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O modelo computacional Apresentação Você com certeza já estudou as particularidades da língua inglesa o suficiente para saber que a aquisição de uma segunda língua pode ser um processo árduo, principalmente na fase adulta, não é mesmo? Assim como você, muitos estudiosos da Linguística Aplicada ao ensino de línguas se deram conta desse fato e tentaram elaborar teorias e métodos que explicassem como se dá o aprendizado de uma segunda língua para, então, solucionar o difícil problema do insucesso de muitos aprendizes. Nesse cenário, surgiram, por exemplo, a abordagem natural, a hipótese da gramática universal e o modelo computacional de aquisição de segunda língua. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai estudar as características, a abrangência e as limitações de cada método, bem como vai entender por que o modelo computacional é muito difundido. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Diferenciar L1 e L2 no campo de aquisição de segunda língua.• Identificar o processo de aquisição pela abordagem natural.• Analisar o modelo computacional de aquisição de segunda língua.• Desafio Os modelos, métodos e abordagens de ensino de segunda língua em sala de aula variam de acordo com os objetivos do ensino-aprendizado da língua. Ainda assim, mesmo com toda a gama de variações de teorias de aquisição de segunda língua, é certo que absolutamente todas elas, em maior ou menor grau, utilizam-se, em algum momento, de atividades de classe com foco em determinada habilidade linguística considerada relevante para o método em questão. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/ee93ff52-f108-486f-8fc4-875d90901f78/fef31ea0-4ad3-48aa-aa59-7875f6ae17d0.jpg Considere as tarefas de classe apresentadas e coloque-as na ordem correta, de acordo com o modelo computacional de aquisição de segunda língua. Justifique a sua resposta. Infográfico Entre o final da década de 70 e o início da década de 80, os professores Tracy Terrell e Stephen Krashen elaboraram e publicaram um método de ensino-aprendizagem de segunda língua, batizado de abordagem natural (Natural Approach). Embora os autores considerem-na de caráter tradicional, a abordagem natural difere em importantes aspectos dos métodos que hoje são aplicados na maioria das instituições de ensino de segunda língua no Brasil. Neste Infográfico, veja as principais diferenças entre a abordagem natural e o modelo computacional de aquisição de segunda língua, o método mais comumente utilizado nas escolas brasileiras de idiomas. Confira. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/e75426ad-c7e4-418f-949b-b122b46e249f/c9e3cb26-7a64-434c-8ed8-38bd63f74c9d.jpg Conteúdo do livro O modelo computacional de aquisição de segunda língua é um modelo de processamento de informações na língua-alvo, chamadas de input, que são computadas de acordo com a predefinição dos procedimentos necessários, isto é, as atividades aplicadas pelo professor e desenvolvidas pelo aprendiz, para a produção prática da língua-alvo, chamada de output. No Capítulo O modelo computacional, da obra Linguística Aplicada ao ensino de inglês, você vai estudar o contexto de emergência do modelo computacional de aquisição de segunda língua, bem como suas principais características. Boa leitura. LINGUÍSTICA APLICADA AO ENSINO DO INGLÊS Larissa Hainzenreder O modelo computacional Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Diferenciar L1 e L2 no campo de aquisição de segunda língua. Identificar o processo de aquisição pela abordagem natural. Analisar o modelo computacional de aquisição de segunda língua. Introdução Como falante nativo de língua portuguesa e aprendiz de língua inglesa, você deve ter notado que a forma com a qual você se relaciona com as duas línguas difere em vários aspectos. Se uma língua nativa e uma língua não nativa se comportam diferentemente no falante, deve-se admitir que há algo de particular nos seus processos de aquisição. Com base nessas particularidades, há muitas teorias em Linguística Aplicada que se dedicam a investigar a aquisição de língua estrangeira a partir da definição de modelos que, segundo os autores, melhor representam o que acontece na nossa mente durante a exposição a uma segunda língua e melhor solucionam o problema da aquisição. Entre esses modelos, está o modelo computacional. Neste capítulo, você vai estudar as diferenças entre o modelo com- putacional de aquisição de segunda língua e as abordagens mais tradi- cionalmente estudadas, identificando sua abrangência e seus limites. Diferenças entre L1 e L2 no campo da aquisição da linguagem A Linguística Aplicada mantém uma íntima relação com a pesquisa em aquisição de primeira e segunda línguas, embora a aquisição da linguagem seja reconhecida, atualmente, como uma área independente. Na pesquisa sobre a aquisição de língua materna (L1), os problemas que se quer solu- cionar dizem respeito a como as crianças aprendem sua língua materna e quais são as propriedades das línguas naturais que lhes permitem serem aprendidas em primeiro lugar. Já a pesquisa de aquisição de segunda língua (L2) tenta desvendar como aprendizes conseguem adquirir as complexidades de uma segunda língua”, além de investigar “[...] se os processos de aquisição de segunda língua são análogos aos de aquisição de língua materna e qual é a natureza dos conhecimentos linguísticos com os quais aprendizes iniciam os processos de aquisição de uma segunda língua (CORSETTI, 2011, p. 31). Contudo, segundo a linguista canadense e pesquisadora da área de aquisição de segunda língua Lydia White, o problema da aquisição de segunda língua segue a mesma lógica apontada pelo problema da aquisição de língua materna, pois, ao aprendiz de segunda língua, assim como à criança, também cabe a tarefa de “extrair sentido de dados linguísticos”, produzindo “[...] um sistema que explique tais dados e que lhe permita compreender e produzir estruturas na L2” (WHITE, 1989a, p. 37). Mesmo assim, as diferenças entre os processos de aprendizagem de L1 e L2 são incontestáveis. A primeira evidência é o fato de que “as crianças atingem conhecimento completo de sua língua materna, enquanto, em L2, esse estágio é raramente atingido” (CORSETTI, 2011, p. 33); a segunda evidência aponta para o fato de que esse conhecimento “[...] é atingido rapidamente, uniformemente, sob as circunstâncias mais diversas e se dá aparentemente sem grande esforço por parte do aprendiz”, sendo que a origem da língua importa tão pouco quanto as condições particulares de cada criança (FINGER, 2003, p. 24). O linguista e reitor da Faculdade de Línguas, Linguística e Literatura da Universidade do Havaí, Robert Bley-Vroman, além das evidências já citadas, as quais caracteriza como “falta de sucesso” e “falência geral” do ponto de vista do aprendiz de segunda língua, identifica, ainda, as seguintes diferenças na aquisição de L2 em relação à aquisição de L1 (BLEY-VROMAN, 1989 apud MATTOS, 2000, p. 59-60): “Variação no sucesso, curso e estratégia” — toda criança conquista sucesso total na sua língua materna “seguindo aproximadamente um mesmo curso e utilizando as mesmas estratégias”, enquanto, no apren- dizado de L2, principalmente entre adultos, não só “o grau de sucesso varia substancialmente”, como seu percurso pode seguir diferentes ordens e ser guiado por diferentes estratégias de aprendizado; O modelo computacional2 “Variação nos objetivos” — aprendizes de L2 apresentam, também, grande variabilidade de meta final, seja fluência, competência linguística na língua estrangeira, domínio da gramática, domínio da pronúncia, etc.; “Fossilização”— observado principalmente na fase adulta, esse fe- nômeno descreve a permanência do aprendiz de L2 em determinado grau de desenvolvimento da língua, consideravelmente inferior ao nível nativo, mesmo sem interrupção do aprendizado; “Intuições indeterminadas” — mesmo os aprendizes de L2 mais competentes não conseguem intuir de forma clara e concisa questões de gramaticalidade; “Importância da instrução” — a aprendizagem de língua materna não necessita de instrução formal, porém, a “influência positiva” da instrução formal na aprendizagem de L2, entre adultos, é bem conhecida; “Papel dos fatores afetivos” — não se conhece a influência da perso- nalidade da criança, seu grau de socialização, motivação e atitude no sucesso da aprendizagem de língua materna, diferentemente do que se observa na aprendizagem de L2, especialmente entre adultos, cujos fatores demonstram ser de grande importância. Essas observações incidem diretamente nos modelos de aprendizagem de língua em sala de aula, na qual os professores, não raro, concentram-se na aquisição gramatical e frequentemente observam os efeitos da língua materna como um viés estrutural variável durante os estágios iniciais da aquisição de L2. Há, ainda, uma série de fatores que a pesquisa em aquisição de L2 deve considerar, como, por exemplo, o fator da idade e a formação educacional, bem como o embate entre a instrução formal e a imersão no idioma, os quais apontam para a enorme variação individual e contextual existente na apren- dizagem de língua estrangeira. A partir das ideias de White e Bley-Vroman, pode-se sustentar que “[...] a aquisição de L1 não é fundamentalmente igual à de L2, mas também é possível afirmar que a aquisição de L1 não é fundamentalmente diferente da L2” (CORSETTI, 2011, p. 34). Assim sendo, ainda que modelos de aquisição de L1 possam ser, até certo ponto, aplicados à aquisição de L2 devido às similaridades entre ambos os processos, o resultado dessa aplicação vai neces- sariamente apontar para as diferenças entre os dois processos. Para provocar uma discussão sobre a problemática dos modelos de aquisição aplicados à L2, especificamente, serão apresentadas duas abordagens de grande importân- cia para a história da linguística aplicada ao ensino de língua estrangeira: a 3O modelo computacional abordagem natural, que apresenta um modelo especificamente elaborado para a aquisição de L2, e a abordagem gerativista ou inatista, que apresenta um modelo originalmente elaborado para a aquisição de L1, mas com potencial inegável para a configuração de aspectos da aquisição de L2 e, como era de esperar, também com limitações relevantes nesse caso. É do ponto de limitação da teoria inatista de aquisição da linguagem que se faz pertinente a introdução do modelo computacional de aquisição de segunda língua. Se você se interessa pela relação entre cognição e aquisição da linguagem, veja o artigo intitulado The neural basis of léxicon and grammar in first and second language: the declarative/procedural model, em que o neurocientista norte-americano especialista em linguagem Michael T. Ullman, apoiado por evidências psicolinguísticas e neurolinguís- ticas, discute aspectos teóricos e empíricos das bases neurológicas do que chama de “léxico mental” e “gramática mental” na aquisição de língua materna em comparação à aquisição de segunda língua. Teorias de aquisição de L2: a abordagem natural e a hipótese da gramática universal Em 1977, buscando um estilo de ensino-aprendizagem de língua estrangeira baseado em estudos naturalistas de aquisição de segunda língua, a linguista e professora de espanhol norte-americana Tracy Terrell elaborou a primeira versão de um modelo que chamou de abordagem natural (RICHARDS; RODGERS, 2001; OHMAYE, 1998). Nela, Terrell contrapunha de maneira direta a abordagem até então predominante nos Estados Unidos, a qual focava na aplicação de exercícios e na correção de erros produzidos pelos aprendizes. A proposta de Terrell praticamente desconsiderava o método erro-correção e propunha um método quase inteiramente focado na comunicação. A fi m de desenvolver os aspectos teóricos da abordagem natural, só em 1983 publicou o livro The natural approach em parceria com o linguista norte-americano Stephen Krashen (RICHARDS; RODGERS, 2001). Terrell e Krashen classificam sua proposta como um método tradicional, em contraste com os métodos baseados no ensino da gramática, os quais os autores consideram como “invenções” que desviam os professores do caminho adequado de ensino de língua estrangeira (MARKEE, 1997, p.25). O modelo computacional4 O objetivo da proposta dos autores é fornecer um modelo para a aquisição naturalista da linguagem no ambiente de sala de aula. Para isso, a abordagem enfatiza a comunicação, dando menor importância ao estudo consciente da gramática e, portanto, à correção explícita de erros praticados pelos aprendizes. Além disso, e por conseguinte, os autores também propõem esforços para tornar o ambiente de aprendizagem o mais amigável e tran- quilo possível. Na abordagem natural, o output, isto é, a saída, a produção de linguagem não é forçada ou estimulada, mas provocada, de maneira espontânea, após a exposição a uma boa quantidade de input, isto é, de informação linguística compreensível. Desse modo, a abordagem natural considera a prática de exercícios de importância secundária em relação ao simples contato com a segunda língua, pois acredita que a aquisição da linguagem deve ocorrer de maneira natural à medida que o aprendiz se informa da língua. Com foco no desenvolvimento de habilidades comunicativas, o modelo natural foi pensado, principalmente, para a condição de aprendiz iniciante, mas apresenta um conjunto de princípios que servem a diversas situações de ensino e número de alunos, os quais estão relacionados a objetivos específicos, que variam de acordo com o contexto de aplicação (RICHARDS; RODGERS, 2001). São três os princípios básicos apontados por Terrell: 1) o foco da ins- trução está na comunicação, e não no seu formato; 2) a fala na segunda língua ocorre devagar e nunca deve ser forçada; e 3) a fala precoce (early speech) na segunda língua passa por estágios naturais (respostas curtas — sim ou não — ou de uma única palavra —, listagem de palavras, frases curtas e completas) (TERRELL, 1977 apud DHORITY, 1991). A aplicação desses princípios orienta o professor de línguas a focar na apresentação de input interessante e compreensível e em situações que não causem ansiedade no aprendiz (DHORITY, 1991) — como quando o aluno é forçado a falar na segunda língua sem se sentir seguro para tal. Além disso, o modelo de ensino baseado na abordagem natural foca na compreensão de discurso produzido na segunda língua e, como dito anteriormente, dá pouca ou nenhuma importância à correção de erros, a exercícios práticos ou ao aprendizado consciente de regras gramaticais (Ibidem). Nesse sentido, apreender uma base sólida de vocabulário torna-se mais relevante do que apreender novas estruturas gramaticais, e a essência das situações criadas pelos professores em sala de aula é, do ponto de vista do aprendiz, de caráter motivacional (OHMAYE, 1998; DHORITY, 1991). Terrell identifica três estágios pelos quais os aprendizes passam na aqui- sição da fala em segunda língua: compreensão, fala precoce e emergência 5O modelo computacional da fala (DHORITY, 1991). Na fase de compreensão, Terrell concentra-se no conhecimento do aprendiz em relação ao vocabulário com o intuito de fazer com que o vocabulário apreendido permaneça na sua memória de longo prazo; para isso, Terrell sugere algumas estratégias que considera que têm maior poder de associação, como, por exemplo, gestos ou ações (mímica), em vez de dar ao aprendiz a tradução das palavras (DHORITY, 1991). De acordo com Terrell, a emergência da fala só ocorrerá após uma quantidade suficiente de língua ser associada com base na “entrada” (input)de informação por meio da comunicação. Essa é a condição para que o aprendiz entre, de fato, na fase de fala precoce. A partir daí, o aprendiz está apto a responder perguntas simples, usar corretamente as palavras e formular frases. Na fase de emergência da fala propriamente dita, o aprendiz finalmente participa de atividades que exigem uma linguagem mais avançada, como dramatizações (roleplay) e resolução de problemas (RICHARDS; RODGERS, 2001). A contribuição de Krashen para a abordagem idealizada por Terrell foi enquadrá-la em um modelo teórico específico, o qual o autor denominou modelo do monitor. Krashen descreveu cinco hipóteses para esse modelo (MARKEE, 1997): 1. A hipótese da aprendizagem-aquisição (acquisition-learning hypothesis) — afirma que há uma separação estrita entre o aprendizado consciente da língua e sua aquisição subconsciente, sendo que apenas a aquisição pode levar à fluência; 2. A hipótese do monitor (monitor hypothesis) — indica que o conheci- mento da língua aprendido conscientemente só pode ser usado para monitorar sua produção, não para produzir linguagem. O monitoramento da produção requer foco na norma e tempo para aplicá-la; 3. A hipótese do insumo (input hypothesis) — afirma que a língua é ad- quirida pela exposição a informações compreensíveis, mas de nível um pouco mais alto do que o aprendiz já consegue entender completamente; 4. A hipótese da ordem natural (natural order hypothesis) — indica que os aprendizes adquirem as características gramaticais de uma língua em uma ordem fixa, que não é afetada pela instrução; 5. A hipótese do filtro afetivo (affective filter hypothesis) — afirma que o aprendiz deve estar relaxado e disposto a aprender para que a língua seja adquirida. O modelo computacional6 Apesar de a abordagem natural, como se vê, ter sido intimamente associada ao modelo do monitor de Krashen, existem algumas diferenças na percepção dos autores sobre o estudo consciente da gramática. Para Terrell, algum grau de estudo consciente da gramática pode, sim, ser benéfico à aquisição de uma segunda língua, enquanto, como dito, Krashen defende que o estudo consciente da gramática não tem efeito sobre a capacidade do aprendiz de produzir um discurso na segunda língua. Finalmente, Terrell descreve, ainda, quatro categorias de atividades que devem ser desenvolvidas em sala de aula para tornar possível a aquisição (em oposição ao simples aprendizado) da língua estrangeira. A primeira relaciona- -se ao conteúdo abordado (content) — isto é, cultura, tema, informação nova, leitura, etc. — pelo professor; a segunda foi chamada de afetivo-humanista (affective-humanistic), focando nas contribuições do próprio aprendiz, suas ideias, opiniões, experiências, etc.; a terceira diz respeito ao uso de jogos (games) em sala de aula, como jogo de perguntas e respostas, etc.; e a quarta trata da resolução de problemas (problems solving) e focaliza no uso da segunda língua para localizar e manusear informações (DHORITY, 1991). A publicação do livro de Terrell e Krashen popularizou a abordagem natural entre os professores de línguas nos Estados Unidos. De acordo com Markee, o sucesso do método foi resultado da sua simplicidade ao tornar uma pesquisa complexa de fácil compreensão e por apresentar um alto grau de compatibilidade com o conhecimento sobre aquisição de segunda língua que se difundia no país naquela época. Apesar da boa recepção da abordagem natural entre a comunidade de professores de língua, desde a sua publicação, a teoria de aquisição de se- gunda língua mais influente, nos Estados Unidos, é a hipótese da gramática universal de Noam Chomsky. O modelo gerativista ou inatista de princípios — propriedades básicas compartilhadas por todas as línguas — e parâmetros — propriedades que podem variar entre as línguas — já serviu de base para uma enorme quantidade de pesquisas em segunda língua. O primeiro fato a considerar para começar a compreender as ideias de Chomsky, quando aplicadas à aquisição de segunda língua, é sua distinção entre a língua como um construto interno que consiste na propriedade da mente humana de conhecer uma língua em primeiro lugar, denominada língua-I (interna), e a língua como um produto da construção humana, denominada língua-E (externa). 7O modelo computacional Chomsky estuda, de fato, as línguas-I humanas. As línguas naturais, nesse caso, assim como seus falantes, apresentam particularidades que as distinguem umas das outras, porém, há algo de comum a todas elas e que permite que sejam caracterizadas como línguas humanas. Sendo assim, Chomsky propõe que o ser humano seja dotado de uma gramática que lhe é inata e que não deve ser confundida com a gramática das línguas. Não se trata de configurações sintático-semânticas e morfológicas, mas de um conjunto de princípios e parâmetros por meio dos quais a criança desenvolve a faculdade de linguagem a partir da exposição à sua língua materna. Os princípios dizem respeito às propriedades que todas as línguas compartilham, e os parâmetros “explicam as variações encontradas nas línguas” (MATTOS, 2000, p. 54). Essa gramática inata foi chamada de Gramática Universal (GU) por Chomsky e pode ser entendida como o “conhecimento inato que é a base da semelhança entre as línguas e é ele que possibilita a aquisição da língua” (MODESTO, 2012, p. 128). Com base na hipótese de princípios e parâmetros, colocam-se três questões sobre a aplicabilidade da teoria inatista à aquisição de segunda língua: 1) os princípios da Gramática Universal restringem a aquisição de L2? 2) A reinstan- ciação de parâmetros é possível em L2? 3) Qual é o estado inicial da aquisição de L2? (FINGER, 2003, p. 26). O que se procura responder, de modo geral, é se a faculdade inata de linguagem observada durante a aquisição de L1 é também o operador da aquisição de L2. Segundo Corsetti (2011), as teorias baseadas na gramática universal parecem justificar a competência linguística dos falantes tanto em L1 quanto em L2: “Concordamos que os processos de aprendizagem de L1 e L2 não são totalmente iguais nem totalmente diferentes. Sentimos intuitivamente que aprendizes de segunda língua utilizam a L1 como ponto inicial para a aquisição de L2, mas acessam a GU quando a primeira não oferece as informações necessárias à tarefa a ser desenvolvida” (CORSETTI, 2011, p. 33). Em sua pesquisa sobre a aquisição de segunda língua por crianças expostas à língua-alvo em situações típicas de exposição a conteúdo linguístico, isto é, fora do ambiente escolar, Finger concluiu que olhar para o fenômeno da aquisição de segunda língua sob o viés da teoria gerativista implica compreendê-lo “como um processo em que o aprendiz parte do estado inicial da Faculdade da Linguagem (FL), passando por estágios inter- mediários até atingir o estado final, bastando, para isso, estar exposto aos dados linguísticos da língua-alvo” (FINGER, 2003, 24). Com isso, a autora explica: O estado inicial diz respeito aos princípios e elementos comuns aos falantes de todas as línguas naturais. A teoria linguística desse estado é chamada de Gramática Universal (GU). Os estados transitórios e o estado final, nessa O modelo computacional8 perspectiva, dizem respeito à gramática interna do falante, isto é, um sistema simbólico de caráter gerativo capaz de produzir não apenas as expressões linguísticas às quais o aprendiz foi exposto, mas também expressões inéditas cujo conjunto assume-se ser infinito. Ao conhecimento incorporado nesse sistema dá-se o nome de competência ou língua-I, essa em oposição ao que seria o conjunto das expressões produzidas, designado língua-E (FINGER, 2003, p. 25). A descoberta da autora implica que, ao menos nesse caso, a GU também seria o ponto inicial de aquisição de L2. Porém, alguns teóricos (CLAHSEN; MUYSKEN, 1986, 1996; CLAHSEN, 1988; MEISEL, 1991) inclinados à ideia de que a GU guia o processo de aquisição de L1 refutam que algum aspecto da GUinterfira no processo de aquisição de L2 (FINGER, 2003). Para tentar responder a primeira e a segunda questões, é preciso descrever a hipótese de princípios e parâmetros com mais clareza. Concebidos como universais linguísticos, os princípios são essas leis que se aplicam a todas as línguas naturais, enquanto os parâmetros são “lacunas” da GU que devem ser preenchidas durante a aquisição de uma língua a partir de dados empíri- cos disponibilizados pela exposição à língua em questão. Os princípios são, então, universais, estruturais e invariantes, e os parâmetros, específicos e particulares a cada língua, apresentando “opções restritas” e sendo “fixados pela experiência. Os valores desses parâmetros são fixados durante o processo de aquisição da linguagem a partir da evidência linguística à qual o indivíduo tem acesso” (FINGER, 2003, p. 24). Essa “fixação” de determinados parâ- metros dá conta das diferenças entre as línguas. Por exemplo, podemos dizer que “a organização sintática das línguas em constituintes hierarquicamente estruturados” consiste em um princípio da GU na medida em que pode ser observada em todas as línguas. Entretanto, a forma como esses constituintes estão ordenados ou quais constituintes fazem parte de tal estrutura consiste em um “produto de escolhas paramétricas”, já que varia de uma língua para outra (MODESTO, 2012, p. 128). Assim sendo, a partir de uma perspectiva da gramatica universal, para aprender a gramática de uma segunda língua, o aprendiz simplesmente deve desenvolver a habilidade de definir os parâmetros corretamente. Por exemplo, se considerarmos o parâmetro que determina se uma língua deve, ou não, explicitar o sujeito da frase para ser considerada gramaticalmente correta (parâmetro pro- -drop), temos que esse parâmetro pode ser positivo, quando as sentenças não precisam necessariamente explicitar o sujeito, e negativo, quando os sujeitos devem estar explícitos. Em inglês, a frase It is raining é gramatical, mas a frase Is raining é agramatical. Em português, no entanto, a frase “Está chovendo” 9O modelo computacional é perfeitamente normal e gramaticalmente correta. Um falante de português aprendiz de inglês só precisaria deduzir que os sujeitos são obrigatórios a partir da escuta da segunda língua e, então, definir seu parâmetro pro-drop para o inglês de acordo com isso. Uma vez que o aprendiz tenha ajustado todos os parâmetros na segunda língua de maneira correta, então, do ponto de vista da GU, pode-se dizer que ele aprendeu inglês, porque, acredita-se, sempre produzirá frases em inglês perfeitamente corretas. A Gramática Universal também fornece uma explicação sucinta para grande parte do fenômeno da transferência de línguas. Aprendizes brasileiros de inglês que cometem o erro Is raining ainda não definiram corretamente seus parâmetros pro-drop, ou seja, estão usando a mesma configuração paramétrica do português. Todavia, há um argumento muito pertinente que coloca em xeque a apli- cabilidade da hipótese da GU para a aquisição de uma segunda língua: o fato notório, ao qual você já foi apresentado, de que o aprendizado de uma L2 entre adultos, na maioria esmagadora de casos, não é tão bem-sucedido quanto o aprendizado da L1 entre crianças. A grande maioria dos aprendizes de L2 não ultrapassam os níveis pré-intermediário e intermediário da L2, o que aponta uma diferença marcante entre a língua nativa e uma língua não nativa. Além disso, a variação de níveis de L2 entre aprendizes demonstra que o conhecimento adquirido por aprendizes de L2 não apresenta uniformidade nem mesmo em uma mesma comunidade linguística. A interferência dos fatores afetivos descritos anteriormente já é um indício de comportamento mental diferente no processo de aquisição de L1 e de L2. Aparentemente, as “diferenças na aquisição de L1 e de L2 e diferenças no uso nativo e não nativo da L2 ocorrem em áreas da gramática que derivam direta e unicamente da GU” (KLEIN; MARTOHARDJONO, 1999, p. 08). Sendo assim, Bley-Vroman argumenta que “uma teoria da GU que postule procedimentos específicos para a aquisição da linguagem com restrições inatas e instanciação de parâmetros pode ser capaz de explicar o que ocorre com a L1, mas não explica o processo de aquisição de L2” (BLEY-VROMAN, 1989 apud FINGER, 2003, p. 27). Para Ellis (1994), no entanto, deve-se admitir que o acesso que o aprendiz de L2 tem à GU é, ao menos, parcial. Isso, todavia, não é suficiente para se estabelecer, de uma vez por todas, uma teoria de aquisição de segunda língua. Além disso, uma deficiência bastante relevante na percepção de muitos teóricos quanto ao uso da gramática universal na descrição da aquisição de segunda língua é que ela não releva de modo algum os processos psicológicos envolvidos na aprendizagem de uma língua. Os seguidores da hipótese da GU se preocupam apenas com o fato de os parâmetros serem definidos, ou não, e não com a forma como são definidos. Desse modo, não é questionável que O modelo computacional10 haja uma reinstanciação de parâmetros em L2, porém, argumenta-se que essa observação não é suficiente para explicar o processo de aquisição da segunda língua, visto que é de comum acordo que ele se diferencia do processo de aquisição de L1, o que significa dizer, em última análise, que a definição de parâmetros ocorre tanto na aprendizagem de L1 quanto de L2, mas o processo de definição de parâmetros difere drasticamente de uma para outra, e a prova disso estaria nas diferenças evidenciadas entre o alcance da L1 em crianças e o alcance da L2 em adultos que você observou na seção anterior, principalmente a partir da fossilização. Muitos teóricos já se encarregaram de tentar explicar esse fenômeno. Entre as propostas mais relevantes, estão: na fase adulta, o falante parece ter acesso à GU apenas referente aos parâmetros que são reconhecíveis na sua língua materna (SCHACHTER, 1989); há influência da língua materna na aquisição de uma segunda língua, de modo que só os parâmetros da L2 que se igualam aos parâmetros da L1 são completamente fixados, enquanto a reinstanciação paramétrica de estrutura sintáticas da L2 que diferem da L1 sofre variação (FLYNN, 1989), o que significa dizer que os parâmetros da L1 influenciam a fixação de parâmetros da L2 (WHITE, 1989b). O modelo computacional de aquisição de segunda língua A hipótese da gramática universal para a aquisição de segunda língua, como você viu, apresenta uma série de limitações. De acordo com o professor Rod Ellis (1994), a hipótese contém tanto problemas teóricos quanto metodológicos. Primero, o autor critica a abrangência da teoria, justifi cando que seu domínio é restrito e acaba por excluir muitos pontos cruciais do processo de aquisição e uso da língua, abrangendo parcialmente o fenômeno de desenvolvimento da linguagem. No campo teórico, o autor critica a contínua revisão das no- ções de defi nição de parâmetros e suas características gramaticais (de fato, o Programa Minimalista de Chomsky tem inúmeras versões) e destaca o sério problema de ser impossível determinar se os aprendizes de L2 estariam, ou não, comportando-se conforme a GU. No campo metodológico, o autor menciona a discrepância entre o volume de estudos transversais em relação à pouca quantidade de estudos de caráter longitudinal; além disso, o autor se preocupa com o fato de as pesquisas se basearem, em sua grande maioria, em aprendizes adultos, sem, no entanto, delimitarem a faixa etária que pode ser assim chamada. 11O modelo computacional A partir disso, Ellis (1998) propôs um modelo computacional para a aqui- sição de segunda língua, visando cobrir as lacunas que o autor identifica na hipótese da GU para a aquisição de L2. Modelos computacionais, em oposição à modelagem formal, são muito bem vistos nesses casos, pois sua estrutura, por si só, serve como uma espécie de refinador para as hipóteses, indicando novos horizontes para a pesquisa empírica com seres humanos,além de possibilitar a construção de conceitos que lançam luz à sua capacidade de aprendizagem. Tanto os modelos computacionais quanto os modelos formais são ne- cessários para desenvolver uma teoria da aquisição da linguagem e realizar experimentos com o intuito de testar a teoria; contudo, um modelo compu- tacional de aquisição de linguagem, em especial, que foque nos primeiros passos para a aquisição de um conjunto de “correspondências” entre um som e um significado é de considerável interesse. Segundo Bosch et al. (2009), um modelo computacional abrangente, que explique os fenômenos aparentemente contraditórios que servem de críticas para a hipótese da GU, por exemplo, compreende um grande passo para a compreensão da aquisição da linguagem. Ainda sobre a relação entre modelos computacionais e modelos formais para a pesquisa em aquisição de segunda língua, a Linguística Computacional demonstra que a pesquisa de indução gramatical é relevante para a modelagem da aquisição de uma gramática L2, à medida que uma teoria formal de aqui- sição de L2 que desenvolva uma gramática inter-relaciona representações do conhecimento gramatical com os mecanismos de aquisição que permitam esse conhecimento e, daí, pode tirar importantes contribuições de uma modelagem computacional. Nessa perspectiva, a modelagem computacional seria um componente crucial para uma teoria formal da aquisição de L2. Além disso, Wintner (2010) acredita que os modelos computacionais podem servir aos processos de aquisição da linguagem porque que fornecem novos insights ao debate entre as teorias inatistas e as teorias emergentistas, as quais afirmam que a linguagem surge como resultado de uma série de restrições competitivas consistentes com as habilidades cognitivas, de modo que não haveria provisões dedicadas a uma gramática universal. Em sua tese de doutorado sobre aquisição de língua materna, Faria (2013) explica que toda modelagem computacional deve especificar clara e exaustiva- mente os aspectos considerados como parte do problema e da sua solução. Essa explicação descreve o que seria o “‘nível computacional’ de uma modelagem” (PEARL, 2010 apud FARIA, 2013, p. 09). O nível computacional refere-se ao nível de processamento da informação que diz respeito à descrição do problema. Para tanto, faz-se necessária a adequação de um suporte teórico O modelo computacional12 que possibilite descrever o conhecimento que será adquirido e como ele será representado (PEARL, 2010; YANG, 2012). Quando algo é computado, um input é tomado e processado de acordo com a predefinição de certos procedimentos necessários para a produção de um output, de modo que conhecer “a natureza e as estruturas das informações envolvidas” no input e no output é imprescindível para a modelagem computacional, visto que somente nessas condições é que se pode “partir para o ‘nível algoritmo’, o nível em que a solução é descrita” e que esclarece os “mecanismos de processamento disponíveis e suas propriedades” (FARIA, 2013, p. 09). Desse modo, a especi- ficação dos dados que servem de input e das informações necessárias para sua interpretação requer um suporte teórico empírico que satisfaça o estabelecimento dos parâmetros de avalição do modelo, os quais determinam se a aquisição foi bem ou malsucedida, além de comparar os tipos de erros que são cometidos pelo aprendiz durante o processo de aquisição, bem como a ordem em que ela ocorre, com o comportamento desenvolvido pelo modelo (PEARL, 2010). Conforme Faria (2013), a questão particular que se coloca no modelo computacional de aquisição de linguagem é a necessidade de especificar “as propriedades formais do problema” por meio da caracterização do que “significa ‘saber uma língua’” (o output desejado), dos dados de input e de sua natureza e das “propriedades e restrições eventualmente impostas sobre os procedimentos de processamento e aprendizagem disponíveis ao aprendiz” (FARIA, 2013, p. 09). Com a crença de que o modelo computacional é a melhor opção para formu- lar uma teoria completa sobre a aquisição de segunda língua, já que processa informações considerando os aprendizes de L2 como “máquinas inteligentes” que processam input em uma “caixa preta mental” na qual estão mecanismos previamente adquiridos que tornam possível ao aprendiz internalizar novos conhecimentos e usá-los em tarefas de output, Ellis (1995) apresenta o seu modelo computacional de aquisição de segunda língua (Figura 1): Figura 1. Modelo computacional de aquisição de segunda língua. Fonte: Adaptada de Ellis (1998). 13O modelo computacional O modelo de Ellis (1995, 1998) parte da ideia (A) de que o input, isto é, o insumo ao qual os aprendizes estão expostos, quando manipulado pelo aprendiz, poderá causar interferência direta no desenvolvimento da sua interlíngua, o que pode ter uma consequência positiva na aquisição da competência gramatical do aprendiz. Contudo, é possível que o intake, isto é, o input que é absorvido pelo aprendiz, não participe do conhecimento implícito da língua-alvo devido a um insucesso da intervenção direta na interlíngua, o que implica o processamento parcial da gramática, tornando-se parte da memória de médio ou longo prazo (ELLIS, 1999). A relação entre o insumo absorvido e a interlíngua representa o conheci- mento explícito (B). A instrução explícita é recomendada no tocante a elementos gramaticais específicos e seus significados, como uma medida para se evitar o fenômeno da fossilização. A abordagem da instrução explícita associada ao input pode equipar o aprendiz com o mínimo de conhecimento da língua-alvo, motivando-o, por conseguinte, a seguir para a próxima etapa da aprendizagem: a produção-prática (ELLIS, 1999). A produção-prática da língua-alvo (C) é “o momento em que se devem criar oportunidades” de o aprendiz praticar e produzir a estrutura específica da língua-alvo, focando na produção correta da linguagem (comparando com o Programa Minimalista, o sucesso dessa etapa dependeria da fixação paramétrica proposta por Chomsky). Esse momento é seguido da correção dos erros (D), na qual são expostas as evidências negativas do processo de aquisição em oposição às evidências positivas (A). A correção de erros pode servir à testagem de hipó- teses, rejeitando as que são falsas e prevenindo que a interlíngua do aprendiz de L2 apreenda generalizações (overgeneralizations) (NASSAJI; SWAIN, 2000). Distanciando-se completamente da abordagem natural, na qual, como você viu na seção anterior, a correção de erros é quase que inteiramente desconside- rada, Ellis acredita na sua eficiência, principalmente durante atividades “primei- ramente baseadas no significado”, na medida em que atendem às “necessidades comunicativas” (ELLIS, 1999). Outro ponto de diferença entre as abordagens é que, no modelo computacional de aquisição de segunda língua proposto por Ellis, o aprendizado consciente da gramática — isto é, de elementos linguísticos — durante o input é indispensável para o sucesso do intake (ELLIS, 1999, p. 66). Sendo o modelo computacional, antes de tudo, um modelo de processamento de informação, de certa forma, Ellis também rejeita a hipótese da GU para a aquisição da linguagem. Segundo o autor, não há algo como uma capacidade inata, mas, sim, faculdades cognitivas cujo papel, no aprendiz de L2, é processar a informação disponível no input para atingir uma representação mental da língua-alvo (ELLIS, 1999). Ou seja, processar uma informação não é um proce- dimento natural, pelo contrário, é uma atividade cognitiva exercida pelo falante. O modelo computacional14 1. A pesquisa em aquisição da lin- guagem geralmente tem por objeto a língua materna, isto é, a primeira língua (L1), mas não raro inclina-se ao estudo do aprendizado de língua estrangeira como uma segunda língua (L2). Sobre as diferenças notórias entre a aquisição de L1 e de L2, é correto afirmar que: a) as crianças conhecem mais a sua língua materna do queos adultos. b) a fluência em L2 raramente é atingida. c) a origem da língua e as condi- ções particulares de cada criança influenciam a aquisição da linguagem. d) a aquisição de uma segunda língua se dá de maneira uniforme em aprendizes de uma mesma comunidade linguística. e) estudos mostram que a língua materna de alguma forma influencia a aquisição de se- gunda língua ao menos nos seus estágios iniciais. 2. Os linguistas norte-americanos Tracy Terrell e Steven Krashen descreveram uma abordagem natural (the natural approach) de aquisição de línguas na tentativa de solucionar o problema da aquisição de segunda língua em sala de aula. A abordagem natural prioriza: a) a correção de erros e o aprendi- zado consciente da gramática, usado para a produção da linguagem. b) a produção de linguagem, que deve ser forçada por meio de dramatizações e jogos. c) a condição de aprendizes em estágio avançado da língua, os quais devem estar relaxados e dispostos ao aprendizado. d) a comunicação, a partir dos estágios de compreensão, fala precoce e emergência da fala. e) exercícios práticos e de tradução para a aquisição de vocabulário su- ficiente para a emergência da fala. 3. A hipótese de aquisição de segunda língua mais estudada nos Estados Unidos é a da Gramática Universal (GU). Ela atesta que a criança possui uma gramática inata, formada por princípios comuns a todas as línguas humanas e parâmetros que são particulares às línguas, de modo que aprender uma língua seria uma questão de fixar corretamente os parâ- metros dessa língua. Entre os principais argumentos sustentados pela crítica à hipótese da GU para aquisição de segunda língua, podemos citar: a) a evidência empírica de que o processo de aquisição de L2 nunca parte do estado inicial da faculdade de linguagem, como acontece no processo de aqui- sição de L1. b) a impossibilidade de se com- provar se a fixação de parâmetros participa do processo de aqui- sição em L2. c) estudos apontando que as crianças aprendem sua língua materna de maneira uniforme, rápida e sem esforço, mas têm dificuldades para aprender uma segunda língua. d) a inexatidão do acesso que os aprendizes têm da GU durante o processo de aquisição de se- 15O modelo computacional gunda língua e o fato de a hipó- tese não descrever a forma como os parâmetros são definidos. e) a comprovação de que a língua materna não influencia a aqui- sição de segunda língua. 4. Os modelos computacionais são processadores de informação capazes de explicar detalhadamente o pro- blema investigado e a sua solução. De acordo com o modelo computacional de aquisição de segunda língua proposto por Rod Ellis (1998): a) o conhecimento explícito da segunda língua no aprendiz compreende a relação entre o insumo absorvido e a interlíngua. b) o input absorvido pelo aprendiz não interfere no desenvolvi- mento da interlíngua. c) a competência gramatical do aprendiz pode ser negativamente influenciada pela interlíngua. d) a intervenção direta na inter- língua implica no processamento parcial da gramática da L2. e) o fenômeno da fossilização pode ser evitado pelo método de instrução implícita. 5. Em resumo, uma modelagem computacional considera um input conforme parâmetros predefinidos para a produção de um output. Marque a alternativa que descreve as etapas do modelo computacional de aquisição de segunda língua pro- posto por Ellis (1998). a) Exposição ao input – processa- mento da informação – desenvol- vimento da interlíngua – produção de output – correção de erros. b) Absorção de input – desenvolvi- mento da interlíngua – correção de erros – produção de output. c) Exposição ao input – desenvolvi- mento da interlíngua – processa- mento da informação – produção de output – correção de erros. d) Absorção de input – processa- mento da informação – desenvol- vimento da interlíngua – correção de erros – produção de output. e) Exposição ao input – processa- mento da informação – desenvol- vimento da interlíngua – correção de erros – produção de output. BOSCH, L. et al. A Computational Model of Language Acquisition: The Emergence of Words. Fundamenta Informaticae, v. 90, n. 3, p. 229–249, 2009. CLAHSEN, H. 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O modelo computacional18 Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra. Dica do professor Há muitos métodos disponíveis para que o professor de línguas aplique em seus alunos de segunda língua. Existem os métodos tradicionais, baseados no ensino da gramática, e existem métodos que são baseados na comunicação, apenas. Há ainda modelos formais, que colocam sua ênfase no aspecto formal da segunda língua, geralmente opostos à modelagem computacional, a qual parte da exposição a insumos (input) a fim de se chegar à produção de output. Nesta Dica do Professor, você vai ver uma explicação passo a passo do modelo computacional de aquisição de segunda língua proposto por Rod Ellis (1998). Acompanhe. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/de29316a214ed7f61741104a1d77cd41 Exercícios 1) A pesquisa em aquisição da linguagem geralmente tem por objeto a língua materna, isto é, a primeira língua (L1). Não raro inclina-se ao estudo do aprendizado de língua estrangeira como uma segunda língua (L2). Sobre as diferenças notórias entre a aquisição de L1 e de L2, é correto afirmar que: A) as crianças conhecem mais a sua língua materna do que os adultos. B) a fluência em L2 raramente é atingida. C) a origem da língua e as condições particulares de cada criança influenciam na aquisição da linguagem. D) a aquisição de uma segunda língua se dá de maneira uniforme em aprendizes de uma mesma comunidade linguística. E) estudos mostram que a língua materna, de alguma forma, influencia a aquisição de segunda língua, ao menos nos seus estágios iniciais. 2) Os linguistas norte-americanos Tracy Terrell e Steven Krashen descreveram uma abordagem natural (The Natural Approach) de aquisição de línguas, na tentativa de solucionar o problema da aquisição de segunda língua em sala de aula. A abordagem natural prioriza: A) a correção de erros e o aprendizado consciente da gramática, usado para a produção da linguagem. B) a produção de linguagem, que deve ser forçada por meio de dramatizações e de jogos. C) a condição de aprendizes em estágio avançado da língua, os quais devem estar relaxados e dispostos ao aprendizado. D) a comunicação, por meio dos estágios de compreensão, fala precoce e emergência da fala. E) exercícios práticos e de tradução, visando à aquisição de vocabulário suficiente para a emergência da fala. A hipótese de aquisição de segunda língua mais estudada nos Estados Unidos é a da Gramática Universal (GU). Ela atesta que a criança tem uma gramática inata, formada por 3) princípios comuns a todas as línguas humanas e parâmetros que são particulares às línguas. Desse modo, aprender uma língua seria uma questão de fixar corretamente os seus parâmetros. Entre os principais argumentos sustentados pela crítica à hipótese da GU para aquisição de segunda língua, podemos citar: A) A evidência empírica de que o processo de aquisição de L2 nunca parte do estado inicial da faculdade de linguagem, como acontece no processo de aquisição de L1. B) A impossibilidade de se comprovar se a fixação de parâmetros participa do processo de aquisição em L2. C) Estudos apontando que as crianças aprendem sua língua materna de maneira uniforme, rápida e sem esforço, mas têm dificuldades para aprender uma segunda língua. D) A inexatidão do acesso que os aprendizes têm da GU durante o processo de aquisição de segunda língua e o fato de que a hipótese não descreve a forma como os parâmetros são definidos. E) A comprovação de que a língua materna não influencia a aquisição de segunda língua. 4) Os modelos computacionais são processadores de informação capazes de explicar detalhadamente o problema investigado e a sua solução. De acordo com o modelo computacional de aquisição de segunda língua, proposto por Rod Ellis (1998): A) O conhecimento explícito da segunda língua no aprendiz compreende a relação entre o insumo absorvido e a interlíngua. B) o input absorvido pelo aprendiz não interfere no desenvolvimento da interlíngua. C) a competência gramatical do aprendiz pode ser negativamente influenciada pela interlíngua. D) a intervenção direta na interlíngua implica o processamento parcial da gramática da L2. E) o fenômeno da fossilização pode ser evitado por meio do método de instrução implícita. 5) Em resumo, uma modelagem computacional considera um input conforme parâmetros predefinidos para a produção de um output. Marque a alternativa que descreve as etapas do modelo computacional de aquisição de segunda língua proposto por Ellis (1998). A) exposição ao input; processamento da informação; desenvolvimento da interlíngua; produção de output; correção de erros. B) absorção de input; desenvolvimento da interlíngua; correção de erros; produção de output. C) exposição ao input; desenvolvimento da interlíngua; processamento da informação; produção de output; correção de erros. D) absorção de input; processamento da informação; desenvolvimento da interlíngua; correção de erros; produção de output. E) exposição ao input; processamento da informação; desenvolvimento da interlíngua; correção de erros; produção de output. Na prática Ao contrário da abordagem natural de aquisição de segunda língua, o modelo computacional proposto por Rod Ellis (1998) considera muito importante o aprendizado consciente da gramática na etapa inicial do processo de aquisição, assim como valoriza e dá lugar especial à correção de erros produzidos pelo aprendiz ao fim do processo. Esse modelo processa informações levando em conta que o aprendiz de segunda língua é uma “máquina inteligente” capaz de computar input dentro de uma espécie de “caixa preta mental” que preserva os mecanismos previamente adquiridos durante a exposição a insumos compreensíveis da segunda língua, tornando possível ao aprendiz internalizar novos saberes e aplicá-los nas tarefas propostas na etapa de output da segunda língua, isto é, de produção prática da linguagem. Veja, Na Prática, o caso de um professor de inglês, Carlos, que aplicou o modelo de Ellis na sua primeira aula para alunos iniciantes. Confira. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar.https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/e507c146-259b-4c51-a7bb-3b8dc35ce344/0ee3dd63-8674-4ece-b190-16f808d1662a.jpg Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: A importância dos estudos sobre a gramática universal nas pesquisas em aquisição de segunda língua o artigo recomendado traz uma revisão teórica acerca da relação entre a GU e os estudos de Aquisição de Segunda Língua (SLA), bem como as hipóteses sobre a possibilidade de acesso à GU por parte dos aprendizes de uma segunda língua. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Teorias de ASL no ensino de línguas adicionais: reflexões sobre práticas docentes Confira, neste artigo, um panorama das principais teorias, modelos e/ou hipóteses de aquisição de segunda língua (ASL) – behaviorista, conexionista, aculturação, gramática universal, input e output. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. O método natural no ensino de línguas O vídeo traz uma síntese do contexto emergencial do método natural de aquisição de linguagem, além de sua relação com a gramática universal e as suas principais características. http://publica.sagah.com.br/publicador/objects/attachment/124969974/16052-70704-1-PB.pdf?v=1540395065 http://publica.sagah.com.br/publicador/objects/attachment/1748625746/1476-3475-1-SM.pdf?v=1102662018 Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://www.youtube.com/embed/6WsWh9KSOfU