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GÊNEROS DISCURSIVOS E TEXTUAIS INTRODUÇÃO Prezado aluno, O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! Gêneros textuais/ discursivos Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Interpretar o conceito de gênero textual/discursivo. Reconhecer os conceitos de esfera discursiva, suporte, papel social de produtores e destinatários relacionando-os aos gêneros textuais/ discursivos. Classificar texto, tipologia textual e gênero textual. Introdução Os gêneros textuais/discursivos são ações sociais e discursivas que agem e dizem o mundo. Esses eventos discursivos, tipificados socialmente, são caracterizados especialmente pelo propósito ou pela funcionalidade comunicativa. Essas formas verbais de ação social, as quais se materializam em textos, são numerosas uma vez que são também inúmeras as esferas da comunicação humana. Por outro lado, os tipos textuais se caracte- rizam como sequências tipológicas de base estrutural e são limitados em número: narração, descrição, injunção, exposição e argumentação. Tais sequências, contudo, se manifestam e se organizam nos textos em interação com outras sequências, do que se pode dizer que há uma heterogeneidade de tipos textuais em um mesmo texto. Neste capítulo, você vai estudar o que são gêneros textuais/discursivos e conhecer algumas de suas abordagens teóricas. Além disso, você vai reconhecer quais são os elementos que determinam os gêneros e, ainda, identificar o que são os tipos textuais. 1 Variedade dos gêneros textuais/discursivos O mundo atual, comumente chamado de pós-moderno, tem sido constante- mente defi nido a partir de um boom tecnológico — em especial, nos sistemas de informação e comunicação. Para Giddens (1991), esse mesmo mundo é marcadamente construído e erguido a partir de crises de tradições, modelos e paradigmas fi losófi cos de pensamento. Ora, o desenvolvimento social moderno tem se realizado por um caminho tortuoso, pleno de descontinuidades. Nesse amplo contexto, de efervescência tecnológica, novos suportes midiáticos aparecem num constante piscar de olhos. Nós, como sujeitos desse novo momento sócio-histórico, estamos nos deparando com uma intensa reestrutu- ração das práticas sociais, práticas essas que provocam mudanças na maneira do homem sentir a si mesmo, o mundo e o outro. É difícil, assim, pensar de forma “descolada” da tecnologia — quem diria que um dia pensaríamos na impossibilidade de não possuir um celular, não é mesmo? Em virtude da imersão em um universo de planos virtuais de relações, outras necessidades e atividades sociais têm se mostrado imperativas para o mundo do humano. Isso se torna mais evidente quando se observa a impossibilidade de se mensurar a quantidade de gêneros, isto é, de ações sociais discursivas, ações retóricas tipifi cadas, como chama Miller (2009), que o homem utiliza para realizar suas atividades e se comunicar. É importante afirmar, no entanto, que os novos gêneros não são uma inovação absoluta (MARCUSCHI, 2002). Sabe-se, porém, que da invenção da prensa impressora por Johannes Gutenberg, na Alemanha, a qual permitiu que a informação estivesse mais acessível à população (lembre-se de que, antes, os livros eram escritos principalmente em latim, e a informação se restringia a uma pequena parcela da população, tais como os escribas, padres, políticos e grupos de elite), ao surgimento dos novos veículos de comunicação de massa, tais como os jornais, os livros e as revistas, no final do século XIX e início do século XX, distintas formas de organização, comunicação e produção de cultura e conhecimento foram produzidas (DEFLEUR; BALL-ROKEACH, 1993), o que gerou inevitavelmente numa ampla variedade de gêneros textuais/ discursivos. Contudo, isso não significa dizer que são propriamente as novas tecnologias que dão origem aos gêneros, como afirma Marcuschi (2002), mas a intensidade dos seus usos — há uma onipresença dos grandes suportes tecnológicos da comunicação, tais como, o rádio, a TV, o jornal, a revista e a internet nas nossas atividades comunicativas —, e as interferências que esses usos produzem nas nossas atividades comunicativas cotidianas — tais inter- ferências, por sua vez, causam impacto nas maneiras com as quais sentimos Gêneros textuais/discursivos2 o mundo e interagimos com o outro. Em resumo: é a intensidade dos usos tecnológicos e a influência que eles provocam nas esferas da comunicação humana que levam ao surgimento de outras maneiras de se comunicar. Assim, existe uma infinidade de gêneros textuais/discursivos, isto é, uma ampla variedade de ações sociais e discursivas, que são tipificadas na sociedade (MILLER, 2009). São várias as “maneiras” de nos comunicarmos nas diversas situações sociais: por bate-papos virtuais, e-mails, mensagens instantâneas de celular, anúncios publicitários, notícias jornalísticas, reportagens televisivas, documentários cinematográficos, horóscopos, histórias em quadrinho, parece- res científicos, sinopses de filme, artigos científicos, debates políticos, editoriais de revista, videoconferências, hinos nacionais, programas de rádio, consultas médicas, pareceres de caráter jurídico, telenovelas, telejornais, cumprimentos da ordem do cotidiano no elevador, entre muitas outras maneiras. Ora, o longo tamanho dessa lista — que é, por sua vez, interminável — se dá em virtude da ampla variedade de gêneros discursivos que existem e circulam nos variados meios sociais. Além disso, é só pensarmos que, para cada título, profissão, idade, grau de intimidade, papel social, etc. há numerosas possibilidades de se comunicar e se relacionar com o outro. Desse modo, a reflexão sobre o que é um gênero textual/discursivo tem relevância não apenas no que diz respeito às atividades de leitura, oralidade e escrita, mas no tocante às nossas relações interpessoais. Isso significa dizer também que ao nos apropriarmos do estudo sobre os gêneros textuais/discur- sivos passamos a ter acesso ao maior número possível dos diferentes modos de falar, escrever, ler, ouvir, por exemplo, tendo em vista que tais modos se realizam como ações sociais que são tipificadas na sociedade, isto é, como gêneros discursivos. Ao longo deste capítulo, fazemos uso das expressões gêneros, gêneros textuais, gêneros discursivos e gêneros textuais/discursivos como intercambiáveis. Embora algumas teorizações façam uso de uma terminologia em detrimento de outra, é importante pensar que os gêneros são eventos enunciativos, com significado, da ordem social, relacionados às esferas de comunicação humanas, e não dizem respeito apenas aos gêneros da modalidade (textual) escrita. Ou seja, o gênero não se materializa, de forma necessária, em um texto escrito. Dito de outro modo, há os gêneros das artes plásticas, da modalidade oral, dentre muitos outros. 3Gêneros textuais/discursivos Abordagens teóricas sobre os gêneros textuais/ discursivos É preciso apontar, de antemão, que existem vários estudos que abordam e defi nem os gênerosa partir de certos elementos característicos. Dentre esses estudos, citamos aqui preferencialmente as teorizações fundamentadas por Marcuschi (2002), Miller (2009), Bazerman (2005), Askehave e Swales (2009), e Bakhtin (2003), uma vez que essas abordagens apresentam ecos umas nas outras, tocam em pontos em comum, e, em especial, apontam a relação do estudo do gênero com a sua funcionalidade social, tendo em vista o contexto sócio-histórico. Em Marcuschi (2002), os gêneros textuais são caracterizados como práticas sociais, históricas e discursivas que organizam as atividades comunicativas de uma sociedade. Produzidas por um esforço coletivo, tais ações discursivas nos fornecem pistas do processo comunicativo em determinado contexto social. Apesar de serem altamente “preditivos”, os gêneros são entidades criativas, dinâmicas, plásticas e mutáveis, que surgem e se modificam a partir das ne- cessidades sociais, culturais e discursivas emergentes de uma dada sociedade. Já em Miller (2009) destacam-se os gêneros como ações sociais tipifica- das, que se baseiam em situações retóricas recorrentes. Na sua perspectiva, tanto a produção como a recepção da ação comunicativa são importantes, ou seja, ambos os papeis têm relevância e não somente o daquele que produz e responde a ação comunicativa. Dotados de traços léxico-gramaticais recorren- tes, essas ações, tipificadas socialmente, são baseadas em práticas retóricas (MILLER, 2009), isto é, nas convenções discursivas que uma sociedade organiza como maneiras ou formas de agir conjuntamente. Importante dizer que essas ações estão vinculadas ao contexto e à situação (retórica). Desse modo, os gêneros, os quais também são caracterizados pela autora (idem) como “artefatos” culturais, mediam as intenções privadas e a exigência social ao mesmo tempo, relacionando o singular e o “individual” com o público e o recorrente. Para Bazerman (2005, p. 31), além de ações sociais tipificadas, os gêneros são também “[...] fenômenos de reconhecimento psicossocial”. Eles dão forma às nossas atividades comunicativas porque surgem nos processos sociais em que as pessoas interagem e tentam compreender umas às outras para compartilhar significados, intenções, motivações e propósitos comuns. Essas ações sociais tipificadas (padronizadas) organizam a vida das pessoas e as práticas das instituições. Além disso, também partindo de uma abordagem mais funcional que es- trutural, embora as convenções linguísticas (os elementos estruturais) também Gêneros textuais/discursivos4 tenham a sua importância, os gêneros são definidos por Askehave e Swales (2009) como uma classe de eventos sociais ou comunicativos que é modelada por uma estrutura a partir da realização do seu propósito comunicativo. Para esses teóricos, um gênero pode ter mais de um objetivo quando se inscreve em um grupo de propósitos, os quais são reconhecidos pelos membros das comunidades discursivas. Na opinião de Swales (1990, apud ASKEHAVE; SWALES, 2009), o critério do propósito comunicativo deveria ser privilegiado pelos analistas do discurso, uma vez que o propósito é o próprio fundamento do gênero — é por meio do propósito comunicativo (da função comunicativa) que se valida o gênero e imprime-lhe uma estrutura discursiva. Ao mesmo tempo, contudo, esse conceito traz dificuldades relativas ao seu reconhecimento, uma vez que pode ser difícil identificar o propósito comunicativo de alguns gêneros. Ora, se o propósito é a motivação da atividade social comunicativa, não poderíamos então dizer que esse não é o conceito que gera a própria noção de gênero? De acordo com Bakhtin (2003), os gêneros do discurso são tipos relativa- mente estáveis de enunciados, com um conteúdo temático, um estilo e uma construção composicional. Os gêneros refletem condições bem específicas das esferas da atividade humana e são formados por enunciados (este, por sua vez, é a unidade real da comunicação verbal, pois, para esse teórico, o discurso só pode existir na forma dessa unidade e a ela se molda). Dentre as características que Bakhtin (2003) aponta como definidoras do enunciado, podemos citar, de maneira geral, que o enunciado é limitado pela mudança de interlocutores, tem um acabamento interior específico, um propósito (objetivo) comunicativo, interage com outros enunciados (que fazem parte da cadeia de enunciados já-ditos, presentes no passado) e é sempre dirigido a alguém. Em virtude do pioneirismo dos estudos de Bakhtin (2003) sobre os gêneros, continuamos a sua abordagem de forma mais detalhada a seguir. 5Gêneros textuais/discursivos O ensaio intitulado “Os gêneros do discurso”, que faz parte da obra Estética da criação verbal, foi escrito entre 1952 e 1953. Esse trabalho teórico, aparentemente não concluído, foi publicado inicialmente em forma de fragmentos, em 1978, na revista Estudo literário. A temática dos gêneros do discurso, no entanto, já tinha sido apresentada, mesmo que brevemente, em obra anterior intitulada Marxismo e filosofia da linguagem, datada de 1929, de autoria de V. N. Volochínov, um dos integrantes do chamado “Círculo Bakhtiniano”. Esse ensaio é dividido em duas seções: de início, o teórico russo analisa a problemática da definição dos gêneros do discurso. Posteriormente, Bakhtin (2003) discute sobre o enunciado como uma unidade real da comunicação verbal e discursiva, diferenciando- -o de outras unidades da língua como as palavras e orações que são estudadas e analisadas como abstraídas do contexto e, portanto, do meio social. Esse segundo momento do ensaio constitui um ponto teórico importante para compreender que os discursos, constituídos por enunciados (verbais, visuais, verbo-visuais) se materializam em gêneros (BAKHTIN, 2003). 2 Gênero, enunciado e esfera discursiva Mikhail Bakhtin (2003) foi um dos teóricos que infl uenciou signifi cativamente o estudo dos gêneros textuais/discursivos. Para esse pensador russo, os gêneros do discurso se caracterizam como enunciados relativamente estáveis, os quais apresentam: conteúdo temático; estilo; construção composicional. Tais elementos, é importante dizer, refletem condições específicas de cada esfera humana. Como existem numerosas esferas discursivas entre os homens, a riqueza e a diversidade dos gêneros do discurso são infinitas; logo, não há e nem pode haver um plano único para o seu estudo. E, mesmo diante dessa heterogeneidade funcional dos gêneros do discurso, como trazia Bakhtin (2003), o teórico notava que os estudos dessa temática, na sua época, tinham a tendência de abstrair os gêneros dessa mesma heterogeneidade que estava relacionada aos usos e aos contextos sociais: dito de outro modo, estudavam- Gêneros textuais/discursivos6 -se os gêneros literários, retóricos e os do cotidiano extraídos do meio social. Desse modo, tais estudos, muitos de perspectiva formalista, apresentavam limitações. Assim, os gêneros literários eram observados apenas na perspectiva artístico-literária; os retóricos, apesar de atribuírem importância ao ouvinte, não abordavam a natureza linguística do enunciado; e, ainda, as pesquisas sobre os gêneros do cotidiano se limitavam a evidenciar esse discurso no nível de enunciados demasiado primitivos. Um outro ponto importante na discussão sobre os gêneros do discurso se refere ao problema do estilo, pois, para Bakhtin (2003), o estilo é indissociável do tema e da composição. Há, por exemplo, gêneros que são mais propícios ao estilo individual, como os literários, já outros não oferecem tanto espaço para a variação “individual”, como a correspondência oficial e a ordem militar. Além disso, o teórico russo explica que a função de um enunciado e as suas condições de produção geram um tipo de enunciado que é relativamente estável quanto ao tema, à composição e ao estilo — é por esses elementos que vamos nos deparando com uma pluralidade de gêneros diferentes e específicos. Desse modo, ao estudarmos os gêneros nas sociedades, é precisoque se considere esses três elementos. Ademais, Bakhtin (2003) ainda traz que é preciso pensarmos na relação dos gêneros com as esferas da atividade humana. Ora, os gêneros se manifestam nas diversas esferas discursivas ou da comunicação humana e há numerosos gêneros quanto atividades humanas. É importante destacar que o domínio dos diversos gêneros, decorrentes das esferas discursivas das atividades humanas, não está necessariamente ligado ao domínio da língua. Veja bem, os gêneros do discurso são adquiridos, logo, não podem ser considerados uma combinação que é totalmente livre de estruturas ou formas que fazem parte da língua. Desse modo, alguém pode ter um bom domínio da sua língua e desenvolver bem determinado gênero, mas esse mesmo sujeito-falante pode ter dificuldades de produzir e/ou responder a um outro gênero em virtude desse gênero não fazer parte das suas práticas sociais cotidianas ou de ser inexperiente em outra esfera discursiva em que circulam outros gêneros. É importante mencionar ainda que, ao estudar os gêneros, do discurso o teórico russo faz uma crítica ao campo da Linguística, mais estritamente formalista, e o da Estilística, na sua época, uma vez que tais ciências coloca- vam em plano secundário o papel ativo do sujeito na produção e recepção do gênero. Ou seja, o sujeito era observado como um mero receptor, cujo papel não influenciava a cadeia enunciativa de produção do enunciado. No entanto, para Bakhtin (2003), os sujeitos têm um papel social ativo na produção e recepção dos enunciados, que não deve ser negligenciado. 7Gêneros textuais/discursivos Gênero: a cadeia ininterrupta de enunciados Para compreender o funcionamento dos gêneros, é necessário irmos, inevita- velmente, em busca da sua unidade básica que é o enunciado. Ora, os gêneros textuais/discursivos são constituídos por unidades enunciativas. Ao tratar da unidade enunciativa, Bakhtin (2003) aponta que o enunciado é uma unidade real da comunicação, unidade essa que oferece uma compreensão responsiva ativa por parte dos sujeitos envolvidos, por conseguinte, que faz parte da cadeia ininterrupta de muitos outros enunciados. Uma função de um enunciado e as condições envolvidas na sua produção geram um certo tipo de enunciado que é relativamente estável (quanto ao tema, à composição e ao estilo), ou seja, temos aí o gênero. E, dentre as características apontadas pelo pensador russo no que se refere ao enunciado, podemos citar: 1. a alternância dos sujeitos/participantes, ou seja, o enunciado é definido pela troca de turnos entre os seus participantes (o “sujeito-falante” termina o seu enunciado para passar “a vez” ou “a palavra ao outro”, dando lugar a sua compreensão ativamente responsiva); 2. o acabamento específico (temporário), isto é, o enunciado possui um acabamento, mesmo que temporário, o qual permite dar ao outro (ao “sujeito-destinatário”) a abertura da possibilidade de resposta (mesmo que essa resposta se realize apenas na nossa mente e não se materialize numa fala dirigida ao outro). Contudo, para suscitar uma réplica ou uma resposta — o que já é um outro enunciado — aquele enunciado anteriormente expresso (verbalmente, visualmente e/ou verbo-visualmente) pelo sujeito-falante deve tratar exausti- vamente o objeto que representa (e esse tratamento se dá conforme o gênero); ser definido pelo querer-dizer do autor sobre o objeto; escolher o gênero conforme a esfera humana e o objetivo do autor (é importante dizer que essa escolha, por sua vez, determinará a entonação expressiva do falante, isto é, o “tom” que um enunciado apresenta). Além disso, o enunciado, na criação do objeto do sentido, submete-se a dois momentos que lhe determinam a composição e o estilo: o primeiro, é a escolha do gênero e dos recursos linguísticos; o segundo, é a elaboração da expressividade do sujeito diante do objeto que trata (BAKHTIN, 2003). É importante destacar, assim, que não se pode falar de aspectos expressivos quando tratamos das unidades do sistema da língua: as unidades linguísticas, como unidades estruturais de uma língua, não têm juízo de valor por si só. A Gêneros textuais/discursivos8 entonação expressiva materializa a relação de valor do sujeito-falante com o objeto do seu discurso. Dito de outro modo, fora do enunciado, essa entonação expressiva não existe. Imagine dois sujeitos sentados em uma sala de jantar conversando sobre as atividades que cada um realizou naquele dia no trabalho. Durante o gênero diálogo entre colegas de trabalho em ambiente informal, o segundo jovem se levanta, aproxima-se da janela e olha para o céu. Nesse ato, tal jovem sorri para a lua e, após vislumbrar a imagem do astro no céu, vira para o seu colega e diz bem. Esse bem é falado com um sorriso leve no rosto do jovem, o que é percebido pelo primeiro jovem como a admiração que aquele colega tem pelo globo lunar, admiração essa que também expressa gratidão e serenidade naquele momento. Tais sentidos construídos pelo enunciado bem durante a comunicação entre os dois jovens não são dados pelo uso do advérbio bem como uma palavra ou unidade linguística, isto é, unidade que faz parte da língua portuguesa, mas pela relação estabelecida pelos sujeitos na troca de enunciados em determinado contexto social. Desse modo, bem como unidade meramente da estrutura de uma dada língua não tem um tom expressivo por si só, pois a entonação expressiva do enunciado é construída pelos participantes envolvidos no gênero textual/discursivo a partir do contexto em que eles se inserem, e do papel ativo e lugar que os participantes ocupam. Portanto, a unidade linguística bem, quando fora de contexto, não apresenta os aspectos que revelariam a entonação expressiva dirigida ao outro — no caso do exemplo, dirigida à lua e ao colega. Relação entre gêneros e mudanças sociais: uma breve reflexão Fala-se comumente que a sociedade pós-industrial, pós-moderna e/ou pós- -tecnológica tem se constituído a partir de crises de antigos paradigmas, como exposto anteriormente. Tal tema é, contudo, ainda alvo de debates contraditó- rios. No entanto nesse mesmo espaço de confl itante discussão, pode-se notar um consenso quase cristalizado: após o signifi cativo salto no desenvolvimento tecnológico da sociedade — salto este que tem gerado o aparecimento de novos suportes midiáticos —, o sujeito da atualidade tem passado a lidar com uma intensa modifi cação de suas práticas sociais e discursivas. Estas, inclusive, têm se tornado cada vez mais virtuais, fl uídas e com poucas demarcações de 9Gêneros textuais/discursivos fronteiras. Assim, nesse contexto, deparamo-nos com diferentes necessidades e atividades sociais que acabam por trazer impactos diversos nas nossas ações sociais tipifi cadas (MILLER, 2009), isto é, nas maneiras que realizamos nossas atividades comunicativas. Logo, na era atual — caracterizada também como multimidiática —, uma significativa mistura e influência entre os gêneros passou a ser mais visibilizada pelos nossos processos comunicativos. Ou seja, passou-se a destacar que os gêneros nunca foram, de fato, estáticos: eles estão cada vez mais misturados, em uma cadeia de influência mútua. Tal intercâmbio entre os gêneros, o qual gera uma outra infinidade de gêneros, nos mostra o quão difícil é traçar limites; pois os gêneros são gerados por processos de assimilação de outros anteriores e não param por aí. Isso é um movimento em constante desenvolvimento, uma vez que se liga às mudanças comunicativas e sociais que vão se dando ao longo da história. A esse respeito, é importante mencionar que o intercâmbio entre os gêneros não é um traço do mundo atual, pois elas já ocorriam no passado, mesmo que em menor escala. Dito de outro modo, o processo de hibridismo entre os gêneros já era comum nos tempos de outrora; só que, é a partir do desenvolvimento e do avanço das tecnologias de informação e comunicação que tais processos genéricos passaram a se tornarmais evidentes. Conforme Marcuschi (2002), a forte presença dos grandes suportes tec- nológicos da informação — tais como o rádio, o jornal, a revista, a televisão, a internet, etc. —, nas atividades sociocomunicativas, tem possibilitado a reestruturação e reconfiguração das ações discursivas, uma vez que a tecno- logia, definitivamente, não produz novos gêneros. De fato, por apresentarem uma relativa estabilidade — já que são maleáveis, plásticos e dinâmicos —, os gêneros transmutam-se em outros gêneros, isto é, adquirem novas particu- laridades comunicativas em função dos mais diversos contextos históricos e culturais (BAKHTIN, 2003). Desse modo, com o passar dos anos, os gêneros podem se voltar para outros propósitos, redefinindo as interações sociais. Assim, embora seja mais notável hoje que novos gêneros surgem a partir das modificações e adaptações de outros — é o clássico caso do e-mail que veio para cumprir com uma necessidade social de comunicação rápida, instantânea, a qual era coberta séculos atrás basicamente pela carta —, é preciso pensar que os gêneros, como fenômenos históricos, não são estanques, estáticos, invariáveis ou blocos homogêneos de comunicação. Há, no entanto, certos gêneros textuais/discursivos que parecem ser mais monitorados, porque estão enraizados na nossa forma de pensar, agir e se comunicar, como é o caso de alguns gêneros literários (como os contos de fadas, as fábulas, as novelas, etc.) e jornalísticos (como, as notícias, os fait divers, as reportagens televisivas, etc.). Gêneros textuais/discursivos10 Um outro aspecto que deve ser mencionado no estudo dos gêneros em relação ao intenso uso e à influência das tecnologias nas nossas formas de nos comunicarmos na atualidade diz respeito à disposição semiótica das várias linguagens. Ora, na era midiática virtual, marcada por uma intensa fluidez e ausência de marcações entre as modalidades oral, escrita e visual, os gêneros textuais/discursivos também acabaram por integrar ainda mais os diversos tipos de signos. Como afirma Marcuschi (2002, p. 21), “[…] a lin- guagem dos novos gêneros torna-se cada vez mais plástica, assemelhando-se a uma coreografia”. Logo, os gêneros ditos emergentes constituem processos comunicativos integradores de diversos tipos de linguagens/signos, que vão desde o uso de sons e signos escritos a imagens em movimento. 3 Texto, tipos textuais e gêneros Dentro do universo de discussão sobre os gêneros textuais ou discursivos, um outro debate se faz presente: o da classifi cação dos tipos textuais. Se, como afi rma Marcuschi (2002), baseando-se em Bakhtin (2003) e Bronckart (1999, apud MARCUSCHI, 2002), a comunicação só é feita por algum gênero, essa mesma comunicação é realizada por um texto. Isso porque a língua é uma “atividade social, histórica e cognitiva” (MARCUSCHI, 2002, p. 3) e não um conjunto de estruturas linguísticas que refl etem as realidades sociais. É por isso que os gêneros são defi nidos especialmente pela funcionalidade comunica- tiva e/ou propósito social, ou seja, como eventos discursivos e ações sociais que agem e dizem o mundo (ou que nos permite agir e dizer sobre o mundo). Desse modo, ao se falar em gêneros textuais/discursivos, se está enfatizando as ações ou os eventos discursivos e sociais que estão materializados na nossa sociedade, os quais apresentam características sociocomunicativas, conteúdos, funções, estilos e composição específi ca. Os tipos textuais, em contrapartida, são definidos pelo seu critério textual e linguístico, isto é, por meio da sua natureza linguística (elementos lexicais, sintáticos, tempos verbais, etc.). Ao todo, se fala comumente em um número limitado de tipos textuais, que são: narração; argumentação; exposição; descrição; injunção. 11Gêneros textuais/discursivos É preciso, antes de darmos continuidade ao estudo dos tipos textuais, abrir um parêntese sobre a definição de texto: o texto é uma entidade concreta em que se materializam os gêneros textuais/discursivos. Em resumo: “[…] gêneros são formas verbais de ação social relativamente estáveis realizadas em textos situados em comunidades de práticas sociais e em domínios discursivos [esferas discursivas] específicos” (MARCUSCHI, 2002, p. 25). Para facilitar o nosso entendimento sobre tais conceitos — os quais podem parecer, à primeira vista, equivalentes —, veja o pequeno resumo abaixo que tenta relacionar conceitualmente as principais características dessas noções da seguinte forma: a) os gêneros são definidos a partir das noções de ação social prática, circulação sócio-histórica, propósito ou funcionalidade comunicativa, conteúdo, estilo e composição; b) os tipos textuais são definidos a partir da noção estrutural de sequências linguísticas específicas; c) as esferas discursivas são definidas como domínios discursivos, ins- tâncias discursivas ou esferas da atividade comunicativa humana em que os gêneros se realizam em forma de textos. Tipologias textuais De antemão, é necessário lembrar sobre o cuidado no uso da expressão “tipo textual” ou “tipo de texto”. Os gêneros se realizam nos tipos textuais e não o contrário. Ou seja, quando alguém escreve uma notícia jornalística, esse sujeito está fazendo uso do gênero notícia jornalística. A notícia, contudo, pode se realizar — e, de fato, se constrói — a partir de mais de um tipo de texto, uma vez que, quando relata um crime, por exemplo, traz momentos descritivos, narrativos e/ou argumentativos. Isso signifi ca dizer que a notícia jornalística, dentre muitos outros gêneros, apresenta uma heterogeneidade tipológica. Mesmo quando alguém caracteriza um texto sob o nome de “nar- rativo” ou “argumentativo”, esse alguém está falando dos tipos textuais em que o gênero está se concretizando. Cabe aqui uma ressalva: como os tipos textuais são defi nidos pelas sequências linguísticas e boa parte dos textos apresentam mais de uma tipologia textual, não seria redutor apontar um texto como apenas narrativo, argumentativo, descritivo, expositivo ou injuntivo? Ao falar de tipos textuais, é preciso que se considere a sua heterogeneidade. Logo, pode-se dizer que em um texto encontramos uma variedade de sequências tipológicas, as quais erguem a base do texto como um todo. Observe o que Gêneros textuais/discursivos12 diz Marcuschi (2002, p. 29) ao apontar as principais características estruturais das sequencias tipológicas dos tipos textuais (narração, descrição, exposição, argumentação e injunção): Um elemento central na organização de textos narrativos é a sequência tempo- ral. Já no caso de textos descritivos predominam as sequências de localização. Os textos expositivos apresentam o predomínio de sequências analíticas ou então explicitamente explicativas. Os textos argumentativos se dão pelo pre- domínio de sequências contrastivas explícitas. Por fim, os textos injuntivos apresentam o predomínio de sequências imperativas. Portanto, os tipos textuais ou tipos de texto não são o mesmo que falar de gêneros textuais/discursivos. Enquanto os tipos textuais se limitam a um número específico de tipos de sequências tipológicas linguísticas, os gêneros textuais/discursivos são numerosos porque são múltiplas as formas de nos comunicarmos. Os tipos textuais, ainda, não são ações empíricas sociais e discursivas, mas entidades concretas em que se realizam tais sequências. Já os gêneros, longe de serem fenômenos estanques e estáticos, são eventos sociais, discursivos e históricos maleáveis, plásticos, que se modificam com o passar do tempo, podendo variar ao longo também das sociedades e dos meios culturais. Embora sejam tidos como ações relativamente estáveis, uma vez que apresentam possibilidade de interpretação quanto à produção e re- cepção das formas de comunicação pelos sujeitos envolvidos, essas atividades de comunicação, mesmo que ligadas a determinada coletividade, oferecem espaço para uma certa “singularidade” dos agentes envolvidos.Isso porque nós temos um papel ativo e responsivo no processo de comunicação, o que dá possibilidade para pequenas variações (nem que sejam leves e sutis). Logo, quando tratamos de gênero estamos falando de propósitos e objeti- vos discursivos em que a nossa comunicação linguisticamente se realiza em tal esfera discursiva; e, de tipo textual, de bases tipológicas ou sequências estruturais diversas que se organizam e se relacionam em um todo textual. 13Gêneros textuais/discursivos Os tipos de texto, comumente definidos a partir de cinco tipologias — descrição (marcada pela estrutura enunciativa de detalhar características e representar per- sonagens e espaços), narração (marcada pela estrutura enunciativa que situa a ação no desenvolvimento do tempo-espaço), exposição (marcada pela identificação ou apresentação de elementos na estrutura enunciativa), argumentação (marcada pela defesa de um ponto de vista) e injunção (marcada pelo predomínio de um comando, uma instrução uma ordem) — dificilmente aparecem de forma isolada ou singularizada no texto. Assim, embora se fale em textos narrativos de um lado e descritivos de outro, é importante ter em mente que as sequências tipológicas aparecem em relação com outras exercendo no todo do texto um processo de influência mútua. Logo, essa polarização de tipos textuais não parece estar de acordo com a nossa realidade de usos dos textos. ASKEHAVE, I.; SWALES, J. M. Identificação de gênero e propósito comunicativo: um problema e uma possível solução. In: BEZERRA, B. G.; BIASI-RODRIGUES, B.; CAVALCANTE, M. M. (org.). Gêneros e sequências textuais. Recife: EDUPE, 2009. BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. In: BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. BAZERMAN, C. Atos de fala, gêneros textuais e sistemas de atividades: como os textos organizam atividades e pessoas. In: BAZERMAN, C. Gêneros textuais, tipificação e inte- ração. São Paulo: Cortez, 2005. BRONCKART, J.-P. Atividade de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sócio discursivo. 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Cambridge: Cambridge University Press, 1990. 15Gêneros textuais/discursivos Funcionalidade dos gêneros nos processos de letramento Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar modos de abordagens de ensino relacionadas a gêneros textuais/discursivos. Relacionar gêneros e esferas discursivas a propósitos de ensino. Analisar o trabalho com os gêneros textuais em língua estrangeira. Introdução Os gêneros são eventos sociais e discursivos, nos quais as nossas ações comunicativas se realizam. Tais atividades são constituídas por enunciados relativamente estáveis, os quais são tipificados socialmente e influenciados pelas esferas discursivas das quais fazem parte. A cada esfera da atividade humana se associam numerosos gêneros, como é o caso da notícia jornalística impressa, da reportagem televisiva e do editorial jornalístico impresso, os quais dizem respeito à esfera midiática. Por volta dos anos 1990, os estudos teóricos sobre os gêneros pas- saram a ganhar mais destaque no campo do ensino. Esse destaque dado aos estudos dos gêneros se dá também através da publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais, os quais realçam o uso do texto na sala de aula, e dos materiais didáticos, que também vão em direção ao trabalho com os gêneros no processo de ensino-aprendizagem. Neste capítulo, você identificará modos de abordagens de ensino relacionadas aos gêneros, e entenderá as relações entre gêneros, esferas discursivas e ensino. Além disso, você refletirá sobre como os estudos dos gêneros podem guiar o professor no trabalho com o ensino-apren- dizagem de línguas para fins específicos. 1 Ensino, história e gêneros Desde as últimas décadas, as práticas e metodologias de ensino adotadas pelas escolas, no tocante às mais variadas disciplinas — a Matemática, as Ciências (Física e Química), a História, a Língua Portuguesa — têm passado por um processo sistemático de revisão e reconstrução. Parte dessa ação se deu (e continua a se dar) em virtude do intenso uso das tecnologias multimídias pelas pessoas nas suas atividades diárias, o que levou consequentemente a mudanças nas relações que as pessoas estabelecem com as práticas de leitura, de oralidade, de escrita e as do campo do visual. Essas relações emergentes têm implicado, no campo do estudo das linguagens, em uma ampliação no trabalho que a escola desenvolve a partir dos textos, uma vez que ensinar e estudar as tipologias textuais com os alunos (tais como, a exposição, a descrição, a argu- mentação, a narração e a injunção) não abarca todas as possibilidades de usos das várias linguagens. Vale dizer, ainda, que a adoção de concepções de língua e linguagem como processos ativos e dinâmicos de produção e construção de sentido entre os sujeitos (perspectiva sócio interacionista da linguagem) têm tido sobremaneira importância na reestruturação do espaço escolar na sociedade, do papel do professor na cadeia de produção do conhecimento e nas relações estabelecidas entre o professor e o aluno na sala de aula. No contexto brasileiro, os Parâmetros Curriculares Nacionais tiveram (e têm) um papel também fundamental na construção de um novo perfil da educação no país. O currículo que passa a ser proposto segue uma abordagem reflexiva e aberta à renovação teórica e prática do conhecimento — movi- mento esse que é próprio da língua —, uma vez que o conhecimento vai sendo construído por meio de competências básicas e habilidades trabalhadas com o aluno. Assim, nessa perspectiva, o ensino, antes “[…] descontextualizado, compartimentalizado e baseado no acúmulo de informações” (BRASIL, 2000, p. 4), passa a ser significado pela geração do conhecimento dentro de contextos sócio-históricos e culturais. O ensino torna-se situado e valoriza- -se a interdisciplinaridade entre as ciências. Esses parâmetros, portanto, não apenas funcionam como guias de diretrizes de ensino, mas acabam por atribuir uma dimensão humana, da ordem da cidadania, do cotidiano e do trabalho, às práticas de ensino operadas nas escolas. Tal perspectiva inovadora, no entanto, tem certa atualidade no sentido de que outras abordagens de leitura e escrita tiveram a sua presença na história. Antes de abordar algumas delas, se faz necessário comentar que cada uma é respaldada por uma orientação teórico-pedagógica que orienta as escolhas sobre os conteúdos e as metodolo- gias de ensino dos textos nos espaços formais educativos. Isso porque, como Funcionalidade dos gêneros nos processos de letramento2 afirma Santos (2007, p. 12), “[…] toda ação educativa está fundamentada em uma concepção de homem, de sociedade, de escola e responde a interesses específicos em uma dada formação social”. Logo, para entender o que guia (ou guiava) as outras abordagens de ensino de leitura e escrita nas escolas, é preciso saber qual a perspectiva teórica de língua e linguagem que as guiava e embasava — ora, é a partir da filiação teórica de cada uma que conseguimos compreender a sua base educativa de ação. Em geral, podemos dizer que três perspectivas se destacam. Veja a seguir quais são. 1. O ensino pela gramática (século XIX):a valorização do ensino da língua pela gramática remete frequentemente aos textos de excelência da esfera literária, uma vez que se tomavam os padrões linguísticos (usados por uma pequena classe social privilegiada; e empregados geralmente em gêneros da esfera literária) a serem seguidos pela sociedade. A partir dessa concepção, o ensino da língua se dava por meio da memorização de regras, listas e modelos (SANTOS, 2007) tidos como “superiores”, os quais deveriam ser usados por todos os falantes da língua. 2. O ensino pelo desenvolvimento (por volta de 1970): essa perspectiva está em consonância com a ideologia assumida pelo Estado Brasileiro na época, a saber, de estruturar a educação a partir do ponto de vista do desenvolvimento econômico (SANTOS, 2007). Nesse mesmo período a teoria da comunicação (que via a língua por meio de um instrumento comunicativo, o qual era marcado pelo eixo da codificação/decodifica- ção de sinais comunicativos) e a linguística estrutural (marcada também pelos estudos da etnografia e antropologia) passaram a marcar o ensino da língua portuguesa. 3. O ensino a partir de novas bases: embora sejam realizadas tentativas de se introduzir outros elementos no processo de ensino aprendizagem, conforme discute Santos (2007), o ensino permanece baseado na visão de língua como estrutura e código. A escrita continua a ser ensinada a partir da visão do que é uma boa escrita, isto é, dos textos clássicos que foram consagrados como modelos a serem seguidos pelos alunos. 3Funcionalidade dos gêneros nos processos de letramento Ensino pela gramática, ensino pelo desenvolvimento e ensino a partir de novas bases são nomeações que constituem categorizações feitas a partir das reflexões e discussões trazidas por Santos (2007) sobre o ensino e as concepções de língua/ linguagem que o subjazem. Note que essas categorizações foram elaboradas para este capítulo com o objetivo didático de facilitar o nosso entendimento sobre como o ensino se insere em um projeto ideológico maior, o qual envolve os valores de uma época sobre o homem, a sociedade e a língua. Interessante apontar que, a partir da reflexão trazida por Santos (2007) sobre as abordagens dadas ao ensino na escola — as quais refletem as con- cepções sobre como a sociedade da época entende a língua/linguagem —, a escrita vai sendo “construída” com o aluno a partir do trabalho de textos que não são situados no cotidiano do aluno, porque estritos à prática da es- cola. Dito de outro modo, a escrita é trabalhada por meio de textos que não têm um uso e uma circulação no “real”, no sentido de social, um propósito comunicativo (a não ser o de ser avaliado pelo professor), um sujeito outro com a qual pode estabelecer diálogos “reais” (novamente, o texto é dirigido ao professor-avaliador), uma vez que a finalidade está na escrita pela própria escrita como código linguístico. Dentro dessa mesma perspectiva, a leitura não é vista de forma diferente: esta é vista como uma articulação de frases cujo sentido está dado no texto. Além de se “pregar” a leitura dita “correta”, a preocupação residia na codificação/decodificação do que estava ali posto. Posteriormente, entre o fim dos anos 1970 e início dos 1980, Santos (2007, p. 17-18) aponta que se passa a observar um movimento de questionamento das bases e dos princípios que norteiam o ensino, não apenas no tocante à língua portuguesa, mas levando em consideração as várias disciplinas ministradas na escola: […] é a gênese de um movimento que se propõe a reconceitualizar não só os objetivos do ensino, mas, sobretudo, os objetos de ensino, juntamente com os pressupostos e procedimentos didáticos. Este movimento ocorre não só no Brasil, mas em diferentes países como, por exemplo, Portugal, França e Austrália e vai desembocar em um trabalho de reforma curricular. Funcionalidade dos gêneros nos processos de letramento4 Nesse período, documentos com novas propostas de ensino foram elabo- radas. O que é, no entanto, bastante significativo neles é a perspectiva teórica em que se baseiam, uma vez que passam a se fundamentar em uma nova concepção de língua/linguagem (SANTOS, 2007). A língua passa a ser vista como uma atividade e ação social interativa (língua como noção de intera- ção), influenciada pelos estudos da linguística da enunciação/do discurso. A partir de então, leitura e escrita deixam de ser apresentadas como estanques e são apontadas como práticas e atividades sociais. É aí que entra a noção de gêneros e a ênfase no seu ensino, o qual passa a considerar os seus elementos, como o contexto de produção e recepção do texto, o propósito comunicativo, a construção composicional, os papéis assumidos pelos sujeitos nas situações comunicativas engendradas pelos gêneros, os diferentes suportes etc. Cabe, a esse respeito, uma importante ressalva: pelo menos essas são as considerações teóricas que passam a ser colocadas em “pauta” e em prioridade na discussão de uma nova proposta curricular, uma vez que muitas vezes tais teorizações demoram para serem colocadas em prática e esbarram nas antigas visões, bastante enraizadas, do ensino pelo via da gramática ou da expressão/do código da comunicação. Abordagens de ensino a partir dos estudos dos gêneros Atualmente, tornou-se lugar comum associar as práticas de ensino de língua com a noção dos gêneros textuais e/ou discursivos na sala de aula. Embora essa relação teórico-metodológica já faça parte do ponto de partida de boa parte dos professores de língua portuguesa no Brasil, os estudos dos gêneros se inserem em um campo epistemológico heterogêneo, constituído por mo- vimentos e abordagens diversas. Conforme discutem Cavalcanti et al. (2019), no fi nal dos anos 1970, o contexto acadêmico brasileiro estava voltado para saber como os estudos das Ciências da Linguagem poderiam auxiliar no ensino-aprendizagem da língua. Nesse contexto, a obra organizada por Geraldi (1997), intitulada O texto na sala de aula, tem importância fundamental uma vez que traz refl exões sobre o ensino a partir de questões diversas, que vão desde a gramática até a variação linguística. O texto, como aponta o título, é discutido como o “norte” das atividades de ensino-aprendizagem, pois por meio dele se estabelecem as práticas de ensino de leitura, produção de texto e análise linguística (CAVALCANTI et al., 2019). Ainda decorrência da discussão apresentada por Cavalcanti et al. (2019), a partir dos anos 1990, os estudos dos gêneros ganham mais destaque no campo 5Funcionalidade dos gêneros nos processos de letramento do ensino (os gêneros eram usados como conteúdos a serem ensinados ou como instrumentos das atividades didáticas). Esse destaque é ainda reforçado pela publicação dos Parâmetros Curriculares, entre 1997 e 1998, o que reforça o uso do texto na sala de aula, e de diversos materiais didáticos, que também vão em direção ao trabalho com os gêneros. Dentre as pesquisas desenvolvidas no Brasil, que se baseiam em diversas teorizações sobre os gêneros, Bunzen (2004), Motta-Roth (2008) e Cavalcanti et al. (2019) — esta última baseando-se nos dois anteriores —, identificam as seguintes teorizações (essas escolas são citadas de maneira geral, sem seguir uma ordem cronológica). A Escola de Sidney ou Escola Sistêmico-Funcional de Sydney, a qual tem Haliday e Hasan, e Martin dentre os seus autores de referência. Essa escola se volta principalmente para o estudo do léxico-gramática, além de focar as funções que o léxico-gramática desempenha nos contextos (MOTTA-ROTH, 2008). A Escola de Genebra ou Interacionismo Sócio-Discursivo, a qual tem Bronckart, Schneuwly e Dolz dentre os seus autores de referência. Essa escola se volta principalmente para o estudo da diversificação dos textos e das relações que os textos mantêm com o contexto de produção, tendo em vista os elementos sociais e históricos que dele fazem parte (BUNZEN, 2004). A Escola Americana da Nova Retórica ou da Sócio-Retórica, a qualtem Bazerman e Miller dentre os seus autores de referência. Essa es- cola se volta principalmente para as relações entre texto e contexto (CAVALCANTI et al., 2019), os contextos sociais e os atos de fala que os gêneros realizam a partir de uma determinada situação. A Escola Britânica de ESP (English for Specific Purposes), a qual tem Swalles e Bhatia dentre os seus autores de referência. Essa escola se volta principalmente para a organização retórica dos tipos de textos, os quais são definidos tomando como base as suas propriedades formais e os objetivos comunicativos considerando os contextos (HYON, 1996, apud MOTTA-ROTH, 2008). E, não podemos deixar de citar, os estudos dos gêneros do discurso trazidos por Bakhtin (2003), em um dos seus textos intitulado Os gêneros do discurso, datado de 1979. Essas diferentes abordagens teóricas trazem influências não apenas nas abordagens do conteúdo — em termos metodológicos de como o texto e os gêneros vão ser trabalhados em sala de aula —, mas também nas relações Funcionalidade dos gêneros nos processos de letramento6 estabelecidas entre o professor e o aluno. Dito de outro modo, essas perspec- tivas que se assumem constituem um campo heterogêneo sobre os estudos dos gêneros, e, assim, as práticas de leitura e escrita, além dos temas que essas práticas acabam por gerar, podem ser abordados de forma também diversa na sala de aula. Conforme discute Mendonça (2008), letramento não é um método ou um conteúdo, mas uma noção que está relacionada às práticas sociais de leitura e escrita que ocorrem situadas historicamente. Além disso, essas atividades implicam no uso de habilidades e envolvem relações de poder. Dentre algumas práticas de letramento, citamos leitura de manchetes, receitas, capas de revista, mensagens instantâneas, e a escrita de artigos de opinião, e-mail, lista de compras, comentário em redes sociais, entre muitas outras. O letramento não ocorre apenas nos espaços promovidos pela escola, mas também em espaços não escolares, como as práticas de leitura e escrita que se dão na esfera do cotidiano e do trabalho, as que são promovidas pelas redes sociais, de leitura de frases de caminhão, de ditos populares, etc. Um sujeito analfabeto — que assim o é por não ter tido oportunidade de acesso a condições sociais e econômicas satisfatórias que o levassem a ingressar em ambientes educativos escolarizados — que vive em um meio social marcado por práticas sociais de leitura e escrita é letrado, pois está envolvido nessas práticas. Ou seja, mesmo que ele não saiba ler ou escrever, já participa de atividades sociais e comunicativas da sua comunidade, isto é, ouve e participa da roda de leitura de livros, escuta histórias e notícias de jornal que são lidas para ele, dita a relação de alimentos a serem comprados numa feira para alguém anotar, faz uso mental de equações matemáticas simples, etc. Por fim, atente ainda nessa discussão para a noção de relações de poder: conhecer como ocorrem tais relações, tais como quais participantes se inter-relacionam em determinadas práticas e não em outras, é urgente para a compreensão crítica das práticas de letramento, uma vez que há atividades com uma maior valorização social do que outras (LETRAMENTOS..., 2020). 2 Gêneros, esferas discursivas e ensino Os gêneros, como práticas sociais, culturais e discursivas dinâmicas, porque em constante mudança, quando trabalhados em sala de aula — a partir das suas funcionalidades comunicativas, dos seus modos de produção, recepção e circulação, suas construções estruturais e linguísticas em textos, dos valores sociais que produzem e das relações interpessoais que promovem — oferecem 7Funcionalidade dos gêneros nos processos de letramento uma outra possibilidade de se pensar as habilidades ou os eixos de oralidade, leitura e escrita, por exemplo, uma vez que dão condições para o aluno se apropriar das diversas formas de pensar e comunicar com o mundo e, também, no mundo. Desse modo, é importante pensar o que coloca Mendonça (2008, p. 14): Assim, acreditamos que o trabalho didático centrado apenas nos tipos textuais (narração, argumentação, descrição, exposição) não contribui para que o aluno se familiarize com os diferentes gêneros que circulam na sociedade. Ou seja, pedir que eles escrevam uma dissertação (ou narração, ou descrição) e expor sobre características gerais desses tipos textuais não é suficiente para que os estudantes, fora da escola, saibam lidar com a diversidade textual com a qual se deparam. Portanto, é preciso que a gente passe a pensar os processos de ensino- -aprendizagem em um universo mais amplo, que englobe também as práticas discursivas do aluno. É por meio da discussão sobre como os gêneros se organizam e se relacionam nas diversas esferas da atividade humana que os sujeitos passam a ter mais “propriedade” sobre as suas relações comunicativas, e, também, passam a se engajar em relações mais críticas com as produções textuais escritas, orais, visuais e mistas que se dão no mundo. Contudo, trazer muitos e diferentes gêneros para a sala de aula não cumpre esse papel. Dito de outro modo, não basta levantar e expor os alunos à variedade atual de gêneros. A abordagem em sala de aula deve considerar, primeiramente, que os gêneros, quando trazidos para o ambiente escolar, são modificados, pois passam a ser abordados conforme os objetivos das escolas, conforme discute Mendonça (2008). Além disso, tal abordagem deve considerar: como se realizam e se constituem os gêneros para entender as razões de eles funcionarem de jeitos específicos e não de outros; os conhecimentos prévios sobre os gêneros, incluindo os partilhados pelos alunos; a produção textual como um processo contínuo de construção do texto que passa pelos eixos da oralidade, leitura e da análise linguística. É interessante que o professor possa contemplar em sua abordagem, a partir do que discute Mendonça (2008) sobre o planejamento didático dos gêneros e a elaboração de sequências didáticas: gêneros de esferas diversas relevantes para a formação dos alunos; Funcionalidade dos gêneros nos processos de letramento8 textos heterogêneos, seja no tocante à sua produção, seja quanto à sua circulação, seja no que diz respeito aos diversos sistemas simbólicos que o texto manifesta, tais como, a imagem, a escrita, o hyperlink (quanto ao campo da multimodalidade); nível de complexidade do gênero em relação à série e turma com a qual vai ser trabalhado. A notícia escrita para os jornais impressos/digitais de circulação diária é, como se sabe, um dos gêneros de ampla circulação da esfera midiática. A exemplo desse gênero, o seu trabalho dentro da esfera escolar deve ir para além da sua mera exposição ao aluno, mesmo que o gênero esteja sendo transposto a uma outra esfera discursiva. Dito de outro modo, é interessante pensar em um planejamento didático que envolva a leitura e a escrita crítica desse gênero tomando em consideração o seu contexto social-histórico, os objetivos que guiam a sua produção-recepção e circulação, as estruturas linguísticas usadas, entre outros fatores que devem ser vistos em interação com as relações de poder (e com os valores) que representa. A notícia jornalística, quando escrita para um jornal de circulação diária, faz comu- mente uso de um esquema chamado pirâmide invertida, cujo um dos objetivos é narrar e descrever os principais elementos relacionados ao acontecimento noticioso. Desse modo, nos dois primeiros parágrafos do texto noticioso, informações que respondem a perguntas como o quê?, quem?, quando?, como?, por quê?, são repre- sentadas com o objetivo de representar o “máximo” de informação possível sobre o acontecimento para o leitor — o qual está sempre apressado para chegar ao trabalho e dispõe de pouco tempo para ler todo o texto (CORDEIRO, 2011). Podemos notar, então, que tal esquema guia o modo de produção textual da notícia e o modo de recepção dela peloleitor, além da sua circulação (por um breve período). Observe, ainda, que a funcionalidade comunicativa do gênero está relacionada à sua produção estrutural linguística e aos valores sociais e ideológicos representados no texto (dado também pelo destaque feito a certos elementos do acontecimento e pelo ocultamento de outros) (CORDEIRO, 2011). Ensino de língua portuguesa a partir da noção de gêneros textuais/discursivos Os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 2000) apresentam o gênero textual/discursivo como a unidade básica que organiza o ensino da língua portuguesa, seja em termos de progressão curricular (partindo de gêneros 9Funcionalidade dos gêneros nos processos de letramento considerados “menos complexos” para aqueles tidos como de “maior com- plexidade”), seja em termos de diversidade, ao propor o trabalho com uma variedade de gêneros ao longo dos anos no ensino do português (do Ensino Fundamental ao Ensino Médio). Nesse sentido, como afi rma Silva (2006), esses parâmetros, guiados pela perspectiva bakhtiniana sobre os gêneros (BAKHTIN, 2003), assumem uma concepção de linguagem que é discursiva. Esses guias também valorizam a diversidade textual, conforme apontado, porque a ideia básica é propor um ensino-aprendizagem que inclua a produção textual de gêneros os mais diversos. Ora, quanto maior o acesso e quanto mais didaticamente planejado o estudo dessas práticas sociais — considerando os variados contextos educacionais, as experiências comunicativas dos alunos, os interesses das turmas etc. —, mais os alunos terão a possibilidade de ler criticamente o conhecimento e a informação, de compreender como as rela- ções ideológicas e comunicativas são produzidas, veiculadas e recebidas, e de produzir e dominar as produções textuais proporcionadas pelos diferentes gêneros que circulam no nosso cotidiano. Desse modo, compartilhamos o ponto de vista de que o ensino da língua portuguesa, a partir da perspectiva do estudo dos gêneros, e considerando a funcionalidade social, é um avanço na educação no nosso país. Com o deslocamento da ênfase do ensino da gramática pela gramática para a diversidade textual (mesmo que esse deslocamento ainda não tenha se efetivado completamente nas escolas no Brasil uma vez que ainda se nota abordagens normativas e prescritivas do ensino da língua pela via da gramática em alguns espaços), a produção textual escrita passou a ser tomada como uma habilidade que varia conforme o propósito comunicativo e o contexto social em que se insere. Ora, é só pensarmos que um e-mail que escrevemos para o nosso vizinho não vai apresentar a mesma composição textual do e-mail que escrevemos para o nosso chefe de trabalho. Não só a produção textual do gênero será diferente conforme os papéis que cada participante assume no contexto social (vizinho e chefe), mas também variará de acordo com o objetivo que leva a escrita de cada e-mail. Além disso, a noção de diversidade textual remete não só à diversificação de situações de práticas de leitura e escrita na escola, mas de trabalhar com os textos de uso “real”. Dentro desse contexto, é importante lembrar que o professor não deve se limitar ao trabalho de apresentar uma coletânea ou listagem de textos ao seu aluno como se esta fosse uma atividade que, por si só, abarcaria a noção de diversidade textual. A leitura e a escrita são distintas práticas sociais e dis- cursivas, embora articuladas, que necessitam de um trabalho teórico-didático a ser planejado com a turma, conforme o ano/ciclo em que ela se insere, e Funcionalidade dos gêneros nos processos de letramento10 os interesses que eles manifestam — lembre-se de que o planejamento é um trabalho contínuo, reflexivo e aberto a mudanças. Desse modo, essas práticas precisam ser trabalhadas tendo em vista as funções sociocomunicativas que os gêneros realizam fora do ambiente escolar (no mundo), e os propósitos que eles adquirem ao serem transpostos para o cotidiano da sala de aula (o propósito aqui será diferente daquele que o gênero tem nas situações comunicativas diárias). Conforme discute Santos (2007, p. 19): “[…] ao entrar no processo de ensino, as situações de produção textual, embora remetendo às situações nas quais tais textos são utilizados nas práticas de linguagem na sociedade, apresentam características peculiares à situação de ensino nas quais estão inseridas.” Logo, é importante que essa “transposição” também seja explicitada para o aluno para que o processo de ensino-aprendizagem não caia na formalização e abstração dos textos, como já ocorreu no passado. A noção de esfera discursiva ou esfera da atividade humana é trabalhada pelo pensador russo Mikhail Bakhtin (1895–1975) em relação à noção dos gêneros do discurso. Para esse teórico, os gêneros do discurso são “tipos relativamente estáveis de enunciados” que refletem as condições específicas de cada esfera da atividade humana. O enunciado se liga a uma determinada esfera não só pelo seu conteúdo (tema), mas pelo estilo e pela construção composicional (pela seleção dos recursos empegados na língua). Em outras palavras, a função de um dado enunciado e as suas condições de produção produzem um certo tipo de enunciado, o qual funciona de forma “relativamente estável” quanto ao tema, à composição e ao estilo, uma vez que se insere e faz parte de uma esfera (ou mais esferas) da atividade humana. Bakhtin (2003) aponta, ainda, que existem numerosas esferas de comunicação entre os homens; sendo assim, a riqueza e a diversidade dos gêneros do discurso são infinitas — o que deve ser considerado nos estudos dos gêneros. Para mais informações sobre a noção de esfera da atividade humana e a sua relação com os gêneros levantada por Bakhtin, confira o ensaio intitulado “Os gêneros do discurso”, o qual faz parte da obra Estética da criação verbal (BAKHTIN, 2003). 11Funcionalidade dos gêneros nos processos de letramento 3 Gêneros textuais/discursivos no campo das línguas Conforme Bakhtin discute (2003), as relações que se estabelecem entre lingua- gem e sociedade se materializam em enunciados ou discursos ou, ainda, se realizam em gêneros do discurso. Desse modo, não seria desnecessário dizer que a abordagem teórica e metodológica do ensino a partir dessas práticas sociais, situadas em seus devidos contextos e funcionalidades, seja nos espaços formais ou informais de educação, se confi gura como fundamental no ensino de uma língua em uma dada comunidade discursiva? A partir da abertura das fronteiras, desde a época da globalização, e do uso crescente das tecnologias ligadas à internet, as relações internacionais têm se tornado mais fluidas e presentes em nossas vidas. Nesse contexto, podemos encontrar em Cristovão e Beato-Canato (2016) posições interessantes sobre o ensino de línguas para finalidades diversas considerando um trabalho educa- cional que envolve a noção dos gêneros. Baseando-se na noção interacionista sociodiscursiva, esses autores defendem que os processos de ensino de línguas para fins específicos precisam considerar o contexto de ampliação de uso das línguas, seja para o campo dos negócios, seja para o campo acadêmico, seja para o campo das relações interpessoais, etc. Desse modo, os professores que se voltam para o ensino-aprendizagem de línguas para fins específicos, deveriam basear a sua formação docente dentro desse panorama contextual. Celani et al. (1988, apud CRISTOVÃO; BEATO-CANATO, 2016), afirmam que no nosso país o início do projeto de línguas para fins específicos se deu a partir da demanda de cursos instrumentais de línguas nas universidades; aliado a isso, surgiu a necessidade de formar esses professores e elaborar materiais de ensino que os auxiliassem nesse processo. Esse projeto, que ocorreu entre os anos de 1977 e 1980 e se estendeu até 1986, priorizou as estratégias de leitura (em especial na língua inglesa) tendo em vista que a demanda se dava majo- ritariamente em torno desse eixo (e dessalíngua). Posteriormente, pesquisas, projetos e trabalhos foram sendo realizados e publicados com o objetivo de compreender quais os gêneros estavam entre os mais lidos pelos estudantes e quais eram avaliados como importantes para serem estudados considerando a área de estudo em que o aluno se filiava. Dentre os resultados, notou-se que os currículos das disciplinas de línguas para fins específicos deveriam ser reformulados e incluírem gêneros com relevância para a área, e não textos gerais. No Brasil, é importante apontar que o uso dos gêneros não se inseriu no trabalho com línguas para fins específicos, como apontam os autores. Funcionalidade dos gêneros nos processos de letramento12 Ramos (2004, apud CRISTOVÃO; BEATO-CANATO, 2016) não só defende como propõe o uso de gêneros no contexto do ensino das línguas, cujos benefí- cios são inúmeros para o professor — tais como, a observação sobre a situação de produção do gênero, sobre o funcionamento da linguagem empregada nele, as suas características linguísticas, sociais e culturais, dentre outros — e para o aluno — tais como, a compreensão sobre o propósito comunicativo do gênero, as suas características sociais e contextuais, as suas estruturações textuais e linguísticas, dentre outros. De forma mais específica, no tocante ao ensino-aprendizagem de inglês para fins específicos, Vian Junior (2004, apud CRISTOVÃO; BEATO-CANATO, 2016) também faz uso da proposta de gêneros tendo em vista os diferentes espaços de atuação da língua inglesa, espaços esses que também fazem uso de práticas linguísticas diversas. Em resumo, podemos dizer que Cristovão e Beato-Canato (2016) defendem uma formação docente no tocante ao ensino da língua para fins específicos, pois para se promover uma mudança no cenário de ensino das línguas é pre- ciso que os professores considerem os diferentes espaços em que os sujeitos constituem e usam determinada língua (espaços profissionais, técnicos etc.), espaços que, por sua vez, também apresentam diversas funções sociais, e se inserem em contextos culturais diversos também. É também necessário que os professores tomem a língua como um espaço de interação social e o texto como prática social e discursiva, para que não reduzam o gênero à sua forma e não fiquem apenas na leitura de textos gerais. Além disso, esse mesmo professor deve estar aberto ao diálogo contínuo com a turma com a qual trabalha, um diálogo que considere os seus conhecimentos prévios, interesses e necessidades. As ideias levantadas neste tópico, referidas em Cristovão e Beato-Canato (2016), têm um alcance ainda maior, sendo muito significativas quando refletimos sobre o cenário do ensino de maneira geral: por exemplo, para um estudante de química, o gênero relatório científico pode ter maior relevância e importância do que o gênero reportagem jornalística, tendo em vista que aquele será mais utilizado pelo profissional no seu dia a dia de trabalho. O mesmo pode se dar para um estudante de engenharia cujo mercado de trabalho exige que ele apresente um domínio maior sobre as condições de uso, produção e circulação de gêneros como projetos, atas e ofícios, os quais são presentes nesse meio e cumprem com funções específicas para as engenharias. 13Funcionalidade dos gêneros nos processos de letramento Ensino das línguas para fins específicos a partir dos estudos dos gêneros Os estudos que tomam os gêneros como ações, eventos e práticas sociais e discursivas constituídas por enunciados que se ligam a determinadas esferas da atividade humana, contribuem sobremaneira para um ensino-aprendizagem das línguas, tendo em vista que as atividades comunicativas se realizam, a partir das várias situações, em gêneros orais, escritos, multimodais. Desse modo, o professor que bebe dessas abordagens tem uma compreensão de ensino e “apreensão” da língua como uma atividade em processo, de maneira corrente, a qual passa inevitavelmente pelo preparo didático contextual de uso dos gêneros em sala de aula. Esse preparo pode ser feito por meio de sequências didáticas, caracterizadas por Cristovão e Beato-Canato (2016, p. 62) como “[…] conjunto de atividades em torno de gêneros textuais”. Nessa perspectiva, as práticas de leitura e produção textual são atividades sociais (ativas e responsivas), cujos sentidos são construídos na interação social entre o sujeito, o texto e o contexto. Na abordagem teórica do Interacionismo socio-discursivo, a qual se baseiam Cristovão e Beato-Canato (2016, p. 64), os gêneros são tomados como “[…] instrumentos de ensino-aprendizagem a fim de desenvolver as capacidades de linguagem dos alunos”, ou seja, que os permitam adaptar sua produção linguageira aos elementos contextuais de sua produção (ambiente representado, papel social dos sujeitos envolvidos na atividade comunicativa, o espaço da interação), organizar e significar o seu discurso (seja ele oral, escrito, mul- timodal), agir socialmente. Para a produção textual escrita, recomenda-se uma sequência didática que inclua uma produção textual inicial que tenha por objetivo saber os conhecimentos que o aluno já dispõe sobre a língua e a situação comunicativa em que o gênero se manifesta. Lembre-se de que essa mesma produção pode ser retomada ao longo do tempo, uma vez que ela não é um produto fechado, final ou acabado; ela se insere em uma cadeia produtiva de sentidos produzidos previamente, cujos significados podem ser reelaborados e novamente representados por meio de novos trabalhos de escrita. Além disso, para o trabalho de compreensão dos textos trabalhados, esses podem ser abordados a partir das próprias dificuldades dos alunos quanto ao gênero em questão, ou seja, pode-se desenvolver essa reflexão a partir dos conhecimentos prévios dos alunos, das suas expectativas e dificuldades. E, em termos de trabalho com a leitura, é importante considerar sequências didáticas que levem os estudantes a entender os contextos de produção, uso e circulação dos gêneros, e as relações entre as situações comunicativas geradas Funcionalidade dos gêneros nos processos de letramento14 e a produção de valores e sentidos, sem esquecer-se de abordar as relações entre as estruturações linguísticas e organizações discursivas tecidas no texto e que são influencias pelo contexto e pelas suas funções sociais. Por fim, um realce se faz necessário após essa apresentação: embora te- nhamos comentado sobre a produção, a compreensão e a leitura de forma “separada”, essas três práticas devem ser trabalhadas de forma associada, pois são atividades de interação social que são produtoras de sentidos, as quais se realizam de forma complementar. BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. In: BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. BRASIL. Ministério da Educação. 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Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Funcionalidade dos gêneros nos processos de letramento16 Didatização e autenticidade dos gêneros Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Discutir o conceito de autenticidade e suas diversas concepções. Identificar os propósitos, a funcionalidade e a diversidade dos pro- cessos de didatização de textos autênticos. Caracterizar o processo de didatização dos gêneros textuais. Introdução Os processos de ensino-aprendizagem de língua portuguesa adotados atualmente em sala de aula têm passado por mudanças e adaptações ao longo do tempo e espaço. Tais processos já foram outrora baseados na predominância do ensino da gramática e do dito “bom português”, e no uso dos textos como materiais empíricos para as práticas de leitura e escrita. Apesar de atualmente tais processos colocarem a noção de gêneros textuais/discursivos como objeto nuclear de ensino — mudança que se deu a partir da concepção de língua/linguagem como ação social —, reflexões têm sido feitas em torno de como trabalhar a diversidade textual na esfera escolar sem fazer com que os gêneros ensinados se tornem textos autênticos da esfera escolar. Neste capítulo, você refletirá sobre a autenticidade de textos e a sua relação com a diversidade textual proposta para o ensino-aprendizagem de língua portuguesa em sala de aula. Além disso, identificará os proces- sos de didatização no tocante aos gêneros como objeto ou instrumento de ensino e estudará sobre o processo de sistematização didática do trabalho com os gêneros na esfera escolar. 1 Texto, gênero e autenticidade Nas últimas décadas, a discussão sobre os gêneros textuais na esfera da edu- cação, seja no tocante ao ensino da língua materna e língua estrangeira, seja quanto à formação continuada de professores, tornou-se um lugar comum, principalmente a partir do fi nal do século XX. A ideia que subjaz a defesa do processo de ensino-aprendizagem a partir dos gêneros textuais/discursivos re- side principalmente na noção de funcionalidade comunicativa, a qual leva-nos, por sua vez, a pensar num trabalho articulado e situado com práticas sociais e culturais de comunicação — práticas essas em que se manifestam as nossas atividades linguageiras e nas quais se realizam as nossas “intencionalidades” comunicativas. Desse modo, um trabalho com os gêneros possibilita o aluno a usar e compreender as ações, as relações e as situações comunicativas nos seus mais variados contextos sociais e nas suas diversas esferas discursivas. Contudo, é necessário apontar que nem sempre os processos de ensino- -aprendizagem se deram a partir de discussões que colocam o gênero textual/ discursivo no núcleo comum dos procedimentos metodológicos de didatização e/ou transposição de materiais para os propósitos da esfera escolar. O texto foi tomado por muito tempo como “[…] um material ou objeto empírico”, segundo Rojo e Cordeiro (2004, p. 8), objeto esse que era trazido para a sala de aula como “[…] um propiciador de ‘hábitos de leitura’ e um estímulo para escrever” (ROJO; CORDEIRO, 2004, p. 8). Nessa perspectiva, o texto produzido era visto como o resultado de um ato criativo. Dito de outro modo, o texto não era usado como um objeto de ensino. Só mais tarde que o texto passa a ser visto como um suporte em que se pode ensinar e aprender estratégias de leitura e de escrita. Ainda aqui o texto não se configura como um objeto de estudo. Posteriormente, o texto é referenciado no ensino a partir das suas estruturas ou formas, perspectiva essa que sofreu influência da linguística textual. Aqui o texto passa a ser tomado como objeto de ensino, no entanto isso se dá a partir das suas propriedades estruturais (a gramática normativa passa, assim, a ga- nhar destaque nos procedimentos de ensino do texto). A esse respeito, merece menção que boa parte das críticas questionam as generalizações promovidas pelas classificações tipológicas (ROJO; CORDEIRO, 2004), uma vez que as propriedades textuais de um tipo não necessariamente se materializam nos textos (ou seja, a estrutura de uma descrição pode variar de um gênero a outro). Ainda tais procedimentos metodológicos de abordagem textual desconsideram os usos, os contextos de produção, de recepção e de circulação, uma vez que se baseiam principalmente na leitura tendo em vista a localização de infor- mação, mais do que, como apontam Rojo e Cordeiro (2007, p. 10), “[…] uma Didatização e autenticidade dos gêneros2 leitura interpretativa, reflexiva e crítica”. É nesse sentido que as abordagens de ensino a partir dos gêneros passaram a ganhar força e destaque, porque contribuem para os processos de ensino-aprendizagem dos eixos de leitura, produção escrita e análise linguística a partir das suas situações reais, retóricas e sociocomunicativas. Dos textos, passando pelos tipos textuais, aos gêneros do discurso Conforme discute Santos (2007), a partir dos anos 1970, a educação no Brasil passa a ser organizada pelo Estado em torno da noção de desenvolvimento político e econômico. Sob a infl uência das teorias da linguística estrutural e da comunicação, o processo de ensino-aprendizagem da língua materna é tomado pelo uso da língua como um instrumento de comunicação, guiado pelos conceitosde codifi cação e decodifi cação (teoria da comunicação). Nessa mesma época, em que se dá a reforma de ensino dos antigos 1 e 2 graus, o trabalho de produção escrita é voltando para questões de léxico e sintaxe. Desse modo, essa mesma prática permanece sendo ensinada como antes (sob a infl uência do ensino da língua pela gramática e pelos textos de excelência da esfera literária), principalmente a partir dos textos clássicos, os quais eram considerados modelos e exemplares da “boa escrita”. Interessante notar que, se baseando no modelo dos clássicos do “bem escrever”, a escola acaba criando o que Santos (2007, p. 14–15) chama de “[…] verdadeiros objetos escolares” para ensinar a produção textual, a saber, textos da esfera escolar que não têm circulação e/ou ancoragem fora desse ambiente — dito de outro modo, autênticos textos escolares. Para a autora, esses textos, denominados por Dolz e Schneuwly (1995, p.15, grifo nosso) de “gêneros escolares”, são: […] autênticos produtos da escola com o objetivo de desenvolver e avaliar sistematicamente as capacidades de escrita dos alunos. O ensino de tais textos tem sido organizado em sequências relativamente estereotipadas tais como a descrição-narração-dissertação, sendo acrescentados, em alguns momentos, a esta sequência, a resenha e o resumo. O trabalho de produção desses “gêneros escolares” acontece sem que se considere o contexto em que a escrita se realiza, isto porque a produção escrita é vista como uma só, independentemente do que se escreve, de quem escreve e para quem se escreve. Assim, o que os autores colocam em discussão (SANTOS, 2007; DOLZ; SCHNEUWLY, 1995 apud SANTOS, 2007) é que esses textos são ensinados apenas com o fim de praticar a própria escrita, sem um propósito comunicativo 3Didatização e autenticidade dos gêneros extratextual (o propósito reside no próprio texto, é estritamente para fins textuais), e, ainda, sem apresentar uma ancoragem situacional real na vida dos estudantes. Nessa visão, de valor formalista e estruturalista, valoriza- -se o formato do texto pelo texto; dito de outro modo, os textos não são trabalhados por meio de sua funcionalidade social, comunicativa e histórica, nem observado como uma prática social, um evento cultural que tem valores para uma comunidade discursiva (visão esta que é, nesse caso, relacionada às abordagens que defendem o ensino-aprendizagem da língua por meio dos gêneros textuais/discursivos). Em resumo: a educação no ambiente institucional escolar daquela época preconizava o ensino da produção escrita por meio do reconhecimento das ideias “comunicadas” no texto, que eram significadas na literalidade do texto, no domínio das regras da gramática e no conhecimento de modelos de escrita (estes eram estudados a partir de uma progressão textual de complexidade, isto é, dos ditos “menos complexos” para os ditos “mais complexos”). Cabe mencionar que a leitura também seguia os mesmos moldes trabalhados no eixo de ensino da escrita. É importante ficar atento às noções de texto, tipo textual e gênero textual/discursivo aqui empregadas. Para isso, nos fundamentamos principalmente em Marcuschi (2002): O texto é uma entidade concreta em que se materializam os gêneros textuais/ discursivos. Os tipos textuais são definidos pelo seu critério textual e linguístico, isto é, por meio dos seus elementos lexicais, sintáticos, dos tempos verbais, etc. Fala-se que há um número limitado de tipos textuais, que são: narração, argumentação, ex- posição, descrição e injunção. Os gêneros textuais/discursivos são “artefatos” culturais, práticas de ação (inte- ração) social que são relativamente estáveis. Situados retoricamente, essas ativi- dades sociais se realizam em textos (verbais, visuais, verbo-visuais) e organizam as atividades comunicativas de uma coletividade. Além disso, esses eventos comu- nicativos se manifestam em domínios discursivos (esferas discursivas) específicos. Há um número ilimitado de gêneros, uma vez que nossas atividades discursivas são também inúmeras. É a partir dos anos 1980 que esse cenário começa a mudar com a apresentação de diversos programas e propostas curriculares. Nesse contexto, é importante mencionar a publicação da obra organizada por Geraldi, em 1984, intitulada Didatização e autenticidade dos gêneros4 O texto na sala de aula: leitura e produção, visto que tal obra aponta o texto como objeto de ensino ou como material sobre o qual se desdobra um ensino procedimental (ROJO; CORDEIRO, 2004). Isso porque, segundo Santos (2007), dos anos 1970 aos anos 1980, questões sobre o processo de ensino são levan- tadas, tais como, sobre os objetivos, os objetos, pressupostos e procedimentos didáticos. Dentre os resultados desses questionamentos, diversas propostas de ensino passam a ser elaboradas. Um novo modelo educacional, em termos teóricos e metodológicos, passa então a ser pensado e proposto. Importante mencionar que tal paradigma se fundamenta numa nova concepção de língua/ linguagem: influenciados pelos estudados enunciativos da linguística, aquela passa a ser tomada como uma atividade social. Nesse contexto, a produção textual assume outra abordagem: o texto passa a ser estudado a partir dos seus propósitos, suas funcionalidades e seus contextos retóricos e sociais (e, aqui, vale a pena acrescentar, os gêneros vão ganhando destacabilidade nesse cenário, uma vez que são atividades discursivas que se constituem nas várias situações comunicativas, que sofrem influências das relações estabelecidas entre os participantes, produzem valores e determinam na maioria das vezes as nossas ações discursivas conforme os contextos). Logo, os textos escritos variam conforme seu funcionamento sócio discursivo e, assim, a leitura também passa a ser inserida em um processo contextual. Diante desse novo contexto teórico e metodológico, cujas propostas de ensino passam então a se apoiar, aborda-se a necessidade de se trabalhar com textos autênticos no ambiente escolar, isto é, com textos que tenham funcionalidade “real”, que sejam gerados por situações reais de uso desses mesmos textos (observe, aqui, que a noção de autenticidade é empregada de maneira diversa daquela citada acima, uma vez que em outras reflexões teóricas usa-se auten- ticidade para caracterizar o trabalho com os textos de forma situada em seus contextos. Logo, nesse capítulo, destacamos que autênticos textos escolares é diferente de textos autênticos no ambiente escolar). Ora, o trabalho até então realizado com os textos clássicos e tipos textuais não dá conta dessas situações, uma vez que eles são levados para a sala de aula, descontextualizados, descaracterizados das suas situações sociais que os fundam, desprovidos de função e uso “real”, e lá permanecem. Tais textos têm apenas função dentro do espaço escolar. Desse modo, é a partir da ne- cessidade de se produzir um trabalho de ensino-aprendizagem da língua que abarque situações autênticas e reais de produção textual escrita e de leitura na esfera escolar, marcado ainda por uma diversidade dessas situações — até porque são muitas as nossas práticas discursivas de leitura e escrita na vida —, que a ênfase no ensino vai se deslocando do trabalho com as estruturas 5Didatização e autenticidade dos gêneros tipológicas textuais (tipos de textos) para os gêneros textuais/discursivos. Embora isso possa parecer um pressuposto teórico-metodológico dotado de certa “obviedade” nos dias atuais, essa mudança no paradigma de ensino — e, consequentemente, nos pressupostos didáticos subsequentes — foi (e continua sendo) de crucial importância para as nossas escolas brasileiras. Há, contudo, alguns problemas quanto à abordagem desses pressupostos na prática diária escolar, dado que o trabalho de transposição dos gêneros para a esfera escolar vai, de alguma forma, lidar com um texto talvez “não tão autêntico” como o seria se este fosse trabalhado nos seus modos de produção, circulaçãoe recepção da esfera da qual faz parte. Os gêneros funcionam, são produzidos e recebidos de forma diferente nas diversas esferas. Isso aponta para a ideia de que a escola, como uma esfera ou um domínio discursivo específico, é um espaço com fins e propósitos comunicativos também específicos. Assim, os gêneros que passam a fazer parte do espaço escolar não apresentarão a mesma funcionalidade que quando estavam “fora dela”. Conforme aponta Santos (2007, p. 19): […] ao entrar no processo de ensino, as situações de produção textual, embora remetendo às situações nas quais tais textos são utilizados nas práticas de linguagem na sociedade apresentam características peculiares a situações de ensino nas quais estão inseridas. Encontramos em Bunzen (2007) várias reflexões sobre o uso (ou não) de textos autênti- cos no ensino de língua portuguesa a partir da análise de coleções de livros didáticos. Segundo o autor, nos anos 1980 — momento em que o texto passou a ser defendido como objeto de ensino — há uma significativa utilização de textos autênticos a partir do uso diversificado de gêneros. Isso se deu tendo em vista a necessidade da época de fazer o maior uso possível de textos que faziam parte da vida das pessoas. Posteriormente, os estudos de letramento e sobre os gêneros do discurso, a partir dos anos 1990, contribuíram para tal uso. Nesse contexto, os Parâmetros Curriculares Nacionais têm importância central nesse processo, pois neles os conceitos de letra- mento e gênero aparecem em associação ao uso diversificado de gêneros e à sua produção. Depois, o Programa Nacional de Avaliação do Livro Didático também vem a reforçar a presença de textos autênticos nos livros didáticos de português, visto que a qualidade dos textos desses livros é avaliada segundo quatro elementos: diversidade de gêneros, temáticas e abordagem, autores e aspectos da textualidade. Didatização e autenticidade dos gêneros6 2 Didatização, textos e propósitos Didatizar um gênero textual/discursivo diz respeito a um planejamento geral dos processos de ensino-aprendizagem da língua em torno dos eixos de lei- tura, análise linguística e produção escrita. Para realizar um planejamento, é interessante que o professor tenha em mente o conhecimento prévio que os alunos têm sobre o gênero a ser trabalhado — ou seja, o que eles sabem ou não —, os contextos de produção, recepção e circulação do gênero, além do seu propósito comunicativo. Além disso, é interessante que o professor considere o planejamento didático como um processo cíclico, aberto, uma vez que está sujeito a mudanças e intervenções futuras ao longo do tempo (as próprias avaliações, de tom “formativo”, feitas durante a interação professor-aluno são importantes para rever e/ou modifi car as etapas desse processo). Assim, partindo-se da concepção de língua/linguagem como uma atividade social, que é produzida e signifi cada pelos sujeitos, a didatização é também vista como um processo que incluiu métodos, atividades e intervenções. Em Guimarães (2006), encontramos uma interessante reflexão sobre o trabalho com o gênero, a partir da perspectiva do Interacionismo Discursivo na esfera escolar. Nesse texto, a autora aponta que a decisão de introduzir um gênero na escola já é uma decisão didática, uma vez que se articula aos objetivos de ensino-aprendizagem (tomados como relevantes). Na elaboração do modelo didático do gênero a ser ensinado, três elementos são citados como importantes: 1. os conhecimentos existentes sobre os gêneros, conhecimentos esses que são vários (e não uniformes); 2. as capacidades dos aprendizes/alunos que são observadas pelos pro- fessores (aqui a postura ativa e participativa do professor-pesquisador deve ser considerada); 3. os objetivos de ensino. Só após a elaboração desse tripé — a que a autora chama de modelo didático — que entra em cena a construção da sequência didática. A partir do que discutem Schneuwly, Dolz e Noverraz (2004), essa noção engloba um conjunto de atividades (escolares) que são sistematicamente organizadas tomando em consideração um gênero textual/discursivo. A partir da organização da aula e das sequências didáticas, o professor auxilia o aluno a compreender melhor um determinado gênero (oral ou escrito) conforme as situações comunicativas que geram a sua prática. De maneira geral, as sequências podem ser estruturadas 7Didatização e autenticidade dos gêneros da seguinte forma — a seguir é uma reflexão dos processos didáticos possíveis a partir da reflexão proposta por Schneuwly, Dolz e Noverraz (2004). 1. Uma situação comunicativa é apresentada pelo professor (nesse mo- mento, é interessante que o professor traga a situação comunicativa associada ao gênero que vai ser abordado, relacionando-o aos seus modos de produção e circulação [p. ex., suporte envolvido], aos papéis dos sujeitos envolvidos, aos valores que frequentemente representa, a sua composição estilística, etc.). 2. A elaboração de uma produção textual oral/escrita inicial para que o professor possa fazer uma espécie de levantamento geral do conheci- mento prévio que os alunos têm sobre o gênero abordado. Tal produção primeira pode inclusive ajudar o professor a estruturar e planejar as suas sequências ao longo do tempo e espaço, lembrando ainda que esse “levantamento” é reflexivo, dinâmico e aberto a mudanças. 3. Após a elaboração de uma produção textual prévia, o professor pode trabalhar algumas das questões que surgiram a partir dela em dife- rentes etapas, tais como, a apresentação do problema e/ou da situação comunicativa que está sendo representada na construção do gênero, os conteúdos elaborados, o planejamento e a análise textual, etc. (essa etapa é caracterizada por Schneuwly, Dolz e Noverraz [2004] como módulos). 4. É importante durante esses processos capitalizar as aquisições, para usar o termo empregado por Schneuwly, Dolz e Noverraz (2004), ou seja, fazer um registro do que os alunos aprenderam durante o trabalho com o gênero. 5. É interessante, também, trabalhar outra produção textual posterior (ou produção textual final) com os alunos, a qual vai permitir que eles coloquem em prática os conhecimentos adquiridos nas etapas anteriores. Tal produção final também é importante para que o professor possa fazer uma avaliação do processo de aprendizagem geral do aluno (a produção oral/escrita inicial pode ser retomada também nesse momento). 3 Didatização dos gêneros textuais O ensino voltado para os tipos textuais, tais como, narração, descrição, disser- tação e exposição, não dá conta das diversas possibilidades de manifestação comunicativa que se realizam nas numerosas esferas da atividade humana (es- fera jornalística, literária, humorística, científi ca, do cotidiano, etc.). O trabalho situado contextualmente por meio dos gêneros, no entanto, pode sim permitir Didatização e autenticidade dos gêneros8 aos alunos uma compreensão mais ampla sobre as práticas comunicativas e, ainda, levá-los a ter um futuro domínio, pelo menos mais efetivo em termos de “contato” e “apropriação”, sobre as situações reais em que mobilizamos o uso dos gêneros, uso esse que se realiza a partir de condições diversas (situação social, propósito comunicativo, papéis sociais dos participantes, grau de formalidade, valores sociais colocados em jogo, relações de poder, etc.). Nessa perspectiva, retomamos que a noção de gênero se baseia na concepção de língua/linguagem como atividade social, interação, cujas práticas sociais de leitura e escrita apresentam propósitos e são situadas especificamente em determinados contextos. O ensino a partir dos gêneros, contudo, não deve apenas focar na sua funcionalidade, mas nas relações que esta estabelece com a sua estrutura linguística composicional. Na esfera escolar, os processos de ensino-aprendizagem com os gêneros podem se dar — e de fato se efetivam — de muitas maneiras. Em Schneuwly e Dolz (2004), encontramos pelo menos três modos deabordar os gêneros em sala de aula, maneiras essas que muitas vezes aparecem de forma integrada nos processos de ensino-aprendizagem, tais como: a) o estudo do gênero como objeto “em si”, sem relacioná-lo ao seu con- texto social de produção; isso pode ocorrer quando se estuda os gêneros fora do seu contexto original e sócio retórico de comunicação; ou ainda quando são tomados para a produção textual escrita como um “modelo” a ser imitado, e não dentro de um processo de reflexão da sua construção composicional relacionada ao seu funcionamento social; b) o estudo do gênero por meio de uma situação de produção fictícia, isto é, por meio da criação de um espaço de produção/circulação do gênero em uma tentativa de aproximá-lo do seu uso “real” na sociedade; c) o estudo do gênero como prática social a partir de sua condição social e “real” de produção, isto é, por meio da apropriação do gênero como uma necessidade de fato para que a prática de comunicação ocorra de forma significativa entre os sujeitos envolvidos. A partir do que discutem Schneuwly e Dolz (2004), pode-se pensar exemplos para facilitar o entendimento sobre as várias maneiras de se usar os gêneros em sala de aula: a) O gênero estudado apenas como “objeto” pode se dar, por exemplo, quando se trabalha o estudo da sinopse de filme desligada de seu suporte original (como, por exemplo, do site de divulgação de filmes em que 9Didatização e autenticidade dos gêneros é publicada), sem relacioná-la com o seu contexto social de produção e circulação, o seu propósito comunicativo, os sujeitos envolvidos na sua produção e circulação, etc. Nesse caso, a sinopse é apenas usada a partir da sua exposição no livro didático e perde a sua vinculação retórica anterior, a sua autenticidade como um gênero cujas práticas sociais ocorrem frequentemente em espaços fora do ambiente escolar. Assim, a sinopse retomada dentro do livro didático como um objeto “em si” é estudada apenas como um texto de caráter escolar. b) O gênero estudado a partir de uma “situação fictícia”, criada pelo professor em sala de aula, pode se dar, por exemplo, quando o professor propõe a criação de um site de divulgação de filmes com os alunos em uma tentativa de facilitar a compreensão de como se manifesta o gênero na sociedade (e naquele suporte). Estudar esse gênero por meio de uma proposta de criação de um suporte para entender o seu funcionamento geral, a sua produção, circulação, estruturação linguística, etc., é bem interessante, uma vez que se aborda, primeiramente, o uso retórico e social do gênero antes de tomá-lo como “um objeto” que é estruturado por meio de uma construção textual específica. c) O gênero estudado a partir de sua situação retórica “real” pode se dar, por exemplo, quando o professor propõe que os alunos escrevam uma carta do leitor para o jornal da sua cidade ou comunidade, expondo o seu ponto de vista sobre algum assunto abordado ou acontecimento local veiculado no periódico. Nesse caso, os alunos precisam estudar o propósito comunicativo da carta do leitor, a sua composição estilística, entre outros elementos, para elaborarem a carta, tendo em vista os seus modos de produção, recepção e circulação. Desse modo, o gênero não entra no processo de ensino-aprendizagem como um objeto “em si” ou por meio de uma “situação fictícia”, mas através de seu uso real no social. É importante lembrar que embora haja a ênfase no trabalho com uma diver- sidade de gêneros em sala de aula — uma vez que a interação com uma ampla variedade de práticas de leitura e escrita permite ao estudante ampliar não só o seu conhecimento sobre a atividade comunicativa, mas o seu domínio sobre os papéis ocupados nas situações engendradas e as suas ações discursivas —, faz-se necessário também que o professor apresente como o gênero abordado está sendo transposto para os fins (os quais constituem também os objetivos expostos pelo professor à turma no seu planejamento didático) do ambiente educativo formal da escola. Essa explanação é tão importante, ao nosso ver, quanto o estudo com uma variedade textual, pois o uso do gênero ou de uma Didatização e autenticidade dos gêneros10 variedade de gêneros sem um processo de referenciação ao seu funcionamento social real não dá conta da sua possibilidade enunciativa no mundo (o planeja- mento didático deve considerar essa heterogeneidade dos gêneros). Ainda o trabalho da didatização deve ser sistemático, ativo, orientado e específico para os gêneros que serão abordados (SCHNEUWLY; DOLZ, 2004). Dito de outro modo, os processos de ensino-aprendizagem devem ser planejados didaticamente e organizados, uma vez que, como afirma Santos (2007), a aprendizagem da escrita não ocorre de forma espontânea. Além disso, o simples contato, por um certo período, de uma diversidade de gêneros que circulam nas esferas sociais, trazidos para a escolar, não garante que o aluno compreenderá e dominará as práticas comunicativas geradas pelo gênero. É, portanto, fundamental um trabalho contextual planejado das práticas de leitura e escrita, e não apenas a sua exposição à turma. BUNZEN, C. O tratamento da diversidade textual nos livros didáticos de português: como fica a questão dos gêneros? In: SANTOS, C. F.; MENDONÇA, M.; CAVALCANTE, M. C. B. (org.). Diversidade textual: os gêneros na sala de aula. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. p. 43–58. GERALDI, J. W. Concepções de linguagem e ensino de português. In: GERALDI, J. W. (org.). O texto na sala de aula: leitura e produção. 8. ed. São Paulo: Ática, 1984. p. 39–46. GUIMARÃES, A. M. M. Construindo propostas de didatização de gênero: desafios e possibilidades. Linguagem em (Dis)curso, v. 6, n. 3, p. 347–374, 2006. MARCUSCHI, L. A. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. In: DIONISIO, A. P.; MACHADO, A. R.; BEZERRA, M. A. (org.). Gêneros textuais & ensino. 2. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002. p. 19–36. ROJO, R.; CORDEIRO, G. S. Apresentação: gêneros orais e escritos como objetos de ensino: modo de pensar, modo de fazer. In: SCHNEUWLY, B. et al. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas: Mercado de Letras, 2004. p. 7–18. SANTOS, C. F. O ensino da língua escrita na escola: dos tipos aos gêneros. In: SANTOS, C. F.; MENDONÇA, M.; CAVALCANTE, M. C. B. (org.). Diversidade textual: os gêneros na sala de aula. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. p. 11–26. SCHNEUWLY, B.; DOLZ, J. Os gêneros escolares: das práticas de linguagem aos objetos de ensino. In: SCHNEUWLY, B. et al. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas: Mercado de Letras, 2004. p. 71–94. SCHNEUWLY, B.; DOLZ, J.; NOVERRAZ, M. Sequências didáticas para o oral e a escrita: apresentação de um procedimento. In: SCHNEUWLY, B. et al. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas: Mercado de Letras, 2004. p. 95–128. 11Didatização e autenticidade dos gêneros Processos de didatização Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar alguns dos elementos envolvidos em processos de dida- tização de textos autênticos. Reconhecer a relação entre os elementos de didatização e os contextos e propósitos educativos. Exemplificar as situações de uso dos textos didatizados em livros didáticos e avaliações nacionais e internacionais. Introdução Por volta dos anos 1980, passou-se a refletir sobre a necessidade de trabalhar com textos autênticos na esfera escolar. Nessa época, estudio- sos e professores defenderam a importância de um trabalho didático- -pedagógico em torno da língua portuguesa a partir de textos que não fossem “artificiais”. Nesse sentido, o uso de um texto autêntico de um gênero não é uma atividade assistemática ou aleatória, mas faz parte de um trabalho estruturado e organizado a partir de processos didáticos, e em torno de sequências didáticas. Tais processos são fundamentalmente marcados pelas necessidades dos alunos e pelos objetivos definidos na relação professor-aluno-conhecimento. Neste capítulo,você vai identificar alguns elementos que podem estar envolvidos nos processos de didatização de textos autênticos. Você também vai aprender sobre a importância de considerar os objetivos e os propósitos educativos dos textos autênticos dos gêneros retomados, os quais guiam os processos de didatização. Além disso, você vai refletir sobre as várias possibilidades de usos dos textos autênticos, usos esses que estão em relação direta com o trabalho didático-pedagógico na esfera escolar. 1 Processos de didatização: uma reflexão geral Na nossa sociedade é bastante comum depararmo-nos com uma variedade de modos de produção, circulação e recepção dos mesmos textos em diferentes esferas comunicativas. Das notícias publicadas nas páginas de um jornal ou no site de uma revista jornalística a sua replicação e circulação nas salas de bate-papo a partir de links acoplados a mensagens instantâneas: tais textos passam a ser inúmeros, incontáveis, e acabam por realizar diferentes ações e propósitos comunicativos conforme as esferas de que passam a fazer parte. Embora estejamos falando aqui de textos, no sentido de materializações textuais verbal, visual, e/ou verbo-visual, e, ainda, multimodal, é importante deixar claro que esses se constituem de processos de signifi cação e manifestação das atividades comunicativas, as quais são defi nidas como gêneros textuais/ discursivos. Dito de outro modo, os gêneros são eventos discursivos, práticas sociais e retóricas situadas cultural e historicamente, que carregam memórias das relações estabelecidas nas comunidades discursivas, e que se constituem estrutural e linguisticamente também por meio das realizações de uma dada língua. Além de sofrer infl uências dos fatores sociais e retóricos das esferas da atividade humana das quais fazem parte, em um processo mútuo, os gêneros são atividades comunicativas que variam conforme o propósito social, os papéis dos participantes envolvidos, as relações sociais colocadas em cena, os valores ideológicos comunicados, os jogos de poder, o graus de formalidade/ informalidade, etc. Nesse panorama, a reflexão sobre os processos de didatização de textos entra em cena como uma etapa importante na formação do saber e da práxis do professor. Ora, os textos são “reconstruídos” contextualmente tendo em vista o propósito dos vários suportes didáticos dos quais passará a fazer parte (tais como, um livro didático, uma avaliação semestral, um exame nacional, etc.); nesse sentido, pensar sobre quais elementos fazem parte dos processos de didatização de um texto diz respeito a um trabalho reflexivo sobre como se concretizam as possibilidades de ensino-aprendizagem. Dito de outro modo, o trabalho pedagógico com o texto começa a ser pensado e elaborado nas diferentes maneiras em que este é apropriado, abordado e apresentado pelos materiais didáticos. No campo da língua materna, por exemplo, o trabalho pedagógico proposto com os eixos de leitura, oralidade, produção escrita e análise linguística não devem ser observados separadamente, já que fazem parte de um processo contextual mais amplo do planejamento didático ela- borado pelo professor. Processos de didatização2 No contexto brasileiro, é por volta dos anos 1980 que as propostas e as práticas de ensino-aprendizagem passam a ser influenciadas por um diverso campo teórico-metodológico (marcado pelos estudos da Linguística da Enuncia- ção e pelo Interacionismo Sócio Discursivo), conforme discute Santos (2007). Antes, o ensino era basicamente direcionado para o ensino da gramática, das suas regras e do dito “bem escrever” — este último, em especial, por meio dos textos clássicos da literatura —; é importante dizer que tal ensino era embasado pelas perspectivas formalistas e estruturalistas dos estudos da língua. Assim, nos anos 80, a educação passa a ser observada pela ótica de um outro cenário, no qual se levanta a necessidade de se trabalhar com textos autênticos no ambiente escolar, ou seja, com textos que sejam produzidos por situações reais de uso desses mesmos textos. Dito de outro modo, começou-se a se pensar que é preciso trabalhar o ensino-aprendizagem de língua portuguesa a partir de textos que não fossem artificiais, isto é, de textos que representassem as situações sociais reais em que se dão os nossos processos comunicativos. Conforme discute Geraldi (1997), por muito tempo o ensino da língua portuguesa foi baseado no trabalho com a metalinguagem, isto é, conceitos, regras e estruturas que eram tomadas como o conteúdo a ser ensinado — ora, como se essas bastassem ou fossem o tanto necessário para que os sujeitos pudessem se apropriar de diferentes situações de comunicação. No entanto, considerando a língua como o espaço da interação, espaço esse em que se estabelecem as relações humanas, a apropriação de conceitos, de tempos e estruturas verbais, além de construções sintáticas, não dá conta do uso que fazemos da língua nas mais variadas situações sociais, pois “[…] a língua só tem existência no jogo que se joga na sociedade, na interlocução” (GERALDI, 1997, p. 42). E, ainda, podemos retomar de Geraldi (1997, p. 42) que “[…] estudar a língua é, então, tentar detectar os compromissos que se criam por meio da fala e as condições que devem ser preenchidas por um falante para falar de certa forma em determinada situação concreta de interação”. É, assim, nessa perspectiva (da língua como interação) que vemos e to- mamos a língua e o ensino; por conseguinte, a postura teórico-metodológica assumida vai ser guiada por um ensino que tome a existência dessas diferentes relações comunicativas, de como essas se constituem, de suas finalidades/ propósitos, e dos contextos, o que se diferencia fundamentalmente de um processo didático baseado na artificialidade (de uso de conceitos e estruturas textuais, textos desconectados do social, etc.) que muitas vezes acaba se deslizando nas práticas pedagógicas ocorridas em sala de aula. 3Processos de didatização É importante ficar atento à noção de autenticidade, a qual está comumente associada à discussão sobre a didatização e os materiais didáticos. Em algumas reflexões teóricas, essa noção aparece em confluência com o uso situado de tais textos, ou seja, a autenticidade textual diz respeito ao trabalho pedagógico com os textos de forma situada considerando os seus contextos “reais” de produção, circulação e recepção na sociedade (temos aqui o uso de textos autênticos na esfera escolar). Em outras reflexões, essa noção é empregada para fazer uma crítica ao ensino de textos como autênticos produtos da escola (SCHNEUWLY; DOLZ, 2004), uma vez que por muito tempo os pro- cessos de ensino-aprendizagem de textos ocorreram organizados a partir do trabalho com sequências textuais tipológicas, frequentemente estereotipadas, tais como as de descrição, narração e dissertação — nesse caso, a produção escrita é dissociada do contexto em que ela se realiza (temos aqui o uso de autênticos textos escolares). Logo, destacamos que falar em autênticos textos escolares (primeira explicação acima) é diferente de textos autênticos no ambiente escolar (segunda explicação acima). A partir da análise de coleções de livros didáticos, Bunzen (2007) aponta diversas reflexões sobre o uso (ou não) de textos autênticos no ensino de língua portuguesa. Para esse professor e pesquisador, nos anos 80, época em que surge a defesa do texto como objeto de ensino, passa-se a observar uma significativa utilização de textos autênticos por meio de um diversificado uso de gêneros. Isso se deu porque havia a necessidade de fazer o maior uso possível de textos que faziam parte do cotidiano das pessoas. A partir dos anos 90, tal uso torna-se ainda maior diante dos estudos sobre os gêneros do discurso e o letramento. Os Parâmetros Curriculares Nacionais contribuem ainda mais para o uso do texto como objeto de ensino em sala de aula, uma vez que os conceitos de letramento e gênero aparecem associadosà diversidade dos gêneros, aos seus vários modos de produção e seus diferentes usos. Posteriormente, o Programa Nacional de Avaliação do Livro Didático reforça a presença de textos autênticos nos livros didáticos de português, tendo em vista que a qualidade dos textos desses livros é objeto de avaliação a partir de quatro segmentos: a diversidade de gêneros, as temáticas e a abordagem, os autores e os aspectos da textualidade (BUNZEN, 2007; SANTOS, 2007; SCHNEUWLY; DOLZ, 2004). Elementos que influenciam os processos de didatização dos textos São vários os elementos que podem fazer parte dos processos de didatização de textos — elementos esses, é importante destacar, que variam conforme os contextos e os propósitos educacionais —, tais como, os critérios que orientam a escolha de um texto, a sua apresentação gráfi ca, a adição ou não de imagens, Processos de didatização4 as supressões feitas, a inserção de glossários ou notas explicativas, as atividades de pré-leitura e de leitura que guiam o trabalho de didatização, entre outros elementos. Contudo, antes de apresentar tais elementos, é importante lembrar que o processo de didatização, de maneira geral, é constituído por etapas, tais como, a defi nição do gênero que vai ser didatizado, a escolha do texto que faz parte desse gênero escolhido, a exposição dos objetivos que buscam ser alcançados pelos estudantes por meio da didatização do gênero, a preparação de atividades tomando como base o texto do gênero abordado, a execução das atividades planejadas e a avaliação (VIEIRA, 2012). Primeiramente, é preciso que tenhamos em mente que os processos de didatização são contextuais, por serem elaborados tendo em vista os propósitos educativos estabelecidos pelo professor na sua relação com os seus estudantes, e por usarem materiais que foram produzidos em situações sociais reais de comunicação entre os sujeitos que se comunicam em uma determinadas língua (textos autênticos). A esse respeito, faz-se necessário pensar sobre a noção de didatização. Segundo define Vieira (2012, p. 19–20): […] didatizar um texto autêntico significa, basicamente, torná-lo acessível e compreensível aos discentes, não a partir de simplificações, adaptações ou alterações promovidas nesse texto, mas sim, a partir de atividades elaboradas com base nele e que possam ir ao encontro das necessidades e dos interesses dos alunos, permitindo-lhes, portanto, compreender o texto autêntico traba- lhado em sala de aula e apropriar-se dele. Logo, a didatização é um processo que não tem por objetivo simplificar o uso de um texto ou reproduzi-lo em sala de aula por meio de outras circuns- tâncias; mas de realizar um trabalho sistemático, organizado, com base no que o texto pode oferecer para e com os alunos (tendo por base os objetivos traçados, e de acordo com os propósitos educativos estabelecidos). Além disso, o trabalho da didatização é ao mesmo tempo teórico e metodológico, e leva o professor a refletir e fazer uso de técnicas e estratégias didáticas para que o texto se torne mais acessível aos alunos, como aborda Vieira (2012). Para ainda essa autora, “[…] a didatização não implica em alterações, adaptações ou simplificações promovidas no texto autêntico pelo professor, mas sim, na elaboração de atividades com base em tal texto” (VIEIRA, 2012, p. 69). Logo, o texto autêntico que o professor usa para planejar e desenvolver as suas atividades, conforme os propósitos educativos determinados por ele e os interesses dos alunos, não é modificado. O texto selecionado referente ao gênero escolhido permanece em sua autenticidade e é trazido de tal forma na criação de atividades. 5Processos de didatização É interessante notar, a esse respeito, que a concepção de linguagem como interação social, espaço de construção de valores (axiologias) e produção de sentidos (BAKHTIN, 2003) aponta para uma visão teórico-metodológica da didatização como um processo contextual, construtivo, cujos participantes, o professor e o aluno têm papéis fundamentalmente ativos. Conforme reflete Vieira (2012, p. 20), o professor não é mais visto como um sujeito passivo, o qual deve seguir (ou segue) as orientações dos livros didáticos e programas que são propostos, mas “[...] como um criador ativo de atividades”. Desse modo, ao didatizar textos autênticos, o professor está fazendo uma reflexão teórica e metodológica sobre os conteúdos e as finalidades para as quais eles serão ensinados. 2 Relações entre elementos de didatização e propósitos educativos Há inúmeros propósitos educativos que fazem parte do processo de construção da didatização de textos. Tais propósitos, inclusive, são determinantes para a escolha prévia dos textos que serão usados no material selecionado (isto é, no suporte, tais como, numa avaliação semestral, numa atividade de leitura, numa atividade de produção escrita, etc.). É ainda a partir do propósito e do contexto educativo (como, da fi nalidade do material), que alguns elementos de didatização são manifestados como fundamentais para a os processos de ensino-aprendizagem tendo por base o texto autêntico, enquanto outros serão suprimidos ou colocados em segundo plano. Antes de dar início e/ou prosseguimento ao processo de didatização de materiais autênticos, é altamente recomendável que os professores possam estabelecer diálogos e troca de ideias com os seus alunos; uma vez que as necessidades e os interesses de cada um (e, por extensão, da turma como um todo) devem ser tomados como pontos importantes na definição dos objetivos (escolhidos) da didatização de um texto autêntico. Um outro ponto importante diz respeito à dimensão subjetiva, afetiva, do professor (e esse é, do meu ponto de vista, fundamental para o trabalho didático-metodológico em sala de aula): antes de dar início à didatização de um determinado texto, selecionado em virtude de propósitos educativos específicos, há uma reflexão emocio- nal de bastante importância a ser feita, mas que parece ser frequentemente negligenciada. Tal reflexão está relacionada às vivências ao longo dos anos construídas pelo professor ao exercer o trabalho pedagógico, às experiências passadas que o professor teve enquanto estudante e às expectativas que a ele Processos de didatização6 se sobressaem (porque nem sempre notadas de antemão) quando opta pelo planejamento pedagógico de uma turma. Embora muitos desses elementos sejam (e/ou pareçam) inacessíveis ao sujeito-professor, a importância que coloco nesse momento anterior à didatização não perde o seu valor. Dito de outro modo, a sua não realização não aponta para uma necessária carência de valor. Fazer essa reflexão inclusive aponta para posturas metodológicas que o professor assume em sala de aula mesmo que ele não saiba o porquê de elas muitas vezes se imporem à sua prática. Definidos os objetivos e os propósitos da didatização de um texto autêntico em relação às necessidades e os interesses dos alunos, e feita a reflexão sobre a dimensão subjetiva do sujeito-professor diante de tal texto (e, por conseguinte, do tema construído) do gênero, o próximo passo é fazer uma avaliação inicial para saber os conhecimentos partilhados da turma sobre o gênero. Tendo em mente o apontado, os próximos passos serão feitos em decorrência das questões colocadas, a saber, elaborar e implementar as atividades de leitura, oralidade, produção escrita e análise linguística. Para essas atividades, contudo, talvez um mesmo texto tenha que passar por processos de didatização diferentes, ou seja, para determinado momento de trabalho de sua leitura, o professor pode fazer uso da adição de um glossário ou uma nota de rodapé; para uma outra etapa de trabalho, tal como a de produção escrita, o professor pode fazer uso de texto semióticos distintos, tais como, de imagens (linguagem visual) e/ou vídeos (linguagem multimídia). Todos esses processos, assim, além de serem variáveis, são realizados conforme os propósitos educativosestabelecidos pelo professor em relação com o aluno, a turma, a instituição escolar e o programa curricular. 7Processos de didatização Uma receita de bolo de chocolate, por exemplo, texto que faz parte do gênero culinário, pode ser acompanhada de notas explicativas redigidas e adicionadas pelo professor no final da página em que o texto se encontra, quando inserida em processos de didatização que se voltam para a sua leitura, a compreensão social do gênero e do seu funcionamento estrutural (tais como, notas que se dediquem a explicar para uma turma dos primeiros ciclos do ensino fundamental I o que são os termos, medidas e temperaturas e como proceder para realizá-las). O trabalho pedagógico com esse mesmo texto pode levar o professor a fazer uso de infográficos construídos a partir da mesma receita de bolo de chocolate, para levar os alunos a estudar as relações construídas entre diferentes semioticidades (linguagens verbal e visual) com o propósito de instruir o leitor a preparar um prato específico (função social desse gênero culinário, função que não deve ser perdida de vista no trabalho com textos autênticos). Sequências didáticas: etapas que guiam os processos de didatização Dentro da proposta teórica do Interacionismo Sócio Discursivo, Guimarães (2006) apresenta uma refl exão teórico-metodológica sobre o trabalho com o gênero textual e/ou discursivo na esfera escolar. Tal perspectiva se baseia na noção de linguagem como prática social, cujas atividades comunicativas entre os sujeitos se materializam nas interações e se realizam por meio de um gênero. Assim, a partir da refl exão trazida por essa autora, observamos que, em um primeiro momento, quando um professor passa a indagar sobre quais gêneros devem ser trabalhados em uma turma de um dado ciclo, essa mesma decisão já faz parte dos processos didáticos em porvir, uma vez que essa decisão está relacionada aos objetivos de ensino-aprendizagem que foram defi nidos a partir dos propósitos educativos contextualizados pelo professor. Guimarães (2006) propõe, desse modo, a elaboração de um modelo didático do gênero, que foi escolhido para ser ensinado, por meio de três considerações: (a) dos conhecimentos prévios/“acumulados” e/ou compartilhados sobre os gêneros, conhecimentos esses que são vários (os estudantes de uma mesma turma não apresentam conhecimentos uniformes, mas variáveis); (b) das “competências” dos alunos, as quais são observadas pelos professores; e (c) dos objetivos selecionados e definidos para o ensino-aprendizagem conforme as necessidades e os interesses da turma. A relação entre esses três elementos Processos de didatização8 é importante para a criação do modelo didático de gênero ou plano geral do gênero de texto. É após a elaboração desse plano geral que o professor passará a se ater na preparação da(s) sequência(s) didática(s). À luz das discussões de Schneuwly, Dolz e Noverraz (2004), a sequência didática é definida como um conjunto de atividades discursivas escolares que são sistematicamente e estruturalmente organizadas a partir do eixo de um gênero. Por meio da organização das aulas e das sequências didáticas, o professor possibilita ao aluno ter acesso e compreender o funcionamento social de um determinado gênero de acordo com as situações sociais e retóricas que geram as suas práticas na sociedade. Schneuwly, Dolz e Noverraz (2004) sugerem a estruturação das sequências didáticas de um plano geral do gênero do texto ou de um modelo didático de gênero da seguinte forma: 1. Inicialmente, o professor se detém na apresentação da situação comu- nicativa do gênero abordado. Essa situação deve ser apresentada em relação aos modos de produção, circulação e recepção, aos papéis dos sujeitos envolvidos, aos valores veiculados e construídos pelo gênero, à sua composição estrutural e estilística, etc. 2. Posteriormente, o professor pode sugerir a elaboração de uma produção textual inicial (oral/escrita) tendo em vista a necessidade de fazer um levantamento prévio sobre os conhecimentos que os alunos já apresen- tam sobre o gênero em questão. Essa produção inicial permite muitas vezes que o professor replaneje as suas sequências ao longo do tempo e espaço. 3. Feita essa produção textual inicial, o professor passa a elaborar ativida- des didáticas para trabalhar as questões que foram emergindo durante diferentes momentos (Schneuwly, Dolz e Noverraz (2004) caracterizam tal momento por meio da categoria chamada módulos). Questões como a apresentação da situação comunicativa, os conteúdos elaborados, o planejamento e a análise textual, etc. podem ser consideradas para as atividades que serão elaboradas. 4. Disso, é interessante que o professor possa fazer um registro do que os alunos aprenderam durante o trabalho com os textos autênticos do gênero. Esse momento, fundamental para o planejamento didático presente e futuro do gênero abordado, é chamado por Schneuwly, Dolz e Noverraz (2004) de capitalização de aquisições. 5. Por fim, sugere-se que o professor possa preparar uma atividade di- dática de uma segunda produção textual (ou uma produção textual final) com os seus alunos. Essa produção escrita posterior permite 9Processos de didatização que os estudantes revisem o que aprenderam e coloquem em prática os conhecimentos que foram adquiridos ao longo das sequências do planejamento didático. Nesse momento, pode-se fazer uso da produção primeira/inicial dos alunos, uma vez que esta pode ajudar o professor a avaliar o processo de ensino-aprendizagem do estudante e de toda a turma, além das dificuldades encontradas. Portanto, elaborar propostas de sequências didáticas, as quais incluem os processos de didatização tomados como importantes a partir do texto autêntico do gênero, evidencia a necessidade de um trabalho orientado, estruturado, re- flexivo e organizado pelo professor (de forma aberta e dinâmica); considerando as finalidades, isto é, os objetivos definidos a serem atingidos nas situações interativas a serem trabalhadas. 3 Usos dos textos didatizados São inúmeros os gêneros textuais/discursivos porque são também muitas as manifestações das nossas atividades comunicativas. Nos processos de ensino-aprendizagem da língua materna e da língua estrangeira, os gêneros são, assim, os elementos integradores: é por meio deles que apreendemos e concebemos as realidades, isto é, que tecemos as nossas relações sociais. Assim, os trabalhos didático-pedagógicos desenvolvidos em sala de aula são práticas que têm como eixo os usos sociais, as situações enunciativas, as atividades comunicativas. Em tais trabalhos, três unidades básicas ou eixos se destacam: a leitura, a produção textual e a análise linguística (GERALDI, 1997). É por meio dessas unidades que, conforme retomam Pereira e Rodrigues (2016, p. 39), “[…] o professor potencializa/expande os usos concretos da linguagem nas suas diversas possibilidades de uso”. Ao refletir sobre os processos de didatização dos textos dos mais variados gêneros, encontramos em Marcuschi (2007) uma observação fundamental para o nosso estudo: os gêneros, quando trazidos para a esfera escolar, seja qual forem os propósitos/projetos/usos, são alvos de modificações e/ou alte- rações, em especial no tocante aos aspectos funcionais/sociais/comunicativos e conteudísticos de dado gênero (envolve o conteúdo temático), mas também quanto às estruturas linguísticas gerais (envolve estilo) e aos participantes, seus papéis e os usos que fazem da linguagem (envolve a composição). Tendo em vista os diferentes propósitos educativos, projetos pedagógicos e usos sociais dos gêneros, os textos autênticos podem ser usados (e o são) Processos de didatização10 de variadas maneiras, tais como, em uma prova semanal, uma avaliação nacional, uma avaliação escolar mensal, bimensal ou semestral, uma avalia- ção internacional, um livro didático, um manual pedagógico, uma ficha de estudo, um conjunto de sequencias didáticasde oficinas de produção textual, um programa curricular, etc. Dito de outro modo, o livro didático, o manual pedagógico, a gramática normativa, o currículo de língua-portuguesa guiarão a seleção de aspectos do texto de um gênero que fará parte dos processos de ensino-aprendizagem a serem didatizados. E, mesmo que tal texto do gênero seja estudado (ou objetivado a ser estudado) em concordância com a sua função social no mundo, é importante considerar que outras funções farão parte do uso do texto autêntico do gênero, a saber, a de um objeto de ensino a ser didatizado para fins específicos. Como afirma Marcuschi (2007, p. 62): E [tal cenário] não poderia ser diferente, dado que à escola é atribuída a ta- refa, em nossa cultura, não apenas de favorecer o ensino-aprendizagem dos conhecimentos historicamente construídos pela humanidade, mas também de propiciar o acesso aos bens culturais elaborados pelos diversos povos. Como isso, na esmagadora maioria das vezes, não pode ser feito diretamente, recorre-se à transposição didática, que transforma os saberes socialmente elaborados em objetos de ensino. Então, na esfera escolar o professor e o aluno fazem uso variado de uma certa quantidade de gêneros que circulam nas esferas da comunicação humana; contudo estes, mesmo que trabalhados tendo em vista as suas condições de produção, recepção e circulação do “mundo” (fora do espaço escolar), o contexto sociocomunicativo de uso e didatização do texto será inevitavel- mente um outro, com outras motivações, o que leva à instauração de outras possibilidades comunicativas. Assim, os processos de didatização do texto de um gênero, considerando os eixos ou as unidades de oralidade, leitura (e escuta), análise linguística e produção escrita se constituem por meio de diferentes planejamentos, projetos e teorizações postas em questão. Cada uma dessas unidades — e as suas inter-relações — pedem procedimentos distintos, procedimentos esses que são guiados pelos objetivos educacionais em jogo. Além disso, se gêneros diferentes solicitam competências, habilidades e ações também diferentes, um mesmo gênero não pode ser trabalhado da mesma forma. Imagine, então, um texto de um gênero! A abordagem didática-pedagógica dos textos autênticos que se realizam nos gêneros e que circulam nas numerosas esferas da atividade humana — tais como, a jornalística, a literária, a científica, a cotidiana, a musical, a humorística do cotidiano, etc. —, quando situada contextualmente, 11Processos de didatização e tendo em vista as necessidades e os interesses dos alunos, e as ações dos professores, enriquece e possibilita uma compreensão ativa-responsiva das práticas comunicativas que ocorrem no mundo. Por fim, destacamos ainda que o ensino-aprendizagem e os usos dos textos dos gêneros não devem apenas considerar a sua funcionalidade comunicativa, mas as relações que esta estabelece com a sua estrutura linguística (estilo) e com os usos feitos pelos sujeitos na relação (composição), elementos esses que são caracterizados por Bakhtin (2003) como fundamentais para compreender o gênero como uma atividade, um evento social e discursivo. Essa visão é a que se fundamenta na língua/linguagem como atividade social, espaço axiológico de interação, cujas práticas sociais de leitura, oralidade, escuta e escrita têm propósitos e são situadas especificamente em determinados contextos. Conforme discute Bakhtin (2003), os gêneros são tipos relativamente estáveis de enunciados que constituem as várias esferas discursivas (da atividade humana), tais como a esfera do cotidiano, a esfera jornalística ou midiática, a esfera humorística, a esfera científica, entre muitas outras. Essas práticas discursivas são eventos sociais e culturais, que se manifestam na e pela sociedade, e que são compartilhados por uma coletividade. Essas atividades se realizam em textos (verbais, visuais, verbo-visuais/ multimodais) e organizam as nossas atividades comunicativas por meio de propósitos específicos. Há um número ilimitado de gêneros, uma vez que são muitas as nossas maneiras de comunicação no dia a dia. Ainda segundo esse pensador russo, os gêneros são caracterizados por um conteúdo temático (o objeto discursivo tratado, o tema do gênero), um estilo (os elementos estruturais-linguísticos, as escolhas lexicais-discursivas, que são realizados em um gênero) e uma composição (a manifestação textual dos recursos utilizados pelos sujeitos na realização da comunicação) (BAKHTIN, 2003; PEREIRA; RODRIGUES, 2016). Processos de didatização12 BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. In: BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. BUNZEN, C. O tratamento da diversidade textual nos livros didáticos de português: como fica a questão dos gêneros? In: SANTOS, C. F.; MENDONÇA, M.; CAVALVANTE, M. C. B. (org.). Diversidade textual: os gêneros na sala de aula. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. GERALDI, J. W. Concepções de linguagem e ensino de português. In: GERALDI, J. W. (org.). O texto na sala de aula. São Paulo: Ática, 1997. GUIMARÃES, A. M. M. Construindo propostas de didatização de gênero: desafios e possibilidades. Revista Linguagem em (Dis)curso, v. 6, n. 3, p. 347-374, set./dez. 2006. Disponível em: http://linguagem.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/linguagem- -em-discurso/0603/060301.pdf. Acesso em: 7 abr. 2020. MARCUSCHI, B. Redação escolar: breves notas sobre um gênero textual. In: SANTOS, C. F.; MENDONÇA, M.; CAVALCANTE, M. C. B. (org.). Diversidade textual: os gêneros na sala de aula. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. PEREIRA, R. A.; RODRIGUES, R. H. Gêneros como articuladores do ensino e da aprendiza- gem das práticas de linguagem. In: SILVA, W. R.; LIMA, P. S.; MOREIRA, T. M. (org.). Gêneros na prática pedagógica: diálogos entre escolas e universidades. Campinas: Pontes, 2016. SANTOS, C. F. O ensino da língua escrita na escola: dos tipos aos gêneros textuais. In: SANTOS, C. F.; MENDONÇA, M.; CAVALCANTE, M. C. B. (org.). Diversidade textual: os gêneros na sala de aula. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. SCHNEUWLY, B.; DOLZ, J. Os gêneros escolares: das práticas de linguagem aos objetos de ensino. In: SCHNEUWLY, B.; DOLZ, J. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas: Mercado de Letras, 2004. SCHNEUWLY, B.; DOLZ, J.; NOVERRAZ, M. Sequências didáticas para o oral e a escrita: apresentação de um procedimento. In: SCHNEUWLY, B.; DOLZ, J. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas: Mercado de Letras, 2004. VIEIRA, D. A. A didatização de materiais autênticos para o ensino de italiano língua estran- geira. 278 f. Dissertação (Mestrado em Língua, Literatura e Cultura Italianas) - Univer- sidade de São Paulo, São Paulo, 2012. 13Processos de didatização Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Processos de didatização14 Materiais didáticos Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Conceituar material didático. Listar as diversas modalidades de materiais didáticos. Analisar relação entre materiais didáticos e propósitos educativos. Introdução Estamos acostumados a associar o trabalho docente com a escolha de livros didáticos e com o uso de mapas, dicionários etc. Contudo, com o desenvolvimento das tecnologias digitais, surgiram mais modalidades de materiais didáticos, e a necessidade de aproximar as aulas da realidade dos alunos também se intensificou. Dessa forma, é essencial que você, como futuro professor, identifique um material didático, reconheça as características dos diferentes tipos e saiba associá-los aos objetivos pedagógicos.Neste capítulo, você estudará sobre material didático, suas diversas modalidades e a relação entre materiais didáticos e propósitos educativos. 1 O que é material didático? Quando se pensa em ensino e aprendizagem, é natural que se imagine o uso de elementos que auxiliem e facilitem esse processo. Portanto, no âmbito edu- cativo, se um conjunto de elementos é utilizado para fi ns educacionais, como a aquisição de conceitos e o desenvolvimento de habilidades, é considerado material didático. Nesse sentido, de forma ampla, todos os recursos utilizados pelos profes- sores com o objetivo de auxiliar o aluno a aprender podem ser considerados materiais didáticos. Assim, o pressuposto básico para que um material seja considerado didático é que seu uso possibilite uma aprendizagem específica. Um livro, por exemplo, só será considerado material didático se servir de suporte a esse processo. Não basta que o aluno apreenda assuntos culturais e informacionais por meio da leitura; é necessário que essa proposta de leitura esteja associada a um fim pedagógico específico. Em sintonia com esse pen- samento está a definição apresentada por Bandeira (2009, p. 14): “O material didático pode ser definido amplamente como produtos pedagógicos utilizados na educação e, especificamente, como o material instrucional que se elabora com finalidade didática”. Embora essa definição seja ampla, revela a base que sustenta um material didático e sugere a existência de uma diversidade de recursos que podem ser utilizados como pedagógicos. No entanto, no Brasil, é comum que se associe material didático apenas ao uso de livro didático. Isso se deve à estreita rela- ção entre a história da educação brasileira e o uso desse material. Aliás, essa relação é tão próxima que levou à formação e à manutenção de um Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD). Não se pode negar a importância do livro didático, afinal, ele tem um significado cultural e oportuniza e valoriza o desenvolvimento da leitura. Sim: ele pode ser considerado um produto da tecnologia da escrita que contribui diretamente com o desenvolvimento de competências básicas, como a leitura e a escrita. Mas não se pode ignorar que sua capacidade de reunir e organizar em sistema os assuntos que se pretende desenvolver na escola também envolve riscos: engessar o processo de ensino-aprendizagem e induzir à ilusão de que existe um único material que é completo e legítimo. O Decreto 9.099, de 18 de julho de 2017 (BRASIL, 2017a) também sugere uma definição para material didático no Artigo 1º do capítulo I: § 1º O PNLD abrange a avaliação e a disponibilização de obras didáticas e literárias, de uso individual ou coletivo, acervos para bibliotecas, obras pedagógicas, softwares e jogos educacionais, materiais de reforço e correção de fluxo, materiais de formação e materiais destinados à gestão escolar, entre outros materiais de apoio à prática educativa, incluídas ações de qualificação de materiais para a aquisição descentralizada pelos entes federativos (BRASIL, 2017a, documento on-line). Note que, embora o livro didático ocupe um papel bastante relevante na atualidade da educação brasileira, não é o único recurso a ser explorado. O importante é que esse material participe de forma ativa da situação de apren- dizagem planejada pelo professor. É evidente que, por mais qualificado e bem elaborado que seja o material, sozinho ele não cumpre os objetivos educacionais, pois a aprendizagem não ocorre de forma única, instantânea e automática. Materiais didáticos2 Entretanto, um material especializado na situação, nas características dos sujeitos envolvidos, nas bases teóricas que envolvem essa proposta, tende a desempenhar uma função mais adequada e eficaz. Contudo, como afirma Rangel (2006, p. 10): […] o limite para a adequação e eficácia de todo e qualquer material será sempre o que há de próprio e único em toda e qualquer situação, em todo e qualquer sujeito, em todo e qualquer objetivo, em todo e qualquer objeto de conhecimento. É essa singularidade de cada processo de ensino-aprendizagem que explica por que a exploração didática de um mesmo texto, por exemplo, pode servir a diferentes propósitos, ser abordada de diferentes maneiras, repercutir diversamente nos sujeitos implicados, propiciar o recurso a ma- teriais distintos etc. Isso significa que um material será considerado didático quando consegue transmitir ao aluno uma informação, um conceito ou um raciocínio de uma forma mais simples, ou seja, quando transpõe didaticamente um conteúdo complexo de uma área especializada. Além disso, os materiais didáticos contribuem com a concretização de determinados assuntos, aproximando-os da realidade dos alunos. Contudo, para que isso ocorra, é necessário avaliar se o material apresenta uma forma particular de disponibilizar o conhecimento foco de determinada aula. Dessa forma, é fundamental que se analise o potencial pedagógico a partir das características do material. Daí a importância do professor não só como responsável pela seleção dos materiais, mas também como produtor. O docente não pode ser apenas um reprodutor ou alguém que simplifica o conhecimento acadêmico; e sim alguém que produz conhecimento escolar. Portanto, ao produzir e selecionar materiais, é preciso que mantenha uma postura investigativa com fundamentação teórica, por exemplo. Os objetivos metodológicos e sua experiência devem ser ampliados por meio de redes de comunicação entre professores e pesquisadores, ou seja, o docente deve estar atento às investigações acadêmicas, produzir reflexões sobre seu fazer pedagógico e divulgá-lo. Quando o professor atua como produtor de materiais didáticos, reconhece a finalidade educativa e valoriza sua prática. Dessa forma, consegue identificar o verdadeiro potencial do material didático. Para que esse potencial se evidencie, é necessário recorrer à observação do suporte que o viabiliza. Bandeira (2009) afirma que a definição de material didático se vincula ao tipo de suporte que possibilita materializar o conteúdo. Esse suporte classificava-se em impresso e audiovisual. No entanto, com os 3Materiais didáticos meios digitais do século XXI, as novas tecnologias passaram a oferecer suporte a materiais didáticos também. Bandeira (2009) apresenta um esquema que representa a relação do material didático com os suportes que permitem sua leitura ou audição (Figura 1). Figura 1. Relação do material didático com os suportes. Fonte: Bandeira (2009, p. 15). Segundo Bandeira (2009, p. 15): […] o material didático, conjunto de textos, imagens e de recursos, ao ser concebido com a finalidade educativa, implica na escolha de um suporte, im- presso ou audiovisual. No entanto, cada época exibe um conjunto de técnicas, do papiro aos meios digitais no século XXI, estas mudanças revolucionaram a escrita, a produção e a difusão do livro. Em suma, na atualidade, os professores ainda dispõem de materiais im- pressos e audiovisuais como subsídios para suas aulas e para o cumprimento de seus objetivos pedagógicos. Contudo, as novas mídias, que usam compu- tadores e internet, são opções em sintonia com o mundo contemporâneo e com a linguagem dos jovens. Os docentes devem estar atentos às diversas modalidades de materiais didáticos cuja classificação associa-se ao tipo de suporte e à mídia escolhida, assunto da próxima seção. 2 Modalidades de materiais didáticos Existe uma diversidade de materiais didáticos, cada um associado a um pro- pósito e identifi cado com seus suportes e com os envolvidos em sua produção e recepção. Bandeira (2009) classifi ca-os em material impresso (tradicional e inovador); didático audiovisual e material didático em mídias digitais. Vamos conhecer essa diversidade de modalidades. Materiais didáticos4 Sabe-se que no Brasil o material impresso é ainda o recurso didático mais utilizado nas escolas. Seu principal exemplo é o livro didático, que movimenta editoras,governo e escolas no processo de avaliação e adoção. Seu uso remete a uma tradição escolar brasileira, que contribui com a aceitação desse uso por toda a comunidade envolvida. Segundo Bandeira (2009, p. 17), há algumas hipóteses que visam a justificar a supremacia do impresso: - na educação, o material impresso, tradicionalmente conhecido, sempre foi aceito por alunos, professores e especialistas; - de fácil manuseio, o material impresso pode ser utilizado em todas as etapas e modalidades da educação, o aluno e o professor podem consultá-lo fora da sala de aula - o material impresso não requer equipamento ou recurso tecnológico para sua utilização. Como se nota, a falta de acesso a computadores e internet é um fator significativo para a escolha de material impresso. Mas, nesse contexto, há um fato curioso: na educação a distância, em que se faz necessário o acesso a meios digitais, também o material mais utilizado é o impresso. É evidente que os materiais híbridos estão em evidência na atualidade, mas é inegável o uso disseminado de materiais impressos, principalmente no Brasil. Esse tipo de material costuma ser acompanhado de um layout que apre- senta uma função específica em colaboração com o texto. Aliás, é comum, principalmente nos livros didáticos, o uso de imagens que dialogam com as partes escritas. A estrutura de cada item na página garante a distribuição da informação e permite que o leitor se organize por meio da divisão do conteúdo textual por unidades, capítulos, títulos, subtítulos, páginas, citações, legendas, glossários etc. Aliás, a criatividade não é característica exclusiva dos textos digitais. É comum que os materiais impressos usem imagens de forma criativa para expressar determinadas informações. Isso contribui com o esclarecimento de incompreensões, pois simplifica o entendimento do conteúdo. Bandeira (2009, p. 80) afirma que as ilustrações mais comuns aplicadas nos materiais impressos são: - quadros, gráficos, tabelas etc.; - mapas, plantas, projeções, informações cartográficas etc.; - diagramas, sequenciais, tipo árvore, rizomáticos etc.; - storyboard, roteiros, quadrinhos, tiras gráficas etc.; - fotografias, imagens de obras artísticas etc. 5Materiais didáticos Talvez essa preferência pelo livro tenha relação com a falta de infraestrutura, porém se sabe que os avanços tecnológicos facilitam a combinação de mídias. Isso não significa que o material impresso seja antiquado ou de pouco valor para educação. Significa apenas que é importante que todas as possibilidades sejam analisadas para que se verifique a melhor opção para cada situação. Nas palavras de Bandeira (2009, p. 19): Inúmeros pesquisadores destacam que a digitalização das informações pos- sibilitou a convergência das formas principais da comunicação humana, resumidas pelo material impresso (jornais, livros, textos), o audiovisual (televisão, vídeo, cinema), as telecomunicações (telefone, satélite, cabo) e a informática (computadores, programas). Contudo, cada mídia tem sua espe- cificidade e pode contribuir com a aprendizagem de maneira particular. A escolha depende de análise pelas equipes envolvidas da aplicação do material e das possibilidades de integração das mídias no planejamento dos cursos. Exemplificando, independentemente da mídia utilizada para elaboração do material didático de educação a distância, se faz necessário um material que oportunize a interatividade e a relação entre teoria e prática. Afinal, o material é, muitas vezes, o maior contato que o aluno tem com o curso, e a sequência de ideias e conteúdos é essencial para sua organização. Portanto, a escolha do material didático depende do conteúdo, dos objetivos, das atividades de aprendizagem, da etapa da educação (e nível) e da modalidade da educação. Todos esses fatores interferem na escolha, por isso não se pode supervalorizar um material em detrimento de outro. O material audiovisual, como o próprio nome indica, utiliza som e imagem. Esse tipo de material costuma atrair a atenção dos alunos, mas exige que professor e alunos interajam. Moran (1995, apud SILVA et al., 2008) indica algumas propostas de utilização de vídeos em sala de aula (Quadro 1). Note que essas propostas exploram os produtos da televisão e do cinema, os aspectos sonoro e visual e abrem espaço para as multimídias computacio- nais. Assim, o material audiovisual “[…] deverá explorar a especificidade da linguagem, ou seja, as possibilidades de direção e de combinação entre recursos de áudio (trilha sonora, paisagem sonora, música, diálogos, ruídos etc.) e recursos visuais (atores, dramatização, animação, imagens, simulações etc.)” (BANDEIRA, 2009, p. 20). Materiais didáticos6 Sensibilização Um bom vídeo é interessantíssimo para introduzir um novo assunto, para despertar a curiosidade, a motivação para novos temas. Isso facilitará o desejo de pesquisa nos alunos para aprofundar o assunto do vídeo e da matéria. Ilustração O vídeo muitas vezes ajuda a mostrar o que se fala em aula, a compor cenários desconhecidos dos alunos. Faz com que a vida se aproxime da escola através do vídeo. Simulação É uma ilustração mais sofisticada. O vídeo pode simular experiências de química que seriam perigosas em laboratório ou que exigiriam muito tempo e recursos. Um vídeo pode mostrar o crescimento acelerado de uma planta, de uma árvore — da semente até a maturidade — em poucos segundos. Conteúdo de ensino Vídeo que mostra determinado assunto, de forma direta ou indireta. De forma direta, quando informa sobre um tema específico orientando a sua interpretação. De forma indireta, quando mostra um tema, permitindo abordagens múltiplas, interdisciplinares. Produção Como documentação, registro de eventos, de aulas, de estudos do meio, de experiências, de entrevistas, depoimentos. Isso facilita o trabalho do professor, dos alunos e dos futuros alunos. Como intervenção: interferir, modificar um determinado programa, um material audiovisual, acrescentando uma nova trilha sonora ou editando o material de forma compacta ou introduzindo novas cenas com novos significados. Vídeo como expressão, como nova forma de comunicação, adaptada à sensibilidade principalmente das crianças e dos jovens. Quadro 1. Propostas para a utilização de vídeos em sala de aula (Continua) 7Materiais didáticos Na Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2017b), a indicação do uso de materiais audiovisuais aparece principalmente para as áreas relacionadas à linguagem, porém, desde a Educação Infantil, essa indicação já aparece no item campos de experiências. Observe: Conviver com diferentes manifestações artísticas, culturais e científicas, locais e universais, no cotidiano da instituição escolar, possibilita às crianças, por meio de experiências diversificadas, vivenciar diversas formas de expressão e linguagens, como as artes visuais (pintura, modelagem, colagem, fotogra- fia etc.), a música, o teatro, a dança e o audiovisual, entre outras (BRASIL, 2017b, p. 37). Os materiais audiovisuais costumam transmitir informação de forma linear e requerem um dispositivo tecnológico que permita o registro e a transmissão. Os meios audiovisuais utilizados atualmente podem ser classificados em projetáveis e não projetáveis, na divisão proposta por Bandeira (2009). Confira o Quadro 2 a seguir que sintetiza essa classificação. Fonte: Adaptado de Moran (1995). Avaliação Dos alunos, do professor, do processo. Espelho Vídeo-espelho para análise do grupo e dos papéis de cada um, para acompanhar o comportamento de cada um do ponto de vista participativo, para incentivar os mais retraídos e pedir aos que falam muito para darem mais espaço aos colegas. Também é de grande utilidade para o professor se ver, examinar sua comunicação com os alunos, suas qualidades e defeitos. Integração/suporte De outras mídias. Vídeo interagindo com outras mídias como o computador, o CD- ROM, com os videogames, com a internet. Quadro1. Propostas para a utilização de vídeos em sala de aula (Continuação) Materiais didáticos8 Fonte: Adaptado de Bandeira (2009). Não projetáveis Projetáveis Cartaz Diorama Display Flipchart Impressão fotográfica Modelo Painel Portfólio Pôster Quadros (vários tipos) Slide Transparência Imagem digital (fotografia) Quadro 2. Síntese da divisão dos meios audiovisuais Os materiais essencialmente associados ao som são fundamentais para o processo de ensino-aprendizagem, pois potencializam as características dos audiovisuais aplicados com a integração entre imagem e som. Os recursos como som ambiente, fundo musical, efeitos sonoros e tantas outras combinações ajudam a criar uma atmosfera, um conceito ou expressar uma ideia. Outros trabalhos de criação ou gêneros publicitários como o jingle, spot, trilha e a vinheta, têm sido usualmente produzidos para os meios de comunicação como, por exemplo, televisão, rádio e cinema (BANDEIRA, 2009, p. 171). Outra modalidade de material didático se refere às novas mídias, que: […] podem ser entendidas como as possibilidades oferecidas pelas tecnologias de informação e comunicação (TIC), com a produção, armazenagem, distri- buição de informação e entretenimento, por exemplo, no uso de computadores e redes (como a Internet) (BANDEIRA, 2009, p. 21). Vale ressaltar que, desde o surgimento do computador pessoal, os pes- quisadores em educação passaram a investigar de que maneira ele poderia contribuir para a aprendizagem nas escolas. Nesse sentido, a web e o computador oferecem variadas possibilidades de uso pedagógico. Existem aplicativos em CD e DVD que já são utilizados pelas escolas há mais tempo. Aliás, muitos livros didáticos são acompanhados 9Materiais didáticos de CD, o que facilita o acesso e a reprodução do conteúdo. Um dos pontos interessantes desse tipo de material é a possibilidade de consultar uma parte específica, como forma de hipertexto. Considerado uma forma mais simples da hipermídia, o hipertexto consiste em um documento eletrônico criado pela combinação de um ou mais elementos: texto, gráfico, áudio, vídeo. A informação apresenta-se na tela do computador e permite uma leitura não linear com encadeamentos semânticos (BANDEIRA, 2009, p. 24). Vale ressaltar que esses materiais possibilitam a exploração de todos os tipos de textos, inclusive de som e de imagem. Nesse sentido, o leitor se torna produtor também, pois participa da estruturação do texto, já que este não exige uma leitura linear. Essa característica se intensifica nos materiais oferecidos pela web, que são estruturados em rede. Assim, constata-se a presença da hipermídia, que: “[…] resulta, do ponto de vista da linguagem e comunicação, da combinação não linear e interativa das possibilidades de acesso simultâneo a determina- dos textos, imagens e sons, utilizando-se de uma ou mais telas eletrônicas” (BANDEIRA, 2009, p. 24). A hipermídia oportuniza o uso de diferentes espaços e ferramentas como materiais didáticos. A web apresenta os ambientes virtuais de aprendizagem, que permitem o armazenamento, a administração e a disponibilização de conteúdos no formato web. Nesses ambientes, utilizados principalmente pelos cursos de ensino a distância, potencializam-se a interação e o trabalho coletivo. Na realidade, com os avanços das tecnologias, o computador passou a permitir múltiplos usos, como a realização de apresentações com slides e o armazenamento de informações. Além disso, podem ser explorados jogos educativos, simuladores e atividades semelhantes às tradicionais de sala de aula. Os jogos, especialmente, embora utilizados há bastante tempo nas salas de aula, com as novas tecnologias ganham novas possibilidades e estreitam as relações com os interesses dos jovens da atualidade. Afinal, “Milhões de jovens assimilaram os jogos em suas vidas cotidianas, numa associação entre cultura, tecnologia e educação que para o autor pode facilitar a aquisição de conhecimentos técnicos” (BANDEIRA, 2009, p. 279). Materiais didáticos10 Vale ressaltar que o aparelho celular pode ser um instrumento muito útil para a educação, pois a mobilidade e as condições de acesso cada vez mais facilitadas podem contribuir com a familiarização dos estudantes “[…] com práticas acadêmicas a partir da criação de conteúdo (texto, imagem, vídeo e áudio)” (BANDEIRA, 2009, p. 322). Em suma, existe uma variedade de modalidades de material didático e cada tipo pode contribuir com os objetivos pedagógicos. Esses objetivos e o contexto de uso do material é que determinarão a identificação da melhor alternativa. É preciso analisar a relação entre materiais didáticos e propósitos educativos, assunto da próxima seção. 3 Relação entre materiais didáticos e propósitos educativos Não é necessário que um professor tenha muita experiência para se dar conta de que o material didático não garante por si só a qualidade e a efetividade do ensino e da aprendizagem. Entretanto, a função desses materiais é de tal modo signifi cativa que se torna fundamental analisar a relação entre materiais didáticos e propósitos educativos. Para iniciar essa reflexão, é preciso constatar a singularidade de cada processo de ensino-aprendizagem. Cada processo tem determinados sujeitos envolvidos, os fundamentos teóricos, a teoria do momento, as situações, ou seja, um contexto específico. É exatamente por isso que um material não pode ser previamente considerado adequado ou inadequado. Para Rangel (2006), no processo de seleção de materiais didáticos adequados, é preciso considerar, como critérios de escolha, cada um dos elementos que estão em jogo no processo pedagógico: - os sujeitos envolvidos: estão eles contemplados, em suas características, possibilidades e expectativas, no material cogitado? - os objetivos visados: que subsídios o material em questão poderá fornecer para que se atinjam mais facilmente as metas perseguidas? - a situação: a organização do tempo e do espaço escolares propicia o uso ade- quado do recurso pretendido? Há equipamentos, espaços, recursos humanos, formas de funcionamento da instituição escolar que permitam um bom uso do material? (RANGEL, 2006, p. 15). Note que a escolha do material didático não pode ser aleatória. A análise e a seleção requerem que se associem os objetivos educacionais, os conhecimentos 11Materiais didáticos que se deseja trabalhar, as habilidades que se deseja desenvolver, a sequência de atividades propostas pelo material (ou a sequência que se pretende aplicar com o material) e o grau de adaptação. Assim, o material didático pode contribuir para o desenvolvimento de uma aprendizagem significativa. No Brasil, há um Programa Nacional do Livro Didático, que fornece orien- tações para a escolha desse material didático impresso. A orientação inicial é que o docente avalie a visão geral, a descrição da obra, a análise da obra, e a relação com a sala de aula (BRASIL, 2020). Observe: - Visão Geral: apresenta as características gerais da obra, os propósitos, os referenciais teórico-metodológicos, os conceitos centrais, a abordagem didático-pedagógica e a organização do Manual do Professor e do Manual do Professor Digital, para que você tenha a visão inicial dos livros da coleção e dos pressupostos presentes em todos os volumes que a formam. - Descrição da Obra: descreve, de forma detalhada, a estrutura e a organização dos volumes (número de páginas, capítulos, temas, conteúdos), as relações entre estes e outras informações relevantes da coleção. - Análise da Obra: aponta as qualidades, ressalvas, o arranjo das competências e habilidades da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a formação cida- dã, o respeito à legislação, às diretrizes educacionais, a qualidade do projeto gráfico, ou seja, delineia a proposta pedagógica da obra em sua totalidade: Livro do Estudante, Manual do Professor e o Manual do Professor Digital. Em Sala de Aula: indica, de forma maisexplícita, como a coleção se vincula ao cotidiano do espaço escolar. Aponta suas potencialidades pedagógicas e seus limites, onde você, professor(a), deve atuar mais intensamente, comple- mentando detalhes para além dos livros e das páginas escritas que chegam até os(as) estudantes (BRASIL, 2020, p. 1–2). Note que essa orientação é para a escolha de livros didáticos utilizados em escolas públicas brasileiras, mas ela contribui com a construção de critérios para analisar a relação de materiais didáticos com os propósitos educacio- nais, principalmente com os materiais impressos. Nesses casos, é necessário observar a adequação da seleção de conteúdos e a sequência de conteúdos e de atividades propostas para verificar se contribui com a progressão de aprendizagem planejada pelo docente. Além disso, é preciso se colocar no lugar do aluno e avaliar se a lingua- gem é clara, precisa e acessível, e se as atividades estão em sintonia com o que se deseja desenvolver. Aliás, cada tarefa proposta deve contribuir com a compreensão do aluno sobre o assunto tratado. Atente ao fato de que o material escolhido será utilizado por um público específico, logo, é esse alvo que o material deve atingir. Isso significa que os objetivos pedagógicos passam a ter chance de serem alcançados apenas Materiais didáticos12 quando, na seleção do material, há uma reflexão sobre as necessidades dos alunos e seu perfil. Por outro lado, o professor também tem seus propósitos e tem capacidade, pela sua formação, de identificar os conhecimentos e as estratégias que de- vem ser desenvolvidas para contribuir com a aprendizagem dos alunos. Daí surge a importância de, na seleção de material, ocorrer também a avaliação da presença de informação científica e geral, da relação do material com a disciplina (o que e como ensinar) e a oportunidade de desenvolvimento de conhecimentos práticos e teóricos. Nesse sentido, como afirma Bandeira (2009, p. 126) a produção e a seleção: […] de material didático impresso para a educação formal, em geral, parte-se da análise do projeto pedagógico do curso, do currículo ou do rol de conteúdos. A equipe pedagógica pode usar o currículo ou outro documento equivalente para planejar um cronograma da distribuição do conteúdo de acordo com a duração do curso, programa ou das unidades letivas (bimestre, semestre, quadrimestre, anual etc.). Com a ampliação da educação a distância e a disseminação de cursos nesta modalidade, intensificou-se a relação entre material didático e propósitos educativos. Afinal, o próprio ambiente de aprendizagem do aluno é virtual. Dessa forma, a necessidade de interação desse aluno com o material se torna ainda maior. Além disso, há uma grande variedade de cursos virtuais voltados para públicos específicos. Essa especificidade aumenta a responsabilidade de escolha e/ou produção de material didático. Nesse caso, é preciso analisar três pontos essenciais: a metodologia, a mídia e o material. A metodologia depende das necessidades oriundas da escolha do tipo de aprendizagem que se deseja desenvolver; o formato de mídia deve ser compatível com a mensagem a se transmitir; o material deve ser específico para o formato da mídia. Esses cuidados permitem que o material se torne pedagógico. Além disso, é fundamental considerar a legislação vigente. Bandeira (2009) propõe um esquema didático como sugestão da relação entre as etapas de seleção das mídias, considerando cada passo na tomada de decisão. Observe a Figura 2 a seguir. 13Materiais didáticos Figura 2. Etapas de seleção de mídias. Fonte: Adaptada de Bandeira (2009). Mídias Seleção do formato da mídia Design do material didático Seleção Modificação Produção Tecnologias de ensino-aprendizagem Dessa forma, na educação a distância, as demandas e o perfil do público-alvo devem ser levantados e as potencialidades e limitações de cada mídia deve ser analisada. Assim, é possível verificar se as linguagens estão em sintonia com os objetivos gerais e específicos orientadores da aprendizagem e se há um equilíbrio entre a formação profissional e a formação humanística. Além disso, é importante que se disponibilize a integração de várias mídias complementares. Os materiais didáticos, principalmente com o advento das tecnologias digitais, contribuem com o desenvolvimento de uma educação de qualidade; daí surge a necessidade de expandir o acesso a materiais diversificados. Afinal, no contexto da cibercultura, é uma preocupação pertinente incentivar uma maior integração das novas tecnologias na educação. Entretanto: As TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) aplicadas à educação não ocorrem em sintonia com as mudanças na sociedade, diversas formas de resistência e barreiras impedem a sua apropriação, segundo os pesquisadores (BARRETO, 2006, p. 28) que ressaltam: “Ficam reduzidas a ferramentas na medida em que a escola não dá conta dos novos regimes cognitivos e novas formas de pensar” (BANDEIRA, 2009, p. 232). Portanto, há uma necessidade de reflexão sobre o tema e de proposição e aplicação de ações para que a escola dê conta dessas novas formas de pensar. Para que a escola se aproxime dos alunos ela deve estar inserida na sociedade. Não basta oferecer as ferramentas que os estudantes já conhecem; é preciso inseri-las no planejamento de tal forma que se associem ao processo educacional e facilitem a aprendizagem. Materiais didáticos14 BANDEIRA, D. Materiais didáticos. Curitiba: IESDE, 2009. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: educação é a base. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2017b. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/ index.php?option=com_docman&view=download&alias=79601-anexo-texto-bncc- -reexportado-pdf-2&category_slug=dezembro-2017-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 12 mar. 2020. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Guia digital PNLD - 2020. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2020. (Geografia). Disponível em: https://pnld.nees.com.br/assets-pnld/ guias/Guia_pnld_2020_pnld2020-geografia.pdf. Acesso em: 12 mar. 2020. BRASIL. Presidência da República. Secretaria Geral. Decreto n. 9.099, de 18 de julho de 2017. Dispõe sobre o Programa Nacional do Livro e do Material Didático. Brasília, DF, 2017a. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/decreto/ D9099.htm. Acesso em: 12 mar. 2020. MORAN, J. M. O vídeo na sala de aula. Comunicação & Educação, n. 2, p. 27-35, jan./ abr. 1995. RANGEL, E. O. A escolha do livro didático de português: caderno do professor. Belo Horizonte: Ceale, 2006. Disponível em: http://www.ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/ files/uploads/Col.%20Alfabetiza%C3%A7%C3%A3o%20e%20Letramento/Col%20Alf. Let.%2014%20Escolha_Livro_Portugues.pdf. Acesso em: 12 mar. 2020. SILVA, T. I. et al. O uso de material didático em formato áudio-visual (vídeos) para o ensino de geomorfologia. In: SIMPÓSIO NACIONAL DE GEOMORFOLOGIA – SINAGEO, 7., 2008, Belo Horizonte. Anais [...]. Belo Horizonte, MG: UGB, 2008. Disponível em: http:// lsie.unb.br/ugb/sinageo/7/0395.pdf. Acesso em: 12 mar. 2020. Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. 15Materiais didáticos Propriedades linguísticas do texto didático Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar as propriedades linguísticas inerentes aos textos didáticos à luz de seus propósitos. Avaliar as propriedades linguísticas em diferentes textos didáticos. Relacionar as propriedades linguísticas aos mecanismos de construção da didatização textual.Introdução O que faz uma união de frases ser considerada texto? Quais propriedades constituem a textualidade? Essas mesmas características são inerentes ao texto didático? O texto didático tem uma finalidade pedagógica, ou seja, é utilizado para facilitar a aprendizagem dos alunos. Para que cumpra esse objetivo, as propriedades linguísticas inerentes a qualquer texto devem estar voltadas a essa intenção. Neste capítulo, você vai estudar sobre as propriedades linguísticas inerentes aos textos didáticos à luz de seus propósitos, a avaliação dessas propriedades e a relação entre as propriedades linguísticas e os meca- nismos de construção da didatização textual. 1 Propriedades linguísticas inerentes aos textos didáticos O texto didático surgiu da necessidade de multiplicar o discurso do professor e de adaptar os textos fi losófi cos, científi cos e históricos ao contexto escolar. Desde o Renascimento, novos pensamentos surgiram e a prática pedagógica cada vez mais deixou de preocupar-se apenas com a transmissão de conheci- mento e passou a focar nos meios de ensino. Santos (2001, p. 15) acredita que, com esse contexto, o “[…] texto-fonte, progressivamente, cedeu lugar a um outro tipo e texto. Trata-se do texto para o ensino, ao qual se tem tradicional- mente denominado didático, no sentido próprio de didaskein, no grego, isto é, relativo à instrução, que tem por fi nalidade o ensinar”. Dessa contatação, revela-se a característica primordial desse tipo de texto: ele necessariamente tem de ensinar. Esse aspecto o diferencia, por exemplo, dos textos literários e científi cos, pois a literatura tem função estética e os artigos e resenhas visam a uma discussão sobre as teorias e pesquisas. Evidentemente, esses textos podem ser objeto de estudo e podem contribuir com o ensino, mas não foram construídos com esse fi m. O texto didático tem um público-alvo determinado: o aluno, e se remete a esse aprendiz constantemente, pois essa é a sua necessidade “[…] a fina- lidade de ensinar — ou a sua dimensão pragmática — que lhe é necessária, instaura-se como um a priori, o que deve imprimir, na sua organização — ou na sua dimensão sintático-semântica — marcas específicas” (SANTOS, 2001, p. 19). Todo texto didático é, entretanto, antes de tudo, um texto, logo deve apresentar propriedades textuais, como coesão e coerência, precisão e clareza, argumentatividade e diagramação. Esses elementos contribuem com a constituição da textualidade, traço que identifica um texto. Na perspectiva das teorias enunciativas, os estudos linguísticos consideram o texto como unidade comunicativa que se realiza no plano do sistema linguístico e no plano do uso. Nas palavras de Marcuschi (apud SANTOS, 2001, p. 21), o texto passa de “[…] um ato de comunicação unificado no complexo universo de ações humanas” a um “[…] resultado atual de operações que controlam e regulam as unidades morfológicas, as sentenças e os sentidos durante o emprego numa ocorrência comunicativa”. Algo que aparentemente parece um texto será, apenas, um amontoado de frases desconexas se não houver textualidade, pois sem esses elementos não se constrói uma unidade de sentido. Para que uma palavra seja conectada a outra e uma oração se ligue a outra, formando um entrelaçamento de ideias, é preciso que haja coesão e coerência nesse texto. Para Fávero (2009), coesão e coerência são dois fenômenos distintos, mas que se complementam. Observe: Propriedades linguísticas do texto didático2 A coesão, manifestada no nível microtextual, refere-se aos modos como os componentes do universo textual, isto é, as palavras que ouvimos ou vemos, estão ligados entre si dentro de uma sequência. A coerência, por sua vez, manifestada em grande parte macrotextualmente, refere-se aos modos como os componentes do universo textual, isto é, os conceitos e as relações sub jacentes ao texto de superfície, se unem numa configuração, de maneira reciprocamente acessível e relevante. Assim a coerência é o resultado de processos cognitivos operantes entre os usuários e não mero traço dos textos (FÁVERO, 2009, p. 10). Veja o Quadro 1 a seguir, apresentado por Santos (2001), que revela os fatores de coesão e coerência. Fonte: Adaptado de Santos (2001). Fatores de coesão Fatores de coerência Repetidores: recorrência, paralelismo, definitivização Fatores de conexão conceitual-cognitiva Relações lógicas: relações causais, pressuposições, implicações, argumentação, sentidos Modelos cognitivos globais: conceitos, frames, esquemas, scripts, planos, macroestruturas Substituidores: paráfrase, pró-formas nominais, adverbiais, verbais e pró-sintagmas, pronominalização (anáfora, catáfora, exófora), elipse Fatores de conexões de ações (pragmáticos) Intencionalidade, informatividade, situacionalidade, aceitabilidade, intertextualidade Sequenciadores: tempo, aspecto, disjunção, conjunção, contrajunção, subordinação, tema-rema Moduladores: entoação Quadro 1. Fatores de coesão e coerência Como se nota, a coesão se associa à sequência superficial do texto: os elementos coesivos inter-relacionam-se, compondo o texto. Já a coerência associa-se à continuidade de sentidos: é produto dos processos cognitivos junto com e a partir da organização dos elementos coesivos. Para Santos (2001, p. 3Propriedades linguísticas do texto didático 38), essa distinção estabelece-se “[…] apenas metodologicamente, uma vez que coesão e coerência são aspectos do mesmo fenômeno. Ambas são propriedades pelas quais os textos podem ser considerados bem ou malformados”. Dessa forma, um texto com falta de coesão é aquele sem conexão linear, e um texto com falta de coerência é aquele que não permite que o leitor perceba a continuidade de sentido. Quando há falha entre a intenção comunicativa e o contexto situacional, é sinal de que há problemas de coesão e coerência. Uma maneira de fugir desse risco é obedecer à hierarquia do contexto linguístico sobre o extralinguístico: a sensação de que a informação avança surgirá se o primeiro enunciado novo surgir em seguida como informação compartilhada. Assim, a essa nova informação se refere nova predicação. Aliás, é a coerência a responsável pela explicação da relação de pertinência na sequência textual. Nas palavras de Santos (2001, p. 43), “a incompatibilidade, que poderia romper a coerência de um texto, decorre do fato de serem postos em relação dois enunciados — ou partes — que não podem ser simultaneamente verdadeiros pois a aceitação de um implica a negação do outro e vice-versa”. Outro conjunto de propriedades textuais é formado pela precisão e pela clareza. Ambas são necessárias à planificação textual, à organização sintática e semântica e à adequação à situação de produção. Para ser claro, é preciso se fazer entender. Para tanto, o autor precisa en- contrar formas de facilitar a leitura de seu receptor para que o texto se torne compreensível. Nesse sentido, é importante a construção de períodos curtos, a opção pela ordem direta e a revisão da escrita para eliminar ambiguidades. Aliás, o uso de vocabulário preciso contribui com a ausência de frases de duplo sentido. Ordem direta ocorre quando a oração obedece à seguinte ordem: sujeito → verbo → complementos Quando se trata o texto como discurso, se observa a presença de dois componentes: um que ocupa um processo de seleção paradigmática e outro que ocupa um processo sintagmático. Santos (2001, p. 46) associa esses processos às propriedades textuais: precisão e clareza, respectivamente: Propriedades linguísticas do texto didático4 Precisão se estabelece, pois, nos processos de associação e seleção (em relação ao processo de combinação), enquanto a clareza se estabelece no processo de combinação (em relação aos processos de associação e seleção). Esses processos, por sua vez, ocorrem, ao mesmo tempo, nas diferentes dimensões da produção textual, ou seja, nas dimensões macroestrutural, microestrutural e enunciativa (dascondições de produção). Note que precisão e clareza estão presentes em todas as etapas de um texto: na seleção de informações, na planificação, na organização, na construção de frases, etc. Portanto, essas propriedades devem contribuir com a cooperação entre autor e leitor. Espera-se que o texto apresente a quantidade necessária de informação, de forma verdadeira e relevante. O modo como a informação será apresentada é que revelará a clareza do texto. Nesse mesmo contexto se insere o uso de imagens e de exemplos: para que sejam utilizados, devem ser fundamentais para elucidar as informações. Essa mesma orientação serve para o uso de apostos e orações explicativas: é preciso avaliar a relevância e a pertinência. Se o texto é considerado como intercâmbio de ato de fala, se evidencia a natureza interacional da linguagem. Isso significa que, pelo discurso, o emissor tenta agir sobre o interlocutor. Nesse sentido, o ato de argumentar se revela fundamental. Dessa essencialidade surge a propriedade textual denominada argumentatividade. Argumentar é a arte de convencer e persuadir. CONVENCER é saber gerenciar a razão, é falar à razão do outro, demonstrando, provando. Etimologicamente, significa VENCER JUNTO COM O OUTRO (com + vencer) e não CONTRA o outro. Persuadir é saber gerenciar relação, é falar à emoção do outro. A origem desta palavra está ligada à preposição PER, “por meio de”, e a SUADA, deusa romana de persuasão. Significava “fazer algo por meio do auxílio divino”. Mas em que CONVENCER se diferencia de PERSUADIR? Convencer é construir algo no campo das ideias. Quando convencemos alguém, esse alguém passa a pensar como nós. Persuadir é construir no terreno das emoções, é sensibilizar o outro a agir. Quando persuadimos alguém, esse alguém realiza algo que desejamos que ele realize. Muitas vezes, conseguimos convencer as pessoas, mas não conseguimos persuadi-las (ABREU, 2009, p. 25). Note que essa propriedade não se revela dependente das informações e sim da estrutura linguística dos enunciados. Afinal, como os textos têm a finalidade de levar o leitor a determinada conclusão, elabora-se um saber intersubjetivo para impor ou legitimar uma informação. Para tanto, a situação enunciativa e as marcas do discurso buscam influenciar o leitor, ou seja, as palavras são utilizadas como mecanismos linguísticos de concretização dessa persuasão. 5Propriedades linguísticas do texto didático Nas palavras de Santos (2001, p. 52), “entre os fenômenos que restringem os encadeamentos estão os operadores argumentativos, morfemas responsáveis pela orientação argumentativos, ou seja, pela determinação de encadeamentos dos enunciados, os quais encerram ‘instruções’ relativas às estratégias a serem usadas na interpretação dos enunciados”. A parte visual do texto também é considerada propriedade textual. Ela é chamada de diagramação. Esse traço relacionado ao leiaute é responsável pela articulação das imagens (fotos, legendas, ilustrações, etc.) ao texto escrito, ou seja, pela relação entre a linguagem verbal e a não verbal. Essa articulação permite a impressão de uma identidade e associa o conteúdo com o público-alvo. Além disso, organiza os conteúdos, facilitando a navegação do leitor. Nesse sentido, a diagramação contribui com a legibilidade, pois é responsável pela adequação, por exemplo, da faixa etária do público-alvo aos tipos e tamanhos de letra, aos diferentes espaçamentos, à recepção de imagens, etc. Aliás, a organização desse leiaute permite também uma hierarquização, por exemplo, os títulos podem ter fonte maior; trechos podem receber realce. Portanto, a diagramação é essencial, porém não pode chamar mais atenção do que o conteúdo desse texto. Como propriedade textual, ela deve facilitar a leitura e o alcance dos objetivos do autor. Com base na classificação de diferentes estudiosos, Santos (2001) apresenta diferentes funções da imagem: atencional, afetiva, cognitiva, compensatória, explicativa, motivadora, vicária, catalizadora de experiências, decorativa, de representação, de alusão, enun- ciativa ou predicativa, atributiva e de operação. Para a autora, a pertinência, a adequação e a qualidade da diagramação “[…] são proporcionais aos graus de informatividade e compreensão que ela confere ao texto, paralelamente ao grau de imperceptibilidade que lhe é conferido” (SANTOS, 2001, p. 63). Em suma, as propriedades textuais coesão e coerência, precisão e clareza, argumentatividade e diagramação viabilizam a identificação de um texto e são essenciais para a percepção do conteúdo linguístico de um texto didático. Verificar como essas propriedades são atividades na didatização é o assunto da próxima seção. 2 Propriedades linguísticas em diferentes textos didáticos Texto didático é um texto construído para ensinar algo. Portanto, constitui-se das propriedades textuais inerentes a todos os textos no contexto do pro- cesso de ensino-aprendizagem. Para avaliar como as propriedades coesão e Propriedades linguísticas do texto didático6 coerência, precisão e clareza, argumentatividade e diagramação aparecem nos textos didáticos e se são consideradas nas suas produções, é necessário observar a confl uência dos elementos linguísticos-textuais e das condições de enunciação. Segundo Santos (2001, p. 91), “[…] essas propriedades assumem, em textos didáticos (escritos), formas e graus específi cos, inclusive com va- riações relativas a diferentes concepções de ensino, uma vez que este, como fi nalidade necessária do texto didático, faz parte da sua natureza”. Portanto, para analisá-las, não basta identifi cá-las: é preciso verifi car a forma como elas aparecem nos textos analisados. A coesão e a coerência devem contribuir com a aprendizagem do aluno via leitura do texto didático de tal forma que ele consiga estabelecer relações e unidades de sentido. Dentre os mecanismos coesivos, devem-se focalizar “[…] procedimentos de definitivização, procedimentos fóricos e de sequencia- ção – aqui em especial, a progressão temática” (SANTOS, 2001, p. 94). Além disso, uma análise adequada deve observar a conexão entre os conceitos e a proposta de estrutura cognitiva. A articulação entre as informações novas e as já apresentadas é essencial para verificar as intencionalidades. A precisão e a clareza estão relacionadas à seleção e à adequação lexical e às imagens utilizadas. Todos os recursos devem estar em sintonia com o nível de conhecimento desejado, com a faixa-etária destinada e com a finalidade do texto. Nesse caso, se inserem as exemplificações e os recursos de linguagem não verbal. Esses elementos devem ser analisados sob o questionamento: eles contribuem com a precisão e a clareza das informações? Favorecem a aprendizagem do aluno? A argumentatividade deve ser analisada sob a perspectiva da enunciação: a relação entre a intencionalidade, os atos locucionários, ilocucionários e perlocucionários. Conforme Austin (1990, p. 95): Distinguimos um conjunto de coisas que fazemos ao dizer algo, que sintetizamos dizendo que realizamos um ato locucionário, o que equi- vale, a grosso modo, a proferir determinada sentença com determinado sentido e referência, o que, por sua vez, equivale, a grosso modo, a “significado” no sentido tradicional do termo. 7Propriedades linguísticas do texto didático A diagramação é uma propriedade relacionada ao conjunto, à articulação entre todas as partes. Portanto, deve ser analisada a partir do questionamento: favorece a inteligibilidade textual e amplia a atuação do texto? Vamos observar como essa avaliação pode ser feita na prática? Um dos autores de livros didáticos com maior produção e aceitação no Brasil é William Roberto Cereja. Junto com Thereza Cochar Magalhães, ele produziu uma coleção chamada Português: linguagens, que transita tanto nas escolas públicas quantas nas privadas brasileiras. No capítulo 10 da unidade 3, dedicado à interpretação de texto, o assunto é comparação e memorização.Para iniciar o texto, os autores situam o leitor, informando a que conhecimentos prévios ele deve recorrer: “Você já conheceu três importantes operações relacionadas à leitura: a observação, a análise e a identificação. Neste capítulo, vai conhecer a comparação e a memorização […]” (CEREJA; MAGALHÃES 2012, p. 303). Nesse caso, o fator de coerência utilizado é a pressuposição: imagina-se que o aluno já tenha construído esse conhecimento. A articulação entre as informações novas e as já apresentadas revela a intenção do capítulo: desenvolver o assunto operações de leitura. Contudo, ao invés de levar o aluno a construir seu conceito sobre a operação de leitura chamada de comparação, o livro expõe uma definição diretamente. Embora essa escolha não interfira diretamente na propriedade linguística de coesão e coerência, revela a necessidade de aliá-la aos mecanismos de constru- ção didática: faltou uma conexão entre os conceitos e a proposta de estrutura cognitiva. O interessante é que, após a exposição do conceito, o leitor deve relacioná-lo a uma questão do Enem. Em seguida, há a construção da resposta junto com a explicação de tal modo que o aluno possa compreender a relação entre a questão do Enem e o assunto do capítulo: comparação. Nessa explicação, há uso de elementos coesivos, principalmente, fóricos. Veja um exemplo: “Para isso, deveria aproximar os dois textos, a fim de perceber diferenças ou semelhanças entre eles quanto a diferentes critérios: tema, forma, finalidade comunicativa, etc.” (CEREJA; MAGALHÃES, 2012, p. 305). Note que a palavra “eles” retoma os dois textos e contribui com a continuidade temática. Além disso, o sequenciador “para isso” articula a frase anterior com essa apresentada como exemplo. Portanto, há uma preocupação com as propriedades textuais, ou seja, os assuntos não estão desconectados. Já o conceito de memorização não é apresentado de forma descontextualizada. O aluno é convidado a ler um texto de uma questão do Enem e, a partir da leitura, é instigado a perceber o significado e a importância da operação de leitura chamada memorização. Embora o leitor passe por essa estrutura para Propriedades linguísticas do texto didático8 desenvolver esse conhecimento, vale ressaltar que o título da seção já revela que o assunto a ser tratado é memorização. Como o livro é dedicado ao Ensino Médio, as propostas de exercícios e de articulação entre o conteúdo e a prática são associadas a questões do Enem. Aliás, a conexão entre a explicação sobre comparação e a explicação sobre memorização foi realizada pela introdução do assunto Enem. O Enem, portanto, é o ponto que une os assuntos e a finalidade de preparar o aluno para essa avaliação. O curioso é que há, também, espaço para que o professor desenvolva o assunto e amplie esse conhecimento com os alunos. Uma parte que revela essa possibilidade é a imagem inicial do capítulo: O casamento de Fígaro, de Rafal Olbinski. No livro, não há nenhuma proposta de interpretação dessa imagem nem se convida o aluno a analisá-la ou a avaliar sua relação com o tema do capítulo, porém o uso dessa imagem indica, implicitamente, que, para interpretar, é preciso ler as entrelinhas, comparar e memorizar informações. Afinal, a pintura de Olbinski remete à opera de mesmo nome cujo enredo é constituído de uma rede de mentiras que, para ser desvendada, exige operações de interpretação apuradas. Nesse sentido, para que a imagem contribua com a precisão e com a clareza do texto didático, é preciso que o professor faça essa articulação com os alunos. O uso das propostas e questões do Enem nesse capítulo contribuem com a precisão na linguagem, pois o Enem é preparado para o público que está encerrando o Ensino Médio, ou seja, o mesmo destinatário do livro Português: linguagens. Os assuntos dos textos analisados estão em sintonia com o cotidiano desse público: Twitter e temas de vestibular das diferentes disciplinas. Além disso, há uma menção direta ao leitor, revelando que o aluno é o interlocutor dessa mensagem. Veja: “Você já conheceu três importantes operações relacio- nadas à leitura: a observação, a análise e a identificação” (CEREJA, 2013, p. 303) e “Veja como essa operação foi solicitada na seguinte questão do Enem” (CEREJA; MAGALHÃES, 2012, p. 304). Note que o aluno é inserido no texto e chamado a acessar seu conhecimento prévio sobre as operações de leitura quando a palavra você o aponta. O verbo ver, utilizado no imperativo, impõe ao leitor um envolvimento com o texto. A clareza das ideias expostas pelo livro didático é construída com os exemplos. Nas explicações das questões do Enem, há a retomada da relação da questão e da explicação com o tema do capítulo. Veja: Logo, a resposta esperada é aquela que expressa melhor a diferença entre os dois textos a partir do mesmo critério, da finalidade comunicativa. Por meio 9Propriedades linguísticas do texto didático da análise e da comparação, o estudante concluiria que a resposta correta é a alternativa c, na qual se afirma que o texto I “exemplifica e explica o novo serviço global de mensagens rápidas que desafia os hábitos de comunicação e reinventa o conceito de privacidade” (CEREJA; MAGALHÃES, 2012, p. 305). Assim, à medida que articula a análise das questões, apresentando-as como exemplos das definições apresentadas no capítulo, o autor retoma, sob nova organização, o conceito de comparação, ampliando-o. Observe: Na questão examinada, a comparação tem como base dois critérios: tema e finalidade comunicativa. Comparar, portanto, pressupõe adotar um ou mais critérios e cotejar dois ou mais elementos segundo os critérios adotados. Assim, quando se pede ao estudante num exame que compare dois textos, é necessário que ele adote um ou mais critérios para estabelecer a comparação. Com base nesses critérios, ele poderá buscar semelhanças ou diferenças entre os textos quanto ao tema abordado ou quanto ao tratamento dado ao tema; quanto ao tipo de composição (poesia ou prosa); quanto ao gênero do discurso; quanto aos sentimentos do enunciador; quanto à linguagem; etc. Se, entretanto, ele resumir as ideias principais de cada um dos textos isoladamen- te, sem estabelecer um cruzamento entre eles, essa operação não consistirá propriamente numa comparação, mas, talvez, em uma paráfrase ou em um resumo (CEREJA; MAGALHÃES, 2012, p. 305). Como se evidencia, as exemplificações com questões do Enem e os recursos de linguagem não verbal, ou seja, a imagem que abre o capítulo, contribuem com a precisão e a clareza das informações e favorecem a aprendizagem do aluno. Quanto à argumentatividade, o livro Português: linguagens articula os atos locucionários, centrados nas explicações, com atos ilocucionários, apresentados nas chamadas de atenção e nos enunciados das atividades: A comparação é uma das operações de leitura mais solicitadas nas provas de interpretação de textos do Enem e dos vestibulares. […] Leia a seguinte questão de História, extraída do exame vestibular da Univer- sidade Federal de Alagoas, e observe como sua resolução exige o exercício da operação da memorização. […] Leia e compare os textos: (CEREJA; MAGALHÃES, 2012, p. 303–306). A diagramação favorece a inteligibilidade textual e amplia a atuação do texto, pois, por exemplo, separa textos de uma mesma questão, demonstrando que são diferentes, mas que precisam da mesma atenção para a solução da Propriedades linguísticas do texto didático10 atividade (Figura 1). Além disso, os tamanhos e formas diferentes de letras permitem identificar o título do capítulo e o assunto a ser tratado com mais especificidade em cada parte. Portanto, de forma geral, o livro Português: linguagens apresenta continuidade temática, favorece a inteligibilidade textual e está adequado aos seus objetivos. Contudo, para que se revele um texto didático adequado, é fundamental que os sujeitos envolvidos com seu uso o analisem sob a perspectiva das propriedades linguísticasem sintonia com os mecanismos de construção de didatização textual. Figura 1. Exemplo de diagramação do livro Português: linguagens. Fonte: Cereja e Magalhães (2012, p. 306). 3 Propriedades linguísticas e mecanismos de construção da didatização textual Para que um texto seja do tipo didático, deve ter a fi nalidade de instruir e ser construído a partir dessa fi nalidade. Dessa forma, as propriedades linguísticas inerentes aos textos devem estar alinhadas aos mecanismos de construção da didatização textual. Esse alinhamento está associado ao contexto da ciência e da Linguística contemporâneas e das teorias linguísticas e à relação entre texto e contexto. Se, atualmente, se deseja construir conhecimento a partir de questionamen- tos e visão crítica, a ciência contemporânea deve ser pilar dessa postura. Isso significa que a passagem do texto fonte para o texto didático deve partir das 11Propriedades linguísticas do texto didático reais necessidades do público-alvo desse texto, isto é, os alunos. Dessa forma, a linguagem deve ser adaptada à faixa etária-alvo, o conhecimento prévio exigido deve estar de acordo com o nível de escolaridade e a textualidade, direcionada à dimensão pragmática. Diante dessa relação entre ensino e ciência, o texto didático deve se construir na necessidade de ensinar adequadamente. Para tanto, a ideia de produção textual deve ser tomada como um ato enunciativo: “[…] vinculado às condições de produção […] o sujeito da enunciação adota um comportamento intencional dentro de pressupostos também institucionais que permitem aos ‘parceiros’, no ‘jogo’ da enunciação, atribuírem sentido ao que é enunciado” (SANTOS, 2001, p. 198). Essa perspectiva da enunciação revela que, na construção do texto didático, há uma passagem do dizer científico para o fazer pedagógico, ou seja, há uma necessidade de participação ativa do produtor do texto. Ele será responsável tanto pela informação do conhecimento produzido quanto pelo questionamento sobre esse conhecimento. Daí a importância das teorias explicativas, da per- cepção de dúvidas sobre essas informações. Nesse contexto, há um locutor textual, o ente que ensina no texto; um alocutário textual, um ente a quem se destina o texto; um referente textual, aquilo para o que o locutor remete no texto; um locutor contextual, o ente que ensina pelo texto; um alocutário contextual, um ente a quem o locutor contextual destina o texto; um referente contextual, aquilo para que, pelo texto, o locutor contextual remete o alocutário contextual. Na produção do texto didático, o locutor textual seria o professor, que ensina no texto; o alocutário textual seria o leitor aprendiz de produtor de conhecimento; o referente textual seria a situação-problema de ensino; o locutor contextual seria o professor como instituição; o alocutário contextual seria o aluno como instituição e o referente contextual seria a realidade teórica ou prática problematizada (SANTOS, 2001). Nesse sentido, todos deveriam agir de forma conjunta para “solucionar” o problema. O aluno deve realizar as propostas, ler os textos, fazer resumos, etc. para construir conhecimento. O professor é o responsável por preencher as lacunas que os textos didáticos deixaram. Daí sua função de orientador. O texto didático, por sua vez, é o referente: o conjunto de informações necessárias à análise requerida. O texto didático, para cumprir sua função de ensinar, precisa interagir com o aluno, perguntando sobre o conhecimento acessado e sobre a relação desse conhecimento com a situação-problema para, em seguida, afirmar sobre a solução do problema. Dessa forma, se evidencia, como afirma Santos (2001, p. 200), que o texto didático que ensinaria mais adequadamente seria: “[…] Propriedades linguísticas do texto didático12 aquele que ensina a construir conhecimento à luz do conhecimento científico e do processo de construir conhecimento. E, se assim for entendido, é aquele em cuja produção se verifica um processo de interação textual e contextual […]”. Nesse sentido, o texto didático parte como um sistema textual interativo. Isso significa que todas as propriedades textuais devem contribuir com essa interação. Assim, a coesão e a coerência devem ser construídas juntamente com a progressão temática: todas as informações necessárias para desenvolver um novo conhecimento precisam ser tematizadas. Além disso, é preciso propiciar a recuperação intertextual como forma de continuidade temática. Dessa forma, o produtor de texto didático deve ficar atento para não cometer incongruências nem se contradizer. Na prática, é importante que a fundamentação teórica que embasa os conceitos seja homogênea, isto é, que haja uma rede conceitual que revele os nexos entre as partes. A coesão e a coerência podem ser garantidas e favorecem a precisão e a clareza. Para tanto, definições, termos técnicos e referenciais teóricos preci- sam ser explicitados e articulados. Evidentemente, se houver a aplicação de gráficos, tabelas, imagens e glossários, é necessário que eles também estejam articulados com as informações. Esquemas-sínteses são uma alternativa para recuperar as informações trabalhadas ao longo do texto didático e ratificar a coerência e a precisão dessas informações. A argumentatividade também entra nessa articulação. A rede argumentativa deve sustentar as afirmações e proporcionar coesão e coerência. Segundo Santos (2001, p. 223), do ponto de vista da argumentatividade, devem ser: […] garantidas a coesão e a coerência, a precisão e a clareza, um projeto visual adequado para que seja assegurada a relação entre a locução (informação), a ilocução (informar) e a perlocução (compreender), no sentido de propiciar a interação entre a locução básica (perguntar), a ilocução básica (orientar) e a perlocução básica (responder). A diagramação também exige um planejamento visual adequado ao texto que (SANTOS, 2001, p. 223) “[…]evidencie as relações hierárquicas, de inclu- 13Propriedades linguísticas do texto didático são, de comparação, etc.; ponha em relevo definições, elementos ou aspectos principais do texto; garanta boa legibilidade; “roteirize” a leitura; utilize cores”. Para que todas essas propriedades se concretizem nos textos dedicados ao ensino de Língua Portuguesa, é necessário que, por exemplo, haja uma definição clara da concepção de língua. Afinal, com o desenvolvimento da Linguística, existem diferentes tendências e concepções de linguagem que interferem nos conceitos e nas propostas de atividades gramaticais, de leitura, de interpretação e de produção de textos. Aqui, cabe o questionamento: de que vale expor os aspectos linguísticos pro- postos pela gramática tradicional se eles estiverem descontextualizados? Como um texto didático pode ser considerado coerente dessa forma? É necessário estruturar o texto com estratégias que revelem uma progressão real tanto nos exercícios quanto na exposição dos conteúdos. Além disso, a seleção de textos de leitura deve obedecer às exigências de leitura e não às exigências de um trabalho gramatical. Aliás, se o objetivo é conduzir um trabalho integral com a língua materna, não se pode priorizar apenas o conteúdo gramatical nem desconsiderar os diferentes níveis de registro, as diferenças entre oralidade e escrita e ignorar as questões de leitura e produção de textos. Santos (2001, p. 227) sugere uma configuração superestrutural do texto didático que: - passa a definir-se como um sistema textual interativo de ensino-aprendizagem compreendendo texto-diálogo e texto(s) informativo(s) com finalidade didática; - busca a força argumentativa na interação leitor-texto para a resolução de si- tuação-problema (ou problema) proposta com graus diversos de complexidade; - prevê, nessa interação, perlocuções distintas do leitor-aprendiz, igualmente de complexidade variada, dentro do objetivo de favorecer a compreensão da informação, e esta, dentro do processo de aprender a produzir conhecimento;- conta com a atuação de um agente extratextual que desempenhe a função de orientador do aprendiz-leitor (normalmente, o professor). Em síntese, um texto didático adequado e com chances de êxito na sua finalidade será aquele que, de fato, apresentar propriedades textuais que contribuam com o ensino. Portanto, é preciso relacionar coesão, coerência, clareza, precisão, argumentatividade e diagramação com os mecanismos de didatização textual. Propriedades linguísticas do texto didático14 ABREU, A. S. A arte de argumentar: gerenciando razão e emoção. 13. ed. Cotia: Ateliê Editorial, 2009 AUSTIN, J. L. Quando dizer é fazer: palavras e ação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990. CEREJA, W. R.; MAGALHÃES, T. C. Português: linguagens. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. v. 1. FÁVERO, L. L. Coesão e coerência textuais. 11. ed. São Paulo: Ática, 2009. SANTOS, M. M. C. Texto didático: propriedades textuais e pressupostos epistemológicos. Caxias do Sul: EDUCS, 2001. 15Propriedades linguísticas do texto didático Integração entre o verbal e o não verbal em materiais didáticos Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar as funcionalidades da diagramação, das ilustrações, das fotografias, dos esquemas, das tabelas e dos gráficos em materiais didáticos. Examinar a integração entre elementos não verbais e os elementos verbais em materiais didáticos. Identificar as normas para produção de materiais didáticos em língua portuguesa. Introdução Como autores e editores de livros didáticos podem atrair a atenção do leitor e contribuir com sua aprendizagem? Uma alternativa é mesclar linguagem verbal com não verbal. Mas essa abordagem requer arquitetura editorial, diagramação e uso adequado de imagens. De forma geral, pode se definir diagramação como a organização dos elementos em uma página. Isso tem relação com as cores, com a tipografia e o grid. Portanto, muitos elementos podem contribuir ou confundir o leitor no seu processo de aprendizagem. Neste capítulo, você vai estudar sobre as funcionalidades da diagra- mação, das ilustrações, das fotografias, dos esquemas, das tabelas e dos gráficos em materiais didáticos, a integração entre elementos não verbais e os elementos verbais em materiais didáticos e as normas para produção de materiais didáticos em língua portuguesa. 1 Funcionalidades da diagramação, das ilustrações, das fotografias, dos esquemas, das tabelas e dos gráficos em materiais didáticos O livro didático é o principal exemplo de texto utilizado com fi ns pedagógicos. Ele é organizado de tal forma que o aluno leitor possa construir seu conheci- mento de forma efi caz, adequada e direta. Entretanto, para que esse livro se constitua como didático, é necessária uma organização com ferramentas de design gráfi co, como diagramação, ilustrações, fotografi as, esquemas, tabelas e gráfi cos. Essas ferramentas estão associadas à apresentação do conteúdo, à adequação ao público-alvo e ao manuseio do material. Isso significa que a legibilidade visual de uma publicação didática é de- pendente de elementos como: dados técnicos, cores, tipografia, imagens, grid e arquitetura da informação, ou seja, da diagramação. Nas palavras de Santos (2001, p. 53), diagramação: É a impressão que permite a materialização visual do texto, e é a materialização visual – ou a diagramação – que faz existir o texto escrito. Assim sendo, a diagramação vem a ser um atributo externo necessário do texto escrito, por isso, dele pode ser considerada também uma propriedade. Denominada espelho visual da página, na linguagem jornalística ou projeto gráfico da página, na linguagem editorial, a diagramação também contribui para conferir ao veículo gráfico características especificas e “personalidade” própria. Os dados técnicos têm relação com o tamanho da folha, o formato da capa e o tipo de folha. Esses dados são fundamentais para o planejamento da produção do livro, pois interferem diretamente nas escolhas das fontes e na distribuição de conteúdo. Um exemplo da relação dessas escolhas com o uso do material é a eleição da encadernação. Se a opção for espiral, certamente não haverá imagens que ocupem duas páginas. A cor é um elemento que pode ser aplicado para destacar algo, como capí- tulo, unidades, numeração de exercícios. Aliás, esse é o recurso mais utilizado para expor algo no leiaute. O uso de cor tem três características principais (PEDROSA, 2009): coloração responsável pela diferenciação de uma cor de outra; o valor da claridade ou da obscuridade numa cor; e o croma, saturação dada a cada cor. Os efeitos positivos ou negativos do uso da cor dependerão da relação dela com o fundo e do tipo de contraste que se deseja imprimir. Aliás, a forma utilizada e o tamanho dessa forma também influenciam no efeito construído. Integração entre o verbal e o não verbal em materiais didáticos2 Combinando essas propriedades, é possível estabelecer hierarquia entre ele- mentos organizacionais no livro didático. A tipografia é o principal elemento da página impressa. Ela evidencia a personalidade do livro e é essencial para a coerência visual. Aliás, ela influen- cia diretamente na legibilidade e no interesse pela leitura. Na alfabetização, costuma-se recomendar o uso apenas de fontes maiúsculas, pois alunos dessa faixa-etária conseguem visualizar e identificar as letras com mais facilidade, pois são poucas as variações existentes. Já as fontes minúsculas são reco- mendadas para a formatação de textos longos, pois facilitam a distinção de maiúsculas e minúsculas, consequentemente, o início de frases e parágrafos e o aparecimento de nomes próprios. Ainda no tocante à tipografia, há o entrelinhamento e o alinhamento. White (2006, p. 100) afirma que o “[…] conforto da leitura depende da relação entre o tamanho do corpo, o comprimento da linha e a entrelinha. Os três devem estar equilibrados”. Já a escolha por um texto alinhado à esquerda, à direita ou justificado dependerá da característica que se deseja apresentar. Nessa escolha, observar o público-alvo é primordial. É evidente que o texto fica mais limpo se for acionada a opção “justificar”, mas o vazio que pode ficar entre as palavras pode alterar o espaço entre as letras de uma palavra e entre palavras. Essa alteração pode confundir um leitor pouco experiente. O fundamental é que a composição tipográfica contribua com a sensação de leitura agradável. Hurlburt (2002, p. 107) alerta: A legibilidade é outro fator que pode iludir o designer, levando-o a fazer uma opção de design e de tipos segundo o que parece o óbvio. Não há dúvida sobre a importância da legibilidade para a mensagem. Todavia, um texto grosseiro, com uma apresentação enfadonha, provavelmente não será lido, a despeito de estar composto num tipo da mais alta legibilidade [...]. Para o designer, a melhor solução é usar o seu material de tal forma que consiga despertar o interesse e convide à leitura. A imagem é um recurso não verbal interessante para a expressão e a comu- nicação. Ela contribui com a visualização agradável, pois elimina a monotonia imposta pelo uso de apenas elementos verbais. Além disso, é comum que, nos livros didáticos, as imagens componham a ilustração de um texto: desde o cenário até os traços de cada personagem. Nesse sentido, a imagem favorece a leitura de mundo e sensibiliza o aluno a articular a percepção estética com as indicações escritas. White (2006, p. 143) classifica as imagens em três tipos: 3Integração entre o verbal e o não verbal em materiais didáticos - Imagens de clima emocional: são fotos ou ilustrações conceituais estimu- lantes. Seu objetivo é causar impacto, intrigar, seduzir e desse modo capturar os leitores, por isso qualquer coisa vale. Talvez um termo melhor para as definir fosse chamariz. - Imagens informativas: são as documentais, realistas. Devem ser tratadas de modo simples, direto, para manter a credibilidade. - As circunstanciais:são as imagens medíocres com as quais deparamos sem- pre. Podem ser as melhores disponíveis, mas não merecem destaque especial. Independentemente do tipo de imagem, é possível estabelecer relações entre imagem e linguagem para que se tratem das mesmas questões em termos de complementaridade. Isso significa que a escolha dos textos e das imagens utilizados em um livro didático devem ser feitas de forma equilibrada e pro- porcional para que ocorra uma leitura lógica. A fotografia é um tipo de imagem muito utilizada nos livros didáticos, pois ela funciona como exemplo, como documento, como ilustração. Entretanto, o designer deve ter um olhar atento à reprodução de fotografias. Como afirma Hurlburt (2002, p. 110): “Planejar um trabalho com fotos exige conhecimento do processo fotográfico, consciência do conteúdo da imagem em relação com o objetivo da comunicação e olho agudo, capaz de avaliar a foto pelo que ela apresenta em tons e contrastes úteis ao design [...].” Dessa forma, a fotografia não pode ser apenas uma ferramenta para chamar a atenção do leitor. Ela precisa ter relação com o design como um todo do livro, da página, deve passar credibilidade. Da mesma forma, as ilustrações podem ser aplicadas aos materiais didáti- cos. Os desenhos também contribuem com a composição do leiaute e podem cumprir os objetivos da imagem mais diretamente. Afinal, não é necessário encontrar uma imagem que facilite a leitura de um texto, por exemplo. Basta desenhá-la de acordo com os objetivos. As tiras e histórias em quadrinhos mesclam linguagem verbal e não verbal e inserem humor nos textos didáticos. Podem ser utilizadas como texto para interpretar ou podem ilustrar uma situação específica. O interessante é que, por apresentarem humor, captam e prendem a atenção do leitor. Isso é funda- mental para a aprendizagem e uma oportunidade de coordenar texto e arte. Os esquemas favorecem a visualização de sínteses, pois destacam as ideias fundamentais e simplificam a sintaxe, isto é, a informação chega ao aluno de forma mais direta. Além disso, o uso de tabelas e gráficos deixa o material mais interessante, agradável e atraente, pois a abordagem do conteúdo se mostra diferente dos longos textos tradicionais. Integração entre o verbal e o não verbal em materiais didáticos4 Outro elemento que compõe o projeto gráfico de um livro didático é cha- mado de grid: “[…] constituído por um conjunto específico de relações de alinhamento, que serve como uma guia para a distribuição de elementos em um formato de página” (SAMARA, 2011, p. 68). Ele é composto pe- las margens (espaços negativos entre o limite do formato e o conteúdo que cercam e definem a área viva onde ficarão os tipos e as imagens), pelos módulos (unidades individuais de espaço separadas por intervalos regulares que, repetidas no formato da página, criam colunas e faixas horizontais), pelas colunas (alinhamentos verticais que criam divisões horizontais entre as margens), pelos guias horizontais (alinhamentos que quebram o espaço em faixas horizontais), pelas zonas especiais (grupos de módulos que, juntos, formam campos distintos. Cada campo pode receber uma função específica ao apresentar determinada informação) e pelos marcadores (indicadores de localização para textos secundários ou constantes que ocupem sempre a mesma posição em qualquer página). A arquitetura da informação é a apresentação de todas as informações, verbais e não verbais de forma organizada e eficiente. A palavra-chave para o sucesso dessa arquitetura é equilíbrio. Afinal, os detalhes gráficos de um livro didático devem contribuir para a compreensão. Se houver exagero de imagens, por exemplo, o aluno pode se confundir. Dessa forma, o objetivo da arquitetura da informação é fazer com que o leitor compreenda a mensagem. Para tanto, a forma gráfica é o suporte. Nesse sentido, Bocchini (2007, documento on-line) afirma: Para os leitores iniciantes e mesmo para leitores em desenvolvimento, é cru- cial evitar elementos desfavoráveis à leitura, tais como letras excessivamente parecidas entre si, linhas muito compridas, texto impresso sobre fundo escuro ou estampado, pequeno espaço entre as linhas. Essas e outras características desfavoráveis dos textos impressos aborrecem até mesmo os leitores mais proficientes. Ler exige esforço e qualquer empecilho pode levar ao abandono da leitura, à má vontade para com essa atividade, que é tudo que não se deseja para crianças e jovens escolares. Portanto, a diagramação, quando bem feita, passa despercebida; apenas enfatiza o conteúdo. Santos (2001, p. 63) alerta ainda que, na atualidade, os leitores buscam mais informação em menos tempo, com mais prazer e menos esforço. Dessa forma: [...] o leitor de hoje requer um projeto gráfico através do qual o prazer permeie a informação, diversamente do leitor de outros tempos, cujo universo de recursos 5Integração entre o verbal e o não verbal em materiais didáticos técnicos e tecnológicos a que tinha acesso era muito reduzido. Nesse sentido, a diagramação, do ponto de vista da produção textual, passou a requerer do diagramador e do designer um planejamento cada vez mais elaborado. Nesse contexto, examinar a integração entre os elementos não verbais e os elementos verbais em materiais didáticos é fundamental para verificar a adequação do projeto gráfico às necessidades educativas, assunto da próxima seção. 2 Integração entre elementos não verbais e os elementos verbais em materiais didáticos É fato que a escola sempre deu ênfase à linguagem escrita: tanto como foco de aprendizagem quanto como meio de ensino. Entretanto, como a educação se fundamenta na sociedade e busca contribuir com a cidadania, é preciso que ela esteja ligada também aos textos veiculados socialmente. Estes, na sua maioria, são não verbais. Uma breve observação sobre os livros didáticos revelará que a linguagem verbal é a privilegiada nesses materiais. Contudo, a aprendizagem do aluno deve estar voltada à compreensão das diferentes linguagens utilizadas por uma diversidade de textos, ou seja, é função da escola oportunizar o contato, a leitura, a compreensão e a produção de textos variados que utilizem tanto linguagem verbal quanto não verbal. Daí a importância de integrar elementos não verbais e elementos verbais em materiais didáticos. Os elementos não verbais são essenciais para o trabalho com implícitos, pois as imagens, muitas vezes, escondem a mensagem ideológica por trás de cores e desenhos e do próprio discurso. Nesse trabalho de interpretação, o aluno é levado a relacionar a imagem a questões culturais, sociais, históricas e filosóficas e pode identificar a posição social dos sujeitos. Afinal, a leitura não é apenas decodificação de palavras; pela interpretação da imagem são mobilizados elementos sensoriais, emocionais, intelectuais, neu- rológicos. Com a leitura de livros didáticos, o aluno interage com o conteúdo. Nesse sentido, os elementos visuais do livro têm grande importância para a comunicação do conteúdo. Como afirma Hurlburt (2002, p. 133): “Perceber uma imagem é participar de um processo criativo. No ato de ver, temos a tendência de separar determinadas imagens da massa de impressões a que estamos expostos e adicionar a essa imagem nosso próprio conhecimento, nossa experiência e imaginação.” Integração entre o verbal e o não verbal em materiais didáticos6 O livro didático é um espaço privilegiado de integração entre elementos verbais e não verbais, porém, para que essa integração se realize, é fundamental que as imagens proponham um repertório que dialogue com o texto, isto é, que não haja contradições que possam confundir o aluno. O design de informação é uma área do design gráfico que contribui com essa adequação, pois tem a finalidade de equilibrar todos os aspectos que envolvem a comunicação, como: os sintáticos, semânticos e pragmáticos. Para tanto, o design de informação planeja e contextualiza esse trabalho conforme o público-alvo.De acordo com Panizza (2004, p. 62), o design de informação: se refere a todo um conjunto de recursos gráficos e de linguagem visual que aplicados e combinados a mensagens auxiliam na compreensão de seu significado. Estas mensagens estão, via de regra, associadas à noção de práxis social, novidade, originalidade, daí sua necessidade de um suporte por parte da informação visual. Alguns livros didáticos seguem o diagrama de Twyman (1982) para inserir linguagem visual gráfica nos seus textos. O pesquisador distingue diferentes linguagens visuais gráficas utilizadas nos materiais didáticos: verbal, pictórica e esquemática. A primeira se refere aos textos propriamente ditos, enquanto a segunda é representada por figuras, ilustrações, tirinhas, histórias em qua- drinhos, fotografias. Já a linguagem esquemática corresponde aos quadros, tabelas e mapas. No material didático, todas essas linguagens visuais devem estar articuladas para que o conteúdo seja comunicado com clareza e eficiência. Afinal, todos esses elementos transmitem uma ideia e visam a facilitar a compreensão do aluno por meio do visual. Hurlburt (2002, p. 95) afirma que “[…] criatividade representa uma luta constante para atingir o equilíbrio entre sua expressão própria e as considera- ções racionais da comunicação visual, impostas de forma”. Dessa forma, um trabalho adequado de design apresenta esta relação (Figura 1). 7Integração entre o verbal e o não verbal em materiais didáticos Figura 1. Relações de um trabalho de design adequado. Fonte: Hurlburt (2002, p. 95). Williams (2013) considera que um design adequado obedece a quatro princípios: contraste, repetição, alinhamento e proximidade. O contraste refere-se ao uso de recursos que se diferenciem completamente (cor, tamanho etc.) para atrair visualmente o leitor (Figura 2). Por essa razão, William (2013, p. 56) considera esse princípio um ponto crítico: “O leitor sempre deveria ser capaz de, à primeira passada de olhos sobre um material, compreender imediatamente o que ele representa”. Essa compreensão se deve ao despertar do interesse e à organização mais evidente em função desse contraste. A repetição de algum desses elementos contribui com a organização e favorece a unidade. Esse recurso estabelece um fio condutor, favorecendo a continuidade temática. É o caso dos títulos de mesmo tamanho, sinais espe- cíficos para mudança de tópico etc. Integração entre o verbal e o não verbal em materiais didáticos8 Figura 2. Exemplo usado num livro didático. Fonte: Cereja e Magalhães (2013, p. 284). Note que todas as informações extras que esse livro disponibiliza são apresentadas com um fundo rosa, com título com fonte maior que a do corpo do texto e em cor vermelha. Essas marcas sinalizam ao leitor que, naquele espaço, está presente uma informação mais profunda sobre o assunto estudado. Dessa forma, “[…] a repetição pode ser considerada como “consistência” (WILLIAMS, 2013, p. 43), pois ela: […] ajuda a organizar as informações. Ela ajuda a guiar o leitor pelas páginas e a unificar partes distintas do design (da diagramação) do material […] Se você estiver criando vários documentos de uma única página que façam par- te de um pacote unificado, é extremamente importante utilizar a repetição (WILLIAMS, 2013, p. 49). Já o alinhamento deve ter uma ligação visual com outro elemento da pá- gina, proporcionando a sensação de suavidade, sofisticação e limpeza. Para Williams (2013, p. 27): 9Integração entre o verbal e o não verbal em materiais didáticos Quando os itens estão alinhados na página, há uma unidade coesa, mais forte [...] Apesar de posicionar alguns elementos separadamente, indicando suas ligações de acordo com o princípio da proximidade, é o princípio de alinhamento que avisará ao leitor que, mesmo não estando próximos, os itens fazem parte do mesmo material. A proximidade indica o agrupamento de itens que se relacionem, assim, esses elementos formam uma unidade visual e favorecem a organização das informações (Figura 3). Quando o leitor identifica conjuntos de informa- ções próximos, percebe que eles se relacionam. Essa pista visual favorece a compreensão do leitor e valoriza a propriedade da coesão e da coerência, pois o texto didático é apenas um, formado por elementos verbais e não verbais. Como afirma Williams (2013, p. 21): O conceito de proximidade não significa que tudo precise estar próximo; significa que os elementos localmente conectados, com algum tipo de ligação, também deveriam estar visualmente conectados. Outros elementos separados ou conjuntos de elementos não deveriam estar juntos. A proximidade ou a falta de proximidade indica a relação. Figura 3. Textos extraídos de um livro didático. Fonte: Cereja e Magalhães (2013, p. 232-233). Note que os dois textos têm a mesma identidade visual: mesmas fontes, mesmos realces, usam de imagens, mesmo destaque para os títulos e mesma orientação (TEXTO I e TEXTO II). Essas marcas comuns aproximam os dois textos e revelam que há uma relação entre eles. De fato, ambos são utilizados como exemplos de textos instrucionais. Em suma, para que a diagramação e todos os elementos não verbais se alinhem às propriedades linguísticas dos textos didáticos, devem contribuir com Integração entre o verbal e o não verbal em materiais didáticos10 as necessidades educativas. Para tanto, precisam favorecer a atenção do leitor, conduzi-lo a uma organização e simplificar e dinamizar sua compreensão. 3 Normas para produção de materiais didáticos em língua portuguesa Os materiais didáticos de língua portuguesa visam a auxiliar o professor no planejamento de estratégias que facilitem o desenvolvimento de habilidades relacionadas à leitura, à produção de textos, à análise linguística e semiótica e à oralidade. Para a elaboração desses materiais, há duas importantes orientações do Ministério da Educação: o Guia do Plano Nacional do Livro Didático e a Base Nacional Comum Curricular. Em ambos os documentos, evidencia-se a importância do desenvolvimento de um trabalho que privilegie a diversidade textual, já que existem variadas necessidades de interação verbal e a escola precisa contemplar as diferentes demandas sociais, as diferentes formas de letramento e o conjunto de mani- festações socioculturais. Observe a determinação do Guia do Plano Nacional do Livro Didático (BRASIL, 2020, p. 5): [...] o desafio dos livros didáticos está em considerar as práticas de linguagem do universo infanto-juvenil e, ao mesmo tempo, ampliar os domínios públicos das práticas de linguagem dos(as) estudantes, considerando os diversos letra- mentos – o que inclui o acesso ao patrimônio cultural da humanidade, num percurso dialógico que coloca em relação esses dois universos de práticas de linguagem num percurso contínuo de aprendizagem entre as duas fases do Ensino Fundamental. Isso significa considerar a diversidade social, regional, étnico-racial e de gênero garantida pelos marcos legais que embasam o edital de inscrição dos livros didáticos [...]. A Base Nacional Comum Curricular também revela essa tendência de estimular o desenvolvimento de propostas didáticas que objetivam o ensino da produção escrita a partir dos gêneros textuais (BRASIL, 2017). Afinal, considera as práticas contemporâneas de linguagem e sugere que o aluno, ao analisar diferentes textos, os associará aos seus propósitos que são informados pelos modelos de regularidades na linguagem. Veja uma passagem (BRASIL, 2017, p. 63): [...] o texto ganha centralidade na definição dos conteúdos, habilidades e objetivos, considerado a partir de seu pertencimento a um gênero discursivo 11Integração entre o verbal e o não verbal em materiais didáticos que circula em diferentes esferas/campos sociais de atividade/comunicação/ uso da linguagem. Os conhecimentos sobre os gêneros, sobre os textos, sobre a língua, sobre a norma-padrão, sobre as diferentes linguagens (semioses) devem ser mobilizados em favor do desenvolvimentodas capacidades de leitura, produção e tratamento das linguagens, que, por sua vez, devem estar a serviço da ampliação das possibilidades de participação em práticas de diferentes esferas/ campos de atividades humanas. Portanto, se evidencia que diferentes gêneros exigem diferentes conheci- mentos e habilidades e, por essa razão, requerem propostas de produção e de compreensão diferentes também. Isso significa que a abordagem do professor e do livro didático nas atividades de leitura e produção de textos deve estar em sintonia com o gênero do texto a se trabalhar. Para que o docente possa realizar esse planejamento e avaliar um livro didático, precisa estar atento a algumas questões: identificar os gêneros selecionados para o livro didático, como ocorre o processo de didatização desses textos e desses gêneros e como esses textos são trabalhados. Bunzen (2007, p. 48) sugere que os professores, ao analisarem um livro didático de português, se questionem sobre alguns pontos: [...] por que os autores escolheram esse texto? Qual o objetivo da escolha desse gênero para tal nível de ensino? Essas perguntas podem permitir uma reflexão sobre uma questão que não é, muitas vezes, explicitada: o porquê de tal texto e/ou gênero se tornar um objeto de ensino naquela obra específica que você adota ou utiliza como material de apoio. Examinar essas questões pode contribuir com o trabalho docente de iden- tificar as edições dos textos e refletir sobre os motivos que provocaram essas alterações. Por exemplo, um texto de jornal pode ser apresentado em apenas uma página do livro didático e perder sua diagramação característica para facilitar a leitura. Outro exemplo: um título de uma reportagem de revista pode receber mais realce do que na publicação original. Isso sem falar no aspecto tamanho: romances, por exemplo, não podem ser publicados na íntegra e raramente são escolhidos para compor um livro didático. Já as histórias em quadrinhos e tirinhas são campeãs de uso nesses materiais, justamente por ocuparem pouco espaço e contribuírem com a inserção de imagens. Essas escolhas, de alguma forma, são respaldadas pelas orientações do Guia do Plano Nacional do Livro Didático (BRASIL, 2020, p. 10-11): Com relação à estrutura gráfico-editorial, a obra deve: Integração entre o verbal e o não verbal em materiais didáticos12 [...] b. Apresentar legibilidade gráfica adequada para o nível de escolaridade visado, no que se refere ao desenho e tamanho das letras; espaçamento entre letras, palavras e linhas; formato, dimensões e disposição dos textos na página. c. Apresentar impressão em preto do texto principal. d. Apresentar títulos e subtítulos claramente hierarquizados por meio de recursos gráficos compatíveis. [...] f. Apresentar mancha gráfica proporcional ao tamanho da página, com tipo- logia e tamanho de letra, assim como espaço entre linhas, letras e palavras, adequados para as diferentes faixas etárias. [...] Entretanto, alguns autores e editores buscam adequar as propriedades do gênero ao seu suporte e à apresentação multimodal. Nesses casos, há sintonia entre imagens, infográficos, linguagem verbal e diagramação. Isso ocorre apenas quando os criadores de livro didático se responsabilizam em ensinar gênero textual, ou seja, quando assumem que também se devem ensinar /res- peitar as diferenças dos objetos textuais a serem analisados/lidos/produzidos. Respeitar e preservar as características essenciais do texto objeto de es- tudo nem sempre é possível, porém, o esforço para que essa preservação ocorra contribui com a aprendizagem sobre diferentes manifestações sociais e culturais. Nesse campo, o uso de ilustrações também pode revelar aspectos intrínsecos a determinado gênero. Portanto, a aplicação de ilustrações não pode ser aleatória, como orienta o Guia do Plano Nacional do Livro Didático (BRASIL, 2020, p. 11): No que diz respeito às ilustrações, elas devem: o. Ser adequadas às finalidades para as quais foram elaboradas; p. Ser claras e precisas; q. Contribuir para a compreensão de textos e atividades e estar distribuídas equilibradamente na página; r. Quando, de caráter científico, respeitar as proporções entre objetos ou seres representados; s. Estar acompanhadas dos respectivos créditos e da clara identificação da localização das fontes ou acervos de onde foram reproduzidas; t. Apresentar títulos, legendas, fontes e datas, no caso de gráficos, tabelas e imagens artísticas; u. Apresentar legendas, escala, coordenadas e orientação em conformidade com as convenções cartográficas, no caso de mapas e outras representações gráficas do espaço; v. Apresentar ilustrações que exploram as múltiplas funções (como desenhos, figuras, gráficos, fotografias, reproduções de pinturas, mapas e tabelas) e significativas no contexto de ensino e de aprendizagem; 13Integração entre o verbal e o não verbal em materiais didáticos w. Utilizar ilustrações que dialogam com o texto; x. Utilizar escala adequada ao objeto de conhecimento; y. Retratar adequadamente a diversidade étnica da população brasileira, a pluralidade social e cultural do país. Nesse sentido, o projeto gráfico de um livro didático deve estar integrado às necessidades educativas. Isso significa que, se os conhecimentos diversi- ficados sobre a prática social, sobre o gênero são necessidades educativas, os livros didáticos têm de oferecer atividades que ativem e desenvolvam esses conhecimentos. Contudo, essa preocupação é rara entre os autores, como alerta Bunzen (2007, p. 52): Um olhar mais atento para as atividades de leitura e compreensão de textos escritos pode nos mostrar que, ao lado da diversidade textual nos LDPs, observamos ainda um tratamento homogêneo nas atividades de leitura em relação ao gênero. Lê-se, no LDP, normalmente, para responder as atividades de compreensão de texto – seguidas, na interação em sala de aula, da corre- ção efetuada pelo professor. Esse tratamento homogêneo dos gêneros e das práticas sociais é uma das consequências do processo de escolarização que focaliza apenas determinadas estratégias de leitura, com ênfase no vocabu- lário, nos elementos composicionais do texto e na localização de questões explícitas no texto. Portanto, para que o gênero seja objeto de ensino e não apenas pretexto de atividades de leitura e produção, é preciso investir em propostas de “[…] reconstrução e reflexão sobre as condições de produção e recepção dos textos pertencentes a diferentes gêneros e que circulam nas diferentes mídias e esferas/ campos de atividade humana”, de acordo com as habilidades indicadas pela Base Nacional Comum Curricular (2017, p. 68) para o campo de leitura. Dessa forma, a leitura parte de uma perspectiva mais ampla: não considera apenas o texto escrito, mas também as imagens, os sons e os elementos digitais. Integração entre o verbal e o não verbal em materiais didáticos14 BOCCHINI, M. O. Legibilidade visual e projeto gráfico na avaliação de livros didáticos pelo PNLD. In: Anais do Simpósio Internacional Livro Didático: educação e história. São Paulo: Edusp, 2007. Disponível em: http://www.abrale.com.br/wp-content/uploads/ legibilidade-visual-grafico-pnld.pdf. Acesso em: 6 abr. 2020. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: educação é a base. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2017. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/ index.php?option=com_docman&view=download&alias=79601-anexo-texto-bncc- -reexportado-pdf-2&category_slug=dezembro-2017-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 6 abr. 2020. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Guia digital PNLD - 2020. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2020. (Língua Portuguesa). Disponível em: https://pnld.nees.com.br/assets- -pnld/guias/Guia_pnld_2020_pnld2020-lingua-portuguesa.pdf. Acesso em: 6 abr. 2020. BUNZEN, C. O tratamento da diversidade textual nos livros didáticos de português: como fica a questão dos gêneros? In:SANTOS, C. F.; MENDONÇA, M.; CAVALVANTE, M. C. B. (org.). Diversidade textual: os gêneros na sala de aula. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. CEREJA, W. R.; MAGALHÃES, T. C. Português: linguagens, 1º ano. São Paulo: Saraiva, 2013. HURLBURT, A. Layout: o design da página impressa. São Paulo: Nobel, 2002. PANIZZA, J. F. Metodologia e processo criativo em projetos de comunicação visual. 2004. 248 p. Dissertação (Mestrado em Ciências da Comunicação) - Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004. Disponível em: https://teses.usp. br/teses/disponiveis/27/27148/tde-04082006-120606/publico/metodo-criatividade. pdf. Acesso em: 6 abr. 2020. PEDROSA, I. Da cor à cor inexistente. Rio de Janeiro: Senac Nacional, 2009. SAMARA, T. Guia de tipografia: manual prático para o uso de tipos no design gráfico. Porto Alegre: Bookman, 2011. SANTOS, M. M. C. 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Integração entre o verbal e o não verbal em materiais didáticos16 Fundamentos teórico- -metodológicos do ensino de língua materna: um panorama Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar os principais fundamentos teórico-metodológicos envol- vidos no ensino de Língua Portuguesa. Reconhecer esses fundamentos como diretrizes para a elaboração e avaliação de materiais didáticos de Língua Portuguesa. Analisar a importância da leitura, da oralidade e da escrita para o letramento. Introdução Os estudos linguísticos da enunciação constataram que a língua só existe no uso, ou seja, as situações de interação é que garantem a existência da língua. Dessa forma, a importância de se estudar a língua materna na escola está em aprimorar a competência comunicativa. Isso significa que as práticas de linguagem (oralidade, leitura, escrita e análise linguística) devem estar em conformidade com esses fundamentos. Eles estão pre- sentes nas diretrizes nacionais sobre o ensino de português e orientam a produção de materiais didáticos. Neste capítulo, você vai ler sobre os principais fundamentos teórico- -metodológicos envolvidos no ensino de Língua Portuguesa, a relação entre esses fundamentos e as diretrizes para a elaboração e avaliação de materiais didáticos de Língua Portuguesa e a ligação entre leitura, oralidade, escrita e letramento. 1 Fundamentos teórico-metodológicos envolvidos no ensino de Língua Portuguesa Uma breve refl exão sobre as necessidades atuais do ensino da língua por- tuguesa levará a uma constatação: os objetivos devem ser mais amplos e as práticas mais condizentes com as concepções de língua recentes. Dessa forma, professores poderão contribuir de forma mais signifi cativa com o desenvolvimento da competência dos alunos no uso da sua língua materna. Para tanto, há alguns pressupostos teóricos que podem auxiliar na orientação da atividade pedagógica de português. A concepção de língua é o primeiro passo para se identificar os principais fundamentos teórico-metodológicos. A atualidade pede uma noção de língua na dimensão interacional e discursiva para que o indivíduo possa ter condições de participar em diferentes situações no seu meio social. Nesse sentido: A linguagem tem um caráter fundador de realidade(s), e não de mera representação desta, como é sugerida nas demais concepções. É nesse sentido que, ao contrário do que entende, por exemplo, a visão estrutural; a concepção sociointeracionista compreende que as significações são distintas a cada ato de linguagem, pois são determinadas pelas condições de produção do discurso e pela conjuntura sócio- -histórica. É, portanto, por meio de uma relação mútua entre falante e ouvinte que se constroem os sentidos (BEZERRA; SIMÕES E LUNA, 2016, p. 39). Essa concepção de linguagem corresponde aos estudos linguísticos da enunciação que partem da ideia de que a língua existe apenas na interlocução. Nas práticas pedagógicas os estudos da língua estariam associados, dessa forma, à análise da língua em funcionamento. Nesse sentido, na sala de aula, não se podem ignorar as variedades linguísticas. Além disso, não se pode restringir as análises ao nível da sentença, das frases. Para Geraldi (2006, p. 44), nessa perspectiva, no ensino da língua, “[...] é muito mais importante estudar as relações que se constituem entre os sujeitos quando falam do que simplesmente estabelecer classificações e denominar os tipos de sentenças”. Nesse contexto, é preciso identificar os princípios teóricos que podem fundamentar um ensino de aula mais adequado às necessidades atuais. Para tanto, é necessário analisar as práticas de leitura, escrita, oralidade e reflexão sobre a gramática. O trabalho com oralidade na sala de aula deveria corresponder ao estudo e à explicitação dos gêneros orais da comunicação pública. No entanto, as atividades escolares costumam se concentrar na identificação dos padrões coloquiais de uso da língua na oralidade. As aulas de português, dessa forma, Fundamentos teórico-metodológicos do ensino de língua materna: um panorama2 excluem as convenções sociais e os registros formais da comunicação oral. Vale ressaltar que isso ocorre na melhor das hipóteses, pois, geralmente, há uma omissão quase completa da fala como objeto de estudo nas aulas de português. Em algumas situações a oralidade serve apenas de contraponto à escrita: como se a fala fosse o espaço para as regras da gramática tradicional serem violadas. Antunes (2003, p. 24) alerta que: De acordo com essa visão, tudo o que é “erro” na língua acontece na fala e tudo é permitido, pois ela está acima das prescrições gramaticais; não se distinguem, portanto, as situações sociais mais formais de interação que vão, inevitavelmente, condicionar outros padrões de oralidade que não o coloquial. É evidente que oferecer espaço para as conversas e troca de ideias informais é fundamental para as aulas de língua portuguesa, porém não se pode opor- tunizar apenas esse tipo de abordagem para a oralidade. Daí a necessidade de trabalho com os gêneros textuais. O seminário, por exemplo, do qual em algum momento da vida de estudante os alunos participarão, exige escolhas lexicais mais formais e, muitas vezes, mais específicas. O estudo dessas questões não pode ser deixado de lado. Outra prática fundamental nas aulas de português é a escrita, ou melhor, a produção textual. Esse ponto costuma ser crítico, tanto para alunos quanto para professores: os estudantes se mostram desmotivados a escrever, afirmam que estão sem inspiração e que não sabem escrever; os docentes dedicam longas horas à correção das redações, às sugestões e não veem receptividade dos alunos às suas anotações. Certamente, parte desse problema surge da artificialidade da escrita na escola, ou seja, como a proposta de produção textual parte de uma simulação, é comum que haja desmotivação dos envolvidos. Nesse sentido, é importante que as atividades em torno da escrita não ignorem a interferência do aluno: seu registro revela as hipóteses que ele cria sobre a representação gráfica da língua. Portanto, o uso adequado de regras ortográficas, por exemplo,não pode ser parâmetro para avaliar se um texto está bem escrito. Isso significa que é preciso desmistificar a ideia de que saber escrever é saber as regras de ortografia e gramática. Esse tipo de abordagem acaba oportunizando a escrita artificial. A escrita significativa exige um contexto comunicativo para que haja intenções de comunicação que preenchem a escrita de sentidos. Dessa forma, o texto se constrói com textualidade e com resposta a um contexto social. Antunes (2003, p. 26) alerta que se pode constatar nas aulas de língua portuguesa: 3Fundamentos teórico-metodológicos do ensino de língua materna: um panorama [...] a prática de uma escrita sem função, destituída de qualquer valor intera- cional, sem autoria e sem recepção (apenas para “exercitar”), uma vez que, por ela, se estabelece a relação pretendida entre a linguagem e o mundo, entre o autor e o leitor do texto. Entretanto, se a proposta de produção textual for improvisada de tal forma que o objetivo seja apenas realizá-la, perde o significado e a finalidade de escrita. Afinal, os alunos não veem sentido em escrever algo que será lido apenas pelo professor, e para que ele possa, em muitos casos, apenas atribuir uma nota. Para dar conta desse problema, Geraldi (2006) propõe que os textos pro- duzidos pelos alunos ganhem visibilidade com publicações. O autor sugere que, na 5ª série, seja construída uma antologia das histórias produzidas; na 6ª série, se organize um jornal mural da turma para que os colegas possam ler todos os textos produzidos por eles; na 7ª série se organize um jornal que possa ser vendido na própria escola; e, na 8ª série, se publique uma antologia que possa receber um espaço num jornal local. No entanto, para que a produção de textos na escola se afaste da artificialidade, não basta encontrar um leitor definido nem garantir a circulação dos textos. É preciso também aproximar as propostas da realidade dos alunos. A prática de leitura, muitas vezes, se revela dissociada da interação verbal, pois é centrada apenas na decodificação da escrita ou na extração de informa- ções. Entretanto, a leitura se caracteriza pelo contato do leitor com o texto e, para que isso aconteça, é preciso vinculá-la aos diferentes usos sociais. Nesse caso, há uma relação muito próxima com os problemas de escrita: a leitura se revela como uma atividade exclusivamente escolar; algo para cumprir, desvinculada de um interesse. Essas propostas buscam recuperar apenas os elementos da superfície do texto. Quase sempre esses elementos privilegiam aspectos apenas pontuais do texto (alguma informação localizada num ponto qualquer), deixando de lado os elementos de fato relevantes para sua compreensão global (como seriam todos aqueles relativos à ideia central, ao argumento principal defendido, à finalidade global do texto, ao reconhecimento do conflito que provocou o enredo da narrativa, entre outros) (ANTUNES, 2003, p. 28). A função da escola é dar subsídios ao aluno para que ele possa ler em outros espaços sociais. Dessa forma, não se pode oferecer uma leitura que não coincida com o que se precisa ler fora dos portões da escola. Em muitas aulas de língua portuguesa, o trabalho de leitura está à serviço das questões gramaticais, assunto que ocupa a maior parte do tempo dessas Fundamentos teórico-metodológicos do ensino de língua materna: um panorama4 aulas. Mas o que realmente se deve trabalhar na análise linguística? Para come- çar, a gramática deve ser tratada como algo vinculado aos usos reais da língua (escrita e falada). Isso significa que a gramática precisa estar contextualizada, isto é, não se podem apresentar frases soltas, sem sujeitos interlocutores, para que se possa propor um exercício apenas. Afinal, a gramática fragmentada não contribui com o desenvolvimento da competência comunicativa dos falantes e não se encontra nos contextos mais previsíveis de uso da língua. Antunes (2003, p. 32) afirma: Vale a pena lembrar que, de tudo o que diz respeito à língua, a nomenclatura é a parte menos móvel, menos flexível, mais estanque e mais distante das intervenções dos falantes. Talvez, por isso mesmo, seja a parte “mais fácil” de virar objeto das aulas de língua. Vale a pena lembrar também que a gramática de uma língua é muito mais, muito mais mesmo, do que o conjunto de sua nomenclatura, por mais bem elaborada e consistente que seja. Dessa forma, a análise linguística ou o ensino de gramática só tem sentido se ocorre com o apoio de textos reais. Assim, a preocupação não pode ser com a prescrição e com as normas que indicam o certo e o errado. É preciso se dedicar à escrita sobre o que se diz, como se diz e se o aluno tem algo a dizer (ANTUNES, 2003). Afinal, há muitos aspectos linguísticos relevantes, como os discursivos, e deter-se apenas à correção significa reduzir os estudos da língua. Como se nota, as práticas de oralidade, leitura, produção de texto e análise linguística exigem um trabalho de interação, na perspectiva da enunciação. Algumas teorias e metodologias fundamentam essa relação, como o intera- cionismo sociodiscursivo (ISD) e o letramento. O interacionismo sociodiscursivo foi desenvolvido por Jean-Paul Bron- ckart. Sua proposta principal foi levar a linguagem para os princípios do Interacionismo social, inserindo-a como elemento central. Bronckart (2006, p. 9) afirma que: O ISD aceita todos os princípios fundadores do interacionismo social, como a contestação do corte atual das ciências humanas/sociais: nesse sentido, ele não pode constituir uma corrente propriamente “linguística”, mais que uma corrente “psicológica” ou “sociológica”; ele se quer uma corrente da ciência do humano. Mas, de uma maneira que é apenas aparentemente contraditória com o que precede, o ISD considera que a problemática da linguagem é absolutamente central ou decisiva para essa mesma ciência do humano. No prolongamento da tese de fato compartilhada por Saussure e Vigotski, segundo a qual os signos linguísticos (langagier) estão nos fundamentos da constituição 5Fundamentos teórico-metodológicos do ensino de língua materna: um panorama do pensamento consciente humano, visa a demonstrar, mais geralmente, que as práticas de linguagem situadas (quer dizer, os textos-discursos) são os instrumentos maiores do desenvolvimento humano, não somente sob o ângulo dos conhecimentos e dos saberes, mas, sobretudo, sob o das capacidades de agir e da identidade das pessoas. Portanto, de acordo com os estudos do ISD, a atividade da linguagem se organiza em discursos e em textos, e os textos organizam-se em gêneros. Daí a necessidade de trabalhar a aula de português a partir da diversidade textual, dos gêneros. Veçossi (2014, documento on-line) resume as ideias do ISD da seguinte forma: Em síntese, a articulação dos três autores no escopo do ISD leva-nos à seguinte relação: os signos (na acepção saussureana do termo), com seus significados (arbitrários), comungados historicamente pela comunidade de falantes, adquirem determinados sentidos (carregados ideologicamente) ao serem atualizados no interior de produções situadas socio-historicamente (Cf. BAKHTIN, 1997; 2004). Tais produções, sempre vinculadas a esferas de atividade verbal humana, ocorrem sob a forma de enunciados, concretos e únicos, os quais, por sua vez, atualizam, sob a forma de textos, os gêneros em uso em determinada comunidade (na acepção bakhtiniana do termo). Pensando no nível ontogenético, os gêneros funcionam como instrumentos (Cf. a noção vygotskiana) que, ao serem internalizados em meio a atividades sociais, propiciam o desenvolvimento das funções psicológicas superiores nos indivíduos, permitindo que estes ultrapassem o aspecto biológico e atinjam a dimensão sócio-histórica, que é típica do humano. O ISD propõe, portanto, que os textos sejam analisados na perspectiva das múltiplas atividades para que, a partir das análises, se compreenda o humano. Assim, é possível aliar a leitura e a escritaao ensino gramatical. A concepção de letramento dialoga com esses fundamentos. O letramento que considera a linguagem como interação dedica-se não só ao ler e ao escrever, mas também ao uso do ler e do escrever, e isso se refere às demandas de leitura e de escrita impostas pela sociedade. Essa concepção social da linguagem enfatiza o trabalho com gêneros textuais. Fuza et al. (2011, p. 493) afirmam que: “No processo de ensino e aprendizagem da língua materna, os gêneros são tomados como objetos de ensino (Brasil, 1998) e, por isso, são responsáveis pela seleção dos textos que serão trabalhados como unidades de ensino”. Em suma, a concepção de linguagem como meio de interação inclui o contexto social de construção de sentidos dos textos e cria a necessidade de práticas pedagógicas que privilegiem o estudo da língua a partir do texto para ampliar a competência comunicativa dos alunos. Para tanto, as práticas Fundamentos teórico-metodológicos do ensino de língua materna: um panorama6 de oralidade, escrita, leitura e análise linguística devem estar associadas ao estudo do texto. 2 Diretrizes para a elaboração e avaliação de materiais didáticos de Língua Portuguesa A noção de que a linguagem funciona apenas para que as pessoas possam interagir socialmente e que as aulas de língua portuguesa devem ser planeja- das e executadas com base nesse fundamento já é seguida em algumas ações governamentais. Esse é o caso dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e do Guia do Plano Nacional do Livro Didático (PNLD). O privilégio à dimensão interacional e discursiva da língua se articula no uso da língua oral e escrita e na reflexão sobre esses usos. Portanto, surge no tratamento da oralidade, da produção de textos, da leitura e da análise linguística. Observemos como essas relações aparecem nas diretrizes dos documentos orientadores nacionais? Os PCNs determinam que não é papel da escola ensinar alguém a falar ou a falar bem. Assim, o trabalho com a oralidade requer atividades sistemáticas de fala, escuta e reflexão sobre a língua. Veja (BRASIL, 1997, p. 39): São essas situações que podem se converter em boas situações de aprendizagem sobre os usos e as formas da língua oral: atividades de produção e interpretação de uma ampla variedade de textos orais, de observação de diferentes usos, de reflexão sobre os recursos que a língua oferece para alcançar diferentes finalidades comunicativas. Para isso, é necessário diversificar as situações propostas tanto em relação ao tipo de assunto como em relação aos aspectos formais e ao tipo de atividade que demandam — fala, escuta e/ou reflexão sobre a língua. Note que o foco está no desenvolvimento da competência comunicativa e na reflexão sobre a língua de forma contextualizada. Para tanto, são necessárias atividades associadas à resolução de problemas, às necessidades oriundas de conflitos surgidos no ambiente escolar (algo a ser resolvido), como: “[...] exposição oral, sobre temas estudados apenas por quem expõe; descrição do funcionamento de aparelhos e equipamentos em situações onde isso se faça necessário; narração de acontecimentos e fatos conhecidos apenas por quem narra, etc.” (BRASIL, 1997, p. 39). 7Fundamentos teórico-metodológicos do ensino de língua materna: um panorama A BNCC (BRASIL, 2017) reitera a necessidade de incluir a oralidade como prática social que deve ser contemplada nas práticas pedagógicas e alerta que o componente de Língua Portuguesa deve ampliar os letramentos. Dessa forma, a oralidade se revela na BNCC como uma habilidade que permeia todos os campos da área de língua portuguesa. Aliás, nesse documento, aparecem de forma mais clara os tipos de textos orais a se trabalhar e a relação dessa habilidade com as tecnologias atuais de informação e comunicação. O Eixo da Oralidade compreende as práticas de linguagem que ocorrem em situação oral com ou sem contato face a face, como aula dialogada, webcon- ferência, mensagem gravada, spot de campanha, jingle, seminário, debate, programa de rádio, entrevista, declamação de poemas (com ou sem efeitos sonoros), peça teatral, apresentação de cantigas e canções, playlist comentada de músicas, vlog de game, contação de histórias, diferentes tipos de podcasts e vídeos, dentre outras. Envolve também a oralização de textos em situações socialmente significativas e interações e discussões envolvendo temáticas e outras dimensões linguísticas do trabalho nos diferentes campos de atuação (BRASIL, 2017, p. 74–75). Além disso, a BNCC prevê o aumento da complexidade do tema oralidade (BRASIL, 2017), conforme o aluno avança nos estudos. Assim, se nos anos iniciais se privilegiam os momentos de fala e de escuta e a produção de textos orais curtos, nos anos seguintes o aluno começa a ser desafiado a planejar textos orais e a compreendê-los para, nos anos finais, ser capaz de produzir textos mais longos e a participar de discussões orais de temas controversos de interesse da turma e/ou de relevância social. O Guia PNLD (BRASIL, 2020) orienta que a produção de materiais didáticos contribua com a compreensão dos alunos sobre as modalidades escrita e oral da língua na produção e na análise de textos. Quanto às práticas de leitura, há consenso entre todas as normas para que se abandonem as propostas que visam a extrair significados superficiais dos textos e que camuflam as intenções de análise gramatical na extração de exemplos do texto. Os PCNs (BRASIL, 1997, p. 41) fornecem uma orientação Fundamentos teórico-metodológicos do ensino de língua materna: um panorama8 direta sobre o tratamento didático que a leitura deve receber nas aulas de língua portuguesa: A leitura na escola tem sido, fundamentalmente, um objeto de ensino. Para que possa constituir também objeto de aprendizagem, é necessário que faça sentido para o aluno, isto é, a atividade de leitura deve responder, do seu ponto de vista, a objetivos de realização imediata. Como se trata de uma prática social complexa, se a escola pretende converter a leitura em objeto de aprendizagem deve preservar sua natureza e sua complexidade, sem descaracterizá-la. Isso significa trabalhar com a diversidade de textos e de combinações entre eles. Significa trabalhar com a diversidade de objetivos e modalidades que carac- terizam a leitura, ou seja, os diferentes “para quês” [...]. Nesse sentido, a leitura se insere na perspectiva do letramento, que se preocupa com a dimensão coletiva da leitura. Isso significa que essa prática deve estar associada à interação: do autor com o leitor, do leitor com o texto, confirme indica a BNCC (BRASIL, 2017, p. 67): O Eixo Leitura compreende as práticas de linguagem que decorrem da in- teração ativa do leitor/ouvinte/espectador com os textos escritos, orais e multissemióticos e de sua interpretação, sendo exemplos as leituras para: fruição estética de textos e obras literárias; pesquisa e embasamento de tra- balhos escolares e acadêmicos; realização de procedimentos; conhecimento, discussão e debate sobre temas sociais relevantes; sustentar a reivindicação de algo no contexto de atuação da vida pública; ter mais conhecimento que permita o desenvolvimento de projetos pessoais, dentre outras possibilidades. Note que a diversidade textual é contemplada, revelando que os gêneros textuais devem servir de base para o desenvolvimento das habilidades ligadas à leitura. Da mesma forma, as práticas de produção textual compreendem dimensões inter-relacionadas às práticas de uso e reflexão. Assim, se reitera o lugar de sujeito autor, que desconecta a produção de textos de uma atividade mecânica e sem autoria. Além disso, há espaço para diferentes gêneros, inclusive os não tradicionais, que podem ser uma tendência revelada na palavra multissemiótico, que também demonstra a variedade de olhares para um mesmo texto: tanto na questão de recepção quanto na de produção. Aliás, a multimodalidade também apareceno Guia do PNLD (BRASIL, 2020, p. 130): A Produção Textual (escrita, oral ou multimodal) embasa-se nas concepções de gêneros discursivos e de linguagem como prática em sociedade, cujas 9Fundamentos teórico-metodológicos do ensino de língua materna: um panorama ações, ao propiciarem reflexões sobre as situações comunicativas, atendem às expectativas dos alunos no que se refere à inserção social. Os PCNs (BRASIL, 1997), embora publicados há mais tempo, já demons- tram a necessidade de um trabalho integrado, voltado aos diferentes gêneros textuais, pois afirmam que um escritor competente sabe selecionar o gênero mais apropriado a seu discurso. As práticas de análise e reflexão sobre a língua exigem um afastamento das ideias tradicionais de ensino de gramática. A intenção dessas atividades deve ser melhorar a capacidade de compreensão e expressão dos alunos. Os PCNs (BRASIL, 1997) revelam a imbricação que existe entre a análise linguística e a prática textual: orientam que se associem as atividades de compreensão de textos à prática de análise e reflexão sobre a língua. Essa proposta implica uma formulação constante de hipóteses a respeito do funcionamento da língua e instiga os alunos à experimentação de novas formas de escrever. Mas essa não costuma ser uma realidade das aulas de português brasilei- ras. Aliás, os livros didáticos, que são o principal material didático utilizado nas escolas do Brasil, mostram-se frágeis quanto à adequação da análise linguística aos fundamentos teóricos atuais. É o que revela o Guia PNLD (BRASIL, 2020, p. 23): Nesse eixo as propostas de atividades deveriam ser totalmente contextualizadas e voltadas para despertar nos(as) estudantes a reflexão sobre como tais recursos ajudam no funcionamento da língua, isto é, fazê-los(as) pensarem sobre quais efeitos de sentido o emprego de determinados recursos linguísticos e semi- óticos provoca. No entanto, na maioria das coleções aprovadas, as propostas ainda se valem de textos a partir dos quais são apresentados exercícios de identificação e de classificação de elementos ou termos gramaticais de forma conceitual, normativista e tradicional. Por essa razão, tais propostas recebem a classificação mais baixa de grau de contemplabilidade das habilidades. Entretanto, algumas obras conseguiram desenvolver atividades com certa conexão com textos trabalhados nas seções de leitura, ou iniciados a partir de novos textos inseridos para esse fim. Nestes casos, os textos são explorados do ponto de vista da compreensão de leitura e a reflexão linguística aparece como recurso construtivo para a leitura do texto. A BNCC (BRASIL, 2017,) compartilha dessa ideia de que a análise linguís- tica está atrelada à produção e à compreensão de textos e utiliza a expressão “análise consciente” para nomear as estratégias utilizadas pelos alunos nas práticas de leitura e produção de textos. Isso significa que a análise linguística Fundamentos teórico-metodológicos do ensino de língua materna: um panorama10 deve estar a serviço da materialidade do texto, ou seja, as escolhas linguísticas interferem diretamente nos efeitos de sentido. Portanto, para a disciplina de Língua Portuguesa, por estar associada ao ensino e ao estudo de língua, é preciso assumir uma visão sobre a língua e estabelecer uma relação com essa língua. A visão que o Ministério da Educação aponta segue a tendência interacionista, que propõe práticas de reflexão sobre o objeto de estudo no contexto da enunciação. 3 Importância da leitura, da oralidade e da escrita para o letramento A concepção da linguagem como interação pressupõe que a situação discursiva que permeia a leitura de um texto inicia antes mesmo da decodifi cação das palavras escritas, ou melhor, pressupõe que, para ser texto, não precisa utilizar linguagem verbal. Aliás, essa abordagem considera que a leitura de mundo antecede a leitura da palavra. Nessa perspectiva, diferentes leitores podem produzir diferentes leituras para um mesmo texto em diferentes situações discursivas. Da mesma forma, podem ser produzidos diferentes textos sobre o mesmo tema, conforme os interesses dos leitores e os objetivos do escritor, ou seja, um mesmo tema pode gerar diferentes gêneros. Nesse contexto, se situa a defi nição de letramento: “Letramento é, pois, o resultado da ação de ensinar ou de aprender a ler e escrever: o estado ou a condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como consequência de ter-se apropriado da escrita” (SOARES, 2009, p. 18). Esse indivíduo letrado passa a se relacionar com os demais de forma di- ferente, pois se insere no campo da cultura. Além disso, assume uma postura cognitiva também diferente: o acesso a uma diversidade de informações e pontos de vista aliado à capacidade de reflexão crítica fazem com que o letrado se diferencie dos analfabetos ou iletrados. Esse lugar diferenciado é acessado pela leitura, pela oralidade e pela escrita, pontos essenciais ao letramento. Quem é letrado torna a escrita sua propriedade: pode usá-la como quiser, conforme revela Soares (2009, p. 44): [...] letramento é um estado, uma condição: o estado ou condição de quem interage com diferentes portadores de leitura e de escrita, com diferentes gêneros e tipos de leitura e de escrita, com as diferentes funções que a lei- tura e a escrita desempenham na nossa vida. Enfim: letramento é o estado ou condição de quem se envolve nas numerosas e variadas práticas sociais de leitura e de escrita. 11Fundamentos teórico-metodológicos do ensino de língua materna: um panorama Com essa perspectiva, o letramento é visto como prática social, pois, à medida que o indivíduo se torna letrado, constrói sua identidade. Essa identi- dade interferirá na construção de sentidos tanto no processo de leitura quanto no de escrita e na construção da identidade dos interlocutores. Dessa forma, se exigem práticas de letramento na escola diferentes das tradicionais, pautadas na alfabetização e na codificação e decodificação dos textos. Afinal, o letramento não está preso às paredes da escola: ele ocorre fora da sala de aula também, garantindo interações e comunicações entre interlocutores. Nesse sentido, os significados não estão no texto; por isso não é possível propor práticas de letramento na escola que se limitem a decodificar textos. A necessidade passa a ser de propostas pedagógicas de construção de sentidos em negociações intersubjetivas. Para tanto, as práticas de linguagem devem permitir trocas entre os sujeitos, construção de relações intertextuais com textos orais e escritos, entrecruza- mento de culturas etc. Assim, leitura, oralidade e escrita revelam-se imbricadas. Aliás, a própria BNCC (BRASIL, 2017, p. 85) determina a relação entre todos esses eixos e sua associação com os diferentes letramentos: Assim, no Ensino Fundamental — Anos Iniciais, no eixo Oralidade, aprofun- dam-se o conhecimento e o uso da língua oral, as características de interações discursivas e as estratégias de fala e escuta em intercâmbios orais; no eixo Análise Linguística/Semiótica, sistematiza-se a alfabetização, particularmente nos dois primeiros anos, e desenvolvem-se, ao longo dos três anos seguintes, a observação das regularidades e a análise do funcionamento da língua e de outras linguagens e seus efeitos nos discursos; no eixo Leitura/Escuta, amplia-se o letramento, por meio da progressiva incorporação de estratégias de leitura em textos de nível de complexidade crescente, assim como no eixo Produção de Textos, pela progressiva incorporação de estratégias de produção de textos de diferentes gêneros textuais. Note que a orientação está destinada aos anos iniciais do Ensino Fun- damental, logo, a importância da leitura, da oralidade e da escrita para o processo de letramento surge desde os primeiros contatos do aluno com o mundo escolar. Isso significa que o aluno não precisa ser alfabetizado para se inserir no mundo letrado. Afinal, na vida, ele está inserido empráticas que também preservam enunciados orais e escritos que o auxiliam a viabilizar a consciência do mundo letrado. Portanto, o letramento envolve tanto a leitura quanto a escrita. Como afirma Soares (2009, p. 68–69): Fundamentos teórico-metodológicos do ensino de língua materna: um panorama12 A leitura, do ponto de vista da dimensão individual de letramento (a leitura como uma "tecnologia"), é um conjunto de habilidades linguísticas e psico- lógicas, que se estendem desde a habilidade de decodificar palavras escritas até a capacidade de compreender textos escritos. [...] Assim como a leitura, a escrita, na perspectiva da dimensão individual do letramento (a escrita como uma "tecnologia"), é também um conjunto de habilidades linguísticas e psicológicas, mas habilidades fundamentalmente diferentes daquelas exigidas pela leitura. Enquanto as habilidades de leitura estendem-se da habilidade de decodificar palavras escritas à capacidade de integrar informações provenientes de diferentes textos, as habilidades de es- crita estendem-se da habilidade de registrar unidades de som até a capacidade de transmitir significado de forma adequada a um leitor potencial. Vale destacar que, no contexto social atual em que os significados es- tão sendo construídos, os processos de leitura e escrita estão ocorrendo no universo da cibercultura. Assim, a comunicação pode ocorrer de diferentes formas (além da oral e da escrita) e em diferentes tempos, logo as práticas de letramento deverão de adaptar a essas demandas conforme o contexto social. A BNCC (BRASIL, 2017, p. 65) orienta sobre a importância de se dar espaço a novas mídias: Não se trata de deixar de privilegiar o escrito/impresso nem de deixar de considerar gêneros e práticas consagrados pela escola, tais como notícia, re- portagem, entrevista, artigo de opinião, charge, tirinha, crônica, conto, verbete de enciclopédia, artigo de divulgação científica etc., próprios do letramento da letra e do impresso, mas de contemplar também os novos letramentos, essencialmente digitais. A orientação reforça uma tendência: a necessidade de incluir os multile- tramentos nas práticas de linguagem adotadas nas aulas de português. Afinal, não basta ser letrado no mundo das letras e iletrado no mundo digital se este está ocupando grande parte dos espaços de comunicação, interação e troca de informações. Essa variedade de discursos midiáticos e de mensagens multissemiotizadas deve ser também preocupação da escola, que precisa estar em sintonia com a realidade dos estudantes, como indica a BNCC: “Dessa forma, a BNCC procura contemplar a cultura digital, diferentes linguagens e diferentes letramentos, desde aqueles basicamente lineares, com baixo nível de hipertextualidade, até aqueles que envolvem a hipermídia” (BRASIL, 2017, p. 66). 13Fundamentos teórico-metodológicos do ensino de língua materna: um panorama O termo multiletramento se refere a uma multiplicidade de linguagens, semioses e mídias envolvidas na criação de significação para os textos multimodais contem- porâneos (ROJO, 2013). Portanto, as atividades de leitura, escrita e oralidade devem estar em sintonia com a pluralidade cultural da sociedade contemporânea. Rojo (2013) alerta que a educação linguística atual deve levar aos alunos projetos de futuro em três dimensões: 1. diversidade produtiva (âmbito do trabalho); 2. pluralismo cívico (âmbito da cidadania); 3. identidades multifacetadas (âmbito da vida pessoal). Isso significa que, com novos gêneros discursivos e novas tecnologias de leitura e escrita, já não basta a leitura do texto escrito. As outras modalidades de linguagens deverão dividir espaço com a linguagem verbal. A pedagogia dos multiletramentos é defendida pelo Grupo de Nova Londres, que se organizou para debater as relações entre pedagogia e letramento. A ideia de multile- tramento surgiu para se opor ao mero letramento, isto é, para ratificar que no processo de construção de significados na contemporaneidade há diferentes possibilidades (THE NEW LONDON GROUP, 1996). Para que essas práticas se efetivem, é preciso haver condições para o letramento e para o multiletramento. Soares (2009) afirma que deve haver escolarização real e efetiva da população e disponibilidade de material de leitura. Podemos imaginar que a concretização de práticas de multiletramentos exige, no mínimo, disponibilidade de computadores e acesso à internet. Fundamentos teórico-metodológicos do ensino de língua materna: um panorama14 Não se pode mais tratar apenas de letramento do texto impresso. Isso significa que o professor e a escola devem oportunizar o acesso dos alunos a outros textos. Aliás, a televisão e a internet, por exemplo, fornecem material para a leitura crítica, para a análise das questões ideológicas, isto é, para o letramento crítico. Assim, os discursos midiáticos presentes nos variados meios de comunicação podem servir de objeto de estudo nas aulas de língua também. Certamente, tanto a demanda de multiletramento quanto a de acesso a textos multimodais pressionarão a escola a vincular o estudo da língua ao contexto social. E essa pressão problematizará as práticas pedagógicas que não costumam considerar as questões sociais, psicológicas, culturais e ideológicas que permeiam a comunicação. Assim, as propostas de letramento devem provocar forte impacto no processo de ensino-aprendizagem. ANTUNES, I. Aula de português: encontro & interação. 6. ed. São Paulo: Parábola, 2003. BEZERRA, R. G.; SIMÕES E LUNA, T. S. Concepções de linguagem: uma análise prelimi- nar do discurso docente e das práticas em sala de aula. Encontros de Vista, v. 16, n. 1, p. 31-50, jan./jun. 2016. Disponível em: http://www.encontrosdevista.com.br/Artigos/ art_03_152.pdf. Acesso em: 15 abr. 2020. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: educação é a base. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2017. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/ index.php?option=com_docman&view=download&alias=79601-anexo-texto-bncc- -reexportado-pdf-2&category_slug=dezembro-2017-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 15 abr. 2020. BRASIL. 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