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12ª Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente EIXO TEMÁTICO 03 Ampliação e Consolidação da Participação de Crianças e adolescentes nos espaços de discussão e deliberação de políticas públicas de promoção, proteção e defesa de seus direitos, durante e após pandemia. Hoje, se perguntarmos às pessoas quais são os direitos das crianças, muitas responderão prontamente que elas têm direito à educação, ao lazer, a serem protegidas de violência física e psicológica, entre outros. Mas essa naturalidade com que encaramos os direitos das crianças é uma construção histórica recente. Nem sempre a criança foi vista desse jeito... Até o início da década de 1990, no Brasil, estava em vigor a Lei 6.697/1979 ou “Código de Menores” – responsável por disseminar o termo “menor” ou “de menor” (sic). O Código encarava a criança e os(as) adolescentes como objetos de intervenção do Estado e dos pais, garantindo mínima autonomia a elas. Tratava-se de uma visão adultocêntrica, em que o adulto tinha sempre a última palavra na hora de dizer o que era melhor para essa criança. A mudança surgiu com a Convenção sobre os Direitos da Criança, adotada pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em 20 de novembro de 1989 e ratificada pelo Brasil em 24 de setembro de 1990. Neste mesmo ano, no Brasil, o Código de Menores havia sido revogado e substituído pela Lei 8.069/1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente ou, simplesmente, ECA. A partir daí, a criança passa a ser um sujeito de direitos e precisa ser ouvida e respeitada em suas decisões. Um dos avanços mais recentes na área do Direito foi a aprovação da Lei 13.431/2017, que prevê a escuta especializada e o depoimento especial de crianças e adolescentes, o que garantiu que estes pudessem ser ouvidos de forma humanizada em temas sensíveis. De acordo com o defensor público, a fala da criança precisa ser conduzida por quem está fazendo as perguntas de modo a não gerar distorções. Quando ouvida, a criança e adolescentes deve-se fazer perguntas abertas para que possam dar suas respostas sem que aja indução destas. Para que possa ser ouvida de fato e direito. Qualquer condução equivocada do depoimento deve ser considerada violência institucional, por não ter garantido o direito da criança e do adolescente”. Esta Lei também possibilita que as crianças e adolescentes possam ser ouvidos de forma adequada em diversos assuntos, até mesmo naqueles que ainda são sensíveis Como o Aborto. Que não é considerado crime em caso de gravidez decorrente de estupro (e manter relações sexuais com pessoas com menos de 14 anos sempre é considerado estupro). A adolescente tem o direito de ser ouvida em relação ao procedimento. COM RELAÇÃO A RELIGIÃO que também é um direito assegurado pelo ECA em seu artigo 3º do ECA que diz: Art. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade. Parágrafo único. Os direitos enunciados nesta Lei aplicam-se a todas as crianças e adolescentes, sem discriminação de nascimento, situação familiar, idade, sexo, raça, etnia ou cor, religião ou crença, deficiência, condição pessoal de desenvolvimento e aprendizagem, condição econômica, ambiente social, região e local de moradia ou outra condição que diferencie as pessoas, as famílias ou a comunidade em que vivem. (Incluído pela Lei nº 13.257, de 2016) E de acordo com o artigo 5º da Constituição Federal VI e VIII, a liberdade religiosa é considerada, justamente, um direito fundamental, a lei assegura a ela a liberdade de crença e culto religioso. Porém, esse direito depende da orientação por parte da família, que sempre deve se nortear pela proteção integral da criança. “Isso significa que, em caso de eventual conflito religioso entre a criança ou o adolescente e seus respectivos pais ou responsáveis, a autonomia, ainda que em formação, dela(e) deve ser respeitada”. No entanto, a situação muda caso a crença/culto coloque em risco a integridade psicofísica desta criança ou adolescente. Nessa hora, os pais ou responsáveis podem e devem interferir. Outro exemplo de direito respeitado é na área do Direito, onde mesmo a criança e o adolescente não podendo decidir por si mesmo, com quem ficar, como diz o Código Civil - Lei 10406/02 | Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002 em seu Art. 3º: São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil os menores de 16 (dezesseis) anos. (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) . Sua opinião será levada em consideração. Isto está assegurado inclusive quando o próprio adolescente comete ato infracional (crime cometido por adolescente) como afirma a Lei 8.069/90 em seu Artigo 106 que diz: No Artigo 106. Nenhum adolescente será privado de sua liberdade senão em flagrante de ato infracional ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente. Parágrafo único. O adolescente tem direito à identificação dos responsáveis pela sua apreensão, devendo ser informado acerca de seus direitos. Art. 107. A apreensão de qualquer adolescente e o local onde se encontra recolhido serão incontinenti comunicados à autoridade judiciária competente e à família do apreendido ou à pessoa por ele indicada. Parágrafo único. Examinar-se-á, desde logo e sob pena de responsabilidade, a possibilidade de liberação imediata. Como fica claro, no documento base da 12ª Conferência, que cita o 12 Artigo da Convenção das Nações Unidas que DETERMINA: Artigo 12 1. Os Estados Partes devem assegurar à criança que é capaz de formular seus próprios pontos de vista o direito de expressar suas opiniões livremente sobre todos os assuntos relacionados a ela, e tais opiniões devem ser consideradas, em função da idade e da maturidade da criança. E reafirma em seus Artigos 13, 14 e 15 que a criança e ou adolescente são de fato sujeitos de direitos. Artigo 13 A criança deve ter o direito de expressar-se livremente. Esse direito deve incluir a liberdade de procurar, receber e divulgar informações e ideias de todo tipo, independentemente de fronteiras, seja verbalmente, por escrito ou por meio impresso, por meio das artes ou por qualquer outro meio escolhido pela criança. Artigo 14 Os Estados Partes devem reconhecer os direitos da criança à liberdade de pensamento, de consciência e de crença religiosa. Artigo 15 Os Estados Partes reconhecem os direitos da criança à liberdade de associação e à liberdade de realizar reuniões pacíficas. No Brasil isto está reafirmado no ECA em seus Artigos 15 e 16 e 17 que dizem: Art. 15. A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis. Art. 16. O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos: I - ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitários, ressalvadas as restrições legais; II - opinião e expressão; III - crença e culto religioso; IV - brincar, praticar esportes e divertir-se; V - participar da vida familiar e comunitária, sem discriminação; VI - participar da vida política, na forma da lei; VII - buscar refúgio, auxílio e orientação. Art. 17. O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais. DEPOIS DE TODA ESSA SEGURANÇA EM LEIS, A PERGUNTA A SER FEITA É: OS DIREITOS DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES SÃO DEVIDAMENTE RESPEITADOS? Retornando para o tema proposto, quem está à frente das Conferências, são basicamente representantes de pastas e ou alguém com um pouco de conhecimento ( nunca se sabe tudo) sobre o tema proposto.Meu caso, por estar Conselheira Tutelar e trabalhar, zelando por direitos garantidos no ECA. Fui adolescente mas, a atualidade é totalmente diferente. Então, como falar de direitos de crianças e adolescentes, sem ouvi-los? Especialmente nos dias de hoje e sobre o tema proposto, realmente estamos aptos para estarmos falando e decidindo por eles? A resposta é um grande, NÃO. Tendo isso definido, decidi, convidar alguns adolescentes e jovens para estarem contribuindo com suas opiniões, sobre o tema proposto. E mais, convidei Jean pra fazer parte desta apresentação, não como Presidente do CEDCAR mas como, participante da Associação dos Grêmios estudantis do Estado, para estar abrindo esta porta de criação de grêmio estudantil nas escolas, o que me parece ser um dos caminhos para que os adolescentes possam também vivenciem o processo de eleição ( uma das formas mais democráticas) e passem a ser mais organizados para que assim estejam mais presentes, onde lhe é garantido por lei. Nota Técnica 1 INTRODUÇÃO A criança e o adolescente têm direito a proteção à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência. (Estatuto da Criança e do Adolescente, art. 7o ). Embora as crianças e os adolescentes sejam bem menos atingidas pela pandemia da Covid-19, comparativamente aos adultos e idosos, a adoção das necessárias medidas de isolamento social alcançam a população infanto-juvenil e impactam principalmente aquelas que vivem em domicílios mais pobres, em instituições de acolhimento e em outras situações de vulnerabilidade. As famílias pobres, por exemplo, têm visto seus rendimentos diminuírem dia após dia e, com isso, se veem forçadas a reduzirem as despesas com bens essenciais à sobrevivência humana, como alimentação, medicamentos e habitação. O fechamento das escolas afeta de forma direta toda a população em idade escolar. Porém, crianças e adolescentes pobres são mais profundamente acometidas. Grande parte das crianças de baixa renda encontra na merenda escolar, ofertada pelas instituições públicas de ensino da educação básica, sua única fonte de alimentação saudável e, com a interrupção das atividades escolares, podem não conseguir se alimentar de forma adequada com os recursos disponíveis em seus domicílios. A situação pode ser pior ainda. É possível que parte expressiva das crianças e adolescentes que vivem em famílias pobres padeça de fome na ausência da merenda escolar. O agravamento das vulnerabilidades no período da crise sanitária da Covid-19 no Brasil torna imprescindível que sejam implementadas ações voltadas para garantir os direitos das crianças e dos adolescentes. As medidas de combate à pandemia do novo coronavírus repercutem na vida das meninas e dos meninos desde o ambiente doméstico de suas famílias e de suas comunidades até as instituições e os espaços públicos frequentados por esta população. As políticas públicas voltadas para o público infanto-juvenil precisam ser preservadas e adequadas ao momento atual e planejadas para o futuro próximo. Entre as questões mais urgentes estão a proteção contra as consequências da pobreza e da fome, a promoção de ações de cuidados à saúde, a implementação de medidas de compensação à interrupção da frequência à escola e a promoção de assistência e proteção aos grupos de riscos. Essa nota técnica tem o objetivo de chamar atenção para algumas das principais áreas que podem afetar crianças e adolescentes no momento atual e no período pós-pandemia e que demandam respostas por parte das famílias, da sociedade e do Estado. 2 POBREZA E FOME: VIOLAÇÕES DO DIREITO HUMANO QUE PRECISAM SER COMBATIDAS O empobrecimento das famílias certamente é um dos impactos mais cruéis na vida das crianças e dos adolescentes. As restrições à manutenção dos empregos e das fontes de rendimentos das famílias são alguns dos efeitos perversos da necessária medida de isolamento social para contenção da pandemia do novo coronavírus. O gráfico 1 apresenta a proporção da população pobre no Brasil que vivia abaixo da linha de pobreza internacional de US$ 3,20 (paridade do poder de compra – PPC)/dia em 2017. Essa linha de pobreza foi proposta pelo Banco Mundial para medir a pobreza em países considerados de renda média baixa. No Brasil, essa linha equivalia a R$ 236,00/mês, aproximadamente, ou a um quarto do salário mínimo em 2017. Observe-se que a pobreza monetária tem um peso muito maior entre crianças e adolescentes do que entre jovens, adultos e idosos. Em 2017, aproximadamente 13 milhões de crianças e adolescentes eram considerados pobres. No grupo etário de 0 a 5 anos, a proporção de pobres era de 22,8% ou 3,9 milhões de pessoas. Entre as crianças de 6 a 14 anos, a pobreza alcançava 23,4% ou 6,7 milhões de pessoas; e, entre os adolescentes de 15 a 17 anos, 20,5% eram pobres ou 2,1 milhões. POR QUE CRIAÇÃO DO ECA Criada em 13 de julho de 1990, foi resultado de um amplo debate democrático, capitaneado por movimentos sociais, organizações, articulações e atores da sociedade civil e instituições voltadas para a conscientização e o respeito pela criança e pelo adolescente como sujeitos a ter direitos. Entre tantas questões importantes trazidas pelo Estatuto, além de considerar a criança e o adolescente como sujeito de direitos, surgiram importantes instituições: o Conselho Tutelar, encarregado de trabalhar e zelar pela defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes, e os Conselhos de Direitos da Criança, ambos nos âmbitos nacional, estadual e municipal, tendo como atribuições a formulação das políticas nacional, estadual e municipal para crianças e adolescentes, respectivamente.