. Ademais, assim como Gomes (2009), Bompa (2001) descreve as relações existentes entre as capacidades físicas. Nesse contexto, a força, velocidade e resistência são cruciais para um desempenho de excelência; a combinação entre a força e a resistência, cria a resistência muscular; potência resulta da integração da força máxima e da velocidade; a combinação entre a resistência e a velocidade é chamada de resistência de velocidade; a agilidade é o resultado da complexa combinação entre as capacidades físicas velocidade, coordenação, flexibilidade e força; e quando a agilidade e a flexibilidade se unem, o resultado é a mobilidade. Dantas (2014) destaca a importância de o técnico ter conhecimento atualizado do esporte para apresentar o “estado da arte” para os demais membros da comissão técnica, pois será necessária a identificação das capacidades físicas dominantes durante o combate e em segmentos corporais que se manifestam, conforme já debatido. Modelos de scout e filmagens são importantes. Estratégias devem ser tomadas de acordo com as regras da competição e os principais adversários. CAPACIDADES FÍSICAS COORDENATIVAS (HABILIDADES MOTORAS) As capacidades coordenativas, no âmbito esportivo, fazem parte da preparação técnica do atleta, ou seja, incluem a capacidade de coordenar habilidades motoras específicas para cada modalidade de arte marcial, envolvendo, ainda, um conjunto de fatores psicomotores necessários para uma ação eficiente, ou, até mesmo, eficaz. Dantas 96 S U M Á R I O (2014) define coordenação motora como “capacidade de realizar movimentos de modo ótimo, com o máximo de eficácia e economia de esforços”. Entretanto, coloca a coordenação motora como uma das “qualidades físicas” que fazem parte da preparação técnica. Gomes (2009) define como a capacidade de dirigir os movimentos de acordo com as soluções das tarefas motoras, citando que as capacidades de coordenação são diversificadas e representam as tarefas motoras que o homem deve desenvolver. Destaca, ainda, a importância de estímulos adequados nas fases da infância, de acordo com o desenvolvimento do sistema neuromotor, além de ser responsável, como já citado, pela eficiência de outras capacidades físicas. A formação de uma ampla memória motora na fase motora fundamental proporciona maiores facilidades na fase de especialização, que se inicia segundo Gallahue e Ozmun (2005) após os sete anos de idade. Tubino e Moreira (2003, p.98) definem preparação técnica como “o treinamento dos fundamentos técnicos individuais, acrescidos de sequências ensaiadas, tudo com o sentido de enfrentar a competição com recursos técnicos suficientes para o alcance do êxito nos objetivos formulados”. Em esportes de combate, a quantidade de recursos técnicos de um atleta pode ser um fator decisivo em confrontos equilibrados. O estudo de Franchini et al. (2008) analisou judocas em campeonatos mundiais e jogos olímpicos entre 1995-2001, observando um repertório maior de técnicas utilizadas com sucesso em atletas que obtiveram destaque nas competições. Desta maneira, Paiva (2009) cita Matveev (1997), que destaca três propósitos básicos para a preparação técnica: (I) maior conhecimento teórico possível da modalidade em treinamento; (II) ampliação das destrezas e hábitos motores favoráveis para o aperfeiçoamento da modalidade treinada; (III) aperfeiçoar gestos esportivos específicos da modalidade treinada. 97 S U M Á R I O Vale ressaltar que em todo processo de ensino de novas habilidades motoras esportivas, o indivíduo inicia em um estágio cognitivo, passando pelo estágio associativo e, por último, o autônomo. Atletas com compreensão da luta e maiores experiências assimilam mais rapidamente e alcançam a fase autônoma em menor tempo, após iniciar a prática de um novo gesto motor. A fase autônoma caracteriza- se pela capacidade de produzir as ações com pouca ou nenhuma atenção, devido ao desenvolvimento dos seus programas motores, a tal nível que podem controlar suas ações por um longo período de tempo (SCHMIDT; WIRISBERG, 2001). Aplicado às lutas, significa a possibilidade de execução de uma sequência de golpes, previamente trabalhada em um treino, em uma situação específica da luta, sem a necessidade do processo de cognição. Ademais, a neurociência vem colaborando com a aprendizagem e aperfeiçoamento de novas técnicas. Com respeito à hemisfericidade, acredita-se que o hemisfério esquerdo é mais utilizado nos estágios iniciais de aprendizagem motora (cognitivo, também chamado de verbal-cognitivo), pois é mais utilizado no trabalho intelectual, racional, verbal e analítico. Existe uma maior proporção de atletas com dominância hemisférica direita em relação ao contexto populacional. Atletas com hemisfério direito dominando o processamento mental são aptos para tarefas motrizes, informações não verbais, percepção espacial e processamento holístico, parecendo ter maior capacidade de solução de problemas, principalmente espaciais-temporais, em situações novas (FERRAZ, et al., 2009).Desta maneira, a definição do método de ensino/treino adequado de novas técnicas também deve ser discutida e estar de acordo com o momento da aprendizagem. Os métodos de ensino situacional têm sido citados como importante para a tomada de decisão e criatividade em situações complexas, pois trabalha com a interação da técnica e da tática, favorece novas conexões nervosas e aumento da 98 S U M Á R I O neuroplasticidade e a aplicação de habilidades motoras com eficácia (GOMES, 2008; MENEZES; MARQUES; NUNOMURA, 2014). Logo, situações de luta, que proporcionem variações de tomadas de decisão, ofensivas e defensivas, a respeito de uma especificidade da modalidade, muitas vezes em função das características do adversário, são importantes para a preparação do atleta. Engramas motores ocorrem com o mínimo de 9 dias de treinos, devendo ser evitado o excesso de repetições e valorizar atividades recreativas que favoreçam a repetição do gesto motor, trazendo mais motivação para o treino (GOMES,2008; MENEZES; MARQUES; NUNOMURA, 2014; WEINECK, 1999). Complementando as estratégias para o treinamento técnico, Weineck (1999) cita a importância do treinamento mental, principalmente por encurtar o tempo de aprendizagem, aumentar a estabilidade de uma habilidade motora, a precisão e a velocidade de execução de um movimento. Resistência aeróbia e anaeróbia A melhora de desempenho em capacidades físicas é relevante para o sucesso esportivo, incluindo lutadores. A literatura apresenta diferentes maneiras de treinar a resistência aeróbia. Entretanto, para cada modalidade de esportes de combate é importante a observação das características das regras e habilidades motoras desenvolvidas ao longo da luta. Em adendo, surge a necessidade de observar as demandas energéticas e fisiológicas para melhor determinar as características do treinamento. Para Dantas (2014), durante o exercício, a intensidade proporcionada é que determinará qual sistema de transferência energética contribuirá mais ou menos. Ou seja, em esforços leves (a escolher entre algumas ações eventuais, a mais eficiente na situação imposta pela disputa. Destaca-se a importância da concentração, orientação da atenção, como determinantes para a rapidez de reação (GOMES, 2009). A coordenação intramuscular, intermuscular e a automatização do movimento são importantes para o treino da velocidade. Do ponto de vista energético, os esforços de velocidade são principalmente anaeróbios aláticos, sendo importante o reestabelecimento das reservas de ATP-PCr e ação das enzimas. Assim, a predominância de fibras musculares de contração rápida, que serão discutidas mais adiante, é fundamental para atletas de modalidades de combate que necessitam de velocidade (GOMES, 2009; DANTAS, 2014). Somente descansado o sistema neuromuscular está em condições de realizar atividades com alta capacidade de reação e de ações máximas. O excesso de acidez na musculatura reduz a velocidade de contração por influenciar nas capacidades coordenativas. O treinamento da velocidade com fadiga leva o atleta a se acostumar com um estereótipo de movimento submáximo e, com isto, a qualidade do treino piora e a velocidade não é desenvolvida (WEINECK, 1999). Sabendo das relações entre a coordenação motora e a velocidade, uma alta frequência de movimentos somente pode ser alcançada com a alternância mais rápida entre a estimulação e inibição, havendo a importância de uma eficaz condução nervosa até a contração muscular e um emprego ótimo de força. A repetição de movimentos específicos, utilizando pequenas cargas (próximo de 15% da capacidade), como por exemplo, os elásticos ou halteres auxiliam no treino de velocidade (WEINECK, 1999). Em geral, é importante que a técnica de golpes ou sequência de golpes, já automatizados pelo 103 S U M Á R I O atleta, seja realizada em velocidade máxima, com posterior intervalo para recuperação da fadiga, durante o treinamento. Diversificar situações comuns das lutas é importante para o treino. Atividades para reagir a diferentes e excessivos golpes, provenientes de mais de um adversário, encurtamento de distância para golpes, encurtamento de distância para golpes e reagir rápido a lançamento de objetos em pequena distância são recursos utilizados no treinamento da rapidez de reação de lutadores. Força muscular As fibras musculares, em geral, são contraídas, após um impulso elétrico alcançar a placa motora. A fibra muscular pode continuar sendo ativada enquanto houver uma quantidade suficiente de acetilcolina ligada aos receptores da membrana pós-juncional, sendo possível a realização de contrações isométricas e concêntricas. A contração isométrica é caracterizada por ser realizada sem alteração do comprimento do músculo, devido à resistência ser igual à força máxima que o músculo gera. A contração isotônica caracteriza- se por não haver alteração na tensão máxima do músculo e ocorrer alteração do comprimento do músculo durante sua ação. Dependendo da força muscular aplicada e a resistência a ser vencida, as contrações isotônicas podem ser classificadas em contração isotônica concêntrica, quando há encurtamento dos sarcômeros do músculo agonista, devido a força ser maior que a resistência; e contração isotônica excêntrica, se a força exercida pelo músculo for menor que a resistência, ocorrendo o aumento do comprimento do sarcômero durante a contração. Existe ainda outro tipo de contração isotônica concêntrica, chamada de isocinética, que pode ocorrer em atividades de nado ou 104 S U M Á R I O em máquinas específicas utilizadas para treinamento e testes de força, sendo caracterizada pelo desenvolvimento de tensão máxima com um encurtamento simultâneo, em uma velocidade constante, durante uma faixa completa de movimento. É importante considerar que os sarcômeros são as menores unidades funcionais, ficando arranjado um em cima do outro na fibra muscular, com seu encurtamento acontecendo com o deslizamento de filamentos proteicos de actina junto a miosina, o que permite a contração muscular e produção de força (FLECK; KRAEMER, 1999). Na capacidade física força, a tipologia de fibra muscular também influencia nos resultados do treinamento. Embora seja relatadas na literatura novas subdivisões das fibras musculares, basicamente são divididas em três os tipos. As fibras do tipo I, oxidativas, vermelhas, de contrações lentas e estimuladas por um motoneurônio tônico, são altamente resistentes à fadiga e têm seu potencial de ATP reposto por meio de aerobiose. As fibras do tipo II, brancas e de contração rápida, são estimuladas por um motoneurôniofásico e se apresentam como “tipo IIA”, que tem características glicolíticas oxidativa, e “tipo IIB”, que são caracterizadas por um alto nível de atividade da miosina ATP e desenvolvem contrações vigorosas, sendo dependentes do sistema anaeróbio para ressíntese de ATP (DANTAS, 2014). Além das características supracitadas, as fibras tipo II, caracterizam-se por um padrão de inervação frequente e denso, que são fatores que levam adicionalmente a um maior desenvolvimento da força máxima. O seu treinamento leva a um aumento da secção transversal e considerável aumento da força máxima isométrica. Portanto, a contribuição dessa tipologia de força é maior para a capacidade física força do que as fibras tipo I (WEINECK, 1999). Características de predominância de tipos de fibras musculares são importantes no processo de desenvolvimento do atleta e, 105 S U M Á R I O encaminhamento do mesmo para uma categoria ideal ou modalidade de luta, se tratando do alto desempenho esportivo. Entretanto, com baixo custo financeiro e sem ser invasivo, somente por feeling, com avaliação das respostas do treino e resultados de testes motores, além de análise de características somatotípicas, é possível uma avaliação subjetiva da tipologia de fibra muscular. A dermatoglifia, ciência que investiga as impressões digitais e sua relação com o desempenho esportivo tem sido utilizada em modalidades esportivas, inclusive de lutas, em virtude das complexidades de realizar o exame de biópsia da fibra muscular, considerado padrão ouro (DEL VECCHIO; GONÇALVES; MOREIRA, 2011; GANIME; DANTAS; FERNANDES FILHO, 2006). Assim como na velocidade, a coordenação intra e inter muscular são importantes no desenvolvimento da força muscular. A unidade motora é formada por um neurônio alfa e todas as fibras que ele inerva. Segundo Bompa (2001), a inervação das fibras musculares determina o tipo delas. Uma unidade motora de fibras de contração rápida tem uma célula nervosa maior e inerva de 300 a 500 fibras a mais. Apenas as unidades motoras recrutadas em um exercício produzem força e a coordenação de recrutamento das unidades motoras é um dos fenômenos de adaptações do treinamento com exercícios físicos. Paiva (2015), considerando a importância de uma boa técnica e, também a necessidade de força e velocidade em golpes de percussão, realizou uma importante discussão sobre qual seria a capacidade física mais importante para a eficiência. Cita que a força de impacto de um soco, é proporcional à aceleração da mão e à massa efetiva de impacto (toda massa de um corpo utilizada no momento do impacto). No caso de um soco, a massa efetiva pode variar desde a massa da mão sozinha como a soma das massas da mão, do antebraço, braço e até de parte do tronco. Descreve estudos em que lutadores mais experientes conseguem alcançar maior potência de golpes devido à melhor coordenação de velocidade de ombros e mãos, alcançando 106 S U M Á R I O maior impacto dos golpes que o grupo controle. Em suma, para alcançar a melhor potência de golpes, atletas devem atingir e manter excelência técnica enquanto treinam a parte física para melhorar a potência muscular. A potência muscular ou força explosiva consiste na habilidade de produzir força máxima, na maior velocidade possível. Segundo Fleck e Kraemer (1991) os aumentos da chamada força explosiva ocorrem quando os exercíciosdo ciclo estende-flexiona são usados ou quando cargas mais leves (30% até 60% de 1 repetição máxima-RM) são usadas em exercícios do tipo arranques e puxadas, onde é ativado um mínimo de inibição ou de facilitação antagonista. Os demais tipos de força também são manifestadas em modalidades de combates. A força geral se caracteriza como manifestação globalizada da força, independente da modalidade esportiva. A força específica se limita aos gestos do esporte. A capacidade do atleta em executar contração máxima ou de erguer a carga mais pesada em uma repetição máxima, é definida como força máxima. Segundo Melo et al. (2017) uma análise cinesiológica de um chute frontal possibilita observar que na perna que está executando o movimento há a utilização da força dinâmica e da potência muscular; entretanto, para que a execução do golpe seja estável e não ocorra um desequilíbrio, é fundamental que ocorra uma contração isométrica da perna de apoio e dos músculos do tronco (abdominais e paravertebrais), que irão atuar como estabilizadores do movimento. Diante desse contexto, Paiva (2015) ainda apresenta a resistência muscular a força isométrica e a força reativa como importantes no treino de lutadores. Bompa (1991) descreve que a força reativa é a capacidade para gerar a força no salto, imediatamente após uma aterrisagem, sendo esta uma força necessária, também, em mudanças de direções. Nas modalidades tipo grappling (luta de solo com objetivo de obter submissão), as demandas de força são voltadas para a resistência 107 S U M Á R I O muscular e força isométrica, que também são fundamentais na realização de grip de pegada e aplicação dos golpes de submissão e estrangulamento (MELO et al., 2017). A resistência muscular de atletas deve ser compreendida como a capacidade de o músculo suportar determinado trabalho por período prolongado, e pode ser dividida em curta, média e longa duração, sendo os estímulos, respectivamente, de 30 segundos a dois minutos, de dois a seis minutos e de seis a 10 minutos (PAIVA, 2009). Funcionalmente o lutador deve apresentar boa resistência em grupos musculaturas que serão exigidos durante o combate. Esta capacidade física deve ser considerada como uma das bases do treinamento e, seguindo a periodização do treinamento, deve ser treinada de acordo com as características da luta ou da estratégia do lutador. Movimentos que são repetidos exaustivamente em combates devem ser realizados com cargas que possibilitem repetições excessivas para ganho de resistência muscular localizada (RML) ou geral. Mais uma vez é importante destacar a necessidade de conhecer o desporto para a prescrição do treino. Em um estudo com 40 atletas das modalidades de boxe, judô, luta olímpica e taekwondo, utilizando um teste de resistência que envolvia durante 6 minutos exercícios de agachamento completo, flexão de braço, abdominal, meio-sugado, flexão de quadril em pé e salto grupado; os resultados mostraram maior média de execuções para os atletas de luta olímpica, os atletas de boxe obtiveram melhores resultados quanto a manutenção da capacidade em cada minuto, além do estudo ter mostrado diferença de desempenho nos diferentes exercícios, por exemplo, atletas de judô na flexão de quadril em pé e de taekwondo no salto grupado (ORNELLAS; BEHRING; NAVARRO, 2010). Em geral, em todas as modalidades de lutas, a resistência da musculatura do tronco é necessária para a dinâmica postural e prevenção de lesões. Exercícios de fortalecimento do core são 108 S U M Á R I O importantes no cotidiano do lutador. O core é considerado um cinto muscular, que funciona como uma unidade capaz de estabilizar o corpo e a coluna vertebral, com ou sem movimento dos membros, servindo como o centro da cadeia cinética funcional e tem sido referida como a fundação de todos os movimentos do corpo. Exercícios abdominais, as pranchas e o perdigueiro são exercícios indicados na rotina do treino em modalidades de combates, em conjunto com o fortalecimento lombar. Músculos abdominais fortes protegem a região lombar em atividades extremas e são ferramentas poderosas para recuperar força, resistência, flexibilidade e mobilidade (SILVA; MESQUITA; DA SILVA, 2011; VALLE et al., 2019). O treinamento isométrico, ou seja, utilizando contrações isométricas, tem pouco consenso em relação às diretrizes para uma variedade de resultados desejados em geral. A revisão sistemática elaborada por Oranchuk et al. (2019) detalhou as adaptações de médio a longo prazo de diferentes tipos de treinamento isométrico nas variáveis morfológicas, neurológicas e de desempenho, investigando adaptações de médio a longo prazo (≥3 semanas) ao treinamento isométrico em humanos. Foram analisados 26 resultados de pesquisa que apresentaram alguns resultados importantes a serem considerados. Os principais resultados descritos foram: o treinamento isométrico utilizando comprimentos musculares mais longos (maior ângulo articular) produziu maior hipertrofia muscular quando comparado a volumes iguais de treinamento, com comprimentos musculares mais curtos (menor ângulo articular); diferenças significativas na hipertrofia muscular e produção de força máxima foram independentemente da intensidade do treinamento; contrações de alta intensidade (≥70%) melhoram a estrutura e função dos tendões (importante para evitar lesões); além disso, o treinamento com comprimento muscular longo resulta em maior transferência para o desempenho dinâmico. 109 S U M Á R I O A busca por exercícios e métodos de treinamento de força que tragam resultados positivos ao atleta tem sido discutida na literatura por especialistas. É importante o estudo por parte da equipe de preparação física para adequar os métodos e exercícios no planejamento periodizado do lutador. Vale ressaltar a importância de conhecer os métodos específicos de treino para modalidades de combate. Nesse contexto, Paiva (2015) discute as vantagens de utilizar exercícios de levantamento de peso olímpico (LPO) em atletas de artes marciais. Descreve que tal treinamento é específico para potência muscular e traz efeitos na força de partida, que é importante para a velocidade inicial do golpe, e na já mencionada força reativa. Em suma, exercícios de arranco e arremesso que são multiarticulares, além de suas variações, conduzem à diferentes mecanismos de adaptações para ganho de potência e força, envolvendo recrutamento seletivo de unidades motoras de contração rápida. Exercícios com possibilidade de mobilizar 50% dos grupos musculares em cada movimento em nível superficial, intermediário e profundo, numa ação coordenada provocam maiores efeitos anabólicos. Em modalidades de domínio e mistas como judô, jiujitsu, luta olímpica e MMA, em que há necessidade de potência de pico contra cargas externas pesadas, o treino com movimentos do LPO pode auxiliar nessas situações específicas (PAIVA, 2015). A utilização de exercícios de calistenia, arremessos e saltos com medicine ball, utilização de kettlebell com movimentos específicos de lutas e LPO, uso de elásticos de resistência de diferentes tensões, além de exercícios clássicos do treinamento de força, importantes no ganho inicial de força e hipertrofia são importantes no cotidiano do lutador e devem ser adaptados e pesquisados de acordo com as especificidades da modalidade de arte marcial. O método balístico é realizado com a força do atleta excedendo bastante a resistência de objetos e realizando movimentos de forma 110 S U M Á R I O explosiva. A intenção balística resulta em maior ativação neuromuscular e produção rápida de força (BOMPA, 1991). O treinamento pliométrico, também bastante citado para o ganho de potência, se baseia no reflexo miotático, em exercícios que o músculo é carregado em uma contração excêntrica (alongamento), seguida imediatamente por uma contração concêntrica (encurtamento). São relatadas, ainda, decorrências potencializadoras de exercíciospliométricos simples e combinados com pesos elevados. A pliometria traz alterações musculares e neurais que facilitam e melhoram a execução de movimentos mais rápidos e poderosos (BOMPA, 1991). Considerando as relações entre a potência muscular e a velocidade, o estudo de Leichtweir et al. (2013) demonstrou que a intervenção pliométrica do salto em profundidade (75cm) em lutadores de taekwondo antes do teste de “um chute”, apresentou melhores resultados na velocidade, quando comparado ao treino isométrico e de exercícios complexos. O mesmo resultado não foi encontrado no teste de quatro chutes em sequência, onde os exercícios complexos (agachamentos com saltos) apresentaram melhores resultados que a pliometria e a isometria. São muitos os métodos de treino para força, de maneira que as opções para o treinamento devem estar adequadas às modalidades de lutas praticadas e serem baseadas em informações científicas para evitar lesões. Flexibilidade O treino de flexibilidade refere-se ao trabalho máximo que visa obter resultados positivos com movimentos articulares superiores às amplitudes angulares originais, ocorrendo ações sobre os componentes plásticos, elásticos e inextensíveis. São dependentes da 111 S U M Á R I O atuação dos fusos musculares, órgão tendinoso de Golgi, e receptores articulares. Os gestos motores e movimentos coordenados, de ataque e defesa, somente podem ser executados com eficácia com o atleta apresentando uma flexibilidade adequada. Segundo Dantas (2014), os componentes da flexibilidade são: 1) mobilidade, que se refere ao grau de liberdade de movimento da articulação; 2) elasticidade refere-se ao estiramento elástico de componentes musculares; 3) plasticidade, que é o grau de deformação temporária que estruturas musculares e articulações deverão sofrer para possibilitar o movimento, existindo um grau que se mantém depois de cessada a força aplicada; 4) maleabilidade refere-se às modificações das tensões parciais da pele. Considerações importantes sobre a flexibilidade devem ser compreendidas para uma melhor avaliação dessa capacidade física: A idade cronológica (pode ser reduzida com o envelhecimento); a temperatura (melhora em climas quentes); a hora do dia (melhora no decorrer do dia); e o sexo (mulheres são mais flexíveis) são influenciadores. Em adendo, o estado de treinamento influencia nos componentes plásticos e interfere na flexibilidade do indivíduo; e a situação de treino em que o atleta se encontra é importante, pois após o aquecimento há aumento da flexibilidade, mas após o treinamento no qual o reflexo miotático de estiramento foi repetidamente acionado, é reduzida (DANTAS, 2014). Os alongamentos para treinos podem ser passivos, realizado com ajuda de forças externas (aparelhos, companheiros) em um estado de relaxamento da musculatura que deve ser alongada; Outros tipos de alongamentos são caracterizados por movimentos dinâmicos ativos, que são realizados de forma voluntária e sem ajuda, sendo dividido em ativo livre e com resistência. Desta maneira, métodos de treinamento passivos e dinâmicos são descritos na literatura científica utilizando de alongamentos para aumento da flexibilidade. 112 S U M Á R I O Um desses métodos de treino é denominado “estático”. É realizado com o membro se movimentando lentamente pelo próprio indivíduo, até o segmento muscular tensionado encontrar-se acima da amplitude habitual. Posteriormente, essa amplitude é mantida por um tempo a ser estabelecido na série de treino (muito comum de ser utilizado no aquecimento). Os alongamentos balísticos são bruscos, de alta intensidade, realizados em velocidade, que compreende o dobro da tensão muscular e por isso não tem sido recomendado principalmente para iniciantes. Ativam a resposta do reflexo miotático de encurtamento no fuso muscular e o desequilíbrio provocado no mecanismo de propriocepção traz a possibilidade de provocar uma lesão muscular (DANTAS, 2014). Nesse tipo de treino, com a insistência das repetições, a musculatura antagonista tende a relaxar favorecendo a flexibilidade. Entretanto, os resultados de estudos científicos deixam em dúvidas se há vantagens em relação aos outros métodos de treino (COELHO, 2008). Todas essas características do alongamento balístico trazem dúvidas sobre a viabilidade de sua utilização no cotidiano de treinos. A facilitação neuromuscular proprioceptiva é um método de treino que tem intenção de promover o mecanismo neuromuscular através da estimulação dos proprioceptores. São realizadas com contração e relaxamento, com fins de “contrair-manter-relaxar” o agonista, músculo a ser alongado, via inibição do órgão tendinoso de Golgi, levando a musculatura a relaxar após a inibição, favorecendo o aumento da amplitude articular. Os efeitos da realização de alongamentos antes de treinos e competições são discussões permanentes no esporte e em modalidades de combate. Alongar com amplitudes máximas antes do treino, durante o aquecimento, é uma prática comum entre atletas para aumentar a amplitude de movimentos em várias articulações e prevenir lesões. 113 S U M Á R I O Dentre os métodos de alongamentos, exercícios de alongamentos estáticos têm sido considerados polêmicos pela possibilidade da perda de potência muscular como efeito agudo. Em consequência, outros métodos são sugeridos para substituir o alongamento estático. Os métodos de facilitação neuromuscular proprioceptiva também geram dúvidas quanto à perda de força muscular (DALLAS et al., 2014). Nesse contexto, alguns estudos de intervenção são realizados em modalidades esportivas, mas há escassez nas artes marciais. Partindo desta premissa, o estudo de Dallas et al.(2014) teve como objetivo investigar os efeitos agudos de uma série de alongamentos estáticos, alongamentos com facilitação neuromuscular proprioceptiva e em exercícios em plataforma vibratória na flexibilidade e potência de saltos em ginastas de alto rendimento. Imediatamente após o aquecimento, os atletas realizaram os testes de flexibilidade (sentar e alcançar) e desempenho em testes de saltos. Posteriormente realizaram as intervenções com alongamentos estáticos, facilitação neuromuscular proprioceptiva e alongamentos estáticos combinados com a plataforma vibratória. Imediatamente após as intervenções e 15 minutos depois, os testes foram realizados novamente. O estudo indicou que todos os programas de alongamento aplicados aos músculos isquiotibiais, quadríceps, sóleo e gastrocnêmio melhoram a flexibilidade, mas não houve diferenças no desempenho do teste de salto. Em modalidades de lutas, o estudo de Gunsch, da Silva e Navarro (2010) apresentou comparações entre os resultados de seis semanas de treino em atletas de judô divididos em dois grupos de seis atletas, um treinado com alongamentos passivos e outro com facilitação neuromuscular proprioceptiva. Diferenças significativas não foram observadas entre os grupos na flexibilidade. Talvez os resultados apontem para a escolha de um método no qual o atleta se sinta mais confortável para desenvolver a flexibilidade adequada ao esporte que pratica. Até mesmo por não existir na 114 S U M Á R I O literatura fundamentação para maiores adaptações crônicas entre os métodos de treino (DIAS et al., 2018). Entretanto, Gomes (2009) traz a reflexão de que a flexibilidade deve ser treinada com fins de adquirir níveis compatíveis da modalidade esportiva que o atleta compete, não havendo necessidade de níveis exacerbados sem necessidade e cita que a combinação mais eficiente é com 40% de exercícios de caráter ativo, 40% de exercícios de caráter passivo e 20% de exercícios isométricos. Algumas modalidades de combate exigem níveis de até 90% dos níveis anatômicos em diferentes articulações ou em uma especialmente, colocando esta qualidade física como fundamental para uma eficaz mobilidade do gesto esportivo. ASPECTOS INTERVENIENTES NO TREINAMENTO E APERFEIÇOAMENTO DASCAPACIDADES FÍSICAS E MOTORAS O conhecimento das técnicas das lutas e todo embasamento científico acerca do processo ensino-aprendizagem, desenvolvimento do talento esportivo e dos procedimentos de treinamento das capacidades físicas e motoras são importantes para um profissional que esteja trabalhando em alguma arte marcial. Para a excelência do processo ensino-aprendizagem e treinamento, faz-se necessário compreender efeitos de aspectos intervenientes, que podem interferir no desenvolvimento do aprendiz e aumento do desempenho para o alto rendimento. Quem trabalha na formação de atletas deve compreender, por exemplo, que as mudanças de regras com a troca de categoria pode influenciar nos resultados de competições. Ou seja, um atleta que era campeão na categoria anterior, pode não ter mais sucesso na categoria acima. Uma das explicações seria uma maior influência de outra 115 S U M Á R I O capacidade física que antes não era fundamental para o sucesso. Em outro exemplo, Melo et al. (2017) descrevem aplicabilidades diferentes na capacidade física força e suas vertentes, nos estilos “Sport Sambo” e “Sambo Combat”, devido a diferenças nas regras entre ambas as modalidades de combate. Por exemplo, o “Sambo Combat” ocorre sem a presença de golpes traumáticos, havendo apenas a parte de projeções, quedas, imobilizações e finalizações. Aspectos nutricionais também devem ser considerados como importantes para o desempenho em competições, pois influenciam diretamente as capacidades físicas. A nutrição adequada proporciona não somente a manutenção do peso ideal para cada categoria, mas auxilia na redução da gordura corporal, proporcionando maior velocidade nos golpes e desempenho geral. Em contraponto, o ganho de gordura corporal para subir de categoria resulta em perda de velocidade e agilidade. Outra estratégia muito utilizada para participação em competições é a desidratação. Dentre os perigos estão a possível redução da força muscular, potência anaeróbia, menor capacidade aeróbia, prejuízo termorregulatório, depleção do glicogênio muscular com queda da resistência muscular e depleção de eletrólitos com redução da coordenação, além de perigosos problemas de saúde (OPPLIGER et al., 1996). Em adendo, recursos ergogênicos que promovam efeitos proporcionando tanto treinos com maior qualidade quanto desempenho em capacidades físicas essenciais à modalidade de luta, são investigados cientificamente e devem ser considerados como um fator subjacente. Estudos recentes, por exemplo, investigam efeitos da cafeína e do guaraná em pó, ambos estimulantes do sistema nervoso central, observando ampliação da quantidade de ataques em curtos intervalos de tempo (SANTOS, 2012; SILVEIRA; AMORIM; BURIAN, 116 S U M Á R I O 2018). São muitos os suplementos investigados e seus efeitos devem ser pesquisados. Após o início da puberdade, o conjunto de alterações antropométricas e fisiológicas decorrentes da maturação sexual pode ser responsável pela melhora ou queda das capacidades físicas. O aumento da gordura corporal em meninas e o aumento exacerbado do pico de velocidade da estatura (PVE) em curto espaço de tempo podem trazer queda de rendimento; em contraponto, o aumento da força muscular pode trazer benefícios em ambos os sexos (MONTEIRO et al., 2010). Os efeitos de tais fenômenos da puberdade nas modalidades de lutas devem ser observados em acordo com as vantagens que a maturação precoce pode proporcionar vantagens ao competidor, deixando parecer que atletas talentosos não possuem aptidão para a modalidade devido à maturação tardia (FUKUDA et al., 2012). Vale observar que ao contrário do que acontece com o feminino, a maturação precoce é uma vantagem para o atleta masculino nesta fase da vida, principalmente pelo melhor desempenho em qualidades físicas importantes para determinadas modalidades como a força muscular, velocidade e a resistência anaeróbica, promovida pelo aumento da produção de hormônios androgênicos, que favorecem a síntese de proteínas e a capacidade enzimática (DA SILVA; DANIELSKI; CZEPIELESKI, 2002). Os estudos sobre o fenômeno da idade relativa, principalmente os que foram elaborados com o sexo masculino, ratificam o impacto dos fenômenos da puberdade no esporte. A idade relativa é a diferença de idade cronológica entre atletas nascidos em um mesmo ano. Dentro de uma categoria com intervalo de dois anos, essa diferença é ampliada. Atletas com maior idade na adolescência tende a apresentar maior desempenho por possivelmente estar mais adiantado maturacionalmente (COBLEY et al., 2009; CÔTÉ et al., 2006). 117 S U M Á R I O Como normalmente cada categoria possui dois anos de intervalo, pode ser de até 24 meses a diferença de idade entre os atletas dentro da mesma categoria. Desta maneira, estudos com atletas olímpicos de lutas tem demonstrado maior quantidade de atletas nascidos no primeiro trimestre ou, dependendo do corte do estudo, no primeiro semestre, pois tendem a maturar antes, terem vantagens psicossomáticas, biomecânicas e motoras, sendo selecionados para o esporte (ALBUQUERQUE et al., 2015; FUKUDA, 2015). CONSIDERAÇÕES FINAIS O treinamento e aperfeiçoamento das capacidades físicas e motoras são importantes para o bom rendimento esportivo. Em modalidades de lutas, alguns métodos de treinamento são descritos na literatura, por meio de estudos experimentais, em poucas modalidades de esporte de combate. O treinamento intervalado de alta intensidade, por exemplo, tem sido destacado na literatura científica das artes marciais, visto a necessidade do esforço intermitente durante os combates. A coordenação motora e todos os seus subfatores são desenvolvidos ao longo da formação do atleta. Ainda possui interdependência com as demais capacidades físicas, sendo importante para o treinamento de excelência. Métodos adequados de aula/treino devem ser considerados para melhora da técnica. Assim como a velocidade, a coordenação motora não pode ser trabalhada em condições de fadiga, visto que necessitam do sistema neuromuscular em boas condições para um bom rendimento. Diferentes métodos de treinamento de força e flexibilidade são descritos na literatura. Cada modalidade de combate necessita de tipos 118 S U M Á R I O específicos de força, que deve ser avaliada pela equipe técnica para a escolha de métodos de treino que serão utilizados. Em geral, a potência muscular é bastante requisitada nas artes marciais, necessitando de atenção especial. Para o treino de flexibilidade é importante conhecer os níveis exigidos na modalidade por articulações. As metodologias de treinamento descritas na literatura apresentam resultados favoráveis ao desenvolvimento. O treino, com um misto de métodos ativos e passivos, é sugerido. Especificamente para as lutas, a literatura apresenta poucos estudos científicos que possibilitem compreender os efeitos de diferentes métodos de treino. Desta maneira, novos estudos com métodos adequados são sugeridos nas variadas artes marciais, pois os estudos encontrados apresentam limitações metodológicas. Ademais, fatores intervenientes aos resultados do treinamento, como utilização de recursos ergogênicos nutricionais e fisiológicos e compreensão das características do desenvolvimento físico são importantes. Em suma, todo o conhecimento geral do “estado da arte” pela equipe técnica será importante para o treinamento bem sucedido do atleta. REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE, M.R.; FRANCHINI, E.; LAGE, G.M.; DA COSTA, V.T.; COSTA, I.T.; MALLOY-DINIZ, L.F. The relative age effect in combatsports: na analysisof Olympic judô athletes, 1964-2012. Percept Mot Skills, v.121,n.1, p.300-8, 2015. ANTUNES, B.F. Treinamento intermitente de alta intensidade no taekwondo: comparação entre estímulos gerais e específicos. Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Pelotas, Rio Grande do Sul, 2015. BOMPA, T.O. A periodização no treinamento esportivo. São Paulo: Ed Manole, 2001.BRASIL, B.; CHIVIACOWSKY, S.; DEL VECCHIO, F.B.; ALBERTON, C.L. Comparação do equilíbrio dinâmico entre praticantes de Brazilian Jiu-Jitsu com diferentes níveis de experiência. RevBrasEducFís Esporte, v.29,n.4, p.535-41, 2015. 119 S U M Á R I O CAMPOS, F.A.D.; BERTUZZI, R.; DOURADO, A.C.; SANTOS, V.G.F.; FRANCHINI, E. 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The technical team needs to understand the characteristics of the combat and the possible opponents to plan and choose the best training method for motor 123 S U M Á R I O coordination, aerobic and anaerobic resistance, speed, types of muscular strength and flexibility. Intervening factors must be considered to assess the results of the teaching-learning process and training at different age groups, in order to achieve high sporting performance. Although the literature does not yet present a relevant amount of scientific studies with fighters of some modalities, the training methods described in the literature are important for the efficiency of training physical and motor skills. Key-words Physical Education and Training; Psychomotor Performance; Athletic Performance. Capítulo 4 AVALIAÇÃO EM LUTAS Carlos Alberto de Azevedo Ferreira Rodolfo Alkmim Moreira Nunes DOI: 10.31560/pimentacultural/2021.601.124-158 4 Carlos Alberto de Azevedo Ferreira Rodolfo Alkmim Moreira Nunes AVALIAÇÃO EM LUTAS 125 S U M Á R I O INTRODUÇÃO A avaliação é o processo de delineamento, obtenção e aplicação de informações, é o momento mais importante dentro de qualquer processo de intervenção que se realize. Mediante do uso de técnicas e escolha de protocolos adequados para os parâmetros que se pretende mensurar é possível avaliar as características do atleta de luta individualmente ou em equipe com quem se irá trabalhar (ROCHA; GUEDES JR, 2013; HEYWARD, 2004). A avaliação é a interpretação dos resultados obtidos, atribuição de qualidade, mérito pela medida ou comparação de qualidade do atleta. Uma vez estabelecido o nível da medida compara-se a padrões de referências nacionais ou internacionais estabelecidos. São avaliadas as características antropométricas, neuromusculares e cardiorrespiratórias e metabólicas (MACHADO; ABAD, 2016). De acordo com o momento em que é realizada a avaliação é classificada em: Avaliação Diagnóstica: realizada no início de qualquer procedimento de intervenção, ela é o ponto de partida, apresentará ao investigador através dos resultados dos seus testes iniciais as características do indivíduo ou grupo de indivíduos com quem irá trabalhar, assim como os pontos fortes para que dentro do processo de intervenção ele possa potencializá-los e os pontos fracos possa melhorá-los. Avaliação Formativa: permite ao investigador detectar e identificar deficiências na forma de intervir, orientando-o na reformulação do seu trabalho, visando aperfeiçoá-lo. Avaliação Somativa: tem por função básica a classificação dos indivíduos que se processa segundo o rendimento alcançado, 126 S U M Á R I O tendo por parâmetro os objetivos previstos. É realizada ao final do processo de intervenção, classificando os indivíduos de acordo com os níveis de aproveitamento previamente estabelecidos. DESENVOLVIMENTO Etapas da avaliação Antes do início da prática no esporte de combate, faz- se necessário uma Anamnese, que é um documento muito importante para que o treinador tenha informações e possa identificar e conhecer o histórico do atleta com suas qualidades e deficiências (QUEIROGA, 2005). A anamnese deve ser dirigida para a proposta inicial do atleta, o praticante de luta, dentro do processo da avaliação diagnóstica do perfil do avaliado, podendo assumir a característica de uma entrevista ou de um questionário com perguntas pré-concebidas ao avaliado para o seu preenchimento com as informações. A anamnese envolve a coleta de dois tipos de dados, os dados objetivos e os subjetivos. Os objetivos são colhidos pela observação do avaliador e podem ser confirmados, já os subjetivos são coletados unicamente com base no relato do avaliado. A coleta dos dados subjetivos deve explorar as características e problemas passados e atuais. Deve-se perguntar sobre sua saúde física geral e emocional para então investigar os sistemas e estruturas corporais (NUNES, 2010). Informações necessárias sobre o avaliado: 127 S U M Á R I O 1. Objetivos (específicos da atividade física, no caso a “luta”); 2. História clínica: a) HDA (História da Doença Atual): se existe queixa no momento; b) HPP (História Patológica Pregressa): investiga o passado do aluno, lesões, cirurgias, alergias, medicamentos, suplementos, vitaminas; 3. Histórico familiar (hereditariedade genética na vertical, irmãos, pais e avós); 4. História Fisiológica (investiga o passado e o presente atlético, atividades físicas diárias e atividades laborais); 5. Histórico psicossocial (última etapa da anamnese: verifica o estado emocional e suas expectativas). Após a realização da avaliação clínica inicial visando à diminuição dos riscos inerentes a prática das lutas, recreativas ou competitivas, o processo de avaliação segue na coleta dos dados referentes aos parâmetros antropométricos, neuromusculares e metabólicos. Avaliação Antropométrica Antropometria é a ciência que estuda as proporções e medidas do corpo humano. Sua evolução culmina em padronizações para medir e caracterizar o homem em suas diferentes dimensões. Padronizar as medidas é estabelecer como será a metodologia para se obter o valor de uma determinada medida. As descrições para medida de massa corporal, estatura, perímetros (exceto abdome), dobras cutâneas (exceto peitoral e axilar média) e diâmetros ósseos seguem o determinado pelo protocolo ISAK (STEWART et al., 2011). Para a realização de uma boa avaliação antropométrica onde serão analisados a composição corporal (massa gorda e massa 128 S U M Á R I O magra), o somatotipo (característica morfológica) e avaliações de proporcionalidade corporal, sendo necessário conhecer e coletar as seguintes medidas antropométricas. Medidas básicas Massa corporal: Posicionar o avaliado descalço de costas para a balança, com o mínimo de roupa possível, no centro do equipamento, ereto, com os pés juntos e os braços estendidos ao longo do corpo. Mantê-lo parado nessa posição. Estatura: Posicionar o avaliado descalço e com a cabeça livre de adereços, no centro do equipamento. Mantê-lo de pé, ereto, com os braços estendidos ao longo do corpo, com a cabeça erguida, olhando para um ponto fixo na altura dos olhos (Plano de Frankfurt, olhar para o horizonte). Perímetros Pescoço: Perímetro do pescoço imediatamente superior ao pomo de Adão, logo abaixo da linha da mandíbula. Braço relaxado: Perímetro do braço no ponto médio entre o ombro e o cotovelo. Braço contraído: Perímetro do braço no ponto de maior volume ao realizar a contração do músculo bíceps com o braço em ângulo de 90°. Antebraço: Perímetro máximo do antebraço no ponto de maior volume. 129 S U M Á R I O Punho: Perímetro mínimo do punho no encontro do antebraço com a mão. Tórax: Perímetro do tórax na altura do início da axila. Cintura: Perímetro do tronco na região de menor dimensão, localizado entre a última costela fixa e o bordo superior da crista ilíaca. Quadril: Perímetro do quadril na região de maior protuberância posterior. Coxa proximal: Perímetro da coxa, com 1 cm distal à prega glútea. Coxa média: Perímetro da coxa no nível do ponto médio da coxa, entre a borda superior do joelho e a virilha. Panturrilha:Perímetro da panturrilha na região de maior volume da perna. Tornozelo: Perímetro do tornozelo superiormente ao maléolo medial. Abdome: Perímetro do tronco na região de maior dimensão do abdome, na cicatriz umbilical. Dobras cutâneas Tríceps: Dobra cutânea tomada no braço no nível do ponto médio entre o ombro e o cotovelo. Subescapular: Dobra cutânea tomada obliquamente a 2 cm abaixo da escápula num ângulo de 45º. Bíceps: Dobra cutânea tomada anteriormente no braço no nível do ponto médio entre o ombro e o cotovelo. 130 S U M Á R I O Crista ilíaca: Dobra cutânea tomada horizontalmente no ponto da dobra cutânea crista ilíaca (imediatamente acima do ponto Iliocristal – ponto superior da crista ilíaca na linha axilar média). Supraespinhal: Dobra cutânea tomada obliquamente, imediatamente abaixo do ponto da dobra cutânea Supraespinhal (ponto de interseção entre a linha que conecta a prega axilar anterior ao ponto Ilioespinhal a linha horizontal no nível do ponto Iliocristal). Abdominal: Dobra cutânea tomada verticalmente no ponto da dobra cutânea abdominal (5 cm lateralmente ao centro da cicatriz umbilical). Coxa: Dobra cutânea tomada na região frontal da coxa, no ponto médio entre o bordo superior do joelho e a virilha. Panturrilha medial: Dobra cutânea tomada verticalmente no ponto da dobra cutânea Panturrilha medial (ponto no aspecto medial da perna na região de maior circunferência). Peitoral: Dobra cutânea tomada diagonalmente na linha entre prega axilar anterior e mamilo, sendo no ponto médio nos homens e no terço proximal nas mulheres. Axilar média: Dobra cutânea tomada horizontalmente na linha axilar média no nível da junção xifoesternal. Diâmetros ósseos Diâmetro do Úmero (cotovelo): Medida entre os dois epicôndilos medial e lateral do úmero. Diâmetro do Fêmur (joelho): Medida entre os dois epicôndilos medial e lateral do fêmur. 131 S U M Á R I O INDICADORES DE PROPORCIONALIDADE CORPORAL São utilizados índices que nada mais são do que razões entre duas grandezas de proporções corporais. O Índice de Massa Corporal (IMC) é um bom indicador de proporção de massa corporal para a estatura do atleta, mas não totalmente correlacionado com a gordura corporal e sim com a distribuição de massa corporal pela área corporal do atleta. Tabela 1 – Classificação do IMC Classificação IMC (kg/m2) Risco de comorbidades Baixo pesoBrasil Samuel André Pompeo Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Brasil Simoni Urnau Bonfiglio Universidade Federal da Paraíba, Brasil PARECER E REVISÃO POR PARES Os textos que compõem esta obra foram submetidos para avaliação do Conselho Editorial da Pimenta Cultural, bem como revisados por pares, sendo indicados para a publicação. Tayson Ribeiro Teles Universidade Federal do Acre, Brasil Valdemar Valente Júnior Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil Wallace da Silva Mello Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Brasil Wellton da Silva de Fátima Universidade Federal Fluminense, Brasil Weyber Rodrigues de Souza Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Brasil Wilder Kleber Fernandes de Santana Universidade Federal da Paraíba, Brasil Patricia Bieging Raul Inácio Busarello Direção editorial Marcelo EyngDiretor de sistemas Raul Inácio BusarelloDiretor de criação Ligia Andrade MachadoAssistente de arte Artroomstudio - Freepik.com Jadethaicatwalk - Freepik.com Rawpixel.com - Freepik.com Imagens da capa Patricia BiegingEditora executiva Peter ValmorbidaAssistente editorial Os autoresRevisão José Antonio ViannaOrganizador Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) ___________________________________________________________________________ A786 Artes marciais, esportes de combate e lutas: conhecimento aplicado. José Antonio Vianna - organizador. São Paulo: Pimenta Cultural, 2021. 451p.. Inclui bibliografia. ISBN: 978-65-5939-061-8 (brochura) 978-65-5939-060-1 (eBook) 1. Arte marcial. 2. Luta. 3. Combate. 4. Esporte. 5. Conhecimento. I. Vianna, José Antonio. II. Título. CDU: 61 CDD: 610 DOI: 10.31560/pimentacultural/2021.601 ___________________________________________________________________________ PIMENTA CULTURAL São Paulo - SP Telefone: +55 (11) 96766 2200 livro@pimentacultural.com www.pimentacultural.com 2 0 2 1 mailto:livro%40pimentacultural.com?subject= https://www.pimentacultural.com https://www.pimentacultural.com SUMÁRIO Apresentação ................................................................................. 12 Capítulo 1 Aspectos psicológicos do ensino-aprendizado de lutas: perspectivas e orientações ............................................... 21 Dirceu Ribeiro Nogueira da Gama Capítulo 2 Aprendizagem e desenvolvimento motor no ensino de lutas .............................................................. 53 Jomilto Praxedes Capítulo 3 Treinamento e aperfeiçoamento das capacidades físicas e motoras aplicadas .............................. 89 Sidnei Jorge Fonseca Junior Capítulo 4 Avaliação em lutas ....................................................................... 124 Carlos Alberto de Azevedo Ferreira Rodolfo Alkmim Moreira Nunes Capítulo 5 Organização e periodização do treinamento aplicado às lutas ................................................ 159 Carlos Alberto de Azevedo Ferreira Juliana Brandão Pinto de Castro Rodrigo Gomes de Souza Vale Capítulo 6 Aspectos do treinamento de lutas na infância e adolescência .......................................................... 189 Roberto Corrêa dos Anjos Capítulo 7 Perspectivas educacionais das lutas .......................................... 225 Ricardo Ruffoni Capítulo 8 Didática aplicada nas lutas ......................................................... 253 José Antonio Vianna Capítulo 9 Planos de ensino para lutas ........................................................ 285 Alex Oliveira da Silva Barbara Pumar de Souza Carlos Alberto Soares Santiago Eric Rosario Pereira Gabriel Gomes da Rocha Guilherme Latini Alonso Lorenna da Silva Cardoso Lukas David Pereira Vianna Maria Angelica Marques Rocha Marilia Alves Henrique Pinto Moreira Ney Evangelista Junior Ramon Silva de Lima Stephanie Godinho Tausch Capítulo 10 O “workout” gímnico de capoeira cooperativo entre duas pessoas na perspetiva da expressão das emoções masculinas .................................... 331 Paulo Coelho de Araújo Pere Lavega Pedro Gaspar Artur R. Pereira Ana Rosa Jaqueira Capítulo 11 Meditação nas lutas: meditação, introspecção e a prática sustentável de artes marciais ....................................... 366 Almir Menezes Silvares Capítulo 12 Prevenção e emergência no treinamento de lutas............................................................... 401 Marcelo Barros de Vasconcellos Sobre os autores e as autoras .................................................... 441 Índice remissivo ........................................................................... 447 12 S U M Á R I O APRESENTAÇÃO O crescimento das artes marciais, esportes de combate e lutas como um fenômeno social, político e econômico no mundo ocidental é notório, envolvendo um número crescente de espectadores e praticantes no Brasil. Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2017 revelam o aumento crescente de praticantes de lutas e artes marciais (1,2 milhão de brasileiros) com perspectivas que podem variar desde a inclusão social de sujeitos menos favorecidos até o sentimento de segurança pessoal de sujeitos com melhor condição social e econômica. Um dos benefícios obtidos na prática regular de lutas reside, entre outras coisas, na promoção da saúde dos praticantes com implicação indireta na diminuição de despesas relacionadas à saúde pública. Sob esta perspectiva as diferentes manifestações das lutas (defesa pessoal, educacional, espetáculo, de participação, de promoção da saúde, terapêutica ou de rendimento) necessitam, cada vez mais, de uma equipe multidisciplinar e multiprofissional que possam desenvolver intervenção mais bem qualificada que resulte em efeitos cada vez mais atraentes. Por sua vez, para atender a demanda de um público mais diversificado e mais exigente, os profissionais de Lutas, de Educação Física, Fisioterapia, Nutrição, Direito, Psicologia, Medicina, Gestão, Marketing e demais áreas voltadas às lutas nas suas diferentes manifestações sociais precisam de mais subsídios para otimizar a sua atuação profissional. Com a finalidade de oferecer mais aporte teórico aos profissionais dedicados ao ensino e ao treinamento em artes marciais, esportes de 13 S U M Á R I O combate e lutas, o Laboratório Interdisciplinar de Estudos em Lutas – LLUTAS (Insttituto de educação Física e Desportos / Universidade do Estado do Rio de Janeiro), solicitou aos professores no curso de Especialização em Lutas na mesma instituição e a professores convidados – profissinais com vivência em lutas e no treinamento desportivo –, a produção de textos com os saberes necessários para potencializar a atuação dos profissionais em artes marciais, esportes de combate e lutas. O livro está estruturado em doze capítulos nos quais o leitor encontra conhecimentos aplicados no ensino e no treinamento em lutas. No capítulo I o professor Dirceu Ribeiro Nogueira da Gama procura oferecer uma visão analítica geral de questões psicológicas que podem auxiliar ou retardar a aquisição de importantes conteúdos, competências, valores e habilidades para a prática de lutas, esportes de combate e artes marciais como um todo. Tais questões concernem aos traços de personalidade individuais; percepção; atenção e concentração; motivação; estresse e ansiedade. É importante sublinhar que a apresentação em tela focaliza os aspectos teóricos desses conceitos, tendo o propósito maior de estimular os leitores a aprofundarem ainda mais os seus conhecimentos. Pode-se encontrar no Capítulo II os aspectos fundamentais da aprendizagem motora (AM) e do desenvolvimento motor (DM), no que tange a produção, controle e educação dos movimentos inerentes às lutas. O professor Jomilto Praxedes focaliza os conceitos básicos e os fatores que afetam a AM e o DM, conduzindo para a compreensão do movimento humano, onde são observadas as habilidadessão denominados pelo nome de cada componente. No vértice inferior esquerdo temos a primeira componente (endomorfia), no vértice superior a segunda componente (mesomorfia), e no vértice inferior direito a terceira componente (ectomorfia) (HEATH; CARTER, 2005). Para realizar a plotagem do somatotipo neste triângulo, de acordo com as coordenadas X e Y usam-se as equações abaixo e a classificação conforme tabela 2 (HEATH; CARTER, 2005). Figura 2. Triângulo de Reuleux Fonte: Própria. 138 S U M Á R I O AVALIAÇÃO DA APTIDÃO CARDIORRESPIRATÓRIA A capacidade cardiorrespiratória pode ser definida como a capacidade de realizar exercícios dinâmicos com grandes grupos musculares em intensidade de moderada a alta por períodos prolongados (ACSM, 2003; NUNES, 2010; ANDRADE et al., 2013). A aptidão cardiorrespiratória é um componente relacionado à saúde e ao condicionamento do atleta de luta, podendo ser medido de forma direta ou indireta, com protocolos máximos ou submáximos. Podem ser realizados em laboratório ou em campo. Estes testes estimam o consumo de oxigênio classificando o nível de aptidão cardiorrespiratória do atleta. (NUNES, 2010). De acordo com Hespanha (2004) e Pitanga (2004) é o componente de maior importância para aptidão física relacionada com saúde e compreende a resistência ao exercício submáximo, a potência aeróbia máxima, a função cardiorrespiratória e a pressão arterial. • A resistência ao exercício submáximo é o nível de tolerância às demandas energéticas de baixa intensidade e longa duração. • A potência aeróbia máxima é medida pelo VO2máx (consumo máximo de oxigênio), ou seja, é o maior volume de oxigênio que se pode absorver do ar atmosférico e transportar aos tecidos durante o exercício máximo na unidade de tempo. • A função cardiorrespiratória é avaliada a partir das respostas da frequência cardíaca, frequência respiratória e outras variáveis do sistema cardiovascular e respiratório. • A pressão arterial é a força exercida pela coluna de sangue contra as paredes das artérias possuindo dois componentes, a pressão arterial sistólica e a pressão arterial diastólica. 139 S U M Á R I O Testes de campo vs. laboratório Os testes de campo são uma forma de estimar o O2máx. São realizados em pistas, quadras e piscinas por meio de testes de corrida (ou nado) de forma contínua ou intervalada com espaço demarcado e tempo cronometrado. Este tipo de teste permite a avaliação de um número grande de pessoas simultaneamente (QUEIROGA, 2005). A escolha destes testes é justificada geralmente por não se dispor de ergômetro, a necessidade de avaliar grandes grupos populacionais ou pelo envolvimento das atividades motoras comuns ao repertório de habilidades específicas do atleta (NUNES, 2010; MONTEIRO; LOPES, 2009). Os testes realizados em laboratórios necessitam de instrumentos específicos, os ergômetros (tapete rolante ou esteira, cicloergômetro ou bicicleta e banco). Estes instrumentos identificam a capacidade do indivíduo em gerar trabalho mecânico por unidade de tempo, e possuem diferentes vantagens e desvantagens. (HESPANHA, 2004; MARINS; GIANNICHI, 2008). Tabela 2. Nível de aptidão física American Heart Association para mulheres e homens Idade 20 – 29 30 – 39 40 - 49 50 – 59 60 - 69 Gênero M F M F M F M F M F Excelente > 53 > 49 >49 >45 >45 >42 >43 >38 >41 >35 Bom 43- 52 38- 48 39- 48 34- 44 36- 44 31- 41 34- 42 28- 37 31- 40 24- 34 Regular 34- 42 31- 37 31- 38 28- 33 27- 35 24- 30 25- 33 21- 27 23- 30 18- 23 Fraco 25- 33 24- 30 23- 30 20- 27 20- 26 17- 23 18- 24 15- 20 16- 22 13- 17 Muito Fraco 60 Muito fraca H >15:31 >16:01 >16:31 >17:31 >19:01 >20:01 M >18:31 >19:01 >19:31 >20:01 >20:01 >21:01 Fraca H 12:11- 15:30 14:01- 16:00 14:44- 16:30 15:36- 17:30 17:01- 19:00 19:01- 20:00 M 16:55- 18:30 18:31- 19:00 19:01- 19:30 19:31- 20:00 20:01- 20:30 21:00- 21:31 141 S U M Á R I O Média H 10:49- 12:10 12:01- 14:00 12:31- 14:45 13:01- 15:35 14:31- 17:00 16:16- 19:00 M 14:31- 16:54 15:55- 18:30 16:31- 19:00 17:31- 19:30 19:01- 20:00 19:31- 20:30 Boa H 9:41- 10:38 10:46- 12:00 11:01- 12:30 11:31- 13:00 12:31- 14:30 14:00- 16:15 M 12:30- 14:30 13:31- 15:54 14:31- 16:30 15:56- 17:30 16:31- 19:00 17:31- 19:30 Excelente H 8:37- 9:40 9:45- 10:45 10:00- 11:00 10:30- 11:30 11:00- 12:30 11:15- 13:59 M 11:50- 12:29 12:30 -13:30 13:00- 14:30 13:45- 15:55 14:30- 16:30 16:30- 17:30 Fonte: Adaptado de Hespanha (2004). Para este teste o consumo máximo de oxigênio pode ser estimado pela equação do American College of Sports Medicine (ACSM, 2003): Protocolos de Banco O teste de banco de McArdle (1984) é um teste de etapas, usado para determinar a aptidão aeróbica. Objetivo: este teste submáximo fornece uma medida da aptidão cardiorrespiratória ou de resistência. Equipamento necessário: um banco de 41,3 cm, cronômetro, um metrônomo, monitor de frequência cardíaca (opcional). Procedimento: O atleta sobe e desce na plataforma a uma taxa de 22 passos (88 bpm) por minuto para mulheres e 24 passos (96 bpm) por minuto para homens. Os sujeitos devem pisar usando uma cadência de quatro etapas, ‹up-up-down-down› por 3 https://www.topendsports.com/resources/stores.htm?type=All&cat=Stopwatches 142 S U M Á R I O minutos. O atleta para imediatamente após a conclusão do teste, após 5 segundos (no máximo 20) de término de teste, a frequência cardíaca (FC) é aferida com o avaliado ainda de pé, os batimentos cardíacos são contados por 15 segundos, multiplique essa leitura de 15 segundos por 4 para fornecer o valor de batimentos por minuto e então calculado o de acordo com as equações da tabela 4 (McARDLE; KATCH; KATCH, 2007). Figura 3. Teste de banco de McArdle Fonte: Própria. Os valores de referência por idade e sexo podem ser observados na tabela 4. Tabela 4. Equação para predição do VO2 pelo teste de banco Gênero O2máx Masculino 111,13 - (0,42 x FC) Feminino 65,81 - (0,1847 x FC) Fonte: Adaptado de Pollock e Wilmore (1993). 143 S U M Á R I O Avaliação – Deficit vs. Superavit de Capacidade Aeróbia É possível a partir de equações, avaliar se o individuo possui um déficit ou superávit de capacidade aeróbia. Para isso podemos utilizar a equação proposta por Bruce (1992) para cálculo do previsto para a idade (Tabela 5) e utilizá-lo para cálculo do FAI (déficit aeróbio funcional). Tabela 5. Cálculo do previsto para a idade em anos Fonte: Adaptado de Rocha e Guedes Jr. (2013). AVALIAÇÃO DA POTÊNCIA ANAERÓBICA Para avaliar a potência anaeróbica em atletas de lutas um teste recomendado é o Flegner Teste (FLEGNER, 1983). Consiste na realização de dez saltos sucessivos com os pés paralelos sem sobrepasso no menor tempo possível, objetivando a maior distância. A saída não deveser comandada para não incluir o tempo de reação (latência), assim o afastamento dos pés do chão indica o disparo do cronômetro, que deve ser digital com precisão de centésimo de segundos. O teste deverá ser realizado em uma pista com pelo menos 30 metros de extensão. E uma trena deve estar estendida ao longo 144 S U M Á R I O da pista. A fim de permitir precisão de 1 centímetro na última marca deixada pelo calcanhar no solo será com a utilização de um sarrafo pelo avaliador. A distância do salto está compreendida entre a linha de saída e o último ponto de contato dos pés com o solo. Figura 4 - Flegner Teste Fonte: Própria Cálculos realizados: 1. Calcular o Percentual de gordura; 2. Calcular o Peso de Gordura (PG = G%x Peso divido por 100); 3. Calcular a Massa Corporal Magra (LBM = Peso – PG); 4. Calcular o AP (Anaeróbico Previsto) (AP = 5,84 x LBM – 112,63); 5. Calcularo AR (Anaeróbico Real) (AR= Peso x Distância dividido pelo Tempo); 6. Concluindo: Se AP for maior que AR = Fibra lenta Se AP for menor que AR = Fibra rápida 145 S U M Á R I O • AAPU = Absolute Anaerobic Power Unit • UFAA = Unidade de Força Anaeróbica Absoluta É possível ainda obter a potência relativa ao peso corporal pela seguinte equação: AAPU relativa = AAPU / Massa Corporal (kg) AVALIAÇÃO MUSCULAR A aptidão muscular relaciona-se com a capacidade do músculo ou grupo muscular específico em realizar trabalho. Refere-se à capacidade de gerar força, ter resistência ou gerar potência. A avaliação destas características é importante no desempenho esportivo e fazem parte da avaliação (NSCA, 2015). Força e Resistência Muscular A força muscular é a capacidade do grupo muscular de desenvolver força contrátil máxima contra uma resistência em uma única contração. Já a resistência muscular esta relacionada à capacidade para realizar força submáxima por períodos prolongados (HEYWARD, 2004). Teste Dinâmico: Força explosiva (potência) A força explosiva (potência) dos membros inferiores pode ser avaliada pelos testes de impulsão vertical e horizontal o 146 S U M Á R I O sujeito é instruído a saltar para cima o mais alto possível (ROCHA; GUEDES JR, 2013). Posição do avaliado: Em pé ao lado da parede com os braços estendidos acima da cabeça e dedos sujos de giz. Na parede está fixada uma fita métrica de forma descendente a 1 metro do solo. Procedimento: Solicite que o avaliado salte o mais alto possível com toque do dedo sujo de giz na parede. Podem ser feitas mais de 1 (uma) tentativa e utiliza-se o maior valor obtido ou o valor médio das tentativas realizadas. Figura 5. Teste de Impulsão Vertical Fonte: Própria. Cálculo da potência: A potência é calculada utilizando o valor do salto, ou seja, a diferença entre altura do salto e estatura do indivíduo (D). 147 S U M Á R I O Tabela 6. Valores Referência em centímetros (cm) do Teste de Impulsão Vertical. Homens Mulheres Avaliação (cm) (cm) Excelente > 70 > 60 muito bom 61-70 51-60 acima da média 51-60 41-50 Média 41-50 31-40 abaixo da média 31-40 21-30 Pobre 21-30 11-20 muito pobre 68 >37 >70 >41 Bom 56-67 34-36 62-69 38-40 Médio (Regular) 43-55 22-33 48-61 25-37 Abaixo da Média (Ruim) 39-42 18-21 41-47 22-24 Fraco (Insuficiente) 56 > 47 > 41 > 34 > 31 > 30 Boa 47-56 39-47 34-41 28-34 25-31 24-30 Acima da média 35-46 30-39 25-33 21-28 18-24 17-23 Média 19-34 17-29 13-24 11-20 9-17 6-16 Abaixo da média 11-18 10-16 8-12 6-10 5-8 3-5 Pobre 4-10 4-9 2-7 1-5 1-4 1-2 Muito pobre 35 > 36 > 37 > 31 > 25 > 23 Boa 27-35 30-36 30-37 25-31 21-25 19-23 Acima da média 21-27 23-29 22-30 18-24 15-20 13-18 Média 11-20 12-22 10-21 8-17 7-14 5-12 Abaixo da média 6-10 7-11 5-9 4-7 3-6 2-4 Pobre 2-5 2-6 1-4 1-3 1-2 1 1 Muito pobre 0-1 0-1 0 0 0 0 0 0 0 0 Fonte: Adaptado de Machado e Abad (2016). Teste de flexão abdominal: Realizado tanto em homens quanto em mulheres. O avaliado deverá estar deitado em supino com os braços cruzados a frente do corpo, flexão de joelhos e pés apoiados no solo seguros pelo avaliador. O movimento de flexão abdominal é realizado até que os cotovelos toquem os joelhos com retorno total ao solo, sendo repetido pelo período de 1 minuto (MACHADO; ABAD, 2016). Figura 7 - Teste de Abdominal Fonte: Própria. Os valores de referência por idade e sexo podem ser observados na tabela 9. 151 S U M Á R I O Tabela 9 - Valores de Referência em número de repetições - Teste de Abdominal HOMENS Idade 18-25 26-35 36-45 46-55 56-65 65+ Excelente > 49 > 45 > 41 > 35 > 31 > 28 Boa 44-49 40-45 35-41 29-35 25-31 22-28 Acima da média 39-43 35-39 30-34 25-28 21-24 19-21 Média 35-38 31-34 27-29 22-24 17-20 15-18 Abaixo da média 31-34 29-30 23-26 18-21 13-16 11-14 Pobre 25-30 22-28 17-22 13-17 9-12 7-10 Muito pobre 43 > 39 > 33 > 27 > 24 > 23 Boa 37-43 33-39 27-33 22-27 18-24 17-23 Acima da média 33-36 29-32 23-26 18-21 13-17 14-16 Média 29-32 25-28 19-22 14-17 10-12 11-13 Abaixo da média 25-28 21-24 15-18 10-13 7-9 5-10 Pobre 18-24 13-20 7-14 5-9 3-6 2-4 Muito pobreé realizado na posição em pé. Coloque uma mão atrás da cabeça e de costas por cima do ombro e alcance o máximo possível no meio das costas, palma da mão tocando o corpo e os dedos direcionados para baixo. Coloque o outro braço atrás das costas, a palma da mão voltada para fora e os dedos para cima e alcance o máximo possível, tentando tocar ou sobrepor os dedos do meio das duas mãos. É necessário um assistente para direcionar o assunto para que os dedos estejam alinhados e para medir a distância entre as pontas dos dedos do meio. Se as pontas dos dedos tocarem, a pontuação é zero. Se eles não tocarem, meça a distância entre as 153 S U M Á R I O pontas dos dedos (pontuação negativa); se elas se sobrepuserem, meça quanto (pontuação positiva). Pratique duas vezes e depois teste duas vezes. Pare o teste se o sujeito sentir dor. Figura 9. Teste de Flexibilidade de Ombros Fonte: Própria. Pontuação: registre a melhor pontuação no centímetro mais próximo. Quanto menor a pontuação, melhor o resultado. Os valores de referência por idade e sexo podem ser observados na tabela 10. Tabela 10 - Valores de Referência em centímetros (cm) do Back Scrath Test IDADE ABAIXO DA MÉDIA NORMAL ACIMA DA MÉDIA HOMENS 0 MULHERES 3,8 Fonte: Adaptado de Morrow Jr. et al. (2014). Teste de Sentar e Alcançar: Este teste mede a flexibilidade da região lombar e dos músculos da região posterior da coxa. 154 S U M Á R I O Equipamento necessário: uma fita para marcar o chão e uma régua. Com a fita, marque uma linha reta de 38 cm de comprimento no chão como linha de base e uma linha de medição perpendicular ao ponto médio da linha de base, estendendo-se dois pés de cada lado. Use a caneta marcadora para indicar cada centímetro ao longo da linha de medição. O ponto em que a linha de base e a linha de medição se cruzam é o ponto zero. Procedimento: O sujeito irá tirar os sapatos e sentar no chão com a linha de medição entre as pernas e as solas dos pés, posicionadas imediatamente atrás da linha de base, com os calcanhares afastados 30 cm. Com as pernas esticadas por um parceiro, o sujeito lentamente se move para frente o máximo possível, mantendo os dedos na linha de base e os pés flexionados. Após três tentativas de prática, o atleta mantém o quarto alcance por três segundos enquanto a distância é anotada. Verifique se não há movimentos bruscos e se as pontas dos dedos permanecem niveladas e as pernas esticadas. Pontuação: a pontuação é registrada no centímetro mais próximo, a distância antes da linha de base é negativa e a além é positiva (PROESP; 2020). Figura 10 - Teste de Flexibilidade da Lombar Fonte: Própria. 155 S U M Á R I O Teste de Extensão de Tronco: Seu objetivo é avaliar a flexibilidade de tronco no movimento de extensão, deve-se elevar a parte superior do corpo 30 cm a partir do chão e manter essa posição até se efetuar a medição. Material: uma régua de 50 cm. Procedimento - O atleta deita-se no colchão em decúbito ventral. Os pés em extensão e as mãos debaixo das coxas, cabeça apoiada no colchão de forma a poder olhar para um ponto do colchão próximo do seu nariz. Durante o movimento o atleta deve focar o seu olhar nesse ponto do colchão. O atleta deve elevar o seu tronco do solo de forma lenta e gradual até atingir uma elevação máxima de 30 cm. A posição elevada deve ser mantida o tempo suficiente para a medição da distância compreendida entre o queixo do atleta e o solo. A régua deve ser colocada a uma distância mínima de 2,5 cm do queixo do atleta. Uma vez feita à medição, o atleta deve regressar à posição de repouso de forma gradual. Devem ser permitidas duas tentativas e registado o melhor resultado. Figura 11 - Teste de extensão de tronco Fonte: Própria. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao analisar as informações de uma avaliação física em que os dados convergem entre a academia de Luta e o laboratório na Universidade, deve-se traçar um perfil de expectativas que não podem 156 S U M Á R I O se resumir ao peso corporal no qual se dividem as categorias. As competições de lutas possuem a sua divisão por uma classificação de peso corporal, independente de se observar outras características corporais como a estatura e comprimento dos segmentos corporais, estes podem ser incorporados à técnica individual e tal fato pode impactar diretamente na desenvoltura do combate. Logo, espera-se que as avaliações de caráter antropométrico, neuromuscular e metabólico propostas neste capítulo colaborem com os leitores a adquirir o conhecimento necessário a formalizar em seu cotidiano a prática de avaliar seus alunos e atletas, conseguindo saber seus pontos fortes e fracos. Em posse dos dados obtidos, tenha o discernimento para interpretar os seus resultados e utilizar as informações suficientes para uma prescrição de treinamento adequada dos atletas de luta. REFERÊNCIAS ABESO. Diretrizes brasileiras de obesidade. 3ª ed. Itapevi: AC Farmacêutica, 2009. ACSM. Manual de pesquisa das diretrizes do ACSM para os testes de esforço e sua prescrição. 4ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003. ACSM. Manual do ACSM para teste de esforço e prescrição de exercício. 5ª ed. Rio de Janeiro: Revinter, 2010. ANDRADE, L. J. et al. Avaliação da aptidão cardiorrespiratória em universitários do curso de educação física através do teste de ruffier. In: XII Fórum de Pesquisa da ULBRA. 2013. CATTRYSSE, E. et al. Anthropometric fractionation of body mass: Matiegka revisited. Journal of Sports Sciences, v. 20, n. 9, p. 717-23, sep, 2002. CORBIN et al. Concepts in Physical Education, Brownm Dobuque, IA, 1978 ESTON, R.; REILLY, T. 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M.; PIERSON Jr., R. N.; HEYMSFIELD, S. B. The five-level model: a new approach to organizing body-composition research. American Journal of Clinical Nutrition, v.56, p. 19–28, 1992. EVALUATION IN FIGHTS Abstract Within a training and physical preparation process, the assessment is the starting point, it will provide necessary information about the athlete’s morphofunctional characteristics that will serve as a basis for establishing the training parameters to be performed. Based on this presentation, this chapter aims to present, among the several existing evaluation protocols in the literature in the areas of Anthropometry, Neuromuscular (Strength and Flexibility) and Metabolic, which are most applicable to fighting athletes. Ilustrações Giuliana Cunha Messias de Souza é Graduada em Educação Artística – Artes Plásticas, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Capítulo 5 ORGANIZAÇÃO E PERIODIZAÇÃO DO TREINAMENTO APLICADO ÀS LUTAS Carlos Alberto de Azevedo Ferreira Juliana Brandão Pinto de Castro Rodrigo Gomes de Souza Vale DOI: 10.31560/pimentacultural/2021.601.159-188 5 Carlos Alberto de Azevedo Ferreira Juliana Brandão Pinto de Castro Rodrigo Gomes de Souza Vale ORGANIZAÇÃO E PERIODIZAÇÃO DO TREINAMENTO APLICADO ÀS LUTAS 160 S U M Á R I O INTRODUÇÃO O treinamento desportivo pode ser entendido como a parte mais ampla do fenômeno denominado desporto. Dessa forma, compreender a essência do desporto é importante para o entendimento da problemática que envolve a prescrição do treinamento desportivo. No sentido estrito, desporto refere-se à competição propriamente dita. Já no sentido amplo, constitui-se como um fenômeno social multifacético, viabilizando a consecução de objetivos bem mais amplos do que os puramente desportivos. Nesse caso, abarca não apenas a competição, mas também a preparação para a competição e todas as demais relações específicas na área tomadas em conjunto (WEINECK, 1999). Assim sendo, o processo de treinamento desportivo visa o alcance de um determinado nível de rendimento. Esse nível de rendimento pode ser em maior ou menor grau, dependendo do âmbito de atuação do treinamento desportivo em questão e do período/fase de treinamento que o indivíduo se encontra. O rendimento desportivo é influenciado por uma série de fatores intervenientes, como alimentação, treinamento, descanso, fatores endógenos (condição intrínseca) e condições de higiene e saneamento básico. Todos esses fatores são essenciais para a aquisição de um nível de rendimento condizente com o objetivo almejado. De acordo com Tubino e Moreira (2003), essas partes de um processo de treino são interdependentes, inter- relacionadas e interatuantes, devendo ser consideradas em conjunto no processo de planejamento e consecução do treinamento. No que tange ao fator treinamento, ressalta-se que o processo de treino é pedagógico e biológico. Desse modo, pode ser subdividido em seis tipos de treinamento: físico, técnico, tático, psicológico, teórico (cognitivo) e social. Todos os tipos de preparação inerentes a esses treinamentos se encontram presentes em um 161 S U M Á R I O processo de treino. Todavia, dependendo dos objetivos da sessão de treino, pode haver o predomínio de uma ou mais preparações. Por exemplo, uma sessão de treino pode ter como objetivo principal o desenvolvimento das capacidades técnicas de um atleta. Nesse caso, o foco da sessão de treino será o desenvolvimento da técnica da modalidade desportiva em questão e haverá predominância de estímulos técnicos. Porém, os fatores psicofísicos, táticos, cognitivos e sociais vão influenciar num melhor aproveitamento desse treino técnico (TUBINO; MOREIRA, 2003). Dessa forma, no âmbito competitivo, para uma boa colocação atlética, além da vontade e do esforço do participante, é necessário que o atleta esteja preparado emocional e fisicamente para a competição. Desse modo, ele precisa ter sido submetido a um processo de adequação prévia (GOMES, 2009; PLATONOV, 2004). Este processo de adequação, ou melhor, processo de treinamento, tem como objetivo principal propiciar ao atleta o aumento da capacidade física e emocional para sustentar, como por exemplo, altos trabalhos de potência ou velocidade por um determinado período ou distância. Tal processo baseia-se na repetição de exercícios que visa conciliar uma realização autônoma de um gesto motor ou habilidade motora com o desenvolvimento ou melhora das funções metabólicas e/ou estruturais. Ou seja, esse processo tem o propósito de fazer com que o atleta realize um movimento com o menor gasto energético possível ou menor esforço possível (GOMES, 2009; PLATONOV, 2004). Nesse sentido, observa-se que o treinamento desportivo compreende: desenvolvimento da capacidade pulmonar, desenvolvimento da capacidade neuromuscular, aquisição e desenvolvimento da técnica, apreensão da tática, mobilidade das forças psíquicas, intervenção social e o que Tubino e Moreira (2003) denominam de treinamento invisível, incluindo alimentação, hábitos de vida e recuperação. 162 S U M Á R I O CONCEITOS INICIAIS O período de treinamento pode ser composto por semanas, meses ou até mesmo anos. Durante essas fases temporais, a combinação da intensidade, duração e frequência dos estímulos, também chamada carga de treino ou quantidade de treinamento (QT), deve variar e aumentar gradualmente de acordo com a resposta de adaptação demonstrada pelo atleta (DANTAS, 2014; TUBINO; MOREIRA, 2003). Para maximizar uma melhora da adaptação fisiológica ao treinamento e consequente incremento no desempenho desportivo, a carga de treinamento deve ser disposta em períodos de treino com menor volume. Assim, o período de maior sobrecarga é planejado para que, no momento da competição, o atleta obtenha um alto desempenho com a existência de fadiga residual mínima (WEINECK, 1999). Deve-se salientar que o desempenho do atleta está atrelado a diversos fatores, alguns dentro de um controle do treinador e outros fora desse controle. Dentre os fatores controláveis pelo treinador, é possível citar os treináveis, considerados os elementos biomecânicos, fisiológicos, motores e os ensináveis, que são as técnicas e as táticas. Quanto aos fatores não treináveis, que se encontram fora do controle do treinador, é possível citar carga genética, idade, condições climáticas, oponentes, entre outros (DANTAS, 2014; WEINECK, 1999). FASES DO TREINAMENTO O processo de formação de um atleta é um trabalho de longo prazo e envolve planejamento e periodização de treinamento. Esse processo pode levar 10 anos ou mais, a contar da data 163 S U M Á R I O do início na modalidade esportiva e vivência motora prévia. Envolve 3 fases fundamentais: 1ª) fase de treinamento básico dos fundamentos (etapa de base); 2ª) fase de especialização (etapa de desenvolvimento ou construção); 3ª) fase de competição propriamente dita (etapa de alto nível ou otimização). Estas fases apresentam uma variação das características qualitativas e quantitativas de treinamento (BÖHME, 2000; BOMPA, 2002; ELIOTT; MESTER, 2000; GRANELL; CERVERA, 2003). A título de ilustração, um estudo desenvolvido com judocas de nível internacional detectou que a idade média de iniciaçãona modalidade ocorreu por volta dos 6,2 ± 1,3 anos (MASSA et al., 2014). A primeira fase, ou fase de treinamento dos fundamentos básicos, é caracterizada pelo aprendizado das técnicas básicas. Nesse sentido, objetiva fornecer ao atleta um amplo repertório motor dentro da modalidade e ampliar a utilização desse repertório nas mais diversas situações, promovendo ao atleta velocidade na tomada de decisão para a resolução de problemas motores (BOMPA, 2002; ELIOTT; MESTER, 2000; GRANELL; CERVERA, 2003). Na segunda fase, a fase de especialização, o atleta começa a ser direcionado para o refinamento do gesto motor da modalidade que pratica. Pode-se dizer que, neste momento, ocorre o aprimoramento da técnica do atleta, no caso, o estilo do atleta dentro da modalidade (BOMPA, 2002; ELIOTT; MESTER, 2000; GRANELL; CERVERA, 2003). Na terceira fase, que é a fase de competição, todo o treinamento é direcionado para a competição. Nesse momento, também deve ocorrer uma ligeira progressão do rendimento desportivo. O treinador deve observar os campeonatos e competições em que estará inserindo o atleta de forma que este possa ganhar gradativamente experiência em torneios e competições. Objetiva-se que o atleta esteja no ápice da forma psicofísica nesse período (BOMPA, 2002; ELIOTT; MESTER, 2000; GRANELL; CERVERA, 2003). 164 S U M Á R I O CARACTERÍSTICAS GERAIS E CONCEITOS Conforme abordado anteriormente, toda a prática do treinamento cerca a manipulação da carga de treino (ou QT), composta pela intensidade (IT), duração (DT) e frequência de treinamento (FT). Desse modo, a QT é o produto da IT, DT e FT e pode ser esquematicamente representada da seguinte forma: QT = IT × DT × FT. A seguir, temos a explicação de cada uma dessas variáveis que compõem a QT. A IT é uma função das atividades realizadas em um determinado tempo, ou seja, a IT expressa o nível ou grau de esforço em um determinado período de tempo. Logo, pode-se mensurar a IT de uma sessão de treino (ST). A IT pode ser determinada e controlada por elementos de natureza fisiológica, bioquímica, psicológica e física (biomecânica). Alguns exemplos de mensuração da IT são: a frequência cardíaca (FC), a percepção subjetiva de esforço (como as Escalas de Borg e OMNI-RES), a concentração de lactato sanguíneo, a velocidade de deslocamento, a quilagem (ou carga externa) mobilizada e o comprimento (altura, distância alcançadas). Desse modo, dentro do treinamento, dependendo da situação, a IT apresenta-se diferenciada e, geralmente, é representada através de um valor relativo à utilização de um valor referencial máximo. Se o treino é de velocidade, a IT será medida pela velocidade em que o exercício é realizado. Caso seja um treino de resistência, a intensidade será representada pela força resistência aplicada à carga, ao implemento de carga ou oponente utilizado (TUBINO; MOREIRA, 2003). Em uma sessão de treino em lutas, a intensidade pode ser medida mediante a velocidade na execução de técnicas de chute, de soco ou de projeções e a repetição desses movimentos. A velocidade de execução irá determinar a intensidade do treino, podendo ser medida pelos parâmetros fisiológicos, psicológicos ou bioquímicos 165 S U M Á R I O citados anteriormente, como, por exemplo, FC, percepção subjetiva de esforço ou concentração de lactato, respectivamente (FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999). Em termos fisiológicos, uma variável hemodinâmica, além da FC, que vem sendo utilizada em estudos com atletas de esportes de combate, como o muay thai e a luta livre (wrestling), é a pressão arterial (SALERNO et al., 2017; SILVA et al., 2016). A DT representa o tempo de estímulo dentro de uma sessão ou período de treinamento. Em outras palavras, a DT expressa o tempo (duração) da exposição ao esforço/estímulo de treino em um determinado período de tempo. A DT pode ser determinada e controlada por elementos de natureza temporal, os quais são expressos em unidades horárias, por exemplo, segundos, minutos e horas. A FT está relacionada à quantidade de sessões de treino em um determinado período. Trocando em miúdos, a FT expressa o número de ST realizadas por certo tempo, que pode ser expresso em dias, semanas, mês, e assim por diante. Assim, tem-se a designação de frequência de treino diária, que representa o número de ST realizadas pelo atleta em um dia. É comum também a quantificação em termos de FT semanal. Nesse caso, a FT representa o número de ST realizadas em uma semana. A duração e a frequência podem ser condensadas e chamadas de volume de treinamento (VT). Portanto, o VT expressa a QT quando se quer referenciar a DT e FT em um determinado período. Dessa forma, se busca separar DT e FT da IT, em que pese a constante relação entre os fatores que compõem a QT (TUBINO; MOREIRA, 2003; ZATSIORSKY, 1999). Assim, tem-se que VT = DT × FT. Observando estes componentes, pode-se dizer que volume é o produto entre dois componentes, podendo ser frequência e duração de treinamento ou intensidade e duração de treinamento (BOMPA, 2002; 166 S U M Á R I O GOMES, 2009). A manipulação das variáveis intensidade, frequência e duração por parte dos treinadores determina a carga de treino. Dessa maneira, o atleta será exposto a essa manipulação que alternará períodos de carga de trabalho elevada com períodos de recuperação (BOMPA, 2002; FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008). Ao olhar fisiológico, cada modalidade irá necessitar, de acordo com o perfil que possui, o aumento direcionado mais para força, mais para a velocidade ou mais para a resistência, podendo haver ainda uma combinação entre elas. É necessário observar que o treinamento estará direcionado ao tipo de competição que o atleta está inserido ou será inserido. Atletas que apresentam uma característica de força de potência apresentarão melhores resultados em uma competição mais curta, uma finalização mais rápida, já os atletas que possuem uma resistência melhor apresentarão resultados melhores em competições de média duração (FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999). PRINCÍPIOS GERAIS DO TREINAMENTO Ao se falar de treinamento desportivo, é necessário atentar para alguns princípios gerais do treinamento. Princípios são diretrizes norteadoras (proposições diretoras) de determinada área de conhecimento. No caso do treinamento desportivo, os princípios são proposições que orientam a prática e a produção de conhecimento na área do treinamento desportivo. Logo, o planejamento de qualquer processo de treinamento deve estar calcado/fundamentado nos princípios do treinamento desportivo. Gobbi, Villar e Zago (2005) consideram os princípios como normas/regras a serem seguidas. Por conseguinte, são abordados a seguir o princípio da individualidade biológica, o princípio da adaptação, o princípio da especificidade do 167 S U M Á R I O treinamento, o princípio da carga progressiva, o princípio da relação ótima carga-repouso, o princípio da reversibilidade, o princípio da variabilidade do treinamento e o princípio da interdependência volume– intensidade de treinamento (VT–IT). Princípio da Individualidade Biológica: esse princípio explica a variedade entre elementos da mesma espécie. As diferenças individuais podem ser morfológicas e funcionais quanto às características e capacidades físicas. Essas diferenças também se manifestam em termos psicológicos, cognitivos e sociais, por exemplo, quanto aos componentes da personalidade. Nesse sentido, alguns aspectos devem ser considerados no que tange esse princípio, como os aspectos sociais, educacionais, ocupacionais, econômicos, nutricionais, viagens e monotonia (deficiência de variação nos treinos). Esses elementos, somados à carga genética de cada indivíduo, irão influenciar a resposta/resultado do treinamento, ocasionando uma adaptação ao treinamento de forma e tempo diferenciados (DANTAS, 2014; TUBINO; MOREIRA, 2003). O sucesso de qualquer programa de treinamentorequer respeito à individualidade biológica. Portanto, é importante considerar alguns procedimentos pertinentes à individualização do treinamento. Dentre esses procedimentos, destaca-se o levantamento da história clínica e esportiva do indivíduo, realização de exame físico, testes laboratoriais e testes físicos voltados para a avaliação da aptidão física e características físicas. No caso de pré-púberes e púberes, a maturação biológica também é um fator que deve ser considerado (RÉ, 2011). Desse modo, o treinador fica munido de informações que irão auxiliar na devida adequação do treinamento às características individuais em relação aos pontos fortes e fracos do indivíduo (GOBBI; VILLAR; ZAGO, 2005). O mesmo levantamento deve ser feito quanto às características psíquicas e sociais do atleta. Por exemplo, detectar 168 S U M Á R I O os traços de personalidade e os níveis de resiliência do esportista de combate (GAMA et al., 2018). Princípio da Adaptação: também denominado de Síndrome da Adaptação Geral (SAG) ou Fenômeno do Estresse, esse princípio versa sobre a adaptação do organismo aos estímulos de treinamento. Tem-se, então, as três fases que compõem a SAG: reação (ou alarme), adaptação (ou treinamento) e fadiga crônica (SELYE, 1978) (Figura 1). Todavia, a última fase é evitada no âmbito do treinamento desportivo, pois a fadiga crônica engloba o sobretreinamento (overtraining), o que pode afastar o atleta do processo de treino e competições ou até encerrar a carreira desportiva de forma precoce. A fadiga crônica orgânica ocorre quando os estímulos suplantam a capacidade de adaptação/defesa do organismo. Figura 1. Esquema do princípio da adaptação. AR: Aumento de rendimento. Fonte: os autores. 169 S U M Á R I O Observando-se a Figura 1, percebe-se que o organismo busca, a todo instante, manter um estado de equilíbrio dinâmico interno, conhecido como homeostase (ou homeostasia). Ao ser exposto a agentes estressores (ou estressantes), sejam estímulos de natureza física, bioquímica ou psíquica, o organismo sofre processos catabólicos (degenerativos). Para compensar tais efeitos deletérios, o organismo aciona mudanças, lançando mão de mecanismos compensatórios de defesa a fim de manter a homeostase. Essas mudanças são chamadas de alterações orgânicas, respostas agudas ou respostas imediatas. Caso esses agentes estressores sejam constantes/frequentes/ sistemáticos/regulares, o organismo se adapta, ou seja, sofre adaptações, as quais são denominas de respostas crônicas (tardias) ou efeitos de treinamento. Essas adaptações orgânicas proporcionam o aumento de rendimento (AR) (ROSA, 2009). A partir dessa elucidação, é possível conhecer o conceito de Qualidade de Treinamento. Os agentes estressores mencionados são os estímulos de treinamento. Por sua vez, esses estímulos são o tipo de treinamento, que nada mais é do que a Qualidade de Treinamento. É ela que determina as características das adaptações nos diversos sistemas orgânicos. A Qualidade de Treinamento é determinada pelos meios, métodos e organização metodológica do treinamento. Como exemplo, pode-se citar a corrida como um meio para o desenvolvimento do metabolismo aeróbico através do método contínuo (ou de duração). A organização metodológica está relacionada com a periodização do treino, que será abordada mais adiante. O conhecimento acerca da Qualidade de Treinamento viabiliza a divisão do treinamento em Treinamento Geral e Treinamento Específico. Para discernir um do outro é preciso observar as características da atividade/esforço/rendimento almejado, o que leva ao próximo princípio geral do treinamento. Princípio da Especificidade: a carga de treino deve ser direcionada para cada modalidade específica. A intensidade e o volume realizados 170 S U M Á R I O no treinamento devem objetivar melhorar características e sistemas fisiológicos fundamentais e são exigidos para um bom desempenho dentro de determinada modalidade, pois as adaptações serão específicas para as situações vivenciadas pelo atleta em competições (DANTAS, 2014; TUBINO; MOREIRA, 2003). O treinamento específico é constituído por estímulos/exercícios/solicitações específicas sobre o organismo, determinando efeitos específicos no organismo (sejam eles bioquímicos, morfológicos, psicológicos e/ou fisiológicos). Consequentemente, o treinamento específico ascende como o conteúdo mais importante para o treinamento, pois é ele quem determina as adaptações específicas no organismo, necessárias para o aumento de rendimento específico. Ou seja, o rendimento é dependente do treinamento específico (fator exógeno) e da capacidade de adaptação específica de cada indivíduo (fator endógeno). Apesar de relevante, o rendimento é prejudicado quando prevalece o treinamento de fatores gerais (Treinamento Geral) (WEINECK, 1999). Em qualquer âmbito de intervenção do treinamento desportivo, o rendimento apresenta uma composição multifatorial. A maioria das modalidades/disciplinas desportivas são dependentes de diferentes tipos de treinamento, que podem ter objetivos diferentes. A maioria das lutas, por exemplo, exigem um treinamento da resistência e da força específicos. Por estes treinamentos gerarem adaptações orgânicas diferentes, o organismo assume uma posição de compromisso em termos de adaptação frente e esses treinamentos concorrentes. É válido frisar, então, a importância de uma dosagem ideal do treinamento, visto que a maioria das lutas é dependente de componentes biologicamente diferentes e de importância diferente. Destarte, a dosagem ideal é determinada pela análise do rendimento desportivo, pelas particularidades individuais do atleta e por fatores exógenos (extrínsecos) (WEINECK, 1999). 171 S U M Á R I O Princípio da Sobrecarga Progressiva: também chamado de Princípio da Carga Progressiva. Nesse princípio, a carga de treinamento é tida como sinônimo de Quantidade de Treinamento (QT). Tal explicação é feita para evitar confusão com o conceito de carga externa, a qual diz respeito à quilagem ou massa mobilizada em um exercício e que corresponde à IT, enquanto a carga de treinamento abarca as três variáveis (IT, DT e FT). A sobrecarga é dimensionada tendo como base as características do indivíduo, o princípio da atividade biológica, as características do movimento ou da tarefa exigida e o princípio da especificidade. Parte-se do princípio de que estímulos mais fortes do que os habitualmente recebidos pelo indivíduo sejam implementados para que haja uma adaptação com o resultado de melhora do desempenho (DANTAS, 2014; TUBINO; MOREIRA, 2003). Simplificando, a QT deve estar relacionada ao rendimento (nível de desempenho esportivo/estado de treinamento) do indivíduo e com a capacidade de o indivíduo suportar tais cargas de treino. O aumento da QT dá-se pela manipulação da IT, DT e/ou FT. Em termos gerais, orienta-se que o aumento da QT seja primeiro através de uma maior DT, depois aumentar a FT, seguida pelo incremento da IT e redução das pausas durante as sessões de treino (WEINECK, 1999). Princípio da Relação Ótima Carga-Repouso: o equilíbrio entre o estímulo de treinamento e o tempo de recuperação são cruciais para os efeitos de treinamento, ou seja, para as adaptações que levam ao aumento de rendimento. Conforme visto no princípio da adaptação, durante uma sessão de treino, os estímulos de treinamento levam ao desgaste/depleção das reservas energéticas (como o glicogênio muscular e hepático), gerando uma diminuição momentânea da capacidade de rendimento. Com o repouso, alimentação e hidratação adequadas ocorre uma recuperação/restauração energética, que pode ser seguida de uma recuperação energética ampliada (também chamada de Assimilação Compensatória, Restauração Energética 172 S U M Á R I O Ampliada ou Supercompensação Energética) graças aos processos catabólicos (constitutivos) (ROSA, 2009) (Figura 2). Figura 2. Representação do princípio da relação ótimacarga-repouso. Fonte: Adaptado de Weineck (1999). O período da recuperação energética ampliada é o momento mais propício para a aplicação de um novo estímulo de treinamento. Esse fenômeno é conhecido como a lei fundamental de maior formação de energia. Quando há uma adequada relação entre o estímulo de treino e o repouso, ou seja, quando os intervalos são adequados, há o aproveitamento da supercompensação energética, levando à adaptação do organismo ao estímulo. Alguns fatores, tanto exógenos quanto endógenos, que devem ser considerados no estabelecimento do tempo de recuperação entre as sessões de treino são: alimentação, repouso/sono, nível de condicionamento, idade, sexo, Qualidade de Treinamento, Quantidade de Treinamento, viagens, estilo de vida e fatores ambientais. Intervalos curtos entre as sessões de treino podem desencadear o sobretreinamento. Por outro lado, intervalos demasiadamente longos levam a perda do estímulo (WEINECK, 1999), o que leva ao próximo princípio. 173 S U M Á R I O Princípio da Reversibilidade: também conhecido como princípio da continuidade do treinamento ou princípio da carga contínua, esse princípio parte do pressuposto que, ao parar de treinar, todas as adaptações sofridas pelo treinamento são gradativamente perdidas (DANTAS, 2014; TUBINO; MOREIRA, 2003). Ou seja, as adaptações não são permanentes e perduram, em termos qualitativos e quantitativos, em função da manutenção de um limiar de treinamento. O limiar de treinamento é o nível mínimo de estimulação (QT) necessário para que sejam desencadeadas adaptações orgânicas que acarretem AR. Nesse sentido, estímulos positivos acarretam AR, estímulos neutros mantém o estado de treinamento (ET) e estímulos negativos geram perda das adaptações (ROSA, 2009). Qualquer interrupção na continuidade no processo de treinamento diminui o rendimento do indivíduo pela perda de adaptações orgânicas. Assim sendo, a continuidade do treinamento é determinante para a consecução dos objetivos de treinamento. A continuidade e assiduidade ao treinamento são imprescindíveis para a obtenção do rendimento (performance/desempenho) almejado e para a constante evolução do rendimento. De tal modo, devem-se evitar interrupções no treinamento, executar repetições e controles frequentes, analisar os efeitos da QT, observar as qualificações obtidas e considerar as fases de desenvolvimento da forma desportiva (WEINECK, 1999). A ideia do programa de treinamento é levar um atleta ao máximo do seu desempenho para uma determinada competição que ocorrerá em uma data futura e que dentro deste treinamento sejam minimizados os riscos de overtraining, fadiga e até mesmo lesão. Dentro deste programa de treinamento, planeja-se mudanças de carga de trabalho em momentos e períodos específicos chamamos normalmente de periodização (FRANCHINI, 2001; TUBINO; MOREIRA, 2003). Princípio da Variabilidade do Treinamento: uma mesma tarefa de treinamento perde os efeitos em termos da QT, meios e método, 174 S U M Á R I O sendo necessário variar o treinamento. Porém, no desporto de alto rendimento, com o predomínio do treinamento específico, a possibilidade de variar o treinamento torna-se mais limitada. Dessa forma, o princípio da variabilidade requer maior atenção com atletas de alto nível, uma vez que a crescente especialização torna a variabilidade mais problemática. Assim, a possibilidade de escolher diferentes conteúdos, meios e métodos é menor, assim como as variações de IT, DT e FT (WEINECK, 1999). Princípio da Interdependência Volume-Intensidade de Treinamento (VT–IT): é importante lembrar que o Volume de treinamento (VT) expressa a Quantidade de Treinamento (QT) quando se quer referenciar a DT e FT em um determinado período. Nessa perspectiva, se busca separar DT e FT da IT, em que pese a presença e a constante relação entre os fatores que compõem a QT. O AR está sujeito do incremento da IT e do VT de forma interdependente, ponderando a performance desejada. Êxitos desportivos dependem de alta IT e grande VT, que são variáveis interdependentes. A estimulação predominante em cada sessão de treino depende do período de treinamento em que o atleta se encontra. A recomendação para aumentar VT e IT sem que ocorra sobretreinamento é por meio da alternância entre o aumento do VT e da IT e do balanceamento entre VT e IT. Isto recai sobre o caráter ondulatório do processo de treinamento, que será abordado no tópico Periodização do treinamento. Em geral, tem-se: maior VT, menor IT e vice-versa (WEINECK, 1999). Ainda sobre esse princípio, é válido destacar que a IT é determinante para o Grau de Eficiência de Treinamento (GET) e que a DT e a FT se relacionam com a formação de base (período de preparação básica). Portanto, o conceito de GET é essencial no âmbito do treinamento desportivo, tanto para otimizar o rendimento, quanto para identificar e reduzir os fatores determinantes de lesão (popularmente conhecido como prevenção de lesões). O GET é determinado pelo 175 S U M Á R I O quociente entre o AR alcançado e a QT em determinado período. Assim, pode ser representado pela seguinte fórmula: GET = AR/QT. O GET expressa a importância do treinamento “econômico”. Para tal, e válido pontuar a diferença entre “eficácia” e “eficiência”. Diz-se que um treinamento é eficaz quando determinado objetivo é alcançado, independentemente do tempo ou economia que levou. Em contrapartida, no treinamento eficiente, além do objetivo almejado ser alcançado, ele é alcançado com o menor dispêndio de energia (ou outro recurso, como tempo) possível. Ou seja, há economia de recursos, seja de energia, tempo e/ou outros. Para elucidar esses conceitos, é importante lembrar que a menor distância entre dois pontos é uma reta. Portanto, quando se segue uma reta para sair do ponto A (estado de treinamento atual) e chegar no ponto B (rendimento almejado), pode-se dizer que houve eficiência. No entanto, caso tenha desvios ao sair do ponto inicial, percorrendo curvas, aclives e declives, e só depois alcançar o ponto B, pode-se dizer que o caminho foi percorrido de forma eficaz, ou seja, o objetivo proposto foi alcançado, mas com maior dispêndio de recursos. PERIODIZAÇÃO DO TREINAMENTO A periodização é um processo de longo tempo que está inserido no treinamento. É uma variação lógica de cargas distribuídas ao longo do processo de treino, que influenciarão no condicionamento do atleta. Analogamente, a periodização pode ser pensada como um calendário do atleta. Ela é importante para evitar estagnação do nível de condicionamento e para evitar a síndrome do overtraining. A periodização é basicamente dividida no período de preparação (ou preparatório, englobando preparação geral e especial/específica), período de competição e período de transição (BOMPA, 2002; FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; MATVEEV, 1977). Na periodização, 176 S U M Á R I O equaciona-se dois problemas que devem ser solucionados: (1º) a distribuição dos intervalos de trabalho e tempo de repouso e (2º) a sequência lógica na montagem de estímulos e exercícios (BOMPA, 2002; FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008). Este processo de treinamento apresenta a característica de ser cíclico e possui um período chamado de Forma Desportiva, com duração de até 7 semanas, onde observa-se uma pré-disposição ótima para que o atleta atinja um resultado competitivo positivo próximo dos níveis máximos. Este período auxilia a identificação do Pico Competitivo, caracterizado pelo período em que estão potencializadas as eficiências físicas e psicológicas, assim como os níveis técnicos- táticos. Para isso, os treinadores devem estar atentos ao calendário competitivo previsto para o atleta (BOMPA, 2002; FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999). CONSIDERAÇÕES INICIAIS DOS CICLOS DE TREINAMENTO Os ciclos de treinamento são divididos em Microciclo (MiC), que compreende de 4 a 10 sessões de treinamento, porém o mais frequente compreende5 sessões, Mesociclo (MeC), que compreende os grupos de microciclos que possuem um objetivo em comum, e Macrociclo (MaC), que corresponde a um período de um semestre ou ano (Quadro 1) (MATVEEV, 1977; PLATONOV, 2004). Quadro 1. Disposição de uma planificação de treinamento com Microciclo, Mesociclo e Macrociclo. Microciclo 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 Mesociclo 1 2 3 4 5 Macrociclo 1 Fonte: os autores. 177 S U M Á R I O Dessa forma, a ordenação hierarquizada se dá com a Sessão de Treino, Microciclo (MiC), Mesociclo (MeC) e Macrociclo (MaC) (Figura 3). Figura 3. Sessão de treinamento, Microciclo (MiC), Mesociclo (MeC) e Macrociclo (MaC). Fonte: os autores. O treinamento é dividido em semanas com objetivos específicos. Geralmente, esta divisão corresponde a cinco semanas, sendo estas: Ordinária (composta de carga intermediária), Choque (aumento acentuado da carga em relação ao habitual), Aplicada (visa assegurar a preparação para competição), Competitiva (corresponde a própria carga da competição em si) e Recuperação (carga regenerativa colocada após a competição ou ao período de choque) (MATVEEV, 1977; PLATONOV, 2004). Alguns treinadores utilizam um período pré- competição, denominado de Polimento; neste período há uma redução na carga de treinamento objetivando uma recuperação completa e maximização do desempenho (FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008). CONCEITOS GERAIS DA PERIODIZAÇÃO É possível dividir o processo de periodização em segmentos definidos pela duração de cada um. Duas nomenclaturas são possíveis: a primeira o subdivide em pré-temporada, temporada e 178 S U M Á R I O fora da temporada. Neste momento, será abordada a segunda forma de definir o processo de periodização utilizando os termos sessão de treino, microciclo (MiC), mesociclo (MeC) e macrociclo (MaC) e serão apresentadas as características primordiais de cada um (MATVEEV, 1977; PLATONOV, 2004). Sessão de treino A sessão de treino é a unidade fundamental. O grupamento das sessões de treino de um dia constitui a unidade de treinamento, que nada mais é do que o dia de treino, este sendo composto pela sessão de treino. Cada dia do treinamento poderá possuir uma ou mais sessões de treino (FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999). O tempo de duração de cada sessão de treino costuma variar de 45 a 120 minutos, dependendo do objetivo. Existem 2 tipos de sessões de treino: a sessão de controle, que visa avaliar a evolução do atleta e a eficácia do processo de treinamento e a sessão de treino propriamente dita, que visa promover o ensino de técnicas, táticas e o próprio aperfeiçoamento do desempenho do atleta (FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999). A elaboração da sessão de treino pode variar de acordo com a modalidade do esporte e aí teremos o princípio da especificidade sendo colocado em prática, desenvolver o conteúdo da sessão dentro do objetivo específico para aquela modalidade esportiva (GOMES, 2009). Para elaborar o conteúdo da sessão de treino é necessário que o treinador observe o nível de experiência do atleta e, com isso, determinar o tipo de treino e a respectiva intensidade e volume de treinamento (FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999). 179 S U M Á R I O Basicamente, uma sessão de treino deve estar dividida em 3 partes: 1ª) composta por um começo gradual, onde o objetivo de treino é passado ao atleta e inicia com um aquecimento constituído por alongamento sem o intuito de melhorar a flexibilidade, mas simplesmente promover uma justaposição das fibras musculares para o início da segunda parte da sessão de treino; 2ª) composta pelo conteúdo propriamente dito, podendo ser fundamentos técnicos, trabalho de potência força, velocidade, entre outros; 3ª) é a conclusão do treino e é composta por uma atividade de volta à calma que visa trazer o atleta aos parâmetros cardiorrespiratórios próximos do repouso (FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999). Microciclo (MiC) O MiC tem duração média de 7 a 10 dias, podendo atingir 14 dias. Dependendo da característica, pode ser definido como de treinamento, preparatório de controle, pré-competitivo e competitivo. O microciclo de treinamento objetiva ajustar a carga de treino. Neste está inserido o MiC de choque (2 a 3 unidades de treino com 80-100% da carga máxima), MiC ordinário (2 a 3 unidades de treino com 60-80%), MiC estabilizador (40-60% com objetivo de manter o estado funcional do atleta), MiC recuperativo (10-40% com o objetivo de recuperação do atleta) (FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999; MATVEEV, 1977). O microciclo preparatório de controle segue a etapa de treino e verifica o nível de preparação do atleta. O microciclo pré-competitivo visa assegurar o estado de prontidão do atleta para a data da competição, geralmente entre o 5º e 10º dia anterior à data estabelecida. Não se recomenda cargas máximas de treino neste período (FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999; MATVEEV, 1977). O microciclo competitivo assegura as características do trabalho realizado 180 S U M Á R I O previamente, com estrutura e duração adaptadas ao regulamento e organização da competição em questão (FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999; MATVEEV, 1977). Mesociclo (MeC) O mesociclo tem duração média de 4 semanas (podendo ser de 2 a 6 semanas). É o conjunto de microciclos e possui nomenclatura variável, pode ser fundamentada no objetivo característico, orientação de trabalho ou período (FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999; MATVEEV, 1977). Relacionado ao objetivo, o mesociclo pode ser acumulativo (visa aumentar o potencial do atleta), de transferência (direciona o condicionamento físico não específico para a preparação física e tática específica) ou competitivo (objetiva o melhor desempenho do atleta) (FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999; MATVEEV, 1977). De acordo com o trabalho a ser realizado, o mesociclo pode ser definido como fase de hipertrofia (para ganho de massa muscular), fase de força (desenvolvimento da força máxima), fase de potência (incremento da potência muscular), fase de pico (concentra-se no pico de desempenho) e fase de recuperação (recuperação física e psicológica) (FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999; MATVEEV, 1977). A nomenclatura usual utilizada baseia-se no período. Assim, o mesociclo de incorporação dá início ao processo de preparação desportiva (composto por MiC recuperativo de manutenção, estabilizador e/ou ordinário). O mesociclo geral, que pode ser de desenvolvimento (visa o incremento da capacidade do atleta) ou 181 S U M Á R I O estabilizador (visa a manutenção das características aprimoradas anteriormente). O mesociclo recuperativo objetiva a recuperação do atleta. O mesociclo pré-competitivo atua na preparação para o evento competitivo principal e o competitivo é determinado pelo calendário dos eventos que o atleta está inserido (FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999; MATVEEV, 1977). Macrociclo (MaC) O MaC tem duração aproximada de 1 ano e refere-se a toda temporada competitiva (preparação, competição e transição). É composto por 1 ou mais mesociclos. Os períodos podem ser classificados de acordo com as fases que o compõem: preparatório, competitivo e transitório (FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999; MATVEEV, 1977). O período preparatório está relacionado à aquisição da forma desportiva e tem duração mínima de 6 semanas. Esse período apresenta dois momentos, a preparação física, em que são desenvolvidas as capacidades físicas não específicas e o de pré-competição com objetivo de fazer o ajuste final para a competição. O período competitivo objetiva a manutenção dos níveis atingidos e o transitório caracteriza- se pela perda momentânea da forma desportiva (FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999; MATVEEV, 1977).Elaboração da Sessão de treino Cada dia de treino é composto por, pelo menos, duas sessões de treino, uma onde se objetiva trabalhar os fundamentos técnicos e táticos, outra onde são trabalhados a melhora do desempenho físico 182 S U M Á R I O do atleta com exercícios de força, potência e velocidade, treinos de musculação e aeróbico (FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999; MATVEEV, 1977). As sessões de treino com objetivo de trabalhar fundamentos técnicos visam o aprimoramento do gesto motor específico da modalidade. Assim, o treino da técnica deve ser realizado antes da sessão de treinamento com o objetivo de melhorar o condicionamento, evitando, desta forma, que o atleta realize a sessão de treino sob o efeito de algum tipo de fadiga (GOMES, 2009; FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999). Ao elaborar a sessão de treino com o objetivo de melhora no desempenho físico, deve-se observar o chamado efeito concorrente. Quando são dispostos, na mesma sessão, exercícios ou atividades que priorizam força e resistência, sabe-se que o trabalho realizado nas atividades de resistência exigirá, por um longo período, a resposta do sistema neuromuscular e, consequentemente, prejudicará o desempenho nas atividades que priorizam força. É necessário, portanto, determinar, dentro de cada sessão, qual será o objetivo principal. Mediante esse objetivo, dar ênfase à força ou à resistência (GOMES, 2009; FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999). A literatura apresenta duas concepções para determinação da carga na sessão de treino. A primeira, chamada de paralela e simultânea, visa o aperfeiçoamento multifacetado de diversas funções. A segunda, chamada de concentrada e unilateral, promove o processo de adaptação mais intenso (GOMES, 2009). Para o sucesso na elaboração de um programa de treino deve-se observar o princípio da especificidade, identificando as variáveis específicas que são necessárias de serem estimuladas dentro do treinamento (DANTAS, 2014; GOMES, 2009). 183 S U M Á R I O Em sessões de treinos de lutas, mesmo observando o princípio da especificidade, é necessário inserir um maior volume de meios para o desenvolvimento das qualidades de força explosiva, os quais devem envolver exercícios fundamentais, sendo estes compostos por elementos técnicos e táticos da modalidade. No que tange ao elemento físico, objetiva-se o fortalecimento dos grupamentos musculares envolvidos no gesto motor da técnica/golpe a ser realizada e exercícios especiais complementares, visando estimular e fortalecer as regiões de sustentação do corpo e os grupamentos musculares que as compõem. Os exercícios especiais devem ser trabalhados com uma intensidade menor, sendo direcionados para a dinâmica da luta propriamente dita (FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999). É necessário ter a consciência de que mesmo que os exercícios fundamentais e complementares sejam importantes no treinamento, a utilização de atividades com movimentos genéricos tem a necessidade no que se refere à estimulação de padrões de recrutamentos neuromusculares, características biomecânicas e aporte dos sistemas energéticos (GOMES, 2009; FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008). Com relação à estruturação da sessão de treino, parece haver uma uniformidade na literatura em relação às lutas, objetivando respostas de potência aeróbica e anaeróbica. Esta apresenta a seguinte divisão: a) Aquecimento: 15 min; b) Fundamentos técnicos: 20 min; c) Treino de combate: de 20 a 100 min; d) Recuperação: 15 min (FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999). Observa-se que a divisão da sessão de treino obedece às três partes mencionadas anteriormente, iniciando com o aquecimento, tendo o trabalho fundamental composto por “c” e “d”, onde o treino de combate apresenta um alto volume composto por um bloco de até dez lutas de 5 min com o mesmo tempo de descanso entre as 184 S U M Á R I O lutas (GOMES, 2009; FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2008; ISHIKAWA; DRAEGER, 1999). Como já mencionada a importância da capacidade e potência aeróbica e sua treinabilidade, é necessário diferenciar as duas e apresentar uma forma de medir e controlar o esforço desse treinamento (McARDLE; KATCH; KATCH, 2018). A potência aeróbica está relacionada diretamente ao VO2máx ou VO2 pico, enquanto a capacidade aeróbica está relacionada com a velocidade de limiar anaeróbico. Assim, pode-se dizer que o VO2 máx ou VO2 pico representam o limite superior de transferência de energia na atividade aeróbica, enquanto a capacidade aeróbica relacionada à sustentação do esforço por um período prolongado de tempo, geralmente superiores a 45 minutos (McARDLE; KATCH; KATCH, 2018). A relação direta entre o VO2máx e a FC (Quadro 2) será a ferramenta utilizada para o controle de carga e esforço no treinamento aeróbico (McARDLE; KATCH; KATCH, 2018; POLLOCK; WILMORE, 1993). Quadro 2. Critérios de relação de equivalência, comumente utilizado para prescrição de treinamento aeróbico. VO2máx FC máxima Zona Alvo 100% 100% Zona Anaeróbica 83% 90% Zona Mista 70% 80% Zona Aeróbica Glicolítica 56% 70% Zona Aeróbica Lipolítica 42% 60% Zona Aeróbica Lipolítica 28% 50% Zona de Manutenção Legenda: – Consumo máximo de oxigênio; FC – Frequência Cardíaca Fonte: os autores. 185 S U M Á R I O O cálculo para se determinar as zonas alvos e a respectiva carga do treinamento aeróbico estão a seguir: FC máx = 220 – idade FC rep = (aferida em repouso) FC treino = [(FC máx– FC rep) x % desejado] + FC rep. Como já foi comentado anteriormente, o treinamento concorrente deve ser observado no momento das determinações de zona alvo a serem trabalhadas, já que a intensidade do exercício aeróbico apresenta uma interferência significativa no treinamento de força. Como ambos os treinos fazem uso do sistema musculoesquelético, a combinação dos dois treinos dentro da mesma sessão deve ser indiretamente proporcional, para permitir ao organismo uma correta adaptação ao estímulo (McARDLE; KATCH; KATCH, 2018; POLLOCK; WILMORE, 1993). Figura 4. Modelo de mesociclo. Fonte: Adaptado de Dantas (2014). 186 S U M Á R I O CONCLUSÃO Todo o arcabouço teórico apresentado no presente capítulo é importante para que o treinamento de lutadores seja devidamente estruturado, possibilitando o aumento do rendimento do atleta de forma orgânica, prevenindo lesões, sobretudo por overtraining, e viabilizando que os demais objetivos do treinamento sejam alcançados. REFERÊNCIAS BÖHME, M. T. S. Treinamento a longo prazo e o processo de detecção, seleção e promoção de talentos esportivos. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 21, n. 2, p. 4-10, 2000. BOMPA, T. O. Periodização: teoria e metodologia do treinamento. São Paulo: Phorte, 2002. DANTAS, E. H. M. 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ZATSIORSKY, V. Ciência e prática do treinamento de força. São Paulo: Phorte, 1999. 188 S U M Á R I O ORGANIZATION AND PERIODIZATION OF TRAINING APPLIED TO FIGHTS Abstract The purpose of this chapter is to introduce the reader to the basic concepts of sports training, which interfere with the planning and periodization of training applied to fights. Therefore, this chapter discusses concepts, general characteristics and training phases (basic stage, development stage, and high-level stage), the principles of sports training (principle of individuality, adaptation principle, principle of specificity of training, principle of progressive load, principle of optimal load-rest ratio, principle of reversibility, principle of the variability of training, and principle of interdependence volume-intensity of training), the training periodization, including information about the training cycles (macrocycle, mesocycle, and microcycle), and the formulation of the training session. This entire theoretical framework is important for the training of fighters to be properly structured, enabling the increase of the athlete’s performance in an organic way and the achievement of other training objectives. Capítulo 6 ASPECTOS DO TREINAMENTO DE LUTAS NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA Roberto Corrêa dos Anjos DOI: 10.31560/pimentacultural/2021.601.189-224 6 Roberto Corrêa dos Anjos ASPECTOS DO TREINAMENTO DE LUTAS NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA 190 S U M Á R I O INTRODUÇÃO Tratar de treinamento desportivo aplicado às lutas, de forma genérica, é tarefa espinhosa. Sobre um olhar lato, as lutas têm características variadas, e sob um caráter stricto, há de se considerar que uma mesma luta pode apresentar estilos diferentes, com dissonâncias em seus processos de ensino, além de divisões em categorias de peso. Se focarmos a discussão no processo de treinamento aplicado às crianças, o tema se torna ainda mais tempestuoso, pois teremos que enfrentar a visão equivocada, na concepção deste autor, de que crianças não devem ser expostas a processos de treinamento voltados a alta performance competitiva. De Rose (2009) menciona que muitos pais, professores e pesquisadores questionam os efeitos negativos que as competições desportivas e processos de treinamento sistematizado podem causar às crianças, quando aplicados de forma precoce. Como veremos, não há contraindicações em inserir crianças em programas de treinamentos desportivos especializados, tampouco permitir a participação em competições. É preciso garantir, entretanto, que os programas de treinamento, bem como os modelos das competições, sejam compatíveis com cada fase de desenvolvimento, crescimento e maturação da criança. Ainda é insipiente a literatura tratando de treinamento desportivo aplicado às diferentes lutas e, assim como ocorre com outras modalidades, esta produção se concentra nas abordagens referentes à fase final do processo de treinamento. São raras as produções destinadas a discutir o processo de treinamento à longo prazo, iniciando com a detecção e seleção dos jovens talentos esportivos, passando pela formação geral básica, até atingirmos o treinamento de alta performance. Para Samulski et al. 191 S U M Á R I O (2013), um exame da literatura disponível em fisiologia do exercício aplicada a infância e os efeitos da atividade física com crianças e adolescentes, em seus aspectos agudos e adaptações biológicas crônicas, demonstra que é carente em muitos aspectos. Sem nenhuma pretensão de esgotar o tema, o presente capítulo visa apresentar uma proposta de discussão que considere a necessidade de iniciarmos o treinamento de alta performance nas lutas o mais cedo possível, se o objetivo é a obtenção de resultados competitivos expressivos. Com este objetivo, apresentamos o conceito de treinamento à longo prazo, perpassando as fases do treinamento básico, do treinamento específico e do treinamento de alto desempenho desportivo. Em cada uma das etapas tratadas faremos uma breve reflexão sobre os modelos de competições esportivas, que acabam por impor uma antecipação precoce dos resultados e, como consequência, a queima de etapas que leva a desgastes além do suportável para as crianças-atletas, sejam estes de ordem física, psíquica ou social. De acordo com Relatório Sistêmico de Fiscalização (Fisc), elaborado pela Secretaria de Controle Externo da Educação, da Cultura e do Desporto, do Tribunal de Contas da União (TCU), no qual são avaliadas questões estruturais relativas à execução orçamentária e aos indicadores da política desportiva nacional, dados de uma pesquisa internacional realizada pelo consórcio Sports Policies Leading to Internacional Sporting Success (SPLISS), divulgada em meados de novembro de 2013, evidenciam que o Brasil está entre as nações que mais aportam recursos no esporte, mas aplica mal estes recursos com resultados deficientes, especialmente no que tange ao esporte de base, detecção de talentos e instalações esportivas (BRASIL. TCU, 2017). 192 S U M Á R I O Segundo dados da Universidade de São Paulo [...] na comparação com os outros países, o Brasil ficou acima da média das outras nações apenas nos pilares suporte financeiro (47%) e competições nacionais e internacionais (50%). Em contraponto, as áreas de esporte de base, identificação de novos talentos e instalações esportivas foram os pilares em que o Brasil obteve os piores resultados. Nessa ordem, a pesquisa identificou 24%, 0% e 11% dos FCS. (Grifo nosso) (BRASIL. TCU, 2017, p. 119). Acreditamos que a implementação de políticas voltadas para o desenvolvimento do desporto de base, considerando a necessidade de estruturação de programas de treinamento a longo prazo, constitui condição para que o Brasil atinja um patamar de destaque nos grandes eventos desportivos internacionais de lutas. Não nos dispomos a discutir questões políticas e ideológicas que apontem para a adequação, ou não, de aporte de recursos públicos no desporto de alto rendimento, uma vez que o nosso objetivo fulcral foi limitar a discussão aos temas afetos ao desenvolvimento humano e ao treinamento desportivo propriamente dito. Também não iremose técnicas motoras. São enfatizados os aspectos sobre o processamento da informação, a tomada de decisão, feedback, a memória e a atenção no ensino das lutas; assim como o conhecimento do resultado e a sua função no aprendizado motor; e a importância da prática no ensino das tarefas motoras nas lutas. Assim, o autor espera contribuir para a 14 S U M Á R I O compreensão dos aspectos referentes a execução dos movimentos na perspectiva das áreas aludidas, possibilitando ao leitor a elaboração de estratégias eficientes que garantam o sucesso do processo de ensino-aprendizagem das habilidades e técnicas motoras inerentes a prática das lutas. O treinamento e aperfeiçoamento das capacidades físicas e motoras aplicadas são discutidos pelo professor Sidnei Jorge Fonseca Junior no Capítulo III. O autor chama a atenção para a especificidade do treinamento ao argumentar que para que as habilidades motoras desempenhadas em lutas sejam realizadas com eficácia - as capacidades físicas e motoras devem interagir e serem treinadas de acordo com as especificidades de cada tipo de modalidade de luta. Para tanto, a equipe técnica necessita compreender as características do combate e dos possíveis adversários para planejar e escolher o melhor método de treino - para a coordenação motora, resistência aeróbia e anaeróbia, velocidade, tipos de força muscular e da flexibilidade. Embora a literatura ainda não apresente um quantitativo relevante de estudos científicos com lutadores de algumas modalidades, apoiado em estudos científicos, o autor tece uma reflexão sobre os métodos de treinos descritos em artigos e livros de reconhecimento internacional, relacionando-os às lutas e destacando a sua importância como base de conhecimentos necessários para aumentar a eficiência do treinamento das capacidades físicas e motoras dos praticantes. Admite-se que dentro de um processo de treinamento e preparação física, a avaliação é o marco inicial e fornecerá informações necessárias sobre as características morfofuncionais do atleta que servirão de base para se estabelecer os parâmetros de treinamento a serem realizados. Com base nesta exposição, no Capítulo IV os professores Carlos Alberto de Azevedo Ferreira e Rodolfo de Alkmim Moreira Nunes apresentam ao leitor, dentre os diversos protocolos de avaliações existentes na literatura nas áreas da antropometria, 15 S U M Á R I O neuromuscular (força e flexibilidade) e metabólica, os que mais se aplicam aos atletas de luta. Os instrumentos e procedimentos descritos no texto permitem ao leitor conhecimentos básicos para a serem aplicados no ensino ou treinamento, a fim de obter informações fundamentais para a tomada de decisão, para a orientação e para a melhoria do processo. No Capítulo V os professores Carlos Alberto de Azevedo Ferreira, Juliana Brandão Pinto de Castro e Rodrigo Gomes de Souza Vale apresentam ao leitor os conceitos do treinamento desportivo, que interferem no planejamento e periodização do treinamento aplicado às lutas. Os autores discorrem sobre conceitos, características gerais e fases do treinamento (etapa de base, etapa de desenvolvimento e etapa de alto nível), os princípios do treinamento desportivo (princípio da individualidade, princípio da adaptação, princípio da especificidade do treinamento, princípio da carga progressiva, princípio da relação ótima carga-repouso, princípio da reversibilidade, princípio da variabilidade do treinamento e princípio da interdependência volume- intensidade de treinamento), a periodização do treinamento, incluindo informações sobre os ciclos de treinamento (macrociclo, mesociclo e microciclo) e a elaboração da sessão de treino. Todo o arcabouço teórico apresentado neste capítulo é importante para o treinador de lutadores para que ele possa estruturar o treinamento, possibilitando o aumento do rendimento do atleta de forma orgânica e que os demais objetivos do treinamento sejam alcançados. Ao considerar que o rendimento esportivo é alcançado após longo período de preparação, o professor Roberto Corrêa dos Anjos buscou apresentar no Capítulo VI uma proposta de discussão que considere a necessidade de iniciar o treinamento de alta performance nas lutas o mais cedo possível - se o objetivo é a obtenção de resultados competitivos expressivos. O autor partiu da premissa de que se os atletas nos desportos de combate atingem níveis 16 S U M Á R I O internacionais por volta dos 17 anos de idade e que a duração de um treinamento em longo prazo em modalidades de natureza aberta, com forte componente motor e alto nível de imprevisibilidade gira em torno de 10 anos, o treinamento deve ter início por volta dos 7 anos de idade. Segundo o autor, a iniciação desportiva na primeira infância não se configura como especialização precoce, desde que respeitadas as fases de desenvolvimento, crescimento e maturação dos praticantes. Anjos apresenta ao leitor informações sobre como são divididas as fases do treinamento em longo prazo (3 fases): treinamento geral básico; treinamento especializado e treinamento de alto desempenho, destacando que as fases subsequentes são dependentes do sucesso obtido no treinamento nas fases anteriores. Assim como no treinamento esportivo, as lutas podem apresentar diferentes manifestações - arte marcial, defesa pessoal, promoção da saúde, entre outras -, que podem estar presentes em ambientes distintos que vão desde o meio militar até a escola. Com foco principal na educação escolar, no capítulo VII o professor Ricardo Ruffoni procurou apresentar, discutir e refletir sobre questões metodológicas e educacionais ligadas a prática das lutas - em especial, para crianças entre 07 (sete) e 12 (doze) anos. O texto foi construído a partir da revisão integrativa de estudos direcionados para a prática pedagógica da Educação Física e de estudos na área de lutas. O autor elaborou um breve histórico da Educação Física, com o objetivo de possibilitar ao leitor conhecer e entender o processo das tendências, das abordagens pedagógicas e das metodologias de ensino como condição sine qua non na formação do aluno na educação contemporânea. Segundo Ruffoni os profissionais das lutas precisam buscar e cumprir um processo de construção e socialização de conhecimentos, habilidades e competências para conectar o aluno ao mundo real. Este processo implica na quebra do paradigma tecnicista, biologizante, desportivizante e reprodutor por meio de estilos de ensino diretivos, como elemento fundamental para romper 17 S U M Á R I O com o ciclo de reprodução social tanto na Educação Física quanto na prática das lutas. Assim, o professor apresenta ao leitor metodologias de ensino menos diretivas como proposta norteadora para a formação integral do aluno na prática de lutas. O caráter pedagógico das lutas é reforçado no Capítulo VIII, no qual o professor José Antonio Vianna procurou colocar à disposição de instrutores e professores no ensino de lutas – leitores em potencial desta obra -, informações úteis para ampliar e aprofundar a reflexão sobre os aspectos didáticos no ensino das lutas. Os conceitos presentes no texto sobre os aspectos didáticos necessários a organização do planejamento no ensino pode contribuir para o professor transformá- los em ações concretas nas aulas, aumentando as suas chances de sucesso no ensino e no treinamento das lutas. O ato de elaborar planejamentos coerentes com a realidade, de forma clara e objetiva embasa a prática. Com isso, é possível entender que o planejamento configura-se como um fator determinante na qualidade do ensino e dos treinos, seja porque a partir dele o professor poderá ter mais segurança ao desenvolver os conteúdos das aulas, ou ainda, porque o mesmo poderá realizar avaliações de forma mais eficiente ao longo do todo o processo. Com a finalidade de auxiliar a prática dos profissionais de lutas no que tange o ato de planejar, no Capítulo IX os alunos da turma de pós-graduaçãotratar dos processos de seleção, detecção e promoção de talentos esportivos, embora sejam imprescindíveis para a construção de um programa de treinamento a longo prazo. Como dissemos acima, este capítulo é só uma introdução ao debate sobre uma das variáveis que talvez possa explicar por que o Brasil tem obtido resultados pífios nos grandes eventos desportivos internacionais. 193 S U M Á R I O TREINAMENTO DESPORTIVO A LONGO PRAZO NAS LUTAS: CONCEITOS E IMPLICAÇÕES Antes de adentrarmos no tema principal, é importante deixarmos claro que trataremos dos aspectos do treinamento desportivo aplicado às crianças e adolescentes com o objetivo de obtenção de alto desempenho nas competições internacionais, embora reconheçamos que existem outras perspectivas por meio das quais o tema poderia ser tratado. Segundo Tani et al., citados por Ferraz (2009, p. 46), a prática desportiva pode ser dividida em duas óticas: a prática lúdica informal e a prática institucionalizada do esporte de rendimento. Para o autor, enquanto a primeira objetiva aprendizagem e difusão do esporte, a segunda visa à competição mediante treinamento sistematizado e específico, ocupando-se do talento esportivo. TREINAMENTO DESPORTIVO - CONCEITOS Quando falamos de treinamento de maneira genérica, nos referimos ao processo sistêmico, gradual e organizado que, por meio da repetição de exercícios e tarefas cada vez mais complexas, visa o aprimoramento de habilidades e capacidades, sejam essas físicas, psíquicas, cognitivas ou sociais, ou de todas elas simultaneamente, voltado para um objetivo pré-determinado, em um dado momento e área específica. Da definição acima decorre que processos de treinamento se aplicam a qualquer fase da vida e a qualquer área de conhecimento, atuação profissional, prática desportiva, atividades voltadas para a 194 S U M Á R I O saúde e qualidade de vida, em síntese, todas as vezes que predefinimos um objetivo, seja este individual ou coletivo, devemos estabelecer um planejamento para que, paulatinamente, ocorra o desenvolvimento de capacidades e habilidades que possibilitarão caminhar na tentativa de atingir o sucesso planejado, no tempo previsto. No caso do treinamento aplicado às práticas desportivas, esse planejamento pode estar voltado para o desporto de alto desempenho, para o desporto de participação ou para o desporto educacional. No presente ensaio, cuidamos exclusivamente do primeiro. Para BARBANTI (1997, p. 1), O treinamento esportivo é um processo organizado de aperfeiçoamento, que é conduzido com base em princípios científicos, estimulando modificações funcionais e morfológicas no organismo, influindo significativamente na capacidade de rendimento do esportista. De acordo com Carl (1989), citado por Weineck (1999, p. 18), “treinamento desportivo é o processo ativo complexo regular planificado e orientado para a melhoria do aproveitamento e desempenho esportivos”. TREINAMENTO APLICADO AOS DESPORTOS DE LUTA Planejar um programa de treinamento voltado para os desportos de lutas é tarefa por demais complexa. Primeiro porque cada manifestação: boxe, judô, caratê, luta livre olímpica, MMA, tae- kwon-do, jiu-jitsu, dentre outras, tem suas características condicionais e coordenativas predominantes. Além disso, tendo em vista que, geralmente, existem divisões por categorias de peso em quase 195 S U M Á R I O todas elas, essas características irão variar dentro de uma mesma modalidade. Devemos considerar, ainda, que algumas modalidades têm diferentes “estilos”, privilegiando mais ou menos algumas capacidades condicionantes e coordenativas. Em síntese, o princípio da individualização deve ser a tônica no planejamento do treinamento de uma equipe de lutadores. No Brasil, o treinamento desportivo normalmente se reporta à fase final do processo, ou seja, para o “treinamento de alto desempenho” (WEINECK, 1999), voltado para a lapidação das habilidades motoras específicas da modalidade (treinamento técnico), o aprimoramento das capacidades físicas condicionantes, que irão variar de acordo com cada luta (treinamento físico) e a elaboração de estratégias vinculadas às circunstâncias especiais da competição e dos adversários (treinamento tático). Quando muito, embora raro no Brasil, implementa-se a preparação psicológica para o enfrentamento das angústias, ansiedade e pressões sofridas diante dos desafios do treinamento e do momento da disputa, especialmente nos super eventos esportivos, como campeonatos mundiais e Jogos Olímpicos. Não é raro identificarmos atletas que não conseguem obter resultados expressivos por conta de fatores emocionais, apesar de se encontrarem em nível superior ao de seus principais oponentes no que diz respeito às questões técnicas e físicas. Outra variável determinante nos esportes de combate é a capacidade cognitiva do atleta, uma vez que a imprevisibilidade exige a constante tomada de decisão em curtíssimo espaço de tempo, diante da necessidade de antecipação das ações diferidas pelos adversários e da estruturação das ações ofensivas, que requerem percepção do momento exato de execução e precisão. A execução de habilidades motoras relaciona-se com as capacidades motoras condicionais (dependentes da capacidade metabólica de geração de energia), com as capacidades motoras 196 S U M Á R I O coordenativas (dependentes da capacidade de organização e controle do movimento) e também com o conhecimento cognitivo (decisão da ação motora adequada em determinado contexto) (BÖHME; RÉ, 2009, p. 176). Diante de todas essas variáveis, surge naturalmente o questionamento referente ao momento ideal para início do treinamento desportivo voltado para a obtenção de resultados em competições internacionais de lutas. O MELHOR MOMENTO PARA O INÍCIO DO TREINAMENTO DAS LUTAS Pesquisa realizada por Olívio Junior et al. (2009) demonstrou que quase 60% dos técnicos participantes do estudo apontam a idade entre 5 e 7 anos como a ideal para o início da prática do Judô. Nos parece fidedigno afirmar que, essa faixa de idade é estabelecida pela experiência empírica dos técnicos e pela procura espontânea dos pais por uma atividade desportiva na qual possam inserir seu filhos, mas não em função de políticas de detecção e seleção de talentos desportivos e planejamento de treinamento a longo prazo, cientificamente estruturados visando a obtenção de resultados expressivos em competições internacionais no futuro. A literatura especializada é consensual em afirmar que um processo de treinamento a longo prazo dura de 6 a 12 anos, variando de acordo com cada modalidade. Para Weineck (1999, p. 118) “um alto desempenho só pode ser obtido através de uma preparação sistemática, que para muitas modalidades esportivas chega a ser de 6 a 10 anos”. 197 S U M Á R I O De acordo com Massa et al. (2010, p. 412), Outro fator que merece ser considerado diante das perspectivas do TLP é que entre as distintas modalidades esportivas há uma variação quanto ao início e a duração do TLP e de seus respectivos níveis, assim como os processos de detecção, seleção e promoção de talentos esportivos. Essa variação, em média, é da ordem de 6 a 10 anos de duração. (Grifo nosso) Para Böhme, et al. (2009, p. 175) “o treinamento para o esporte de alto nível fundamenta-se em um processo de treinamento a longo prazo (em média de 6 a 10 anos de duração, conforme a modalidade esportiva)”. GOMES (2009) defende que o programa de treinamento a longo prazo deve ser construído por meio de projetos científicos, com duração entre 2 a 3 ciclos olímpicos, ou seja, de 8 a 12 anos, iniciando no processo de seleção do jovem atleta, perpassando todos os degraus formativos até atingir o alto rendimento. Alguns parâmetros são determinantes para a definição da melhor idade para que se inicie o treinamento a longo prazo. O primeiro deles é a idade em que os atletas das diferentes modalidades desportivas, no caso de nosso ensaio atletasde lutas, atingem os níveis internacionais em competições seniores. De acordo com Filin (1996), citado por Olívio Junior et al. (2009), atletas das modalidades de lutas obtêm os primeiros resultados internacionais em campeonatos mundiais e Jogos Olímpicos entre 17 e 21 anos, e atingem a zona de melhor rendimento entre 22 e 24 anos. Esta afirmação corrobora com estudos que apontam que os atletas de lutas, após atingirem níveis internacionais, levam de 4 a 6 anos para apresentarem resultados expressivos nessas competições. O planejamento do TLP para cada modalidade esportiva deve ocorrer do final para o começo, ou seja, com base na idade de início do alcance dos melhores resultados, faz-se uma 198 S U M Á R I O retrospectiva de qual deve ser a idade de início do treinamento para a formação específica na modalidade considerada (BÖHME; RÉ, 2009, p. 180). Realizando a conta de traz para frente, tendo 17 anos como a idade mínima em que os atletas começam a surgir nas competições internacionais, precisamos definir qual o período de duração do treinamento a longo prazo: se no limite inferior (6 anos) ou superior (12 anos). Para isso, precisaremos entender o que justifica a existência dessa variação que, na visão de alguns autores, pode chegar a 6 anos. As modalidades desportivas diferem em função das suas capacidades coordenativas e condicionantes predominantes. Algumas irão exigir altíssimo grau de flexibilidade, como a ginástica artística, outras ritmo, como nado sincronizado e ginástica rítmica. Algumas terão como predominante a capacidade força, como o halterofilismo e o arremesso de peso, outras a velocidade como as corridas curtas. Assim, cada modalidade irá exigir do praticante um maior ou menor grau de disponibilização de capacidades diferentes. No caso das lutas, essa análise não é tão simples, pois como falamos, cada uma tem suas características singulares e, dentro de uma mesma modalidade, as exigências irão variar de acordo com as categorias de peso. Espera-se, por exemplo, que um atleta de boxe da categoria Peso Mosca Ligeiro (- de 49 quilos) precise trabalhar intensamente capacidades como velocidade e resistência aeróbia, uma vez que a luta tende a ser realizada com uma movimentação mais constante do primeiro ao último round, enquanto um atleta com mais de 91 quilos, da categoria Superpesado, intensifique os treinamentos das capacidades de força e potência, considerando que a movimentação durante a luta é muito menos constante, tendendo a ser reduzida com o passar dos rounds. 199 S U M Á R I O Mas uma característica é comum a todas as lutas. Trata-se de um conjunto de modalidades esportivas que, sob a perspectiva da estabilidade do ambiente classifica-se como atividade aberta (MAGILL, 1984). As atividades abertas exigem do executante uma resposta a partir de um estímulo imprevisível, uma vez que não é possível saber como o ambiente irá se comportar, especialmente considerando-se que os oponentes esforçar-se-ão para “plantar” dicas falsas, objetivando induzir o adversário ao erro. No caso de modalidade de natureza “fechada”, como a natação, o halterofilismo e do tiro ao alvo, não há alteração do ambiente que interfira na execução da habilidade motora. O executante, uma vez iniciada a habilidade, poderá conduzi-la até o fim, de acordo como planejado o programa motor. Pensemos agora em uma luta de taekwondo: o executante aplica um determinado golpe com o objetivo de gerar uma reação de seu oponente e, posteriormente aplicar um segundo ataque, em sequência. Por mais que tenha treinado essa sequência e estudado seu oponente na tentativa de antever sua reação, nada lhe garante que este responderá exatamente da forma como previsto. No caso de uma reação inesperada, será necessário reprogramar toda a ação, o que aumenta a situação de vulnerabilidade e o risco do contra-ataque. Essa é a tônica de qualquer desporto de luta. O nível de imprevisibilidade do ambiente exige do praticante recursos técnicos e um grau de inteligência cinestésico-motora muito superior aos necessários para disputas em ambientes estáveis, em modalidades fechadas. Executantes altamente habilidosos são peritos em decidir o que fazer (e o que não fazer) em situações particulares, mesmo quando eles têm muito pouco tempo para fazer isso (SCHIMDT; WRISBERG, 2010, p. 48). 200 S U M Á R I O A eficiência e eficácia da resposta motora dependem diretamente da velocidade de identificação do estímulo, da escolha da melhor resposta e da programação da resposta propriamente dita. Qualquer aumento em um desses estágios aumentará substancialmente o tempo de reação. O tempo de reação, ou seja, o tempo que se leva para responder a um determinado estímulo, varia de acordo com o número de respostas possíveis diante de um estímulo-resposta. Se para um determinado estímulo só existe uma única resposta, como ocorre com o tiro na largada dos 100 metro rasos, o tempo de reação é mínimo. Se por outro lado, existem várias respostas possíveis, o tempo de reação será significativamente aumentado, uma vez que o executante levará mais tempo para identificar o estímulo e escolher a resposta adequada. Para lidar com esse aumento no tempo de reação, o praticante de modalidades abertas, como as lutas, deve descobrir formas de diminuir a quantidade de respostas possíveis (antecipação) e ao mesmo tempo aumentar o número de respostas de seus oponentes (dicas falsas). A única forma de se conseguir isso é detendo um amplo repertório de habilidades motoras que dificulte a antecipação por parte de seu adversário. Pensemos em um atleta de elite de judô: se executa com precisão apenas uma ou duas técnicas, permite ao seu adversário se manter preparado para o momento em que terá que repelir o ataque e contra-atacar. Se ao contrário, detém um arsenal de cinco ou seis técnicas, executadas sob diferentes condições (em movimento, estático, pelo lado direito ou esquerdo) cria uma situação de imprevisibilidade que aumentará sua probabilidade de sucesso e diminuirá seu nível de vulnerabilidade durante a execução do golpe. A partir de estudos realizados por Calmet et al. (2006), conforme Franchini e Del Vecchio (2010, p. 315), [...] no judô, a especialização em algumas técnicas e/ou ataques a poucas direções não é o melhor meio para o sucesso. 201 S U M Á R I O Isso se deve ao fato de que, para um oponente com apenas uma direção de ataque, há a indução de apenas um ponto de desequilíbrio e, portanto, é fácil controlar os ataques. Com duas direções de ataque, o atleta induz uma linha de equilíbrio, mas ainda é fácil controlar o ataque. Com três direções de ataque, serão três linhas de equilíbrio, formando um triângulo. Nesse caso, o oponente terá que organizar um sistema de defesa que considere as três direções e ficará difícil controlar os ataques. Portanto, seria necessário dominar pelo menos três técnicas em diferentes direções para criar essa incerteza. Do ponto de vista da aprendizagem motora, “as crianças possuem um potencial de desenvolvimento para atingir o estágio maduro da maior parte das habilidades motoras fundamentais por volta dos 6 anos” (GALLAHUE, 2005, p. 221). No início da idade escolar, que ocorre por volta dos 6 anos, as crianças já possuem um poderoso equipamento que deve ser estimulado da maneira adequada. Os desafios motores devem ser compatíveis com seu nível de desenvolvimento. Se esses desafios estiverem aquém do nível de maturação do SNC (subestimação), eles não serão capazes de promover os processos de assimilação, acomodação, adaptação e equilibração (PIAGET, 1996) que levarão ao desenvolvimento contínuo de suas capacidades. Se, por outro lado, esses estímulos estiverem acima da capacidade da criança processá-los, poderão acarretar diversos problemas de ordem física e psicológica, gerando o desinteresse do aprendiz. Nasce aí a necessidade de considerarmos as fases sensitivas, cujo conceito trataremos um poucomais a frente. Desta forma, em modalidades esportivas abertas, que por sua própria natureza exigem a formação de um amplo repertório motor, e com acentuado componente técnico e tático como no caso das lutas, a iniciação desportiva deve começar por volta dos 7 anos de idade, na passagem da idade pré-escolar para primeira infância escolar, de acordo com a classificação etária utilizada por Weineck (1999). 202 S U M Á R I O Quadro 1- Classificação das faixas etárias de acordo com a idade. Fonte: adaptado de Weineck (1999, p.107) TREINAMENTO A LONGO PRAZO EM LUTAS Conceito O treinamento a longo prazo (TLP) objetiva a formação de gerações futuras de atletas visando o alto desempenho competitivo, por meio da “obtenção gradual dos requisitos do treinamento, ou seja, a melhoria contínua da capacidade de desempenho esportivo”. (WEINECK, 1999, p. 58) De acordo com Böhme et al. (2001), citados por Massa et al. (2009). 203 S U M Á R I O O processo de promoção de talentos e o treinamento em longo prazo (TLP), quando bem estruturados, têm como objetivo elementar a formação esportiva de futuras gerações de atletas para o esporte de rendimento, considerando-se o intervalo compreendido entre as categorias de base e o esporte de alto nível, desempenhando papel fundamental no processo de detecção, seleção e promoção de talentos esportivos (MASSA; FRANCHINI; BÖHME, 2010, p. 388). Treinamento a longo prazo é o processo planejado com base em conhecimento científico, que visa o desenvolvimento de futuras gerações de atletas com chances de obtenção de expressivos resultados nas competições de elite internacional, que contempla a formação que se inicia pela detecção e seleção de talentos desportivos, perpassando um programa de formação das capacidade gerais e específicas até o atingimento do approach destinado a aprimoração das capacidades técnicas, táticas, cognitivas e psicológicas imprescindíveis ao para o alto desempenho desportivo. TEMPO DE DURAÇÃO Se, como vimos, praticantes das modalidades de lutas começam a participar de eventos internacionais de elite por volta dos 17 anos, concluímos que o tempo de duração de um treinamento a longo prazo voltado para a formação de atletas de alta performance competitiva em desportos de lutas, deve ser de aproximadamente 10 anos. Conforme Arena e Böhme (2000), no caso específico do judô, a idade ideal para a iniciação seria a partir dos 7 anos, considerando os pressupostos de que a iniciação nessa idade poderia ser desenvolvida sem que houvesse o prejuízo da “etapa de iniciação e formação geral básica” (MASSA; FRANCHINI; BÖHME, 2010, p. 415). 204 S U M Á R I O Importante deixar claro que, ao informarmos 7 anos como a melhor idade para a iniciação desportiva nos desportos de lutas, três questões devem ser consideradas. A primeira diz respeito à necessidade da criança ser adequadamente estimulada nos anos anteriores, ou seja, na infância pré-escolar, pois a fase motora fundamental (de 2 a 6 anos), consequência da estimulação organizada na fase dos movimentos rudimentares (1 a 2 anos), será a base para a fase motora especializada (7 a 10 anos), uma vez que “ o progresso ao longo da fase de habilidades motoras especializadas depende do desenvolvimento de habilidades motoras fundamentais maduras”. (GALLAHUE, 2005, p. 61) O momento e local ideais para o desenvolvimento das habilidades fundamentais deveria ser a escola, durante as aulas de Educação Física. Embora este componente curricular seja obrigatório em todas as etapas da educação básica, por força do comando normativo insculpido no art. 26, § 3º da Lei 9.394/96, que estabelece as diretrizes e bases para a educação nacional, fato é que as escolas de educação infantil (de zero a 5 anos) não contam com profissionais especializados em desenvolvimento e aprendizagem motora, capazes de dar conta das exigências formativas das crianças em idade pré-escolar. A fase motora fundamental deve ter o caráter universal, ou seja, voltada para desempenho de movimentos estabilizadores, locomotores e de manipulação. Já na fase motora especializada, devemos iniciar o processo de ensino das habilidades específicas do desporto de luta e, com relação a esta iniciação, surge a segunda questão. Darmos início ao ensino das técnicas específicas da luta escolhida não significa uma ruptura com a fase anterior, onde o objetivo era o desenvolvimento das habilidades motoras de forma geral 205 S U M Á R I O e multivariada. O processo deve ser gradativo e a iniciação buscar contemplar as habilidades mais gerais da modalidade. Além disso, devemos privilegiar a apresentação de diversas habilidades, sem nenhuma preocupação com aprofundamento unilateral. O trabalho de outras habilidades gerais também deve ter continuidade. A solução de problemas motores (desafio cognitivo) induz a criança a “pensar” antes de executar determinado movimento, evitando sua “mecanização” e estimulando a integração cognição-ação. Portanto, é muito importante que, desde o nascimento até os 10 anos de idade, ocorra uma ampla exposição a habilidades motoras que priorizem os aspectos coordenativo e cognitivo (BÖHME; RÉ, 2009, p. 177). Quando as escolas e associações que ofertam o ensino de lutas inserem crianças a partir de 7 anos em eventos competitivos, é comum identificarmos uma especialização precoce em uma determinada técnica, a qual a criança demonstrou uma adaptação maior. Isso porque, infelizmente, o resultado imediato nas competições acaba por se sobrepor à preocupação maior que deveria estar voltada para uma formação a longo prazo, com vistas a obtenção de resultados expressivos no futuro. Para Gomes, (2009), a especialização precoce ocorre quando o treinador almeja o resultado desportivo muito cedo, especializando o jovem praticante em uma função específica dentro do desporto. Além de não existirem garantias de que os resultados nesta fase se replicarão na fase adulta, as competições infantis, nos modelos como são realizadas para adultos, podem ser fator de desestímulo que levará ao abandono prematuro por parte do jovem praticante. Por fim, a terceira questão, o conceito de especialização precoce não pode ser fator limitador para o início da fase de especialização desportiva a partir dos 7 anos. Uma coisa é especializarmos a criança de forma unilateral, restringindo a formação de um amplo repertório 206 S U M Á R I O motor, ou expor o jovem atleta a programas de treinamento de suas capacidades coordenativas e condicionantes antes do tempo, ou seja, em desarmonia com o seu desenvolvimento bio-psico-motor. Outra coisa é iniciarmos o ensino das habilidades motoras de uma dada modalidade desportiva, sem a preocupação de transformarmos o aprendiz em um especialista em determinada técnica, ou campeão infantil, privilegiando a multilateralidade e o desenvolvimento fisiológico contínuo e gradual das capacidades motoras respeitando as fases do desenvolvimento da criança (GOMES, 2009). Portanto, o treinamento a longo prazo, no caso de desportos de luta, deve ter início por volta dos 7 anos, com duração de 10 anos, uma vez que os praticantes começam a atingir a elite internacional da modalidade aos 17 anos. FASES DO TREINAMENTO A LONGO PRAZO O treinamento a longo prazo se divide, na visão da maior parte da literatura especializada, em três distintas fases: 1. Fase da formação geral básica; 2. Fase do treinamento específico; 3. Fase do treinamento de alto desempenho. Em cada uma delas devem ser consideradas as etapas do desenvolvimento global do atleta, bem como um processo progressivo no aumento da complexidade dos treinamentos técnico, físico e tático, levando-se em conta as características de cada luta. Assim, o planejamento do treinamento deve harmonizar as fases sensíveis da criança (janelas de oportunidade) com as capacidades coordenativas e condicionantes predominantes em cada desporto. 207 S U M Á R I O Weineck (1999) caracteriza“fases sensíveis” como aquelas em que a criança está mais propensa a determinados estímulos motor- esportivos. A exposição a determinados estímulos (software) deve manter íntima relação com o nível de maturidade biológica (hardware) e com o meio ambiente (interações psicossociais). Ao desconsideramos este conjunto de fatores, podemos expor a criança a um processo de superestimação, onde os estímulos não serão assimilados de forma ótima, uma vez que estarão acima das capacidades da criança. No outro extremo, a subestimação criará problemas igualmente sérios, pois os estímulos apresentados não serão suficientemente desafiadores a ponto de gerar os processos de acomodação e adaptação. Seja de uma forma ou de outra, superestimar ou subestimar a criança provavelmente terá efeitos desagradáveis. No que se refere às questões do desenvolvimento motor e anátomo-fisiológicas, a superestimação poderá ter como consequência o surgimento de lesões e desgastes. O desperdício do tempo e dos momentos ótimos de aprendizagem, além da adaptação gradativa ao treinamento, poderão ser efeitos da subestimação. Com relação às questões psicossociais, existe grande possibilidade de abandono prematuro da modalidade, uma vez que a criança sentirá a sobrecarga do treinamento acima de sua capacidade de compreensão, ou se sentirá pouco estimulada diante de estímulos que pouco lhe desafiarão. Se incorporarmos as competições infantis, nos modelos tradicionais, a esse contexto, os problemas tendem a ser ainda mais gritantes. Este referencial é importante já que, se a criança recebe estímulos antes de atingir o estágio de prontidão, ela apresentará um desenvolvimento aquém de suas possibilidades, o que pode causar-lhe prejuízos de desenvolvimento, quando, por exemplo, crianças são submetidas à especialização precoce que pode gerar distúrbios tanto físicos (ex: lesões), quanto psicológicos (ex: stress). Da mesma forma, se esses 208 S U M Á R I O estímulos são apresentados à criança, após ela ter passado por estas fases sensíveis de aprendizagem, seu potencial de desenvolvimento acaba por ser desperdiçado, levando a criança a aprender menos do que poderia, e, inclusive, desperdiçar chances de formação de grandes atletas (TANI; BENTO; PETERSEN, 2006, p. 255). Ainda na visão de Weineck (1999), ao deixarmos de aproveitar cada uma das fases sensíveis corremos o risco de deixarmos de obter o melhor desempenho possível ou, na melhor das hipótese, teremos que despender enorme esforço para atingi-lo. Gomes (2009) corrobora com a visão de Weineck (1999), citado acima, ao diferenciar treinamento genérico e sem objetivos claros, do treinamento multivariado, que deve considerar as fases sensíveis do desenvolvimento motor da criança. Diante do acima exposto, fica claro que o treinador, além de profundo conhecedor da modalidade de luta, deve conhecer de forma igualmente profunda as fases de desenvolvimento das crianças e adolescentes para que possa aplicar o treinamento certo, no momento adequado. FASE DA FORMAÇÃO GERAL BÁSICA Considerando os desportos de lutas, a fase da formação geral básica começa aos 6/7 anos e dura aproximadamente de 3 a 4 anos, portando, até os 10 anos. Esta fase deve privilegiar o desenvolvimento das capacidades coordenativas, objetivando a ampliação do repertório motor geral, mas também o começo da apresentação das habilidades motoras específicas da luta escolhida. É importante frisarmos que as técnicas devem ser apresentadas de forma multivariada, sem a preocupação de levar a criança a se tornar especialista em nenhuma delas. Isso 209 S U M Á R I O não significa dizer que devamos renunciar ao rigor da aprendizagem das habilidades da forma biomecânica correta. A automatização de movimentos assimilados de forma errada exigirá grande esforço para correções posteriores. O ensino das habilidades deve considerar o princípio da variabilidade de prática. Após a assimilação do programa motor generalizado, a execução da habilidade deverá ser executada sob circunstâncias diferentes (SCHIMDT; WRISBERG, 2010). No caso de uma técnica de caratê, por exemplo, após o praticante ter assimilado os parâmetros invariantes do golpe, deve ser estimulado a executá-lo em circunstâncias diferentes: em movimento ou estaticamente, com um oponente mais baixo ou mais alto, mais rápido ou mais lento, ou seja, o ambiente deverá ser constantemente alterado de forma a exigir do aprendiz a tomada de decisão quanto ao momento exato da execução (antecipação) e a adaptação necessária para executar técnica de modo a torná-la eficaz sob certa condição (precisão). É muito interessante, nesta fase, adaptar as sessões de treino de forma a proporcionar ao jovem atleta experiências poliesportivas. As lutas têm singularidades no que se refere às suas capacidades coordenativas e condicionantes predominantes, mas têm alguns aspectos em comum, como por exemplo, um contato direto entre os praticantes, ainda que intermediado por algum implemento, como no caso da esgrima. Desta forma, algumas capacidades acabam não sendo desenvolvidas em sua plenitude, como por exemplo, a habilidade de arremessar, de correr, de escalar, de chutar um objeto, dentre tantas outras. Ao proporcionarmos uma experiência poliesportiva, temos a possibilidade de compensar estas lacunas. Além disso, outro benefício desta prática se refere à motivação. Realizando jogos e brincadeiras, que atendam às necessidades da formação motora das crianças, também oferecemos um ambiente mais lúdico e variável, diminuindo 210 S U M Á R I O a desmotivação que pode advir de uma constância e repetição de atividades específicas da modalidade escolhida. Uma tarefa necessária e difícil nesta fase refere-se à manutenção do interesse da criança pelo treinamento. Como vimos acima, uma das formas de minimizarmos o desânimo é possibilitarmos experiências variadas de forma a romper com a mesmice da repetição. A criança, diante de suas características naturais, tende a não se concentrar durante muito tempo em uma mesma atividade, especialmente se estas não se apresentarem de forma lúdica. O treinador deve estar atendo a esta questão, pois alguns iniciantes com grande potencial para o treinamento podem desistir em virtude da monotonia das atividades propostas. As exigências devem ser compatíveis com o nível de maturidade psicológica da criança e com as suas necessidades motoras e fisiológicas. É importante que ao longo desta etapa haja um aprofundamento do conhecimento referente a luta escolhida. Familiarizar-se com as regras da modalidade, com os principais competidores, com a filosofia inerente a luta praticada irá aumentar a relação do atleta com a modalidade. Mais uma vez, cuidado para que esses conhecimentos não sejam apresentados de forma rígida e desmotivante. Por fim, devemos privilegiar o treinamento da flexibilidade, comum a todas as lutas, por ser esta a única capacidade motora condicionante que atinge seu auge já na infância (WEINECK, 1999). O treinamento da flexibilidade deve ter início e se intensificar já na primeira infância escolar (de 6/7 aos 10 anos). Isso porque, a fase sensível para o treinamento desse requisito motor se encontra na faixa dos 11 a 14 anos (infância escolar tardia e pubescência), momento em que a nível ótimo deve ser alcançado. Depois desta fase, não serão alcançados resultados significativos, limitando-se o treinamento da flexibilidade à manutenção do nível atingido nas fases anteriores. 211 S U M Á R I O Esta capacidade motora tem muita importância no processo de treinamento a longo prazo, por diferentes fatores. Um deles se relaciona com a possibilidade de aumento de recursos técnicos em função de uma maior elasticidade muscular e mobilidade articular. Alguns movimentos como os chutes altos, comuns às modalidades como taekwondo, caratê e capoeira, não serão executados em sua plenitude se não tiverem como base uma ótima flexibilidade da articulaçãodo quadril. Técnicas de projeção da luta livre, do judô ou jiu-jitsu, que utilizam os braços como alavancas, dificilmente serão executadas com eficiência e eficácia por atletas com reduzida flexibilidade na articulação escápulo-umeral. Ou seja, o treinamento da flexibilidade otimiza significativamente o repertório motor específico da luta. Outra consequência importante se refere ao seu caráter profilático. O treinamento especializado tende a levar ao aumento das capacidades condicionantes, em maior ou menor escala. Em desportos de lutas a força é, sem dúvida, uma das capacidades predominantes. Um adequado treinamento de flexibilidade “leva a uma maior elasticidade, mobilidade e capacidade de alongamento dos músculos, ligamentos e tendões; isto contribui para o aumento da tolerância a carga e para profilaxia de lesões”. (WEINECK, 1999, p. 472) É importante deixar claro que o treinamento de flexibilidade deve ser contemplado no planejamento como uma capacidade a ser desenvolvida de forma autônoma. Não pode se limitar ao aquecimento ou ao término das sessões de treinamento geral, mesmo porque os exercícios de alongamento não são suficientes para atingir o nível de aquecimento necessário para o início de exigências mais intensas, tampouco são indicados após uma sessão de treino, onde muitas vezes ocorre a fadiga, sendo inclusive perigoso em virtude da possibilidade de ocasionar lesões. 212 S U M Á R I O As competições, nos moldes em que são realizadas com os adultos, com a eliminação a partir da perda de uma luta, com as regras rígidas peculiares aos desportos de combate, com a supervalorização da vitória e a premiação somente dos três primeiros colocados não são indicadas. Isso porque, de acordo com De Rose (2009), crianças nesta fase têm o caráter egocêntrico que, em situações de competição, as leva à necessidade de orientação diferente daquela oferecida aos adolescentes e adultos. Neste sentido, o ideal é a organização de eventos esportivos com regras adaptadas, onde a criança possa lutar várias vezes independentemente dos resultados obtidos em cada luta; que a arbitragem tenha o caráter pedagógico e não punitivo; que todos os participantes sejam premiados, deixando claro a importância da participação em si. Técnicas que comprovadamente causam alto índice de lesões devem ser proibidas. Este formato pode perpassar toda a fase geral básica. FASE DO TREINAMENTO ESPECÍFICO Esta segunda etapa do treinamento a longo prazo, que se inicia por volta dos 10 anos e perdura até o início da segunda fase puberal (adolescência), aos 13/14 anos, é continuidade da anterior. A tônica, no que se refere ao desenvolvimento das capacidades coordenativas deve estar voltada para o aprimoramento das técnicas específicas. É importante iniciarmos a lapidação dos movimentos, mantendo a preocupação com o ensino das habilidades motoras de forma multivariada e por meio de estratégias que atendam ao princípio da variabilidade de prática. 213 S U M Á R I O Mais do que nunca a preocupação com a motivação deve estar presente. Com o aumento da idade, especialmente quando se aproxima a adolescência, novos interesses surgem em função da ampliação das relações sociais. A formação de grupos de amigos, as primeiras experiências amorosas, os conflitos naturais com os pais em virtude da busca por maior liberdade são fatores que certamente influenciarão a dedicação do praticante aos treinamentos, principalmente considerando-se que, gradativamente, a luta ocupará mais espaço na vida do praticante. A criança deve demonstrar maior disponibilidade para o treinamento a cada etapa. O treinador precisa estar atendo às variações de humor e o nível de adaptação do jovem atleta às exigências cada vez maiores. Esta é a fase em que ocorre o maior percentual de desistência e abandono. O treinamento da flexibilidade deve atingir seu pico, pois como vimos anteriormente, a fase sensível ao treino desta capacidade se encontra exatamente entre 11 e 14 anos. De acordo com Weineck (1999), estudos demonstram que já há perda de amplitude articular nas articulações escápulo-umeral e coxo-femural, nos movimentos de extensão. Gradativamente, devemos intensificar o treinamento das demais capacidades condicionantes: força, velocidade e resistência. A força aumenta de forma linear com o avançar da idade (MALINA; BOUCHAD; BAR-OR, 2009). O treinamento desta capacidade deve ser realizado exclusivamente através das atividades dinâmicas, privilegiando-se a força dinâmica e a força rápida, trabalhadas preferencialmente por meio de circuitos e brincadeiras variadas, mantendo-se o caráter lúdico das atividades. Uma questão importante refere-se ao aumento da força a partir das atividades específicas da luta, o que pode ocasionar um desequilíbrio no desenvolvimento do aparelho locomotor ativo, trazendo prejuízos a postura da criança. Neste sentido, o treinamento de força nesta idade deve considerar o desenvolvimento global, 214 S U M Á R I O sem negligenciarmos o fortalecimento das estruturas musculares mais utilizadas na prática da modalidade escolhida, o que tende a acontecer naturalmente. A maior dificuldade no planejamento do treinamento de força em crianças relaciona-se com o princípio da sobrecarga. Apesar de não existirem comprovações científicas de que o treinamento de força tenha influência sobre o crescimento longitudinal, o uso de cargas inadequadas na primeira infância pode ocasionar lesões ao sistema locomotor passivo, dada a maior elasticidade em função da baixa densidade óssea, que diminui a resistência à pressão e à curvatura (WEINECK, 1999). É importante tomarmos cuidado com exercícios de força que tenham o corpo de um companheiro como implemento de carga. Isso porque, nem sempre o peso do colega é adequado para a realização das tarefas motoras propostas e pelo fato de que podem ocorrer deslocamentos imprevistos, que coloquem em risco o executante, ou mesmo a criança cujo corpo está sendo utilizado como sobrecarga. Outra questão relevante no que tange ao treinamento resistido aplicado às crianças diz respeito ao fato de que melhorias significativas ocorrem na ausência de hipertrofia, indicando que possivelmente há um mecanismo neurológico envolvido com estas melhorias. Segundo Rowland (2008), alterações na taxa de disparo, no recrutamento ou mesmo na velocidade de condução das unidades motoras, mudanças do ângulo de penação das fibras musculares, ou ainda, uma diminuição progressiva das influências inibitórias centrais sobre a contração voluntária máxima, podem ser fatores que contribuam com o significativo ganho de força durante a infância. Isso corrobora com a afirmação de que a força rápida deve ser privilegiada nesta etapa do treinamento. 215 S U M Á R I O Com o avançar da idade em direção a adolescência, podem ser inseridos exercícios mais analíticos, principalmente pelo fato de que a disponibilidade para o treinamento também tende a aumentar com o tempo. Outro fator a ser considerado é a seleção natural que começa a ocorrer nesta fase. As crianças que não demonstram aptidão para o treinamento a longo prazo na luta praticada começam a desistir da modalidade, o que vai tornando o grupo de atletas cada vez mais seleto. Não é nosso objetivo discutir a questão da desistência por parte de alguns praticantes, mas é importante frisarmos que o planejamento de treinamento a longo prazo deve prever esse fenômeno e, na medida do possível, criar as condições para que, as crianças que não demonstrarem aptidão para o alto desempenho, possam continuar a prática da modalidade, com o caráter lúdico e de participação. O treinamento da resistência, nesta fase, deve privilegiar a resistência muscular geral e a resistência aeróbia, uma vez que crianças são pouco tolerantes ao stress e ao aumento do lactato no sangue, que aumenta a produção da adrenalina e noradrenalina. A atividade das enzimas glicolíticas, em especial da fosfofrutoquinase,é menor em crianças. Como consequência, têm menor capacidade de eliminação de lactato do que adultos. [...] fosfofrutoquinase, o principal regulador de glicólise anaeróbica, é mais baixa em crianças e adolescentes do que em adultos. Além disso, as crianças e adolescentes não são capazes de gerar ou sustentar níveis de acidose (como é refletido em pH sanguíneo) tão altos quanto aqueles relatados em adultos. (MALINA; BOUCHAD; BAR-OR, 2009, p. 300). Sob a ótica da fisiologia, atividades de média e longa duração na primeira infância escolar e na infância escolar tardia não são contraindicadas, levando em conta que crianças não apresentam problemas quanto ao metabolismo de açúcares e têm índices de 216 S U M Á R I O oxidação de ácidos graxos superiores aos dos adultos. A duração dos exercícios encontra obstáculo na questão motivacional, uma vez que a manutenção de uma mesma atividade durante um longo período acaba fazendo com que diminua o interesse do praticante. O cuidado com exercícios de impactos repetitivos também deve estar no radar do treinador, pois como vimos, as crianças têm menor densidade óssea. Neste sentido, é indicado realizarmos o treinamento de resistência aeróbia por meio de circuitos, com várias estações constituídas por exercícios multivariados, fazendo com que a criança se mantenha por bom tempo em atividade, mas simultaneamente experimente diversos desafios diferentes. O treinamento da velocidade continua como uma das prioridades, considerando que a criança tem um sistema neuro motor maduro para o treinamento desta capacidade e que o aumento linear da força favorece a melhora da velocidade. No caso dos desportos de lutas, a velocidade de ação, de reação e cíclica têm maior peso na programação do treinamento do que a velocidade de deslocamento. No caso da velocidade de ação, nos deparamos com a situação em que o atleta assume uma postura ofensiva ao antecipar o momento exato de executar uma determinada técnica. Se a ação não for executada com a velocidade adequada, perde-se a oportunidade de um ataque bem sucedido. A velocidade de reação diz respeito a um menor tempo de resposta a um estímulo, situação comum nas ações de contra-ataque. Por fim, a velocidade cíclica, que corresponde a execução repetida e ritmada de habilidades motoras em sequência, como no caso de uma combinação de jab’s e diretos no boxe, realizada em alta velocidade. 217 S U M Á R I O Nesta fase do treinamento a longo prazo as competições passam a ter um papel mais importante. Os eventos desportivos devem ser organizados de forma a se constituírem como transição para as competições nos moldes adultos. Principalmente nos primeiros anos do treinamento especializado (10/11 anos) a forma de disputa deve permitir que as crianças lutem várias vezes, evitando que toda a expectativa de participação possa durar somente alguns segundos, como no caso da criança que sofre um ippon no início de sua primeira luta, no judô. A arbitragem já deve apontar para as regras à semelhança como ocorrem nas competições adultas, mas mantendo o caráter pedagógico. Como exemplo, ao cometer uma determinada infração, ao invés do árbitro aplicar a punição prevista na regra, na primeira ocorrência orientará a criança sobre a falta, mas sem aplicar-lhe a sanção cabível. Pensar em uma divisão de categorias para além do peso, como por exemplo, separação por cor de faixa ou tempo de prática, pode trazer um maior equilíbrio nos combates. FASE DO TREINAMENTO DE ALTO DESEMPENHO Esta fase tem início na adolescência, aos 15/16 anos. Deve ocorrer a intensificação do treinamento em todas as suas dimensões, aproximando-se cada vez mais de um nível de exigência similar a empregada em treinamento com adultos. No que diz respeito ao desenvolvimento das habilidades motoras específicas da luta, devemos perseguir a perfeição na execução. É muito importante que as técnicas sejam executadas com base em 218 S U M Á R I O conhecimentos científicos biomecânicos buscando maior eficiência e eficácia nos resultados. Isso não significa dizer que uma técnica deva ser executada exatamente da mesma forma por todos os praticantes. Deve ocorrer a adaptação necessária da habilidade às características do executante, mas os detalhes invariantes da técnica devem ser preservados. Em outras palavras, há espaço para o estilo pessoal. Devemos aprimorar as habilidades que são identificadas como as preferidas dos atletas, aumentando cada vez mais as possibilidades de circunstâncias diferentes para sua execução (variabilidade de prática). No entanto, não podemos esquecer que um rol maior de recursos técnicos possibilitará a ampliação do pensamento tático, aumentando de forma significativa a capacidade do atleta de lidar com situações inesperadas e, ao mesmo tempo, criar um sem número de armadilhas para superar seus oponentes. É nesta fase que o praticante deve atingir o ápice de sua capacidade de pensar taticamente. Como vimos, as lutas têm como principal característica a imprevisibilidade. Por mais que um competidor tenha estudado pormenorizadamente seu adversário é impossível prever, com exatidão, como este irá reagir em determinada circunstância, especialmente falando de grupos de elite, onde uma antecipação equivocada ou uma execução sem a devida precisão, podem colocar um ponto final nas expectativas de resultados planejamos e almejados por períodos de 4 anos, como no caso de um ciclo olímpico. A partir desta fase, os intercâmbios e a participação em eventos internacionais são imprescindíveis para que o competidor possa vivenciar situações diferentes, experimentar o combate com escolas de lutas diferentes e começar a se familiarizar com o clima que envolve competições internacionais. Isso irá requerer, dentre muitas outras coisas, recursos financeiros para o autofinanciamento, uma vez que no Brasil não existem políticas voltadas a formação de base esportiva. 219 S U M Á R I O Não é objetivo deste ensaio discutir questões relacionadas à seleção, detecção e promoção de talentos esportivos, mas frisamos ser essa mais uma variável determinante para a obtenção de resultados expressivos em campeonatos mundiais e Olimpíadas. Atletas com poucos recursos financeiros têm muita dificuldade de seguir o caminho dos grandes resultados. Os grandes heróis do desporto, que saem de comunidades sócio economicamente desfavorecidas e atingem o nível das grandes estrelas mundiais são exceções, não a regra. Neste ponto do treinamento a longo prazo, apesar de não conseguirmos identificar quem conseguirá chegar aos pódios dos grandes eventos, aliás em momento algum do treinamento teremos essa certeza, já é possível identificarmos aqueles que não chegarão. Isso porque o nível de disponibilidade para o treinamento exige do atleta a abdicação de várias outras dimensões de sua vida, até mesmo no que diz respeito a sua formação e melhor qualificação profissional, bem como suas relações familiares e sociais (THOMAS, 1983). Conforme vão se aproximando os eventos importantes, as horas de treinamento tendem a aumentar e as viagens para a realização dos intercâmbios e das competições preparatórias comprometem o calendário escolar. É comum o “fracasso” escolar de atletas de grupos de elite. O nível de irritabilidade aumenta, principalmente se os primeiros resultados demoram a surgir. O treinamento de alto desempenho necessita ser conduzido por uma equipe multidisciplinar, da qual psicólogos devem fazer parte. Não há dúvidas de que as questões emocionais são determinantes nos momentos decisivos, levando em conta que a paridade técnica e física é cada vez maior (RUBIO; FRANCHINI, 2010). Atletas com grande potencial muitas vezes desistem em função de não suportarem a transcendência dos limites de suas capacidades. O corpo é levado a níveis de exigência que necessitam de um equilíbrio emocional e suporte social sem os quais se torna quase impossível prosseguir. 220 SU M Á R I O Quanto ao treinamento das capacidades condicionais, não há mais nenhuma restrição. Em virtude das grades transformações ocorridas durante a puberdade, este é o momento, segundo Weineck (1999), de maior adaptabilidade e resposta ao treinamento, principalmente dos componentes força e resistência. O treinamento da capacidade de resistência anaeróbia, iniciada ao final da fase de treinamento específico, deve ser intensificado buscando o atingimento de seu ápice ao final desta etapa da programação a longo prazo, aproximando-se do treinamento do adulto. Os valores absolutos da potência anaeróbia aumentam progressivamente ao longo da infância nos meninos e nas meninas, com uma aceleração durante a puberdade nos meninos. Entre os 12 e 17 anos, a potência anaeróbia pico aumenta 121% nos meninos e 66% nas meninas (ROWLAND, 2008, p. 168). Existem muitos estudos conflitantes quanto à relação entre o crescimento da massa corporal e a melhora da potência anaeróbia, mas os estudos mais recentes são consistentes no sentido de que outros fatores, além do crescimento, influenciam no aprimoramento desta capacidade com o passar dos anos. (KRAEMER; FLECK; MICHAEL R. DESCHENES, 2016) A flexibilidade deve continuar sendo trabalhada intensamente para que não ocorra a degradação dos níveis atingidos nas fases anteriores. O planejamento deve dispensar uma sessão especificamente voltada para o treinamento desta capacidade. O treinamento de força deve privilegiar os grupamentos mais envolvidos com a modalidade. Quanto mais próximo da realidade encontra na situação da luta propriamente dita, mais eficiente tende a ser a estratégia de treinamento. 221 S U M Á R I O Os resultados obtidos nas competições internacionais passam a ser os principais indicadores do real potencial do atleta atingir resultados expressivos nos principais eventos. O sucesso na fase do treinamento de alto desempenho é dependente daquilo que foi construído nas fases anteriores, especialmente nos desportos de lutas que, como vimos, têm um componente motor bastante relevante. O treinamento de alto nível possui como objetivos gerais alcançar o alto desempenho individual; aumentar o volume e intensidade de treinamento; introduzir outros métodos e conteúdos específicos de treinamento; alcançar a perfeição, estabilização e disponibilidade máxima da técnica esportiva; e melhorar e manter a mais alta capacidade de desempenho pelo maior período de tempo possível (MASSA; FRANCHINI; BÖHME, 2010, p. 409). CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao iniciarmos o planejamento de um programa de treinamento temos que ter muito claro os objetivos que pretendemos alcançar. No caso deste breve ensaio buscamos apresentar pontos referentes ao planejamento de treinamento desportivo a longo prazo, aplicado às modalidades de lutas com o objetivo de obter expressivos resultados em competição de elite internacional, sem nos aprofundarmos em uma luta em particular, tampouco em métodos específicos de treinamento das diferentes capacidades. Destacamos a reflexão sobre a diferença entre iniciação desportiva na primeira infância e especialização precoce, ressaltando que não há contraindicações em começarmos uma especialização em determinada modalidade de luta aos 7 anos, desde que respeitadas as fases de desenvolvimento, crescimento e maturação da criança. 222 S U M Á R I O Outros temas são extremamente relevantes para complementar essa discussão, como programas de seleção, detecção e promoção de jovens talentos desportivos, o papel da Educação Física escolar nessa seara, a formação dos treinadores, políticas de desporto de participação que possam garantir a prática daqueles que não demonstram aptidão para o desporto de alta performance e para os atletas depois de suas aposentadorias. Os resultados obtidos pelo Brasil em campeonatos mundiais e Jogos Olímpicos ainda são dependentes das histórias individuais dos atletas. Nos emocionamos com cada relato de alguém que venceu as dificuldades socioeconômicas e conseguiu alcançar o estrelato desportivo internacional. Raramente esses resultados são fruto de um a política voltada para o incentivo ao desporto de base, acolhendo os potenciais atletas desde as idades mais tenras. Se o Brasil almeja, um dia, ter destaque nos principais eventos esportivos mundiais, terá que rever a forma como trata o desporto em sua origem. Se isso é relevante ou não diante de todos os problemas que nosso país vive, é uma outra discussão. REFERÊNCIAS BARBANTI, V. J. Teoria e prática do treinamento esportivo. 2ª. ed. São Paulo: Blucher, 1997. BÖHME, M. T. S.; RÉ, A. H. N. O Talento Esportivo e o Processo de Treinamento a Longo Prazo. In: DE ROSE, D.; COLABORADORES Esporte e atividade física na infância e na adolescência: Uma abordagem multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2009. p. 171-183. BRASIL. TCU. Desporto e lazer : exercício 2016 - Relatório Sistêmico de Fiscalização (Fisc) - Relatoria Ministro Vital do Rêgo. Brasília. 2017. 223 S U M Á R I O DE ROSE, D. Esporte, Competição e Estresse: Implicações na Infância e na Adolescência. In: DE ROSE, D.; COLABORADORES Esporte e atividade física na infância e na adolescência: uma abordagem multidisciplinar. 2ª. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009. p. 103-114. FERRAZ, O. L. O Esporte, a Criança e o Adolescente: Consensos e Divergências. In: DE ROSE, D.; COLABORADORES Esporte e atividade física na infância e na adolescência: Uma abordagem multidisciplinar. 2ª. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009. p. 45-60. FRANCHINI, E.; DEL VECCHIO, F. B. Aspectos Motores Ensino/Aprendizagem no Judô. In: FRANCHINI, E. Judô: desempenho competitivo. 2ª. ed. Barueri: Manole, 2010. p. 287-334. GALLAHUE, D. L. Compreendendo o Desenvolvimento Motor: Bebês, Crianças, Adolescentes e Adultos. Tradução de Maria Aparecida Araújo Pereira et. al. 3ª. ed. 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ASPECTS OF FIGHTING TRAINING IN CHILDHOOD AND ADOLESCENCE Abstract This chapter sought to conceptualize sports training and long-term training applied to fights,with the objective of obtaining expressive results in the main international competitions. Considering that athletes reach international levels around the age of 17 in combat sports and that the duration of long-term training in open-natured modalities, with a strong motor component and a high level of unpredictability is around 10 years, we have seen that training should start around 7 years. Sports initiation in early childhood is not configured as an early specialization, as long as the stages of development, growth and maturation of the practitioners are respected. Long-term training of divides into 3 phases: basic general training; specialized training and high-performance training. Subsequent phases are dependent on the success achieved in training in the previous phases. Capítulo 7 PERSPECTIVAS EDUCACIONAIS DAS LUTAS Ricardo Ruffoni DOI: 10.31560/pimentacultural/2021.601.225-252 7 Ricardo Ruffoni PERSPECTIVAS EDUCACIONAIS DAS LUTAS 226 S U M Á R I O INTRODUÇÃO As lutas existem desde os primórdios das civilizações, da mesma forma que os movimentos naturais e de sobrevivência (andar, correr, rastejar e outros), atendendo a vários objetivos e situações, de acordo com a sua origem, história e valor cultural. Ao navegar pelo tempo até chegar na atualidade, observa-se um crescimento imensurável de inúmeras lutas e correspondentes denominações, tais como o Taekwondo, Judô, Karatê, Jiu-Jitsu e, nesse contexto, as lutas indígenas, como o Huka Huka e Marajoara, as quais refletem a história dos povos indígenas e da Ilha de Marajó. Vale destacar que algumas formas de lutas foram utilizadas com o objetivo de preparar exércitos para as guerras, para a performance militar; os gladiadores, com suas técnicas severas de treinamento; os espartanos, com seu regime de treinamento militar, bem como os povos de diversos continentes, como os egípcios, os chineses e os japoneses. No caminhar pela História, vivenciamos a fase da cultura da arte marcial, da arte guerreira, cuja prática ainda hoje é utilizada, equivocadamente, por alguns “mestres”, lutadores e professores, em suas respectivas especialidades. Outrossim, destaque há que ser dado a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), cujo escopo foi construir uma base para toda a educação básica brasileira, visto que “[...] a aprendizagem de qualidade é uma meta que o País deve perseguir incansavelmente” (BNCC, 2020, p. 5), considerando a BNCC peça fundamental nessa direção, em especial para o Ensino Médio, “[...] no qual os índices de aprendizagem, repetência e abandono são bastante preocupantes” (BNCC, 2020, p. 5). 227 S U M Á R I O E, nesse sentido, a BNCC destaca a existência de inúmeras habilidades que possibilitam a contextualização nos currículos locais considerando aspectos culturais e históricos, quais sejam: lutas do contexto comunitário e regional; lutas de matriz indígena e africana; lutas do Brasil e lutas do mundo. Podemos salientar no Japão a existência da Era Meiji1, uma fase extremamente importante para o processo de desenvolvimento do Japão, uma vez que o tornou uma das grandes potências mundiais capitalistas, cujas principais características foram o fim do Xogunato e dos Samurais. Extinção dos feudos e reforma agrária. Abertura dos Portos e intensificação das relações internacionais. A partir de então, o Japão passa por uma aceleração no processo de modernização, que culminou na transformação deste país em uma grande potência. Vale lembrar, que as lutas passaram por profundas transformações socioculturais até chegar nos dias atuais, cujos conceitos serão discutidos oportunamente, sobretudo alguns conceitos resultantes dos estudos do professor Tubino (2001), que classifica os esportes na seara educacional, do lazer, da participação, da competição, da espetacularização do esporte o esporte espetáculo. A partir desses conceitos de esportes do professor Tubino, pode-se afirmar que as lutas, os esportes de combate, ou para alguns conservadores, as artes marciais, são capazes de se conectarem aos mais diversos eixos educacionais e midiáticos. No campo da Educação, o esporte moderno teve início na Inglaterra, Século XIX (TUBINO 1992), e utilizado primeiramente nas escolas. No entanto, hoje, com o crescimento de várias tendências desportivas podemos utilizar as lutas como contributo na formação 1 “Regime ou Governo Iluminado”, que significou a primeira época do Império no Japão e que permaneceu entre os anos de 1868-1912, aproximadamente 45 anos, com características marcantes ao início do judô. 228 S U M Á R I O do indivíduo, em uma perspectiva holística e com a percepção do ser humano na sua totalidade e destacar o seu caráter educativo, desenvolvidas além das escolas, em agremiações, projetos e outros. Outrossim, inúmeros filmes sobre lutas são veiculados, por meio dos quais grande destaque se é dado ao mestre e às mensagens educacionais neles contidas. No campo do lazer podemos destacar os objetivos que serão desenvolvidos por cada prática corporal, o espírito de cidadania. Para tanto, merece destaque o judô veterano que, além de apresentar um crescimento notório, destaca-se o bem-estar que essa prática proporciona aos seus praticantes, posto que sem cobrança de treinamentos exaustivos e resultados a conquistar. Certamente, nesse contexto, os resultados ultrapassam a premiação, pois sua razão de ser é a sociabilização e o lazer. No que tange a competição, o alto rendimento e a performance, as lutas são direcionadas para os resultados. Como para alguns atletas se faz de forma precoce e imediata, é necessário um olhar diferenciado, cauteloso, visto a celeuma que se instala e se debate no âmbito dos trabalhos sobre competição infantil. Observa-se, pois, uma série de ações equivocadas na busca da premiação a qualquer custo. Por óbvio, o esporte de alto rendimento provoca uma tensão em vários aspectos da vida. São inúmeros os exemplos pela busca incansável por resultados, desde uma simples competição, até um evento internacional. E, nesse contexto, nos deparamos com o doping; com a perda de peso a qualquer custo; com a execução de treinamentos desprovidos de conhecimento científico; a pressão psicológica e, muitas vezes, o atuar do técnico que, no exercício da função, pode vir a descuidar da indispensável preocupação e atenção ao seu atleta. 229 S U M Á R I O Outro ponto em destaque é a presença de alguns pais que, de alguma forma, a transcender sua imagem de nunca ter sido atleta, transfere para o filho, independente da consciência humana, a cobrança de que corresponda à sua eventual performance. Na sociedade moderna, o esporte assume a função de promover o consumo e, com isso, nos deparamos com a espetacularização e a mercantilização do esporte, de forma que as lutas se transformam em relações mercantis, reproduzidas por diferentes meios de comunicação. Por óbvio, a mídia é essencial para a divulgação dos esportes em nível global, propicia a divulgação dos melhores resultados, do maior rendimento e proporciona o entretenimento como sua principal manifestação cultural. Porém, não o faz sem interesses econômicos e políticos, orientados pelo próprio mercado de bens de consumo. Nesse particular, destacam-se os jogos olímpicos, os quais ocorrem a cada 4 (quatro) anos e o espírito olímpico. Na atualidade, perpassa para além das esferas política e social, mas acima de tudo, a econômica. Notadamente, as lutas são manifestações corporais, da mesma forma que os esportes, os jogos, as danças, as ginásticas e as brincadeiras, assim como constante com os códigos do funcionamento orgânico e com os códigos da linguagem do seu cotidiano e de sua historicidade cultural. Todavia, é indispensável respeitar a antropologia e a historicidade social das lutas para se entender o verdadeiro valor cultural de cada uma de per si. A partir dessa breve introdução, a reflexão atinente a lutas transcende as diversas manifestações da culturacorporal. São inúmeros os caminhos das práticas corporais das lutas na atuação formativa do aluno; lutas para terceira idade, inclusivas, escolares, indígenas, Artes Marciais Mistas (Mixed Martial Arts – MMA), luta indígena, enfim, as manifestações corporais são intangíveis nesse sentido. 230 S U M Á R I O A proposta desse ensaio é provocar reflexões, discutir, transcender as lutas para o campo das metodologias, tendências, não como receitas de aulas, ao aplicar o empirismo, mas sim levar ao leitor à reflexão de como desenvolver, trabalhar, ministrar aulas no campo da educação, a objetivar a formação integral do aluno, no entendimento de que a formação do cidadão hoje integra todas as esferas, quais sejam, corpo, mente, alma, natureza e sociedade. A EDUCAÇÃO FÍSICA E AS LUTAS Navegar pelas lutas nos conduz a uma transversalidade e interdisciplinaridade de valores a refletir vários segmentos. Nesse contexto, o próprio entendimento sobre nicho de mercado. O segmento que o professor irá trabalhar nos reporta a inúmeras possibilidades culturais, educacionais, de lazer, de entretenimento entres outras, nas quais as lutas estão inseridas. Importante salientar que, na base reflexiva das lutas, situa-se o processo dialógico nas mais diversas manifestações corporais e culturais. Ou seja, entender que a Educação Física não pode e não deve ficar limitada somente às práticas desportivas tradicionais, como handebol, basquete, futsal e vôlei. Ter a luta como vivência corporal é relevante para que nossos alunos possam desenvolver uma atmosfera mais ampla no âmbito da Educação Física escolar. Trabalhar com as lutas no âmbito educacional e no espaço escolar envolve a interdisciplinaridade com inúmeras questões que devem ser repensadas, dentre elas, onde começaram as lutas, onde nasceram as modalidades de algumas lutas, seus criadores, mestres, principais regras, normas (dimensão conceitual); na vivência afetiva, respeito, sociabilização, auto estima, a disciplina tão 231 S U M Á R I O esperada pelos pais, o canalizar a agressividade, o estímulo a uma maior participação para os mais tímidos (dimensão atitudinal) e, por fim, a prática propriamente dita, onde se procura desenvolver não só algumas habilidades específicas, mas todas as qualidades físicas em determinados momentos das práticas corporais, como o rolamento para frente, de costas e para os lados; assim como reter, imobilizar, domínios territoriais, jogos de oposição, desafios em duplas, trios e de forma integral (dimensão procedimental). Ao repensar a prática das lutas educacionais deve estar presente a práxis no cotidiano escolar diferenciar lutas de violência, cuja lacuna há que ser preenchida para que se possa alcançar a compreensão e vivência das lutas inseridas no contexto escolar (luta x violência). A lacuna de uma orientação didático pedagógica do professor pode levar o aluno a práticas violentas no contexto das lutas escolares. Obviamente, essa prática ocorre por diversas situações de conflito que devem ser analisadas e estudas para o alcance da correta metodologia - o produto da sociedade na qual o aluno está inserido; sua realidade familiar e a grande influência midiática. Portanto, entender esse diferencial é fundamental para que nossos alunos possam dar início a essa pratica corporal. Ao dialogar com a historiografia da Educação Física podemos destacar autores como Inezil Penna Marinho (1980), Coletivo de Autores (1982), Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs, 1988), Ghiraldelli Junior (1991), Castellani Filho (2001), Darido e Rangel (2005), Bregolato (2008) e BNCC (2020), posto ser necessário estudar o passado para entender o presente e o futuro. Ghiraldelli Júnior (1991), em seu livro Pedagogia Progressista da Educação Física, navega na linha do tempo a destacar questões que nasceram na Europa, passaram por diversas transformações socioculturais e viraram tendência no Brasil. 232 S U M Á R I O A Educação Física Higienista (1889-1930) é produto do pensamento liberal, principalmente no âmbito da escola, como “redentora da humanidade”. É uma concepção forte nos anos finais do Império e no período da Primeira República. É uma tendência originária da escola Sueca que trouxe para o Brasil tudo que conhecemos a respeito de Fitness e do mercado das academias. Nessa época, ainda chamada de Ginástica, tinha seu objetivo na ênfase em relação à saúde em primeiro plano. Para tal concepção, cabe à Educação Física um papel fundamental na formação de homens e mulheres sadios, fortes, dispostos à ação, preocupada com o saneamento público, na busca de uma sociedade livre das doenças infecciosas. A Educação Física Militarista (1930-1945), cujo nascimento no Brasil ocorreu a partir das influências da escola Alemã, trouxe em seu escopo a necessidade de se ter uma nação forte, “adestrada” e preparada para o combate. Esse modelo refletiu-se na Educação Física por meio de professores autoritários que acreditavam que ser forte era sinônimo de ser saudável. À formação de homens fortes e saudáveis, que poderiam suportar o combate e a guerra a serviço da pátria, conduta disciplinar, prevaleceu à figura do cidadão soldado; uma Educação Física rígida para elevar a nação à condição de “servidora e defensora da pátria” e, ainda, excluir incapacitados. A concepção da Educação Física Pedagogicista ganha força, principalmente, no período pós-guerra (1945-1964). O liberalismo subjacente à Educação Física Pedagogicista está impregnado das teorias psicopedagógicas de Dewey e da sociologia de Durkheim. Tal concepção vai reclamar da sociedade a necessidade de encarar a Educação Física não somente como prática capaz de promover saúde ou disciplinar a juventude, mas ser uma prática eminentemente educativa; seu conteúdo não só instrui como também educa, por ser um instrumento capaz de levar a juventude a aceitar as regras de convívio social e suas peculiaridades culturais, físico-morfológicas 233 S U M Á R I O e psicológicas. A Educação Física pedagogicista seguiu a forma da educação liberal, que buscava a formação de um cidadão voltado aos valores da sociedade vigente. Em um primeiro momento, discutiu uma nova concepção de Educação Física, mas que apesar de sua contribuição, não fugiu a reprodução dos ideais conservadores. A Educação Física Competitivista (Pós-1964) ganha grande destaque na hierarquização e elitização social, onde a figura do Brasil potência geraria clima, prosperidade e desenvolvimento, com tendências direcionadas ao desempenho técnico e físico do aluno; narrava o culto do atleta herói, o pódio; desporto de alto nível (elite). O objetivo principal dessa tendência era brindar o país com medalhas olímpicas; com técnicas desportivas, com a elitização social, competição, superação individual, que se constituíram em valores para uma sociedade moderna. Dita concepção foi utilizada pelo governo como um sustentáculo ideológico e metodologias com procedimentos diretivos que se tornou um fracasso, pois o Brasil não se tornou uma potência olímpica. A tendência da Educação Física Popular (década de 1980) volta-se para a classe trabalhadora. O respeito à historicidade cultural, à ludicidade e à cooperação são palavras chaves nessa tendência. Tem-se ênfase em atividades como dança ginástica, solidariedade operária, cultural, social, política, afetiva, sujeitos sociais e cidadãos. Nessa vertente, os PCNS (1998) citam as novas abordagens. Senão, vejamos: (i). Abordagem psicomotora (Jean Le Boulche): a partir da década de 1970, evidenciou pontos a proporcionar uma maior integração com a proposta pedagógica, processos cognitivos, afetivos e psicomotores, a busca pela formação integral do aluno e a substituir o conteúdo, que era predominantemente esportivo. 234 S U M Á R I O Valoriza o processo de aprendizagem e não mais a execução de um gesto técnico isolado. (ii). Abordagem Construtivista: atua na construção do conhecimento a partirda interação do sujeito com o mundo e uma maior integração com a proposta pedagógica ampla e integrada com as aulas de Educação Física. Tem como objetivo respeitar o universo cultural do aluno; explorar a gama múltipla de possibilidades educativas de sua atividade lúdica; respeitar o conhecimento da criança e usar a participação ativa na solução de problemas; movimentos que irão contribuir na área cognitiva (leitura, escrita, matemática); resgatar a cultura dos jogos com regras e brincadeira de rua, rodas cantadas; e o Jogo deve ser utilizado como conteúdo pedagógico. A abordagem construtivista tem como principais autores João Batista Freire, Jean Piaget e Vygostsky. (iii). Abordagem Desenvolvimentista: tem em Tani e colaboradores (1988) seu principal articulador, que busca uma fundamentação teórica para a Educação Física Escolar por intermédio dos processos de aprendizagem e desenvolvimento nas aulas de Educação Física e o foco é o desenvolvimento motor. Proporciona condições para que o comportamento motor seja desenvolvido por meio da diversificação e a complexidade de movimentos. Para o grupo etário entre 04 até 14 anos faz uso da fundamentação teórica onde a ideia é utilizar o movimento como principal meio e fim da Educação Física; a Taxionomia para o desenvolvimento motor; conceito de habilidade motora a resolver problemas motores. (iv). Abordagem Crítica (Coletivo de Autores, década de 1980): utiliza um referencial crítico, fundamentado no materialismo histórico e dialético. Critica o caráter alienante da Educação Física e busca superar as contradições e injustiças sociais. Propõe, ainda, 235 S U M Á R I O uma Educação Física baseada nas transformações sociais, econômicas e políticas a fim de superar desigualdades sociais. De acordo com o contexto sócio cultural dos alunos, utiliza conteúdos mais diversificados, não só restritos a exercícios, ginástica e esportes, cujo objetivo maior é a formação integral do indivíduo. Sua metodologia discorre em olhar para as práticas constitutivas da Cultura Corporal. Outrossim, as atividades corporais, esportivas ou não, são vivenciadas como no “fazer” corporal, e refletir sobre o significado desse mesmo “fazer”. No âmbito da Educação Física Brasileira, a partir da década de 1980, surgem os chamados Movimentos Renovadores da Educação, ou Progressistas, que busca dar um novo significado a essa disciplina na escola, em oposição à vertente mais tecnicista (BRACHT, 1999; DARIDO et al., 1999). A proposta de Concepção de Aulas Abertas, desenvolvida por Hildebrandt e Laging (1986), tem como característica principal a participação dos alunos em decisões referentes aos objetivos, seleção dos conteúdos, metodologia e avaliação. A Concepção Aberta de Ensino entende que a participação ativa dos alunos facilita o processo de ensino-aprendizagem na medida em que propicia maior troca entre os sujeitos. Essa concepção de ensino está fundamentada em mecanismos interacionistas de aprendizagem (construtivismo), onde os processos sociocomunicativos são priorizados. Assim, tem-se por superado o modelo que reduz a aula de educação física aos mecanismos motores possibilitando o desenvolvimento da capacidade crítica e autônoma. Fato é que apresenta diferentes graus de possibilidades de “co decisão” dos alunos. Nesse contexto, o professor está aberto para negociações e para situações alternativas de ensino; é visto como conselheiro, 236 S U M Á R I O mediador, interventor e, o aluno, encontra-se no centro do processo ensino-aprendizagem. As decisões relativas aos objetivos, aos conteúdos e às formas de transmissão do conhecimento são negociadas e determinadas subjetivamente. Essa concepção de ensino pressupõe compartilhamento de poder entre o professor e os alunos. Ainda, exige um diagnóstico etnográfico a identificar os interesses, as expectativas, as experiências anteriores dos alunos e as características socioculturais. Induz o interesse por espaços de manifestações culturais, valorização, significado, responsabilização; privilegia as características sociais e cognitivas dos alunos no sentido de levá-los a refletir sobre suas ações nas diferentes situações de ensino. As ações metodológicas são organizadas de forma a conduzir a um aumento no nível de complexidade dos temas tratados e realiza- se em uma ação participativa, onde professor e alunos interagem na resolução de problemas e na definição dos temas geradores. No entanto, na Concepção de Aulas Fechadas, grande parte das decisões cabe ao professor. Os objetivos de aprendizagem, na forma de comportamento, são modelos de movimento prescritos pelo professor, que é o centro do processo metodológico. Os resultados são diagnosticados com um controle da aprendizagem baseado nos objetivos determinados pelos professores participantes. O modelo fechado ou centrado no professor é a forma mais tradicional do ensino escolar e baseia-se no mecanismo de repetição e memorização, onde o aluno apenas executa as instruções do professor. Pode-se afirmar que é uma metodologia utilizada por um grande número dos professores de lutas (RUFFONI, 2004) onde a 237 S U M Á R I O repetição de movimentos fica clara com as metodologias de seus respectivos professores. De forma simplista, enfatizam-se estilos diretivos e não diretivos como formas metodológicas a serem trabalhadas. Há que se ter presente que ao discorrer sobre as perspectivas educacionais, em especial, das lutas, é relevante destacar a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), por ser um [...] [...] documento de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica2, de modo a que tenham assegurados seus direitos de aprendizagem e desenvolvimento, em conformidade com o que preceitua o Plano Nacional de Educação (PNE) (BRASIL, 2020, p. 7). A BNCC, na versão de 2020, relata que: a Educação Básica deve visar à formação e ao desenvolvimento humano global, o que implica compreender a complexidade e a não linearidade desse desenvolvimento, rompendo com visões reducionistas que privilegiam ou a dimensão intelectual (cognitiva) ou a dimensão afetiva. Significa, pois, assumir uma visão plural, singular e integral da criança, do adolescente, do jovem e do adulto – considerando-os como sujeitos de aprendizagem – e promover uma educação voltada ao seu acolhimento, reconhecimento e desenvolvimento pleno, nas suas singularidades e diversidades. Além disso, a escola, como espaço de aprendizagem e de democracia inclusiva, deve se fortalecer na prática coercitiva de não discriminação, não preconceito e respeito às diferenças e diversidades (BRASIL, 2020, p. 14). Relativamente ao componente curricular Educação Física, a grande mudança introduzida pela BNCC é sua inserção na área do conhecimento de Linguagens do Ensino Fundamental: 2 Três são as etapas da Educação Básica: Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio. 238 S U M Á R I O “[...] a permitir o acesso a um vasto universo cultural. Esse universo compreende saberes corporais, experiências estéticas, emotivas, lúdicas e agonistas, que se inscrevem, mas não se restringem, à racionalidade típica dos saberes científicos que, comumente, orienta as práticas pedagógicas na escola. Experimentar e analisar as diferentes formas de expressão que não se alicerçam apenas nessa racionalidade é uma das potencialidades desse componente na Educação Básica. Para além da vivência, a experiência efetiva das práticas corporais oportuniza aos alunos participar, de forma autônoma, em contextos de lazer e saúde” (BRASIL, 2020, p. 213). Há três elementos fundamentais comuns às práticas corporais: movimento corporal como elemento essencial; organização interna (de maior ou menor grau), pautada por uma lógica específica; e produto cultural vinculado com o lazer/entretenimento e/ou o cuidadoEspecialização em Lutas (IEFD /UERJ) apresentam exemplos de planos de curso e planos de aula que podem ser aplicados em diferentes modalidades de lutas, destinados a alunos com características distintas. Os exemplos de planejamento propostos neste capítulo podem contribuir para a redução da lacuna de conhecimento acerca do tema na literatura e dar suporte para professores que buscam informações sobre como elaborar planejamentos para ministrar aulas de lutas em diferentes contextos. Convidados a contribuir com esta obra, os professores Paulo C. Araújo, Pere Lavega, Pedro Gaspar, Artur R. Pereira e Ana Rosa 18 S U M Á R I O Jaqueira, apresentam no Capítulo X os resultados de uma pesquisa empírica que teve por base o Projeto Internacional de Investigação denominado: “Jogos e Emoções”, criado por Lavega et al. (2008). O estudo quase experimental utilizou a Escala Jogos e Emoções (GES) como instrumento para alcançar os objetivos de identificar, descrever e interpretar as tendências da expressão emocional dos indivíduos que participaram do Workout gímnico de Capoeira proposto pelos autores. Os resultados revelaram que os homens expressaram valores mais elevados para todos os tipos de emoção. Sendo as emoções positivas as mais significativas, e as mais relevantes a alegria, a felicidade e o humor. Os dados expressos pelos indivíduos do estudo, destacam que as ações do domínio cooperativo podem influenciar a expressão das emoções dos homens, sendo relevantes para a educação das emoções, para a melhoria do bem-estar físico, social e psicológico dos participantes. Assim, os autores sugerem que o Workout gímnico de Capoeira pode ser uma atividade alternativa para ser aplicada no ambiente escolar por proporcionar um maior envolvimento dos alunos nas aulas de Educação Física. Com foco mais holístico, o estudo presente no Capítulo XI aborda a conexão entre a prática de meditação e a prática das lutas. O professor Almir Menezes Silvares busca desenvolver reflexões acerca dos impactos positivos da meditação, para o desenvolvimento do praticante de lutas no que se refere à consolidação de um caráter mais humanista no praticante. A partir de revisão bibliográfica o autor indica como a meditação pode interagir na condição física do indivíduo, aumentando, inclusive, a resistência física e o desenvolvimento, ainda que primário, de áreas da atividade mental: otimização funcional do cérebro, a coerência física e mental da prática (no tocante aos índices de violência do e no praticante), aumento da recuperação fisiológica, mais rápida ativação cerebral com a mais ágil ativação de fluxo sanguíneo e diminuição da ansiedade. 19 S U M Á R I O Com o aumento no número de praticantes de lutas no Brasil ocorreu paralelamente um crescimento do número de traumas decorrentes de acidentes que poderiam ter sido prevenidos. Como alguns instrutores de lutas não tem formação na área de saúde e desconhecem a forma correta de prevenir e atuar em situações de emergência no ambiente de lutas faz-se necessário a expansão de materiais didáticos para acesso dessa população. Com este pressuposto o professor Marcelo Barros de Vasconcellos apresenta no Capítulo XII argumentos para sustentar a importância da prevenção nas aulas de lutas e apresenta as formas de agir em primeiros socorros, os principais procedimentos emergenciais e as medidas de prevenção dos acidentes (desidratação, convulsão, desmaio, trauma, hemorragias, entorse, luxação, estiramento, acidente diabético, hiperglicemia, hipoglicemia e parada cardiorrespiratória). Pelo fato de não ser comum os cursos de formação de professores e federações esportivas de lutas terem a preocupação de ofertar cursos de prevenção e primeiros socorros que possa contribuir para melhorar a formação dos instrutores de lutas, esta competência deve ser uma busca de atualização constante destes profissionais. Mais do que tentar suprir esta lacuna, as informações apresentadas neste capítulo devem estimular o instrutor a buscar ampliar e aprofundar a sua competência para garantir maior segurança aos praticantes. Sem a pretensão de esgotar o tema, a obra que o leitor tem diante de si reflete o desafio que foi aceito pelos colegas coautores de fomentar, preliminarmente, a discussão acerca dos conhecimentos necessários para a intervenção nas artes marciais, esportes de combate e lutas. Ao encarar este desafio os colegas que assinam juntos este livro entraram no dojo, no koto, no octógono, no tapete, no ringue ou na roda, para um enfrentamento diferente daquele que vivenciaram ao longo de suas experiências como esportistas ou lutadores. Sem temer o desafio, os autores 20 S U M Á R I O aceitaram o risco de contribuir para ampliar, aprofundar e refinar as reflexões sobre o ensino e o treinamento das lutas e proporcionar ao leitor uma melhor compreensão deste fenômeno crescente na sociedade ocidental. Laboratório Interdisciplinar de Estudos em Lutas – LLUTAS Curso de Especialização em Lutas Instituto de Educação Física e Desportos Universidade do Estado do Rio de Janeiro Capítulo 1 ASPECTOS PSICOLÓGICOS DO ENSINO-APRENDIZADO DE LUTAS: PERSPECTIVAS E ORIENTAÇÕES Dirceu Ribeiro Nogueira da Gama 1 Dirceu Ribeiro Nogueira da Gama DOI: 10.31560/pimentacultural/2021.601.21-52 ASPECTOS PSICOLÓGICOS DO ENSINO-APRENDIZADO DE LUTAS: PERSPECTIVAS E ORIENTAÇÕES 22 S U M Á R I O INTRODUÇÃO O presente trabalho objetiva efetuar uma exposição analítica de determinantes psicológicos cuja mobilização, a depender da maneira como venha a ocorrer no contexto específico do ensino-aprendizado de lutas, tanto pode retardar como otimizar a assimilação dos conteúdos, valores e disposições necessários à prática competente das mesmas. Cabe frisar que as proposições que serão desenvolvidas no texto a seguir constituem muito mais um exercício ensaístico calcado em conceitos chaves da Psicologia do Esporte e da Psicologia da Aprendizagem do que em recomendações provenientes de dados empíricos obtidos por meio de protocolos científicos. Sem desmerecer o papel fundamental da ciência na produção de verdades, encaminhamentos dessa natureza também são significativos por despertarem o interesse para o posterior aprofundamento das problemáticas que levantam. Por outro lado, tal opção metodológica suscita o estabelecimento de demarcações teóricas mínimas, a fim de que a exequibilidade das questões colocadas se distancie da ótica do senso comum. Com base na ressalva anterior, uma primeira colocação importante remete ao vocábulo “lutas”. Por mais que este termo genérico seja empregado como designatório do enfrentamento físico de indivíduos com o uso ou não de armas, no plano histórico ele alude a manifestações corporais concretas dotadas de sentidos variados (HOUAISS, 2009). As denominações “artes marciais” (técnicas bélicas); “esportes de combate” (esportivização das lutas com finalidades competitivas, pedagógicas e de lazer) e “Budô” (práticas corporais inseridas em conjunturas mais amplas direcionadas ao aprimoramento espiritual) expressam, no campo das ideias, esse desdobramento: malgrado cada uma referir-se a contextos materiais de prática radicalmente diferentes no que concerne aos seus propósitos, normas e fins, ainda assim tais palavras são, muitas vezes, consideradas símiles (TUBINO; GARRIDO; TUBINO, 2007). Trata-se de interpretação errônea, pois a 23 S U M Á R I O existência de aspectos semelhantes entre as práticas que significam não é suficiente para vê-las enquanto sinônimos. De fato, em modalidades como karatê, kung-fu e tae-kwon- do é possível detectar os enfoques das artes marciais, dos esportes de combate e do Budô. Em outras como o pugilismo e o wrestling percebe-se não mais do que um deles, a saber, o de esportes de combate. Tamanha heterogeneidade indica que, no universo das lutas, o grau de adaptabilidade temporal à mudanças circunstanciais é diferenciado. Todavia, não é menos verdade quecom o corpo e a saúde. A vivência da prática é uma forma de gerar um tipo de conhecimento muito particular e insubstituível e, para que ela seja significativa, é preciso problematizar, desnaturalizar e evidenciar a multiplicidade de sentidos e significados que os grupos sociais conferem às diferentes manifestações da cultura corporal de movimento. Logo, as práticas corporais são textos culturais passíveis de leitura e produção. Na BNCC, cada uma das práticas corporais tematizadas compõe uma das seis unidades temáticas abordadas ao longo do Ensino Fundamental, quais sejam, Brincadeiras e Jogos, Esportes, Ginásticas, Lutas, Danças e Práticas Corporais de Aventura. Tenha-se presente que a BNCC conceitua lutas como disputas corporais, nas quais os participantes empregam técnicas, táticas e estratégias específicas para imobilizar, desequilibrar, atingir ou excluir o oponente de um determinado espaço, combinando ações de ataque e defesa dirigidas ao corpo do adversário. Dessa forma, além das lutas presentes no contexto comunitário e regional, podem ser tratadas lutas 239 S U M Á R I O brasileiras (capoeira, huka-huka, luta marajoara etc.), bem como lutas de diversos países do mundo (judô, aikido, jiu-jítsu, muay thai, boxe, chinese boxing, esgrima, kendo etc.). Notadamente, a unidade temática Esportes contempla, dentre outros, como objeto de conhecimento os esportes de combate, que são sempre individuais e têm como objetivo central vencer o oponente através de toques, desequilíbrios, imobilizações, exclusão de determinado espaço, contusões, combinando ações de ataque e defesa, dentre eles, destacamos o boxe, a esgrima, o jiu-jítsu, o judô, o karatê, o sumô, o taekwondo etc. (BRASIL, 2020). Nesse contexto, há que se ressaltar a importância das lutas como instrumento pedagógico na formação da criança. Sua pertinência e relevância social estão no fato de que hoje as lutas se apresentam como um conteúdo a ser desenvolvido na prática curricular da Educação Física (RUFFONI, 2004). Notadamente, Parlebas (1990) enfatiza que as lutas em geral são atividades esportivas com uma oposição presente, imediata, e que é o objeto da ação. Existe uma situação de enfrentamento codificado com o corpo do oponente. Dessa forma, podemos contextualizar as lutas, como uma manifestação cultural, como jogos ou esportes que tenham um contato direto e de oposição em que o objetivo maior seja o enfrentamento de acordo com as regras pré-estabelecidas (RUFFONI; ANJOS, 2015). Vale destacar que a BNCC realça a articulação com as competências gerais da Educação Básica e as competências específicas da área de Linguagens, no qual está inserido o componente curricular Educação Física, que deve garantir aos alunos o desenvolvimento de competências específicas. Porém, alguns questionamentos devem estar presentes na realidade acadêmica: (i) qual o entendimento 240 S U M Á R I O para competência específica? (ii) voltar-se ao contexto do tecnicismo na práxis pedagógica da Educação Física escolar? Por certo, a interpretação deverá provir do professor no sentido de contextualizar como a luta realmente deve ser desenvolvida e aplicada nas escolas. Nesse sentido, o objetivo maior é provocar uma reflexão dialética nas abordagens metodológicas das lutas. MÉTODOS DE ENSINO São as formas como os professores desenvolvem os diversos conteúdos com a finalidade de atingir os objetivos propostos. Compreendem as estratégias e os procedimentos adotados no ensino por professores e alunos. Caracterizam-se por ações conscientes, planejadas e controladas, com o fito de atingir, além dos objetivos gerais e específicos propostos, algum nível de generalização. É a categoria mais dinâmica do processo de ensino-aprendizagem, já que é determinado por objetivos que mudam em função do dinamismo da realidade sociocultural em que o processo está inserido. Todavia, os métodos de ensino dependem das características gerais da clientela a que se dirige, dentre outros, número de alunos, idade, nível de desenvolvimento prévio e estrato sociocultural a que pertencem. Nessa vertente, algumas inquietações surgem no caminho metodológico das lutas. Os professores de Educação Física, no contexto educacional, conhecem e aplicam as lutas de forma correta? Utilizam a prática das lutas em suas aulas de Educação Física? De que forma? Utilizam metodologias numa perspectiva aberta de ensino? De toda sorte, uma aula de lutas na Educação Física Escolar não pode ser confundida com uma repetição de movimentos, tal qual se observam em atividades não formais, como clube, academias, 241 S U M Á R I O projetos sociais. Torna-se cada vez mais necessário a compreensão dos docentes, que atuam com as lutas, o entendimento dessas ações metodológicas. Entende-se que os professores, ao inserir a prática das lutas nas aulas de Educação Física, devem desenvolvê- las como uma ferramenta pedagógica no processo de formação integral das crianças. Ao diversificar as estratégias de abordagem dos conteúdos, aluno e professor podem participar de uma integração cooperativa de construção e descoberta, onde o aluno contribui com seu estilo pessoal de executar, refletir, aprender e trazer, em alguns momentos, a síntese da atualidade para o momento da aprendizagem, sua experiência histórica (recursos de troca de informações, conhecimentos prévios, informações da mídia, redes sociais, streaming, etc.) e, o professor, promover uma visão contextualizada do processo como uma possibilidade real (experiência socioculturalmente construída, referências para a leitura). Arnold (1990) distingue entre um sentido fraco e outro forte do saber; o primeiro deles se refere a uma pessoa fisicamente capaz de fazer algo e demonstrá-lo, mas que não sabe dizer nada sobre o que fez a título de descrição ou compreensão, ou seja, não sabe dar explicação alguma dos procedimentos que utilizou. No segundo (sentido forte do saber), refere-se a uma pessoa que é capaz de fazer o que diz, que pode fazer e explicar como o faz, ou seja, a pessoa não só é intencionalmente capaz de executar com êxito algumas ações, como também pode identificá-las e descrever como se realizaram. Isto posto, as aprendizagens técnicas em Educação Física adquirem seu pleno significado por meio de estilos de ensino que levam em consideração o contexto e a compreensão dos movimentos, e não a aprendizagem mecânica de gestos sem sentido. 242 S U M Á R I O Dessa forma, não se deve esquecer que a aprendizagem significativa implica na memorização compreensiva dos conteúdos assimilados, já que esses não são simplesmente acumulados sem que se integrem em redes de significados complexos e diversificados. Em síntese, a realização de aprendizagens significativas assegura a funcionalidade e a mudança de comportamento pela própria natureza dos processos construtivos que a implica. Mesmo que a Educação Física, hegemonicamente, seja afirmada pela dimensão física e política, deve também ser um veículo de divulgação de novas propostas no interior da escola, ainda que por via documental. Nesse sentido, é importante que os profissionais de Educação Física escolar estejam atentos à proposta dos PCNs (1988), que tem e teve por objetivo nortear os campos da Educação em nível nacional, e recentemente, a BNCC (2020). Com relação às perspectivas metodológicas, na prática da atividade física, Mesquita (1994) pesquisou a identificação da incidência do autoritarismo na prática do judô com a intenção de saber o que acontece na aula de forma conveniente ou simplesmente retórica, utilizando como metodologia a divisão de níveis de autoritarismo. Dos resultados, foram encontrados vários níveis de autoritarismo, assim como a discrepância nas respostas entre alunos, professores, alunos e professores e entre o discurso e a prática. Tendo sido encontrada a incidência autoritária em todos os momentos da prática de judô, faz- se necessária uma reformulação na teoria pedagógicafundamentos filosóficos peculiares garantem identidade de métodos, estilos e técnicas motoras a cada uma delas. Essa dupla condição atesta que tendências à abertura e preservação de tradições caracterizam estruturalmente o cenário vigente (NAGAMINI, 2005). Outro fator importante diz respeito ao conjunto das técnicas ensinadas desde a iniciação até a expertise. Elas condicionam o aprimoramento motor dos lutadores de maneira singular, porque acionam ritmos, velocidades e combinações particulares de segmentos do corpo. Nesse sentido, as artes marciais, os esportes de combate e o exercício do Budô propiciam o desenvolvimento de linguagens corporais com sentidos peculiares. Logo, a aplicação de um chute ou técnica de projeção pelo carateca e pelo judoca num torneio pré-olímpico não possui a mesma conotação daquela observada em um kata exercido na academia ou numa demonstração ao público leigo. Contudo, é possível discernir um eixo comum a todas essas habilidades, porquanto, sob a luz das teorias da aprendizagem motora, elas consistem em atos de movimento gerados por grandes grupamentos musculares, articulados em função de pontos bem definidos de início e execução e com estímulos ambientais em constante mutação. Além disso, o executante pode utilizar as informações sensoriais produzidas para ajusta-los. Tais técnicas admitem assim a classificação de habilidades motoras globais, seriais, abertas e de circuito fechado (MAGILL, 1998). 24 S U M Á R I O No esteio dessa observação, lembre-se que a aquisição, estabilização e efetividade de quaisquer habilidades motoras presume dimensões subjetivas (aspectos físicos e psíquicos da pessoa), situacionais (condições de aprendizagem e treinamento) e de tarefa (grau de dificuldade de complexidade da tarefa). Mecanismos didáticos adaptados ao perfil do sujeito e constantemente revistos lhe permitem efetuar com eficácia crescente os conteúdos pedagógicos propostos. Mas o oposto também pode acontecer caso estes cuidados sejam desprezados. Ações educativas deflagram processos psicossomáticos e intrapsíquicos, cujos efeitos reverberam nas percepções, emoções e motivações. Estes se mostrarão positivos ou negativos a depender de como aquela está configurada. Em suma, por mais que a pluralidade de lutas existentes e os seus respectivos procedimentos de instrução técnica primem pela singularidade, o ensino-aprendizado de habilidades motoras de combate para finalidades esportivas, defesa pessoal ou autoconhecimento demanda a organização de settings apropriados a tais fins. Os estímulos fornecidos por esses ambientes influenciam a vida mental do praticante e demandam respostas, pelo fato de repercutirem nas suas homeostases cognitiva, física e afetiva. Destacaremos a seguir estes desdobramentos no que tange à personalidade; percepção; atenção e concentração; motivação e estresse. A PERSONALIDADE: TRAÇOS, COMPORTAMENTOS E ATITUDES A personalidade de alguém condiz com o conjunto de todas as características que a fazem única. Ela possui um núcleo flexível, capaz de sofrer mudanças à medida que as experiências obtidas durante a vida se diversificam. Quanto a isso, fatores como escolaridade, 25 S U M Á R I O religião, laços familiares, vivências artísticas e esportivas etc. influenciam sobremaneira. Mas também existe um núcleo invariável, onde predominam um padrão de traços relativamente estáveis e permanentes (FEIST G.; FEIST J., 2008; SAMULSKI, 2002). Os traços contribuem para que os comportamentos se mantenham relativamente regulares em meio à acontecimentos, de modo que um indivíduo pode assemelhar-se a outro em muitos pontos, mas isso não significa que ele não apresente uma personalidade com traços próprios (FEIST G.; FEIST J., 2008; PARKS-LEDUC; FELDMAN; BARDI, 2015). Portanto, a personalidade possui coordenadas socioculturais e pessoais. De acordo com a Psicologia do Esporte, três diferentes hipóteses procuram explicar a relação entre a prática sistemática de lutas e a personalidade, a saber: a. hipótese da seleção: os esportes de combate e as artes marciais funcionariam como processos seletivos para certas personalidades. Estes ambientes, dado o perfil das exigências atitudinais que lhes são peculiares, proporcionariam uma melhor adaptação da persona a si mesma. Desse modo, determinados sujeitos se interessariam, por exemplo, pelo pugilismo ou muai thai devido ao fato de anteverem neles elementos que, nas suas auto compreensões, lhes habilitaria à se apropriarem de tendências agressivas inatas, passando assim a lidarem melhor com elas. Quanto mais satisfatória for essa autodescoberta, melhores serão os níveis performáticos conquistados em função de aprimoramentos na capacidade de uso controlado da agressividade; b. hipótese da socialização: consoante esta hipótese, as lutas permitem ao indivíduo ingressar em uma comunidade com interesses em comum compartilhados entre os seus membros, e que seria portadora de códigos de conduta peculiares. A participação neste grupo lhe forneceria uma identidade, 26 S U M Á R I O capitaneando o desenvolvimento de sua personalidade. Como consequência haveria o desencadeamento de melhorias interpessoais, motivacionais, axiológicas e comunicativas. Assim, como ilustração, a decisão de pais ou responsáveis em matricularem os filhos em academias de judô, jiu-jitsu ou karatê seria um reflexo dessa representação; c. hipótese da interação: tanto a socialização como a seleção influenciam-se mutuamente. Conforme esta hipótese, um boxeador com excessiva disposição agressiva teria elevadas chances de se tornar competitivo caso aprendesse a utilizar de maneira equilibrada essa emoção no decorrer de treinos e disputas. Esta evolução comportamental dever-se-ia às oportunidades vivenciadas na convivência com outros atores do meio do boxe. A maioria dos estudos sobre personalidade realizados não apenas no universo das lutas, mas nos esportes como um todo, referenciam-se em duas grandes orientações teóricas: a teoria dos traços de personalidade, de H. J. Eysenck (EYSENCK; NIAS; COX, 1982), e a teoria dos fatores de personalidade, de Costa e McRae (FEIST G.; FEIST J., 2008). A primeira delas, a teoria dos traços, advoga que as personalidades das pessoas possuem três grandes traços de personalidade dominantes, expressos em eixos bipolares: extroversão/ introversão (E); neuroticismo/estabilidade (N); psicoticismo/superego (P). No traço E, tem-se indivíduos que, num extremo, são altamente comunicativas e sociáveis (extrovertidos), enquanto que, no outro, há as muito reservadas (introvertidos). Em relação ao traço N, de um lado encontram-se os sujeitos muito emotivos, instáveis e baixo limiar de tolerância ao estresse (neuroticistas); do outro, os emocionalmente equilibrados (estáveis). Por fim, o traço P situa os manipuladores, calculistas, egoístas e narcisistas (psicoticistas) em contraposição aos racionais, amigáveis e receptivos (superego). Quanto à teoria dos 27 S U M Á R I O fatores, ela propõe uma visão ampliada: além dos traços N e E da teoria de Eysenck, ela inclui mais três: abertura a experiências, amabilidade e consciência da relevância de tarefas ((FEIST G.; FEIST J., 2008). Tanto H. J. Eysenck como Costa e McRae elaboraram e validaram questionários padrão para levantarem empiricamente as dimensões de personalidade e as suas proporções relativas em sujeitos, inclusive com adaptações para adolescentes. Tais questionários são usados com frequência nas pesquisas acadêmicas sobre lutas. Dada a sua fácil aplicabilidade e tabulação de resultados, eles podem igualmente ser de grande serventia para se estimar o perfil de personalidade de praticantes de luta. Com base neste cenário, até que ponto pode-se esperar que lutadores apresentem traços de personalidade específicos? Trata- se de interrogação inquietante, porquanto não é possível encontrar respostas exatas para ela. Mesmo com a dominância epistemológica dassupracitadas teorias, trabalhos recentes de investigação vêm optando por enfoques multidisciplinares na tentativa de delinear soluções. Estas últimas, por sua vez, não sustentam a existência de consensos seguros. Um estudo pioneiro sobre a questão foi conduzido por Duthie, Hope e Barker (1978) nos Estados Unidos da América com 52 praticantes de diversas artes marciais. Mesmo não visando a identificação de componentes estáveis das suas personalidades, os autores observaram que os mais graduados destacavam-se pela autonomia, heterossexualidade, autoconfiança, resiliência, lealdade e senso de conquista quando comparados aos menos graduados. Recentemente, Litwiniuk et al. (2019) registraram, por meio das teorias de Eysenck e Zuckerman-Kuhlman combinadas, que adeptos do karatê kyokushin na Polônia eram, em termos de significância estatística, mais propensos a reações agressivas do que os compatriotas dedicados ao aikidô, tae-kwon-do e karatê shotokan. 28 S U M Á R I O Estes casos denotam o quanto a problemática permanece aberta e demandante de maiores pesquisas. Por outro lado, a investigação encaminhada por Gama et al. (2018) acusou uma correlação negativa moderada entre a resiliência de lutadores brasileiros de jiu-jitsu e kickboxing e o traço de personalidade denominado psicoticismo (P). A mesma correlacionou-se positiva e moderadamente com o nível de escolaridade. Litwic-Kaminska (2013) identificou altos níveis de robustez mental em lutadores de judô e tae-kwon-do acometidos por contusões que, temporariamente, os impediram de treinar e competir quando comparados a colegas que apenas tiveram lesões leves ou nunca se lesionaram. Em pesquisa experimental, Leźnicka et al. (2017) concluíram que esportistas de pugilismo, artes marciais mistas e karatê lidavam melhor com a dor corporal em relação ao grupo de universitários não lutadores porque a viam como uma oportunidade de fortalecerem a capacidade de concentração e testarem seus limites fisiológicos. No que concerne às habilidades sociais de convivência e comunicação, evidências indicam que elas são mais frequentes em atletas onde o traço de extroversão (E) é marcante. (EYSENCK; NIAS; COX, 1982). Além disso, os mesmos em geral são bem queridos pelos colegas, treinadores e gestores. Trabalhos efetuados com praticantes de luta livre olímpica e judocas identificaram a extroversão como o traço de personalidade mais proeminente destes sujeitos (SZABO; URBÁN, 2014). Em suma, a diversidade de informações relativas a traços de personalidade de lutadores e os comportamentos e atitudes que exibem não autoriza que nenhum juízo seguro sobre tais elementos possa ser emitido em definitivo. Muito embora endossando essa ressalva, Samulski (2002) sublinha que deve-se dos mais experientes e graduados com reconhecido sucesso em suas modalidades que eles sejam: 1) estabelecedores de metas de prática exigentes e realistas; 29 S U M Á R I O 2) organizados, disciplinados, confiantes, adaptáveis, resilientes e auto controlados; 3) propensos à ampliarem os horizontes de sua formação. PERCEPÇÃO Consoante o pressuposto adotado de que é viável categorizar as técnicas de luta como habilidades motoras globais, seriais, abertas e de circuito fechado, a exercitação necessária ao domínio de atos de movimento com esse perfil demanda intensa mobilização da percepção. Esse termo diz respeito à organização das informações captadas pelos sentidos, que recebem um formato subjetivo através de atribuições de sentidos. Percebemos o que acontece no espaço e no tempo ao nosso redor. Influi nesta atividade o estado de sentimentos da pessoa. Sublinhe-se que as pessoas não assimilam perceptivamente a realidade por meio de captações de partes dos fenômenos para em seguida ordená-las serialmente em novas composições. Ao invés disso, elas apreendem o mundo como totalidades globais e dinâmicas (FADIMAN, 1986). O emprego de tal apreensão, complexa de per si, com vistas a tomadas de decisão que facilitem o atingimento de alguma finalidade motora denota aquilo que inúmeros terapeutas, psicanalistas e psicólogos denominam de consciência corporal. O que se designa com este termo nada mais é do que uma modelação eficiente da atividade perceptiva (HADDOCK LOBO, 1988). Quando a quantidade de informações oriundas do meio externo por unidade de tempo supera a capacidade do organismo em assimilá- las, este deixará de processá-las com eficiência. Em processos de ensino-aprendizado, as mesmas devem ser oferecidas levando-se em conta o efetivo estágio motor em que o discente se acha e aquele que ele pode (e precisa) alcançar para executar as técnicas propostas 30 S U M Á R I O com maestria. A gestão do ambiente de prática implica, da parte do professor, em induzir o aluno a reconhecer os “sinais” relevantes do corpo em movimentação, hierarquizá-los em ordem de relevância e decidir em função deles. Desde sua gênese, o Gracie jiu-jitsu notabilizou-se pela ênfase na demonstração das possíveis intenções que, num combate de treino, a título de ilustração, o adversário teria ao variar as posições de pernas e pés numa posição de guarda ou então em razão da posição de mãos e braços na pegada que ele efetua em partes do kimono (CAIRUS, 2001). Em geral, estima-se que a quantidade e variabilidade progressivas de práticas enriqueçam as funções perceptivas porque submetem as estruturas mnemônicas a diferentes situações de assimilação, armazenamento e aplicabilidade dos dados sensoriais. Isso significa que propor combinações de novos estímulos motores nas atividades de treino representa algo importante no que concerne à pedagogia das lutas, porquanto tal medida reverbera na natureza das respostas corporais que precisam ser criadas. Também vale citar a importância de se modificar, dentro do possível, os aspectos ambientais, uma vez que mudanças de cenários redundam em desestabilizações e reequilíbrios da consciência corporal. O método de Masutatsu Oyama, o fundador do karatê kyokushin, incluía sessões de taiso em praias com água até o joelho enquanto mecanismo de domínio dos equilíbrios estático e dinâmico, bem como randori e kumite na areia com a intenção de induzir a realização de deslocamentos potentes e, ao mesmo tempo, suaves (WOODMAN, 2010). Em se tratando do tiro com arco, o sacerdote e professor Kenzo Awa sustentava que aulas em vales montanhosos promoviam a compreensão desta atividade e dos sentidos corporais porque tornava-os um único e indiferenciado ente (HERRIGEL, 1983). Com as devidas ressalvas históricas, a conjugação de estímulos motores e cognitivos variados também esteve presente nas origens do judô kodokan. Durante a sua sistematização, Jigoro Kano (2008) definiu quatro grandes parâmetros diretores do ensino do princípio 31 S U M Á R I O do seiryoku zenyo: randori (prática livre); kata (formas); kogi (lições teóricas); mondo (diálogos). A relevância em se treinar as formas do kata residia no fato delas refletirem o horizonte conceitual pleno do judô – a harmonia corpo e mente. A busca dessa harmonia e o seu progressivo encontro traduzem-se em ampliações da consciência corporal, entendida como capacidade ampliada de perceber e deliberar em frações temporais ínfimas. Todas las katas del Kodokan reflejan un objetivo ideal del judo –“buen uso de la mente y el cuerpo”– a través de la transmisión de conceptos como la correcta acción/reacción, sacar partido de un momento de oportunidad (debana), ruptura del equilibrio (kuzushi) y la “mente presente” (zanshin). De manera adicional, cada una de las katas del Kodokan realiza una contribución específica a la enseñanza de diferentes principios y aspectos de control inherentes al judo - “por ejemplo, control de la respiración, control de la postura y del equilibrio, control de la velocidad, control del movimiento del cuerpo (tai-sabaki), de la sincronización y, de manera primordial, control emocional –. Incluso la Koshiki-no-kata yla Itsutsu-no-kata, que parecen en primera instancia ser muy antiguas comparadas con el judo actual, tienen su valor. La comprensión que puede derivarse de su correcta práctica contribuye de modo importante al desarrollo del “sentir interior” (kimochi), del “sentido de la ruptura del equilibrio” y del “sentido de posición y del posicionamiento” (tsukuri) (JONES; HANON, 2011, p. 14). Em outras lutas onde prevalece o sentido das artes marciais, semelhante orientação é detectada. São o caso do kung-fu wushu, tae- kwon-do, kendô, karatê e pencak silat (luta marcial javanesa), dentre outras. A efetuação de movimentos de combate contra adversários imaginários faz parte das suas tradições pedagógicas e são justificados como procedimentos didáticos destinados a melhoria dos canais da percepção (FARRER; WHALEN-BRIDGE, 2011). No panorama dos esportes de combate, posições ambíguas vigoram. De um lado, há aqueles que, calcados nos princípios da especificidade e da adaptação, oriundos do Treinamento Desportivo, 32 S U M Á R I O defendem que a exercitação perceptiva precisa estar circunscrita aos perfis singulares dos contextos em que o atleta atuará. Assim, no esteio desse pressuposto, melhorias perceptivas em um lutador de wrestling ou mixed martial arts (MMA) serão mais fáceis de obtenção, salvaguardados os limites biológicos pessoais, se as suas rotinas de treino forem programadas para simularem as circunstâncias reais de competição. O argumento empenhado é o de que medidas genéricas podem ser arriscadas fisicamente e pouco efetivas quanto ao incremento da competitividade. Contudo, ainda assim essa tendência hegemônica sofre questionamentos. Em obra recente organizada por O’Shea (2019), diversos autores pesquisadores do campo das artes marciais e esportes de combate evidenciaram a crença de que lutas e dança gozam de aspectos em comum, advogando ser cabível elevar os níveis de performance na primeira por intermédio de imersões na segunda. No pugilismo, tem-se os casos do ex-campeões mundiais de boxe Evander Holyfield e Joe Louis, os quais admitem que o ballet aperfeiçoou as suas habilidades de deslocamento nos ringues. No MMA, o ex detentor dos cinturões dos meio-médios e considerado o melhor de todos os tempos, Anderson Silva, assumiu, em diversas entrevistas, a influência da dança de rua na construção de sua mobilidade corporal de lutador desde a juventude. Tal discrepância de visões ratifica o quanto o treinamento da percepção representa uma área do conhecimento ainda nova. Entretanto, aprender a ficar atento a sinais relevantes tanto do corpo próprio como do adversário parece ser tarefa crucial para positivamente instruí-la. ATENÇÃO E CONCENTRAÇÃO Dois conceitos diretamente vinculados à percepção são os de atenção e concentração. A atenção corresponde a um estado seletivo, 33 S U M Á R I O intenso e dirigido da percepção. Quando o sujeito consegue manter-se atento a estímulos externos por um longo período de tempo, diz-se que ele apresenta grande poderio de concentração (MAGILL, 1998). A atenção pode ser subdividida em atenção concentrada e atenção distributiva. Enquanto a primeira presume a preservação do foco em um determinado objeto ou situação, a segunda implica na distribuição da concentração sobre diversos deles. Cientificamente, é sabido que a atenção distributiva do organismo humano conhece limitações. Devido a isso, ela não pode ser mantida indefinidamente com a mesma intensidade e clareza sobre muitas ações simultâneas. Dessa forma, a alternância de atenções consiste em uma competência imprescindível aos praticantes de lutas. Cabe à atenção providenciar a identificação e seleção de informações externas, com vistas à absorvê-las ou rejeitá-las posteriormente. Tal exigência requer o emprego de gradientes de energia psíquica. De acordo com Samulski (2002), são variáveis interferentes na atenção: a. características visuais do fenômeno e a capacidade de deslocamento do olhar: técnicas executadas com grande velocidade dificultam o acompanhamento visual de terceiros e facilitam a aparição de erros da parte do executante ainda na iniciação. Tal fato justifica que o ensino das habilidades de luta para estes indivíduos prime por movimentos lentos e concatenados. Só depois é que a aceleração e a potência muscular devem ser autorizadas. A utilização das gravações em tempo real no pugilismo e no MMA profissionais pelos juízes como meio de certificação dos golpes ministrados pelos atletas, ou então a colocação de coletes com sensores eletrônicos de toque, como no tae-kwon-do e boxe olímpicos são medidas calcadas nesta constatação e visam evitar a emissão de juízos errôneos; 34 S U M Á R I O b. nível de ativação mental (mobilização de energia psíquica) a curto e longo prazo: Trata-se de ação complexa, para qual é necessário intenso treinamento. Quanto melhor o praticante conseguir administrar de maneira equilibrada a energia mental, entendida como o combustível do trabalho cognitivo e emocional, usando os montantes estritamente necessários à tarefa que deve fazer, menos ele se distrairá. Quem melhor consegue alternar os estados de concentração tende a ser mais bem sucedido; c. traços de personalidade: em geral, pessoas com acentuado traço neuroticista têm baixo limiar de tolerância ao estresse, o que lhes faz propensas a déficits de atenção e concentração quando sob tensão emocional. Pelo motivo oposto, a estabilidade comportamental em situação de intensas emoções retarda o comprometimento da atenção e concentração. Ademais, pessoas extrovertidas são mais eficientes em tarefas de curto prazo e com presença de interferentes ambientais, enquanto os introvertidos se dão melhor em tarefas prolongadas e pouco entrópicas; d. Diferenças sexuais: trata-se de tema polêmico e insuficiente investigado. No entanto, supõe-se que a relação entre exigência social, sugestão emotiva e respostas a sentimentos e pensamentos difiram por sexo; e. Hora do dia: os níveis de ativação mental relacionam-se com os ciclos circadianos. Logo, torna-se mais fácil a retenção da atenção em aulas e treinos feitos durante o dia em comparação com a noite; f. Estado de aprendizagem da tarefa: a execução de atos motores complexos requer do iniciante uma grande demanda de atenção. Sendo o olhar o sentido dominante, é usual ele privilegia-lo em relação a outros canais perceptivos, como, por exemplo, 35 S U M Á R I O o tato. É relevante que o instrutor de esportes de combate ou artes marciais subdivida a técnica que quer ensinar em fases e comunique exatamente onde deve-se olhar, a fim de evitar dispersões ou distrações. Modelos bidimensionais têm sido construídos para fornecerem uma leitura geral dos processos de atenção e concentração nas atividades esportivas, sendo perfeitamente aplicáveis ao universo das lutas. O modelo de Völp (1987) é bastante elucidativo pela sua praticidade e qualidade didática. Ele fundamenta-se em dois critérios balizadores da atenção: a amplitude e o direcionamento. A amplitude remete a quantidade de informações sensoriais que absorvemos e usamos com consciência. Uma atenção muito ampla pressupõe simultaneidade de registro de uma vasta gama de dados perceptivos, ao passo que uma estreita limita-se a algumas poucas pistas. O direcionamento divide-se em dois pólos: interno e externo. Na atenção externa, a pessoa dirige a concentração para elementos exteriores a si; na interna, ela foca sentimentos, pensamentos e emoções. Uma conduta ótima e eficaz do lutador só é possível quando ele consegue transitar entre estes tipos de atenção com flexibilidade. Esta abordagem permite discernir quatro formas de atenção: ampla-externa; ampla-interna; estreita-externa; estreita-interna. Na orientação ampla-externa, o lutador precisa deliberar com base em situações complexas, marcadas por rápidas modificações na frequência e perfil dos estímulos ambientais. Sobre a ampla-interna, urge que eleplaneje comportamentos futuros a partir de ações já ocorridas com o intuito de adaptar-se à novas situações. Na estreita- externa, é necessário concentrar-se em um sinal específico. Por fim, no caso estreito-interno, a ênfase recai na consciência de si, das reflexões e do estresse. Segue abaixo, na figura 1, uma representação esquemática do modelo de Völp (1987), com exemplos: 36 S U M Á R I O Figura 1: esquema simplificado do modelo de völp Fonte: Adaptado de Samulski (2002) O uso destes distintos tipos de atenção nas situações em que eles são necessários é influenciado pelo grau de tensão emocional (level of arousal) em que o aluno/atleta se encontra. Em outras palavras, níveis de ansiedade muito elevados ou muito baixos prejudicam a mudança de um estado para outro. Assim como as performances motoras esportivas, estados ótimos de atenção e concentração obedecem à lei de Yerkes-Dodson, ou, teoria do “U” invertido (MAGILL, 1998). A Figura 2 ilustra esta lei: Figura 2: Lei de Yerkes-Dodson Fonte: Adaptado de Maggil (1998) O gráfico mostra que ativações débeis ou excessivas atrapalham a concentração, e, por conseguinte, o trânsito de uma forma de atenção 37 S U M Á R I O para a outra. Enquanto que na ativação insuficiente nota-se dispersão, ou seja, fixação em estímulos não relevantes, na muito alta vê-se foco demasiado frações ínfimas de estímulos de fato relevantes. Ambas as ocorrências são prejudiciais para o desempenho. Sendo valências mentais treináveis, a atenção e a concentração são passíveis de aperfeiçoamento. Baumann (2011) e Weinberg e Gould (1999), elencam um conjunto de diretrizes direcionadas a estes fins. Na ótica de Baumann (2011), as seguintes diretrizes podem ser de valia pela sua simplicidade e facilidade de endereçamento: a. mapear, através de diálogos diretos do professor com o seu aluno, as causas perturbadoras: influências familiares e profissionais, patologias comportamentais, estresse, medo, necessidade de autoafirmação; b. criar estímulos, incentivos e recompensas, estabelecer metas de aprendizagem; c. durante as aulas, propor atividades onde há variações dos gradientes de atenção e concentração, utilizando o modelo de Völp (1987) para tal; d. interpolar a recuperação antes do pleno desencadeamento da fadiga provenientes das cargas de treino (começar a recuperar antes de quedas bruscas no poderio de concentração); e. forçar a manutenção da consciência nos estímulos inerentes ao propósito das sessões de aula ou treino; f. o professor/treinador precisa reunir dados sobre as vivências de sucesso/fracasso de seus alunos/atletas e suas consequências reais, formulando mecanismos para evitá-las ou repeti-las. 38 S U M Á R I O Weinberg e Gould (1999) sugerem: a. simular, dentro do possível, as condições de competição na esfera do treinamento (ruídos, pressão de tempo, estímulos perturbadores); b. criar palavras-códigos que designem o estado de atenção do atleta e que devem ser comunicadas pelo treinador a fim de que aquele saiba como se encontra emocionalmente; c. elaborar rotinas comportamentais, porque auxiliam na diminuição da ansiedade e distração; d. desenvolver planos de competição específicos para cada atleta; e. praticar controle visual de informações e, pouco a pouco, migrar para meios táteis e proprioceptivos; f. insistência do foco atencional no presente e não no passado ou futuro. MOTIVAÇÃO A motivação constitui um objeto de estudo clássico na esfera da Ciência Psicológica. Ela pode ser caracterizada como uma disposição intencional, ativa e voltada ao alcance de metas, envolvendo conjugações de fatores pessoais e externos, ou situacionais. Isto pressupõe a vigência de determinantes energéticos mentais (nível de ativação inicial) e de direção do comportamento (interesses e objetivos). Muitos construtos teóricos têm sido elaborados a fim de orientarem as pesquisas empíricas na esfera das atividades esportivas, incluindo as artes marciais e lutas. Faremos uma breve exposição de seis deles, dado o destaque que receberam na Psicologia do Esporte (SAMULSKI, 2002). 39 S U M Á R I O O esquema a seguir, na Figura 3, condensa as principais proposições da teoria da necessidade para o rendimento (need achievement theory): Figura 3: esquema simplificado da need achievement theory (teoria da necessidade para o rendimento) Fatores pessoais Fatores externos ou situacionais Tendências resultantes Reações emocionais Comportamento gerado Motivo para buscar o sucesso (+) Avaliação da possibilidade de sucesso (=) Procura efetiva do sucesso Orgulho na detecção do sucesso Busca da performance e do desafio (X) (X) (X) (X) (X) Motivo de evitar o fracasso (+) Avaliação do incentivo ao sucesso (=) Evitar o fracasso Vergonha diante do fracasso Evitar performance, desafio e risco Fonte: Adaptado de Samulski (2002) Pessoas com motivos para serem bem sucedidas e que visualizam situações de sucesso mobilizam-se para buscá-lo. Conseguindo-o, orgulham-se emocionalmente dos seus feitos. Suas características comportamentais são a procura de desafios, competitividade e performance. O mestre de jiu-jitsu Rorion Gracie, criador do torneio de MMA “Ultimate Fighting Championship” corresponderia a alguém com este perfil. Em compensação, pessoas que se motivam com vistas a evitarem fracassos valorizam eventuais incentivos ao sucesso sob o prisma de estímulos para não fracassarem na consumação de suas metas. Por se sentirem demasiado envergonhadas ao fracassarem, são propensas a não se envolverem em acontecimentos arriscados e desafiadores. O psicólogo do esporte Heinz Heckhausen (1991) também desenvolveu uma teoria da motivação no esporte articulando dimensões 40 S U M Á R I O pessoais e situacionais. Na sua ótica, os determinantes da motivação de atletas são a busca do êxito e o afastamento da possibilidade do fracasso, processo este que é mentalmente administrado por intermédio de critérios individuais e sociais. Ou seja, o atleta compara os seus resultados contabilizando tanto a história pessoal como as façanhas de concorrentes diretos, como visto na Figura 4. Figura 4: esquema da teoria da motivação no esporte de Heinz Heckhausen Fonte: Adaptado de Samulski (2002) Sobre os fatores pessoais, Heckhausen (1991) assevera que os atletas com maior probabilidade de êxito no esporte são pessoas que constroem expectativas realistas sobre em que nível consegue chegar baseados no efetivo estágio de desempenho em que se acham. Para chegar a esse estágio, compete a eles hierarquizarem quatro ordens de motivos: motivos vitais (alimentação, saúde, educação...); motivos pessoais (autorrealização); motivos sociais (reconhecimento público) e motivos ético-estéticos (ser justo; gostar de contemplar). Na visão do autor, atletas com mais chance de serem vitoriosos são os que 41 S U M Á R I O colocam os motivos pessoais em primeiro plano, subordinando os demais a eles. A judoca Rafaela Silva relatou diversas vezes em comunicações à imprensa que, após a sua desclassificação nos Jogos de 2012, Londres, por ter ministrado um golpe ilegal, colocou como meta existencial chegar à final olímpica nos Jogos de 2016 e sagrar-se campeã. Heckhausen (1991) acrescenta que atletas bem sucedidos são auto-controlados; determinados; reforçam-se positivamente; apresentam desejo de melhorar; são seguros e realistas; gozam de auto-conceito positivo e avaliam seus resultados com realismo. No extremo oposto, tais qualidades são escassas nos atletas mal sucedidos. Uma diferença a mais entre estes dois grupos é a de que os atletas exitosos atribuem a si as causas de seus insucessos, enquanto que os não tão bem sucedidos culpam as externalidades (arbitragem, falta de sorte etc.). Determinantes externos possuem a capacidade de funcionarem como ingredientes motivacionais. Heckhausen (1991) admite que premiações