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FARMACOLOGIA III Antidepressivos TRANSTORNOS DEPRESSIVOS A depressão é um dos transtornos mais comuns que afetam a população em algum período da vida, e o difícil manejo traz inúmeros prejuízos psicossociais ao indivíduo e sua família. Com a descoberta de fármacos mais seguros e seletivos, o uso de antidepressivos mudou o rumo do tratamento de transtornos psiquiátricos. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) divide os transtornos depressivos em: ● Transtorno depressivo não especificado ● Transtorno disruptivo de desregulação do humor ● Transtorno depressivo maior (é o mais comum) ● Transtorno depressivo persistente ● Transtorno disfórico menstrual ● Transtorno depressivo induzido por substância / medicamento ● Transtorno depressivo especificado FATORES DE RISCO PARA DEPRESSÃO AO LONGO DA VIDA Não modificáveis: sexo feminino, história familiar de depressão, negligência / maus tratos na infância, morte de pessoas próximas Modificáveis: doenças orgânicas crônicas ou graves; doenças nutricionais, hipotireoidismo; comorbidades psiquiátricas; insônia; períodos de alterações hormonais; recentes eventos estressores; bullying; estilo de vida sedentário. NEUROBIOLOGIA DA DEPRESSÃO Os neuro-eixos envolvidos na depressão são: projeções noradrenérgicas, projeções serotoninérgicas, projeções dopaminérgicas. Ou seja, os principais neurotransmissores afetados são a noradrenalina, serotonina e dopamina. Estes 3 neuro-eixos fazem praticamente o mesmo caminho (são muito semelhantes), e devido à isso, os neurotransmissores têm ação sinérgica ou um altera a ação do outro. Os sintomas depressivos são baseados na redução das ações destes neurotransmissores. Os episódios depressivos caracterizam-se por humor triste, preocupação pessimista, diminuição do interesse pelas atividades normais, redução da capacidade mental e da concentração, insônia ou aumento do sono, perda ou ganho significativo de peso em consequência de alteração nos padrões alimentares e de atividade, agitação ou retardo psicomotor, sentimentos de culpa e inutilidade, diminuição da energia e da libido e ideias suicidas. Hipótese monoaminérgica da depressão: propõe que a depressão se deve às deficiências das monoaminas em certos locais-chave do cérebro. Hipótese dos receptores monoaminérgicos para a depressão: defende que por haver baixa liberação de neurotransmissores, há suprarregulação (superexpressão), dos receptores pré e pós sinápticos, levando à uma desregulação das áreas do sistema nervoso central. Nos sistemas de monoaminas, a recaptação do neurotransmissor ocorre por meio de proteínas transportadoras pré-sinápticas de alta afinidade. Greicielle Ramos Outras teorias: BDNF, estresse, inflamação e outros neurotransmissores (GABA, Glutamato) O BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro) é produzido constantemente pelos neurônios a fim de manter a vitalidade dos mesmos, pois este fator permite a neurogênese, neuroplasticidade e sinaptogênese. Sem este fator, os neurônios morrem. As aminas (serotonina, noradrenalina…) estimulam a produção desse BDNF. Por esse motivo, um indivíduo com depressão, sem tratamento, com o tempo apresenta atrofia de algumas áreas cerebrais. Atividade física e alguns alimentos também estimulam a produção de BDNF, enquanto isso, o cortisol (produzido no estresse) inibe a produção dele. EFEITOS DO TRATAMENTO Linha roxa: quantidade de neurotransmissores, que vai aumentando logo no início do uso do antidepressivo. Linha azul: sensibilidade dos receptores, que vai gradualmente reduzindo (ocorre uma dessensibilização dos receptores) conforme vai aumentando a quantidade de neurotransmissores Ou seja, durante o tratamento farmacológico, o desbalanço é corrigido: volta a haver uma quantidade necessária / normal de neurotransmissores e, consequentemente, de receptores. Linha verde: efeito clínico do antidepressivo, que demora algumas semanas para ocorrer. ➔ O início do efeito antidepressivo demora cerca de 2 a 4 semanas para iniciar, em quando os efeitos adversos podem surgir desde a 1ª dose da droga. TRATAMENTO FARMACOLÓGICO DA DEPRESSÃO O tratamento da depressão é dividido em duas fases, e deve ter duração mínima de 1 ano. FASE AGUDA (2 a 4 meses)- remissão dos sintomas, prevenção de recaídas,garantir a segurança do paciente. FASE DE MANUTENÇÃO (6 a 24 meses) - remissão sustentada, prevenção de recaídas, garantir a segurança do paciente. CLASSES DE ANTIDEPRESSIVOS 1ª LINHA Inibidores seletivos da recaptação de serotonina Inibidores da recaptação de noradrenalina e serotonina Inibidores da recaptação de noradrenalina e dopamina Antidepressivos atípicos: moduladores do ritmo circadiano; antagonista de receptor de serotonina; moduladores de serotonina e inibidores de SERT 2ª LINHA Antidepressivos tricíclicos 3ª LINHA Inibidores da MAO PRIMEIRA LINHA INIBIDORES SELETIVOS DA RECAPTAÇÃO DE SEROTONINA - ISRS MECANISMO DE AÇÃO: inibem a recaptação de serotonina (bloqueiam o transportador pré sináptico SERT), causando acúmulo de serotonina na fenda sináptica (aumenta a biodisponibilidade de serotonina). FLUOXETINA - Depressão maior, bulimia, depressão bipolar, TOC ● Meia vida longa: 2-3 dias, metabólito ativo → de todos os antidepressivos, é o que tem o maior tempo de meia vida, sendo o que causa menos a síndrome de retirada ● Inibidor da CYP 2D6, 3A4 ● Provoca redução de libido PAROXETINA - Depressão, Ansiedade ● Antagonista colinérgico ● Inibidor potente da CYP 2D6 ● Provoca ganho de peso e redução de libido Fluoxetina e Paroxetina são potentes inibidores enzimáticos interagindo com outras drogas (ao inibir a enzima, reduzem a metabolização da droga, aumentando a concentração plasmática da mesma). SERTRALINA - Depressão, Ansiedade, TOC ● Boa tolerabilidade → é o ISRS mais indicado para gestantes, e pode ser utilizado em todas as faixas etárias, desde crianças a idosos ● Pouca ação sobre o citocromo P450 FLUVOXAMINA - TOC, Ansiedade ● Inibição CYP 1A2 e 3A4 CITALOPRAM - Depressão, Ansiedade, TOC ● Possui os 2 enantiômeros: S e R → O enantiômero R tem efeito cardiotóxico (prolongamento do intervalo QT e arritmias) ● Antagonista H1 fraco ● Potencial de prolongamento do QTi ● Metabolismo: CYP 2C19 Greicielle Ramos ESCITALOPRAM- Depressão, Ansiedade ● Possui apenas o enantiômero S ● Menor restrição com dose mais alta INIBIDORES DA RECAPTAÇÃO DE SEROTONINA E NORADRENALINA - IRSN - duais MECANISMO DE AÇÃO: inibem a recaptação de serotonina (bloqueiam o transportador pré sináptico SERT) e de noradrenalina (bloqueiam o transportador pré sináptico NET), causando acúmulo de serotonina e noradrenalina na fenda sináptica. ➔ O mecanismo de ação dos IRSN e dos tricíclicos é igual. Eles são classificados em dois grupos diferentes, pois os IRSN são puros, não agindo tanto em outros receptores como os tricíclicos. VENLAFAXINA (75 a 225 mg) - Depressão, Ansiedade ● Em doses mais baixas bloqueia mais o SERT (aumentando a concentração de serotonina na fenda) ● Em doses mais altas bloqueia mais o NET (aumentando a concentração de noradrenalina na fenda) - ou seja, o bloqueio NET é dose dependente DESVENLAFAXINA ( 50 a 100 mg) - Depressão ● É o metabólito ativo da venlafaxina ● Possui ação mais noradrenérgica (aumenta mais a quantidade de noradrenalina) ● Efeitos previsíveis DULOXETINA (60 a 120 mg) - Eficácia na depressão e na Dor Crônica / Neuropática (ex: fibromialgia, neuropatia diabética, neuropatia pós herpética) ● Inibe o NET e o SERT de forma similar INIBIDORES DA RECAPTAÇÃO DE NORADRENALINA E DOPAMINA MECANISMO DE AÇÃO: inibe a recaptação de noradrenalina (bloqueia o transportador pré sináptico NET) e de dopamina (bloqueia o transportador pré sináptico DAT) causando acúmulo de noradrenalina e dopamina na fenda sináptica. BUPROPIONA (150 a 450 mg) - Depressão, Tratamento do tabagismo ● Antagonista de receptores nicotínicos no sistema nervoso central Cautelas: hipertensão (devido aumento da noradrenalina), diminuição do limiar convulsivo (é contraindicado ouso de bupropiona em pacientes com epilepsia) USO TERAPÊUTICO ● Depressão - em associação com outra classe ● Tratamento do tabagismo - devido ao bloqueio de receptores nicotínicos. E a dopamina dá sensação de prazer/recompensa, facilitando o tratamento. ANTIDEPRESSIVOS ATÍPICOS OUMULTIMODAIS Os antidepressivos atípicos, também chamados de multimodais, possuem mecanismos de ação variados. (não precisa saber pra prova) TRAZODONA - Antagonista 5-HT2A e 2C + Antagonista H1 MIRTAZAPINA - Antagonista 5-HT2A, 5HT2C, 5-HT3, Antagonista H1, alfa-1 VORTIOXETINA - Antagonista 5-HT3, 5HT7, 5-HT1D, Agonista parcial de 5-HT1B, Agonista 5-HT1A e inibidor SERT AGOMELATINA - Antagonista MT1 e MT2, Antagonista 5-HT2C SEGUNDA LINHA ANTIDEPRESSIVOS TRICÍCLICOS Os antidepressivos tricíclicos são a 2ª linha de tratamento da depressão, e são as seguintes drogas: ● AMITRIPTILINA (75 a 300 mg) ● IMIPRAMINA (75 a 300 mg) ● CLOMIPRAMINA (150 a 300 mg) ● NORTRIPTILINA (75 a 150 mg) - é o metabólito ativo da amitriptilina ● DESIPRAMINA (150 a 300 mg) - é o metabólito ativo da imipramina MECANISMO DE AÇÃO CENTRAL: inibidores da recaptação de noradrenalina e serotonina (5-HT) - inibem o SERT e NET, aumentando a disponibilidade de serotonina e noradrenalina nas terminações nervosas. Greicielle Ramos PROPRIEDADES FARMACOLÓGICAS Os antidepressivos tricíclicos são considerados drogas “sujas”, pois agem em vários locais diferentes, tendo diferentes referenciais terapêuticos e muitos efeitos adversos. ● Antagonismo de receptores muscarínicos ● Antagonismo de receptores H1 ● Antagonismo de receptores alfa-1 ● Bloqueio de canais de sódio (coração e cérebro) EFEITOS ADVERSOS ● Diminuição do limiar convulsivo Devido às ações anticolinérgicas (antagonismo dos receptores muscarínicos): ● Ressecamento/secura da boca ● Turvação visual ● Retenção urinária ● Constipação Devido ao bloqueio dos canais de sódio ● Efeitos cardiotóxicos: alteração da condução cardíaca (arritmias) Devido às ações antagonistas alfa-1 ● Hipotensão postural ● Fraqueza Devido às ações antagonistas H1 ● Aumento de apetite / ganho de peso ● Sonolência Devido à ampla gama de efeitos adversos (pois falta seletividade para determinado receptor), não são bons antidepressivos para serem usados em pacientes idosos. FARMACOCINÉTICA E INTERAÇÕES Os antidepressivos tricíclicos são metabolizados pela CYP2D6, assim, interagem com drogas inibidoras enzimáticas da CYP2D6. Ex: tricíclicos não devem ser associados com fluoxetina e paroxetina, pois são inibidores enzimáticos, e elevam a concentração do tricíclico. USO TERAPÊUTICO CONDIÇÃO PRINCIPAL DROGA Depressão - Síndrome de pânico - TOC Clomipramina Controle de enurese noturna em crianças > 6 anos Imipramina Dor crônica / neuropática (fibromialgia, neuropatia) Amitriptilina, Nortriptilina Insônia, Enxaqueca (profilaxia) Amitriptilina, Nortriptilina TERCEIRA LINHA INIBIDORES DA MAO Esta classe quase não é mais utilizada atualmente, pois possui muitos efeitos adversos e interações medicamentosas. Os inibidores da MAO são as seguintes drogas (irreversíveis e não seletivas): ● TRANILCIPROMINA ● FENELZINA A monoamina oxidase (MAO) é uma enzima que degrada as aminas (serotonina, noradrenalina, dopamina). Ela está presente nas terminações nervosas, mucosa intestinal, fígado e outros órgãos. Ela realiza a degradação metabólica de catecolaminas e serotonina no sistema nervoso central ou tecidos periféricos. MECANISMO DE AÇÃO: inibem a monoamina oxidase, assim, as aminas não são degradadas e sofrem um acúmulo nas terminações nervosas. O problema é que esse acúmulo ocorre também perifericamente, levando a um grande número de efeitos adversos. USO TERAPÊUTICO ● Depressão atípica ● Casos refratários aos outros tratamentos USOS TERAPÊUTICOS DOS ANTIDEPRESSIVOS USOS DROGAS Depressão unipolar - Disforia pré menstrual - Bulimia / anorexia nervosa - TOC - Transtornos de ansiedade ISRS, Venlafaxina Tabagismo Bupropiona Fibromialgia Duloxetina, Tricíclicos Incontinência urinária Tricíclicos Sintomas vasomotores peri menopausa Venlafaxina em doses baixas (serotoninérgicas) Greicielle Ramos EFEITOS ADVERSOS Existem dois efeitos adversos importantes que são comuns a vários antidepressivos: a síndrome de retirada e a síndrome serotoninérgica. SÍNDROME DE RETIRADA - ocorre quando o antidepressivo é retirado de forma abrupta. Esta síndrome é mais comum com as drogas de curto tempo de meia vida: paroxetina, venlafaxina. → necessidade de retirada progressiva Sintomas: tontura, ansiedade, náuseas, vômitos, palpitações e sudorese. SÍNDROME SEROTONINÉRGICA - ocorre quando há alta concentração de serotonina no sistema nervoso. Ex: associação entre um antidepressivo e outra droga que também aumente a serotonina. Sintomas: comprometimento do estado mental, hiper reflexia, rigidez muscular e alterações autonômicas EFEITO ADVERSO DROGAS MAIS COMUNS Cefaleia ISRS, IRSN, IRND Náuseas e vômitos ISRS, IRSN, IRND Insônia ISRS, IRSN, IRND Ejaculação retardada e perda de libido ISRS (principalmente Paroxetina e Fluoxetina) Ganho de peso Paroxetina (ISRS) Aumento de pressão arterial (devido ao aumento da noradrenalina) IRSN, IRND Prolongamento do intervalo QT (eletrocardiograma) Citalopram, ADT Embotamento afetivo (perda das emoções) ISRS CASOS CASO 1 J.F., 48 anos, casada, está sob tratamento de câncer de mama há 1 ano. Após sessões de quimioterapia, foi prescrito Tamoxifeno (pró fármaco ativado pela CYP2D6 em seu metabólito ativo Enoxifeno) VO, por longo período. Nos últimos meses veio veio apresentando sinais de depressão maior e o psiquiatra que a atendeu tinha algumas opções de tratamento: 1. Sertralina 2. Fluoxetina 3. Paroxetina Qual dos antidepressivos seria a melhor escolha? R: A melhor escolha é a Sertralina. Pois as duas outras opções (fluoxetina e paroxetina) são drogas inibidoras enzimáticas, que podem interferir na ativação do Tamoxifeno utilizado pela paciente. CASO 2 G.L, 52 anos, fazia tratamento para fibromialgia com Amitriptilina 50 mg ao dia há 6 meses. Sentia muita sonolência, o que atrapalhava seu trabalho e tarefas do lar, além de ganho de peso ponderal nesse período, mas seguiu tomando a medicação. Recentemente na consulta médica de retorno se queixou dos sintomas referidos devido a medicação, dizendo que já tentou parar de tomar, porém sente dores pelo corpo todo quando fica alguns dias sem a mesma. Pede orientação médica quanto a troca por outro medicamento que possa ajudar com as dores sem prejudicar tanto as suas tarefas diárias e sem ganho de peso. Por qual antidepressivo a Amitriptilina poderia ser trocada? R: Para o tratamento da fibromialgia (dor neuropática), a Amitriptilina poderia ser substituída pela Duloxetina. Greicielle Ramos FARMACOLOGIA III Ansiolíticos e Hipnóticos TRANSTORNOS DE ANSIEDADE O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) divide os transtornos de ansiedade em: ● Transtornos de Ansiedade de Separação ● Mutismo Seletivo ● Fobia específica ● Transtorno de Ansiedade Social (Fobia Social) ● Transtorno de Pânico ● Agorafobia ● Transtorno de Ansiedade Generalizada - mais comum ● Transtorno de Ansiedade devido ao uso de substância ou outra condição médica Os transtornos de ansiedade e os transtornos depressivos têm sintomas nucleares (principais) diferentes entre si, mas os sintomas satélites estão presentes em ambos. Assim, pode haver sobreposição das duas patologias, sendo que em muitos indivíduos os dois transtornos estão associados. Existem classes de medicamentos que servem para tratar as duas patologias, como os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS), que podem ser utilizados nesses casos. NEUROBIOLOGIA DA ANSIEDADE AMÍGDALA - A amígdala é uma área do sistema nervoso central que está relacionada ao medo, e que faz conexões com diversas outras áreas. Quando a amígdala está hiperestimulada / hiperexcitada / hiperestimulada, ela acaba hiperexcitando as outras áreas com as quais têm conexões, levandoaos sintomas dos transtornos de ansiedade. Alguns exemplos de áreas são: ● Hipocampo - negociador do medo interno (traz memórias negativas de situações passadas, levando à ansiedade para com as situações futuras) ● Hipotálamo - acaba estimulando excessivamente o eixo hipotálamo - hipófise - adrenal, o que eleva a produção excessiva do hormônio cortisol, que eleva o risco de doenças cardiovasculares e diabetes. São repercussões orgânicas quando o transtorno é crônico. ● Locus ceruleus - ativa o sistema nervoso simpático, levando a taquicardia e sudorese. CONEXÃO CÓRTICO - ESTRIADO - TÁLAMO - CORTICAL - esta conexão, entre o córtex, tálamo e núcleo estriado, quando hiperestimulada, leva à preocupação/obsessões. Deste modo, nos transtornos de ansiedade, há hiperestimulação principalmente sobre estas 2 áreas (amígdalas, CETC), e consequentemente sobre as conexões que elas fazem, levando aos 2 sintomas nucleares (principais) da ansiedade: medo e preocupação. Esta hiperexcitação dos neurônios se deve ao aumento de alguns neurotransmissores, canais e eixos; e à redução de outros neurotransmissores. Os que estão elevados são: ● Noradrenalina ● Dopamina ● Canais iônicos de cálcio regulados por voltagem ● Eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA) ● Glutamato (neurotransmissor excitatório) E os que estão diminuídos são: ● GABA (neurotransmissor inibitório) ● Serotonina (5-HT) NEUROTRANSMISSÃO GABAÉRGICA Quando o neurotransmissor inibitório GABA é secretado pelo neurônio gabaérgico na fenda sináptica, ele irá ligar-se ao seu receptor no neurônio pós sináptico - existem diversos tipos de receptor, mas o mais importante para o tratamento farmacológico é o receptor GABAA. Greicielle Ramos O receptor GABAA. é um receptor do tipo canal iônico, e quando o neurotransmissor GABA liga-se ao seu receptor, o canal abre, permitindo a entrada de cloro no neurônio, que torna-se hiperpolarizado (o neurônio fica em repouso / inibido). Este receptor é formado por várias subunidades diferentes, e no que se refere à farmacologia, 2 destas subunidades são importantes: ● Subunidade 𝜶1 - tem efeito de sedação / sonolência ● Subunidade 𝜶2 e 𝜶3 - tem efeito ansiolítico As subunidades são importantes pois algumas drogas agem sobre uma subunidade específica, obtendo determinado efeito. TRATAMENTO FARMACOLÓGICO DA ANSIEDADE No tratamento dos transtornos de ansiedade podem ser utilizados: ● Benzodiazepínicos ● Antidepressivos inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) - 1ª linha para este fim ● Agonistas α2δ ● Buspirona BENZODIAZEPÍNICOS (BZD) Os benzodiazepínicos além de seus efeitos ansiolíticos, produzem efeitos sedativos, hipnóticos, anestésicos, anticonvulsivantes e de relaxamento muscular. São os seguintes fármacos: ● ALPRAZOLAM (Frontal) ● CLONAZEPAM (Rivotril) ● DIAZEPAM (Valium) ● MIDAZOLAM (Dormonid) ● CLORAZEPATO (Tranxilene) ● FLURAZEPAM (Dalmadorm) ● LORAZEPAM (Lorax) ● FLUNITRAZEPAM (Rohypnol) ● BROMAZEPAM (Lexotan) CLASSIFICAÇÃO DROGA Ação Curta (tempo de meia vida 24 horas) DIAZEPAM FLURAZEPAM (metabólitos ativos) As drogas de ação curta são mais utilizadas para a sedação durante alguns procedimentos rápidos, como a endoscopia, colonoscopia, etc. Enquanto as drogas de ação intermediária são utilizadas no tratamento dos transtornos de ansiedade e insônia. MECANISMO DE AÇÃO O fármaco se liga no sítio alostérico do receptor GABAA, provocando aumento da afinidade do neurotransmissor GABA pelo seu receptor. Assim, quando o GABA liga ao receptor GABAA., ocorre aumento da frequência de abertura de canais de cloro, permitindo maior entrada de íons cloro no neurônio, tornando-o hiperpolarizado (em ‘repouso’). ➔ Não é agonista do receptor GABA-A, mas sim um modulador alostérico positivo. Isso porque faz ligação direta a um sítio específico, que é distinto do sítio de ligação do GABA. ➔ São drogas não seletivas, ligando-se a todas as subunidades de receptores GABA-A, tendo tanto efeito sedativo quanto efeito ansiolítico. ➔ O efeito do benzodiazepínico depende da presença do neurotransmissor GABA, conferindo um perfil de segurança no uso deste grupo de fármacos. PROPRIEDADES FARMACOLÓGICAS ● Redução da ansiedade ● Hipnose (sedação) ● Amnésia anterógrada: por este motivo algumas das drogas deste grupo são utilizadas pré anestesia ● Redução do tônus muscular: pois têm ação relaxante muscular ● Ação anticonvulsivante: Clonazepam, Midazolam, Diazepam (é protocolo para convulsões na emergência) Clobazam Os benzodiazepínicos têm ação sobre o sistema respiratório (relaxamento dos músculos respiratórios), não sendo recomendados em pacientes com apneia obstrutiva do sono. Eles acabam tendo uma ação indireta sobre o trato gastrointestinal, pois a melhora dos sintomas da ansiedade confere proteção contra úlceras de estresse. Greicielle Ramos FARMACOCINÉTICA Os benzodiazepínicos são metabolizados no fígado, pela CYP 3A4 e 2C19. Assim, fármacos que são inibidores enzimáticos (eritromicina, claritromicina, ritonavir, itraconazol, cetoconazol) pode aumentar o tempo de ação dos benzodiazepínicos, pois ao inibirem a enzima, demora mais para o benzodiazepínico ser metabolizado / degradado. APLICAÇÃO TERAPÊUTICA ● Transtornos de Ansiedade - no início do tratamento são utilizados inibidores seletivos da recaptação de serotonina (antidepressivo) e benzodiazepínicos de ação intermediária, visto que o antidepressivo demora semanas para começar a fazer efeito. No entanto, com o passar de algumas semanas, o antidepressivo passa a fazer efeito, e interrompe-se o uso do benzodiazepínico, ficando seu uso restrito à droga de resgate (em crises). ● Medicação pré anestésica (MPA) ● Crises epilépticas → Diazepam ● Insônia (não é a melhor classe para este fim, devido aos efeitos colaterais) ● Síndrome de Abstinência - nesta condição são utilizados os benzodiazepínicos visando reduzir os sintomas da síndrome e a ansiedade EFEITOS ADVERSOS ● Tolerância: consiste na perda do efeito da droga em determinada dose, sendo necessário aumentar a dose. A tolerância ocorre no efeito sedativo (a pessoa toma uma dose X e esta dose não faz mais efeito na questão da sedação); já no efeito ansiolítico não ocorre a tolerância. ● Confusão Mental ● Sonolência diurna, fraqueza, visão borrada, vertigem - pode levar a quedas e acidentes, principalmente em idosos. ● Prejuízo na coordenação motora - devido ao relaxamento muscular ● Prejuízo cognitivo - dependente do tempo de uso e da dose da droga Efeitos paradoxais: são os que ocorrem ao contrário dos efeitos esperados, e o paciente fica agitado. Deve-se trocar o benzodiazepínico em udo por outro benzodiazepínico, pois este efeito pode ser específico de uma determinada molécula daquela droga específica. pode causar hiperexcitação dos neurônios, sendo necessário trocar a droga. Abstinência: sintomas como náuseas, pesadelos, insônia. Como pode causar síndrome de abstinência, quando for necessário interromper o uso do fármaco, isso deve ser realizado de modo progressivo (desmame) Potenciação dos efeitos com depressores centrais, como opióides e álcool. FLUMAZENIL - é um fármaco antagonista competitivo do sítio de ligação benzodiazepínico nos receptores GABA-A. Ele é utilizado via endovenosa para reversão dos efeitos dos benzodiazepínicos. Tem efeito imediato (cerca de 30 segundos), mas um tempo de meia vida curto, sendo necessária a administração de várias doses até que o organismo metabolize todo o benzodiazepínico. BARBITÚRICOS Os barbitúricos surgiram antes dos benzodiazepínicos, e eram utilizados para o tratamento de ansiedade e insônia. No entanto, possuíam grande efeito depressor do sistema nervoso central, levando a casos de óbito por depressão respiratória, por exemplo. Depois surgiram os benzodiazepínicos, que atualmente são mais utilizados. Os barbitúricos são os seguintes fármacos:FÁRMACO INDICAÇÃO TEMPO DE AÇÃO FENOBARBITAL Epilepsia Longo (40h a dias) TIOPENTAL Anestesia Ultra curto (5-15 min) PENTOBARBITAL Medicação pré anestésica Curto (3-8h) AMOBARBITAL Medicação pré anestésica Curto (3-8h) SECOBARBITAL Medicação pré anestésica Curto (3-8h) VO MECANISMO DE AÇÃO Os barbitúricos, em doses baixas, tem mecanismo de ação semelhante ao mecanismo dos benzodiazepínicos: o fármaco se liga no sítio alostérico do receptor GABAA., provocando aumento da afinidade do neurotransmissor GABA pelo seu receptor, o que aumenta o tempo de abertura dos canais de cloro, levando à hiperpolarização dos neurônios. Já em altas doses: o barbitúrico se liga ao sítio alostérico do receptor GABA-A e provoca a abertura dos canais de cloro independentemente da presença de GABA, levando à hiperpolarização. Possuindo, assim, um potencial depressor do sistema nervoso central muito maior. APLICAÇÃO TERAPÊUTICA ● Anestésicos gerais injetáveis ● Anticonvulsivante: Fenobarbital Greicielle Ramos PROPRIEDADES FARMACOLÓGICAS ● Depressão respiratória acentuada ● Indução enzimática (CYP 1A2, 2C9, 2C19, 3A4) - os barbitúricos aumentam a metabolização/degradação de outras drogas que o paciente utilize concomitantemente, e até do próprio barbitúrico (nestes casos é necessário elevar a dose) TRAtamento farmacológico da insônia O ciclo sono vigília é controlado principalmente pelo hipotálamo, por neurotransmissores/neurohormônios: ESTADO DE VIGÍLIA - mantido pela histamina, noradrenalina, serotonina, orexina e acetilcolina ESTADO DE SONO - mantido pelo GABA e melatonina Assim, para tratar farmacologicamente a insônia, ou aumentam-se os neurotransmissores relacionados ao estado de sono, ou diminui-se os neurotransmissores da vigília. A medicina defende que a 1ª linha para o tratamento da insônia é a psicoterapia e a higiene do sono, e não o tratamento farmacológico. Assim, a maioria dos fármacos aprovados pelo FDA para o tratamento da insônia, é apenas para curtos períodos. Isso visto que todos possuem algum grau de efeitos adversos e alguns podem causar dependência física ou psicológica. Além disso, podem causar tolerância, sendo um risco para pacientes idosos. E podem também levar a mecanismos de insônia crônica. Alguns dos fármacos utilizados para tratar insônia são: Benzodiazepínicos, Compostos Z, Anti-histamínicos de 1ª geração, Antidepressivos tricíclicos, Derivados da melatonina, Antagonista de orexina, Antipsicóticos. COMPOSTOS “Z” Os compostos Z são drogas seletivas para a subunidade 𝜶1 dos receptores GABAA. São as seguintes drogas: ● ZOLPIDEM ● ZOPICLONA ● ZALEPLON ● ESZOPICLONA MECANISMO DE AÇÃO O fármaco se liga no sítio alostérico do receptor GABAA., provocando aumento da afinidade do neurotransmissor GABA pelo seu receptor. Assim, quando o GABA liga ao receptor GABAA., ocorre aumento da frequência de abertura de canais de cloro, permitindo maior entrada do íon cloro no neurônio, tornando-o hiperpolarizado. Estes fármacos possuem seletividade para a subunidade alfa-1 do receptor GABA-A, assim, tem efeito apenas sedativo (sonolência), e não efeito ansiolítico. ➔ A vantagem dos compostos Z no tratamento da insônia, quando comparados aos benzodiazepínicos, é que os compostos Z não alteram tanto a estrutura do sono. ZOLPIDEM: meia vida de 2,5 horas; formas SL, CR 6-8h. em liberação imediata, sendo indicado para pacientes que têm dificuldade em ‘pegar no sono’. Efeitos adversos: parassonias do sono (sonhos vívidos, sonambulismo), comer noturno, alteração de comportamento. ZOPICLONA: meia vida de 3,5 a 6,5 horas, muito mais prolongada do que os outros compostos Z. Assim, é indicada para pacientes que dormem um pouco e logo acordam, sendo incapazes de retornar ao sono. Efeitos adversos: abstinência, convulsões, insônia rebote. ESZOPICLONA: melhora a qualidade do sono; tem meia vida de 6 horas. Efeitos adversos: pesadelos, tontura, boca seca, cefaléia, amnésia. ➔ Todos os compostos Z têm alto potencial de abuso e dependência. OUTROS FÁRMACOS SUVOREXANTO- ANTAGONISTAS DUAIS DE RECEPTORES DE OREXINA (DORA) Agente inibindo a orexina 1 e 2 (neurotransmissor relacionado ao estado de vigília). Não está relacionado com tolerância e não afeta a respiração durante o sono. ➔ É a melhor droga para tratamento de insônia, pois tem menos efeitos adversos. ➔ Tem um custo muito elevado, não sendo tão utilizada no Brasil. RAMELTEONA - ANÁLOGO DE MELATONINA É uma droga agonista de receptores MT1 e MT2 da melatonina, que promove início do sono e sincronização do ciclo circadiano. DOXEPINA - ANTIDEPRESSIVO TRICÍCLICO PREGABALINA, GABAPENTINA - AGONISTAS ⍺2δ Ligam-se à subunidade α2δ dos canais de cálcio, impedindo sua abertura e, consequentemente, impedindo a entrada de cálcio nos neurônios. Desta forma, há inibição das áreas hiperexcitadas do sistema nervoso central, agindo como agentes ansiolíticos e no tratamento da insônia. Existem alguns fármacos que não são aprovados especificamente para o tratamento da insônia, mas que acabam sendo utilizados pelos pacientes visando atingir este fim (utilizados off label), como: ● Mirtazapina - antidepressivo tricíclico ● Trazodona - antidepressivo ● Quetiapina - antipsicótico ● Difenidramina - anti-histamínico de 1ª geração Greicielle Ramos