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Os gêneros textuais na construção social da leitura e da escrita (Parte 1) Apresentação Nesta Unidade de Aprendizagem, compreenderemos a importância dos gêneros textuais na construção social da leitura e escrita e como eles podem auxiliar o processo de ensino- aprendizagem de Língua Portuguesa, a fim de facilitar o trabalho do educador. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer o uso dos variados gêneros textuais no ensino da língua portuguesa.• Identificar o poder social na expressão verbal.• Aplicar os variados gêneros textuais na produção autônoma nas séries iniciais.• Desafio Você é professor de língua portuguesa da 6a série. É uma turma que necessita trabalhar muito com a leitura e a escrita, por isso a coordenadora pedagógica solicitou que você trabalhasse com os gêneros textuais. Portanto, seu desafio é selecionar três gêneros textuais que sejam reconhecidos pelos estudantes e possíveis de se trabalhar nessa faixa etária. Em seguida, justifique sua escolha e apresente os resultados esperados. Infográfico Observe, no infográfico a seguir, algumas dicas para ser um leitor e produtor de textos eficientes. Conteúdo do livro As constantes transformações sociais e o crescente desenvolvimento tecnológico e científico são responsáveis pela criação de novas demandas de uso das habilidades de leitura e escrita. Essas habilidades são demandadas tanto em relação aos gêneros textuais mais tradicionais, como daqueles que surgem nos ambientes digitais. Sendo a escola a principal responsável por oportunizar a formação de sujeitos competentes no uso da Língua Portuguesa, cabe à ela inserir, em suas práticas educativas, gêneros textuais diversos, que possibilitem aos indivíduos uma atuação crítica e participativa na vida em sociedade. Nesse capítulo você irá conceituar os gêneros textuais e compreender como eles devem ser inseridos nas práticas educativas, refletir sobre a relevância do domínio das diferentes linguagens para a atuação em sociedade e conhecer as propostas da Base Nacional Comum Curricular para o ensino da Língua Portuguesa nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Boa leitura! CONTEÚDO E METODOLOGIA DO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Reconhecer o uso dos variados gêneros textuais no ensino da língua por- tuguesa. > Identificar o poder social da expressão verbal. > Aplicar os variados gêneros textuais na produção autônoma nos anos iniciais. Introdução No ensino da língua portuguesa, o texto sempre esteve presente, sendo utilizado de diferentes maneiras e de acordo com a concepção de linguagem adotada pelos professores. As discussões sobre as funções sociais da leitura e da escrita e sobre a necessidade de formação de usuários competentes nessas habilidades em contextos variados trouxeram o texto e os gêneros textuais para o centro das práticas educativas. Neste capítulo, você vai estudar o conceito de gênero textual e reconhecer a sua importância na formação de sujeitos competentes no uso da leitura e da escrita em contextos diferentes. Você também vai refletir sobre a importância das práticas Os gêneros textuais na construção social da leitura e da escrita Maria Elena Roman de Oliveira Toledo de linguagem na sociedade contemporânea, além de conhecer possibilidades de inserção de diversos gêneros textuais nas práticas educativas propostas para as séries iniciais. Gêneros textuais no ensino da língua portuguesa Há muito tempo o texto tem sido a base das práticas de ensino da língua por- tuguesa nas escolas brasileiras. Na década de 1980, o papel ocupado pelo texto foi explicitado em diferentes propostas curriculares e programas desenvolvidos pelas secretarias da educação em todo o país. De lá para cá, o trabalho com o texto em sala de aula assumiu diferentes características, de acordo com as diferentes concepções de linguagem adotadas (ROJO; CORDEIRO, 2004). Em um primeiro momento, o texto foi tomado como material ou objeto empírico, utilizado em sala de aula para atos de leitura, de produção e de análise linguística. Como tal, o texto não se constituía como um objeto de ensino, mas como um objeto de uso, que, apresentado aos estudantes, pos- sibilitava o desenvolvimento de hábitos de leitura e estimulava a escrita de outros textos. Posteriormente, de acordo com Rojo e Cordeiro (2004), o texto passou a ser visto como suporte para o desenvolvimento de estratégias e habilidades de leitura e de redação. A leitura era vista como uma ocasião privilegiada para o desenvolvimento das estratégias leitoras utilizadas pelos leitores fluentes e para a abordagem das estratégias de planejamento, revisão e editoração de texto (ROJO; CORDEIRO, 2004). O ensino das propriedades do texto levou a uma gramaticalização dos eixos de uso, fazendo com que ele passasse a ser utilizado como pretexto para o ensino da gramática normativa e da gramática textual. Com isso, nas práticas educativas, passou-se a utilizar o texto de maneira descontextua- lizada, pautada na extração de fragmentos textuais (ROJO; CORDEIRO, 2004). Nos anos 1990, foram divulgados resultados de pesquisas realizadas em vários países, os quais apontavam a necessidade de que o texto fosse abordado, nas práticas educativas, em funcionamento e em seu contexto de produção e leitura, para que, assim, pudesse evidenciar as significações geradas (ROJO; CORDEIRO, 2004). No Brasil, a ideia do texto como unidade de ensino, devendo ser abor- dado em seu contexto de uso, foi incorporada pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), importante documento norteador das práticas educativas realizadas em todo o país (BRASIL, 1997). Conforme esse documento: Os gêneros textuais na construção social da leitura e da escrita2 Se o objetivo é que o aluno aprenda a produzir e a interpretar textos, não é possível tomar como unidade básica de ensino nem a letra, nem a sílaba, nem a palavra, nem a frase que, descontextualizadas, pouco têm a ver com a competência discursiva, que é questão central. Dentro desse marco, a unidade básica de ensino só pode ser o texto (BRASIL, 1997, p. 29). A proposta de inserção de diferentes tipos de texto nas práticas educati- vas voltadas para o ensino da língua portuguesa apresentada pelos PCNs se apoiava na ideia de que, sendo a escola um espaço institucional de acesso ao conhecimento, caberia a ela atender às demandas sociais de leitura e escrita em constante crescimento na sociedade. Nesse contexto: Toda educação verdadeiramente comprometida com o exercício da cidadania precisa criar condições para o desenvolvimento da capacidade de uso eficaz da linguagem que satisfaça necessidades pessoais — que podem estar relacionadas às ações efetivas do cotidiano, à transmissão e busca de informação, ao exercício da reflexão. De modo geral, os textos são produzidos, lidos e ouvidos em razão de finalidades desse tipo. Sem negar a importância dos que respondem a exigências práticas da vida diária, são os textos que favorecem a reflexão crítica e imaginativa, o exercício de formas de pensamento mais elaboradas e abstratas, os mais vitais para a plena participação numa sociedade letrada (BRASIL, 1997, p. 25). A publicação dos PCNs intensificou a discussão sobre a importância da inserção dos diferentes gêneros textuais nas práticas educativas para o ensino da língua. Para conhecer mais sobre os PCNs, acesse o documento oficial, disponível on-line no Portal do Ministério da Educação. Gêneros discursivos e textuais como objetos de ensino Os gêneros textuais são as formas pelas quais os textos se organizam. Cada uma delas tem características específicas relacionadas aos conteúdos que podem ser tratados nos textos de determinado gênero, à composição interna das informações e às suas marcas linguísticas gerais. Segundo Brakling (2013, p. 15): [...] temos vários gêneros na nossa cultura, nesse momento, que circulam em várias esferas(acadêmica, científica, jornalística, escolar, religiosa, de consumo, literária, entre outras): artigos de opinião, notícias, reportagens, classificados, receitas culinárias, receitas médicas, bulas de remédios, contos de fadas, contos policiais, Os gêneros textuais na construção social da leitura e da escrita 3 crônicas, verbetes de dicionário, verbetes de enciclopédia, artigos expositivos, fábulas, mitos, lendas, anúncios publicitários, biografias, romances literários, contos de aventura, poemas, cartas, cartas de leitores, bilhetes, entre tantos outros. Diferentes gêneros textuais têm diferentes finalidades comunicativas. Por exemplo, enquanto o manual de instruções tem como finalidade a orientação de alguém que irá realizar alguma tarefa, a notícia tem como objetivo relatar um fato para um grande público, e um artigo de opinião visa a discutir alguma questão controversa. Dolz e Schnewly (2004), buscando contribuir para a construção de uma progressão das atividades envolvendo os gêneros textuais nas atividades de ensino, propuseram um enfoque voltado para o agrupamento dos gêneros. Os agrupamentos foram constituídos a partir de três critérios essenciais. Na perspectiva adotada pelos autores, é necessário que os agrupamentos: 1 - correspondam às grandes finalidades sociais legadas ao ensino, respondendo às necessidades de linguagem em expressão escrita e oral, em domínios essenciais de comunicação em nossa sociedade (inclusive a escola); 2 - retomem, de modo flexível, certas distinções tipológicas que já figuram em numerosos manuais e guias curriculares; 3 - sejam relativamente homogêneos quanto às capacidades de linguagem dominan- tes implicadas na maestria dos gêneros agrupados (DOLZ; SCHNEUWLY, 2004, p. 58). A partir dos critérios elencados, foram propostos cinco agrupamentos: narrar, relatar, argumentar, expor e descrever ações. No agrupamento “narrar”, as capacidades de linguagem dominantes são aquelas relacionadas à cultura literária ficcional. Exemplos de gêneros orais e escritos desse agrupamento são os contos maravilhosos, os contos de fadas, as fábulas, as lendas, as biografias romanceadas, entre outros (DOLZ; SCHNEUWLY, 2004). No agrupamento “relatar”, a capacidade de linguagem dominante é a documentação e a memorização das ações humanas. O relato de experiências vividas, os relatos de viagem, a autobiografia, a notícia e o curriculum vitae são exemplos de gêneros textuais orais e escritos que fazem parte desse agrupamento (DOLZ; SCHNEUWLY, 2004). A discussão de problemas sociais controversos é a capacidade linguística predominante no agrupamento “argumentar”. Como exemplos de textos orais e escritos desse agrupamento, podemos citar os textos de opinião, a carta do leitor, o debate regrado, o editorial, as resenhas críticas, entre outros (DOLZ; SCHNEUWLY, 2004). A transmissão e a construção de saberes são contempladas no agrupa- mento “expor”, que tem como exemplos os textos expositivos, os seminários, Os gêneros textuais na construção social da leitura e da escrita4 as palestras, os verbetes, as resenhas, os relatórios científicos, etc. (DOLZ; SCHNEUWLY, 2004). Já o agrupamento “descrever ações” tem como capacidade linguística pre- dominante as instruções e as prescrições, como, por exemplo, instruções de montagem, receitas, regulamentos e regras de jogo (DOLZ; SCHNEUWLY, 2004). Assim, para que um indivíduo seja capaz de selecionar o gênero mais adequado para a organização do seu discurso, ele precisa conhecer as ca- racterísticas dos diferentes gêneros, de modo a avaliar sua pertinência às finalidades da situação comunicativa, ao lugar de circulação e ao contexto de produção. A realização de uma seleção adequada é determinante na eficácia do discurso (BRAKLING, 2013). Nesse contexto, é papel da escola oportunizar a formação de sujeitos competentes no uso do discurso, que sejam capazes de adequar os diferentes gêneros às finalidades comunicativas. Para isso, as práticas educativas devem ser planejadas e implementadas de maneira a permitir não só o conhecimento dos diferentes gêneros, mas também a compreensão do papel social dos diferentes gêneros e textos na vida em sociedade. Importância social da expressão verbal Em uma sociedade letrada, usuária da leitura e da escrita, os indivíduos se deparam com várias situações em que são demandadas habilidades de leitura e de escrita. Sendo a escola uma das principais responsáveis pelo acesso ao mundo da escrita, é sua obrigação garantir os meios para que os indivíduos possam se inserir, efetivamente, na sociedade e exercer plenamente a sua cidadania utilizando os conhecimentos adquiridos nos contextos escolares. As múltiplas demandas evidenciam que as práticas de ensino pautadas no domínio de técnicas ou no uso de fragmentos de textos descontextualiza- dos utilizadas para o ensino da língua portuguesa não são suficientes para a formação de sujeitos capazes de usar a leitura e a escrita para as finalidades requeridas. Soares (2009) afirma que a formação de usuários competentes da leitura e da escrita em contextos variados pressupõe tanto o domínio da tecno- logia da escrita quanto o domínio das competências de uso dessa tecnologia. A capacidade de uso das habilidades de leitura e de escrita em contextos sociais diversos nos quais elas podem ser requeridas é chamada de letra- mento (SOARES, 2009). O letramento pode ser entendido como “[...] o conjunto de conhecimentos, atitudes e capacidades envolvidos no uso da língua em práticas sociais e necessários para uma participação ativa e competente na cultura escrita” (SOARES; BATISTA, 2005, p. 50). Os gêneros textuais na construção social da leitura e da escrita 5 O conceito de letramento surgiu como consequência da ampliação pro- gressiva do conceito de alfabetização decorrente, sobretudo, da percepção de que saber ler e escrever, sob o ponto de vista do domínio da técnica, não era suficiente para habilitar os sujeitos para a utilização da leitura e da escrita na interação com situações sociais diversas. Conforme está explicitado na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), atual documento orientador da organização e reorganização curricular no país, é papel da escola oportunizar o desenvolvimento das habilidades de letramento (BRASIL, 2007). De acordo com esse documento, cabe ao compo- nente curricular língua portuguesa proporcionar aos estudantes múltiplas experiências que contribuam para a ampliação do letramento, de maneira a possibilitar a participação significativa e crítica nas diversas práticas sociais permeadas e constituídas pela oralidade, pela escrita e por outras linguagens. Nessa perspectiva, o trabalho com os textos e os gêneros textuais ganha centralidade nas práticas educativas, conforme descreve a BNCC (BRASIL, 2017, p. 67): Os conhecimentos sobre os gêneros, sobre os textos, sobre a língua, sobre a norma- -padrão, sobre as diferentes linguagens (semioses) devem ser mobilizados em favor do desenvolvimento das capacidades de leitura, produção e tratamento das linguagens, que, por sua vez, devem estar a serviço da ampliação das possibilidades de participação em práticas de diferentes esferas/campos de atividades humanas. A importância da formação de usuários competentes das habilidades de leitura e escrita em contextos variados pela escola decorre do fato de que as práticas de linguagem contemporâneas não só envolvem novos gêneros e textos cada vez mais multissemióticos e multimidiáticos, como também novas formas de produção, configuração, de disponibilização, de replicação e de interação. Os gêneros e textos multissemióticos são aqueles nos quais dife- rentes elementos coexistem. Neles, estão combinadas diferentes modalidades, como as linguagens verbal (oral e escrita), visual, sonora, corporal e digital. Os gêneros e os textos multimidiáticos contemplam a diversidade de mídias, como a televisão, o rádio e a internet. As novas ferramentas tecnológicas permitem a produção ea disponibi- lização de textos multissemióticos nas redes sociais e em outros ambientes virtuais. O acesso a conteúdos diversos em diferentes mídias, bem como a Os gêneros textuais na construção social da leitura e da escrita6 produção e publicação de fotos, vídeos, podcasts, infográficos, entre outros, são possibilidades cada vez mais acessíveis a uma grande parte da população (BRASIL, 2017). Nesse contexto, as novas práticas sociais de linguagem colocam à escola o desafio de instrumentalizar os estudantes para que sejam leitores e produto- res competentes e críticos de gêneros e textos variados. Em uma sociedade em constante transformação e com um desenvolvimento científico e tecnológico crescente, a escola precisa estar atenta às novas demandas que irão surgir. De acordo com a BNCC: Uma parte considerável das crianças e jovens que estão na escola hoje vai exercer profissões que ainda nem existem e se deparar com problemas de diferentes ordens e que podem requerer diferentes habilidades, um repertório de experiências e práticas e o domínio de ferramentas que a vivência dessa diversificação pode favorecer. O que pode parecer um gênero menor (no sentido de ser menos valorizado, relacio- nado a situações tidas como pouco sérias, que envolvem paródias, chistes, remixes ou condensações e narrativas paralelas), na verdade, pode favorecer o domínio de modos de significação nas diferentes linguagens, o que a análise ou produção de uma foto convencional, por exemplo, pode não propiciar (BRASIL, 2017, p. 69). Portanto, a consideração pela escola, pelos novos multiletramentos e pelas práticas da cultura digital contribui para que os indivíduos tenham uma participação mais efetiva e crítica nas práticas contemporâneas de linguagem. Sendo assim, considerando o seu papel, as práticas educativas desenvolvidas desde os anos iniciais do ensino fundamental em língua portuguesa devem garantir a interação dos educandos com textos e gêneros textuais variados e em situações significativas. Gêneros textuais nos anos iniciais do ensino fundamental As necessidades sociais atuais de uso da leitura e da escrita demandam a forma- ção de um leitor e produtor textual competente, que seja capaz de, muito mais do que codificar ou decodificar uma mensagem, de produzir e atribuir sentido, agindo socialmente por meio da linguagem. O atendimento dessa demanda fez com que uma nova concepção de linguagem se fizesse necessária, bem como uma nova concepção de ensino de leitura e de escrita (NASCIMENTO, 2010). Conforme Nascimento (2010, p. 14): Os Parâmetros Curriculares Nacionais, na área de Língua Portuguesa, no final do século passado, apresentam à escola a concepção sociointeracional de linguagem, baseada em vários estudiosos da Linguística Contemporânea, da Filosofia da Lin- Os gêneros textuais na construção social da leitura e da escrita 7 guagem, a exemplo de Bakhtin, e de outras áreas do conhecimento, uma proposta de ensino de leitura e escrita baseada não mais na tipologia textual, mas na noção de gêneros textuais/discursivos. Assim, a inserção dos gêneros textuais nas práticas de ensino de leitura, escrita e oralidade nos anos iniciais do ensino fundamental se faz necessária, na medida em que oportunizam aos estudantes o contato com situações reais de uso da língua. Na perspectiva adotada, os textos não são apenas elementos desen- cadeadores de atividades voltadas para o ensino de regras gramaticais, vocabulários específicos ou para a identificação de informações, mas para um todo comunicativo, com características específicas, sendo contemplado de maneira contextualizada, tanto do ponto de vista histórico como cultural. Ainda de acordo com Nascimento (2010), a inserção dos gêneros textuais só é possível quando as práticas educativas propostas para o ensino da língua portuguesa são pautadas por uma concepção voltada para o desenvolvi- mento das competências comunicativas dos estudantes e quando o texto é considerado uma unidade de comunicação. Nos anos iniciais do ensino fundamental, os estudantes devem ser ex- postos a diferentes tipos de texto e de gêneros discursivos para que possam identificar e apreender suas marcas características e suas funções sociais. O trabalho pedagógico nessa etapa da escolarização deve ser organizado de acordo com quatro eixos inter-relacionados: oralidade, leitura/escuta, produção (escrita e multissemiótica) e análise linguística/semiótica (BRASIL, 2017). O Quadro 1 apresenta esses eixos. Quadro 1. Eixos de trabalho no ensino da língua portuguesa nos anos iniciais do ensino fundamental Eixo Aspectos contemplados Oralidade Práticas de linguagem que ocorrem em situação oral com ou sem contato face a face. Exemplos: aula dialogada, webconferência, mensagem gravada, jingle, seminário, debate, programa de rádio, entrevista, entre outros. Leitura/ escuta Práticas de linguagem que decorrem da interação ativa do leitor/ouvinte/espectador com os textos escritos, orais e multissemióticos e de sua intepretação. Exemplos: leitura para fruição estética de textos e obras literárias; pesquisa e embasamento de trabalhos escolares e acadêmicos, debate de temas de relevância social, entre outros. (Continua) Os gêneros textuais na construção social da leitura e da escrita8 Eixo Aspectos contemplados Produção Práticas de linguagem relacionadas à interação e à autoria (individual ou coletiva) do texto escrito, oral e multissemiótico, com diferentes finalidades e projetos enunciativos. Exemplos: construção de um álbum de personagens famosos, produção de um almanaque que retrate as práticas culturais da comunidade; narrativa de fatos cotidianos, entre outros. Análise linguística/ semiótica Procedimentos e estratégias (meta)cognitivas de análise e avaliação consciente durante os processos de leitura e de produção de textos (orais, escritos e multissemióticos), das materialidades dos textos responsáveis por seus efeitos de sentido, seja no que se refere às formas de composição dos textos determinadas pelos gêneros (orais, escritos e multissemióticos) e pela situação de produção, seja no que se refere aos estilos adotados nos textos, com forte impacto nos efeitos de sentido. Fonte: Adaptado de Brasil (2017). Os eixos propostos na BNCC (BRASIL, 2017) devem ser abordados em sala de aula de maneira articulada para que possam contribuir para a formação de usuários competentes da língua. Uma outra categoria organizadora do currículo e que se articula com as práticas de linguagem contempladas pelos eixos são os campos de atuação em que essas práticas se realizam: Na BNCC, a organização das práticas de linguagem (leitura de textos, produção de textos, oralidade e análise linguística/semiótica) por campos de atuação aponta para a importância da contextualização do conhecimento escolar, para a ideia de que essas práticas derivam de situações da vida social e, ao mesmo tempo, precisam ser situadas em contextos significativos para os estudantes (BRASIL, 2017, p. 84). Nos anos iniciais do ensino fundamental, estão propostos quatro cam- pos de atuação: (1) campo da vida cotidiana, (2) campo artístico-literário, (3) campos das práticas de estudo e pesquisa e (4) campo da vida pública (BRASIL, 2017). A proposição dos campos de atuação visa a orientar a seleção de gêneros, práticas, atividades e procedimentos em cada um deles. Ao abordá-los, o professor deve ter consciência de que as fronteiras entre eles são tênues, permitindo que alguns gêneros sejam utilizados em diferentes campos (BRASIL, 2017). Na adoção de práticas de ensino pautadas pelas propostas da BNCC (BRASIL, 2017), o professor tem um papel fundamental. Cabe a ele realizar a (Continuação) Os gêneros textuais na construção social da leitura e da escrita 9 mediação entre os estudantes e os gêneros textuais diversos, inseridos em situações comunicativas significativas e contextualizadas. Ainda, para que cumpra o seu papel, o professor precisa terum amplo conhecimento sobre os gêneros com os quais irá trabalhar, a fim de que possa inseri-los de maneira adequada em suas práticas. Vale ressaltar que trabalhar com um determinado gênero na perspec- tiva adotada não significa apenas apresentá-lo aos estudantes de maneira descontextualizada ou artificializada. Faz-se necessário que o gênero seja colocado em uma situação bastante semelhante àquelas em que é encon- trado nos contextos extraescolares. Ao fazer isso, o professor contribuirá para a formação de “[...] cidadãos conscientes de que, ao se comunicar, estão construindo o mundo e transformando-o, uma vez que nessa perspectiva, língua e vida são inseparáveis” (NASCIMENTO, 2010, p. 20). Neste capítulo, pudemos perceber que, ao longo da história da educação brasileira, o texto esteve presente no ensino da língua portuguesa com diferentes finalidades e concepções de linguagem. Contudo, as discussões sobre a importância do letramento, iniciadas na década de 1980, provocaram a reflexão sobre a necessidade de revisão das práticas educativas descon- textualizadas e desprovidas de significado. Essa revisão colocou o texto no centro das práticas educativas e os gêneros textuais como necessários às práticas de linguagem. Mais tarde, em 2017, a publicação da BNCC enfatizou a necessidade de que a escola promovesse práticas de linguagem no ensino da língua portuguesa pautadas em diferentes eixos de trabalho e campos de atuação humana. Diante disso e considerando a importância das práticas educativas adequa- das para a formação de sujeitos capazes de utilizar, de maneira competente, a leitura e a escrita para o enfrentamento de demandas diversas, é papel do professor inserir os gêneros textuais em seu planejamento e propor situações de aprendizagem significativas e contextualizadas. Referências BRAKLING, K. L. Orientações didáticas fundamentais sobre as expectativas de aprendi- zagem de língua portuguesa. São Paulo: Secretaria de Educação, 2013. Disponível em: https://www.educacao.sp.gov.br/a2sitebox/arquivos/documentos/963.pdf. Acesso em: 7 dez. 2021. BRASIL. Base nacional comum curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2017. BRASIL. Parâmetros curriculares de língua portuguesa. Brasília, DF: Ministério da Educação, 1997. Os gêneros textuais na construção social da leitura e da escrita10 DOLZ, J.; SCHNEUWLY, B. Gêneros e progressão em expressão oral e escrita: elementos para reflexões sobre uma experiência suíça (francófona). In: DOLZ, J. et al. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2004. p. 41-73. Disponível em: https://midiasstoragesec.blob.core.windows.net/001/2017/02/gneros-e-progresso- -em-expresso-oral-e-escrita-cpia.pdf. Acesso em: 7 dez. 2021. NASCIMENTO, E. P. Gêneros textuais no ensino fundamental: um desafio para professores em formação. Linguagem & Ensino, v. 13, n. 1, p. 13-35, jan./jun. 2010. ROJO, R.; CORDEIRO, G. S. Apresentação: gêneros orais e escritos como objetos de ensino: modo de pensar, modo de fazer. In: DOLZ, J. et al. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas, SP: Mercado das Letras, 2004. p. 7-18. SOARES, M.; BATISTA, A. A. G. Alfabetização e letramento: caderno do professor. Belo Horizonte: Ceale/FaE/UFMG, 2005. SOARES, M. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. Leituras recomendadas FIORIN, J. L. Introdução ao pensamento de Bakhtin. São Paulo: Ática, 2006. MARCUSCHI, L. A. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. In: DIONÍSIO, A. P.; MACHADO, A. R.; BEZERRA, M. A. (org.) Gêneros textuais e ensino. Rio de Janeiro: Lu- cerna, 2002. Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Os gêneros textuais na construção social da leitura e da escrita 11 Dica do professor Veja, no vídeo a seguir, como ocorre a utilização e a produção dos gêneros textuais na escola e a importância de se trabalhar textos variados para a construção social da leitura e da escrita eficazes. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/5fbe536b51ae257dc91c266f09c41bd0 Exercícios 1) A investigação da palavra ou da frase isolada não permite o entendimento dos diversos fenômenos linguísticos que ocorrem no processo da comunicação. Diante disso, assinale a alternativa CORRETA sobre o processo de evolução da linguística textual. A) A linguística textual atingiu o seu ápice em 1960, no Brasil, quando a preocupação dos linguistas era descrever os fenômenos sintático-semânticos ocorrentes em enunciados. B) A linguística textual atingiu o seu ápice quando os linguistas elaboraram a gramática de frases, instrumento essencial para qualquer língua. C) O estudo dos diversos gêneros textuais tornou-se pouco eficiente para o processo de ensino- aprendizagem, visto que os linguistas perceberam que a língua e a linguagem não devem mudar nos diversos textos. Além disso, para eles, é preciso produzir textos utilizando a norma culta da língua. D) Os linguistas perceberam que o estudo de diversos gêneros textuais pode ser bastante viável para aumentar a eficiência da aprendizagem, pois os gêneros textuais trazem textos construídos com propriedades estruturais específicas, como verdadeiras unidades linguísticas, e não apenas sequências de sentenças isoladas. E) A elaboração da gramática de textos foi de suma importância para a linguística textual, sendo ela a principal fonte de consulta para a análise de textos apenas escritos, os quais sempre devem seguir a norma padrão da língua, ao contrário dos textos orais que, em nenhum momento, precisam ser formais. 2) O contexto e a situação comunicativa começam a ter relevância nos estudos do texto, uma vez que a pesquisa em linguística textual ganha uma nova dimensão. Agora, não se trata mais de pesquisar a língua como um sistema autônomo, mas sim o seu funcionamento nos processos comunicativos de uma sociedade concreta. Diante disso, os textos deixam de ser tratados como estruturas prontas e acabadas e passam a ser considerados como elementos constitutivos de intenções sociais e comunicativas dos usuários da língua, isto é, uma estrutura complexa, mas passível de modificações. A perspectiva adotada pela linguística textual é a: A) Perspectiva dos aspectos semânticos. B) Perspectiva dos gramáticos. C) Virada cognitivista. D) Discussão de problemas sociais controversos. E) Perspectiva pragmática. 3) No início dos estudos linguísticos havia o predomínio da análise de textos e, depois, num segundo momento, esta foi agregada com a adoção da ideia de que os fatores contextuais passam a ser reconhecidos nas práticas comunicativas. Posteriormente, o contexto social, histórico e cultural também foi valorizado no estudo da linguagem, uma vez que ele está representado na memória do indivíduo pelos modelos cognitivos. Em outro momento, os sujeitos passaram a ser considerados como os próprios construtores de textos, ou seja, é como se o texto passasse a ser o próprio lugar da interação, e os interlocutores se tornassem os sujeitos ativos que nele se constroem e por ele também são construídos. Entre as alternativas, a sequência que melhor representa a evolução ocorrida na linguística textual, com suas diferentes abordagens, é: A) Análise transfrástica — pragmática — cognitivista — sociocognitivo-interacionista. B) Pragmática — cognitivista — sociocognitivo-interacionista — análise transfrástica. C) Pragmática — cognitivista — análise transfrástica — sociocognitivo-interacionista. D) Cognitivista — análise transfrástica — sociocognitivo-interacionista— pragmática. E) Análise transfrástica — cognitivista — pragmática — sociocognitivo-interacionista. 4) Os agrupamentos de gêneros ocorrem com base nas regularidades e transferências linguísticas de cada um deles. Entretanto, cada um dos gêneros possui características diferentes, o que exige adaptações em seu ensino. Considerando o agrupamento de gêneros, é CORRETO afirmar que: A) Narrar, relatar, argumentar e expor são exemplos de gêneros orais e escritos. B) A argumentação está relacionada à capacidade de representação pelo discurso de experiências vividas, situadas no tempo. C) O discurso de acusação feito por promotores e advogados, por exemplo, é um tipo de gênero textual. Um verbete de enciclopédia não pode ser considerado um gênero textual, pois o estudo de gêneros não considera frases soltas, tampouco palavras individuais que não produzem D) sentido. E) A cultura literária ficcional, por se tratar de "mera ficção", não pode ser considerada parte do domínio social de comunicação, diferentemente das instruções e prescrições que têm caráter formal, sendo elas textos jurídicos e científicos, respectivamente. 5) Considerando que os gêneros textuais são textos que possuem funcionalidade e objetivo, bem como linguagem e público-alvo específicos, é possível afirmar que: A) Não é necessário que haja uma sequência previamente elaborada para a aprendizagem dos gêneros pelos alunos, visto que cada gênero é diferente e os alunos deverão habituar-se a trabalhar com eles no dia a dia, nas diversas situações de fala, escrita, comunicação etc. Ou seja, isso não deve ser uma preocupação dos professores. B) Ao apresentar o assunto, os professores deverão trabalhar o módulo 1 com os primeiros tipos de gêneros textuais, sem se preocuparem muito com o nível dos diferentes alunos, pois, com o andamento das aulas, todos serão capazes de se nivelar e alcançarem o mesmo patamar de aprendizagem. C) Nenhuma produção final deverá ser exigida dos alunos, pois a aprendizagem é um processo contínuo. Fazer com que o aluno elabore um trabalho final é o mesmo que dizer que ele já alcançou o objetivo da aprendizagem, que está apto e não precisará mais produzir textos daquele gênero, repetidamente. D) O estudo dos gêneros textuais é muito importante. É claro que os professores devem ater-se apenas àqueles gêneros textuais com os quais os alunos já tiveram algum tipo de contato. É importante observar se tais gêneros fazem parte do universo estudantil, pois, do contrário, isso poderá causar aversão e desinteresse nos alunos, prejudicando suas aprendizagens. E) Os agrupamentos de gêneros são feitos considerando as regularidades e as transferências linguísticas de cada gênero. No entanto, cada um deles possui características diferentes, o que exige adaptações para o seu ensino. Na prática Em suas aulas, o professor deve incluir os gêneros textuais que pertencem ao universo dos alunos, pois, dessa forma, ele não os ensinará apenas a ler e a escrever, mas também a utilizar, da melhor maneira possível, as várias facetas da língua materna. Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Gêneros textuais: o que há por trás do espelho? Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://docplayer.com.br/2237094-Generos-textuais-o-que-ha-por-tras-do-espelho.html