Prévia do material em texto
Disciplina | Introdução www.faculdadefocus.com.br | 1 POLÍTICAS E PROGRAMAS PARA INFÂNCIA E JUVENTUDE Unidade 01 Contextualização Histórica da Infância no Brasil Políticas e Programas para Infância e Juventude | | 2 O Grupo Focus de Educação se responsabiliza pelos vícios do produto no que concerne à sua edição (apresentação a fim de possibilitar ao consumidor bem manuseá-lo e lê-lo). Nem a instituição nem os autores assumem qualquer responsabilidade por eventuais danos ou perdas a pessoa ou bens, decorrentes do uso da presente obra. É proibida a reprodução total ou parcial de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive através de processos xerográficos, fotocópia e gravação, sem permissão por escrito do autor e do editor. O titular cuja obra seja fraudulentamente reproduzida, divulgada ou de qualquer forma utilizada poderá requerer a apreensão dos exemplares reproduzidos ou a suspensão da divulgação, sem prejuízo da indenização cabível (art. 102 da Lei n. 9.610, de 19.02.1998). Atualizações e erratas: este material é disponibilizado na forma como se apresenta na data de publicação. Atualizações são definidas a critério exclusivo da Faculdade Focus, sob análise da direção pedagógica e de revisão técnica. É missão desta instituição oferecer ao acadêmico uma obra sem a incidência de erros técnicos ou disparidades de conteúdo. Caso ocorra alguma incorreção, solicitamos que, atenciosamente, colabore enviando críticas e sugestões, por meio do setor de atendimento através do e-mail nead@faculdadefocus.com.br. Informações Catalográficas G892 GRUPO FOCUS DE EDUCAÇÃO. Políticas e Programas para Infância e Juventude: Contextualização Histórica da Infância no Brasil / Org. Vitor Matheus Krewer. – Cascavel: Grupo Focus de Educação, Focus, 2024. 31 P. 1. Direitos da criança e do adolescente. I. Krewer, Vitor Matheus. II. Título. CDD 23 ed.: 323.3 © 2024, by Grupo Focus de Educação Rua Maranhão, 924 - Ed. Coliseo - Centro Cascavel - PR, 85801-050 Tel: (45) 3040-1010 www.faculdadefocus.com.br Este documento possui recursos de interatividade através da navegação por marcadores. Acesse a barra de marcadores do seu leitor de PDF e navegue de maneira RÁPIDA e DESCOMPLICADA pelo conteúdo. mailto:nead@faculdadefocus.com.br http://www.faculdadefocus.com.br/ Políticas e Programas para Infância e Juventude | | 3 Sumário 1 Introdução ................................................................................................................. 4 2 A Construção Social da Infância no Século XIX ............................................................ 4 2.1 Livros de Viagem e Memórias ................................................................................................... 5 2.1.1 As Marcas da Escravidão ............................................................................................................................... 6 2.1.2 O Preparo para a Vida Adulta ....................................................................................................................... 9 2.2 A Divisão Social na Infância .................................................................................................... 10 2.2.1 A Construção Ideológica da Infância ........................................................................................................... 13 2.2.2 Um Caminho para a Construção da Nação Brasileira ................................................................................. 14 3 A Construção Social da Infância no Século XX ........................................................... 15 3.1 Uma Infância Delinquente ...................................................................................................... 17 3.2 Pequenos Operários ............................................................................................................... 21 3.3 Entre a Escola e o Trabalho ..................................................................................................... 24 3.4 Combate ao Trabalho Infantil ................................................................................................. 25 3.5 A Luta pela Educação Infantil.................................................................................................. 27 4 Conclusão ................................................................................................................ 28 Referências ..................................................................................................................... 29 Políticas e Programas para Infância e Juventude | Introdução | 4 1 Introdução A concepção de infância passou por transformações significativas no decorrer dos séculos XIX e XX, refletindo mudanças sociais, culturais e econômicas. No século XIX, a visão da infância começou a se distanciar das percepções pré-modernas, em que as crianças eram muitas vezes vistas como adultos em miniatura. Com o advento da Revolução Industrial, a infância passou gradativamente a ser entendida como uma fase marcada pela vulnerabilidade e necessidade de proteção. No século final do XX, essa construção social evoluiu ainda mais, com o reconhecimento dos direitos das crianças como uma questão central nas políticas públicas e no direito internacional. Essa construção social da infância enfatizou a responsabilidade coletiva de proteger e promover os direitos das crianças, influenciando legislações e práticas educativas até os dias de hoje. Entender essas transformações é fundamental para prosseguir com o desenvolvimento de políticas e ações que assegurem o pleno desenvolvimento e bem-estar das crianças, reconhecendo-as como sujeitos de direitos plenos e prioritários na sociedade. Além disso, a compreensão da construção social da infância é essencial para reconhecer as transformações que moldaram a percepção e o tratamento das crianças na sociedade contemporânea. Nesta unidade, buscamos explorar tais transformações e suas implicações para a sociedade. 2 A Construção Social da Infância no Século XIX Segundo Khulmann Jr. (1998), a infância possui um significado abrangente e, assim como qualquer outra etapa da vida, esse significado é influenciado pelas transformações sociais. Cada sociedade possui seus próprios sistemas de classes etárias, aos quais estão associados diferentes status e papéis. No século XIX, conforme Moreira Leite (2001), a criança era vista como uma extensão da família, sob responsabilidade da família consanguínea ou da comunidade. O abandono e o infanticídio eram práticas comuns, evidenciando a fragilidade da infância em um cenário de pobreza e desigualdade social. Surgidas em países europeus no século XVIII, as "rodas de expostos" buscavam salvar crianças abandonadas da morte, mas a mortalidade infantil permanecia alta. Como sinalizado pela autora, a escassez de dados demográficos históricos Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XIX | 5 dificulta o estudo da criança nesse período, ainda, os registros existentes são incompletos e imprecisos, refletindo a invisibilidade social das crianças, principalmente das mulheres e dos grupos marginalizados. As estatísticas tendiam a englobar as crianças e mulheres dentro do grupo familiar, dificultando uma análise individual. Além disso, a linguagem utilizada para descrevê-las é carregada de preconceitos sociais, como a denominação "bastardo", que estigmatizava os filhos ilegítimos. A infância, principalmente para as camadas populares, era caracterizada pelo trabalho precoce e pela falta de reconhecimento como indivíduos. As crianças eram consideradas "desvalidos de pé" a partir do momento em que podiam contribuir com tarefas domésticas. O código filipino considerava a maioridade aos 12 anos paraInfantil 4 Conclusão Referênciasas meninas e aos 14 para os meninos, enquanto a Igreja Católica definia os 7 anos como a idade da razão. Tal cenário evidenciava que a definição de criança estava atrelada ao desempenho econômico. 2.1 Livros de Viagem e Memórias Considerando a infância como uma construção cultural e histórica, Moreira Leite (2001) argumenta que as abstrações numéricas não compreendem a sua variabilidade. Os meninos com idade entre 8 e 12 anos são considerados adultos-aprendizes e vestem-se (conforme a camada social) como tais. Por esta razão, Moreira Leite (2001) apreendeu o passado no momento em que foi reconhecido por testemunhos, em diferentes graus de percepção, aceitando a noção de fragmentos de Walter Benjamin. Esses fragmentos foram encontrados no estudo intertextual dos livros de viagens de estrangeiros que estiveram no Brasil no período de 1803 a 1900, e na leitura de alguns livros de memórias de homens e mulheres que foram crianças durante esse século. Com base em um conjunto de autores, Moreira Leite (2001) apresenta sistematicamente alguns aspectos da vida das diferentes crianças que viveram no Brasil no século XIX. “Trata-se da reconstrução de um período da vida (que foi e continua a ser extremamente variável) vivido por personagens que acrescentam às diferenças de cor condições sociais e capitais simbólicas muito diversas” (MOREIRA LEITE, 2001, p. 26). Descrevemos, a seguir, alguns desses aspectos a partir do agrupamento feito pela autora: “as marcas da escravidão” e “o preparo para a vida adulta”, com foco na criança. Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XIX | 6 Ressaltamos que ao longo das descrições existem trechos claramente preconceituosos, os quais mantemos apenas para retratar a escrita do contexto em si (importante considerar as diferenças em vários aspectos da época em questão às mais recentes – sociais, políticos, econômicos etc.). 2.1.1 As Marcas da Escravidão Robert Walsh (1985) descreveu sobre a condição dos meninos expostos no mercado de escravos. Muitas casas eram depósitos de escravos, onde os cativos aguardavam seus compradores. Esses depósitos ocupavam ambos os lados da rua e os escravos eram expostos como se fossem mercadorias. Os compradores examinavam e apalpavam os escravos, de modo semelhante a açougueiros inspecionando gado. Frequentemente, senhoras brasileiras participavam desses mercados, examinando e apalpando suas aquisições com indiferença, como se estivessem fazendo compras em um bazar. Entre as cenas observadas, um grupo de crianças chamou a atenção, especialmente uma menina com um ar triste, mas cativante. Quando olhada, o comerciante a fazia levantar-se com uma vara, ordenando que se aproximasse. Era desolador ver a criança, em estado de desamparo, sendo tratada como uma mercadoria. Algumas meninas, apesar da pele escura, demonstravam recato e delicadeza, revelando os mesmos sentimentos e a mesma natureza das filhas dos compradores. Outro aspecto notável referia-se a um grupo de meninos que formavam uma espécie de sociedade, reunindo-se sempre junto a uma janela gradeada. Eles demonstravam forte amizade e equilíbrio emocional, nunca sendo perturbados por brigas ou mau humor, principalmente em razão de coisas mesquinhas. Quando recebiam secretamente bolos e frutas era feita uma justa distribuição entre o grupo, notando a generosidade e desprendimento com que compartilhavam. A gratidão com que recebiam os presentes sugeriam que, como compensação pela pele escura, possuíam qualidades humanas amoráveis em maior medida. Langsdorff (1954) relatou sobre a familiaridade entre crianças brancas e escravas. Os filhos dos escravos eram criados com os dos senhores, tornando-se companheiros e amigos, estabelecendo uma familiaridade que, forçosamente, seria abolida na idade em que um daria ordens e viveria à vontade, enquanto o outro teria de obedecer e trabalhar. Acreditava-se que essa união na infância asseguraria a Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XIX | 7 fidelidade do escravo ao seu dono, mas esse costume apresentava grandes inconvenientes e deveria ser modificado para tornar o jugo da escravidão menos penoso, revogando a liberdade inicial. Ewbank (1990) retratou a exposição dos órfãos. A Santa Casa de Misericórdia, data de 1582, é uma das mais nobres instituições católicas, oferecendo ajuda sem discriminação de idade, sexo, credo ou condição social, atendendo escravos e senhores, nacionais e estrangeiros. Funcionava também como um asilo para crianças abandonadas. Os meninos, em certa idade, eram encaminhados para uma profissão. As meninas permaneciam na sede, onde aprendiam a ler, escrever, costurar, entre outras habilidades. Em aniversários, jovens solteiros podiam encontrar uma futura companheira na instituição. Após aprovação do caráter e futuro do candidato pelos diretores, a instituição concedia à noiva um dote de quatrocentos mil réis. Ouvia-se falar muito sobre a exposição diária de crianças e as facilidades para abandono discreto. O dispositivo para receber as crianças consistia em um cilindro oco e vertical, giratório (por isso, conhecido como a roda dos expostos), com uma abertura para acesso e uma almofada no fundo. Projetado para impedir a visão entre o interior e o exterior, o local era identificado por uma placa discreta, que diz "Expostos da Misericórdia, n.30". Quando o dispositivo é acionado, uma sineta soa violentamente no interior, sinalizando o abandono de uma criança. A roda dos expostos apresentada nas figuras abaixo está localizada em Almeida em Portugal. Figura 1 – Casa da roda dos expostos Figura 2 – Janela da casa da roda dos expostos Fonte: ALDEIAS HISTÓRICAS DE PORTUGAL (Casa da Roda dos Expostos). Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XIX | 8 Figura 3 – Parte externa da janela da casa da roda dos expostos Figura 4 – Parte interna da janela da casa da roda dos expostos Fonte: ALMEIDA MUNICÍPIO (2022). Fonte: GONÇALVES (2019). Kidder e Fletcher (1941) questionam a condição moral ou os sentimentos humanos dessas numerosas pessoas que contribuem deliberadamente na exposição da vida das crianças. Uma característica peculiar dessa situação é o fato de que muitas das crianças abandonadas eram filhos de mulheres escravas. Seus senhores, não querendo arcar com os custos e responsabilidades da criação dessas crianças ou desejando manter as mães disponíveis como amas-de-leite, exigiam que elas fossem enviadas à Enjeitaria, onde, se sobreviverem, ficariam livres. Tschudi (1953) acrescenta sobre a casa para meninas expostas, as quais tinham diversas idades, vestiam-se de modo simples, mas asseado, apresentavam boa saúde, mantinham-se em bom estado de espírito e pareciam muito bem-educadas. Todos os anos, em uma data fixa, era permitido aos homens escolherem uma esposa entre as asiladas. A escolhida recebia como dote da instituição um enxoval de 300 mil réis. Descrevendo em poucas palavras sobre as crianças adultas, Edgecumbe (1886) ressalta que no Brasil se encontram meninas jovens usando colares e pulseiras, e meninos de oito anos fumando cigarros. Certas cenas pareciam cotidianas, como encontrar um grupo de meninos voltando da escola e um garoto de aproximadamente sete anos tirar um maço de cigarros do bolso e oferecer aos demais. Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XIX | 9 2.1.2 O Preparo para a Vida Adulta O método lancasteriano, ou método mútuo, foi desenvolvido originalmente na Inglaterra como uma alternativa pedagógica moderna para resolver o problema da educação elementar de crianças e adolescentes que precisavam ser incluídos no processo de produçãoindustrial. Para isso, era necessário que fossem iniciados nas operações básicas da modernidade: ler, escrever e contar. Com a introdução e popularização do modelo proposto por Lancaster em diversos Estados nacionais, viu- se uma possibilidade de educar muita gente, num curto espaço de tempo, e com um custo efetivamente reduzido (ABREU, 2018). Walsh (1985) relata sobre duas escolas lancasterianas no Rio, caracterizando-as como um local espaçoso, que abrigava crianças filhos de lojistas e pessoas do ramo. As crianças se apresentavam bem-vestidas e eram muito comportadas. O professor sentava-se em uma escrivaninha elevada e dirigia a classe com um apito. Após dois anos do aprendizado das operações básicas, era feita uma seleção entre aqueles que demonstravam alguma vocação especial, que eram então enviados para as Academias. A educação era gratuita e todos eram aceitos indiscriminadamente, exceto os pobres escravos. A caligrafia era um dos principais focos de preocupação dos professores. Passando para a educação religiosa, Ewbank (1990) destaca a vestimenta com as quais alguns meninos (com não mais de seis anos de idade) se apresentavam: “[...] vestido como um monge, uma batina preta, e de escapulário branco, fivelas nos sapatos e um enorme chapéu” (Ewbank,1990 apud Moreira Leite, 2001, p. 43-44). Sendo comum na época, o motivo desta vestimenta estava atrelado às promessas de seus pais (antes, às vezes, de terem nascido) a certos santos, como uma forma de reconhecimento de favores especiais atendidos. Santo Antônio protegeu a mãe deste menino e, em honra deste santo, o menino vestiu a indumentária. Em relação a educação do cortesão, Ewbank (1990) relata a respeito de uma procissão em que a realeza e sua comitiva seguiam, incluindo a presença de oficiais do Exército, Marinha, membros do clero, ministros de estado e cortesãos. Alguns oficiais da mordomia traziam seus filhos, meninos de oito a doze anos, vestidos em trajes de corte. Muitos oficiais tinham o direito de estar presentes devido aos serviços pessoais prestados ao Imperador. O serviço dos meninos para o Imperador consistia em apanhar seu lenço, oferecer uma toalha após as refeições, ou entregar um palito ou caixa de rapé. Esses jovens eram chamados "nobres e jovens servidores do Imperador" e esse título era muito valorizado. Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XIX | 10 Ainda referindo-se ao evento da procissão, que na Idade Média conquistavam os pagãos para a fé, Ewbank evidencia a aparência das meninas com seis a oito anos de idade, sendo as mais belas. Os pais rivalizavam entre si para trajá-las com vestes as mais ricas. Algumas eram preparadas por modistas profissionais. Suas faces eram pintadas e tinham tranças postiças, quando necessárias. Possuíam na cabeça coroas, diademas, penas, grinaldas etc. Havia também algumas meninas vestidas de branco, sem qualquer pintura no rosto. Os seus vestidos, ligeiramente curtos, apresentavam armações de arame delgado, imitando as agitações de ar, de modo igual às que se comunicavam às suas asas e nuvens. Essas eram feitas de gaze colorida estendida sobre armações que oscilam na parte de trás do vestido. O autor descreve essas meninas como pequenas senhoritas que representam grandiosamente o papel que desempenham. Se de um lado havia uma educação onde apenas alguns tinham acesso, por outro observava-se a ausência de educação. Pfeiffer (1846) aponta que no Brasil, todos os trabalhos sujos e penosos, tanto dentro de casa quanto fora, eram realizados por negros, que representavam a camada mais baixa da sociedade. No entanto, muitos aprendiam ofícios e se tornavam muito habilidosos, comparáveis aos melhores europeus. Nas oficinas, era comum ver negros confeccionando trajes, sapatos, tapeçarias, bordados em ouro e prata, e até mesmo negras bem-vestidas trabalhando em roupas para as mulheres mais elegantes e em bordados delicados. Nas classes consideradas esclarecidas, ainda havia aqueles que, apesar das provas de destreza e inteligência dos negros, os colocavam muito abaixo dos brancos. É reconhecido que, em termos de instrução, eles não se aproximavam dos brancos, mas isso devia-se à completa falta de educação, e não à falta de inteligência. Não havia escolas para que eles tivessem a chance de receber instrução. Eles eram mantidos deliberadamente em uma espécie de infância, pois o despertar desse povo oprimido poderia ser terrível. 2.2 A Divisão Social na Infância A temática sobre salvar a criança, inspirada no discurso do final do século XIX em defesa da ideia de que investir na infância representava uma forma de investir no futuro do país. Para descrevermos a respeito desta ideia, nos fundamentamos em Rizzini (2011). A necessidade de proteção à infância, tema recorrente desde o século XIX, revela uma ambivalência na relação entre adultos e crianças. A criança, vista como frágil e indefesa, desperta sentimentos de cuidado e proteção. No entanto, à medida Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XIX | 11 que cresce e se torna menos dependente, o adulto pode reagir com autoridade e controle, revelando uma faceta mais autoritária da relação. “Está na criança o poder de provocar no adulto sentimentos e atitudes ambivalentes: cuidado, proteção e enternecimento, enquanto pequena, frágil e indefesa; autoridade, controle e agressividade, quando a criança cresce e mostra-se menos dependente” (RIZZINI, 2011, p. 84, grifos da autora). A própria natureza "pueril" da infância, com sua espontaneidade, impulsividade e falta de responsabilidade, gerou representações contrastantes sobre a criança ao longo da história. Em períodos próximos, a infância foi idealizada como um estado de pureza e inocência, mas também como um período de desordem e rebeldia. A "natureza pueril" da criança, com sua espontaneidade e impulsividade, gerou debates históricos sobre sua capacidade de discernimento e a influência da infância na vida adulta. a) Discernimento: durante séculos, a justiça levou em consideração a capacidade de discernimento da criança ao aplicar penas. O Código Criminal de 1830, por exemplo, previa punição para menores de 9 a 14 anos que demonstrassem discernimento sobre seus atos. A dúvida sobre a capacidade da criança de premeditar crimes ou agir impulsivamente permeou a discussão. O conceito de "idade da razão", que determinava o momento em que a criança passaria a ser responsabilizada por seus atos, era herança do período colonial. No século XIX, foi questionada a noção de discernimento, mas persistiu. Com a promulgação do Código de Menores de 1927, a noção de discernimento finalmente foi abandonada, reconhecendo a necessidade de um tratamento específico para a criança em conflito com a lei. b) Determinismo: a crença na influência da infância na vida adulta se fortaleceu com as teorias biológicas do século XIX. Áreas como a medicina, psicologia e psiquiatria passaram a interpretar a infância como determinante para o desenvolvimento do indivíduo. As duas noções — o discernimento e o determinismo — contribuíram para o surgimento do estudo da criança como um campo específico de conhecimento. No Brasil, a puericultura e a pediatria, em ascensão entre 1874 e 1889, consolidaram o olhar profissional sobre a infância, segundo o médico Moncorvo Filho. Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XIX | 12 Rizzini busca analisar a dimensão política que despertou um interesse particular pela infância, uma vez que correspondia com o projeto civilizatório que se desenhava para o país. Na lógica do pensamento da época, um projeto político que transformasse efetivamente o Brasil em uma nação civilizada implicava ações direcionadas a infância, moldando-aconforme os objetivos desejados para o país. Paradoxalmente, sabia-se, a exemplo dos países-modelo, que não seria fácil obter simultaneamente um povo educado, mas não ao ponto de ameaçar os detentores do poder; um povo trabalhador, porém controlado, sem consciência do valor de sua força de trabalho; e um povo que amasse sua pátria, mas que não almejasse governá-la. Esta era uma missão delicada, considerando os exemplos históricos de insubordinações populares e as ideias que circulavam sobre o efeito assustador da união das classes operárias, principalmente nos países ditos "civilizados". Dado o reconhecido atraso do Brasil e as inúmeras deficiências de sua população, a missão não consistia em apenas educar as crianças para uma nação "forte", mas também educar um "povo-criança" — um povo que ainda se encontrava em sua fase de infância. Assim como um pai vê em seu filho um ser imaturo, ainda por criar, a elite brasileira enxergava a população como composta por seres primitivos e bárbaros, se pensarmos no ideal de civilização da época, o qual parecia jamais poder ser alcançado com os nativos da terra. De certa maneira, a vida urbana tornava ainda mais discrepante o contraste entre a elite — protagonizada pelo homem moderno, industrial, capitalista —, e o homem do povo. Este, bruto e ignorantes era como uma criança, que cresceu sem ter sido lapidada (RIZZINI, 2011, p. 87). A ideia de salvação da criança confundia-se com a proposta de salvação do país — um país que necessitava ser moldado como se molda uma criança. E apesar de ser encarado como um enorme desafio, parecia perfeitamente viável. Via-se a criança, ainda facilmente adaptável, como a solução para o país. Mesmo aquelas advindas dos estratos mais miseráveis poderiam ser úteis, desde que adequadamente educadas, fora de seus ambientes viciosos, pois eram vistas como candidatas à vadiagem e ao crime. Daí surgia o discurso ambíguo de defesa da criança e da sociedade: “para se ter como moldar a criança com o propósito de civilizar o país, era preciso primeiro poder concebê-la como passível de periculosidade” (RIZZINI, 2011, p. 88). Em agradecimento a dedicação constante dos mantenedores da Associação Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XIX | 13 Protetora da Infância Desamparada, o diretor de um asilo para crianças pobres fez a seguinte declaração: [...] a subsistência da instituição oriunda do sentimento generoso inspirado aos iniciadores da nobre ideia de subtrahir a infancia desvalida á acção deprimente da ignorancia e da miseria e ao influxo deleterio da ociosidade e do vicio, facultando-lhe no abrigo deste recinto educação moral e technica capaz de fazer do orphão homem, da criança cidadão, do pobre menino abandonado operario industrioso e honesto pai de familia. (Documento assinado por Elesbão Fiuza, Diretor do Asilo Agricola de Santa Isabel, em 6 de janeiro de 1895 (Relatório da Associação Protetora da Infância Desamparada, 1895, escrita e grifos originais, apud RIZZINI, 2011, p. 88). Rizzini argumenta que a visão do diretor do asilo sobre o destino das crianças evidencia uma profunda divisão social, projetando futuros distintos para cada uma delas. De um lado, a criança com acesso à cidadania, do outro, o "pobre menino abandonado", destinado ao "trabalho regenerador". A declaração do diretor, que buscava transformar o menino em um "industrioso, honesto e pai de família" soa irônica, pois, na verdade, esperava-se que ele permanecesse ocioso, desonesto e incapaz de constituir uma família. Neste contexto, a infância poderia ser classificada em "pobre digno" e do "vicioso". A cidadania, para as crianças pobres, não era um direito garantido pelo nascimento. A família era vista como a chave para a ascensão social, e sua capacidade de educar e controlar os filhos era essencial. Para o "pobre menino abandonado", o Estado assumiu o papel de substituto da família. Foi criado um complexo sistema jurídico-assistencial para educar e controlar essas crianças, as quais se tornaram objetos de estudo. Examinadas, diagnosticadas e submetidas a um "tratamento que a remediasse", essas crianças, vítimas da pobreza, se transformavam em "menores". 2.2.1 A Construção Ideológica da Infância Pautando-se em Cunningham (1995), Rizzini (2011) descreve que até o século XIX as ações dirigidas à criança, tinham como base os seguintes pensamentos: “a salvação da alma da criança” e “criança como chave para o futuro”. A concepção do ser humano como pecador nato, pautada nas doutrinas Agostiniana e Calvinista do pecado original, justificava diversas intervenções sobre a Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XIX | 14 família e diretamente sobre a criança. Nesta concepção, a depravação inata e as paixões da criança precisavam ser controladas para garantir sua salvação e a boa ordem social. Apesar das divergências entre católicos e protestantes, ambos atribuíram grande importância à infância, considerando-a uma fase essencial para moldar indivíduos que contribuiriam para uma sociedade ideal. Tanto na Reforma quanto na Contra-Reforma, houve um reconhecimento da infância como uma fase vital para o futuro das nações. A ideia de “criança como chave para o futuro” surgiu no século XVI e se consolidou através de reformas, sendo notadamente influente nas sociedades ocidentais. Essa concepção levou a um grande investimento na educação das crianças, já que a forma como se educava uma criança era vista como determinante para o futuro do Estado. Tanto os católicos quanto os protestantes abraçaram a ideia de "criança-chave", mas com diferentes ênfases. A escola era vista entre os protestantes como um complemento à ação da família, enquanto entre os católicos como central, muitas vezes substituindo a família na educação. Isso resultou em um grande investimento na orientação da família e na criação de instituições educativas, que se tornaram fundamentais no processo de moldar as crianças conforme os ideais sociais e políticos da época. Por fim, essa construção ideológica da infância no universo cristão europeu teve um impacto duradouro, influenciando ainda as colônias europeias, incluindo o Brasil. No século XVI, os jesuítas já implementavam práticas educacionais em solo brasileiro, cuja influência é perceptível até hoje. A diferença na abordagem educativa entre católicos e protestantes também explica práticas históricas, como o abandono em massa de crianças e a institucionalização, comuns no universo católico, pautadas na premissa de que as crianças precisavam ser mantidas sob constante vigilância, mesmo fora da família. 2.2.2 Um Caminho para a Construção da Nação Brasileira Nos primeiros tempos republicanos, encontra-se nos discursos sobre a infância alguns dos conceitos básicos adotados dos países industrializados da Europa e da América do Norte. Nas comunicações dos intelectuais estava presente a ideia de que a criança seria a chave para o futuro: "os pequenos de hoje, que serão os grandes de amanhã", como disse Lopes Trovão em 1896 (apud Rizzini, 2011, p. 106). Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XX | 15 No Brasil, pelos discursos da época, o tema da infância, como hoje, não era de grande interesse entre a maioria. Muitos defensores da causa se queixavam do descaso, principalmente por parte das autoridades públicas. Entretanto, as palavras de Trovão acerca da importância do investimento na infância, visando o futuro do Brasil, não estavam isoladas. Convicto de seus ideais republicanos, Trovão representava um segmento da sociedade brasileira que se preocupava genuinamente com o futuro da nação. Era, de fato, um momento de construção, especialmente no Brasil, onde a questão da nacionalidadeainda era recente e de forma alguma assegurada. Partindo da hipótese de que o país começava a ver na criança um caminho possível para se libertar da barbárie e do atraso, ideia herdada dos países ditos civilizados, Rizzini afirma que havia um reconhecimento da importância da infância. Era fundamental investir em sua formação. Ao projetar o futuro, um dos problemas mais urgentes era educar a massa da população, sem a qual não se civilizaria a nação. Assim, quase simultaneamente no Brasil, fazia-se ouvir o apelo de que "o problema da criança era o problema do Estado", e, nesse sentido, era parte de sua missão assumir a liderança. Era sobre a criança, filha da pobreza, reprodutora do vício e da imoralidade, que a ação pública concentraria seus esforços. Por isso se dizia ser saneadora e civilizadora a reforma que o Brasil necessitava. Era acima de tudo moral a reforma que o país entendia ter que empreender (RIZZINI, 2011, p. 107). O discurso sobre o grau de ignorância e imoralidade da população brasileira era frequentemente reproduzido, principalmente como justificativa da urgência de intervenção dos poderes públicos. O fato é que o tema era um dos mais palpitantes na história do século XIX, com o desenvolvimento urbano, o expressivo crescimento demográfico e todas as implicações em termos de controle da população. 3 A Construção Social da Infância no Século XX Santos (2010) nos situa inicialmente no contexto do Brasil no século XX e, então, foca nos desafios da infância neste período. Expomos, na sequência, alguns pontos abordados pelo autor. As duas primeiras décadas do regime republicano representaram um período ímpar na história da urbanização e industrialização de São Paulo. O colapso do sistema Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XX | 16 escravista e a entrada maciça de mão de obra imigrante resultaram em uma profunda transformação do cenário social da cidade. As grandes lavouras de café, que até então impulsionavam a economia do estado, asseguraram a presença abundante de trabalhadores e de quadros técnicos capazes de alavancar a incipiente industrialização, ajudando na consolidação das relações capitalistas de produção. A economia dinamizou-se e diversificou-se com o aumento do consumo e do mercado de trabalho, onde o imigrante assumia papel fundamental. Do mesmo modo, a cidade crescia e se dinamizava, afirmando-se como grande mercado distribuidor e centro de integração regional. Com isso, verificava-se um crescimento constante do pequeno comércio, da classe média profissional ou burocrática e uma intensificação da divisão do trabalho. Neste momento, São Paulo experimentou um crescimento populacional sem precedentes em sua história. Com cerca de 30 mil habitantes em 1870, passou a abrigar uma população de 286 mil habitantes em 1907. Esta explosão demográfica foi acompanhada pelo crescimento industrial: a partir da última década do século XIX, o número de novos estabelecimentos (como têxteis, alimentícios, serrarias e cerâmicas) multiplicou-se a cada ano. Contudo, o mesmo não pode ser dito das condições sociais e habitacionais da cidade, que não acompanharam tal "progresso": estima-se que um terço das habitações era constituída por cortiços, que abrigavam grande quantidade de pessoas por unidade. As pestes e epidemias se alastravam drasticamente, beneficiadas pela ausência de condições mínimas de salubridade e saneamento. Paralelamente, a recém-instaurada República estruturava os símbolos de um novo país sob a bandeira da "ordem" e do "progresso", impelido pelo nacionalismo que, desde a década de 1880, ecoava em prol da industrialização. Ao mesmo tempo, a aura republicana moldava a intensa dicotomia entre os mundos do trabalho e da vadiagem, protagonizados, respectivamente, pelo imigrante e pelo nacional, principalmente aquele advindo da escravidão. A eugenia era uma ideia corrente entre teóricos e autoridades e a busca pelo trabalhador ideal não cessava, hostilizando não só o negro – representante de um passado a ser esquecido – como também os imigrantes portadores de ideias "nocivas" à ordem social. Líderes sindicais, dirigentes de greves e de reivindicações populares eram banidos do país, tornando fundamental o papel das forças policiais. A eugenia, surgida no início do século XX, ligava-se às teorias raciais e evolutivas como o racismo científico e o darwinismo Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XX | 17 social, e prosperou em tempos de imperialismo europeu e ideologias nacionalistas. Este movimento científico e social defendia a existência de raças superiores e a utilização da ciência para eliminar imperfeições humanas, acelerando a evolução biológica. Originada na Inglaterra no final do século XIX, a eugenia rapidamente se disseminou globalmente, atraindo estadistas, médicos, cientistas e intelectuais de diversas nacionalidades e ideologias (SOUZA, 2022). Neste contexto, surgiram ou se agravaram as crises sociais que anteriormente eram pouco relevantes no cotidiano da cidade. A criminalidade aumentou e tornou- se uma faceta importante, seja pela vivência dos fatos materiais ou pela interiorização da insegurança que, em maior ou menor grau, atingia as pessoas. Além disso, a aumento de crimes foi acompanhado pela ampliação e especialização dos mecanismos de repressão, provocando uma maior incidência de conflitos urbanos, numa clara manifestação do agravamento das tensões sociais. 3.1 Uma Infância Delinquente Desde o século XIX, a presença de menores infratores era um dado constante nas estatísticas criminais de São Paulo. A especialização policial e a importação de técnicas de controle permitiram um estudo detalhado sobre a criminalidade na cidade. Entre 1900 e 1916, a taxa de prisões por dez mil habitantes era alta para maiores e menores de idade. A natureza dos crimes cometidos por menores diferia dos cometidos por adultos. Enquanto os adultos eram responsáveis pela maior parte dos homicídios, os menores se destacavam em crimes como desordens, embriaguez, vadiagem, roubo e furto, revelando uma menor agressividade e o uso de malícia e esperteza como meios de sobrevivência. A interpretação romântica dos juristas, que exaltava o trabalho campestre e desconsiderava os problemas sociais da urbanização, contrastava com a realidade. A deterioração das condições sociais e os novos padrões de convívio da cidade consistiam-se como fatores determinantes para a criminalidade, mas eram ignorados pelo discurso oficial que relacionava lazer ao crime e trabalho à honestidade. No interior, onde a vida é mais modesta, os costumes mais simples e o trabalho mais pesado, a [criminalidade] infantil é relativamente Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XX | 18 pequena, sendo de notar que raras são as prisões de menores por motivo de vadiagem, embriaguez ou mendicidade, ao passo que elas avultam quando se trata de homicídios, ferimentos e pequenos furtos. Na capital dá-se o contrário; a vida é mais cara, os prazeres inúmeros, as seduções mais empolgantes, o trabalho mais leve, os maus exemplos e as más companhias mais constantes, de forma que ali predominam a gatunagem, a embriaguez, a mendicidade, as rixas etc. (CANDIDO, 1909, p. 31 apud SANTOS, 2010, p. 257). A preocupação com a infância, vista como "semente do futuro", levou os criminalistas a buscarem na infância a origem da delinquência. A instauração da República evidenciou a necessidade de um novo Código Penal que refletisse a realidade social do país. O Código Penal de 1890, inspirado no código italiano, determinou quatro categorias de responsabilidade penal para menores: • Menores de 9 anos: sempre irresponsáveis; • Entre 9 e14 anos: podem agir com ou sem discernimento; • Entre 14 e 17 anos: o discernimento é presumido; • Entre 17 e 21 anos: a penalidade é atenuada. O "discernimento", termo de difícil definição, era fundamental para determinar a aplicação da pena aos menores entre 9 e 14 anos. Essa questão gerava debates acalorados entre juristas e pais, com estes buscando comprovar a incapacidade mental dos filhos para livrá-los da punição. A jurisprudência se pautava em casos específicos para definir o discernimento, como a intenção de causar dano grave, a tentativa de ocultar o crime ou a ação impulsiva em companhia de outros menores. Quanto ao gênero, o código penal da época não fazia distinção, aplicando penas idênticas para meninos e meninas, o que gerou críticas fundamentadas na suposta fragilidade feminina. Argumentava-se que, em razão de diferenças mentais entre os sexos, as mulheres eram mentalmente inferiores aos homens. Essa visão refletia uma sociedade patriarcal, que legitimava a dominação masculina e a constante tentativa de submissão das mulheres. Em resumo, o estudo da criminalidade em São Paulo no período evidenciou uma realidade complexa da infância, caracterizada por uma linha tênue entre malícia e discernimento. As estatísticas, a legislação e a interpretação dos juristas mostraram a dificuldade em lidar com a delinquência juvenil, destacando a necessidade de compreender as causas sociais e o desenvolvimento de políticas eficazes para a Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XX | 19 ressocialização dos menores infratores. Santos (2010) também demonstra como a criminalidade infantil em São Paulo no final do século XIX era resultado de um conjunto de fatores sociais, econômicos e políticos, que marginalizavam e excluíam os mais jovens, forçando-os a optar pela ilegalidade para sobreviver. Como evidenciado, meninos e meninas, muitas vezes forçados pelas circunstâncias, envolviam-se em atividades ilícitas como roubos, furtos e prostituição para garantir sua própria sobrevivência e de suas famílias. Este cenário era ainda mais reforçado pelo fato de a cidade, que hostilizava as classes populares, oferecer poucas oportunidades de trabalho para esses jovens, levando-os a procurar alternativas nas ruas. A presença de crianças envolvidas em crimes era constante e amplamente divulgada nos jornais da época. As autoridades viam a criminalidade infantil como um problema social a ser combatido. Considerava-se a "vadiagem" como um crime, e a prisão, seguida de trabalho forçado em colônias agrícolas ou oficinas, era a pena aplicada aos jovens. Essa abordagem, além de punitiva, visava também à "reeducação" desses indivíduos por meio do trabalho. Frequentemente, esses menores alternavam entre atividades lícitas e ilícitas, atuando como mão de obra em pequenos serviços e, na ausência desses, envolvendo- se em furtos e roubos, se aproveitando do intenso fluxo de transeuntes nas calçadas paulistanas. As estatísticas da época demonstravam a dimensão do problema: um grande número de menores era preso por vadiagem e encaminhado para a cadeia pública. Essa prática, contudo, era marcada por arbitrariedades e violações dos direitos desses jovens. A esta altura, demonstrava-se urgentemente a necessidade de criação de um sistema específico para lidar com a questão dos menores infratores. Apesar da existência de instituições privadas de recolhimento, como o Lyceo do Sagrado Coração de Jesus e o Abrigo de Santa Maria, essas instituições, geralmente ligadas a ordens religiosas ou a particulares, tinham resistência em receber menores com passagem pela justiça. Diante dessa lacuna, a criação de uma instituição pública de recolhimento se tornava impreterível. A prisão de menores em delegacias, junto a adultos, era uma prática comum e considerada inadequada pelos juristas e pelas autoridades. A falta de um estabelecimento específico para cumprimento de penas de menores infratores causava um impasse, pois o Código Penal previa essas penas, mas o Estado não Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XX | 20 dispunha de infraestrutura para executá-las. A pressão por uma solução para esse problema culminou na criação da Lei nº 844, em 1902, que autorizou a fundação de um Instituto Disciplinar e uma Colônia Correcional. O Instituto Disciplinar seria destinado a menores infratores e a crianças abandonadas, já a Colônia Correcional seria destinada a adultos considerados "vadios e vagabundos". O Instituto Disciplinar de São Paulo era um modelo de instituição correcional típico do início do século XX, onde o trabalho, a disciplina e a educação cívica eram os pilares da ressocialização de jovens e crianças abandonadas. O ingresso no instituto era estabelecido por sentença judicial, após um rigoroso processo de avaliação física e psicológica. Os jovens eram classificados em duas seções: uma para aqueles considerados criminosos e outra para os considerados "vadios" e "abandonados". A rotina no instituto era marcada pelo trabalho, principalmente na agricultura. A ideia era que o trabalho consistisse em um instrumento de ressocialização, afastando os jovens da ociosidade e ensinando-lhes hábitos de disciplina e produtividade. Além do trabalho agrícola, recebiam aulas de ginástica, instrução militar e educação cívica. O programa do instituto não incluía a educação religiosa, refletindo o caráter laico do Estado. O objetivo principal era moldar cidadãos obedientes e produtivos, alinhados aos valores da sociedade da época em questão. Quanto ao cotidiano dos jovens internos no Instituto Disciplinar de São Paulo, a instituição, criada para corrigir e reeducar menores infratores e abandonados, impunha uma rotina extremamente rígida e disciplinada. Apesar da ausência de registros que deixem transparecer com maior clareza a percepção dos internos sobre o instituto, Santos (2010) descreve sobre alguns aspectos, dispostos a seguir. • Percepção dos internos: a experiência dos jovens era marcada pela dor, pela humilhação e pela sensação de injustiça. Elementos como a falta de liberdade, a rigidez da rotina e a violência física e psicológica contribuíam para um ambiente hostil e opressivo. • Rotina: a jornada diária dos internos compreendia longas jornadas de trabalho, com pouquíssimo tempo para descanso ou lazer. As atividades educacionais eram limitadas e muitas vezes insuficientes. O regulamento interno era extremamente rígido, proibindo qualquer tipo de comunicação com o mundo exterior e impondo punições severas para qualquer infração. Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XX | 21 • Reações: diante desse regime opressivo, os internos reagiam de diversos modos. As fugas eram frequentes, muitas vezes organizadas em grupo, como forma de protesto contra o tratamento violento e cruel a que eram submetidos. Além das fugas, os jovens utilizavam a desobediência e a sabotagem. • Sistema de recompensas e punições: o instituto utilizava um sistema de recompensas e punições para controlar o comportamento dos jovens internos. As recompensas, como elogios e prêmios, eram utilizadas para incentivar a boa conduta, enquanto as punições, que podiam variar de advertências a celas escuras, eram empregadas para punir as infrações. De modo geral, o Instituto Disciplinar de São Paulo era um modelo de instituição correcional marcado pela repressão, violência e desumanização. A rotina rígida, a falta de liberdade e a ausência de um tratamento individualizado contribuíam para a desestruturação e alienação dos jovens. 3.2 Pequenos Operários Moura (2010) nos introduz ao cotidiano de crianças e adolescentes nas fábricas e oficinas do período industrial, que remete a situações-limite, especialmente osacidentes de trabalho, envolvendo ainda diferentes formas de violência. Nos primórdios da industrialização paulistana, o dia a dia desses trabalhadores espelhava a realidade da classe operária nos estabelecimentos industriais. Ironicamente, numa sociedade que considerava a infância como algo lírico e sagrado, crianças e adolescentes ganharam destaque na imprensa paulistana. Vozes se levantaram para denunciar as condições de trabalho desses jovens, que simbolizavam a desenfreada exploração do trabalho. A expansão industrial em São Paulo, como em outras partes do mundo, moldou a trajetória de crianças e adolescentes das camadas economicamente oprimidas. O trabalho infantojuvenil atribuiu legitimidade ao movimento operário, pois as lideranças reconheceram nesses pequenos trabalhadores uma causa significativa. Eles revelavam a condição miserável da classe operária, tanto aos contemporâneos quanto à posteridade. Durante um período de intensa movimentação em busca de novas oportunidades, adolescentes e crianças acompanhavam adultos em travessias marcadas pela extrema pobreza de seus países de origem. Na Itália, por exemplo, a fome, a pelagra (doença resultante de desnutrição grave e prolongada) e os invernos Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XX | 22 rigorosos obrigavam famílias a se abrigarem com animais para obter calor. Essa realidade fez da América um sonho para muitos. São Paulo, impactada pela imigração, viu o aumento da concentração de trabalhadores urbanos, com uma significativa presença de estrangeiros, especialmente italianos. Em 1912, 60% da mão de obra no setor têxtil eram italianos, evidenciando a grande presença dessa comunidade e a diversidade que caracterizava a classe operária paulistana. Anúncios industriais solicitavam jovens para trabalhar, destacando a inserção precoce no mercado de trabalho. Em jornais italianos como o Fanfulla, anúncios buscavam crianças e adolescentes para as fábricas, evidenciando a demanda por essa mão de obra. Em 1890, aproximadamente 15% da mão de obra nas indústrias paulistanas eram crianças e adolescentes. Em 1920, esse percentual era de 7% em todo o estado de São Paulo. Para famílias imigrantes, o sonho americano se transformou em uma rotina exaustiva e insalubre nas fábricas e cortiços. Durante a República Velha, o trabalho infantojuvenil espelhava o baixo padrão de vida das famílias operárias, com salários insignificantes e altos custos de vida. A exploração do trabalho ocorria pela compressão salarial dos adultos, discriminação de gênero e idade nas remunerações femininas e a determinação dos empresários em diminuir os custos de produção. A presença de crianças e adolescentes no trabalho industrial tornou-se um indicador da persistente pobreza que rondava muitas famílias imigrantes, cuja sobrevivência dependia, em parte, do trabalho dos próprios filhos. Crianças e adolescentes, devido à pouca idade, foram os trabalhadores que mais sofreram com a disciplina rigorosa imposta por patrões e superiores hierárquicos, que constantemente os submetiam a maus-tratos. Apesar da racionalidade imposta pelo ambiente de trabalho, o lúdico persistia na vida dessas crianças e adolescentes. As longas jornadas de trabalho transformavam as fábricas e oficinas em espaços onde esses jovens se entregavam a brincadeiras próprias da idade. No entanto, as brincadeiras frequentemente desencadeavam atitudes violentas dos superiores. Essas brincadeiras também demonstram como as crianças e adolescentes eram empregados indiscriminadamente em funções para as quais não estavam preparados e que envolviam sérios riscos. As atitudes inadequadas ao ambiente de trabalho, porém, apropriadas à idade, revelam uma resistência característica: as crianças e adolescentes passaram a Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XX | 23 desobedecer às regras impostas, demonstrando que sua condição de menores se sobrepunha à de trabalhadores. A desobediência e as brincadeiras quebravam a rotina esmagadora, aliviando a tensão e resgatando minimamente o direito à infância e à adolescência. As condições inadequadas de trabalho passaram a ser amplamente conhecidas e questionadas, apesar disso, crianças e adolescentes ainda trabalhavam nas fábricas e oficinas de São Paulo devido a pobreza da classe operária. No início do século XX, a cidade atraía trabalhadores com salários nominalmente maiores que os do campo e um leque maior de oportunidades, levando famílias inteiras a empregar seus filhos. Além das fábricas, o setor terciário e a economia informal ofereciam novas oportunidades de emprego para esses jovens. Entretanto, as condições de trabalho eram muito perigosas, tornando inevitável a ocorrência de inúmeros acidentes. As atividades informais também abrigavam muitas crianças e adolescentes, como vendedores de bilhetes de loteria, engraxates e vendedores de jornais. As ruas da cidade se tornaram um referencial na história do trabalho infantil e adolescente, onde muitos menores, abandonados ou não, recorriam à mendicância, delinquência e criminalidade para sobreviver. As autoridades e a sociedade muitas vezes viam o trabalho como uma forma de redimir essas crianças e adolescentes abandonados. Prevalecia uma visão filantrópica e paternalista dos empregadores, que justificavam a exploração infantil como uma forma de resgate social (“redentor da infância e adolescência”), contrastando com a dura realidade vivida por esses menores. A visão positiva do trabalho frequentemente se desintegrava diante do cenário de trabalhadores desnutridos, doentes e malvestidos, incapazes de superar a pobreza. O movimento operário ainda trazia à tona a evidência de que o trabalho, ao contrário do que se pregava, não era um fator de superação da pobreza e acesso à cidadania. O que se observava eram crianças e adolescentes sendo submetidos a normas de trabalho rígidas e a ritmos de produção intensos, que expandiam os efeitos da exploração do trabalho. A aparência vulnerável e frágil das crianças gerava um sentimento de proteção, mas no ambiente de trabalho, essas mesmas características eram ignoradas, acarretando condições de trabalho nefastas. O movimento operário buscava inspiração na situação desses jovens, usando sua exploração como bandeira para legitimar suas reivindicações. A imprensa operária comparava as condições de trabalho infantojuvenil às dos escravos, evocando o Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XX | 24 passado do regime escravocrata para criticar as práticas industriais. As críticas ao trabalho infantojuvenil eram disseminadas na imprensa operária e em outros segmentos da sociedade, e frequentemente ressaltavam os perigos e a insalubridade enfrentados por esses menores. Acidentes de trabalho envolvendo crianças e adolescentes eram corriqueiros, e a imprensa frequentemente noticiava esses eventos, destacando a irresponsabilidade dos empregadores. O problema do trabalho infantojuvenil também era abordado no âmbito do poder legislativo, com debates sobre a regulamentação e proibição do trabalho de menores. As greves e manifestações operárias incluíam reivindicações específicas para proteger esses jovens trabalhadores, como a proibição do trabalho noturno para menores de 18 anos e a fixação da idade mínima para o trabalho em 14 anos. Em momentos de insatisfação generalizada, o movimento operário conseguia mobilizar a sociedade e pressionar o Estado a tomar medidas para melhorar as condições de trabalho dos menores. Contudo, apesar dessas pressões, a situação da infância e adolescência operárias continuava a ser um grave problema e não resolvido, refletindo as dificuldades de superação da pobreza e exploração. 3.3 Entre a Escolae o Trabalho Fundamentando-se em dados da PNAD (Pesquisa Nacional Amostras de Domicílios), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e o jornal “O Globo”, Rizzini (2010) discorre sobre a difícil “escolha” das crianças brasileiras no que se refere a educação e ao trabalho. Em 1995, cerca de oito milhões de crianças e adolescentes de cinco a 17 anos trabalhavam no Brasil, entre as quais 522 mil tinham entre cinco e nove anos, predominantemente na agricultura. A maioria delas não recebia remuneração, trabalhando para ajudar os pais em propriedades familiares ou como empregados. Em consequência disso, ficavam afastadas da escola, com 4% das crianças de dez a 14 anos trabalhando sem estudar e 19,6% dos adolescentes de 15 a 17 anos abandonando a escola. Muitos trabalham extensas horas, com 24% dos trabalhadores de dez a 14 anos e 63% dos de 15 a 17 anos trabalhando 40 horas ou mais por semana. Metade dos jovens entre 15 e 17 anos trabalhava, com os mais pobres abandonando a escola para trabalhar, enquanto os menos pobres adiavam a entrada no mercado de trabalho em prol da educação. O número de meninas trabalhadoras Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XX | 25 era menor que o de meninos, mas muitas realizavam tarefas domésticas sem frequentar a escola. Aproximadamente dois milhões de meninas e adolescentes cuidavam da casa e dos irmãos, substituindo a da mãe devido ao trabalho. A principal atividade das meninas trabalhadoras era o emprego doméstico, com 822 mil trabalhadoras domésticas entre dez e 17 anos, 90% do sexo feminino. Contudo, muitas não eram contabilizadas oficialmente, sendo "crias da casa" ou "filhas de criação", trabalhando em troca de abrigo e pequeno pagamento, e enfrentando riscos de abusos sexuais. Havia ainda um número significativo de crianças e adolescentes de dez a 17 anos aparentemente desocupados, totalizando 658 mil indivíduos que não estudavam, não trabalhavam e nem realizam afazeres domésticos. Em 1996, cerca de 63 mil estudantes, a maioria adolescentes, da rede pública de ensino do estado do Rio de Janeiro, abandonaram a escola. O sistema educacional não os absorvia, tampouco os programas sociais, e quando eles caiam na rede do crime, ficavam sujeitos aos percalços da ação da polícia e da justiça ou dos grupos de extermínio. Crianças cooptadas pelo tráfico de drogas para exercerem funções subalternas, como a de olheiro, tornava-se um problema cada vez mais grave. Nem sempre a família tinha distanciamento crítico suficiente para ver a atividade da criança como “trabalho”. Elas entendiam que seus pequenos faziam “bicos” nas ruas, ganhando uns trocados vendendo coisas, engraxando sapatos, distribuindo propaganda ou exercendo alguma tarefa no comércio perto de casa. A relação entre a cor da pele e o trabalho infantil era evidente nos cruzamentos das avenidas de grandes cidades brasileiras, onde a maioria das crianças eram negras. Isto refletia a situação de desvantagem dos trabalhadores negros no Brasil, que geralmente exerciam ocupações desqualificadas e ganhavam um terço do que recebiam os brancos. Como consequência, seus filhos eram mais pressionados a contribuir para o orçamento da família. Todavia, após a maioridade, ocorria uma inversão: o mercado de trabalho absorvia proporcionalmente mais brancos, quando havia uma maior exigência de escolaridade e qualificação. 3.4 Combate ao Trabalho Infantil O governo, organizações de cooperação internacional como o Unicef, e diversas ONGs, sindicatos e fundações privadas reconheceram que, sem apoio às famílias e sem campanhas de conscientização e mobilização social, seria impossível ajudar Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XX | 26 efetivamente as crianças exploradas no trabalho. Assim, diversas iniciativas foram implementadas com esse objetivo. Com base em Rizzini (2010) e outras fontes mencionadas pela autora, como “Jornal da Cidadania”, “Jornal de Brasília”, “Folha de S. Paulo”, “Organização Internacional do Trabalho” e “Programa Internacional de Eliminação do Trabalho Infantil” (OIT/IPEC), descrevemos algumas iniciativas. Em 1997, o governo brasileiro criou o programa Brasil Criança Cidadã para retirar crianças do trabalho em estados com alta exploração infantil. O programa oferecia uma bolsa de 50 reais mensais por criança retirada do trabalho e mantida na escola até os 14 anos, com uma frequência mínima de 75% às aulas. Até o início de 1998, 38 mil crianças foram beneficiadas. Governos estaduais, como o do Distrito Federal, também têm programas semelhantes, com Brasília beneficiando 43 mil crianças com a bolsa-escola. Esse modelo de política pública de assistência social foi inovador, pois sugeriam uma ação integrada entre o governo federal, estadual, prefeituras e organizações não governamentais, cada um com responsabilidades específicas na execução e fiscalização do programa. A prefeitura de Campo Grande (MS) propôs a implementação do programa para 315 famílias de crianças catadores de lixo, oferecendo uma bolsa de 50 reais por criança, substituindo o ganho diário como catadores. As crianças maiores de quatro anos eram atendidas pelos Centros Educativos de Múltipla Atividade (Cemas) e as menores por creches municipais. Rizzini sinaliza que a implementação de programas para a resolução de problemas críticos imediatos é importante, mas tratá-los como soluções definitivas pode levar ao fracasso. As ações precisam ser regularmente avaliadas e a população deve ser ouvida. Desde 1992, o Brasil participa do IPEC da OIT, que objetiva unir esforços globais contra o trabalho infantil, focando em crianças que trabalham em condições de risco. O programa capacita agentes, mobiliza a sociedade e apoia ações diretas para enfrentar a exploração infantil. O Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil visa a promoção de campanhas e a mobilização de empresas contra o trabalho infantil. O programa Empresa Amiga da Criança envolve mais de mil empresas comprometidas a não empregar crianças, respeitando a idade mínima legal de 14 anos. Algumas empresas também mantêm programas de profissionalização e educação para adolescentes carentes, exigindo que estejam estudando. Políticas e Programas para Infância e Juventude | A Construção Social da Infância no Século XX | 27 De acordo com a autora, muitas iniciativas contra o trabalho infantil foram motivadas pela pressão internacional, especialmente dos Estados Unidos, que discute a aplicação de sanções econômicas a países que utilizam trabalho infantil. No governo brasileiro, essas medidas são vistas como protecionismo econômico. A Fundação Abrinq sugere localizar focos de exploração infantil e implementar programas para resolver o problema, com a participação da OIT, Unicef, governos, empresários, trabalhadores e ONGs, ao invés da aplicação de boicotes ou sanções comerciais. Diversas iniciativas no Brasil por secretarias de governos, conselhos de direitos e ONGs buscam garantir o ingresso, permanência e sucesso das crianças na escola, apoiando famílias e desenvolvendo ações complementares. Programas como “Da Rua para a Escola” no Paraná e “Oficina da Criança” no Rio de Janeiro promovem apoio pedagógico e atividades culturais e profissionalizantes para manter crianças e adolescentes fora das ruas. Apesar disso, essas políticas são insuficientes para erradicar o trabalho infantil, que é mais prevalente no campo. Por fim, Rizzini pontua que colocar todas as crianças na escola depende da melhoria das condições de vida da população. É pertinente implementar políticas sociais que garantam uma renda mínima às famílias, permitindo que as crianças frequentem a escola e permaneçam nela. 3.5 A Luta pela Educação Infantil Salvino Gomese Costa Filho (2013) discutem alguns aspectos da Educação Infantil no Brasil, os quais apresentamos na sequência. Até o final do século XIX e início do século XX, não havia nenhuma iniciativa educacional genuína direcionada para crianças de zero a seis anos. Nas primeiras décadas do século XIX, especificamente, as crianças negras tornaram-se figuras invisíveis e de pouca importância na historiografia brasileira. Enquanto as crianças brancas estudavam aos sete anos, as crianças negras eram direcionadas ao trabalho. A história da educação infantil no Brasil demonstra uma trajetória complexa, marcada por contradições e mudanças. Enquanto a França, em meados do século XIX, reconhecia a importância da educação das crianças, abrindo asilos independentemente da condição social das mães, no Brasil, a criança passou a conquistar o reconhecimento legal como cidadã com direitos somente após a Constituição de 1988 (BRASIL, 1988). Políticas e Programas para Infância e Juventude | Conclusão | 28 A Constituição Federal, em seu artigo 227, respaldada pela Convenção sobre os Direitos da Criança da ONU, decreta de forma prioritária às crianças e aos adolescentes o direito à vida, saúde, alimentação, dignidade, liberdade, e convivência familiar e comunitária, entre outros. Esse dispositivo constitucional assegura os direitos fundamentais das crianças e dos adolescentes. Na última década do século XX, a implementação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) foi crucial para a defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes no Brasil, estabelecendo um marco legal abrangente que reconhece esses jovens como sujeitos de direitos plenos e prioritários. O ECA promove a proteção integral, assegurando condições para um desenvolvimento saudável e digno, e compreende aspectos fundamentais, como vida, saúde, educação, liberdade, convivência familiar e comunitária, e medidas socioeducativas. Ao promover um sistema robusto de proteção e promoção dos direitos, o ECA fortalece a responsabilidade do Estado, da família e da sociedade na garantia de um ambiente seguro e favorável para o pleno desenvolvimento das crianças e dos adolescentes. Após seis anos, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB - Lei 9.394/1996) instituiu a Educação Básica como um sistema unificado, englobando a Educação Infantil, Fundamental e Média. A LDB estabelece diretrizes claras para a organização do sistema educacional brasileiro, garantindo que todos os estudantes possam se desenvolver plenamente. Ao assegurar o direito à educação, a LDB prepara as crianças e os adolescentes para a participação ativa e consciente na sociedade e contribui para a construção de um país mais equitativo e justo. Portanto, somente há pouco tempo, diante do problema da qualificação profissional, a educação básica passou a ser foco de atenção do governo. A compreensão de que uma formação profissional sólida depende de uma base educacional sólida finalmente se tornou explícita. A partir dessa percepção, a Educação Infantil ganhou o reconhecimento que lhe é devido como etapa fundamental para o desenvolvimento integral da criança e para o futuro do país. 4 Conclusão A construção social da infância nos séculos XIX e XX moldou profundamente a maneira como entendemos e tratamos as crianças hoje. No século XIX, ocorreu muito gradativamente o reconhecimento da infância como uma fase única e vulnerável, refletindo, em certo grau, mudanças nas estruturas familiares e na percepção do papel Políticas e Programas para Infância e Juventude | Referências | 29 das crianças na sociedade. No século XX, essa visão foi ampliada e formalizada, com a incorporação da infância às agendas de direitos humanos e políticas públicas, promovendo um enfoque na saúde, educação e bem-estar das crianças e adolescentes. Essas mudanças melhoraram as condições de vida das crianças e destacaram a importância de investir no desenvolvimento infantil para o progresso social. Ao entender essas transformações, é possível avançar em direção a uma sociedade que valorize e proteja plenamente os direitos e necessidades desse público. Referências ABREU, R. N. O método lancasteriano no brasil: contribuições para a história de uma política linguísitca oitocentista. Interdisciplinar, São Cristóvão, v. 30, jul-dez, p. 191- 207, 2018. ALDEIAS HISTÓRICAS DE PORTUGAL. Casa da Roda dos Expostos. 2024. ALMEIDA MUNICÍPIO. Reabertura da Casa da Roda dos Expostos em Almeida. 2022. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA/ Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação/ Lei nº 3.934, de 20 de dezembro de 1996. CANDIDO, M. Os menores delinquentes e o seu tratamento no Estado de São Paulo. Diário Oficial, São Paulo, 1909, p.31. EDGCUMBE, E. R. P. Zephyrus. A holiday in Brazil and on the River Plate. Londres, Chatto & Windus, 1886. EWBANK, T. Vida no Brasil; ou Diário de uma visita à terra do cacaueiro e das palmeiras (com um apêndice contendo ilustrações das artes sul-americanas antigas). Trad. Jamil Almansur Haddad. Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Edusp, 1990. GONÇALVES, A. Roda dos Expostos no antigo concelho de Sortelha. 2019. Políticas e Programas para Infância e Juventude | Referências | 30 KHULMANN JR., M. Infância e educação infantil: uma abordagem histórica. Porto Alegre: Mediação, 1998. KIDDER, D. P.; FLETCHER, J. C. O Brasil e os brasileiros: esboço histórico e descritivo. Trad. Elias Dolianiti. São Paulo, Companhia Editora Nacional [1845] 1941. LANGSDORFF, B. E. de. Journal de la Baronne E. de Langsdorff relatant son voyage au Brésil à lóccasion du mariage de SAR, le Prince de Joinville 1842-1843. Paris, Les Amis des Musées de la Marine, 1954. MOREIRA LEITE, M. L. A infância no século XIX segundo memórias e livros de viagem. In. FREITAS, M. C. de. História Social da Infância no Brasil. São Francisco: Cortez Editora, 2001. MOURA, E. B. B. de. Crianças operárias na recém-industrializada São Paulo. In: Del Priore, M. História das crianças no Brasil. 7 ed. São Paulo: Contexto, 2010. PFEIFFER, I. Voyage d'une femme autour du monde. Trad. Vallemand par W. Suckau. Paris: Librairie de L. Hachette, 1846. RIZZINI, I. Pequenos trabalhadores do Brasil. Del Priore, M. História das crianças no Brasil. 7 ed. São Paulo: Contexto, 2010. RIZZINI, I. O século perdido: raízes históricas das políticas públicas para infância no Brasil. 3 ed. São Paulo: Cortez, 2011. SALVINO GOMES, E.; COSTA FILHO, J. Historicidade da infância no Brasil. El Futuro del Pasado, n. 4, p. 255-276, 2013. SANTOS, M. A. C. dos. Criança e criminalidade no início do século XX. In: Del Priore, M. História das crianças no Brasil. 7 ed. São Paulo: Contexto, 2010. SOUZA, V. S. de. Eugenia, racismo científico e antirracismo no Brasil: debates sobre ciência, raça e imigração no movimento eugênico brasileiro (1920-1930). Revista Brasileira de História, v. 42, n. 89, p. 93–115, jan. 2022. TSCHUDI, J. J. Viagem às províncias do Rio de Janeiro e São Paulo. Trad. Eduardo de Lima Castro. São Paulo, Martins, 1953. WALSH, R. Notícia do Brasil (1828-1829). Trad. Regina Regis Junqueira. Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Edusp, 1985. 2 v. Políticas e Programas para Infância e Juventude | Referências | 31 1 Introdução 2 A Construção Social da Infância no Século XIX 2.1 Livros de Viagem e Memórias 2.1.1 As Marcas da Escravidão 2.1.2 O Preparo para a Vida Adulta 2.2 A Divisão Social na Infância 2.2.1 A Construção Ideológica da Infância 2.2.2 Um Caminho para a Construção da Nação Brasileira 3 A Construção Social da Infância no Século XX 3.1 Uma Infância Delinquente 3.2 Pequenos Operários 3.3 Entre a Escola e o Trabalho 3.4 Combate ao Trabalho Infantil 3.5 A Luta pela Educação