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1 Conhecendo o universo dos Surdos 1.1 Surdos enquanto sujeitos visuais A visão é o sentido que dá existência para o povo surdo. É por meio da visualidade que a compreensão do mundo acontece. O povo surdo produz a cultura surda por meio da visualidade, ela dá condições para a conquista de lugares, produzir concepções e se constituir como sujeito que sinaliza a própria história. A experiência visual é elemento constituinte da cultura surda, sendo que os “sujeitos surdos perceberem o mundo de maneira diferente, a qual provoca reflexões de suas subjetividades” (STROBEL, 2008, p.38). A experiência visual é considerada elemento fundamental entre os pares surdos, pois é por meio dessa experiência que a língua desse povo é produzida. Pesquisadores surdos afirmam que a experiência visual é o “meio de comunicação". "Desta experiência visual surge a cultura surda representada pela língua de sinais, pelo modo de ser, de se expressar, de conhecer o mundo, de entrar nas artes, no conhecimento científico e acadêmico” (PERLIN; MIRANDA, 2003, p. 218). 1.2 Cultura surda e seus artefatos Entendemos que os surdos, ao longo do tempo, foram produzindo cultura, elementos próprios e específicos da sua condição visual, pois é esse canal visual e gestual que possibilita aos surdos perceberem o mundo ao seu redor. E estas experiências culturais pautadas pelas visualidades favorecem aos surdos desenvolverem culturalmente vários artefatos que refletem as peculiaridades da cultura surda (STROBEL, 2008). O conceito de artefatos não se refere apenas a materialismos culturais, mas a tudo aquilo que na cultura constitui produções do sujeito que tem seu próprio modo de ser, ver, entender e transformar o mundo. Nesse sentido, entendemos que as pessoas surdas percebem o mundo por meio do olhar. A experiência visual que as pessoas surdas possuem como característica maior significa a utilização da visão em substituição total à audição, como forma de comunicação. É dessa experiência visual que emerge a cultura surda representada pela língua de sinais. A língua de sinais é a representação cultural dos surdos com maior relevância. Nesse sentido os surdos buscam essa característica nos seus pares, pois entendem que ser surdo é uma condição cultural, ou seja, se é usuário da língua de sinais, então, é considerado culturalmente surdo. É nesse sentido que os estudos de Strobel (2009) nos ajudam na compreensão do que é cultura surda: Cultura surda é o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e de modificá-lo a fim de torná-lo acessível e habitável, ajustando-o com as suas percepções visuais, que contribuem para a definição das identidades surdas e das “almas” das comunidades surdas. Isto significa que abrange a língua, as ideias, as crenças, os costumes e os hábitos do povo surdo (STROBEL, 2009, p. 22). Aqui vamos nos referir aos estudos de Strobel (2008, p. 37) para conceituar “artefato cultural”. A autora caracteriza como “objetos ou materiais produzidos pelos grupos culturais”, incluindo-se aí “tudo o que se vê e sente quando se está em contato com a cultura de uma comunidade, tais como materiais, vestuário, maneira pela qual um sujeito se dirige a outro, tradições, valores e normas, etc.” (STROBEL, 2008, p. 37). Nesse sentido, entendemos que não se restringe a materiais ou produtos produzidos, mas também abrange as representações de atitudes, tradições, valores sociais, convenções e normas. Strobel (2008) apresenta nove artefatos culturais que compõem a cultura surda, conforme listado a seguir: 1)Experiência visual: possibilita aos surdos se constituírem enquanto sujeitos que percebem o mundo por meio da visão; 2) Linguístico: faz referência à utilização das línguas de sinais enquanto meio de comunicação do povo surdo; 3) Familiar: refere-se ao fato de mais de 90% das crianças surdas nascerem em lares ouvintes, o que traz implicações negativas tanto para a construção da identidade surda de tais sujeitos quanto para a aquisição da língua de sinais; 4) Literatura surda: compreende a criação de obras literárias por surdos utilizando a língua de sinais e a escrita de sinais; 5) Vida social: faz referência aos diversos processos interacionais desenvolvidos pelos surdos por meio de associações e organizações institucionais diversas; 6) Vida esportiva: refere-se às práticas desportivas e competitivas organizadas e desenvolvidas somente por sujeitos surdos que, por muitos séculos, foram excluídos das práticas desportivas desenvolvidas por ouvintes; 7) Artes visuais: compreende a produção artística do povo surdo; 8) Política: compreende os movimentos políticos desenvolvidos pelos surdos pelo reconhecimento de seus direitos linguísticos, culturais, educacionais e identitários; 9) Materiais: referem-se às diversas tecnologias desenvolvidas com o objetivo de proporcionar a acessibilidade ao povo surdo. Percebemos, deste modo, que a cultura surda se constitui a partir da relação com/entre diversos artefatos que possibilitam aos surdos se reconhecerem como sujeitos pertencentes a uma comunidade que partilha valores, modos de ser, comportamentos e visões de mundo. Nesse sentido, entendemos que a comunidade surda está produzindo artefatos que caracterizam as suas especificidades visuais e, com isso, fortalecendo sua cultura Nesse sentido, entendemos que a comunidade surda está produzindo artefatos que caracterizam as suas especificidades visuais e, com isso, fortalecendo sua cultura. 1.3 Comunidades surdas As comunidades surdas são constituídas por pessoas surdas e ouvintes que compartilham dos mesmos espaços de partilha linguística e cultural, das mesmas lutas e intenções, em busca de melhores condições sociais para as pessoas surdas, pelo reconhecimento e divulgação da Língua de Sinais. São as pessoas surdas e ouvintes que estão mobilizadas em prol das questões da surdez. Efetivando vínculos e agregando interesses em comum, as comunidades surdas são encontradas em inúmeros lugares/cidades do mundo. Podemos citar as escolas para surdos ou escolas em que surdos estão incluídos, professores da área da educação de surdos, igrejas em que há intérpretes e participação de surdos, empresas em que surdos são profissionais, familiares e amigos de pessoas surdas, as associações de surdos em que pessoas ouvintes e surdos participam das atividades. Podemos afirmar que o uso da Libras é o fator que caracteriza a comunidade de surdos e o fator aglutinante das pessoas que compõem essa comunidade. Sendo o elemento central, sem o uso efetivo da Língua de Sinais, não conseguiremos caracterizar o grupo de pessoas como comunidade surda. A Libras se constitui naturalmente nessa comunidade, pois para os surdos ela é a primeira língua e para as pessoas ouvintes é o canal de comunicação que respeita a condição linguística destes sujeitos. Os ambientes em que a comunidade de surdos se reúne, como as festas, os jogos esportivos, as associações de surdos, em todos estes espaços a comunidade de surdos utiliza a língua de sinais como primeira língua – independentemente de serem surdos ou ouvintes, é por meio da Língua de Sinais que acontece a garantia da interação social. Nas cidades em que a comunidade de surdos consegue se estabelecer, as pessoas compartilham dos mesmos objetivos, trabalham para conquistar espaços de respeito linguístico, compartilhando as mesmas metas. Em meio a essa comunidade, encontramos pessoas com interesses diversos, como algumas pessoas que desenvolvem atividades vinculadas a igrejas com interesse religioso, pessoas que procuram desenvolver atividades de projetos sociais, intérpretes que buscam aprimorar o uso da língua imersos nestes contextos, pais, irmãos, cônjuges. Também amigos e professores de surdos participam destas atividades como membros ativos. É nestes espaços que os filhos ouvintes de surdos interagem desde a infância, sendo que muitos filhos de surdos escolhem a atividade profissional como intérpretes de Libras, pois estão imersos nesse contexto desde a primeira infância. 1.4 Identidades surdas e seus tipos A identidadesurda está diretamente ligada a experiência visual desse sujeito. Aqui estudaremos brevemente as identidades surdas com base em estudos de Perlin (2010), Skliar (2010), Hall (2006) e Strobel (2008), compreendendo que a identidade surda está relacionada a questões culturais e rompe com a lógica biológica. O olhar sobre as pessoas surdas esteve vinculado às questões de “falta” durante algumas centenas de anos. É no sentido de olhar para as especificidades culturais que os estudos de Hall (2006), ao referir-se à identidade, afirmam que a identidade é “definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente” (HALL, 2006, p. 13). As pesquisas em torno da surdez evidenciam que as identidades surdas rompem com a lógica da medicalização da surdez e a busca pela falta, no caso, a audição, que aconteceu durante o período em que a metodologia oralista esteve em vigor. Compreendemos que essa ruptura de concepção não acontece imediatamente; por este motivo, a busca pelo olhar como sujeito linguística, política, cultural e visualmente constituído precisa tomar lugar nos discursos que envolvem as pessoas surdas. Estudaremos algumas categorias para as diferentes identidades surdas. A descrição das identidades está embasada conforme os estudos de Perlin (2010): No que se refere à (1) identidade política, a autora trata de uma identidade que é marcada por meio da militância política surda, a qual está presente nas pessoas surdas que participam de associações de surdos. Trata-se de surdos adultos líderes que conquistaram as seguintes características culturais: - são constituídos por meio da experiência visual, que determina formas de comportamento, sua cultura, a sua língua. são aqueles surdos que trazem consigo a língua de sinais, sendo usuários desta em todas as situações do cotidiano – é a sua forma de expressão. Aceitam-se como surdos, sabem que são surdos e assumem um comportamento de pessoas surdas. Constituem-se sujeitos políticos nas lutas sociais e defendem a sua identidade surda para a conquista de Tradutores e Intérpretes de Libras, por uma educação bilíngue de qualidade com a presença efetiva de professores surdos ou ouvintes proficientes em Libras. Esses surdos com a identidade política transmitem aos outros surdos sua cultura, suas especificidades, assumem posição de resistência com relação ao ouvintismo, a escrita no sistema da língua portuguesa obedece a estrutura gramatical da língua de sinais, participam ativamente de suas comunidades, associações de surdos e órgãos representativos. Esses surdos com identidade política organizam situações sociais para compartilhar dificuldades, aspirações, utopias e fortalecer suas lutas. Eles usam a tecnologia a seu favor, fazem uso da legenda na televisão, utilizam aplicativos de vídeo chamada em telefones celulares, campainha luminosa em suas residências. A (2) identidade híbrida refere-se às pessoas surdas que nasceram ouvintes e por algum motivo (doença, acidente ou uso de medicamentos) perderam a audição. Considerando a idade e a experiência que tiveram com a língua portuguesa na modalidade oral, já conhecem a estrutura da língua e mantém uma memória auditiva, fazendo uso da oralidade em determinadas situações, principalmente com a família e amigos ouvintes. Esse sujeito que ficou surdo (depois da experiência ouvinte) aprende a língua de sinais e a utiliza na comunidade de surdos, muitos destes surdos deixam de usar a língua oral e utilizam somente a Língua de Sinais, assumindo o comportamento de pessoa surda, utilizando as tecnologias para surdos e convivendo em harmonia com os demais surdos. Na situação em que esta pessoa surda com identidade híbrida teve experiência com a língua oral por um período significativo, a sua escrita da língua portuguesa respeita a organização gramatical dessa língua; por este motivo, muitas vezes, ao comparar a escrita de pessoas surdas, encontramos alguns surdos que representam o sistema de escrita do português com mais sucesso. O surdo com Identidade Híbrida exige tradutor e intérprete de língua de sinais, utiliza a legenda na televisão, utiliza os aplicativos nos telefones celulares, faz uso da campainha luminosa e de outros artefatos da cultura surda. A (3) identidade flutuante é formada por aqueles surdos que não usam a língua de sinais, não necessitam da presença do tradutor e intérprete de língua de sinais e geralmente não convivem com outros surdos. Possuem características particulares por participarem exclusivamente da comunidade ouvinte, orgulham-se por saber oralizar, realizam investimentos em treinamento fonoarticulatório, usam próteses auditivas, vivem na busca pela medicalização da surdez e no desejo de tornarem-se ouvintes, participam exclusivamente da escola comum, consideram a cultura da comunidade ouvinte sua referência, por isso não se reconhecem como parte da cultura surda, não participam da comunidade surda, não participam das associações e não se envolvem com as lutas políticas. (4) identidade surda embaçada apresentam alto índice de desinformação por não conhecerem a língua de sinais nem a língua portuguesa escrita. Esses surdos vivem isoladamente, pois há severa restrição de comunicação. As identidades surdas embaçadas são encontradas nos surdos que estão inseridos num contexto em que a representação da surdez é desconhecida ou estereotipada. Esse surdo é considerado deficiente, incapacitado para a aprendizagem e profissionalização. As (5) identidades surdas de transição são identificadas naqueles surdos que vivem em ambientes afastados de comunidades surdas, em cidades interioranas, ou então, aquele sujeito surdo que decidiu se afastar da comunidade surda e vivencia situações de trânsito entre a identidade surda e a identidade ouvinte. Os surdos filhos de ouvintes vivenciam esse momento da identidade de transição, pois nascem em famílias de ouvintes, nas quais a língua oral é a primeira língua; assim, quando começam a participar da comunidade de surdos (escola bilíngue, associação de surdos) inicia-se o processo de aquisição da cultura surda. No momento em que essas crianças ou jovens surdos começam o contato com a comunidade surda, a situação identitária deles também sofre mudanças, passando pela des-ouvintização, ou seja, a rejeição da representação da identidade ouvinte em prol da constituição da identidade surda. As pessoas surdas nesse período de transição realizam a passagem da comunicação que se efetuava pelo canal visual/oral para o canal da comunicação visual/sinalizada. A (6) identidade surda de diáspora é identificada nas pessoas surdas que mudam de cidades, estados, regiões ou país. Esse surdo é identificado pelo jeito regional de sinalizar, com uso de sinais regionais. É uma identidade que carrega o dialeto e o regionalismo na sua sinalização. (7) identidade intermediária, que é geralmente identificada naquelas pessoas que possuem uma porcentagem de surdez, o que caracterizamos como sendo deficientes auditivos e que fazem uso de próteses auditivas e conseguem transitar no mundo ouvinte por meio da oralização. Para estes sujeitos, as próteses (aparelhos auditivos, Implante Coclear, Sistema F.M.) são muito importantes. Ainda, realizam treinamento fonoarticulatório e exercícios de memória auditiva para qualificar a sua emissão do som. Esse sujeito que vive essa identidade intermediária se posiciona contra o uso de Tradutores e Intérpretes de Língua de Sinais, considera o surdo usuário da língua de sinais com menos valor social, se posiciona contra a cultura surda e realiza manifestações públicas contra a militância surda e suas conquistas. Esse sujeito tem dificuldades de definição de uma identidade, visto que não é surdo nem ouvinte. As identidades que constituem as pessoas surdas são diversificadas e bastante complexas, apresentam movimento e podem se modificar conforme as relações sociais estabelecidas. É preciso compreender que entre as identidades distingue-sea identidade cultural, ou seja, aquela identidade surda que toma como ponto de partida a identidade política que está no centro das produções culturais. 1.5 Sujeito Surdo ou com Deficiência Auditiva? Surdo = é o sujeito que "compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Língua Brasileira de Sinais - Libras (DECRETO 5626/2005). É o sujeito que possui perda auditiva severa ou profunda, bilateral (nos dois ouvidos) e, mesmo com uso de próteses, dificilmente terá alteração em sua captação do som, já que ela amplifica o resto auditivo e não restabelece o perdido. Se vê inserido na cultura surda, utiliza como meio de informação e comunicação a língua de sinais e possui um modo visual de ver o mundo. D.A. (deficiente auditivo) = Sujeito que pode possuir perda unilateral, com perda auditiva apenas em um ouvido, ou ainda aquele que por idade ou acidente perde a audição, sendo assim um deficiente auditivo pós-linguístico. Nesse caso, já possui a língua oralizada, o que não o impede de estudar Libras, mas sua primeira língua será a língua oral do país. Geralmente, usam próteses amplificadoras em ambos ou em um ouvido (unilateral). Transcrição do vídeo Vim aqui para falar da diferença entre “surdo” e “deficiente auditivo”, porque percebi que a maioria das pessoas têm muitas dúvidas, ficam confusas. Muitos têm medo de chamar de surdo, porque acham que é ofensa e preferem chamar de deficiente auditivo. Querem saber qual termo é mais correto? Vamos lá! Surdo: as pessoas que nascem surdas ou têm perda profunda. Têm quatro tipos de surdez: leve; moderado; severo e profundo. Pode acontecer também por uma má formação genética ou acidente. É o sujeito surdo, que usa a língua de sinais como primeira língua, tem sua identidade surda, sua cultura. Então, a minha primeira língua é Libras. Deficiente: significa “defeito”, que tem algum problema, um erro e não foi bem feito. Eficiente: significa excelência e boa qualidade. Auditivo: se refere a audição. Deficiente auditivo: tem algum grau de perda, necessidade de utilizar aparelho auditivo ou implante coclear que já escuta bem. A maioria dos deficientes auditivos têm perda leve e moderada, assim é mais fácil escutar melhor, usando aparelho auditivo. para os surdos é mais difícil porque alguns nunca tinham escutado antes. A maioria dos deficientes auditivos (D.A) são oralizados e poucos são usuários de Libras. Tem alguns D.A. que não gostam de oralizar e preferem conviver com os surdos e usar só Libras. Isso é raro, mas a maioria oraliza porque o aparelho auditivo ajuda muito eles. Essa perda pode ser causada por inúmeros fatores: envelhecimento, infecções. É muito comum acontecer isso. A criança com deficiência auditiva pode apresentar dificuldade com a aquisição e desenvolvimento da linguagem oral. Mas não estou falando que os D.A não aprendem Libras, D.As e surdos podem utilizar Libras. Uma dica para vocês ouvintes, não precisa ter medo de chamar de “surdo” porque parece que nos ofende, mas não. Nós, surdos, preferimos ser chamados de surdos do que de deficientes auditivos. Não se preocupem. É a mesma coisa com os cegos, alguns preferem chamar de deficiente visual, mas o correto é cego. Aqui no Brasil, na pesquisa do IBGE, tem 2 milhões de surdos e 7 milhões de deficientes auditivos. Agora vocês entenderam qual a diferença entre “surdo” e “deficiente auditivo”? Vale ressaltar que é comum a área jurídica e clínica não realizar esta distinção entre pessoas Surdas e com Deficiência Auditiva. Eles acabam utilizando o termo Deficiência Auditiva para englobar a todos, sem levar em consideração os aspectos culturais, identitários e linguísticos dos surdos. 1.6 Níveis de perda auditiva A forma como cada pessoa se adapta ao mundo pode variar. Pessoas com perda auditiva (deficiência auditiva) ou surdez, podem se adaptar de diversas formas. As estratégias usadas para a comunicação pode variar. Alguns seguem o caminho da leitura labial, oralização, Libras (Língua Brasileira de Sinais) e etc. Desta forma é importante a você professor, ter em mente que não há um padrão de aluno, cada pessoa é única e cada caso deve ser avaliado de acordo com as especificidades e necessidades específicas de cada aluno. O nível de perda auditiva, o caminho percorrido na aquisição da linguagem e as escolhas linguísticas do indivíduo podem definir sua forma de comunicação. Desta forma os graus e os motivos da surdez, podem nos ajudar a tirar dúvidas em relação a questões como o uso da leitura labial, próteses, implante coclear (IC), oralização e Língua de Sinais. Os graus de surdez indicam o que e quanto o surdo ouve. -leve, 30 a 40dB. Essa frequência está dentro da fala humana, em uma conversa normal, onde nenhum dos locutores esteja cochichando -moderada, 50 - 70dB. É possível ouvir movimento de carros, músicas em volume alto. No entanto, nesse nível, os surdos não diferenciam o que ouvem, não sabem a letra da música, por exemplo, ouvem a melodia, mas não sabem o ritmo. -severa, 70 - 90dB. Exemplo: som de bandas de rock. Da mesma forma do exemplo anterior, os surdos não saberão a letra, mas saberão que é rock, se a banda tocar sertanejo a vibração modifica, mas os surdos não identificam o tipo. -profunda, 90 - 100dB. Exemplo: turbina do avião, martelo ou britadeiras. Os aparelhos auditivos não complementam a perda de dB, apenas amplificam o que o usuário possui, assim o surdos ouvirão o bater da porta mais próximo, mas não uma conversa. Muitos surdos vindos da inclusão têm a falsa ilusão de ouvirem, mas, na verdade, eles têm a facilidade de reconhecer ou de associar o que veem. CURIOSIDADE: O ouvido humano suporta sem problemas um nível de até 90 decibéis. Um alto-falante de 100W ligado no máximo gera 130dB a um metro de distância. Um alto-falante tipo "aparelho MP3", que fica a menos de 1cm do tímpano, gera esses mesmos 130 decibéis com uma potência de apenas 1W. Fonte: http://www.bralarmseg.com.br/produtos/intru/sir/sir.htm Fonte: https://www.sonoracentroauditivo.com.br/post/2018/01/17/conhe%C3%A7a-quais-s %C3%A3o-os-4-n%C3%ADveis-de-perda-auditiva 2 Conhecimentos para atuação em sala de aula 2.1 A história da educação de Surdos e da Língua de Sinais Transcrição do vídeo: Para esta aula eu vou usar como material de apoio esses dois textos: 1 do Norine Berenz que descreve o nascimento, o surgimento da comunidade surda brasileira e o segundo das professoras Ana Regina Campelo e Patrícia Rezende que tratam de eventos mais atuais na história da educação de surdos e que tem a ver com a luta da comunidade surda em defesa é do direito à educação bilíngue, em defesa das escolas de surdos. http://www.bralarmseg.com.br/produtos/intru/sir/sir.htm https://www.sonoracentroauditivo.com.br/post/2018/01/17/conhe%C3%A7a-quais-s%C3%A3o-os-4-n%C3%ADveis-de-perda-auditiva https://www.sonoracentroauditivo.com.br/post/2018/01/17/conhe%C3%A7a-quais-s%C3%A3o-os-4-n%C3%ADveis-de-perda-auditiva A história da educação de surdos no Brasil tem como seu marco inicial a fundação do INES, a fundação do Instituto Nacional de Educação de Surdos. O INES foi fundado em 1857 por Dom Pedro 2º e pelo padre surdo francês Huet. Nessa época o instituto recebeu o nome de Instituto Imperial de Surdos Mudos e ele funcionava no regime de internato dado que recebia surdos de todo o país que residiam no instituto durante todo o tempo em que recebiam a educação. Em termos de sistemas de comunicação empregados nessa época além dos sinais que as crianças surdas já usavam antes da fundação do ines e que levaram para o instituto, as crianças surdas também estavam expostas a língua de sinais francesa e aos sinais metódicos usados pelo padre Huet que por ser francês e por ter sido educado no Instituto Nacional de Surdos Mudos de Paris aprendeu esse sistema e o trouxe para o Brasil consigo. Vocês devem se lembrar da aula anterior em que algo semelhante aconteceu nos Estados Unidos quando Gallaudet e Claire chegam aos Estados Unidos e fundam a primeira escolade surdos junto com os sinais metódicos e a língua de sinais francesa e os sinais que já estava em uso surge a língua de sinais americana. E o mesmo aconteceu aqui no Brasil e é por essa razão é que dizemos que a língua de sinais americana e a língua de sinais brasileira são línguas irmãs porque ambas foram influenciadas pela língua de sinais francesa. Depois que se formavam, os estudantes surdos do INES regressavam para as suas regiões de origem e graças a isso se disseminou por todo o país a língua de sinais que eles aprenderam e que eles usavam no instituto. E é por isso que hoje nós temos uma língua de sinais nacional que é a Libras. Além disso, o INES também ofertou programas de formação de professores de surdos. Esses professores oriundos de diferentes partes do Brasil, além de aprenderem sobre educação de surdos no INES aprendiam também a língua de sinais usada no instituto e contribuíram também com a disseminação da Libras nas suas regiões natais. Como eu disse, a primeira escola de educação de surdos no brasil foi o INES, em seguida fundou-se no Estado de São Paulo o Instituto Santa Terezinha que diferentemente do INES, que só atendia meninos surdos, só atendia alunas. Ambas escolas funcionavam no regime de internato mas algumas décadas depois passaram a atender a alunos em apenas um turno e de ambos os sexos. Em termos de política educacional de surdos no Brasil a gente pode dizer que inicialmente a educação de surdos foi influenciada pelo método francês dado que o início foi cofundado pelo padre Huet que empregava em suas aulas a língua de sinais francesa e os sinais metódicos. Mas em um momento posterior a educação de surdos no brasil acabou aderindo ao movimento mundial iniciado pelo Congresso de Milão em 1880 que, como já disse na aula anterior, defendeu que a educação de surdos deveria ter como objetivo o desenvolvimento da oralidade. A pesquisadora Norine Berenz esteve no Brasil na década de 90 e visitou diversas escolas de surdos na cidade do Rio de Janeiro e ela reporta que nesse período a educação de surdos era majoritariamente oralista. O Rio de Janeiro é considerado o berço da cultura surda, o berço da língua de sinais em grande medida isso se deve ao fato de que lá foi fundado o INES, o instituto nacional de educação de surdos, mas também em virtude de outros acontecimentos que se seguiram à fundação do INES. Temos por exemplo: na Universidade Federal do Rio de Janeiro, nos anos 80, o início do primeiro grupo de estudos linguísticos da Libras liderado pela professora Lucinda Ferreira Brito, a primeira linguista no Brasil a se dedicar ao estudo das línguas de sinais, especificamente da libras. Nós temos também a fundação da primeira entidade representativa da comunidade surda, a FENEIS, federação nacional de educação e integração de surdos. Isso aconteceu em 1987 e em setembro de 1994 nós temos um evento que deu grande visibilidade para a comunidade surda pela primeira vez que é a marcha “surdos venceremos”. Nessa marcha os surdos reivindicam direitos ao reconhecimento oficial da sua língua, da libras, o direito à educação em libras e também o provimento de intérpretes em espaços públicos. Essa luta que começou na década de 90, acabou se acentuando com o passar do tempo e alcançando algumas conquistas nos anos seguintes. Em 2002 nós temos a lei de libras, a lei 10.436 e em 2005 nós temos o decreto que regulamenta essa lei. Através dessa lei se reconhece oficialmente a libras como meio de comunicação e expressão das comunidades surdas brasileiras, se garante o direito dos surdos à acessibilidade da informação através da sua língua e também a difusão da sua língua por meio do ensino. O decreto 5626 também dispõe sobre a formação de professores de libras e a formação de tradutores/intérpretes de libras. Um dos desdobramentos dessa legislação, tão arduamente conquistada pela comunidade surda, foi justamente o curso de licenciatura em Letras/Libras iniciado no ano de 2006 e ofertado pela Universidade Federal de Santa Catarina, na modalidade a distância. Esse curso disponibilizou 500 vagas que foram distribuídas em nove polos espalhados por todo o Brasil. Essa foi a primeira vez que um grande número de alunos surdos tiveram acesso ao ensino superior público no Brasil, portanto é sem dúvida um momento extremamente importante e marcante na história da educação de surdos no Brasil. Em 2008 a Universidade Federal de Santa Catarina voltou a oferecer mais vagas no curso de Letras/Libras, dessa vez um número maior porque além da licenciatura a universidade também disponibilizou o curso de bacharelado que visava formar tradutores intérpretes de língua de sinais e língua portuguesa. E dessa vez com um número maior de pólos. Essa legislação tão duramente conquistada pela comunidade surda, além dos direitos a que eu citei anteriormente, também garante à comunidade surda brasileira o direito à educação bilíngue. O grande problema é que esse direito vem esbarrando na política educacional nacional que prima pela inclusão de pessoas independentemente de suas particularidades. Então a idéia é que estudantes independentemente de suas diferenças étnicas ou sociais ou mesmo em relação às necessidades especiais sejam incluídas no sistema regular de ensino o que vai na direção contrária daquilo que a comunidade surda quer que é justamente o direito de ser educada numa escola de surdos com professores bilíngües que saibam não só português mas também libras. Enfim, e que tenham a possibilidade de conviver com outros estudantes surdos dado que a maior parte das pessoas surdas nascem em famílias ouvintes e acabam sendo impedidas de ter uma comunicação tão plena e fluida como as pessoas ouvintes têm. Em 2010 nós tivemos a conferência nacional de educação que teve como objetivo elaborar o plano nacional de educação. Essa conferência aconteceu do dia 28 de março a 1º de abril de 2010 e de acordo com as professoras Ana Regina Campelo e Patrícia Rezende ela (a conferência) representou um retrocesso para a educação de surdos no brasil isso porque a voz dos surdos não foi ouvida nesse importante evento. Das onze propostas feitas pela comunidade surda apenas três foram aceitas e o discurso reinante nesse evento era de que as escolas de surdos eram segregacionistas e que portanto estavam indo na contramão da política nacional de educação que como eu disse anteriormente primava e prima pela inclusão. Inclusive a diretora de políticas públicas de educação especial anunciou no próprio INES em 2001 que a escola seria fechada e que os alunos daquela escola seriam remanejados para escolas regulares. Isso causou uma grande comoção, uma grande revolta na comunidade surda justamente porque o INES tem, além de ser uma escola de surdos, têm um valor histórico muito grande para a comunidade surda brasileira, é o berço da língua, da cultura e também dos movimentos políticos da comunidade surda nacional. Em 2011 nós tivemos uma outra mobilização nacional que ficou conhecida como setembro azul. Ela aconteceu no dia 26 de setembro de 2011 que é justamente o dia nacional do surdo. O objetivo desta mobilização era justamente fincar as lutas e as emendas específicas sobre educação dos surdos no plano nacional de educação que estava em tramitação no congresso nacional. Os surdos tiveram um saldo bastante positivo que foi justamente a vitória das suas reivindicações na câmara dos deputados no dia 28 de maio de 2012. E com isso acrescentou-se na redação do plano nacional de educação o direito das pessoas surdas de serem educadas em escolas e classes bilíngues e não apenas em escolas inclusivas. Ana Regina Campelo e Patrícia Rezende, que são professoras doutoras e surdas, em que elas descrevem esse sentimento, a luta da comunidade surda em defesa da educação bilíngue de surdos no Brasil. Elas dizem: “Enfim, estamos construindo a nossa política da verdade: as escolas bilíngües de surdos não são segregadas, não são segregadoras e nem segregacionistas como tem alardeado tanto o Ministério da Educação. Pelo contrário, são espaçosde construção do conhecimento para o cumprimento do papel social de tornar os alunos cidadãos verdadeiros, conhecedores e cumpridores dos seus deveres e defensores dos seus direitos, o que, em síntese, leva à verdadeira inclusão.”. 2.2 Línguas orais versus línguas sinalizadas As línguas orais e línguas de sinais são idiomas distintos e sem possibilidade de comparações, por serem línguas de modalidades diferentes, além da ausência de som nas sinalizadas. Portanto: pais franceses = criança falaria francês (você só fala porque ouve). pais surdos = criança teria acesso direto à língua de sinais. No entanto, 80% das crianças surdas nascem em lares ouvintes e, até a descoberta da língua de sinais, passarão pela área clínica, que às vezes, por falta de entendimento, proíbe a língua de sinais. As línguas orais habitam o campo do oral-auditivo, e as de sinais, do visual-espacial, como as histórias contadas pelos avós de boca em boca. Na física, as línguas orais são relacionadas ao campo da onda sonora, e as línguas sinalizadas, ao da luz, pois elas se constroem em tempos diferentes, por canais distintos. Assim, as línguas de sinais são gramaticalmente estruturadas e complexas, com outros parâmetros e modos de aprendizagem, e não seguem o alfabeto ou som da letra das línguas orais, mas utiliza-se de outros parâmetros como por exemplo a configuração de mão. O português se constrói por 23 letras, que passaram a ser 26 com a inclusão de K, W e Y. Assim, pelo som identificamos a letra, pela junção temos as sílabas, palavras e formamos frases, toda a gramática e a sonoridade ligada à língua oral-auditiva. As línguas sinalizadas ainda não têm um número definido de configurações de mão (CM). As pesquisas são recentes e a sua própria descoberta como língua não ultrapassa o ano 1500. Sempre existiram comunicação por sinais, mas só a partir de pesquisas atuais as configurações de mão (CM) estão sendo analisadas e são a partir delas que a língua sinalizada se constitui. Os primeiros estudos chegavam a 46 CM. Hoje, pesquisadores da área estão se aproximando de 90 CM ou mais. É importante distinguir as configurações de mãos do alfabeto manual. Por mais que as CM se pareçam com o alfabeto manual, não o são! Podemos perceber que algumas CMs são visualmente iguais as letras do alfabeto, mas servem para a realização do sinal e não para soletrar alguma palavra, como o alfabeto manual. Transcrição do vídeo: Quais são as diferenças entre a Libras e o Português. A Libras é principalmente visual, é composta pelo uso das mãos, do espaço, da incorporação, expressão facial e movimento do corpo. Já o Português é oral-auditivo, composto pelos sons vocais e pelas palavras, certo? As frases são formadas pelas palavras e as palavras são formadas com letras vogais e consoantes. As vogais e consoantes se diferenciam pelos sons, formando assim as palavras. Já na língua de sinais sua estrutura é formada pelos parâmetros, que são: configuração de mão, direção da palma da mão, expressão facial, movimento das mãos e localização. Esses cinco parâmetros compõem a estrutura da Libras, formando diversos significados e expressões de formas diferentes. Lembre-se sempre que a Libras é uma língua independente! A Libras NÃO é uma representação visual do Português, com um sinal equivalente para cada palavra; Ela é uma língua e o Português é outra. MANGA. Mas essa mesma palavra no Português pode ter outro significado, como a MANGA DA CAMISETA, que em Libras se usa outro sinal. Viram só? A mesma palavra, mas em Libras são dois sinais diferentes. A Libras não é uma língua superior e nem inferior ao Português, ambas têm a mesma importância, a diferença está apenas nas diferentes estruturas gramaticais que elas possuem, mas as duas são línguas independentes. A Libras não segue a estrutura da língua portuguesa, SVO ou SVC. Não é igual. A estrutura é mais flexível, formando frases OSV (objeto, sujeito e verbo) ou SOV (sujeito, objeto e verbo), existe uma variedade de combinações, só dependendo do contexto das frases. O termo LÍNGUA MATERNA (L1), é a primeira língua que uma pessoa aprende para se comunicar. E a segunda língua (L2) é a que aprendemos depois da língua materna, com prática, treino e convivendo com seus nativos, certo? A maioria dos surdos tem a Libras como sua língua materna. A maioria. E depois adquirem o Português como segunda língua na modalidade escrita, ao se comunicarem com pessoas ouvintes, certo? Mas não são todos os surdos que têm a Libras como L1, existem alguns que aprendem primeiro o Português e só depois, então, aprendem Libras. Ou acabam não aprendendo, depende da convivência com outros surdos. Alguns surdos falam mais a língua de sinais e outros surdos falam só a língua oral e escrita, depende de cada pessoa. Fonte: http://www.udc.edu.br/libwww/udc/uploads/uploadsMateriais/21032019142244Aula% 204.pdf 2.3 Estrutura de frases e gramática da Libras Sempre que você for se expressar em Libras, procure ser o mais objetivo possível, não construa frases compridas, seja direto no que pede. Uma estratégia para a sinalização clara é a utilização de exemplos concretos, visuais, que demonstre uma construção lógica para depois partir para a abstração. Sempre pense no que realmente é o objetivo do discurso. Quando estiver em sala de aula tente uma comunicação direta com o surdo e na presença do intérprete solicite auxílio quando necessário. É importante reforçar que, o trabalho em sala de aula que possuí a presença do intérprete é uma parceria e que a antecipação do material de aula para estudo prévio pelo intérprete é de suma importância, pois ele é a ponte de aprendizagem entre você e seu aluno surdo. http://www.udc.edu.br/libwww/udc/uploads/uploadsMateriais/21032019142244Aula%204.pdf http://www.udc.edu.br/libwww/udc/uploads/uploadsMateriais/21032019142244Aula%204.pdf 2.4 Leitura labial É importante destacar que a leitura labial não se trata de uma possibilidade para todos, mas de uma tentativa, ou ainda uma exceção que não pode ser compreendida como regra geral. Cada som da fala (fonema) tem uma expressão facial e forma de boca, apesar de muitos fonemas compartilharem a mesma articulação de lábios e, portanto, são impossíveis de distinguir somente com a informação visual. Então já encontramos um grande complicador, pois o surdo não possui a bagagem de informação auditiva utilizada entre os ouvintes. Complicadores: ● Articulação idêntica das letras: p e b, k e g, t e d, f e v, s e z = faca, vaca, pula, burra, kelen, gente, saia, zanze. ● Fonemas produzidos pela via nasal ou da glote, indecifráveis na leitura labial. ● Barreiras: bigodes ou mãos na frente da boca; cabeça do orador desviada ou longe; fonte de luz brilhante, como uma janela por trás do alto-falante. ● Sotaque ou erro de pronúncia. ● Filhos surdos de pais surdos - nascem imersos na língua de sinais. ● Surdos profundos sem resto auditivo não compreendem os fonemas e a articulação. ● Discussões em grupo, várias pessoas falando em sucessão rápida. O surdo com anos de fonoaudiologia (10-20 anos), pós-linguístico e treino da voz consegue apreender 30% de uma conversa, sendo que os complicadores são substituídos pela intuição ou articulação mental do contexto da frase. Lembrando que para a leitura labial ser realizada é necessária uma boa visualização da boca do emissor da mensagem, ou seja, essa pessoa devera estar em uma distância favorável e sempre virado de frente para o surdo. Imagine tudo isso em uma sala de aula, com diversos alunos e alunas sem tradutor. Quanto tempo o professor ou professora consegue ficar virado de frente para turma sem se virar para o quadro e com questionamentos dos alunos que estão espalhados por toda sala? A quem o surdo desloca sua atenção? Terá acesso a todas as informações a partir das discussões sucessivas e disparadas? 2.5 Português como segunda língua Assim como é difícil gramaticalmente escrever com as regras do português para qualquer ouvinte, para um surdo isso se torna ainda mais complicado. O surdo pertencea outra língua que não se equivale gramaticalmente à nossa e que é antagônica. Em algumas instituições de ensino, é costumeira a contratação de professores de Português com especialidade na área da Educação de Surdos para poder corrigir suas redações e compreender o que parece desconexo em português, mas é totalmente correto quando pensado em língua de sinais. Isso não é uma incapacidade, mas uma especificidade. Surdos são ótimos redatores e compreendem o português, porém sua língua é visual. Às vezes são necessárias explicações pela construção do que se deseja passar, pois temos a dificuldade de querer sempre esmiuçar demasiadamente, sendo que a objetividade é mais rápida para a compreensão. Para os surdos, a aquisição da língua escrita, da sua segunda língua, não representa apenas mais uma modalidade da língua, como ocorre com o português falado e escrito, em que, mesmo com as apropriações pertinentes à cada modalidade, a relação entre o som ouvido e falado, o fonema, assume forma mais direta com a letra escrita, ou grafema. Para o surdo, a aquisição da modalidade escrita representa a alfabetização em uma outra língua com diferenças sintáticas, morfológicas e fonéticas. Por isso, as irregularidades morfossintáticas identificadas na escrita dos indivíduos surdos coincidem com construções próprias da língua de sinais. Descrição do vídeo: Desde que Ernest Huet fundou o Imperial Instituto de Surdos-Mudos com autorização de Dom Pedro II, a Língua de sinais passou a fazer parte da educação dos indivíduos surdos como forma de comunicação e expressão. No início, a língua de sinais teve sua origem na França, mas aos poucos ela foi se desenvolvendo e se adaptando à realidade do Brasil. Isso comprova então que a Língua de sinais não é universal, mas ela possui pequenas semelhanças variando tanto de estado para estado, dentro de um mesmo país, quanto de um país para o outro com algumas semelhanças. Aos poucos ela foi se desenvolvendo até que surgiu um homem chamado William Stokoe, professor da Universidade de Gallaudet, nos EUA. Ele ensinando e pesquisando revolucionou a Língua de Sinais e mostrou que ela possuía regras gramaticais próprias. A partir daí o mundo inteiro passou a aceitar a língua de sinais como uma língua. Anteriormente eu já havia explicado que a língua de sinais não é universal. No Brasil a libras já foi oficialmente reconhecida como meio legal de comunicação e expressão das pessoas surdas. Ela foi sancionada no dia 24 de abril de 2002 através da lei 10.436. Essa lei garante a aceitação da LIBRAS pelo poder público. Partes do diálogo: LIBRAS é a própria língua dos surdos, ela tem seu próprio sinal, seu próprio meio de se comunicar. Contendo gramática, regras, tudo na própria comunicação. A língua portuguesa é a língua das pessoas ouvintes. Para a comunicação, tem a sua própria gramática, sua estruturação e suas regras também. São duas línguas, entendeu? A língua de sinais tem suas regras, tem a sua gramática e deve-se respeitá-la. isso que estou apresentando para você, chama-se configuração. Configuração das mãos, que não são compostas apenas pelas letras do alfabeto, nem tão pouco somente pelos números, na verdade são diversas configurações. São alguns tipos de sinais que vão estar dentro de um contexto também. Como por exemplo: são 5 parâmetros que são utilizados na língua de sinais. Os 5 parâmetros fazem parte da língua de Sinais. para sair correto, o sinal deve estar perfeito e ajudar no contexto da Língua de Sinais. Moça: Mas, existem alguns sinais que são assim, rápidos e outros que são um pouco devagar. Eu não entendo. João: Olha, temos a datilologia que são os sinais “devagar” e o sinal soletrado que é uma forma de escrita um pouco mais rápida. Vejamos alguns exemplos de sinais rápidos e outros devagar. O classificador é utilizado para pessoas, objetos e animais. A LIBRAS é a língua natural dos surdos e tem sua regra, a sua gramática própria , meio pela qual o surdo pode se comunicar. Sinais são diferentes de gestos. Os gestos são o meio pelo qual as pessoas ouvintes se comunicam, mas há uma troca entre ouvintes e surdos. O primeiro é a configuração das mãos que é a forma das mãos. O segundo é o ponto de articulação. Esse ponto de articulação vai ser aonde você vai colocar esse sinal, aonde vai fazer o sinal. O terceiro é o movimento que será dado para esse sinal. E depende, tem sinal que precisa de movimento, outros não. O quarto parâmetro é a orientação. Onde você vai utilizar a forma que vai ser dada a esse sinal. O quinto são as expressões faciais e corporais que serão inseridas no sinal. A expressão facial vai dizer tudo e é importante para o surdo identificar o sinal. ele mostra o sentimento de acordo com a estruturação de sua frase e o corpo também movimenta. Existe também a datilologia que é quando fazemos o sinal de forma devagar, com um pouco mais de calma. Temos também o classificador. Classificadores são elementos visuais que auxiliam a identificar pessoas, objetos, animais e verbos. Ouvintes usam quase a mesma estrutura morfo-sintático-semântica para o português falado e para o escrito. Relação essa não estabelecida entre a Libras e a língua escrita. Outro fator que deve ser considerado é o fato de que, na língua de sinais, as palavras não se constroem a partir de sons que se combinam, mas sim de mãos que se movimentam no espaço e se organizam de forma simultânea e não linear. Fonte: https://www.vidamaislivre.com.br/colunas/o-surdo-e-a-lingua-escrita/ 2.6 Alguns esclarecimentos e o que não se deve fazer https://www.vidamaislivre.com.br/colunas/o-surdo-e-a-lingua-escrita/ ● Seu aluno é surdo, então não há necessidade de aumentar a voz, ele não ouve. ● Não se refira a ele no diminutivo, surdinho, filinho, aluninho, coitadinho, ele é apenas mais um de seus alunos, sem necessidade de tratamento diferenciado. Na dúvida, pense: "Tenho direito de ser igual quando a diferença me inferioriza. Tenho direito de ser diferente quando a igualdade me descaracteriza.” (Boaventura de Souza Santos) ● Surdo-mudo: é uma nomenclatura equivocada e não aceita pela comunidade surda, mesmo que o surdo não produzisse sons, pois ele produz[1] , ele possui uma língua, a língua de sinais, então ele tem uma “voz” e uma opinião que é expressa através das mãos. ● Trabalhos em grupo: da mesma forma que o responsável pela aprendizagem do surdo é o professor, no grupo de trabalho o intérprete mediará a comunicação entre os colegas e não contará como um aluno pertencente ao grupo. É o colega surdo que deve interagir e participar do trabalho. ● O intérprete não é tutor do aluno surdo, por isso o período de intervalo do intérprete deve ser respeitado. Os recreios devem ser compartilhados com os colegas. ● Ao ditar as aulas, o tradutor e intérprete não irá escrever para seu aluno, caso haja a necessidade de atividades a serem copiadas através do ditado recomenda-se que o aluno surdo receba antecipadamente o material e leia enquanto os alunos copiam. Levando em consideração que o aluno surdo não terá a via auditiva para receber o ditado. ● Deficientes auditivos (D.A) são pessoas pós-linguisticas ou que com o avanço da idade perderam ou vem perdendo a audição, também podem ser pessoas que tem perda auditiva em apenas um dos ouvidos. Neste caso a língua de instrução possivelmente será o português e não a Libras. Os surdos conhecem seus sons internos, como da barriga, do pé que pisa ao chão. No entanto, suas sensações são de vibração e por causa disso não gostam de casas de madeira que rangem e balançam, gostam de sons altos que fazem sou corpo vibrar, mas podem não saber que ritmo é. Existem surdos que participam de grupos de dança e fazem coreografias e dependendo do seu nível de perda auditiva, podem associar os passos e ritmo à matemática. 2.7 Conhecendo o surdo pela sua perspectiva Veja dicas de livro e filme que mostram a perspectiva de pessoas surdas: O Grito da Gaivota, de Emmanuelle Laborit. Editora: Caminho. Ano: 2005; Fonte: https://www.skoob.com.br/livro/pdf/o-grito-da-gaivota/livro:132404/edicao:146875Sou surda e não sabia. Diretor: Igor Ochronowicz. País: França. Ano: 2009. https://www.skoob.com.br/livro/pdf/o-grito-da-gaivota/livro:132404/edicao:146875 https://janainafiladelfia.wixsite.com/meusite-1/single-post/2016/06/16/resenha-do-fil me-sou-surda-e-n%C3%A3o-sabia-surdez-uma-particularidade-n%C3%A3o-doen% C3%A7a 2.8 O papel do intérprete de Libras no processo de ensino-aprendizagem Leia o capítulo 8 do livro O Tradutor e Intérprete da Língua Brasileira de Sinais e Língua Portuguesa da página 59 até a página 72; http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/tradutorlibras.pdf Partes do livro: Considerando a realidade brasileira na qual as escolas públicas e particulares têm surdos matriculados em diferentes níveis de escolarização, seria impossível atender às exigências legais que determinam o acesso e a permanência do aluno na escola observando-se suas especificidades sem a presença de intérpretes de língua de sinais. Muitas vezes, o papel do intérprete em sala de aula acaba sendo confundido com o papel do professor. Os alunos dirigem questões diretamente ao intérprete, comentam e travam discussões em relação aos tópicos abordados com o intérprete e não com o professor. O próprio professor delega ao intérprete a responsabilidade de assumir o ensino dos conteúdos desenvolvidos em aula ao intérprete. Muitas vezes, o professor consulta o intérprete a respeito do desenvolvimento do aluno surdo, como sendo ele a pessoa mais indicada a dar um parecer a respeito. O intérprete, por sua vez, assume todos os papéis delegados por parte dos professores e alunos, acaba sendo sobrecarregado e, também, acaba por confundir o seu papel dentro do processo educacional, um papel que está sendo constituído. Vale ressaltar que se o intérprete está atuando na educação infantil ou fundamental, mais difícil torna-se a sua tarefa. As crianças mais novas têm mais dificuldades em entender que aquele que está passando a informação é apenas um intérprete, é apenas aquele que está intermediando a relação entre o professor e ela. Os intérpretes-tutores deveriam estar preparados para trabalharem com as diferentes áreas do ensino. Se a eles fossem atribuídas as responsabilidades com o ensino, eles deveriam ser professores, além de serem intérpretes. E se estiverem assumindo a função de professores, por que estariam sendo contratados como intérpretes? Considerando tais questões, poder-se-ia determinar que o intérprete assumirá somente a função de intérprete que em si já se basta e caso seja requerido um professor que domine língua de sinais que este seja contratado como tal. De modo geral, aos intérpretes de língua de sinais da área da educação é recomendado redirecionar os questionamentos dos alunos ao professor, pois desta forma o intérprete caracteriza o seu papel na intermediação, mesmo quando este papel é alargado. Neste sentido, o professor também precisa passar pelo processo de aprendizagem de ter no grupo um contexto diferenciado com a presença de https://janainafiladelfia.wixsite.com/meusite-1/single-post/2016/06/16/resenha-do-filme-sou-surda-e-n%C3%A3o-sabia-surdez-uma-particularidade-n%C3%A3o-doen%C3%A7a https://janainafiladelfia.wixsite.com/meusite-1/single-post/2016/06/16/resenha-do-filme-sou-surda-e-n%C3%A3o-sabia-surdez-uma-particularidade-n%C3%A3o-doen%C3%A7a https://janainafiladelfia.wixsite.com/meusite-1/single-post/2016/06/16/resenha-do-filme-sou-surda-e-n%C3%A3o-sabia-surdez-uma-particularidade-n%C3%A3o-doen%C3%A7a http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/tradutorlibras.pdf alunos surdos e de intérpretes de língua de sinais. A adequação da estrutura física da sala de aula, a disposição das pessoas em sala de aula, a adequação da forma de exposição por parte do professor são exemplos de aspectos a serem reconsiderados em sala de aula. A proposta do MEC em formar intérpretes selecionando professores da rede regular de ensino objetiva abrir este campo de atuação dentro das escolas. Assim, o "professor-intérprete" deve ser o profissional cuja carreira é a do magistério e cuja atuação na rede de ensino pode efetivar-se com dupla função. 3 Introdução básica para a comunicação em Libras professor - aluno 3.2 Conhecendo a Libras Esta forma de representação chamamos de alfabeto manual. Comumente usado para nome de pessoas, nome de lugares, palavras que não possuem sinal ou que queremos detalhar a sua grafia. 3.3 Alfabeto Manual Sinais relacionados ao ambiente escolar: sala de aula, escola, biblioteca, banheiro, sala dos professores. É importante que você conheça alguns sinais do ambiente e também alguns sinais básicos do cotidiano escolar, como: amanhã, ontem, hoje. Dias da semana: segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado e domingo; Mês, dia, semana, manhã, tarde, noite, bom dia, meu nome, aluno, professor, intérprete, aula, intervalo, diretor, papel, caderno, caneta, lápis, borracha, agenda, hora, antes, depois, colega. 3.5 Dicas para uma melhor comunicação Algumas frases que você poderá utilizar na comunicação com o seu aluno surdo. Lembrando que, caso você queira comunicar algo, mas não saiba o sinal você pode utilizar papel e caneta sempre utilizando palavras em frases simples e sempre de forma objetiva: sim; não; pode; não pode; errado; certo; me mostra; espere; eu chamarei a intérprete; espere um pouquinho; o que você perguntou?; você entendeu?; eu vou explicar; eu avisarei a intérprete; eu vou à sala dos professores; está na hora do intervalo; amanhã nós podemos conversar; ontem você faltou à aula, porque?; você conseguiu, parabéns. Possivelmente este contato com o seu aluno surdo será diário e a partir disso você aprenderá outros novos sinais. Lembrando também que para a inclusão de em sala de aula é imprescindível a presença de um intérprete de Libras.