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Módulo 2 - TRANSTORNOS DO NEURODESENVOLVIMENTO 2.1 Principais transtornos do neurodesenvolvimento Para iniciarmos nossa discussão sobre os transtornos do neurodesenvolvimento, é preciso antes fazermos uma viagem ao passado. Ao longo da história, as pessoas com deficiências ou transtornos de neurodesenvolvimento foram chamadas de diversos nomes pejorativos, que não são mais utilizados na atualidade – como deficientes mentais, mente fraca, idiotas, tolos etc. Esses nomes têm base em um modelo de defectologia, que afirmava que as pessoas com deficiências e/ou limitações em suas áreas intelectuais, socioculturais ou comportamentais ficavam para trás em comparação com as pessoas chamadas neurotípicas durante o período de desenvolvimento. Logo, indivíduos com qualquer tipo de transtorno ou déficit eram classificados apenas com base em suas fragilidades (MCNABB, 2020). As pessoas com transtornos do neurodesenvolvimento foram discriminadas e viveram sob opressão durante todo o período antigo. Na Grécia Antiga, por exemplo, os bebês nascidos com deficiência eram jogados de topos de montanhas ou abandonados ao relento, não tendo qualquer chance de sobrevivência. O nascimento de uma criança com deficiência era considerado uma maldição, um castigo dos deuses para os pais, e, segundo as literaturas, as mulheres eram proibidas de engravidarem se houvesse alguma possibilidade de terem um filho com algum tipo de deficiência. Aristóteles recomendou o infanticídio e Platão sugeriu que mulheres com mais de quarenta anos deveriam praticar o aborto. Na antiga região de Esparta, havia uma responsabilidade legal de abandonar crianças deformadas e doentes (GROFF, 1973). Durante a Idade Média, as pessoas com transtornos do neurodesenvolvimento eram cuidadas, principalmente, por seus familiares ou pela sociedade na Europa até o período de industrialização, iniciado no século XVIII. Na Era Moderna, com as mudanças sociais, surgiram novos desafios para as pessoas com deficiência, principalmente com o surgimento do conceito de instituições para pessoas com deficiências intelectuais e físicas, que se tornaram muito populares e se desenvolveram em vários lugares durante esse período. Embora inicialmente o conceito fosse dar apoio às pessoas com deficiência, essas instituições ficaram superlotadas e se transformaram em um palco para várias formas de abuso, especialmente as instituições financiadas com recursos públicos. Havia também outra ideia, conhecida como eugenia, que surgiu de uma interpretação deturpada da teoria de Charles Darwin sobre a evolução e sobrevivência do mais apto. Introduzida pela primeira vez pelo primo de Darwin, Sir Arthur Galton, em 1880, os defensores da eugenia acreditavam que era possível melhorar a qualidade genética da população humana por meio da reprodução seletiva, ou seja, pelo encorajamento da reprodução de indivíduos com características ditas desejáveis e o desencorajamento – ou simplesmente impedimento – da reprodução daqueles com características consideradas indesejáveis por eles (BROWN; RADFORD, 2015). Tavrius/Shutterstock O conceito de eugenia se dividia em dois: a eugenia positiva envolvia encorajar indivíduos com características consideradas desejáveis – como inteligência, força física e boa saúde – a terem mais filhos, algo que poderia ser alcançado pela promoção do casamento e da reprodução entre tais indivíduos; a eugenia negativa, por outro lado, focava em prevenir que indivíduos com características consideradas indesejáveis – como doenças, deficiências ou comportamento criminoso – tivessem filhos. Para Galton, isso poderia envolver a implementação de políticas como esterilização, segregação ou até mesmo eutanásia (BROWN; RADFORD, 2015). Numerosos métodos evoluíram para desencorajar esses indivíduos de grupos segregados a criarem suas famílias, um conceito que foi amplamente aceito nos países industrializados, que promoviam essas práticas ao separarem homens e mulheres internados em asilos. Programas de esterilização foram estabelecidos para pessoas com deficiência, em que métodos perversos de esterilização forçada foram realizados (BROWN; RADFORD, 2015). Apesar de ter sido amplamente utilizada em vários países – levando a abusos de direitos humanos, discriminação e violação da autonomia individual –, a teoria de eugenia de Galton foi completamente desacreditada e rechaçada pela comunidade científica devido a sua natureza antiética e a falta de validade científica. Avançando pela Era Contemporânea, desde meados do século XIX, algumas das instituições focadas em acolherem indivíduos com deficiências começaram a fechar. Com o avanço do conhecimento sobre deficiências intelectuais e físicas, a percepção das pessoas com relação às deficiências começou a mudar. Como resultado, programas para treinar esses indivíduos, para torná-los parte da sociedade – não mais segregando-os –, lentamente se desenvolveram. As pessoas com deficiência e suas famílias tornaram-se mais conscientes de seus direitos, o que também contribuiu para essas mudanças. A partir desse período, pessoas com deficiência foram autorizadas a fazerem parte do sistema escolar e receberem educação e treinamento especial (BROWN; RADFORD, 2015). Voltando da nossa viagem ao passado para os dias atuais, podemos dizer que os distúrbios do neurodesenvolvimento são um grupo de condições que afeta o desenvolvimento e o funcionamento do sistema nervoso, principalmente do cérebro. Esses distúrbios geralmente surgem durante a primeira infância e são caracterizados por deficiências em vários aspectos do desenvolvimento neurológico, incluindo cognição, comportamento, interação social, comunicação e habilidades motoras. Acredita-se que os distúrbios do neurodesenvolvimento resultem de uma combinação de fatores genéticos e ambientais que perturbam o crescimento e a organização típicos do cérebro. As causas específicas desses distúrbios costumam ser complexas, multifatoriais e não totalmente compreendidas, mas as pesquisas da atualidade sugerem que tanto as predisposições genéticas quanto as influências ambientais desempenham um importante papel. As classificações dos transtornos do neurodesenvolvimento foram feitas com base em suas apresentações clínicas, e há muitas sugestões para mudanças nessas classificações. Existe uma sobreposição significativa de sintomas entre os vários transtornos do neurodesenvolvimento e eles compartilham características comuns, como o TEA e o TDAH. Portanto, usar o termo geral transtornos do neurodesenvolvimento ajuda a reconhecer as semelhanças e a sobreposição de sintomas entre esses distúrbios (GAUDET; GALLAGHER, 2020). Embora exista uma ampla classificação dos transtornos do neurodesenvolvimento, de acordo com Artigas-Pallarés, Guitart e Gabau-Vila (2013), eles podem ser divididos em três grandes grupos: Andrew Krasovitckii/Shutterstock Os transtornos do neurodesenvolvimento que não têm uma causa específica – isto é, não têm base genética – compreendem todos os transtornos encontrados na quinta edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais sob a denominação de distúrbios do neurodesenvolvimento, e são (APA, 2014): Deficiência Intelectual (DI), transtornos da comunicação, transtorno do espectro autista (TEA), transtorno do déficit de atenção/hiperatividade (TDAH), transtornos específicos de aprendizagem, transtornos motores e transtornos de tique. No segundo grupo, encontramos os transtornos do neurodesenvolvimento que residem em um gene específico e que estão ligados a alterações estruturais, como a síndrome de Down, a síndrome de Rett, a síndrome de Williams, entre outras. Quanto ao terceiro grupo, nele estão os transtornos do neurodesenvolvimento que residem em uma causa ambiental conhecida, como a síndrome alcoólica fetal, alterações embrionárias por ácido valproico etc. Os sintomas e a gravidade dos distúrbios do neurodesenvolvimento podem variar amplamente, com algumas crianças tendo deficiências leves, que afetam apenas ligeiramente suas vidas diárias, enquanto outras podem enfrentaralunos com distúrbios de processamento sensorial. Também é possível fornecer suporte visual – como horários e dicas visuais – para ajudar os alunos com transtornos do neurodesenvolvimento a compreender as expectativas e rotinas. Talvez seja preciso oferecer tempo estendido para tarefas e testes, reduzir a carga de trabalhos de casa e ajustar os critérios de avaliação. Ainda no que se refere ao ambiente da sala, é importante que o professor esteja disponível e preparado para oferecer apoio social e emocional aos seus alunos, especialmente àqueles com transtornos de neurodesenvolvimento, de modo a construir um ambiente favorável e inclusivo, promovendo a compreensão e a aceitação entre os colegas. É possível, por exemplo, ensinar habilidades sociais explicitamente por meio de atividades estruturadas e dramatizações; ou até mesmo usar estratégias para controlar a ansiedade e a regulação emocional, como exercícios de atenção plena ou um espaço seguro designado. antoniodiaz/Shutterstock Devido a essa relação próxima que os docentes têm com seus alunos, é sempre importante criar estratégias de comunicação, adaptando os métodos de comunicação às necessidades do indivíduo. Alguns estudantes podem se beneficiar de dispositivos ou ferramentas de comunicação aumentativa e alternativa, mas, para isso, os educadores devem procurar usar uma linguagem clara e concisa, fornecendo recursos visuais para reforçar as instruções verbais. Além da comunidade escolar – pais, funcionários, outros docentes e alunos etc. –, o educador também podem colaborar com profissionais especializados (fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais ou terapeutas comportamentais) conforme necessário. É possível utilizar as estratégias aprendidas pelo estudante em sessões de terapia em sala de aula para reforçar suas habilidades. O educador pode incentivar o apoio e a inclusão de pares por meio de tutores ou sistemas de camaradagem, de modo a ajudar os alunos com transtornos do neurodesenvolvimento a se envolver com seus colegas de maneira significativa, estabelecendo vínculos afetivos de qualidade. Pode-se promover a inclusão envolvendo estudantes neurodiversos em atividades regulares de sala de aula e extracurriculares, quando apropriado. Por último, mas não menos importante, o professor pode fazer uso das técnicas de reforço positivo e recompensas para motivar e reconhecer os esforços e as realizações do aluno. É importante celebrar pequenos sucessos para aumentar a autoestima e a confiança do estudante, ajudando, assim, a fortalecer os vínculos entre professores e alunos, para promover o sentimento de pertencimento e bem-estar. É importante lembrar que cada aluno com transtorno do neurodesenvolvimento é único, por isso é essencial adaptar estratégias de apoio aos pontos fortes e desafios específicos desses alunos. A colaboração regular entre professores, pais, especialistas e os próprios estudantes pode contribuir para uma experiência educacional mais bem-sucedida. 5.1 O papel da família Ter um membro da família que vê e vivencia o mundo de modo diferente pode colocar uma pressão muito grande nos relacionamentos pessoais e causar efeitos em toda a dinâmica familiar, fazendo com que muitos pais tenham dificuldade em estabelecer um vínculo com os filhos, em função da necessidade de desconstrução daquele filho que foi idealizado e que não correspondeu às expectativas, gerando culpa e dificuldade de aceitação. Devido à necessidade maior de suporte e atenção, as crianças com transtornos do neurodesenvolvimento demandam mais tempo dos pais, o que pode gerar ressentimento entre os irmãos. O aumento do conflito pode gerar comportamentos desafiadores e difíceis de compreender e gerenciar; como consequência, podem surgir rompimentos de relacionamentos e, em última instância, até mesmo prejudicar o relacionamento entre os pais. Todos os comportamentos têm uma função, além disso, fatores ambientais, frustrações causadas por diferenças perceptivas, exigências e expectativas sociais podem aumentar a probabilidade e a intensidade do surgimento de algum tipo de comportamento específico. O papel da família no cuidado de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento é crucial e multifacetado, pois atuam dando apoio, amor e recursos para ajudar essas crianças a prosperarem. Com base nisso, no Quadro 1 elencamos alguns aspectos-chave do papel da família no cuidado com crianças com distúrbios do neurodesenvolvimento. Quadro 1 – Aspectos-chave do papel da família Apoio emocional Devem fornecer apoio emocional, oferecendo amor, aceitação e compreensão à criança, de modo a ajudarem as crianças a desenvolverem autoestima e confiança, enfatizando seus pontos fortes e conquistas. Defesa de direitos Defendem os direitos das crianças de receberem atendimento adequado, tanto no sistema de saúde quanto em ambientes educacionais. Isso inclui trabalhar em conjunto com profissionais de saúde, terapeutas e educadores para garantir que a criança receba os serviços adequados. Educação e conscientização Assumem a liderança na educação sobre o transtorno do neurodesenvolvimento específico das crianças, ajudando-as a compreender melhor os desafios que irão enfrentar e como fornecer um apoio eficaz, podendo também sensibilizar as comunidades a reduzirem o estigma e promoverem o entendimento dessa condição. Tratamento e terapia São normalmente responsáveis por coordenar e facilitar diversas terapias e intervenções que podem ser recomendadas para as crianças, como terapia da fala, terapia ocupacional, terapia comportamental ou gerenciamento de medicamentos. Podem precisar participar de sessões de terapia com a criança e praticar em casa as técnicas recomendadas. Ambiente estruturado Criar um ambiente estruturado e consistente em casa pode ser benéfico para crianças com transtornos do neurodesenvolvimento, por isso estabelecer rotinas e expectativas claras pode ajudar a reduzir a ansiedade e melhorar a capacidade da criança de funcionar de maneira eficaz. Comunicação Uma comunicação aberta e eficaz dentro da família é essencial. Isso inclui discutir o progresso da criança, partilhar preocupações e trabalhar em conjunto para enfrentar quaisquer desafios que surjam. Apoio financeiro e de recursos Podem precisar de assistência financeira ou solicitar recursos públicos para ajudar a cobrir os custos de terapia, educação especializada e outros serviços de apoio. Isso pode envolver a navegação em sistemas de seguros ou a procura de programas de assistência governamental. Apoio aos irmãos Os irmãos de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento também desempenham um papel significativo na dinâmica familiar, com os pais ajudando-os a compreender a condição de seus irmãos neurodivergentes e fornecer-lhes apoio emocional, buscando dedicar tempo de qualidade a todos, sem distinção. Fonte: Elaborado pela autora. Em resumo, as famílias são parceiras essenciais no cuidado e no bem-estar das crianças com transtornos do neurodesenvolvimento, dando apoio emocional, defesa, educação e acesso aos recursos e terapias necessárias. Ao se envolverem ativamente nos cuidados dos seus filhos e promoverem um ambiente de apoio e inclusivo, as famílias podem ajudar as crianças com transtornos do neurodesenvolvimento a atingirem o seu potencial máximo e a terem vidas plenas. De acordo com algumas pesquisas, é possível abraçar a neurodiversidade como parte da vida familiar cotidiana, utilizando algumas estratégias específicas para alcançar esse objetivo, como (MCLEAN, 2022): Livro No livro Como lidar com mentes a mil por hora: Entenda o TDAH de uma vez por todas e descubra como mentes hiperativas e desatentas podem ter uma vida bem-sucedida, o Dr. Clay Brites traduz as descobertas das neurociências para a compreensão de pais sobre o TDAH. Além disso, também responde a questões instigantes sobre como lidar com os comportamentos disruptivos, a fim de que eles não tenham um impacto negativo no desenvolvimento, com estratégias úteis que promovem a superação, de maneira assertiva,das dificuldades trazidas pelo TDAH. BRITES, C. São Paulo: Gente, 2021. pics five/Shutterstock Conversar com os filhos sobre neurodiversidade, neurodivergência e aceitação, de modo a familiarizar as crianças ao tema e resolver possíveis questionamentos delas. Por exemplo, os pais podem dizer: “o cérebro de algumas pessoas funciona de maneira diferente do que de outras. Isso significa que eles também aprendem e fazem amigos de maneira diferente”. fizkes/Shutterstock Pesquisar sobre neurodiversidade e neurodivergência – por meio de livros, artigos, notícias etc. – para responder corretamente aos questionamentos das crianças sobre esses temas. A intenção aqui não é realizar uma pesquisa intensa e consultar várias fontes diferentes, mas sim se preparar para responder corretamente às dúvidas que podem surgir. Olesia Bilkei/Shutterstock Incluir crianças neurodivergentes nas atividades sociais, como festas, brincadeiras etc. Entretanto, para isso é necessária uma preparação, por exemplo: caso uma criança com TEA seja convidada para uma festa de aniversário, deve-se perguntar aos pais dela como as necessidades dessa criança devem ser atendidas ou lhes dar maiores detalhes da festa (quais atividades acontecerão, se haverá ou não música ou barulhos muito altos etc.). fizkes/Shutterstock Informar às crianças qual é a melhor forma de se comunicar com os amigos neurodivergentes, seja utilizando imagens, desenhos, comunicação não-verbal etc. É importante também que os pais informem aos filhos as práticas a serem evitadas nesses momentos, para que as brincadeiras ocorram sem maiores problemas, sempre prezando pela inclusão da criança neurodivergente em todos os momentos. Dessa maneira, compreendemos que educar uma criança com transtornos do neurodesenvolvimento apresenta muitos desafios. Os níveis de stress e o cansaço parental são mais elevados e mais frequentes, afetando o funcionamento familiar de maneira global. É importante observarmos que a saúde psicossocial dos pais e a presença de qualquer disfunção no núcleo familiar influenciam o desenvolvimento da criança, independentemente de a criança ter transtorno do neurodesenvolvimento ou não. As famílias de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento podem se beneficiar muito com programas de educação para os pais que devem se concentrar em melhorar as competências comunicativas dos pais, fornecer estratégias de psicoeducação e de gestão comportamental. As intervenções devem também ter como objetivo ajudar os pais a resolverem possíveis conflitos emocionais associados ao diagnóstico dos seus filhos e promover o seu próprio bem-estar psicossocial, criando assim um suporte adequado para o desenvolvimento integral da criança. 5.2 Suporte à família Os pais querem o melhor para os seus filhos e querem apoiá-los para que possam maximizar o seu potencial e levar uma vida feliz, saudável e plena. Muitas vezes, a vida familiar pode se tornar caótica e estressante e as frustrações e reações podem prejudicar as capacidades parentais, levando à ruptura de relacionamentos, ao sofrimento psíquico e ao aumento de comportamentos desafiadores. Trabalhando com os pais, precisamos adotar uma abordagem focada em soluções para desenvolver estratégias e abordagens adaptadas à dinâmica única da família. O desenvolvimento de estilos de comunicação positiva capacita pais e filhos para serem capazes de expressar seus sentimentos, seus medos e suas necessidades de uma forma eficaz, respeitosa e eficiente. Ground Picture/Shutterstock Quando estamos fornecendo suporte à família, precisamos utilizar uma abordagem focada em soluções para apoiar os casais e seus relacionamentos. A falha na comunicação, as pressões da vida cotidiana e as mudanças nas aspirações podem contribuir para um relacionamento infeliz, sem apoio e potencialmente volátil. Muitas vezes, os casais podem ver o mundo de maneiras diferentes, fazendo com que seja muito difícil enxergar algo na perspectiva do outro, e por terem dificuldade em compreender alguns dos comportamentos – como rigidez de pensamento ou alguma especificidade nas interações sociais – podem até mesmo pensar que seus companheiros têm algum tipo de transtorno de neurodesenvolvimento. Por isso precisamos apoiar os indivíduos e o casal a identificarem problemas e estabelecer estratégias e abordagens para fortalecerem os seus relacionamentos por meio de uma compreensão partilhada das percepções de cada um, criando uma comunicação significativa, reduzindo assim as oportunidades de conflito. Irmãos de crianças com transtorno do espectro autista muitas vezes enfrentam uma série de problemas durante a infância que podem impactar suas vidas e seus relacionamentos na idade adulta, por exemplo: os irmãos podem sentir que lhes foi negada uma infância considerada normal, pois tiveram que assumir um papel de cuidadores desde a tenra idade. A autoestima dessas crianças também pode ser afetada e muitas vezes pode haver ressentimento em relação aos irmãos neurodivergentes e aos pais, logo é necessário fornecermos acompanhamento psicológico e avaliarmos qual é o impacto da dinâmica familiar sobre a criança neurotípica, promovendo também seu desenvolvimento e seu bem-estar. Livro Embora a obra de Débora Fava, Martha Rosa e Angela Oliva, Orientação Para Pais: o que é Preciso Saber Para Cuidar dos Filhos, não seja específica para a educação de crianças com transtornos de neurodesenvolvimento, ela traz uma leitura rica que vale a pena ser explorada, dando ao pais a oportunidade de refletir sobre a parentalidade e seus desafios, como o impacto da chegada dos filhos e as relações de afetividade. A obra ainda aponta caminhos para o desenvolvimento de hábitos familiares saudáveis, como empatia, responsabilidade e saúde integral. FAVA, D. C.; ROSA, M.; OLIVA, A. D. (org.). Belo Horizonte: Artesã, 2018. Profissionais de saúde, educadores e demais profissionais especializados devem adotar uma abordagem focada em soluções, trabalhando com irmãos neurotípicos para ajudá-los a identificar e comunicar seus pensamentos e sentimentos e a desenvolver estratégias que lhes permitam estabelecer e manter relacionamentos saudáveis e definir aspirações de vida significativas. Uma pesquisa financiada pelo Departamento de Serviços Sociais do governo australiano nos traz algumas estratégias sobre como abraçar a neurodiversidade na comunidade (MCLEAN, 2022): LightField Studios/Shutterstock Estar atento à linguagem utilizada nas interações com pessoas com transtornos de neurodesenvolvimento, mas em caso de dúvida, é possível sempre perguntar diretamente à pessoa: “você prefere ‘criança autista’ ou ‘criança com autismo’?” Kikujiarm/Shutterstock Agir em situações em que uma pessoa neurodivergente precise de ajuda, ou para conscientizar os demais indivíduos, por exemplo: ao presenciar um adulto gritando com uma criança em crise em um parque, é necessário agir para auxiliar a criança – oferecendo apoio e ajuda a ela – ou para conscientizar o adulto em questão. Maria Sbytova/Shutterstock Evitar suposições e possíveis comentários ao presenciar uma criança neurodivergente com comportamentos peculiares (como apenas comer sanduíches embalados em um piquenique) ou utilizando materiais incomuns (como fones de ouvido em supermercados ou alguma peça de roupa muito específica). Drazen Zigic/Shutterstock Procurar formas de tornar a sua comunidade mais inclusiva e acolhedora, como fazer parte de uma petição incentivando o supermercado local a optar por uma hora de silêncio por semana, quando as luzes são reduzidas e nenhuma música é tocada. Studio Romantic/Shutterstock Tratar temas ligados à neurodiversidade e à neurodivergência com o devido respeito, pois sempre há chance de convivermos com pessoas neurodivergentes no dia a dia, mesmo que elas não tenham informado isso aos demais. Sendo assim, quando nos referimos ao suporte às famílias, precisamos melhorar a integração de cuidados e a prestação de serviços de saúde para crianças com transtornos do neurodesenvolvimento. A falta de coordenação entreos setores de serviços de saúde e os educacionais infantis é uma barreira comum no sucesso do tratamento e do apoio a essas crianças. A prestação de serviços fragmentados afeta negativamente os resultados dos pacientes; o funcionamento familiar e a qualidade de vida muitas vezes levam à utilização inadequada e ineficiente dos cuidados em saúde. Em função dessa desconexão entre os serviços de saúde, quase sempre a responsabilidade pela coordenação do cuidado recai em grande parte sobre a família. E quando falamos de crianças com necessidades complexas, essa coordenação do cuidado está além da capacidade de coordenação das famílias, sendo necessário o apoio dos órgãos de saúde e educacionais para a gestão do cuidado e a promoção de saúde e desenvolvimento integral. 5.3 O papel da escola As escolas desempenham um papel crucial no apoio a crianças com transtornos do neurodesenvolvimento, principalmente no que diz respeito à identificação e à avaliação desses transtornos, com professores, psicólogos escolares e profissionais de Educação Especial trabalhando juntos para identificar alunos que possam estar em risco ou ter esses transtornos. Para alunos com distúrbios do neurodesenvolvimento as escolas desenvolvem Planos Educacionais Individualizados (PEI), documento criado com base em avaliações realizadas em um estudante que apresente necessidades educacionais específicas e descreve objetivos educacionais específicos, acomodações e serviços adaptados às necessidades únicas da criança, garantindo que a criança receba apoio e instrução adequadas. Resumidamente, o objetivo principal do PEI é estabelecer um planejamento acerca do desenvolvimento do estudante durante toda sua trajetória escolar, registrando cada etapa, bem como cada progresso e cada área em que ele apresente alguma dificuldade. Diante desse documento, o professor é capaz de traçar caminhos sobre como agir e quais estratégias podem se tornar mais eficazes para a promoção de competências e habilidades do estudante. Quanto à sua forma, o ideal é que qualquer PEI seja elaborado em uma colaboração entre o professor regente da sala e o profissional responsável pelo Atendimento Educacional Especializado (AEE)1, para que as práticas desenvolvidas com o aluno em ambos os períodos sejam equivalentes (AMARO, 2017). Ainda para Amaro (2017), o estudante – independentemente da idade – tem papel central na aplicação de tudo o que foi planejado, pois são suas validações e observações que legitimarão se essa equivalência está sendo cumprida. Para qualquer profissional da área da docência, é importante compreender que os estudantes são o ponto de partida do processo de aprendizagem, algo ainda mais importante no AEE, visto que, de acordo com a Resolução n. 4/2009 do Conselho Nacional de Educação – que institui as Diretrizes Operacionais do AEE na Educação Básica: 1 O AEE tem como função principal identificar, organizar e elaborar estratégias e recursos pedagógicos para garantir a acessibilidade do estudante ao ensino integral, eliminando-se, assim, as barreiras que o impedem de participar do processo educacional, levando-se em consideração as suas necessidades específicas. O Atendimento Educacional Especializado tem como função complementar ou suplementar a formação do aluno por meio da disponibilização de serviços, recursos de acessibilidade e estratégias que eliminem as barreiras para sua plena participação na sociedade e desenvolvimento de sua aprendizagem. O PEI precisa ter como função traçar caminhos para que sejam minimizadas e/ou eliminadas as barreiras aos estudantes com deficiência, de modo que seja factível a participação de todos os estudantes no processo educacional, considerando-se as especificidades de cada indivíduo nesse contexto (AMARO, 2017). Sendo assim, as escolas precisam disponibilizar uma variedade de serviços de Educação Especial para atender às diversas necessidades dos alunos com transtornos do neurodesenvolvimento. É preciso fornecer recursos acessíveis e estratégias que favoreçam a escolarização desses estudantes, no que tange aos processos de aprendizagem e ao currículo. As escolas, muitas vezes, implementam planos de intervenção comportamental para abordar comportamentos desafiadores associados a distúrbios do neurodesenvolvimento, planos esses que envolvem métodos para promover comportamentos positivos e gerenciar ou reduzir comportamentos problemáticos. As instituições de ensino podem ainda fornecer formação a professores e funcionários sobre metodologias para ensinar e apoiar eficazmente os alunos com transtornos do neurodesenvolvimento, de modo a auxiliar os educadores a compreenderem melhor essas condições e a implementarem práticas fundamentadas em evidências. Livro Esta leitura do livro de Augusto Galery, A escola para todos e para cada um, traz-nos uma abordagem crítica sobre o modelo de escola que temos na atualidade. O paradigma da educação é colocado à prova diante da necessidade de uma escola que seja, de fato, inclusiva, levando-se em consideração a complexidade do processo de aprendizagem, que é único em cada sujeito. O livro também aborda a necessidade de analisar o contexto social em que o estudante está inserido, trazendo um olhar voltado para profissionais e estudantes das áreas da educação e da saúde. GALERY, A. (org.). São Paulo: Summus Editorial, 2017. Drazen Zigic/Shutterstock As escolas devem colaborar com os pais e os cuidadores para garantir a continuidade dos cuidados e do apoio à criança, uma ação feita em conjunto e que precisa estar alinhada, pois quanto maior for o alinhamento entre a escola, os pais e os cuidadores, maiores serão as chances de sucesso na garantia do pleno atendimento das necessidades específicas do estudante, gerando assim um processo educacional ecológico, pleno de sentido e realização. Sendo assim, a comunicação regular e frequente entre a equipe escolar e as famílias é essencial para abordar preocupações, monitorizar o progresso e ajustar as intervenções conforme necessário. As escolas também podem desempenhar um papel crucial na sensibilização da comunidade para os transtornos do neurodesenvolvimento e na defesa de políticas públicas que apoiem a inclusão e o bem-estar dessas crianças no sistema educacional. À medida que os alunos com transtornos do neurodesenvolvimento se aproximam da idade adulta, prioritariamente nos Anos Finais do Ensino Médio, as escolas podem auxiliar os pais no planejamento da transição para além da escola, avançando para o nível universitário, o primeiro emprego ou outros cursos profissionalizantes. É importante observarmos que as funções e os recursos específicos disponíveis nas escolas podem variar dependendo da cidade ou do estado, embora as legislações da Educação Especial sejam do âmbito federal. A colaboração entre educadores, pais, profissionais de saúde e especialistas é essencial para fornecer o melhor apoio possível às crianças com perturbações do neurodesenvolvimento e para promover seu desenvolvimento global e seu bem-estar. 5.4 Desafios no ambiente escolar As escolas enfrentam vários desafios quando se trata de atender às necessidades de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento. Esses desafios podem variar dependendo do tipo de transtorno, da gravidade e do nível de suporte necessário, dos recursos disponíveis e das características individuais da criança. Entre os desafios mais comuns presentes nos ambientes de escolares, temos: Diagnóstico e identificação Embora a escola não tenha a função de diagnosticar os distúrbios do neurodesenvolvimento, posto que qualquer diagnóstico está restrito à área da saúde, a falta de um diagnóstico impacta e pode ser um desafio no ambiente escolar. Apesar dessa importância, algumas crianças podem não ser diagnosticadas ou podem ter um diagnóstico equivocado por um longo período, levando a possíveis atrasos e prejuízos na prestação de apoio e serviços adequados. Limitações de recursos As limitações de recursos podem ter um grande impacto na inclusão das crianças com transtornos do neurodesenvolvimento.As escolas podem não ter os recursos necessários, incluindo professores de Educação Especial qualificados e pessoal de apoio para atender adequadamente às necessidades desses estudantes. As restrições orçamentárias também podem limitar a disponibilidade de programas e serviços especializados. Hananeko_Studio/Shutterstock Barreiras à educação inclusiva Embora a educação inclusiva seja ideal, podem existir barreiras à inclusão eficaz de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento nas salas de aula regulares. Essas barreiras podem incluir turmas grandes (o que gera maiores níveis de barulho, menor possibilidade de uma atenção mais direcionada do professor e excesso de estímulos), formação inadequada dos professores e falta de adaptações necessárias. Desafios comportamentais Crianças com distúrbios do neurodesenvolvimento podem apresentar comportamentos desafiadores, como agressão, impulsividade e dificuldade de autorregulação, principalmente no que diz respeito às emoções. Gerenciar esses comportamentos na sala de aula pode ser desafiador e exige treinamento e intervenções especializadas. Isolamento social Crianças com transtornos do neurodesenvolvimento podem sofrer com isolamento social e bullying por parte dos seus pares, o que pode ter um impacto profundamente negativo na sua autoestima e no seu bem-estar. PEI Desenvolver e implementar PEI eficazes requer tempo e experiência, e sem treinamento e formações adequadas algumas escolas podem ter dificuldades para criar e atualizar regularmente esses planos para atender às necessidades específicas de cada criança. Estigma e conscientização O estigma em torno dos transtornos do neurodesenvolvimento pode levar a mal-entendidos e preconceitos, tanto entre estudantes quanto entre pais, professores e demais funcionários da escola. Trabalhar a conscientização e promover uma cultura de aceitação e eliminação do estigma é um desafio constante, que demanda ações frequentes e assertivas. Formação de professores Nem todos os professores recebem formação adequada sobre como apoiar alunos com transtornos do neurodesenvolvimento. As oportunidades de desenvolvimento profissional podem ser limitadas e os professores podem ter dificuldades para implementar práticas com base em evidências, em função de uma formação deficitária. Colaboração entre pais e escola Construir parcerias fortes entre escolas e pais pode ser um desafio, especialmente se houver divergências sobre as necessidades da criança ou sobre a adequação das intervenções. De acordo com Snowling et al. (2004), os pais das crianças com dificuldades de aprendizagem e transtornos do neurodesenvolvimento costumam ser mais distantes dos professores no ambiente escolar, tendo pouco contato com eles. Por isso, muitas vezes esses pais não se sentem seguros em conversar com os professores sobre os desafios do processo educativo de seus filhos, criando-se assim uma imagem negativa entre docentes e pais. Media_Photos/Shutterstock Em alguns casos, os próprios pais também experimentaram dificuldades na vida escolar, como dificuldade para ler, escrever ou se comportar da maneira esperada, e esse mal-estar pode se refletir em relação a seus filhos e à escola, gerando ansiedade e culpa (SNOWLING et al., 2004). Precisamos entender que esse contexto pode gerar obstáculos na comunicação entre os pais e a escola, muitas das vezes um responsabilizando o outro pela falta de iniciativa nesse diálogo. A escola precisa compreender, então, a necessidade de buscar esses pais, considerados mais inamistosos, para que efetivamente seja possível trabalhar em conjunto, em busca de uma educação integral e de qualidade. Questões jurídicas e políticas As escolas precisam navegar em um cenário jurídico e político complexo relacionado com a Educação Especial. No Brasil, a legislação que rege a Educação Especial é composta de diversos decretos, leis, portarias e resoluções, que podemos ver elencadas e resumidas no Quadro 2. Quadro 2 – Fundamentação jurídica da Educação Especial. Decreto n. 3.298, de 20 de dezembro de 1999. Regulamenta a Lei n. 7.853, de 24 de outubro de 1989, dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, consolida as normas de proteção, e dá outras providências. Decreto n. 3.956, de 8 de outubro de 2001. Promulga a Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência. Lei n. 8.859, de 23 de março de 1994. Modifica dispositivos da Lei n. 6.494, de 7 de dezembro de 1977, estendendo aos alunos de ensino especial o direito à participação em atividades de estágio. Lei n. 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências. Lei n. 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras e dá outras providências. Portaria n. 1.793, de dezembro de 1994. Dispõe sobre a necessidade de complementar os currículos de formação de docentes e outros profissionais que interagem com portadores de necessidades especiais e dá outras providências. Resolução n. 2, de 11 de setembro de 2001. CEB/CNE – Institui Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. Fonte: MEC, 2023. O AEE, além de ser instrumento previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e regulamentado pelo Decreto n. 7.611 – de 17 de novembro de 2011 – foi disciplinado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) por meio da Resolução n. 4/2009. Sensibilidades sensoriais Algumas crianças com distúrbios do neurodesenvolvimento, como o transtorno do espectro autista, apresentam sensibilidades sensoriais que podem ser desencadeadas no ambiente escolar, logo gerenciar a sobrecarga sensorial ou os comportamentos de busca sensorial pode ser um desafio. Para enfrentar esses desafios, é essencial que as escolas priorizem o desenvolvimento profissional, aloquem recursos adequados, promovam uma cultura de inclusão e aceitação e colaborem com as famílias e as agências de apoio externas. Além disso, as políticas públicas e as práticas escolares devem ser continuamente revistas e adaptadas para atender às necessidades crescentes dos estudantes com transtornos do neurodesenvolvimento. As escolas podem se ajustar para que as crianças neurodivergentes possam participar plenamente na aprendizagem e na socialização na escola, de modo a abraçarem a neurodiversidade utilizando algumas estratégias (MCLEAN, 2022): Vídeo No vídeo Educação e Neurodiversidade, os participantes apresentam diversos temas referentes à educação e à neurodiversidade, ampliando a discussão sobre as diversidades neurocognitivas e como elas podem ser acolhidas e aproveitadas no ambiente escolar. É possível promover uma educação que seja inclusiva e ao mesmo tempo inovadora? Essa é a proposta desse projeto de extensão. Vale a pena conferir! Disponível em: https://www.youtube.com/live/hXgmNbIMX-Y?si=khI15vW2N4YyKpSb. Acesso em: 17 nov. 2023. PeopleImages.com - Yuri A/Shutterstock Aplicar mudanças no ambiente que auxiliem as crianças com sensibilidades sensoriais ou altos níveis de ansiedade, como espaços silenciosos e ajustes na iluminação. É possível ainda permitir que as crianças usem itens sensoriais como bolas macias nas aulas, ou variações no uniforme. Ground Picture/Shutterstock Utilizar métodos de ensino variados para atender a diversos estilos ou necessidades de aprendizagem, por exemplo: permitir que algumas crianças criem apresentações de vídeo em vez de fazerem apresentações em sala de aula, ou – nas práticas esportivas – permitir que apenas façam o registro ou o planejamento de tudo em vez de efetivamente realizarem as práticas. Ground Picture/Shutterstock Oferecer apoio e orientação a todas as crianças para que incluam as crianças neurodivergentes nas interações e nas brincadeiras, de acordo com as possibilidades e as especificidades de cada estudante, por exemplo: incluir aulas sobreneurodiversidade nas aulas de projeto de vida ou eletivas. Quando as crianças conversam e compreendem como as crianças neurodivergentes se comunicam e brincam, isso pode encorajar todas as crianças a interagirem de maneira respeitosa e em igualdade de condições. Isso ajuda a eliminar a expectativa de que as crianças neurodivergentes devam mudar ou se adequar a um padrão estabelecido. 5.5 Contribuições da neurodiversidade A neurodiversidade é um conceito que reconhece e celebra a variação natural nas características neurológicas e no funcionamento da população humana, sugerindo que diferenças neurológicas – como o TEA, TDAH, dislexia e outras – não são necessariamente déficits ou distúrbios, mas representam diversas formas de pensar, perceber e experimentar o mundo. É importante notarmos que embora o movimento da neurodiversidade esteja recebendo reconhecimento e apoio, nem todos os membros da comunidade neurodiversificada ou da sociedade em geral concordam com todos os aspectos desse conceito. Algumas pessoas preferem uma terminologia diferente ou têm perspectivas diferentes sobre até que ponto determinadas condições devem ser consideradas como parte do espectro da neurodiversidade. Ainda assim, a neurodiversidade é um conceito que desafia a estigmatização e a patologização das diferenças neurológicas, promovendo a ideia de que a diversidade – na forma como o nosso cérebro funciona – é uma parte natural e valiosa da existência humana. A neurodiversidade reconhece que existe um amplo espectro de diferenças neurológicas e que o cérebro de cada indivíduo funciona de maneira única, além de rejeitar a ideia de que existe uma única forma normal ou ideal de o cérebro funcionar. Desse modo, o paradigma da neurodiversidade promove aceitação e respeito por indivíduos com diferenças neurológicas, enfatizando a importância de acomodar e apoiar esses indivíduos, em vez de tentar normalizá-los. O conceito de neurodiversidade também desafia o modelo médico tradicional de deficiência, que costuma patologizar as diferenças neurológicas e se concentra em curá-las ou corrigi-las. Em vez disso, defende um modelo social que se concentra na abordagem das barreiras sociais e na criação de ambientes inclusivos que permitam indivíduos neurodiversos se desenvolverem e prosperarem. A neurodiversidade reconhece que diferenças neurológicas podem trazer pontos fortes, talentos e perspectivas únicas para a sociedade. Incentiva a adoção desses pontos fortes e a sua integração em vários aspectos da vida, incluindo a educação e o trabalho. O estudo da neurodiversidade traz contribuições significativas para a nossa compreensão das diferenças neurológicas e de desenvolvimento e tem um impacto positivo em vários aspectos da sociedade. Entre algumas das principais contribuições do estudo da neurodiversidade na sociedade contemporânea, temos: Livro No livro O que é neurodiversidade?, o autor Tiago Abreu traz uma breve história do conceito de neurodiversidade, que teve início da década de 1990, e em seguida nos convida a uma discussão importante sobre o que significa ser neurodivergente em uma sociedade avessa à deficiência, traçando um panorama das discussões e das descobertas dos últimos 30 anos. Embora essa discussão esteja longe de terminar, o autor nos traz boas reflexões a respeito desse tema tão atual. ABREU, T. Goiânia: Cânone Editorial, 2022. Promoção da inclusão e aceitação O conceito de neurodiversidade promove a ideia de que as diferenças neurológicas e de desenvolvimento são variações naturais da experiência humana, sendo assim, esse conceito incentiva a sociedade a ser mais inclusiva e a aceitar indivíduos com condições como TEA, TDAH, dislexia e outros transtornos do neurodesenvolvimento e específicos de aprendizagem. Esse fato levou a uma maior conscientização e à redução do estigma em torno dessas condições. Mudança de perspectiva A neurodiversidade desafia o modelo médico da deficiência, que vê as diferenças neurológicas como distúrbios que precisam ser corrigidos ou curados. Em vez disso, o conceito da neurodiversidade enfatiza um modelo social que se concentra na criação de ambientes e acomodações que permitem aos indivíduos prosperarem com as suas capacidades e seus desafios únicos, sem a necessidade de existir um único padrão de desenvolvimento, que garanta promoção de saúde, qualidade de vida e bem-estar. Advocacia e empoderamento O movimento da neurodiversidade capacitou indivíduos com condições neurodivergentes para defenderem seus direitos e suas necessidades. Esse empoderamento levou uma maior autonomia e autodeterminação para muitos indivíduos com diferenças neurológicas, desbravando limites do que era ou não possível de ser atingido, dentro da singularidade de cada indivíduo. Inovação educacional O estudo da neurodiversidade influenciou as práticas educacionais ao destacar a importância da educação personalizada e inclusiva, levando ao desenvolvimento de métodos de ensino mais flexíveis e apoio individualizado para alunos com condições neurodivergentes. Dessa forma, os professores também avançaram, no sentido em que precisaram aprofundar os seus conhecimentos, lutando por uma formação acadêmica mais sólida e de qualidade, a fim de atender aos seus estudantes com necessidades específicas, promovendo a educação integral para todos. Prostock-studio/Shutterstock Diversidade e inclusão no local de trabalho Muitas empresas da atualidade já reconheceram o valor da neurodiversidade no local de trabalho, implementando práticas de contratação inclusivas e criando ambientes de apoio que permitem que indivíduos neurodivergentes se destaquem em vários campos, incluindo áreas como tecnologia, engenharia e indústrias criativas. Pesquisa e compreensão O estudo da neurodiversidade estimulou a pesquisa sobre as causas subjacentes, os pontos fortes e os desafios associados às condições neurodivergentes. Essa pesquisa contribuiu para a nossa compreensão das diversas maneiras que o cérebro pode funcionar e apresenta novos campos de estudo e pesquisa na área das neurociências. Contribuições neurodivergentes Indivíduos neurodivergentes fizeram contribuições significativas em vários campos. Acredita-se que muitos cientistas, artistas, escritores e inovadores famosos – como Albert Einstein – tenham sido ou sejam neurodivergentes. O reconhecimento dessas contribuições destaca os pontos fortes e os talentos dos indivíduos neurodiversos. Construção de comunidade O estudo da neurodiversidade promoveu o desenvolvimento de comunidades e redes de apoio para indivíduos e famílias afetadas por condições neurodivergentes. Essas comunidades fornecem recursos, informações e apoio social valiosos. O sentimento de pertencimento é uma força motriz poderosa para os avanços comunitários. Mudanças políticas e legais A defesa fundamentada nos princípios da neurodiversidade influenciou mudanças políticas e proteções legais para indivíduos com condições neurodivergentes. Isso inclui o fornecimento de um melhor acesso à educação, aos cuidados de saúde e às oportunidades de emprego. Desafiando estereótipos Ao destacar a diversidade de experiências nas comunidades neurodivergentes, o estudo da neurodiversidade desafia estereótipos e suposições sobre o que significa ser neurodivergente. Ele enfatiza que não existe uma descrição única para todos os indivíduos com essas condições e que cada indivíduo vivenciará e experimentará a sua neurodiversidade de uma maneira única e singular. Em resumo, o estudo da neurodiversidade contribui para uma sociedade mais inclusiva, receptiva e equitativa, ao reconhecer e valorizar os pontos fortes e as perspectivas únicas dos indivíduos com condições neurodivergentes. Ele traz mudanças positivas na educação, na empregabilidade e nas atitudes sociais, de modo a promover, em última análise, o bem-estar e o potencial dos indivíduos neurodiversos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, pudemos refletir um pouco mais sobre o papel da família, da escola e da comunidade no que diz respeito às crianças com transtornos do neurodesenvolvimento.Pudemos identificar que todos estão interligados e que uma ação conjunta é a única possível para que seja factível o desenvolvimento pleno de todas as crianças com necessidades educacionais especiais. Foi possível identificarmos que somente quando as famílias e as comunidades abraçam a neurodiversidade podemos falar de saúde mental, bem-estar, sentido e identidade das crianças neurodivergentes. Abraçar a neurodiversidade elimina a pressão para que as crianças neurodivergentes se comportem de maneiras neurotípicas, escondam seus comportamentos diferentes, mascarem ou escondam quem são, ou tenham que lidar e suportar a superestimulação sensorial. Esse tipo de pressão pode ser física e mentalmente desgastante, o que pode dificultar que as crianças se concentrem nos trabalhos escolares e participem de atividades sociais. Pessoas neurodivergentes trazem muitos pontos fortes para a sociedade, como pensamento criativo, inovador e analítico e experiência em áreas de interesse especial. Abraçar a neurodiversidade é bom para nós, como sociedade; e tal como o planeta precisa de uma diversidade de plantas e animais para sobreviver, a sociedade precisa da neurodiversidade para prosperar. Aprender a respeitar o outro, em sua singularidade, também faz com que aprendamos a respeitar a nós mesmos, em nossas próprias singularidades e dificuldades. REFERÊNCIAS AMARO, D. G. Desenvolvimento, aprendizagem e avaliação na perspectiva de diversidade. In: GALERY, A. (org.). A escola para todos e para cada um. São Paulo: Summus Editorial, 2017. BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução n. 4, de 2 de outubro de 2009. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 5 out. 2009. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/rceb004_09.pdf. Acesso em: 17 nov. 2023. MCLEAN, S. Supporting children with neurodiversity. Southbank: Australian Institute of Family Studies, 2022. Disponível em: https://aifs.gov.au/sites/default/files/publication-documents/2112_cfca_64_supporting_children_with_neurodiversity_0.pdf. Acesso em: 17 nov. 2023. MEC – Ministério da Educação. LEGISLAÇÃO de Educação Especial. MEC, 2023. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/programa-saude-da-escola/323-secretarias-112877938/orgaos-vinculados-82187207/13020-legislacao-de-educacao-especial. Acesso em: 17 nov. 2023. SNOWLING, M. J. et al. Dislexia, fala e linguagem: um manual do profissional. Porto Alegre: Artmed, 2004. image6.png image7.png image8.png image9.png image10.png image11.png image12.jpeg image13.png image14.png image15.jpeg image16.jpeg image17.png image18.jpeg image19.jpeg image20.jpeg image21.jpeg image22.jpeg image23.jpeg image24.jpeg image25.jpeg image26.jpeg image27.jpeg image28.jpeg image29.jpeg image30.jpeg image31.jpeg image32.jpeg image33.jpeg image34.jpeg image35.jpeg image1.png image2.png image3.png image4.jpeg image5.pngdesafios significativos, que requerem apoio e intervenções contínuas. A identificação precoce e o diagnóstico de distúrbios do neurodesenvolvimento são cruciais para intervenção e suporte oportunos, pois com intervenções apropriadas, como terapia comportamental, apoio educacional e, por vezes, medicamentos, os indivíduos com essas especificidades podem levar uma vida plena e produtiva, alcançando todo o seu potencial dentro de suas capacidades individuais. Livro O livro de Emanoele Freitas, Transtornos do neurodesenvolvimento: conhecimento, planejamento e inclusão real, traz uma abordagem humanizada da real condição da pessoa com transtornos do neurodesenvolvimento e como este diagnóstico se manifesta no processo de aprendizagem. A obra tem uma linguagem acessível aos profissionais da educação e contempla os processos de adaptação em todas as etapas de ensino. FREITAS, E. Rio de Janeiro: WAK, 2019. É importante observarmos que a identificação ou não de distúrbios do neurodesenvolvimento não é indicativo da inteligência ou do potencial de uma pessoa, pois cada indivíduo tem pontos fortes e desafios únicos e, com o apoio e a compreensão adequados, eles podem prosperar e contribuir para a sociedade de modo significativo. Partindo dessa conceituação, no Quadro 1 vemos os transtornos do neurodesenvolvimento mais comuns em crianças e suas respectivas características. Quadro 1 – Principais transtornos e suas características Transtorno Descrição Transtorno do espectro autista (TEA) O TEA é um transtorno do desenvolvimento caracterizado por dificuldades na interação social e comunicação, além de comportamentos restritos e repetitivos. Transtorno do déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) O TDAH é uma condição que afeta a capacidade da criança de prestar atenção, controlar comportamentos impulsivos e pode incluir hiperatividade. Deficiência intelectual (DI) A DI refere-se a limitações significativas no funcionamento intelectual e no comportamento adaptativo. Geralmente se manifesta antes dos 18 anos. Transtornos específicos de aprendizagem Esses transtornos afetam a aquisição e o uso de habilidades acadêmicas específicas, como leitura, escrita ou matemática. A dislexia, por exemplo, é um distúrbio específico de aprendizagem que afeta as habilidades de leitura. Distúrbios da comunicação Esses distúrbios envolvem dificuldades na fala, linguagem e comunicação, e incluem condições como distúrbio do som da fala, distúrbio da linguagem e gagueira. Transtorno do desenvolvimento da coordenação (TDC)/Transtornos motores Também conhecido como dispraxia, o TDC afeta a coordenação motora da criança e pode levar a dificuldades com habilidades motoras finas e grossas. Transtornos de tique/síndrome de Tourette A Síndrome de Tourette é um distúrbio neurológico caracterizado pelos chamados tiques, que podem ser movimentos repetitivos e involuntários e vocalizações. Fonte: Elaborado pela autora. É importante observarmos que a prevalência e a categorização específica dos transtornos do neurodesenvolvimento podem variar entre estudos e critérios diagnósticos. Além disso, existem outros distúrbios do neurodesenvolvimento que são menos comuns. O diagnóstico e o tratamento devem ser conduzidos por profissionais de saúde qualificados, com base em uma avaliação minuciosa dos sintomas e das necessidades da criança. Também devem ser avaliados os impactos psicossociais do transtorno na vida da criança para que ela possa receber o tratamento adequado, que leve em consideração o ser integral e não apenas o diagnóstico ou suas limitações. 3.1 O que são transtornos do neurodesenvolvimento? Antes de abordar os transtornos de neurodesenvolvimento em si, é importante compreender como se dá o processo de aprendizagem, para que então possamos identificar com segurança as alterações que podem afetar esse processo. No geral, a aprendizagem pode ser compreendida como a habilidade e a possibilidade que os seres humanos têm de perceber, compreender, conhecer e reter em sua memória as informações que são captadas do ambiente com o qual ele interage (TOPCZEWSKI, 2014). Por outro lado, alguns pesquisadores têm o seu foco no cérebro como o órgão responsável pela cognição, onde aconteceria a aprendizagem, de maneira que o cérebro passa a ser a matriz de todo o conhecimento adquirido, sem levar em consideração as interações com o meio ambiente e as interações sociais. Basicamente, a aprendizagem pode ocorrer baseando-se em alguns mecanismos, muito influenciados pelo modo como as interações acontecem entre quem aprende e os mediadores desse processo: A aprendizagem pode ser intencional ou não intencional, além de poder ser influenciada por fatores internos, como motivação, atenção e memória, e fatores externos, como o ambiente de aprendizagem e os métodos de ensino. Ao longo da vida, a aprendizagem desempenha um papel crucial no desenvolvimento pessoal, no crescimento profissional e na adaptação a novos desafios e situações. É um processo contínuo que ocorre em diferentes níveis e em vários domínios, moldando os indivíduos e as sociedades à medida que avançam no tempo. A aprendizagem, portanto, é um processo multifacetado, no qual cada estrutura exerce uma função específica. De acordo com Sampaio e Freitas (2020), para que ocorra o processo de aprendizagem é necessário que cada estrutura esteja adequadamente integrada em sua função. Atualmente, as neurociências classificam esse processo integrado em três níveis de funções, como podemos ver na Figura 1. Figura 1 – Funções para a aprendizagem Fonte: Elaborada pela autora. Sendo assim, qualquer alteração que envolva essas três funções específicas terão um impacto direto na aprendizagem do indivíduo, que resultará em um transtorno ou dificuldade de aprendizagem escolar (SAMPAIO; FREITAS, 2020). Os transtornos específicos de aprendizagem são um grupo de condições neurológicas que afetam a capacidade de um indivíduo de adquirir, processar ou usar informações de modo eficaz, podendo se manifestar em várias áreas do aprendizado e interferir no desempenho acadêmico, no funcionamento diário e nas interações sociais de uma pessoa. Os tipos mais comuns de transtornos específicos de aprendizagem incluem: Dislexia: dificuldade em ler, soletrar e reconhecer palavras escritas. Indivíduos com dislexia podem ter problemas para entender a relação entre sons e letras. Disnomia: disfunção da linguagem caracterizada pela incapacidade do indivíduo de nomear objetos ou pessoas, bem como de recordar nomes próprios. Disgrafia: desafios na escrita, incluindo dificuldades com caligrafia, ortografia e organização de pensamentos no papel. Disortografia: dificuldade de fazer uma associação entre os fonemas (som das letras) e os grafemas (escrita das letras). Discalculia: dificuldade em compreender conceitos matemáticos, incluindo dificuldades com números, operações matemáticas e resolução de problemas. Distúrbio do processamento auditivo central (DPAC): desafios no processamento e interpretação das informações auditivas que podem afetar a audição e a compreensão da linguagem falada. É importante observar que os distúrbios de aprendizagem não são indicativos de falta de inteligência ou motivação, pois têm a sua gênese na maneira como o cérebro recebe e processa as informações recebidas. A identificação precoce e as intervenções apropriadas podem melhorar significativamente a experiência de aprendizagem e os resultados para indivíduos com transtornos de aprendizagem. O tratamento pode envolver apoio educacional especializado, estratégias de aprendizagem individualizadas e outras terapias adaptadas aos desafios específicos que cada pessoa enfrenta. A seguir, abordaremos de modo mais específico cada um desses transtornos, trazendo sua conceituação e características. Dislexia Este é um distúrbio específico de aprendizagem caracterizado por dificuldades na leitura, ortografia e reconhecimento de palavras, que ocorre mesmo em indivíduos de inteligência considerada padrão ou acima da média e com acesso aoportunidades educacionais adequadas. É um dos transtornos específicos de aprendizagem mais comuns e, de acordo com a Associação Brasileira de Dislexia (ABD), é o de maior incidência nas salas de aula, atingindo entre 5% e 17% da população mundial (DISLEXIA..., 2017). Os indivíduos com dislexia podem enfrentar desafios em várias áreas relacionadas à leitura e ao processamento da linguagem, como: Livro No livro Transtornos e dificuldades de aprendizagem: entendendo melhor os alunos com necessidades educativas especiais, Simaia Sampaio e Ivana de Freitas apresentam vários capítulos sobre cada um dos transtornos específicos de aprendizagem. As informações estão atualizadas e o livro traz uma análise de transtornos ligados à infância e à adolescência, bem como a necessidade de pesquisas e uma reflexão sobre o conceito de inclusão. SAMPAIO, S; FREITAS, I. B. (org.). 2. ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2020. · Precisão de leitura: dificuldades em reconhecer e decodificar palavras com precisão, levando a uma leitura lenta e trabalhosa. · Fluência de leitura: indivíduos disléxicos precisam se esforçar para ler o texto sem problemas e podem experimentar hesitações ou repetições. · Compreensão de leitura: compreender o significado do texto escrito pode ser um desafio para indivíduos com dislexia, ainda que consigam decodificar as palavras. · Ortografia: os disléxicos geralmente têm problemas para soletrar palavras corretamente, mesmo as simples e comuns. · Consciência fonológica: refere-se à capacidade de reconhecer e manipular os sons da linguagem falada, o que é crucial para desenvolver habilidades de leitura e ortografia. É essencial entender que a dislexia é uma condição neurológica, e não resultado de preguiça, falta de inteligência ou ensino deficiente. Acredita-se que a causa raiz da dislexia esteja relacionada a diferenças em como o cérebro processa a linguagem e a informação visual, particularmente nas áreas responsáveis pela leitura e habilidades de linguagem. A identificação e intervenção precoces são cruciais para indivíduos com dislexia, e com apoio adequado e intervenções direcionadas, os indivíduos com esse transtorno podem melhorar suas habilidades de leitura e linguagem e levar uma vida bem-sucedida e gratificante. Leonik Natalia/Shutterstock Diferentes abordagens e estratégias educacionais podem ser empregadas para ajudar indivíduos disléxicos a aprender a ler e escrever de modo mais eficaz, o que pode incluir programas estruturados de alfabetização, instrução fonética, técnicas de aprendizado multissensorial e tecnologia assistiva. O objetivo é ajudar indivíduos disléxicos a desenvolver estratégias compensatórias para contornar seus desafios de leitura e explorar seus pontos fortes. A intervenção precoce e as acomodações adequadas podem fazer uma diferença significativa na vida acadêmica e pessoal. Disnomia A disnomia é um distúrbio de memória que se caracteriza pela dificuldade do indivíduo em se recordar de palavras e nomes de objetos. As pesquisas atuais consideram que a sua causa é potencialmente congênita, mas também pode ter como causa doenças neurológicas degenerativas e, neste caso, a condição pode se agravar com o tempo. A disnomia pode estar presente em alguns distúrbios de aprendizagem, como a dislexia, influenciando a aquisição da linguagem e a memória, além de também poder afetar as habilidades de fala, de escrita ou ambas. No que diz respeito à memória, também pode ser provocada por condições médicas, como intoxicação, baixos níveis de açúcar no sangue, desidratação e overdose. Indivíduos diagnosticados com esse transtorno têm conhecimento das palavras, mas não conseguem recuperá-las na memória quando precisam, e para contornar isso, podem ainda substituir a palavra por um sinônimo ou por palavras semelhantes em significado ou sonoridade. Em casos mais graves de disnomia, essa substituição ocorre por palavras inventadas que não têm qualquer correlação ou sentido com o objeto. A disnomia também pode interferir na capacidade de realização de testes cronometrados; logo, os disnômicos também podem hesitar ou parecer angustiados na tentativa de recordar palavras ou nomes, apresentando ansiedade recorrente e altos níveis de estresse. Quando a disnomia se apresenta nos transtornos específicos de aprendizagem, terapias adequadas podem auxiliar as crianças a desenvolver habilidades de enfrentamento, como colocar etiquetas com o nome dos objetos fixados a eles, e assim aprender a lidar com o distúrbio. Porém, quando a disnomia está atrelada à uma condição genética, ela persistirá. Disgrafia Este é um distúrbio específico de aprendizagem que afeta principalmente as habilidades de escrita, fazendo com que indivíduos com disgrafia possam apresentar dificuldades significativas com a caligrafia, ortografia e expressão de pensamentos por escrito. Apesar de terem inteligência considerada padrão e não apresentarem nenhum problema físico ou neurológico que justifique essas dificuldades, indivíduos com esse quadro têm uma grande dificuldade em produzir uma escrita legível, coerente e organizada. Existem diferentes tipos de disgrafia, e os indivíduos podem apresentar sintomas variados, sendo que as características mais comuns incluem: · Escrita ilegível: a disgrafia geralmente leva a uma caligrafia confusa, irregular ou malformada. As letras podem ser malformadas, de tamanho inconsistente ou difíceis de ler. · Dificuldades de ortografia: o distúrbio pode resultar em problemas persistentes com a ortografia, incluindo erros ortográficos de palavras comuns e dificuldade em lembrar as regras de ortografia. · Gramática e sintaxe deficientes: as frases escritas podem não ter coerência gramatical, pontuação e estrutura de frases adequadas, tornando a escrita difícil de compreender. · Velocidade de escrita lenta: a disgrafia pode fazer com que os indivíduos escrevam em um ritmo muito mais lento do que seus colegas, levando à frustração e à dificuldade de concluir tarefas escritas dentro do tempo previsto. · Dificuldade em organizar pensamentos no papel: esse distúrbio pode afetar a capacidade de planejar e organizar pensamentos de modo coerente ao escrever, dificultando o desenvolvimento de parágrafos ou ensaios bem estruturados. · Dificuldade com habilidades motoras finas: alguns indivíduos com disgrafia podem ter déficits subjacentes de habilidades motoras finas, afetando ainda mais sua capacidade de controlar o lápis ou a caneta enquanto escrevem. A causa exata da disgrafia não é totalmente compreendida, mas acredita-se que esteja relacionada à maneira como o cérebro processa e coordena as habilidades motoras finas necessárias para a escrita e a linguagem, e os processos cognitivos envolvidos na geração da linguagem escrita. Dessa maneira, a criança com disgrafia apresenta dificuldade na coordenação visuomotora e não é capaz de traçar as linhas da escrita com uma trajetória predeterminada, já que, apesar de todo o esforço empreendido, a mão não obedece ao trajeto que foi planejado (SAMPAIO; FREITAS, 2020). Como outros distúrbios de aprendizagem, a identificação e a intervenção precoces são cruciais para o manejo da disgrafia e várias estratégias e adaptações podem ser empregadas para apoiar indivíduos com disgrafia em suas tarefas de escrita. A terapia ocupacional pode ser benéfica para melhorar as habilidades motoras finas e a proficiência na escrita. Além disso, o uso de tecnologia assistiva, como um software que converta a fala para um arquivo de texto, pode ajudar indivíduos com esse transtorno a expressar suas ideias sem as demandas físicas da caligrafia. Para que a disgrafia seja corretamente diagnosticada é essencial buscar uma avaliação abrangente por um profissional qualificado, pois somente assim será possível desenvolver um plano de intervenção personalizado para abordar os desafios de escrita específicos do indivíduo. Disortografia Este é um distúrbio de aprendizagem específico que afeta principalmente as habilidades de ortografia; logo, indivíduos com disortografia têm dificuldades persistentese significativas com a ortografia, mesmo quando têm inteligência considerada padrão e acesso a oportunidades educacionais. De acordo com as autoras Sampaio e Freitas (2020, p. 84), a disortografia consiste em confusões de letras, sílabas e palavras, com trocas ortográficas já conhecidas e trabalhadas pelo professor. A ortografia é o conjunto das regras e das normas que regem o código da linguagem escrita, não é aleatória ou construída individualmente, mas é fruto de um acordo coletivo entre os povos que compartilham uma mesma língua. É importante distinguir a disortografia de outros distúrbios de aprendizagem, como dislexia e disgrafia: enquanto a dislexia afeta principalmente a leitura e a disgrafia, sobretudo a caligrafia e a expressão escrita, a disortografia prejudica especificamente as habilidades de ortografia (SAMPAIO; FREITAS, 2020). As principais características da disortografia incluem: · Dificuldades de ortografia: indivíduos com disortografia têm dificuldade para soletrar palavras corretamente, tanto em contextos escritos quanto orais. Eles podem ter dificuldade em lembrar padrões ortográficos, regras fonéticas e convenções ortográficas comuns. · Ortografia inconsistente: indivíduos com esse transtorno podem soletrar a mesma palavra de maneira diferente a cada vez que a escrevem, pois têm dificuldade em internalizar a ortografia correta. · Erros de ortografia fonética: a disortografia, geralmente, leva a erros de ortografia com base na forma como as palavras soam, em vez de sua representação visual correta. · Dificuldade com palavras irregulares: enquanto algumas palavras seguem regras ortográficas previsíveis, outras são consideradas irregulares e não seguem padrões fonéticos típicos do idioma. Indivíduos com disortografia podem achar particularmente difícil soletrar palavras irregulares. · Habilidades de decodificação deficientes: a disortografia pode afetar a capacidade de um indivíduo de pronunciar com precisão e decodificar palavras durante a leitura. As causas subjacentes da disortografia não são ainda totalmente compreendidas, mas acredita-se que estejam relacionadas a dificuldades no processamento fonológico das palavras, o que afeta a capacidade de reconhecer e manipular os sons da linguagem falada e aplicar esse conhecimento à ortografia. Assim como outros distúrbios de aprendizagem, a identificação precoce e a intervenção apropriada são cruciais para o manejo da disortografia. Abordagens instrucionais que se concentram na instrução fonética explícita, análise de palavras e técnicas de aprendizado multissensorial podem ser benéficas. O suporte educacional e as acomodações podem ajudar os indivíduos disortográficos a desenvolverem estratégias compensatórias para melhorar suas habilidades de ortografia. Discalculia Este é um distúrbio específico de aprendizagem que afeta a capacidade do indivíduo de compreender e trabalhar com números e conceitos matemáticos. Pessoas com discalculia experimentam dificuldades persistentes e significativas em aprender e aplicar habilidades matemáticas, apesar de terem inteligência e oportunidades educacionais adequadas. As principais características desse transtorno são: · Dificuldade com aritmética básica: indivíduos com discalculia podem ter problemas para realizar operações matemáticas básicas, como adição, subtração, multiplicação e divisão. · Sentido numérico ruim: eles podem ter dificuldade em entender a magnitude dos números, seu valor relativo e o conceito de quantidade, por exemplo. · Desafios com padrões e relacionamentos numéricos: a discalculia pode dificultar o reconhecimento e a aplicação de padrões e relacionamentos matemáticos, como a compreensão do valor posicional ou o reconhecimento de sequências numéricas. · Dificuldade com símbolos e terminologia matemática: indivíduos com discalculia podem ter problemas para entender e lembrar símbolos matemáticos (+, -, ×) bem como termos e vocabulário matemáticos. · Problemas com o raciocínio matemático: a discalculia pode afetar a capacidade de um indivíduo de resolver problemas matemáticos e aplicar conceitos matemáticos a situações do mundo real. · Dificuldade com conceitos espaciais e temporais: alguns indivíduos com discalculia também podem ter dificuldades para entender as relações espaciais e o tempo de processamento, o que pode afetar ainda mais suas habilidades matemáticas. Assim como em outros transtornos específicos de aprendizagem, a causa exata da discalculia não é totalmente compreendida, mas acredita-se que esteja relacionada a diferenças na função e no desenvolvimento do cérebro, particularmente nas áreas responsáveis pelo processamento matemático. A discalculia é diferente das simples dificuldades matemáticas que podem ser melhoradas com a prática e instrução direcionada. É um transtorno específico de aprendizagem que afeta os indivíduos ao longo de suas vidas, dificultando a aquisição de habilidades matemáticas básicas e sua aplicação efetiva em diversas situações, e não somente no contexto escolar. MrSquid/Shutterstock A identificação precoce e a intervenção apropriada são cruciais para o tratamento da discalculia. Abordagens instrucionais que se concentram em um aprendizado mais concreto e prático, bem como recursos visuais e técnicas multissensoriais, podem ser benéficas. DPAC Também conhecido como distúrbio do processamento auditivo (DPA), esta é uma condição neurológica que afeta a capacidade do cérebro de processar informações auditivas de modo eficaz. Indivíduos com DPAC têm habilidades auditivas consideradas normais, ou seja, embora consigam “ouvir”, têm dificuldade de processar e interpretar informações auditivas com precisão, especialmente em ambientes auditivos desafiadores (por exemplo, muitas pessoas falando ao mesmo tempo) ou ruidosos. O sistema auditivo envolve um processo complexo que inclui a capacidade do ouvido de detectar ondas sonoras, a transmissão desses sinais sonoros ao cérebro e a interpretação do cérebro desses sinais em informações significativas (PURVES et al., 2018). Em pessoas com DPAC há um problema com o processamento cerebral da informação auditiva, levando a várias dificuldades em ouvir e compreender a linguagem falada. treety/Shutterstock Os sintomas do distúrbio do processamento auditivo central podem incluir: · Dificuldade de compreensão da fala em ambientes ruidosos: pessoas com DPAC podem ter dificuldade para se concentrar e compreender a fala quando há ruído de fundo ou sons concorrentes. · Dificuldade em seguir instruções verbais: eles podem ter problemas para lembrar e seguir instruções em várias etapas ou instruções dadas verbalmente. · Dificuldade com a discriminação auditiva: essa condição altera a capacidade de distinguir entre sons semelhantes, como sons de consoantes diferentes (por exemplo, “b” e “d”) ou palavras com sons semelhantes. · Dificuldade com o sequenciamento auditivo: o DPAC envolve desafios no processamento e na lembrança da ordem dos sons ou informações verbais, como letras em uma palavra ou números em uma sequência. · Dificuldade com a consciência fonêmica: pessoas com DPAC podem ter dificuldade em reconhecer e manipular sons de fala individuais, o que pode afetar as habilidades de leitura e ortografia. · Dificuldade com a memória auditiva: DPAC pode afetar a capacidade de reter e recordar informações auditivas, como lembrar o que foi dito em uma conversa ou palestra. É importante observar que o DPAC é uma condição complexa cujos sintomas podem variar de pessoa para pessoa. Pode estar presente em crianças e adultos e pode coexistir com outros distúrbios de aprendizagem e de neurodesenvolvimento, como dislexia ou transtorno do déficit de atenção/hiperatividade (TDAH). O diagnóstico do distúrbio do processamento auditivo central geralmente envolve uma avaliação abrangente por um fonoaudiólogo, incluindo uma avaliação detalhada das habilidades de escuta e de processamento auditivo. O tratamento para DPAC geralmente requer intervenções direcionadas para melhorar habilidades específicas de processamento auditivo,exercícios de treinamento auditivo e estratégias para lidar com desafios auditivos em vários ambientes. O diagnóstico e a intervenção precoces são cruciais para ajudar os indivíduos com DPAC a superar as dificuldades e melhorar suas habilidades de comunicação e aprendizado. 3.2 Dificuldades e transtornos de aprendizagem Os termos dificuldades de aprendizagem e transtornos específicos de aprendizagem são frequentemente usados de modo intercambiável, mas existem algumas distinções entre eles: no geral, dificuldades de aprendizagem referem-se a desafios que os indivíduos podem enfrentar ao adquirir certas habilidades ou conhecimentos. Essas dificuldades podem ser temporárias e podem surgir devido a vários fatores, como falta de instrução adequada, influências ambientais, problemas de saúde ou fatores emocionais. Por exemplo, a dificuldade de aprendizado pode ser causada por algum acontecimento ou situação frustrante, ou algo que cause alguma forma de sofrimento psíquico na criança – como uma mudança de escola, troca de professor, chegada de um irmão, morte de um familiar próximo, questões familiares ou separação dos pais –, de maneira que se torna necessário investigar quais fatores estão, de alguma forma, alterando o desempenho da criança na escola (GIROTTO; GIROTTO; OLIVEIRA JUNIOR, 2015). As dificuldades de aprendizagem geralmente não são atribuídas a deficiências neurológicas ou cognitivas específicas, mas sim a fatores externos ou situacionais. Com apoio e intervenções apropriados, os indivíduos com dificuldades de aprendizagem, muitas vezes, podem superar seus desafios e atingir seus objetivos de aprendizagem. De acordo com Moojen, Bassôa e Gonçalvez (2016), quando falamos em dificuldade de aprendizagem, estamos nos referindo a problemas de ordem pedagógica, sociocultural, emocional ou até mesmo neurológica. Por outro lado, os transtornos específicos de aprendizagem têm a sua gênese nas disfunções do sistema nervoso central e estão relacionados a problemas de aquisição e processamento da informação adquiridas em seu meio ambiente. Sendo assim, esses transtornos são condições mais específicas e duradouras que afetam a forma como os indivíduos processam, compreendem ou retêm informações. Eles são normalmente atribuídos a diferenças neurológicas ou cognitivas e podem afetar significativamente a capacidade de uma pessoa aprender e realizar determinadas tarefas, mesmo com instrução e suporte adequados. Os transtornos específicos de aprendizagem são frequentemente caracterizados por uma discrepância significativa entre a inteligência ou capacidade cognitiva de um indivíduo e seu desempenho acadêmico real. Em resumo, a principal diferença reside na natureza e duração dos desafios: as dificuldades de aprendizagem são mais amplas e temporárias, enquanto os transtornos específicos de aprendizagem são condições específicas e persistentes de origem neurológica ou cognitiva. É importante reconhecer e abordar esses dois conceitos de maneira adequada para fornecer o apoio e as intervenções necessárias para que os indivíduos tenham sucesso em suas atividades educacionais. Livro No livro Dificuldades de aprendizagem: a psicopedagogia na relação sujeito, família e escola, a autora Simaia Sampaio aborda a psicopedagogia como ciência norteadora da relação entre o estudante, a família e a escola. Além disso, trata de aspectos sobre a formação da criança como sujeito e apresenta uma reflexão dos transtornos específicos de aprendizagem, fazendo uma análise de qual é o papel da família e da escola nesse contexto desafiador. SAMPAIO, S. 3. ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2011. 3.3 TDAH e TEA O transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) é um distúrbio do neurodesenvolvimento que afeta crianças e adultos, caracterizado por um padrão persistente de desatenção, hiperatividade e impulsividade que interfere no funcionamento e nas atividades diárias. Embora o TDAH não seja um transtorno específico de aprendizagem em si, muitas vezes apresenta comorbidade relacionada a algum transtorno, o que pode aumentar seu impacto nos processos de aprendizagem. De maneira geral, existem três tipos principais de TDAH: o chamado de apresentação predominantemente desatenta, em que os indivíduos lutam principalmente contra a desatenção. Eles podem ter dificuldade em manter o foco, seguir instruções, organizar tarefas e, muitas vezes, parecem esquecidos ou facilmente distraídos. A desatenção, principalmente na infância, tem um grande impacto negativo na aprendizagem. Já os indivíduos com a denominada apresentação predominantemente hiperativa-impulsiva exibem sobretudo comportamentos de hiperatividade e impulsividade. Eles podem ter problemas para ficar parados, muitas vezes são inquietos, agem impulsivamente sem pensar nas consequências e podem interromper os outros com frequência. Por fim, na conhecida como apresentação combinada, o tipo mais comum de TDAH, os indivíduos apresentam sintomas de desatenção e hiperatividade-impulsividade. Os sintomas do TDAH geralmente aparecem durante a infância, e o diagnóstico é feito comumente antes dos 12 anos de idade, embora alguns indivíduos não recebam um diagnóstico até a idade adulta. A causa exata do TDAH não é totalmente compreendida, mas acredita-se que seja uma combinação de fatores genéticos, ambientais e neurológicos. De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), não há marcadores biológicos para o diagnóstico de TDAH (APA, 2014). No Quadro 1 podemos ver listados os sintomas mais comuns de TDAH relacionados à desatenção e à hiperatividade/impulsividade. Quadro 1 – Sintomas comuns do TDAH Desatenção Hiperatividade e impulsividade Dificuldade em prestar atenção aos detalhes; cometimento de erros por descuido. Inquietação intensa; o indivíduo se bate ou contorce quando sentado. Dificuldade de manter o foco em tarefas ou atividades. Impossibilidade de permanecer sentado, mesmo quando deveria. Dificuldade em organizar tarefas e pertences. O indivíduo corre ou escala excessivamente quando não é apropriado. Evitamento de tarefas que exigem esforço mental sustentado. Dificuldade de brincar ou se envolver silenciosamente em atividades. Perda frequente de itens necessários para completar tarefas específicas. Fala excessiva e interrupção dos outros com frequência. Esquecimento frequente de tarefas ou atividades diárias. Dificuldade de esperar a sua vez; deixa escapar as respostas ou termina as frases dos outros. Fonte: Elaborado pela autora. Jovens com TDAH podem ser hiperativos, além de tenderem a ser impulsivos e propensos a acidentes. Eles podem responder perguntas antes de levantar a mão, esquecer coisas, inquietar-se, contorcer-se na cadeira ou falar muito alto. Por outro lado, alguns estudantes com esse transtorno podem ser quietos ou desatentos, esquecidos e facilmente distraídos. De acordo com a Associação para Saúde Mental Infantil de Minnesota (Minnesota Association for Children’s Mental Health), o ambiente também pode influenciar os sintomas apresentados pelo TDAH, por exemplo: estudantes com TDAH podem não exibir alguns comportamentos em casa se esse ambiente for menos estressante, menos estimulante ou mais estruturado do que a escola. Mesmo lidando com a desatenção, estudantes com TDAH podem se concentrar na tarefa ao fazer um projeto de algo que gostem, como arte. Estima-se que 5% das crianças tenham alguma forma de TDAH, com prevalência para crianças do sexo masculino (FREIRE; PONDÉ, 2005). Estudantes com TDAH tendem a ser negligenciados ou rotulados como quietos e desmotivados, porque não conseguem organizar seu trabalho a tempo e correm maior risco de desenvolver dificuldades de aprendizagem, transtornos de ansiedade, conduta e humor, e até mesmo doenças mais sérias como a depressão. Esses indivíduos também podem ter dificuldade em manter amizades e sua autoestima sofrerá por experimentar falhas frequentes por causa do sentimento de incapacidade. Sem tratamento adequado, as crianças correm um alto risco de fracassoescolar. Abordagens multidisciplinares que incluem a família, escola e saúde mental podem ser bem-sucedidas, e crianças identificadas em tenra idade devem ser monitoradas, pois a mudança de sintomas pode indicar distúrbios relacionados, tais como transtorno bipolar, depressão, ou condições subjacentes, como transtorno do espectro alcoólico fetal1 (TEAF). O TDAH pode afetar vários aspectos da vida de um indivíduo, incluindo desempenho acadêmico, produtividade no trabalho, relacionamentos e autoestima. No entanto, com diagnóstico e tratamento adequados, a exemplo de terapia comportamental e/ou medicação, os indivíduos com TDAH podem aprender a controlar seus sintomas de modo eficaz e levar uma vida plena e saudável. O transtorno do espectro autista (TEA), por sua vez, é um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta a comunicação, o comportamento e a interação social. Ele é caracterizado por uma ampla gama de sintomas e habilidades, razão pela qual é chamado de distúrbio de espectro. O TEA afeta os indivíduos de maneira diferente, e não há duas pessoas com autismo com exatamente o mesmo conjunto de características. As principais características do transtorno do espectro autista incluem: 1 O TEAF tem como consequência alterações comportamentais bem definidas, que incluem má qualidade do sono, deficiência nas habilidades sociais e uma maior prevalência do TDAH. Em torno de 40% dos indivíduos diagnosticados com TEAF também são diagnosticados com TDAH. No TDAH apresentado por crianças com diagnóstico de TEAF, as maiores dificuldades estão relacionadas ao processamento visual/espacial e na capacidade de adaptação e controle da impulsividade (CONANT, 2021). Dificuldades de comunicação: pessoas com TEA podem ter problemas com a comunicação verbal e não verbal. Podem ter atraso no desenvolvimento da linguagem, dificuldade de entender e usar gestos e dificuldade em manter contato visual ou entender sinais sociais. Desafios sociais: indivíduos com TEA geralmente apresentam dificuldade de se envolver em interações sociais típicas e podem achar difícil desenvolver e manter relacionamentos. Eles podem ter dificuldade de entender as emoções dos outros ou expressar suas próprias emoções de maneira adequada. Comportamentos repetitivos e interesses restritos: muitos indivíduos com TEA se envolvem em comportamentos repetitivos, como bater as mãos, balançar ou repetir frases (ecolalia). Eles também podem mostrar intenso interesse em tópicos específicos e ter dificuldade em mudar seu foco para outras atividades. Sensibilidades sensoriais: pessoas com TEA podem ter sensibilidade aumentada ou reduzida a estímulos sensoriais, como luz, som, toque, paladar ou olfato. Certas texturas ou ruídos podem ser perturbadores ou angustiantes, enquanto outros podem ser calmantes ou fascinantes. Mídia O documentário Em um mundo interior acompanha a vida de famílias de crianças com TEA e tem como proposta trazer informação e entendimento sobre o tema para o público de uma forma séria, mostrando toda a complexidade do espectro e sinalizando que o desenvolvimento integral das crianças com TEA varia de acordo com as oportunidades que elas receberam para progredir. Direção: Flavio Frederico e Mariana Pamplona. Brasil: Elo Company, 2018. De acordo com o DSM-5, o transtorno do espectro do autista é tipicamente diagnosticado na primeira infância, geralmente por volta dos 2 ou 3 anos de idade, embora possa ser diagnosticado mais tarde, em alguns casos. Tem uma prevalência estimada de 1% na população mundial. A causa exata do TEA não é totalmente compreendida, mas acredita-se que seja uma combinação de fatores genéticos e ambientais. Como esse é um transtorno do espectro, o nível de deficiência e o suporte necessário podem variar amplamente. Alguns indivíduos com TEA têm desafios significativos que requerem apoio substancial, enquanto outros podem apresentar sintomas mais leves e levar uma vida mais independente. A intervenção precoce e o suporte adequado são cruciais para indivíduos com transtorno do espectro autista. Terapias comportamentais, fonoaudiologia, treinamento de habilidades sociais e terapia ocupacional podem ajudar os indivíduos a desenvolver seus pontos fortes e gerenciar seus desafios de modo eficaz. Os planos de tratamento geralmente são personalizados para atender as necessidades específicas do indivíduo, e quase sempre requerem uma equipe multiprofissional. É essencial reconhecer que os indivíduos com TEA têm habilidades e perspectivas únicas. Com compreensão, aceitação e o apoio certo, eles podem fazer contribuições significativas para a sociedade e levar uma vida gratificante. 3.4 Deficiências sensoriais As deficiências sensoriais referem-se a condições que afetam um ou mais dos sentidos, que são os canais pelos quais os indivíduos percebem e interagem com o mundo. Os principais sentidos são visão, audição, paladar, olfato e tato, e quando um ou mais deles são afetados, temos as deficiências sensoriais. Existem vários tipos de deficiências sensoriais, mas as principais são: Deficiência visual: refere-se a condições que causam perda parcial ou total da visão. Pessoas com deficiência visual podem ter dificuldade de enxergar objetos, formas, cores e detalhes; algumas deficiências visuais comuns incluem cegueira, baixa visão e várias condições oculares, como catarata, glaucoma e degeneração macular. Deficiência auditiva: envolve a incapacidade, parcial ou total, de ouvir sons. Pessoas com deficiência auditiva podem ter dificuldade de entender a fala, acompanhar conversas ou perceber certos sons. As deficiências auditivas podem variar de leve a profunda e estar presentes desde o nascimento ou serem adquiridas mais tarde durante a vida. Deficiências do paladar e do olfato: afetam a capacidade de uma pessoa de detectar e diferenciar sabores e cheiros, que pode experimentar um sentido reduzido de paladar ou olfato, ou não ser capaz de identificar certos sabores ou odores. Deficiência de toque: consiste na incapacidade de sentir pressão, temperatura, dor e outras sensações táteis. Condições como neuropatias ou danos nos nervos podem levar a deficiências de toque. As deficiências sensoriais podem ter um impacto significativo na vida diária de um indivíduo e podem influenciar a forma como ele interage com o ambiente e com outras pessoas. Pessoas com deficiências sensoriais podem enfrentar desafios de comunicação, mobilidade, autocuidado, interações sociais e acesso a informações. O suporte e as acomodações podem ajudar os indivíduos com deficiências sensoriais a se adaptar e participar plenamente das atividades diárias e da sociedade, por exemplo: pessoas com deficiência visual podem usar dispositivos auxiliares, como bengalas, cães-guia ou leitores de tela em computadores para acessar informações. Pessoas com deficiência auditiva podem usar aparelhos auditivos ou implantes cocleares para melhorar sua audição e linguagem de sinais ou legendas para facilitar a comunicação. Indivíduos com deficiências de paladar e olfato podem confiar em outros sentidos e texturas para apreciar a comida, e as deficiências de toque podem exigir monitoramento cuidadoso para evitar lesões e garantir a segurança. Africa Studio/Shutterstock Ambientes acessíveis, ambientes educacionais inclusivos e tecnologias assistivas são essenciais para apoiar indivíduos com deficiências sensoriais e lhes proporcionar oportunidades igualitárias de participar da sociedade e atingir seu pleno potencial. É muito importante promover a conscientização e a compreensão das deficiências sensoriais para construirmos uma comunidade mais inclusiva e solidária para indivíduos com essas condições. As deficiências sensoriais podem ter impactos significativos no neurodesenvolvimento, particularmente durante os períodos críticos da primeira infância, quando o cérebro está formando conexões rapidamente e estabelecendo as bases para o aprendizado e desenvolvimento futuros. Os efeitos específicos dependem do tipo e gravidade da deficiência sensorial e da idade em que ocorre (PURVES etal., 2018). 3.4.1 Impactos no neurodesenvolvimento Vamos agora explorar os impactos no neurodesenvolvimento dos tipos de deficiência sensorial, sendo que para cada um deles os impactos têm características distintas, por exemplo, a deficiência visual pode impactar três áreas: o chamado processamento visual, em que – na ausência de entrada visual típica – as áreas de processamento visual do cérebro podem sofrer reorganização ou redirecionamento para aprimorar outro processamento sensorial, como processamento auditivo ou tátil; a denominada cognição espacial, pois indivíduos com deficiência visual geralmente dependem mais da cognição espacial e das informações auditivas para navegar em seu ambiente e interagir com o mundo; e por fim, a área conhecida como sentidos não visuais aprimorados, em que o cérebro se adapta aguçando os sentidos não visuais, como audição e tato, para compensar a falta de entrada visual. A deficiência auditiva pode ter impactos no neurodesenvolvimento em duas grandes áreas: no chamado processamento auditivo, devido ao fato de que a ausência de entrada auditiva típica pode afetar o desenvolvimento de áreas de processamento auditivo no cérebro, fazendo com que o cérebro se reorganize para alocar recursos para outro processamento sensorial; e na conhecida como desenvolvimento da linguagem, pois a deficiência auditiva pode afetar o desenvolvimento da linguagem falada, levando a atrasos na aquisição da linguagem. No entanto, indivíduos com deficiência auditiva podem desenvolver habilidades aprimoradas em linguagem de sinais ou comunicação não verbal. Quanto às deficiências de paladar e olfato, o cérebro pode sofrer alterações no que chamamos de integração sensorial, pois ele depende de informações de todos os sentidos para criar uma percepção coesa do ambiente, portanto a perda do paladar e do olfato pode levar a diferenças no processamento sensorial. O olfato e o paladar são sentidos químicos e os sistemas neurais que os compõem estão entre os mais antigos do encéfalo, do ponto de vista da filogenética. As sensações que sentimos provêm da interação de moléculas com os receptores do olfato e da gustação. Esses impulsos elétricos se propagam para o sistema límbico, que é a sede das nossas emoções, bem como para algumas áreas do córtex superior. Por isso, determinados odores e sabores são capazes de desencadear respostas emocionais intensas e resgatar cadeias de memórias arquivadas pelo cérebro. Sendo assim, esses distúrbios podem afetar a qualidade de vida do indivíduo (por não ser capaz, por exemplo, de identificar que um alimento esteja estragado) e sua capacidade de experimentar emoções intensas e vivenciar memórias afetivas por meio desses sentidos. Por fim, a deficiência de toque impacta duas áreas, o processamento tátil e a propriocepção. Sobre a primeira delas, como o cérebro depende de informações táteis para entender e interagir com o mundo físico, ocorre uma perda de entrada de toque que pode influenciar a forma como o cérebro processa informações táteis. É pelo sistema tátil que recebemos informações sobre o mundo que nos rodeia logo após o nascimento, e é a capacidade de processar informações táteis que possibilita que nos sintamos seguros e que criemos laços de afeto com aqueles que amamos. Este fator é de grande importância para o nosso desenvolvimento social e emocional. O sistema de processamento tátil tem um papel de grande importância, de caráter protetivo, cuja função é nos alertar diante de algo desconfortável ou perigoso. Em algumas crianças essa função do sistema tátil não funciona adequadamente, o que pode causar problemas. Nessas crianças, o sistema tátil gera informações equivocadas para o cérebro, o que faz com que elas estejam sempre em um estado de alerta, e qualquer toque pode causar reações extremas (gritos, reações de luta ou fuga ou explosões de violência), e esse comportamento pode ser erroneamente interpretado como “mau comportamento”. A deficiência de toque não afeta, necessariamente, a capacidade de aprendizado da criança, porém o desconforto e as reações comportamentais causados por essa deficiência interferem muito no processo de aprendizagem. Já a propriocepção (a sensação da posição e movimento do corpo); nesse caso, o toque é comprometido, de modo que as habilidades motoras e a coordenação são potencialmente afetadas. Como sabemos, o cérebro é altamente plástico, o que significa que tem a capacidade de se reorganizar e se adaptar às mudanças sensoriais. Em resposta às deficiências sensoriais, o cérebro utiliza-se dessa plasticidade neural e faz com que as conexões neurais existentes sejam fortalecidas, ou até mesmo forma novas conexões para compensar a perda sensorial. Essa neuroplasticidade pode variar dependendo da idade em que ocorre o comprometimento sensorial e da capacidade de adaptação do indivíduo (PURVES et al., 2018). A intervenção precoce é crucial para indivíduos com deficiências sensoriais para apoiar seu neurodesenvolvimento de modo eficaz. A estimulação sensorial e as terapias especializadas podem ajudar a otimizar o neurodesenvolvimento e aprimorar as habilidades adaptativas. Além disso, as tecnologias assistivas e as adequações educacionais podem capacitar indivíduos com deficiências sensoriais a acessar informações, comunicar-se e participar plenamente de seu ambiente. Vídeo Os sistemas sensoriais são responsáveis pela obtenção de informações sobre o meio ambiente e sobre nosso próprio corpo, e o cérebro é o órgão responsável pela recepção e interpretação dessas informações. No vídeo Sistemas Sensoriais - #01 Introdução - Neurofisiologia são apresentadas as características gerais dos sistemas sensoriais de uma forma bem didática. Vale a pena conferir! Disponível em: https://youtu.be/Hv8W2UdTmiI?si=ZIlNMzaJYFlb63Il. Acesso em: 16 nov. 2023. 1.4 Etapas do neurodesenvolvimento infantil Quando falamos em desenvolvimento humano, nos referimos ao estudo dos processos sistemáticos de mudança que ocorrem nas pessoas. Os pesquisadores do desenvolvimento humano afirmam que nos transformamos desde a nossa concepção até a maturidade, em um processo que se desenvolve ao longo de toda a vida conhecido como desenvolvimento do ciclo de vida. De acordo com as pesquisadoras Diane Papalia e Ruth Feldman (2013, p. 37): Quase desde o começo, o estudo do desenvolvimento humano tem sido interdisciplinar. Alimenta-se de um amplo espectro de disciplinas que incluem psicologia, psiquiatria, sociologia, antropologia, biologia, genética, ciência da família (estudo interdisciplinar sobre as relações familiares, educação, história e medicina). Ainda segundo as referidas autoras, os ciclos da vida referem-se aos diferentes estágios ou períodos pelos quais os indivíduos passam à medida que progridem desde o nascimento até a velhice. Do ponto de vista do neurodesenvolvimento, o desenvolvimento infantil também pode ser dividido em várias fases, cada uma caracterizada por mudanças significativas na estrutura e nas funções cerebrais. Vídeo O vídeo O neurodesenvolvimento infantil mostra como os estímulos dos pais têm influência no neurodesenvolvimento do bebê. Disponível: https://youtu.be/4ywPKOo9W9g?si=0ESC0no5VHTFRfs9. Acesso em: 31 out. 2023. O período pré-natal abrange desde a concepção até o nascimento. Papalia e Feldman (2013) caracterizam o desenvolvimento pré-natal incluindo os estágios germinativo, embrionário e fetal, destacando-se o rápido crescimento e diferenciação de órgãos e sistemas durante essa fase: HstrongART/Shutterstock Em seguida, o ciclo da primeira infância refere-se ao período desde o nascimento até aproximadamente os 3 anos de idade. Esse período é caracterizado pelo crescimento físico, desenvolvimento motor, aumento das capacidades sensoriais e o desenvolvimento inicial de apego e das interações sociais. Durante essa fase, que abrange os primeiros anos de vida, há um crescimento cerebral significativo e a poda sináptica, além de surgirem as habilidades motoras, o desenvolvimento da linguagem e as habilidades cognitivas. Experiênciassensoriais e motoras desempenham um papel crucial na formação de conexões neurais (PAPALIA; FELDMAN, 2013). A segunda infância abrange o período de cerca de 3 aos 6 anos de idade. Durante essa fase, apreciamos o desenvolvimento de habilidades de linguagem, habilidades cognitivas e pensamento simbólico. As crianças já são capazes de explorar o surgimento do autoconceito, identidade de gênero e interações sociais com os pares. A imaturidade cognitiva é responsável por algumas ideias ilógicas, porém a inteligência se torna mais previsível (PAPALIA; FELDMAN, 2013). O ciclo da terceira infância compreende o período dos 6 aos 11 anos de idade. Nessa fase podemos identificar o desenvolvimento contínuo de habilidades cognitivas, incluindo memória, resolução de problemas e pensamento lógico, embora concretamente. É o período em que o cérebro continua a amadurecer e há um maior refinamento das habilidades motoras, de memória e linguagem. Há uma crescente importância nas relações sociais, amizades e o desenvolvimento do senso de diligência e competência (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Livro O livro de Diane Papalia e Ruth Feldman, Desenvolvimento humano, é considerado referência no desenvolvimento humano e traz uma base teórica sólida sobre o desenvolvimento infantil. Uma leitura imperdível para quem deseja aprofundar-se neste tema. PAPALIA, D.; FELDMAN, R. D. Porto Alegre: Artmed, 2013. A adolescência é o ciclo que vai aproximadamente dos 11 aos 20 anos de idade, caracterizado por mudanças físicas, cognitivas e socioemocionais. Nesse período apresenta-se a formação da identidade, as relações entre pares, o desenvolvimento do pensamento abstrato e os desafios e oportunidades da adolescência (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Do ponto de vista do neurodesenvolvimento, a fase é caracterizada pelo início de mudanças hormonais significativas e pela maturação do córtex pré-frontal, que desempenha um papel fundamental nas funções executivas, na tomada de decisões e no controle dos impulsos. O desenvolvimento do cérebro continua, particularmente em áreas associadas ao julgamento, raciocínio e regulação emocional. Os adolescentes ganham mais independência, refinam suas habilidades cognitivas e se preparam para a vida adulta. Ollyy/Shutterstock É importante observar que essas fases são aproximadas e podem ocorrer variações individuais no desenvolvimento. Além disso, o neurodesenvolvimento é influenciado por fatores genéticos, experiências ambientais, nutrição e vários outros fatores, todos os quais contribuem para a trajetória única de crescimento e desenvolvimento de uma criança. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, aprendemos que o sistema nervoso é uma rede complexa de células e estruturas que desempenham um papel vital na coordenação e regulação das funções corporais. É por meio dele que se dá a comunicação entre diferentes partes do corpo e o processamento e a interpretação da informação sensorial, por isso o sistema nervoso é essencial para a cognição, movimento, percepção sensorial e homeostase fisiológica geral. É por meio dele que interagimos com o mundo e o interpretamos, desenvolvendo nossas habilidades cognitivas e sociais. Além disso, é com esse sistema que construímos o nosso psiquismo e estabelecemos o nosso lugar no mundo e na sociedade em que vivemos. Para desempenhar essas funções, o sistema nervoso é protegido por vários mecanismos de garantia de sua integridade e bom funcionamento. Essas medidas de proteção incluem o crânio e a coluna vertebral, que protegem o cérebro e a medula espinhal, respectivamente. Além disso, o SNC é cercado por membranas protetoras chamadas meninges e é ainda amortecido pelo líquido cefalorraquidiano. Essas proteções ajudam a proteger o delicado tecido neural de lesões ou danos. Ao longo do capítulo, também aprendemos sobre a importância dos neurônios como blocos de construção fundamentais do sistema nervoso. Os neurônios desempenham um papel crucial no processamento de informações, percepção sensorial, controle motor e funções cognitivas; são responsáveis por transmitir e integrar sinais, permitindo pensamentos, emoções e comportamentos complexos. Quando analisamos o desenvolvimento infantil do ponto de vista da neurociência, observamos que o neurodesenvolvimento se refere às mudanças progressivas que ocorrem no sistema nervoso durante a infância e a adolescência. O neurodesenvolvimento envolve o crescimento, amadurecimento e refinamento das conexões neurais que moldam o desenvolvimento cognitivo, motor e socioemocional. Compreender os estágios do neurodesenvolvimento infantil é essencial para identificar possíveis atrasos, fornecer intervenções apropriadas e promover crescimento e bem-estar ideais. Nesse contexto, observamos que a questão biopsicossocial permeia o neurodesenvolvimento infantil em toda a sua extensão. O ambiente que envolve a criança tem um impacto relevante no neurodesenvolvimento saudável, bem como as interações sociais e a qualidade do vínculo de afetividade que os adultos estabelecem com ela. Sendo assim, o sistema nervoso é vital para coordenar as funções corporais e permitir a comunicação entre as diferentes partes do corpo. As divisões do sistema nervoso, as proteções do sistema nervoso central e as funções dos neurônios contribuem para o seu funcionamento adequado. Além disso, compreender os estágios do neurodesenvolvimento infantil ajuda a identificar e apoiar o crescimento e o desenvolvimento saudável das crianças. REFERÊNCIAS BEAR, M. F.; CONNORS, B. W.; PARADISO, M. A. Neurociências: desvendando o sistema nervoso. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. HALL, J. E.; HALL, M. E. Guyton & Hall – Tratado de Fisiologia Médica. 14. ed. Rio de Janeiro: Gen/Guanabara Koogan, 2021. OLIVEIRA, M. A. D. Neuropsicologia básica. Canoas: Ulbra, 2005. PAPALIA, D. E.; FELDMAN, R. D. Desenvolvimento humano. Porto Alegre: Artmed, 2013. PURVES, D. et al. (ed.). Neuroscience. 6. ed. Nova York: Oxford University Press, 2018. Aquarius Studio/Shutterstock 4.4 Fortalecimento de vínculos Os laços emocionais desempenham um papel essencial no nosso desenvolvimento psicossocial ao longo da vida. Esses vínculos são formados principalmente por meio de relacionamentos com cuidadores durante a primeira infância, mas continuam a evoluir e a influenciar o bem-estar psicológico e social de um indivíduo no decorrer da vida. A teoria do apego, desenvolvida por John Bowlby, enfatiza a importância dos laços emocionais iniciais formados entre os bebês e seus cuidadores principais. Para o autor (BOWLBY, 2021, p. 11), “o que se acredita ser essencial para a saúde mental é que o bebê e a criança pequena experimentem um relacionamento carinhoso, íntimo e contínuo com a mãe (ou mãe substituta permanente), no qual ambos encontrem satisfação e prazer”. Um apego seguro serve de base para um desenvolvimento psicossocial saudável. Bebês com apego seguro tendem a ser mais confiantes, ter maior autoestima e a desenvolver melhores habilidades sociais ao longo da vida. Dessa forma, os laços emocionais formados durante a infância têm uma importância crucial, pois proporcionam uma sensação de segurança e proteção, permitindo à criança explorar o seu ambiente e desenvolver um autoconceito positivo. SvetlanaFedoseyeva/Shutterstock Os vínculos emocionais estabelecidos durante a infância também ajudam as crianças a aprender a regular suas emoções. Os cuidadores que respondem com sensibilidade, consistência e acolhimento às necessidades da criança ajudam-na a desenvolver as competências de regulação emocional, que são importantíssimas para o equilíbrio das relações sociais na vida adulta. As crianças que experimentam apoio emocional consistente estarão mais bem equipadas para lidar com o estresse, a ansiedade e os desafios emocionais da vida adulta. Os vínculos emocionais contribuem, ainda, para o desenvolvimento de habilidades sociais e a capacidade de formar relacionamentos saudáveis. Por meio de interações com os cuidadores, as crianças aprendem sobre empatia, cooperação e comunicação. A qualidade dos vínculos emocionaisiniciais pode influenciar a capacidade de um indivíduo em estabelecer e manter relacionamentos positivos na idade adulta. O autoconceito e a autoestima de um indivíduo são moldados significamente pela qualidade dos vínculos que ele experimentou durante o seu desenvolvimento infantil. Experiências emocionais positivas com cuidadores promovem uma autoimagem saudável e ajudam os indivíduos a formar um senso de identidade e autoestima, que são vitais para o desenvolvimento psicossocial. Vínculos saudáveis na infância são capazes de proporcionar uma proteção psíquica contra os desafios da vida. Indivíduos com ligações emocionais seguras tendem a ser mais resilientes e mais bem equipados para lidar com o stress e a adversidade, permanecendo mais confiantes diante dos desafios existenciais. Dessa forma, o apoio emocional dos entes queridos pode ajudar os indivíduos a enfrentar eventos difíceis da vida e a manter o bem-estar mental. Quando nos referimos à saúde e a promoção de bem-estar, podemos identificar que a ausência de vínculos emocionais seguros ou experiências de negligência ou abuso durante a infância podem ter efeitos negativos duradouros no desenvolvimento psicossocial, o que pode impactar o desenvolvimento de modo global e não somente nas habilidades socioemocionais. Pesquisas apontam que o cérebro de uma criança institucionalizada, que recebe os cuidados de higiene e alimentação apenas, sem a criação de vínculo emocional com o seu cuidador, é notadamente menor do que o cérebro de uma criança da mesma idade que tem acesso a vínculos saudáveis, proporcionados por cuidadores afetivamente vinculados a ela (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Em resumo, os laços emocionais são essenciais para o desenvolvimento psicossocial, pois fornecem a base para a regulação emocional, o desenvolvimento social, o autoconceito, a resiliência e o bem-estar mental geral. Conexões emocionais positivas com os cuidadores durante a primeira infância preparam o terreno para um funcionamento psicológico e social saudável ao longo da vida de um indivíduo. E quando nos referimos a crianças com transtornos do neurodesenvolvimento? Será que esse vínculo fica comprometido? Qual é o papel do vínculo afetivo no neurodesenvolvimento dessas crianças atípicas? Os laços emocionais para as crianças com transtornos de neurodesenvolvimento – assim como para aquelas com desenvolvimento típico – são de extrema importância, pois proporcionam um apoio crucial e transformador, facilitando o desenvolvimento positivo de várias maneiras. Partindo para os vínculos em si, a seguir falaremos de alguns deles de modo mais específico. Regulação emocional Muitas crianças com transtornos do neurodesenvolvimento, como TEA e TDAH, têm grande dificuldade com a sua própria regulação emocional. O vínculo afetivo saudável com os pais ou cuidadores pode ajudar essas crianças a aprender a identificar, nomear, expressar e gerir as emoções de uma forma mais eficaz. O apoio emocional consistente e a compreensão oferecidos pelos cuidadores são imprescindíveis para ajudar as crianças a enfrentar os seus desafios emocionais. Desenvolvimento social Crianças com distúrbios do neurodesenvolvimento muitas vezes apresentam dificuldades nas interações sociais e na comunicação. Os vínculos emocionais com os cuidadores servem como modelo, como uma base segura e de apoio para que elas elaborem, experimentem, pratiquem e desenvolvam suas habilidades sociais. Por meio desses laços, as crianças podem aprender sobre reciprocidade, empatia e o comportamento social adequado no ambiente e no contexto em que vivem. Sensação de segurança Crianças com neurodesenvolvimento atípico podem enfrentar níveis elevados de ansiedade ou estresse devido a dificuldades no processamento de informações sensoriais ou na compreensão de sinais sociais. Os vínculos afetivos com os cuidadores proporcionam uma sensação de segurança e estabilidade, o que pode ser especialmente importante para essas crianças na gestão da ansiedade e na construção de resiliência. Autoestima e autoconceito Os vínculos emocionais podem contribuir significativamente para a autoestima e o autoconceito de uma criança. Quando os cuidadores proporcionam amor e aceitação, as crianças com transtornos do neurodesenvolvimento têm maior probabilidade de desenvolver uma autoimagem positiva, mesmo frente aos desafios sociais e à estigmatização relacionados à sua condição. Resultados comportamentais e acadêmicos Os vínculos emocionais são capazes de influenciar positivamente o comportamento e os resultados acadêmicos de uma criança. Quando as crianças se sentem intimamente conectadas e apoiadas pelos seus cuidadores, ficam mais motivadas para se envolver na aprendizagem e apresentam um comportamento de bem-estar tanto em casa como em ambientes educativos. Progresso terapêutico Os vínculos saudáveis podem aumentar a eficácia das intervenções terapêuticas. As crianças têm maior probabilidade de se envolver e responder positivamente às intervenções terapêuticas quando confiam e se sentem emocionalmente ligadas aos seus terapeutas ou profissionais de saúde. Bem-estar familiar Os laços emocionais dentro da família são cruciais para crianças com distúrbios do neurodesenvolvimento. Esses laços podem ajudar os membros da família a compreender melhor as necessidades e os desafios da criança, promovendo um ambiente familiar mais solidário, harmonioso e acolhedor. Fortes laços emocionais na infância podem ter efeitos positivos que se estenderão por toda a idade adulta para indivíduos com distúrbios do neurodesenvolvimento, o que contribui para melhorar a independência, a integração social e a qualidade de vida geral na fase adulta. É importante observarmos que construir e manter vínculos emocionais com crianças que apresentam transtornos do neurodesenvolvimento pode ser mais desafiador. Exige paciência, compreensão, equilíbrio, consistência e adaptabilidade adicionais dos cuidadores, pois cada criança é única e suas necessidades e preferências podem variar. Adaptar as abordagens de prestação de cuidados às necessidades específicas da criança é fundamental para promover um forte vínculo emocional e apoiar o seu desenvolvimento global. E quanto ao contexto escolar? Como podemos fomentar a criação de vínculos afetivos saudáveis entre as crianças com neurodesenvolvimento atípico e seus educadores? Como inserir a importância do vínculo nesse contexto, que pode ser um tanto desafiador? Apoiar estudantes com transtornos do neurodesenvolvimento requer uma abordagem multifacetada que leve em consideração as necessidades deles e desafios individuais. No contexto escolar, esse aspecto ganha grandes proporções, pois estamos nos referindo a toda uma comunidade de estudantes, muitas vezes com necessidades completamente diferentes. Com base nisso, na figura a seguir vemos algumas estratégias e considerações para que toda a comunidade escolar possa apoiar esses alunos. Figura 1 – Abordagens no contexto escolar Fonte: Elaborada pela autora. A identificação e o diagnóstico precoces são cruciais, e tanto os professores quanto os pais devem estar atentos a sinais de transtornos do desenvolvimento neurológico em crianças pequenas. É muito importante que professores e cuidadores colaborem com os profissionais de saúde e especialistas para realizar testes e avaliações e determinar as necessidades e os pontos fortes específicos do estudante. O professor da sala de aula deve trabalhar com a equipe de educação especial da escola na elaboração do Plano Educacional Individualizado (PEI), que deve ser adequado às necessidades do estudante e moldado de acordo com a natureza e gravidade do transtorno apresentado. É preciso certificar-se de que o plano atenda às necessidades exclusivas do aluno, descreva acomodações, modificações e metas e especifique os serviços de apoio apropriados. A disponibilização de acomodações adequadas na sala de aula é também uma abordagem muito importante. Para isso, o docente pode modificar o ambiente da sala a fim de minimizar distrações sensoriais para