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ISBN 978-65-5821-195-2
9 786558 211952I000791
Código Logístico
H
istória C
ontem
p
orânea
L
orena Z
om
er
História 
Contemporânea 
Lorena Zomer
IESDE BRASIL
2022
Todos os direitos reservados.
IESDE BRASIL S/A. 
Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 
Batel – Curitiba – PR 
0800 708 88 88 – www.iesde.com.br
© 2022 – IESDE BRASIL S/A. 
É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito da autora e do 
detentor dos direitos autorais.
Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Sternfahrer/Shutterstock
22-80575
CDD: 909
CDU: 94(100)
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃONAPUBLICAÇÃO
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
Z77h
Zomer, Lorena
História contemporânea / Lorena Zomer. - 1. ed. - Curitiba [PR]: IESDE, 2022.
Inclui bibliografia
ISBN 978-65-5821-195-2
1. Civilização - História. 2. Revoluções - História. 3. História social. 4.
Globalização. I. Título.
Meri Gleice Rodrigues de Souza - Bibliotecária - CRB-7/6439
17/10/2022 21/10/2022
Lorena Zomer Doutora e mestre em História pela Universidade 
Federal de Santa Catarina (UFSC), com pós-doutorado 
em História pela Universidade Estadual de Ponta 
Grossa (UEPG). Especialista em Educação Especial pela 
Faculdade Iguaçu. Graduada em História pela UEPG. 
Professora no ensino superior, ministrando as disciplinas 
América, História Contemporânea, Prática de Pesquisa, 
Estágio e Metodologia da História, entre outras. Atua 
também como parecerista na escrita de livros didáticos e 
na assessoria e formação de professores.
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SUMÁRIO
1 O começo de um século efervescente 9
1.1 Dimensões do Antigo Regime 10
1.2 Revoluções de 1830-1848 14
1.3 1871: a res publica dos trabalhadores 18
1.4 Marxismo e anarquismo 21
2 Imperialismo, sociedade e cultura 26
2.1 Expansão industrial 27
2.2 Liberalismo inglês 30
2.3 Belle Époque 34
2.4 Revolução Mexicana 38
3 Guerras Mundiais e Estado totalitário 47
3.1 Primeira Guerra Mundial 48
3.2 Revolução Russa e sua experiência socialista 55
3.3 Crise das democracias e o totalitarismo 59
3.4 Segunda Guerra Mundial 64
3.5 Os trinta gloriosos e o Ocidente pós-guerra 70
4 Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 75
4.1 A Guerra Fria e a bipolaridade 76
4.2 Descolonização e emergência do Terceiro Mundo 82
4.3 Gerações 1968 e a contracultura: resistência e utopias 85
4.4 Decolonialidade do ser 89
5 Crises socialistas 98
5.1 Do populismo às ditaduras na América Latina 99
5.2 As crises das experiências socialistas 104
5.3 Rizomas do mundo polarizado 108
5.4 Discussões socialistas na América 111
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6 História Contemporânea
6 Sociedade pós-industrial e globalização 118
6.1 Neoliberalismo, globalização e desenvolvimento tecnológico 119
6.2 Conflitos étnico-religiosos e identitários 122
6.3 Transformações e debates da História Ambiental 126
6.4 Fluxos migratórios na Europa e na América 130
6.5 Questões do mundo contemporâneo em países andinos 133
6.6 Mídias no cotidiano contemporâneo 136
 Resolução das atividades 141
Esta obra tem como objetivo trazer temas da história 
contemporânea, considerando as transformações globais 
que atingem a todos os continentes, com acontecimentos 
que representam mudanças vividas no último século e que de 
inúmeras maneiras refletem questões contemporâneas postas 
como desafios e pautas políticas nas primeiras décadas do século 
XXI. Assim, este livro é um convite para entendermos a História 
Contemporânea como um tema global, que é tão importante 
quanto se faz necessário compreendê-lo para encontrarmos 
respostas em relação aos rumos da história humana nos 
diversos espaços e temporalidades que vivemos. 
O primeiro capítulo buscará debater como a Revolução 
Francesa é um marco no que diz respeito a algumas 
manutenções do Antigo Regime. Também estão envolvidos os 
ideais sobre liberdade e as discussões políticas das demandas 
populares e burguesas que colaboraram na efervescência de 
movimentos revolucionários e contrarrevolucionários entre os 
séculos XIX e XX, que, juntos, criam perspectivas e dinâmicas 
de organização política. Estas novas vivências são responsáveis 
pela transformação de comportamentos e sociabilidades a 
partir do século XIX. 
No segundo capítulo, o intuito será entender a Revolução 
Industrial vivida no final do século XIX como um elemento 
transformador não apenas da economia, mas das condições 
sociais e culturais também. É desse período a ascensão do 
movimento liberal, as discussões morais e literárias provocadas 
pelas formações nacionalistas e imperialistas impulsionadas 
pelas novas organizações nacionais que ocasionaram as 
condições cruciais para eventos como a Primeira Guerra Mundial 
e a Revolução Mexicana. 
As grandes guerras ocorridas na Europa no século XX, a 
Revolução Russa e a Crise de 1929 serão os temas centrais 
do terceiro capítulo. Com a intenção de contextualizar esses 
acontecimentos, questões historiográficas, culturais e políticas 
dos países serão consideradas especialmente em relação ao 
imperialismo característico da virada do século XIX para o XX. 
A transformação da Rússia em União Soviética, por meio de 
APRESENTAÇÃOVídeo
8 História Contemporânea
princípios socialistas e comunistas, será discutida à luz da historiografia e da 
atualidade sobre o tema, bem como sobre as consequências dessas escolhas 
políticas. Para compreender a ascensão dos regimes totalitários nazista e 
fascista serão discutidos o período entre guerras, o crescimento político- 
-econômico russo e a própria Crise de 1929. Estas divergências serão analisadas 
porque foram potencializadas com os desdobramentos da Segunda Guerra 
Mundial e a reorganização política, econômica, social e cultural dos envolvidos 
nos anos 1950, os quais foram responsáveis pela bipolarização entre o 
capitalismo liderado pela representação norte-americana e o socialismo russo. 
O quarto capítulo busca compreender a mundialização da bipolaridade 
entre Estados Unidos e a União Soviética, a fim de perceber como países da Ásia 
tiveram suas práticas políticas e culturais envolvidas nessa disputa. Além disso, o 
texto busca problematizar os movimentos de 1968 com as demandas do nosso 
tempo, junto à influência de estudos decoloniais na América contemporânea, ao 
debater sobre concepções de diversidade, gênero e sociabilidades, no que diz 
respeito aos acontecimentos decorrentes dos blocos econômicos e políticos. 
No quinto capítulo, as experiências próprias da América Latina e as suas 
relações com o mundo contemporâneo farão parte dos temas principais. 
Serão problematizadas desde a experiência socialista chilena às ditaduras 
civis-militares latino-americanas frente aos interesses imperialistas norte- 
-americanos, considerando ainda os casos ocorridos em Cuba e na Venezuela. 
Na mesma medida, serão considerados os contextos de rupturas das políticas 
socialistas em detrimento da globalização, acontecimento representado pela 
queda do Muro de Berlim e as suas repercussões. Assim, as consequências 
de um mundo polarizado serão analisadas por meio de influências globais.
As transformações globais vividas no último século serão o tema do 
sexto e últimoé apontado como tal após o período do 
século XIX, inclusive fazendo com que novas classes “médias” e a burgue-
sia mais estabelecida olhassem com nostalgia para a Belle Époque.
A Belle Époque está relacionada ao tempo em que a França passou a ser 
conhecida como o país que influenciava a ciência, a educação etc. e tinha 
os movimentos artísticos mais destacados, especialmente após o início da 
Terceira República Francesa (1870). As pessoas buscaram urbanizar, sa-
near e embelezar a cidade de Paris, como sinônimo desse contexto. Além 
disso, nas cidades com 500 a 600 mil habitantes, como era o caso de Paris, 
Nova York, Chicago, Viena, Berlim, Melbourne e Londres na época, poucas 
se mostravam influentes em segmentos além dos econômicos e políticos.
Por meio de redes de transporte, como as novas ferrovias e os me-
trôs recém-construídos em algumas cidades – Nova York e Paris, por 
exemplo –, os imigrantes chegavam e se somavam ao ritmo frenéti-
co das avenidas. O público das cidades buscava cafés, casas de chá, 
confeitarias, lojas de departamentos, correios, empregos, praças ou 
mesmo um parque para agir como um flâneur, encontrar amigos ou 
A série A Idade Dourada 
parece ser cheia de 
intrigas românticas e no-
velescas. No entanto, ela 
tem a apresentação de 
uma sociedade nova ior-
quina ascendente no fim 
do século XIX, repleta de 
novos ricos e tecnologias 
chegando para mudar o 
mundo cultural, político e 
econômico. É uma série 
fundamentada na obra de 
Cornelius Vanderbilt.
Criação: Jules Fellowes. EUA: 
HBO, 2022.
Série
flâneur: caminhante, 
observador, boêmio.
Glossário
passear com seus cachorros. Esses espaços passaram por processos 
de urbanização, higienização e pelo regulamento de novas leis, mas 
isso também empurrou operários e grupos mais pobres para bairros 
distantes, sem qualquer estrutura (HOBSBAWM, 2010b).
Outro efeito sobre o aumento de classes e grupos de liberais e/ou da 
pequena burguesia que compunham o novo mundo social desde 1850 é 
que não havia uma disputa arquitetônica entre as casas e, menos ainda, 
nos grandes centros que outrora foram reduto dos mais abastados. As 
novas classes estavam nas villas, nos bairros residenciais (HOBSBAWM, 
2010c), dando prioridade à privacidade e ao conforto, o que uma man-
são talvez não pudesse oferecer se estivesse em uma grande avenida. 
A Figura 1 mostra uma casa exemplar da arquitetura da época, com um 
jardim que permite um espaço pessoal à família, ao mesmo tempo que 
representa uma propriedade a partir da qual seus donos podem ter 
acesso a diversos elementos culturais e sociais, incluindo bebidas e ali-
mentos, mas sem necessariamente ostentar isso em sua fachada.
Com relação à arte, Walter Benjamin (1994), ao falar sobre o fim 
do século XIX e meados do XX, afirma que ela já pouco inventava, por-
que mais reproduzia. As artes, para ele, pouco conseguiam transmi-
tir ou pouco eram testemunhas de um tempo. Se contextualizarmos 
Benjamin com os anos de 1920 e 1930, considerando o cinema e o 
número de livros publicados, a sua “repetição de massa” faz mais 
sentido. No entanto, é ainda no século XIX que as ideias 
parecem fervilhar.
As novas sociabilidades também afetavam as artes, 
afinal, elas são abstrações que dão sentido à vida e 
aos sentimentos provocados nas pessoas. E não 
é o fato de ser copiada que a faz perder o 
valor. Nesse sentido, há uma populariza-
ção da arte e das novidades tecnológicas 
que, embora não sejam acessíveis a uma 
maioria, alteram o tempo e o mundo em 
que as pessoas vivem.
Figura 1
Exemplo de uma villa 
inglesa
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Imperialismo, sociedade e culturaImperialismo, sociedade e cultura 3535
36 História Contemporânea
Hobsbawm (2010a) também reforça uma relação de transforma-
ção da economia global com o mundo operário e as artes ao afirmar 
que as composições de Giuseppe Verdi, um dos maiores compositores 
italianos de ópera, estavam sendo tocadas em lugares públicos e po-
pulares e sendo reconhecidas. Não menos ouvidas eram as músicas 
de casamento com excertos de Richard Wagner, compositor e maestro 
alemão, outrora tocadas apenas em casas de ópera, que eram espaços 
fechados à população mais marginal, a não ser para se fazer limpezas 
ou outros serviços.
A burguesia também era associada a uma revolução cultural e de 
urbanização, como classe que assimilava produtos artísticos mas-
sivamente. A burguesia nem sempre era rica, mas era detentora de 
meios de sustentação mínimos para consumo. O romance de Gustave 
Flaubert traz alguns desses elementos ao evidenciar a vida de Emma 
Bovary, mais conhecida pelo título da obra Madame Bovary, publicada 
em 1856. Ao mencionar livros e leituras acessíveis à protagonista por 
serem comuns no período, Flaubert escreve:
eram pequenos manuais de perguntas e respostas, panfletos 
de um tom vermelho à maneira do sr. de Maistre, e espécies de 
romances com encadernação nacarada e estilo adocicado, fabri-
cados por seminaristas trovadores ou mulheres arrependidas e 
com pretensões literárias. (FLAUBERT, 2011, p. 323)
As leituras permitiam pensar em novas sociabilidades, isto é, com-
portamentos que apenas quando inseridos em um novo contexto po-
lítico, econômico e cultural eram compreendidos. O acesso à política 
pelas classes média e trabalhadora, a diminuição da influência de va-
lores mais puritanos (inclusive a ideia de que não era preciso trabalhar 
o tempo todo, recebendo-se por “papéis” comprados, como ações de 
companhias ou bancos), as novas formas de casamento e a emanci-
pação de mulheres mudaram o modo como o estilo de vida de uma 
pretensa burguesia era entendido.
No entanto, na capital da Inglaterra imperialista, bem como em outras 
cidades do país e do mundo desse período, era comum multiplicarem-
-se casas de danças, as music halls. Nessas casas, os corais mais popula-
res tocavam músicas antes restritas aos teatros ou às óperas (PERROT, 
2005). Meninas eram deixadas por seus pais sob a responsabilidade da 
“mãe da ópera” para se tornarem aprendizes de dança, porém muitas 
eram exploradas sexualmente, sendo mantidas pelos homens que paga-
No filme As Sufragistas, 
que se passa no início do 
século XX, a personagem 
principal se envolve no 
movimento sufragista/
feminista a fim de buscar 
direitos iguais aos dos 
homens, mesmo com a 
pressão familiar para per-
manecer em seu lugar. 
O filme representa o de-
bate sobre como mulhe-
res ganharam consciência 
de seus direitos.
Direção: Sarah Gavron. Reino Unido; 
França: Ruby Films; Pathé; Film4, 2015.
Filme
Imperialismo, sociedade e cultura 37
vam por elas. Convém considerar que muitas dessas meninas e famílias 
vinham do campo e, na falta de opções adequadas, acabavam entregues 
como única opção para sobrevivência. No caso da profissão de teatro, o 
reconhecimento veio apenas em 1854, o que a tornou pejorativa duran-
te boa parte do século XIX na França (PERROT, 2005).
Modalidades esportivas como o futebol, embora voltado à classe mé-
dia, também passaram a fazer parte da vida de operários (HOBSBAWM, 
2010c). Assim, é possível dizer que as sociabilidades novas não são ape-
nas dos que se viam como burgueses ou se assemelhavam a eles, mas 
também de uma classe de trabalhadores, a qual forma o que entende-
mos como cultura operária.
Michelle Perrot, historiadora francesa, lembra as mulheres que tra-
balhavam fora de suas casas naquele período. De servas, governantas 
e operárias, angariaram novas funções como as de secretárias, enfer-
meiras e tantas outras (PERROT, 2011). No Brasil, desde meados do 
século XIX, grupos de mulheres já haviam fundado jornais, como o das 
Senhoras e o XV de Novembro do Sexo Feminino, com o intuito de divulgar 
ideias sobre o que entendiam por direitos. Esse movimento, que culmi-
na em uma reciprocidade com o feminismo do início do século XX, não 
é apenas reflexo do que se passava na Europa. Diversos são os acon-
tecimentos que se davam no mundo, como a Declaração dos Direitosda Mulher e da Cidadã, de Olympe de Gouges (1791), e os primeiros 
escritos de Mary Wollstonecraft (1759-1797), importante ativista por 
uma educação igualitária e outros direitos das mulheres. Nísia Floresta 
trouxe a obra de Wollstonecraft para o Brasil ainda no início do século 
XIX, traduzindo-a de acordo com o que entendia ser o lugar das mulhe-
res em uma relevante colaboração para o tema (HAHNER, 2003).
Mulheres encontraram brechas no próprio sistema burguês in-
dustrial e capitalista que, mais do que antes, permitiu que os espaços 
privados e públicos se diferenciassem e que estes últimos se tornas-
sem também delas. Mesmo o sistema não tratando as mulheres com 
igualdade, portanto, ainda precisava de sua mão de obra mais barata, 
algo que elas usaram como uma possibilidade de emancipação. Tanto 
o êxodo rural quanto o aumento de parques industriais deram novos 
lugares às mulheres.
De maneira geral, todas as ações dos grupos envolvidos eram tam-
bém reflexos de um mundo que se urbanizou e se industrializou de 
acordo com os termos capitalistas, liberais e burgueses. Para além do 
Michelle Perrot (1928-) 
foi aluna de Ernest 
Labrousse na Universi-
dade de Sorbonne e é 
considerada um dos no-
mes mais representativos 
dos estudos da história 
das mulheres, além de 
ter sido orientadora de 
diversos historiadores 
reconhecidos do 
século XXI.
Biografia
embelezamento de ruas, de jantares com declamações e de pinturas do 
realismo e do naturalismo, havia também resistência dos excluídos das 
propostas de cidadania, dos direitos humanos e do direito à sobrevivên-
cia digna, como era a pauta social no México, nossa próxima seção.
2.4 Revolução Mexicana 
Vídeo
A Revolução Mexicana tem como marco os anos de 1910 a 1920, 
com as vitórias do exército camponês sendo mais comuns entre 1913 
e 1915. Essa revolução se inicia com um ideal burguês de Francisco 
Madero, que defendia a derrubada do presidente Porfirio Díaz, manti-
do no poder por muito tempo e com eleições fraudulentas. No entan-
to, a partir de 1913, grupos que reivindicavam uma Reforma Agrária 
ou mesmo direitos sociais passaram não a apoiar a revolução, mas a 
transformar o seu sentido como condição de apoio a Madero. 
Embora tenha marcado profundamente a 
história da América Latina, o que torna a Re-
volução Mexicana importante é seu caráter 
social e de contestação ao eurocentrismo, 
tendo como resultado a diminuição do poder 
oligárquico exportador e da Igreja, além da al-
teração da relação do Estado com a Igreja.
A revolução promoveu discussões sobre o 
capitalismo na América Latina a partir das dé-
cadas de 1920 e 1930. Tão importante quanto 
essas discussões também eram as fazendas 
que funcionavam em grandes escalas empre-
gando camponeses e indígenas sem direitos, 
sendo isso um dos ápices para que a revolu-
ção começasse. A Figura 2 mostra uma obra 
que evidencia em parte a história mexicana.
José Orozco, Davi Alfaro Siqueiros e Diego 
Rivera foram os nomes mais importantes do 
Muralismo, movimento artístico que surgiu 
no começo do século XX. No caso do Méxi-
co, o movimento estava relacionado ao que 
Figura 2
Mural de José Orozco
Fonte: OROZCO, J. Omnisciência. 1925. Afresco, Casa 
de los Azulejos, Cidade do México.
3838 História ContemporâneaHistória Contemporânea
Imperialismo, sociedade e cultura 39
ocorria no país, ou seja, à Revolução Mexicana, considerada pela his-
toriografia um grande marco da História Contemporânea no Ociden-
te. Desse modo, a arte se ocupou da pauta política do momento, para 
além dos temas do cotidiano e mais populares, por meio de diversas 
formas – pinturas, gêneros textuais etc.
De acordo com Dawn Ades (1997), o Muralismo nasceu após a saída 
de Porfirio Díaz do governo e por meio de uma vanguarda de pintores 
que apoiava a revolução. O que predominou no movimento foram as ar-
tes visuais, visto que Álvaro Obregón, o presidente que derrubou Díaz do 
governo, permitiu que o muralista José Vasconcelos criasse um programa 
público, o qual durou de 1920 a 1930 e levava o nome de Vasconcelos. 
Assim, o que se inicia é um projeto de identidade nacional, que con-
siderava as tradições das sociedades originárias e, em parte, as dos 
colonizadores. Junto a isso havia um projeto de educação local para 
os grupos mais simples e uma discussão de teor político-econômico 
sobre o direcionamento que o México deveria ter, se deveria ser mais 
industrial ou mais rural. Alguns muralistas preferiam o industrial, mas 
demonstravam mais apreço ao rural, como se este representasse um 
México mais original, apesar das diferenças sociais, perspectiva que 
percebemos em Barbosa (2008, p. 3):
o nacional, o popular e o revolucionário, o muralismo procurou 
retratar a importância de índios, mestiços e trabalhadores, de 
modo geral. Houve a materialização de um projeto, de uma nova 
identidade a ser construída; uma identidade que não negasse o 
passado colonial e pré-hispânico, mas integrasse-o. As “raízes” his-
tóricas foram buscadas nesse passado e integradas ao contexto 
revolucionário, de modo a engendrar uma identidade nacional, 
ainda que a proposta partisse de uma elite política e intelectual.
Mesmo com discussões que envolvem o colonizador branco, pode-
mos dizer que a centralidade da obra muralista está no povo simples e 
trabalhador ao qual não chegam os direitos sociais, trabalhistas e nem 
mesmo o direito à terra.
Diego Rivera, também conhecido por ter sido o companheiro de 
Frida Kahlo, criou um mural importante ao movimento Muralista. A 
obra Sonho de uma tarde de domingo no Parque Alameda (1948) retrata 
momentos históricos e pessoas relevantes para o México, como Frida 
Kahlo e o rosto do próprio artista, pintado como menino à frente de 
sua companheira no centro da obra. Entretanto, o elemento central 
40 História Contemporânea
da imagem é a caveira conhecida como La Catrina. Para a cultura me-
xicana, a caveira representa o ciclo da vida e traz uma relação com o 
deus Quetzalcoatl – uma serpente emplumada e uma das divindades 
principais para astecas e toltecas.
Na parte mais à direita do mural, um policial empurra um grupo de 
indígenas e/ou camponeses, como se não pudessem se misturar com 
os mais bem-vestidos que estão atrás. Além disso, ao lado de La Catrina 
podemos perceber uma diferença social em alguns homens de terno e 
um policial que parecem olhar ou tratar com desdém uma mulher de 
traços indígenas, vestida mais tradicionalmente, com roupas alegres e 
soltas como as das mexicanas.
Para conhecer mais sobre a obra Sonho de uma tarde de domingo no 
Parque Alameda, de Rivera, acesse os links a seguir. No primeiro é possí-
vel ler sobre a trajetória de Diego Rivera para pintar o mural. O segundo 
é um convite para visitar o Museu Diego Rivera, onde a obra está, e 
perceber vários traços da história mexicana que são problematizados 
nessa obra de arte.
Disponíveis em:
• https://inba.gob.mx/recinto/46/museo-mural-diego-rivera
• https://inba.gob.mx/sitios/recorridos-virtuales/ museo-mural-diego-rivera/
Acesso em: 30 set. 2022.
Museu
As cores e os modelos de roupas fazem parte das discussões iden-
titárias ligadas aos indígenas. Cores intensas e bordados tornaram-se 
símbolos desse movimento identitário que é também parte do Muralis-
mo, embora não apenas decorrente dele. Um movimento cujo centro é 
a camada subalterna, aquela que só poderia ir à Alameda Central – um 
parque da Cidade do México – para servir aos grupos sociais abastados.
Modelos de roupas Givenchy 
exibidas no Museu Frida Khalo, 
na Cidade do México.
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https://inba.gob.mx/recinto/46/museo-mural-diego-rivera.
https://inba.gob.mx/sitios/recorridos-virtuales/ museo-mural-diego-rivera/
Imperialismo, sociedade e cultura 41
Para conhecer mais sobre o Museu Frida Kahlo, acesse o link a seguir. Esse 
museu foi a casa de Frida Khalo e de sua família, onde viveu também com 
Diego Rivera. O link é um tour virtual por sua casa. Aproveite para ver as ex-posições sobre suas roupas encontradas no fim do século XX e que fazem 
parte de sua manifestação identitária mexicana, na aba Exposiciones.
Disponível em:
• https://www.museofridakahlo.org.mx
Acesso em: 30 set. 2022.
Museu
Assim, podemos dizer que o Muralismo que se consagra ao fim da 
Revolução Mexicana está intrinsecamente envolvido com a reinvenção 
da sua realidade histórica (ADES, 1997), cuja tomada de preceitos cul-
turais e de valorização são também respostas à marginalização social 
encontrada e vivida por líderes como Emiliano Zapata.
O que há em comum em diversas cenas no mural de Rivera é uma 
separação por classes, que no período colonial era de espanhóis versus 
sociedades originárias. Após a independência mexicana, essas sociedades 
passaram a ser confundidas como camponeses e a elite era os descen-
dentes dos espanhóis, os quais junto à Igreja detinham mais de 90% de 
toda a propriedade de terras. Assim, o que Rivera denuncia em sua pintu-
ra também é a exclusão social medida pela posse de terra e atravessada 
por questões étnicas e raciais, próprias do processo de colonização.
Emiliano Zapata, um dos três líderes da Revolução Mexicana junto 
a Pancho Villa e Venustiano Carranza Garza, desejava a distribuição e a 
devolução de terras tiradas dos indígenas e camponeses em tempos de 
colônia. Para Zapata (apud PINEDA, 2017): 
Como se fez a conquista do México? Por meio de armas. Como os 
conquistadores se apossaram das grandes porções de terra, que 
é a imensa propriedade agrária que por mais de quatro séculos foi 
passada a vários proprietários? Por meio das armas. Pois por meio 
das armas devemos fazer com que volte a seus legítimos donos, 
vítimas de usurpação.
Zapata chama a população à guerra, para tomar aquilo que teria 
pertencido aos explorados no campo e na cidade. Embora seja ne-
cessário considerarmos que havia outros líderes, Zapata era o que 
menos se preocupava com as pautas urbanas. Para ele, o proble-
ma central residia na posse de terras, por isso, no Plano de Ayala 2 , 
seu grito de guerra foi “Abaixo as fazendas e vivam os povoados” 
Lançado em 1911, o Plano 
de Ayala foi uma proposta 
de reforma agrária elabo-
rada por Zapata envolven-
do a queda do governo de 
Madero.
2
https://www.museofridakahlo.org.mx
42 História Contemporânea
(Abajo las haciendas y vivan los pueblos), isto é, tratava-se também de 
disputas locais, enquanto outros líderes buscavam derrubar governos.
No ano de 1910, com a presidência de Porfirio Díaz, o México vivia um 
processo de modernização segundo os interesses dos agroexportado-
res. Díaz se tornou conhecido como ditador necessário para que houves-
se um “milagre econômico”. Ferrovias e correios, bem como mensagens 
que chegavam via telégrafo. Estes três meios de comunicação diminuíam 
a distância entre a Cidade do México e o Golfo do Pacífico facilitando o 
escoamento da produção (agrícola, mineral, têxtil e de cigarros) com o 
objetivo de atingir a concorrência externa ao mesmo tempo que prole-
tarizava a mão de obra indígena, alterava seus costumes e expropriava 
suas terras. As ferrovias (quase 19 mil quilômetros em 30 anos) também 
permitiam retaliações mais rápidas às rebeliões que ocorriam.
Foi nesse contexto de crescimento econômico e de exclusão social 
que a classe ferroviária se organizou contra a ausência de direitos ou 
de equidade. Muitos trabalhadores dos Estados Unidos tinham direitos 
diferentes em relação aos oriundos do México, como podemos ler na 
correspondência de Zapata (apud PINEDA, 2011):
os assalariados das fazendas não eram trabalhadores livres, 
senão peões submetidos por meio de endividamento e da violên-
cia dos capatazes. Para maior controle, com frequência os traba-
lhadores e suas famílias viviam limitados às fazendas. Segundo 
os oligarcas, os camponeses independentes não deveriam ser 
nem pequenos proprietários, nem arrendatários, senão peões 
da fazenda abaixo do comando de um proprietário capitalista.
Com base na falta de liberdade e de acesso à terra, os assalariados, 
também embalados por princípios do socialismo, do anarquismo, do libe-
ralismo e do humanismo cristão, começaram a liderar greves, como a dos 
ferroviários de Cananena (1906), a dos mineiros de Iquique (1907), a dos 
operários de Rio Blanco (1907) e a dos bananeiros de Tegucigalpa (1904).
Junto às questões trabalhistas estavam as críticas intelectuais e polí-
ticas, como as do Clube El Ateneo de La Juventud, cujo ideal era pensar 
sobre o liberalismo do século XIX, debater o anticlericalismo e defender 
a livre imprensa. Intelectuais de destaque eram Juan Sarabia e Ricardo 
Magón (criador do movimento conhecido como Magonismo e questio-
nador do Partido Liberal Mexicano), que se preocupavam com proble-
mas mais populares e defendiam a emancipação dos trabalhadores 
com base em uma consciência socialista nacional (COCKCROFT, 2004). 
Imperialismo, sociedade e cultura 43
As publicações do jornal Regeneración do partido apoiado por Magón 
aumentaram significativamente entre 1905 e 1906, amparado por fer-
roviários e pequenos comerciantes.
Como afirmamos, em debate ao Regeneración também havia o 
Partido Liberal Mexicano. Alguns de seus princípios eram: volunta-
riado para servir ao Exército com salários melhores e fim do código 
militar; educação livre e laica, com melhores salários a professores 
primários; direitos trabalhistas, como jornada de oito horas de traba-
lho, salário mínimo, condições de higiene nos ambientes de trabalho, 
cancelamento de dívidas de trabalhadores das tiendas de raya 3 e sua 
abolição, e a proibição do trabalho de menores de 14 anos; contra 
a intervenção norte-americana e anticapitalista; defesa da reforma 
agrária, criação de bancos agrícolas e crescimento do mercado inter-
no (HERZOG, 2010).
A crítica ao capitalismo fundamentado no mercado externo faz 
parte das reivindicações da burguesia, que via no nacionalismo eco-
nômico e/ou no apoio de empresas europeias uma opção contra 
Porfirio Díaz para formar um mercado interno. Já Francisco Madero 
e Camilo Arriga eram intelectuais de classes altas, afastados dos pro-
blemas das classes mais baixas, por isso defendiam uma democracia 
liberal, sufrágio para todos os homens, não reeleição do executivo 
(clubes anti-reeleicionistas de 1909-1910) e sem revolta armada. Im-
portante lembrar que nessas disputas políticas, bem como pela pauta 
da revolução, a Alemanha, a Inglaterra e a França se colocavam con-
tra os interesses dos Estados Unidos da América, visto que o México 
tinha grandes reservas de petróleo, minerais e commodities, além de 
Porfirio Díaz favorecer a entrada de grupos europeus.
A proposta mais radical era de Emiliano Zapata, que liderava o 
Exército Libertador do Sul sem uma pauta política em relação ao 
executivo do país. A defesa era pela terra e pela liberdade, e essas 
intenções ficam mais evidentes no Plano de Ayala, que pretendia 
reformar a Constituição de 1859. O lema era “liberdade, justiça e lei”, 
e entre os principais pontos havia: a devolução de terras indígenas 
e de camponeses; a ideia de que a terra tinha uma função social e o 
bem-estar coletivo estava acima do individual; a criação de um tribu-
nal revolucionário para julgar a propriedade das terras; a perda de 
privilégios da Igreja e a secularização.
Armazéns localizados nas 
fazendas onde os traba-
lhadores faziam suas com-
pras mensais. Com preços 
exorbitantes, endividavam 
os trabalhadores e, caso 
morressem, seus filhos 
herdavam as dívidas.
3
commodities: produtos da 
agropecuária preparados 
com pouca intervenção 
industrial e destinados ao 
comércio exterior.
Glossário
44 História Contemporânea
O que havia em comum era a ideia de que Díaz deveria sair do governo. 
Madero, então, fez um acordo com Porfirio: este sairia do governo para 
que Madero assumisse. Madero permaneceu no poder até a sua morte, 
em 1913, com o compromisso de não incentivar a luta armada nem co-
locar o Plano de Ayala em prática. A esse tempo, guerrilhas já ocorriampor todo o país, lideradas por Zapata, Carranza e Villa – os dois últimos 
com apoio dos EUA. Houve uma sucessão de presidentes após a morte de 
Madero, o que demonstrava a instabilidade do país.
Nesse contexto, tropas de Villa e Zapata tomaram a Cidade do México, 
no entanto, como supracitamos, não havia uma pauta política sobre como 
seria a República, a democracia etc. Apesar disso, a historiografia concorda 
que a oligarquia perdeu sua supremacia (e seus bens) com essa tomada, e 
a burguesia precisou negociar rendições com os camponeses, o que tam-
bém colaborou com a ideia de que o movimento promoveu uma revolução.
Ambos os líderes assinaram o Pacto de Xochimilco, uma união a 
despeito do ataque sofrido por Carranza, e passaram a tomar outras 
frentes. Villa ficou com a parte norte do México, mas, por não ter tan-
to apego às terras comunais, fez expropriação e distribuição de pro-
priedades nortistas sem firmar uma reforma agrária, além de assinar 
um acordo com Álvaro Obregón (burguês) e Carranza para derrotar 
Victoriano Huerta, presidente entre 1913 e 1914. Foi neste ano que 
Carranza assumiu o governo e instituiu diversas mudanças, inclusive 
criando uma nova Constituição (FUENTES, 2004).
Villa se opôs a algumas decisões de Carranza e acabou perseguido 
no norte do México, onde o presidente tinha apoio dos Estados Unidos. 
Importante ressaltar que Carranza, aliado à burguesia de Obregón e 
Huerta, não considerou as pautas mais profundas colocadas por Villa e 
Zapata. Este último acabou assassinado pela perseguição de Carranza, 
em 1917, e Villa, em uma emboscada em 1920. Antes disso, houve um 
acordo de não agressão entre Pancho Villa e o governo federal.
É nesse período que a burguesia volta a ter centralidade nas po-
líticas públicas. Podemos dizer que a Revolução Mexicana teve mais 
desdobramentos de suas pautas com o presidente Lázaro Cardenas 
(1934-1940), cujas ações englobavam a reforma agrária, as nacionaliza-
ções (especialmente de petróleo), as políticas educacionais voltadas a 
populações e uma política externa progressista.
O filme E estrelando Pancho 
Villa é sobre como Pancho 
Villa permitiu que suas 
batalhas fossem filmadas, 
o que alterou o olhar so-
bre o cinema, bem como 
a ideia do cinema como 
fonte para a história.
Direção: Bruce Beresford. EUA: 
City Entertainment; Green Moon 
Productions; HBO Films, 2003.
Filme
Imperialismo, sociedade e cultura 45
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O século XIX evidencia para a Europa uma nova forma de vida, a qual 
por seus traços coloniais e neocoloniais se estendeu a outras partes do 
globo, visando a uma dominação de pensamento político, econômico e cul-
tural. No entanto, isso trouxe reações dos povos antes subestimados, além 
de ações que nunca deixaram de existir, mesmo em tempos coloniais.
Esse século reforçou um modus operandi de vida para o Ocidente, fun-
damentado em um capitalismo industrial em termos liberais, cuja política 
de Estado, fosse ela imperialista e/ou democrática, era seu desdobramen-
to e se dava de acordo com seus interesses.
ATIVIDADES
Atividade 1
Como os historiadores podem abordar temas ligados à Moderni-
dade sem centralizá-los em uma narrativa historiográfica em que a 
europeia é o centro ou um modelo?
Atividade 2
No que diz respeito à prática liberal, como é entendida a proprie-
dade privada?
Atividade 3
De que forma é possível relacionar a arte muralista com a Revolu-
ção Mexicana?
Atividade 4
Evidencie as principais pautas e as contradições internas da Revo-
lução Mexicana.
46 História Contemporânea
REFERÊNCIAS
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https://desinformemonos.org/emiliano-zapata-y-los-saberes-de-los-campesinos-revolucionarios.
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https://nuevaconstituyente.org/la-revolucion-campesina-de-mexico-y-el-carrancismo/.
https://nuevaconstituyente.org/la-revolucion-campesina-de-mexico-y-el-carrancismo/.
Guerras Mundiais e Estado totalitário 47
3
Guerras Mundiais e 
Estado totalitário
A passagem do século XIX para o XX reorganiza o lugar do capitalismo 
junto ao imperialismo modernizado pela Segunda Revolução Industrial. 
Disputas por territórios, matérias-primas e mercado consumidor fizeram 
com que diferentes alianças fossem estabelecidas em um tempo conhe-
cido como dos Impérios e da Paz, entre 1875 e 1915 (HOBSBAWN, 1995). 
Ao mesmo tempo, foi nesse contexto que a própria corrida imperialista 
potencializou uma transformação na economia capitalista, que passou a 
ser financiada especialmente por bancos, com base na expansão imperia-
lista e industrial.
Formações de novas nações, como a alemã e a italiana, e o crescimen-
to vertiginoso desses países e de outros, como o Japão, geraram desigual-
dades sociais e movimentos populares, por exemplo, o marxismo. Ao fim 
da Primeira Guerra Mundial, sanções econômicas e políticas fomentaram 
a organização de novos partidos políticos e de grupos geopolíticos, o cres-
cimento de países – como é o caso dos EstadosUnidos –, a nova crise 
capitalista e a ascensão dos partidos fascistas.
Nesse contexto, a Segunda Guerra Mundial foi também uma re-
vanche e a continuidade de disputas econômicas, bem como o acirra-
mento daquilo que seria o início da Guerra Fria: a disputa ideológica 
entre Estados Unidos e a União Soviética. É preciso considerar como a 
Segunda Guerra Mundial evidencia perspectivas diferentes de entendi-
mento sobre o mundo, assim como a historiografia é afetada por ela. 
Acontecimentos históricos que ainda têm ligação com o presente têm a 
memória e a história oral como teoria e metodologia. Portanto, pensar a 
memória da Segunda Guerra Mundial e a reorganização do novo mundo 
é essencial para pensar o século XX e seus desdobramentos que se es-
tendem até o século XXI.
48 História Contemporânea
Com o estudo deste capítulo, você será capaz de:
• compreender a formação cultural e política dos países envolvidos 
na Primeira Guerra Mundial;
• entender a importância da discussão sobre a Revolução Russa no 
contexto atual e a criação da União Soviética;
• compreender a ascensão das ideologias fascista e nazista em seu 
contexto cultural, social e político;
• apreender como se deu a formação do mundo contemporâneo por 
meio do fortalecimento do capitalismo e sua crise;
• refletir sobre a historiografia da Segunda Guerra Mundial;
• pensar o contexto pós-guerra e sua reorganização política, econô-
mica, social e cultural.
Objetivos de aprendizagem
3.1 Primeira Guerra Mundial 
Vídeo
O imperialismo como prática política e econômica marcou o sé-
culo XIX, especialmente o seu fim. Além disso, o imperialismo é uma 
característica de transformação do próprio capitalismo. A disputa por 
mercado consumidor e matérias-primas fez com que áreas fossem rei-
vindicadas sem direito algum, apenas utilizando um tom civilizatório e 
até práticas de eugenia 1 . Portanto, para compreender a historicidade 
e o contexto cultural e político dos países mais envolvidos na Primeira 
Guerra Mundial – também chamada de Grande Guerra –, é preciso esta-
belecer relações com o imperialismo.
O fim do século XIX e o início do XX presenciaram uma disputa in-
dustrial protagonizada por Estados Unidos, Holanda, Bélgica, Japão e 
Alemanha. A Inglaterra persistia como uma das personagens centrais 
desse processo, sobretudo investindo nesses países e no restante da 
América e Ásia por meio de construções de ferrovias, máquinas de pro-
dução etc., ou seja, o que entendemos como bens de capital.
A construção de ferrovias no mundo foi crucial para a comunicação, for-
mação de novas vilas e cidades (LANNA, 2005) e escoamento de produções 
agrícolas, principalmente de países subdesenvolvidos na lógica capitalista. 
No entanto, dentro dessa nova lógica capitalista mundial, houve mais 
A eugenia, teoria de 
Francis Galton, buscava 
explicar como ocorria a 
transmissão de genes 
entre gerações, a fim de 
“melhorar” as característi-
cas da população. Logo a 
teoria ganhou contornos 
preconceituosos por 
indicar que pessoas com 
características “indese-
jáveis” não deveriam se 
reproduzir. Características 
específicas passaram a 
ser associadas a compor-
tamentos marginais, como 
a violência e o alcoolis-
mo, sem se considerar 
questões sociais, como a 
desigualdade.
1
Guerras Mundiais e Estado totalitário 49
acúmulo de capital de países que já eram industrializados, os quais 
passaram a monopolizar a indústria. Além disso, a presença de fer-
rovias pelo interior desses países incentivou o desenvolvimento das 
regiões (LUXEMBURG, 1976).
Nesse contexto, Estados Unidos e Alemanha eram os países que mais 
disputavam a supremacia com suas populações numerosas, baixa taxa 
de analfabetismo em relação a outros países e mercado potencializado. 
A própria relação com a Inglaterra, ao oferecer bens de capital, permitiu que 
esses países crescessem, o que ficou conhecido como a Segunda Revolução 
Industrial. Para Márcio Pochmann (2016), esses países não foram os únicos 
beneficiados, pois a Rússia e a Itália também foram, dentro de uma prática 
industrial conhecida como estrutura monopolista. Esta não significava a:
ausência de competição entre grandes capitais, embora repre-
sentasse crescente constrangimento ao livre acesso no mercado 
por pequenos e médios capitalistas. [...] Até o ciclo ferroviário, 
entre as décadas de 1830 e 1870, a estrutura inglesa de peque-
nas unidades de produção decorrente do capitalismo concorren-
cial havia sido transportada para alguns poucos territórios que 
conseguiram cumprir os requisitos da divisão social do trabalho 
e do pleno funcionamento da economia mercantil. Dessa forma, 
a expansão da manufatura permitiu aos países de industrializa-
ção retardatária elevar suas participações relativas no mercado 
mundial de produtos industriais. (POCHMANN, 2016, p. 19)
O pesquisador nos possibilita compreender que essa mudança capita-
lista industrial – que gerou para alguns a industrialização retardatária – teve 
como ponto determinante a criação de meios de produção. Isso ocorreu 
até mesmo para países considerados “atrasados” em sua organização eco-
nômica e que até meados do século XIX tinham limites alfandegários bem 
definidos e de pouca comunicação, como era o caso do Japão, da Alemanha 
e da Itália – essas últimas especialmente por suas unificações tardias.
Não obstante, é preciso considerar o uso do petróleo, da eletricidade, 
de fertilizantes e de ligas metálicas (e seus novos produtos como fogão, 
máquina de lavar e bicicletas) que potencializaram as novas formas de 
produzir. Estas também foram condicionadas por uma necessidade maior 
e significativa de investimento de capital, o que diminuiu pequenos “in-
dustriais” e fomentou a formação de trustes, cartéis e conglomerados, 
financiados por bancos, caracterizando o capitalismo não apenas como in-
dustrial, mas financeiro. Esse processo, chamado de crack por Lênin, tem 
como marco o ano de 1873, e para isso, em um primeiro momento, os 
trustes: fusão de várias 
empresas com intenção 
de dominar uma área 
específica.
cartéis: acordo entre 
empresas concorrentes a 
fim de padronizar preços, 
dividir clientes etc.
conglomerados: 
conjunto de empresas 
controlados por outra.
Glossário
50 História Contemporânea
cartéis garantiram a exploração conjunta e permitiram que houvesse um 
crescimento imperialista em nome de um capitalismo.
O novo modelo industrial capitalista, em que o laissez faire 3 (1860-
1880) deixou de ser a ordem, foi repensado apenas a partir da crise geral 
vivida pelos hemisférios Norte e Sul entre as décadas de 1920 e 1940, por 
meio do acordo de Bretton Woods (1944), que elaborou regras para o sis-
tema monetário, e de outros firmados na Conferência de Yalta (1945) – um 
dos três encontros ocorridos entre Inglaterra, Estados Unidos e União So-
viética (URSS) durante a Segunda Guerra Mundial –, na região da Crimeia.
É importante ressaltar que a Primeira Guerra Mundial representa 
um momento em que as superpotências monopolistas poderiam di-
vidir e reorganizar o mundo em zonas de influência econômica e polí-
tica. No caso dos Estados Unidos, as expectativas foram atendidas e o 
mercado do continente latino-americano, assim como sua soberania, 
foram submetidos a um capitalismo imperialista, especialmente me-
diante bancos que são os controladores de transição de capitais. Esse 
modelo de monopólio deu seus primeiros sinais nas décadas de 1860 
e 1870, exatamente quando os Estados Unidos começaram a dar os 
primeiros sinais de serem uma potência econômica.
É nesse período que o laissez faire começou a perder espaço para os 
monopólios – considerando desde a extração das matérias-primas até 
o produto das indústrias. Sobre a diminuição da livre concorrência e a 
Primeira Guerra Mundial, o segundo acontecimento reforçou aos países 
capitalistas predominantes suas zonas de influência monopolista. Além 
da camada detentora dos meios de produção, o capitalismo monopolis-
ta gerou uma camada privilegiada, aspecto que criounovas condições 
oportunistas e limites para as negociações do mundo do trabalho; ade-
mais, esse capitalismo apoiou a Primeira Guerra Mundial.
Assim, o capitalismo, que não é sinônimo de imperialismo, ganha uma 
nova face e dá aos países capitalistas uma nova intenção para com o mundo 
do século XX: a necessidade de novos territórios para que possam acumular 
capital em regiões que desconheçam essa forma de lucrar ou de explorar.
Houve uma relação estreita entre os interesses dos envolvidos direta-
mente na Primeira Guerra Mundial e a colonização moderna que ocorria no 
globo, desenhada desde o Iluminismo de acordo com as intenções da Eu-
ropa. No contexto de disputa territorial imperialista, a Alemanha tem papel 
Vladimir Ilyich Ulianov 
(1870-1924), mais conhe-
cido como Lênin, foi um 
revolucionário político 
e comunista russo. Foi 
também chefe de governo 
da Rússia Soviética e da 
União Soviética.
Biografia
Expressão francesa que 
demonstra que o capita-
lismo deve funcionar livre-
mente, sem interferência. 
A tradução em português 
é deixe fazer.
3
Guerras Mundiais e Estado totalitário 51
central, tanto por ter causado em parte a Primeira Guerra Mundial quanto 
por ser resultado dessa corrida imperialista.
O mapa da Figura 1 refere-se à região limítrofe entre os Estados 
alemães e a França, palco da disputa entre essas duas nações, cuja vi-
tória foi da Alemanha em 1870 e pela qual a França buscava revanche.
Figura 1
Mapa da Alsácia-Lorena
Meuse
Moselle
Meurthe
Haut
Rhin
Bas
Rhin
Vosges
Suíça
Luxemburgo
Bélgica
55
57
54
88
67
68
 
1815 - 1871
Alsácia
Lorena
 Estados alemães
Esse território era rico em carvão e outros minérios, produtos impor-
tantes em um contexto de disputa por terras e de industrialização. Otto 
von Bismarck, um estadista alemão do século XIX, passou a buscar apoio 
também nos países eslavos, cujas intenções de independência dos impé-
rios Austro-Húngaro e Otomano eram recentes. Isso porque a Alemanha, 
embora um país novo, era a junção de Estados fortes em meio a outros 
que disputavam territórios, por isso acabou por apoiar esses impérios, vis-
to que eram maiores que o Império Russo e alguns dos mais importantes 
na produção de máquinas para o mundo industrial. A Rússia por sua vez 
apoiou os países eslavos, além de ter tentado dominar a Crimeia 4 lutando 
A região da Crimeia, além 
de ser rica em matérias-
-primas, também dá aces-
so ao Mar Negro, o que 
garantia mais influência 
junto aos países eslavos. 
Desde 2014, está em 
disputa entre a Ucrânia e 
a Rússia.
4
52 História Contemporânea
contra a Inglaterra e a França (HOBSBAWM, 1995). Esse foi o único conflito 
que envolveu mais de um país no período imperialista (1875-1914).
É possível apontar que diferenças entre Alemanha e Rússia, assim 
como desta com outros países, já eram comuns nesse período. Dessa ma-
neira, a partir de disputas, especialmente contra a Rússia, os Estados ale-
mães unificados fizeram alianças com a Itália e o Império Austro-Húngaro 
em 1882, formando a Tríplice Aliança até 1915 (HOBSBAWM, 1995), cujo 
objetivo maior era a construção da ferrovia Berlim-Bagdá. Assim, a Ale-
manha resolveria parte do problema de acesso ao Oceano Pacífico e Ín-
dico, que era cobiçado por inúmeros países.
Figura 2
Mapa do projeto da ferrovia Berlim-Bagdá
Basra
Bagdá
Samarra
Tikrit
Mossul
Al-Qamishli
MardinGaziantepe
Alepo
Karamamaras
Adana
Malatya
Mersin
Karaman
Konya
Istambul
Ancara
Turquia
Síria
IraqueDamasco
Em 1908, o Império Austro-Húngaro já havia tomado para si a re-
gião da Bósnia e Herzegovina, fato não apoiado pela Rússia que dava 
voz aos povos eslavos. Em 1915, a Itália invadiu a Áustria-Hungria com 
o argumento de que teria sido atacada pelo país imperial. Após uma 
batalha de anos, a Áustria-Hungria, com apoio da Alemanha, saiu ven-
cedora e tomou para si a Sérvia.
Foi nesse contexto de disputas e alianças territoriais estabelecidas a mais 
de décadas que houve o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, 
do Império Austro-Húngaro, por um sérvio em 1914, logo após a indepen-
dência da Sérvia. O assassinato fez com que a Alemanha apoiasse o Império, 
e a Rússia apoiasse a Sérvia. A França, por sua vez, foi coagida pela Alema-
nha a entregar as fronteiras, além de ver a Bélgica também ameaçada. Este 
Guerras Mundiais e Estado totalitário 53
último ato não foi aceito pela Grã-Bretanha, que tinha a Bélgica como uma 
garantia de uso do Canal da Mancha e por isso a declarava neutra.
É possível dizer que disputas territoriais seculares e potencializadas 
por um período capitalista e imperialista impulsionaram as Guerras Mun-
diais. Mais que isso, percebe-se que hostilidades e diferenças, como as 
evidentes contra a Rússia, são consequências das ações da própria Rússia, 
bem como pelo interesse que outros sempre tiveram por regiões de seu 
entorno. Portanto, a Primeira Guerra Mundial, de modo geral, pode ser 
considerada uma guerra mais europeia, isso porque os países mais envol-
vidos foram Rússia, Itália, Grã-Bretanha, França, Áustria-Hungria e Alema-
nha, mas também houve a participação do Japão e dos Estados Unidos.
De 1871 a 1914, acontecimentos especiais para aquele contexto, 
como a Belle Époque, a paralisação do cinema, o capitalismo, o impe-
rialismo e as novas sociabilidades que se davam nas ruas de centros 
urbanos movimentados, foram interrompidos com o fim da paz. Para 
Hobsbawm (1995, p. 32), a guerra ficou organizada da seguinte forma: 
tríplice entente aliança de França, Grã-Bretanha e Rússia, de um 
lado, e as chamadas – Potências Centrais – Alemanha e Áustria-
-Hungria, do outro, com a Sérvia e a Bélgica sendo imediatamente 
arrastadas para um dos lados devido ao ataque austríaco (que na 
verdade detonou a guerra) à primeira e o ataque alemão à segun-
da (como parte da estratégia de guerra da Alemanha). A Turquia 
e a Bulgária logo se juntaram às Potências Centrais, enquanto do 
outro lado a Tríplice Aliança se avolumava numa coalizão bastante 
grande. Subordinada, a Itália também entrou; depois foi a vez da 
Grécia, da Romênia e (muito mais nominalmente) Portugal. Mais 
objetivo, o Japão entrou quase de imediato, a fim de tomar posições 
alemãs no Oriente Médio e no Pacífico ocidental, mas não se inte-
ressou por nada fora de sua região, e – mais importante – os EUA 
entraram em 1917. Na verdade, sua intervenção seria mais decisiva.
Essa organização e justaposição entre lados e datas de entrada resume, 
em parte, a lógica própria desse acontecimento. Os Aliados (Itália, que rom-
peu o acordo, França, Grã-Bretanha, Rússia e EUA) e as Potências Centrais 
(Alemanha, Áustria-Hungria e Império Otomano) entraram em confronto a 
partir da invasão alemã definitiva na França e na Bélgica. Para os líderes, a 
guerra não deveria durar muito, em razão das vidas perdidas e, mais espe-
cificamente, devido aos gastos, o que gerava uma perda financeira.
O próprio armamento do período era avançado, visto que as potências 
estavam há tempos se preparando para possíveis conflitos. Fuzis e me-
No filme A promessa, um 
jovem armênio deseja se 
tornar médico, por isso 
se casa com uma jovem 
e ganha seu dote. Parte 
para Istambul, ainda du-
rante o tempo do Império 
Otomano, e se envolve 
com uma armênia. Juntos 
percebem a perseguição 
aos armênios por parte 
dos turcos e lutam pela 
sobrevivência. Muitos dos 
armênios que consegui-
ram fugir naquele período 
vieram para a América, 
inclusive para o Brasil.
Direção: Terry George. Estados 
Unidos: Survival Pictures; 
FilmNation Entertainment, 2016.
Filme
tralhadoras que faziam milhares de disparos em 
poucos minutos já eram conhecidos, e os tanques 
eram mais seguros para quem os utilizava e para os 
resistentes ao seu redor. Desse modo, a guerra que 
deveria durar meses, em pouco tempo, matou e fez 
com que milhares de pessoas se tornassem refugiadas. 
As Guerras de Trincheiras, em geral ocorridas em um es-
paço de cerca de 30 quilômetros, tornaram-se prática fre-
quenteaté 1917. Entretanto, a Rússia sofreu muitas perdas 
nas batalhas contra a Alemanha devido ao território com des-
nível e matas do país germânico, o que permitia diversos movi-
mentos dos soldados, e logo precisou se retirar da guerra.
Os Estados Unidos entraram na guerra a partir do impasse e das 
batalhas navais, nas quais navios dos países aliados promoveram o 
bloqueio do recebimento de mercadorias esperadas pelas Potências 
Centrais, por isso submarinos alemães foram utilizados para afundar 
esses navios. O desfecho de vitória aos Aliados é decorrente da entrada 
dos Estados Unidos, que após três anos de batalhas perdidas receberam 
milhares de soldados, além de alimentos e formas de adquiri-los, o que 
fomentou a indústria norte-americana e permitiu que ela se tornasse líder 
nas disputas de mercado pós-Primeira Guerra (1918).
Ao fim da Primeira Guerra Mundial, surgiram dos impérios Austro-
-Húngaro e Otomano países como Áustria, Hungria, Tchecoslováquia 
(República Tcheca e Eslováquia atualmente), Ucrânia, Polônia, Romê-
nia, Croácia, Sérvia e Eslovênia.
Outro aspecto foi reforçado logo após a Primeira Guerra Mundial: o 
acúmulo de capital não tem por intenção melhorar a qualidade de vida de 
todos que participam de um sistema capitalista industrial e financeiro, mas 
somente potencializar os lucros de quem o lidera. E em nome desses lucros, 
uma guerra torna-se justificável.
A guerra é complexa. Armênios que sempre tiveram diferenças étnicas 
em relação aos turcos foram perseguidos por eles, enquanto austríacos se 
aproveitaram para aniquilar milhares de civis na Sérvia. Com o fim da guer-
ra, foi assinado o Tratado de Versalhes, em 1919. Nele, a Alemanha recebia 
inúmeras sanções, como a proibição de produzir armas, de ter indústrias 
Trincheira da Batalha de 
Hofstade, 1914.
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5454 História ContemporâneaHistória Contemporânea
Guerras Mundiais e Estado totalitário 55
químicas, de ter colônias e a obrigação de pagar indenizações. Além das 
milhares de mortes ocasionadas pelos combates durante a guerra, a gripe 
espanhola também atrapalhou a recuperação das nações envolvidas. Não 
obstante, divergências entre países e mais hostilidades foram criadas, como 
é o caso da Rússia, tema da próxima seção.
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3.2 Revolução Russa e sua 
experiência socialista Vídeo
A Revolução Russa ocorreu em 1917 e foi importante por levantar a 
bandeira socialista em oposição ao capitalismo e ao imperialismo que 
chegou ao século XX. No entanto, isso não reduz a representatividade 
da Revolução Russa no que diz respeito ao contexto atual nem ao pe-
ríodo que se segue após a Primeira Guerra Mundial. Além de marcar o 
fim da Primeira Guerra, o Tratado de Versalhes criou países para aten-
derem às minorias étnicas e fomentou a criação de Estados-Tampões, 
ou seja, países neutros que separavam possíveis países com propen-
são a conflitos, como Alemanha e Rússia.
A Rússia tinha um regime czarista e era um sistema milenar, auto-
crata e extremamente hierarquizado, cujo representante máximo era 
o Czar Nicolau II (1894-1917). Nesse período, a vida da população, em 
geral rural, era difícil, tanto pelas diferenças sociais e acesso à terra 
quanto pela forma arcaica de produção de alimentos na terra.
Ao mesmo tempo, as ideias de Karl Marx começavam a ecoar com 
mais nitidez entre intelectuais e trabalhadores por toda a Europa. Em 
1864, foi fundada a Primeira Internacional Socialista – também conheci-
da como Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) – em Genebra, 
na Suíça, que reforçava a ideia de que para fazer a revolução era preciso 
tomar os bens e meios de produção daqueles que se beneficiavam do 
sistema capitalista. Para isso, era possível recorrer à violência e instau-
rar a ditadura do proletariado. No entanto, a existência do Estado não 
era questionada por Marx, e isso o diferia do pensamento de Mikhail 
Bakunin, o que causou expulsão dos anarquistas em 1872 da Primeira 
Internacional Socialista e a fundação da Segunda Internacional Socialis-
ta, da qual nasceria anos mais tarde a concepção de social-democracia.
As ideias de Karl Marx e Frederick Engels (1999) não estão disso-
ciadas da história social, material, mas estão ligadas ao contexto his-
56 História Contemporânea
tórico social. Para Marx, até mesmo a educação, a arte e a literatura 
permitiam que houvesse uma reinvenção da liberdade humana, e esta 
era uma decisão coletiva após milênios de marginalizações. O Estado, 
por sua vez, comandado por poucos, também limitava o acesso à arte, 
à literatura e à educação para que tivesse domínio sobre os povos. Foi 
com base nesses princípios que os sindicatos profissionais se estabe-
leceram na segunda metade do século XIX, depois de deixarem de ser 
secretos como foram no contexto das Revoluções Burguesas, aconteci-
das também durante a Revolução Francesa.
Nesse período, poucos eram de fato sindicalizados, a ponto de os 
sindicatos serem conhecidos como sindicatos profissionais, cujos par-
ticipantes formavam uma “aristocracia operária”. A partir disso, tanto 
responsáveis pela indústria quanto pelos sindicatos passaram a nego-
ciar as condições de trabalho e de vida, mas houve uma minoria de 
vitórias para o lado dos trabalhadores. Entretanto, a consciência de 
classe foi a maior dificuldade na história do movimento operário.
A luta de classes é a materialização de uma contradição que tem a eco-
nomia como base divisora das forças produtivas e de relações sociais. Um 
país atrasado como a Rússia, em relação aos termos capitalistas já pratica-
dos no restante da Europa, também incentivava práticas como a servidão 
até o final do século XIX e oferecia pouco apoio público à saúde e à edu-
cação, tornando-se um país questionado por seus próprios patriotas. Czar 
Nicolau II, por sua vez, destinava mais de 30% das verbas públicas para os 
militares, a fim de garantir suas participações em guerras como a do Japão e 
a Primeira Guerra Mundial, sendo isso motivo de desgaste para sua imagem 
e seu sistema político autocrata. Além disso, altos impostos eram cobrados 
na maior parte dos alimentos, enquanto os mais abastados pagavam em 
torno de 6% de sua renda em impostos.
Assim, tanto o crescimento científico quanto econômico, e até mesmo 
a representação política do fim do século XIX, fomentaram greves e deram 
lugar a novas vozes, ao passo que as desigualdades sociais e econômicas 
aumentaram. Contudo, é preciso frisar um aspecto considerado por Marx: 
para um país iniciar uma mudança substancial em sua organização políti-
ca e econômica, é necessário que seja industrializado. No caso da Rússia, 
menos de 2% de sua população estava trabalhando nas indústrias, que 
em geral eram gerenciadas por instituições e empresas estrangeiras. Mais 
de 80% da população estava empregada no campo agrícola, cujas expor-
Guerras Mundiais e Estado totalitário 57
tações giravam em torno de 63%, com um forte monopólio das proprieda-
des e de exploração de produtos naturais (HOBSBAWM, 1995).
Apesar de a Rússia não ser um país industrializado propenso a uma 
revolução, o conjunto de condições da época favoreceu que ela ocor-
resse, e, como todo acontecimento histórico, a revolução ocorreu pau-
latina e com pequenas mudanças. Segundo o historiador Daniel Aarão 
Reis (2017, p. 67), o acontecimento tem a seguinte cronologia:
a primeira revolução do ciclo ocorreu entre janeiro e dezembro de 
1905. Algumas de suas principais características reapareceriam em 
1917 e por essa razão muitos dos seus participantes a classificaram 
como “ensaio geral” de uma “peça” que seria encenada em 1917.
Reis (2017) defende que não se trata de um movimento isolado nem 
ocorrido em um curto intervalo, mas ao longo de pelo menos 12 anos. 
Um dos elementos centrais são as consequências da guerra travada 
com o Japão em 1904. Isso se deve pelo fato de o orçamento de guerra 
ter causado empobrecimento deuma população já pobre e, também, 
da classe mais capitalista da Rússia, ou seja, um decrescimento que 
atingiu a todos.
A partir disso, o Czar assinou um acordo de paz com o Japão e pela 
primeira vez atendeu à população quando esta reivindicou a legaliza-
ção de sindicatos e partidos políticos por meio de uma votação do par-
lamento, conhecido como Duma (SIGERIST, 1937). Com a crise política, 
percebeu-se que nem a classe dominante (burguesa e agrária) nem a 
trabalhadora tinha alguma representatividade, e a partir de 1905 o pe-
ríodo proporcionou uma mudança, ou seja, uma revolução.
Reis (2017) expõe mais características e, além desses dois grupos (bur-
guesia e agrário), afirma que havia os camponeses com seu programa de 
revolução agrária (que negavam qualquer tipo de indenização por isso); os 
operários com pautas trabalhistas referentes às condições de trabalho no 
mesmo modelo que outros países europeus já defendiam; e
soldados e marinheiros com reivindicações de reconhecimento 
de sua cidadania e de encerramento da guerra; as nações não 
russas com propostas de autonomia e independência (convém 
recordar que um pouco mais da metade da população do im-
pério era constituída por não russos); as classes médias que, 
através de banquetes e comícios, ao estilo do 1848 europeu, pro-
punham o advento de uma monarquia constitucional ou, os mais 
radicais, a proclamação da república. (REIS, 2017, p. 68)
58 História Contemporânea
Com base nesses grupos diversificados que começaram a questio-
nar a autocracia do czarismo, estavam as instituições que foram criadas 
para representá-los. Assim, assembleias em outras nações, comitês em 
navios e sindicatos e partidos (até clandestinos) passaram a ser conhe-
cidos no Império Russo como o Partido Constitucional-Democrático dos 
cadetes, o Partido Liberal e o Partido Social-Democrata (mencheviques e 
bolcheviques), respectivamente.
Para Hannah Arendt (1988), revolução é o conceito moderno que indi-
ca um novo curso para a história a que se refere, isto é, algo desconhecido 
em que boa parte das práticas sociais, culturais ou políticas são alteradas 
a ponto de serem apontadas como transformadoras ou revolucionárias.
O marco que o Domingo Sangrento de 1905 representou foi o de início 
de uma revolução do operariado. Mas, tal qual em qualquer movimento 
ou acontecimento na história, o processo não está isolado. Para Sigerist 
(1937), foi no ano de 1898, com a criação do Partido Social-Democrata Tra-
balhista, que a célula embrionária dos mencheviques e dos bolcheviques 
foi criada. Para os bolcheviques a luta era pela “paz, terra e pão” e o poder 
político para a população, objetivo alcançado em outubro de 1917; já os 
mencheviques defendiam uma revolução sem armas, baseada no diálogo.
Esses acontecimentos foram potencializados por ideais que circulavam 
na Europa, como as diversas greves que ocorriam e o crescimento econô-
mico, o que não se passava na Rússia. Entre esses acontecimentos, estava 
também a entrada da Rússia na Primeira Guerra, duramente questionada 
desde o início e mais ainda à medida que o conflito se estendia e exigia um 
maior número de recursos. Em fevereiro de 1917, depois de muitas greves, 
motins e questionamentos públicos, o Czar II abdicou do poder, que por 
pouco tempo foi liderado por Kerenski, dos mencheviques, até assumirem 
os líderes comunistas dos bolcheviques.
Reis (2017) aponta que se esperava a convocação para uma Assem-
bleia Constituinte ao mesmo tempo que permanecia um governo pro-
visório, o qual, em momento algum, conseguiu se impor como centro 
político. Isso se deve pela ausência de acordos que conformassem as 
pautas reivindicatórias naquele contingente, como as demandas por 
terras de camponeses. Além disso, a garantia de produção e distribui-
ção de alimentos e o atendimento das exigências dos diversos povos 
que compunham a território russo dificultavam que apenas um gover-
no fosse suficiente para representar a todos.
Guerras Mundiais e Estado totalitário 59
Já em outubro de 1917, os bolcheviques tomaram o poder sem con-
sultar as entidades mais populares com o objetivo de fazer uma aliança 
com soldados e o povo, a fim de desarmar os setores militares. O acor-
do foi chamado de a Grande Aliança e permitiu que algumas nações 
se tornassem independentes como regiões, grupos de operários pas-
sassem a ter o direito de pensar em estratégias para o ordenamento 
da economia industrial e os camponeses, de pensar a reforma agrária, 
proposta que vinha dos comitês agrários (REIS, 2017).
É importante ressaltar dois aspectos sobre o período posterior à cha-
mada Revolução Russa: o primeiro é que os países aliados penalizaram a 
Rússia por sua saída da Primeira Guerra com a exigência de uma indeniza-
ção; o segundo é que tiraram dela diversos territórios, como parte da Polô-
nia, da Lituânia, da Letônia, da Armênia, da Geórgia e do Azerbaijão. Após 
as tratativas da Primeira Guerra Mundial, países como França e Inglaterra 
se aliaram para tentar invadir a Rússia e acabar com a revolução. Apesar 
de perderem, causaram uma guerra civil russa que durou até 1921.
A partir da Revolução Russa, diversos países se unem à Rússia, for-
mando a chamada União Soviética, em 1922, cujo ponto comum é, em 
geral, a origem eslava dos países.
Não é o mérito da Revolução Russa ser uma boa revolução ou não, mas 
a posição questionadora do país frente a um capitalismo que gerava desi-
gualdades sociais fez com que perdesse parte de seu território. Essa sanção 
tanto durante a Guerra Fria quanto no século XXI ainda tem consequências 
políticas e culturais. Além disso, as sanções destinadas a outros países trans-
formaram o capitalismo da década de 1920, tema da próxima seção.
3.3 Crise das democracias 
e o totalitarismo Vídeo
No fim do século XIX, o investimento financeiro de bancos poten-
cializou o crescimento dos monopólios industriais, especialmente de 
países como França, Japão e Rússia, onde existia um capitalismo em 
que o Estado não era um grande interventor. Novas formas de produ-
zir e de remunerar a mão de obra surgiram, como o método taylorista, 
de Frederick Taylor, cuja padronização de trabalho visava economizar 
tempo para o trabalhador, ou o método fordista, de Henry Ford, cuja 
produção era em série e com linhas de montagem.
60 História Contemporânea
Ford, com sua linha de montagem, permitiu que o trabalho e o tem-
po do trabalhador fossem controlados, não pela própria noção de tem-
po, mas pela produtividade. O trabalhador, com o tempo regrado para 
qualquer ação, permanecia no mesmo espaço sendo monótono, o que 
gerava doenças como LER (Lesão por Esforço Repetitivo), além do aba-
lo psicológico, visto que qualquer trabalhador poderia ser substituído 
a qualquer momento pela ausência de direitos trabalhistas. Taylor, por 
sua vez, contribuiu ao criar a gerência das empresas com um caráter 
científico e organizacional do mundo do trabalho. Métodos, técnicas de 
trabalho, análise de tempo e de produção, recompensas financeiras, fol-
gas, metas e produtividade são critérios que nascem com o taylorismo.
No entanto, os anos seguintes à Grande Guerra não foram animadores. 
A divisão e a criação de 38 novos países pelo Tratado de Versalhes geraram 
conflitos locais, como a separação de mercados e de locais de produção e 
de escoamento. Japão e Estados Unidos foram os únicos em que as sanções 
do tratado não pesaram, ou aos quais não eram direcionadas diretamente, 
assim puderam aumentar a sua produção industrial. Não menos importan-
tes eram os empréstimos concedidos pelos Estados Unidos e Japão, aumen-
tando o crédito de diversos países endividados.
Os Estados Unidos, por boa parte da década de 1920 (1922-1929), 
cresceram economicamente em números alarmantes. O presidente 
estadunidense de 1928, Calvin Coolidge, declarou o seguinte: “olhar 
o presente com satisfação e o futuro com otimismo” (ROSSINI, 2022). 
Para compreender essa expectativa, é preciso trazer alguns números:
as despesas de investimentogiravam em torno de 20% do Pro-
duto Nacional Bruto (PNB), e o desemprego, com exceção de 
1924, estava na casa dos 2%. Entre 1923 e 1929, a produção de 
automóveis aumentou 33% ao ano. A produção de petróleo, aço, 
borracha e a construção de estradas foi consequentemente in-
crementada. No mesmo período, a geração de energia elétrica 
duplicou, e a produção dos eletrônicos acompanhou a tendên-
cia. De 1925 a 1929, o número de indústrias subiu de 183.900 
para 206.700; o valor da produção dessas empresas elevou-se de 
60,8 para 68 bilhões de dólares. (ROSSINI, 2022)
Com base nesses números, o faturamento do comércio aumentou qua-
tro vezes em menos de seis anos, chegando a 1,25 bilhões de dólares, cujas 
cotações mostravam que as ações apenas cresciam, sem necessariamente 
haver dinheiro, mas especulações de um dinheiro fictício (ROSSINI, 2022). 
A partir de 1925/1926, houve uma desproporção entre o aumento real e o 
crescimento das bolsas de valores e, consequentemente, das ações.
Com a constante baixa em 1929, as ações passaram a ser comer-
cializadas aos montantes, para que se gerasse mais valor, até chegar a 
um nível de desvalorização total, o que ficou conhecido como a Quinta- 
-Feira Negra (24 de outubro de 1929), quando ocorreu o crash da Bolsa 
de Valores de Nova York. Nesse dia, havia mais de 12 milhões de ações 
à venda. E mesmo com a ingestão financeira de bancos, por poucos dias 
se segurou a quebra da Bolsa de Valores, quando mais de 33 milhões 
títulos estavam à venda, com o valor de compra de cerca de 15 bilhões 
de dólares. Assim, todos passaram a vender, mas não tinham mais valor.
Além disso, os anos de 1920 foram muito intensos para os Estados 
Unidos, com o crescimento das artes (cinema, literatura, dança etc.) de-
vido a muito dinheiro a ser gasto e investido nesse meio, mas esse ápice 
também permitiu uma onda terrível de pobreza e desemprego.
Hobsbawm (1995) aponta, neste contexto, a existência de bancos mais 
locais e estaduais nos Estados Unidos. Esses bancos se recusavam a fazer 
novos empréstimos aos clientes para que pudessem pagar suas dívidas, 
fossem de prestações de carros ou casas. Embora a Crise tenha atingido 
o mundo todo devido às relações capitalistas, os Estados Unidos foram os 
mais atingidos (junto do Canadá, da Polônia e da Alemanha). O país deti-
nha cerca de 45% do mercado mundial em transações, vendas e crédito, e 
ainda em 1930 mais de 37% da produção industrial mundial caiu junto aos 
25% do comércio (ROSSINI, 2022). Hobsbawm (1995, p. 105) evidencia que 
“a produção de automóveis nos Estados Unidos caiu para a metade entre 
1929-1931, ou num nível mais baixo, a produção de discos para os pobres 
[...] praticamente cessou por um tempo”.
A partir de 1930, o protecionismo 5 tornou-se recorrente, com acordos 
bilaterais e “blocos de moedas” 6 que escolhiam taxas alfandegárias espe-
ciais para os que pertenciam ao seu grupo, aumentando as expor-
tações ao máximo possível e diminuindo as importações.
Nesse contexto, apenas países como a União Sovié-
tica – e seus anexos – não foram atingidos. Da mesma 
forma que estava isolada por ser comunista, a URSS 
não mantinha relações diplomáticas ou econômicas 
com outros países. Justamente por isso, fortaleceu-se 
em sua política socialista (HOBSBAWM, 1995). Já países 
O Grande Gatsby retrata a 
sociedade norte-america-
na após a Primeira Guerra 
Mundial, cujo materialis-
mo decorrente dos exces-
sos de ganhos transforma 
a moral da sociedade 
composta de novos e 
muitos milionários. O en-
redo nos ajuda a pensar 
sobre o capitalismo desse 
período, bem como suas 
consequências. O livro 
ainda tem adaptações 
cinematográficas.
FITZGERALD, F. S. Rio de Janeiro: 
Editora Record, 2010.
Livro
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Quando o governo de um 
país toma um conjunto de 
ações a fim de proteger 
sua economia.
5
Blocos econômicos que 
funcionam com moedas 
próprias, sem mone-
tarização no dólar, por 
exemplo.
6
Guerras Mundiais e Estado totalitárioGuerras Mundiais e Estado totalitário 6161
62 História Contemporânea
como Japão, Finlândia, Suécia e Inglaterra melhoraram seus números ainda 
na década de 1930, alguns já conseguindo atingir os números pré-Crise de 
1929. No entanto, mesmo com o New Deal 7 , os Estados Unidos apenas se 
recuperaram, de fato, com a Segunda Guerra Mundial, quando a Europa 
deixou de produzir novamente para comprar de outros continentes.
Karl Marx afirmava que a liberdade da economia era uma efemerida-
de, ademais, como nos lembra Hobsbawm (1995, p. 107), “não era preciso 
ser marxista, nem mostrar interesse por Marx, para ver como era diferen-
te da economia de livre competição do século XIX o capitalismo entre guer-
ras”. Isso porque ainda nos anos 1920, e logo após a Crise de 1929, fosse 
um governo de esquerda ou de direita, iniciado por meio de golpe militar 
ou não, todos foram atingidos de alguma forma, além de conviverem com 
um sistema econômico diverso ao que estavam habituados, com:
um sistema tríplice composto de um setor de mercado, um go-
vernamental (dentro do qual as economias planejadas ou con-
troladas, como as do Japão, Turquia, Alemanha e União Soviética, 
faziam suas transações umas com as outras), e um setor de auto-
ridades públicas e quase públicas internacionais que regulavam 
algumas partes da economia (por exemplo, com acordos interna-
cionais de mercadorias). (HOBSBAWM, 1995, p. 108)
Blocos, reorganização imperialista e contínuas reações às sanções 
do Tratado de Versalhes apenas acirraram as disputas políticas e eco-
nômicas. É importante considerar que a Internacional Comunista, ocor-
rida em 1919 sob a liderança de Lênin, ao reunir partidos comunistas 
do mundo todo, também diminuiu sua ação, mesmo com a crítica ao ca-
pitalismo. Nesse contexto, a organização do Partido Nacional-Socialista 
da Alemanha apenas cresceu, visto que o temor político era com o cres-
cimento das instituições partidárias trabalhistas e social-democratas.
Há um declínio da esquerda de modo geral na Europa (provavelmente 
pela relação com a União Soviética); ao mesmo tempo que no continente 
americano ela crescia no governo de Lázaro Cárdenas (que efetivou ele-
mentos da pauta da Revolução Mexicana) e nos Estados Unidos, sob o 
governo de Franklin Roosevelt, com o New Deal (HOBSBAWM, 1995).
Diante disso, o liberalismo do início do século XX não era mais opção. Já 
o comunismo era uma possibilidade, embora relutante; uma forma capi-
talista ligada à social-democracia era outra; e uma terceira era o fascismo.
No caso da Alemanha, a Crise de 1929 abalou sua estrutura econô-
mica que pouco havia se fortalecido até o fim da década de 1920. Entre 
O New Deal foi um 
programa de recuperação 
norte-americano. Entre 
diversas ações, incluía: 
concessão de subsídios e 
créditos agrícola, criação 
da Previdência Social para 
garantir salário-mínimo 
e aposentadoria, criação 
de sindicatos com maior 
representação dos tra-
balhadores e regulamen-
tação sobre o trabalho 
de bancos e agências 
financeiras.
7
Guerras Mundiais e Estado totalitário 63
1929 e 1931, os investimentos industriais passaram de 1,168 milhão de 
Reichsmarks (moeda local) para 522 milhões, isso gerou menos produ-
ção, ações mais baixas, inflação etc. (ROSSINI, 2022).
Para entender parte dessas mudanças contemporâneas, é preciso 
trazer algumas ideias de Hannah Arendt a fim de pensar como as mas-
sas concordaram com ideias totalitárias e fascistas. Segundo Arendt 
(1998), ralé é o termo que designa um grupo com indivíduos vindos de 
todas as classes, sem representatividade política, excluído do processo 
produtivo capitalista burguês a cada crise, e por isso apresenta volubi-
lidade. É por essas características que alguns políticos fazem uso dessa 
ralé, sem apreço a uma ideia democrática. 
Já as massas, para Arendt (1998), são unidas por sua pretensa neutrali-
dade, sua indiferença política, não se organizampoliticamente nem se im-
portam tanto com o direito de voto. Enquanto a ralé é o grupo que acaba 
excluído em qualquer circunstância, a massa interfere nas decisões políti-
cas de algum modo. Além disso, as massas subvertem características de 
todas as classes no que diz respeito aos negócios públicos. É possível di-
zer que surgiu uma sociedade de massas no século XX, fragmentada por 
uma sociedade atomizada, individualizada, em que a solidão do indivíduo 
era uma prática. As pessoas que concordaram com propostas totalitárias 
eram aquelas desenraizadas e desemparadas em um mundo destruído por 
inúmeros motivos, como guerras, inflações e desemprego (ARENDT, 1998).
Nesse sentido, as massas eram grupos ideais para movimentos to-
talitários como foram o fascismo italiano e o nazismo alemão. A prática 
eugenista e a eliminação do povo judeu era recorrente no discurso de 
Adolf Hitler no início da década de 1930, visto que aquele povo era 
apontado como um impedimento para o progresso alemão. Junto a 
eles estavam opositores políticos, portadores de necessidades espe-
ciais, eslavos, ciganos, homossexuais etc.
Tanto Hitler quanto Mussolini eram vistos como líderes em dois países 
com crises econômicas devido à Primeira Guerra Mundial, mesmo que 
por motivos diferentes, uma vez que a Itália, embora estivesse ao lado de 
vencedores, não obteve lucros com as determinações do Tratado de Ver-
salhes. Os discursos desses líderes direcionados às massas eram ouvidos 
e respeitados, e o rádio, a propaganda, o cinema e a educação colabo-
raram para formar uma cultura nacionalista que cultivava seus próprios 
inimigos. Nesse mesmo período, o Japão tornou-se um país imperialista e 
64 História Contemporânea
militar, apesar da aparência parlamentar. Ao invadir a Manchúria, territó-
rio chinês, em 1931, o Japão deixou evidente suas intenções, sobretudo ao 
quebrar os acordos bilaterais que havia entre a China e países europeus.
Esses três países – Alemanha, Itália e Japão – aliaram-se entre 1936 
e 1940, formando o Eixo. É importante ressaltar que em 1935/1936, 
Mussolini invadiu a Etiópia, e Hitler convocou a população para se alis-
tar, iniciando a produção de armas da qual a Alemanha era proibida 
pelo Tratado de Versalhes. Ambos apoiaram a Guerra Civil Espanhola, 
com um governo fascista, em 1936, o que também era proibido, a fim 
de testarem suas armas em solo espanhol, e fizeram isso alegando que 
eram medidas contrárias ao desemprego. Nos anos seguintes, mesmo 
com a política de apaziguamento e o Acordo de Munique 8 , nem a Itália 
nem a Alemanha foram punidas. Os outros países só agiram para frear 
a Alemanha quando esta invadiu mais um país, a Polônia.
3.4 Segunda Guerra Mundial 
Vídeo
A Segunda Guerra Mundial não é marcante apenas pelo seu estrago 
estrutural e físico no território europeu, asiático e africano. Ela gerou no 
campo historiográfico debates sobre a história do tempo presente 9 , a 
memória – a partir de relatos ligados aos traumas provocados –, entre 
outros. Além disso, também reorganizou o mundo no que diz respeito à 
organização geopolítica, à criação de instituições, como a Organização 
das Nações Unidas (ONU) e a Organização do Tratado do Atlântico Norte 
(OTAN), e em independências de novas zonas, como as da Ásia e África.
Para compreender em parte o porquê de tantas mudanças, preci-
samos pensar brevemente o que foi esse acontecimento. Para tanto, 
trazemos alguns números sobre a Segunda Guerra Mundial:
o número estimado de civis mortos em extermínio, lutas, as-
sassinatos, guerra de guerrilha da resistência etc. atinge entre 
25 e trinta milhões, dos quais perto de 15 milhões na Europa, 
sem considerar os cerca de nove milhões que foram assassina-
dos em prisões e campos de concentração nazistas. Desses nove 
milhões, aproximadamente seis milhões eram judeus europeus. 
Na própria Alemanha morreram cerca de 36 milhões de civis, 
entre os quais dois milhões de expedidos do Leste, mais de meio 
milhão de vítimas e bombardeios, pelo menos sete milhões de 
soldados enviados para prisões de guerra, cerca de 15 milhões 
Por meio desse acordo, 
Hitler e as potências 
europeias acordaram 
para que apenas os 
Sudetos fossem anexados 
ao território alemão. 
Hitler aproveitou para 
anexar o restante da 
Tchecoslováquia em 1938, 
que não fez parte da 
reunião.
8
Área historiográfica que 
debate questões de nosso 
tempo, assim como os 
cuidados e a metodologia 
necessários para proble-
matizar demandas ligadas 
aos movimentos sociais, 
processos traumáticos, 
testemunhos de aconteci-
mentos etc.
9
Guerras Mundiais e Estado totalitário 65
de evacuados, em geral mulheres e crianças. Dois milhões foram 
feridos. Pelo menos 2/3 das pessoas não estavam na sua terra. 
Em 1945 cerca de dez milhões de refugiados políticos, sobretudo 
trabalhadores forçados, tiveram que ser transportados de volta 
da Alemanha para seus países de origem. Aproximadamente 
14 milhões de alemães fugidos do Exército Vermelho foram ex-
pulsos e tiveram que se estabelecer nas quatro zonas de ocu-
pação, nas quais a Alemanha foi dividida. Tiveram que viver sob 
condições desastrosas. (PLATO, 2000, p. 119-120)
Esses números evidenciam como um acontecimento demora a passar, 
para além das datas que escolhemos como suas marcas na historiografia. 
Eles também reforçam a necessidade de cuidados e adaptações da popu-
lação para quem retornou ou não ao seu lugar de origem. Além dos ques-
tionamentos: como se começa um acontecimento desse? Como ele toma 
essas proporções? E como as pessoas, consciente ou inconscientemente, 
podem aceitar fazer parte dele?
Como supracitado, apesar do Tratado de Versalhes estipular diversas 
sanções à Alemanha, foi somente com a invasão da Polônia que os outros 
países se obrigaram a pensar em uma nova guerra. Isso ocorreu em 1º de 
setembro de 1939. Dias depois, a União Soviética tomou parte da Polônia, 
porque um mês antes havia assinado com a Alemanha o Pacto de Não 
Agressão entre ambos os interessados em dominar a Polônia. Meses de-
pois, a União Soviética também invadiu a Finlândia, e a Alemanha invadiu 
a Suécia e a Dinamarca. Apenas após a invasão da Bélgica é que países 
como França, Holanda e Inglaterra também declararam guerra. Até esse 
momento não havia uma disputa que envolvesse armas.
Desde a invasão da Polônia, a Luftwaffe (força aérea alemã, moder-
na e grande) e as Divisões Panzer (divisão militar) já testavam e refor-
çavam seu poderio militar. Paris foi tomada pela Alemanha em menos 
de uma semana, e a França assinou um acordo de colaboração, do qual 
se criou a República de Vichy, uma zona livre situada ao Sul da França.
Quanto à Inglaterra, os ataques foram mais aéreos, rápidos e de 
surpresa, uma estratégia conhecida como Blitzkrieg. A partir de 1941, 
a Alemanha colocou em prática a Operação Barbarrossa, cujo objetivo 
era invadir a União Soviética, acabando com o Pacto de Não Agressão. 
Ao colocá-la em prática, invadiu cidades importantes, como Leningrado 
e Moscou, e tomou cerca de 40% da região produtora do PIB russo. 
A cidade de Stanligrado deveria ser o ápice dessa invasão, mas, após 
No filme Lore, uma jovem 
nazista precisa atravessar 
junto a outros refugiados 
uma floresta depois que 
seus pais são presos, 
período em que começa 
a ter consciência dos atos 
referentes ao seu grupo.
Direção: Cate Shortland. Austrália; 
Alemanha; Reino Unido: Rohfilm; 
Edge City Films; Porchlight Films, 
2013.
Filme
seis meses de batalha, os alemães foram cercados, o que se tornou a 
primeira perda material e humana significativa para a Alemanha.
O modo como a Alemanha cresceu rapidamente na Segunda Guerra se 
justifica também pelo apoio do Japão e da Itália, que estava revoltada pelos 
poucos espólios recebidos da Primeira Guerra Mundial. O Japão se aprovei-
tou das perdas altas da Holanda e da França para obrigá-las (e as colônias 
holandesas e francesas na Ásia) a estabelecerem negociações econômicas 
com o império, enquanto forçava a China a fazer o mesmo.capítulo. A História Contemporânea é marcada pela influência 
tecnológica sobre todas as nossas práticas sociais, incluindo as políticas e 
econômicas. Novas culturas digitais formadas por materialidades diversas são 
o centro da comunicação no globo. A política cultural do mundo árabe e sua 
relação com o Ocidente serão debatidos com o objetivo de descentralizar a 
perspectiva europeia como centro do mundo. Assim, serão consideradas as 
influências dos conceitos de Oriente e Ocidente sobre as dinâmicas culturais 
europeias e as discussões sobre as demandas ambientais. Em relação à 
América Latina, o capítulo também trará discussões sobre os movimentos 
sociais e as consequências da exclusão ambiental, que promove a desigualdade 
e parte dos problemas de imigração legal. Os problemas desse contexto e 
as alterações gerais, que são de ordem mundial, são potencializados pelos 
problemas do mundo do trabalho e dos interesses neoliberais.
Bons estudos!
O começo de um século efervescente 9
1
O começo de um século 
efervescente
Marcar um acontecimento como determinante para outras ocasiões é 
o que a Revolução Francesa (1789-1799) representa para a historiografia 
e para a nossa História Contemporânea. Mas qual é a relação dessa revo-
lução com o século XIX? Os eventos sociais, políticos e culturais diversos 
ao Antigo Regime teriam como marco final a Revolução?
Neste capítulo, nosso convite é uma proposta para refletir sobre uma 
linha social bastante tênue que se desenvolve com a derrubada do absolutis-
mo francês e a ascensão da burguesia e das camadas mais simples ao poder.
Desse modo, podemos pensar nas novas dinâmicas e organizações 
sociais que mantiveram dimensões do Antigo Regime, bem como possibi-
litaram transformações na primeira metade do século XIX.
Essas mudanças dizem respeito a formações de classes, como a do ope-
rariado, que, incentivado por demandas populares e teorias políticas forjadas 
ao longo do século, fomentou revoltas e movimentos contrarrevolucionários. 
Então, organizamos este capítulo com a intenção de problematizar ques-
tões sociais e políticas fomentadas pelas novas sociabilidades, porém que 
estavam presentes no Antigo Regime. Para tanto, partimos de relações possí-
veis desse com as primeiras décadas da França efervescente.
Com o estudo deste capítulo, você será capaz de:
• analisar as transformações e permanências das dimensões so-
ciais, econômicas e culturais do Antigo Regime no que diz respeito 
às sociedades contemporâneas;
• compreender a dinâmica das relações de poder no início do século 
XIX, antes das novas demandas populares;
• refletir sobre os movimentos revolucionários e contrarrevolucioná-
rios dos séculos XIX e XX;
• compreender as teorias políticas que incentivaram os movimentos 
revolucionários e contrarrevolucionários dos séculos XIX e XX.
Objetivos de aprendizagem
10 História Contemporânea
1.1 Dimensões do Antigo Regime 
Vídeo Do mesmo modo que a ideia de liberdade política para a burguesia não 
surgiu de um momento para o outro, o Antigo Regime não pode ser apon-
tado como um período de estagnação social ou cultural. Práticas, controle 
social e até mesmo o que poderia ser entendido como políticas públicas 
são alguns dos traços encontrados em fontes sobre o período. Além disso, 
o Antigo Regime ficou caracterizado pela política absolutista e pela centra-
lização das práticas católicas vinculadas à monarquia, perdurando desde 
o fim do Império Otomano em 1453 até a Revolução Francesa.
Então, como pensar nas diversas temporalidades que compõem a 
trajetória de ocupação humana nos mais diferentes lugares? Pensar-
mos nesse questionamento impõe nomearmos acontecimentos que 
marcaram processos históricos e torná-los representantes de um con-
texto ou outro. Além disso, precisamos buscar não os homogeneizar.
O Antigo Regime talvez não seja tão antigo, visto que a despeito das 
transformações há também permanências de dimensões sociais, econô-
micas e culturais dele junto ao que compreendemos como sociedades con-
temporâneas. A pintura Um beijo roubado, por exemplo, corrobora estudos 
sobre a sexualidade no Antigo Regime, uma vez que, apesar de ser consi-
derado um contexto de estagnação, novas sociabilidades também ocor-
reram, inclusive com novos comportamentos ligados à sexualidade. As 
demarcações do tempo são, portanto, históricas e arbitrárias, pois deixam 
outros acontecimentos esquecidos. Cabe a nós, historiadores, buscarmos 
entender como esses grupos do Período Moderno ou de transição para 
o Contemporâneo percebem a si, seu tempo e seu es-
paço, bem como o que compreendem como passado, 
presente e futuro.
Independentemente do que foi colocado sobre 
as escolhas dos marcos de transição entre os pe-
ríodos Moderno e Contemporâneo, a Revolução 
Francesa ocorreu, e, como nos lembra Reinhart Ko-
selleck (2006), a experiência vivida já transbordava o 
horizonte de expectativa, ou seja, os novos anseios 
daquele público para o seu futuro, na França que 
Na notícia Pesquisa exami-
na as intimidades de jovens 
trabalhadores no Antigo 
Regime, Bruno Leal se 
preocupa em demonstrar 
como o Antigo Regime 
proporcionou, semelhante 
a qualquer época, a cria-
ção e agência dos sujeitos, 
ou seja, a sexualidade foi 
estudada como prática 
sexual, mas também ligada 
a atitudes de pessoas, co-
munidades etc., para além 
da ideia de um tempo em 
que viviam absolutamente 
para a Igreja.
Disponível em: https://www.
cafehistoria.com.br/livro-examina-
intimidade-no-antigo-regime/. 
Acesso em: 20 set. 2022.
Leitura
Fonte: FRAGONARD, J.-H. Um beijo roubado. 
1750. Pintura a óleo. 47 x 60 cm. Museu 
Hermitage, São Petersburgo.
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https://www.cafehistoria.com.br/livro-examina-intimidade-no-antigo-regime/
https://www.cafehistoria.com.br/livro-examina-intimidade-no-antigo-regime/
https://www.cafehistoria.com.br/livro-examina-intimidade-no-antigo-regime/
aflorava nesse novo mundo social. E, assim, se há dois grupos que pas-
saram a ter mais protagonismo após a Revolução Francesa, no final 
do século XVIII, são a burguesia e o operariado. Entretanto, para o pri-
meiro grupo, já havia sido conquistado o direito ao voto antes dessa 
revolução, mesmo que censitário 1 , o que permitiu que votações de in-
teresse, em especial da alta burguesia, tivessem destaque.
A liberdade de mercado pode ser entendida como um espaço de atua-
ção com mais iniciativa e autonomia individual pautada pelas regulações 
próprias do direito, ou seja, todos passaram a ser vistos como iguais pe-
rante a lei, mas com liberdade individual. Entretanto, do horizonte de ex-
pectativa pós-revolução ainda há uma maior representação no Estado, 
assim, o liberalismo econômico passou a se desenvolver e ser traçado 
junto ao que chamam de liberalismo político (SILVA; SILVA, 2009), cujo re-
gulador era o Estado e, muitas vezes, permeado pela própria burguesia.
De um mundo de Antigo Regime em que a burguesia pouco coman-
dava na política, esta classe passou a ostentar tal poder após a Revolu-
ção Francesa. Isso ocorreu com contradições tanto dentro da própria 
burguesia quanto em relação a boa parte do povo que, sob o lema “Li-
berdade, Igualdade e Fraternidade” – do original Liberté, Egalité, Frater-
nité –, também viria a exigir seus novos direitos.
O mundo revolucionário não seria mais o mesmo, mas as diferen-
ças sociais permaneceriam de alguma forma. A filósofa Hannah Arendt 
(1979) reforça que trabalhadores servis, camponeses e trabalhadores 
urbanos começaram a ter novas expectativas e a exigir lugares nos novos 
espaços de liberdade pública. Isso iniciou o que se tornariam conflitos a 
partir da década de 1830, com base em diferenças de classe, cuja alega-
ção maior dos antigos servis era de que os revolucionários, nesse caso os 
burgueses, haviam se distanciado do objetivo maior do movimento, que 
era a igualdade, a liberdade e a fraternidade para todos.
Apenas alguns cidadãos 
que atendiam a critérios 
econômicos específicos 
tinham direitoEssas atitudes de demonstração imperialista japonesa provocaram 
os Estados Unidos – um país neutro na época –, que proibiram os paí-
ses em questão de terem qualquer tipo de exportação ou importação 
de produtos japoneses, sem a autorização norte-americana. A reação 
japonesa foi conquistar lugares para explorar recursos, como a Ilha de 
Java e Malásia (de posse holandesa e inglesa, respectivamente). Assim, o 
ataque a Pearl Harbor, ilha estratégica dos Estados Unidos no Havaí para 
treinamento militar, e a Cingapura, de influência inglesa, permitiram ao 
Japão vitória e destaque como potência no Pacífico por alguns meses. No 
início de 1942, a guerra tornou-se mundial, cuja primeira vitória dos Es-
tados Unidos sobre o Japão foi na batalha de Miday, travada no Pacífico.
Apesar dos grandes avanços japoneses nos primeiros meses de 
1942, a entrada dos Estados Unidos, após o ataque a Pearl Harbor, e a 
perda alemã na batalha de Stalingrado começaram a complicar a cer-
teza da vitória do Eixo.
Junto a isso é preciso considerar as invenções 
ligadas à aviação dos aliados da Tríplice Alian-
ça: desde aviões pequenos e leves até maiores 
e mais potentes, além de porta-aviões que se 
deslocavam pelos mares com o sonar e o radar, 
muito utilizados na Inglaterra em 1941. O radar 
foi repassado aos outros países aliados, que 
também o utilizaram junto a esquadrilhas para 
atacar regiões civis ocupadas em 1942 ou no Ja-
pão em 1944, matando milhares de pessoas.
Hitler, em 1943, lançou sua última ofensiva 
quando programou uma nova invasão à União 
Soviética, com a intenção de tomar a cidade de 
Kursk. No entanto, houve ajuda inglesa e nor-
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O navio Arizona sendo 
afundado durante o ataque a 
Pearl Harbor.
6666 História ContemporâneaHistória Contemporânea
te-americana aos russos, além da invasão ocorrida ao mesmo tempo 
na Itália, que fez com que Mussolini, aliado de Hitler, enfraquecesse a 
partir desse momento e se rendesse um ano depois.
No território “russo”, a Crimeia e a Ucrânia foram liberadas. Seis 
meses depois, a Operação Overlond minou qualquer possibilidade de 
ataque futuro à França ao invadi-la pelas praias da Normandia, proces-
so conhecido como Dia D. Concomitante a essa estratégia, a União So-
viética, recuperada da ofensiva de Hitler, reuniu o máximo de pessoas 
que pôde para uma última batalha e conseguiu derrotar o Eixo nos 
territórios da Polônia e da Romênia.
Ao fim de 1944, os países aliados ganhavam mais território, da Itália 
ao Japão. Durante o ano de 1945, na frente oriental, os kamikases 10 co-
meçaram a ser a única opção de reação às investidas dos Estados Unidos, 
que estavam cada vez mais perto das ilhas japonesas. O Japão resistiu até 
meados de 1945, quando as ilhas próximas à ilha central foram tomadas 
e, em especial, as bombas nucleares atingiram Hiroshima e Nagasaki. 
Há debates sobre a necessidade de os Estados Unidos jogarem as bom-
bas, visto que, nos meses que antecederam o ataque, o Japão já demons-
trava que não teria reação por muito mais tempo. Para muitos, a Batalha 
de Leyte (Filipinas), ocorrida em quatro frentes em outubro de 1944, quan-
do os japoneses tiveram perda de quase toda a frota naval, representa 
o momento de sua derrota. Após o lançamento das bombas, a rendição 
imediata do Japão foi oficializada. O trauma causado pelo lançamento de 
bombas fez com que somente em 2016 o presidente norte-americano 
Barack Obama visitasse e fizesse um pronunciamento sobre o aconteci-
mento quando disse respeitar e lamentar o ocorrido, mas sem dar um 
pedido oficial de desculpas (ROMILDO, 2016).
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Os kamikazes eram pilo-
tos de aviões japoneses 
que realizavam ataques 
suicidas contra navios 
dos inimigos ao final da 
Segunda Guerra Mundial.
10
Guerras Mundiais e Estado totalitárioGuerras Mundiais e Estado totalitário 6767
68 História Contemporânea
A ação imperialista e autoritária norte-americana também inaugu-
rou uma disputa armamentista, crucial no período da Guerra Fria até 
o século XXI. Isso se deve também ao crescimento dos Estados Unidos 
durante a Segunda Guerra Mundial, anulando os últimos efeitos da Cri-
se econômica de 1929, ou seja, uma nova guerra no continente euro-
peu proporcionou um lugar de destaque global aos Estados Unidos.
Ao pensar nos vários números expostos no início dessa seção, é 
preciso considerar o quanto é complexo trabalhar com memórias. Com 
relação às memórias de civis mortos na ocupação da Polônia (por parte 
da Alemanha e da União Soviética – a qual esteve ao lado da Tríplice 
Aliança nos anos seguintes), há também os civis alemães, os civis japo-
neses de Hiroshima e Nagasaki, as resistências, os soldados rendidos 
etc. São situações que tornam a historiografia um campo que deve ser 
justo à memória e, ao mesmo tempo, que não atue como julgador.
Nesse sentido, lembramos a história de Primo Levi (1988), o qual, 
como sobrevivente dos horrores e traumas vividos nos campos de con-
centração de Auschwitz-Birkenau, afirmava ter medo de retornar a sua 
realidade no pós-guerra e de não se importarem ou acreditarem em 
sua versão sobre o que ocorreu.
Assim, apesar de o caráter da história parecer fragmentado e de se 
referir ao passado, é importante considerar que o processo de reme-
moração é baseado nas perguntas do presente. Nesse processo, o ato 
de lembrar, junto da imaginação, oferece narrativas, biografias, diários, 
documentários etc., e cabe ao historiador ter atenção para que não 
haja excessos ou perda de memória de lado algum, e sim uma história 
múltipla e diversa que dê lugar aos testemunhos dos que viveram e dos 
que ouviram sobre os traumas sofridos.
É importante considerar ainda que memória e história são áreas 
diferentes. A memória é a fonte para a história, mas também se coloca 
como uma narrativa sobre algo, sobre aquilo que já passou.
No que diz respeito à Segunda Guerra Mundial, o historiador Ale-
xandre Plato (2000, p. 120) faz a seguinte afirmação:
todos esses alemães, muito diferentes entre si, velhos habitantes 
e refugiados, ex-soldados e mulheres evacuadas, grande núme-
ro de antigos nazistas – a sexta parte da população adulta foi or-
ganizada no campo nazista –, os chamados Mitläufer (seguidores) 
e o pequeno número de oponentes e sobreviventes tiveram que 
viver juntos depois da guerra. Especialmente os sobreviventes 
O documentário O con-
tador de Auschwitz narra 
o julgamento de Oskar 
Groning, um contador 
cujo trabalho era conta-
bilizar a entrada e morte 
de presos no campo de 
concentração.
Direção: Matthew Shoychet. 
Canadá: Good Soup Productions; 
TLNT Productions, 2018.
Documentário
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A ação imperialista e autoritária norte-americana também inaugu-
rou uma disputa armamentista, crucial no período da Guerra Fria até 
o século XXI. Isso se deve também ao crescimento dos Estados Unidos 
durante a Segunda Guerra Mundial, anulando os últimos efeitos da Cri-
se econômica de 1929, ou seja, uma nova guerra no continente euro-
peu proporcionou um lugar de destaque global aos Estados Unidos.
Ao pensar nos vários números expostos no início dessa seção, é 
preciso considerar o quanto é complexo trabalhar com memórias. Com 
relação às memórias de civis mortos na ocupação da Polônia (por parte 
da Alemanha e da União Soviética – a qual esteve ao lado da Tríplice 
Aliança nos anos seguintes), há também os civis alemães, os civis japo-
neses de Hiroshima e Nagasaki, as resistências, os soldados rendidos 
etc. São situações que tornam a historiografia um campo que deve ser 
justo à memória e, ao mesmo tempo, que não atue como julgador.
Nesse sentido, lembramos a história de Primo Levi (1988), o qual, 
como sobrevivente dos horrores e traumas vividos nos campos de con-
centração de Auschwitz-Birkenau, afirmava ter medo de retornar a sua 
realidade no pós-guerra e de não seimportarem ou acreditarem em 
sua versão sobre o que ocorreu.
Assim, apesar de o caráter da história parecer fragmentado e de se 
referir ao passado, é importante considerar que o processo de reme-
moração é baseado nas perguntas do presente. Nesse processo, o ato 
de lembrar, junto da imaginação, oferece narrativas, biografias, diários, 
documentários etc., e cabe ao historiador ter atenção para que não 
haja excessos ou perda de memória de lado algum, e sim uma história 
múltipla e diversa que dê lugar aos testemunhos dos que viveram e dos 
que ouviram sobre os traumas sofridos.
É importante considerar ainda que memória e história são áreas 
diferentes. A memória é a fonte para a história, mas também se coloca 
como uma narrativa sobre algo, sobre aquilo que já passou.
No que diz respeito à Segunda Guerra Mundial, o historiador Ale-
xandre Plato (2000, p. 120) faz a seguinte afirmação:
todos esses alemães, muito diferentes entre si, velhos habitantes 
e refugiados, ex-soldados e mulheres evacuadas, grande núme-
ro de antigos nazistas – a sexta parte da população adulta foi or-
ganizada no campo nazista –, os chamados Mitläufer (seguidores) 
e o pequeno número de oponentes e sobreviventes tiveram que 
viver juntos depois da guerra. Especialmente os sobreviventes 
O documentário O con-
tador de Auschwitz narra 
o julgamento de Oskar 
Groning, um contador 
cujo trabalho era conta-
bilizar a entrada e morte 
de presos no campo de 
concentração.
Direção: Matthew Shoychet. 
Canadá: Good Soup Productions; 
TLNT Productions, 2018.
Documentário
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dos campos de concentração nazistas tiveram que decidir se 
queriam permanecer na Alemanha. Nesse caso, ficaram em seu 
país natal e tiveram que viver com seus traumas, tiveram que en-
frentá-los e enfrentar também a agressiva ignorância de muitas 
pessoas à sua volta que não queriam saber de nada sobre suas 
terríveis lembranças dos campos de concentração.
Plato (2000) evidencia a dificuldade que muitos sentiram quando 
retornaram para a vida anterior ao processo histórico. Inúmeras en-
trevistas com sobreviventes revelaram esses traumas, e para garantir 
que situações como essa não se repetissem, algumas metodologias co-
meçaram a ser elaboradas a fim de que as memórias gerassem cons-
ciência e educação histórica. Ainda sobre esse contexto, o pesquisador 
Márcio Seligmann-Silva (2003, p. 373) declara:
os primeiros documentários realizados no imediato pós-guerra, 
extremamente realistas, geravam esse efeito perverso: as ima-
gens eram “reais demais” para serem verdadeiras, elas criavam 
a sensação de descrédito nos espectadores. A saída para esse 
problema foi a passagem para o estético: a busca da voz correta 
[...] a literatura de testemunho de um modo geral – desconstrói a 
historiografia tradicional (e também os tradicionais gêneros lite-
rários) ao incorporar elementos antes reservados à “ficção”.
Com base nessa ideia, é possível afirmar que os traumas são situa-
ções-limite, dos quais a dificuldade em ouvir e presenciar momentos de 
rememoração são esperados. Trazê-los por meio da ficção ou com au-
xílio de estratégias estéticas nos permite atenuar acontecimentos que 
devem ser rememorados, garantindo o direito de rememorar do modo 
como cada um quiser.
Na esteira de Levi (1988) e de Seligmann-Silva (2003), podemos dizer 
que a totalidade de um acontecimento ou de uma barbárie tem nos gê-
neros ligados à arte, na metodologia da história e no contexto formas 
de trazer elementos de processos inenarráveis.
Guerras Mundiais e Estado totalitárioGuerras Mundiais e Estado totalitário 6969
70 História Contemporânea
Sobre a Segunda Guerra Mundial há inúmeros filmes e bibliografias. Convido a ler 
sobre um roteiro de visita ao Museu Oskar Schindler e sobre uma ação do Museu 
do Holocausto, de Curitiba (PR).
Nessa ação, o museu demonstra como o judaísmo é plural, com diversas perspec-
tivas identitárias e culturais, característica que colabora com questionamentos 
acerca de conceitos como o de raça, o qual foi primordial para causar o Holocaus-
to. Quais seriam os povos ou atos preconceituosos ou fascistas atuais? São duas 
propostas diferentes para pensar um tema referente a um passado que é atual.
Disponíveis em: 
• https://www.contandodestinos.com/2017/03/museu-oskar-schindler-cracovia.html 
• https://www.museudoholocausto.org.br/memoria/exposicoes/feitos-e-efeitos/
Acesso em: 5 out. 2022.
Museu
3.5 Os trinta gloriosos e o 
Ocidente pós-guerra Vídeo
As consequências da Segunda Guerra Mundial são inúmeras. Além dos 
números supracitados, o parque industrial e a vida urbana foram afetados 
na Europa, na Ásia e em algumas regiões da África. Não menos relevante 
é a destruição de aviões, navios e trens, todos importantes para o desloca-
mento e a reconstrução econômica e social posterior à guerra. As bombas 
atômicas não deixaram menos tragédias proporcionalmente aos efeitos de 
Pearl Harbor, visto que ocorreram em razão desse ataque e inauguraram 
uma disputa nuclear que norteou e afetou a vida de inúmeros povos e paí-
ses até o século vigente. Nesse sentido, se há um principal efeito danoso 
para a humanidade é a ordem colocada pela Guerra Fria (1945-1989), uma 
consequência desse processo imperialista, de disputa do capital.
Uma importante consequência do mundo pós-guerra foi a descoloni-
zação de parte da África e da Ásia. Foi uma mudança geopolítica que oca-
sionou um novo olhar sobre o que era o Ocidente, organizado por meio de 
uma lógica de centralidade e homogeneidade europeia. No entanto, foi uma 
ruptura parcial, a qual originou o que entendemos como países periféricos, 
marginais, e que passaram a ser conhecidos como Terceiro Mundo, ou seja, 
o Hemisfério Sul passou a fazer parte de um mapa político mundializado.
Para tanto, é preciso considerar a Conferência de Bandung (1955), 
momento em que países do Terceiro Mundo objetivaram pensar o de-
senvolvimento político com base em suas considerações ou em seu 
https://www.contandodestinos.com/2017/03/museu-oskar-schindler-cracovia.html
https://www.museudoholocausto.org.br/memoria/exposicoes/feitos-e-efeitos/
Guerras Mundiais e Estado totalitário 71
contexto, com atenção ao que era nacional, e não de influência estran-
geira. Isso se deve especialmente à polarização entre Estados Unidos e 
União Soviética, além dos anseios patrióticos originados pelo processo 
de descolonização dos países do Terceiro Mundo. Sobre isso Walter 
Mignolo (2017, p. 19) define que:
quem participou da conferência optou por desprender-se: nem 
capitalismo nem comunismo. Optaram por descolonizar. O pro-
cesso é longo, mas continua. [...] A grandeza da Conferência de 
Bandung consistiu precisamente em ter mostrado que a descolo-
nialidade é uma “terceira opção” que não resulta da combinação 
das existentes, mas consiste em desprender-se delas.
Esse deslocamento, para Mignolo (2017), não é o suficiente para desco-
lonizar o pensamento de países que formarão novos grupos importantes 
para as trajetórias geopolíticas durante a Guerra Fria e no século XXI, visto 
que muitos dos termos institucionais e decisões políticas ainda foram con-
duzidas por pessoas ou interesses do chamado Primeiro Mundo.
Os blocos formados como consequência desse período também são 
importantes, como o Pacto de Varsóvia 11 , liderado pela URSS, e a Orga-
nização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), liderada pelos Estados 
Unidos. Ambos os países se tornaram a representação da bipolarização 
da Guerra Fria. Mesmo que o pacto de Varsóvia tenha sido extinto na 
década de 1990, época que a União Soviética também deixou de existir, 
a OTAN permaneceu reunindo países que de algum modo não se rela-
cionavam ou se colocavam contra a URSS, sob a bandeira de defesa da 
democracia. Nos anos 2000, a OTAN já reunia mais de 30 países.
Os Estados Unidos também foram responsáveis, depois da Segunda 
Guerra, por promover financiamentos com juros baixos por meio do Pla-
no Marshall a todos os países europeus,com exceção daqueles que esta-
vam sob influência da União Soviética, para que pudessem se reconstruir.
Na Conferência de Bretton Woods, ocorrida nos Estados Unidos em 
1944, foi eleita a moeda norte-americana como o meio de câmbio inter-
nacional, o qual foi regulado pelo Acordo Geral de Tarifas e Comércio 
e pelas duas instituições mais aparentes desse processo, o Banco 
Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI).
O Plano Marshall, a integridade física dos Estados Unidos pós-guerra e 
a monetarização pelo dólar permitiram que o país, junto ao Japão e anos 
mais tarde alguns países da Europa, vivessem a Idade de Ouro. Sobre o 
rápido crescimento capitalista, é possível dizer que o comércio internacio-
Aliança militar entre a 
União Soviética e sete ou-
tras repúblicas socialistas 
do Bloco Oriental.
11
72 História Contemporânea
nal cresceu com base em acordos comerciais e barreiras tarifárias menos 
fechadas. A presença de um Estado mais forte, centralizado, regulador e 
produtor de bens e serviços proporcionou a acumulação de capital e um 
controle maior ou menor (crises e conflitos são comuns até 1990) dos mo-
dos de produção (POLANYI, 2001).
Além disso, filiais de indústrias, empresas em geral e bancos passaram a 
se instalar por todo o mundo, inclusive em países do Terceiro Mundo, cujas 
coligações partidárias e de representações também favoreceram essas no-
vas negociações, bem como as relações de trabalho passaram a ser orga-
nizadas por meio de leis federais e de sindicatos trabalhistas e patronais.
Essas mudanças são anteriores à Segunda Guerra Mundial. Uma das in-
fluências desse período foi de John Maynard Keynes (1992), um economista 
britânico do século XX, cujo livro principal é Emprego, do Juro e do Dinheiro. 
Ele afirmava em seu livro que políticas públicas fiscais eram necessárias 
para conter crises, mesmo antes da de 1929 estourar no mundo. O nível 
de impostos alto era defendido por Keynes a fim de que o Estado pudesse 
evitar crises econômicas profundas, especialmente pelos crescimentos ace-
lerados que, mesmo gerando empregos, causavam inflação (KEYNES, 1992).
A partir de 1930, a iniciativa privada ainda buscava intervir na eco-
nomia, mas a intervenção do Estado sobre ela tornou-se significativa 
nas relações trabalhistas, o que fez com que a renda aumentasse, com 
descanso semanal remunerado e salário-mínimo (nos Estados Unidos 
em 1932, e no Brasil em 1942 com a CLT). Essas medidas permitiram o 
aumento de produção e de consumo.
Portanto, com o passar da guerra, o poder do Estado se tornou ain-
da maior. No caso europeu, a presença da social-democracia foi recor-
rente. Nesse contexto, era comum uma política que priorizava o acesso 
aos bens e políticas públicas (educação, transporte, previdência social, 
saúde) regidas ou intermediadas pelo governo, de modo gratuito, aos 
cidadãos (POLANYI, 2001). O Estado de bem-estar social (welfare state ou 
american way of life 12 ) dava liberdade, autonomia aos indivíduos e uma 
distribuição de renda mínima ao mesmo tempo que controlava a eco-
nomia e nacionalizava diversas instituições, como o transporte coletivo.
A estabilidade entre o Estado, os sindicatos e o setor privado foi 
também garantia da permanência das instituições democráticas. Isso 
permitiu que não apenas capitais fossem exportados, mas também 
produtos, diferente do período mais imperialista do fim do século XIX.
Estado de bem-es-
tar social é um estilo 
político-econômico 
norte-americano.
12
Guerras Mundiais e Estado totalitário 73
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O fim da Segunda Guerra Mundial inaugurou um tempo em que o ca-
pitalismo se tornou uma forma de acúmulo de capital e de mercadorias, 
cujo poder aquisitivo era gerado por um Estado intervencionista que man-
tinha a liberdade de mercado e a disputa entre os interesses privados, 
preservando o tom democrático e o alcance de direitos, desde civis aos 
trabalhistas.
Não obstante, é um período que conformou as novas potências mun-
diais, as quais disputaram entre si mercados, mas, especialmente, zonas de 
influência para suas teorias ideológicas. A URSS e os Estados Unidos envol-
veram dezenas de países em conflitos diretos, promovendo crescimento 
com sua economia de guerra e gerando inúmeros traumas pela Ásia, Áfri-
ca e América. Esses continentes, por sua vez, além de presenciarem essa 
disputa, sentiram as ditaduras provocadas por ambos os países; porém a 
historiografia ainda se debruça a fim de dar lugar a essas vozes que buscam 
uma independência do ser e do saber.
ATIVIDADES
Atividade 1
Explique a relação entre a eugenia e o imperialismo.
Atividade 2
De que forma a corrida imperialista está relacionada com a Primei-
ra Guerra Mundial?
Atividade 3
Em que medida a Primeira Guerra Mundial relaciona-se com a 
Revolução Russa?
74 História Contemporânea
Atividade 4
Explique a relação entre a Crise de 1929 e a Primeira Guerra 
Mundial.
Atividade 5
No que diz respeito às consequências da Segunda Guerra Mundial, 
por que a OTAN é uma das mais presentes em nosso contexto?
REFERÊNCIAS
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ARENDT, H. Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
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São Paulo: Editora Atlas, 1992.
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https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/CRISE%20DE%201929.pdf
Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 75
4
Guerra Fria, descolonização 
e a geração 1968
Este capítulo tem por objetivo pensar nas mudanças sociais, econômicas, 
políticas e culturais que definiram o contexto mundial entre as décadas de 
1950 e 1980, especialmente porque trouxeram possibilidadesnovas de pen-
sar conceitos como o de sujeito, de individualidade e de comportamento em 
suas várias faces. Além disso, essas mudanças questionaram uma estrutura 
política, racista e classista em relação ao que havia sido construído sob a cen-
tralidade da Europa e do Hemisfério Norte em geral, desde a bipolaridade 
ocasionada pela Guerra Fria no pós-Segunda Guerra Mundial até seus des-
dobramentos em disputas econômicas e geopolíticas nos anos 2020.
São muitos os acontecimentos que se desdobraram a partir dessa bipola-
ridade, em que a defesa não é necessariamente pela liberdade de expressão 
como afirmam alguns grupos, e sim pela necessidade de manter zonas de in-
fluência geopolítica ou, como defendem outros, pela pretensa igualdade social.
De qualquer modo, as formas de vivência escolhidas por esses grupos 
causaram guerras e uma nova organização do mundo, com mais agência 
e autonomia para o que entendemos como Terceiro Mundo. Este, repleto 
de sujeitos que estiveram na marginalidade política, civil e social, passou 
a exigir a igualdade como pessoas por meio de movimentos sociais vivi-
dos concomitantes às independências políticas ocorridas após a Segunda 
Guerra Mundial e ocasionadas também pela Guerra Fria.
Para compreender as teorias que analisam esses movimentos e como 
elas transformam os discursos sobre a história, bem como a própria aca-
demia e o nosso tempo, evidenciamos, neste capítulo, ideias decoloniais 
e pós-coloniais.
76 História Contemporânea
Com o estudo deste capítulo, você será capaz de:
• compreender acontecimentos que influenciaram o mundo durante 
o século XX, a relação entre a bipolaridade EUA x União Soviética 
e a mundialização;
• analisar temas políticos, culturais e sociais da Ásia;
• estudar os movimentos de 1968 como representantes de direitos 
sociais e políticos e relacionados ao tempo presente;
• estudar perspectivas decoloniais da América contemporânea em 
relação a blocos, sociabilidades e concepções de gênero e de 
diversidade.
Objetivos de aprendizagem
4.1 A Guerra Fria e a bipolaridade 
Vídeo
É necessário compreender como a bipolaridade política vivida no con-
texto da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética causou novos 
acordos geopolíticos para as guerras e para a economia, a fim de pensar o 
mundo do século XXI. Com esse conceito, entendemos que o mundo viveu 
processos históricos que expressavam direta ou indiretamente as divergên-
cias entre esses países, à luz de uma tendência político-econômica, seja ca-
pitalista ou socialista. Como exemplo das relações entre acontecimentos, 
mantendo continuidades e transformações, em fevereiro de 2022, quan-
do a Rússia, ex-União Soviética, invadiu a Ucrânia novamente – a primeira 
vez foi em 2014 na invasão à Crimeia –, a China manteve-se neutra, porque 
historicamente quase sempre apoiou a Rússia.
Essa divisão radical entre Estados Unidos e Rússia tem como ori-
gem, portanto, a Guerra Fria. Esta teve início com as diferenças entre 
dois blocos políticos: o da União Soviética, com um sistema econômico 
socialista que defendia os interesses vistos como coletivos, e o dos Es-
tados Unidos, o qual defendia uma economia capitalista neoliberal e in-
dividualista. Ambos haviam lutado juntos na Segunda Guerra Mundial.
Para Kissinger (2012), a divisão da Alemanha em quatro zonas e o 
enfraquecimento de potências como França e Inglaterra mudaram a 
configuração dos países mais proeminentes do globo. Ao mesmo tem-
po, na Conferência de Potsdam (1945), um dos marcos de encerramen-
Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 77
to da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos apregoavam que a 
União Soviética poderia desejar a expansão de seu socialismo e o do-
mínio de outros territórios, como Stalin fazia com o oeste de seu país 
(KISSINGER, 2012). Para esse autor, apesar da falácia dos Estados Uni-
dos em promover limites à União Soviética, esta impôs o “realpolitik”, 
um caráter hegemônico para suas intenções de avanço territorial.
Mas, como qualquer acontecimento, não é no período imediato 
da Segunda Guerra que se compreende essa divisão, característica da 
Guerra Fria. Nos anos seguintes, termos como totalitarismo e democra-
cia/mundo livre começaram a ser vistos como antagônicos e sinônimos 
dessas potências, respectivamente da União Soviética e dos Estados 
Unidos (HOBSBAWM, 2005). Além disso, a presença de duas agências 
de espionagem, a KGB (Comitê de Segurança do Estado), da Rússia, e 
a CIA (Agência Central de Inteligência), dos EUA, começaram a ganhar 
visibilidade, o que reforçou a ideia de disputa internacional. O termo 
fria está relacionado à postura de ambos os países, mas, segundo 
Hobsbawm (2005, p. 234-235), em especial à dos Estados Unidos:
se alguém introduziu o caráter de cruzada na Realpolitik de confronto 
internacional de potências, e o manteve lá, esse foi Washington [...] A 
ameaça constante de guerra produziu movimentos internacionais de 
paz essencialmente dirigidos contra as armas nucleares, os quais de 
tempos em tempos se tornaram movimentos de massa em partes 
da Europa, sendo vistos pelos cruzados da Guerra Fria como armas 
secretas dos comunistas.
Com a mesma importância, é preciso considerar que os Estados 
Unidos já tinham armamento nuclear desde o fim da Segunda Guerra 
Mundial, quando radicalizou duas cidades japonesas para demonstrar 
seu poderio armamentista, mas o mesmo não ocorreu com a União 
Soviética, cuja aderência ao armamento nuclear foi apenas em 1953.
No entanto, Stalin também instituiu nos anos seguintes sua política 
“pan-eslavismo” socialista, que seria a união de todos os países de raízes 
eslavas, estimulando a aderência de grupos pró-Estados Unidos a alguns 
países, como os que já faziam parte do Plano Marshall, da Organização do 
Tratado do Atlântico Norte (OTAN), da Doutrina Truman, uma política inter-
nacional anticomunista criada em 1947, e da CEE (Comunidade Econômica 
Europeia), criada em 1957 e de onde é firmada a União Europeia em 1993.
A União Soviética, por sua vez, criou o Conselho para Assistência Eco-
nômica Mútua (Comecon), além da Organização do Tratado de Varsóvia 
78 História Contemporânea
(complemento da Comecon), mais conhecido como Pacto de Varsóvia. 
Este foi criado em 1955 em resposta à OTAN, oferecendo uma aliança 
militar entre Polônia, União Soviética e todas as repúblicas socialistas li-
deradas pela URSS.
É importante considerar o lugar da China no período após a Segunda 
Guerra. Ela viveu um conflito civil entre comunistas (liderados por Mao 
Tsé-Tung) e capitalistas. Os capitalistas, derrotados, foram obrigados a 
viver em Taiwan, onde fundaram o governo de Chiang Kai-shek, reconhe-
cido pelos Estados Unidos e pela Organização das Nações Unidas (ONU).
A República Popular da China, nome oficial da China, por sua vez, 
aliou-se com a União Soviética já nos anos seguintes, entretanto, atual-
mente, mantém-se neutra em muitos acontecimentos que envolvem 
a Rússia e pelos quais os russos são criticados. Além disso, a China 
mantém relações com diversos países no século XXI, inclusive com os 
Estados Unidos, com quem tem uma relação mais próxima por interes-
ses econômicos, mesmo sendo sua rival.
Tanto o reconhecimento de Taiwan quanto a relação entre China e 
União Soviética são determinantes para compreender o início do que seria 
entendido como bipolarização. Nesse período, a China teve conflitos com 
países vizinhos, como a Índia, o Vietnã, o Paquistão e até mesmo com a 
União Soviética, quando lutaram em 1969. No entanto, com exceção desta 
vez, em todas as outras houve uma ajuda mútua entre os dois países.
De maneira geral, a Guerra Fria e sua bipolaridade começam com ini-
ciativas majoritariamente norte-americanas de apoio a independências de 
países influenciados ou de teoria socialista. Mas a União Soviética também 
tomou decisões que potencializaram a disputa, pelo menos em duas situa-
ções: na Guerra do Vietnã (1955-1975), com financiamento por meio do en-
vio de armas e dinheiro,e no apoio à Revolução Cubana, em 1959. Apesar 
disso, Vietnã e Cuba, provenientes do Terceiro Mundo, e outros países não 
compactuaram oficialmente com políticas econômicas comunistas nem ca-
pitalistas, embora focassem teorias que priorizassem a igualdade social, e 
por isso havia uma leve inclinação à esquerda, como evidenciou a Confe-
rência de Bandung.
Ao mesmo tempo, era perceptível que o liberalismo norte-americano 
defendia o fim da colonização dos impérios francês e britânico, visto que 
desejava influenciar esses mercados de consumidores e de trabalhado-
res. Apesar dessa postura, os Estados Unidos foram obrigados a apoiar a 
França contra a independência do Vietnã, liderada pelo Partido Comunista 
do Vietnã (Vietcongue). No entanto, a relação com a França era bastante 
tênue, visto que ela atacou o Egito em 1956 (uma ação desaprovada pelos 
Estados Unidos), retirou-se da OTAN, expulsou a sede americana de Paris 
e cogitou a criação de armas nucleares, mas não seguiu com a ideia.
Desde a Segunda Guerra Mundial, países como França e Inglaterra 
haviam perdido força com suas colônias na Ásia, na África e no Oriente 
Médio. É dessas regiões que saem as primeiras organizações institucio-
nais que reconhecemos como Terceiro Mundo, reunidos pela primeira 
vez na Conferência de Bandung. É importante ressaltar o acontecimento 
conhecido como Crise do Petróleo, ocorrido no dia de Yom Kippur, em 
1973, no qual os países que eram membros da Organização dos Países 
Exportadores de Petróleo (OPEP) aumentaram os preços do barril deste 
produto em até oito vezes, porque o Egito e a Síria exigiram de Israel o 
território tomado em 1967, na Guerra dos Seis Dias.
Como retaliação, principalmente aos países do Ocidente que 
apoiavam Israel, o petróleo causou uma recessão econômica 
mundial devido à grande utilização de transportes e componentes 
necessários para industrialização, ao mesmo tempo que os expor-
tadores ganharam muito mais dinheiro em razão do alto preço do 
petróleo. Esse processo ficou conhecido como excesso de liquidez, 
pois os bancos internacionais emprestaram dinheiro a juros baixos 
a países do Terceiro Mundo (Brasil, por exemplo) e outros da Eu-
ropa Oriental (como Polônia e Grécia). Essa ação tornou o dinheiro 
ainda mais global por meio de ações e empréstimos internacionais.
Já a China teve uma guinada ao comunismo a partir do gover-
no de Mao Tsé-Tung, iniciado em 1949, que promoveu a chamada 
Revolução Cultural (1966-1976). Nesse período, toda cultura disse-
minada no país, seja prática econômica, política ou social, deveria 
estar voltada para os interesses socialistas/comunistas.
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Guerra Fria, descolonização e a geração 1968Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 7979
80 História Contemporânea
O maoismo, corrente baseada no pensamento de Mao Tsé-Tung, preva-
leceu entre 1966 e 1976 e causou retrocesso econômico, fome e, especial-
mente, resistências ao governo. O Agosto Vermelho foi o primeiro período 
de movimento contestatório, iniciando uma série de massacres, e teve 
como sede a Praça Celestial, em Pequim, que se tornou um lugar de memó-
ria com diversas manifestações até o fim da década de 1980.
O caráter autoritário da República Popular da China também é evi-
dente na sua relação com Hong Kong. Historicamente essa ilha já foi um 
dos maiores portos de comércio do mundo e pertenceu à Inglaterra no 
período colonial até 1997. Desde a Guerra do Ópio (1839-1942), quando 
a China perdeu o território para os ingleses, a ilha foi procurada por exi-
lados e pessoas que fugiam do regime chinês, nem sempre comunista. 
No entanto, essas imigrações fomentaram uma hostilidade em relação à 
China, especialmente com o crescimento do regime comunista.
Hong Kong viveu um crescimento econômico exponencial em rela-
ção ao mundo sob jurisdição de uma economia capitalista neoliberal, 
o que acarretou a extenuação e resistência de muitos trabalhadores. 
O Japão também dominou Hong Kong durante a Segunda Guerra Mun-
dial por três anos. Quando os japoneses perderam a guerra, a ilha 
retornou à tutela inglesa. Esse destaque econômico é relacionado à li-
berdade de Hong Kong em relação à China.
Em 1997, a China exigiu a retomada de Hong Kong, oferecendo, na 
época, liberdade de imprensa e liberdade econômica, mas com a polí-
tica externa e interna determinada pela China. Hong Kong passou a ser 
uma Região Administrativa Especial, como também é Macau. Porém, 
a hostilidade secular, potencializada pela bipolaridade da Guerra Fria, 
permanece entre as duas regiões.
Desde 2014, com a revolução dos guarda-chuvas, período em que 
manifestantes usavam guarda-chuvas contra o excesso de sprays de 
pimenta ao contestarem sobre o direito de escolher de modo autôno-
mo o chefe do executivo, há inúmeros casos de movimentos e contes-
tações de parte da população da ilha cercados de denúncias e casos de 
censura ao direito individual e à própria liberdade de imprensa.
Não menos importante, é preciso considerar as manifestações de 
moradores de Hong Kong, em 2019, referentes a um projeto de extra-
dição defendido a partir do assassinato de uma jovem no território de 
Taiwan pelo seu namorado de Hong Kong. O chefe de governo do pe-
ríodo era pró-China e desejava extraditar o assassino de Taiwan, visto 
que a China não reconhece o governo de Taiwan. O entrave se dá com 
a população que vê no projeto uma jurisprudência para que a China 
passe a exigir a extradição de vários políticos e intelectuais que criticam 
o seu governo. Assim, pessoas foram às ruas contra essa lei, a fim de 
assegurar a autonomia de Hong Kong. Além disso, uma Lei de Seguran-
ça Nacional, que proíbe qualquer manifestação política, foi aprovada 
em 2020 sem que a população soubesse de seu conteúdo, pois estava 
proibida de se reunir devido às restrições causadas pela pandemia.
As relações políticas conflituosas e autoritárias decorrentes da Guerra 
Fria não são apenas com a China, pois o Japão sempre manteve seu in-
teresse imperialista, inclusive nesse período. Assim, é preciso considerar 
que o Japão havia tomado a Coreia (1910) antes da Segunda Guerra Mun-
dial (1939-1945) e, com a sua derrota, a Coreia poderia novamente pensar 
em autonomia política. No entanto, o que ocorreu foi uma divisão entre 
a União Soviética (parte Norte) e os Estados Unidos (parte Sul), a fim de 
“pacificar o país” logo após a Segunda Guerra. Portanto, a tal autonomia só 
chegou depois de uma divisão causada pela bipolaridade daqueles países 
e, nesse caso, condicionada pelos elementos “capitalista e comunista”.
Apoiados pela ONU e marcados pela divisão no território coreano, 
os Estados Unidos defenderam uma união entre as Coreias e enviaram 
munições e milhares de soldados à Coreia do Sul quando esta já estava 
invadida e quase tomada totalmente pela ação de soldados da Coreia 
do Norte (armados e apoiados pela União Soviética) e pela presença de 
guerrilhas desde antes de 1950. A intromissão norte-americana causou 
outra, a da China, quando a Coreia do Norte estava perdendo a guerra. 
Foi somente em 1954 que esse conflito acabou, quando todos esses 
países estrangeiros se retiraram do território coreano com a assinatura 
de um armistício, depois de três anos de guerra e de ambas as Coreias 
fazerem suas opções políticas.
Ainda no fim dos anos de 1970, acordos menores entre as duas po-
tências da Guerra Fria começaram ser estabelecidos, sendo que o prin-
cipal, o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF), 
ocorreu em 1987 – assinado por Mikhail Gorbachev e Ronald Reagan 
– e cessava a produção e manutenção de mísseis de meio alcance. Para 
Hobsbawm (2005), esse é o marco do início da derrota da URSS, visto que 
sua organização social era socialista (com centralidade em temas ligados 
ao coletivo), mas sua política era capitalista, de característica individual. za
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Guerra Fria, descolonização e a geração 1968Guerra Fria, descolonizaçãoe a geração 1968 8181
82 História Contemporânea
4.2 Descolonização e emergência 
do Terceiro Mundo Vídeo
O princípio de autodeterminação dos povos, gerenciado pela ONU, 
definiu que nenhum povo deveria mais estar sob a tutela de outro ou 
ao menos que tenha seu interesse atendido por ele. Quando a ONU foi 
fundada, em 1945, mais de 750 milhões de pessoas estavam em terri-
tórios colonizados. Com o processo de descolonização, menos de dois 
milhões vivem atualmente nessa situação (ONU, 2022).
Concomitante ao início da Guerra Fria, deu-se o processo de desco-
lonização. Para pensar a política e a cultura nesse processo do Terceiro 
Mundo é necessário considerar a reação ao imperialismo, em especial 
o inglês e o francês. Edward Said (2011) defende que obras de intelec-
tuais desses países demonstravam uma relação intrínseca entre cultu-
ra e império, visto que seus autores são frutos da experiência social e 
política que é a colonização. Essa preocupação está relacionada a uma 
perspectiva teórica e acadêmica, o pós-colonialismo.
Para Said (2011), muitos intelectuais já evidenciavam em sua escrita 
os elementos de raça ou de uma “cultura inferior”, justificando o domínio 
de outras terras, isto é, a cultura desses países imperialistas era racista e 
etnocêntrica, e esses aspectos estariam na resistência para uma desco-
lonização. Portanto, para ele, a cultura (e sua resistência) deve ser politi-
zada. Tanto os britânicos quanto os franceses foram classificados como 
possuidores da tradição do orientalismo, a qual é entendida como uma 
forma de ver o Oriente de acordo com a perspectiva europeia, de coad-
juvante do processo de mundialização (SAID, 2011). Da mesma forma 
que aconteceu com a América, o Oriente é o inimigo a ser dominado, e o 
seu conceito, por sua vez, é forjado pelo pensamento cultural europeu.
Um dos pontos centrais dessa discussão é que a ideia ou noção 
de “outro” sempre parte de um centro europeu, ou ocidental, e tudo 
o que se opõe a este é oriental. Isso se dá pelo vocabulário, pelo 
comportamento em relação ao corpo, pelas práticas religiosas e ins-
titucionais e pelo conhecimento e ciência, inclusive no âmbito aca-
dêmico. No entanto, compreender que tanto o Ocidente quanto o 
Oriente são construções discursivas (e políticas) não elimina tudo o 
que se sabe ou como se julga essas regiões geopolíticas. Said (2007) 
considera que é preciso um “filtro” para entender como uma realida-
Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 83
de corresponde a outra com níveis e relações de poder complexas, 
ou aquilo que ele chama de:
experiência histórica do império como algo partilhado em 
comum. A tarefa, portanto, é descrevê-la enquanto relacionada 
com os indianos e os britânicos, os argelinos e os franceses, os 
ocidentais e os africanos, asiáticos, latino-americanos e austra-
lianos, apesar dos horrores, do derramamento de sangue, da 
amargura vingativa. (SAID, 2011, p. 24)
É esse Oriente que se mostra, que se descobre e se desdobra no 
processo de descolonização construído pelo Ocidente, mas também 
com a agência (autonomia) daqueles que foram colonizados e sua ne-
cessidade de autonomia política e de pensamento. Tanto uma nova or-
ganização política ocorreu com preocupações expostas na Conferência 
de Bandung quanto intelectuais passaram a pensar sobre esse proces-
so. O sociólogo Stuart Hall (2003) complementa ao evidenciar o pós-
-colonialismo como uma ideia que representa a colonização enquanto 
processo que faz parte da história global, para além das fronteiras de 
um continente ou de um país. Assim, essa escrita pós-colonial é des-
centrada, diaspórica e questiona as narrativas imperiais.
Pensar dessa forma também não é negar o passado colonial. Assim, 
mesmo que sociedades com suas práticas identitárias e sua concepção 
de conhecimento, de organização e de escrita permaneçam com aspectos 
coloniais, o pós-colonialismo objetiva repensar as construções discursivas 
inseridas até mesmo dentro de uma nova realidade sob novas expres-
sões, como países subdesenvolvidos, subalternos e marginais (HALL, 2003).
A ideia de subalterno é lembrada por Spivak (2010) que conside-
ra o reconhecimento da literatura de Said uma vitória do “outro”, 
ou seja, o destaque ao oriental, ao pobre, ao negro, ao proveniente 
do Hemisfério Sul, ao latino-americano, que não tinham lugar nos 
discursos hegemônicos europeus. Aliás, questiona-se: existe um ou-
tro? Ou existe a raça humana? No entanto, na medida em que esse 
“outro” ganhou liberdade ou independência para seu país, ele tam-
bém começou a narrar sobre si mesmo e a questionar se deveria 
pensar como “outro”, ou apenas construir espaços para falar, ouvir 
e se igualar como pessoa.
O que esses países fizeram na política e os intelectuais, na acade-
mia, foi questionar as posições discursivas e arrogantes narradas sobre 
eles. Não menos importantes são os sujeitos que questionaram por 
Sugerimos o especial 
Consciência Negra, da 
terceira temporada do 
podcast Atlântico Negro, 
para acompanhar uma 
conversa com a escritora 
e intelectual reconhecida 
Conceição Evaristo que 
envolve temas como a 
pandemia causada pela 
Covid-19, a ancestralida-
de, a afetividade e ques-
tões negras e geracionais.
Podcast
meio dos movimentos sociais sobre seus direitos civis, baseados direta 
ou indiretamente nos processos de descolonização.
É importante ressaltar que embora alguns países mal tenham lutado 
para evitar a descolonização, como é o caso da Inglaterra (mitigada pela 
Segunda Guerra Mundial), eles desejavam e exigiam a manutenção de suas 
influências (coloniais, políticas, sociais etc.), instituições e até mesmo grupos 
sociais inseridos entre os novos independentes. Nesse caso, o principal país 
que concorria com os antigos colonizadores eram os Estados Unidos. Eles 
sofreram uma derrota dura com a derrubada do governo cubano de Ful-
gencio Batista em 1959, em que Fidel Castro instituiu um governo comunis-
ta no “quintal dos Estados Unidos” ainda no ano seguinte. Como resposta 
aos ataques norte-americanos, os cubanos uniram-se com a União Soviéti-
ca até sua dissolução, mantendo uma relação política e econômica sólida.
A Guerra do Vietnã (1955-1975) é um dos acontecimentos mais im-
portantes desse período. Não apenas porque evidenciou a bipolaridade 
do tempo ou pelos longos anos de guerra que dizimaram milhares de 
vietnamitas e vietcongues, mas porque a presença do Partido Comu-
nista não poderia ser considerada como a ganhadora na indepen-
dência do Vietnã, visto que a interferência francesa capitalista 
permanecia na colônia, apesar da descolonização.
A França aceitou em 1954 a divisão do território em dois, na qual o norte 
seria governado pelos vietcongues comunistas, enquanto o sul, capitalista, 
estava apoiando e sendo apoiado pela França. No entanto, após 1961, com 
as investidas dos vietcongues para dominar o sul, em razão da diferença 
partidária, os Estados Unidos também se envolveram na história, oferecen-
do inúmeras armas para manter essa região sob influência do Ocidente. 
Assim, os Estados Unidos empreitaram uma dura guerra a partir de 1964, 
da qual foram obrigados a se retirar em 1975 após inúmeras críticas prove-
nientes desde os movimentos de 1968, como o armamento pesado utiliza-
do contra povos simples ou mesmo por não conseguirem dominar de fato 
o Vietnã do Norte. Apesar das perdas humanas e materiais do Vietnã, o país 
foi unificado sob o governo comunista, política econômica vietcongue.
O Vietnã fica localizado na 
Península da Indochina, 
uma a região que, no 
contexto da Guerra do 
Vietnã, envolvia países 
como Laos, Camboja, Viet-
nã e parte de Myanmar e 
Tailândia.
Saiba mais
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8484 História ContemporâneaHistória Contemporânea
Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 85
A Angola, no continente africano, também foi laboratório das 
disputas da Guerra Fria, quando após sua independência, em 1975, 
os grupos que haviam conquistado a liberdade passarama disputar 
entre si em razão de diferenças étnicas ou políticas mediadas por 
influências colonizadoras. De um lado, o Unita (União pela Indepen-
dência Total de Angola), apoiado e armado pelos Estados Unidos, e 
de outro o MPLA (Movimento pela Libertação de Angola), apoiado 
por Cuba e União Soviética.
Assim, surgiu em 1955, na cidade de Bandung (Indonésia), o Mo-
vimento dos Países Não Alinhados (MNA) durante a Conferência 
Ásia-África. O objetivo principal era “desprender-se” das amarras 
políticas estrangeiras, fossem capitalistas ou comunistas. Os 29 paí-
ses reunidos, e que voltaram a promover encontros nas décadas se-
guintes, defendiam não ceder às pressões estrangeiras de qualquer 
natureza e apontavam-nas como ferramentas do neocolonialismo 
(MIGNOLO, 2017).
4.3 Gerações 1968 e a contracultura: 
resistência e utopias Vídeo
O ano de 1968 é considerado um marco para a historiografia, por-
que os movimentos em busca de direitos sociais e civis estavam relacio-
nados às crises econômicas, à emancipação do sujeito como portador 
de agência, às independências e à decolonização do pensamento, ou 
seja, ao questionamento de conceitos epistemológicos e institucionais 
impostos a povos colonizados.
Havia uma oposição à interferência norte-americana no Vietnã pela sua 
intromissão em um contexto e em um território que não eram seus e pela 
crueldade empregada contra povos simples. Além disso, a atuação dos mo-
vimentos negros e feministas davam seus primeiros sinais na Europa, nos 
Estados Unidos e na América Latina, as guerrilhas se opunham às ditaduras 
civis militares, e a Revolução Cultural chinesa – embora maléfica para a eco-
nomia – permitiu que a juventude tivesse mais voz e direitos, especialmente 
ligados à educação. Estes foram movimentos que demonstraram o desejo 
por autonomia dessas regiões, inclusive de pensamento.
Na Alemanha, por exemplo, as revoltas se deram, em sua maioria, 
em Berlim, com censura de governos locais aos participantes cujas 
faixas defendiam a discussão de problemas como a dominação de clas-
se, de gênero, de etnia etc.; a falta de ética na ciência e na medicina; 
questões de sexualidade e de direito ao corpo etc.
Já nos Estados Unidos, a rejeição dos americanos era forte em relação 
à sua ação no Vietnã, com acusações e denúncias de que estudantes nas 
universidades eram cooptados para fazerem pesquisas pró-armamentos 
e lutarem em uma guerra injusta, sanguinária, tanto com eles quanto com 
os vietcongues/vietnamitas. Com essa pauta, esses estudantes questiona-
vam o papel da universidade e sua função social frente à participação em 
assuntos bélicos.
Com base nisso, novas teorias como a Psicanálise, a Teoria Crítica e o 
Marxismo ganharam mais amplitude, a fim de se compreender as trans-
formações sociais necessárias àquele tempo. No Colégio de Tlatelolco, 
importante lugar de memória asteca na Cidade do México, cerca de 
300 estudantes foram mortos pouco antes do início das Olimpíadas de 
1968, porque contestavam um governo ditatorial (THIOLLENT, 1998).
A oposição global foi conduzida por intelectuais, políticos e prin-
cipalmente estudantes universitários, e, em um primeiro momento, 
espalhou-se pela França a partir de Paris em maio de 1968. No caso dos 
franceses, as questões essenciais eram os conflitos no Vietnã e na Argé-
lia, cujo processo pela independência foi negado, depois de originalmen-
te ser apoiado. No entanto, Charles de Gaulle, que era o general-chefe 
de Estado à época (1959-1969), defendia uma total autonomia de seu 
país, resistindo aos blocos como o da Comunidade Europeia e o da ONU.
No governo de Gaulle, apesar do crescimento industrial, o desem-
prego aumentou principalmente por conta da entrada em massa de 
estrangeiros vindos de ex-colônias e da África. Assim, estudantes co-
meçaram a questionar dois aspectos: as reformas que dariam ao en-
sino um caráter mais técnico e o mercado de trabalho que, dadas às 
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Praça das Três Culturas, na 
Cidade do México.
8686 História ContemporâneaHistória Contemporânea
Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 87
condições de desemprego, não oferecia a todos uma oportunidade, 
mesmo a formação universitária sendo considerável.
A africanidade e a latinidade também ecoaram nesses movimentos. 
Um pensamento vem de Frantz Fanon, imigrante do Terceiro Mundo que 
percebeu que seu corpo era negro, como podemos ver na expressão 
“Oh corpo meu, faz de mim, sempre, um homem que se interrogue!” 
(FANON, 1979, p. 192). Fanon chegou a Paris na década de 1960 e, nesse 
contexto, começou a debater sobre a ideia de um corpo racializado, re-
sultado de uma colonialidade. Sua ideia de desobediência epistêmica 1 
veio por meio do conceito de sociogênese, cuja perspectiva central é a de 
que o preconceito racial não surge pela cor, mas pelo mundo social, ideia 
reforçada no contexto de 1960, quando, apesar das conferências como 
a de Bandung e dos movimentos identitários locais e contestadores, ain-
da sentia efeitos na pele devido à sua cor negra. Esse pensamento gera 
ideias de que os negros são seres menos racionais e por isso inferiores.
Assim, se a estrutura social não fosse questionada como um todo, 
brancos e ex-colonizadores continuariam a ter vantagens ocasionadas 
pelo sistema colonial (FANON, 1968). É importante ressaltar que movi-
mentos nacionalistas, como o de Charles de Gaulle, eram também ques-
tionados por Fanon, visto que para ele “o nacionalismo ortodoxo seguia 
pela mesma trilha aberta pelo imperialismo, que, parecendo conceder 
autoridade à burguesia nacionalista, estava na verdade estendendo sua 
hegemonia” (apud SAID, 2011, p. 346). Com base nessa ideia, embora 
haja uma abertura para a liberdade de pensamento, ela ainda poderia 
ser apontada como racista e classista, excluindo os novos sujeitos sociais.
Angela Davis (2016) aprofunda a questão negra e feminista nos anos de 
1960 e 1970 ao analisar a participação das mulheres negras escravas no tra-
balho de campo e no processo abolicionista. Ao fazer tal análise, ela aponta 
como a historiografia anulou a presença dessas mulheres na história, bem 
como designou outros comportamentos e lugares para elas. Além disso, a 
historiografia não analisou ou problematizou a separação que essas mulhe-
res tinham de seus filhos logo que eles nasciam, pois elas precisavam traba-
lhar, nem mesmo o processo de venda desses filhos, o que fazia com que 
fossem apontadas como mulheres reprodutoras, ausentes de feminilida-
de e desconsideradas como pessoas pela própria historiografia. Portanto, 
questões ligadas à estética, à maternidade e, principalmente, às tarefas do 
lar se tornaram cada vez menos importantes e, no caso desta última, sem 
remuneração. A desvalorização das tarefas cotidianas do lar relegou às mu-
Questionamento da 
teoria acadêmica por ser 
eurocentrada.
1
O livro Mulheres, Raça e 
Classe debate questões 
interseccionadas e ligadas 
às opressões direciona-
das a grupos marginais, 
em especial às mulhe-
res, pobres e negras. 
Discute as relações com 
a escravidão, bem como 
o desinteresse proposital 
do Estado em ter políticas 
públicas que busquem 
sanar os problemas e 
não apenas minimizá-los. 
Angela Davis, feminista 
com atuação constante, 
foi também militante das 
Panteras Negras.
DAVIS, A. São Paulo: Boitempo, 
2016.
Livro
88 História Contemporânea
lheres de todas as classes no século XX o papel de donas do lar, diminuindo 
seus direitos trabalhistas, além da sua autonomia.
Importa ressaltar que para mulheres negras e pobres, essa invisibili-
dade é ainda maior. São questões que formam pautas ainda na década 
de 2010, como bem lembra a filósofa Djamila Ribeiro (2017, p. 29-30):
a recusa a um olhar ortodoxo mantém Davis atenta às questões 
contemporâneas, que abarcam desde a cantora Beyoncé à crise 
de representatividade. A discussão feita por ela sobre represen-
tação foge de dicotomias estéreis e nos auxilia numa nova com-
preensão. Acredita que representação éimportante, sobretudo 
no que diz respeito à população negra, ainda majoritariamente 
fora de espaços de poder. No entanto, tal importância não pode 
significar a incompreensão de seus limites. Para além de simples-
mente ocupar espaços, é necessário um real comprometimento 
em romper com lógicas opressoras.
O que Ribeiro (2017) aponta com base na leitura de Davis é o ca-
ráter opressor e presente da escravidão imposta pelo projeto colo-
nizador ainda nos séculos XX e XXI. Davis (2016) propõe pensar em 
direitos reprodutivos, privados e trabalhistas para dar equidade às 
mulheres negras (embora não somente), o que intersecciona ques-
tões de gênero e raça a fim de dar a liberdade da sistêmica estrutura 
colonial existente na América, de modo geral.
Parte dos movimentos feministas e negros que surgem com ativis-
tas, como Angela Davis, estão relacionados aos direitos civis, além de 
expressarem uma crítica política e trabalhista (especialmente ao modelo 
fordista). Eram comuns nesse contexto manifestações, greves e ações 
sindicais, envolvendo o tema de direitos políticos de negros, como o caso 
simbólico de Rosa Parks – a mulher negra que se recusou a levantar-se de 
seu banco de ônibus para dar lugar a um homem branco – e as campa-
nhas de conscientização racial de Martin Luther King. A segregação racial 
passou a ser pauta intelectual e política, interseccionada por elementos 
em um contexto de profundas mudanças da contemporaneidade.
As causas dessas mudanças são desdobramentos da memória da Se-
gunda Guerra Mundial, das transformações de 1968, de ações diretas 
dos movimentos negro e feminista, das ditaduras civis militares etc., ou 
até mesmo de conceitos como os de identidade e de patrimônio que se 
tornaram comuns para os novos e velhos espaços de museus, arquivos e 
centros de memória, e para a própria concepção de conceito e de histo-
Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 89
riografia no Brasil e na América Latina. No Brasil, a disputa pela memória 
se deu mais no terreno da Comissão Nacional da Verdade, fundada em 
2011, e nas discussões teóricas acadêmicas.
Assim, o trabalho dos historiadores se ampliou, visto que são neces-
sários também nesses espaços, deixando de ser exclusivos do ambiente 
acadêmico. Foi diante dessas novas pautas, envolvendo temas como os 
estudos de gênero e de movimentos sociais, que se formou uma cons-
ciência na classe historiadora: a de que nossa função é também política, 
pública e de ordem pragmática. Para além de sermos teóricos e inte-
lectuais, também somos agentes. Pensar a partir de novas teorias, as 
quais não apagam as mais clássicas ou utilizadas até então, é permitir 
um olhar multicultural e mais decolonial, tema da próxima seção.
4.4 Decolonialidade do ser 
Vídeo
Pensar quebras de paradigmas e possibilidades de analisar ques-
tões que envolvem a história contemporânea é o objetivo desta seção. 
Por exemplo, a historicidade da América Latina formou um tipo de so-
ciedade com problemas decorrentes do processo de colonização em si. 
É importante mencionar que por historicidade se entende a trajetória 
de um conceito, nesse caso, o da América Latina, ou seja, como ela se 
formou, em que contexto histórico foi definida a nomenclatura e o que 
ela acarreta e significa no século XXI.
Foi apenas após a Conferência de Bandung (1955) que grupos po-
líticos e intelectuais passaram a pensar que as teorias que explicavam 
suas estruturas – sejam elas sociais, políticas, econômicas ou culturais – 
também eram colonizadoras. Assim, o que tínhamos eram “corpos” co-
lonizados, tanto no modo como nos vemos (colonialidade do ser para 
a teoria decolonial) quanto na maneira como nos definimos e organiza-
mos nosso mundo social (colonialidade do poder e do conhecimento).
No entanto, antes do debate do grupo de Bandung é preciso lembrar 
acontecimentos e teorias decorrentes dele que afetam a historiografia, 
como a crise dos modelos universalistas cuja epistemologia tem um lugar 
que, em geral, é regional e europeu, bem como o surgimento de uma teo-
ria pós-colonial. Essa crise desterritorializou sujeitos e suas pautas identitá-
rias, e gerou reivindicações por novas temporalidades e reconhecimento de 
uma diversidade étnica (PEREIRA, 2018). Os novos comportamentos geraram 
90 História Contemporânea
perspectivas múltiplas de memória, que questionaram as heranças coloniais 
homogeneizantes, isto é, responsáveis pela marginalização de comporta-
mentos que sobressaíam ao eixo dominador, branco, cristão e europeu.
Esse modelo dominador não é só instituído no mundo social, mas é 
próprio da historiografia também, visto que a História é uma disciplina 
de origem europeia.
No caso do Brasil, também é possível considerar as ideias de Rodrigo 
Turin (2018) que defende o diálogo horizontal, ou seja, como iguais, com 
os coletivos de memória e, em especial, a desconstrução de uma narrativa 
oficial de passado. Frisamos que não se trata do uso neoliberal de um 
mundo multicultural, flexível, produtivo etc. que influencia até mesmo o 
campo educacional, mas do uso de perspectivas baseadas em característi-
cas que questionam o que é de historicidade colonial, patriarcal e branca.
O sentido da História e de seu objeto de pesquisa, as sociedades e a 
relação com o seu tempo e espaço passaram a buscar uma perspecti-
va ética condizente com o contexto. Para tanto, revisões bibliográficas, 
seja à luz de teorias da história global, da história decolonial (de origem 
latino-americana nos anos 1990), pós-colonial etc., são necessárias.
O pós-colonialismo é a teoria que intelectuais começaram a debater 
após a descolonização da Ásia e da África. Por volta da década de 1960, 
as discussões eram sobre o futuro desses países para além de ques-
tões econômicas e políticas, isto é, eram também sobre como quebrar 
as relações e pressões vistas como negativas pelos seus antigos colo-
nizadores. A principal diferença para a teoria decolonial é que não se 
questiona em geral a epistemologia do pensamento pós-colonial, em 
que os intelectuais poderiam ter formação, serem oriundos ou até de-
fenderem a relação próxima com os colonizadores. A teoria decolonial 
sugere uma quebra de pensamento e de relação com os colonizadores.
O que se tem de centro nesse pensamento é o debate sobre cidadania, 
direitos humanos, individualismo, igualdade, sujeitos sociais e civis à luz de 
uma teoria que é também europeia (o historicismo) e que deve ser ques-
tionada por meio de uma história local que substitui os centros da Moder-
nidade. O historiador Chakrabarty (2008) defende que a ideia de processo 
conduz uma discussão cujo cerne é uma experiência histórica abstrata que 
está nos centros, por isso outros lugares que também desejassem estar 
nesse processo, que é o modelo de modernidade europeu, precisariam se 
apropriar dele, mesmo que de maneira inferior ou atrasada.
Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 91
O historiador Fernando Nicolazzi (2019), em seu texto Culturas de pas-
sado e eurocentrismo: o périplo de tláloc, contribui com a perspectiva, com 
base na ideia de Eclea Bosi, sobre haver uma dimensão temporal nas no-
ções de cultura. Nesse caso, cultura é sempre um resultado de práticas 
ou existência de memórias sobre algo, como a própria ideia de que cultu-
ra é um trabalho que se “dá na terra”. Assim, a memória é construída na 
relação entre tempo e práticas, mas sempre em processo de reinvenção 
e rememoração. Com isso, Nicolazzi (2019, p. 27) compreende que “pen-
sar sobre as culturas de passado, no sentido de um cultivo simbólico de 
experiências pretéritas, permite, inclusive, atentarmos para os próprios 
usos da história que fazemos e que são feitos na sociedade”.
Portanto, para Nicollazi (2019), as culturas do passado são um artefato 
cultural com regimes de produção e de regulação em cada sociedade, em 
cada tempo. O sujeito percebe o que tem de cultura quando analisa sua 
própria prática dentro de um espaço temporal e, da mesma forma, a re-
lação entre passado,presente e futuro são culturais. O passado ganha as-
sim um caráter performativo e plural, podendo ser mobilizado em lugares 
e contextos diversos como performances particulares. O historiador usa 
como exemplo o Périplo de Tláloc, um monólito sem sentido para uma 
comunidade camponesa mexicana até os anos 1960, quando uma polí-
tica nacionalista memorial e patrimonial elegeu a pedra como elemento 
significativo para culturas mesoamericanas. Além do debate arqueológi-
co sobre a qual deus se referia e qual a sua posição ideal (se vertical ou 
horizontal), a pedra que antes servia para acúmulo de água à população 
local passou a ser vista como representante de uma etnia que até aquela 
década era desconhecida ou negada por aquela população. 
Lembramos que a própria ideia de América Latina é resultado de um 
debate intelectual com a participação de poucos intelectuais que não se 
identificavam com os princípios europeus. Para Farret e Pinto (2011, p. 31):
a construção do nome deixou na penumbra e no esquecimento 
qualquer tentativa de valorizar os povos autóctones, indígenas 
ou negros. Sempre da perspectiva europeia, a América Latina foi 
se estabelecendo no mundo ocidental moderno como periferia, 
inferiorizada e explorada.
Quando latina deixou de ser um adjetivo e passou a ser substanti-
vo, isso ocorreu sob uma estrutura política e intelectual europeia. Sua 
posição era de inferioridade a esse continente e aos Estados Unidos, 
demonstrando que a disputa em relação ao termo estava condicionada 
A animação Pachama-
ma se passa em uma 
comunidade andina, cuja 
vivência cosmológica com 
a natureza é evidenciada 
por meio da trajetória de 
um menino que busca 
encontrar uma estatueta 
sagrada pela Cordilheira 
dos Andes.
Direção: Juan Antin. França; 
Luxemburgo; Canadá: Folivari; O2B 
Films; Doghouse Films, 2018.
Filme
92 História Contemporânea
aos efeitos da Doutrina Monroe, a qual apregoava que a América era 
para americanos e não para servir aos interesses de outros continen-
tes, ao mesmo tempo que características dos povos nativos e negros 
eram ignoradas. Apesar disso, ainda no século XIX, intelectuais como 
Francisco Bilbao (2014) questionavam essa intromissão europeia e 
norte-americana e defendiam a liberdade política e de pensamento da 
América Latina. Para ele, o individualismo, o modelo de república, o 
capitalismo e o protestantismo dos Estados Unidos eram suficientes 
para não desejar o seu modelo político, porque este se sobrepunha 
aos modelos de povos originários – que já haviam sido atacados pelo 
cristianismo português e espanhol. Para Bilbao (2014, p. 94-95):
Mas a América vive, a América Latina, saxã, e indígena resistente, e se 
encarrega de representar a causa do homem, de renovar a fé do co-
ração, de produzir enfim, não repetições, mais ou menos teatrais da 
Idade Média, com a hierarquia servil da nobreza, senão a ação per-
pétua do cidadão, a criação da justiça viva nos campos da República.
Bilbao (2014) expõe uma crítica à influência europeia de modo geral, 
mas demonstra que aceita república como se o termo oferecesse um 
novo marco para os povos que eram e formaram a América Latina. 
O termo latina passa a ser um sinônimo disso, e não apenas das línguas 
europeias mais antigas.
A dificuldade em definir a América Latina, em pensar a própria di-
versidade dessa região para além da colonialidade, é potencializada 
por consequências da própria colonização. Uma das ideias centrais 
para os decoloniais como Anibal Quijano (2005, p. 122) é o conceito de 
raça. Para ele, é decorrente de uma premissa, a de que:
a civilização moderna se autocompreende como mais desenvol-
vida, superior (posição ideologicamente eurocêntrica); a superio-
ridade obriga a desenvolver aos mais primitivos, rudes, bárbaros, 
como exigência moral; como o bárbaro se opõe ao processo civi-
lizador, a práxis moderna deve exercer em último caso a violên-
cia para destruir os obstáculos de tal modernização.
O mundo só se tornou moderno a partir da construção histórica dos 
colonizados, cujos princípios se fundamentaram na exploração capi-
talista que formou um mundo globalizado e com o trabalho braçal de 
negros e indígenas. Assim, a América, com sua matéria-prima e força 
de trabalho, é o que potencializou a globalização e o que condicionou 
a existência da Europa como centro civilizador do mundo, ao mesmo 
Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 93
tempo que um dos principais fundamentos foi a ideia de que existem 
raças superiores e inferiores 2 . Em nome dessa superioridade baseada 
em uma ideologia sem fundamento, a violência também era justificada. 
É preciso considerar que princípios como esses tornaram racistas as 
estruturas das sociedades daquele contexto até o século XXI.
Esse período, de 1500 a cerca de 1900 (a independência cubana foi 
em 1898), estrutura uma supremacia racial inventada por meio da ocu-
pação da América pelos europeus, de modo que “poder” e “ser” seriam 
organizados até o século XXI. A despeito disso, nossa sociedade tem 
memória social e questiona esses efeitos com os quais convive.
Desse modelo, algumas das consequências são a concentração de 
terras ainda no período colonial, que se estende ao nosso contexto, e 
perspectivas dualistas como defender ora um sistema europeu, ora não 
europeu, ora pré-capital, ora capital, sem considerar o que é próprio do 
mundo social que se constitui na América Latina. Qualquer ideia ligada a 
um evolucionismo linear ou a uma temporalidade unidirecional anula as 
múltiplas formas de resistência e de herança do que era próprio desta 
região. Anular as diferenças é invalidar a forma como os efeitos de con-
ceitos como raça e etnia foram naturalizados (QUIJANO, 2005).
A perspectiva dualista é sempre de comparação ao que é europeu e, 
consequentemente, àquilo que também não é, ou seja, visto como inferior 
e ligado a uma ideia de raça e até de latinidade, se considerarmos os dias 
atuais. É importante ressaltar que essa dualidade também se dá de modo 
diverso na América Latina, devido à proporção territorial. Na Argentina, 
por exemplo, onde parte significativa das terras foi conquistada e organi-
zada por governos oligárquicos pouco democráticos até o século XIX, essa 
situação permaneceu até depois da Segunda Guerra Mundial.
Nos últimos 25 anos do século XVIII, o número de imigrantes euro-
peus era alto na Argentina e países vizinhos, como o Chile e o Uruguai, 
mas essa configuração social, com o reconhecimento e interesse de 
um mercado mundial, só ocorreu a partir do século XVII, pelo fato de 
estarem mais ao sul (QUIJANO, 2005). Diferente do Chile e do Uruguai, 
devido a essas condições territoriais, a diferença étnica na Argentina 
era maior e, apesar disso, a herança histórica latino-americana era ne-
gada, bem como a relação com a população indígena.
É importante ressaltar que países como México, Argentina e Chile 
têm reconhecimentos e trajetórias diferentes em relação aos povos 
Termos como mameluco, 
pardos, negros, morenos, 
isto é, institucionalmente 
reconhecidos ou mesmo 
populares são decorren-
tes em um primeiro mo-
mento dessa demarcação 
racial colonial.
2
94 História Contemporânea
originários, mas em todos as diferenças demarcadas social e cultural-
mente são visíveis, bem como presenciam movimentos populares con-
tundentes no século XXI. Em relação ao México, a pretensa valorização 
do Périplo de Tláloc tem um interesse patrimonial memorialista e tu-
rístico, o que não representa necessariamente uma valorização dos in-
dígenas atuais, mesmo quando são reconhecidos como descendentes 
daqueles aos quais se refere esse lugar de memória.
Desse modo, com base em Walter Mignolo (2005), lembramos que 
desde a conquista e ocupação da América passamos por processos eu-
rocêntricos: cristianização, colonização, civilização e modernização que 
sobrepuseram elementos do Ocidente ao Oriente, do Hemisfério Norte 
ao Sul. No século XXI, outras consequências disso vêm da globalização 
neoliberal que:
evocaa imagem de um processo indiferenciado, sem agentes 
geopolíticos claramente demarcados ou populações definidas 
como subordinadas por sua localização geográfica ou sua po-
sição cultural; oculta as fontes de poder altamente concen-
tradas das quais emerge e fragmenta as maiorias que atinge. 
(MIGNOLO, 2005, p. 58)
Embora saibamos que diversidades étnicas, raciais e de gênero têm 
sido pautas de inúmeros movimentos na América Latina, como resposta a 
esse processo colonizador, é preciso considerar novamente a historicida-
de da América Latina e suas transformações no período contemporâneo. 
Esses grupos ameríndios, por exemlo, resultam de inúmeros que foram 
escravizados, mortos, que fugiram ou foram transplantados aqui (como 
os oriundos do continente africano). Além disso, não podemos anular o 
fato de falarmos línguas latinas, afinal, essa é a nossa forma de comunica-
ção mesmo que ela seja fruto de uma prática colonial violenta e repleta de 
uma cultura de supremacia.
Mignolo (2017) sugere o “pensamento fronteiriço” como o compor-
tamento do historiador (e de latinas e latinos) para pensar as trans-
formações no sul global em nossa contemporaneidade, os corpos 
racializados, o lugar de enunciação do ser e do poder, bem como a 
relação de corpo-objeto a corpo-sujeito. Para ele, estar na fronteira é 
também estar sujeito e disponível para nos desprender do que pen-
samos ser nossas raízes e fazer novas perguntas sobre como se deu a 
organização e a construção da América Latina (MIGNOLO, 2017).
ameríndios: indígenas 
nativo-americanos.
Glossário
Guerra Fria, descolonização e a geração 1968 95
Essa perspectiva é diferente de Bilbao, que em seus escritos no sécu-
lo XIX reconhecia que a afinidade de origem e cultura colaboraria para 
formar uma república. Trata-se de compreender o quanto uma ideia ho-
mogeneizante apaga a diversidade característica da América Latina, e de 
refletir o pensamento fronteiriço que é estar nesse lugar de colonizado, 
adquirindo consciência de suas características identitárias originárias.
Como uma das respostas de influência decolonial há a ideia de uma 
ecologia dos saberes, ou seja, formas de conhecimento que não são ba-
seadas apenas na tradição iluminista ou científica europeia (séculos XVIII-
-XIX). O que temos é a contraposição a uma monocultura sobre como criar 
ou gerar conhecimento, não é dar voz aos marginalizados, mas lugar de fala.
Um acontecimento destacável como exemplo foi o movimento 
chileno de 2020-2022, cuja apropriação da imagem dos Mapuches rei-
tera a necessidade de trazer a ideia do bem viver 3 para a Constituição 
do país, que em 2022 passou a ser discutida em plebiscitos.
científica europeia: 
termo de concepção 
de ciência europeia do 
século XIX.
Glossário
O bem viver é a ideia de 
que é necessário viver em 
harmonia e reciprocida-
de com os elementos 
naturais.
3
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Tanto os estudos decoloniais quanto os pós-coloniais vêm colaborando 
para apreender as transformações globais e como elas acarretaram novos 
comportamentos e formações geopolíticas durante o século XX. Apesar da 
distância temporal, essas teorias e acontecimentos têm diversas relações 
com o nosso tempo e continuam afetando o modo como percebemos a sua 
organização, e até a própria ideia de globalização e suas consequências.
De um mundo de impérios passamos a um mundo de blocos políticos, 
econômicos etc. Novas relações de poder surgiram, assim como agências 
sociais questionando noções de comportamento, performances culturais 
e novas perspectivas de alteridade e de como viver em relação às diferen-
ças étnicas, sociais, de gênero, raciais e ambientais.
ATIVIDADES
Atividade 1
Cite aspectos apontados como indicadores de que a bipolarização 
do mundo estava começando no período logo após a Segunda 
Guerra Mundial.
96 História Contemporânea
Atividade 2
Explique a importância da Conferência Ásia-África ocorrida em 
1955, na cidade de Bandung, para o contexto da Guerra Fria.
Atividade 3
Caracterize e conceitue a sociogênese de Frantz Fanon.
Atividade 4
A teoria decolonial é mais uma forma de construir uma narrativa 
plural dos acontecimentos da história. Caracterize três elementos 
que representam princípios para aqueles que escolhem ter um 
pensamento mais decolonial.
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TURIN, R. Entre o passado disciplinar e os passados práticos: figurações do historiador na 
crise das humanidades. Revista Tempo, v. 24, n. 2, 2018.
https://unric.org/pt/descolonizacao/
98 História Contemporânea
5
Crises socialistas
As experiências têm historicidade e formam um emaranhado de re-
lações, nem sempre concomitantes e diretas. Contextualizar o que é po-
pulismo, suas características e sua relação com as ditaduras civil-militares, 
fomentadas diretamente pela disputa que se dava com a Guerra Fria, per-
mite entendermos como a política contemporânea vem se construindo por 
meio de interesses econômicos que passam pelas diferenças de classe, etnia 
e até de gênero, sempre em detrimento das influências também internas.
A partir dos anos 1980, além das ditaduras civil-militares na América 
entrarem em processo de abertura política, a União Soviética começava a 
ter sinais evidentes de desgaste, assim como houve o fortalecimento de 
blocos econômicos e uma política neoliberal globalizada. Novas regras do 
mundo trabalhista, de corporações e a queda do Muro de Berlim transfor-
maram o fim do século e a contemporaneidade.ao voto.
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O Palácio de Versalhes 
é a maior representação 
do poder absolutista da 
França e, talvez, da pró-
pria Europa. Tanto ele 
quanto os núcleos mais 
urbanos e rurais viram 
cabeças rolando e barri-
cadas sendo construídas 
por camponeses.
Saiba mais
O começo de um século efervescenteO começo de um século efervescente 1111
12 História Contemporânea
Com a crise econômica do período que derrubou a família real que 
ocupava o poder em 1789 – os Bourbon –, houve grande insatisfação de 
algumas classes. Essa classe se mostraria insatisfeita com a ordem bur-
guesa pós-revolução e formaria o que entendemos como novo proleta-
riado industrial (HOBSBAWM, 2010). Não menos importantes que a nova 
classe trabalhadora foram os ares de novas sociabilidades e circulari-
dade cultural e social, visto que, após a Revolução Francesa, estudantes 
e trabalhadores liberais – como advogados, médicos, sapateiros, peque-
nos comerciantes etc. – chegavam aos centros das cidades colaborando 
para gerar novas práticas identitárias nacionais.
Portanto, não podemos reduzir o mundo social que emerge após a Re-
volução a uma divisão entre o iniciante operariado e a burguesia alta mais 
tradicional. É um contingente de acontecimentos variados que mudariam 
o mundo pela derrubada do absolutismo 2 como era representado e, es-
pecialmente, pelo modo como o conceito de liberdade foi apropriado e 
disputado a partir daquele período, um conceito decorrente de lutas de 
camponeses e trabalhadores urbanos advindos do Antigo Regime.
Nesse sentido precisamos considerar, a despeito da interferência 
e da importância dos movimentos burgueses, o que a historiadora 
Lynn Hunt reitera sobre a ideia de que os movimentos sociais após a 
chegada de Napoleão Bonaparte ao poder eram compostos de inú-
meros segmentos sociais, como parte da burguesia, dos militares e 
da própria plebe.
Nessa perspectiva, as discussões do que se tornou mais conhecido 
como política de esquerda (HUNT, 2007) foram as que mais envolveram 
os grupos marginalizados até então, incluindo a pequena burguesia. 
Mais que isso, a historiadora afirma que a presença de lojas maçôni-
cas e as relações estabelecidas por casamentos colaboraram com as-
pectos culturais determinantes para as novas práticas econômicas e 
sociais. Neste cenário de desigualdades, eclodia uma revolução conhe-
cida como o Grande Medo, conduzida por artesãos, pela alta burguesia, 
por camponeses com terras e participações populares – camadas re-
volucionárias mais ou menos abastadas – que perseguiram, pilharam 
e mataram por toda a França, em busca de vingança da aristocracia e 
nobreza, bem como para diminuir a fome que assolava o país.
O novo contexto pós-revolução não apagou as diferenças sociais e 
que se tornariam de classe após a tomada de consciência dos grupos 
O absolutismo foi um 
sistema político da Europa 
(séculos XVI a XVIII) em que 
o soberano era a represen-
tação do próprio Estado.
2
Napoleão Bonaparte 
(1769-1821) foi um líder 
militar que fez parte do 
governo francês durante 
o Consulado, no fim da 
Revolução Francesa, e 
como imperador do país 
entre 1804 e 1814.
Biografia
O começo de um século efervescente 13
mais populares no que pese a Declaração dos Direitos do Homem e do Ci-
dadão – documento criado em 1789 –, cuja promessa era de que: “todos 
os homens nascem iguais e vivem iguais perante a lei” (HOBSBAWM, 
2010, p. 106). Esse documento evidenciou uma perspectiva de direito 
contra privilégios para os nobres, mas que acabou sendo reformulada 
em novas configurações, a fim de favorecer burgueses em uma demo-
cracia liberal que permite a continuidade das diferenças sociais.
O último rei absolutista francês foi Luis XVI, guilhotinado em 1793, 
alguns anos após o início da Revolução. Com sua morte, ocorreram 
diversas disputas, especialmente durante a Convenção Nacional 
(1792-1795), onde jacobinos e girondinos protagonizaram as discus-
sões. Os jacobinos, chamados também de pequena burguesia e apoia-
dos pelos sans-cullotes (artesãos e pequenos comerciantes sem muitas 
posses), tornaram-se conhecidos por apresentarem propostas educa-
cionais, regulamentação de impostos especialmente para classes mais 
abastadas e frisarem os lemas da Revolução. Devido ao caráter dita-
torial e de perseguição, esse grupo se enfraqueceu, dando lugar aos 
girondinos, representantes da alta burguesia e apoiadores de uma de-
mocracia liberal (HOBSBAWM, 2010).
Foi nesse contexto que Napoleão Bonaparte se tornou Imperador 
em 1804, após liderar o exército fortalecido pela política girondina. 
Como resultado, havia espólios das pilhagens realizadas por diversos 
países da Europa. Bonaparte, ao subir ao poder, criou o Consulado 
(conselho composto da figura de cônsules), cujo poder era dividido por 
três líderes, sendo Bonaparte um deles. Industrializou parte do país, 
criou o Banco da França e promoveu políticas educacionais pensan-
do em uma formação nacionalista, porém dentro do que é entendido 
como economia liberal (HOBSBAWM, 2010). É importante ressaltarmos 
o aspecto nacionalista, pois tanto Napoleão quanto suas invasões pro-
movidas em nome do “território francês” são exemplos de medidas de 
controle aos outros, a fim de serem evitadas.
Ainda no que diz respeito ao período do Consulado, Bonaparte criou 
o Código Civil Napoleônico, documento que abordava questões de di-
reito civil. Por meio desse documento a democracia liberal foi regula-
rizada, visto que Bonaparte reforçava a ideia de igualdade entre todos 
(HOBSBAWM, 2010). No entanto, o mesmo escrito permitia que a pro-
priedade privada fosse naturalizada, anulando a diferença social e de 
classe que existia antes da Revolução, mas que acabou sendo reforçada.
Importante ressaltar que 
a Revolução Francesa é 
um processo de ao me-
nos dez anos, complexo e 
definido por etapas, como 
a Convenção Nacional, o 
Diretório e o Consulado.
Importante
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14 História Contemporânea
Não menos importante sobre o governo de Bonaparte foram seus 
atos de intolerância em relação aos clubes – que funcionavam como 
confrarias – e às organizações sindicais, que foram proibidas. Desse 
modo, ele manteve o apoio popular controlado, pois, apesar de não 
permitir que a sociedade tivesse oficialmente instituições de resistên-
cia a ele, ainda promovia plebiscitos (HUNT, 2007).
Bonaparte se manteve no poder até a perda de batalhas que não 
permitiram mais a sua permanência, mesmo com o seu nome reco-
nhecido. Com a sua saída, em 1814, os Bourbon voltaram ao poder na 
figura de Luis XVIII, o que desgastou a imagem revolucionária promovi-
da pela Revolução Francesa.
Após a derrota de Bonaparte em Waterloo (1815) e o Congresso de Vie-
na, a França voltou a ser como era em 1789, e a burguesia, junto ao retorno 
dos Bourbon, dimensionou na política diversos de seus interesses. Além dis-
so, é importante considerarmos que cinco grandes potências relacionadas 
a acontecimentos daquele século ganharam notoriedade nesse período: 
a Grã-Bretanha, a França, os Estados Unidos, o Japão e a Rússia. No que 
diz respeito a uma história social, no entanto, foram as revoluções de 1848 
(também conhecida como Primavera dos Povos) e de 1870 que abalaram 
esse período de incertezas e definições ocasionadas pelas próprias condi-
ções da Revolução Francesa. Esse é o nosso próximo tema.
1.2 Revoluções de 1830-1848 
Vídeo Eric Hobsbawm (2010) divide a primeira metade do século XIX em 
três ondas revolucionárias pelo mundo: a de 1820, de 1830 e de 1870. 
A primeira teria ocorrido entre 1820 e 1824, envolvendo países como 
Espanha, Itália e Grécia. Na América houve a independência de vários 
países, começando pela Grã-Colômbia, por homens como Simon Bolívar 
e San Martin. Na segunda onda, houve a independência da Irlanda (1829) 
em relação à Inglaterra e, após a derrubada dos Bourbon na França, a 
Bélgica tornou-se independente da Holanda em 1830.
Essas revoluções, além deNa América Latina persistem discussões de cunho neoliberais que tangen-
ciam políticas mais ligadas a uma influência de esquerda. Embora exemplos 
como Venezuela e Cuba sejam os mais ouvidos, e muitas vezes de modo pe-
jorativo, diversos países experimentaram nos últimos anos uma renovação 
política, como ocorreu na América do Sul com o Equador. As transformações 
contemporâneas vêm colocando em discussão formas de conhecimento e no-
vos acordos políticos, como estratégias de realocação no mundo globalizado e 
decorrente de uma Guerra Fria que envolveu boa parte do globo.
Com o estudo deste capítulo, você será capaz de:
• contextualizar as experiências políticas próprias da América Latina 
e suas relações com o mundo contemporâneo;
• pensar sobre as rupturas do mundo socialista em relação à 
globalização;
• estudar as consequências de um mundo polarizado e as mudan-
ças políticas;
• refletir sobre o imperialismo norte-americano na América Latina e 
os desdobramentos políticos de Cuba e Venezuela.
Objetivos de aprendizagem
Crises socialistas 99
5.1 Do populismo às ditaduras 
na América Latina Vídeo
São muitas as experiências que geram governos populistas, ou seja, as 
tendências desses governos podem ser diversas, mas com características 
comuns. A diversidade do tema necessita ser contextualizada e problema-
tizada. De modo geral, o populismo pode envolver uma crise da hegemo-
nia classista, o desgaste de uma oligarquia, o crescimento da indústria que 
gera empregos e a urbanização com novas sociabilidades junto aos proces-
sos migratórios que estão relacionados aos fenômenos populistas.
Uma característica populista é a criação de políticas sociais que 
atendam às demandas de grupos menos favorecidos e mais excluídos 
historicamente das políticas públicas. Junto disso, podemos considerar 
o nacionalismo como uma prática que busca ressaltar e destacar toda 
a cultura identitária do país. Essa valorização também se dá em relação 
à economia local, no entanto nas variações de governo populista há 
governos que se colocam contra a intervenção estrangeira, como é o 
caso da Venezuela, da Rússia no início do século XIX e até do Brasil, 
enquanto outros, como a Argentina, relutam menos.
Eric Hobsbawm (1995) afirma que o populismo presente na História 
Contemporânea desde o século XIX não é significante pelo que realizou, 
mas sim pelas mobilizações e agitações revolucionárias que causou. Para 
o autor, o primeiro marco foi a derrubada do czarismo na Revolução 
Russa, influenciada por movimentos populares no século XIX, como o 
Narodnaia Volia (1879-1884), um grupo socialista e de caráter populista.
Sobre o Narodnaia Volia, Cilia (2017, p. 14-15) afirma que “a influência 
do anarquismo e a dura repressão do governo czarista empurraram os 
narodniki para a clandestinidade e eventualmente para o terrorismo (cul-
minando com o assassinato do Czar Alexandre II em 1881)”. Lenin, líder 
da Revolução Russa, era irmão de um dos responsáveis pela influência 
dos princípios do movimento no Partido Socialista Revolucionário. Após 
o assassinato de Alexandre II, os líderes do grupo foram mortos e/ou 
condenados. Segundo Cilia (2017), o que impediu, no fim da década de 
1890, um curso mais positivo para o Narodnaia Volia foi uma relação 
mais intrínseca entre os setores produtivos do campo e da cidade.
Antes disso, nos Estados Unidos, uma divisão interna no Partido De-
mocrata em 1827 ocasionou a criação do Partido Populista, de caráter 
hegemonia classista: 
predominância de uma 
classe social.
Glossário
100 História Contemporânea
socialista, que opunha pequenos produtores do Oeste e do Sul do país 
ao governo federal por defender interesses monometalistas, sistema 
que protege a modalidade única de um país na forma de metal. Além 
de questionar o sistema econômico, o Partido Populista também pedia 
eleições diretas para presidente e senadores (RODELAS, 2017).
O que percebemos em contextos tão diversos é que há a presença de 
uma liderança carismática, em que o líder é adorado e respeitado não por 
suas ações, mas por sua imagem e pela ideia de que pode mudar o cenário 
político-econômico – um dos motivos pelo qual pode ocorrer um ataque às 
instituições políticas. Essa presença é também um dos elementos que per-
mite comportamentos arbitrários e cria laços de identificação profundos.
Dessa maneira, o uso da propaganda por diversos meios de comu-
nicação é comum, especialmente voltado às massas. O que notamos é 
que em muitos casos o populismo apresentou poucas mudanças trans-
formadoras radicais no mundo social, isto é, privilégios sociais tendem 
a ser mantidos para aqueles que já os possuem.
A historiadora Angela de Castro Gomes (2017) frisa que o populismo 
é uma política de massas, ligado ao crescimento do operariado ou da 
industrialização, em que os trabalhadores não se organizam de manei-
ra proporcional ao tamanho das classes, por isso uma classe com mais 
pessoas não tem o peso que poderia ter. No entanto, devido ao aumen-
to desses grupos de trabalhadores, aqueles que sempre estiveram no 
poder se sentem ameaçados pelas mudanças e percebem que preci-
sam do apoio desses trabalhadores. É nesse quadro que surge a figura 
carismática, correspondente aos interesses diversos e que parece tra-
zer paz aos conflitos sociais que emergem das massas (GOMES, 2017).
Nos casos brasileiro e argentino, o Estado passa a ser representado por 
Getúlio Vargas e Juan Domingo Perón, sendo este algumas décadas depois 
de Vargas. No Brasil, ao mesmo tempo que Vargas mantém uma imagem 
carismática, a pluralidade democrática diminui pelo caráter autoritário. Isso 
ocorre especialmente após 1937, quando é instituído o Estado Novo, pe-
ríodo em que Vargas assume com o argumento de que comunistas toma-
riam o poder e outorga uma nova Constituição. Segundo o cientista político 
Otávio Ianni (1975), há um incentivo à organização sindical vinculada ao 
Estado, fazendo com que os trabalhadores, para receberem seus direitos, 
fossem obrigados a se afiliarem a esses sindicatos. Com isso, os sindicatos 
que eram autônomos acabavam perseguidos ou marginalizados.
Crises socialistas 101
O que Ianni (1975) destaca é a ação de Vargas de só permitir que a 
lei com novos direitos trabalhistas – a Consolidação das Leis Trabalhistas 
(CLT) – fosse implementada para o trabalhador sindicalizado nos sindi-
catos organizados pelo próprio Estado, o que diminuiu a autonomia do 
próprio sindicato e, por consequência, do movimento trabalhador. Assim, 
o Estado toma para si o cooperativismo e mantém sob sua visibilidade e 
controle a mobilização das massas, tornando esses dois grupos (a ideia do 
sindicato do Estado e as massas) um conjunto, e não mais duas instâncias 
de um contexto democrático. A unanimidade, nesse caso, é sinônimo de 
um governo populista autoritário que, frente ao crescimento industrial e a 
uma propaganda nacionalista, neutraliza as massas.
Tanto na Argentina quanto no Brasil havia um apelo às massas com 
respaldo dos sindicatos. Diversos departamentos e institutos foram 
criados para gerar uma comunicação eficiente e convencer os lide-
rados, tanto no mundo industrial quanto no agrícola. As pautas mais 
comuns na política eram intervenções e críticas ao liberalismo econô-
mico, com o argumento de melhorar a distribuição de renda.
No caso de Vargas, uma política nacional-desenvolvimentista, com 
a criação de várias empresas estatais ainda no fim da década de 1930, 
recebe destaque nacional e cria empregos necessários, superando o 
modelo agroexportador (FONSECA; HAINES, 2012). Já para a Argentina, a 
distribuição de direitos sociais desde a primeira fase de Perón na década 
de 1950 é o destaque, diferente da política nacional-desenvolvimentista.
Esse modelo de governo baseado no nacional-desenvolvimentismo 
na América Latina, tanto para Perón quanto para Vargas, é sustenta-
do até o início dos anos de 1960 quando o crescimento econômico e 
industrial sofreu estagnação, fazendo com que a distribuição dosre-
cursos sociais também fosse repensada e disputada entre as classes. 
Ianni (1975) ressalta que a inflação foi um dos motivos para que a crise 
se tornasse mais profunda, especialmente quando João Goulart lançou 
a proposta de Reformas de Base, a fim de estruturar a industrialização 
e diminuir a importação, que de fato poderia distribuir os recursos pú-
blicos de maneira mais igualitária e pautada às demandas de direitos 
civis e trabalhistas. Essas demandas foram decorrentes dos movimen-
tos operários e sindicais que voltaram a crescer a partir dos anos 1950.
Das massas trabalhadoras à Guerra Fria que estava no seu auge no 
mundo, as ditaduras civil-militares do Cone Sul 1 da América do Sul se 
O Cone Sul engloba os se-
guintes países: Paraguai, 
Brasil, Bolívia, Uruguai, 
Argentina e Chile.
1
102 História Contemporânea
tornaram um dos principais laboratórios de disputas entre 
ideias mais neoliberais e comunistas.
Um país liberal e pouco defensor de políticas públicas 
locais era o Chile, mas Salvador Allende, da Unidade Popu-
lar (UP), venceu a eleição presidencialista em 1970 com uma 
proposta socialista. Hobsbawm, quando viajou pela América Latina 
como pesquisador nos anos 1960-1970, teve algumas considerações 
sobre esse novo modelo no Chile:
como a Rússia fez (em 1917), agora o Chile enfrenta a neces-
sidade de iniciar uma nova maneira de construir a sociedade 
socialista. [...] Os pensadores sociais supuseram que as nações 
mais desenvolvidas, provavelmente a Itália e a França, com seus 
poderosos partidos de classe marxista, seriam as primeiras a 
fazê-lo. No entanto, mais uma vez a História nos permite romper 
com o passado e construir um novo modelo de sociedade, não 
onde em teoria seria mais plausivelmente esperado, mas onde 
acontecem as condições mais favoráveis para sua realização. O 
Chile é hoje a primeira nação [...] a realizar o segundo modelo de 
transição para a sociedade socialista. (HOBSBAWM, 2017, p. 358)
A transição do liberalismo para o socialismo não foi pacífica. Lados 
mais ou menos radicais da esquerda nem sempre foram considera-
dos ou contemplados, como o Movimento de Esquerda Revolucionário 
(MER), além de que boa parte dos profissionais liberais e cerca de 30% 
do setor agrário jamais apoiaram Allende. Ainda, para ter apoio da ala 
mais central – os democratas cristãos –, Allende promulgou uma Cons-
tituição, em 1971, que pouco aumentou as políticas públicas.
Além disso, as dificuldades econômicas vindas de influências norte-
-americanas limitaram as ações de Allende, especialmente a criação de 
empregos. Uma grande e longa dívida externa, a importação frequente 
de diversos produtos e uma única forma de vender seu principal pro-
duto – o cobre que estava com preço baixo – foram as condições que 
dificultaram o governo. Países como Peru, Panamá, México e Argentina 
também davam sinais de questionamento do poder de Allende, o que 
fez com que os Estados Unidos buscassem apoiar a oposição – nesse 
caso, os militares – contra o Chile. Esse apoio se dava por meio de in-
fluências políticas na oposição e pelo envio de armas às Forças Armadas 
(HOBSBAWM, 2017). A relação das ideias socialistas com o desenvolvi-
mento de um governo mais socialista de modo democrático era contes-
tada devido aos vários grupos apoiados pelos Estados Unidos.
Em nome de uma prática 
identitária indígena, 
entre elas a Mapuche, 
o povo chileno foi às 
ruas em 2019/2020 para 
reivindicar diversas 
reformas, entre elas a da 
última e válida Constitui-
ção. O argumento é de 
que essa foi fruto dos 
interesses dos militares 
e outorgada no período 
ditatorial.
Disponível em: https://www.
cnnbrasil.com.br/internacional/
entenda-o-que-sera-votado-no-
plebiscito-realizado-no-chile-
neste-domingo-4/
 Acesso em: 22 set. 2022.
Leitura
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https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-o-que-sera-votado-no-plebiscito-realizado-no-chile-neste-domingo-4/
https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-o-que-sera-votado-no-plebiscito-realizado-no-chile-neste-domingo-4/
https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-o-que-sera-votado-no-plebiscito-realizado-no-chile-neste-domingo-4/
https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-o-que-sera-votado-no-plebiscito-realizado-no-chile-neste-domingo-4/
https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-o-que-sera-votado-no-plebiscito-realizado-no-chile-neste-domingo-4/
Crises socialistas 103
Convidamos você a entrar e explorar o museu Museo de la Memoria y de los De-
rechos Humanos, cujo acervo reúne desde objetos a testemunhos do processo 
ditatorial iniciado com a deposição de Salvador Allende, em 1973.
• Disponível em: https://www.memoriasdeexilio.cl/. Acesso em: 17 out. 2022.
Museu
Dentro dos vários aspectos ressaltados neste texto em relação a um 
governo populista, é preciso lembrar que países emergentes, com eco-
nomias menos sólidas, são os palcos principais. Assim, em termos con-
temporâneos, como pensar o que se passou com os Estados Unidos 
no governo de 2017 a 2020, a chamada Era Trump? Um nacionalismo 
exacerbado ou um líder carismático, adorado, que refuta as bases de-
mocráticas e jurídicas e é ovacionado por isso (CILIA, 2017)? Isso acon-
teceu por ideias, em geral distribuídas pelas redes sociais, que parecem 
oferecer soluções fáceis e rápidas para questões complexas, como o 
caso da imigração em direção aos Estados Unidos.
Além de Trump, é possível lembrar que governos extremistas têm 
se levantado em muitos lugares, como na Turquia, Hungria, Holanda, 
Nicarágua, entre outros. Governos assim se apropriam de problemas 
que foram pouco debatidos ou resolvidos – em geral, problemas atra-
vessados por questões racistas, xenofóbicas etc. –, e fazem dessas 
pautas o que uma parcela da população almeja ouvir após anos ou 
décadas sem representação política.
Um caso para se refletir, voltando ao contexto populista, é o da Ve-
nezuela. Maya Margarita López (2016) define o populismo venezuelano 
(embora também caiba em outros contextos) como uma crise hegemô-
nica em que a elite perdeu parte de sua força política, ao mesmo tempo 
que o operariado ou as classes menos abastadas pouco se organiza-
ram como tais.
Em muitos casos, a população também está cansada de uma políti-
ca mais tradicional, pouco redistributiva. Desse modo, um caráter mais 
messiânico e nacionalista, com a promessa de igualdade política e so-
cial, ganha destaque. No caso venezuelano, no fim do século XX e início 
do século XXI, o papel interventor do Estado e anti-imperialista foi visto 
como solução após décadas de um poder neoliberal. O preço alto do 
petróleo na época permitiu que o tom socialista de Hugo Chávez – dito 
bolivariano (LÓPEZ, 2016) – se mantivesse por muitos anos, mesmo 
sem uma reforma profunda entre as classes do país.
https://www.memoriasdeexilio.cl/
5.2 As crises das experiências 
socialistas Vídeo
Em fevereiro de 2022 iniciou-se uma guerra da Rússia com a Ucrânia, 
em que diversos países foram envolvidos por questões de acolhimento 
de imigrantes ou de armamentos. Como consequência dos processos 
migratórios houve xenofobia, estupros, crianças separadas de seus pais 
e milhares de civis mortos. Então como essa guerra se relaciona com o 
fim da ex-URSS, símbolo da experiência socialista do século XX?
A Figura 1 é uma representação do Muro de Berlim. Com esse 
trabalho artístico, é possível imaginar como era a vida dos alemães 
com essa divisão. No entanto, a separação era mais que cultural ou 
simbólica, e seu peso está além dos souvenires ou dos tombamentos 
patrimoniais que existem sobre o tema.
Berlim foi a região dividida pelas potências que ganharam a Segunda 
Guerra Mundial, e foi também nesse contexto que se iniciaram os seve-
ros problemas econômicos na Europa, onde a disputa por um governo de 
tendência socialista ou capitalista se tornou o tema pelo futuro dos países.
Assim, com a Queda do Muro de Berlim em 1989 – que também 
representa a queda da Rússia –, aparentementetinha chegado o fim 
do socialismo ou das tendências socialistas e – acima disso para os 
defensores mais neoliberais – a solução para o crescimento econô-
mico e da globalização nos anos 1990.
Ewa Studio/ Shutterstock
Figura 1
Memorial do Muro de 
Berlim
104104 História ContemporâneaHistória Contemporânea
Crises socialistas 105
Sem dúvida há uma ruptura mundial, porque, embora seja uma his-
tória muito europeia, diversos acontecimentos pelo mundo se deram 
em função da Guerra Fria. A Queda do Muro de Berlim já tem mais de 
30 anos e, apesar dos problemas econômicos enfrentados nos anos 
1990, a ex-União Soviética e atual Rússia é uma potência em relação 
aos recursos naturais, como petróleo e gás natural, além do destaque 
em armas nucleares ao lado da China e dos Estados Unidos.
A Rússia ainda é integrante do Grupo dos 20 (G20), formado pelos paí-
ses mais influentes do mundo, e em 2022 tem Vladimir Putin, já há quatro 
mandatos, como representante. Putin é apontado como o responsável 
pelo crescimento da Rússia, unindo-a ao limitar as guerras separatistas. 
Devido ao caráter heroico de Putin, além da afirmação de que os ucrania-
nos são uma parte étnica do país, a invasão da Crimeia em 2014 foi aceita 
pelo povo russo. Por essa invasão, Putin respondeu por sanções de países 
ocidentais, no entanto, pelo Tratado de Partição 2 (1997), há anos Putin já 
estreitava relações com a Ucrânia por meio de civis e envio de tropas ora 
disfarçadas, ora não. Apesar das sanções, e especialmente a despeito das 
ações da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), o interesse 
pelo gás motivou a inserção russa na Crimeia.
É importante ressaltar que, em 2013, movimentos sociais pediam a 
assinatura do Acordo de Associação da União Europeia 3 com a Ucrâ-
nia. Na época, o presidente Víktor Yanukóvytch não aceitou e pediu 
apoio à Rússia. Por essa razão, Yanukóvytch foi deposto por um golpe 
de Estado apoiado pela OTAN, e a invasão da Crimeia foi uma resposta 
ao avanço da OTAN, depois referendada com polêmica e apoiada pelo 
povo local da Crimeia (97%) (CAMPOS; LOBO; AZEVEDO, 2018).
É possível afirmar que tanto a Rússia quanto os Estados Unidos têm 
interesses econômicos e políticos na região da Ucrânia, ou seja, outros 
países e civis, em especial, podem apoiar a invasão seja por interesse 
ou até por ingenuidade. O caso é que a invasão de 2014 enalteceu mais 
ainda a figura de Putin, dando-lhe respaldo do povo em um primeiro 
momento para a invasão e a Guerra da Ucrânia em 2022.
Essa construção simbólica de quem é Putin está relacionada ao que 
representou Mikhail Gorbachev no fim da década de 1980, visto que 
Gorbachev, pelo fim da Guerra Fria, extinguiu o Pacto de Varsóvia, cria-
do no pós-Segunda Guerra como símbolo da união eslava e socialista 
contra a OTAN. Esse foi o sinal para afirmar que a Guerra Fria havia fi-
Por esse Tratado, a 
Rússia e a Ucrânia podem 
comercializar produtos, 
entre eles armas, pelo 
Mar Negro de modo 
independente de sanções 
e impostos.
2
Esse acordo é um tratado 
entre a União Europeia 
(UE) e um país que não 
pertence à UE, com fins 
de colaboração.
3
106 História Contemporânea
nalizado e que o Muro de Berlim poderia ser destruído. Com essa ação, 
Gorbachev teria “aberto caminho” para os Estados Unidos e, para Putin, 
foi o responsável pela tomada desse espaço de diálogo. É importante 
ressaltar que Gorbachev confiou na promessa dos Estados Unidos e de 
George H. W. Bush de que a OTAN também seria eliminada (CAMPOS; 
LOBO; AZEVEDO, 2018). Bill Clinton, o presidente após Bush, foi res-
ponsável pelo crescimento exponencial da OTAN, além de fomentar a 
separação de grupos que anteriormente pertenciam à ex-URSS.
No entanto, a OTAN continuou atuando e unindo mais países, dimi-
nuindo o espaço que outrora era da Rússia. Isso privilegia os Estados Uni-
dos – e o grupo – em relações comerciais pelos mares, em extração de 
produtos naturais e no crescimento de empresas, cuja origem, em geral, 
é desses países. Trata-se de uma disputa econômica. Sobre esse contex-
to, muitos países foram anexados, como Lituânia, Letônia e Estônia. Na 
reunião da OTAN em Bucareste, capital da Romênia e ex-URSS, em 2008,
a OTAN dava boas-vindas à Ucrânia e à Geórgia, afirmando que 
os dois países se tornariam, mesmo que sem data prevista, 
membros efetivos da aliança [...]. Essa declaração foi reconheci-
da por Moscou como derradeira, tendo-se em vista que Ucrânia 
e Geórgia representavam interesse estratégico fundamental à 
Rússia. Deste modo, seria estrategicamente inaceitável para os 
russos que os dois países integrassem a OTAN, segundo o cál-
culo estratégico russo. (CAMPOS; LOBO; AZEVEDO, 2018, p. 114)
A Rússia, como resposta, fortaleceu fronteiras e grupos considera-
dos minoritários em ambos os países. Logo após a invasão da Ucrânia 
em 2022, a Geórgia e a Moldávia apresentaram candidatura para en-
trar na União Europeia (APÓS UCRÂNIA..., 2022), o que também aproxi-
maria os países de uma candidatura à OTAN.
A União Europeia, por sua vez, defende que a aceitação desses paí-
ses tem por objetivo diminuir a cisão que houve no século XX para, 
com isso, atuarem juntos em questões ligadas à política interna, às 
barreiras tarifárias e de cooperação multilateral (CAMPOS; LOBO; 
AZEVEDO, 2018). A União Europeia vem crescendo junto à OTAN, 
que atualmente está com mais de 30 países.
Crises socialistas 107
OTAN
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ga
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ck
Organização do Tratado do Atlântico 
Norte
Putin se mantém forte na Rússia, apesar das sanções desde 2014, 
por meio da construção de sua imagem em discursos nas redes de co-
municação estatais, das relações econômicas com a China e da nego-
ciação de barris de petróleo, por exemplo. A Rússia não é membro da 
Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), mas negocia 
com os países que são. Além disso, a Rússia busca manter relações 
com países como a Síria, Coreia do Norte, Turquia e Irã que, embora 
não tenham grandes acordos comerciais com o Ocidente, representam 
conflitos em relação ao armamento nuclear e são também “corredores” 
no mapa asiático, o que demonstra interesses geopolíticos para as po-
tências como Alemanha, França, Estados Unidos, Japão e China.
Essas estratégias não são de atuação contra os Estados Unidos ou 
países da OTAN, mas sim de cooperação, visto que a Rússia aceitou 
ficar responsável pelo lixo nuclear do Irã no acordo com os Estados 
Unidos. Ademais, a Rússia e os Estados Unidos estavam contra os mes-
mos grupos terroristas da Síria, e a Rússia ajudou na retirada de tropas, 
incluindo a norte-americana, do Afeganistão em 2021.
108 História Contemporânea
5.3 Rizomas do mundo polarizado 
Vídeo As ditaduras civil-militares na América Latina, bem como em ou-
tros lugares do globo, não foram entraves liderados diretamente pelos 
Estados Unidos. No entanto, a influência norte-americana durante a 
Guerra Fria almejou cooptar forças nesses territórios contra a ex-União 
Soviética, ao mesmo tempo que deixou consequências e influências 
nas escolhas e na própria cultura política.
É importante ressaltar que o neoliberalismo, de imediato, não bene-
ficia apenas a classe dominante dos meios de produção. A privatização 
de empresas nacionais deficitárias ou de nenhuma rentabilidade – seja 
na área de transporte, de comunicação etc.–, a diminuição de impostos 
que ocorre naturalmente e o aumento do consumo – e, com isso, de 
empregos por meio de empresas terceirizadas – permitiram que outros 
grupos ganhassem com a privatização neoliberal acelerada. Essa nova 
forma de se relacionar e produzir alterou as relações trabalhistas, cujos 
acordos coletivos, bonificações e direitos básicos tenderam a diminuir 
e a depender da representação menor dos sindicatos atuais.
Além disso, os antigos modelos substituídos, seja o fordista ou o 
keynesiano, exigiam um acúmulo de matéria-prima, diferente dos prin-
cípios desse “fazer capitalista flexível e rápido”, tanto para aumentar os 
seus lucros quantopela rapidez com que o sistema de transportes ga-
rantia a matéria-prima em caso de necessidade. Essa perspectiva ocor-
reu, principalmente, durante a pandemia de Covid-19 e sua recuperação, 
o que foi motivo de preocupação, visto que a crise econômica acompa-
nhada da alta do dólar, da inflação e dos juros fez com que produtores 
de matérias-primas, especialmente os de base, direcionassem suas mer-
cadorias para quem pagava a mais ou mesmo ficassem com suas merca-
dorias paradas, devido ao medo da recessão (MACEDO, 2021).
Nessa conjuntura, na década de 2010 e, especialmente, após a pan-
demia de 2020, o empreendedorismo, aliado ao uso das redes sociais 
e da tecnologia digital, cresceu exponencialmente. A prática empreen-
dedora tem como característica a relutância com a presença do poder 
público como regulador, e é possível afirmar que até as práticas mais 
terceirizadas e empreendedoras necessitam de uma instituição pública 
que regule e assegure não apenas o mínimo, mas os direitos básicos, 
independentemente de tempos de crise ou não.
deficitárias: com saldo 
negativo.
Glossário
Crises socialistas 109
A existência e a força do Estado são, portanto, um desdobramento das 
disputas entre grupos mais de direita ou de esquerda. Nesse caso, um 
exemplo ligado à América Latina, embora não seja único, é o entrave entre 
o neoliberalismo e as ideias de cunho socialista no governo equatoriano de 
Rafael Correa nas primeiras décadas do século XXI (2007-2017). Por meio 
do Alianza Pais, uma união entre os partidos Pátria Altiva e Soberana, Cor-
rea manteve-se no poder em três mandatos, sendo um deles por meio da 
representação de seu vice (MENON, 2012). O governo intitulava-se como 
um grupo humanista cristão de esquerda, cujos objetivos eram o fortaleci-
mento do Estado contra o que chamavam de desastroso modelo neoliberal 
e a criação de uma Assembleia Constituinte, no lugar do Congresso.
Rafael Correa ficou reconhecido pelo protagonismo da Revolução Ci-
dadã – que tinha como caráter social a ligação à cidadania –, opondo-se à 
intromissão do Fundo Monetário Internacional (FMI), a despeito do qual 
criou a Cooperação Andina de Fomento e o Banco Interamericano. Por 
meio dessas iniciativas buscou fazer o controle estatal do petróleo e a 
contestação da dívida pública em relação ao FMI, assim como questio-
nou a dolarização da economia. No que diz respeito ao FMI, as equipes 
políticas do Equador apresentavam documentos sobre como o órgão in-
ternacional promovia formas de envolvimento e de dívida, a fim de permi-
tir que agências internacionais interferissem na política local equatoriana 
e demais países (TAVARES, 2008). Outrossim, os equatorianos exigiam a 
não renovação de bases militares dos Estados Unidos. Alguns dos princí-
pios da Revolução Cidadã, que tem caráter econômico e social, são:
queremos proprietários não-monopolistas; vamos combater 
monopólios e práticas oligárquicas, vamos controlar o mercado. 
Queremos também uma sociedade de produtores, não de especu-
ladores; [...] queremos recuperar espaços de soberania em nossa 
política econômica: a soberania alimentar, a soberania energética, 
a soberania ecológica – esta é fundamental, pois o país que perde 
controle de sua natureza perde o controle de sua economia e de 
sua política. Falamos também de uma revolução social. Vamos 
combater a desigualdade, a miséria e a pobreza [...] Queremos 
combater o racismo, assim como queremos combater o fato de 
que existe, em nosso país, o machismo. Queremos uma sociedade 
com igualdades, pois esse é o caminho para fortalecer a democra-
cia e a base para o desenvolvimento. (TAMAYO, 2007, p. 2)
É possível perceber a ideia de controle estatal sobre os recursos natu-
rais presente no argumento de que a soberania de um país se dá por essa 
110 História Contemporânea
estratégia em especial. Esse é um ponto que se difere de uma economia 
de mercado internacionalizada em que não só os meios de produção e de 
recursos naturais podem estar nas mãos do mercado internacional, mas 
também a especulação sobre eles. Além disso, é possível pensarmos em 
uma economia cujos meios não pertencem somente a grupos nacionais, 
mas têm seus princípios regulados pelo controle estatal.
No caso do governo equatoriano de Correa, sua Revolução Cidadã 
pretendia ir além da manutenção dessa especulação internacional, por 
isso houve um fortalecimento de coletivos (ou grupos) sociais para a elei-
ção e manutenção de sua presidência, mesmo ele sendo um homem de 
origem elitista (LARREA, 2007). Essa diferença social criou um abismo en-
tre a oposição de seu governo e aqueles que o elegeram, demonstrando 
que décadas de um governo neoliberal provocam divergências comple-
xas demais para serem resolvidas de modo democrático.
Larrea (2007) evidencia que, apesar do apoio popular, Correa não 
possibilitou em tempo hábil a participação dos coletivos para a formação 
dos grupos que compuseram a Assembleia Nacional Constituinte. Desses 
grupos, os mais destacados eram os da Rede Latino-Americana Mulheres 
Transformando a Economia (Remte) e os ligados à Secretaria de Cidada-
nia, Povos e Movimentos Sociais. Mais importante que entender o contex-
to equatoriano é perceber essa reação coletiva e social como resposta a 
uma política econômica neoliberal excludente das últimas décadas, uma 
ação que não é visível apenas no Equador, uma região rica em recursos 
naturais e cujo território amazônico chega a quase 50% de sua totalidade.
Indicamos o artigo Alternativas à lógica desenvolvimentista: ideais pré-coloniais, 
acivilizatórios e/ou decoloniais a partir de cosmovisões afro-ameríndias, de Livia 
Maria Nascimento Silva e Antonio Manoel Elibio Junior, publicado na Revista 
Aedos.
 Acesso em: 14 out. 2022.
https://www.seer.ufrgs.br/aedos/article/view/119504.
Artigo
O lugar dado a povos indígenas, que formam a base da maior parte 
desses coletivos na América Latina, é necessário para centralizar o bem vi-
ver, em que o acesso a bens universais, como água, e à matéria-prima, as-
sim como considerar o povo a razão do Estado (perspectiva da cosmovisão 
indígena 4 ), estão em evidência. Portanto, pensar nessas teorias ligadas ao 
bem viver e na tomada do espaço político por grupos mais representati-
Cosmovisão é uma palavra 
que significa uma forma 
subjetiva de ver e enten-
der o mundo. Ela está 
relacionada às sociedades 
ameríndias e/ou indígenas, 
embora não somente 
a elas. É uma ideia rela-
cionada ao bem viver na 
América Latina.
4
https://www.seer.ufrgs.br/aedos/article/view/119504
Crises socialistas 111
vos das minorias é também uma característica global e necessária para a 
autonomia alimentar (não depender da política para isso) e de igualdade 
civil (que é plural, pois as pessoas são diferentes), em um mundo atra-
vessado por processos migratórios, transformações e tragédias climáticas, 
além das diferenças causadas pelo capitalismo pouco regulado.
O artigo de Alessandra Gonzalez de Carvalho Seixlack e Lays Corrêa da Silva, 
Propostas para o Buen Vivir: a luta Mapuche pela construção de um Estado plu-
rinacional no Chile, publicado na Revista de História Regional, discute sobre a 
teoria do bem viver, perspectiva epistemológica que vem sendo concebida e 
aderida em diversas Constituições na América Latina.
 Acesso em: 14 out. 2022.
https://scholar.google.com/citations?view_&AAAAJ&citation_for_view=yDvyiF0AAAAJ:eQOLeE2rZwMC. 
Artigo
Por fim, é importante mencionar alguns protestos indígenas. O primei-
ro ocorreu em 2008, no contexto da votação da Assembleia Constituinte 
quando nasceu a Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador 
e cinco mil pessoas marcharam até Quito reivindicando seus direitos. Essa 
marcha presenciou o encontro de mais de 1.500 delegações que elegeram 
representantes camponeses, indígenas, mulheres e sindicais na Assem-
bleia. O segundo é em relação à mesma Confederação que, em junho de 
2022, questionou o presidente Guilherme Lesso sobre a alta de preços, oca-
sionada pela pandemiade Covid-19 e a regulação de juros, e pela inflação 
que incidem sobre a maioria, retirando direitos civis e a dignidade de vida.
5.4 Discussões socialistas na América 
Vídeo
Em julho de 2022, a BBC publicou uma reportagem sobre o início do re-
torno dos venezuelanos ao país, mesmo que lentamente (PAREDES, 2022). 
Esse retorno se deu após mais de 10 anos de fugas e de migrações em busca 
de estabilidade econômica, visto que o país passava por severos problemas 
de inflação e desemprego. Os sinais de melhoria na inflação e nos juros per-
mitiam que a fome não fosse mais a regra e o principal motivo de fuga do 
país. Para além do problema econômico, a Venezuela é, há algumas déca-
das, apontada como país de tendência socialista ou até mesmo comunista.
Nesse contexto, desde os anos 1970 à luz da dependência que o 
mundo tem do petróleo tanto para o transporte quanto de seus deri-
vados utilizados de inúmeras formas na indústria, o recurso mineral 
https://scholar.google.com/citations?view_op=view_citation&hl=pt-BR&user=yDvyiF0AAAAJ&citation_for_view=yDvyiF0AAAAJ:eQOLeE2rZwMC
112 História Contemporânea
tornou-se alvo de disputas diretas sem qualquer pudor. A crise do pe-
tróleo opôs Egito e Síria a Israel, que tomou parte do território do Egito 
e da Síria na Guerra dos Seis Dias. Somado a isso, taxas e preços foram 
ajustados fazendo com que o mundo sentisse uma recessão econômi-
ca justamente por sua dependência do petróleo.
A Venezuela tem uma das maiores reservas de petróleo do mundo 
que, em 2022, vem crescendo em produção de barris por dia com pre-
visão de ser um dos países de maior crescimento no próximo ano (5% 
do PIB pela CEPAL e 1,5% pelo FMI) (PAREDES, 2022), justamente o que 
permite que parte da população retorne ao país. No entanto, é também 
pelo mesmo petróleo que o país é alvo de interesses internacionais.
Isso acentuou-se com a chegada de Hugo Chávez à presidência, em 
1999. Ele foi presidente por mais de 15 anos e foi representante das 
pautas da Revolução Bolivariana, além de emitir algumas mudanças 
significativas que ponderaram o poder de uma classe mais alta e, espe-
cialmente, da interferência norte-americana na regulação do preço, na 
dolarização da economia e na exploração do petróleo, que no caso da 
Venezuela é a empresa Petróleos de Venezuela (PDVSA).
Na Venezuela, desde 1958 havia uma constante troca pelo Poder Exe-
cutivo entre dois partidos, o Ação Democrática (AD) e o Comitê de Orga-
nização Política Eleitoral Independente (COPEI), que fizeram um acordo, 
conhecido como Pacto de Punto Fijo, para assegurar a estabilidade polí-
tica do país (SALGADO, 2020). Para muitos historiadores, foi esse pacto 
que freou uma ditadura civil-militar na Venezuela, entretanto não houve 
investimento social no país até a década de 1990. Já a partir de 1989, com 
a alta de juros e a interferência massiva do FMI, a ação coletiva de movi-
mentos sociais passou a questionar o FMI e outras instituições.
Em 1998, apoiado pelos grupos mais populares, Hugo Chávez assu-
miu o poder. Entretanto, esse mesmo apoio popular não foi ouvido por 
Chávez em diversas situações, o que o fez perder o poder por alguns me-
ses em 2002. Segundo historiadores, o principal motivo de instabilidade 
econômica é que Chávez alterou as normas de regulação do petróleo 
por meio da sua estatização com a criação da empresa PDVSA, mas não 
alterou a dependência que o país e as políticas públicas e sociais tinham 
do petróleo (SALGADO, 2020). Na empresa estatizada em 1999, a criação 
de empregos, as promoções e as propriedades da empresa não foram 
Crises socialistas 113
distribuídas de modo igual e coletivo, o que diminuiu o poder do opera-
riado e distanciou a ideia de socialismo.
Apesar do apoio populacional a Chávez favorecendo a união cole-
tiva, muitos se opunham ao próprio Estado. Ao mesmo tempo, gru-
pos elitistas não deixaram de existir e ainda influenciavam a prática 
econômica por meio da PDVSA. Nesse contexto, as políticas sociais se 
tornaram compensatórias, visto que Chávez se beneficiou dos preços 
supervalorizados do petróleo, especialmente entre os anos de 2004 e 
2008. Assim, o Estado passou a intervir mais por meio de programas 
sociais e fazer mais estatizações até a morte de Chávez, em 2013.
Esses movimentos elitistas se tornaram fortes na América Latina a 
partir de 1960. O historiador Leslie Bethell (apud HOBSBAWM, 2017, 
p. 8) afirma que:
a Segunda Guerra Mundial produziu uma espécie de reação em ca-
deia de movimentos de libertação revolucionária. [...] O movimento 
de libertação começou finalmente a avançar no império informal 
da maior e mais poderosa das potências capitalistas sobreviven-
tes, entre os países independentes nominalmente, mas, na prática, 
semicoloniais da América Latina. Ali, os movimentos revolucio-
nários não conseguiram se transformar em mais do que guerras 
civil-anárquicas (como na Colômbia após 1948), nem tiveram êxito 
nas circunstâncias bastante excepcionais da Bolívia (1952). Porém, 
a vitória de Fidel Castro em Cuba (1959) traria em breve o primeiro 
regime socialista para o continente americano e nele inauguraria 
uma era de agitação social que ainda não terminou.
Bethell refere-se à experiência socialista de Cuba. Fidel Castro defen-
dia desde os anos 1950 uma ruptura mais profunda das relações sociais 
e políticas na ilha cubana, com base em um nacionalismo revolucionário 
e para que o país não fosse mais refém dos interesses capitalistas que se 
davam pelos Estados Unidos e acatados pelo presidente Fulgencio Batis-
ta (como a instalação de bases militares e de empresas estrangeiras libe-
rais). Fidel defendia a soberania da América Latina, na mesma linha de 
Simon Bolívar e José Martí, mas era especialmente alinhado com ideias 
de Lenin, do socialismo marxista.
Durante o ano de 1958, os guerrilheiros cubanos liderados por Cas-
tro agiram na clandestinidade e com o apoio do povo a fim de depor 
Batista, até que assumiram o poder em primeiro de janeiro de 1959, o 
que caracterizou a Revolução Cubana. Assim, promoveram uma refor-
114 História Contemporânea
ma agrária, a estatização da educação como uma prática dirigida para 
toda a população e um sistema universal de saúde.
Com a existência da URSS e da China, Cuba manteve-se forte até 1989, 
quando o Muro de Berlim foi derrubado. Esperava-se que, logo após esse 
acontecimento, o país decretasse sua abertura à globalização e, conse-
quentemente, ao capitalismo. Com a persistência do regime socialista, os 
Estados Unidos instituíram um embargo, proibindo toda negociação com 
cubanos, sob a possibilidade de punir aqueles que insistissem. Somente 
em 2021 é que esse embargo foi questionado pela Assembleia Geral das 
Nações Unidas (AGNU) e condenado por 185 países (BERMÚDEZ, 2021).
Sobre a atualidade da Revolução Cubana e de sua representação 
como primeiro país socialista no Hemisfério Ocidental, o historiador 
Luis Ayerbe (2004) afirma que são problemáticas a persistência de um 
único partido político e a manutenção do Estado como um monopólio, 
além de sobreviver às investidas e proibições capitalistas. Raúl Castro é 
apontado como um líder austero desde que assumiu no início dos anos 
2000, permanecendo em cargos políticos até 2021.
O historiador Sergio Guerra Vilaboy (2021) afirma que houve o fe-
chamento de escolas e até de universidades em Cuba, embora o Índice 
de Desenvolvimento Humano (IDH) e o analfabetismo tenham núme-
ros de destaque para o mundo. Ele ainda complementa que:
desde então permitiu-se o alojamento de nacionais em hotéis, 
a aquisição de linhas de celulares, a compra e venda de auto-
móveis e casas ou importação de determinados artigos eletro-
domésticos, ao mesmo tempo que autorizava o pluriemprego e 
o pagamento por resultados. Ademais, em setembro desse ano 
[2014], [o governo cubano] começou a entregar centos de milha-
res de hectares de terras improdutivas a particulares e campesi-
nos em usufruto, que reduz de forma considerável a área estatal. 
(VILABOY, 2021,p. 162)
Também houve o crescimento do produto interno bruto (PIB), a 
balança comercial favorável, o retorno de migrantes, a permissão de 
saída do país e o pagamento da dívida externa que existia desde 1986, 
ou seja, Cuba tem buscado se adaptar ao que deseja dentro da política 
mundial. Apesar das dificuldades, é preciso considerar que os Estados 
Unidos persistem em manter o embargo, demonstrando hostilidade e 
rancor para com essa diferença, que tem origem na Guerra Fria, apesar 
de ambos já terem acordos de retomada diplomática desde 2017.
embargo: aquilo que 
impede, obstáculo, 
empecilho.
Glossário
O texto de Tiago Nery, 
Revolução Cubana 50 anos 
de resistência e dignidade, 
narra parte da revolução 
e dos problemas sociais 
ocasionados pela aber-
tura das novas políticas 
adotadas desde Raúl 
Castro.
Disponível em: https://
diplomatique.org.br/revolucao-
cubana-50-anos-de-resistencia-
e-dignidade/. Acesso em: 14 out. 
2022.
Leitura
https://diplomatique.org.br/revolucao-cubana-50-anos-de-resistencia-e-dignidade/
https://diplomatique.org.br/revolucao-cubana-50-anos-de-resistencia-e-dignidade/
https://diplomatique.org.br/revolucao-cubana-50-anos-de-resistencia-e-dignidade/
https://diplomatique.org.br/revolucao-cubana-50-anos-de-resistencia-e-dignidade/
Crises socialistas 115
A fim de finalizarmos uma perspectiva sobre essas experiências que 
também são rizomas de um mundo bipolar, é preciso considerarmos o 
grupo Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA). Ele foi 
criado em 2004 por Hugo Chávez e Fidel Castro, e dele também fazem parte 
Nicarágua, Equador e Bolívia. O Equador, desde 2021, mantém um governo 
mais conservador, ao passo que a Bolívia viu voltar ao poder o grupo de 
Evo Morales, o primeiro indígena presidente na América Latina e que per-
maneceu no comando por quase 14 anos. Morales deixou o governo após 
problemas civis em 2019, mas, por meio de eleições, colaborou para eleger 
um nome ao Executivo durante o período que esteve fora. Além disso, há 
a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos  (CELAC), cujo 
objetivo era anular ou diminuir a interferência norte-americana na região 
por meio da Organização dos Estados Americanos (OEA), criada em 1948.
Por fim, não menos importantes foram as ações do governo de 
Donald Trump que acirraram as disputas ideológicas com Cuba, colocan-
do em prática aspectos da Lei Helms-Burton, que dificultava ainda mais 
negociações com Cuba, prejudicando sua economia (VILABOY, 2021).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Um total de 40 anos separam a Revolução Cubana de seu embargo, 
bem como 50 anos estão entre o Pacto de Punto Fijo venezuelano e a 
subida de Chávez ao poder. Junto a isso, temos o declínio da URSS e o fim 
da Guerra Fria, devido à economia do país, ao mesmo tempo que a glo-
balização começou a viver seu auge oferecendo, sob a premissa de estar 
e conhecer “qualquer coisa” do mundo, produtos mediados pelo capita-
lismo/consumismo de influência norte-americana. Os mercados europeu 
e chinês também passaram a fazer parte com mais potência nas décadas 
que se seguiram, e a própria Rússia se tornou um dos países mais impor-
tantes do globo, especialmente pela exploração de produtos naturais.
Paralelamente, Cuba ainda assombra o poderio norte-americano, mes-
mo que esse país seja muito superior e não precise de Cuba, a qual desde 
2014 passa por uma abertura política e econômica. Assim, é possível dizer 
que o socialismo deixou uma marca nas tendências políticas, ao mesmo 
tempo que não é uma prática política como um todo no mundo.
Concomitantemente, países da América Latina que passaram por dita-
duras e governos populistas têm buscado novas propostas políticas que 
se concentrem em esforços por uma igualdade étnica, social, cultural, po-
lítica e, em especial, pela soberania de sua “latinidade”.
116 História Contemporânea
ATIVIDADES
Atividade 1
Defina o que é populismo e suas características principais.
Atividade 2
De que forma a situação política do Equador nos primeiros 
20 anos do século XXI está relacionada ao contexto global e decor-
rente do período da Guerra Fria?
Atividade 3
A Venezuela tem uma trajetória que se apresenta por parte dos 
políticos com a Revolução Bolivariana. O que manteve Hugo 
Chávez no poder por tanto tempo e por que o país é alvo de 
interesses internacionais?
Atividade 4
A Revolução Cubana é considerada um marco na história da 
América Latina e dentro dos movimentos esperados do contexto 
da Guerra Fria. Explique o porquê.
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Crises socialistas 117
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118 História Contemporânea
6
Sociedade pós-industrial 
e globalização
O século XXI alterou as formas de ocupação geopolítica do planeta, além 
de que novos países e diversas estratégias de comunicação, baseadas em 
novas sociabilidades, mídias, na cultura digital e em políticas econômicas 
foram reconhecidos nesse período. Historiadores têm defendido uma his-
tória mais global, ou seja, com temas que atravessam o globo, para além 
daquelas diferenciações entre Norte e Sul, Ocidente e Oriente. O fim do 
Apartheid em 1994, a Queda do Muro de Berlim em 1989 e o fim da Guerra 
Fria em 1991 presenciaram a ascensão da globalização como um movimen-
to econômico, político, cultural e social acelerado pela informatização.
Para compreender como esse mundo global vem se forjando é preciso 
conectar, relacionar e trazer olhares diversos sobre as políticas migrató-
rias, assim como entender o processo de coisificação que o capitalismo 
causa não apenas a objetos, mas também a pessoas. Esse olhar é necessá-
rio ainda sobre as demandas e relações culturais e políticas com o mundo 
oriental, uma divisão que é discutida por meio de um viés europeu. Ainda, 
fontes e acervos digitais, instituições privadas e públicas com softwares 
avançados que permitem o acúmulo de dados para pesquisa, são alguns 
dos benefícios desse mundo globalizado, tecnológico e populoso.
Nesse sentido, refletir sobre esses movimentos de mudança, deseja-
dos ou não, as novas formas de comunicação, as relações com o Oriente, 
a influência da China, entre outros, é um exercício necessário para com-
preender a contemporaneidade e sua globalidade.
Com o estudo deste capítulo, você será capaz de:
• compreender o neoliberalismo e a influência tecnológica na políti-
ca contemporânea;
• debater os preconceitos religiosos e étnicos existentes entre o Oci-
dente e Oriente;
Objetivos de aprendizagem
Sociedade pós-industrial e globalização 119
• pensar sobre as transformações políticas das últimas décadas em 
relação aos problemas ambientais enfrentados;
• problematizar condições, motivos e transformações causados pe-
las migrações no contexto global;
• refletir sobre sociabilidades e movimentos sociais em países andi-
nos na contemporaneidade;
• analisar formas de comunicação e de transformação por meio da 
cultura digital e das mídias sociais.
6.1 Neoliberalismo, globalização e 
desenvolvimento tecnológico Vídeo
A política econômica global do fim do século XX e início do XXI tem in-
fluência do neoliberalismo, uma teoria complexa e polissêmica definida no 
século XX. Anteriormente, estava presente no que chamamos de ideias libe-
rais, mas ainda não havia contribuído, fundado ou se relacionado de modo 
tão evidente com a fundação ou atuação dos Estados mais modernos.
Para fins de recorte conceitual, com o cuidado de considerar a varieda-
de que o termo neoliberalismo pode ter, trazemos as ideias de Michel Fou-
cault. Para ele, é preciso considerar políticos que representam ou estão 
no governo, mas que não se tornam sinônimo do próprio Estado, e como 
eles elegem práticas de governos e interagem com suas normas e objetos. 
Com essas influências, muitas das regras desse tipo de governo passam 
a ser de uma política econômica neoliberal, ou seja, são uma forma de 
existência do próprio Estado (FOUCAULT, 2004).
Portanto, o neoliberalismo, quando não está preso a um contexto 
específico, pode ser o representante do Estado, criando suas regras 
econômicas, descentralizando a liderança e permitindo que diversos 
setores médios ou maiores tenham acesso ao que seriam “as proprie-
dades” do Estado. Essas propriedades dizem respeito aos setores da 
Educação, Saúde, Urbanização, Comunicação, e à própria regulação das 
normas ligadas ao meio ambiente etc., interferindo em diversas caracte-
rísticas sociais, econômicas, políticas, culturais e até comportamentais.
120 História Contemporânea
Assim, não apenas os sujeitos sociais se tornam governáveis pelos in-
teresses neoliberais, mas o próprio Estado passa a gerir seus valores, seu 
capital e sua rentabilidade por meio desses interesses, a fim de que se 
torne uma máquina pública que produza lucro, tanto para setores públi-
cos quanto para privados. No entanto, as regras e áreas variam de acordo 
com o contexto, contando com uma presença menor ou maior do Estado.
O marxista David Harvey (2008) traz princípios semelhantes, mas 
com foco na ideia de classe e relacionado diretamente com as noções 
de capital do último século, em que é preciso:
interpretar a neoliberalização seja como um projeto utópico de 
realizar um plano teórico de reorganização do capitalismo inter-
nacional ou como um projeto político de restabelecimento das 
condições de acumulação do capital e de restauração do poder 
das elites econômicas. Defenderei a ideia de que o segundo des-
ses objetivos na prática predominou. A neoliberalização não foi 
muito eficaz na revitalização da acumulação de capital global, 
mas teve notável sucesso na restauração ou, em alguns casos 
(a Rússia e a China, por exemplo), na criação do poder de uma 
elite econômica. O utopismo teórico de argumento neoliberal, 
em conclusão, funcionou primordialmente como um sistema de 
justificação e de legitimação do que quer que tenha sido neces-
sário fazer para alcançar esse fim. (HARVEY, 2008, p. 27)
Percebemos que Harvey traz exemplos de diferentes práticas neoli-
berais. Para além disso, afirma que a elite econômica apenas permite o 
crescimento do neoliberalismo se ela se mantiver no poder; e, caso ela 
permita incentivar o capital, ela o diminui. Setores médios, como empre-
sas de comércio, são aqueles que permanecem ao lado das classes mais 
altas, embora haja diferenças entre elas. Desde os anos de 2010, o cargo 
de Diretor Executivo (CEO), embora não somente este, é um exemplo 
constante dessa “parceria” entre os setores e as classes.
Essa nova forma de organizar o Estado dentro de princípios neolibe-
rais está associada a uma perspectiva global que desestrutura amarras 
alfandegárias nacionais, forjando novos tipos de operação pela loco-
moção constantede produtos e, especialmente, inovando por meio de 
um mercado baseado na bolsa de valores, de ativos, de securitização e 
dos chamados futuros 1 .
Harvey (2008), considerando esses ideais neoliberais do século 
XXI, chama a atenção para alguns aspectos que são consequências 
dessas transformações. Para ele, o mercado de ativos ou de securi-
A securitização é um 
processo que permite a 
transformação de dívidas 
em títulos de crédito ne-
gociáveis, sejam públicas 
ou privadas.
Mercados futuros são as 
negociações baseadas em 
possibilidades e especula-
ções de produtos, desde 
commodities a produtos 
industrializados, por 
preços predefinidos.
1
Sociedade pós-industrial e globalização 121
tização considera propriedades ou áreas que deveriam ser públicas 
por assegurar a dignidade civil (saúde, saneamento, eletricidade, 
educação, pensões, bens comuns ambientais), ou seja, é um proces-
so de privatização e de mercadização que permite acúmulo de capi-
tal. A financialização é uma característica decorrente de processos 
especulativos que causam inflações e endividamentos por meio de 
juros e empréstimos de diversos tipos. As crises financeiras também 
podem ser organizadas pelas instituições privadas ou mesmo seto-
res do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), e 
essas instituições, por sua vez, muitas vezes são geridas por pessoas 
provenientes das classes altas ou próximas a elas. Harvey (2008) 
considera, assim, que há uma troca econômica intrínseca por meio 
dessa política econômica neoliberal global, que ocorre por meio de 
privatizações, verbas públicas e até mesmo de isenções fiscais da-
quilo que deveria ser público.
Nesse caso, é preciso considerar a influência da globalização jun-
to a essas mudanças econômicas. Esse processo de globalização é 
a internacionalização acelerada do capital (e do capitalismo) desde 
1500 na América ou da Revolução Industrial na Europa. O que pre-
domina no século XXI são os efeitos da robotização, culminando no 
que podemos chamar de revolução tecnológica, cuja centralidade se 
encontra na informatização e no alcance das redes de telecomunica-
ções. Pensar em globalização remete às grandes corporações, visto 
que são elas que ultrapassaram as fronteiras de mares e continen-
tes por meio das navegações, alterando produtos, formas de tra-
balho (como o taylorismo e o fordismo), questões culturais e novos 
princípios econômicos.
As mudanças decorrentes das novas tecnologias permitem que pro-
dutos – iguais ou diferentes – sejam fabricados em lugares diversos ao 
mesmo tempo, pela distribuição de matérias-primas. Além disso, as mu-
danças são baseadas em leis trabalhistas mais vantajosas, de acordo com 
o desejo das empresas. Mais inovador ainda é a potencialização do tra-
balho terceirizado, que diminui o custo final, especialmente para gran-
des empresas em uma sociedade de serviços. Para Castells (1992), isso 
significa que qualquer parte da fabricação de um produto, atendimento 
ao consumidor, setores de limpeza, design, marketing etc. podem ser ter-
ceirizados, formando um todo que serve aos interesses de uma economia 
informacional, como ele intitula.
122 História Contemporânea
O que percebemos é que a globaliza-
ção não só alterou a produção de bens de 
consumo, mas também o modo como são 
negociados, além dos tipos de moedas e 
de negociações financeiras – possíveis 
justamente pelas formas de comunicação 
proporcionadas pela tecnologia nas teleco-
municações. Esse conjunto, por sua vez, per-
mite que grandes instituições bancárias, grupos 
empresariais e seus milhares de acionistas determi-
nem, em grande medida, o modo como vive a maior parte da 
população, porque não apenas regulam crises, inflações e valores de 
mercado, mas também as políticas econômicas.
6.2 Conflitos étnico-religiosos 
e identitários Vídeo
Os modelos capitalista, religioso e político são parte de um padrão 
europeu que se deu a partir de 1500 na América, primeiramente por 
meio de uma colonização de regiões, e depois sob o amparo do im-
perialismo nos séculos XIX e XX. Vários desses processos foram refor-
çados por um pensamento religioso, pelo capitalismo editorial, pelas 
Reformas Protestantes e a pela própria ciência dos séculos XVIII e XIX. 
Esses acontecimentos sobrepuseram aquilo que era europeu em rela-
ção ao restante do mundo, com base em diferenças étnicas e raciais, 
gerando discursos de inferioridade e superioridade que permanecem 
até a atualidade, para além das disputas econômicas.
Um mundo dividido em hemisférios e nações é a composição geo-
política que surge a partir do período Moderno. Para Benedict Anderson 
(2013, p. 32), nação “é uma comunidade política imaginada – e imaginada 
como sendo intrinsecamente limitada e, ao mesmo tempo, soberana”. 
É construída e reforçada por meio de características como etnia, língua, 
leis, religião, cultura etc. Anderson (2013) ainda reforça que a divisão por 
hemisférios foi ressaltada, no século XIX, por meio do nacionalismo em 
que a Europa vivia e pela forma como se relacionava com as colônias, 
como no caso em que traz a relação de um oficial e policial inglês que, 
vivendo na Birmânia, era odiado pelas consequências da violência étni-
ca, racial e exploratória típicas da colonização. Com essa ideia, Anderson 
nepool/Shutterstock
Sociedade pós-industrial e globalização 123
(2013) evidencia como essa situação era comum mesmo após as inde-
pendências, em um processo de nacionalização:
em Moulmein, na baixa Birmânia [...], eu era odiado por muita 
gente – a única vez na minha vida em que eu tive importância 
suficiente para que isso me acontecesse. Eu era oficial da subdi-
visão policial da cidade. (ANDERSON, 2013, p. 211)
Uma prática imperialista é pautada por questões étnicas e identi-
tárias que se desdobram em diversos aspectos, entre eles o religioso. 
Para Hall (2006), não importa quão diferentes os membros de uma cul-
tura nacional possam ser em termos de classe, gênero ou raça, essa 
cultura busca unificá-los numa identidade cultural para representá-los 
como se pertencessem à mesma família nacional. É em nome dessa 
pretensa unidade que cresce o nacionalismo.
As histórias de preconceito e dificuldade de adaptação por questões 
religiosas são ouvidas em todo o mundo, desde os cristãos na Coreia 
do Sul até, nesse caso com muito mais potência, os muçulmanos na Eu-
ropa. Esse preconceito não se delimita apenas em relação aos recém-
-chegados, pois mesmo aqueles que nasceram em um país europeu e 
têm como religião o islamismo também sofrem dificuldades. Ainda que 
não estejam ligados às vertentes mais fundamentalistas, alguns acabam 
tendo reações terroristas também por desejarem seus direitos. Já os eu-
ropeus sem tradição muçulmana muitas vezes incentivam a xenofobia.
Na França, Michele Perrot (2005) lembra-se de meninas muçulma-
nas que são impedidas de usarem o véu na escola. Por outro lado, 
ocorreram diversos ataques terroristas em nome de Alá, em uma ra-
dicalização que piora a situação da maioria que quer apenas viver em 
paz nos países escolhidos como seus novos lares. Também não pode-
mos esquecer o ataque ao Jornal Charlie Hebdo em 2015 e à boate 
Bataclan em 2018, ambos em Paris. A Europa vem se preocupando com 
esses ataques, diminuindo ou mesmo cerceando direitos de imigran-
tes, e isso contribui para o aumento da xenofobia por parte da popu-
lação. Há uma estimativa de que, em 2050, a Europa abrigará 15% de 
muçulmanos contra os 4% de 2022. Para José Alves (2018), pesquisador 
sobre demografia, a população jovem muçulmana em diversos países 
da Europa é proporcional à europeia e tende a ter mais filhos também.
Um símbolo do Oriente é a China, que apenas no fim do governo 
de Mao Tsé-Tung começou um processo de abertura econômica a es-
124 História Contemporânea
trangeiros, e os princípios chineses eram de que a tecnologia, a ciên-
cia, as forças armadas e a indústria deveriam receber investimentos 
financeiros e tecnológicos. Para não abrir a sua políticaaos interesses 
estrangeiros, a China criou zonas de comércio internacional, como evi-
denciado por Marcelo Nonnenberg et al. (2008, p. 15):
o desenvolvimento industrial da China contou com duas impor-
tantes vantagens geográficas. Em primeiro lugar, a proximidade 
com Hong Kong inspirou a criação de quatro Zonas Econômicas 
Especiais (ZEEs), em 1980, em Shenzhen, Zhuhai, Shantou e Xia-
men. Todas as quatro ZEEs são localizadas no litoral sul, sendo 
que as duas primeiras situam-se quase ao lado de Hong Kong e 
Macau e, as duas últimas, relativamente próximas. Nessas ZEEs, 
passaram a ser concedidas diversas isenções fiscais.
As isenções fiscais e a relação com Hong Kong – que desde 2020 
vem sendo mais pressionada pela intromissão do governo chinês – ex-
pressam a importância da existência dessas zonas, ao mesmo tempo 
que preservam sua política interna. Além disso, é preciso considerar 
que, a despeito de um governo mais autoritário, Mao Tsé-Tung investiu 
em obras de infraestrutura nos anos 1960/1970, facilitando o transpor-
te interno no país de proporções continentais.
A partir dos anos 1990, o governo de Deng Xiaoping estabeleceu que a 
agricultura deveria se basear em uma economia de mercado, exportando 
e importando produtos, como faz com a soja brasileira por meio de com-
modities. Em 2001, a China passou a integrar a Organização Mundial do 
Comércio (OMC) e permitiu, em parte, a entrada de bancos estrangeiros 
no país. Em relação à ciência, desde o massacre da Praça da Paz Celestial 
em 1989, a abertura da China é maior, embora os resultados de pesquisa 
mantenham-se como objetos do próprio país, sendo pouco divulgados.
Nonneberg et al. (2008) consideram ainda outro aspecto crucial 
para que a China desponte como potência, apesar das divergências 
étnico-raciais impostas por séculos de eurocentrismo. Para os autores:
o baixo custo da mão-de-obra e uma taxa de câmbio desvalori-
zada propiciam elevada rentabilidade ao capital externo, espe-
cialmente aquele voltado às exportações. A produção dirigida ao 
mercado externo goza de isenção de impostos de importação 
para matérias-primas, peças e componentes. Assim, as EMNs 2 
– especialmente as do setor de eletrônicos e comunicações, que 
representam grande parte das exportações chinesas – podem 
EMNs: empresas 
multinacionais.
2
Sociedade pós-industrial e globalização 125
instalar, na China, as etapas finais da produção, aproveitando as 
peças e componentes produzidos pelas filiais localizadas nos paí-
ses vizinhos. (NONNENBERG et al., 2008, p. 19)
Assim, não são apenas os produtos chineses que são enviados para 
o mundo todo, mas o baixo custo da mão de obra faz com que diversas 
empresas internacionais utilizem o trabalho chinês ou terceirizem par-
te de sua produção na China. É possível inferir que o capitalismo e sua 
disputa imperialista prevalece em relação às diferenças identitárias.
A potência chinesa transformou a relação do eixo Norte e Sul. Com 
novas práticas político-econômicas, a nação, cuja identidade é diversa 
do Ocidente, que também não é homogêneo, passou a ser questionada 
pela posição econômica hegemônica, ou seja, de supremacia, que vem 
buscando estabelecer. Diretamente, a China é uma oposição ao impe-
rialismo norte-americano, como fica evidente na demora da assinatura 
do Protocolo de Kyoto, em que ambos os países trocaram acusações 
sobre a recusa um do outro, a fim de que as produções continuassem 
sem restrições, com o intuito de produzir mais.
Essas disputas econômicas, cuja base é a diferença étnica ou religio-
sa, também existem com relação aos árabes. Estes, estejam no Oriente 
Médio ou na Ásia, representam boa parte da produção de petróleo, 
tornando-se importantes fornecedores do produto para o restante do 
globo. No entanto, a intromissão e a supremacia Ocidental pioraram 
com o ataque às Torres Gêmeas em 2001. O Oriente Médio, em espe-
cial, passou a ser visto como um local mantenedor de terroristas radi-
calizados por questões religiosas, opondo o cristianismo ao islamismo.
O Afeganistão, após reocupação das forças talibãs 3 em 2021, im-
pôs novamente sua visão radical xiita, expulsando soldados e a ajuda 
humanitária do país. No entanto, é preciso considerar que esse Talibã 
foi treinado nos anos 1980 e 1990 por forças norte-americanas contra 
o governo local, atingindo autonomia mais tarde. Portanto, de um lado 
há o interesse geopolítico ligado ao imperialismo norte-americano, por 
outro, o preconceito baseado em diferenças identitárias e religiosas.
Porém, na Ásia, no Oriente Médio e na Europa, os grupos radicais 
são menores, o que se torna maior é o preconceito étnico-religioso. 
Estereótipos de ambos os lados fazem com que grupos de extrema 
direita cresçam com base em um nacionalismo radical, como se uma 
Assista à aula História 
do Afeganistão, do canal 
Emiliano Unzer, em que o 
debate é sobre a história 
do povo afegão. O vídeo 
traz detalhes diversos 
sobre aqueles expostos 
junto ao 11 de setembro, 
à invasão norte-america-
na e ao Talibã.
Disponível em: https://
www.youtube.com/
watch?v=Nlhuvwah6Lg. Acesso em 
14 out. 2022.
Vídeo
Talibã é um movimento 
fundamentalista religioso 
e nacionalista característi-
co do Paquistão e do Afe-
ganistão. Seus líderes têm 
origem na etnia pachtun e 
sua fundação data do fim 
da década de 1980.
3
https://www.youtube.com/watch?v=Nlhuvwah6Lg
https://www.youtube.com/watch?v=Nlhuvwah6Lg
https://www.youtube.com/watch?v=Nlhuvwah6Lg
126 História Contemporânea
nação fosse naturalmente homogênea, quando entendemos que, na 
verdade, diversos povos a compuseram ao longo de sua historicidade. 
A heterogeneidade ocorre especialmente em países com mais imigran-
tes, como é o caso da Alemanha, da França, do Leste Europeu, dos Esta-
dos Unidos e, também, em países emergentes ou em desenvolvimento.
6.3 Transformações e debates 
da História Ambiental Vídeo
Na segunda metade do século XX, surgiram debates sobre ques-
tões ambientais, especialmente relacionadas ao modo como as 
relações produtivas e de exploração do meio ambiente refletiam 
na vida dos cidadãos, desde o cotidiano até em largas escalas de 
tempo. Nesse sentido, também ocorreram transformações políti-
cas, visto que as medidas ambientais se tornaram motivos de en-
contros geopolíticos e de grupos de debate, seja de representantes 
de países ou de cientistas.
Um marcador dessas discussões é o Protocolo de Kyoto, firmado 
em 1997 na cidade de Kyoto, no Japão. É um dos principais documentos 
que firmaram um compromisso entre diversos países durante a Con-
ferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, 
com o objetivo de reduzir o efeito estufa.
Antes desse protocolo, no Rio de Janeiro, ocorreu a Conferência 
das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, tam-
bém conhecida como Rio-92 ou Eco-92, onde estiveram presentes 178 
países e 114 chefes de Executivo. Nessa conferência, uma discussão 
relevante, relacionada a questões do acirramento entre Norte global 
e Sul global, foi levantada pelo Grupo dos 77, cujas lideranças eram da 
Malásia e da Índia. Segundo esse grupo, não seria possível discutir a 
diminuição da poluição sem considerar a exploração praticada pelos 
países mais ricos sobre os mais pobres ou em desenvolvimento.
A despeito dessa afirmação, as individualidades de cada país ficaram 
evidentes. Ainda assim, a Rio-92 foi um marco para o início de discussões 
importantes e que foram afuniladas e aprofundadas nas décadas seguin-
tes. Apesar das divergências entre Norte e Sul não terem sido mais pro-
blematizadas na época desse encontro, o Protocolo de Kyoto efetivou, a 
partir de 2005, novos compromissos pela redução de gases poluentes do 
Sociedade pós-industrial e globalização 127
efeito estufa, em que 37 países se responsabilizaram. Um entrave nesse 
início foi o fato de a China, um dos maiores poluidores pela queima de 
carvão mineral, não ter assinado o termo. Por isso, apesar da diminuição 
da emissão de gases poluentes na Europa,o Protocolo foi questionado.
Foi apenas em 2015, em Paris, na França, que a Conferência das 
Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas alcançou maior expressi-
vidade com o Acordo de Paris, quando 196 países (dos quais 147 reafir-
maram o compromisso após o encontro de 2015) se comprometeram a 
limitar o aumento da temperatura mundial a 1,5ºC ou, ao menos, a ga-
rantir o que já era feito, mantendo no máximo a 2ºC o nível da tempera-
tura em comparação com a era pré-industrial, de 1500-1600. Também 
são aspectos desse acordo a cooperação entre os setores privado e o 
público, a participação da sociedade civil, a criação de tecnologias que 
não sobrecarreguem a natureza (como casas flutuantes em regiões de 
ressacas ou o aumento dos níveis dos mares, combustíveis naturais 
não minerais, energias sustentáveis, como a eólica e a solar) e a trans-
ferência de tecnologia para países menos desenvolvidos. 
Para alguns cientistas, o número de 1,5ºC deveria ter sido mantido 
em vez de permitir também o máximo de 2ºC, apenas para economizar 
centenas de trilhões de dólares. Além disso, seríamos mais categóricos e 
rápidos na paralisação da destruição da natureza e, consequentemente, 
de nós mesmos. Essa economia viria dos gastos que temos com políticas 
públicas durante secas, tempestades, tufões e aumento dos níveis dos 
mares, além do desenvolvimento de novas sementes, entre outros.
O Acordo de Paris foi validado em novembro de 2016, tendo como pri-
meira revisão de números o ano de 2025. A partir do encontro de Paris, 
o símbolo representante da Conferência passou a ser o termo Acordo de 
Paris, cujas medidas, sugestões e relatórios com números relacionados 
a questões climáticas vêm especialmente do Painel Intergovernamental 
sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Este painel, segundo Bernardo Este-
ves (2018), é o que aponta que o indicador deveria ser 1,5ºC – além disso, 
os últimos relatórios atestam que é possível manter esse número.
No caso do Brasil, onde o agronegócio é muito representativo no pro-
duto interno bruto (PIB), é preciso ponderar em que medida isso afeta o 
meio natural e como se torna um entrave para respeitar o limite do Acordo 
que o país assinou em 2016. A segurança alimentar também é um ponto de 
discussão necessário. Assim, ao mesmo tempo que o agronegócio produz 
O Acordo de Paris foi 
retificado em 2020/2021. 
Um dos principais pontos 
foi o retorno dos Estados 
Unidos, que haviam saído 
por decisão unilateral de 
Donald Trump, em 2017. 
Para mais informações, 
leia o texto de Marcos 
Candido De Ecoa.
Disponível em: https://www.
uol.com.br/ecoa/ultimas-
noticias/2021/02/02/o-que-e-
o-acordo-de-paris-assinado-por-
biden-no-1-dia-de-presidencia.
htm. Acesso em: 14 out. 2022.
Leitura
Leia o texto Comunidades 
tradicionais, que divulga 
diversas medidas de pre-
servação e recuperação 
de matas/florestas bra-
sileiras. Nessa página, o 
leitor encontra exemplos 
de comunidades tradicio-
nais, como quilombolas, 
ribeirinhos e pescadores, 
que mantêm relações 
pouco ou nada explorató-
rias com a natureza.
Disponível em: https://
www.socioambiental.org/
como-atuamos#comunidades_
tradicionais. Acesso em: 14 out. 
2022.
Leitura
https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2021/02/02/o-que-e-o-acordo-de-paris-assinado-por-biden-no-1-dia-de-presidencia.htm
https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2021/02/02/o-que-e-o-acordo-de-paris-assinado-por-biden-no-1-dia-de-presidencia.htm
https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2021/02/02/o-que-e-o-acordo-de-paris-assinado-por-biden-no-1-dia-de-presidencia.htm
https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2021/02/02/o-que-e-o-acordo-de-paris-assinado-por-biden-no-1-dia-de-presidencia.htm
https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2021/02/02/o-que-e-o-acordo-de-paris-assinado-por-biden-no-1-dia-de-presidencia.htm
https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2021/02/02/o-que-e-o-acordo-de-paris-assinado-por-biden-no-1-dia-de-presidencia.htm
seus commodities (soja, algodão, milho e outros) também reduz biomas e 
áreas a serem preservadas (ou que são preservadas, analisando a extração 
ilegal de madeira e da abertura de pastos por todo o país).
Com essas reduções, para o IPCC haveria menos terra agricultável 
nas próximas décadas, mesmo com o desenvolvimento de sementes 
mais resistentes à diminuição ou à falta de água, por exemplo. Esse últi-
mo reflexo deve-se especialmente à alteração nos biomas como o Cer-
rado e a Amazônia, duramente afetados pelo desmatamento e pelas 
próprias mudanças climáticas que alteram as correntes de ar. A partir 
da preservação e recuperação de florestas, bem como do constante in-
centivo a outras fontes de energia, de combustíveis etc., é possível pen-
sar a participação do Brasil nas propostas do IPCC, segundo aponta o 
Observatório do Clima (SOUZA; PIRES, 2016). Em relação aos alimentos, 
é preciso urgentemente priorizar a produção de orgânicos; no entan-
to, estes também devem ser agroecológicos 4 . Esse tipo de produção 
deve repensar o uso da água e evitar a exploração de um produto em 
detrimento de outro, e a monocultura deve dar lugar à produção de 
múltiplos produtos.
A História, nesse caso como disciplina, colabora com a consciência 
ambiental, afinal todo uso dos meios naturais passa pela compreensão 
das práticas sociais e culturais, isto é, as relações que as sociedades 
mantêm com o mundo natural são compreensíveis por meio do que 
entendemos como tradição e sobrevivência. O historiador José Augusto 
Pádua (2010) afirma que a discussão ambiental centralizou as questões 
relacionadas à globalização como uma consequência e uma condição 
desse processo político, econômico e cultural. 
Os processos migratórios, o crescimento demográfico, a escassez ou 
a supervalorização de produtos extraídos da natureza e a desigualdade 
de acesso a eles são efeitos colaterais da globalização. Assim, um dos 
pontos comuns para que os países se unam e pensem em seus proble-
Produtos agroecológicos 
não utilizam agrotóxico 
nenhum, pois há preo-
cupação também com o 
solo. A cultura é mantida 
junto a outras espécies 
que colaboram para a 
manutenção de pragas.
4
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128128 História ContemporâneaHistória Contemporânea
Sociedade pós-industrial e globalização 129
mas é a questão ambiental. Pádua (2010) nos lembra sobre o crescimen-
to demográfico como condição para a aceleração do desmatamento. A 
migração, o crescimento urbano, as poluições e o consumo de produtos 
e de energia sobrecarregaram ainda mais a natureza, além de potencia-
lizarem a piora na qualidade de vida daqueles que já viviam no campo, 
especialmente aqueles mais pobres.
Portanto, o conceito central nessa discussão é o Antropoceno, ou 
seja, uma nova era geológica que tem como característica o impacto da 
humanidade na Terra, sendo o período mais recente do nosso planeta. 
Pádua (2022) afirma que o conceito tem historicidade e a ideia é decor-
rente das primeiras discussões envolvendo geologia, geografia, histó-
ria, ecologia, biologia, entre outras áreas. É preciso pensar na noção de 
tempo geológico (aquele em que os recursos naturais são formados) e 
de tempo humano (aquele em que aplicamos e fundamentamos nossas 
práticas sociais e culturais). O Antropoceno tem diversas apropriações, 
mas suas conexões são centrais e complexas com a industrialização para 
além do sistema de plantation (prática ligada à monocultura) durante a 
colonização, com a exploração do ouro (e criação de bancos com o ga-
nho provindo dessa exploração), com a exploração do café, ou mesmo 
com os commodities que possuímos no século XXI (PÁDUA, 2022).
O historiador pós-colonial Dipesh Chakrabarty (2013) aponta que 
o Iluminismo, movimento intelectual europeu, permitiu que o homem 
apenas considerasse sua liberdade de dominar a natureza, mas sem 
consciência desse uso, que, nesse caso, também alterou a estrutura geo-
lógica do planeta. Para que evoluíssemos, segundo o que era entendido 
como evolução e modernização (especialmentepromoverem a desestabilização política 
em seus países, estão ligadas ao descontentamento geral após 1815 
(período conhecido como a Restauração, que se estendeu até 1830), ou 
seja, não dizem respeito somente às classes mais simples, mas tam-
bém à própria burguesia na Europa.
Leia sobre o Congresso 
de Viena (1814-1815), 
quando os países ata-
cados por Bonaparte se 
reuniram para repensar 
o mapa europeu, depois 
que Bonaparte foi exilado. 
Tema disponível nos 
capítulos 6 e 7.
HOBSBAWM, E. A era das revoluções: 
1789-1848. São Paulo: Editora Paz 
e Terra, 2010.
Leitura
O começo de um século efervescente 15
Segundo Hobsbawm (2010), havia os liberais moderados perten-
centes a uma classe média superior que intencionavam uma democra-
cia constitucional. Outro grupo seria os democratas radicais de classe 
média inferior ou até mais baixa, incluindo-se novos industriais e inte-
lectuais, cujo objetivo político era distribuir mais o poder, mantendo 
poucos privilégios. Um último substrato é o dos socialistas, aqueles vin-
dos das classes mais baixas e proletárias, cuja intenção central era a 
divisão mais igualitária ao estilo dos jacobinos mais radicais. Podemos 
dizer que este último forma o embrião de uma ideia mais comunista 
(e socialista) que apenas será teorizada em meados da primeira meta-
de do século XIX, tema da nossa próxima seção.
Em 1832, tão importante quanto os movimentos de 1830 na França, 
quando os Bourbon foram derrubados novamente após sua volta ao 
poder, foi votado o Ato da Reforma na Inglaterra, também conhecido 
como Lei da Reforma de 1832, que, embora tenha diminuído a represen-
tação de distritos mais simples na Câmara dos Comuns em Londres, 
aumentou em número os votos absolutos.
A diminuição se deu devido ao aumento proporcional de cadeiras 
pelo número populacional da cidade, o que afetou cidades pequenas 
em representatividade. Portanto, embora o aumento de cadeiras não 
diga respeito aos grupos de trabalhadores braçais, a ausência do di-
reito ao voto contribui para que um sentimento de experiência com-
partilhada gere uma prática identitária. Segundo o historiador Edward 
Palmer Thompson (1987), no ano de 1832 os movimentos sociais tam-
bém tinham a presença de operários que passaram a construir a ideia 
de classe não porque se conscientizaram a respeito dela, mas porque 
se uniram a ela por meio do sistema fabril.
Ainda sobre 1830, no território francês, podemos afirmar que:
marca a derrota definitiva dos aristocratas pelo poder burguês 
na Europa Ocidental. A classe governante dos próximos 50 anos 
seria a “grande burguesia” de banqueiros, grandes industriais e, às 
vezes, altos funcionários civis, aceita por uma aristocracia que se 
apagou ou que concordou em promover políticas primordialmen-
te burguesas, ainda não ameaçada pelo sufrágio universal, em-
bora molestada por agitações externas causadas por negociantes 
insatisfeitos ou de menor importância. (HOBSBAWM, 2010, p. 186)
O que sobressaltamos dessa citação é a ideia de que a burguesia 
alcança o poder proclamado na Revolução Francesa e a aristocracia 
16 História Contemporânea
restante passa a concordar com suas propostas, a fim de sobreviver. 
É evidente que uma maior participação popular não ocorre, embora sua 
ameaça esteja presente em “agitações externas”, mas, como sugerimos 
ao citarmos a Reforma de 1832 na Inglaterra, começou a se tornar mais 
evidente a ideia de um sufrágio universal, e não somente na Inglaterra. 
Assim, uma economia liberal com um caráter pouco democrático estava 
cada vez mais contestada e não demorou para que populares, incluindo 
uma classe operária, se tornassem uma força política consciente e cola-
borassem com suas próprias causas e com movimentos nacionalistas.
No ano de 1830, as potências estavam delineando novas fronteiras, 
migrações ocorriam e políticas econômicas industriais eram discutidas, 
cujo ápice foram revoluções ocorridas em 1848 na Península Itálica, na 
França, nos Estados Alemães e na Suíça. Apesar de o contexto da Revo-
lução Francesa estar distante do contexto de 1830, seus ideais não esta-
vam. Assim, mesmo que as barricadas deste ano também defendessem 
um liberalismo por acreditar que traria mais liberdade a todos, a dimi-
nuição do Estado não correspondeu aos interesses de proletários. Desse 
período também surgem algumas divisões políticas, como aquelas que 
seriam mais radicais à esquerda, mais nacionalistas ou moderadas.
Em 1830, uma política de massa, a ação de irmandades secretas e a 
não participação efetiva no poder por parte de grupos mais populares co-
laboraram para a derrubada dos Bourbon – isso porque eles formavam a 
monarquia restaurada e por isso não precisariam ouvir seus subalternos.
Parte da massa popular da revolução, junto a crises econômicas e a 
despeito do crescimento do capitalismo industrial que trazia poucos direi-
tos trabalhistas, se organizou em forma de classe (HOBSBAWM, 2010). Não 
obstante a ausência de direitos trabalhistas, também eram comuns violên-
cia nas fábricas, hostilidades policiais, criminalidades variadas, prostituição 
para a sobrevivência, falta de alimentos e má condições de higiene, ou seja, 
um contingente propício para uma ebulição popular.
Podemos inferir que o avanço tecnológico e a imposição de um 
novo sistema de produção ocasionaram aos trabalhadores poucas 
condições ideais de trabalho em um contexto que veio logo após uma 
revolução que prometia igualdade e liberdade a todos. Assim, além do 
descaso sofrido, esses grupos que começavam a se ver como classe 
também eram controlados pelos novos senhores de um sistema capi-
talista industrial, os burgueses, para os quais vendiam seu trabalho e 
tinham pouco reconhecimento (DECCA; DECCA, 1988).
Para pensar sobre a 
diferença de liberal e libe-
ralismo, no artigo O que é 
liberalismo? O que significa 
ser liberal?, o historiador 
Daniel Gomes de Carvalho 
traz apontamentos acerca 
dos termos, especial-
mente considerando 
que o primeiro está mais 
relacionado ao contexto 
do século XIX quando ele 
se relacionava à soberania, 
ao constitucionalismo e à 
liberdade comercial pre-
sentes em uma nação.
Disponível em: https://www.
cafehistoria.com.br/o-que-e-o-
liberalismo-o-que-significa-ser-
liberal/. Acesso em: 20 set. 2022.
Leitura
https://www.cafehistoria.com.br/o-que-e-o-liberalismo-o-que-significa-ser-liberal/
https://www.cafehistoria.com.br/o-que-e-o-liberalismo-o-que-significa-ser-liberal/
https://www.cafehistoria.com.br/o-que-e-o-liberalismo-o-que-significa-ser-liberal/
https://www.cafehistoria.com.br/o-que-e-o-liberalismo-o-que-significa-ser-liberal/
O começo de um século efervescente 17
Portanto, além das definições sociais e políticas e das crises econômi-
cas pelas quais passava a França, havia a ausência de direitos que con-
templassem o mínimo esperado pelos trabalhadores que se somavam 
a outros substratos de mazelas sociais e pobreza em diversas cidades 
europeias. A Primavera dos Povos, ou Revolução de 1848, como é conhe-
cido esse contexto, é a agitação sem sentido ou despreparada que in-
centivou vários grupos a reivindicarem seus direitos – civis, trabalhistas 
e até mesmo de reconhecimento público – como em um efeito dominó. 
No caso da Alemanha e da Itália, ambas ainda nem sequer eram países, 
por isso os compromissos trabalhistas eram locais e dentro das disputas 
de relações de poder, afetando diretamente as camadas sociais que de-
pendiam mais de políticas públicas de um Estado maior.
A Primavera dos Povos levantou barricadas entre 1848 e 1849, as quais 
foram derrubadas em poucas horas ou dias, a depender do local. Entretan-
to, os atos fomentaram a formação de grupos mais organizados que ins-
titucionalizaram sindicatos e cooperativas. É importante ressaltarmos que 
a década de 1830 já havia apresentado os primeiros sindicatos, como é o 
caso do Sindicato Geral. Esse se levantou contra a Lei da Reforma de 1832, 
em uma disputa entre os moderados liberais e a esquerda mais radical, no 
que diz respeitose considerarmos a crí-
tica decolonial), o uso de produtos ligados à tecnologia foi desenfreado, 
desde a máquina a vapor até o uso de água, de minerais, de produtos 
fósseis etc. (CHAKRABARTY, 2013). Novamente, a relação do Sul com o 
Norte global faz sentido, como foi a pauta da Rio-92, segundo a liderança 
da Índia e da Malásia, quando reuniram os 77 países do Sul Global.
Assim, com o aceleramento do uso das fontes naturais a partir de 
1500, o tempo geológico passou a não ser respeitado pelo tempo huma-
no, transformando a fase do Holoceno, de mais ou menos 11.500 anos 
atrás, na qual as sociedades humanas começaram a se desenvolver, em 
Antropoceno, período em que passamos a alterar geologicamente o Pla-
neta Terra. Produtos que precisaram de processos de composição mine-
ral/natural, levando milhares de anos para serem forjados, foram e ainda 
Assista à entrevista Minha 
História Ambiental, publi-
cada no canal Lutz Global, 
com o historiador José 
Augusto Pádua, conside-
rado uma das principais 
referências de História 
Ambiental no Brasil e 
especializado no conceito 
de Antropoceno.
Disponível em: https://
www.youtube.com/
watch?v=lt26i66hw-4. Acesso em 
14 out. 2022.
Vídeo
https://www.youtube.com/watch?v=lt26i66hw-4
https://www.youtube.com/watch?v=lt26i66hw-4
https://www.youtube.com/watch?v=lt26i66hw-4
130 História Contemporânea
são utilizados em poucas horas pela aplicação exaustiva 
da eletricidade na produção de bens de consumo pouco 
ou momentaneamente úteis. Além disso, é preciso con-
siderar que o petróleo, por exemplo, não é utilizado 
apenas como combustível, mas seus derivados estão 
presentes em centenas de objetos industrializados, 
desde shampoos a plásticos em geral.
Com essas condições, o ambientalismo se tornou 
um indicador de que a escala da presença humana 
na natureza deveria ser mais bem compreendida 
e até questionada. A história humana não pode 
se converter em sinônimo de alteração da paisa-
gem de modo maléfico. Nesse caso, a História Ambiental deve ser uma 
forma de reconhecer como os sistemas naturais foram alterados em 
sua historicidade pela interação com o ser humano. Por meio dessa com-
preensão é que se chegam às mudanças de comportamento esperados 
de nossa sociedade, mesmo que ela seja industrial (PÁDUA, 2010).
6.4 Fluxos migratórios na Europa 
e na América Vídeo
A economia global vem mudando as práticas sociais, culturais e, es-
pecialmente, econômicas. Não há barreiras alfandegárias que impeçam 
o envio de mercadorias, nem mesmo a transferência da mão de obra de 
funcionários. Esse processo causa mudanças identitárias, inseguranças 
sobre quem somos, e gera ondas imigratórias complexas, causadas por 
questões ambientais, econômicas e crises civis, além da convivência com 
essas ondas. A historiadora Erica Sarmiento (2021) lembra o que as mí-
dias expõem constantemente: os muitos corpos e sonhos abandonados 
pelos caminhos migratórios em todos os continentes.
Mortos nos mares, nos rios ou mesmo pessoas em condições de pri-
são nas alfândegas são comuns. Em 2015, houve o caso do menino sírio 
de 3 anos afogado, Alan Kurdi, cujo corpo foi encontrado em uma praia. 
Tal situação ocorreu no auge da fuga de refugiados devido à guerra contra 
o Estado Islâmico dirigida a outros grupos políticos e às minorias, como a 
dos curdos. A comoção do caso de Alan é proporcional à coisificação que 
a globalização também gera em relação à vida humana. Segundo Achille 
Mbembe (2019, p. 35):
Br
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A 
Ja
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Sh
ut
te
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to
ck
Sociedade pós-industrial e globalização 131
Não é apenas que a economia venha se tornando o espaço proe-
minente das lutas pela vida. É também que as pessoas e coisas, 
natureza e objetos, estão cada vez mais sob o risco de serem 
transformados em artefatos. Então, claro está, que ao analisar-
mos as qualidades e propriedades das mobilizações contempo-
râneas, precisamos ter em conta o impacto das tecnologias de 
comunicação e mídia na formação da subjetividade política.
Portanto, a “coisificação” incentivada pelo processo político econô-
mico em questão é proporcional, apesar da sensibilidade, à abjeção 
imposta a esses “corpos” migrantes. Quem são esses corpos vistos 
como inúteis, ou com menos valor para o mercado, e que, na maioria 
das vezes, morrem nas fronteiras do México ou na chegada à Ilha de 
Lampedusa (vindos do continente africano), ou que estão à mercê dos 
interesses russos nas fronteiras da Ucrânia, afogados no Mar Egeu, no 
Mar Negro (vindos da Ásia) ou presos em trens de pouso?
No ano de 2021, mais de 89 milhões de pessoas (ACNUR, 2022) foram 
obrigadas a se deslocar pelo mundo, sob condições desumanas, muitas 
vezes deixando tudo para atrás e pagando somas altas para ter acesso 
a sistemas de transportes lotados, obsoletos e sem proteção alguma. 
Ainda, cabe diferenciar refugiados de migrantes: refugiados são aqueles 
obrigados a fugir do país por ameaças, sejam elas por questões de raça, 
de política, de gênero etc. (WEISS, 2018); migrantes, por sua vez, não 
estão necessariamente fugindo, visto que a mudança de país pode ser 
uma opção econômica, laboral ou mesmo política e cultural. Em comum, 
tanto os refugiados quanto os migrantes podem não ser bem recebidos 
pelas questões hegemônicas sociais ou podem ser relegados a trabalhos 
vistos como “menores”, além de sofrerem ataques xenófobos.
De qualquer forma, a imigração em um mundo coisificado traz no-
vos posicionamentos geopolíticos que alteram história e cultura de imi-
grantes e de seus países, além de traumas. Sarmiento (2021, p. 26) faz 
o seguinte apontamento sobre a fronteira mexicana em 2019:
As autoridades de imigração dos Estados Unidos separaram 
mais de 1.500 menores dos seus pais na fronteira com México no 
início do governo do presidente Donald Trump, no ano de 2017. 
A União Americana de Liberdades Civis (ACLU, sigla em inglês) 
explicou que o governo informou a seus advogados que 1556 
menores foram separados de suas famílias entre o dia Primeiro 
de julho de 2017 e o dia 26 de junho de 2018.
Indicamos a escuta de 
dois episódios do podcast 
Refúgio em Pauta:
Episódio 5: Gênero e 
deslocamento forçado 
reflete sobre as dificul-
dades potencializadas 
pela condição da mulher 
enquanto refugiada.
Episódio 8: O conflito na 
Ucrânia e seus impactos 
na população civil, cujo 
objetivo é debater sobre 
as marcas causadas na 
população ucraniana em 
situação de refúgio.
Disponível em: https://www.acnur.
org/portugues/podcast/. Acesso 
em: 14 out. 2022.
Podcast
https://www.acnur.org/portugues/podcast/
https://www.acnur.org/portugues/podcast/
132 História Contemporânea
Muitos desses nunca sequer chegaram aos Estados Unidos, sendo 
deportados após longos meses ou anos, e alguns se estabeleceram no 
México e na vizinha Guatemala. O México, por sua vez, repleto de pro-
blemas sociais também vem fechando mais as fronteiras, inclusive para 
brasileiros, que até 2021 nem precisavam de passaporte para adentrar 
o país. O descaso com crianças e a separação delas de seus pais apenas 
demonstram que a coisificação existe e que ela é direta. Além disso, se-
gundo Sarmiento (2021) há uma diferença de trato em relação às pessoas 
oriundas do Haiti e da África, ou seja, a questão racial é mais evidente. 
Não menos importante e responsável é a cruel ação norte-americana, 
que, sob o respaldo da guerra ao terror, diminui desde 2001 as possibili-
dades de negociação e de recepção daqueles que são estrangeiros.
Assim, retomamos as ideias de Mbembe (2019), em que é preciso 
pensar o lugar das mídias e como elas podem criar espaços de empa-
tia para além das tragédias consideradas maiores ou das que garantem 
mais cliques em seus sites. É preciso criar lugares de debate mais demo-
cráticos sobre condições justas e reconhecidas para aqueles que migram 
em busca de trabalho, seja temporário ou contínuo, além de questionar 
os limites estatais em relação aos direitos civis, de moradia, de sanea-
mento etc., ou seja, que dizem respeito à dignidadehumana. Não menos 
importante é essa comunicação instantânea que se alastra, cria sentidos 
e pode refletir sobre as diversas camadas de preconceitos baseados em 
etnia, raça, orientação sexual e gênero, colaborando para um mundo 
mais multicultural. Entretanto, essa multiculturalidade não pode ser 
usada no sentido neoliberal, que comercializa as culturas por meio da 
venda de produtos, da criação de “dias” específicos que homenageiam 
diferentes países e de feiras que têm como objetivo o faturamento. As 
mídias podem expor experiências individuais, especialmente em relação 
a essas intenções que vêm das forças invisíveis (BOURDIEU, 1997).
O caso de Alan Kurdi não deve ser propagado apenas para gerar 
cliques aos jornais, mas para que as estruturas de preconceito étni-
co e social comecem a ser desconstruídas e contextualizadas em um 
processo de globalização que traz transformações por meio da tecno-
logia alterando significativamente a vida humana, sem que esta possa 
sempre limitar a sua ação sobre a sua própria vida. O estilo moderno 
vai além da compra de produtos do mundo global; ele também vende 
imagens, as quais são massificadas e normalizadas. O excedente, aqui-
lo que sobra por inúmeros motivos, é só mais um corpo obsoleto.
Para continuar a falar 
sobre refugiados e suas 
condições de vida, convi-
damos você a escutar o 
episódio Fake news sobre 
refugiados no Brasil, do 
podcast isabele oficial, 
que traz detalhes com o 
compromisso de diminuir 
a intensidade de notícias 
falsas que chegam 
sobre sujeitos sociais na 
condição de migrantes/
refugiados. O tema trata 
de venezuelanos que 
chegaram ao Brasil e de 
como eles se tornam 
vítimas de xenofobia.
Disponível em: https://anchor.
fm/isabele-oficial/episodes/Fake-
news-sobre-refugiados-no-Brasil-
eh3j6d. Acesso em: 17 out. 2022.
Podcast
https://anchor.fm/isabele-oficial/episodes/Fake-news-sobre-refugiados-no-Brasil-eh3j6d
https://anchor.fm/isabele-oficial/episodes/Fake-news-sobre-refugiados-no-Brasil-eh3j6d
https://anchor.fm/isabele-oficial/episodes/Fake-news-sobre-refugiados-no-Brasil-eh3j6d
https://anchor.fm/isabele-oficial/episodes/Fake-news-sobre-refugiados-no-Brasil-eh3j6d
Sociedade pós-industrial e globalização 133
O percurso dos refugiados e dos migrantes deve ser observado e res-
peitado como possibilidades de práticas identitárias que se transformam, 
descentralizam-se e são resultado de mudanças estruturais geopolíticas 
que devem ser acolhidas e adaptadas. Stuart Hall (2000) afirma que nos-
sos comportamentos são múltiplos em nossa vivência, incluindo a ideia de 
contradição; assim, é justo considerar que as diferenças fazem parte das 
sociedades humanas. A desterritorialização não deve existir apenas para os 
produtos vendidos e consumidos. As sociedades humanas fazem parte do 
“ser no mundo” de cada um e, ao mesmo tempo, é justo que todos possam 
ter um lugar seguro para que suas várias práticas identitárias possam coe-
xistir. Lugares seguros onde a exposição constante pela mídia de um corpo 
infantil morto – ou de muitos outros – não seja apenas um número.
6.5 Questões do mundo contemporâneo 
em países andinos Vídeo
Alguns elementos fazem parte de uma realidade que somente pode ser 
atenuada pela discussão ampla das leis trabalhistas no mundo contempo-
râneo, como produtos mais baratos, zonas com isenção fiscal e excesso de 
pessoas gerando desemprego, o qual, por sua vez, permite que a mão de 
obra tenha um preço baixo. Também é crucial pensar sobre a representati-
vidade que os diversos grupos têm na lei.
Os países andinos 5 , que têm como base uma história colonizada, tive-
ram sua estrutura social marcada por uma hierarquia cuja característica 
de ser espanhola predominava nas classes mais altas, como uma casta. 
A língua oficial era a espanhola, e em detrimento estavam as línguas in-
dígenas como aimará e quíchuas, ao passo que indígenas e camponeses 
eram obrigados a aprender o espanhol caso se deslocassem como mi-
grantes aos centros urbanos ou como trabalhadores sazonais fora dos 
ayllus 6 . Historicamente, diversas funções também foram determinadas 
pelo trabalho desempenhado nas minas da região de Potosí e por toda a 
região de escoamento de produção, envolvendo do Peru até a Argentina.
José Bengoa (2016), historiador chileno, chama a atenção para 
a ideia de que apenas com a denúncia de opressões aos indígenas, 
que formam maioria nos países andinos (considerando ascendência 
e população atual), mais a defesa de políticas públicas, é que haveria 
amenização do preconceito racial. Portanto, o movimento indígena, ou 
Bolívia, Peru, Equador, Co-
lômbia, Chile e Venezuela.
5
Concepção típica da 
região andina, de comu-
nidade familiar que é 
dirigida por um homem 
ou mulher. Baseada em 
atividade de campo, com 
terras comunais.
6
134 História Contemporânea
indigenismo, que esteve presente na América do Sul a partir dos anos 
1940/1950 com mais força, foi responsável por trazer uma perspecti-
va de transformação para as pautas coletivas, geralmente envolvendo 
questões como o acesso à terra e ao alimento, além das pautas traba-
lhistas. Um exemplo foi a ascensão de Evo Morales ao poder da Bolívia 
em 2003, após o episódio conhecido como Guerra da Água:
Entre bombas e choro e preocupação por meus filhos encontrei 
ali algo que achei que tivesse perdido: todos participavam de al-
guma maneira, com unidade e solidariedade... Não compreendia 
muito o que passava. Somente havia entendido o que gritavam: 
‘Fora Águas de Tunari!’ em meio aos enfretamentos. Em uma 
casa em que nos socorremos momentaneamente, uma senhora 
explicou-nos que em Cochabamba ocorria a “Guerra da Água”. 
Então, na televisão, logo após as notícias sobre a violência das 
ruas, vimos um político que dizia: ‘Nenhuma empresa irá investir 
em Cochabamba novamente’. (VARGAS; KRUSE, 2000, p. 7)
Essa união movimentou o início dos anos 2000, promovendo o cres-
cimento de indígenas na política, especialmente com o apoio dos ayllus, 
que apoiaram Evo Morales após o golpe político sofrido em 2018. Esses 
grupos de indígenas exigem que sejam implementadas regras para as 
questões econômicas peculiares às suas produções, legislações sobre 
fronteiras de terras e questões trabalhistas; no entanto, algo que vai 
além dessas pautas e que traduz preocupações do mundo contem-
porâneo é a ideia de que os países andinos também têm uma repre-
sentação plurinacional. Esse aspecto é decorrente de uma perspectiva 
indígena plural e não homogênea construída por um discurso coloniza-
dor. O Peru foi o primeiro a adotar essa ideia de pluralidade indígena 
que se opõe à hegemonia colonizadora em sua constituição, em 2003, 
sendo seguido por outros países nos anos posteriores.
Do crescimento do indigenismo aos Estados plurinacionais, outra 
perspectiva é pertinente para o mundo contemporâneo em relação à 
destruição dos meios naturais: a do bem viver. O conceito mais origi-
nal, Sumak Kawsay, vem dos povos da Bolívia (Aimarás) e do Equador 
(Quíchuas) e significa “viver a vida com dignidade e plenitude”. Na prática, 
é a política que deve ser direcionada para que a população tenha acesso 
às políticas públicas necessárias para uma vida baseada no bem-estar.
Com esses princípios, há dois aspectos a se relacionar: o primeiro 
é de que a relação do capitalismo com os meios de produção, o en-
Leia o texto de Ivo 
Lesbaupin, Para salvar a 
humanidade do desastre: o 
“bem viver”, que traz apon-
tamentos sobre o que é 
bem viver, assim como 
problemáticas levantadas 
sobre a sua importância.
Disponível em: https://www.
ihu.unisinos.br/categorias/188-
noticias-2018/579449-para-salvar-
a-humanidade-do-desastre-o-
bem-viver. Acesso em: 17 out. 2022.
Leitura
https://www.ihu.unisinos.br/categorias/188-noticias-2018/579449-para-salvar-a-humanidade-do-desastre-o-bem-viver
https://www.ihu.unisinos.br/categorias/188-noticias-2018/579449-para-salvar-a-humanidade-do-desastre-o-bem-viver
https://www.ihu.unisinos.br/categorias/188-noticias-2018/579449-para-salvar-a-humanidade-do-desastre-o-bem-viverhttps://www.ihu.unisinos.br/categorias/188-noticias-2018/579449-para-salvar-a-humanidade-do-desastre-o-bem-viver
https://www.ihu.unisinos.br/categorias/188-noticias-2018/579449-para-salvar-a-humanidade-do-desastre-o-bem-viver
volvimento dos interesses privados com o Estado e a exploração da 
natureza devem ser totalmente repensados; o segundo é como olhar 
a natureza para além do aspecto de exploração, porque essa não deve 
ser vista como dissociada do ser humano.
Chakrabarty (2013) reitera que o principal ponto de criação do Ilumi-
nismo foi a ideia de que a liberdade era total para o ser humano, após a 
dominação da natureza. Se considerarmos o conhecimento das ciências 
naturais, podemos lembrar que somos animais racionais e, como tais, a 
natureza também está em nós; portanto, se causamos a destruição à na-
tureza, também a causamos à nossa espécie. Para as sociedades amerín-
dias e seus descendentes, esse conhecimento deve ser considerado na 
exploração natural, a fim de se preservar como espécie e poder diminuir 
a desproporção que há hoje entre o tempo geológico (de produção dos 
recursos) e o tempo humano.
Esse saber mais holístico é o que vem sendo defendido pelos Esta-
dos plurinacionais para dar dignidade a mais pessoas e defender a pre-
servação do planeta. O Sumak Kawsay é a ideia de que todos os seres 
humanos devem buscar a diminuição de qualquer desigualdade, seja 
em relação às pessoas ou à natureza.
A desigualdade também foi o tema das manifestações chilenas, inicia-
das em 2019, sob o argumento de que o aumento do bilhete de metrô era 
muito alto. As manifestações tomaram a rua de modo desproporcional 
ao que o Estado, representado pelo Presidente Sebastián Piñera, seria ca-
paz de conter. A bandeira dos Mapuches foi eleita como representante do 
movimento, porque esse povo representa a maioria da ascendência da 
população chilena.
Como resultado, o povo que foi 
às ruas e viu pessoas morrerem al-
cançou o direito de ter uma nova 
Assembleia Constituinte (PRESSE, 
2021), a fim de substituir a forjada 
em 1980, ainda sob a bandeira de 
Augusto Pinochet em um período 
ditatorial e arbitrário. As principais 
reivindicações foram a paridade de 
gênero na Assembleia e a participação de indígenas, nesse caso um 
total de 17, sendo que 7 deles pertenciam à etnia Mapuche.
Bandeira Mapuche.
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Sociedade pós-industrial e globalizaçãoSociedade pós-industrial e globalização 135135
136 História Contemporânea
Em meados de 2022, a proposta de Constituição chilena continuava 
a ser discutida. A divulgação das imagens das manifestações permitiu 
que o movimento crescesse rapidamente, culminando em diversas crí-
ticas e apoios, além de ocasionar a eleição de Gabriel Boric, um ex-líder 
estudantil, à presidência do Chile, e sua proposta central de campanha 
foi uma política para o bem-estar social.
6.6 Mídias no cotidiano 
contemporâneo Vídeo
Novas formas de comunicação e transformação nos suportes de ma-
terialidade (livros, jornais, computadores etc.) são as próprias inovações 
representadas pelas mídias sociais e pela ideia de uma cultura digital. Esta 
pode ser entendida como um conjunto de interações sociais praticadas 
com a utilização de recursos da tecnologia digital (como a internet, bus-
cadores on-line, e-mails ou qualquer programa que funcione de modo 
on-line ou off-line) e tudo aquilo relacionado à informação e comunicação 
(como computadores, notebooks, tablets, quadros e mesas interativas). 
Assim, podcasts, páginas na internet, jornais que funcionem por meio de 
aplicativos e as redes sociais, por exemplo, formam a cultura digital.
Por redes sociais podemos citar as que aproximam pessoas e países 
por meio de ideias comuns ou formas de interação on-line. Como exem-
plos das mais comuns dos últimos dez anos, há o Facebook, Instagram, 
Snapchat, Twitter, YouTube, TikTok, Tumblr e Pinterest, e não podemos 
esquecer as que já não existem, como Orkut, ICQ e Messenger.
A popularidade de algumas redes sociais levanta ao menos duas 
questões pertinentes: Como as redes sociais podem ser mal utilizadas 
para o convencimento de ideias contemporâneas, políticas, estéticas 
e comportamentais? E quais são os cuidados que devemos ter com os 
registros deixados nas redes sociais e na internet de modo geral?
Pesquisas em lojas, ruas, serviços e conversas por meio das redes 
sociais, repletas de backups e algoritmos 7 , permitem que diversos as-
pectos de nossas vidas sejam registrados. No Brasil, desde 2018 a Lei 
Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) tem por objetivo priorizar 
o direito e a liberdade de cada indivíduo no que ele propaga nos apli-
cativos de modo privado (BRASIL, 2018). Esse tipo de projeto de lei só 
Forma que as tecnologias 
de informação têm para 
compreender os diversos 
dados/caminhos que os 
indivíduos mantêm ao 
usar a internet e redes 
sociais. Por meio da sua 
análise, é possível rastrear 
e entender os interesses 
dos sujeitos.
7
Sociedade pós-industrial e globalização 137
foi pensado a partir do momento em que dados das redes sociais, dos 
aplicativos e até dos bancos começaram a ser hackeados ou até mes-
mo vendidos, isso sem considerar o uso de imagem que muitas vezes 
é desrespeitado. Essas características se potencializam quando perma-
necemos constantemente conectados nos celulares ou nos notebooks, 
em redes sociais, em redes bancárias etc. Assim, entendemos que a 
cultura digital também altera a forma como nos relacionamos com as 
pessoas, como estabelecemos diálogos e até como a nossa linguagem 
muda, por meio da intensificação da escrita on-line.
Assim, seja no campo educacional (formas de ensinar, ler e inte-
ragir) ou no Marketing Digital (formas de vender, expor o produto e 
criar vínculo com possíveis compradores), o que percebemos é que 
a cultura digital permanece em transformação, alterando as relações 
e comunicações sociais estabelecidas entre os sujeitos (HEINSFELD; 
PISCHETOLA, 2017). Isso acontece especialmente se consideramos o 
contexto da pandemia da Covid-19, que tanto evidenciou a desigualda-
de no acesso à internet e a recursos de qualidade quanto fomentou o 
uso daqueles que já estavam imersos nesse campo.
As mídias disponibilizam uma enxurrada de notícias, mas é preciso 
questionar o que se recebe. Nesse contexto, a expressão fake news (notí-
cias falsas) vem ganhando relevância. Trata-se de conteúdos que distor-
cem ou mentem sobre acontecimentos, pouco preocupados com fontes 
que corroboram com as afirmações, isto é, são notícias falsas que po-
dem atingir pessoas e instituições, bem como serem manipuladas para 
difamar pessoas em ocasiões sociais e políticas. As mídias, nesse caso, 
têm a obrigação de checar as informações antes de as disseminar, por-
que, caso não realizem essa etapa, podem ser tão sensacionalistas quan-
to os sites que reproduzem imagens de violência ou morte, como foi a do 
menino Alan Kurdi (SORJ; NOUJAIM; MARZOCCHI, 2021).
As consequências de imagens ou informações baseadas em fake 
news são guerras de opiniões, polarização de ideias, divergências ideoló-
gicas extremas, violências física e verbal e, em especial, a desinformação 
da nossa própria realidade. Sorj, Noujaim e Marzocchi (2021) ressaltam 
um aspecto importante: as fake news sempre existiram, no entanto, as 
mídias no século XXI potencializaram seu efeito. Além disso, essas mídias 
também podem ganhar financeiramente com essa desinformação, pois 
as pessoas tendem a clicar em matérias sensacionalistas.
138 História Contemporânea
Diante de bilhões de contas que existem, considerando desde o 
Facebook até o WhatsApp, é preciso lembrar a importância desses espa-
ços no meio político. Desde as eleições de 2018 no Brasil, ou de 2016 nos 
Estados Unidos, a comunicação em massa por meio desses aplicativos é 
intensa. Não se trata apenas do uso de fake news ou de provar a veraci-
dade de notícias e informações,mas também da construção da imagem 
política que as mídias sociais podem produzir. O olhar, a voz, o compor-
tamento e a relação com o cotidiano são alguns dos aspectos que podem 
ser utilizados para aproximar os sujeitos sociais aos que os “seguem”. En-
tretanto, a imagem é uma construção social, ideológica e cultural.
Contas, sejam particulares ou públicas, são formas de criar estraté-
gias de aproximação para manter a mobilização de apoio ou para ca-
nalizar ataques aos oponentes. A desqualificação de uma notícia pode 
ocorrer pelo tipo de linguagem, por recortes tanto da imagem quanto da 
luz e de efeitos falsos, entre outras práticas. É preciso cobrar fontes das 
informações vinculadas, observar se outras redes sociais corroboram ou 
não com as informações mais gerais, e cobrar regras sobre os conteúdos 
e linguagem, assim como sobre ferramentas de denúncia que possam 
ser utilizadas pelos próprios usuários quando forem confrontados com 
fake news e, especialmente, quando encontrarem imagens ou discursos 
que violem direitos humanos ou a integridade de pessoas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em um mundo globalizado em que se vende tecnologia por meio de 
relações de trabalho baratas e ao custo dos meios naturais explorados de 
modo desenfreado, discussões baseadas em diferenças étnicas, religiosas 
e identitárias decorrentes dos conflitos culturais entre o Oriente e o Oci-
dente são comuns.
É preciso pensar que o capitalismo necessita de guerra, de exploração 
e de concorrência – com ou sem intervenção do Estado – para continuar a 
existir. Regulá-lo, bem como suas regras e seus blocos econômicos, é um 
modo de diminuir as diferenças sociais não apenas entre sujeitos, mas 
também entre países.
Junto a isso, é preciso repensar sobre a relação que estabelecemos 
com o meio natural e lembrar que também somos natureza. É neces-
sário ainda questionar os estereótipos baseados nas diferenças identi-
tárias, de modo que imigrantes não morram durante a travessia de um 
país para outro ou em ataques terroristas.
Sociedade pós-industrial e globalização 139
ATIVIDADES
Atividade 1
Como se relacionam os conceitos de neoliberalismo, tecnologia e 
globalização?
Atividade 2
As relações étnicas formam argumentos para estabelecer dife-
renças entre países. Estabeleça uma relação entre identidade e 
nacionalismo.
Atividade 3
Estabeleça uma relação entre a Conferência das Nações Unidas 
sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, o Protocolo de Kyoto e o 
Acordo de Paris.
Atividade 4
O que seria a ideia de coisificação causada pela globalização e 
como isso afeta os reposicionamentos geopolíticos?
Atividade 5
As mídias propagam ideais e valores morais por meio de notícias 
e informações. Em um contexto de fake news, quais são as 
cobranças que os consumidores finais podem fazer dos meios de 
comunicação?
140 História Contemporânea
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http://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/1487/1/TD_1333.pdf
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https://site-antigo.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/o-brasil-no-fio-da-navalha-das-mudancas-climaticas
https://site-antigo.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/o-brasil-no-fio-da-navalha-das-mudancas-climaticasResolução das atividades
1 O começo de um século efervescente
1. Realize um levantamento de ao menos cinco principais marcos/
conceitos e acontecimentos discutidos neste capítulo e construa 
um mapa conceitual, especificando: as origens, os locais e os 
contextos em que ocorreram, as consequências e o caráter 
revolucionário desses acontecimentos.
Os marcos podem ser Revolução Francesa, burguesia, operários, 
classe, marxismo, socialismo, liberais, Comuna de Paris, Revoluções 
de 1838/1848, Liberdade, Igualdade e Fraternidade. É possível 
estabelecer continuidades e transformações entre todos os termos, 
por exemplo, o lema da Revolução Francesa ser um argumento nos 
movimentos de 1848, bem como nas décadas de 1860 e 1870, ou 
ainda ser responsável pelo crescimento da consciência de classe 
operária ao longo de todos esses movimentos contra as ações 
ortodoxas e conservadoras de parte da burguesia e dos liberais.
2. Caracterize os principais elementos do governo de Napoleão 
Bonaparte em relação às ideias de transformações e de 
continuidades.
Napoleão Bonaparte, com um caráter mais democrático, criou 
um governo com base em um “Consulado” composto de três 
representantes. No entanto, ele tinha uma imagem potencializada 
pelas suas ações no Exército em nome da França e por ter diminuído 
a instabilidade política após a Revolução Francesa. É pertinente ainda 
considerar que Bonaparte trouxe políticas educacionais e criou um 
sistema bancário nacional, mas proibiu a ação sindical e de clubes. 
Assim, é possível afirmar que o governo de Bonaparte promoveu 
ações com maior participação popular, mas manteve as resistências 
caladas, bem como a hierarquia social e de classe por meio da 
economia liberal.
3. Teorias políticas e sociais surgiram no século XIX a fim de 
compreender e dar respostas aos movimentos sociais e de 
trabalhadores. Com base nessa perspectiva, diferencie anarquismo 
de marxismo.
Ambos estão relacionados a uma perspectiva de compreender os 
movimentos operários que eclodem no século XIX. No entanto, 
o anarquismo questiona ideias relacionadas às instituições, visto 
Resolução das atividades 141
que para eles as que existiam mantinham as estruturas que 
determinavam as diferenças sociais, por isso questionavam a própria 
existência do Estado. O marxismo se sobrepõe à ideia socialista/
comunista a partir da década de 1840, quando passa a defender 
que a história da humanidade é uma história de dominação social 
por meio de classes e da força de trabalho. Também defendia que as 
revoluções de 1848 demonstravam que aquele era o momento para 
subverter a ordem classista e exploratória.
2 Imperialismo, sociedade e cultura
1. Como os historiadores podem abordar temas ligados à 
Modernidade sem centralizá-los em uma narrativa historiográfica 
em que a europeia é o centro ou um modelo?
Precisamos pensar de que modo o recorte temporal e espacial é 
escolhido. Quais objetos e acontecimentos compõem o processo 
escolhido de narrativa pelo historiador, a fim de que ele seja 
localizado como parte de temas que são locais e que, mesmo que se 
coloquem de modo universal, podem ser questionados, bem como 
confrontados por outras narrativas.
2. No que diz respeito à prática liberal, como é entendida a 
propriedade privada?
A premissa inicial é de que seres humanos nascem livres e iguais para 
os iluministas. Com base nisso, não é questionada a ideia de diferença 
de classe ou mesmo de acesso a bens. Do mesmo modo, o direito 
à propriedade é visto como natural, e, por isso, o Estado deve ser 
aquele que garante esse reconhecimento, mas não necessariamente 
contesta o porquê de alguns o terem e outros não.
3. De que forma é possível relacionar a arte muralista com a Revolução 
Mexicana?
A arte muralista foi fundada como movimento ao fim da Revolução 
Mexicana, em que líderes, como Carranza, Zapata e Villa, haviam 
evidenciado as contrariedades da história do México. Ao criarem 
murais, pintores como José Orozco, Davi Alfaro Siqueiros e Diego 
Rivera iniciaram um questionamento das práticas imperialistas, das 
reações do povo, da ideia de classe, de inferioridade e, em especial, 
da diminuição das sociedades originárias. Assim, aqueles que eram 
considerados e tratados de modo inferior começam a ser vistos 
como centrais para o entendimento da cultura e da identidade 
nacionalista.
142 História Contemporânea
4. Evidencie as principais pautas e as contradições internas da 
Revolução Mexicana.
O debate principal se concentra no questionamento do poder 
oligárquico e do caráter agroexportador da economia mexicana que 
apenas priorizava alguns alimentos, não fortalecendo a indústria. 
Além disso, empregava a mão de obra camponesa e indígena, 
alienando essas populações de seus costumes. Ao mesmo tempo, 
aqueles que defendiam a democracia liberal e a industrialização 
queriam o fim da reeleição do presidente, que era visto como ditador 
e apenas apoiava o setor agroexportador. A contrariedade está em 
grupos diferentes se unirem – diferenças essas que no decorrer da 
Revolução Mexicana são acentuadas, causando golpes e a dissolução 
do movimento.
3 Guerras Mundiais e Estado Totalitário
1. Explique a relação entre a eugenia e o imperialismo.
A ideologia ou teoria da eugenia colaborou para justificar e defender 
a supremacia dos povos europeus em relação a outros. A teoria 
argumentava que diferenças perceptíveis aos olhos significavam 
também diferenças biológicas, isto é, de capacidade produtiva ou 
até mesmo de desenvolvimento intelectual. Assim, em nome de 
uma “campanha civilizatória” em que o uso, a busca por mercado 
consumidor, o domínio e a exploração da terra eram os principais 
interesses dos países europeus, a eugenia serviu de respaldo.
2. De que forma a corrida imperialista está relacionada com a 
Primeira Guerra Mundial?
No último quarto do século XIX, a corrida imperialista disputava 
todos os mercados possíveis, inclusive a exploração da terra, o 
mercado consumidor e as zonas de influência. Alemanha e Itália, 
pela tardia unificação, eram as nações que menos tinham colônias, 
ao mesmo tempo que o capitalismo passava a ter seu caráter 
industrial monopolista e financeiro. A Segunda Revolução Industrial 
e a descoberta de novas fontes de energia apenas potencializavam 
as discussões travadas entre os países, bem como seus domínios. 
Alianças já existiam há décadas para se apoiarem em casos de 
invasões. Quando o arquiduque austríaco foi assassinado, por 
exmplo, imediatamente a Rússia apoiou os sérvios, enquanto a 
Alemanha apoiou o Império Austro-Húngaro. Por este Império já ter 
invadido o território italiano há alguns anos, isso fez com que a Itália 
apoiasse outra aliança, a estabelecida com a França e a Inglaterra.
Resolução das atividades 143
3. Em que medida a Primeira Guerra Mundial relaciona-se com a 
Revolução Russa?
O desgaste político czarista era forte já antes da Primeira Guerra 
Mundial por diversos motivos, entre eles o constante investimento 
nos interesses militares, enquanto investimentos em saúde, 
educação ou mesmo na industrialização eram ínfimos. O Domingo 
Sangrento, ocorrido em 1905, era uma reação dos populares pela 
guerra provocada pela Rússia com o Japão, o que causou prejuízos. 
Portanto, a entrada da Rússia na Primeira Guerra Mundial, além de ser 
questionada pela população, e o seu prolongamento até 1917 foram 
motivos que fomentaram mais ainda o processo revolucionário.
4. Explique a relação entre a Crise de 1929 e a Primeira Guerra 
Mundial.
Os Estados Unidos viveram o ápice de desenvolvimento econômico 
a partir do fim da Primeira Guerra Mundial, visto que a Europa, 
destruída, levou alguns anos para se recompor, ao mesmo tempo que 
outras áreas do globo também foram atingidas pelas determinações 
do Tratado de Versalhes e suas sanções. Algumas delas alteraram 
limites geográficos de países – prejudicando produção e escoamento 
de produção – ou mesmo os tornaram colônias de outros países. 
Dessa forma, o crescimento foi anorma, a ponto de o Estado não 
intervir e de não haver uma política de prevenção e regulamentação 
de mercado. Essas foram as condições vividas após a Primeira 
Guerra Mundial. A inexistência ou fraca presença de Estados que 
regulamentassem a política econômica favoreceu a ocorrência da 
Crise de 1929, porque sua característica mais marcante era o excesso 
de produtos ao mesmo tempo que o dinheiro estava ora em forma de 
crédito, ora em ações.
5. No que diz respeito às consequências da Segunda Guerra Mundial, 
por que a OTAN é uma das mais presentes em nosso contexto?
A bipolarização do mundo a partir dos interesses da URSS e dos 
Estados Unidos é a principal consequência para o mundo da Segunda 
Guerra. Assim, foram criados dois grupos representando as disputas 
entre eles: a OTAN e o Pacto de Varsóvia. Este deixou de existir ao 
fim da década de 1990, mas a OTAN permaneceu e recebeu mais 
membros, embora os Estados Unidos tivessem afirmado que não 
o fariam. Assim, diversos países sob influência desse grupo, que 
outrora representava os interesses dos Estados Unidos na Guerra 
Fria, têm cercado a Rússia, provocando desentendimentos, invasões 
e disputas ideológicas.
144 História Contemporânea
4 Guerra Fria, descolonização e a geração 1968
1. Cite aspectos apontados como indicadores de que a bipolarização 
do mundo estava começando no período logo após a Segunda 
Guerra Mundial.
Temas como totalitarismo e democracia demoraram alguns anos para 
serem sinônimos de quem estaria ao lado dos Estados Unidos ou da 
União Soviética. Mas é possível afirmar que a criação de agências de 
espionagem (KGB e a CIA, por exemplo), bem como a união de países por 
meio de acordos (Comecon, Pacto de Varsóvia, Plano Marshall, criação da 
Doutrina Truman e, em especial, a OTAN), demonstram que as diferenças 
se acirraram logo após a Conferência de Potsdam, em 1945.
2. Explique a importância da Conferência Ásia-África ocorrida em 
1955, na cidade de Bandung, para o contexto da Guerra Fria.
A conferência teve como pauta determinações que os países, 
recém-descolonizados ou recém-independentes deveriam ter para 
livrarem-se do jugo, das influências e da própria pressão em suas 
instituições no que diz respeito às práticas colonizadoras. Além disso, 
também desejavam não se envolver na Guerra Fria, visto que tomar 
partido por um outro grupo era ceder para uma questão que era 
própria ou de interesse de países como os Estados Unidos e a União 
Soviética (incluindo da Europa, que era aliada desses). Dessa forma, 
consideravam que esses interesses não poderiam ser os seus para que 
alcançassem a liberdade e autonomia política realmente desejadas.
3. Caracterize e conceitue a sociogênese de Frantz Fanon.
Nos anos 1960, em meio ao governo de Charlles de Gaulle, havia um 
crescimento industrial, porém, devido a uma formação exponencial na 
educação e no movimento migratório, o desemprego era recorrente. 
Propostas nacionalistas também eram um entrave e criticadas por 
parte da população. Frantz Fanon, negro e imigrado da América Latina, 
chegou a Paris nesse período. Para ele, o mundo social encontrado o 
fez perceber e sentir que o seu era negro, experiência que a ele gerou 
a ideia de sociogênese, a fim de pensar a racialização do corpo e como 
questionar as consequências dessa cultura colonizadora, imperialista 
e preconceituosa.
4. A teoria decolonial é mais uma forma de construir uma narrativa 
plural dos acontecimentos da história. Caracterize três elementos 
que representam princípios para aqueles que escolhem ter um 
pensamento mais decolonial.
Resolução das atividades 145
O pensamento decolonial tem como origem ideias de intelectuais 
latino-americanos preocupados com uma vertente que desse lugar 
a uma epistemologia de povos antes colonizados pelo processo de 
ocupação europeu. Também é possível considerar que essa teoria não 
exclui outras, mas questiona a origem de características e instituições 
que não são latino-americanas. O pensamento decolonial também 
defende uma posição fronteiriça, isto é, não nega a existência de 
consequências estruturais colonizadoras, mas sugere que é possível 
criar consciência sobre elas a fim de dar mais autonomia e criar um 
campo em que a diversidade latino-americana seja a pauta, para 
além da influência europeia. A análise de uma história mais decolonial 
produz possibilidades como estar contra uma monocultura de 
pesquisa, favorecer uma ecologia dos saberes e questionar princípios 
racistas, desde aqueles que podem vir da ciência até uma educação 
menos racista.
5 Crises socialistas
1. Defina o que é populismo e suas características principais.
Populismo é uma forma de governo que envolve questões 
econômicas, culturais e políticas. Tem características em comum, mas 
em contextos diversos e até mesmo de tendências diferentes. Pode 
crescer como forma de governo diante de uma crise hegemônica 
classista ou o desgaste da classe ou governo predominante, 
especialmente pela ação de movimentos contestatórios sociais. 
Assim, um líder carismático passa a ser visto como sinônimo 
das soluções e representante do povo, ao mesmo tempo que 
alia interesses mais elitistas e de classes menos abastadas. Não 
necessariamente há uma revolução social e econômica, podendo 
ter a defesa de intervenção do capital estrangeiro ou não. Além 
disso, há a presença do nacionalismo e a evidência em aspectos 
identitários que reforçam o discurso nacionalista.
2. De que forma a situação política do Equador nos primeiros 20 anos 
do século XXI está relacionada ao contexto global e decorrente do 
período da Guerra Fria?
Parte da influência norte-americana na América Latina foi mais evidente 
antes e durante as ditaduras civil-militares nos últimos 50 anos do 
século XX. Essa estratégia era fruto de uma disputa com a ex-URSS 
durante a Guerra Fria. Como resultado permaneceram governos 
influenciados por uma perspectiva neoliberal até os anos 1990, 
com privatizações de empresas nacionais e menos políticas sociais, 
especialmente direcionadas às minorias, como grupos indígenas. 
146 História Contemporânea
O Equador mudou parcialmente esse contexto com o governo da 
Revolução Cidadã, quando coletivos sociais o apoiaram tanto para 
a eleição, quanto para a continuidade por 16 anos (contando com 
o governo de Correa e os apoiados por ele com seu antigo vice).
A despeito da Assembleia Constituinte não ter sido composta por
todos esses coletivos, eles se tornaram forças contundentes como
movimentos sociais que continuam atuando.
3. A Venezuela tem uma trajetória que se apresenta por parte dos 
políticos com a Revolução Bolivariana. O que manteve Hugo Chávez 
no poder por tanto tempo e por que o país é alvo de interesses 
internacionais?
Hugo Chávez mudou as regras e leis em relação ao petróleo a partir 
de 1999, época de grande valorização do produto. A PDVSA foi 
estatizada e se tornou a principal fonte para suas políticas sociais, 
todavia essa era a única renda para esses programas, o que o 
limitou em diversos momentos devido às disputas e às especulações 
internacionais. A partir de 2002, com a criação de empregos e a 
distribuição de propriedades, embora de modo desigual, grupos 
coletivos passaram a apoiar mais Chávez. Até os mais elitistas o 
apoiaram, ainda que com mais resistência, mesmo tendo permanecido 
com suas propriedades
4. A Revolução Cubana é considerada um marco na história da 
América Latina e dentro dos movimentos esperados do contexto 
da Guerra Fria. Explique o porquê.
A Revolução Cubana é considerada um marco na história da América 
Latina porque ocorreu no auge da Guerra Fria quando a União 
Soviética disputava espaço diretamente com os Estados Unidos. 
Além disso, Fulgencio Batista tinha acordos políticos e econômicos 
com os Estados Unidos, incluindo bases militares. Portanto, quando 
Fidel Castro derrubou o presidente por meio de guerrilhas e apoiado 
pelo povo – que sofria descasos pelo governo liberal –, os Estados 
Unidos se sentiram atacados diretamente.6 Sociedade pós-industrial e globalização
1. Como se relacionam os conceitos de neoliberalismo, tecnologia e
globalização?
O neoliberalismo é uma prática político-econômica, aliada à
tecnologia, que cresceu por meio da diminuição das fronteiras e
distâncias ocasionadas pelo processo da globalização. A tecnologia
Resolução das atividades 147
permite que a comunicação seja muito rápida dentro de contextos 
diversos nos últimos séculos. No entanto, a interferência de 
interesses de classes mais tradicionais e burguesas na forma como 
o Estado organizou as estruturas da economia e da política permite, 
por sua vez, que os setores que atendem as populações em suas 
necessidades básicas sejam direcionados de acordo com os princípios 
do capitalismo, que entende que a apropriação da regulação e das 
estruturas do Estado é lucrativa.
2. As relações étnicas formam argumentos para estabelecer 
diferenças entre países. Estabeleça uma relação entre identidade 
e nacionalismo.
Questões identitárias são legitimadas e reafirmadas por meio de 
práticas culturais, como a língua, formas de vivência no cotidiano (como 
a comida que se consome, as danças mais comuns etc.) e diferenças 
que são percebidas em relação aos que estão em outras regiões. O 
que entendemos é que as características identitárias são culturais e 
transformadas em sinônimos das nações, cujo nacionalismo é uma 
consequência.
3. Estabeleça uma relação entre a Conferência das Nações Unidas 
sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, o Protocolo de Kyoto e o 
Acordo de Paris.
Os três acontecimentos estão relacionados, visto que são encontros 
da Conferência das Nações Unidas. O primeiro marco foi o encontro 
em 1992. no Rio de Janeiro, que teve como pauta principal problemas 
ambientais de todo o mundo. Posteriormente, o segundo encontro 
foi o de Kyoto, no qual foi assinado um protocolo sobre sanções 
em relação ao efeito estufa. E, em 2016, algumas pautas foram 
modificadas enquanto outras foram criadas no encontro de Paris.
4. O que seria a ideia de coisificação causada pela globalização e 
como isso afeta os reposicionamentos geopolíticos?
A ideia de coisificação está relacionada à mundialização do capitalismo 
desde 1500, em que as pessoas, em muitas circunstâncias, são 
vistas apenas como meras receptoras de produtos. Subjetividade, 
afetividade, empatia e solidariedade são termos que o capital apenas 
considera se forem lucrativos. Assim, questões sazonais, de trabalho, 
políticas e/ou de guerra fazem com que grandes massas humanas 
migrem, transformando-se em mão de obra barata ou consumidores 
suscetíveis ao capitalismo. São grupos em excesso, cuja ausência não 
é notada pelo capital na maior parte das vezes.
148 História Contemporânea
5. As mídias propagam ideais e valores morais por meio de notícias 
e informações. Em um contexto de fake news, quais são as 
cobranças que os consumidores finais podem fazer dos meios de 
comunicação?
É preciso considerar que as mídias têm um compromisso de trazer 
credibilidade e a maior proximidade possível entre os acontecimentos 
e o leitor, visto que esses acontecimentos não são totalmente 
palpáveis. Para tanto, pode-se cruzar dados, buscar fontes diversas 
sobre o mesmo assunto e entender que, embora não haja uma 
verdade universal para um acontecimento, o olhar múltiplo também 
não o diminui desde que tenha fontes para corroborar com o que 
se afirma. Além disso, qualquer informação propagada nas mídias 
sociais deve ser questionada.
Resolução das atividades 149
ISBN 978-65-5821-195-2
9 786558 211952I000791
Código Logístico
H
istória C
ontem
p
orânea
L
orena Z
om
eraos pedidos de mudanças, ou seja, a diferença entre esses 
grupos tornou-se maior, no caso inglês, fazendo com que grupos próprios 
de trabalhadores se organizassem cada vez mais (HOBSBAWM, 2010).
Embora houvesse relações entre moderados liberais e grupos que 
entendemos como mais de esquerda, aos poucos as divisões se tor-
naram mais frequentes, especialmente porque os primeiros não insis-
tiam em pautas tão revolucionárias e atribuíam o poder a príncipes, 
a descendentes de nobres e à própria burguesia. Não obstante, no 
caso inglês, desde a Carta do Povo – um documento que provocou 
movimentações entre 1838 e 1842 (conhecido como Movimento Cartis-
ta) –, os sindicatos de trabalhadores (trade unions) buscavam ganhar 
notoriedade, especialmente porque algumas de suas exigências cor-
roboravam exigências suscitadas com base no Ato da Reforma, como 
a discussão do sufrágio universal secreto e outras direcionadas dire-
tamente ao Parlamento.
Sobre esses movimentos, rurais ou urbanos, que não são isola-
dos ou apenas da França e da Inglaterra, é importante entender-
mos que ocorreram em tempos e espaços diferentes entre 1830 e 
1848, ou seja, não concomitantes.
18 História Contemporânea
1.3 1871: a res publica dos trabalhadores 
Vídeo
Em comum às revoluções ocorridas entre 1830 e 1848 e a Comu-
na de Paris 3 , de 1871, estão as vozes populares. Em 1871, grupos 
de operários, sindicatos, instituições corporativistas, entre outros, 
organizaram-se contra a crise econômica e política, já que a França 
se encontrava em guerra contra os Estados Alemães (que viriam 
a ser a Alemanha). A crise política, no entanto, não era decorren-
te apenas do desgaste da guerra, mas do regime “bonapartista” 
do imperador Napoleão III, que subiu ao poder por meio de ple-
biscito em 1851, após as conturbadas movimentações de 1848 
(PONGE, 1996).
Na cidade e região de 
Paris, em 1871, houve di-
versas insurreições popu-
lares, o que fez com que a 
cidade fosse evacuada em 
parte e as camadas mais 
abastadas se afastassem, 
até a tomada por meio de 
um conflito civil.
3
Fonte: CAMPHAUSEN, Wilhelm. Otto von Bismarck e Napoleão III após a Batalha de Sedan em 1870. 1878.
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O começo de um século efervescente 19
Napoleão III prometeu que lideraria um tempo de segurança social, 
manteria os grupos mais subalternos calados e expandiria o território 
francês (embora tenha sofrido apenas derrotas após 1860). É com base 
nesse contexto que os movimentos mais organizados começam, já in-
fluenciados e envolvidos por ideias marxistas, liberais, nacionalistas e 
republicanas. Desde 1864 em Londres, ano de fundação da Associação 
Internacional dos Trabalhadores (AIT), a oposição ao imperador crescia 
nas eleições sob a argumentação de que a República e uma política 
mais liberal seriam as soluções para a história de vários países.
Nesse contexto, em 1870 ocorreu a Batalha de Sedan, uma das mais im-
portantes da Guerra Franco-Prussiana, em que milhares de soldados foram 
mortos e a perda francesa na batalha fomentou a união de estados inde-
pendentes nacionalistas da Alemanha. Com esse fortalecimento, a postura 
imperialista de Napoleão III e as consequências dela fizeram com que sua 
imagem e seu governo fossem mais uma vez questionados, isso depois 
de ter anunciado uma reforma constitucional, transformando a França em 
uma monarquia parlamentar. Ainda nesse contexto, ele passou a perse-
guir mais os membros da AIT que lhe faziam oposição (HOBSBAWM, 1982). 
Com a derrota de Sedan, a população invadiu a Câmara dos Deputados e 
derrubou o governo, fazendo com que fosse proclamada a República na 
França por meio de um governo de defesa nacional.
Em resposta a esse novo acontecimento, a AIT e a Câmara Federal das 
Sociedades Operárias decidiram organizar um comitê formado por dele-
gados de todas as regiões administrativas de Paris. Formou-se em cada 
região um Comitê Republicano com quatro membros, criando-se um mu-
nicipal conhecido como Comitê Central Republicano de Defesa Nacional das 
Vinte Regiões de Paris, que era uma oposição ao primeiro-ministro do novo 
governo. O lema era: a política, a estratégia, a administração de 4 de se-
tembro, na continuidade do Império, estão julgadas (PONGE, 1996).
Essas foram as condições que emergiram o movimento Comuna de 
Paris (de setembro de 1870 até o início de 1871) repleta de proletários 4 dis-
putando espaço com o governo oficial sobreposto ao de Napoleão, ao tem-
po que a França negociava tratados e a rendição com Otto von Bismarck.
Esse movimento era mais organizado e objetivo em relação aos mo-
vimentos de 1838-1848, não apenas porque não estavam envolvidos 
diretamente com grupos moderados, liberais etc., mas porque as pau-
tas trabalhistas e de direitos civis eram evidentes. Entre elas estavam a 
Proletários é um termo 
historiográfico que passou 
a ser um sinônimo dos 
antigos sanscullotes, visto 
que o parque industrial 
de Paris não era tão forte 
para apresentar tantos 
operários. Assim, proletário 
se torna uma antítese de 
capitalista nesse contexto 
(RUDÉ, 1982).
4
20 História Contemporânea
revogação de leis que limitavam a imprensa; o direito a reuniões e as-
sociações de qualquer tipo; a revogação dos direitos da polícia imperial 
que deveria ser submetida à polícia de Paris; e o alistamento de todos 
os homens a fim de enfrentar a Prússia.
É a partir do Comitê em 1871 que a imprensa passa a divulgar mais 
notícias, permitindo a circularidade de informações, bem como publica 
um programa de governo. Nos meses que se seguem, uma assembleia 
e uma votação precisaram ser organizadas, visto que a Alemanha exi-
gia um país estável para negociar. Enquanto a maioria do país votou 
por essa paz, Paris permaneceu armada e questionando o governo, es-
pecialmente porque muitos dos votos pela paz eram de monarquistas. 
O excerto deixa evidente a resistência presente em Paris:
Pela República Francesa e, depois, pela República Universal. 
Chega de opressão, de escravidão ou de ditadura de qualquer 
tipo; pela nação soberana, com cidadãos livres, governando-se 
conforme sua vontade. Então, o lema sublime: Liberdade, Igual-
dade, Fraternidade, não será mais uma vã palavra. (PRIOLLAUD, 
1983 apud COGGIOLA, 2021)
O governo mudou para Versalhes nesse período e, a despeito da ação 
dos vários comunas que faziam parte do movimento em Paris, exerceu for-
te pressão sobre as prefeituras locais. Enquanto isso, o Comitê da Guarda 
Nacional, criado a partir da supressão dos policiais imperiais, decretou a 
anistia de presos políticos, a liberdade 
de imprensa e a nomeação de novos 
ministros e secretários para cargos po-
líticos e públicos.
Ainda em fevereiro de 1871, foi 
decretada a Declaração de Princípios, 
que afirmava que qualquer membro 
do Comitê deveria se filiar ao partido 
socialista, a fim de suprimir os privilé-
gios burgueses oferecendo igualdade 
e justa distribuição dos produtos do 
trabalho dos operários, além de pe-
dir uma nova Constituinte, pela qual 
o responsável seria o próprio Comitê 
revolucionário. Marcharam pelo cen-
tro de Paris em direção à Bastilha, 
Conflito na praça Blanche.
Fonte: La prise de Paris. 1871. Litografia. Museu Carnavalet, Paris.
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O começo de um século efervescente 21
com a participação de mulheres, crianças e mais de 300 mil policiais 
armados, na maioria operários.
Sobre esse período, Karl Marx (2011) definiu que se tratava de um 
governo da classe operária, resultado de décadas de lutas, de organi-
zação e de tomada do Estado para si. Segundo Bakunin (apud Molnar 
1974), esse momento pode ser definido como uma negação de Esta-
do, algo predominantemente socialista.
Marx traz elementos importantes sobre a composição da Comuna 
de Paris, lembrando que seus conselheiros eram eleitos pelo sufrágio 
universal e poderiam ser substituídos. Era vista como um órgão corpo-
rativista de trabalhadores, cujo trabalho policial e administrativo era 
comandado por ela, ou seja,todos eram submetidos à Comuna, além 
de ter a ideia de que, uma vez que chegassem às províncias do interior 
da França, os governos seriam formados também por produtores lo-
cais. Esse aspecto reitera o caráter popular de todas as comunas que se 
instalariam, as quais deveriam ainda manter assembleias e delegados 
eleitos para definições de temas coletivos, bem como teriam deputa-
dos representantes em Paris (MARX, 2011).
A Comuna de Paris não sobreviveu por muito tempo, visto que não in-
tencionou atacar Versalhes, onde estaria o governo visto como legítimo e 
apoiado pelos burgueses, ao mesmo tempo que, ao formar o próprio Exér-
cito, não considerou muitos daqueles que compunham o Exército oficial. 
No entanto, a Semana Sangrenta de maio, como ficou conhecido o período 
em que os comunas foram dizimados e presos, resultou em um fortaleci-
mento das classes operárias, não apenas pela consciência de classe que já 
tinham, mas por entender que a política deveria fazer parte definitiva da 
pauta deles, a fim de conseguirem direitos sociais, civis e políticos.
1.4 Marxismo e anarquismo 
Vídeo O alemão Karl Marx foi um intelectual conhecido por seus escritos. 
Ele escreveu com Friedrich Engels e, embora sendo da Alemanha, sua 
relação com a França se intensificou ao fim dos anos 1830. Isso ocorre 
a partir da Liga dos Comunistas, a primeira organização internacional 
que se intitula comunista e cuja origem está na fundação da Liga dos 
Justos, de 1836, à luz das ideias de Gracchus Babeuf. Anos mais tarde, 
com a intensificação das ideias de Marx, a Liga passa a se reconhecer 
como comunista.
22 História Contemporânea
Os movimentos operários foram intensos e cada vez em maior 
número durante o século XIX, especialmente após a década de 1830. 
Em 1848, já participando da Liga Comunista, Marx e Engels lançaram 
suas ideias sobre o mundo no trabalho e o capitalismo, intitulando 
o panfleto/folder (que viria a ser um livro) de Manifesto Comunista. 
A escrita e divulgação desses ideais tinham por objetivo difundir 
mais a ideia de classe, porque, mesmo com tantos movimentos, a 
organização por meio de instituições e sindicatos que se autoiden-
tificassem como operárias ainda era insuficiente para movimentos 
maiores, como foi a Comuna de Paris.
Com essas preocupações, ambos os intelectuais escreveram um 
texto que relacionava o mundo do trabalho, envolvendo a produção, 
o consumo e as particularidades próprias da história do capitalismo 
até aqueles dias, seja ele industrial ou de produção no campo. Para 
Hobsbawm (2011), o comunismo anterior às ideias de Marx deba-
tia sobre a relação do ser humano com a natureza, sobre si mesmo. 
A partir do encontro das ideias de Marx e do comunismo, o Manifesto 
passa a trazer como foi o desenvolvimento histórico de diversas socie-
dades, incluindo a burguesia e a classe operária, entendendo que esta 
foi ocasionada por aquela.
Assim, com essa análise, Marx passou a defender que o proletariado só 
teria seus direitos respeitados se derrubasse a estrutura que gerava uma 
sociedade hierarquizante baseada em uma falsa meritocracia e na venda in-
justa do trabalho de operários. No entanto, um diferencial entre a teoria do 
que havia antes e o contexto vivido em meados daquele século é que aque-
le período trazia uma oportunidade – consciência – sobre como fazer uma 
revolução e quebrar o ciclo, cujo predomínio era dos interesses capitalistas.
A perspectiva de que as diferenças sociais sempre existiram, e que 
a burguesia e o proletariado as representavam, evidencia-se a seguir:
Há dezenas de anos, a história da indústria e do comércio não 
é senão a história da revolta das forças produtivas modernas 
contra as atuais relações de produção e de propriedade que 
condicionam a existência da burguesia e seu domínio. Basta 
mencionar as crises comerciais que, repetindo-se periodicamen-
te, ameaçam cada vez mais a existência da sociedade burgue-
sa. Cada crise destrói regularmente não só uma grande massa 
de produtos já fabricados, mas também uma grande parte das 
próprias forças produtivas já desenvolvidas. Uma epidemia, que 
em qualquer outra época teria parecido um paradoxo, desaba 
O começo de um século efervescente 23
sobre a sociedade – a epidemia da superprodução. Subitamen-
te, a sociedade vê-se, reconduzida a um estado de barbaria mo-
mentânea, dir-se-ia que a fome ou uma guerra de extermínio 
cortaram-lhes todos os meios de subsistência; a indústria e o 
comércio parecem aniquilados. (ENGELS; MARX, 1999, p. 16-17)
Dessa forma, o comunismo deixaria de ser uma teoria para ser práxis. 
Esse era o objetivo do Manifesto Comunista, escrito de modo direto e sim-
ples para chamar os operários a se encontrarem como classe, formarem 
uma consciência mais política e derrubarem aquilo que entendiam como 
opressão àqueles que sempre foram a força de trabalho do mundo capita-
lista (HOBSBAWM, 2011), mas não faziam uso dos próprios produtos que 
geravam e nem pagos adequadamente eram (mais valia). Essa classe a ser 
derrubada era a burguesia, que teria se apropriado dos bens do campo e 
da cidade, tirado o direito de produção própria de pequenos produtores, 
submetendo-os ao controle das indústrias nos grandes centros, sob con-
dições insalubres e com baixos pagamentos.
Importante ainda é a teoria anarquista que surge concomitante 
ao comunismo, na década de 1840, e se potencializa com a criação da 
AIT, embora não tenha sido uma organização política tão forte ou efe-
tiva em filiais e partidos políticos como foi o comunismo. O anarquis-
mo tem como uma de suas origens o livro O que é propriedade? (1840), 
de Pierre Joseph Proudhon (1975), no qual a propriedade foi apresen-
tada como uma possível forma ilegítima de justificação de atos ditado-
res ou tiranos e, por oposto, uma forma de liberdade. Assim, é justo ter 
uma propriedade devidamente ocupada em que há trabalho, mas seus 
objetivos não podem ser em uma escala maior que o lucro e a locação.
Nesse período, a anarquia era vista como um projeto político utó-
pico especialmente pela ausência de Estado. Esse é um diferencial em 
relação ao socialismo (que em último nível de aplicação é o comunis-
mo), para o qual o Estado deve ser tomado, entendendo-se que por 
essa política é que se dá a transformação social. Já para o anarquismo, 
o Estado não deve existir. Isso se deve pela instabilidade representada 
pelo Estado francês no período, e também por ele não representar a 
população de modo geral.
Para além dos mitos que a palavra anarquia sugere, a proposta des-
ses teóricos era a de que todos que compõem uma sociedade devem 
decidir sobre sua realidade sem práticas coercitivas, opressivas ou de 
exploração de sujeito sob sujeito (DELEPLACE, 1985 apud HERSCOVICI, 
24 História Contemporânea
2013). Para muitos desses intelectuais, instituições como o Estado, o 
capital, a religião, a educação, entre outras, são formas de controle de 
uma ou duas classes sobre outras.
Assim, a perspectiva anarquista é a de criar um mundo plural, onde 
a autonomia e liberdade de cada indivíduo sejam as regras. Com os 
desdobramentos de 1848, a proposta anarquista cresceu no meio in-
telectual, especialmente após a criação da AIT em 1864, quando os 
primeiros “anarcossindicatos” foram criados, bem como passaram a 
ganhar notoriedade e a serem perseguidos.
Podemos dizer que o anarquismo encontrava nas pautas operárias 
seus interesses e vice-versa, ou seja, operários podiam ver na liberdade 
em relação às amarras institucionais do anarquismo uma forma de criar 
novos espaços e novas expectativas para os operários (NOIRIEL, 1990).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Jacob Buckhardt (2009), do século XIX, afirmava que a essência da história 
é a sua eterna mutabilidade. Assim, o que buscamos trazer neste capítulo foi a 
historicidade própria da história, de seus conceitos e da importância em pen-
sarmos o século XIX não apenas como a estreia do Período Contemporâneo, 
mas um período marcado por continuidades e transformações próprias do 
quese espera da experiência humana no tempo e no espaço.
Se por um lado as temporalidades e divisões são históricas, precisa-
mos considerar que o que somos está atrelado ao modo como essas 
sociedades conceberam o mundo. Para além do Antigo Regime e seu ab-
solutismo que finda em 1789, e a burguesia que potencializa o seu poder, 
há novas multidões que tomaram os campos, as cidades e, em especial, 
as novas organizações políticas, proporcionando os palcos para que indi-
víduos mudassem a história de grupos marginalizados.
ATIVIDADES
Atividade 1
Realize um levantamento de ao menos cinco principais marcos/
conceitos e acontecimentos discutidos neste capítulo e construa 
um mapa conceitual, especificando: as origens, os locais e os 
contextos em que ocorreram, as consequências e o caráter revolu-
cionário desses acontecimentos.
O começo de um século efervescente 25
Atividade 2
Caracterize os principais elementos do governo de Napoleão 
Bonaparte em relação às ideias de transformações e de 
continuidades.
Atividade 3
Teorias políticas e sociais surgiram no século XIX a fim de compreen-
der e dar respostas aos movimentos sociais e de trabalhadores. 
Com base nessa perspectiva, diferencie anarquismo de marxismo.
REFERÊNCIAS
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BURCKHARDT, J. A cultura do renascimento na Itália: um ensaio. Trad. de Sérgio Tellaroli. 
São Paulo: Companhia de Bolso, 2009.
COGGIOLA, O. 150 anos da Comuna de Paris. A Terra é redonda, 15 mar. 2021. Disponível em: 
https://aterraeredonda.com.br/150-anos-da-comuna-de-paris/. Acesso em: 20 set. 2022.
DECCA, M. A. G.; DECCA, E. S. A vida fora das Fábricas. São Paulo: Paz e Terra, 1988.
ENGELS, F.; MARX, K. O manifesto comunista. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 1999.
FRAGONARD, J.-H. Um beijo roubado. 1750. Pintura a óleo. 47 x 60 cm. Museu Hermitage, 
São Petersburgo.
HERSCOVICI, A. Keynes e o conceito de capital: reflexões epistemológicas a respeito das 
premissas sraffianas da Teoria Geral. Revista de Economia Política, v. 33, n. 3, p. 486-504, set. 2013.
HOBSBAWM, E. A era das revoluções: 1789-1848. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2010.
HOBSBAWM, E. A era do capital: 1848-1875. São Paulo: Paz e Terra, 1982.
HOBSBAWM, E. Como mudar o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
HUNT, L. Política, cultura e classe na Revolução Francesa. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
KOSELLECK, R. Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de 
Janeiro: Contraponto; Editora PUC-Rio, 2006.
MARX, K. A Guerra Civil na França. São Paulo: Boitempo, 2011.
MOLNAR, M. El declive de la primera internacional. Madri: Edicusa, 1974.
NOIRIEL, G. Approche des questions du travail et interdisciplinarité. Sociétés contemporaines, 
n. 1, p. 47-69, mar. 1990.
PONGE, R. A Comuna de 1871. O Olho da História, Salvador, UFBA, n. 4, 1996.
PROUDHON, P. J. O que é a propriedade? Trad. de Marília Caeiro. 2. ed. Lisboa: Editorial 
Estampa, 1975. 
RUDÉ, G. As revoluções francesas do século XIX: ideologia e protesto popular. Rio de Janeiro: 
Zahar, 1982.
SILVA, K. V.; SILVA, M. H. Dicionário de conceitos históricos. São Paulo: Editora Contexto, 2009.
THOMPSON, E. P.  A Formação da classe operária inglesa:  a árvore da liberdade. Rio de 
Janeiro: Paz e Terra, 1987.
https://aterraeredonda.com.br/150-anos-da-comuna-de-paris/
26 História Contemporânea
2
Imperialismo, sociedade 
e cultura
O foco deste capítulo é o período de meados do século XIX para o 
XX, a partir dos seguintes eixos: a expansão industrial, suas tecnologias e 
desdobramentos sobre a vida humana tanto em aspectos sociais quanto 
culturais; a política econômica, o liberalismo e sua relação com a expan-
são industrial e as reações populares, como a Revolução Mexicana; e as 
transformações nas sociabilidades de grupos mais abastados, como as 
ocorridas com “novos e velhos ricos” do fim do século XIX e início do XX e 
entre os grupos menos populares.
Para problematizar essa relação intrínseca entre novas sociabilidades 
permeadas por questões de políticas econômicas imperialistas e naciona-
listas de um capitalismo, trazemos contextos culturais, bem como perma-
nências e continuidades de comportamentos e códigos morais, para além 
do espaço europeu, visto que se trata de História Contemporânea. Junto 
a isso, podemos observar essas novas sociabilidades no campo e no mun-
do urbano que deram sentido ao tempo e espaço, assim como passaram 
a ser exemplos da contemporaneidade no Ocidente.
Mais que isso, reiteramos que o modelo liberal, por exemplo, é euro-
peu e se trata de uma prática que se estende a outros lugares por seu 
caráter civilizatório, isto é, relaciona-se com uma extensão da postura 
colonial europeia, que vê a América e outros continentes como zonas de 
influências, mesmo após a independência.
Não menos importante é a posição norte-americana, como se fosse 
mais preparada e organizada, em relação ao restante da América. Assim, 
a escolha pelo tema da Revolução Mexicana e das novas sociabilidades do 
fim do século XIX é justamente para refletirmos sobre as adaptações des-
se novo mundo contemporâneo, industrial e imperialista, que estava em 
disputa, e para percebermos como se deram as resistências às práticas 
de imposição política e econômica.
Imperialismo, sociedade e cultura 27
Com o estudo deste capítulo, você será capaz de:
• entender o processo da Revolução Industrial como condição de 
transformações políticas, econômicas, sociais e culturais a partir 
de meados do século XIX;
• analisar a ascensão do movimento político liberal entre o fim do 
século XIX e início do XX;
• pensar sobre cenários culturais do século XIX, com base em novos 
comportamentos e sociabilidades;
• compreender a transformação social e cultural gerada pela Revo-
lução Mexicana no contexto contemporâneo da América Latina.
Objetivos de aprendizagem
2.1 Expansão industrial 
Vídeo
Para pensarmos sobre como a indústria cresceu e se tornou parte cru-
cial da economia mundial, precisamos considerar como se deu a política 
de expansão, isto é, como os Estados-nação foram organizados entre o sé-
culo XIX e início do XX. Essa organização permitiu que houvesse uma nova 
formação geopolítica e de trocas entre os países considerados centrais e 
os periféricos, como os recém-independentes da Ásia e da América.
Sobre isso, também é prudente considerarmos um princípio historio-
gráfico que vem acompanhando o debate da teoria da história: o que é 
centro e o que é marginal? Além disso, como esse centro se torna mode-
lo para outros e elimina a ação deles? O centro, como tratado pela his-
toriografia e pelo historicismo, por muito tempo foi a Europa com seus 
desdobramentos de modelos comportamentais, políticos etc., isto é, o 
exemplo a ser seguido como padrão, que é oposto ao marginal.
Assim, o que é apontado como concreto ou geral, singular ou univer-
sal e que dá sentido a um processo é aquele que, nas palavras de Hannah 
Arendt (2012), tem o monopólio de universalidade. A história tem por 
objetivo reunir acontecimentos em um processo geral, a fim de dar um 
sentido histórico. No entanto, o recorte temporal e o espacial escolhidos 
pela história no nosso mundo moderno estão submetidos ao que enten-
demos como modernidade (direitos humanos, cidadania, estados insti-
28 História Contemporânea
tucionais, relação privada e pública e formação de grupos sociais). Essa 
modernidade predominou devido à colonização do pensamento, do ser 
e do poder, demarcando as diferenças entre os hemisférios Norte e Sul, 
as quais também embasam histórias locais e de resistência.
Para um debate mais específico sobre como questionar a centralidade 
europeia nos temas historiográficos, sugerimos o texto Desafios decoloniais 
hoje, de Walter Mignolo.
Acesso em: 30 set. 2022.
https://revistas.unila.edu.br/epistemologiasdosul/article/view/772
Artigo
Portanto, nossa escolha pelos temas desse capítulo visa trazer um 
processo de formação política europeiacontemporânea – e seus aconte-
cimentos –, mas reafirmamos que são experiências locais e que devem 
ser relacionadas a outros centros, como África e Ásia, antes vistos apenas 
como periferias. Foi assim que o século XIX potencializou a ideia de na-
ção predominante no Ocidente até os dias atuais. É uma perspectiva po-
lítica que se estende às colônias dos países europeus que as originaram.
Quando um ideal político é definido por meio de um idioma domi-
nante, do modo de viver, de um sistema jurídico e dentro de um territó-
rio, temos um Estado-nação, o qual será responsável por tudo o que ali 
ocorre (SILVA; SILVA, 2009). Sem dúvida, o Congresso de Viena demons-
trou a importância da demarcação de espaços, visto o que Napoleão 
Bonaparte causou no início do século XIX. Além disso, a industrialização 
no decorrer desse período marcou a importância de reafirmar a legiti-
midade política das nações ou elas seriam tomadas por outros.
Não muito distante desse marco temporal estavam os Estados Unidos, 
que desejavam um crescimento econômico e territorial desde o início do 
século XIX, ainda mais evidente com a publicação do Destino Manifesto, em 
1845. Para eles, a expansão era uma vontade divina, e seus argumentos 
eram de que sua cultura era superior à dos mexicanos e dos indígenas. Essa 
postura, junto a uma imigração massiva, transformou os Estados Unidos 
em uma potência imperialista, bem como trouxe novas sociabilidades.
Por quase todo século XIX houve discussões sobre a essência do 
nacionalismo estar atrelada a uma perspectiva patriótica, assim como 
houve perseguições aos que não se ajustavam a esses ideais. Parte do 
consenso veio com a ideia de que cidadania traria um bem-estar social 
e político para aqueles que se identificavam com o país ou território. 
https://revistas.unila.edu.br/epistemologiasdosul/article/view/772
Com isso, também se justificava o porquê de dominarem outros, apon-
tando-os como inferiores.
Assim, ainda no fim do século XIX, diversos Estados-nação já estavam 
formados (algumas exceções eram a Itália e a Alemanha, por exemplo). 
Com princípios sobre tradição, civilização, desenvolvimento industrial e 
econômico, junto às questões étnicas, muitos buscaram conquistar ou-
tras nações, sendo isso parte dos motivos da Primeira Guerra Mundial.
Os Estados-nação de modelo europeu são, antes de serem democracias, 
espaços capitalistas nos quais o objetivo da corrida imperial que se seguiu 
era manter territórios e explorar a mão de obra e o mercado consumidor. 
Arendt (2012) define que o imperialismo do fim do século XIX surgiu como 
resposta aos limites territoriais por aqueles que dominavam os meios de 
produção, os quais exigiam uma política externa que se conformasse a seus 
interesses. Assim, o século XIX somou à perspectiva de Estado, em parte 
democrática, a ideia de que poderiam se unir como “solitários solidários” 
e, juntos, compartilhar um espaço e uma temporalidade histórica, mesmo 
com suas diferenças. Esse tipo de comunidade se torna comum à medida 
que o capitalismo industrial se fortalece em sua forma econômica.
Não menos importante, nesse período houve um ápice radical de se-
paração da natureza e do homem, decorrente em parte das discussões 
iniciadas com as Grandes Navegações (trocas comerciais pelo Mediterrâ-
neo, Pacífico e Atlântico) e permeadas pelo Iluminismo e pela Revolução 
Industrial. A modernidade, decorrente dos desdobramentos do Período 
Moderno, seja pela ação de mercadores, seja pelo descobrimento acer-
ca do Universo e do próprio Planeta por homens como Copérnico, 
Galileu e Francis Bacon nos séculos XVI e XVII, permitiu que as socie-
dades humanas (especialmente a europeia) compreendessem a na-
tureza como um espaço existente apenas para a sua ação e 
domínio, não como uma extensão da própria existência humana. 
A razão, nesse caso, sobrepôs-se ao que seria natural.
Com diversos elementos envolvidos na ideia de Revolução 
Industrial, a ação humana que sempre alterou o meio ambien-
te compreendeu, no século XIX, que poderia dominá-lo. A má-
quina a vapor já havia causado zonas cinzentas nos grandes 
centros desde o século XVIII, mas o petróleo como fonte de 
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Imperialismo, sociedade e culturaImperialismo, sociedade e cultura 2929
30 História Contemporânea
energia adotado a partir de 1850 potencializou na indústria novos pro-
dutos, novas formas de produção e muitos gases poluindo o meio am-
biente, resultando em um efeito mais devastador após essa data. Para 
tanto, basta pensar que a forma capitalista industrial moderna trouxe 
consigo o uso de óleo diesel, fertilizantes, indústrias termoelétricas, plás-
ticos, medicamentos e cerca de 37% da energia mundial (HATTON, 2017).
A separação da natureza e dos princípios humanos também é evidente 
no que a burguesia e os seus intelectuais defendiam em relação à biologia, 
como a seleção natural de Charles Darwin (HOBSBAWM, 2010c) ou a ideia 
de que lugares sociais e até possibilidades intelectuais eram definidas 
como se houvesse diferenças naturais biológicas. Por fim, as diferenças 
e exclusões sociais ocasionadas pelas hierarquias existentes entre classes 
de burgueses e do operariado ou de camponeses acabavam justificadas 
por uma ciência voltada aos interesses das classes mais abastadas.
Não menos importante, essas teorias ainda justificavam as diferen-
ças reafirmadas em relação aos povos antes colonizados, a fim de que 
continuassem a ser influenciados, mesmo após as independências. 
Essas informações vinham da Antropologia, ciência reconhecida nos 
termos europeus no século XIX e que colaborou para a expansão indus-
trial capitalista por utilizar discursos vindos de informações coletadas 
por viajantes europeus (MARCONI; PRESOTTO, 2006).
Portanto, a expansão industrial não teria existido se as classes mais 
abastadas, industriais ou não, não tivessem se apossado dos discursos 
políticos e científicos do período. Importante, ainda, é considerarmos a 
teoria político-econômica influente do período, tema da próxima seção.
2.2 Liberalismo inglês 
Vídeo
O liberalismo se tornou uma prática política e econômica no século XIX, 
potencializada a partir do fim desse século e início do XX, com base em in-
teresses europeus. Ele pode ser entendido como uma ideologia que dá es-
paço à iniciativa e à autonomia individual, ou seja, menos interferência do 
Estado, porém com ações que são limitadas e ao mesmo tempo assegura-
das pelo direito (SILVA; SILVA, 2009). Portanto, o Estado existe para proteger 
os indivíduos em parte, garantir contratos e autorregular a economia – 
nesse sentido, há uma aproximação entre o liberalismo econômico e o po-
lítico, que é mais uma forma de organização do Estado e em contraposição 
Imperialismo, sociedade e cultura 31
ao absolutismo. É importante considerarmos que o conceito é nomeado 
dessa forma no século XX, mas antes era conhecido como liberal ou liberais.
Sua origem está relacionada ao século XVIII com base em discus-
sões causadas pelo Iluminismo, cuja trajetória passa pelo século XIX e 
início do XX, envolvendo especialmente a Europa Ocidental e a América 
Latina. Foi somente nesse contexto, com os regimes totalitários, que o 
liberalismo sofreu limitações contundentes e voltou a ser uma prática 
mais recorrente apenas no fim do século XX, reconhecido sob a nomen-
clatura de neoliberalismo (SILVA; SILVA, 2009).
O liberalismo tem como base o pensamento liberal, oportuno no 
século XIX para uma burguesia que havia ascendido ao poder político 
na França e na Inglaterra, após séculos de limitações durante o Período 
Moderno. Nessa época, a burguesia contestava a monarquia, o direito 
divino dos reis, as práticas confessionais na política, o mercantilismo, 
bem como a falta de autonomia do comércio e do seu monopólio.
Na França, o liberalismo também estava atrelado ao nacional e à Re-
pública. Na escola liberal francesa, os fisiocratas 1 defendiamo fim do 
mercantilismo, o livre comércio em geral, a intervenção do Estado na 
economia e a importância de defender a terra como a maior fonte de 
riqueza. François Quesnay, um dos líderes fisiocratas, dizia que o mun-
do econômico é formado por uma interdependência de diversas partes 
(privadas, políticas, meios de produção etc.), já na França os liberais 
diziam que o mercantilismo não garantia mais o crescimento do país 
e a agricultura deveria ter mais atenção, isto é, propunham uma supe-
restima da agricultura, e não da indústria (GENNARI; OLIVEIRA, 2009).
John Locke foi um dos principais criadores de ideias que fundamenta-
ram o liberalismo entre o século XVII e o início do XVIII. Para ele, tudo e qual-
quer coisa é passível de dúvida, incluindo instituições como a absolutista. 
Esse debate ocorreu no ano de 1690, no livro Dois Tratados sobre o Governo 
Civil, o qual incentiva discussões mais populares sobre o direito divino, es-
pecialmente o defendido por R. Filmer em 1680 (LOCKE, 2001). No entanto, 
o liberalismo não diz respeito apenas às questões econômicas ou mesmo 
políticas; também se envolve em debates sobre propriedade e direitos que 
entendemos atualmente como civis, assim, acima de tudo se permite o 
questionamento e o uso da razão, perspectiva comum ao Iluminismo.
Podemos refletir sobre a ideia de que, se homens nascem livres e 
iguais, as leis devem garantir seus direitos. Para filósofos como Locke 
A fisiocracia é uma teoria 
econômica com influência 
do Iluminismo e oposta 
ao mercantilismo.
1
32 História Contemporânea
(2001), o direito à propriedade privada é natural e isso colaborou para que 
burgueses alcançassem mais direitos, bem como justificassem diferenças 
sociais e a exploração de mão de obra trabalhadora nos séculos seguintes.
Esse último aspecto era um diferencial para liberais ingleses, além de se 
posicionarem por um Estado que só deveria intervir para pensar o cresci-
mento populacional e do país, assim como as proporções de importação e 
exportação (devido a uma crise em 1815, quando a Inglaterra teve falta de 
grãos). A economia se autorregularia sozinha, de acordo com a demanda.
Já para Adam Smith, tal como Locke, há uma defesa à indústria, mas 
com apoio do campo. Em seu livro A Riqueza das Nações, a ideia de mão in-
visível transforma tudo e todos em mercadorias e em interesses comuns, 
como bens que podem ser vendidos e trocados (SMITH, 2016).
Assim, por meio da interferência burguesa mais potencializada após 
a Revolução Francesa, a livre iniciativa individual sem a interferência do 
Estado, sua característica principal, alia-se a um sistema também po-
lítico-econômico: o capitalismo. No caso francês, quando a burguesia 
conseguiu colocar fim ao modelo absolutista de modo definitivo, por 
ocasião do fim da monarquia constitucionalista em 1848 na França, a 
burguesia passou a liderar um Estado de caráter mais liberal. O ano 
de 1848 também pode ser lembrado como o período de revolução da 
propriedade de terras (HOBSBAWM, 2010a). Além disso,
no período de 1787 a 1848, essa transformação econômica foi 
ainda imperfeita, como se pode medir pelas modestíssimas taxas 
de emigração. As ferrovias e os navios a vapor mal tinham come-
çado a criar um único mercado mundial agrícola quando da gran-
de depressão agrária do final de século XIX. A agricultura local era, 
portanto, grandemente protegida da competição internacional ou 
até mesmo interprovincial. (HOBSBAWM, 2010a, p. 262-263)
O historiador nos permite destacar as ideias de quando a Revolu-
ção Francesa já era consolidada, e outros lugares da Europa e da Ásia 
(como a Índia) tinham a agricultura local como algo estruturado. Assim, 
entendemos que a industrialização dos meios de produção agrícola ou 
de seus produtos primários era simples e pequena até meados do sé-
culo XIX. Eric Hobsbawm (2010a) reitera que a Irlanda teve uma crise 
conhecida como a Grande Fome na década de 1840, quando milhares 
de pessoas morreram ou emigraram. Não diferente foi a Índia que 
passou a produzir de modo deliberado apenas para a Inglaterra, redu-
zindo a autonomia de camponeses indianos de manufaturas simples.
Imperialismo, sociedade e cultura 33
O que ocorreu nesse tempo foi uma transformação no que diz respeito 
às leis e aos tributos da terra em diversos lugares do mundo. A terra, fonte 
de riqueza e de onde saem as matérias-primas para a indústria, deveria 
produzir lucros. Para tanto, países como a Inglaterra começaram a exercer 
seu poder de colonização, tanto para delimitar as terras e criar leis espe-
cíficas quanto para tomar terras antes comunais em regiões colonizadas 
e nos próprios países. Aliada ao excesso de tributos, essa tomada causa 
fome e emigração em massa. É também efeito do interesse pela proprie-
dade da terra incentivado pela industrialização e exportação de produtos.
Portanto, há uma relação direta do liberalismo com interesses nacio-
nalistas e imperialistas que envolvem o direito à propriedade e o que se 
produz nela. Para criar a sociedade burguesa em termos liberais havia li-
mitações, como o número de terras férteis, sua falta de regularização e 
até mesmo os tributos, já que isso limitava a manutenção das terras para 
alguns. Os maiores entraves dessa limitação foram os camponeses (espe-
cialmente na América e na Inglaterra) e os antigos proprietários de terras.
Para os primeiros colonizadores na América, a produção nas fazen-
das passou a ser mecanizada. Já na Europa, o que seguiu foi um cres-
cimento de termos nacionalistas acompanhados do capital liberal em 
seus países. Em números, na Inglaterra viu-se o dobro de máquinas de 
algodão entre 1819 e 1860 (HOBSBAWM, 2010b), mesmo com a con-
corrência de outros países. Houve uma mudança de mentalidade do 
mundo Moderno para o Contemporâneo, e a
expansão satisfatória para os homens de negócios famintos de 
lucros foi a combinação de capital barato com um rápido aumen-
to dos preços. As expansões eram inflacionárias. Mesmo assim, 
o aumento de cerca de um terço dos níveis de preços ingleses 
entre o período de 1848 e 1850 e o ano de 1857 foi notavelmen-
te grande. Os lucros aparentemente à espera de produtores, 
comerciantes e, acima de tudo, investidores apresentavam-se 
quase que irresistíveis [...] o grande aumento no custo dos ce-
reais entre 1853 e 1855 não mais precipitou tumultos em parte 
alguma [...] a alta taxa de emprego e a presteza em conceder au-
mentos salariais temporários onde fosse necessário apagaram o 
descontentamento popular. Mas, para os capitalistas, as amplas 
provisões de trabalho que então chegavam ao mercado eram re-
lativamente baixas. (HOBSBAWM, 2010b, p. 61-62)
Mesmo com as crises comuns dentro de um sistema capitalista, a nova 
maneira de fazer dinheiro parecia não assustar seus investidores. A com-
34 História Contemporânea
petitividade defendida pelo liberalismo que, em parte, substituiu o mer-
cantilismo previa a participação de todos. As condições não eram ideais, 
mas havia trabalho, e isso fez com que nas décadas entre 1850 e 1880, de 
modo geral, os movimentos sindical e social diminuíssem.
2.3 Belle Époque 
Vídeo
Como analisamos, o crescimento econômico e as mudanças sociais a 
partir de meados do século XIX também estão relacionados e condiciona-
dos por um nacionalismo. De acordo com Hobsbawm (2010c), o conceito 
de nacionalismo apareceu pela primeira vez em fins do século XIX na Eu-
ropa contra estrangeiros, liberais e socialistas, e, embora com origem em 
grupos de direita, passou a ser relacionado com a perspectiva de “causa 
comum de um país” e com o que um grupo se identifica. Estava atrelado 
também a um ideal de nação e a uma perspectiva étnica e de linguagem.
Essas discussões nacionalistas, junto ao crescimento industrial e ur-
bano, potencializaram a formação de novas classes e sociabilidades no 
século da burguesia triunfante, ganhando status e trazendo perspectivas 
culturais e formas de ver o mundo. Hobsbawm (2010b) afirma que o que 
entendemos como burguês só

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