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ISBN 978-65-5821-195-2 9 786558 211952I000791 Código Logístico H istória C ontem p orânea L orena Z om er História Contemporânea Lorena Zomer IESDE BRASIL 2022 Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br © 2022 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito da autora e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Sternfahrer/Shutterstock 22-80575 CDD: 909 CDU: 94(100) CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃONAPUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ Z77h Zomer, Lorena História contemporânea / Lorena Zomer. - 1. ed. - Curitiba [PR]: IESDE, 2022. Inclui bibliografia ISBN 978-65-5821-195-2 1. Civilização - História. 2. Revoluções - História. 3. História social. 4. Globalização. I. Título. Meri Gleice Rodrigues de Souza - Bibliotecária - CRB-7/6439 17/10/2022 21/10/2022 Lorena Zomer Doutora e mestre em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com pós-doutorado em História pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Especialista em Educação Especial pela Faculdade Iguaçu. Graduada em História pela UEPG. Professora no ensino superior, ministrando as disciplinas América, História Contemporânea, Prática de Pesquisa, Estágio e Metodologia da História, entre outras. Atua também como parecerista na escrita de livros didáticos e na assessoria e formação de professores. Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! SUMÁRIO 1 O começo de um século efervescente 9 1.1 Dimensões do Antigo Regime 10 1.2 Revoluções de 1830-1848 14 1.3 1871: a res publica dos trabalhadores 18 1.4 Marxismo e anarquismo 21 2 Imperialismo, sociedade e cultura 26 2.1 Expansão industrial 27 2.2 Liberalismo inglês 30 2.3 Belle Époque 34 2.4 Revolução Mexicana 38 3 Guerras Mundiais e Estado totalitário 47 3.1 Primeira Guerra Mundial 48 3.2 Revolução Russa e sua experiência socialista 55 3.3 Crise das democracias e o totalitarismo 59 3.4 Segunda Guerra Mundial 64 3.5 Os trinta gloriosos e o Ocidente pós-guerra 70 4 Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 75 4.1 A Guerra Fria e a bipolaridade 76 4.2 Descolonização e emergência do Terceiro Mundo 82 4.3 Gerações 1968 e a contracultura: resistência e utopias 85 4.4 Decolonialidade do ser 89 5 Crises socialistas 98 5.1 Do populismo às ditaduras na América Latina 99 5.2 As crises das experiências socialistas 104 5.3 Rizomas do mundo polarizado 108 5.4 Discussões socialistas na América 111 Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! 6 História Contemporânea 6 Sociedade pós-industrial e globalização 118 6.1 Neoliberalismo, globalização e desenvolvimento tecnológico 119 6.2 Conflitos étnico-religiosos e identitários 122 6.3 Transformações e debates da História Ambiental 126 6.4 Fluxos migratórios na Europa e na América 130 6.5 Questões do mundo contemporâneo em países andinos 133 6.6 Mídias no cotidiano contemporâneo 136 Resolução das atividades 141 Esta obra tem como objetivo trazer temas da história contemporânea, considerando as transformações globais que atingem a todos os continentes, com acontecimentos que representam mudanças vividas no último século e que de inúmeras maneiras refletem questões contemporâneas postas como desafios e pautas políticas nas primeiras décadas do século XXI. Assim, este livro é um convite para entendermos a História Contemporânea como um tema global, que é tão importante quanto se faz necessário compreendê-lo para encontrarmos respostas em relação aos rumos da história humana nos diversos espaços e temporalidades que vivemos. O primeiro capítulo buscará debater como a Revolução Francesa é um marco no que diz respeito a algumas manutenções do Antigo Regime. Também estão envolvidos os ideais sobre liberdade e as discussões políticas das demandas populares e burguesas que colaboraram na efervescência de movimentos revolucionários e contrarrevolucionários entre os séculos XIX e XX, que, juntos, criam perspectivas e dinâmicas de organização política. Estas novas vivências são responsáveis pela transformação de comportamentos e sociabilidades a partir do século XIX. No segundo capítulo, o intuito será entender a Revolução Industrial vivida no final do século XIX como um elemento transformador não apenas da economia, mas das condições sociais e culturais também. É desse período a ascensão do movimento liberal, as discussões morais e literárias provocadas pelas formações nacionalistas e imperialistas impulsionadas pelas novas organizações nacionais que ocasionaram as condições cruciais para eventos como a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Mexicana. As grandes guerras ocorridas na Europa no século XX, a Revolução Russa e a Crise de 1929 serão os temas centrais do terceiro capítulo. Com a intenção de contextualizar esses acontecimentos, questões historiográficas, culturais e políticas dos países serão consideradas especialmente em relação ao imperialismo característico da virada do século XIX para o XX. A transformação da Rússia em União Soviética, por meio de APRESENTAÇÃOVídeo 8 História Contemporânea princípios socialistas e comunistas, será discutida à luz da historiografia e da atualidade sobre o tema, bem como sobre as consequências dessas escolhas políticas. Para compreender a ascensão dos regimes totalitários nazista e fascista serão discutidos o período entre guerras, o crescimento político- -econômico russo e a própria Crise de 1929. Estas divergências serão analisadas porque foram potencializadas com os desdobramentos da Segunda Guerra Mundial e a reorganização política, econômica, social e cultural dos envolvidos nos anos 1950, os quais foram responsáveis pela bipolarização entre o capitalismo liderado pela representação norte-americana e o socialismo russo. O quarto capítulo busca compreender a mundialização da bipolaridade entre Estados Unidos e a União Soviética, a fim de perceber como países da Ásia tiveram suas práticas políticas e culturais envolvidas nessa disputa. Além disso, o texto busca problematizar os movimentos de 1968 com as demandas do nosso tempo, junto à influência de estudos decoloniais na América contemporânea, ao debater sobre concepções de diversidade, gênero e sociabilidades, no que diz respeito aos acontecimentos decorrentes dos blocos econômicos e políticos. No quinto capítulo, as experiências próprias da América Latina e as suas relações com o mundo contemporâneo farão parte dos temas principais. Serão problematizadas desde a experiência socialista chilena às ditaduras civis-militares latino-americanas frente aos interesses imperialistas norte- -americanos, considerando ainda os casos ocorridos em Cuba e na Venezuela. Na mesma medida, serão considerados os contextos de rupturas das políticas socialistas em detrimento da globalização, acontecimento representado pela queda do Muro de Berlim e as suas repercussões. Assim, as consequências de um mundo polarizado serão analisadas por meio de influências globais. As transformações globais vividas no último século serão o tema do sexto e últimoé apontado como tal após o período do século XIX, inclusive fazendo com que novas classes “médias” e a burgue- sia mais estabelecida olhassem com nostalgia para a Belle Époque. A Belle Époque está relacionada ao tempo em que a França passou a ser conhecida como o país que influenciava a ciência, a educação etc. e tinha os movimentos artísticos mais destacados, especialmente após o início da Terceira República Francesa (1870). As pessoas buscaram urbanizar, sa- near e embelezar a cidade de Paris, como sinônimo desse contexto. Além disso, nas cidades com 500 a 600 mil habitantes, como era o caso de Paris, Nova York, Chicago, Viena, Berlim, Melbourne e Londres na época, poucas se mostravam influentes em segmentos além dos econômicos e políticos. Por meio de redes de transporte, como as novas ferrovias e os me- trôs recém-construídos em algumas cidades – Nova York e Paris, por exemplo –, os imigrantes chegavam e se somavam ao ritmo frenéti- co das avenidas. O público das cidades buscava cafés, casas de chá, confeitarias, lojas de departamentos, correios, empregos, praças ou mesmo um parque para agir como um flâneur, encontrar amigos ou A série A Idade Dourada parece ser cheia de intrigas românticas e no- velescas. No entanto, ela tem a apresentação de uma sociedade nova ior- quina ascendente no fim do século XIX, repleta de novos ricos e tecnologias chegando para mudar o mundo cultural, político e econômico. É uma série fundamentada na obra de Cornelius Vanderbilt. Criação: Jules Fellowes. EUA: HBO, 2022. Série flâneur: caminhante, observador, boêmio. Glossário passear com seus cachorros. Esses espaços passaram por processos de urbanização, higienização e pelo regulamento de novas leis, mas isso também empurrou operários e grupos mais pobres para bairros distantes, sem qualquer estrutura (HOBSBAWM, 2010b). Outro efeito sobre o aumento de classes e grupos de liberais e/ou da pequena burguesia que compunham o novo mundo social desde 1850 é que não havia uma disputa arquitetônica entre as casas e, menos ainda, nos grandes centros que outrora foram reduto dos mais abastados. As novas classes estavam nas villas, nos bairros residenciais (HOBSBAWM, 2010c), dando prioridade à privacidade e ao conforto, o que uma man- são talvez não pudesse oferecer se estivesse em uma grande avenida. A Figura 1 mostra uma casa exemplar da arquitetura da época, com um jardim que permite um espaço pessoal à família, ao mesmo tempo que representa uma propriedade a partir da qual seus donos podem ter acesso a diversos elementos culturais e sociais, incluindo bebidas e ali- mentos, mas sem necessariamente ostentar isso em sua fachada. Com relação à arte, Walter Benjamin (1994), ao falar sobre o fim do século XIX e meados do XX, afirma que ela já pouco inventava, por- que mais reproduzia. As artes, para ele, pouco conseguiam transmi- tir ou pouco eram testemunhas de um tempo. Se contextualizarmos Benjamin com os anos de 1920 e 1930, considerando o cinema e o número de livros publicados, a sua “repetição de massa” faz mais sentido. No entanto, é ainda no século XIX que as ideias parecem fervilhar. As novas sociabilidades também afetavam as artes, afinal, elas são abstrações que dão sentido à vida e aos sentimentos provocados nas pessoas. E não é o fato de ser copiada que a faz perder o valor. Nesse sentido, há uma populariza- ção da arte e das novidades tecnológicas que, embora não sejam acessíveis a uma maioria, alteram o tempo e o mundo em que as pessoas vivem. Figura 1 Exemplo de uma villa inglesa Ko nm ac /S hu tte rs to ck Ko nm ac /S hu tte rs to ck Imperialismo, sociedade e culturaImperialismo, sociedade e cultura 3535 36 História Contemporânea Hobsbawm (2010a) também reforça uma relação de transforma- ção da economia global com o mundo operário e as artes ao afirmar que as composições de Giuseppe Verdi, um dos maiores compositores italianos de ópera, estavam sendo tocadas em lugares públicos e po- pulares e sendo reconhecidas. Não menos ouvidas eram as músicas de casamento com excertos de Richard Wagner, compositor e maestro alemão, outrora tocadas apenas em casas de ópera, que eram espaços fechados à população mais marginal, a não ser para se fazer limpezas ou outros serviços. A burguesia também era associada a uma revolução cultural e de urbanização, como classe que assimilava produtos artísticos mas- sivamente. A burguesia nem sempre era rica, mas era detentora de meios de sustentação mínimos para consumo. O romance de Gustave Flaubert traz alguns desses elementos ao evidenciar a vida de Emma Bovary, mais conhecida pelo título da obra Madame Bovary, publicada em 1856. Ao mencionar livros e leituras acessíveis à protagonista por serem comuns no período, Flaubert escreve: eram pequenos manuais de perguntas e respostas, panfletos de um tom vermelho à maneira do sr. de Maistre, e espécies de romances com encadernação nacarada e estilo adocicado, fabri- cados por seminaristas trovadores ou mulheres arrependidas e com pretensões literárias. (FLAUBERT, 2011, p. 323) As leituras permitiam pensar em novas sociabilidades, isto é, com- portamentos que apenas quando inseridos em um novo contexto po- lítico, econômico e cultural eram compreendidos. O acesso à política pelas classes média e trabalhadora, a diminuição da influência de va- lores mais puritanos (inclusive a ideia de que não era preciso trabalhar o tempo todo, recebendo-se por “papéis” comprados, como ações de companhias ou bancos), as novas formas de casamento e a emanci- pação de mulheres mudaram o modo como o estilo de vida de uma pretensa burguesia era entendido. No entanto, na capital da Inglaterra imperialista, bem como em outras cidades do país e do mundo desse período, era comum multiplicarem- -se casas de danças, as music halls. Nessas casas, os corais mais popula- res tocavam músicas antes restritas aos teatros ou às óperas (PERROT, 2005). Meninas eram deixadas por seus pais sob a responsabilidade da “mãe da ópera” para se tornarem aprendizes de dança, porém muitas eram exploradas sexualmente, sendo mantidas pelos homens que paga- No filme As Sufragistas, que se passa no início do século XX, a personagem principal se envolve no movimento sufragista/ feminista a fim de buscar direitos iguais aos dos homens, mesmo com a pressão familiar para per- manecer em seu lugar. O filme representa o de- bate sobre como mulhe- res ganharam consciência de seus direitos. Direção: Sarah Gavron. Reino Unido; França: Ruby Films; Pathé; Film4, 2015. Filme Imperialismo, sociedade e cultura 37 vam por elas. Convém considerar que muitas dessas meninas e famílias vinham do campo e, na falta de opções adequadas, acabavam entregues como única opção para sobrevivência. No caso da profissão de teatro, o reconhecimento veio apenas em 1854, o que a tornou pejorativa duran- te boa parte do século XIX na França (PERROT, 2005). Modalidades esportivas como o futebol, embora voltado à classe mé- dia, também passaram a fazer parte da vida de operários (HOBSBAWM, 2010c). Assim, é possível dizer que as sociabilidades novas não são ape- nas dos que se viam como burgueses ou se assemelhavam a eles, mas também de uma classe de trabalhadores, a qual forma o que entende- mos como cultura operária. Michelle Perrot, historiadora francesa, lembra as mulheres que tra- balhavam fora de suas casas naquele período. De servas, governantas e operárias, angariaram novas funções como as de secretárias, enfer- meiras e tantas outras (PERROT, 2011). No Brasil, desde meados do século XIX, grupos de mulheres já haviam fundado jornais, como o das Senhoras e o XV de Novembro do Sexo Feminino, com o intuito de divulgar ideias sobre o que entendiam por direitos. Esse movimento, que culmi- na em uma reciprocidade com o feminismo do início do século XX, não é apenas reflexo do que se passava na Europa. Diversos são os acon- tecimentos que se davam no mundo, como a Declaração dos Direitosda Mulher e da Cidadã, de Olympe de Gouges (1791), e os primeiros escritos de Mary Wollstonecraft (1759-1797), importante ativista por uma educação igualitária e outros direitos das mulheres. Nísia Floresta trouxe a obra de Wollstonecraft para o Brasil ainda no início do século XIX, traduzindo-a de acordo com o que entendia ser o lugar das mulhe- res em uma relevante colaboração para o tema (HAHNER, 2003). Mulheres encontraram brechas no próprio sistema burguês in- dustrial e capitalista que, mais do que antes, permitiu que os espaços privados e públicos se diferenciassem e que estes últimos se tornas- sem também delas. Mesmo o sistema não tratando as mulheres com igualdade, portanto, ainda precisava de sua mão de obra mais barata, algo que elas usaram como uma possibilidade de emancipação. Tanto o êxodo rural quanto o aumento de parques industriais deram novos lugares às mulheres. De maneira geral, todas as ações dos grupos envolvidos eram tam- bém reflexos de um mundo que se urbanizou e se industrializou de acordo com os termos capitalistas, liberais e burgueses. Para além do Michelle Perrot (1928-) foi aluna de Ernest Labrousse na Universi- dade de Sorbonne e é considerada um dos no- mes mais representativos dos estudos da história das mulheres, além de ter sido orientadora de diversos historiadores reconhecidos do século XXI. Biografia embelezamento de ruas, de jantares com declamações e de pinturas do realismo e do naturalismo, havia também resistência dos excluídos das propostas de cidadania, dos direitos humanos e do direito à sobrevivên- cia digna, como era a pauta social no México, nossa próxima seção. 2.4 Revolução Mexicana Vídeo A Revolução Mexicana tem como marco os anos de 1910 a 1920, com as vitórias do exército camponês sendo mais comuns entre 1913 e 1915. Essa revolução se inicia com um ideal burguês de Francisco Madero, que defendia a derrubada do presidente Porfirio Díaz, manti- do no poder por muito tempo e com eleições fraudulentas. No entan- to, a partir de 1913, grupos que reivindicavam uma Reforma Agrária ou mesmo direitos sociais passaram não a apoiar a revolução, mas a transformar o seu sentido como condição de apoio a Madero. Embora tenha marcado profundamente a história da América Latina, o que torna a Re- volução Mexicana importante é seu caráter social e de contestação ao eurocentrismo, tendo como resultado a diminuição do poder oligárquico exportador e da Igreja, além da al- teração da relação do Estado com a Igreja. A revolução promoveu discussões sobre o capitalismo na América Latina a partir das dé- cadas de 1920 e 1930. Tão importante quanto essas discussões também eram as fazendas que funcionavam em grandes escalas empre- gando camponeses e indígenas sem direitos, sendo isso um dos ápices para que a revolu- ção começasse. A Figura 2 mostra uma obra que evidencia em parte a história mexicana. José Orozco, Davi Alfaro Siqueiros e Diego Rivera foram os nomes mais importantes do Muralismo, movimento artístico que surgiu no começo do século XX. No caso do Méxi- co, o movimento estava relacionado ao que Figura 2 Mural de José Orozco Fonte: OROZCO, J. Omnisciência. 1925. Afresco, Casa de los Azulejos, Cidade do México. 3838 História ContemporâneaHistória Contemporânea Imperialismo, sociedade e cultura 39 ocorria no país, ou seja, à Revolução Mexicana, considerada pela his- toriografia um grande marco da História Contemporânea no Ociden- te. Desse modo, a arte se ocupou da pauta política do momento, para além dos temas do cotidiano e mais populares, por meio de diversas formas – pinturas, gêneros textuais etc. De acordo com Dawn Ades (1997), o Muralismo nasceu após a saída de Porfirio Díaz do governo e por meio de uma vanguarda de pintores que apoiava a revolução. O que predominou no movimento foram as ar- tes visuais, visto que Álvaro Obregón, o presidente que derrubou Díaz do governo, permitiu que o muralista José Vasconcelos criasse um programa público, o qual durou de 1920 a 1930 e levava o nome de Vasconcelos. Assim, o que se inicia é um projeto de identidade nacional, que con- siderava as tradições das sociedades originárias e, em parte, as dos colonizadores. Junto a isso havia um projeto de educação local para os grupos mais simples e uma discussão de teor político-econômico sobre o direcionamento que o México deveria ter, se deveria ser mais industrial ou mais rural. Alguns muralistas preferiam o industrial, mas demonstravam mais apreço ao rural, como se este representasse um México mais original, apesar das diferenças sociais, perspectiva que percebemos em Barbosa (2008, p. 3): o nacional, o popular e o revolucionário, o muralismo procurou retratar a importância de índios, mestiços e trabalhadores, de modo geral. Houve a materialização de um projeto, de uma nova identidade a ser construída; uma identidade que não negasse o passado colonial e pré-hispânico, mas integrasse-o. As “raízes” his- tóricas foram buscadas nesse passado e integradas ao contexto revolucionário, de modo a engendrar uma identidade nacional, ainda que a proposta partisse de uma elite política e intelectual. Mesmo com discussões que envolvem o colonizador branco, pode- mos dizer que a centralidade da obra muralista está no povo simples e trabalhador ao qual não chegam os direitos sociais, trabalhistas e nem mesmo o direito à terra. Diego Rivera, também conhecido por ter sido o companheiro de Frida Kahlo, criou um mural importante ao movimento Muralista. A obra Sonho de uma tarde de domingo no Parque Alameda (1948) retrata momentos históricos e pessoas relevantes para o México, como Frida Kahlo e o rosto do próprio artista, pintado como menino à frente de sua companheira no centro da obra. Entretanto, o elemento central 40 História Contemporânea da imagem é a caveira conhecida como La Catrina. Para a cultura me- xicana, a caveira representa o ciclo da vida e traz uma relação com o deus Quetzalcoatl – uma serpente emplumada e uma das divindades principais para astecas e toltecas. Na parte mais à direita do mural, um policial empurra um grupo de indígenas e/ou camponeses, como se não pudessem se misturar com os mais bem-vestidos que estão atrás. Além disso, ao lado de La Catrina podemos perceber uma diferença social em alguns homens de terno e um policial que parecem olhar ou tratar com desdém uma mulher de traços indígenas, vestida mais tradicionalmente, com roupas alegres e soltas como as das mexicanas. Para conhecer mais sobre a obra Sonho de uma tarde de domingo no Parque Alameda, de Rivera, acesse os links a seguir. No primeiro é possí- vel ler sobre a trajetória de Diego Rivera para pintar o mural. O segundo é um convite para visitar o Museu Diego Rivera, onde a obra está, e perceber vários traços da história mexicana que são problematizados nessa obra de arte. Disponíveis em: • https://inba.gob.mx/recinto/46/museo-mural-diego-rivera • https://inba.gob.mx/sitios/recorridos-virtuales/ museo-mural-diego-rivera/ Acesso em: 30 set. 2022. Museu As cores e os modelos de roupas fazem parte das discussões iden- titárias ligadas aos indígenas. Cores intensas e bordados tornaram-se símbolos desse movimento identitário que é também parte do Muralis- mo, embora não apenas decorrente dele. Um movimento cujo centro é a camada subalterna, aquela que só poderia ir à Alameda Central – um parque da Cidade do México – para servir aos grupos sociais abastados. Modelos de roupas Givenchy exibidas no Museu Frida Khalo, na Cidade do México. Ju an E st eb an B ar co /S hu tte rs to ck https://inba.gob.mx/recinto/46/museo-mural-diego-rivera. https://inba.gob.mx/sitios/recorridos-virtuales/ museo-mural-diego-rivera/ Imperialismo, sociedade e cultura 41 Para conhecer mais sobre o Museu Frida Kahlo, acesse o link a seguir. Esse museu foi a casa de Frida Khalo e de sua família, onde viveu também com Diego Rivera. O link é um tour virtual por sua casa. Aproveite para ver as ex-posições sobre suas roupas encontradas no fim do século XX e que fazem parte de sua manifestação identitária mexicana, na aba Exposiciones. Disponível em: • https://www.museofridakahlo.org.mx Acesso em: 30 set. 2022. Museu Assim, podemos dizer que o Muralismo que se consagra ao fim da Revolução Mexicana está intrinsecamente envolvido com a reinvenção da sua realidade histórica (ADES, 1997), cuja tomada de preceitos cul- turais e de valorização são também respostas à marginalização social encontrada e vivida por líderes como Emiliano Zapata. O que há em comum em diversas cenas no mural de Rivera é uma separação por classes, que no período colonial era de espanhóis versus sociedades originárias. Após a independência mexicana, essas sociedades passaram a ser confundidas como camponeses e a elite era os descen- dentes dos espanhóis, os quais junto à Igreja detinham mais de 90% de toda a propriedade de terras. Assim, o que Rivera denuncia em sua pintu- ra também é a exclusão social medida pela posse de terra e atravessada por questões étnicas e raciais, próprias do processo de colonização. Emiliano Zapata, um dos três líderes da Revolução Mexicana junto a Pancho Villa e Venustiano Carranza Garza, desejava a distribuição e a devolução de terras tiradas dos indígenas e camponeses em tempos de colônia. Para Zapata (apud PINEDA, 2017): Como se fez a conquista do México? Por meio de armas. Como os conquistadores se apossaram das grandes porções de terra, que é a imensa propriedade agrária que por mais de quatro séculos foi passada a vários proprietários? Por meio das armas. Pois por meio das armas devemos fazer com que volte a seus legítimos donos, vítimas de usurpação. Zapata chama a população à guerra, para tomar aquilo que teria pertencido aos explorados no campo e na cidade. Embora seja ne- cessário considerarmos que havia outros líderes, Zapata era o que menos se preocupava com as pautas urbanas. Para ele, o proble- ma central residia na posse de terras, por isso, no Plano de Ayala 2 , seu grito de guerra foi “Abaixo as fazendas e vivam os povoados” Lançado em 1911, o Plano de Ayala foi uma proposta de reforma agrária elabo- rada por Zapata envolven- do a queda do governo de Madero. 2 https://www.museofridakahlo.org.mx 42 História Contemporânea (Abajo las haciendas y vivan los pueblos), isto é, tratava-se também de disputas locais, enquanto outros líderes buscavam derrubar governos. No ano de 1910, com a presidência de Porfirio Díaz, o México vivia um processo de modernização segundo os interesses dos agroexportado- res. Díaz se tornou conhecido como ditador necessário para que houves- se um “milagre econômico”. Ferrovias e correios, bem como mensagens que chegavam via telégrafo. Estes três meios de comunicação diminuíam a distância entre a Cidade do México e o Golfo do Pacífico facilitando o escoamento da produção (agrícola, mineral, têxtil e de cigarros) com o objetivo de atingir a concorrência externa ao mesmo tempo que prole- tarizava a mão de obra indígena, alterava seus costumes e expropriava suas terras. As ferrovias (quase 19 mil quilômetros em 30 anos) também permitiam retaliações mais rápidas às rebeliões que ocorriam. Foi nesse contexto de crescimento econômico e de exclusão social que a classe ferroviária se organizou contra a ausência de direitos ou de equidade. Muitos trabalhadores dos Estados Unidos tinham direitos diferentes em relação aos oriundos do México, como podemos ler na correspondência de Zapata (apud PINEDA, 2011): os assalariados das fazendas não eram trabalhadores livres, senão peões submetidos por meio de endividamento e da violên- cia dos capatazes. Para maior controle, com frequência os traba- lhadores e suas famílias viviam limitados às fazendas. Segundo os oligarcas, os camponeses independentes não deveriam ser nem pequenos proprietários, nem arrendatários, senão peões da fazenda abaixo do comando de um proprietário capitalista. Com base na falta de liberdade e de acesso à terra, os assalariados, também embalados por princípios do socialismo, do anarquismo, do libe- ralismo e do humanismo cristão, começaram a liderar greves, como a dos ferroviários de Cananena (1906), a dos mineiros de Iquique (1907), a dos operários de Rio Blanco (1907) e a dos bananeiros de Tegucigalpa (1904). Junto às questões trabalhistas estavam as críticas intelectuais e polí- ticas, como as do Clube El Ateneo de La Juventud, cujo ideal era pensar sobre o liberalismo do século XIX, debater o anticlericalismo e defender a livre imprensa. Intelectuais de destaque eram Juan Sarabia e Ricardo Magón (criador do movimento conhecido como Magonismo e questio- nador do Partido Liberal Mexicano), que se preocupavam com proble- mas mais populares e defendiam a emancipação dos trabalhadores com base em uma consciência socialista nacional (COCKCROFT, 2004). Imperialismo, sociedade e cultura 43 As publicações do jornal Regeneración do partido apoiado por Magón aumentaram significativamente entre 1905 e 1906, amparado por fer- roviários e pequenos comerciantes. Como afirmamos, em debate ao Regeneración também havia o Partido Liberal Mexicano. Alguns de seus princípios eram: volunta- riado para servir ao Exército com salários melhores e fim do código militar; educação livre e laica, com melhores salários a professores primários; direitos trabalhistas, como jornada de oito horas de traba- lho, salário mínimo, condições de higiene nos ambientes de trabalho, cancelamento de dívidas de trabalhadores das tiendas de raya 3 e sua abolição, e a proibição do trabalho de menores de 14 anos; contra a intervenção norte-americana e anticapitalista; defesa da reforma agrária, criação de bancos agrícolas e crescimento do mercado inter- no (HERZOG, 2010). A crítica ao capitalismo fundamentado no mercado externo faz parte das reivindicações da burguesia, que via no nacionalismo eco- nômico e/ou no apoio de empresas europeias uma opção contra Porfirio Díaz para formar um mercado interno. Já Francisco Madero e Camilo Arriga eram intelectuais de classes altas, afastados dos pro- blemas das classes mais baixas, por isso defendiam uma democracia liberal, sufrágio para todos os homens, não reeleição do executivo (clubes anti-reeleicionistas de 1909-1910) e sem revolta armada. Im- portante lembrar que nessas disputas políticas, bem como pela pauta da revolução, a Alemanha, a Inglaterra e a França se colocavam con- tra os interesses dos Estados Unidos da América, visto que o México tinha grandes reservas de petróleo, minerais e commodities, além de Porfirio Díaz favorecer a entrada de grupos europeus. A proposta mais radical era de Emiliano Zapata, que liderava o Exército Libertador do Sul sem uma pauta política em relação ao executivo do país. A defesa era pela terra e pela liberdade, e essas intenções ficam mais evidentes no Plano de Ayala, que pretendia reformar a Constituição de 1859. O lema era “liberdade, justiça e lei”, e entre os principais pontos havia: a devolução de terras indígenas e de camponeses; a ideia de que a terra tinha uma função social e o bem-estar coletivo estava acima do individual; a criação de um tribu- nal revolucionário para julgar a propriedade das terras; a perda de privilégios da Igreja e a secularização. Armazéns localizados nas fazendas onde os traba- lhadores faziam suas com- pras mensais. Com preços exorbitantes, endividavam os trabalhadores e, caso morressem, seus filhos herdavam as dívidas. 3 commodities: produtos da agropecuária preparados com pouca intervenção industrial e destinados ao comércio exterior. Glossário 44 História Contemporânea O que havia em comum era a ideia de que Díaz deveria sair do governo. Madero, então, fez um acordo com Porfirio: este sairia do governo para que Madero assumisse. Madero permaneceu no poder até a sua morte, em 1913, com o compromisso de não incentivar a luta armada nem co- locar o Plano de Ayala em prática. A esse tempo, guerrilhas já ocorriampor todo o país, lideradas por Zapata, Carranza e Villa – os dois últimos com apoio dos EUA. Houve uma sucessão de presidentes após a morte de Madero, o que demonstrava a instabilidade do país. Nesse contexto, tropas de Villa e Zapata tomaram a Cidade do México, no entanto, como supracitamos, não havia uma pauta política sobre como seria a República, a democracia etc. Apesar disso, a historiografia concorda que a oligarquia perdeu sua supremacia (e seus bens) com essa tomada, e a burguesia precisou negociar rendições com os camponeses, o que tam- bém colaborou com a ideia de que o movimento promoveu uma revolução. Ambos os líderes assinaram o Pacto de Xochimilco, uma união a despeito do ataque sofrido por Carranza, e passaram a tomar outras frentes. Villa ficou com a parte norte do México, mas, por não ter tan- to apego às terras comunais, fez expropriação e distribuição de pro- priedades nortistas sem firmar uma reforma agrária, além de assinar um acordo com Álvaro Obregón (burguês) e Carranza para derrotar Victoriano Huerta, presidente entre 1913 e 1914. Foi neste ano que Carranza assumiu o governo e instituiu diversas mudanças, inclusive criando uma nova Constituição (FUENTES, 2004). Villa se opôs a algumas decisões de Carranza e acabou perseguido no norte do México, onde o presidente tinha apoio dos Estados Unidos. Importante ressaltar que Carranza, aliado à burguesia de Obregón e Huerta, não considerou as pautas mais profundas colocadas por Villa e Zapata. Este último acabou assassinado pela perseguição de Carranza, em 1917, e Villa, em uma emboscada em 1920. Antes disso, houve um acordo de não agressão entre Pancho Villa e o governo federal. É nesse período que a burguesia volta a ter centralidade nas po- líticas públicas. Podemos dizer que a Revolução Mexicana teve mais desdobramentos de suas pautas com o presidente Lázaro Cardenas (1934-1940), cujas ações englobavam a reforma agrária, as nacionaliza- ções (especialmente de petróleo), as políticas educacionais voltadas a populações e uma política externa progressista. O filme E estrelando Pancho Villa é sobre como Pancho Villa permitiu que suas batalhas fossem filmadas, o que alterou o olhar so- bre o cinema, bem como a ideia do cinema como fonte para a história. Direção: Bruce Beresford. EUA: City Entertainment; Green Moon Productions; HBO Films, 2003. Filme Imperialismo, sociedade e cultura 45 CONSIDERAÇÕES FINAIS O século XIX evidencia para a Europa uma nova forma de vida, a qual por seus traços coloniais e neocoloniais se estendeu a outras partes do globo, visando a uma dominação de pensamento político, econômico e cul- tural. No entanto, isso trouxe reações dos povos antes subestimados, além de ações que nunca deixaram de existir, mesmo em tempos coloniais. Esse século reforçou um modus operandi de vida para o Ocidente, fun- damentado em um capitalismo industrial em termos liberais, cuja política de Estado, fosse ela imperialista e/ou democrática, era seu desdobramen- to e se dava de acordo com seus interesses. ATIVIDADES Atividade 1 Como os historiadores podem abordar temas ligados à Moderni- dade sem centralizá-los em uma narrativa historiográfica em que a europeia é o centro ou um modelo? Atividade 2 No que diz respeito à prática liberal, como é entendida a proprie- dade privada? Atividade 3 De que forma é possível relacionar a arte muralista com a Revolu- ção Mexicana? Atividade 4 Evidencie as principais pautas e as contradições internas da Revo- lução Mexicana. 46 História Contemporânea REFERÊNCIAS ADES, D. O Movimento Muralista Mexicano. In: ADES, D. Arte na América Latina. 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Disputas por territórios, matérias-primas e mercado consumidor fizeram com que diferentes alianças fossem estabelecidas em um tempo conhe- cido como dos Impérios e da Paz, entre 1875 e 1915 (HOBSBAWN, 1995). Ao mesmo tempo, foi nesse contexto que a própria corrida imperialista potencializou uma transformação na economia capitalista, que passou a ser financiada especialmente por bancos, com base na expansão imperia- lista e industrial. Formações de novas nações, como a alemã e a italiana, e o crescimen- to vertiginoso desses países e de outros, como o Japão, geraram desigual- dades sociais e movimentos populares, por exemplo, o marxismo. Ao fim da Primeira Guerra Mundial, sanções econômicas e políticas fomentaram a organização de novos partidos políticos e de grupos geopolíticos, o cres- cimento de países – como é o caso dos EstadosUnidos –, a nova crise capitalista e a ascensão dos partidos fascistas. Nesse contexto, a Segunda Guerra Mundial foi também uma re- vanche e a continuidade de disputas econômicas, bem como o acirra- mento daquilo que seria o início da Guerra Fria: a disputa ideológica entre Estados Unidos e a União Soviética. É preciso considerar como a Segunda Guerra Mundial evidencia perspectivas diferentes de entendi- mento sobre o mundo, assim como a historiografia é afetada por ela. Acontecimentos históricos que ainda têm ligação com o presente têm a memória e a história oral como teoria e metodologia. Portanto, pensar a memória da Segunda Guerra Mundial e a reorganização do novo mundo é essencial para pensar o século XX e seus desdobramentos que se es- tendem até o século XXI. 48 História Contemporânea Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • compreender a formação cultural e política dos países envolvidos na Primeira Guerra Mundial; • entender a importância da discussão sobre a Revolução Russa no contexto atual e a criação da União Soviética; • compreender a ascensão das ideologias fascista e nazista em seu contexto cultural, social e político; • apreender como se deu a formação do mundo contemporâneo por meio do fortalecimento do capitalismo e sua crise; • refletir sobre a historiografia da Segunda Guerra Mundial; • pensar o contexto pós-guerra e sua reorganização política, econô- mica, social e cultural. Objetivos de aprendizagem 3.1 Primeira Guerra Mundial Vídeo O imperialismo como prática política e econômica marcou o sé- culo XIX, especialmente o seu fim. Além disso, o imperialismo é uma característica de transformação do próprio capitalismo. A disputa por mercado consumidor e matérias-primas fez com que áreas fossem rei- vindicadas sem direito algum, apenas utilizando um tom civilizatório e até práticas de eugenia 1 . Portanto, para compreender a historicidade e o contexto cultural e político dos países mais envolvidos na Primeira Guerra Mundial – também chamada de Grande Guerra –, é preciso esta- belecer relações com o imperialismo. O fim do século XIX e o início do XX presenciaram uma disputa in- dustrial protagonizada por Estados Unidos, Holanda, Bélgica, Japão e Alemanha. A Inglaterra persistia como uma das personagens centrais desse processo, sobretudo investindo nesses países e no restante da América e Ásia por meio de construções de ferrovias, máquinas de pro- dução etc., ou seja, o que entendemos como bens de capital. A construção de ferrovias no mundo foi crucial para a comunicação, for- mação de novas vilas e cidades (LANNA, 2005) e escoamento de produções agrícolas, principalmente de países subdesenvolvidos na lógica capitalista. No entanto, dentro dessa nova lógica capitalista mundial, houve mais A eugenia, teoria de Francis Galton, buscava explicar como ocorria a transmissão de genes entre gerações, a fim de “melhorar” as característi- cas da população. Logo a teoria ganhou contornos preconceituosos por indicar que pessoas com características “indese- jáveis” não deveriam se reproduzir. Características específicas passaram a ser associadas a compor- tamentos marginais, como a violência e o alcoolis- mo, sem se considerar questões sociais, como a desigualdade. 1 Guerras Mundiais e Estado totalitário 49 acúmulo de capital de países que já eram industrializados, os quais passaram a monopolizar a indústria. Além disso, a presença de fer- rovias pelo interior desses países incentivou o desenvolvimento das regiões (LUXEMBURG, 1976). Nesse contexto, Estados Unidos e Alemanha eram os países que mais disputavam a supremacia com suas populações numerosas, baixa taxa de analfabetismo em relação a outros países e mercado potencializado. A própria relação com a Inglaterra, ao oferecer bens de capital, permitiu que esses países crescessem, o que ficou conhecido como a Segunda Revolução Industrial. Para Márcio Pochmann (2016), esses países não foram os únicos beneficiados, pois a Rússia e a Itália também foram, dentro de uma prática industrial conhecida como estrutura monopolista. Esta não significava a: ausência de competição entre grandes capitais, embora repre- sentasse crescente constrangimento ao livre acesso no mercado por pequenos e médios capitalistas. [...] Até o ciclo ferroviário, entre as décadas de 1830 e 1870, a estrutura inglesa de peque- nas unidades de produção decorrente do capitalismo concorren- cial havia sido transportada para alguns poucos territórios que conseguiram cumprir os requisitos da divisão social do trabalho e do pleno funcionamento da economia mercantil. Dessa forma, a expansão da manufatura permitiu aos países de industrializa- ção retardatária elevar suas participações relativas no mercado mundial de produtos industriais. (POCHMANN, 2016, p. 19) O pesquisador nos possibilita compreender que essa mudança capita- lista industrial – que gerou para alguns a industrialização retardatária – teve como ponto determinante a criação de meios de produção. Isso ocorreu até mesmo para países considerados “atrasados” em sua organização eco- nômica e que até meados do século XIX tinham limites alfandegários bem definidos e de pouca comunicação, como era o caso do Japão, da Alemanha e da Itália – essas últimas especialmente por suas unificações tardias. Não obstante, é preciso considerar o uso do petróleo, da eletricidade, de fertilizantes e de ligas metálicas (e seus novos produtos como fogão, máquina de lavar e bicicletas) que potencializaram as novas formas de produzir. Estas também foram condicionadas por uma necessidade maior e significativa de investimento de capital, o que diminuiu pequenos “in- dustriais” e fomentou a formação de trustes, cartéis e conglomerados, financiados por bancos, caracterizando o capitalismo não apenas como in- dustrial, mas financeiro. Esse processo, chamado de crack por Lênin, tem como marco o ano de 1873, e para isso, em um primeiro momento, os trustes: fusão de várias empresas com intenção de dominar uma área específica. cartéis: acordo entre empresas concorrentes a fim de padronizar preços, dividir clientes etc. conglomerados: conjunto de empresas controlados por outra. Glossário 50 História Contemporânea cartéis garantiram a exploração conjunta e permitiram que houvesse um crescimento imperialista em nome de um capitalismo. O novo modelo industrial capitalista, em que o laissez faire 3 (1860- 1880) deixou de ser a ordem, foi repensado apenas a partir da crise geral vivida pelos hemisférios Norte e Sul entre as décadas de 1920 e 1940, por meio do acordo de Bretton Woods (1944), que elaborou regras para o sis- tema monetário, e de outros firmados na Conferência de Yalta (1945) – um dos três encontros ocorridos entre Inglaterra, Estados Unidos e União So- viética (URSS) durante a Segunda Guerra Mundial –, na região da Crimeia. É importante ressaltar que a Primeira Guerra Mundial representa um momento em que as superpotências monopolistas poderiam di- vidir e reorganizar o mundo em zonas de influência econômica e polí- tica. No caso dos Estados Unidos, as expectativas foram atendidas e o mercado do continente latino-americano, assim como sua soberania, foram submetidos a um capitalismo imperialista, especialmente me- diante bancos que são os controladores de transição de capitais. Esse modelo de monopólio deu seus primeiros sinais nas décadas de 1860 e 1870, exatamente quando os Estados Unidos começaram a dar os primeiros sinais de serem uma potência econômica. É nesse período que o laissez faire começou a perder espaço para os monopólios – considerando desde a extração das matérias-primas até o produto das indústrias. Sobre a diminuição da livre concorrência e a Primeira Guerra Mundial, o segundo acontecimento reforçou aos países capitalistas predominantes suas zonas de influência monopolista. Além da camada detentora dos meios de produção, o capitalismo monopolis- ta gerou uma camada privilegiada, aspecto que criounovas condições oportunistas e limites para as negociações do mundo do trabalho; ade- mais, esse capitalismo apoiou a Primeira Guerra Mundial. Assim, o capitalismo, que não é sinônimo de imperialismo, ganha uma nova face e dá aos países capitalistas uma nova intenção para com o mundo do século XX: a necessidade de novos territórios para que possam acumular capital em regiões que desconheçam essa forma de lucrar ou de explorar. Houve uma relação estreita entre os interesses dos envolvidos direta- mente na Primeira Guerra Mundial e a colonização moderna que ocorria no globo, desenhada desde o Iluminismo de acordo com as intenções da Eu- ropa. No contexto de disputa territorial imperialista, a Alemanha tem papel Vladimir Ilyich Ulianov (1870-1924), mais conhe- cido como Lênin, foi um revolucionário político e comunista russo. Foi também chefe de governo da Rússia Soviética e da União Soviética. Biografia Expressão francesa que demonstra que o capita- lismo deve funcionar livre- mente, sem interferência. A tradução em português é deixe fazer. 3 Guerras Mundiais e Estado totalitário 51 central, tanto por ter causado em parte a Primeira Guerra Mundial quanto por ser resultado dessa corrida imperialista. O mapa da Figura 1 refere-se à região limítrofe entre os Estados alemães e a França, palco da disputa entre essas duas nações, cuja vi- tória foi da Alemanha em 1870 e pela qual a França buscava revanche. Figura 1 Mapa da Alsácia-Lorena Meuse Moselle Meurthe Haut Rhin Bas Rhin Vosges Suíça Luxemburgo Bélgica 55 57 54 88 67 68 1815 - 1871 Alsácia Lorena Estados alemães Esse território era rico em carvão e outros minérios, produtos impor- tantes em um contexto de disputa por terras e de industrialização. Otto von Bismarck, um estadista alemão do século XIX, passou a buscar apoio também nos países eslavos, cujas intenções de independência dos impé- rios Austro-Húngaro e Otomano eram recentes. Isso porque a Alemanha, embora um país novo, era a junção de Estados fortes em meio a outros que disputavam territórios, por isso acabou por apoiar esses impérios, vis- to que eram maiores que o Império Russo e alguns dos mais importantes na produção de máquinas para o mundo industrial. A Rússia por sua vez apoiou os países eslavos, além de ter tentado dominar a Crimeia 4 lutando A região da Crimeia, além de ser rica em matérias- -primas, também dá aces- so ao Mar Negro, o que garantia mais influência junto aos países eslavos. Desde 2014, está em disputa entre a Ucrânia e a Rússia. 4 52 História Contemporânea contra a Inglaterra e a França (HOBSBAWM, 1995). Esse foi o único conflito que envolveu mais de um país no período imperialista (1875-1914). É possível apontar que diferenças entre Alemanha e Rússia, assim como desta com outros países, já eram comuns nesse período. Dessa ma- neira, a partir de disputas, especialmente contra a Rússia, os Estados ale- mães unificados fizeram alianças com a Itália e o Império Austro-Húngaro em 1882, formando a Tríplice Aliança até 1915 (HOBSBAWM, 1995), cujo objetivo maior era a construção da ferrovia Berlim-Bagdá. Assim, a Ale- manha resolveria parte do problema de acesso ao Oceano Pacífico e Ín- dico, que era cobiçado por inúmeros países. Figura 2 Mapa do projeto da ferrovia Berlim-Bagdá Basra Bagdá Samarra Tikrit Mossul Al-Qamishli MardinGaziantepe Alepo Karamamaras Adana Malatya Mersin Karaman Konya Istambul Ancara Turquia Síria IraqueDamasco Em 1908, o Império Austro-Húngaro já havia tomado para si a re- gião da Bósnia e Herzegovina, fato não apoiado pela Rússia que dava voz aos povos eslavos. Em 1915, a Itália invadiu a Áustria-Hungria com o argumento de que teria sido atacada pelo país imperial. Após uma batalha de anos, a Áustria-Hungria, com apoio da Alemanha, saiu ven- cedora e tomou para si a Sérvia. Foi nesse contexto de disputas e alianças territoriais estabelecidas a mais de décadas que houve o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, do Império Austro-Húngaro, por um sérvio em 1914, logo após a indepen- dência da Sérvia. O assassinato fez com que a Alemanha apoiasse o Império, e a Rússia apoiasse a Sérvia. A França, por sua vez, foi coagida pela Alema- nha a entregar as fronteiras, além de ver a Bélgica também ameaçada. Este Guerras Mundiais e Estado totalitário 53 último ato não foi aceito pela Grã-Bretanha, que tinha a Bélgica como uma garantia de uso do Canal da Mancha e por isso a declarava neutra. É possível dizer que disputas territoriais seculares e potencializadas por um período capitalista e imperialista impulsionaram as Guerras Mun- diais. Mais que isso, percebe-se que hostilidades e diferenças, como as evidentes contra a Rússia, são consequências das ações da própria Rússia, bem como pelo interesse que outros sempre tiveram por regiões de seu entorno. Portanto, a Primeira Guerra Mundial, de modo geral, pode ser considerada uma guerra mais europeia, isso porque os países mais envol- vidos foram Rússia, Itália, Grã-Bretanha, França, Áustria-Hungria e Alema- nha, mas também houve a participação do Japão e dos Estados Unidos. De 1871 a 1914, acontecimentos especiais para aquele contexto, como a Belle Époque, a paralisação do cinema, o capitalismo, o impe- rialismo e as novas sociabilidades que se davam nas ruas de centros urbanos movimentados, foram interrompidos com o fim da paz. Para Hobsbawm (1995, p. 32), a guerra ficou organizada da seguinte forma: tríplice entente aliança de França, Grã-Bretanha e Rússia, de um lado, e as chamadas – Potências Centrais – Alemanha e Áustria- -Hungria, do outro, com a Sérvia e a Bélgica sendo imediatamente arrastadas para um dos lados devido ao ataque austríaco (que na verdade detonou a guerra) à primeira e o ataque alemão à segun- da (como parte da estratégia de guerra da Alemanha). A Turquia e a Bulgária logo se juntaram às Potências Centrais, enquanto do outro lado a Tríplice Aliança se avolumava numa coalizão bastante grande. Subordinada, a Itália também entrou; depois foi a vez da Grécia, da Romênia e (muito mais nominalmente) Portugal. Mais objetivo, o Japão entrou quase de imediato, a fim de tomar posições alemãs no Oriente Médio e no Pacífico ocidental, mas não se inte- ressou por nada fora de sua região, e – mais importante – os EUA entraram em 1917. Na verdade, sua intervenção seria mais decisiva. Essa organização e justaposição entre lados e datas de entrada resume, em parte, a lógica própria desse acontecimento. Os Aliados (Itália, que rom- peu o acordo, França, Grã-Bretanha, Rússia e EUA) e as Potências Centrais (Alemanha, Áustria-Hungria e Império Otomano) entraram em confronto a partir da invasão alemã definitiva na França e na Bélgica. Para os líderes, a guerra não deveria durar muito, em razão das vidas perdidas e, mais espe- cificamente, devido aos gastos, o que gerava uma perda financeira. O próprio armamento do período era avançado, visto que as potências estavam há tempos se preparando para possíveis conflitos. Fuzis e me- No filme A promessa, um jovem armênio deseja se tornar médico, por isso se casa com uma jovem e ganha seu dote. Parte para Istambul, ainda du- rante o tempo do Império Otomano, e se envolve com uma armênia. Juntos percebem a perseguição aos armênios por parte dos turcos e lutam pela sobrevivência. Muitos dos armênios que consegui- ram fugir naquele período vieram para a América, inclusive para o Brasil. Direção: Terry George. Estados Unidos: Survival Pictures; FilmNation Entertainment, 2016. Filme tralhadoras que faziam milhares de disparos em poucos minutos já eram conhecidos, e os tanques eram mais seguros para quem os utilizava e para os resistentes ao seu redor. Desse modo, a guerra que deveria durar meses, em pouco tempo, matou e fez com que milhares de pessoas se tornassem refugiadas. As Guerras de Trincheiras, em geral ocorridas em um es- paço de cerca de 30 quilômetros, tornaram-se prática fre- quenteaté 1917. Entretanto, a Rússia sofreu muitas perdas nas batalhas contra a Alemanha devido ao território com des- nível e matas do país germânico, o que permitia diversos movi- mentos dos soldados, e logo precisou se retirar da guerra. Os Estados Unidos entraram na guerra a partir do impasse e das batalhas navais, nas quais navios dos países aliados promoveram o bloqueio do recebimento de mercadorias esperadas pelas Potências Centrais, por isso submarinos alemães foram utilizados para afundar esses navios. O desfecho de vitória aos Aliados é decorrente da entrada dos Estados Unidos, que após três anos de batalhas perdidas receberam milhares de soldados, além de alimentos e formas de adquiri-los, o que fomentou a indústria norte-americana e permitiu que ela se tornasse líder nas disputas de mercado pós-Primeira Guerra (1918). Ao fim da Primeira Guerra Mundial, surgiram dos impérios Austro- -Húngaro e Otomano países como Áustria, Hungria, Tchecoslováquia (República Tcheca e Eslováquia atualmente), Ucrânia, Polônia, Romê- nia, Croácia, Sérvia e Eslovênia. Outro aspecto foi reforçado logo após a Primeira Guerra Mundial: o acúmulo de capital não tem por intenção melhorar a qualidade de vida de todos que participam de um sistema capitalista industrial e financeiro, mas somente potencializar os lucros de quem o lidera. E em nome desses lucros, uma guerra torna-se justificável. A guerra é complexa. Armênios que sempre tiveram diferenças étnicas em relação aos turcos foram perseguidos por eles, enquanto austríacos se aproveitaram para aniquilar milhares de civis na Sérvia. Com o fim da guer- ra, foi assinado o Tratado de Versalhes, em 1919. Nele, a Alemanha recebia inúmeras sanções, como a proibição de produzir armas, de ter indústrias Trincheira da Batalha de Hofstade, 1914. W ik im ed ia C om m on s W ik im ed ia C om m on s PA NG I/S hu tte rs to ck 5454 História ContemporâneaHistória Contemporânea Guerras Mundiais e Estado totalitário 55 químicas, de ter colônias e a obrigação de pagar indenizações. Além das milhares de mortes ocasionadas pelos combates durante a guerra, a gripe espanhola também atrapalhou a recuperação das nações envolvidas. Não obstante, divergências entre países e mais hostilidades foram criadas, como é o caso da Rússia, tema da próxima seção. PA NG I/S hu tte rs to ck 3.2 Revolução Russa e sua experiência socialista Vídeo A Revolução Russa ocorreu em 1917 e foi importante por levantar a bandeira socialista em oposição ao capitalismo e ao imperialismo que chegou ao século XX. No entanto, isso não reduz a representatividade da Revolução Russa no que diz respeito ao contexto atual nem ao pe- ríodo que se segue após a Primeira Guerra Mundial. Além de marcar o fim da Primeira Guerra, o Tratado de Versalhes criou países para aten- derem às minorias étnicas e fomentou a criação de Estados-Tampões, ou seja, países neutros que separavam possíveis países com propen- são a conflitos, como Alemanha e Rússia. A Rússia tinha um regime czarista e era um sistema milenar, auto- crata e extremamente hierarquizado, cujo representante máximo era o Czar Nicolau II (1894-1917). Nesse período, a vida da população, em geral rural, era difícil, tanto pelas diferenças sociais e acesso à terra quanto pela forma arcaica de produção de alimentos na terra. Ao mesmo tempo, as ideias de Karl Marx começavam a ecoar com mais nitidez entre intelectuais e trabalhadores por toda a Europa. Em 1864, foi fundada a Primeira Internacional Socialista – também conheci- da como Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) – em Genebra, na Suíça, que reforçava a ideia de que para fazer a revolução era preciso tomar os bens e meios de produção daqueles que se beneficiavam do sistema capitalista. Para isso, era possível recorrer à violência e instau- rar a ditadura do proletariado. No entanto, a existência do Estado não era questionada por Marx, e isso o diferia do pensamento de Mikhail Bakunin, o que causou expulsão dos anarquistas em 1872 da Primeira Internacional Socialista e a fundação da Segunda Internacional Socialis- ta, da qual nasceria anos mais tarde a concepção de social-democracia. As ideias de Karl Marx e Frederick Engels (1999) não estão disso- ciadas da história social, material, mas estão ligadas ao contexto his- 56 História Contemporânea tórico social. Para Marx, até mesmo a educação, a arte e a literatura permitiam que houvesse uma reinvenção da liberdade humana, e esta era uma decisão coletiva após milênios de marginalizações. O Estado, por sua vez, comandado por poucos, também limitava o acesso à arte, à literatura e à educação para que tivesse domínio sobre os povos. Foi com base nesses princípios que os sindicatos profissionais se estabe- leceram na segunda metade do século XIX, depois de deixarem de ser secretos como foram no contexto das Revoluções Burguesas, aconteci- das também durante a Revolução Francesa. Nesse período, poucos eram de fato sindicalizados, a ponto de os sindicatos serem conhecidos como sindicatos profissionais, cujos par- ticipantes formavam uma “aristocracia operária”. A partir disso, tanto responsáveis pela indústria quanto pelos sindicatos passaram a nego- ciar as condições de trabalho e de vida, mas houve uma minoria de vitórias para o lado dos trabalhadores. Entretanto, a consciência de classe foi a maior dificuldade na história do movimento operário. A luta de classes é a materialização de uma contradição que tem a eco- nomia como base divisora das forças produtivas e de relações sociais. Um país atrasado como a Rússia, em relação aos termos capitalistas já pratica- dos no restante da Europa, também incentivava práticas como a servidão até o final do século XIX e oferecia pouco apoio público à saúde e à edu- cação, tornando-se um país questionado por seus próprios patriotas. Czar Nicolau II, por sua vez, destinava mais de 30% das verbas públicas para os militares, a fim de garantir suas participações em guerras como a do Japão e a Primeira Guerra Mundial, sendo isso motivo de desgaste para sua imagem e seu sistema político autocrata. Além disso, altos impostos eram cobrados na maior parte dos alimentos, enquanto os mais abastados pagavam em torno de 6% de sua renda em impostos. Assim, tanto o crescimento científico quanto econômico, e até mesmo a representação política do fim do século XIX, fomentaram greves e deram lugar a novas vozes, ao passo que as desigualdades sociais e econômicas aumentaram. Contudo, é preciso frisar um aspecto considerado por Marx: para um país iniciar uma mudança substancial em sua organização políti- ca e econômica, é necessário que seja industrializado. No caso da Rússia, menos de 2% de sua população estava trabalhando nas indústrias, que em geral eram gerenciadas por instituições e empresas estrangeiras. Mais de 80% da população estava empregada no campo agrícola, cujas expor- Guerras Mundiais e Estado totalitário 57 tações giravam em torno de 63%, com um forte monopólio das proprieda- des e de exploração de produtos naturais (HOBSBAWM, 1995). Apesar de a Rússia não ser um país industrializado propenso a uma revolução, o conjunto de condições da época favoreceu que ela ocor- resse, e, como todo acontecimento histórico, a revolução ocorreu pau- latina e com pequenas mudanças. Segundo o historiador Daniel Aarão Reis (2017, p. 67), o acontecimento tem a seguinte cronologia: a primeira revolução do ciclo ocorreu entre janeiro e dezembro de 1905. Algumas de suas principais características reapareceriam em 1917 e por essa razão muitos dos seus participantes a classificaram como “ensaio geral” de uma “peça” que seria encenada em 1917. Reis (2017) defende que não se trata de um movimento isolado nem ocorrido em um curto intervalo, mas ao longo de pelo menos 12 anos. Um dos elementos centrais são as consequências da guerra travada com o Japão em 1904. Isso se deve pelo fato de o orçamento de guerra ter causado empobrecimento deuma população já pobre e, também, da classe mais capitalista da Rússia, ou seja, um decrescimento que atingiu a todos. A partir disso, o Czar assinou um acordo de paz com o Japão e pela primeira vez atendeu à população quando esta reivindicou a legaliza- ção de sindicatos e partidos políticos por meio de uma votação do par- lamento, conhecido como Duma (SIGERIST, 1937). Com a crise política, percebeu-se que nem a classe dominante (burguesa e agrária) nem a trabalhadora tinha alguma representatividade, e a partir de 1905 o pe- ríodo proporcionou uma mudança, ou seja, uma revolução. Reis (2017) expõe mais características e, além desses dois grupos (bur- guesia e agrário), afirma que havia os camponeses com seu programa de revolução agrária (que negavam qualquer tipo de indenização por isso); os operários com pautas trabalhistas referentes às condições de trabalho no mesmo modelo que outros países europeus já defendiam; e soldados e marinheiros com reivindicações de reconhecimento de sua cidadania e de encerramento da guerra; as nações não russas com propostas de autonomia e independência (convém recordar que um pouco mais da metade da população do im- pério era constituída por não russos); as classes médias que, através de banquetes e comícios, ao estilo do 1848 europeu, pro- punham o advento de uma monarquia constitucional ou, os mais radicais, a proclamação da república. (REIS, 2017, p. 68) 58 História Contemporânea Com base nesses grupos diversificados que começaram a questio- nar a autocracia do czarismo, estavam as instituições que foram criadas para representá-los. Assim, assembleias em outras nações, comitês em navios e sindicatos e partidos (até clandestinos) passaram a ser conhe- cidos no Império Russo como o Partido Constitucional-Democrático dos cadetes, o Partido Liberal e o Partido Social-Democrata (mencheviques e bolcheviques), respectivamente. Para Hannah Arendt (1988), revolução é o conceito moderno que indi- ca um novo curso para a história a que se refere, isto é, algo desconhecido em que boa parte das práticas sociais, culturais ou políticas são alteradas a ponto de serem apontadas como transformadoras ou revolucionárias. O marco que o Domingo Sangrento de 1905 representou foi o de início de uma revolução do operariado. Mas, tal qual em qualquer movimento ou acontecimento na história, o processo não está isolado. Para Sigerist (1937), foi no ano de 1898, com a criação do Partido Social-Democrata Tra- balhista, que a célula embrionária dos mencheviques e dos bolcheviques foi criada. Para os bolcheviques a luta era pela “paz, terra e pão” e o poder político para a população, objetivo alcançado em outubro de 1917; já os mencheviques defendiam uma revolução sem armas, baseada no diálogo. Esses acontecimentos foram potencializados por ideais que circulavam na Europa, como as diversas greves que ocorriam e o crescimento econô- mico, o que não se passava na Rússia. Entre esses acontecimentos, estava também a entrada da Rússia na Primeira Guerra, duramente questionada desde o início e mais ainda à medida que o conflito se estendia e exigia um maior número de recursos. Em fevereiro de 1917, depois de muitas greves, motins e questionamentos públicos, o Czar II abdicou do poder, que por pouco tempo foi liderado por Kerenski, dos mencheviques, até assumirem os líderes comunistas dos bolcheviques. Reis (2017) aponta que se esperava a convocação para uma Assem- bleia Constituinte ao mesmo tempo que permanecia um governo pro- visório, o qual, em momento algum, conseguiu se impor como centro político. Isso se deve pela ausência de acordos que conformassem as pautas reivindicatórias naquele contingente, como as demandas por terras de camponeses. Além disso, a garantia de produção e distribui- ção de alimentos e o atendimento das exigências dos diversos povos que compunham a território russo dificultavam que apenas um gover- no fosse suficiente para representar a todos. Guerras Mundiais e Estado totalitário 59 Já em outubro de 1917, os bolcheviques tomaram o poder sem con- sultar as entidades mais populares com o objetivo de fazer uma aliança com soldados e o povo, a fim de desarmar os setores militares. O acor- do foi chamado de a Grande Aliança e permitiu que algumas nações se tornassem independentes como regiões, grupos de operários pas- sassem a ter o direito de pensar em estratégias para o ordenamento da economia industrial e os camponeses, de pensar a reforma agrária, proposta que vinha dos comitês agrários (REIS, 2017). É importante ressaltar dois aspectos sobre o período posterior à cha- mada Revolução Russa: o primeiro é que os países aliados penalizaram a Rússia por sua saída da Primeira Guerra com a exigência de uma indeniza- ção; o segundo é que tiraram dela diversos territórios, como parte da Polô- nia, da Lituânia, da Letônia, da Armênia, da Geórgia e do Azerbaijão. Após as tratativas da Primeira Guerra Mundial, países como França e Inglaterra se aliaram para tentar invadir a Rússia e acabar com a revolução. Apesar de perderem, causaram uma guerra civil russa que durou até 1921. A partir da Revolução Russa, diversos países se unem à Rússia, for- mando a chamada União Soviética, em 1922, cujo ponto comum é, em geral, a origem eslava dos países. Não é o mérito da Revolução Russa ser uma boa revolução ou não, mas a posição questionadora do país frente a um capitalismo que gerava desi- gualdades sociais fez com que perdesse parte de seu território. Essa sanção tanto durante a Guerra Fria quanto no século XXI ainda tem consequências políticas e culturais. Além disso, as sanções destinadas a outros países trans- formaram o capitalismo da década de 1920, tema da próxima seção. 3.3 Crise das democracias e o totalitarismo Vídeo No fim do século XIX, o investimento financeiro de bancos poten- cializou o crescimento dos monopólios industriais, especialmente de países como França, Japão e Rússia, onde existia um capitalismo em que o Estado não era um grande interventor. Novas formas de produ- zir e de remunerar a mão de obra surgiram, como o método taylorista, de Frederick Taylor, cuja padronização de trabalho visava economizar tempo para o trabalhador, ou o método fordista, de Henry Ford, cuja produção era em série e com linhas de montagem. 60 História Contemporânea Ford, com sua linha de montagem, permitiu que o trabalho e o tem- po do trabalhador fossem controlados, não pela própria noção de tem- po, mas pela produtividade. O trabalhador, com o tempo regrado para qualquer ação, permanecia no mesmo espaço sendo monótono, o que gerava doenças como LER (Lesão por Esforço Repetitivo), além do aba- lo psicológico, visto que qualquer trabalhador poderia ser substituído a qualquer momento pela ausência de direitos trabalhistas. Taylor, por sua vez, contribuiu ao criar a gerência das empresas com um caráter científico e organizacional do mundo do trabalho. Métodos, técnicas de trabalho, análise de tempo e de produção, recompensas financeiras, fol- gas, metas e produtividade são critérios que nascem com o taylorismo. No entanto, os anos seguintes à Grande Guerra não foram animadores. A divisão e a criação de 38 novos países pelo Tratado de Versalhes geraram conflitos locais, como a separação de mercados e de locais de produção e de escoamento. Japão e Estados Unidos foram os únicos em que as sanções do tratado não pesaram, ou aos quais não eram direcionadas diretamente, assim puderam aumentar a sua produção industrial. Não menos importan- tes eram os empréstimos concedidos pelos Estados Unidos e Japão, aumen- tando o crédito de diversos países endividados. Os Estados Unidos, por boa parte da década de 1920 (1922-1929), cresceram economicamente em números alarmantes. O presidente estadunidense de 1928, Calvin Coolidge, declarou o seguinte: “olhar o presente com satisfação e o futuro com otimismo” (ROSSINI, 2022). Para compreender essa expectativa, é preciso trazer alguns números: as despesas de investimentogiravam em torno de 20% do Pro- duto Nacional Bruto (PNB), e o desemprego, com exceção de 1924, estava na casa dos 2%. Entre 1923 e 1929, a produção de automóveis aumentou 33% ao ano. A produção de petróleo, aço, borracha e a construção de estradas foi consequentemente in- crementada. No mesmo período, a geração de energia elétrica duplicou, e a produção dos eletrônicos acompanhou a tendên- cia. De 1925 a 1929, o número de indústrias subiu de 183.900 para 206.700; o valor da produção dessas empresas elevou-se de 60,8 para 68 bilhões de dólares. (ROSSINI, 2022) Com base nesses números, o faturamento do comércio aumentou qua- tro vezes em menos de seis anos, chegando a 1,25 bilhões de dólares, cujas cotações mostravam que as ações apenas cresciam, sem necessariamente haver dinheiro, mas especulações de um dinheiro fictício (ROSSINI, 2022). A partir de 1925/1926, houve uma desproporção entre o aumento real e o crescimento das bolsas de valores e, consequentemente, das ações. Com a constante baixa em 1929, as ações passaram a ser comer- cializadas aos montantes, para que se gerasse mais valor, até chegar a um nível de desvalorização total, o que ficou conhecido como a Quinta- -Feira Negra (24 de outubro de 1929), quando ocorreu o crash da Bolsa de Valores de Nova York. Nesse dia, havia mais de 12 milhões de ações à venda. E mesmo com a ingestão financeira de bancos, por poucos dias se segurou a quebra da Bolsa de Valores, quando mais de 33 milhões títulos estavam à venda, com o valor de compra de cerca de 15 bilhões de dólares. Assim, todos passaram a vender, mas não tinham mais valor. Além disso, os anos de 1920 foram muito intensos para os Estados Unidos, com o crescimento das artes (cinema, literatura, dança etc.) de- vido a muito dinheiro a ser gasto e investido nesse meio, mas esse ápice também permitiu uma onda terrível de pobreza e desemprego. Hobsbawm (1995) aponta, neste contexto, a existência de bancos mais locais e estaduais nos Estados Unidos. Esses bancos se recusavam a fazer novos empréstimos aos clientes para que pudessem pagar suas dívidas, fossem de prestações de carros ou casas. Embora a Crise tenha atingido o mundo todo devido às relações capitalistas, os Estados Unidos foram os mais atingidos (junto do Canadá, da Polônia e da Alemanha). O país deti- nha cerca de 45% do mercado mundial em transações, vendas e crédito, e ainda em 1930 mais de 37% da produção industrial mundial caiu junto aos 25% do comércio (ROSSINI, 2022). Hobsbawm (1995, p. 105) evidencia que “a produção de automóveis nos Estados Unidos caiu para a metade entre 1929-1931, ou num nível mais baixo, a produção de discos para os pobres [...] praticamente cessou por um tempo”. A partir de 1930, o protecionismo 5 tornou-se recorrente, com acordos bilaterais e “blocos de moedas” 6 que escolhiam taxas alfandegárias espe- ciais para os que pertenciam ao seu grupo, aumentando as expor- tações ao máximo possível e diminuindo as importações. Nesse contexto, apenas países como a União Sovié- tica – e seus anexos – não foram atingidos. Da mesma forma que estava isolada por ser comunista, a URSS não mantinha relações diplomáticas ou econômicas com outros países. Justamente por isso, fortaleceu-se em sua política socialista (HOBSBAWM, 1995). Já países O Grande Gatsby retrata a sociedade norte-america- na após a Primeira Guerra Mundial, cujo materialis- mo decorrente dos exces- sos de ganhos transforma a moral da sociedade composta de novos e muitos milionários. O en- redo nos ajuda a pensar sobre o capitalismo desse período, bem como suas consequências. O livro ainda tem adaptações cinematográficas. FITZGERALD, F. S. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Livro As so ci at ed P re ss /W ik im ed ia C om m on s As so ci at ed P re ss /W ik im ed ia C om m on s Quando o governo de um país toma um conjunto de ações a fim de proteger sua economia. 5 Blocos econômicos que funcionam com moedas próprias, sem mone- tarização no dólar, por exemplo. 6 Guerras Mundiais e Estado totalitárioGuerras Mundiais e Estado totalitário 6161 62 História Contemporânea como Japão, Finlândia, Suécia e Inglaterra melhoraram seus números ainda na década de 1930, alguns já conseguindo atingir os números pré-Crise de 1929. No entanto, mesmo com o New Deal 7 , os Estados Unidos apenas se recuperaram, de fato, com a Segunda Guerra Mundial, quando a Europa deixou de produzir novamente para comprar de outros continentes. Karl Marx afirmava que a liberdade da economia era uma efemerida- de, ademais, como nos lembra Hobsbawm (1995, p. 107), “não era preciso ser marxista, nem mostrar interesse por Marx, para ver como era diferen- te da economia de livre competição do século XIX o capitalismo entre guer- ras”. Isso porque ainda nos anos 1920, e logo após a Crise de 1929, fosse um governo de esquerda ou de direita, iniciado por meio de golpe militar ou não, todos foram atingidos de alguma forma, além de conviverem com um sistema econômico diverso ao que estavam habituados, com: um sistema tríplice composto de um setor de mercado, um go- vernamental (dentro do qual as economias planejadas ou con- troladas, como as do Japão, Turquia, Alemanha e União Soviética, faziam suas transações umas com as outras), e um setor de auto- ridades públicas e quase públicas internacionais que regulavam algumas partes da economia (por exemplo, com acordos interna- cionais de mercadorias). (HOBSBAWM, 1995, p. 108) Blocos, reorganização imperialista e contínuas reações às sanções do Tratado de Versalhes apenas acirraram as disputas políticas e eco- nômicas. É importante considerar que a Internacional Comunista, ocor- rida em 1919 sob a liderança de Lênin, ao reunir partidos comunistas do mundo todo, também diminuiu sua ação, mesmo com a crítica ao ca- pitalismo. Nesse contexto, a organização do Partido Nacional-Socialista da Alemanha apenas cresceu, visto que o temor político era com o cres- cimento das instituições partidárias trabalhistas e social-democratas. Há um declínio da esquerda de modo geral na Europa (provavelmente pela relação com a União Soviética); ao mesmo tempo que no continente americano ela crescia no governo de Lázaro Cárdenas (que efetivou ele- mentos da pauta da Revolução Mexicana) e nos Estados Unidos, sob o governo de Franklin Roosevelt, com o New Deal (HOBSBAWM, 1995). Diante disso, o liberalismo do início do século XX não era mais opção. Já o comunismo era uma possibilidade, embora relutante; uma forma capi- talista ligada à social-democracia era outra; e uma terceira era o fascismo. No caso da Alemanha, a Crise de 1929 abalou sua estrutura econô- mica que pouco havia se fortalecido até o fim da década de 1920. Entre O New Deal foi um programa de recuperação norte-americano. Entre diversas ações, incluía: concessão de subsídios e créditos agrícola, criação da Previdência Social para garantir salário-mínimo e aposentadoria, criação de sindicatos com maior representação dos tra- balhadores e regulamen- tação sobre o trabalho de bancos e agências financeiras. 7 Guerras Mundiais e Estado totalitário 63 1929 e 1931, os investimentos industriais passaram de 1,168 milhão de Reichsmarks (moeda local) para 522 milhões, isso gerou menos produ- ção, ações mais baixas, inflação etc. (ROSSINI, 2022). Para entender parte dessas mudanças contemporâneas, é preciso trazer algumas ideias de Hannah Arendt a fim de pensar como as mas- sas concordaram com ideias totalitárias e fascistas. Segundo Arendt (1998), ralé é o termo que designa um grupo com indivíduos vindos de todas as classes, sem representatividade política, excluído do processo produtivo capitalista burguês a cada crise, e por isso apresenta volubi- lidade. É por essas características que alguns políticos fazem uso dessa ralé, sem apreço a uma ideia democrática. Já as massas, para Arendt (1998), são unidas por sua pretensa neutrali- dade, sua indiferença política, não se organizampoliticamente nem se im- portam tanto com o direito de voto. Enquanto a ralé é o grupo que acaba excluído em qualquer circunstância, a massa interfere nas decisões políti- cas de algum modo. Além disso, as massas subvertem características de todas as classes no que diz respeito aos negócios públicos. É possível di- zer que surgiu uma sociedade de massas no século XX, fragmentada por uma sociedade atomizada, individualizada, em que a solidão do indivíduo era uma prática. As pessoas que concordaram com propostas totalitárias eram aquelas desenraizadas e desemparadas em um mundo destruído por inúmeros motivos, como guerras, inflações e desemprego (ARENDT, 1998). Nesse sentido, as massas eram grupos ideais para movimentos to- talitários como foram o fascismo italiano e o nazismo alemão. A prática eugenista e a eliminação do povo judeu era recorrente no discurso de Adolf Hitler no início da década de 1930, visto que aquele povo era apontado como um impedimento para o progresso alemão. Junto a eles estavam opositores políticos, portadores de necessidades espe- ciais, eslavos, ciganos, homossexuais etc. Tanto Hitler quanto Mussolini eram vistos como líderes em dois países com crises econômicas devido à Primeira Guerra Mundial, mesmo que por motivos diferentes, uma vez que a Itália, embora estivesse ao lado de vencedores, não obteve lucros com as determinações do Tratado de Ver- salhes. Os discursos desses líderes direcionados às massas eram ouvidos e respeitados, e o rádio, a propaganda, o cinema e a educação colabo- raram para formar uma cultura nacionalista que cultivava seus próprios inimigos. Nesse mesmo período, o Japão tornou-se um país imperialista e 64 História Contemporânea militar, apesar da aparência parlamentar. Ao invadir a Manchúria, territó- rio chinês, em 1931, o Japão deixou evidente suas intenções, sobretudo ao quebrar os acordos bilaterais que havia entre a China e países europeus. Esses três países – Alemanha, Itália e Japão – aliaram-se entre 1936 e 1940, formando o Eixo. É importante ressaltar que em 1935/1936, Mussolini invadiu a Etiópia, e Hitler convocou a população para se alis- tar, iniciando a produção de armas da qual a Alemanha era proibida pelo Tratado de Versalhes. Ambos apoiaram a Guerra Civil Espanhola, com um governo fascista, em 1936, o que também era proibido, a fim de testarem suas armas em solo espanhol, e fizeram isso alegando que eram medidas contrárias ao desemprego. Nos anos seguintes, mesmo com a política de apaziguamento e o Acordo de Munique 8 , nem a Itália nem a Alemanha foram punidas. Os outros países só agiram para frear a Alemanha quando esta invadiu mais um país, a Polônia. 3.4 Segunda Guerra Mundial Vídeo A Segunda Guerra Mundial não é marcante apenas pelo seu estrago estrutural e físico no território europeu, asiático e africano. Ela gerou no campo historiográfico debates sobre a história do tempo presente 9 , a memória – a partir de relatos ligados aos traumas provocados –, entre outros. Além disso, também reorganizou o mundo no que diz respeito à organização geopolítica, à criação de instituições, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), e em independências de novas zonas, como as da Ásia e África. Para compreender em parte o porquê de tantas mudanças, preci- samos pensar brevemente o que foi esse acontecimento. Para tanto, trazemos alguns números sobre a Segunda Guerra Mundial: o número estimado de civis mortos em extermínio, lutas, as- sassinatos, guerra de guerrilha da resistência etc. atinge entre 25 e trinta milhões, dos quais perto de 15 milhões na Europa, sem considerar os cerca de nove milhões que foram assassina- dos em prisões e campos de concentração nazistas. Desses nove milhões, aproximadamente seis milhões eram judeus europeus. Na própria Alemanha morreram cerca de 36 milhões de civis, entre os quais dois milhões de expedidos do Leste, mais de meio milhão de vítimas e bombardeios, pelo menos sete milhões de soldados enviados para prisões de guerra, cerca de 15 milhões Por meio desse acordo, Hitler e as potências europeias acordaram para que apenas os Sudetos fossem anexados ao território alemão. Hitler aproveitou para anexar o restante da Tchecoslováquia em 1938, que não fez parte da reunião. 8 Área historiográfica que debate questões de nosso tempo, assim como os cuidados e a metodologia necessários para proble- matizar demandas ligadas aos movimentos sociais, processos traumáticos, testemunhos de aconteci- mentos etc. 9 Guerras Mundiais e Estado totalitário 65 de evacuados, em geral mulheres e crianças. Dois milhões foram feridos. Pelo menos 2/3 das pessoas não estavam na sua terra. Em 1945 cerca de dez milhões de refugiados políticos, sobretudo trabalhadores forçados, tiveram que ser transportados de volta da Alemanha para seus países de origem. Aproximadamente 14 milhões de alemães fugidos do Exército Vermelho foram ex- pulsos e tiveram que se estabelecer nas quatro zonas de ocu- pação, nas quais a Alemanha foi dividida. Tiveram que viver sob condições desastrosas. (PLATO, 2000, p. 119-120) Esses números evidenciam como um acontecimento demora a passar, para além das datas que escolhemos como suas marcas na historiografia. Eles também reforçam a necessidade de cuidados e adaptações da popu- lação para quem retornou ou não ao seu lugar de origem. Além dos ques- tionamentos: como se começa um acontecimento desse? Como ele toma essas proporções? E como as pessoas, consciente ou inconscientemente, podem aceitar fazer parte dele? Como supracitado, apesar do Tratado de Versalhes estipular diversas sanções à Alemanha, foi somente com a invasão da Polônia que os outros países se obrigaram a pensar em uma nova guerra. Isso ocorreu em 1º de setembro de 1939. Dias depois, a União Soviética tomou parte da Polônia, porque um mês antes havia assinado com a Alemanha o Pacto de Não Agressão entre ambos os interessados em dominar a Polônia. Meses de- pois, a União Soviética também invadiu a Finlândia, e a Alemanha invadiu a Suécia e a Dinamarca. Apenas após a invasão da Bélgica é que países como França, Holanda e Inglaterra também declararam guerra. Até esse momento não havia uma disputa que envolvesse armas. Desde a invasão da Polônia, a Luftwaffe (força aérea alemã, moder- na e grande) e as Divisões Panzer (divisão militar) já testavam e refor- çavam seu poderio militar. Paris foi tomada pela Alemanha em menos de uma semana, e a França assinou um acordo de colaboração, do qual se criou a República de Vichy, uma zona livre situada ao Sul da França. Quanto à Inglaterra, os ataques foram mais aéreos, rápidos e de surpresa, uma estratégia conhecida como Blitzkrieg. A partir de 1941, a Alemanha colocou em prática a Operação Barbarrossa, cujo objetivo era invadir a União Soviética, acabando com o Pacto de Não Agressão. Ao colocá-la em prática, invadiu cidades importantes, como Leningrado e Moscou, e tomou cerca de 40% da região produtora do PIB russo. A cidade de Stanligrado deveria ser o ápice dessa invasão, mas, após No filme Lore, uma jovem nazista precisa atravessar junto a outros refugiados uma floresta depois que seus pais são presos, período em que começa a ter consciência dos atos referentes ao seu grupo. Direção: Cate Shortland. Austrália; Alemanha; Reino Unido: Rohfilm; Edge City Films; Porchlight Films, 2013. Filme seis meses de batalha, os alemães foram cercados, o que se tornou a primeira perda material e humana significativa para a Alemanha. O modo como a Alemanha cresceu rapidamente na Segunda Guerra se justifica também pelo apoio do Japão e da Itália, que estava revoltada pelos poucos espólios recebidos da Primeira Guerra Mundial. O Japão se aprovei- tou das perdas altas da Holanda e da França para obrigá-las (e as colônias holandesas e francesas na Ásia) a estabelecerem negociações econômicas com o império, enquanto forçava a China a fazer o mesmo.capítulo. A História Contemporânea é marcada pela influência tecnológica sobre todas as nossas práticas sociais, incluindo as políticas e econômicas. Novas culturas digitais formadas por materialidades diversas são o centro da comunicação no globo. A política cultural do mundo árabe e sua relação com o Ocidente serão debatidos com o objetivo de descentralizar a perspectiva europeia como centro do mundo. Assim, serão consideradas as influências dos conceitos de Oriente e Ocidente sobre as dinâmicas culturais europeias e as discussões sobre as demandas ambientais. Em relação à América Latina, o capítulo também trará discussões sobre os movimentos sociais e as consequências da exclusão ambiental, que promove a desigualdade e parte dos problemas de imigração legal. Os problemas desse contexto e as alterações gerais, que são de ordem mundial, são potencializados pelos problemas do mundo do trabalho e dos interesses neoliberais. Bons estudos! O começo de um século efervescente 9 1 O começo de um século efervescente Marcar um acontecimento como determinante para outras ocasiões é o que a Revolução Francesa (1789-1799) representa para a historiografia e para a nossa História Contemporânea. Mas qual é a relação dessa revo- lução com o século XIX? Os eventos sociais, políticos e culturais diversos ao Antigo Regime teriam como marco final a Revolução? Neste capítulo, nosso convite é uma proposta para refletir sobre uma linha social bastante tênue que se desenvolve com a derrubada do absolutis- mo francês e a ascensão da burguesia e das camadas mais simples ao poder. Desse modo, podemos pensar nas novas dinâmicas e organizações sociais que mantiveram dimensões do Antigo Regime, bem como possibi- litaram transformações na primeira metade do século XIX. Essas mudanças dizem respeito a formações de classes, como a do ope- rariado, que, incentivado por demandas populares e teorias políticas forjadas ao longo do século, fomentou revoltas e movimentos contrarrevolucionários. Então, organizamos este capítulo com a intenção de problematizar ques- tões sociais e políticas fomentadas pelas novas sociabilidades, porém que estavam presentes no Antigo Regime. Para tanto, partimos de relações possí- veis desse com as primeiras décadas da França efervescente. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • analisar as transformações e permanências das dimensões so- ciais, econômicas e culturais do Antigo Regime no que diz respeito às sociedades contemporâneas; • compreender a dinâmica das relações de poder no início do século XIX, antes das novas demandas populares; • refletir sobre os movimentos revolucionários e contrarrevolucioná- rios dos séculos XIX e XX; • compreender as teorias políticas que incentivaram os movimentos revolucionários e contrarrevolucionários dos séculos XIX e XX. Objetivos de aprendizagem 10 História Contemporânea 1.1 Dimensões do Antigo Regime Vídeo Do mesmo modo que a ideia de liberdade política para a burguesia não surgiu de um momento para o outro, o Antigo Regime não pode ser apon- tado como um período de estagnação social ou cultural. Práticas, controle social e até mesmo o que poderia ser entendido como políticas públicas são alguns dos traços encontrados em fontes sobre o período. Além disso, o Antigo Regime ficou caracterizado pela política absolutista e pela centra- lização das práticas católicas vinculadas à monarquia, perdurando desde o fim do Império Otomano em 1453 até a Revolução Francesa. Então, como pensar nas diversas temporalidades que compõem a trajetória de ocupação humana nos mais diferentes lugares? Pensar- mos nesse questionamento impõe nomearmos acontecimentos que marcaram processos históricos e torná-los representantes de um con- texto ou outro. Além disso, precisamos buscar não os homogeneizar. O Antigo Regime talvez não seja tão antigo, visto que a despeito das transformações há também permanências de dimensões sociais, econô- micas e culturais dele junto ao que compreendemos como sociedades con- temporâneas. A pintura Um beijo roubado, por exemplo, corrobora estudos sobre a sexualidade no Antigo Regime, uma vez que, apesar de ser consi- derado um contexto de estagnação, novas sociabilidades também ocor- reram, inclusive com novos comportamentos ligados à sexualidade. As demarcações do tempo são, portanto, históricas e arbitrárias, pois deixam outros acontecimentos esquecidos. Cabe a nós, historiadores, buscarmos entender como esses grupos do Período Moderno ou de transição para o Contemporâneo percebem a si, seu tempo e seu es- paço, bem como o que compreendem como passado, presente e futuro. Independentemente do que foi colocado sobre as escolhas dos marcos de transição entre os pe- ríodos Moderno e Contemporâneo, a Revolução Francesa ocorreu, e, como nos lembra Reinhart Ko- selleck (2006), a experiência vivida já transbordava o horizonte de expectativa, ou seja, os novos anseios daquele público para o seu futuro, na França que Na notícia Pesquisa exami- na as intimidades de jovens trabalhadores no Antigo Regime, Bruno Leal se preocupa em demonstrar como o Antigo Regime proporcionou, semelhante a qualquer época, a cria- ção e agência dos sujeitos, ou seja, a sexualidade foi estudada como prática sexual, mas também ligada a atitudes de pessoas, co- munidades etc., para além da ideia de um tempo em que viviam absolutamente para a Igreja. Disponível em: https://www. cafehistoria.com.br/livro-examina- intimidade-no-antigo-regime/. Acesso em: 20 set. 2022. Leitura Fonte: FRAGONARD, J.-H. Um beijo roubado. 1750. Pintura a óleo. 47 x 60 cm. Museu Hermitage, São Petersburgo. W ik im ed ia C om m on s https://www.cafehistoria.com.br/livro-examina-intimidade-no-antigo-regime/ https://www.cafehistoria.com.br/livro-examina-intimidade-no-antigo-regime/ https://www.cafehistoria.com.br/livro-examina-intimidade-no-antigo-regime/ aflorava nesse novo mundo social. E, assim, se há dois grupos que pas- saram a ter mais protagonismo após a Revolução Francesa, no final do século XVIII, são a burguesia e o operariado. Entretanto, para o pri- meiro grupo, já havia sido conquistado o direito ao voto antes dessa revolução, mesmo que censitário 1 , o que permitiu que votações de in- teresse, em especial da alta burguesia, tivessem destaque. A liberdade de mercado pode ser entendida como um espaço de atua- ção com mais iniciativa e autonomia individual pautada pelas regulações próprias do direito, ou seja, todos passaram a ser vistos como iguais pe- rante a lei, mas com liberdade individual. Entretanto, do horizonte de ex- pectativa pós-revolução ainda há uma maior representação no Estado, assim, o liberalismo econômico passou a se desenvolver e ser traçado junto ao que chamam de liberalismo político (SILVA; SILVA, 2009), cujo re- gulador era o Estado e, muitas vezes, permeado pela própria burguesia. De um mundo de Antigo Regime em que a burguesia pouco coman- dava na política, esta classe passou a ostentar tal poder após a Revolu- ção Francesa. Isso ocorreu com contradições tanto dentro da própria burguesia quanto em relação a boa parte do povo que, sob o lema “Li- berdade, Igualdade e Fraternidade” – do original Liberté, Egalité, Frater- nité –, também viria a exigir seus novos direitos. O mundo revolucionário não seria mais o mesmo, mas as diferen- ças sociais permaneceriam de alguma forma. A filósofa Hannah Arendt (1979) reforça que trabalhadores servis, camponeses e trabalhadores urbanos começaram a ter novas expectativas e a exigir lugares nos novos espaços de liberdade pública. Isso iniciou o que se tornariam conflitos a partir da década de 1830, com base em diferenças de classe, cuja alega- ção maior dos antigos servis era de que os revolucionários, nesse caso os burgueses, haviam se distanciado do objetivo maior do movimento, que era a igualdade, a liberdade e a fraternidade para todos. Apenas alguns cidadãos que atendiam a critérios econômicos específicos tinham direitoEssas atitudes de demonstração imperialista japonesa provocaram os Estados Unidos – um país neutro na época –, que proibiram os paí- ses em questão de terem qualquer tipo de exportação ou importação de produtos japoneses, sem a autorização norte-americana. A reação japonesa foi conquistar lugares para explorar recursos, como a Ilha de Java e Malásia (de posse holandesa e inglesa, respectivamente). Assim, o ataque a Pearl Harbor, ilha estratégica dos Estados Unidos no Havaí para treinamento militar, e a Cingapura, de influência inglesa, permitiram ao Japão vitória e destaque como potência no Pacífico por alguns meses. No início de 1942, a guerra tornou-se mundial, cuja primeira vitória dos Es- tados Unidos sobre o Japão foi na batalha de Miday, travada no Pacífico. Apesar dos grandes avanços japoneses nos primeiros meses de 1942, a entrada dos Estados Unidos, após o ataque a Pearl Harbor, e a perda alemã na batalha de Stalingrado começaram a complicar a cer- teza da vitória do Eixo. Junto a isso é preciso considerar as invenções ligadas à aviação dos aliados da Tríplice Alian- ça: desde aviões pequenos e leves até maiores e mais potentes, além de porta-aviões que se deslocavam pelos mares com o sonar e o radar, muito utilizados na Inglaterra em 1941. O radar foi repassado aos outros países aliados, que também o utilizaram junto a esquadrilhas para atacar regiões civis ocupadas em 1942 ou no Ja- pão em 1944, matando milhares de pessoas. Hitler, em 1943, lançou sua última ofensiva quando programou uma nova invasão à União Soviética, com a intenção de tomar a cidade de Kursk. No entanto, houve ajuda inglesa e nor- W ik im ed ia C om m on s W ik im ed ia C om m on s O navio Arizona sendo afundado durante o ataque a Pearl Harbor. 6666 História ContemporâneaHistória Contemporânea te-americana aos russos, além da invasão ocorrida ao mesmo tempo na Itália, que fez com que Mussolini, aliado de Hitler, enfraquecesse a partir desse momento e se rendesse um ano depois. No território “russo”, a Crimeia e a Ucrânia foram liberadas. Seis meses depois, a Operação Overlond minou qualquer possibilidade de ataque futuro à França ao invadi-la pelas praias da Normandia, proces- so conhecido como Dia D. Concomitante a essa estratégia, a União So- viética, recuperada da ofensiva de Hitler, reuniu o máximo de pessoas que pôde para uma última batalha e conseguiu derrotar o Eixo nos territórios da Polônia e da Romênia. Ao fim de 1944, os países aliados ganhavam mais território, da Itália ao Japão. Durante o ano de 1945, na frente oriental, os kamikases 10 co- meçaram a ser a única opção de reação às investidas dos Estados Unidos, que estavam cada vez mais perto das ilhas japonesas. O Japão resistiu até meados de 1945, quando as ilhas próximas à ilha central foram tomadas e, em especial, as bombas nucleares atingiram Hiroshima e Nagasaki. Há debates sobre a necessidade de os Estados Unidos jogarem as bom- bas, visto que, nos meses que antecederam o ataque, o Japão já demons- trava que não teria reação por muito mais tempo. Para muitos, a Batalha de Leyte (Filipinas), ocorrida em quatro frentes em outubro de 1944, quan- do os japoneses tiveram perda de quase toda a frota naval, representa o momento de sua derrota. Após o lançamento das bombas, a rendição imediata do Japão foi oficializada. O trauma causado pelo lançamento de bombas fez com que somente em 2016 o presidente norte-americano Barack Obama visitasse e fizesse um pronunciamento sobre o aconteci- mento quando disse respeitar e lamentar o ocorrido, mas sem dar um pedido oficial de desculpas (ROMILDO, 2016). Ev er et t C ol le ct io n/ Sh ut te rs to ck Ev er et t C ol le ct io n/ Sh ut te rs to ck Os kamikazes eram pilo- tos de aviões japoneses que realizavam ataques suicidas contra navios dos inimigos ao final da Segunda Guerra Mundial. 10 Guerras Mundiais e Estado totalitárioGuerras Mundiais e Estado totalitário 6767 68 História Contemporânea A ação imperialista e autoritária norte-americana também inaugu- rou uma disputa armamentista, crucial no período da Guerra Fria até o século XXI. Isso se deve também ao crescimento dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, anulando os últimos efeitos da Cri- se econômica de 1929, ou seja, uma nova guerra no continente euro- peu proporcionou um lugar de destaque global aos Estados Unidos. Ao pensar nos vários números expostos no início dessa seção, é preciso considerar o quanto é complexo trabalhar com memórias. Com relação às memórias de civis mortos na ocupação da Polônia (por parte da Alemanha e da União Soviética – a qual esteve ao lado da Tríplice Aliança nos anos seguintes), há também os civis alemães, os civis japo- neses de Hiroshima e Nagasaki, as resistências, os soldados rendidos etc. São situações que tornam a historiografia um campo que deve ser justo à memória e, ao mesmo tempo, que não atue como julgador. Nesse sentido, lembramos a história de Primo Levi (1988), o qual, como sobrevivente dos horrores e traumas vividos nos campos de con- centração de Auschwitz-Birkenau, afirmava ter medo de retornar a sua realidade no pós-guerra e de não se importarem ou acreditarem em sua versão sobre o que ocorreu. Assim, apesar de o caráter da história parecer fragmentado e de se referir ao passado, é importante considerar que o processo de reme- moração é baseado nas perguntas do presente. Nesse processo, o ato de lembrar, junto da imaginação, oferece narrativas, biografias, diários, documentários etc., e cabe ao historiador ter atenção para que não haja excessos ou perda de memória de lado algum, e sim uma história múltipla e diversa que dê lugar aos testemunhos dos que viveram e dos que ouviram sobre os traumas sofridos. É importante considerar ainda que memória e história são áreas diferentes. A memória é a fonte para a história, mas também se coloca como uma narrativa sobre algo, sobre aquilo que já passou. No que diz respeito à Segunda Guerra Mundial, o historiador Ale- xandre Plato (2000, p. 120) faz a seguinte afirmação: todos esses alemães, muito diferentes entre si, velhos habitantes e refugiados, ex-soldados e mulheres evacuadas, grande núme- ro de antigos nazistas – a sexta parte da população adulta foi or- ganizada no campo nazista –, os chamados Mitläufer (seguidores) e o pequeno número de oponentes e sobreviventes tiveram que viver juntos depois da guerra. Especialmente os sobreviventes O documentário O con- tador de Auschwitz narra o julgamento de Oskar Groning, um contador cujo trabalho era conta- bilizar a entrada e morte de presos no campo de concentração. Direção: Matthew Shoychet. Canadá: Good Soup Productions; TLNT Productions, 2018. Documentário ra fa el ca vla z/ Sh ut te rs to ck A ação imperialista e autoritária norte-americana também inaugu- rou uma disputa armamentista, crucial no período da Guerra Fria até o século XXI. Isso se deve também ao crescimento dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, anulando os últimos efeitos da Cri- se econômica de 1929, ou seja, uma nova guerra no continente euro- peu proporcionou um lugar de destaque global aos Estados Unidos. Ao pensar nos vários números expostos no início dessa seção, é preciso considerar o quanto é complexo trabalhar com memórias. Com relação às memórias de civis mortos na ocupação da Polônia (por parte da Alemanha e da União Soviética – a qual esteve ao lado da Tríplice Aliança nos anos seguintes), há também os civis alemães, os civis japo- neses de Hiroshima e Nagasaki, as resistências, os soldados rendidos etc. São situações que tornam a historiografia um campo que deve ser justo à memória e, ao mesmo tempo, que não atue como julgador. Nesse sentido, lembramos a história de Primo Levi (1988), o qual, como sobrevivente dos horrores e traumas vividos nos campos de con- centração de Auschwitz-Birkenau, afirmava ter medo de retornar a sua realidade no pós-guerra e de não seimportarem ou acreditarem em sua versão sobre o que ocorreu. Assim, apesar de o caráter da história parecer fragmentado e de se referir ao passado, é importante considerar que o processo de reme- moração é baseado nas perguntas do presente. Nesse processo, o ato de lembrar, junto da imaginação, oferece narrativas, biografias, diários, documentários etc., e cabe ao historiador ter atenção para que não haja excessos ou perda de memória de lado algum, e sim uma história múltipla e diversa que dê lugar aos testemunhos dos que viveram e dos que ouviram sobre os traumas sofridos. É importante considerar ainda que memória e história são áreas diferentes. A memória é a fonte para a história, mas também se coloca como uma narrativa sobre algo, sobre aquilo que já passou. No que diz respeito à Segunda Guerra Mundial, o historiador Ale- xandre Plato (2000, p. 120) faz a seguinte afirmação: todos esses alemães, muito diferentes entre si, velhos habitantes e refugiados, ex-soldados e mulheres evacuadas, grande núme- ro de antigos nazistas – a sexta parte da população adulta foi or- ganizada no campo nazista –, os chamados Mitläufer (seguidores) e o pequeno número de oponentes e sobreviventes tiveram que viver juntos depois da guerra. Especialmente os sobreviventes O documentário O con- tador de Auschwitz narra o julgamento de Oskar Groning, um contador cujo trabalho era conta- bilizar a entrada e morte de presos no campo de concentração. Direção: Matthew Shoychet. Canadá: Good Soup Productions; TLNT Productions, 2018. Documentário ra fa el ca vla z/ Sh ut te rs to ck dos campos de concentração nazistas tiveram que decidir se queriam permanecer na Alemanha. Nesse caso, ficaram em seu país natal e tiveram que viver com seus traumas, tiveram que en- frentá-los e enfrentar também a agressiva ignorância de muitas pessoas à sua volta que não queriam saber de nada sobre suas terríveis lembranças dos campos de concentração. Plato (2000) evidencia a dificuldade que muitos sentiram quando retornaram para a vida anterior ao processo histórico. Inúmeras en- trevistas com sobreviventes revelaram esses traumas, e para garantir que situações como essa não se repetissem, algumas metodologias co- meçaram a ser elaboradas a fim de que as memórias gerassem cons- ciência e educação histórica. Ainda sobre esse contexto, o pesquisador Márcio Seligmann-Silva (2003, p. 373) declara: os primeiros documentários realizados no imediato pós-guerra, extremamente realistas, geravam esse efeito perverso: as ima- gens eram “reais demais” para serem verdadeiras, elas criavam a sensação de descrédito nos espectadores. A saída para esse problema foi a passagem para o estético: a busca da voz correta [...] a literatura de testemunho de um modo geral – desconstrói a historiografia tradicional (e também os tradicionais gêneros lite- rários) ao incorporar elementos antes reservados à “ficção”. Com base nessa ideia, é possível afirmar que os traumas são situa- ções-limite, dos quais a dificuldade em ouvir e presenciar momentos de rememoração são esperados. Trazê-los por meio da ficção ou com au- xílio de estratégias estéticas nos permite atenuar acontecimentos que devem ser rememorados, garantindo o direito de rememorar do modo como cada um quiser. Na esteira de Levi (1988) e de Seligmann-Silva (2003), podemos dizer que a totalidade de um acontecimento ou de uma barbárie tem nos gê- neros ligados à arte, na metodologia da história e no contexto formas de trazer elementos de processos inenarráveis. Guerras Mundiais e Estado totalitárioGuerras Mundiais e Estado totalitário 6969 70 História Contemporânea Sobre a Segunda Guerra Mundial há inúmeros filmes e bibliografias. Convido a ler sobre um roteiro de visita ao Museu Oskar Schindler e sobre uma ação do Museu do Holocausto, de Curitiba (PR). Nessa ação, o museu demonstra como o judaísmo é plural, com diversas perspec- tivas identitárias e culturais, característica que colabora com questionamentos acerca de conceitos como o de raça, o qual foi primordial para causar o Holocaus- to. Quais seriam os povos ou atos preconceituosos ou fascistas atuais? São duas propostas diferentes para pensar um tema referente a um passado que é atual. Disponíveis em: • https://www.contandodestinos.com/2017/03/museu-oskar-schindler-cracovia.html • https://www.museudoholocausto.org.br/memoria/exposicoes/feitos-e-efeitos/ Acesso em: 5 out. 2022. Museu 3.5 Os trinta gloriosos e o Ocidente pós-guerra Vídeo As consequências da Segunda Guerra Mundial são inúmeras. Além dos números supracitados, o parque industrial e a vida urbana foram afetados na Europa, na Ásia e em algumas regiões da África. Não menos relevante é a destruição de aviões, navios e trens, todos importantes para o desloca- mento e a reconstrução econômica e social posterior à guerra. As bombas atômicas não deixaram menos tragédias proporcionalmente aos efeitos de Pearl Harbor, visto que ocorreram em razão desse ataque e inauguraram uma disputa nuclear que norteou e afetou a vida de inúmeros povos e paí- ses até o século vigente. Nesse sentido, se há um principal efeito danoso para a humanidade é a ordem colocada pela Guerra Fria (1945-1989), uma consequência desse processo imperialista, de disputa do capital. Uma importante consequência do mundo pós-guerra foi a descoloni- zação de parte da África e da Ásia. Foi uma mudança geopolítica que oca- sionou um novo olhar sobre o que era o Ocidente, organizado por meio de uma lógica de centralidade e homogeneidade europeia. No entanto, foi uma ruptura parcial, a qual originou o que entendemos como países periféricos, marginais, e que passaram a ser conhecidos como Terceiro Mundo, ou seja, o Hemisfério Sul passou a fazer parte de um mapa político mundializado. Para tanto, é preciso considerar a Conferência de Bandung (1955), momento em que países do Terceiro Mundo objetivaram pensar o de- senvolvimento político com base em suas considerações ou em seu https://www.contandodestinos.com/2017/03/museu-oskar-schindler-cracovia.html https://www.museudoholocausto.org.br/memoria/exposicoes/feitos-e-efeitos/ Guerras Mundiais e Estado totalitário 71 contexto, com atenção ao que era nacional, e não de influência estran- geira. Isso se deve especialmente à polarização entre Estados Unidos e União Soviética, além dos anseios patrióticos originados pelo processo de descolonização dos países do Terceiro Mundo. Sobre isso Walter Mignolo (2017, p. 19) define que: quem participou da conferência optou por desprender-se: nem capitalismo nem comunismo. Optaram por descolonizar. O pro- cesso é longo, mas continua. [...] A grandeza da Conferência de Bandung consistiu precisamente em ter mostrado que a descolo- nialidade é uma “terceira opção” que não resulta da combinação das existentes, mas consiste em desprender-se delas. Esse deslocamento, para Mignolo (2017), não é o suficiente para desco- lonizar o pensamento de países que formarão novos grupos importantes para as trajetórias geopolíticas durante a Guerra Fria e no século XXI, visto que muitos dos termos institucionais e decisões políticas ainda foram con- duzidas por pessoas ou interesses do chamado Primeiro Mundo. Os blocos formados como consequência desse período também são importantes, como o Pacto de Varsóvia 11 , liderado pela URSS, e a Orga- nização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), liderada pelos Estados Unidos. Ambos os países se tornaram a representação da bipolarização da Guerra Fria. Mesmo que o pacto de Varsóvia tenha sido extinto na década de 1990, época que a União Soviética também deixou de existir, a OTAN permaneceu reunindo países que de algum modo não se rela- cionavam ou se colocavam contra a URSS, sob a bandeira de defesa da democracia. Nos anos 2000, a OTAN já reunia mais de 30 países. Os Estados Unidos também foram responsáveis, depois da Segunda Guerra, por promover financiamentos com juros baixos por meio do Pla- no Marshall a todos os países europeus,com exceção daqueles que esta- vam sob influência da União Soviética, para que pudessem se reconstruir. Na Conferência de Bretton Woods, ocorrida nos Estados Unidos em 1944, foi eleita a moeda norte-americana como o meio de câmbio inter- nacional, o qual foi regulado pelo Acordo Geral de Tarifas e Comércio e pelas duas instituições mais aparentes desse processo, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI). O Plano Marshall, a integridade física dos Estados Unidos pós-guerra e a monetarização pelo dólar permitiram que o país, junto ao Japão e anos mais tarde alguns países da Europa, vivessem a Idade de Ouro. Sobre o rápido crescimento capitalista, é possível dizer que o comércio internacio- Aliança militar entre a União Soviética e sete ou- tras repúblicas socialistas do Bloco Oriental. 11 72 História Contemporânea nal cresceu com base em acordos comerciais e barreiras tarifárias menos fechadas. A presença de um Estado mais forte, centralizado, regulador e produtor de bens e serviços proporcionou a acumulação de capital e um controle maior ou menor (crises e conflitos são comuns até 1990) dos mo- dos de produção (POLANYI, 2001). Além disso, filiais de indústrias, empresas em geral e bancos passaram a se instalar por todo o mundo, inclusive em países do Terceiro Mundo, cujas coligações partidárias e de representações também favoreceram essas no- vas negociações, bem como as relações de trabalho passaram a ser orga- nizadas por meio de leis federais e de sindicatos trabalhistas e patronais. Essas mudanças são anteriores à Segunda Guerra Mundial. Uma das in- fluências desse período foi de John Maynard Keynes (1992), um economista britânico do século XX, cujo livro principal é Emprego, do Juro e do Dinheiro. Ele afirmava em seu livro que políticas públicas fiscais eram necessárias para conter crises, mesmo antes da de 1929 estourar no mundo. O nível de impostos alto era defendido por Keynes a fim de que o Estado pudesse evitar crises econômicas profundas, especialmente pelos crescimentos ace- lerados que, mesmo gerando empregos, causavam inflação (KEYNES, 1992). A partir de 1930, a iniciativa privada ainda buscava intervir na eco- nomia, mas a intervenção do Estado sobre ela tornou-se significativa nas relações trabalhistas, o que fez com que a renda aumentasse, com descanso semanal remunerado e salário-mínimo (nos Estados Unidos em 1932, e no Brasil em 1942 com a CLT). Essas medidas permitiram o aumento de produção e de consumo. Portanto, com o passar da guerra, o poder do Estado se tornou ain- da maior. No caso europeu, a presença da social-democracia foi recor- rente. Nesse contexto, era comum uma política que priorizava o acesso aos bens e políticas públicas (educação, transporte, previdência social, saúde) regidas ou intermediadas pelo governo, de modo gratuito, aos cidadãos (POLANYI, 2001). O Estado de bem-estar social (welfare state ou american way of life 12 ) dava liberdade, autonomia aos indivíduos e uma distribuição de renda mínima ao mesmo tempo que controlava a eco- nomia e nacionalizava diversas instituições, como o transporte coletivo. A estabilidade entre o Estado, os sindicatos e o setor privado foi também garantia da permanência das instituições democráticas. Isso permitiu que não apenas capitais fossem exportados, mas também produtos, diferente do período mais imperialista do fim do século XIX. Estado de bem-es- tar social é um estilo político-econômico norte-americano. 12 Guerras Mundiais e Estado totalitário 73 CONSIDERAÇÕES FINAIS O fim da Segunda Guerra Mundial inaugurou um tempo em que o ca- pitalismo se tornou uma forma de acúmulo de capital e de mercadorias, cujo poder aquisitivo era gerado por um Estado intervencionista que man- tinha a liberdade de mercado e a disputa entre os interesses privados, preservando o tom democrático e o alcance de direitos, desde civis aos trabalhistas. Não obstante, é um período que conformou as novas potências mun- diais, as quais disputaram entre si mercados, mas, especialmente, zonas de influência para suas teorias ideológicas. A URSS e os Estados Unidos envol- veram dezenas de países em conflitos diretos, promovendo crescimento com sua economia de guerra e gerando inúmeros traumas pela Ásia, Áfri- ca e América. Esses continentes, por sua vez, além de presenciarem essa disputa, sentiram as ditaduras provocadas por ambos os países; porém a historiografia ainda se debruça a fim de dar lugar a essas vozes que buscam uma independência do ser e do saber. ATIVIDADES Atividade 1 Explique a relação entre a eugenia e o imperialismo. Atividade 2 De que forma a corrida imperialista está relacionada com a Primei- ra Guerra Mundial? Atividade 3 Em que medida a Primeira Guerra Mundial relaciona-se com a Revolução Russa? 74 História Contemporânea Atividade 4 Explique a relação entre a Crise de 1929 e a Primeira Guerra Mundial. Atividade 5 No que diz respeito às consequências da Segunda Guerra Mundial, por que a OTAN é uma das mais presentes em nosso contexto? REFERÊNCIAS ARENDT, H. Da revolução. São Paulo: Ática, 1988. ARENDT, H. Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. ENGELS, F.; MARX, K. O manifesto comunista. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 1999. HOBSBAWM, E. J. A Era dos Extremos. 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Além disso, essas mudanças questionaram uma estrutura política, racista e classista em relação ao que havia sido construído sob a cen- tralidade da Europa e do Hemisfério Norte em geral, desde a bipolaridade ocasionada pela Guerra Fria no pós-Segunda Guerra Mundial até seus des- dobramentos em disputas econômicas e geopolíticas nos anos 2020. São muitos os acontecimentos que se desdobraram a partir dessa bipola- ridade, em que a defesa não é necessariamente pela liberdade de expressão como afirmam alguns grupos, e sim pela necessidade de manter zonas de in- fluência geopolítica ou, como defendem outros, pela pretensa igualdade social. De qualquer modo, as formas de vivência escolhidas por esses grupos causaram guerras e uma nova organização do mundo, com mais agência e autonomia para o que entendemos como Terceiro Mundo. Este, repleto de sujeitos que estiveram na marginalidade política, civil e social, passou a exigir a igualdade como pessoas por meio de movimentos sociais vivi- dos concomitantes às independências políticas ocorridas após a Segunda Guerra Mundial e ocasionadas também pela Guerra Fria. Para compreender as teorias que analisam esses movimentos e como elas transformam os discursos sobre a história, bem como a própria aca- demia e o nosso tempo, evidenciamos, neste capítulo, ideias decoloniais e pós-coloniais. 76 História Contemporânea Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • compreender acontecimentos que influenciaram o mundo durante o século XX, a relação entre a bipolaridade EUA x União Soviética e a mundialização; • analisar temas políticos, culturais e sociais da Ásia; • estudar os movimentos de 1968 como representantes de direitos sociais e políticos e relacionados ao tempo presente; • estudar perspectivas decoloniais da América contemporânea em relação a blocos, sociabilidades e concepções de gênero e de diversidade. Objetivos de aprendizagem 4.1 A Guerra Fria e a bipolaridade Vídeo É necessário compreender como a bipolaridade política vivida no con- texto da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética causou novos acordos geopolíticos para as guerras e para a economia, a fim de pensar o mundo do século XXI. Com esse conceito, entendemos que o mundo viveu processos históricos que expressavam direta ou indiretamente as divergên- cias entre esses países, à luz de uma tendência político-econômica, seja ca- pitalista ou socialista. Como exemplo das relações entre acontecimentos, mantendo continuidades e transformações, em fevereiro de 2022, quan- do a Rússia, ex-União Soviética, invadiu a Ucrânia novamente – a primeira vez foi em 2014 na invasão à Crimeia –, a China manteve-se neutra, porque historicamente quase sempre apoiou a Rússia. Essa divisão radical entre Estados Unidos e Rússia tem como ori- gem, portanto, a Guerra Fria. Esta teve início com as diferenças entre dois blocos políticos: o da União Soviética, com um sistema econômico socialista que defendia os interesses vistos como coletivos, e o dos Es- tados Unidos, o qual defendia uma economia capitalista neoliberal e in- dividualista. Ambos haviam lutado juntos na Segunda Guerra Mundial. Para Kissinger (2012), a divisão da Alemanha em quatro zonas e o enfraquecimento de potências como França e Inglaterra mudaram a configuração dos países mais proeminentes do globo. Ao mesmo tem- po, na Conferência de Potsdam (1945), um dos marcos de encerramen- Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 77 to da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos apregoavam que a União Soviética poderia desejar a expansão de seu socialismo e o do- mínio de outros territórios, como Stalin fazia com o oeste de seu país (KISSINGER, 2012). Para esse autor, apesar da falácia dos Estados Uni- dos em promover limites à União Soviética, esta impôs o “realpolitik”, um caráter hegemônico para suas intenções de avanço territorial. Mas, como qualquer acontecimento, não é no período imediato da Segunda Guerra que se compreende essa divisão, característica da Guerra Fria. Nos anos seguintes, termos como totalitarismo e democra- cia/mundo livre começaram a ser vistos como antagônicos e sinônimos dessas potências, respectivamente da União Soviética e dos Estados Unidos (HOBSBAWM, 2005). Além disso, a presença de duas agências de espionagem, a KGB (Comitê de Segurança do Estado), da Rússia, e a CIA (Agência Central de Inteligência), dos EUA, começaram a ganhar visibilidade, o que reforçou a ideia de disputa internacional. O termo fria está relacionado à postura de ambos os países, mas, segundo Hobsbawm (2005, p. 234-235), em especial à dos Estados Unidos: se alguém introduziu o caráter de cruzada na Realpolitik de confronto internacional de potências, e o manteve lá, esse foi Washington [...] A ameaça constante de guerra produziu movimentos internacionais de paz essencialmente dirigidos contra as armas nucleares, os quais de tempos em tempos se tornaram movimentos de massa em partes da Europa, sendo vistos pelos cruzados da Guerra Fria como armas secretas dos comunistas. Com a mesma importância, é preciso considerar que os Estados Unidos já tinham armamento nuclear desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando radicalizou duas cidades japonesas para demonstrar seu poderio armamentista, mas o mesmo não ocorreu com a União Soviética, cuja aderência ao armamento nuclear foi apenas em 1953. No entanto, Stalin também instituiu nos anos seguintes sua política “pan-eslavismo” socialista, que seria a união de todos os países de raízes eslavas, estimulando a aderência de grupos pró-Estados Unidos a alguns países, como os que já faziam parte do Plano Marshall, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), da Doutrina Truman, uma política inter- nacional anticomunista criada em 1947, e da CEE (Comunidade Econômica Europeia), criada em 1957 e de onde é firmada a União Europeia em 1993. A União Soviética, por sua vez, criou o Conselho para Assistência Eco- nômica Mútua (Comecon), além da Organização do Tratado de Varsóvia 78 História Contemporânea (complemento da Comecon), mais conhecido como Pacto de Varsóvia. Este foi criado em 1955 em resposta à OTAN, oferecendo uma aliança militar entre Polônia, União Soviética e todas as repúblicas socialistas li- deradas pela URSS. É importante considerar o lugar da China no período após a Segunda Guerra. Ela viveu um conflito civil entre comunistas (liderados por Mao Tsé-Tung) e capitalistas. Os capitalistas, derrotados, foram obrigados a viver em Taiwan, onde fundaram o governo de Chiang Kai-shek, reconhe- cido pelos Estados Unidos e pela Organização das Nações Unidas (ONU). A República Popular da China, nome oficial da China, por sua vez, aliou-se com a União Soviética já nos anos seguintes, entretanto, atual- mente, mantém-se neutra em muitos acontecimentos que envolvem a Rússia e pelos quais os russos são criticados. Além disso, a China mantém relações com diversos países no século XXI, inclusive com os Estados Unidos, com quem tem uma relação mais próxima por interes- ses econômicos, mesmo sendo sua rival. Tanto o reconhecimento de Taiwan quanto a relação entre China e União Soviética são determinantes para compreender o início do que seria entendido como bipolarização. Nesse período, a China teve conflitos com países vizinhos, como a Índia, o Vietnã, o Paquistão e até mesmo com a União Soviética, quando lutaram em 1969. No entanto, com exceção desta vez, em todas as outras houve uma ajuda mútua entre os dois países. De maneira geral, a Guerra Fria e sua bipolaridade começam com ini- ciativas majoritariamente norte-americanas de apoio a independências de países influenciados ou de teoria socialista. Mas a União Soviética também tomou decisões que potencializaram a disputa, pelo menos em duas situa- ções: na Guerra do Vietnã (1955-1975), com financiamento por meio do en- vio de armas e dinheiro,e no apoio à Revolução Cubana, em 1959. Apesar disso, Vietnã e Cuba, provenientes do Terceiro Mundo, e outros países não compactuaram oficialmente com políticas econômicas comunistas nem ca- pitalistas, embora focassem teorias que priorizassem a igualdade social, e por isso havia uma leve inclinação à esquerda, como evidenciou a Confe- rência de Bandung. Ao mesmo tempo, era perceptível que o liberalismo norte-americano defendia o fim da colonização dos impérios francês e britânico, visto que desejava influenciar esses mercados de consumidores e de trabalhado- res. Apesar dessa postura, os Estados Unidos foram obrigados a apoiar a França contra a independência do Vietnã, liderada pelo Partido Comunista do Vietnã (Vietcongue). No entanto, a relação com a França era bastante tênue, visto que ela atacou o Egito em 1956 (uma ação desaprovada pelos Estados Unidos), retirou-se da OTAN, expulsou a sede americana de Paris e cogitou a criação de armas nucleares, mas não seguiu com a ideia. Desde a Segunda Guerra Mundial, países como França e Inglaterra haviam perdido força com suas colônias na Ásia, na África e no Oriente Médio. É dessas regiões que saem as primeiras organizações institucio- nais que reconhecemos como Terceiro Mundo, reunidos pela primeira vez na Conferência de Bandung. É importante ressaltar o acontecimento conhecido como Crise do Petróleo, ocorrido no dia de Yom Kippur, em 1973, no qual os países que eram membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) aumentaram os preços do barril deste produto em até oito vezes, porque o Egito e a Síria exigiram de Israel o território tomado em 1967, na Guerra dos Seis Dias. Como retaliação, principalmente aos países do Ocidente que apoiavam Israel, o petróleo causou uma recessão econômica mundial devido à grande utilização de transportes e componentes necessários para industrialização, ao mesmo tempo que os expor- tadores ganharam muito mais dinheiro em razão do alto preço do petróleo. Esse processo ficou conhecido como excesso de liquidez, pois os bancos internacionais emprestaram dinheiro a juros baixos a países do Terceiro Mundo (Brasil, por exemplo) e outros da Eu- ropa Oriental (como Polônia e Grécia). Essa ação tornou o dinheiro ainda mais global por meio de ações e empréstimos internacionais. Já a China teve uma guinada ao comunismo a partir do gover- no de Mao Tsé-Tung, iniciado em 1949, que promoveu a chamada Revolução Cultural (1966-1976). Nesse período, toda cultura disse- minada no país, seja prática econômica, política ou social, deveria estar voltada para os interesses socialistas/comunistas. Cr éd ito : T on yV 31 12 /S hu tte rs to ck Guerra Fria, descolonização e a geração 1968Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 7979 80 História Contemporânea O maoismo, corrente baseada no pensamento de Mao Tsé-Tung, preva- leceu entre 1966 e 1976 e causou retrocesso econômico, fome e, especial- mente, resistências ao governo. O Agosto Vermelho foi o primeiro período de movimento contestatório, iniciando uma série de massacres, e teve como sede a Praça Celestial, em Pequim, que se tornou um lugar de memó- ria com diversas manifestações até o fim da década de 1980. O caráter autoritário da República Popular da China também é evi- dente na sua relação com Hong Kong. Historicamente essa ilha já foi um dos maiores portos de comércio do mundo e pertenceu à Inglaterra no período colonial até 1997. Desde a Guerra do Ópio (1839-1942), quando a China perdeu o território para os ingleses, a ilha foi procurada por exi- lados e pessoas que fugiam do regime chinês, nem sempre comunista. No entanto, essas imigrações fomentaram uma hostilidade em relação à China, especialmente com o crescimento do regime comunista. Hong Kong viveu um crescimento econômico exponencial em rela- ção ao mundo sob jurisdição de uma economia capitalista neoliberal, o que acarretou a extenuação e resistência de muitos trabalhadores. O Japão também dominou Hong Kong durante a Segunda Guerra Mun- dial por três anos. Quando os japoneses perderam a guerra, a ilha retornou à tutela inglesa. Esse destaque econômico é relacionado à li- berdade de Hong Kong em relação à China. Em 1997, a China exigiu a retomada de Hong Kong, oferecendo, na época, liberdade de imprensa e liberdade econômica, mas com a polí- tica externa e interna determinada pela China. Hong Kong passou a ser uma Região Administrativa Especial, como também é Macau. Porém, a hostilidade secular, potencializada pela bipolaridade da Guerra Fria, permanece entre as duas regiões. Desde 2014, com a revolução dos guarda-chuvas, período em que manifestantes usavam guarda-chuvas contra o excesso de sprays de pimenta ao contestarem sobre o direito de escolher de modo autôno- mo o chefe do executivo, há inúmeros casos de movimentos e contes- tações de parte da população da ilha cercados de denúncias e casos de censura ao direito individual e à própria liberdade de imprensa. Não menos importante, é preciso considerar as manifestações de moradores de Hong Kong, em 2019, referentes a um projeto de extra- dição defendido a partir do assassinato de uma jovem no território de Taiwan pelo seu namorado de Hong Kong. O chefe de governo do pe- ríodo era pró-China e desejava extraditar o assassino de Taiwan, visto que a China não reconhece o governo de Taiwan. O entrave se dá com a população que vê no projeto uma jurisprudência para que a China passe a exigir a extradição de vários políticos e intelectuais que criticam o seu governo. Assim, pessoas foram às ruas contra essa lei, a fim de assegurar a autonomia de Hong Kong. Além disso, uma Lei de Seguran- ça Nacional, que proíbe qualquer manifestação política, foi aprovada em 2020 sem que a população soubesse de seu conteúdo, pois estava proibida de se reunir devido às restrições causadas pela pandemia. As relações políticas conflituosas e autoritárias decorrentes da Guerra Fria não são apenas com a China, pois o Japão sempre manteve seu in- teresse imperialista, inclusive nesse período. Assim, é preciso considerar que o Japão havia tomado a Coreia (1910) antes da Segunda Guerra Mun- dial (1939-1945) e, com a sua derrota, a Coreia poderia novamente pensar em autonomia política. No entanto, o que ocorreu foi uma divisão entre a União Soviética (parte Norte) e os Estados Unidos (parte Sul), a fim de “pacificar o país” logo após a Segunda Guerra. Portanto, a tal autonomia só chegou depois de uma divisão causada pela bipolaridade daqueles países e, nesse caso, condicionada pelos elementos “capitalista e comunista”. Apoiados pela ONU e marcados pela divisão no território coreano, os Estados Unidos defenderam uma união entre as Coreias e enviaram munições e milhares de soldados à Coreia do Sul quando esta já estava invadida e quase tomada totalmente pela ação de soldados da Coreia do Norte (armados e apoiados pela União Soviética) e pela presença de guerrilhas desde antes de 1950. A intromissão norte-americana causou outra, a da China, quando a Coreia do Norte estava perdendo a guerra. Foi somente em 1954 que esse conflito acabou, quando todos esses países estrangeiros se retiraram do território coreano com a assinatura de um armistício, depois de três anos de guerra e de ambas as Coreias fazerem suas opções políticas. Ainda no fim dos anos de 1970, acordos menores entre as duas po- tências da Guerra Fria começaram ser estabelecidos, sendo que o prin- cipal, o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF), ocorreu em 1987 – assinado por Mikhail Gorbachev e Ronald Reagan – e cessava a produção e manutenção de mísseis de meio alcance. Para Hobsbawm (2005), esse é o marco do início da derrota da URSS, visto que sua organização social era socialista (com centralidade em temas ligados ao coletivo), mas sua política era capitalista, de característica individual. za po m ic ro n/ Sh ut te rs to ck Guerra Fria, descolonização e a geração 1968Guerra Fria, descolonizaçãoe a geração 1968 8181 82 História Contemporânea 4.2 Descolonização e emergência do Terceiro Mundo Vídeo O princípio de autodeterminação dos povos, gerenciado pela ONU, definiu que nenhum povo deveria mais estar sob a tutela de outro ou ao menos que tenha seu interesse atendido por ele. Quando a ONU foi fundada, em 1945, mais de 750 milhões de pessoas estavam em terri- tórios colonizados. Com o processo de descolonização, menos de dois milhões vivem atualmente nessa situação (ONU, 2022). Concomitante ao início da Guerra Fria, deu-se o processo de desco- lonização. Para pensar a política e a cultura nesse processo do Terceiro Mundo é necessário considerar a reação ao imperialismo, em especial o inglês e o francês. Edward Said (2011) defende que obras de intelec- tuais desses países demonstravam uma relação intrínseca entre cultu- ra e império, visto que seus autores são frutos da experiência social e política que é a colonização. Essa preocupação está relacionada a uma perspectiva teórica e acadêmica, o pós-colonialismo. Para Said (2011), muitos intelectuais já evidenciavam em sua escrita os elementos de raça ou de uma “cultura inferior”, justificando o domínio de outras terras, isto é, a cultura desses países imperialistas era racista e etnocêntrica, e esses aspectos estariam na resistência para uma desco- lonização. Portanto, para ele, a cultura (e sua resistência) deve ser politi- zada. Tanto os britânicos quanto os franceses foram classificados como possuidores da tradição do orientalismo, a qual é entendida como uma forma de ver o Oriente de acordo com a perspectiva europeia, de coad- juvante do processo de mundialização (SAID, 2011). Da mesma forma que aconteceu com a América, o Oriente é o inimigo a ser dominado, e o seu conceito, por sua vez, é forjado pelo pensamento cultural europeu. Um dos pontos centrais dessa discussão é que a ideia ou noção de “outro” sempre parte de um centro europeu, ou ocidental, e tudo o que se opõe a este é oriental. Isso se dá pelo vocabulário, pelo comportamento em relação ao corpo, pelas práticas religiosas e ins- titucionais e pelo conhecimento e ciência, inclusive no âmbito aca- dêmico. No entanto, compreender que tanto o Ocidente quanto o Oriente são construções discursivas (e políticas) não elimina tudo o que se sabe ou como se julga essas regiões geopolíticas. Said (2007) considera que é preciso um “filtro” para entender como uma realida- Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 83 de corresponde a outra com níveis e relações de poder complexas, ou aquilo que ele chama de: experiência histórica do império como algo partilhado em comum. A tarefa, portanto, é descrevê-la enquanto relacionada com os indianos e os britânicos, os argelinos e os franceses, os ocidentais e os africanos, asiáticos, latino-americanos e austra- lianos, apesar dos horrores, do derramamento de sangue, da amargura vingativa. (SAID, 2011, p. 24) É esse Oriente que se mostra, que se descobre e se desdobra no processo de descolonização construído pelo Ocidente, mas também com a agência (autonomia) daqueles que foram colonizados e sua ne- cessidade de autonomia política e de pensamento. Tanto uma nova or- ganização política ocorreu com preocupações expostas na Conferência de Bandung quanto intelectuais passaram a pensar sobre esse proces- so. O sociólogo Stuart Hall (2003) complementa ao evidenciar o pós- -colonialismo como uma ideia que representa a colonização enquanto processo que faz parte da história global, para além das fronteiras de um continente ou de um país. Assim, essa escrita pós-colonial é des- centrada, diaspórica e questiona as narrativas imperiais. Pensar dessa forma também não é negar o passado colonial. Assim, mesmo que sociedades com suas práticas identitárias e sua concepção de conhecimento, de organização e de escrita permaneçam com aspectos coloniais, o pós-colonialismo objetiva repensar as construções discursivas inseridas até mesmo dentro de uma nova realidade sob novas expres- sões, como países subdesenvolvidos, subalternos e marginais (HALL, 2003). A ideia de subalterno é lembrada por Spivak (2010) que conside- ra o reconhecimento da literatura de Said uma vitória do “outro”, ou seja, o destaque ao oriental, ao pobre, ao negro, ao proveniente do Hemisfério Sul, ao latino-americano, que não tinham lugar nos discursos hegemônicos europeus. Aliás, questiona-se: existe um ou- tro? Ou existe a raça humana? No entanto, na medida em que esse “outro” ganhou liberdade ou independência para seu país, ele tam- bém começou a narrar sobre si mesmo e a questionar se deveria pensar como “outro”, ou apenas construir espaços para falar, ouvir e se igualar como pessoa. O que esses países fizeram na política e os intelectuais, na acade- mia, foi questionar as posições discursivas e arrogantes narradas sobre eles. Não menos importantes são os sujeitos que questionaram por Sugerimos o especial Consciência Negra, da terceira temporada do podcast Atlântico Negro, para acompanhar uma conversa com a escritora e intelectual reconhecida Conceição Evaristo que envolve temas como a pandemia causada pela Covid-19, a ancestralida- de, a afetividade e ques- tões negras e geracionais. Podcast meio dos movimentos sociais sobre seus direitos civis, baseados direta ou indiretamente nos processos de descolonização. É importante ressaltar que embora alguns países mal tenham lutado para evitar a descolonização, como é o caso da Inglaterra (mitigada pela Segunda Guerra Mundial), eles desejavam e exigiam a manutenção de suas influências (coloniais, políticas, sociais etc.), instituições e até mesmo grupos sociais inseridos entre os novos independentes. Nesse caso, o principal país que concorria com os antigos colonizadores eram os Estados Unidos. Eles sofreram uma derrota dura com a derrubada do governo cubano de Ful- gencio Batista em 1959, em que Fidel Castro instituiu um governo comunis- ta no “quintal dos Estados Unidos” ainda no ano seguinte. Como resposta aos ataques norte-americanos, os cubanos uniram-se com a União Soviéti- ca até sua dissolução, mantendo uma relação política e econômica sólida. A Guerra do Vietnã (1955-1975) é um dos acontecimentos mais im- portantes desse período. Não apenas porque evidenciou a bipolaridade do tempo ou pelos longos anos de guerra que dizimaram milhares de vietnamitas e vietcongues, mas porque a presença do Partido Comu- nista não poderia ser considerada como a ganhadora na indepen- dência do Vietnã, visto que a interferência francesa capitalista permanecia na colônia, apesar da descolonização. A França aceitou em 1954 a divisão do território em dois, na qual o norte seria governado pelos vietcongues comunistas, enquanto o sul, capitalista, estava apoiando e sendo apoiado pela França. No entanto, após 1961, com as investidas dos vietcongues para dominar o sul, em razão da diferença partidária, os Estados Unidos também se envolveram na história, oferecen- do inúmeras armas para manter essa região sob influência do Ocidente. Assim, os Estados Unidos empreitaram uma dura guerra a partir de 1964, da qual foram obrigados a se retirar em 1975 após inúmeras críticas prove- nientes desde os movimentos de 1968, como o armamento pesado utiliza- do contra povos simples ou mesmo por não conseguirem dominar de fato o Vietnã do Norte. Apesar das perdas humanas e materiais do Vietnã, o país foi unificado sob o governo comunista, política econômica vietcongue. O Vietnã fica localizado na Península da Indochina, uma a região que, no contexto da Guerra do Vietnã, envolvia países como Laos, Camboja, Viet- nã e parte de Myanmar e Tailândia. Saiba mais Ke ith T ar rie r/ Sh ut te rs to ck 8484 História ContemporâneaHistória Contemporânea Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 85 A Angola, no continente africano, também foi laboratório das disputas da Guerra Fria, quando após sua independência, em 1975, os grupos que haviam conquistado a liberdade passarama disputar entre si em razão de diferenças étnicas ou políticas mediadas por influências colonizadoras. De um lado, o Unita (União pela Indepen- dência Total de Angola), apoiado e armado pelos Estados Unidos, e de outro o MPLA (Movimento pela Libertação de Angola), apoiado por Cuba e União Soviética. Assim, surgiu em 1955, na cidade de Bandung (Indonésia), o Mo- vimento dos Países Não Alinhados (MNA) durante a Conferência Ásia-África. O objetivo principal era “desprender-se” das amarras políticas estrangeiras, fossem capitalistas ou comunistas. Os 29 paí- ses reunidos, e que voltaram a promover encontros nas décadas se- guintes, defendiam não ceder às pressões estrangeiras de qualquer natureza e apontavam-nas como ferramentas do neocolonialismo (MIGNOLO, 2017). 4.3 Gerações 1968 e a contracultura: resistência e utopias Vídeo O ano de 1968 é considerado um marco para a historiografia, por- que os movimentos em busca de direitos sociais e civis estavam relacio- nados às crises econômicas, à emancipação do sujeito como portador de agência, às independências e à decolonização do pensamento, ou seja, ao questionamento de conceitos epistemológicos e institucionais impostos a povos colonizados. Havia uma oposição à interferência norte-americana no Vietnã pela sua intromissão em um contexto e em um território que não eram seus e pela crueldade empregada contra povos simples. Além disso, a atuação dos mo- vimentos negros e feministas davam seus primeiros sinais na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina, as guerrilhas se opunham às ditaduras civis militares, e a Revolução Cultural chinesa – embora maléfica para a eco- nomia – permitiu que a juventude tivesse mais voz e direitos, especialmente ligados à educação. Estes foram movimentos que demonstraram o desejo por autonomia dessas regiões, inclusive de pensamento. Na Alemanha, por exemplo, as revoltas se deram, em sua maioria, em Berlim, com censura de governos locais aos participantes cujas faixas defendiam a discussão de problemas como a dominação de clas- se, de gênero, de etnia etc.; a falta de ética na ciência e na medicina; questões de sexualidade e de direito ao corpo etc. Já nos Estados Unidos, a rejeição dos americanos era forte em relação à sua ação no Vietnã, com acusações e denúncias de que estudantes nas universidades eram cooptados para fazerem pesquisas pró-armamentos e lutarem em uma guerra injusta, sanguinária, tanto com eles quanto com os vietcongues/vietnamitas. Com essa pauta, esses estudantes questiona- vam o papel da universidade e sua função social frente à participação em assuntos bélicos. Com base nisso, novas teorias como a Psicanálise, a Teoria Crítica e o Marxismo ganharam mais amplitude, a fim de se compreender as trans- formações sociais necessárias àquele tempo. No Colégio de Tlatelolco, importante lugar de memória asteca na Cidade do México, cerca de 300 estudantes foram mortos pouco antes do início das Olimpíadas de 1968, porque contestavam um governo ditatorial (THIOLLENT, 1998). A oposição global foi conduzida por intelectuais, políticos e prin- cipalmente estudantes universitários, e, em um primeiro momento, espalhou-se pela França a partir de Paris em maio de 1968. No caso dos franceses, as questões essenciais eram os conflitos no Vietnã e na Argé- lia, cujo processo pela independência foi negado, depois de originalmen- te ser apoiado. No entanto, Charles de Gaulle, que era o general-chefe de Estado à época (1959-1969), defendia uma total autonomia de seu país, resistindo aos blocos como o da Comunidade Europeia e o da ONU. No governo de Gaulle, apesar do crescimento industrial, o desem- prego aumentou principalmente por conta da entrada em massa de estrangeiros vindos de ex-colônias e da África. Assim, estudantes co- meçaram a questionar dois aspectos: as reformas que dariam ao en- sino um caráter mais técnico e o mercado de trabalho que, dadas às Di eg o Gr an di /S hu tte rs to ck Praça das Três Culturas, na Cidade do México. 8686 História ContemporâneaHistória Contemporânea Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 87 condições de desemprego, não oferecia a todos uma oportunidade, mesmo a formação universitária sendo considerável. A africanidade e a latinidade também ecoaram nesses movimentos. Um pensamento vem de Frantz Fanon, imigrante do Terceiro Mundo que percebeu que seu corpo era negro, como podemos ver na expressão “Oh corpo meu, faz de mim, sempre, um homem que se interrogue!” (FANON, 1979, p. 192). Fanon chegou a Paris na década de 1960 e, nesse contexto, começou a debater sobre a ideia de um corpo racializado, re- sultado de uma colonialidade. Sua ideia de desobediência epistêmica 1 veio por meio do conceito de sociogênese, cuja perspectiva central é a de que o preconceito racial não surge pela cor, mas pelo mundo social, ideia reforçada no contexto de 1960, quando, apesar das conferências como a de Bandung e dos movimentos identitários locais e contestadores, ain- da sentia efeitos na pele devido à sua cor negra. Esse pensamento gera ideias de que os negros são seres menos racionais e por isso inferiores. Assim, se a estrutura social não fosse questionada como um todo, brancos e ex-colonizadores continuariam a ter vantagens ocasionadas pelo sistema colonial (FANON, 1968). É importante ressaltar que movi- mentos nacionalistas, como o de Charles de Gaulle, eram também ques- tionados por Fanon, visto que para ele “o nacionalismo ortodoxo seguia pela mesma trilha aberta pelo imperialismo, que, parecendo conceder autoridade à burguesia nacionalista, estava na verdade estendendo sua hegemonia” (apud SAID, 2011, p. 346). Com base nessa ideia, embora haja uma abertura para a liberdade de pensamento, ela ainda poderia ser apontada como racista e classista, excluindo os novos sujeitos sociais. Angela Davis (2016) aprofunda a questão negra e feminista nos anos de 1960 e 1970 ao analisar a participação das mulheres negras escravas no tra- balho de campo e no processo abolicionista. Ao fazer tal análise, ela aponta como a historiografia anulou a presença dessas mulheres na história, bem como designou outros comportamentos e lugares para elas. Além disso, a historiografia não analisou ou problematizou a separação que essas mulhe- res tinham de seus filhos logo que eles nasciam, pois elas precisavam traba- lhar, nem mesmo o processo de venda desses filhos, o que fazia com que fossem apontadas como mulheres reprodutoras, ausentes de feminilida- de e desconsideradas como pessoas pela própria historiografia. Portanto, questões ligadas à estética, à maternidade e, principalmente, às tarefas do lar se tornaram cada vez menos importantes e, no caso desta última, sem remuneração. A desvalorização das tarefas cotidianas do lar relegou às mu- Questionamento da teoria acadêmica por ser eurocentrada. 1 O livro Mulheres, Raça e Classe debate questões interseccionadas e ligadas às opressões direciona- das a grupos marginais, em especial às mulhe- res, pobres e negras. Discute as relações com a escravidão, bem como o desinteresse proposital do Estado em ter políticas públicas que busquem sanar os problemas e não apenas minimizá-los. Angela Davis, feminista com atuação constante, foi também militante das Panteras Negras. DAVIS, A. São Paulo: Boitempo, 2016. Livro 88 História Contemporânea lheres de todas as classes no século XX o papel de donas do lar, diminuindo seus direitos trabalhistas, além da sua autonomia. Importa ressaltar que para mulheres negras e pobres, essa invisibili- dade é ainda maior. São questões que formam pautas ainda na década de 2010, como bem lembra a filósofa Djamila Ribeiro (2017, p. 29-30): a recusa a um olhar ortodoxo mantém Davis atenta às questões contemporâneas, que abarcam desde a cantora Beyoncé à crise de representatividade. A discussão feita por ela sobre represen- tação foge de dicotomias estéreis e nos auxilia numa nova com- preensão. Acredita que representação éimportante, sobretudo no que diz respeito à população negra, ainda majoritariamente fora de espaços de poder. No entanto, tal importância não pode significar a incompreensão de seus limites. Para além de simples- mente ocupar espaços, é necessário um real comprometimento em romper com lógicas opressoras. O que Ribeiro (2017) aponta com base na leitura de Davis é o ca- ráter opressor e presente da escravidão imposta pelo projeto colo- nizador ainda nos séculos XX e XXI. Davis (2016) propõe pensar em direitos reprodutivos, privados e trabalhistas para dar equidade às mulheres negras (embora não somente), o que intersecciona ques- tões de gênero e raça a fim de dar a liberdade da sistêmica estrutura colonial existente na América, de modo geral. Parte dos movimentos feministas e negros que surgem com ativis- tas, como Angela Davis, estão relacionados aos direitos civis, além de expressarem uma crítica política e trabalhista (especialmente ao modelo fordista). Eram comuns nesse contexto manifestações, greves e ações sindicais, envolvendo o tema de direitos políticos de negros, como o caso simbólico de Rosa Parks – a mulher negra que se recusou a levantar-se de seu banco de ônibus para dar lugar a um homem branco – e as campa- nhas de conscientização racial de Martin Luther King. A segregação racial passou a ser pauta intelectual e política, interseccionada por elementos em um contexto de profundas mudanças da contemporaneidade. As causas dessas mudanças são desdobramentos da memória da Se- gunda Guerra Mundial, das transformações de 1968, de ações diretas dos movimentos negro e feminista, das ditaduras civis militares etc., ou até mesmo de conceitos como os de identidade e de patrimônio que se tornaram comuns para os novos e velhos espaços de museus, arquivos e centros de memória, e para a própria concepção de conceito e de histo- Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 89 riografia no Brasil e na América Latina. No Brasil, a disputa pela memória se deu mais no terreno da Comissão Nacional da Verdade, fundada em 2011, e nas discussões teóricas acadêmicas. Assim, o trabalho dos historiadores se ampliou, visto que são neces- sários também nesses espaços, deixando de ser exclusivos do ambiente acadêmico. Foi diante dessas novas pautas, envolvendo temas como os estudos de gênero e de movimentos sociais, que se formou uma cons- ciência na classe historiadora: a de que nossa função é também política, pública e de ordem pragmática. Para além de sermos teóricos e inte- lectuais, também somos agentes. Pensar a partir de novas teorias, as quais não apagam as mais clássicas ou utilizadas até então, é permitir um olhar multicultural e mais decolonial, tema da próxima seção. 4.4 Decolonialidade do ser Vídeo Pensar quebras de paradigmas e possibilidades de analisar ques- tões que envolvem a história contemporânea é o objetivo desta seção. Por exemplo, a historicidade da América Latina formou um tipo de so- ciedade com problemas decorrentes do processo de colonização em si. É importante mencionar que por historicidade se entende a trajetória de um conceito, nesse caso, o da América Latina, ou seja, como ela se formou, em que contexto histórico foi definida a nomenclatura e o que ela acarreta e significa no século XXI. Foi apenas após a Conferência de Bandung (1955) que grupos po- líticos e intelectuais passaram a pensar que as teorias que explicavam suas estruturas – sejam elas sociais, políticas, econômicas ou culturais – também eram colonizadoras. Assim, o que tínhamos eram “corpos” co- lonizados, tanto no modo como nos vemos (colonialidade do ser para a teoria decolonial) quanto na maneira como nos definimos e organiza- mos nosso mundo social (colonialidade do poder e do conhecimento). No entanto, antes do debate do grupo de Bandung é preciso lembrar acontecimentos e teorias decorrentes dele que afetam a historiografia, como a crise dos modelos universalistas cuja epistemologia tem um lugar que, em geral, é regional e europeu, bem como o surgimento de uma teo- ria pós-colonial. Essa crise desterritorializou sujeitos e suas pautas identitá- rias, e gerou reivindicações por novas temporalidades e reconhecimento de uma diversidade étnica (PEREIRA, 2018). Os novos comportamentos geraram 90 História Contemporânea perspectivas múltiplas de memória, que questionaram as heranças coloniais homogeneizantes, isto é, responsáveis pela marginalização de comporta- mentos que sobressaíam ao eixo dominador, branco, cristão e europeu. Esse modelo dominador não é só instituído no mundo social, mas é próprio da historiografia também, visto que a História é uma disciplina de origem europeia. No caso do Brasil, também é possível considerar as ideias de Rodrigo Turin (2018) que defende o diálogo horizontal, ou seja, como iguais, com os coletivos de memória e, em especial, a desconstrução de uma narrativa oficial de passado. Frisamos que não se trata do uso neoliberal de um mundo multicultural, flexível, produtivo etc. que influencia até mesmo o campo educacional, mas do uso de perspectivas baseadas em característi- cas que questionam o que é de historicidade colonial, patriarcal e branca. O sentido da História e de seu objeto de pesquisa, as sociedades e a relação com o seu tempo e espaço passaram a buscar uma perspecti- va ética condizente com o contexto. Para tanto, revisões bibliográficas, seja à luz de teorias da história global, da história decolonial (de origem latino-americana nos anos 1990), pós-colonial etc., são necessárias. O pós-colonialismo é a teoria que intelectuais começaram a debater após a descolonização da Ásia e da África. Por volta da década de 1960, as discussões eram sobre o futuro desses países para além de ques- tões econômicas e políticas, isto é, eram também sobre como quebrar as relações e pressões vistas como negativas pelos seus antigos colo- nizadores. A principal diferença para a teoria decolonial é que não se questiona em geral a epistemologia do pensamento pós-colonial, em que os intelectuais poderiam ter formação, serem oriundos ou até de- fenderem a relação próxima com os colonizadores. A teoria decolonial sugere uma quebra de pensamento e de relação com os colonizadores. O que se tem de centro nesse pensamento é o debate sobre cidadania, direitos humanos, individualismo, igualdade, sujeitos sociais e civis à luz de uma teoria que é também europeia (o historicismo) e que deve ser ques- tionada por meio de uma história local que substitui os centros da Moder- nidade. O historiador Chakrabarty (2008) defende que a ideia de processo conduz uma discussão cujo cerne é uma experiência histórica abstrata que está nos centros, por isso outros lugares que também desejassem estar nesse processo, que é o modelo de modernidade europeu, precisariam se apropriar dele, mesmo que de maneira inferior ou atrasada. Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 91 O historiador Fernando Nicolazzi (2019), em seu texto Culturas de pas- sado e eurocentrismo: o périplo de tláloc, contribui com a perspectiva, com base na ideia de Eclea Bosi, sobre haver uma dimensão temporal nas no- ções de cultura. Nesse caso, cultura é sempre um resultado de práticas ou existência de memórias sobre algo, como a própria ideia de que cultu- ra é um trabalho que se “dá na terra”. Assim, a memória é construída na relação entre tempo e práticas, mas sempre em processo de reinvenção e rememoração. Com isso, Nicolazzi (2019, p. 27) compreende que “pen- sar sobre as culturas de passado, no sentido de um cultivo simbólico de experiências pretéritas, permite, inclusive, atentarmos para os próprios usos da história que fazemos e que são feitos na sociedade”. Portanto, para Nicollazi (2019), as culturas do passado são um artefato cultural com regimes de produção e de regulação em cada sociedade, em cada tempo. O sujeito percebe o que tem de cultura quando analisa sua própria prática dentro de um espaço temporal e, da mesma forma, a re- lação entre passado,presente e futuro são culturais. O passado ganha as- sim um caráter performativo e plural, podendo ser mobilizado em lugares e contextos diversos como performances particulares. O historiador usa como exemplo o Périplo de Tláloc, um monólito sem sentido para uma comunidade camponesa mexicana até os anos 1960, quando uma polí- tica nacionalista memorial e patrimonial elegeu a pedra como elemento significativo para culturas mesoamericanas. Além do debate arqueológi- co sobre a qual deus se referia e qual a sua posição ideal (se vertical ou horizontal), a pedra que antes servia para acúmulo de água à população local passou a ser vista como representante de uma etnia que até aquela década era desconhecida ou negada por aquela população. Lembramos que a própria ideia de América Latina é resultado de um debate intelectual com a participação de poucos intelectuais que não se identificavam com os princípios europeus. Para Farret e Pinto (2011, p. 31): a construção do nome deixou na penumbra e no esquecimento qualquer tentativa de valorizar os povos autóctones, indígenas ou negros. Sempre da perspectiva europeia, a América Latina foi se estabelecendo no mundo ocidental moderno como periferia, inferiorizada e explorada. Quando latina deixou de ser um adjetivo e passou a ser substanti- vo, isso ocorreu sob uma estrutura política e intelectual europeia. Sua posição era de inferioridade a esse continente e aos Estados Unidos, demonstrando que a disputa em relação ao termo estava condicionada A animação Pachama- ma se passa em uma comunidade andina, cuja vivência cosmológica com a natureza é evidenciada por meio da trajetória de um menino que busca encontrar uma estatueta sagrada pela Cordilheira dos Andes. Direção: Juan Antin. França; Luxemburgo; Canadá: Folivari; O2B Films; Doghouse Films, 2018. Filme 92 História Contemporânea aos efeitos da Doutrina Monroe, a qual apregoava que a América era para americanos e não para servir aos interesses de outros continen- tes, ao mesmo tempo que características dos povos nativos e negros eram ignoradas. Apesar disso, ainda no século XIX, intelectuais como Francisco Bilbao (2014) questionavam essa intromissão europeia e norte-americana e defendiam a liberdade política e de pensamento da América Latina. Para ele, o individualismo, o modelo de república, o capitalismo e o protestantismo dos Estados Unidos eram suficientes para não desejar o seu modelo político, porque este se sobrepunha aos modelos de povos originários – que já haviam sido atacados pelo cristianismo português e espanhol. Para Bilbao (2014, p. 94-95): Mas a América vive, a América Latina, saxã, e indígena resistente, e se encarrega de representar a causa do homem, de renovar a fé do co- ração, de produzir enfim, não repetições, mais ou menos teatrais da Idade Média, com a hierarquia servil da nobreza, senão a ação per- pétua do cidadão, a criação da justiça viva nos campos da República. Bilbao (2014) expõe uma crítica à influência europeia de modo geral, mas demonstra que aceita república como se o termo oferecesse um novo marco para os povos que eram e formaram a América Latina. O termo latina passa a ser um sinônimo disso, e não apenas das línguas europeias mais antigas. A dificuldade em definir a América Latina, em pensar a própria di- versidade dessa região para além da colonialidade, é potencializada por consequências da própria colonização. Uma das ideias centrais para os decoloniais como Anibal Quijano (2005, p. 122) é o conceito de raça. Para ele, é decorrente de uma premissa, a de que: a civilização moderna se autocompreende como mais desenvol- vida, superior (posição ideologicamente eurocêntrica); a superio- ridade obriga a desenvolver aos mais primitivos, rudes, bárbaros, como exigência moral; como o bárbaro se opõe ao processo civi- lizador, a práxis moderna deve exercer em último caso a violên- cia para destruir os obstáculos de tal modernização. O mundo só se tornou moderno a partir da construção histórica dos colonizados, cujos princípios se fundamentaram na exploração capi- talista que formou um mundo globalizado e com o trabalho braçal de negros e indígenas. Assim, a América, com sua matéria-prima e força de trabalho, é o que potencializou a globalização e o que condicionou a existência da Europa como centro civilizador do mundo, ao mesmo Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 93 tempo que um dos principais fundamentos foi a ideia de que existem raças superiores e inferiores 2 . Em nome dessa superioridade baseada em uma ideologia sem fundamento, a violência também era justificada. É preciso considerar que princípios como esses tornaram racistas as estruturas das sociedades daquele contexto até o século XXI. Esse período, de 1500 a cerca de 1900 (a independência cubana foi em 1898), estrutura uma supremacia racial inventada por meio da ocu- pação da América pelos europeus, de modo que “poder” e “ser” seriam organizados até o século XXI. A despeito disso, nossa sociedade tem memória social e questiona esses efeitos com os quais convive. Desse modelo, algumas das consequências são a concentração de terras ainda no período colonial, que se estende ao nosso contexto, e perspectivas dualistas como defender ora um sistema europeu, ora não europeu, ora pré-capital, ora capital, sem considerar o que é próprio do mundo social que se constitui na América Latina. Qualquer ideia ligada a um evolucionismo linear ou a uma temporalidade unidirecional anula as múltiplas formas de resistência e de herança do que era próprio desta região. Anular as diferenças é invalidar a forma como os efeitos de con- ceitos como raça e etnia foram naturalizados (QUIJANO, 2005). A perspectiva dualista é sempre de comparação ao que é europeu e, consequentemente, àquilo que também não é, ou seja, visto como inferior e ligado a uma ideia de raça e até de latinidade, se considerarmos os dias atuais. É importante ressaltar que essa dualidade também se dá de modo diverso na América Latina, devido à proporção territorial. Na Argentina, por exemplo, onde parte significativa das terras foi conquistada e organi- zada por governos oligárquicos pouco democráticos até o século XIX, essa situação permaneceu até depois da Segunda Guerra Mundial. Nos últimos 25 anos do século XVIII, o número de imigrantes euro- peus era alto na Argentina e países vizinhos, como o Chile e o Uruguai, mas essa configuração social, com o reconhecimento e interesse de um mercado mundial, só ocorreu a partir do século XVII, pelo fato de estarem mais ao sul (QUIJANO, 2005). Diferente do Chile e do Uruguai, devido a essas condições territoriais, a diferença étnica na Argentina era maior e, apesar disso, a herança histórica latino-americana era ne- gada, bem como a relação com a população indígena. É importante ressaltar que países como México, Argentina e Chile têm reconhecimentos e trajetórias diferentes em relação aos povos Termos como mameluco, pardos, negros, morenos, isto é, institucionalmente reconhecidos ou mesmo populares são decorren- tes em um primeiro mo- mento dessa demarcação racial colonial. 2 94 História Contemporânea originários, mas em todos as diferenças demarcadas social e cultural- mente são visíveis, bem como presenciam movimentos populares con- tundentes no século XXI. Em relação ao México, a pretensa valorização do Périplo de Tláloc tem um interesse patrimonial memorialista e tu- rístico, o que não representa necessariamente uma valorização dos in- dígenas atuais, mesmo quando são reconhecidos como descendentes daqueles aos quais se refere esse lugar de memória. Desse modo, com base em Walter Mignolo (2005), lembramos que desde a conquista e ocupação da América passamos por processos eu- rocêntricos: cristianização, colonização, civilização e modernização que sobrepuseram elementos do Ocidente ao Oriente, do Hemisfério Norte ao Sul. No século XXI, outras consequências disso vêm da globalização neoliberal que: evocaa imagem de um processo indiferenciado, sem agentes geopolíticos claramente demarcados ou populações definidas como subordinadas por sua localização geográfica ou sua po- sição cultural; oculta as fontes de poder altamente concen- tradas das quais emerge e fragmenta as maiorias que atinge. (MIGNOLO, 2005, p. 58) Embora saibamos que diversidades étnicas, raciais e de gênero têm sido pautas de inúmeros movimentos na América Latina, como resposta a esse processo colonizador, é preciso considerar novamente a historicida- de da América Latina e suas transformações no período contemporâneo. Esses grupos ameríndios, por exemlo, resultam de inúmeros que foram escravizados, mortos, que fugiram ou foram transplantados aqui (como os oriundos do continente africano). Além disso, não podemos anular o fato de falarmos línguas latinas, afinal, essa é a nossa forma de comunica- ção mesmo que ela seja fruto de uma prática colonial violenta e repleta de uma cultura de supremacia. Mignolo (2017) sugere o “pensamento fronteiriço” como o compor- tamento do historiador (e de latinas e latinos) para pensar as trans- formações no sul global em nossa contemporaneidade, os corpos racializados, o lugar de enunciação do ser e do poder, bem como a relação de corpo-objeto a corpo-sujeito. Para ele, estar na fronteira é também estar sujeito e disponível para nos desprender do que pen- samos ser nossas raízes e fazer novas perguntas sobre como se deu a organização e a construção da América Latina (MIGNOLO, 2017). ameríndios: indígenas nativo-americanos. Glossário Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 95 Essa perspectiva é diferente de Bilbao, que em seus escritos no sécu- lo XIX reconhecia que a afinidade de origem e cultura colaboraria para formar uma república. Trata-se de compreender o quanto uma ideia ho- mogeneizante apaga a diversidade característica da América Latina, e de refletir o pensamento fronteiriço que é estar nesse lugar de colonizado, adquirindo consciência de suas características identitárias originárias. Como uma das respostas de influência decolonial há a ideia de uma ecologia dos saberes, ou seja, formas de conhecimento que não são ba- seadas apenas na tradição iluminista ou científica europeia (séculos XVIII- -XIX). O que temos é a contraposição a uma monocultura sobre como criar ou gerar conhecimento, não é dar voz aos marginalizados, mas lugar de fala. Um acontecimento destacável como exemplo foi o movimento chileno de 2020-2022, cuja apropriação da imagem dos Mapuches rei- tera a necessidade de trazer a ideia do bem viver 3 para a Constituição do país, que em 2022 passou a ser discutida em plebiscitos. científica europeia: termo de concepção de ciência europeia do século XIX. Glossário O bem viver é a ideia de que é necessário viver em harmonia e reciprocida- de com os elementos naturais. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS Tanto os estudos decoloniais quanto os pós-coloniais vêm colaborando para apreender as transformações globais e como elas acarretaram novos comportamentos e formações geopolíticas durante o século XX. Apesar da distância temporal, essas teorias e acontecimentos têm diversas relações com o nosso tempo e continuam afetando o modo como percebemos a sua organização, e até a própria ideia de globalização e suas consequências. De um mundo de impérios passamos a um mundo de blocos políticos, econômicos etc. Novas relações de poder surgiram, assim como agências sociais questionando noções de comportamento, performances culturais e novas perspectivas de alteridade e de como viver em relação às diferen- ças étnicas, sociais, de gênero, raciais e ambientais. ATIVIDADES Atividade 1 Cite aspectos apontados como indicadores de que a bipolarização do mundo estava começando no período logo após a Segunda Guerra Mundial. 96 História Contemporânea Atividade 2 Explique a importância da Conferência Ásia-África ocorrida em 1955, na cidade de Bandung, para o contexto da Guerra Fria. Atividade 3 Caracterize e conceitue a sociogênese de Frantz Fanon. Atividade 4 A teoria decolonial é mais uma forma de construir uma narrativa plural dos acontecimentos da história. Caracterize três elementos que representam princípios para aqueles que escolhem ter um pensamento mais decolonial. REFERÊNCIAS BILBAO, F. Iniciativa de la América. In: SAN MARTÍN, Á. G. et al. Escritos de la filosofía de la historia americana. Edición de las obras completas tomo 4. ed. Santiago de Chile: El Desconcierto, 2014. CHAKRABARTY, D. Al Margen de Europa: pensamiento pós-colonial y diferencia histórica. Barcelona: Tusquets Editores, 2008. DAVIS, A. Mulheres, Raça e Classe. São Paulo: Boitempo, 2016. FARRET, R.; PINTO, S. R. América Latina: da construção de um nome à consolidação da ideia. Topoi, v. 12, n. 23, p. 30-42, jul./dez. 2011. FANON, F. Piel negra, máscaras blancas. Buenos Aires: Ed. Abraxas, 1979. FANON, F. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S.A., 1968. HALL, S. Da diáspora – identidades e mediações culturais. 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Novas regras do mundo trabalhista, de corporações e a queda do Muro de Berlim transfor- maram o fim do século e a contemporaneidade.ao voto. 1 Ba rtl om ie j R yb ac ki /S hu tte rs to ck O Palácio de Versalhes é a maior representação do poder absolutista da França e, talvez, da pró- pria Europa. Tanto ele quanto os núcleos mais urbanos e rurais viram cabeças rolando e barri- cadas sendo construídas por camponeses. Saiba mais O começo de um século efervescenteO começo de um século efervescente 1111 12 História Contemporânea Com a crise econômica do período que derrubou a família real que ocupava o poder em 1789 – os Bourbon –, houve grande insatisfação de algumas classes. Essa classe se mostraria insatisfeita com a ordem bur- guesa pós-revolução e formaria o que entendemos como novo proleta- riado industrial (HOBSBAWM, 2010). Não menos importantes que a nova classe trabalhadora foram os ares de novas sociabilidades e circulari- dade cultural e social, visto que, após a Revolução Francesa, estudantes e trabalhadores liberais – como advogados, médicos, sapateiros, peque- nos comerciantes etc. – chegavam aos centros das cidades colaborando para gerar novas práticas identitárias nacionais. Portanto, não podemos reduzir o mundo social que emerge após a Re- volução a uma divisão entre o iniciante operariado e a burguesia alta mais tradicional. É um contingente de acontecimentos variados que mudariam o mundo pela derrubada do absolutismo 2 como era representado e, es- pecialmente, pelo modo como o conceito de liberdade foi apropriado e disputado a partir daquele período, um conceito decorrente de lutas de camponeses e trabalhadores urbanos advindos do Antigo Regime. Nesse sentido precisamos considerar, a despeito da interferência e da importância dos movimentos burgueses, o que a historiadora Lynn Hunt reitera sobre a ideia de que os movimentos sociais após a chegada de Napoleão Bonaparte ao poder eram compostos de inú- meros segmentos sociais, como parte da burguesia, dos militares e da própria plebe. Nessa perspectiva, as discussões do que se tornou mais conhecido como política de esquerda (HUNT, 2007) foram as que mais envolveram os grupos marginalizados até então, incluindo a pequena burguesia. Mais que isso, a historiadora afirma que a presença de lojas maçôni- cas e as relações estabelecidas por casamentos colaboraram com as- pectos culturais determinantes para as novas práticas econômicas e sociais. Neste cenário de desigualdades, eclodia uma revolução conhe- cida como o Grande Medo, conduzida por artesãos, pela alta burguesia, por camponeses com terras e participações populares – camadas re- volucionárias mais ou menos abastadas – que perseguiram, pilharam e mataram por toda a França, em busca de vingança da aristocracia e nobreza, bem como para diminuir a fome que assolava o país. O novo contexto pós-revolução não apagou as diferenças sociais e que se tornariam de classe após a tomada de consciência dos grupos O absolutismo foi um sistema político da Europa (séculos XVI a XVIII) em que o soberano era a represen- tação do próprio Estado. 2 Napoleão Bonaparte (1769-1821) foi um líder militar que fez parte do governo francês durante o Consulado, no fim da Revolução Francesa, e como imperador do país entre 1804 e 1814. Biografia O começo de um século efervescente 13 mais populares no que pese a Declaração dos Direitos do Homem e do Ci- dadão – documento criado em 1789 –, cuja promessa era de que: “todos os homens nascem iguais e vivem iguais perante a lei” (HOBSBAWM, 2010, p. 106). Esse documento evidenciou uma perspectiva de direito contra privilégios para os nobres, mas que acabou sendo reformulada em novas configurações, a fim de favorecer burgueses em uma demo- cracia liberal que permite a continuidade das diferenças sociais. O último rei absolutista francês foi Luis XVI, guilhotinado em 1793, alguns anos após o início da Revolução. Com sua morte, ocorreram diversas disputas, especialmente durante a Convenção Nacional (1792-1795), onde jacobinos e girondinos protagonizaram as discus- sões. Os jacobinos, chamados também de pequena burguesia e apoia- dos pelos sans-cullotes (artesãos e pequenos comerciantes sem muitas posses), tornaram-se conhecidos por apresentarem propostas educa- cionais, regulamentação de impostos especialmente para classes mais abastadas e frisarem os lemas da Revolução. Devido ao caráter dita- torial e de perseguição, esse grupo se enfraqueceu, dando lugar aos girondinos, representantes da alta burguesia e apoiadores de uma de- mocracia liberal (HOBSBAWM, 2010). Foi nesse contexto que Napoleão Bonaparte se tornou Imperador em 1804, após liderar o exército fortalecido pela política girondina. Como resultado, havia espólios das pilhagens realizadas por diversos países da Europa. Bonaparte, ao subir ao poder, criou o Consulado (conselho composto da figura de cônsules), cujo poder era dividido por três líderes, sendo Bonaparte um deles. Industrializou parte do país, criou o Banco da França e promoveu políticas educacionais pensan- do em uma formação nacionalista, porém dentro do que é entendido como economia liberal (HOBSBAWM, 2010). É importante ressaltarmos o aspecto nacionalista, pois tanto Napoleão quanto suas invasões pro- movidas em nome do “território francês” são exemplos de medidas de controle aos outros, a fim de serem evitadas. Ainda no que diz respeito ao período do Consulado, Bonaparte criou o Código Civil Napoleônico, documento que abordava questões de di- reito civil. Por meio desse documento a democracia liberal foi regula- rizada, visto que Bonaparte reforçava a ideia de igualdade entre todos (HOBSBAWM, 2010). No entanto, o mesmo escrito permitia que a pro- priedade privada fosse naturalizada, anulando a diferença social e de classe que existia antes da Revolução, mas que acabou sendo reforçada. Importante ressaltar que a Revolução Francesa é um processo de ao me- nos dez anos, complexo e definido por etapas, como a Convenção Nacional, o Diretório e o Consulado. Importante Everett Collection/Shutterstock 14 História Contemporânea Não menos importante sobre o governo de Bonaparte foram seus atos de intolerância em relação aos clubes – que funcionavam como confrarias – e às organizações sindicais, que foram proibidas. Desse modo, ele manteve o apoio popular controlado, pois, apesar de não permitir que a sociedade tivesse oficialmente instituições de resistên- cia a ele, ainda promovia plebiscitos (HUNT, 2007). Bonaparte se manteve no poder até a perda de batalhas que não permitiram mais a sua permanência, mesmo com o seu nome reco- nhecido. Com a sua saída, em 1814, os Bourbon voltaram ao poder na figura de Luis XVIII, o que desgastou a imagem revolucionária promovi- da pela Revolução Francesa. Após a derrota de Bonaparte em Waterloo (1815) e o Congresso de Vie- na, a França voltou a ser como era em 1789, e a burguesia, junto ao retorno dos Bourbon, dimensionou na política diversos de seus interesses. Além dis- so, é importante considerarmos que cinco grandes potências relacionadas a acontecimentos daquele século ganharam notoriedade nesse período: a Grã-Bretanha, a França, os Estados Unidos, o Japão e a Rússia. No que diz respeito a uma história social, no entanto, foram as revoluções de 1848 (também conhecida como Primavera dos Povos) e de 1870 que abalaram esse período de incertezas e definições ocasionadas pelas próprias condi- ções da Revolução Francesa. Esse é o nosso próximo tema. 1.2 Revoluções de 1830-1848 Vídeo Eric Hobsbawm (2010) divide a primeira metade do século XIX em três ondas revolucionárias pelo mundo: a de 1820, de 1830 e de 1870. A primeira teria ocorrido entre 1820 e 1824, envolvendo países como Espanha, Itália e Grécia. Na América houve a independência de vários países, começando pela Grã-Colômbia, por homens como Simon Bolívar e San Martin. Na segunda onda, houve a independência da Irlanda (1829) em relação à Inglaterra e, após a derrubada dos Bourbon na França, a Bélgica tornou-se independente da Holanda em 1830. Essas revoluções, além deNa América Latina persistem discussões de cunho neoliberais que tangen- ciam políticas mais ligadas a uma influência de esquerda. Embora exemplos como Venezuela e Cuba sejam os mais ouvidos, e muitas vezes de modo pe- jorativo, diversos países experimentaram nos últimos anos uma renovação política, como ocorreu na América do Sul com o Equador. As transformações contemporâneas vêm colocando em discussão formas de conhecimento e no- vos acordos políticos, como estratégias de realocação no mundo globalizado e decorrente de uma Guerra Fria que envolveu boa parte do globo. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • contextualizar as experiências políticas próprias da América Latina e suas relações com o mundo contemporâneo; • pensar sobre as rupturas do mundo socialista em relação à globalização; • estudar as consequências de um mundo polarizado e as mudan- ças políticas; • refletir sobre o imperialismo norte-americano na América Latina e os desdobramentos políticos de Cuba e Venezuela. Objetivos de aprendizagem Crises socialistas 99 5.1 Do populismo às ditaduras na América Latina Vídeo São muitas as experiências que geram governos populistas, ou seja, as tendências desses governos podem ser diversas, mas com características comuns. A diversidade do tema necessita ser contextualizada e problema- tizada. De modo geral, o populismo pode envolver uma crise da hegemo- nia classista, o desgaste de uma oligarquia, o crescimento da indústria que gera empregos e a urbanização com novas sociabilidades junto aos proces- sos migratórios que estão relacionados aos fenômenos populistas. Uma característica populista é a criação de políticas sociais que atendam às demandas de grupos menos favorecidos e mais excluídos historicamente das políticas públicas. Junto disso, podemos considerar o nacionalismo como uma prática que busca ressaltar e destacar toda a cultura identitária do país. Essa valorização também se dá em relação à economia local, no entanto nas variações de governo populista há governos que se colocam contra a intervenção estrangeira, como é o caso da Venezuela, da Rússia no início do século XIX e até do Brasil, enquanto outros, como a Argentina, relutam menos. Eric Hobsbawm (1995) afirma que o populismo presente na História Contemporânea desde o século XIX não é significante pelo que realizou, mas sim pelas mobilizações e agitações revolucionárias que causou. Para o autor, o primeiro marco foi a derrubada do czarismo na Revolução Russa, influenciada por movimentos populares no século XIX, como o Narodnaia Volia (1879-1884), um grupo socialista e de caráter populista. Sobre o Narodnaia Volia, Cilia (2017, p. 14-15) afirma que “a influência do anarquismo e a dura repressão do governo czarista empurraram os narodniki para a clandestinidade e eventualmente para o terrorismo (cul- minando com o assassinato do Czar Alexandre II em 1881)”. Lenin, líder da Revolução Russa, era irmão de um dos responsáveis pela influência dos princípios do movimento no Partido Socialista Revolucionário. Após o assassinato de Alexandre II, os líderes do grupo foram mortos e/ou condenados. Segundo Cilia (2017), o que impediu, no fim da década de 1890, um curso mais positivo para o Narodnaia Volia foi uma relação mais intrínseca entre os setores produtivos do campo e da cidade. Antes disso, nos Estados Unidos, uma divisão interna no Partido De- mocrata em 1827 ocasionou a criação do Partido Populista, de caráter hegemonia classista: predominância de uma classe social. Glossário 100 História Contemporânea socialista, que opunha pequenos produtores do Oeste e do Sul do país ao governo federal por defender interesses monometalistas, sistema que protege a modalidade única de um país na forma de metal. Além de questionar o sistema econômico, o Partido Populista também pedia eleições diretas para presidente e senadores (RODELAS, 2017). O que percebemos em contextos tão diversos é que há a presença de uma liderança carismática, em que o líder é adorado e respeitado não por suas ações, mas por sua imagem e pela ideia de que pode mudar o cenário político-econômico – um dos motivos pelo qual pode ocorrer um ataque às instituições políticas. Essa presença é também um dos elementos que per- mite comportamentos arbitrários e cria laços de identificação profundos. Dessa maneira, o uso da propaganda por diversos meios de comu- nicação é comum, especialmente voltado às massas. O que notamos é que em muitos casos o populismo apresentou poucas mudanças trans- formadoras radicais no mundo social, isto é, privilégios sociais tendem a ser mantidos para aqueles que já os possuem. A historiadora Angela de Castro Gomes (2017) frisa que o populismo é uma política de massas, ligado ao crescimento do operariado ou da industrialização, em que os trabalhadores não se organizam de manei- ra proporcional ao tamanho das classes, por isso uma classe com mais pessoas não tem o peso que poderia ter. No entanto, devido ao aumen- to desses grupos de trabalhadores, aqueles que sempre estiveram no poder se sentem ameaçados pelas mudanças e percebem que preci- sam do apoio desses trabalhadores. É nesse quadro que surge a figura carismática, correspondente aos interesses diversos e que parece tra- zer paz aos conflitos sociais que emergem das massas (GOMES, 2017). Nos casos brasileiro e argentino, o Estado passa a ser representado por Getúlio Vargas e Juan Domingo Perón, sendo este algumas décadas depois de Vargas. No Brasil, ao mesmo tempo que Vargas mantém uma imagem carismática, a pluralidade democrática diminui pelo caráter autoritário. Isso ocorre especialmente após 1937, quando é instituído o Estado Novo, pe- ríodo em que Vargas assume com o argumento de que comunistas toma- riam o poder e outorga uma nova Constituição. Segundo o cientista político Otávio Ianni (1975), há um incentivo à organização sindical vinculada ao Estado, fazendo com que os trabalhadores, para receberem seus direitos, fossem obrigados a se afiliarem a esses sindicatos. Com isso, os sindicatos que eram autônomos acabavam perseguidos ou marginalizados. Crises socialistas 101 O que Ianni (1975) destaca é a ação de Vargas de só permitir que a lei com novos direitos trabalhistas – a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) – fosse implementada para o trabalhador sindicalizado nos sindi- catos organizados pelo próprio Estado, o que diminuiu a autonomia do próprio sindicato e, por consequência, do movimento trabalhador. Assim, o Estado toma para si o cooperativismo e mantém sob sua visibilidade e controle a mobilização das massas, tornando esses dois grupos (a ideia do sindicato do Estado e as massas) um conjunto, e não mais duas instâncias de um contexto democrático. A unanimidade, nesse caso, é sinônimo de um governo populista autoritário que, frente ao crescimento industrial e a uma propaganda nacionalista, neutraliza as massas. Tanto na Argentina quanto no Brasil havia um apelo às massas com respaldo dos sindicatos. Diversos departamentos e institutos foram criados para gerar uma comunicação eficiente e convencer os lide- rados, tanto no mundo industrial quanto no agrícola. As pautas mais comuns na política eram intervenções e críticas ao liberalismo econô- mico, com o argumento de melhorar a distribuição de renda. No caso de Vargas, uma política nacional-desenvolvimentista, com a criação de várias empresas estatais ainda no fim da década de 1930, recebe destaque nacional e cria empregos necessários, superando o modelo agroexportador (FONSECA; HAINES, 2012). Já para a Argentina, a distribuição de direitos sociais desde a primeira fase de Perón na década de 1950 é o destaque, diferente da política nacional-desenvolvimentista. Esse modelo de governo baseado no nacional-desenvolvimentismo na América Latina, tanto para Perón quanto para Vargas, é sustenta- do até o início dos anos de 1960 quando o crescimento econômico e industrial sofreu estagnação, fazendo com que a distribuição dosre- cursos sociais também fosse repensada e disputada entre as classes. Ianni (1975) ressalta que a inflação foi um dos motivos para que a crise se tornasse mais profunda, especialmente quando João Goulart lançou a proposta de Reformas de Base, a fim de estruturar a industrialização e diminuir a importação, que de fato poderia distribuir os recursos pú- blicos de maneira mais igualitária e pautada às demandas de direitos civis e trabalhistas. Essas demandas foram decorrentes dos movimen- tos operários e sindicais que voltaram a crescer a partir dos anos 1950. Das massas trabalhadoras à Guerra Fria que estava no seu auge no mundo, as ditaduras civil-militares do Cone Sul 1 da América do Sul se O Cone Sul engloba os se- guintes países: Paraguai, Brasil, Bolívia, Uruguai, Argentina e Chile. 1 102 História Contemporânea tornaram um dos principais laboratórios de disputas entre ideias mais neoliberais e comunistas. Um país liberal e pouco defensor de políticas públicas locais era o Chile, mas Salvador Allende, da Unidade Popu- lar (UP), venceu a eleição presidencialista em 1970 com uma proposta socialista. Hobsbawm, quando viajou pela América Latina como pesquisador nos anos 1960-1970, teve algumas considerações sobre esse novo modelo no Chile: como a Rússia fez (em 1917), agora o Chile enfrenta a neces- sidade de iniciar uma nova maneira de construir a sociedade socialista. [...] Os pensadores sociais supuseram que as nações mais desenvolvidas, provavelmente a Itália e a França, com seus poderosos partidos de classe marxista, seriam as primeiras a fazê-lo. No entanto, mais uma vez a História nos permite romper com o passado e construir um novo modelo de sociedade, não onde em teoria seria mais plausivelmente esperado, mas onde acontecem as condições mais favoráveis para sua realização. O Chile é hoje a primeira nação [...] a realizar o segundo modelo de transição para a sociedade socialista. (HOBSBAWM, 2017, p. 358) A transição do liberalismo para o socialismo não foi pacífica. Lados mais ou menos radicais da esquerda nem sempre foram considera- dos ou contemplados, como o Movimento de Esquerda Revolucionário (MER), além de que boa parte dos profissionais liberais e cerca de 30% do setor agrário jamais apoiaram Allende. Ainda, para ter apoio da ala mais central – os democratas cristãos –, Allende promulgou uma Cons- tituição, em 1971, que pouco aumentou as políticas públicas. Além disso, as dificuldades econômicas vindas de influências norte- -americanas limitaram as ações de Allende, especialmente a criação de empregos. Uma grande e longa dívida externa, a importação frequente de diversos produtos e uma única forma de vender seu principal pro- duto – o cobre que estava com preço baixo – foram as condições que dificultaram o governo. Países como Peru, Panamá, México e Argentina também davam sinais de questionamento do poder de Allende, o que fez com que os Estados Unidos buscassem apoiar a oposição – nesse caso, os militares – contra o Chile. Esse apoio se dava por meio de in- fluências políticas na oposição e pelo envio de armas às Forças Armadas (HOBSBAWM, 2017). A relação das ideias socialistas com o desenvolvi- mento de um governo mais socialista de modo democrático era contes- tada devido aos vários grupos apoiados pelos Estados Unidos. Em nome de uma prática identitária indígena, entre elas a Mapuche, o povo chileno foi às ruas em 2019/2020 para reivindicar diversas reformas, entre elas a da última e válida Constitui- ção. O argumento é de que essa foi fruto dos interesses dos militares e outorgada no período ditatorial. Disponível em: https://www. cnnbrasil.com.br/internacional/ entenda-o-que-sera-votado-no- plebiscito-realizado-no-chile- neste-domingo-4/ Acesso em: 22 set. 2022. Leitura Ar th im ed es /S hu tte rs to ck https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-o-que-sera-votado-no-plebiscito-realizado-no-chile-neste-domingo-4/ https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-o-que-sera-votado-no-plebiscito-realizado-no-chile-neste-domingo-4/ https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-o-que-sera-votado-no-plebiscito-realizado-no-chile-neste-domingo-4/ https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-o-que-sera-votado-no-plebiscito-realizado-no-chile-neste-domingo-4/ https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-o-que-sera-votado-no-plebiscito-realizado-no-chile-neste-domingo-4/ Crises socialistas 103 Convidamos você a entrar e explorar o museu Museo de la Memoria y de los De- rechos Humanos, cujo acervo reúne desde objetos a testemunhos do processo ditatorial iniciado com a deposição de Salvador Allende, em 1973. • Disponível em: https://www.memoriasdeexilio.cl/. Acesso em: 17 out. 2022. Museu Dentro dos vários aspectos ressaltados neste texto em relação a um governo populista, é preciso lembrar que países emergentes, com eco- nomias menos sólidas, são os palcos principais. Assim, em termos con- temporâneos, como pensar o que se passou com os Estados Unidos no governo de 2017 a 2020, a chamada Era Trump? Um nacionalismo exacerbado ou um líder carismático, adorado, que refuta as bases de- mocráticas e jurídicas e é ovacionado por isso (CILIA, 2017)? Isso acon- teceu por ideias, em geral distribuídas pelas redes sociais, que parecem oferecer soluções fáceis e rápidas para questões complexas, como o caso da imigração em direção aos Estados Unidos. Além de Trump, é possível lembrar que governos extremistas têm se levantado em muitos lugares, como na Turquia, Hungria, Holanda, Nicarágua, entre outros. Governos assim se apropriam de problemas que foram pouco debatidos ou resolvidos – em geral, problemas atra- vessados por questões racistas, xenofóbicas etc. –, e fazem dessas pautas o que uma parcela da população almeja ouvir após anos ou décadas sem representação política. Um caso para se refletir, voltando ao contexto populista, é o da Ve- nezuela. Maya Margarita López (2016) define o populismo venezuelano (embora também caiba em outros contextos) como uma crise hegemô- nica em que a elite perdeu parte de sua força política, ao mesmo tempo que o operariado ou as classes menos abastadas pouco se organiza- ram como tais. Em muitos casos, a população também está cansada de uma políti- ca mais tradicional, pouco redistributiva. Desse modo, um caráter mais messiânico e nacionalista, com a promessa de igualdade política e so- cial, ganha destaque. No caso venezuelano, no fim do século XX e início do século XXI, o papel interventor do Estado e anti-imperialista foi visto como solução após décadas de um poder neoliberal. O preço alto do petróleo na época permitiu que o tom socialista de Hugo Chávez – dito bolivariano (LÓPEZ, 2016) – se mantivesse por muitos anos, mesmo sem uma reforma profunda entre as classes do país. https://www.memoriasdeexilio.cl/ 5.2 As crises das experiências socialistas Vídeo Em fevereiro de 2022 iniciou-se uma guerra da Rússia com a Ucrânia, em que diversos países foram envolvidos por questões de acolhimento de imigrantes ou de armamentos. Como consequência dos processos migratórios houve xenofobia, estupros, crianças separadas de seus pais e milhares de civis mortos. Então como essa guerra se relaciona com o fim da ex-URSS, símbolo da experiência socialista do século XX? A Figura 1 é uma representação do Muro de Berlim. Com esse trabalho artístico, é possível imaginar como era a vida dos alemães com essa divisão. No entanto, a separação era mais que cultural ou simbólica, e seu peso está além dos souvenires ou dos tombamentos patrimoniais que existem sobre o tema. Berlim foi a região dividida pelas potências que ganharam a Segunda Guerra Mundial, e foi também nesse contexto que se iniciaram os seve- ros problemas econômicos na Europa, onde a disputa por um governo de tendência socialista ou capitalista se tornou o tema pelo futuro dos países. Assim, com a Queda do Muro de Berlim em 1989 – que também representa a queda da Rússia –, aparentementetinha chegado o fim do socialismo ou das tendências socialistas e – acima disso para os defensores mais neoliberais – a solução para o crescimento econô- mico e da globalização nos anos 1990. Ewa Studio/ Shutterstock Figura 1 Memorial do Muro de Berlim 104104 História ContemporâneaHistória Contemporânea Crises socialistas 105 Sem dúvida há uma ruptura mundial, porque, embora seja uma his- tória muito europeia, diversos acontecimentos pelo mundo se deram em função da Guerra Fria. A Queda do Muro de Berlim já tem mais de 30 anos e, apesar dos problemas econômicos enfrentados nos anos 1990, a ex-União Soviética e atual Rússia é uma potência em relação aos recursos naturais, como petróleo e gás natural, além do destaque em armas nucleares ao lado da China e dos Estados Unidos. A Rússia ainda é integrante do Grupo dos 20 (G20), formado pelos paí- ses mais influentes do mundo, e em 2022 tem Vladimir Putin, já há quatro mandatos, como representante. Putin é apontado como o responsável pelo crescimento da Rússia, unindo-a ao limitar as guerras separatistas. Devido ao caráter heroico de Putin, além da afirmação de que os ucrania- nos são uma parte étnica do país, a invasão da Crimeia em 2014 foi aceita pelo povo russo. Por essa invasão, Putin respondeu por sanções de países ocidentais, no entanto, pelo Tratado de Partição 2 (1997), há anos Putin já estreitava relações com a Ucrânia por meio de civis e envio de tropas ora disfarçadas, ora não. Apesar das sanções, e especialmente a despeito das ações da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), o interesse pelo gás motivou a inserção russa na Crimeia. É importante ressaltar que, em 2013, movimentos sociais pediam a assinatura do Acordo de Associação da União Europeia 3 com a Ucrâ- nia. Na época, o presidente Víktor Yanukóvytch não aceitou e pediu apoio à Rússia. Por essa razão, Yanukóvytch foi deposto por um golpe de Estado apoiado pela OTAN, e a invasão da Crimeia foi uma resposta ao avanço da OTAN, depois referendada com polêmica e apoiada pelo povo local da Crimeia (97%) (CAMPOS; LOBO; AZEVEDO, 2018). É possível afirmar que tanto a Rússia quanto os Estados Unidos têm interesses econômicos e políticos na região da Ucrânia, ou seja, outros países e civis, em especial, podem apoiar a invasão seja por interesse ou até por ingenuidade. O caso é que a invasão de 2014 enalteceu mais ainda a figura de Putin, dando-lhe respaldo do povo em um primeiro momento para a invasão e a Guerra da Ucrânia em 2022. Essa construção simbólica de quem é Putin está relacionada ao que representou Mikhail Gorbachev no fim da década de 1980, visto que Gorbachev, pelo fim da Guerra Fria, extinguiu o Pacto de Varsóvia, cria- do no pós-Segunda Guerra como símbolo da união eslava e socialista contra a OTAN. Esse foi o sinal para afirmar que a Guerra Fria havia fi- Por esse Tratado, a Rússia e a Ucrânia podem comercializar produtos, entre eles armas, pelo Mar Negro de modo independente de sanções e impostos. 2 Esse acordo é um tratado entre a União Europeia (UE) e um país que não pertence à UE, com fins de colaboração. 3 106 História Contemporânea nalizado e que o Muro de Berlim poderia ser destruído. Com essa ação, Gorbachev teria “aberto caminho” para os Estados Unidos e, para Putin, foi o responsável pela tomada desse espaço de diálogo. É importante ressaltar que Gorbachev confiou na promessa dos Estados Unidos e de George H. W. Bush de que a OTAN também seria eliminada (CAMPOS; LOBO; AZEVEDO, 2018). Bill Clinton, o presidente após Bush, foi res- ponsável pelo crescimento exponencial da OTAN, além de fomentar a separação de grupos que anteriormente pertenciam à ex-URSS. No entanto, a OTAN continuou atuando e unindo mais países, dimi- nuindo o espaço que outrora era da Rússia. Isso privilegia os Estados Uni- dos – e o grupo – em relações comerciais pelos mares, em extração de produtos naturais e no crescimento de empresas, cuja origem, em geral, é desses países. Trata-se de uma disputa econômica. Sobre esse contex- to, muitos países foram anexados, como Lituânia, Letônia e Estônia. Na reunião da OTAN em Bucareste, capital da Romênia e ex-URSS, em 2008, a OTAN dava boas-vindas à Ucrânia e à Geórgia, afirmando que os dois países se tornariam, mesmo que sem data prevista, membros efetivos da aliança [...]. Essa declaração foi reconheci- da por Moscou como derradeira, tendo-se em vista que Ucrânia e Geórgia representavam interesse estratégico fundamental à Rússia. Deste modo, seria estrategicamente inaceitável para os russos que os dois países integrassem a OTAN, segundo o cál- culo estratégico russo. (CAMPOS; LOBO; AZEVEDO, 2018, p. 114) A Rússia, como resposta, fortaleceu fronteiras e grupos considera- dos minoritários em ambos os países. Logo após a invasão da Ucrânia em 2022, a Geórgia e a Moldávia apresentaram candidatura para en- trar na União Europeia (APÓS UCRÂNIA..., 2022), o que também aproxi- maria os países de uma candidatura à OTAN. A União Europeia, por sua vez, defende que a aceitação desses paí- ses tem por objetivo diminuir a cisão que houve no século XX para, com isso, atuarem juntos em questões ligadas à política interna, às barreiras tarifárias e de cooperação multilateral (CAMPOS; LOBO; AZEVEDO, 2018). A União Europeia vem crescendo junto à OTAN, que atualmente está com mais de 30 países. Crises socialistas 107 OTAN Ol ga st oc ke r/ Sh ut te rs to ck Organização do Tratado do Atlântico Norte Putin se mantém forte na Rússia, apesar das sanções desde 2014, por meio da construção de sua imagem em discursos nas redes de co- municação estatais, das relações econômicas com a China e da nego- ciação de barris de petróleo, por exemplo. A Rússia não é membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), mas negocia com os países que são. Além disso, a Rússia busca manter relações com países como a Síria, Coreia do Norte, Turquia e Irã que, embora não tenham grandes acordos comerciais com o Ocidente, representam conflitos em relação ao armamento nuclear e são também “corredores” no mapa asiático, o que demonstra interesses geopolíticos para as po- tências como Alemanha, França, Estados Unidos, Japão e China. Essas estratégias não são de atuação contra os Estados Unidos ou países da OTAN, mas sim de cooperação, visto que a Rússia aceitou ficar responsável pelo lixo nuclear do Irã no acordo com os Estados Unidos. Ademais, a Rússia e os Estados Unidos estavam contra os mes- mos grupos terroristas da Síria, e a Rússia ajudou na retirada de tropas, incluindo a norte-americana, do Afeganistão em 2021. 108 História Contemporânea 5.3 Rizomas do mundo polarizado Vídeo As ditaduras civil-militares na América Latina, bem como em ou- tros lugares do globo, não foram entraves liderados diretamente pelos Estados Unidos. No entanto, a influência norte-americana durante a Guerra Fria almejou cooptar forças nesses territórios contra a ex-União Soviética, ao mesmo tempo que deixou consequências e influências nas escolhas e na própria cultura política. É importante ressaltar que o neoliberalismo, de imediato, não bene- ficia apenas a classe dominante dos meios de produção. A privatização de empresas nacionais deficitárias ou de nenhuma rentabilidade – seja na área de transporte, de comunicação etc.–, a diminuição de impostos que ocorre naturalmente e o aumento do consumo – e, com isso, de empregos por meio de empresas terceirizadas – permitiram que outros grupos ganhassem com a privatização neoliberal acelerada. Essa nova forma de se relacionar e produzir alterou as relações trabalhistas, cujos acordos coletivos, bonificações e direitos básicos tenderam a diminuir e a depender da representação menor dos sindicatos atuais. Além disso, os antigos modelos substituídos, seja o fordista ou o keynesiano, exigiam um acúmulo de matéria-prima, diferente dos prin- cípios desse “fazer capitalista flexível e rápido”, tanto para aumentar os seus lucros quantopela rapidez com que o sistema de transportes ga- rantia a matéria-prima em caso de necessidade. Essa perspectiva ocor- reu, principalmente, durante a pandemia de Covid-19 e sua recuperação, o que foi motivo de preocupação, visto que a crise econômica acompa- nhada da alta do dólar, da inflação e dos juros fez com que produtores de matérias-primas, especialmente os de base, direcionassem suas mer- cadorias para quem pagava a mais ou mesmo ficassem com suas merca- dorias paradas, devido ao medo da recessão (MACEDO, 2021). Nessa conjuntura, na década de 2010 e, especialmente, após a pan- demia de 2020, o empreendedorismo, aliado ao uso das redes sociais e da tecnologia digital, cresceu exponencialmente. A prática empreen- dedora tem como característica a relutância com a presença do poder público como regulador, e é possível afirmar que até as práticas mais terceirizadas e empreendedoras necessitam de uma instituição pública que regule e assegure não apenas o mínimo, mas os direitos básicos, independentemente de tempos de crise ou não. deficitárias: com saldo negativo. Glossário Crises socialistas 109 A existência e a força do Estado são, portanto, um desdobramento das disputas entre grupos mais de direita ou de esquerda. Nesse caso, um exemplo ligado à América Latina, embora não seja único, é o entrave entre o neoliberalismo e as ideias de cunho socialista no governo equatoriano de Rafael Correa nas primeiras décadas do século XXI (2007-2017). Por meio do Alianza Pais, uma união entre os partidos Pátria Altiva e Soberana, Cor- rea manteve-se no poder em três mandatos, sendo um deles por meio da representação de seu vice (MENON, 2012). O governo intitulava-se como um grupo humanista cristão de esquerda, cujos objetivos eram o fortaleci- mento do Estado contra o que chamavam de desastroso modelo neoliberal e a criação de uma Assembleia Constituinte, no lugar do Congresso. Rafael Correa ficou reconhecido pelo protagonismo da Revolução Ci- dadã – que tinha como caráter social a ligação à cidadania –, opondo-se à intromissão do Fundo Monetário Internacional (FMI), a despeito do qual criou a Cooperação Andina de Fomento e o Banco Interamericano. Por meio dessas iniciativas buscou fazer o controle estatal do petróleo e a contestação da dívida pública em relação ao FMI, assim como questio- nou a dolarização da economia. No que diz respeito ao FMI, as equipes políticas do Equador apresentavam documentos sobre como o órgão in- ternacional promovia formas de envolvimento e de dívida, a fim de permi- tir que agências internacionais interferissem na política local equatoriana e demais países (TAVARES, 2008). Outrossim, os equatorianos exigiam a não renovação de bases militares dos Estados Unidos. Alguns dos princí- pios da Revolução Cidadã, que tem caráter econômico e social, são: queremos proprietários não-monopolistas; vamos combater monopólios e práticas oligárquicas, vamos controlar o mercado. Queremos também uma sociedade de produtores, não de especu- ladores; [...] queremos recuperar espaços de soberania em nossa política econômica: a soberania alimentar, a soberania energética, a soberania ecológica – esta é fundamental, pois o país que perde controle de sua natureza perde o controle de sua economia e de sua política. Falamos também de uma revolução social. Vamos combater a desigualdade, a miséria e a pobreza [...] Queremos combater o racismo, assim como queremos combater o fato de que existe, em nosso país, o machismo. Queremos uma sociedade com igualdades, pois esse é o caminho para fortalecer a democra- cia e a base para o desenvolvimento. (TAMAYO, 2007, p. 2) É possível perceber a ideia de controle estatal sobre os recursos natu- rais presente no argumento de que a soberania de um país se dá por essa 110 História Contemporânea estratégia em especial. Esse é um ponto que se difere de uma economia de mercado internacionalizada em que não só os meios de produção e de recursos naturais podem estar nas mãos do mercado internacional, mas também a especulação sobre eles. Além disso, é possível pensarmos em uma economia cujos meios não pertencem somente a grupos nacionais, mas têm seus princípios regulados pelo controle estatal. No caso do governo equatoriano de Correa, sua Revolução Cidadã pretendia ir além da manutenção dessa especulação internacional, por isso houve um fortalecimento de coletivos (ou grupos) sociais para a elei- ção e manutenção de sua presidência, mesmo ele sendo um homem de origem elitista (LARREA, 2007). Essa diferença social criou um abismo en- tre a oposição de seu governo e aqueles que o elegeram, demonstrando que décadas de um governo neoliberal provocam divergências comple- xas demais para serem resolvidas de modo democrático. Larrea (2007) evidencia que, apesar do apoio popular, Correa não possibilitou em tempo hábil a participação dos coletivos para a formação dos grupos que compuseram a Assembleia Nacional Constituinte. Desses grupos, os mais destacados eram os da Rede Latino-Americana Mulheres Transformando a Economia (Remte) e os ligados à Secretaria de Cidada- nia, Povos e Movimentos Sociais. Mais importante que entender o contex- to equatoriano é perceber essa reação coletiva e social como resposta a uma política econômica neoliberal excludente das últimas décadas, uma ação que não é visível apenas no Equador, uma região rica em recursos naturais e cujo território amazônico chega a quase 50% de sua totalidade. Indicamos o artigo Alternativas à lógica desenvolvimentista: ideais pré-coloniais, acivilizatórios e/ou decoloniais a partir de cosmovisões afro-ameríndias, de Livia Maria Nascimento Silva e Antonio Manoel Elibio Junior, publicado na Revista Aedos. Acesso em: 14 out. 2022. https://www.seer.ufrgs.br/aedos/article/view/119504. Artigo O lugar dado a povos indígenas, que formam a base da maior parte desses coletivos na América Latina, é necessário para centralizar o bem vi- ver, em que o acesso a bens universais, como água, e à matéria-prima, as- sim como considerar o povo a razão do Estado (perspectiva da cosmovisão indígena 4 ), estão em evidência. Portanto, pensar nessas teorias ligadas ao bem viver e na tomada do espaço político por grupos mais representati- Cosmovisão é uma palavra que significa uma forma subjetiva de ver e enten- der o mundo. Ela está relacionada às sociedades ameríndias e/ou indígenas, embora não somente a elas. É uma ideia rela- cionada ao bem viver na América Latina. 4 https://www.seer.ufrgs.br/aedos/article/view/119504 Crises socialistas 111 vos das minorias é também uma característica global e necessária para a autonomia alimentar (não depender da política para isso) e de igualdade civil (que é plural, pois as pessoas são diferentes), em um mundo atra- vessado por processos migratórios, transformações e tragédias climáticas, além das diferenças causadas pelo capitalismo pouco regulado. O artigo de Alessandra Gonzalez de Carvalho Seixlack e Lays Corrêa da Silva, Propostas para o Buen Vivir: a luta Mapuche pela construção de um Estado plu- rinacional no Chile, publicado na Revista de História Regional, discute sobre a teoria do bem viver, perspectiva epistemológica que vem sendo concebida e aderida em diversas Constituições na América Latina. Acesso em: 14 out. 2022. https://scholar.google.com/citations?view_&AAAAJ&citation_for_view=yDvyiF0AAAAJ:eQOLeE2rZwMC. Artigo Por fim, é importante mencionar alguns protestos indígenas. O primei- ro ocorreu em 2008, no contexto da votação da Assembleia Constituinte quando nasceu a Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador e cinco mil pessoas marcharam até Quito reivindicando seus direitos. Essa marcha presenciou o encontro de mais de 1.500 delegações que elegeram representantes camponeses, indígenas, mulheres e sindicais na Assem- bleia. O segundo é em relação à mesma Confederação que, em junho de 2022, questionou o presidente Guilherme Lesso sobre a alta de preços, oca- sionada pela pandemiade Covid-19 e a regulação de juros, e pela inflação que incidem sobre a maioria, retirando direitos civis e a dignidade de vida. 5.4 Discussões socialistas na América Vídeo Em julho de 2022, a BBC publicou uma reportagem sobre o início do re- torno dos venezuelanos ao país, mesmo que lentamente (PAREDES, 2022). Esse retorno se deu após mais de 10 anos de fugas e de migrações em busca de estabilidade econômica, visto que o país passava por severos problemas de inflação e desemprego. Os sinais de melhoria na inflação e nos juros per- mitiam que a fome não fosse mais a regra e o principal motivo de fuga do país. Para além do problema econômico, a Venezuela é, há algumas déca- das, apontada como país de tendência socialista ou até mesmo comunista. Nesse contexto, desde os anos 1970 à luz da dependência que o mundo tem do petróleo tanto para o transporte quanto de seus deri- vados utilizados de inúmeras formas na indústria, o recurso mineral https://scholar.google.com/citations?view_op=view_citation&hl=pt-BR&user=yDvyiF0AAAAJ&citation_for_view=yDvyiF0AAAAJ:eQOLeE2rZwMC 112 História Contemporânea tornou-se alvo de disputas diretas sem qualquer pudor. A crise do pe- tróleo opôs Egito e Síria a Israel, que tomou parte do território do Egito e da Síria na Guerra dos Seis Dias. Somado a isso, taxas e preços foram ajustados fazendo com que o mundo sentisse uma recessão econômi- ca justamente por sua dependência do petróleo. A Venezuela tem uma das maiores reservas de petróleo do mundo que, em 2022, vem crescendo em produção de barris por dia com pre- visão de ser um dos países de maior crescimento no próximo ano (5% do PIB pela CEPAL e 1,5% pelo FMI) (PAREDES, 2022), justamente o que permite que parte da população retorne ao país. No entanto, é também pelo mesmo petróleo que o país é alvo de interesses internacionais. Isso acentuou-se com a chegada de Hugo Chávez à presidência, em 1999. Ele foi presidente por mais de 15 anos e foi representante das pautas da Revolução Bolivariana, além de emitir algumas mudanças significativas que ponderaram o poder de uma classe mais alta e, espe- cialmente, da interferência norte-americana na regulação do preço, na dolarização da economia e na exploração do petróleo, que no caso da Venezuela é a empresa Petróleos de Venezuela (PDVSA). Na Venezuela, desde 1958 havia uma constante troca pelo Poder Exe- cutivo entre dois partidos, o Ação Democrática (AD) e o Comitê de Orga- nização Política Eleitoral Independente (COPEI), que fizeram um acordo, conhecido como Pacto de Punto Fijo, para assegurar a estabilidade polí- tica do país (SALGADO, 2020). Para muitos historiadores, foi esse pacto que freou uma ditadura civil-militar na Venezuela, entretanto não houve investimento social no país até a década de 1990. Já a partir de 1989, com a alta de juros e a interferência massiva do FMI, a ação coletiva de movi- mentos sociais passou a questionar o FMI e outras instituições. Em 1998, apoiado pelos grupos mais populares, Hugo Chávez assu- miu o poder. Entretanto, esse mesmo apoio popular não foi ouvido por Chávez em diversas situações, o que o fez perder o poder por alguns me- ses em 2002. Segundo historiadores, o principal motivo de instabilidade econômica é que Chávez alterou as normas de regulação do petróleo por meio da sua estatização com a criação da empresa PDVSA, mas não alterou a dependência que o país e as políticas públicas e sociais tinham do petróleo (SALGADO, 2020). Na empresa estatizada em 1999, a criação de empregos, as promoções e as propriedades da empresa não foram Crises socialistas 113 distribuídas de modo igual e coletivo, o que diminuiu o poder do opera- riado e distanciou a ideia de socialismo. Apesar do apoio populacional a Chávez favorecendo a união cole- tiva, muitos se opunham ao próprio Estado. Ao mesmo tempo, gru- pos elitistas não deixaram de existir e ainda influenciavam a prática econômica por meio da PDVSA. Nesse contexto, as políticas sociais se tornaram compensatórias, visto que Chávez se beneficiou dos preços supervalorizados do petróleo, especialmente entre os anos de 2004 e 2008. Assim, o Estado passou a intervir mais por meio de programas sociais e fazer mais estatizações até a morte de Chávez, em 2013. Esses movimentos elitistas se tornaram fortes na América Latina a partir de 1960. O historiador Leslie Bethell (apud HOBSBAWM, 2017, p. 8) afirma que: a Segunda Guerra Mundial produziu uma espécie de reação em ca- deia de movimentos de libertação revolucionária. [...] O movimento de libertação começou finalmente a avançar no império informal da maior e mais poderosa das potências capitalistas sobreviven- tes, entre os países independentes nominalmente, mas, na prática, semicoloniais da América Latina. Ali, os movimentos revolucio- nários não conseguiram se transformar em mais do que guerras civil-anárquicas (como na Colômbia após 1948), nem tiveram êxito nas circunstâncias bastante excepcionais da Bolívia (1952). Porém, a vitória de Fidel Castro em Cuba (1959) traria em breve o primeiro regime socialista para o continente americano e nele inauguraria uma era de agitação social que ainda não terminou. Bethell refere-se à experiência socialista de Cuba. Fidel Castro defen- dia desde os anos 1950 uma ruptura mais profunda das relações sociais e políticas na ilha cubana, com base em um nacionalismo revolucionário e para que o país não fosse mais refém dos interesses capitalistas que se davam pelos Estados Unidos e acatados pelo presidente Fulgencio Batis- ta (como a instalação de bases militares e de empresas estrangeiras libe- rais). Fidel defendia a soberania da América Latina, na mesma linha de Simon Bolívar e José Martí, mas era especialmente alinhado com ideias de Lenin, do socialismo marxista. Durante o ano de 1958, os guerrilheiros cubanos liderados por Cas- tro agiram na clandestinidade e com o apoio do povo a fim de depor Batista, até que assumiram o poder em primeiro de janeiro de 1959, o que caracterizou a Revolução Cubana. Assim, promoveram uma refor- 114 História Contemporânea ma agrária, a estatização da educação como uma prática dirigida para toda a população e um sistema universal de saúde. Com a existência da URSS e da China, Cuba manteve-se forte até 1989, quando o Muro de Berlim foi derrubado. Esperava-se que, logo após esse acontecimento, o país decretasse sua abertura à globalização e, conse- quentemente, ao capitalismo. Com a persistência do regime socialista, os Estados Unidos instituíram um embargo, proibindo toda negociação com cubanos, sob a possibilidade de punir aqueles que insistissem. Somente em 2021 é que esse embargo foi questionado pela Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) e condenado por 185 países (BERMÚDEZ, 2021). Sobre a atualidade da Revolução Cubana e de sua representação como primeiro país socialista no Hemisfério Ocidental, o historiador Luis Ayerbe (2004) afirma que são problemáticas a persistência de um único partido político e a manutenção do Estado como um monopólio, além de sobreviver às investidas e proibições capitalistas. Raúl Castro é apontado como um líder austero desde que assumiu no início dos anos 2000, permanecendo em cargos políticos até 2021. O historiador Sergio Guerra Vilaboy (2021) afirma que houve o fe- chamento de escolas e até de universidades em Cuba, embora o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e o analfabetismo tenham núme- ros de destaque para o mundo. Ele ainda complementa que: desde então permitiu-se o alojamento de nacionais em hotéis, a aquisição de linhas de celulares, a compra e venda de auto- móveis e casas ou importação de determinados artigos eletro- domésticos, ao mesmo tempo que autorizava o pluriemprego e o pagamento por resultados. Ademais, em setembro desse ano [2014], [o governo cubano] começou a entregar centos de milha- res de hectares de terras improdutivas a particulares e campesi- nos em usufruto, que reduz de forma considerável a área estatal. (VILABOY, 2021,p. 162) Também houve o crescimento do produto interno bruto (PIB), a balança comercial favorável, o retorno de migrantes, a permissão de saída do país e o pagamento da dívida externa que existia desde 1986, ou seja, Cuba tem buscado se adaptar ao que deseja dentro da política mundial. Apesar das dificuldades, é preciso considerar que os Estados Unidos persistem em manter o embargo, demonstrando hostilidade e rancor para com essa diferença, que tem origem na Guerra Fria, apesar de ambos já terem acordos de retomada diplomática desde 2017. embargo: aquilo que impede, obstáculo, empecilho. Glossário O texto de Tiago Nery, Revolução Cubana 50 anos de resistência e dignidade, narra parte da revolução e dos problemas sociais ocasionados pela aber- tura das novas políticas adotadas desde Raúl Castro. Disponível em: https:// diplomatique.org.br/revolucao- cubana-50-anos-de-resistencia- e-dignidade/. Acesso em: 14 out. 2022. Leitura https://diplomatique.org.br/revolucao-cubana-50-anos-de-resistencia-e-dignidade/ https://diplomatique.org.br/revolucao-cubana-50-anos-de-resistencia-e-dignidade/ https://diplomatique.org.br/revolucao-cubana-50-anos-de-resistencia-e-dignidade/ https://diplomatique.org.br/revolucao-cubana-50-anos-de-resistencia-e-dignidade/ Crises socialistas 115 A fim de finalizarmos uma perspectiva sobre essas experiências que também são rizomas de um mundo bipolar, é preciso considerarmos o grupo Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA). Ele foi criado em 2004 por Hugo Chávez e Fidel Castro, e dele também fazem parte Nicarágua, Equador e Bolívia. O Equador, desde 2021, mantém um governo mais conservador, ao passo que a Bolívia viu voltar ao poder o grupo de Evo Morales, o primeiro indígena presidente na América Latina e que per- maneceu no comando por quase 14 anos. Morales deixou o governo após problemas civis em 2019, mas, por meio de eleições, colaborou para eleger um nome ao Executivo durante o período que esteve fora. Além disso, há a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), cujo objetivo era anular ou diminuir a interferência norte-americana na região por meio da Organização dos Estados Americanos (OEA), criada em 1948. Por fim, não menos importantes foram as ações do governo de Donald Trump que acirraram as disputas ideológicas com Cuba, colocan- do em prática aspectos da Lei Helms-Burton, que dificultava ainda mais negociações com Cuba, prejudicando sua economia (VILABOY, 2021). CONSIDERAÇÕES FINAIS Um total de 40 anos separam a Revolução Cubana de seu embargo, bem como 50 anos estão entre o Pacto de Punto Fijo venezuelano e a subida de Chávez ao poder. Junto a isso, temos o declínio da URSS e o fim da Guerra Fria, devido à economia do país, ao mesmo tempo que a glo- balização começou a viver seu auge oferecendo, sob a premissa de estar e conhecer “qualquer coisa” do mundo, produtos mediados pelo capita- lismo/consumismo de influência norte-americana. Os mercados europeu e chinês também passaram a fazer parte com mais potência nas décadas que se seguiram, e a própria Rússia se tornou um dos países mais impor- tantes do globo, especialmente pela exploração de produtos naturais. Paralelamente, Cuba ainda assombra o poderio norte-americano, mes- mo que esse país seja muito superior e não precise de Cuba, a qual desde 2014 passa por uma abertura política e econômica. Assim, é possível dizer que o socialismo deixou uma marca nas tendências políticas, ao mesmo tempo que não é uma prática política como um todo no mundo. Concomitantemente, países da América Latina que passaram por dita- duras e governos populistas têm buscado novas propostas políticas que se concentrem em esforços por uma igualdade étnica, social, cultural, po- lítica e, em especial, pela soberania de sua “latinidade”. 116 História Contemporânea ATIVIDADES Atividade 1 Defina o que é populismo e suas características principais. Atividade 2 De que forma a situação política do Equador nos primeiros 20 anos do século XXI está relacionada ao contexto global e decor- rente do período da Guerra Fria? Atividade 3 A Venezuela tem uma trajetória que se apresenta por parte dos políticos com a Revolução Bolivariana. O que manteve Hugo Chávez no poder por tanto tempo e por que o país é alvo de interesses internacionais? Atividade 4 A Revolução Cubana é considerada um marco na história da América Latina e dentro dos movimentos esperados do contexto da Guerra Fria. Explique o porquê. REFERÊNCIAS APÓS UCRÂNIA, Moldávia e Geórgia oficializam pedido de ingresso na UE. UOL Notícias, 3 mar. 2022. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas- noticias/2022/03/03/apos-ucrania-moldavia-e-georgia-oficializam-pedido-de-ingresso-na- ue.htm. Acesso em: 14 out. 2022. AYERBE, L. F. A Revolução Cubana. São Paulo: Editora UNESP, 2004. BERMÚDEZ, Á. Protestos em Cuba: quanto o embargo americano realmente afeta a Ilha? BBC News Mundo, 16 jul. 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/ internacional-57862474. Acesso em: 14 out. 2022. CAMPOS, F. L. S.; LOBO, I. E.; AZEVEDO, B. M. O ocidente como responsável pelas crises da Ucrânia e da Geórgia. Rev. Bras. Est. 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Historiadores têm defendido uma his- tória mais global, ou seja, com temas que atravessam o globo, para além daquelas diferenciações entre Norte e Sul, Ocidente e Oriente. O fim do Apartheid em 1994, a Queda do Muro de Berlim em 1989 e o fim da Guerra Fria em 1991 presenciaram a ascensão da globalização como um movimen- to econômico, político, cultural e social acelerado pela informatização. Para compreender como esse mundo global vem se forjando é preciso conectar, relacionar e trazer olhares diversos sobre as políticas migrató- rias, assim como entender o processo de coisificação que o capitalismo causa não apenas a objetos, mas também a pessoas. Esse olhar é necessá- rio ainda sobre as demandas e relações culturais e políticas com o mundo oriental, uma divisão que é discutida por meio de um viés europeu. Ainda, fontes e acervos digitais, instituições privadas e públicas com softwares avançados que permitem o acúmulo de dados para pesquisa, são alguns dos benefícios desse mundo globalizado, tecnológico e populoso. Nesse sentido, refletir sobre esses movimentos de mudança, deseja- dos ou não, as novas formas de comunicação, as relações com o Oriente, a influência da China, entre outros, é um exercício necessário para com- preender a contemporaneidade e sua globalidade. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • compreender o neoliberalismo e a influência tecnológica na políti- ca contemporânea; • debater os preconceitos religiosos e étnicos existentes entre o Oci- dente e Oriente; Objetivos de aprendizagem Sociedade pós-industrial e globalização 119 • pensar sobre as transformações políticas das últimas décadas em relação aos problemas ambientais enfrentados; • problematizar condições, motivos e transformações causados pe- las migrações no contexto global; • refletir sobre sociabilidades e movimentos sociais em países andi- nos na contemporaneidade; • analisar formas de comunicação e de transformação por meio da cultura digital e das mídias sociais. 6.1 Neoliberalismo, globalização e desenvolvimento tecnológico Vídeo A política econômica global do fim do século XX e início do XXI tem in- fluência do neoliberalismo, uma teoria complexa e polissêmica definida no século XX. Anteriormente, estava presente no que chamamos de ideias libe- rais, mas ainda não havia contribuído, fundado ou se relacionado de modo tão evidente com a fundação ou atuação dos Estados mais modernos. Para fins de recorte conceitual, com o cuidado de considerar a varieda- de que o termo neoliberalismo pode ter, trazemos as ideias de Michel Fou- cault. Para ele, é preciso considerar políticos que representam ou estão no governo, mas que não se tornam sinônimo do próprio Estado, e como eles elegem práticas de governos e interagem com suas normas e objetos. Com essas influências, muitas das regras desse tipo de governo passam a ser de uma política econômica neoliberal, ou seja, são uma forma de existência do próprio Estado (FOUCAULT, 2004). Portanto, o neoliberalismo, quando não está preso a um contexto específico, pode ser o representante do Estado, criando suas regras econômicas, descentralizando a liderança e permitindo que diversos setores médios ou maiores tenham acesso ao que seriam “as proprie- dades” do Estado. Essas propriedades dizem respeito aos setores da Educação, Saúde, Urbanização, Comunicação, e à própria regulação das normas ligadas ao meio ambiente etc., interferindo em diversas caracte- rísticas sociais, econômicas, políticas, culturais e até comportamentais. 120 História Contemporânea Assim, não apenas os sujeitos sociais se tornam governáveis pelos in- teresses neoliberais, mas o próprio Estado passa a gerir seus valores, seu capital e sua rentabilidade por meio desses interesses, a fim de que se torne uma máquina pública que produza lucro, tanto para setores públi- cos quanto para privados. No entanto, as regras e áreas variam de acordo com o contexto, contando com uma presença menor ou maior do Estado. O marxista David Harvey (2008) traz princípios semelhantes, mas com foco na ideia de classe e relacionado diretamente com as noções de capital do último século, em que é preciso: interpretar a neoliberalização seja como um projeto utópico de realizar um plano teórico de reorganização do capitalismo inter- nacional ou como um projeto político de restabelecimento das condições de acumulação do capital e de restauração do poder das elites econômicas. Defenderei a ideia de que o segundo des- ses objetivos na prática predominou. A neoliberalização não foi muito eficaz na revitalização da acumulação de capital global, mas teve notável sucesso na restauração ou, em alguns casos (a Rússia e a China, por exemplo), na criação do poder de uma elite econômica. O utopismo teórico de argumento neoliberal, em conclusão, funcionou primordialmente como um sistema de justificação e de legitimação do que quer que tenha sido neces- sário fazer para alcançar esse fim. (HARVEY, 2008, p. 27) Percebemos que Harvey traz exemplos de diferentes práticas neoli- berais. Para além disso, afirma que a elite econômica apenas permite o crescimento do neoliberalismo se ela se mantiver no poder; e, caso ela permita incentivar o capital, ela o diminui. Setores médios, como empre- sas de comércio, são aqueles que permanecem ao lado das classes mais altas, embora haja diferenças entre elas. Desde os anos de 2010, o cargo de Diretor Executivo (CEO), embora não somente este, é um exemplo constante dessa “parceria” entre os setores e as classes. Essa nova forma de organizar o Estado dentro de princípios neolibe- rais está associada a uma perspectiva global que desestrutura amarras alfandegárias nacionais, forjando novos tipos de operação pela loco- moção constantede produtos e, especialmente, inovando por meio de um mercado baseado na bolsa de valores, de ativos, de securitização e dos chamados futuros 1 . Harvey (2008), considerando esses ideais neoliberais do século XXI, chama a atenção para alguns aspectos que são consequências dessas transformações. Para ele, o mercado de ativos ou de securi- A securitização é um processo que permite a transformação de dívidas em títulos de crédito ne- gociáveis, sejam públicas ou privadas. Mercados futuros são as negociações baseadas em possibilidades e especula- ções de produtos, desde commodities a produtos industrializados, por preços predefinidos. 1 Sociedade pós-industrial e globalização 121 tização considera propriedades ou áreas que deveriam ser públicas por assegurar a dignidade civil (saúde, saneamento, eletricidade, educação, pensões, bens comuns ambientais), ou seja, é um proces- so de privatização e de mercadização que permite acúmulo de capi- tal. A financialização é uma característica decorrente de processos especulativos que causam inflações e endividamentos por meio de juros e empréstimos de diversos tipos. As crises financeiras também podem ser organizadas pelas instituições privadas ou mesmo seto- res do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), e essas instituições, por sua vez, muitas vezes são geridas por pessoas provenientes das classes altas ou próximas a elas. Harvey (2008) considera, assim, que há uma troca econômica intrínseca por meio dessa política econômica neoliberal global, que ocorre por meio de privatizações, verbas públicas e até mesmo de isenções fiscais da- quilo que deveria ser público. Nesse caso, é preciso considerar a influência da globalização jun- to a essas mudanças econômicas. Esse processo de globalização é a internacionalização acelerada do capital (e do capitalismo) desde 1500 na América ou da Revolução Industrial na Europa. O que pre- domina no século XXI são os efeitos da robotização, culminando no que podemos chamar de revolução tecnológica, cuja centralidade se encontra na informatização e no alcance das redes de telecomunica- ções. Pensar em globalização remete às grandes corporações, visto que são elas que ultrapassaram as fronteiras de mares e continen- tes por meio das navegações, alterando produtos, formas de tra- balho (como o taylorismo e o fordismo), questões culturais e novos princípios econômicos. As mudanças decorrentes das novas tecnologias permitem que pro- dutos – iguais ou diferentes – sejam fabricados em lugares diversos ao mesmo tempo, pela distribuição de matérias-primas. Além disso, as mu- danças são baseadas em leis trabalhistas mais vantajosas, de acordo com o desejo das empresas. Mais inovador ainda é a potencialização do tra- balho terceirizado, que diminui o custo final, especialmente para gran- des empresas em uma sociedade de serviços. Para Castells (1992), isso significa que qualquer parte da fabricação de um produto, atendimento ao consumidor, setores de limpeza, design, marketing etc. podem ser ter- ceirizados, formando um todo que serve aos interesses de uma economia informacional, como ele intitula. 122 História Contemporânea O que percebemos é que a globaliza- ção não só alterou a produção de bens de consumo, mas também o modo como são negociados, além dos tipos de moedas e de negociações financeiras – possíveis justamente pelas formas de comunicação proporcionadas pela tecnologia nas teleco- municações. Esse conjunto, por sua vez, per- mite que grandes instituições bancárias, grupos empresariais e seus milhares de acionistas determi- nem, em grande medida, o modo como vive a maior parte da população, porque não apenas regulam crises, inflações e valores de mercado, mas também as políticas econômicas. 6.2 Conflitos étnico-religiosos e identitários Vídeo Os modelos capitalista, religioso e político são parte de um padrão europeu que se deu a partir de 1500 na América, primeiramente por meio de uma colonização de regiões, e depois sob o amparo do im- perialismo nos séculos XIX e XX. Vários desses processos foram refor- çados por um pensamento religioso, pelo capitalismo editorial, pelas Reformas Protestantes e a pela própria ciência dos séculos XVIII e XIX. Esses acontecimentos sobrepuseram aquilo que era europeu em rela- ção ao restante do mundo, com base em diferenças étnicas e raciais, gerando discursos de inferioridade e superioridade que permanecem até a atualidade, para além das disputas econômicas. Um mundo dividido em hemisférios e nações é a composição geo- política que surge a partir do período Moderno. Para Benedict Anderson (2013, p. 32), nação “é uma comunidade política imaginada – e imaginada como sendo intrinsecamente limitada e, ao mesmo tempo, soberana”. É construída e reforçada por meio de características como etnia, língua, leis, religião, cultura etc. Anderson (2013) ainda reforça que a divisão por hemisférios foi ressaltada, no século XIX, por meio do nacionalismo em que a Europa vivia e pela forma como se relacionava com as colônias, como no caso em que traz a relação de um oficial e policial inglês que, vivendo na Birmânia, era odiado pelas consequências da violência étni- ca, racial e exploratória típicas da colonização. Com essa ideia, Anderson nepool/Shutterstock Sociedade pós-industrial e globalização 123 (2013) evidencia como essa situação era comum mesmo após as inde- pendências, em um processo de nacionalização: em Moulmein, na baixa Birmânia [...], eu era odiado por muita gente – a única vez na minha vida em que eu tive importância suficiente para que isso me acontecesse. Eu era oficial da subdi- visão policial da cidade. (ANDERSON, 2013, p. 211) Uma prática imperialista é pautada por questões étnicas e identi- tárias que se desdobram em diversos aspectos, entre eles o religioso. Para Hall (2006), não importa quão diferentes os membros de uma cul- tura nacional possam ser em termos de classe, gênero ou raça, essa cultura busca unificá-los numa identidade cultural para representá-los como se pertencessem à mesma família nacional. É em nome dessa pretensa unidade que cresce o nacionalismo. As histórias de preconceito e dificuldade de adaptação por questões religiosas são ouvidas em todo o mundo, desde os cristãos na Coreia do Sul até, nesse caso com muito mais potência, os muçulmanos na Eu- ropa. Esse preconceito não se delimita apenas em relação aos recém- -chegados, pois mesmo aqueles que nasceram em um país europeu e têm como religião o islamismo também sofrem dificuldades. Ainda que não estejam ligados às vertentes mais fundamentalistas, alguns acabam tendo reações terroristas também por desejarem seus direitos. Já os eu- ropeus sem tradição muçulmana muitas vezes incentivam a xenofobia. Na França, Michele Perrot (2005) lembra-se de meninas muçulma- nas que são impedidas de usarem o véu na escola. Por outro lado, ocorreram diversos ataques terroristas em nome de Alá, em uma ra- dicalização que piora a situação da maioria que quer apenas viver em paz nos países escolhidos como seus novos lares. Também não pode- mos esquecer o ataque ao Jornal Charlie Hebdo em 2015 e à boate Bataclan em 2018, ambos em Paris. A Europa vem se preocupando com esses ataques, diminuindo ou mesmo cerceando direitos de imigran- tes, e isso contribui para o aumento da xenofobia por parte da popu- lação. Há uma estimativa de que, em 2050, a Europa abrigará 15% de muçulmanos contra os 4% de 2022. Para José Alves (2018), pesquisador sobre demografia, a população jovem muçulmana em diversos países da Europa é proporcional à europeia e tende a ter mais filhos também. Um símbolo do Oriente é a China, que apenas no fim do governo de Mao Tsé-Tung começou um processo de abertura econômica a es- 124 História Contemporânea trangeiros, e os princípios chineses eram de que a tecnologia, a ciên- cia, as forças armadas e a indústria deveriam receber investimentos financeiros e tecnológicos. Para não abrir a sua políticaaos interesses estrangeiros, a China criou zonas de comércio internacional, como evi- denciado por Marcelo Nonnenberg et al. (2008, p. 15): o desenvolvimento industrial da China contou com duas impor- tantes vantagens geográficas. Em primeiro lugar, a proximidade com Hong Kong inspirou a criação de quatro Zonas Econômicas Especiais (ZEEs), em 1980, em Shenzhen, Zhuhai, Shantou e Xia- men. Todas as quatro ZEEs são localizadas no litoral sul, sendo que as duas primeiras situam-se quase ao lado de Hong Kong e Macau e, as duas últimas, relativamente próximas. Nessas ZEEs, passaram a ser concedidas diversas isenções fiscais. As isenções fiscais e a relação com Hong Kong – que desde 2020 vem sendo mais pressionada pela intromissão do governo chinês – ex- pressam a importância da existência dessas zonas, ao mesmo tempo que preservam sua política interna. Além disso, é preciso considerar que, a despeito de um governo mais autoritário, Mao Tsé-Tung investiu em obras de infraestrutura nos anos 1960/1970, facilitando o transpor- te interno no país de proporções continentais. A partir dos anos 1990, o governo de Deng Xiaoping estabeleceu que a agricultura deveria se basear em uma economia de mercado, exportando e importando produtos, como faz com a soja brasileira por meio de com- modities. Em 2001, a China passou a integrar a Organização Mundial do Comércio (OMC) e permitiu, em parte, a entrada de bancos estrangeiros no país. Em relação à ciência, desde o massacre da Praça da Paz Celestial em 1989, a abertura da China é maior, embora os resultados de pesquisa mantenham-se como objetos do próprio país, sendo pouco divulgados. Nonneberg et al. (2008) consideram ainda outro aspecto crucial para que a China desponte como potência, apesar das divergências étnico-raciais impostas por séculos de eurocentrismo. Para os autores: o baixo custo da mão-de-obra e uma taxa de câmbio desvalori- zada propiciam elevada rentabilidade ao capital externo, espe- cialmente aquele voltado às exportações. A produção dirigida ao mercado externo goza de isenção de impostos de importação para matérias-primas, peças e componentes. Assim, as EMNs 2 – especialmente as do setor de eletrônicos e comunicações, que representam grande parte das exportações chinesas – podem EMNs: empresas multinacionais. 2 Sociedade pós-industrial e globalização 125 instalar, na China, as etapas finais da produção, aproveitando as peças e componentes produzidos pelas filiais localizadas nos paí- ses vizinhos. (NONNENBERG et al., 2008, p. 19) Assim, não são apenas os produtos chineses que são enviados para o mundo todo, mas o baixo custo da mão de obra faz com que diversas empresas internacionais utilizem o trabalho chinês ou terceirizem par- te de sua produção na China. É possível inferir que o capitalismo e sua disputa imperialista prevalece em relação às diferenças identitárias. A potência chinesa transformou a relação do eixo Norte e Sul. Com novas práticas político-econômicas, a nação, cuja identidade é diversa do Ocidente, que também não é homogêneo, passou a ser questionada pela posição econômica hegemônica, ou seja, de supremacia, que vem buscando estabelecer. Diretamente, a China é uma oposição ao impe- rialismo norte-americano, como fica evidente na demora da assinatura do Protocolo de Kyoto, em que ambos os países trocaram acusações sobre a recusa um do outro, a fim de que as produções continuassem sem restrições, com o intuito de produzir mais. Essas disputas econômicas, cuja base é a diferença étnica ou religio- sa, também existem com relação aos árabes. Estes, estejam no Oriente Médio ou na Ásia, representam boa parte da produção de petróleo, tornando-se importantes fornecedores do produto para o restante do globo. No entanto, a intromissão e a supremacia Ocidental pioraram com o ataque às Torres Gêmeas em 2001. O Oriente Médio, em espe- cial, passou a ser visto como um local mantenedor de terroristas radi- calizados por questões religiosas, opondo o cristianismo ao islamismo. O Afeganistão, após reocupação das forças talibãs 3 em 2021, im- pôs novamente sua visão radical xiita, expulsando soldados e a ajuda humanitária do país. No entanto, é preciso considerar que esse Talibã foi treinado nos anos 1980 e 1990 por forças norte-americanas contra o governo local, atingindo autonomia mais tarde. Portanto, de um lado há o interesse geopolítico ligado ao imperialismo norte-americano, por outro, o preconceito baseado em diferenças identitárias e religiosas. Porém, na Ásia, no Oriente Médio e na Europa, os grupos radicais são menores, o que se torna maior é o preconceito étnico-religioso. Estereótipos de ambos os lados fazem com que grupos de extrema direita cresçam com base em um nacionalismo radical, como se uma Assista à aula História do Afeganistão, do canal Emiliano Unzer, em que o debate é sobre a história do povo afegão. O vídeo traz detalhes diversos sobre aqueles expostos junto ao 11 de setembro, à invasão norte-america- na e ao Talibã. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=Nlhuvwah6Lg. Acesso em 14 out. 2022. Vídeo Talibã é um movimento fundamentalista religioso e nacionalista característi- co do Paquistão e do Afe- ganistão. Seus líderes têm origem na etnia pachtun e sua fundação data do fim da década de 1980. 3 https://www.youtube.com/watch?v=Nlhuvwah6Lg https://www.youtube.com/watch?v=Nlhuvwah6Lg https://www.youtube.com/watch?v=Nlhuvwah6Lg 126 História Contemporânea nação fosse naturalmente homogênea, quando entendemos que, na verdade, diversos povos a compuseram ao longo de sua historicidade. A heterogeneidade ocorre especialmente em países com mais imigran- tes, como é o caso da Alemanha, da França, do Leste Europeu, dos Esta- dos Unidos e, também, em países emergentes ou em desenvolvimento. 6.3 Transformações e debates da História Ambiental Vídeo Na segunda metade do século XX, surgiram debates sobre ques- tões ambientais, especialmente relacionadas ao modo como as relações produtivas e de exploração do meio ambiente refletiam na vida dos cidadãos, desde o cotidiano até em largas escalas de tempo. Nesse sentido, também ocorreram transformações políti- cas, visto que as medidas ambientais se tornaram motivos de en- contros geopolíticos e de grupos de debate, seja de representantes de países ou de cientistas. Um marcador dessas discussões é o Protocolo de Kyoto, firmado em 1997 na cidade de Kyoto, no Japão. É um dos principais documentos que firmaram um compromisso entre diversos países durante a Con- ferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, com o objetivo de reduzir o efeito estufa. Antes desse protocolo, no Rio de Janeiro, ocorreu a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, tam- bém conhecida como Rio-92 ou Eco-92, onde estiveram presentes 178 países e 114 chefes de Executivo. Nessa conferência, uma discussão relevante, relacionada a questões do acirramento entre Norte global e Sul global, foi levantada pelo Grupo dos 77, cujas lideranças eram da Malásia e da Índia. Segundo esse grupo, não seria possível discutir a diminuição da poluição sem considerar a exploração praticada pelos países mais ricos sobre os mais pobres ou em desenvolvimento. A despeito dessa afirmação, as individualidades de cada país ficaram evidentes. Ainda assim, a Rio-92 foi um marco para o início de discussões importantes e que foram afuniladas e aprofundadas nas décadas seguin- tes. Apesar das divergências entre Norte e Sul não terem sido mais pro- blematizadas na época desse encontro, o Protocolo de Kyoto efetivou, a partir de 2005, novos compromissos pela redução de gases poluentes do Sociedade pós-industrial e globalização 127 efeito estufa, em que 37 países se responsabilizaram. Um entrave nesse início foi o fato de a China, um dos maiores poluidores pela queima de carvão mineral, não ter assinado o termo. Por isso, apesar da diminuição da emissão de gases poluentes na Europa,o Protocolo foi questionado. Foi apenas em 2015, em Paris, na França, que a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas alcançou maior expressi- vidade com o Acordo de Paris, quando 196 países (dos quais 147 reafir- maram o compromisso após o encontro de 2015) se comprometeram a limitar o aumento da temperatura mundial a 1,5ºC ou, ao menos, a ga- rantir o que já era feito, mantendo no máximo a 2ºC o nível da tempera- tura em comparação com a era pré-industrial, de 1500-1600. Também são aspectos desse acordo a cooperação entre os setores privado e o público, a participação da sociedade civil, a criação de tecnologias que não sobrecarreguem a natureza (como casas flutuantes em regiões de ressacas ou o aumento dos níveis dos mares, combustíveis naturais não minerais, energias sustentáveis, como a eólica e a solar) e a trans- ferência de tecnologia para países menos desenvolvidos. Para alguns cientistas, o número de 1,5ºC deveria ter sido mantido em vez de permitir também o máximo de 2ºC, apenas para economizar centenas de trilhões de dólares. Além disso, seríamos mais categóricos e rápidos na paralisação da destruição da natureza e, consequentemente, de nós mesmos. Essa economia viria dos gastos que temos com políticas públicas durante secas, tempestades, tufões e aumento dos níveis dos mares, além do desenvolvimento de novas sementes, entre outros. O Acordo de Paris foi validado em novembro de 2016, tendo como pri- meira revisão de números o ano de 2025. A partir do encontro de Paris, o símbolo representante da Conferência passou a ser o termo Acordo de Paris, cujas medidas, sugestões e relatórios com números relacionados a questões climáticas vêm especialmente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Este painel, segundo Bernardo Este- ves (2018), é o que aponta que o indicador deveria ser 1,5ºC – além disso, os últimos relatórios atestam que é possível manter esse número. No caso do Brasil, onde o agronegócio é muito representativo no pro- duto interno bruto (PIB), é preciso ponderar em que medida isso afeta o meio natural e como se torna um entrave para respeitar o limite do Acordo que o país assinou em 2016. A segurança alimentar também é um ponto de discussão necessário. Assim, ao mesmo tempo que o agronegócio produz O Acordo de Paris foi retificado em 2020/2021. Um dos principais pontos foi o retorno dos Estados Unidos, que haviam saído por decisão unilateral de Donald Trump, em 2017. Para mais informações, leia o texto de Marcos Candido De Ecoa. Disponível em: https://www. uol.com.br/ecoa/ultimas- noticias/2021/02/02/o-que-e- o-acordo-de-paris-assinado-por- biden-no-1-dia-de-presidencia. htm. Acesso em: 14 out. 2022. Leitura Leia o texto Comunidades tradicionais, que divulga diversas medidas de pre- servação e recuperação de matas/florestas bra- sileiras. Nessa página, o leitor encontra exemplos de comunidades tradicio- nais, como quilombolas, ribeirinhos e pescadores, que mantêm relações pouco ou nada explorató- rias com a natureza. Disponível em: https:// www.socioambiental.org/ como-atuamos#comunidades_ tradicionais. Acesso em: 14 out. 2022. Leitura https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2021/02/02/o-que-e-o-acordo-de-paris-assinado-por-biden-no-1-dia-de-presidencia.htm https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2021/02/02/o-que-e-o-acordo-de-paris-assinado-por-biden-no-1-dia-de-presidencia.htm https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2021/02/02/o-que-e-o-acordo-de-paris-assinado-por-biden-no-1-dia-de-presidencia.htm https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2021/02/02/o-que-e-o-acordo-de-paris-assinado-por-biden-no-1-dia-de-presidencia.htm https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2021/02/02/o-que-e-o-acordo-de-paris-assinado-por-biden-no-1-dia-de-presidencia.htm https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2021/02/02/o-que-e-o-acordo-de-paris-assinado-por-biden-no-1-dia-de-presidencia.htm seus commodities (soja, algodão, milho e outros) também reduz biomas e áreas a serem preservadas (ou que são preservadas, analisando a extração ilegal de madeira e da abertura de pastos por todo o país). Com essas reduções, para o IPCC haveria menos terra agricultável nas próximas décadas, mesmo com o desenvolvimento de sementes mais resistentes à diminuição ou à falta de água, por exemplo. Esse últi- mo reflexo deve-se especialmente à alteração nos biomas como o Cer- rado e a Amazônia, duramente afetados pelo desmatamento e pelas próprias mudanças climáticas que alteram as correntes de ar. A partir da preservação e recuperação de florestas, bem como do constante in- centivo a outras fontes de energia, de combustíveis etc., é possível pen- sar a participação do Brasil nas propostas do IPCC, segundo aponta o Observatório do Clima (SOUZA; PIRES, 2016). Em relação aos alimentos, é preciso urgentemente priorizar a produção de orgânicos; no entan- to, estes também devem ser agroecológicos 4 . Esse tipo de produção deve repensar o uso da água e evitar a exploração de um produto em detrimento de outro, e a monocultura deve dar lugar à produção de múltiplos produtos. A História, nesse caso como disciplina, colabora com a consciência ambiental, afinal todo uso dos meios naturais passa pela compreensão das práticas sociais e culturais, isto é, as relações que as sociedades mantêm com o mundo natural são compreensíveis por meio do que entendemos como tradição e sobrevivência. O historiador José Augusto Pádua (2010) afirma que a discussão ambiental centralizou as questões relacionadas à globalização como uma consequência e uma condição desse processo político, econômico e cultural. Os processos migratórios, o crescimento demográfico, a escassez ou a supervalorização de produtos extraídos da natureza e a desigualdade de acesso a eles são efeitos colaterais da globalização. Assim, um dos pontos comuns para que os países se unam e pensem em seus proble- Produtos agroecológicos não utilizam agrotóxico nenhum, pois há preo- cupação também com o solo. A cultura é mantida junto a outras espécies que colaboram para a manutenção de pragas. 4 Fo to ko st ic /S hu tte rs to ck 128128 História ContemporâneaHistória Contemporânea Sociedade pós-industrial e globalização 129 mas é a questão ambiental. Pádua (2010) nos lembra sobre o crescimen- to demográfico como condição para a aceleração do desmatamento. A migração, o crescimento urbano, as poluições e o consumo de produtos e de energia sobrecarregaram ainda mais a natureza, além de potencia- lizarem a piora na qualidade de vida daqueles que já viviam no campo, especialmente aqueles mais pobres. Portanto, o conceito central nessa discussão é o Antropoceno, ou seja, uma nova era geológica que tem como característica o impacto da humanidade na Terra, sendo o período mais recente do nosso planeta. Pádua (2022) afirma que o conceito tem historicidade e a ideia é decor- rente das primeiras discussões envolvendo geologia, geografia, histó- ria, ecologia, biologia, entre outras áreas. É preciso pensar na noção de tempo geológico (aquele em que os recursos naturais são formados) e de tempo humano (aquele em que aplicamos e fundamentamos nossas práticas sociais e culturais). O Antropoceno tem diversas apropriações, mas suas conexões são centrais e complexas com a industrialização para além do sistema de plantation (prática ligada à monocultura) durante a colonização, com a exploração do ouro (e criação de bancos com o ga- nho provindo dessa exploração), com a exploração do café, ou mesmo com os commodities que possuímos no século XXI (PÁDUA, 2022). O historiador pós-colonial Dipesh Chakrabarty (2013) aponta que o Iluminismo, movimento intelectual europeu, permitiu que o homem apenas considerasse sua liberdade de dominar a natureza, mas sem consciência desse uso, que, nesse caso, também alterou a estrutura geo- lógica do planeta. Para que evoluíssemos, segundo o que era entendido como evolução e modernização (especialmentepromoverem a desestabilização política em seus países, estão ligadas ao descontentamento geral após 1815 (período conhecido como a Restauração, que se estendeu até 1830), ou seja, não dizem respeito somente às classes mais simples, mas tam- bém à própria burguesia na Europa. Leia sobre o Congresso de Viena (1814-1815), quando os países ata- cados por Bonaparte se reuniram para repensar o mapa europeu, depois que Bonaparte foi exilado. Tema disponível nos capítulos 6 e 7. HOBSBAWM, E. A era das revoluções: 1789-1848. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2010. Leitura O começo de um século efervescente 15 Segundo Hobsbawm (2010), havia os liberais moderados perten- centes a uma classe média superior que intencionavam uma democra- cia constitucional. Outro grupo seria os democratas radicais de classe média inferior ou até mais baixa, incluindo-se novos industriais e inte- lectuais, cujo objetivo político era distribuir mais o poder, mantendo poucos privilégios. Um último substrato é o dos socialistas, aqueles vin- dos das classes mais baixas e proletárias, cuja intenção central era a divisão mais igualitária ao estilo dos jacobinos mais radicais. Podemos dizer que este último forma o embrião de uma ideia mais comunista (e socialista) que apenas será teorizada em meados da primeira meta- de do século XIX, tema da nossa próxima seção. Em 1832, tão importante quanto os movimentos de 1830 na França, quando os Bourbon foram derrubados novamente após sua volta ao poder, foi votado o Ato da Reforma na Inglaterra, também conhecido como Lei da Reforma de 1832, que, embora tenha diminuído a represen- tação de distritos mais simples na Câmara dos Comuns em Londres, aumentou em número os votos absolutos. A diminuição se deu devido ao aumento proporcional de cadeiras pelo número populacional da cidade, o que afetou cidades pequenas em representatividade. Portanto, embora o aumento de cadeiras não diga respeito aos grupos de trabalhadores braçais, a ausência do di- reito ao voto contribui para que um sentimento de experiência com- partilhada gere uma prática identitária. Segundo o historiador Edward Palmer Thompson (1987), no ano de 1832 os movimentos sociais tam- bém tinham a presença de operários que passaram a construir a ideia de classe não porque se conscientizaram a respeito dela, mas porque se uniram a ela por meio do sistema fabril. Ainda sobre 1830, no território francês, podemos afirmar que: marca a derrota definitiva dos aristocratas pelo poder burguês na Europa Ocidental. A classe governante dos próximos 50 anos seria a “grande burguesia” de banqueiros, grandes industriais e, às vezes, altos funcionários civis, aceita por uma aristocracia que se apagou ou que concordou em promover políticas primordialmen- te burguesas, ainda não ameaçada pelo sufrágio universal, em- bora molestada por agitações externas causadas por negociantes insatisfeitos ou de menor importância. (HOBSBAWM, 2010, p. 186) O que sobressaltamos dessa citação é a ideia de que a burguesia alcança o poder proclamado na Revolução Francesa e a aristocracia 16 História Contemporânea restante passa a concordar com suas propostas, a fim de sobreviver. É evidente que uma maior participação popular não ocorre, embora sua ameaça esteja presente em “agitações externas”, mas, como sugerimos ao citarmos a Reforma de 1832 na Inglaterra, começou a se tornar mais evidente a ideia de um sufrágio universal, e não somente na Inglaterra. Assim, uma economia liberal com um caráter pouco democrático estava cada vez mais contestada e não demorou para que populares, incluindo uma classe operária, se tornassem uma força política consciente e cola- borassem com suas próprias causas e com movimentos nacionalistas. No ano de 1830, as potências estavam delineando novas fronteiras, migrações ocorriam e políticas econômicas industriais eram discutidas, cujo ápice foram revoluções ocorridas em 1848 na Península Itálica, na França, nos Estados Alemães e na Suíça. Apesar de o contexto da Revo- lução Francesa estar distante do contexto de 1830, seus ideais não esta- vam. Assim, mesmo que as barricadas deste ano também defendessem um liberalismo por acreditar que traria mais liberdade a todos, a dimi- nuição do Estado não correspondeu aos interesses de proletários. Desse período também surgem algumas divisões políticas, como aquelas que seriam mais radicais à esquerda, mais nacionalistas ou moderadas. Em 1830, uma política de massa, a ação de irmandades secretas e a não participação efetiva no poder por parte de grupos mais populares co- laboraram para a derrubada dos Bourbon – isso porque eles formavam a monarquia restaurada e por isso não precisariam ouvir seus subalternos. Parte da massa popular da revolução, junto a crises econômicas e a despeito do crescimento do capitalismo industrial que trazia poucos direi- tos trabalhistas, se organizou em forma de classe (HOBSBAWM, 2010). Não obstante a ausência de direitos trabalhistas, também eram comuns violên- cia nas fábricas, hostilidades policiais, criminalidades variadas, prostituição para a sobrevivência, falta de alimentos e má condições de higiene, ou seja, um contingente propício para uma ebulição popular. Podemos inferir que o avanço tecnológico e a imposição de um novo sistema de produção ocasionaram aos trabalhadores poucas condições ideais de trabalho em um contexto que veio logo após uma revolução que prometia igualdade e liberdade a todos. Assim, além do descaso sofrido, esses grupos que começavam a se ver como classe também eram controlados pelos novos senhores de um sistema capi- talista industrial, os burgueses, para os quais vendiam seu trabalho e tinham pouco reconhecimento (DECCA; DECCA, 1988). Para pensar sobre a diferença de liberal e libe- ralismo, no artigo O que é liberalismo? O que significa ser liberal?, o historiador Daniel Gomes de Carvalho traz apontamentos acerca dos termos, especial- mente considerando que o primeiro está mais relacionado ao contexto do século XIX quando ele se relacionava à soberania, ao constitucionalismo e à liberdade comercial pre- sentes em uma nação. Disponível em: https://www. cafehistoria.com.br/o-que-e-o- liberalismo-o-que-significa-ser- liberal/. Acesso em: 20 set. 2022. Leitura https://www.cafehistoria.com.br/o-que-e-o-liberalismo-o-que-significa-ser-liberal/ https://www.cafehistoria.com.br/o-que-e-o-liberalismo-o-que-significa-ser-liberal/ https://www.cafehistoria.com.br/o-que-e-o-liberalismo-o-que-significa-ser-liberal/ https://www.cafehistoria.com.br/o-que-e-o-liberalismo-o-que-significa-ser-liberal/ O começo de um século efervescente 17 Portanto, além das definições sociais e políticas e das crises econômi- cas pelas quais passava a França, havia a ausência de direitos que con- templassem o mínimo esperado pelos trabalhadores que se somavam a outros substratos de mazelas sociais e pobreza em diversas cidades europeias. A Primavera dos Povos, ou Revolução de 1848, como é conhe- cido esse contexto, é a agitação sem sentido ou despreparada que in- centivou vários grupos a reivindicarem seus direitos – civis, trabalhistas e até mesmo de reconhecimento público – como em um efeito dominó. No caso da Alemanha e da Itália, ambas ainda nem sequer eram países, por isso os compromissos trabalhistas eram locais e dentro das disputas de relações de poder, afetando diretamente as camadas sociais que de- pendiam mais de políticas públicas de um Estado maior. A Primavera dos Povos levantou barricadas entre 1848 e 1849, as quais foram derrubadas em poucas horas ou dias, a depender do local. Entretan- to, os atos fomentaram a formação de grupos mais organizados que ins- titucionalizaram sindicatos e cooperativas. É importante ressaltarmos que a década de 1830 já havia apresentado os primeiros sindicatos, como é o caso do Sindicato Geral. Esse se levantou contra a Lei da Reforma de 1832, em uma disputa entre os moderados liberais e a esquerda mais radical, no que diz respeitose considerarmos a crí- tica decolonial), o uso de produtos ligados à tecnologia foi desenfreado, desde a máquina a vapor até o uso de água, de minerais, de produtos fósseis etc. (CHAKRABARTY, 2013). Novamente, a relação do Sul com o Norte global faz sentido, como foi a pauta da Rio-92, segundo a liderança da Índia e da Malásia, quando reuniram os 77 países do Sul Global. Assim, com o aceleramento do uso das fontes naturais a partir de 1500, o tempo geológico passou a não ser respeitado pelo tempo huma- no, transformando a fase do Holoceno, de mais ou menos 11.500 anos atrás, na qual as sociedades humanas começaram a se desenvolver, em Antropoceno, período em que passamos a alterar geologicamente o Pla- neta Terra. Produtos que precisaram de processos de composição mine- ral/natural, levando milhares de anos para serem forjados, foram e ainda Assista à entrevista Minha História Ambiental, publi- cada no canal Lutz Global, com o historiador José Augusto Pádua, conside- rado uma das principais referências de História Ambiental no Brasil e especializado no conceito de Antropoceno. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=lt26i66hw-4. Acesso em 14 out. 2022. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=lt26i66hw-4 https://www.youtube.com/watch?v=lt26i66hw-4 https://www.youtube.com/watch?v=lt26i66hw-4 130 História Contemporânea são utilizados em poucas horas pela aplicação exaustiva da eletricidade na produção de bens de consumo pouco ou momentaneamente úteis. Além disso, é preciso con- siderar que o petróleo, por exemplo, não é utilizado apenas como combustível, mas seus derivados estão presentes em centenas de objetos industrializados, desde shampoos a plásticos em geral. Com essas condições, o ambientalismo se tornou um indicador de que a escala da presença humana na natureza deveria ser mais bem compreendida e até questionada. A história humana não pode se converter em sinônimo de alteração da paisa- gem de modo maléfico. Nesse caso, a História Ambiental deve ser uma forma de reconhecer como os sistemas naturais foram alterados em sua historicidade pela interação com o ser humano. Por meio dessa com- preensão é que se chegam às mudanças de comportamento esperados de nossa sociedade, mesmo que ela seja industrial (PÁDUA, 2010). 6.4 Fluxos migratórios na Europa e na América Vídeo A economia global vem mudando as práticas sociais, culturais e, es- pecialmente, econômicas. Não há barreiras alfandegárias que impeçam o envio de mercadorias, nem mesmo a transferência da mão de obra de funcionários. Esse processo causa mudanças identitárias, inseguranças sobre quem somos, e gera ondas imigratórias complexas, causadas por questões ambientais, econômicas e crises civis, além da convivência com essas ondas. A historiadora Erica Sarmiento (2021) lembra o que as mí- dias expõem constantemente: os muitos corpos e sonhos abandonados pelos caminhos migratórios em todos os continentes. Mortos nos mares, nos rios ou mesmo pessoas em condições de pri- são nas alfândegas são comuns. Em 2015, houve o caso do menino sírio de 3 anos afogado, Alan Kurdi, cujo corpo foi encontrado em uma praia. Tal situação ocorreu no auge da fuga de refugiados devido à guerra contra o Estado Islâmico dirigida a outros grupos políticos e às minorias, como a dos curdos. A comoção do caso de Alan é proporcional à coisificação que a globalização também gera em relação à vida humana. Segundo Achille Mbembe (2019, p. 35): Br ia n A Ja ck so n/ Sh ut te rs to ck Sociedade pós-industrial e globalização 131 Não é apenas que a economia venha se tornando o espaço proe- minente das lutas pela vida. É também que as pessoas e coisas, natureza e objetos, estão cada vez mais sob o risco de serem transformados em artefatos. Então, claro está, que ao analisar- mos as qualidades e propriedades das mobilizações contempo- râneas, precisamos ter em conta o impacto das tecnologias de comunicação e mídia na formação da subjetividade política. Portanto, a “coisificação” incentivada pelo processo político econô- mico em questão é proporcional, apesar da sensibilidade, à abjeção imposta a esses “corpos” migrantes. Quem são esses corpos vistos como inúteis, ou com menos valor para o mercado, e que, na maioria das vezes, morrem nas fronteiras do México ou na chegada à Ilha de Lampedusa (vindos do continente africano), ou que estão à mercê dos interesses russos nas fronteiras da Ucrânia, afogados no Mar Egeu, no Mar Negro (vindos da Ásia) ou presos em trens de pouso? No ano de 2021, mais de 89 milhões de pessoas (ACNUR, 2022) foram obrigadas a se deslocar pelo mundo, sob condições desumanas, muitas vezes deixando tudo para atrás e pagando somas altas para ter acesso a sistemas de transportes lotados, obsoletos e sem proteção alguma. Ainda, cabe diferenciar refugiados de migrantes: refugiados são aqueles obrigados a fugir do país por ameaças, sejam elas por questões de raça, de política, de gênero etc. (WEISS, 2018); migrantes, por sua vez, não estão necessariamente fugindo, visto que a mudança de país pode ser uma opção econômica, laboral ou mesmo política e cultural. Em comum, tanto os refugiados quanto os migrantes podem não ser bem recebidos pelas questões hegemônicas sociais ou podem ser relegados a trabalhos vistos como “menores”, além de sofrerem ataques xenófobos. De qualquer forma, a imigração em um mundo coisificado traz no- vos posicionamentos geopolíticos que alteram história e cultura de imi- grantes e de seus países, além de traumas. Sarmiento (2021, p. 26) faz o seguinte apontamento sobre a fronteira mexicana em 2019: As autoridades de imigração dos Estados Unidos separaram mais de 1.500 menores dos seus pais na fronteira com México no início do governo do presidente Donald Trump, no ano de 2017. A União Americana de Liberdades Civis (ACLU, sigla em inglês) explicou que o governo informou a seus advogados que 1556 menores foram separados de suas famílias entre o dia Primeiro de julho de 2017 e o dia 26 de junho de 2018. Indicamos a escuta de dois episódios do podcast Refúgio em Pauta: Episódio 5: Gênero e deslocamento forçado reflete sobre as dificul- dades potencializadas pela condição da mulher enquanto refugiada. Episódio 8: O conflito na Ucrânia e seus impactos na população civil, cujo objetivo é debater sobre as marcas causadas na população ucraniana em situação de refúgio. Disponível em: https://www.acnur. org/portugues/podcast/. Acesso em: 14 out. 2022. Podcast https://www.acnur.org/portugues/podcast/ https://www.acnur.org/portugues/podcast/ 132 História Contemporânea Muitos desses nunca sequer chegaram aos Estados Unidos, sendo deportados após longos meses ou anos, e alguns se estabeleceram no México e na vizinha Guatemala. O México, por sua vez, repleto de pro- blemas sociais também vem fechando mais as fronteiras, inclusive para brasileiros, que até 2021 nem precisavam de passaporte para adentrar o país. O descaso com crianças e a separação delas de seus pais apenas demonstram que a coisificação existe e que ela é direta. Além disso, se- gundo Sarmiento (2021) há uma diferença de trato em relação às pessoas oriundas do Haiti e da África, ou seja, a questão racial é mais evidente. Não menos importante e responsável é a cruel ação norte-americana, que, sob o respaldo da guerra ao terror, diminui desde 2001 as possibili- dades de negociação e de recepção daqueles que são estrangeiros. Assim, retomamos as ideias de Mbembe (2019), em que é preciso pensar o lugar das mídias e como elas podem criar espaços de empa- tia para além das tragédias consideradas maiores ou das que garantem mais cliques em seus sites. É preciso criar lugares de debate mais demo- cráticos sobre condições justas e reconhecidas para aqueles que migram em busca de trabalho, seja temporário ou contínuo, além de questionar os limites estatais em relação aos direitos civis, de moradia, de sanea- mento etc., ou seja, que dizem respeito à dignidadehumana. Não menos importante é essa comunicação instantânea que se alastra, cria sentidos e pode refletir sobre as diversas camadas de preconceitos baseados em etnia, raça, orientação sexual e gênero, colaborando para um mundo mais multicultural. Entretanto, essa multiculturalidade não pode ser usada no sentido neoliberal, que comercializa as culturas por meio da venda de produtos, da criação de “dias” específicos que homenageiam diferentes países e de feiras que têm como objetivo o faturamento. As mídias podem expor experiências individuais, especialmente em relação a essas intenções que vêm das forças invisíveis (BOURDIEU, 1997). O caso de Alan Kurdi não deve ser propagado apenas para gerar cliques aos jornais, mas para que as estruturas de preconceito étni- co e social comecem a ser desconstruídas e contextualizadas em um processo de globalização que traz transformações por meio da tecno- logia alterando significativamente a vida humana, sem que esta possa sempre limitar a sua ação sobre a sua própria vida. O estilo moderno vai além da compra de produtos do mundo global; ele também vende imagens, as quais são massificadas e normalizadas. O excedente, aqui- lo que sobra por inúmeros motivos, é só mais um corpo obsoleto. Para continuar a falar sobre refugiados e suas condições de vida, convi- damos você a escutar o episódio Fake news sobre refugiados no Brasil, do podcast isabele oficial, que traz detalhes com o compromisso de diminuir a intensidade de notícias falsas que chegam sobre sujeitos sociais na condição de migrantes/ refugiados. O tema trata de venezuelanos que chegaram ao Brasil e de como eles se tornam vítimas de xenofobia. Disponível em: https://anchor. fm/isabele-oficial/episodes/Fake- news-sobre-refugiados-no-Brasil- eh3j6d. Acesso em: 17 out. 2022. Podcast https://anchor.fm/isabele-oficial/episodes/Fake-news-sobre-refugiados-no-Brasil-eh3j6d https://anchor.fm/isabele-oficial/episodes/Fake-news-sobre-refugiados-no-Brasil-eh3j6d https://anchor.fm/isabele-oficial/episodes/Fake-news-sobre-refugiados-no-Brasil-eh3j6d https://anchor.fm/isabele-oficial/episodes/Fake-news-sobre-refugiados-no-Brasil-eh3j6d Sociedade pós-industrial e globalização 133 O percurso dos refugiados e dos migrantes deve ser observado e res- peitado como possibilidades de práticas identitárias que se transformam, descentralizam-se e são resultado de mudanças estruturais geopolíticas que devem ser acolhidas e adaptadas. Stuart Hall (2000) afirma que nos- sos comportamentos são múltiplos em nossa vivência, incluindo a ideia de contradição; assim, é justo considerar que as diferenças fazem parte das sociedades humanas. A desterritorialização não deve existir apenas para os produtos vendidos e consumidos. As sociedades humanas fazem parte do “ser no mundo” de cada um e, ao mesmo tempo, é justo que todos possam ter um lugar seguro para que suas várias práticas identitárias possam coe- xistir. Lugares seguros onde a exposição constante pela mídia de um corpo infantil morto – ou de muitos outros – não seja apenas um número. 6.5 Questões do mundo contemporâneo em países andinos Vídeo Alguns elementos fazem parte de uma realidade que somente pode ser atenuada pela discussão ampla das leis trabalhistas no mundo contempo- râneo, como produtos mais baratos, zonas com isenção fiscal e excesso de pessoas gerando desemprego, o qual, por sua vez, permite que a mão de obra tenha um preço baixo. Também é crucial pensar sobre a representati- vidade que os diversos grupos têm na lei. Os países andinos 5 , que têm como base uma história colonizada, tive- ram sua estrutura social marcada por uma hierarquia cuja característica de ser espanhola predominava nas classes mais altas, como uma casta. A língua oficial era a espanhola, e em detrimento estavam as línguas in- dígenas como aimará e quíchuas, ao passo que indígenas e camponeses eram obrigados a aprender o espanhol caso se deslocassem como mi- grantes aos centros urbanos ou como trabalhadores sazonais fora dos ayllus 6 . Historicamente, diversas funções também foram determinadas pelo trabalho desempenhado nas minas da região de Potosí e por toda a região de escoamento de produção, envolvendo do Peru até a Argentina. José Bengoa (2016), historiador chileno, chama a atenção para a ideia de que apenas com a denúncia de opressões aos indígenas, que formam maioria nos países andinos (considerando ascendência e população atual), mais a defesa de políticas públicas, é que haveria amenização do preconceito racial. Portanto, o movimento indígena, ou Bolívia, Peru, Equador, Co- lômbia, Chile e Venezuela. 5 Concepção típica da região andina, de comu- nidade familiar que é dirigida por um homem ou mulher. Baseada em atividade de campo, com terras comunais. 6 134 História Contemporânea indigenismo, que esteve presente na América do Sul a partir dos anos 1940/1950 com mais força, foi responsável por trazer uma perspecti- va de transformação para as pautas coletivas, geralmente envolvendo questões como o acesso à terra e ao alimento, além das pautas traba- lhistas. Um exemplo foi a ascensão de Evo Morales ao poder da Bolívia em 2003, após o episódio conhecido como Guerra da Água: Entre bombas e choro e preocupação por meus filhos encontrei ali algo que achei que tivesse perdido: todos participavam de al- guma maneira, com unidade e solidariedade... Não compreendia muito o que passava. Somente havia entendido o que gritavam: ‘Fora Águas de Tunari!’ em meio aos enfretamentos. Em uma casa em que nos socorremos momentaneamente, uma senhora explicou-nos que em Cochabamba ocorria a “Guerra da Água”. Então, na televisão, logo após as notícias sobre a violência das ruas, vimos um político que dizia: ‘Nenhuma empresa irá investir em Cochabamba novamente’. (VARGAS; KRUSE, 2000, p. 7) Essa união movimentou o início dos anos 2000, promovendo o cres- cimento de indígenas na política, especialmente com o apoio dos ayllus, que apoiaram Evo Morales após o golpe político sofrido em 2018. Esses grupos de indígenas exigem que sejam implementadas regras para as questões econômicas peculiares às suas produções, legislações sobre fronteiras de terras e questões trabalhistas; no entanto, algo que vai além dessas pautas e que traduz preocupações do mundo contem- porâneo é a ideia de que os países andinos também têm uma repre- sentação plurinacional. Esse aspecto é decorrente de uma perspectiva indígena plural e não homogênea construída por um discurso coloniza- dor. O Peru foi o primeiro a adotar essa ideia de pluralidade indígena que se opõe à hegemonia colonizadora em sua constituição, em 2003, sendo seguido por outros países nos anos posteriores. Do crescimento do indigenismo aos Estados plurinacionais, outra perspectiva é pertinente para o mundo contemporâneo em relação à destruição dos meios naturais: a do bem viver. O conceito mais origi- nal, Sumak Kawsay, vem dos povos da Bolívia (Aimarás) e do Equador (Quíchuas) e significa “viver a vida com dignidade e plenitude”. Na prática, é a política que deve ser direcionada para que a população tenha acesso às políticas públicas necessárias para uma vida baseada no bem-estar. Com esses princípios, há dois aspectos a se relacionar: o primeiro é de que a relação do capitalismo com os meios de produção, o en- Leia o texto de Ivo Lesbaupin, Para salvar a humanidade do desastre: o “bem viver”, que traz apon- tamentos sobre o que é bem viver, assim como problemáticas levantadas sobre a sua importância. Disponível em: https://www. ihu.unisinos.br/categorias/188- noticias-2018/579449-para-salvar- a-humanidade-do-desastre-o- bem-viver. Acesso em: 17 out. 2022. Leitura https://www.ihu.unisinos.br/categorias/188-noticias-2018/579449-para-salvar-a-humanidade-do-desastre-o-bem-viver https://www.ihu.unisinos.br/categorias/188-noticias-2018/579449-para-salvar-a-humanidade-do-desastre-o-bem-viver https://www.ihu.unisinos.br/categorias/188-noticias-2018/579449-para-salvar-a-humanidade-do-desastre-o-bem-viverhttps://www.ihu.unisinos.br/categorias/188-noticias-2018/579449-para-salvar-a-humanidade-do-desastre-o-bem-viver https://www.ihu.unisinos.br/categorias/188-noticias-2018/579449-para-salvar-a-humanidade-do-desastre-o-bem-viver volvimento dos interesses privados com o Estado e a exploração da natureza devem ser totalmente repensados; o segundo é como olhar a natureza para além do aspecto de exploração, porque essa não deve ser vista como dissociada do ser humano. Chakrabarty (2013) reitera que o principal ponto de criação do Ilumi- nismo foi a ideia de que a liberdade era total para o ser humano, após a dominação da natureza. Se considerarmos o conhecimento das ciências naturais, podemos lembrar que somos animais racionais e, como tais, a natureza também está em nós; portanto, se causamos a destruição à na- tureza, também a causamos à nossa espécie. Para as sociedades amerín- dias e seus descendentes, esse conhecimento deve ser considerado na exploração natural, a fim de se preservar como espécie e poder diminuir a desproporção que há hoje entre o tempo geológico (de produção dos recursos) e o tempo humano. Esse saber mais holístico é o que vem sendo defendido pelos Esta- dos plurinacionais para dar dignidade a mais pessoas e defender a pre- servação do planeta. O Sumak Kawsay é a ideia de que todos os seres humanos devem buscar a diminuição de qualquer desigualdade, seja em relação às pessoas ou à natureza. A desigualdade também foi o tema das manifestações chilenas, inicia- das em 2019, sob o argumento de que o aumento do bilhete de metrô era muito alto. As manifestações tomaram a rua de modo desproporcional ao que o Estado, representado pelo Presidente Sebastián Piñera, seria ca- paz de conter. A bandeira dos Mapuches foi eleita como representante do movimento, porque esse povo representa a maioria da ascendência da população chilena. Como resultado, o povo que foi às ruas e viu pessoas morrerem al- cançou o direito de ter uma nova Assembleia Constituinte (PRESSE, 2021), a fim de substituir a forjada em 1980, ainda sob a bandeira de Augusto Pinochet em um período ditatorial e arbitrário. As principais reivindicações foram a paridade de gênero na Assembleia e a participação de indígenas, nesse caso um total de 17, sendo que 7 deles pertenciam à etnia Mapuche. Bandeira Mapuche. So br ev ol an do P at ag on ia /S hu tte rs to ck So br ev ol an do P at ag on ia /S hu tte rs to ck Sociedade pós-industrial e globalizaçãoSociedade pós-industrial e globalização 135135 136 História Contemporânea Em meados de 2022, a proposta de Constituição chilena continuava a ser discutida. A divulgação das imagens das manifestações permitiu que o movimento crescesse rapidamente, culminando em diversas crí- ticas e apoios, além de ocasionar a eleição de Gabriel Boric, um ex-líder estudantil, à presidência do Chile, e sua proposta central de campanha foi uma política para o bem-estar social. 6.6 Mídias no cotidiano contemporâneo Vídeo Novas formas de comunicação e transformação nos suportes de ma- terialidade (livros, jornais, computadores etc.) são as próprias inovações representadas pelas mídias sociais e pela ideia de uma cultura digital. Esta pode ser entendida como um conjunto de interações sociais praticadas com a utilização de recursos da tecnologia digital (como a internet, bus- cadores on-line, e-mails ou qualquer programa que funcione de modo on-line ou off-line) e tudo aquilo relacionado à informação e comunicação (como computadores, notebooks, tablets, quadros e mesas interativas). Assim, podcasts, páginas na internet, jornais que funcionem por meio de aplicativos e as redes sociais, por exemplo, formam a cultura digital. Por redes sociais podemos citar as que aproximam pessoas e países por meio de ideias comuns ou formas de interação on-line. Como exem- plos das mais comuns dos últimos dez anos, há o Facebook, Instagram, Snapchat, Twitter, YouTube, TikTok, Tumblr e Pinterest, e não podemos esquecer as que já não existem, como Orkut, ICQ e Messenger. A popularidade de algumas redes sociais levanta ao menos duas questões pertinentes: Como as redes sociais podem ser mal utilizadas para o convencimento de ideias contemporâneas, políticas, estéticas e comportamentais? E quais são os cuidados que devemos ter com os registros deixados nas redes sociais e na internet de modo geral? Pesquisas em lojas, ruas, serviços e conversas por meio das redes sociais, repletas de backups e algoritmos 7 , permitem que diversos as- pectos de nossas vidas sejam registrados. No Brasil, desde 2018 a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) tem por objetivo priorizar o direito e a liberdade de cada indivíduo no que ele propaga nos apli- cativos de modo privado (BRASIL, 2018). Esse tipo de projeto de lei só Forma que as tecnologias de informação têm para compreender os diversos dados/caminhos que os indivíduos mantêm ao usar a internet e redes sociais. Por meio da sua análise, é possível rastrear e entender os interesses dos sujeitos. 7 Sociedade pós-industrial e globalização 137 foi pensado a partir do momento em que dados das redes sociais, dos aplicativos e até dos bancos começaram a ser hackeados ou até mes- mo vendidos, isso sem considerar o uso de imagem que muitas vezes é desrespeitado. Essas características se potencializam quando perma- necemos constantemente conectados nos celulares ou nos notebooks, em redes sociais, em redes bancárias etc. Assim, entendemos que a cultura digital também altera a forma como nos relacionamos com as pessoas, como estabelecemos diálogos e até como a nossa linguagem muda, por meio da intensificação da escrita on-line. Assim, seja no campo educacional (formas de ensinar, ler e inte- ragir) ou no Marketing Digital (formas de vender, expor o produto e criar vínculo com possíveis compradores), o que percebemos é que a cultura digital permanece em transformação, alterando as relações e comunicações sociais estabelecidas entre os sujeitos (HEINSFELD; PISCHETOLA, 2017). Isso acontece especialmente se consideramos o contexto da pandemia da Covid-19, que tanto evidenciou a desigualda- de no acesso à internet e a recursos de qualidade quanto fomentou o uso daqueles que já estavam imersos nesse campo. As mídias disponibilizam uma enxurrada de notícias, mas é preciso questionar o que se recebe. Nesse contexto, a expressão fake news (notí- cias falsas) vem ganhando relevância. Trata-se de conteúdos que distor- cem ou mentem sobre acontecimentos, pouco preocupados com fontes que corroboram com as afirmações, isto é, são notícias falsas que po- dem atingir pessoas e instituições, bem como serem manipuladas para difamar pessoas em ocasiões sociais e políticas. As mídias, nesse caso, têm a obrigação de checar as informações antes de as disseminar, por- que, caso não realizem essa etapa, podem ser tão sensacionalistas quan- to os sites que reproduzem imagens de violência ou morte, como foi a do menino Alan Kurdi (SORJ; NOUJAIM; MARZOCCHI, 2021). As consequências de imagens ou informações baseadas em fake news são guerras de opiniões, polarização de ideias, divergências ideoló- gicas extremas, violências física e verbal e, em especial, a desinformação da nossa própria realidade. Sorj, Noujaim e Marzocchi (2021) ressaltam um aspecto importante: as fake news sempre existiram, no entanto, as mídias no século XXI potencializaram seu efeito. Além disso, essas mídias também podem ganhar financeiramente com essa desinformação, pois as pessoas tendem a clicar em matérias sensacionalistas. 138 História Contemporânea Diante de bilhões de contas que existem, considerando desde o Facebook até o WhatsApp, é preciso lembrar a importância desses espa- ços no meio político. Desde as eleições de 2018 no Brasil, ou de 2016 nos Estados Unidos, a comunicação em massa por meio desses aplicativos é intensa. Não se trata apenas do uso de fake news ou de provar a veraci- dade de notícias e informações,mas também da construção da imagem política que as mídias sociais podem produzir. O olhar, a voz, o compor- tamento e a relação com o cotidiano são alguns dos aspectos que podem ser utilizados para aproximar os sujeitos sociais aos que os “seguem”. En- tretanto, a imagem é uma construção social, ideológica e cultural. Contas, sejam particulares ou públicas, são formas de criar estraté- gias de aproximação para manter a mobilização de apoio ou para ca- nalizar ataques aos oponentes. A desqualificação de uma notícia pode ocorrer pelo tipo de linguagem, por recortes tanto da imagem quanto da luz e de efeitos falsos, entre outras práticas. É preciso cobrar fontes das informações vinculadas, observar se outras redes sociais corroboram ou não com as informações mais gerais, e cobrar regras sobre os conteúdos e linguagem, assim como sobre ferramentas de denúncia que possam ser utilizadas pelos próprios usuários quando forem confrontados com fake news e, especialmente, quando encontrarem imagens ou discursos que violem direitos humanos ou a integridade de pessoas. CONSIDERAÇÕES FINAIS Em um mundo globalizado em que se vende tecnologia por meio de relações de trabalho baratas e ao custo dos meios naturais explorados de modo desenfreado, discussões baseadas em diferenças étnicas, religiosas e identitárias decorrentes dos conflitos culturais entre o Oriente e o Oci- dente são comuns. É preciso pensar que o capitalismo necessita de guerra, de exploração e de concorrência – com ou sem intervenção do Estado – para continuar a existir. Regulá-lo, bem como suas regras e seus blocos econômicos, é um modo de diminuir as diferenças sociais não apenas entre sujeitos, mas também entre países. Junto a isso, é preciso repensar sobre a relação que estabelecemos com o meio natural e lembrar que também somos natureza. É neces- sário ainda questionar os estereótipos baseados nas diferenças identi- tárias, de modo que imigrantes não morram durante a travessia de um país para outro ou em ataques terroristas. Sociedade pós-industrial e globalização 139 ATIVIDADES Atividade 1 Como se relacionam os conceitos de neoliberalismo, tecnologia e globalização? Atividade 2 As relações étnicas formam argumentos para estabelecer dife- renças entre países. Estabeleça uma relação entre identidade e nacionalismo. Atividade 3 Estabeleça uma relação entre a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris. Atividade 4 O que seria a ideia de coisificação causada pela globalização e como isso afeta os reposicionamentos geopolíticos? Atividade 5 As mídias propagam ideais e valores morais por meio de notícias e informações. Em um contexto de fake news, quais são as cobranças que os consumidores finais podem fazer dos meios de comunicação? 140 História Contemporânea REFERÊNCIAS ACNUR – Agência da ONU para refugiados. Dados sobre refúgio. ANCUR Brasil, 2022. Disponível em: https://www.acnur.org/portugues/dados-sobre-refugio. Acesso em: 17 out. 2022. 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Realize um levantamento de ao menos cinco principais marcos/ conceitos e acontecimentos discutidos neste capítulo e construa um mapa conceitual, especificando: as origens, os locais e os contextos em que ocorreram, as consequências e o caráter revolucionário desses acontecimentos. Os marcos podem ser Revolução Francesa, burguesia, operários, classe, marxismo, socialismo, liberais, Comuna de Paris, Revoluções de 1838/1848, Liberdade, Igualdade e Fraternidade. É possível estabelecer continuidades e transformações entre todos os termos, por exemplo, o lema da Revolução Francesa ser um argumento nos movimentos de 1848, bem como nas décadas de 1860 e 1870, ou ainda ser responsável pelo crescimento da consciência de classe operária ao longo de todos esses movimentos contra as ações ortodoxas e conservadoras de parte da burguesia e dos liberais. 2. Caracterize os principais elementos do governo de Napoleão Bonaparte em relação às ideias de transformações e de continuidades. Napoleão Bonaparte, com um caráter mais democrático, criou um governo com base em um “Consulado” composto de três representantes. No entanto, ele tinha uma imagem potencializada pelas suas ações no Exército em nome da França e por ter diminuído a instabilidade política após a Revolução Francesa. É pertinente ainda considerar que Bonaparte trouxe políticas educacionais e criou um sistema bancário nacional, mas proibiu a ação sindical e de clubes. Assim, é possível afirmar que o governo de Bonaparte promoveu ações com maior participação popular, mas manteve as resistências caladas, bem como a hierarquia social e de classe por meio da economia liberal. 3. Teorias políticas e sociais surgiram no século XIX a fim de compreender e dar respostas aos movimentos sociais e de trabalhadores. Com base nessa perspectiva, diferencie anarquismo de marxismo. Ambos estão relacionados a uma perspectiva de compreender os movimentos operários que eclodem no século XIX. No entanto, o anarquismo questiona ideias relacionadas às instituições, visto Resolução das atividades 141 que para eles as que existiam mantinham as estruturas que determinavam as diferenças sociais, por isso questionavam a própria existência do Estado. O marxismo se sobrepõe à ideia socialista/ comunista a partir da década de 1840, quando passa a defender que a história da humanidade é uma história de dominação social por meio de classes e da força de trabalho. Também defendia que as revoluções de 1848 demonstravam que aquele era o momento para subverter a ordem classista e exploratória. 2 Imperialismo, sociedade e cultura 1. Como os historiadores podem abordar temas ligados à Modernidade sem centralizá-los em uma narrativa historiográfica em que a europeia é o centro ou um modelo? Precisamos pensar de que modo o recorte temporal e espacial é escolhido. Quais objetos e acontecimentos compõem o processo escolhido de narrativa pelo historiador, a fim de que ele seja localizado como parte de temas que são locais e que, mesmo que se coloquem de modo universal, podem ser questionados, bem como confrontados por outras narrativas. 2. No que diz respeito à prática liberal, como é entendida a propriedade privada? A premissa inicial é de que seres humanos nascem livres e iguais para os iluministas. Com base nisso, não é questionada a ideia de diferença de classe ou mesmo de acesso a bens. Do mesmo modo, o direito à propriedade é visto como natural, e, por isso, o Estado deve ser aquele que garante esse reconhecimento, mas não necessariamente contesta o porquê de alguns o terem e outros não. 3. De que forma é possível relacionar a arte muralista com a Revolução Mexicana? A arte muralista foi fundada como movimento ao fim da Revolução Mexicana, em que líderes, como Carranza, Zapata e Villa, haviam evidenciado as contrariedades da história do México. Ao criarem murais, pintores como José Orozco, Davi Alfaro Siqueiros e Diego Rivera iniciaram um questionamento das práticas imperialistas, das reações do povo, da ideia de classe, de inferioridade e, em especial, da diminuição das sociedades originárias. Assim, aqueles que eram considerados e tratados de modo inferior começam a ser vistos como centrais para o entendimento da cultura e da identidade nacionalista. 142 História Contemporânea 4. Evidencie as principais pautas e as contradições internas da Revolução Mexicana. O debate principal se concentra no questionamento do poder oligárquico e do caráter agroexportador da economia mexicana que apenas priorizava alguns alimentos, não fortalecendo a indústria. Além disso, empregava a mão de obra camponesa e indígena, alienando essas populações de seus costumes. Ao mesmo tempo, aqueles que defendiam a democracia liberal e a industrialização queriam o fim da reeleição do presidente, que era visto como ditador e apenas apoiava o setor agroexportador. A contrariedade está em grupos diferentes se unirem – diferenças essas que no decorrer da Revolução Mexicana são acentuadas, causando golpes e a dissolução do movimento. 3 Guerras Mundiais e Estado Totalitário 1. Explique a relação entre a eugenia e o imperialismo. A ideologia ou teoria da eugenia colaborou para justificar e defender a supremacia dos povos europeus em relação a outros. A teoria argumentava que diferenças perceptíveis aos olhos significavam também diferenças biológicas, isto é, de capacidade produtiva ou até mesmo de desenvolvimento intelectual. Assim, em nome de uma “campanha civilizatória” em que o uso, a busca por mercado consumidor, o domínio e a exploração da terra eram os principais interesses dos países europeus, a eugenia serviu de respaldo. 2. De que forma a corrida imperialista está relacionada com a Primeira Guerra Mundial? No último quarto do século XIX, a corrida imperialista disputava todos os mercados possíveis, inclusive a exploração da terra, o mercado consumidor e as zonas de influência. Alemanha e Itália, pela tardia unificação, eram as nações que menos tinham colônias, ao mesmo tempo que o capitalismo passava a ter seu caráter industrial monopolista e financeiro. A Segunda Revolução Industrial e a descoberta de novas fontes de energia apenas potencializavam as discussões travadas entre os países, bem como seus domínios. Alianças já existiam há décadas para se apoiarem em casos de invasões. Quando o arquiduque austríaco foi assassinado, por exmplo, imediatamente a Rússia apoiou os sérvios, enquanto a Alemanha apoiou o Império Austro-Húngaro. Por este Império já ter invadido o território italiano há alguns anos, isso fez com que a Itália apoiasse outra aliança, a estabelecida com a França e a Inglaterra. Resolução das atividades 143 3. Em que medida a Primeira Guerra Mundial relaciona-se com a Revolução Russa? O desgaste político czarista era forte já antes da Primeira Guerra Mundial por diversos motivos, entre eles o constante investimento nos interesses militares, enquanto investimentos em saúde, educação ou mesmo na industrialização eram ínfimos. O Domingo Sangrento, ocorrido em 1905, era uma reação dos populares pela guerra provocada pela Rússia com o Japão, o que causou prejuízos. Portanto, a entrada da Rússia na Primeira Guerra Mundial, além de ser questionada pela população, e o seu prolongamento até 1917 foram motivos que fomentaram mais ainda o processo revolucionário. 4. Explique a relação entre a Crise de 1929 e a Primeira Guerra Mundial. Os Estados Unidos viveram o ápice de desenvolvimento econômico a partir do fim da Primeira Guerra Mundial, visto que a Europa, destruída, levou alguns anos para se recompor, ao mesmo tempo que outras áreas do globo também foram atingidas pelas determinações do Tratado de Versalhes e suas sanções. Algumas delas alteraram limites geográficos de países – prejudicando produção e escoamento de produção – ou mesmo os tornaram colônias de outros países. Dessa forma, o crescimento foi anorma, a ponto de o Estado não intervir e de não haver uma política de prevenção e regulamentação de mercado. Essas foram as condições vividas após a Primeira Guerra Mundial. A inexistência ou fraca presença de Estados que regulamentassem a política econômica favoreceu a ocorrência da Crise de 1929, porque sua característica mais marcante era o excesso de produtos ao mesmo tempo que o dinheiro estava ora em forma de crédito, ora em ações. 5. No que diz respeito às consequências da Segunda Guerra Mundial, por que a OTAN é uma das mais presentes em nosso contexto? A bipolarização do mundo a partir dos interesses da URSS e dos Estados Unidos é a principal consequência para o mundo da Segunda Guerra. Assim, foram criados dois grupos representando as disputas entre eles: a OTAN e o Pacto de Varsóvia. Este deixou de existir ao fim da década de 1990, mas a OTAN permaneceu e recebeu mais membros, embora os Estados Unidos tivessem afirmado que não o fariam. Assim, diversos países sob influência desse grupo, que outrora representava os interesses dos Estados Unidos na Guerra Fria, têm cercado a Rússia, provocando desentendimentos, invasões e disputas ideológicas. 144 História Contemporânea 4 Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 1. Cite aspectos apontados como indicadores de que a bipolarização do mundo estava começando no período logo após a Segunda Guerra Mundial. Temas como totalitarismo e democracia demoraram alguns anos para serem sinônimos de quem estaria ao lado dos Estados Unidos ou da União Soviética. Mas é possível afirmar que a criação de agências de espionagem (KGB e a CIA, por exemplo), bem como a união de países por meio de acordos (Comecon, Pacto de Varsóvia, Plano Marshall, criação da Doutrina Truman e, em especial, a OTAN), demonstram que as diferenças se acirraram logo após a Conferência de Potsdam, em 1945. 2. Explique a importância da Conferência Ásia-África ocorrida em 1955, na cidade de Bandung, para o contexto da Guerra Fria. A conferência teve como pauta determinações que os países, recém-descolonizados ou recém-independentes deveriam ter para livrarem-se do jugo, das influências e da própria pressão em suas instituições no que diz respeito às práticas colonizadoras. Além disso, também desejavam não se envolver na Guerra Fria, visto que tomar partido por um outro grupo era ceder para uma questão que era própria ou de interesse de países como os Estados Unidos e a União Soviética (incluindo da Europa, que era aliada desses). Dessa forma, consideravam que esses interesses não poderiam ser os seus para que alcançassem a liberdade e autonomia política realmente desejadas. 3. Caracterize e conceitue a sociogênese de Frantz Fanon. Nos anos 1960, em meio ao governo de Charlles de Gaulle, havia um crescimento industrial, porém, devido a uma formação exponencial na educação e no movimento migratório, o desemprego era recorrente. Propostas nacionalistas também eram um entrave e criticadas por parte da população. Frantz Fanon, negro e imigrado da América Latina, chegou a Paris nesse período. Para ele, o mundo social encontrado o fez perceber e sentir que o seu era negro, experiência que a ele gerou a ideia de sociogênese, a fim de pensar a racialização do corpo e como questionar as consequências dessa cultura colonizadora, imperialista e preconceituosa. 4. A teoria decolonial é mais uma forma de construir uma narrativa plural dos acontecimentos da história. Caracterize três elementos que representam princípios para aqueles que escolhem ter um pensamento mais decolonial. Resolução das atividades 145 O pensamento decolonial tem como origem ideias de intelectuais latino-americanos preocupados com uma vertente que desse lugar a uma epistemologia de povos antes colonizados pelo processo de ocupação europeu. Também é possível considerar que essa teoria não exclui outras, mas questiona a origem de características e instituições que não são latino-americanas. O pensamento decolonial também defende uma posição fronteiriça, isto é, não nega a existência de consequências estruturais colonizadoras, mas sugere que é possível criar consciência sobre elas a fim de dar mais autonomia e criar um campo em que a diversidade latino-americana seja a pauta, para além da influência europeia. A análise de uma história mais decolonial produz possibilidades como estar contra uma monocultura de pesquisa, favorecer uma ecologia dos saberes e questionar princípios racistas, desde aqueles que podem vir da ciência até uma educação menos racista. 5 Crises socialistas 1. Defina o que é populismo e suas características principais. Populismo é uma forma de governo que envolve questões econômicas, culturais e políticas. Tem características em comum, mas em contextos diversos e até mesmo de tendências diferentes. Pode crescer como forma de governo diante de uma crise hegemônica classista ou o desgaste da classe ou governo predominante, especialmente pela ação de movimentos contestatórios sociais. Assim, um líder carismático passa a ser visto como sinônimo das soluções e representante do povo, ao mesmo tempo que alia interesses mais elitistas e de classes menos abastadas. Não necessariamente há uma revolução social e econômica, podendo ter a defesa de intervenção do capital estrangeiro ou não. Além disso, há a presença do nacionalismo e a evidência em aspectos identitários que reforçam o discurso nacionalista. 2. De que forma a situação política do Equador nos primeiros 20 anos do século XXI está relacionada ao contexto global e decorrente do período da Guerra Fria? Parte da influência norte-americana na América Latina foi mais evidente antes e durante as ditaduras civil-militares nos últimos 50 anos do século XX. Essa estratégia era fruto de uma disputa com a ex-URSS durante a Guerra Fria. Como resultado permaneceram governos influenciados por uma perspectiva neoliberal até os anos 1990, com privatizações de empresas nacionais e menos políticas sociais, especialmente direcionadas às minorias, como grupos indígenas. 146 História Contemporânea O Equador mudou parcialmente esse contexto com o governo da Revolução Cidadã, quando coletivos sociais o apoiaram tanto para a eleição, quanto para a continuidade por 16 anos (contando com o governo de Correa e os apoiados por ele com seu antigo vice). A despeito da Assembleia Constituinte não ter sido composta por todos esses coletivos, eles se tornaram forças contundentes como movimentos sociais que continuam atuando. 3. A Venezuela tem uma trajetória que se apresenta por parte dos políticos com a Revolução Bolivariana. O que manteve Hugo Chávez no poder por tanto tempo e por que o país é alvo de interesses internacionais? Hugo Chávez mudou as regras e leis em relação ao petróleo a partir de 1999, época de grande valorização do produto. A PDVSA foi estatizada e se tornou a principal fonte para suas políticas sociais, todavia essa era a única renda para esses programas, o que o limitou em diversos momentos devido às disputas e às especulações internacionais. A partir de 2002, com a criação de empregos e a distribuição de propriedades, embora de modo desigual, grupos coletivos passaram a apoiar mais Chávez. Até os mais elitistas o apoiaram, ainda que com mais resistência, mesmo tendo permanecido com suas propriedades 4. A Revolução Cubana é considerada um marco na história da América Latina e dentro dos movimentos esperados do contexto da Guerra Fria. Explique o porquê. A Revolução Cubana é considerada um marco na história da América Latina porque ocorreu no auge da Guerra Fria quando a União Soviética disputava espaço diretamente com os Estados Unidos. Além disso, Fulgencio Batista tinha acordos políticos e econômicos com os Estados Unidos, incluindo bases militares. Portanto, quando Fidel Castro derrubou o presidente por meio de guerrilhas e apoiado pelo povo – que sofria descasos pelo governo liberal –, os Estados Unidos se sentiram atacados diretamente.6 Sociedade pós-industrial e globalização 1. Como se relacionam os conceitos de neoliberalismo, tecnologia e globalização? O neoliberalismo é uma prática político-econômica, aliada à tecnologia, que cresceu por meio da diminuição das fronteiras e distâncias ocasionadas pelo processo da globalização. A tecnologia Resolução das atividades 147 permite que a comunicação seja muito rápida dentro de contextos diversos nos últimos séculos. No entanto, a interferência de interesses de classes mais tradicionais e burguesas na forma como o Estado organizou as estruturas da economia e da política permite, por sua vez, que os setores que atendem as populações em suas necessidades básicas sejam direcionados de acordo com os princípios do capitalismo, que entende que a apropriação da regulação e das estruturas do Estado é lucrativa. 2. As relações étnicas formam argumentos para estabelecer diferenças entre países. Estabeleça uma relação entre identidade e nacionalismo. Questões identitárias são legitimadas e reafirmadas por meio de práticas culturais, como a língua, formas de vivência no cotidiano (como a comida que se consome, as danças mais comuns etc.) e diferenças que são percebidas em relação aos que estão em outras regiões. O que entendemos é que as características identitárias são culturais e transformadas em sinônimos das nações, cujo nacionalismo é uma consequência. 3. Estabeleça uma relação entre a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris. Os três acontecimentos estão relacionados, visto que são encontros da Conferência das Nações Unidas. O primeiro marco foi o encontro em 1992. no Rio de Janeiro, que teve como pauta principal problemas ambientais de todo o mundo. Posteriormente, o segundo encontro foi o de Kyoto, no qual foi assinado um protocolo sobre sanções em relação ao efeito estufa. E, em 2016, algumas pautas foram modificadas enquanto outras foram criadas no encontro de Paris. 4. O que seria a ideia de coisificação causada pela globalização e como isso afeta os reposicionamentos geopolíticos? A ideia de coisificação está relacionada à mundialização do capitalismo desde 1500, em que as pessoas, em muitas circunstâncias, são vistas apenas como meras receptoras de produtos. Subjetividade, afetividade, empatia e solidariedade são termos que o capital apenas considera se forem lucrativos. Assim, questões sazonais, de trabalho, políticas e/ou de guerra fazem com que grandes massas humanas migrem, transformando-se em mão de obra barata ou consumidores suscetíveis ao capitalismo. São grupos em excesso, cuja ausência não é notada pelo capital na maior parte das vezes. 148 História Contemporânea 5. As mídias propagam ideais e valores morais por meio de notícias e informações. Em um contexto de fake news, quais são as cobranças que os consumidores finais podem fazer dos meios de comunicação? É preciso considerar que as mídias têm um compromisso de trazer credibilidade e a maior proximidade possível entre os acontecimentos e o leitor, visto que esses acontecimentos não são totalmente palpáveis. Para tanto, pode-se cruzar dados, buscar fontes diversas sobre o mesmo assunto e entender que, embora não haja uma verdade universal para um acontecimento, o olhar múltiplo também não o diminui desde que tenha fontes para corroborar com o que se afirma. Além disso, qualquer informação propagada nas mídias sociais deve ser questionada. Resolução das atividades 149 ISBN 978-65-5821-195-2 9 786558 211952I000791 Código Logístico H istória C ontem p orânea L orena Z om eraos pedidos de mudanças, ou seja, a diferença entre esses grupos tornou-se maior, no caso inglês, fazendo com que grupos próprios de trabalhadores se organizassem cada vez mais (HOBSBAWM, 2010). Embora houvesse relações entre moderados liberais e grupos que entendemos como mais de esquerda, aos poucos as divisões se tor- naram mais frequentes, especialmente porque os primeiros não insis- tiam em pautas tão revolucionárias e atribuíam o poder a príncipes, a descendentes de nobres e à própria burguesia. Não obstante, no caso inglês, desde a Carta do Povo – um documento que provocou movimentações entre 1838 e 1842 (conhecido como Movimento Cartis- ta) –, os sindicatos de trabalhadores (trade unions) buscavam ganhar notoriedade, especialmente porque algumas de suas exigências cor- roboravam exigências suscitadas com base no Ato da Reforma, como a discussão do sufrágio universal secreto e outras direcionadas dire- tamente ao Parlamento. Sobre esses movimentos, rurais ou urbanos, que não são isola- dos ou apenas da França e da Inglaterra, é importante entender- mos que ocorreram em tempos e espaços diferentes entre 1830 e 1848, ou seja, não concomitantes. 18 História Contemporânea 1.3 1871: a res publica dos trabalhadores Vídeo Em comum às revoluções ocorridas entre 1830 e 1848 e a Comu- na de Paris 3 , de 1871, estão as vozes populares. Em 1871, grupos de operários, sindicatos, instituições corporativistas, entre outros, organizaram-se contra a crise econômica e política, já que a França se encontrava em guerra contra os Estados Alemães (que viriam a ser a Alemanha). A crise política, no entanto, não era decorren- te apenas do desgaste da guerra, mas do regime “bonapartista” do imperador Napoleão III, que subiu ao poder por meio de ple- biscito em 1851, após as conturbadas movimentações de 1848 (PONGE, 1996). Na cidade e região de Paris, em 1871, houve di- versas insurreições popu- lares, o que fez com que a cidade fosse evacuada em parte e as camadas mais abastadas se afastassem, até a tomada por meio de um conflito civil. 3 Fonte: CAMPHAUSEN, Wilhelm. Otto von Bismarck e Napoleão III após a Batalha de Sedan em 1870. 1878. W ik im ed ia C om m on s O começo de um século efervescente 19 Napoleão III prometeu que lideraria um tempo de segurança social, manteria os grupos mais subalternos calados e expandiria o território francês (embora tenha sofrido apenas derrotas após 1860). É com base nesse contexto que os movimentos mais organizados começam, já in- fluenciados e envolvidos por ideias marxistas, liberais, nacionalistas e republicanas. Desde 1864 em Londres, ano de fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), a oposição ao imperador crescia nas eleições sob a argumentação de que a República e uma política mais liberal seriam as soluções para a história de vários países. Nesse contexto, em 1870 ocorreu a Batalha de Sedan, uma das mais im- portantes da Guerra Franco-Prussiana, em que milhares de soldados foram mortos e a perda francesa na batalha fomentou a união de estados inde- pendentes nacionalistas da Alemanha. Com esse fortalecimento, a postura imperialista de Napoleão III e as consequências dela fizeram com que sua imagem e seu governo fossem mais uma vez questionados, isso depois de ter anunciado uma reforma constitucional, transformando a França em uma monarquia parlamentar. Ainda nesse contexto, ele passou a perse- guir mais os membros da AIT que lhe faziam oposição (HOBSBAWM, 1982). Com a derrota de Sedan, a população invadiu a Câmara dos Deputados e derrubou o governo, fazendo com que fosse proclamada a República na França por meio de um governo de defesa nacional. Em resposta a esse novo acontecimento, a AIT e a Câmara Federal das Sociedades Operárias decidiram organizar um comitê formado por dele- gados de todas as regiões administrativas de Paris. Formou-se em cada região um Comitê Republicano com quatro membros, criando-se um mu- nicipal conhecido como Comitê Central Republicano de Defesa Nacional das Vinte Regiões de Paris, que era uma oposição ao primeiro-ministro do novo governo. O lema era: a política, a estratégia, a administração de 4 de se- tembro, na continuidade do Império, estão julgadas (PONGE, 1996). Essas foram as condições que emergiram o movimento Comuna de Paris (de setembro de 1870 até o início de 1871) repleta de proletários 4 dis- putando espaço com o governo oficial sobreposto ao de Napoleão, ao tem- po que a França negociava tratados e a rendição com Otto von Bismarck. Esse movimento era mais organizado e objetivo em relação aos mo- vimentos de 1838-1848, não apenas porque não estavam envolvidos diretamente com grupos moderados, liberais etc., mas porque as pau- tas trabalhistas e de direitos civis eram evidentes. Entre elas estavam a Proletários é um termo historiográfico que passou a ser um sinônimo dos antigos sanscullotes, visto que o parque industrial de Paris não era tão forte para apresentar tantos operários. Assim, proletário se torna uma antítese de capitalista nesse contexto (RUDÉ, 1982). 4 20 História Contemporânea revogação de leis que limitavam a imprensa; o direito a reuniões e as- sociações de qualquer tipo; a revogação dos direitos da polícia imperial que deveria ser submetida à polícia de Paris; e o alistamento de todos os homens a fim de enfrentar a Prússia. É a partir do Comitê em 1871 que a imprensa passa a divulgar mais notícias, permitindo a circularidade de informações, bem como publica um programa de governo. Nos meses que se seguem, uma assembleia e uma votação precisaram ser organizadas, visto que a Alemanha exi- gia um país estável para negociar. Enquanto a maioria do país votou por essa paz, Paris permaneceu armada e questionando o governo, es- pecialmente porque muitos dos votos pela paz eram de monarquistas. O excerto deixa evidente a resistência presente em Paris: Pela República Francesa e, depois, pela República Universal. Chega de opressão, de escravidão ou de ditadura de qualquer tipo; pela nação soberana, com cidadãos livres, governando-se conforme sua vontade. Então, o lema sublime: Liberdade, Igual- dade, Fraternidade, não será mais uma vã palavra. (PRIOLLAUD, 1983 apud COGGIOLA, 2021) O governo mudou para Versalhes nesse período e, a despeito da ação dos vários comunas que faziam parte do movimento em Paris, exerceu for- te pressão sobre as prefeituras locais. Enquanto isso, o Comitê da Guarda Nacional, criado a partir da supressão dos policiais imperiais, decretou a anistia de presos políticos, a liberdade de imprensa e a nomeação de novos ministros e secretários para cargos po- líticos e públicos. Ainda em fevereiro de 1871, foi decretada a Declaração de Princípios, que afirmava que qualquer membro do Comitê deveria se filiar ao partido socialista, a fim de suprimir os privilé- gios burgueses oferecendo igualdade e justa distribuição dos produtos do trabalho dos operários, além de pe- dir uma nova Constituinte, pela qual o responsável seria o próprio Comitê revolucionário. Marcharam pelo cen- tro de Paris em direção à Bastilha, Conflito na praça Blanche. Fonte: La prise de Paris. 1871. Litografia. Museu Carnavalet, Paris. W ik im ed ia C om m on s O começo de um século efervescente 21 com a participação de mulheres, crianças e mais de 300 mil policiais armados, na maioria operários. Sobre esse período, Karl Marx (2011) definiu que se tratava de um governo da classe operária, resultado de décadas de lutas, de organi- zação e de tomada do Estado para si. Segundo Bakunin (apud Molnar 1974), esse momento pode ser definido como uma negação de Esta- do, algo predominantemente socialista. Marx traz elementos importantes sobre a composição da Comuna de Paris, lembrando que seus conselheiros eram eleitos pelo sufrágio universal e poderiam ser substituídos. Era vista como um órgão corpo- rativista de trabalhadores, cujo trabalho policial e administrativo era comandado por ela, ou seja,todos eram submetidos à Comuna, além de ter a ideia de que, uma vez que chegassem às províncias do interior da França, os governos seriam formados também por produtores lo- cais. Esse aspecto reitera o caráter popular de todas as comunas que se instalariam, as quais deveriam ainda manter assembleias e delegados eleitos para definições de temas coletivos, bem como teriam deputa- dos representantes em Paris (MARX, 2011). A Comuna de Paris não sobreviveu por muito tempo, visto que não in- tencionou atacar Versalhes, onde estaria o governo visto como legítimo e apoiado pelos burgueses, ao mesmo tempo que, ao formar o próprio Exér- cito, não considerou muitos daqueles que compunham o Exército oficial. No entanto, a Semana Sangrenta de maio, como ficou conhecido o período em que os comunas foram dizimados e presos, resultou em um fortaleci- mento das classes operárias, não apenas pela consciência de classe que já tinham, mas por entender que a política deveria fazer parte definitiva da pauta deles, a fim de conseguirem direitos sociais, civis e políticos. 1.4 Marxismo e anarquismo Vídeo O alemão Karl Marx foi um intelectual conhecido por seus escritos. Ele escreveu com Friedrich Engels e, embora sendo da Alemanha, sua relação com a França se intensificou ao fim dos anos 1830. Isso ocorre a partir da Liga dos Comunistas, a primeira organização internacional que se intitula comunista e cuja origem está na fundação da Liga dos Justos, de 1836, à luz das ideias de Gracchus Babeuf. Anos mais tarde, com a intensificação das ideias de Marx, a Liga passa a se reconhecer como comunista. 22 História Contemporânea Os movimentos operários foram intensos e cada vez em maior número durante o século XIX, especialmente após a década de 1830. Em 1848, já participando da Liga Comunista, Marx e Engels lançaram suas ideias sobre o mundo no trabalho e o capitalismo, intitulando o panfleto/folder (que viria a ser um livro) de Manifesto Comunista. A escrita e divulgação desses ideais tinham por objetivo difundir mais a ideia de classe, porque, mesmo com tantos movimentos, a organização por meio de instituições e sindicatos que se autoiden- tificassem como operárias ainda era insuficiente para movimentos maiores, como foi a Comuna de Paris. Com essas preocupações, ambos os intelectuais escreveram um texto que relacionava o mundo do trabalho, envolvendo a produção, o consumo e as particularidades próprias da história do capitalismo até aqueles dias, seja ele industrial ou de produção no campo. Para Hobsbawm (2011), o comunismo anterior às ideias de Marx deba- tia sobre a relação do ser humano com a natureza, sobre si mesmo. A partir do encontro das ideias de Marx e do comunismo, o Manifesto passa a trazer como foi o desenvolvimento histórico de diversas socie- dades, incluindo a burguesia e a classe operária, entendendo que esta foi ocasionada por aquela. Assim, com essa análise, Marx passou a defender que o proletariado só teria seus direitos respeitados se derrubasse a estrutura que gerava uma sociedade hierarquizante baseada em uma falsa meritocracia e na venda in- justa do trabalho de operários. No entanto, um diferencial entre a teoria do que havia antes e o contexto vivido em meados daquele século é que aque- le período trazia uma oportunidade – consciência – sobre como fazer uma revolução e quebrar o ciclo, cujo predomínio era dos interesses capitalistas. A perspectiva de que as diferenças sociais sempre existiram, e que a burguesia e o proletariado as representavam, evidencia-se a seguir: Há dezenas de anos, a história da indústria e do comércio não é senão a história da revolta das forças produtivas modernas contra as atuais relações de produção e de propriedade que condicionam a existência da burguesia e seu domínio. Basta mencionar as crises comerciais que, repetindo-se periodicamen- te, ameaçam cada vez mais a existência da sociedade burgue- sa. Cada crise destrói regularmente não só uma grande massa de produtos já fabricados, mas também uma grande parte das próprias forças produtivas já desenvolvidas. Uma epidemia, que em qualquer outra época teria parecido um paradoxo, desaba O começo de um século efervescente 23 sobre a sociedade – a epidemia da superprodução. Subitamen- te, a sociedade vê-se, reconduzida a um estado de barbaria mo- mentânea, dir-se-ia que a fome ou uma guerra de extermínio cortaram-lhes todos os meios de subsistência; a indústria e o comércio parecem aniquilados. (ENGELS; MARX, 1999, p. 16-17) Dessa forma, o comunismo deixaria de ser uma teoria para ser práxis. Esse era o objetivo do Manifesto Comunista, escrito de modo direto e sim- ples para chamar os operários a se encontrarem como classe, formarem uma consciência mais política e derrubarem aquilo que entendiam como opressão àqueles que sempre foram a força de trabalho do mundo capita- lista (HOBSBAWM, 2011), mas não faziam uso dos próprios produtos que geravam e nem pagos adequadamente eram (mais valia). Essa classe a ser derrubada era a burguesia, que teria se apropriado dos bens do campo e da cidade, tirado o direito de produção própria de pequenos produtores, submetendo-os ao controle das indústrias nos grandes centros, sob con- dições insalubres e com baixos pagamentos. Importante ainda é a teoria anarquista que surge concomitante ao comunismo, na década de 1840, e se potencializa com a criação da AIT, embora não tenha sido uma organização política tão forte ou efe- tiva em filiais e partidos políticos como foi o comunismo. O anarquis- mo tem como uma de suas origens o livro O que é propriedade? (1840), de Pierre Joseph Proudhon (1975), no qual a propriedade foi apresen- tada como uma possível forma ilegítima de justificação de atos ditado- res ou tiranos e, por oposto, uma forma de liberdade. Assim, é justo ter uma propriedade devidamente ocupada em que há trabalho, mas seus objetivos não podem ser em uma escala maior que o lucro e a locação. Nesse período, a anarquia era vista como um projeto político utó- pico especialmente pela ausência de Estado. Esse é um diferencial em relação ao socialismo (que em último nível de aplicação é o comunis- mo), para o qual o Estado deve ser tomado, entendendo-se que por essa política é que se dá a transformação social. Já para o anarquismo, o Estado não deve existir. Isso se deve pela instabilidade representada pelo Estado francês no período, e também por ele não representar a população de modo geral. Para além dos mitos que a palavra anarquia sugere, a proposta des- ses teóricos era a de que todos que compõem uma sociedade devem decidir sobre sua realidade sem práticas coercitivas, opressivas ou de exploração de sujeito sob sujeito (DELEPLACE, 1985 apud HERSCOVICI, 24 História Contemporânea 2013). Para muitos desses intelectuais, instituições como o Estado, o capital, a religião, a educação, entre outras, são formas de controle de uma ou duas classes sobre outras. Assim, a perspectiva anarquista é a de criar um mundo plural, onde a autonomia e liberdade de cada indivíduo sejam as regras. Com os desdobramentos de 1848, a proposta anarquista cresceu no meio in- telectual, especialmente após a criação da AIT em 1864, quando os primeiros “anarcossindicatos” foram criados, bem como passaram a ganhar notoriedade e a serem perseguidos. Podemos dizer que o anarquismo encontrava nas pautas operárias seus interesses e vice-versa, ou seja, operários podiam ver na liberdade em relação às amarras institucionais do anarquismo uma forma de criar novos espaços e novas expectativas para os operários (NOIRIEL, 1990). CONSIDERAÇÕES FINAIS Jacob Buckhardt (2009), do século XIX, afirmava que a essência da história é a sua eterna mutabilidade. Assim, o que buscamos trazer neste capítulo foi a historicidade própria da história, de seus conceitos e da importância em pen- sarmos o século XIX não apenas como a estreia do Período Contemporâneo, mas um período marcado por continuidades e transformações próprias do quese espera da experiência humana no tempo e no espaço. Se por um lado as temporalidades e divisões são históricas, precisa- mos considerar que o que somos está atrelado ao modo como essas sociedades conceberam o mundo. Para além do Antigo Regime e seu ab- solutismo que finda em 1789, e a burguesia que potencializa o seu poder, há novas multidões que tomaram os campos, as cidades e, em especial, as novas organizações políticas, proporcionando os palcos para que indi- víduos mudassem a história de grupos marginalizados. ATIVIDADES Atividade 1 Realize um levantamento de ao menos cinco principais marcos/ conceitos e acontecimentos discutidos neste capítulo e construa um mapa conceitual, especificando: as origens, os locais e os contextos em que ocorreram, as consequências e o caráter revolu- cionário desses acontecimentos. O começo de um século efervescente 25 Atividade 2 Caracterize os principais elementos do governo de Napoleão Bonaparte em relação às ideias de transformações e de continuidades. Atividade 3 Teorias políticas e sociais surgiram no século XIX a fim de compreen- der e dar respostas aos movimentos sociais e de trabalhadores. Com base nessa perspectiva, diferencie anarquismo de marxismo. REFERÊNCIAS ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Editora Perspectiva, 1979. BURCKHARDT, J. A cultura do renascimento na Itália: um ensaio. Trad. de Sérgio Tellaroli. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009. COGGIOLA, O. 150 anos da Comuna de Paris. A Terra é redonda, 15 mar. 2021. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/150-anos-da-comuna-de-paris/. Acesso em: 20 set. 2022. DECCA, M. A. G.; DECCA, E. S. A vida fora das Fábricas. São Paulo: Paz e Terra, 1988. ENGELS, F.; MARX, K. O manifesto comunista. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 1999. FRAGONARD, J.-H. Um beijo roubado. 1750. Pintura a óleo. 47 x 60 cm. Museu Hermitage, São Petersburgo. HERSCOVICI, A. Keynes e o conceito de capital: reflexões epistemológicas a respeito das premissas sraffianas da Teoria Geral. Revista de Economia Política, v. 33, n. 3, p. 486-504, set. 2013. HOBSBAWM, E. A era das revoluções: 1789-1848. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2010. HOBSBAWM, E. A era do capital: 1848-1875. 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A Formação da classe operária inglesa: a árvore da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. https://aterraeredonda.com.br/150-anos-da-comuna-de-paris/ 26 História Contemporânea 2 Imperialismo, sociedade e cultura O foco deste capítulo é o período de meados do século XIX para o XX, a partir dos seguintes eixos: a expansão industrial, suas tecnologias e desdobramentos sobre a vida humana tanto em aspectos sociais quanto culturais; a política econômica, o liberalismo e sua relação com a expan- são industrial e as reações populares, como a Revolução Mexicana; e as transformações nas sociabilidades de grupos mais abastados, como as ocorridas com “novos e velhos ricos” do fim do século XIX e início do XX e entre os grupos menos populares. Para problematizar essa relação intrínseca entre novas sociabilidades permeadas por questões de políticas econômicas imperialistas e naciona- listas de um capitalismo, trazemos contextos culturais, bem como perma- nências e continuidades de comportamentos e códigos morais, para além do espaço europeu, visto que se trata de História Contemporânea. Junto a isso, podemos observar essas novas sociabilidades no campo e no mun- do urbano que deram sentido ao tempo e espaço, assim como passaram a ser exemplos da contemporaneidade no Ocidente. Mais que isso, reiteramos que o modelo liberal, por exemplo, é euro- peu e se trata de uma prática que se estende a outros lugares por seu caráter civilizatório, isto é, relaciona-se com uma extensão da postura colonial europeia, que vê a América e outros continentes como zonas de influências, mesmo após a independência. Não menos importante é a posição norte-americana, como se fosse mais preparada e organizada, em relação ao restante da América. Assim, a escolha pelo tema da Revolução Mexicana e das novas sociabilidades do fim do século XIX é justamente para refletirmos sobre as adaptações des- se novo mundo contemporâneo, industrial e imperialista, que estava em disputa, e para percebermos como se deram as resistências às práticas de imposição política e econômica. Imperialismo, sociedade e cultura 27 Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • entender o processo da Revolução Industrial como condição de transformações políticas, econômicas, sociais e culturais a partir de meados do século XIX; • analisar a ascensão do movimento político liberal entre o fim do século XIX e início do XX; • pensar sobre cenários culturais do século XIX, com base em novos comportamentos e sociabilidades; • compreender a transformação social e cultural gerada pela Revo- lução Mexicana no contexto contemporâneo da América Latina. Objetivos de aprendizagem 2.1 Expansão industrial Vídeo Para pensarmos sobre como a indústria cresceu e se tornou parte cru- cial da economia mundial, precisamos considerar como se deu a política de expansão, isto é, como os Estados-nação foram organizados entre o sé- culo XIX e início do XX. Essa organização permitiu que houvesse uma nova formação geopolítica e de trocas entre os países considerados centrais e os periféricos, como os recém-independentes da Ásia e da América. Sobre isso, também é prudente considerarmos um princípio historio- gráfico que vem acompanhando o debate da teoria da história: o que é centro e o que é marginal? Além disso, como esse centro se torna mode- lo para outros e elimina a ação deles? O centro, como tratado pela his- toriografia e pelo historicismo, por muito tempo foi a Europa com seus desdobramentos de modelos comportamentais, políticos etc., isto é, o exemplo a ser seguido como padrão, que é oposto ao marginal. Assim, o que é apontado como concreto ou geral, singular ou univer- sal e que dá sentido a um processo é aquele que, nas palavras de Hannah Arendt (2012), tem o monopólio de universalidade. A história tem por objetivo reunir acontecimentos em um processo geral, a fim de dar um sentido histórico. No entanto, o recorte temporal e o espacial escolhidos pela história no nosso mundo moderno estão submetidos ao que enten- demos como modernidade (direitos humanos, cidadania, estados insti- 28 História Contemporânea tucionais, relação privada e pública e formação de grupos sociais). Essa modernidade predominou devido à colonização do pensamento, do ser e do poder, demarcando as diferenças entre os hemisférios Norte e Sul, as quais também embasam histórias locais e de resistência. Para um debate mais específico sobre como questionar a centralidade europeia nos temas historiográficos, sugerimos o texto Desafios decoloniais hoje, de Walter Mignolo. Acesso em: 30 set. 2022. https://revistas.unila.edu.br/epistemologiasdosul/article/view/772 Artigo Portanto, nossa escolha pelos temas desse capítulo visa trazer um processo de formação política europeiacontemporânea – e seus aconte- cimentos –, mas reafirmamos que são experiências locais e que devem ser relacionadas a outros centros, como África e Ásia, antes vistos apenas como periferias. Foi assim que o século XIX potencializou a ideia de na- ção predominante no Ocidente até os dias atuais. É uma perspectiva po- lítica que se estende às colônias dos países europeus que as originaram. Quando um ideal político é definido por meio de um idioma domi- nante, do modo de viver, de um sistema jurídico e dentro de um territó- rio, temos um Estado-nação, o qual será responsável por tudo o que ali ocorre (SILVA; SILVA, 2009). Sem dúvida, o Congresso de Viena demons- trou a importância da demarcação de espaços, visto o que Napoleão Bonaparte causou no início do século XIX. Além disso, a industrialização no decorrer desse período marcou a importância de reafirmar a legiti- midade política das nações ou elas seriam tomadas por outros. Não muito distante desse marco temporal estavam os Estados Unidos, que desejavam um crescimento econômico e territorial desde o início do século XIX, ainda mais evidente com a publicação do Destino Manifesto, em 1845. Para eles, a expansão era uma vontade divina, e seus argumentos eram de que sua cultura era superior à dos mexicanos e dos indígenas. Essa postura, junto a uma imigração massiva, transformou os Estados Unidos em uma potência imperialista, bem como trouxe novas sociabilidades. Por quase todo século XIX houve discussões sobre a essência do nacionalismo estar atrelada a uma perspectiva patriótica, assim como houve perseguições aos que não se ajustavam a esses ideais. Parte do consenso veio com a ideia de que cidadania traria um bem-estar social e político para aqueles que se identificavam com o país ou território. https://revistas.unila.edu.br/epistemologiasdosul/article/view/772 Com isso, também se justificava o porquê de dominarem outros, apon- tando-os como inferiores. Assim, ainda no fim do século XIX, diversos Estados-nação já estavam formados (algumas exceções eram a Itália e a Alemanha, por exemplo). Com princípios sobre tradição, civilização, desenvolvimento industrial e econômico, junto às questões étnicas, muitos buscaram conquistar ou- tras nações, sendo isso parte dos motivos da Primeira Guerra Mundial. Os Estados-nação de modelo europeu são, antes de serem democracias, espaços capitalistas nos quais o objetivo da corrida imperial que se seguiu era manter territórios e explorar a mão de obra e o mercado consumidor. Arendt (2012) define que o imperialismo do fim do século XIX surgiu como resposta aos limites territoriais por aqueles que dominavam os meios de produção, os quais exigiam uma política externa que se conformasse a seus interesses. Assim, o século XIX somou à perspectiva de Estado, em parte democrática, a ideia de que poderiam se unir como “solitários solidários” e, juntos, compartilhar um espaço e uma temporalidade histórica, mesmo com suas diferenças. Esse tipo de comunidade se torna comum à medida que o capitalismo industrial se fortalece em sua forma econômica. Não menos importante, nesse período houve um ápice radical de se- paração da natureza e do homem, decorrente em parte das discussões iniciadas com as Grandes Navegações (trocas comerciais pelo Mediterrâ- neo, Pacífico e Atlântico) e permeadas pelo Iluminismo e pela Revolução Industrial. A modernidade, decorrente dos desdobramentos do Período Moderno, seja pela ação de mercadores, seja pelo descobrimento acer- ca do Universo e do próprio Planeta por homens como Copérnico, Galileu e Francis Bacon nos séculos XVI e XVII, permitiu que as socie- dades humanas (especialmente a europeia) compreendessem a na- tureza como um espaço existente apenas para a sua ação e domínio, não como uma extensão da própria existência humana. A razão, nesse caso, sobrepôs-se ao que seria natural. Com diversos elementos envolvidos na ideia de Revolução Industrial, a ação humana que sempre alterou o meio ambien- te compreendeu, no século XIX, que poderia dominá-lo. A má- quina a vapor já havia causado zonas cinzentas nos grandes centros desde o século XVIII, mas o petróleo como fonte de M ar ci n Ni em ie c/ Sh ut te rs to ck M ar ci n Ni em ie c/ Sh ut te rs to ck Imperialismo, sociedade e culturaImperialismo, sociedade e cultura 2929 30 História Contemporânea energia adotado a partir de 1850 potencializou na indústria novos pro- dutos, novas formas de produção e muitos gases poluindo o meio am- biente, resultando em um efeito mais devastador após essa data. Para tanto, basta pensar que a forma capitalista industrial moderna trouxe consigo o uso de óleo diesel, fertilizantes, indústrias termoelétricas, plás- ticos, medicamentos e cerca de 37% da energia mundial (HATTON, 2017). A separação da natureza e dos princípios humanos também é evidente no que a burguesia e os seus intelectuais defendiam em relação à biologia, como a seleção natural de Charles Darwin (HOBSBAWM, 2010c) ou a ideia de que lugares sociais e até possibilidades intelectuais eram definidas como se houvesse diferenças naturais biológicas. Por fim, as diferenças e exclusões sociais ocasionadas pelas hierarquias existentes entre classes de burgueses e do operariado ou de camponeses acabavam justificadas por uma ciência voltada aos interesses das classes mais abastadas. Não menos importante, essas teorias ainda justificavam as diferen- ças reafirmadas em relação aos povos antes colonizados, a fim de que continuassem a ser influenciados, mesmo após as independências. Essas informações vinham da Antropologia, ciência reconhecida nos termos europeus no século XIX e que colaborou para a expansão indus- trial capitalista por utilizar discursos vindos de informações coletadas por viajantes europeus (MARCONI; PRESOTTO, 2006). Portanto, a expansão industrial não teria existido se as classes mais abastadas, industriais ou não, não tivessem se apossado dos discursos políticos e científicos do período. Importante, ainda, é considerarmos a teoria político-econômica influente do período, tema da próxima seção. 2.2 Liberalismo inglês Vídeo O liberalismo se tornou uma prática política e econômica no século XIX, potencializada a partir do fim desse século e início do XX, com base em in- teresses europeus. Ele pode ser entendido como uma ideologia que dá es- paço à iniciativa e à autonomia individual, ou seja, menos interferência do Estado, porém com ações que são limitadas e ao mesmo tempo assegura- das pelo direito (SILVA; SILVA, 2009). Portanto, o Estado existe para proteger os indivíduos em parte, garantir contratos e autorregular a economia – nesse sentido, há uma aproximação entre o liberalismo econômico e o po- lítico, que é mais uma forma de organização do Estado e em contraposição Imperialismo, sociedade e cultura 31 ao absolutismo. É importante considerarmos que o conceito é nomeado dessa forma no século XX, mas antes era conhecido como liberal ou liberais. Sua origem está relacionada ao século XVIII com base em discus- sões causadas pelo Iluminismo, cuja trajetória passa pelo século XIX e início do XX, envolvendo especialmente a Europa Ocidental e a América Latina. Foi somente nesse contexto, com os regimes totalitários, que o liberalismo sofreu limitações contundentes e voltou a ser uma prática mais recorrente apenas no fim do século XX, reconhecido sob a nomen- clatura de neoliberalismo (SILVA; SILVA, 2009). O liberalismo tem como base o pensamento liberal, oportuno no século XIX para uma burguesia que havia ascendido ao poder político na França e na Inglaterra, após séculos de limitações durante o Período Moderno. Nessa época, a burguesia contestava a monarquia, o direito divino dos reis, as práticas confessionais na política, o mercantilismo, bem como a falta de autonomia do comércio e do seu monopólio. Na França, o liberalismo também estava atrelado ao nacional e à Re- pública. Na escola liberal francesa, os fisiocratas 1 defendiamo fim do mercantilismo, o livre comércio em geral, a intervenção do Estado na economia e a importância de defender a terra como a maior fonte de riqueza. François Quesnay, um dos líderes fisiocratas, dizia que o mun- do econômico é formado por uma interdependência de diversas partes (privadas, políticas, meios de produção etc.), já na França os liberais diziam que o mercantilismo não garantia mais o crescimento do país e a agricultura deveria ter mais atenção, isto é, propunham uma supe- restima da agricultura, e não da indústria (GENNARI; OLIVEIRA, 2009). John Locke foi um dos principais criadores de ideias que fundamenta- ram o liberalismo entre o século XVII e o início do XVIII. Para ele, tudo e qual- quer coisa é passível de dúvida, incluindo instituições como a absolutista. Esse debate ocorreu no ano de 1690, no livro Dois Tratados sobre o Governo Civil, o qual incentiva discussões mais populares sobre o direito divino, es- pecialmente o defendido por R. Filmer em 1680 (LOCKE, 2001). No entanto, o liberalismo não diz respeito apenas às questões econômicas ou mesmo políticas; também se envolve em debates sobre propriedade e direitos que entendemos atualmente como civis, assim, acima de tudo se permite o questionamento e o uso da razão, perspectiva comum ao Iluminismo. Podemos refletir sobre a ideia de que, se homens nascem livres e iguais, as leis devem garantir seus direitos. Para filósofos como Locke A fisiocracia é uma teoria econômica com influência do Iluminismo e oposta ao mercantilismo. 1 32 História Contemporânea (2001), o direito à propriedade privada é natural e isso colaborou para que burgueses alcançassem mais direitos, bem como justificassem diferenças sociais e a exploração de mão de obra trabalhadora nos séculos seguintes. Esse último aspecto era um diferencial para liberais ingleses, além de se posicionarem por um Estado que só deveria intervir para pensar o cresci- mento populacional e do país, assim como as proporções de importação e exportação (devido a uma crise em 1815, quando a Inglaterra teve falta de grãos). A economia se autorregularia sozinha, de acordo com a demanda. Já para Adam Smith, tal como Locke, há uma defesa à indústria, mas com apoio do campo. Em seu livro A Riqueza das Nações, a ideia de mão in- visível transforma tudo e todos em mercadorias e em interesses comuns, como bens que podem ser vendidos e trocados (SMITH, 2016). Assim, por meio da interferência burguesa mais potencializada após a Revolução Francesa, a livre iniciativa individual sem a interferência do Estado, sua característica principal, alia-se a um sistema também po- lítico-econômico: o capitalismo. No caso francês, quando a burguesia conseguiu colocar fim ao modelo absolutista de modo definitivo, por ocasião do fim da monarquia constitucionalista em 1848 na França, a burguesia passou a liderar um Estado de caráter mais liberal. O ano de 1848 também pode ser lembrado como o período de revolução da propriedade de terras (HOBSBAWM, 2010a). Além disso, no período de 1787 a 1848, essa transformação econômica foi ainda imperfeita, como se pode medir pelas modestíssimas taxas de emigração. As ferrovias e os navios a vapor mal tinham come- çado a criar um único mercado mundial agrícola quando da gran- de depressão agrária do final de século XIX. A agricultura local era, portanto, grandemente protegida da competição internacional ou até mesmo interprovincial. (HOBSBAWM, 2010a, p. 262-263) O historiador nos permite destacar as ideias de quando a Revolu- ção Francesa já era consolidada, e outros lugares da Europa e da Ásia (como a Índia) tinham a agricultura local como algo estruturado. Assim, entendemos que a industrialização dos meios de produção agrícola ou de seus produtos primários era simples e pequena até meados do sé- culo XIX. Eric Hobsbawm (2010a) reitera que a Irlanda teve uma crise conhecida como a Grande Fome na década de 1840, quando milhares de pessoas morreram ou emigraram. Não diferente foi a Índia que passou a produzir de modo deliberado apenas para a Inglaterra, redu- zindo a autonomia de camponeses indianos de manufaturas simples. Imperialismo, sociedade e cultura 33 O que ocorreu nesse tempo foi uma transformação no que diz respeito às leis e aos tributos da terra em diversos lugares do mundo. A terra, fonte de riqueza e de onde saem as matérias-primas para a indústria, deveria produzir lucros. Para tanto, países como a Inglaterra começaram a exercer seu poder de colonização, tanto para delimitar as terras e criar leis espe- cíficas quanto para tomar terras antes comunais em regiões colonizadas e nos próprios países. Aliada ao excesso de tributos, essa tomada causa fome e emigração em massa. É também efeito do interesse pela proprie- dade da terra incentivado pela industrialização e exportação de produtos. Portanto, há uma relação direta do liberalismo com interesses nacio- nalistas e imperialistas que envolvem o direito à propriedade e o que se produz nela. Para criar a sociedade burguesa em termos liberais havia li- mitações, como o número de terras férteis, sua falta de regularização e até mesmo os tributos, já que isso limitava a manutenção das terras para alguns. Os maiores entraves dessa limitação foram os camponeses (espe- cialmente na América e na Inglaterra) e os antigos proprietários de terras. Para os primeiros colonizadores na América, a produção nas fazen- das passou a ser mecanizada. Já na Europa, o que seguiu foi um cres- cimento de termos nacionalistas acompanhados do capital liberal em seus países. Em números, na Inglaterra viu-se o dobro de máquinas de algodão entre 1819 e 1860 (HOBSBAWM, 2010b), mesmo com a con- corrência de outros países. Houve uma mudança de mentalidade do mundo Moderno para o Contemporâneo, e a expansão satisfatória para os homens de negócios famintos de lucros foi a combinação de capital barato com um rápido aumen- to dos preços. As expansões eram inflacionárias. Mesmo assim, o aumento de cerca de um terço dos níveis de preços ingleses entre o período de 1848 e 1850 e o ano de 1857 foi notavelmen- te grande. Os lucros aparentemente à espera de produtores, comerciantes e, acima de tudo, investidores apresentavam-se quase que irresistíveis [...] o grande aumento no custo dos ce- reais entre 1853 e 1855 não mais precipitou tumultos em parte alguma [...] a alta taxa de emprego e a presteza em conceder au- mentos salariais temporários onde fosse necessário apagaram o descontentamento popular. Mas, para os capitalistas, as amplas provisões de trabalho que então chegavam ao mercado eram re- lativamente baixas. (HOBSBAWM, 2010b, p. 61-62) Mesmo com as crises comuns dentro de um sistema capitalista, a nova maneira de fazer dinheiro parecia não assustar seus investidores. A com- 34 História Contemporânea petitividade defendida pelo liberalismo que, em parte, substituiu o mer- cantilismo previa a participação de todos. As condições não eram ideais, mas havia trabalho, e isso fez com que nas décadas entre 1850 e 1880, de modo geral, os movimentos sindical e social diminuíssem. 2.3 Belle Époque Vídeo Como analisamos, o crescimento econômico e as mudanças sociais a partir de meados do século XIX também estão relacionados e condiciona- dos por um nacionalismo. De acordo com Hobsbawm (2010c), o conceito de nacionalismo apareceu pela primeira vez em fins do século XIX na Eu- ropa contra estrangeiros, liberais e socialistas, e, embora com origem em grupos de direita, passou a ser relacionado com a perspectiva de “causa comum de um país” e com o que um grupo se identifica. Estava atrelado também a um ideal de nação e a uma perspectiva étnica e de linguagem. Essas discussões nacionalistas, junto ao crescimento industrial e ur- bano, potencializaram a formação de novas classes e sociabilidades no século da burguesia triunfante, ganhando status e trazendo perspectivas culturais e formas de ver o mundo. Hobsbawm (2010b) afirma que o que entendemos como burguês só