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JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA CA DE COLORRETAIS - Descrever a fisiopatologia, diagnóstico e prognóstico das poliposes. Um pólipo é uma massa que se projeta acima de uma superfície mucosa, como no intestino, para formar uma estrutura macroscopicamente visível. Embora seja um termo usado com frequência para tumores benignos, alguns tumores malignos também podem crescer como pólipos, enquanto outros pólipos(como os pólipos nasais) não são neoplásicos, mas têm origem inflamatória. O pólipo colorretal, ou Adenoma Colorretal, é uma pequena lesão na superfície do cólon ou do reto. Ele se projeta da parede do tubo digestivo para o lúmen, ou seja, para a cavidade. Os pólipos podem ser planos ou elevados, benignos ou malignos, mas todos eles merecem atenção e cuidados médicos Define-se como pólipo do aparelho digestivo: “Toda estrutura com origem na sua parede, que se projeta em direção a sua luz, de forma circunscrita.” Dessa forma, como a parede é composta, quase sempre, de quatro camadas: mucosa, submucosa, muscular própria e serosa, essas estruturas poderiam se originar de qualquer uma delas. Na verdade, no esôfago e em boa parte do reto, não se tem a serosa, e seria muito difícil que alguma estrutura proveniente dessa camada, se projetasse em direção à luz do órgão, uma vez que a muscular própria é habitualmente mais espessa e confere o principal alicerce das paredes do tubo digestivo. Assim, restam apenas três camadas de onde se originam verdadeiramente os pólipos: mucosa, submucosa e muscular própria. O que confere maior importância clínica a essas estruturas é que algumas delas são neoplásicas e, portanto, podem se transformar em malignas, e sua remoção, endoscópica ou cirúrgica, pode prevenir ou tratar esta transformação. QUADRO CLÍNICO Sintomas O quadro clínico dos pólipos do cólon e do reto geralmente não apresenta sintomas. No entanto, quando esses pólipos crescem muito, podem causar problemas como bloqueio parcial ou total do intestino. Além disso, se essas lesões ulcerarem (formarem feridas) ou morrerem (necrosarem), pode ocorrer sangramento, o que pode ter um impacto importante na saúde. Se os pólipos forem vilosos e localizados no reto, podem liberar muco (mucorreia), o que em alguns casos pode levar à perda significativa de líquidos e eletrólitos. No caso dos pólipos localizados mais perto da saída do intestino, especialmente em crianças (como os pólipos juvenis), eles podem se exteriorizar, ou seja, sair pelo ânus durante esforço físico ou evacuação. Esses pólipos também podem causar sintomas como vontade frequente de evacuar (puxo) ou sensação de evacuação incompleta (tenesmo). DIAGNÓSTICO Exames físico e proctológico Quando se está investigando pólipos do cólon, o exame físico e proctológico geralmente não fornecem muitas informações. Porém, se as lesões estiverem localizadas no reto ou na parte final do intestino grosso (sigmoide distal), a inspeção cuidadosa da região ao redor do ânus e o JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA toque retal se tornam importantes. Além disso, procedimentos como a anorretoscopia (exame do canal anal) ou a sigmoidoscopia rígida (exame da parte final do intestino grosso) são essenciais para confirmar o diagnóstico. CLASSIFICAÇÃO A classificação dos pólipos colorretais pode ser feita de várias formas, observando-se algumas de suas características, como aspecto morfológico (e macroscópico), abertura das glândulas de sua superfície, origem histológica e, por fim, seu tamanho. JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA ASPECTO MORFOLÓGICO JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA ABERTURA DAS GLÂNDULAS (MAGNIFICAÇÃO DE IMAGENS) ORIGEM HISTOLÓGICA Em relação à natureza histológica, classificam-se os pólipos em epiteliais e não epiteliais. Os pólipos epiteliais são subdivididos em dois grupos (Quadro 72.3). Os adenomas são os mais frequentes e de maior relevância clínica. São, na maior parte das vezes, os precursores do adenocarcinoma, que é o câncer mais comum do cólon e reto (> 90% dos tumores malignos desses segmentos). Quando removidos, propicia-se uma queda dramática no aparecimento desse tipo de câncer (adenocarcinoma). Nos adenocarcinomas (Figura 72.3), os fatores de pior prognóstico são: indiferenciação celular; presença de invasão vascular linfática ou venosa; margem de ressecção, lateral e/ou profunda, comprometida; presença de brotamento. É importante ressaltar que os carcinoides que se originam das células de Kulchitsky (que são cromoafins), da camada mais profunda da mucosa, nas glândulas de Lieberkün, muitas vezes são classificados erroneamente como uma lesão subepitelial. Quase sempre são achados acidentais durante a colonoscopia e, quando pequenos, rarissimamente são sintomáticos. Quando secretam substâncias vasoativas podem causar a síndrome carcinoide, que apresenta sintomas como taquicardia, hipertensão, hiperemia facial e cervical, entre outras. Nessa síndrome, geralmente a doença é metastática, apresentando múltiplas lesões no fígado, pulmões e outros sítios, e acaba evoluindo em longo prazo para o êxito letal do paciente. Os pólipos inflamatórios formam--se após ter ocorrido algum tipo de agressão à mucosa, como crises de diverticulite, na retocolite ulcerativa inespecífica (RCUI) e na doença de Crohn (DC), JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA após algumas infecções (p. ex., na salmonelose crônica) ou infestações (na esquistossomose ou amebíase, entre outras) etc. Habitualmente, não necessitam ser removidos. Os pólipos não epiteliais podem ser divididos em mesenquimais, neurogênicos e outros. São lesões oriundas das camadas mais profundas da parede do cólon, como da camada submucosa ou da camada muscular. Podem ser benignos ou malignos. Essas lesões são subepiteliais e caracterizam-se por ter, habitualmente, bordas bem delimitadas e suaves, além de serem recobertas por uma superfície mucosa de aspecto endoscópico normal, ou seja, com aberturas das criptas do tipo I de Kudo. Exemplos de lesões mesenquimais são os lipomas, os tumores estromais, os hemangiomas e os pólipos linfoides. Ainda nas camadas mucosa e submucosa pode haver a proliferação de células pertencentes ao sistema nervoso entérico formando estruturas polipoides. Podem ser lesões únicas ou múltiplas, caracterizando-se, às vezes, como uma polipose. Pode-se citar o schwannoma epitelioide, o pólipo de células granulares, os neurofibromas (que podem estar associados à síndrome de von Recklinghausen), os perineuriomas e os glanglioneuromas (geralmente múltiplos). Essas lesões são extremamente raras. Assim, um lipoma é amarelado (amarelo mais intenso) e normalmente depressível (sinal do travesseiro) e de tamanho geralmente superior a 1 cm. Habitualmente é séssil, mas pode também ser pediculado. Já o carcinoide é levemente amarelado, endurecido ao toque e quase sempre não chega a 1 cm de diâmetro, sempre séssil. O pólipo da camada muscular tem coloração mais avermelhada (por compressão da mucosa), tem tamanho mais avantajado (maior que 2 cm) e quase sempre é séssil ou subpediculado. TAMANHO A mensuração adequada dos pólipos permite classificá-los, segundo seu tamanho, como: gigantes (> 30 mm), grandes (20 a 30 mm), pequenos (5 a 10 mm) e diminutos (de 1 a 5 mm). Os pólipos colorretais são relativamente pequenos, em sua maioria, tendo até 1 cm de diâmetro. Apenas 20% dos pólipos têm mais de 1 cm. Os pólipos grandes, isto é, maiores de 2 cm, habitualmente se localizam no cólon direito e no reto. Os pólipos menores de 5 mm localizados no reto são, quase sempre, não neoplásicos (geralmente hiperplásicos), mas 60 a 70% daqueles que se localizam nos segmentos mais proximais são adenomas. JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA TRATAMENTO Apenas as lesões oriundas da mucosa, e algumas poucas da submucosa, possibilitam seu tratamento endoscópico, ficandoé recomendada. Nos casos de risco elevado de amputação retal, a quimiorradioterapia neoadjuvante pode ser considerada para aumentar a chance de preservação esfincteriana. Tratamento para tumores avançados Para tumores estadiados como T3 ou T4 com comprometimento linfonodal (estádio III), o tratamento neoadjuvante é indicado. A quimiorradioterapia neoadjuvante combina 5-FU (350 mg/m² IV) em bolo com radioterapia pélvica, totalizando 5040 Gy. Após a conclusão da neoadjuvância, realiza-se um reestadiamento para avaliar a resposta ao tratamento. Se a resposta for incompleta, a ressecção cirúrgica com excisão total do mesorreto é realizada. Nos casos de resposta clínica completa, a conduta pode variar e ainda é debatida na literatura. Tratamento para tumores estádio IV O tratamento para tumores colorretais em estádio IV é mais complexo devido à heterogeneidade dos casos, que podem incluir metástases hepáticas, pulmonares e até carcinomatose peritoneal. O tratamento deve ser individualizado e discutido em equipe interdisciplinar, envolvendo oncologia, cirurgia hepática, coloproctologia e outras especialidades, para definir o melhor plano terapêutico para cada paciente. - Caracterizar os tratamentos quimio e radioterápicos realizados para esses tumores QUIMIOTERAPIA A quimioterapia adjuvante está indicada para doentes com câncer colorretal no estágio III e, excepcionalmente, no estágio II, a critério médico. Empregam-se esquemas terapêuticos, quimioterápicos, baseados em fluoropirimidina (5fluorouracila ou capecitabina – para casos em estágio II), associada ou não a oxaliplatina (para casos em estágio III). Não se encontra definido o papel da quimioterapia contendo bevacizumabe ou cetuximabe no tratamento adjuvante do câncer de cólon. O início do tratamento adjuvante deve ocorrer entre 4 e 6 semanas após à cirurgia, havendo evidência de que o ganho em termos de sobrevida reduzse 14% a cada 4 semanas de atraso, havendo porém algum benefício para tratamentos iniciados até 12 semanas após o tratamento cirúrgico. JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA A quimioterapia prévia (pré-operatória) está indicada para doentes com câncer de reto no estágio II ou III, associada à radioterapia. Empregam-se esquemas terapêuticos baseados em fluoropirimidina. Não se encontra definido o papel da quimioterapia contendo oxaliplatina, irinotecano, bevacizumabe ou cetuximabe na quimioterapia prévia do câncer de reto. Esse tratamento deve ser reservado aos seguintes pacientes : Boa capacidade funcional (Zubrod 0 ou 1); - Expectativa de vida superior a 12 meses; Possibilidade de realização do procedimento cirúrgico (caso indicado) em no máximo três a quatro semanas após o término da quimioterapia ou oito a 12 semanas após o término da radioterapia; Garantia de acesso à radioterapia (caso indicada) dentro de três a quatro semanas; Garantia de disponibilização de quimioterapia adjuvante, se indicada. A duração do tratamento em geral é de três a seis meses, determinada pelo plano terapêutico, toxicidade e resposta objetiva à quimioterapia, podendo ser empregado concomitante ou não à radioterapia . A quimiorradioterapia neoadjuvante, comparada à radioterapia isolada, melhora o controle local, aumenta o tempo para falha do tratamento e aumenta a sobrevida específica por câncer. A neoadjuvância clássica consiste em radioterapia ou quimiorradioterapia seguida de cirurgia, com quimioterapia sistêmica pós-operatória (adjuvante). Já a neoadjuvância total é uma nova estratégia, que vem mostrando resultados promissores, utilizando o tratamento multimodal para adenocarcinoma de cólon e adenocarcinoma de reto localmente avançado, sendo que a radiação e a terapia sistêmica são administradas antes da ressecção cirúrgica. A neoadjuvância total é uma alternativa para pacientes que apresentem fatores de risco para recorrência do tumor. A quimioterapia paliativa é usada para pacientes com câncer colorretal que não pode ser operado ou que já está em um estágio avançado (estádio IV) desde o diagnóstico. Ela pode incluir medicamentos como fluoropirimidina, que podem ser combinados com outros fármacos como oxaliplatina, irinotecano, mitomicina C, bevacizumabe, cetuximabe ou panitumumabe, dependendo das características e necessidades do paciente. Para pacientes com metástases hepáticas (câncer que se espalhou para o fígado) que podem ser removidas cirurgicamente, a remoção completa pode oferecer uma chance de sobrevivência de 25% a 40% em cinco anos. A quimioterapia é usada para diminuir o tamanho dos tumores e facilitar a cirurgia. Se as metástases hepáticas não podem ser removidas, mas a doença fora do fígado é mínima, a quimioterapia pode ajudar a reduzir o tamanho dos tumores e permitir que sejam removidos mais tarde. Medicamentos como cetuximabe e bevacizumabe podem aumentar a chance de remoção cirúrgica, embora ainda não se saiba exatamente quanto esses medicamentos melhoram a sobrevivência a longo prazo. O uso de técnicas de ablação térmica (como micro- ondas e radiofrequência) e quimioterapia diretamente na artéria do fígado têm resultados mistos em termos de benefícios adicionais. Os métodos ablativos térmicos utilizam calor ou frio para destruir as células cancerígenas no fígado. A ablação por radiofrequência e por micro-ondas envolve a colocação de um ou mais eletrodos no tumor usando orientação de imagem, como ultrassonografia (com ou sem contraste) ou tomografia computadorizada (com ou sem contraste). Uma corrente alternada de alta frequência é aplicada, causando a necrose de coagulação e, consequentemente, a destruição do tecido ao redor dos eletrodos. JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA A ablação por micro-ondas é um método ablativo que utiliza ondas eletromagnéticas que criam altas temperaturas para destruir rapidamente os tumores de até 3 cm de diâmetro. A ablação por micro-ondas é uma tecnologia mais recente que a radiofrequência no tratamento de tumores hepáticos. Ela tem a vantagem de causar ablações maiores, mais homogêneas, mais esféricas e mais previsíveis que a radiofrequência. Além disso, é uma tecnologia mais rápida e menos susceptível à perda de eficácia quando aplicada perto de grandes vasos sanguíneos. Pacientes com câncer que se espalhou para o peritônio (a membrana que reveste a cavidade abdominal) podem, às vezes, se beneficiar de quimioterapia direta na cavidade após uma cirurgia para remover o máximo possível do tumor, embora não se saiba se isso oferece vantagens adicionais sobre a quimioterapia sistêmica (em todo o corpo). A quimioterapia sistêmica pode incluir uma combinação de medicamentos como 5-fluorouracil, capecitabina, irinotecano, oxaliplatina, raltitrexede, bevacizumabe e cetuximabe. Pode ser administrada em até três linhas de tratamento, considerando a condição geral do paciente e os efeitos colaterais dos medicamentos. O tratamento de primeira linha é recomendado para pacientes com capacidade funcional baixa ou moderada (escala de Zubrod), geralmente usando uma combinação de fluoropirimidina e oxaliplatina ou irinotecano. O bevacizumabe não mostrou benefícios adicionais quando combinado com fluoropirimidina e oxaliplatina na primeira linha de tratamento e está associado a riscos como perfuração intestinal e problemas cardíacos. O irinotecano deve ser usado com fluoropirimidina. A adição de bevacizumabe não mostrou melhora na sobrevivência. Cetuximabe e panitumumabe são usados geralmente em terceira linha de tratamento para pacientes cujos tumores não têm mutações no gene KRAS, já que são menos eficazes em tumores com mutações KRAS. A escolha do tratamento deve ser adaptada às necessidades individuais do paciente e às características do câncer. RADIOTERAPIA A radioterapia não é usada regularmente após a cirurgia para câncer de cólon. No entanto, há algumas evidências limitadas de que, em situaçõesespecíficas, como quando o câncer é grande (T4), há perfuração ou obstrução intestinal, ou se ainda há doença após a cirurgia, a radioterapia pode ser benéfica. Para pacientes com câncer de reto em estágio I, a decisão de usar radioterapia deve considerar o tipo e a gravidade do tumor. Tumores bem diferenciados (Grau I), que estão apenas na camada mais interna do intestino, geralmente não precisam de tratamento adicional. Tumores moderadamente diferenciados (Grau II) ou que atingem camadas mais profundas do intestino podem se beneficiar de radioterapia. Tumores indiferenciados (Grau III) ou que se espalharam para a gordura ao redor do reto, ou que têm invasão dos vasos sanguíneos, devem receber quimiorradioterapia (uma combinação de quimioterapia e radioterapia). Para câncer de reto em estágios II ou III, a radioterapia é recomendada e pode incluir uma dose maior (45Gy a 55Gy) com quimioterapia, ou uma dose menor e mais rápida (25Gy em cinco sessões). Estudos mostraram que a combinação de radioterapia e quimioterapia não oferece um aumento significativo na sobrevivência ou na preservação do esfíncter em comparação com a radioterapia menor e mais rápida. - Caracterizar os principais sítios metastáticos dos tumores colorretais. JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA Disseminação tumoral O câncer colorretal pode se espalhar de várias maneiras, afetando diferentes partes do corpo. Aqui estão as principais formas de disseminação: 1. Disseminação por Continuidade ou Contiguidade: Essa forma de espalhamento ocorre quando o câncer cresce e invade diretamente tecidos adjacentes. No cólon, isso acontece ao longo da circunferência do órgão. Geralmente, o câncer se expande tomando cerca de um quarto da circunferência do cólon a cada seis meses. Além disso, o câncer pode aderir a órgãos próximos, como outras vísceras abdominais, órgãos pélvicos e até à parede abdominal. Lesões localizadas na parte posterior do abdômen, conhecida como face retroperitoneal, podem invadir estruturas como a fáscia perirrenal (uma camada de tecido ao redor dos rins), os uréteres, o duodeno (uma parte do intestino delgado), a parede posterior do abdômen, e músculos como o ilíaco e psoas. 2. Disseminação Transperitoneal: O câncer pode também se espalhar para o peritônio, que é a membrana que reveste a cavidade abdominal e cobre a maioria dos órgãos abdominais. Essa disseminação pode levar a implantes tumorais em várias áreas do peritônio, incluindo o omento, que é uma dobra do peritônio. A carcinomatose peritoneal, que é a disseminação do câncer na cavidade peritoneal, pode ocorrer em até 10% dos pacientes com câncer colorretal. 3. Disseminação Linfática: O câncer colorretal frequentemente se espalha através do sistema linfático. O câncer geralmente começa a se propagar para os gânglios linfáticos próximos ao cólon, conhecidos como gânglios paracólicos. A disseminação linfática é um aspecto crucial para os cirurgiões, pois a remoção dos gânglios afetados é fundamental para o tratamento. 4. Disseminação Hematogênica: Esta forma de disseminação envolve a propagação do câncer através da corrente sanguínea, levando a metástases em locais distantes do corpo. Os locais mais comuns para as metástases hematogênicas do câncer colorretal são o fígado, os pulmões e os ossos. O fígado é o órgão mais frequentemente afetado devido à drenagem venosa portal do cólon, que transporta o sangue do intestino para o fígado. Isso cria um caminho direto para as células cancerosas do cólon se espalharem para o fígado. As metástases à distância no câncer colorretal são uma complicação séria e comum nos casos avançados. Elas ocorrem mais frequentemente no fígado, pulmões e peritônio, devido à forma como o sistema de drenagem venosa e linfática funciona no corpo. A drenagem venosa do cólon e do reto desempenha um papel crucial no local onde as metástases vão se instalar. No fígado, que é o principal local de metástase, os tumores colônicos têm essa preferência porque a drenagem do sangue do trato gastrointestinal passa pela veia porta hepática antes de retornar ao coração. Quando células tumorais invadem essa via, elas tendem a se alojar no fígado, provocando sintomas como dor no quadrante superior direito do abdome, distensão e aumento do volume abdominal. Nos pulmões, as metástases são mais comuns em tumores localizados no reto distal. Isso acontece porque o sangue dessa região drena pela veia cava inferior, indo diretamente ao coração e, posteriormente, aos pulmões. Quando isso ocorre, o paciente pode apresentar tosse persistente e falta de ar (dispneia). JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA Embora menos frequentes, as metástases ósseas e cerebrais também podem ocorrer. As metástases ósseas podem causar dor localizada, enquanto as cerebrais podem gerar sintomas neurológicos, como cefaleia e déficits motores. O tratamento cirúrgico de pacientes com câncer colorretal que já se espalhou para outras partes do corpo (metástase) busca remover o tumor primário, mesmo que haja metástases à distância, para prevenir complicações como obstrução e sangramento. Em alguns casos, especialmente em pacientes sem sintomas (como obstrução ou sangramento), pode-se optar pela quimio-radioterapia antes da cirurgia, visando reduzir o tumor e facilitar o tratamento posterior. Para pessoas idosas ou com outras doenças graves, o tratamento paliativo pode incluir técnicas como fulguração (destruição do tumor com calor), fotoablação a laser ou a colocação de próteses autoexpansíveis. Essas próteses são tubos flexíveis que se expandem após serem inseridos, usados para desobstruir o intestino e permitir a passagem das fezes, melhorando a qualidade de vida do paciente sem necessidade de cirurgia imediata. As metástases no fígado são comuns em casos de câncer colorretal. Essas metástases aparecem em até 70% dos pacientes com doença disseminada, sendo que 70 a 80% delas surgem no primeiro ou segundo ano após a remoção do tumor primário. A remoção cirúrgica dessas metástases pode aumentar as chances de sobrevida dos pacientes, principalmente quando o tumor principal foi removido com sucesso e não há sinais de câncer em outras partes do corpo. As técnicas cirúrgicas evoluíram muito, permitindo a remoção de metástases em várias partes do fígado, seja em um único lobo (metade do fígado) ou em ambos. Atualmente, a cirurgia tem uma taxa de mortalidade operatória abaixo de 2%. Além disso, melhorias nos métodos de imagem, como o uso da ultrassonografia durante a cirurgia, novas técnicas e melhores cuidados pós-operatórios, aumentaram o número de pacientes que podem passar pela ressecção (remoção) das metástases hepáticas. A sobrevivência a longo prazo, ou seja, viver mais de cinco anos após a remoção do câncer, depende muito da ausência de câncer fora do fígado e da possibilidade de remover as metástases completamente. No entanto, em casos onde há muitas metástases (mais de quatro em ambos os lobos do fígado), o risco de o câncer voltar é alto, e a cirurgia pode não ser a melhor opção. Mesmo assim, quando o câncer volta ao fígado, em cerca de 35% dos casos, uma nova cirurgia pode ser considerada para pacientes selecionados. Além da cirurgia, técnicas como a crioterapia (congelamento do tumor) e a ablação por radiofrequência (destruição do tumor com calor) podem ser usadas para tratar metástases quando a remoção cirúrgica não é viável. Em casos de ressecção (remoção) extensa do fígado, pode-se também realizar uma embolização portal seletiva, que ajuda a preparar o fígado para a cirurgia ao aumentar o tamanho da parte do órgão que será preservada, reduzindo o risco de insuficiência hepática após a operação. - Discutir as possíveis complicações do tratamento quimioterápico, como mucosite, neutropenia febril e síndrome da lise tumoral. MUCOSITE A mucosite é uma complicação da terapia antineoplásica. Em pacientes que recebem radioterapia decabeça e pescoço, a mucosite oral têm seu efeito potencializado, podendo JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA signifi car a interrupção do tratamento, resultando impacto no controle do tumor local e sobrevida do paciente. Todos os pacientes, sob este tratamento, desenvolvem algum grau de mucosite oral, sendo, a severidade da mesma, influenciada por fatores do paciente e fatores do tratamento. Estima-se que aproximadamente 60% dos pacientes que recebem apenas radioterapia e que 90% dos que recebem a combinação radioterapia e quimioterapia, desenvolverão mucosite oral severa. Como consequência da mucosite, pode haver sintomatologia dolorosa tão intensa que opióides podem ser requeridos, e o risco de infecção com Streptococcus viridans é grande, e está associado com o aumento da morbidade e mortalidade. Historicamente, a mucosite era vista como um dano direto ao epitélio (a camada de células que reveste a boca), causado por tratamentos como a quimioterapia e radioterapia. Acreditava-se que as células da mucosa, assim como as tumorais, eram alvos desses tratamentos, resultando em lesões na camada basal do epitélio. Com a morte dessas células, a mucosa ficava atrofiada e vulnerável a traumas, levando à formação de úlceras. Quando a barreira mucosa era rompida, bactérias podiam penetrar nos tecidos, agravando a inflamação e as lesões. Porém, esse conceito limitado foi superado. Estudos recentes mapearam os genes envolvidos no processo de mucosite e identificaram cinco fases patológicas: 1. Iniciação: Imediatamente após a quimioterapia ou radioterapia, ocorre a produção de radicais livres (moléculas altamente reativas), que causam danos ao DNA das células epiteliais, levando à morte celular. 2. Regulação e Geração de Mensagem: Nesta fase, são ativados genes que regulam a produção de citocinas (proteínas que mediam a inflamação). Esses mediadores atacam o epitélio, os vasos sanguíneos e o tecido conjuntivo, promovendo mais lesões. 3. Amplificação e Sinalização: A resposta inflamatória se intensifica. Uma citocina específica, o TNF-α (fator de necrose tumoral alfa), ativa ainda mais o processo inflamatório, amplificando os danos. 4. Ulceração: Esta é a fase mais crítica, onde ocorrem as lesões visíveis na mucosa. As terminações nervosas ficam expostas, e a superfície é colonizada por microrganismos, que agravam a inflamação e aumentam a produção de citocinas. 5. Cicatrização: Finalmente, a cura ocorre com a regeneração do epitélio danificado, através da migração e diferenciação celular para restaurar uma mucosa saudável. A mucosite se manifesta clinicamente em quatro fases: inflamatória, epitelial, ulcerativa/bacteriana e cicatrização. Nessa perspectiva, os microrganismos desempenham um papel importante, pois intensificam a inflamação e exacerbam as úlceras. Portanto, intervenções antimicrobianas (como enxaguatórios bucais) podem ajudar a reduzir a biomassa bacteriana, controlando a cascata de eventos que leva à ulceração. A presença de certas bactérias, como Streptococcus mitis, Streptococcus mutans e Porphyromonas sp., está diretamente associada à persistência e gravidade da mucosite. Essas JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA bactérias liberam substâncias que estimulam o sistema imunológico a produzir mais citocinas inflamatórias, como o TNF, IL-6 e IL-1. Essas proteínas aumentam a permeabilidade dos vasos sanguíneos e recrutam mais células inflamatórias para o local, o que agrava ainda mais o processo. Portanto, a erradicação dessas bactérias pode reduzir a gravidade da mucosite ou até mesmo preveni-la, minimizando a inflamação e os danos ao epitélio. Diversos estudos têm sido realizados para identificar qual o método mais eficaz na prevenção e tratamento da mucosite, uma complicação comum em pacientes submetidos à quimioterapia e radioterapia. A maior parte dessas pesquisas foca em métodos antimicrobianos, incluindo antibióticos, antifúngicos e substâncias fitoterápicas, além da laserterapia. Tradicionalmente, o uso de bochechos com Gluconato de Clorexidina 0,12% foi amplamente utilizado como forma de prevenir e tratar a mucosite. A Clorexidina age desorganizando a membrana celular das bactérias e inibindo enzimas importantes para elas. Por exemplo, ela impede que Streptococcus mutans use glicose para produzir ácido lático e diminui a ação de bactérias como Porphyromonas gingivalis. Contudo, o uso prolongado de Clorexidina pode gerar efeitos colaterais indesejados, como coloração dos dentes, descamação temporária da mucosa, mudanças no paladar e aumento de depósitos calcificados nos dentes, o que levou à busca por alternativas com menos efeitos adversos. Uma dessas alternativas é o uso de solução salina a 0,9%, que é menos irritante para a mucosa, não altera o pH da saliva e oferece um ótimo custo-benefício. Além disso, estudos vêm investigando a solução PTA, que combina Polimixina, Tobramicina e Anfotericina. Esta solução mostrou bons resultados na redução da duração da mucosite e de sintomas como a disfagia (dificuldade de engolir) e perda de peso. Entretanto, há alguns estudos que não observaram uma diferença significativa em relação ao grupo placebo. Outro método utilizado é o Peróxido de Hidrogênio, ainda usado em alguns hospitais, mas ele pode causar irritação e modificar a flora normal da boca. A suspensão de Sucralfato tem apresentado bons resultados, ajudando a diminuir a gravidade e a duração da mucosite. Combinando antibióticos e antifúngicos, como Ofloxacina, Miconazol e Nistatina, também foi observada uma redução na presença de fungos e bactérias prejudiciais, diminuindo as endotoxinas que pioram a inflamação. A laserterapia de baixa potência também vem sendo avaliada e tem mostrado eficácia por sua capacidade de acelerar a cicatrização da mucosa e reduzir a inflamação. Além disso, alguns fitoterápicos estão sendo investigados, como o gel de Aloe vera, que, apesar de não ter apresentado diferenças significativas em comparação ao placebo, e o óleo essencial de Leptospermum scoparium e Kunzea ericoides, que mostraram resultados satisfatórios. Considerações Finais A mucosite oral é uma complicação significativa do tratamento radioterápico e pode aumentar a morbidade e mortalidade dos pacientes. Atualmente, ela é vista como uma condição complexa, relacionada não apenas a danos ao epitélio, mas também a alterações na expressão genética. Em termos de prevenção e tratamento, os principais agentes estudados incluem o JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA Gluconato de Clorexidina 0,12%, combinações de antifúngicos e antibióticos, Sucralfato, fitoterápicos e laser de baixa potência. Conclui-se que as intervenções antimicrobianas podem ser úteis para reduzir a quantidade de microrganismos na boca, ajudando a controlar o processo que leva à mucosite. Embora muitas medidas tenham sido propostas, é necessário uma avaliação crítica para determinar a melhor opção terapêutica baseada em estudos científicos confiáveis. NEUTROPENIA FEBRIL A neutropenia é uma manifestação comum de defeitos da medula óssea associados com a redução de eritrócitos e plaquetas, tendo como possíveis causas a anemia aplásica, leucemia, mielodisplasia, anemia megaloblástica e tratamentos quimioterápicos, dentre outras. Estima-se que 10-50% dos pacientes com tumores sólidos, e >80 % dos portadores de neoplasias hematológicas, desenvolverão febre em pelo menos um episódio de neutropenia ao longo do tratamento quimioterápico. A neutropenia é definida por uma contagem de neutrófilos inferior a 500 células por microlitro (cél/microL) ou inferior a 1.000 células/microL com previsão de queda para menos de 500 células/microL nas próximas 48 horas. Uma contagem abaixo de 100 células/microL é considerada “neutropenia profunda” por alguns autores. Neutropenia Febril: O diagnóstico de neutropenia febril é feito quando a temperaturaoral do paciente é superior a 38,3°C (em uma medição única) ou igual a 38°C ou mais por mais de 1 hora. Como a temperatura oral é geralmente 0,3 a 0,4°C mais alta que a temperatura axilar, uma temperatura axilar superior a 37,8°C pode ser usada como critério para diagnóstico. Mesmo na ausência de febre, pacientes neutropênicos com sinais clínicos de infecção (como dificuldade para respirar, baixa pressão arterial, ou hipotermia) devem ser tratados como se estivessem com neutropenia febril, começando imediatamente a antibioticoterapia empírica. Apenas 10-25% dos pacientes com neutropenia febril terão hemoculturas positivas (bacteremia). As bactérias mais frequentemente encontradas são Staphylococcus coagulase- negativos, enquanto no Brasil há uma tendência de infecções por bactérias Gram-negativas, como E. coli, Klebsiella sp., Enterobacter sp., e Pseudomonas aeruginosa. Em casos de neutropenia prolongada (superior a 7 dias), o risco de infecções fúngicas aumenta, inicialmente por leveduras da microbiota intestinal, como Candida sp., e posteriormente por bolores inalados, como Aspergillus e Fusarium. É importante também considerar causas não infecciosas de febre, como tromboflebite, efeitos de medicamentos, febre tumoral e mucosite sem infecção. Avaliação Inicial: História Clínica e Exame Físico: É crucial examinar a pele, a orofaringe, a região perianal, os pulmões, o abdome, e os locais de procedimentos cirúrgicos e de acesso venoso. Avaliação Laboratorial: Coletar pelo menos 2 conjuntos de hemocultura de sítios diferentes, com 20 ml em cada frasco (um para aeróbio e outro para anaeróbio). Coletar um conjunto de cada lúmen de cateter venoso profundo e pelo menos um de veia periférica. JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA Realizar hemograma, urea, creatinina, eletrólitos, aminotransferases e bilirrubinas. Exames adicionais, como raios X de tórax e culturas específicas, devem ser solicitados se houver sintomas sugestivos de infecções nesses locais. Estratificação de Risco: A estratificação de risco deve ser o primeiro passo no tratamento da neutropenia febril e pode ser feita clinicamente ou usando o escore MASCC, que é específico para esta situação. Estratificação Clínica: Alto Risco: Qualquer um dos critérios abaixo deve ser internado para tratamento intravenoso (IV): Expectativa de neutropenia por mais de 7 dias. Disfunções orgânicas crônicas, como DPOC, insuficiência renal crônica ou cirrose hepática. Alterações agudas na homeostase. Sintomas gastrointestinais graves, como mucosite intensa. Sinais de infecção em cateter venoso profundo. Baixo Risco: Pacientes devem preencher todos os requisitos abaixo e podem ser tratados com terapia oral (VO) ou intravenosa: Expectativa de neutropenia inferior a 7 dias. Ausência de todos os critérios de alto risco. A persistência de febre após o segundo dia de tratamento em pacientes inicialmente classificados como de baixo risco deve levar o médico a reclassificar o paciente como de alto risco, com a consequente mudança de antibioticoterapia para um regime intravenoso (IV). Se a febre persistir nos primeiros dois a quatro dias de tratamento em um paciente clinicamente estável, não há necessidade imediata de trocar o esquema antimicrobiano empírico, a menos que haja isolamento bacteriano ou diagnóstico clínico de uma infecção específica. No entanto, se o paciente estiver clinicamente instável, é necessário ampliar a cobertura antimicrobiana para incluir germes multirresistentes, tanto Gram-positivos quanto Gram-negativos, além de iniciar a cobertura antifúngica empírica. Tratamento Antimicrobiano Empírico: Esquema Terapêutico Inicial: O tratamento inicial deve cobrir Pseudomonas aeruginosa. Embora monoterapia e combinação de antibióticos sejam igualmente eficazes, a combinação é preferível em casos de instabilidade clínica, infecções complexas (como pneumonia e infecções perirretais), infecções polimicrobianas e em hospitais com germes multirresistentes. Para pacientes de baixo risco, a antibioticoterapia oral é segura e eficaz. Agentes como cefepime, carbapenêmicos (imipenem e meropenem), piperacilina-tazobactam e ceftazidime são recomendados. A ceftazidime é desencorajada devido ao aumento de germes multirresistentes e sua eficácia limitada contra alguns patógenos Gram-positivos e Gram- negativos produtores de betalactamases. Cobertura Antifúngica: JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA O tratamento antifúngico empírico deve ser iniciado se o paciente continuar febril após quatro a sete dias de tratamento antimicrobiano ou se estiver clinicamente instável entre o segundo e o quarto dias de tratamento. A anfotericina B não-lipossomal (0,7 mg/kg/dia) é frequentemente o antifúngico de escolha em razão do seu custo relativamente menor, apesar de estar associada a uma alta taxa de eventos adversos. Alternativas mais caras, como voriconazol, caspofungina ou a anfotericina B lipossomal, podem ser consideradas em casos específicos. Fatores Hematopoiéticos (G-CSF/GM-CSF): O uso de fatores estimuladores de colônias (G-CSF ou GM-CSF) em pacientes com neutropenia febril estabelecida não tem respaldo científico suficiente para ser recomendado, uma vez que não demonstram impacto significativo na morbimortalidade. LISE TUMORAL A síndrome de lise tumoral (SLT) é uma complicação grave que pode ocorrer espontaneamente ou após o início da quimioterapia, especialmente em pacientes com cânceres de crescimento rápido, como linfomas e leucemias. A SLT é caracterizada pela destruição maciça de células malignas, o que resulta na liberação rápida de seus conteúdos intracelulares no espaço extracelular. Isso inclui potássio, fósforo, ácidos nucleicos e outras substâncias, o que pode sobrecarregar a capacidade do organismo de manter o equilíbrio metabólico. Essa liberação abrupta de conteúdo celular pode resultar em várias complicações metabólicas, como: Hiperpotassemia (aumento dos níveis de potássio no sangue), que pode causar arritmias cardíacas fatais; Hiperfosfatemia, que pode levar à deposição de fosfato de cálcio nos rins e a uma consequente insuficiência renal aguda; Hiperuricemia, resultante da degradação de ácidos nucleicos, que pode precipitar cristais de ácido úrico nos túbulos renais, exacerbando a lesão renal. Essas alterações podem causar lesão renal aguda, aumentando ainda mais os riscos de complicações graves, como arritmias cardíacas e morte súbita. A associação da SLT com lesão renal aguda aumenta significativamente a morbidade e mortalidade dos pacientes, tornando essencial o diagnóstico precoce e o tratamento imediato para prevenir desfechos adversos. A prevenção da SLT em pacientes de risco inclui medidas como hidratação agressiva, o uso de alopurinol ou rasburicase para reduzir os níveis de ácido úrico e o monitoramento rigoroso dos níveis eletrolíticos e função renal antes e durante o tratamento quimioterápico. A síndrome de lise tumoral (SLT) é uma complicação grave decorrente da rápida destruição de células malignas, frequentemente associada ao início da quimioterapia citotóxica, mas que também pode ocorrer espontaneamente. Esse processo libera uma grande quantidade de íons e metabólitos intracelulares, como potássio, fósforo, ácido úrico e ácidos nucleicos, para a circulação sanguínea, resultando em desequilíbrios metabólicos e sobrecarga renal. A principal complicação é a lesão renal aguda (LRA), comumente causada pela precipitação de cristais de ácido úrico nos túbulos renais (nefropatia por uratos) ou pela deposição de fosfatos de cálcio nos rins, resultante da hiperfosfatemia. JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA Apresentação clínica Os principais sintomas da SLT incluem lesão renal aguda, que pode causar sobrecarga de líquidos e edema pulmonar. Além disso, os desequilíbrios eletrolíticos, como hipercalemia e hiperfosfatemia,podem induzir arritmias cardíacas e até morte súbita. Em casos mais raros, podem ocorrer sintomas neuromusculares, como câimbras musculares e convulsões, devido à hipocalcemia, secundária à precipitação de fosfatos de cálcio. Manifestações biológicas o Ácido úrico: A hiperuricemia resulta da liberação maciça de purinas, que são metabolizadas em ácido úrico. A solubilidade dos uratos é baixa, especialmente em pH urinário ácido, o que favorece a formação de cristais e nefropatia por uratos. o Hiperfosfatemia e hipocalcemia: A alta carga de fosfato liberada supera a capacidade excretora dos rins, levando à precipitação de cristais de fosfatos de cálcio, que causam nefrocalcinose e obstrução urinária. A hipocalcemia associada é geralmente assintomática, mas pode causar sintomas graves, como convulsões. o Hipercalemia: A liberação excessiva de potássio e a diminuição da excreção renal devido à LRA aumentam o risco de hipercalemia grave, levando a complicações cardíacas. o Acidose: A acidose lática também pode ocorrer, especialmente em pacientes com tumores extensos e agressivos. A apoptose tumoral durante a quimioterapia, associada à perda do potencial de membrana mitocondrial, pode ser um dos fatores responsáveis pela acidose. Prevenção e tratamento O manejo da SLT inclui três etapas principais: o Prevenção da SLT antes do tratamento: Hidratação agressiva com solução salina isotônica é essencial para manter um fluxo urinário elevado e prevenir a precipitação de uratos e fosfatos. A alcalinização urinária, antes amplamente utilizada, tem sido questionada devido ao risco de deposição de cristais de fosfatos de cálcio. o Prevenção de manifestações clínicas da SLT: Medicamentos como alopurinol ou rasburicase são usados para controlar a hiperuricemia. A rasburicase é preferida em pacientes de alto risco, pois degrada diretamente o ácido úrico. A monitorização rigorosa de eletrólitos e função renal é essencial durante o tratamento. o Tratamento de complicações: Se a LRA ou desequilíbrios metabólicos severos ocorrerem, pode ser necessária terapia de substituição renal, como hemodiálise, para eliminar o ácido úrico e os fosfatos do organismo. Diuréticos podem ser usados com cautela, mas em casos de oligúria, a substituição renal deve ser considerada rapidamente. A complicação mais comum relacionada à SLT é a lesão renal aguda, sendo resultado da deposição de cristais de fosfato de cálcio nos túbulos renais. Constitui-se em emergência médica oncológica mais comum relatada por médicos que cuidam de pacientes portadores de câncer. A ocorrência da SLT é mais frequente nas neoplasias hematopoiéticas (linfoma não Hodgkin, leucemia mieloide e linfoides agudas) ou naquelas com grandes massas tumorais, tumores de crescimento rápido ou muito sensíveis à quimioterapia tóxica. A identificação precoce dos pacientes de alto risco para SLT ou em alto risco de lesão aguda durante SLT pode levar à estratégia baseada no risco, visando evitar o desenvolvimento de lesão JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA renal aguda. Cerca de 10% a 50% dos pacientes de alto risco podem desenvolver SLT. Até um terço destes pacientes podem desenvolver lesão renal aguda, e que se associa a mau prognóstico. A probabilidade de desenvolver SLT está diretamente ligada aos seguintes fatores: agressividade da doença, volume tumoral, efetividade do tratamento citotóxico e a adoção de medidas profiláticas. Não se deve subestimar condições clínicas que contribuem para o seu desenvolvimento, como desidratação, insuficiência renal crônica prévia, oligúria e hipotensão. Devido à multifatoriedade da doença, as incidências relatadas de SLT possuem grande variação, mesmo estratifica-se o risco da doença. Fatores de risco clássicos incluem alta carga tumoral, níveis de desidrogenase lática superiores a 1500 UI, comprometimento extenso da medula óssea e alta sensibilidade tumoral para agentes quimioterápicos. A presença de metástase, o envolvimento da medula óssea, a sensibilidade à terapia, as fases terapêuticas do tratamento, a presença de nefropatia prévia são também fatores de risco relacionados ao desenvolvimento da SLT. A SLT é mais frequentemente observada em pacientes com doenças hematológicas malignas, como os portadores de leucemia linfoblástica aguda e linfoma de Burkitt. Pode, contudo, estar presente em outros tumores sólidos como o de mama ou de pulmão, podendo ainda ocorrer após o tratamento de outros tumores de rápido crescimento que possuam boa resposta aos agentes quimioterápicos. - Discutir acerca das implicações psicológicas de adaptação à colostomia A adaptação à colostomia pode trazer várias implicações psicológicas, pois o procedimento impacta diretamente a vida cotidiana e a autoestima da pessoa. A colostomia, que envolve a criação de uma abertura no abdômen para a eliminação de fezes, altera não só o funcionamento físico, mas também a percepção do próprio corpo e as interações sociais. As implicações psicológicas podem variar dependendo da capacidade individual de enfrentamento e das circunstâncias que levaram ao procedimento, como câncer colorretal, doença inflamatória intestinal ou trauma. Principais Implicações Psicológicas: Imagem Corporal e Autoestima: A colostomia frequentemente altera a forma como a pessoa vê seu próprio corpo. A presença de um estoma e o uso de uma bolsa coletora podem levar a sentimentos de vergonha, desconforto e insatisfação com a aparência. Isso pode resultar em baixa autoestima, especialmente se a pessoa já tinha dificuldades com a imagem corporal antes do procedimento. Isolamento Social e Estigma: O medo de vazamentos ou odores pode fazer com que a pessoa evite situações sociais, levando ao isolamento. A colostomia, muitas vezes, é vista com estigmas associados a uma percepção de “anormalidade”, o que pode agravar o medo do julgamento alheio. Isso pode desencadear sentimentos de inadequação e diminuir a disposição para participar de atividades públicas, como trabalho ou encontros sociais. Ansiedade e Depressão: Muitos pacientes enfrentam ansiedade, especialmente relacionada ao manejo da colostomia, como aprender a cuidar do estoma e lidar com possíveis complicações. A incerteza sobre a recuperação, o futuro e a reintegração ao cotidiano pode gerar estresse. Em alguns casos, a adaptação pode ser acompanhada por depressão, especialmente se houver JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA dificuldades na aceitação da nova condição ou se o procedimento foi feito após uma experiência traumática, como o câncer. Sexualidade e Relacionamentos Íntimos: A colostomia pode afetar a forma como as pessoas se sentem em relação à intimidade e à sexualidade. A presença do estoma pode causar insegurança, medo de rejeição por parte do parceiro e dificuldades em se sentir atraente ou confortável em situações íntimas. Isso pode impactar tanto a vida sexual quanto a qualidade dos relacionamentos, exigindo um processo de readaptação para a pessoa e seu parceiro. Autonomia e Dependência: No início, muitos pacientes podem sentir uma perda de autonomia ao precisar de ajuda para gerenciar os cuidados com a colostomia. Essa dependência pode afetar a autoconfiança, fazendo a pessoa se sentir menos capaz ou autossuficiente, o que pode aumentar o sentimento de vulnerabilidade. Fatores que Ajudam na Adaptação: Suporte Psicológico: O acompanhamento por psicólogos ou terapeutas pode ajudar a pessoa a lidar com as mudanças emocionais e psicológicas após a colostomia. Técnicas de enfrentamento, como terapia cognitivo-comportamental (TCC), podem ser úteis para reformular pensamentos negativos e reduzir a ansiedade. Educação e Preparação: Preparar o paciente antes da cirurgia, explicando o que esperar, como cuidar do estoma e como lidar com os desafios, ajuda a reduzir a ansiedade e a promover uma adaptação mais rápida. Grupos de apoio para colostomizados tambémpodem ser essenciais, oferecendo um espaço de compartilhamento de experiências e dicas práticas. Envolvimento da Família e Amigos: Ter uma rede de apoio é crucial. Quando a família e os amigos são informados e envolvidos, eles podem oferecer suporte emocional, o que ajuda a pessoa a se sentir aceita e amparada.as demais sujeitas somente ao tratamento cirúrgico. Endoscópico O objetivo das polipectomias é, sempre que possível, remover completamente os pólipos e obter material adequado e suficiente para a análise histopatológica desta lesão. A remoção endoscópica dos pólipos adenomatosos do cólon e do reto, como anteriormente comentado JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA neste capítulo, tem um impacto relevante na incidência e na morbimortalidade do câncer colorretal. MALIGNIZAÇÃO São considerados malignos os adenomas que contêm uma alteração citoarquitetural severa, denominada displasia de alto grau (DAG), ou, então, uma área de carcinoma que invade a submucosa, portanto, câncer invasivo (ou adenocarcinoma). A incidência de pólipos malignos oscila entre 2,9 e 9,7%, com média de 4,7% de todos os pólipos removidos. A presença de comprometimento linfonodal varia muito em virtude da heterogeneidade histopatológica das lesões. Lesões com carcinoma restrito à mucosa no cólon e no reto (displasia de alto grau, carcinoma in situ ou outros termos semelhantes) não apresentam risco de metástase. Isso acontece porque essas lesões não ultrapassam a camada muscular da mucosa e, por isso, não atingem os vasos sanguíneos ou linfáticos, que são as principais vias de disseminação do câncer. Portanto, essas lesões não podem se espalhar para os linfonodos (via linfática) ou para outros órgãos (via sanguínea). Essa característica é específica do cólon e do reto no sistema digestivo. Quando essas lesões são tratadas corretamente, a cura pode ser alcançada exclusivamente por meio de procedimentos endoscópicos, sem necessidade de cirurgias maiores. Em alguns casos de câncer invasivo precoce, como o adenocarcinoma, também pode ser possível tratar apenas com técnicas endoscópicas. Pode-se considerar um adenocarcinoma polipoide e precoce (T1) curado por meio da ressecção endoscópica quando todos os critérios a seguir forem atendidos: Invasão inferior a 1 mm na submucosa (medida a partir da muscularis mucosae); margens livres (laterais e profundas); neoplasia bem ou moderadamente bem diferenciada (grau histológico); ausência de invasão vascular; ausência de brotamento. Carcinoides que não causam sintomas e têm até 2 cm de diâmetro, se forem bem diferenciados (ou seja, com células que se parecem muito com as normais), sem anormalidades nucleares e com um índice Ki-67 menor que 2% (indicando baixa taxa de crescimento), além de não apresentarem invasão local ou vascular, podem ser curados com tratamento endoscópico. No reto, especialmente na parte fora da cavidade abdominal (extraperitoneal), mesmo que haja risco de perfuração, o tratamento endoscópico ainda pode ser realizado em lesões de até 2 cm. No entanto, se o carcinoide estiver em partes mais proximais do intestino, o risco de perfuração é maior, e a remoção por via endoscópica torna-se difícil. Nesses casos, se for necessário removê-los, a abordagem cirúrgica será necessária. Já os pólipos que envolvem a camada muscular só podem ser tratados por cirurgia. Seguimento Pacientes portadores de adenomas colorretais passam a ser considerados pacientes de maior risco para o CCR. Portanto, devem ser orientados a repetirem o exame de colonoscopia com intervalos regulares. Nos últimos anos, o conhecimento da história natural dos pólipos e quase todo o processo até a sua malignização ficaram mais bem entendidos, principalmente quando JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA seguem a sequência adenoma-carcinoma. Dessa forma, sabe-se que a formação de um adenoma tarda no mínimo 2 a 3 anos; e a sua transformação em um adenocarcinoma demora em média 7 anos. Assim, em algumas situações poderíamos estabelecer um intervalo de até 10 anos entre os exames colonoscópicos. No entanto, cada situação pode estar associada a risco maior ou menor. Observou-se que quando existem mais de três lesões, uma lesão maior que 1 cm, a presença de componente viloso ou displasia de alto grau nos adenomas, o risco para o CCR é maior e o intervalo entre os exames deve ser menor. A essas particularidades convencionou-se chamar de “adenoma avançado”. O portador do “adenoma simples” é aquele que não apresenta essas características, ou seja, tem apenas uma ou duas lesões, ambas com tamanho inferior a 1 cm e sem componente viloso ou displasia de alto grau. Esses conceitos são aplicados apenas aos pacientes inicialmente assintomáticos e que foram submetidos a exame de colonoscopia com o achado de um ou mais adenomas. POLIPOSES Cirurgia Cerca de 20% dos pacientes portadores de CCR apresentam história familiar de CCR, e 5 a 10% apresentam uma síndrome genética identificada. Essas síndromes genéticas formam um grupo de desordens raras e heterogêneas que inclui a polipose adenomatosa familiar (PAF), o câncer colorretal hereditário não polipoide (denominada e popularizada como HNPCC, que é sua abreviação na língua inglesa) ou síndrome de Lynch (SL), a síndrome de Peutz-Jeghers, a polipose juvenil e outras variantes. Polipose adenomatosa familiar (PAF) A Polipose Adenomatosa Familiar (PAF) é uma condição rara, com uma incidência de aproximadamente 1 a cada 13 mil a 15 mil nascimentos, representando 1% dos casos de câncer colorretal (CCR). Ela é causada por uma mutação genética e segue um padrão de herança autossômica dominante, o que significa que basta herdar o gene alterado de um dos pais para desenvolver a doença, e tem uma penetrância de 100%. Isso quer dizer que todas as pessoas que têm a mutação desenvolverão a condição. JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA A principal característica da PAF é o aparecimento de milhares de pólipos adenomatosos no cólon e reto. Se esses pólipos não forem tratados, a probabilidade de se tornarem malignos (câncer) é de 100% até os 40 anos de idade. A mutação responsável ocorre no gene APC, localizado no cromossomo 5 (na região 5q21- braço longo do cromossomo). O diagnóstico da PAF é feito quando mais de 100 pólipos adenomatosos colorretais são identificados por meio de exames de imagem, e pode ou não estar relacionado a um histórico familiar de PAF ou de câncer colorretal precoce. Em até 30% dos casos, a pessoa pode ser a primeira da família a desenvolver a síndrome, sendo chamada de "caso índice". O manejo da doença do cólon deve ser feito precocemente em crianças, filhos de portadores dessa síndrome, a partir de 10 a 12 anos de idade. Deve-se realizar a colonoscopia de controle anualmente, com o intuito de prevenir e rastrear o câncer, até o momento da colectomia, que deve ser realizada, preferencialmente, entre os 20 e os 30 anos de idade do paciente ou caso já se ache um câncer. Como são quase sempre de tamanhos semelhantes, basta que se retirem alguns poucos pólipos para confirmar sua origem histológica e esta síndrome no primeiro exame de seguimento. Alguns pólipos maiores, que podem ser sítio de sangramento ou de quadros suboclusivos, também podem ser removidos endoscopicamente, caso o tratamento cirúrgico ainda não esteja programado. É importante lembrar que, por se tratar de uma síndrome genética, existe a possibilidade de outras afecções e mesmo malignidades associadas a ela, como pólipos ou mesmo câncer em outros lugares do tubo digestivo: duodeno, estômago, pâncreas e vesícula biliar. Além disso, essas afecções podem ser observadas também fora do tubo digestivo (manifestações extraintestinais), como tumores desmoides do mesentério, hipertrofia congênita do epitélio pigmentado da retina (HCEPR), câncer de tireoide, hepatoblastoma, câncer de suprarrenais e outras. Apresenta algumas variações nas suas manifestações, que, às vezes, recebem nomes distintos, como: síndrome de Gardner(Essa variante da PAF distingue-se por sua associação com manifestações extraintestinais, como tumores desmoides, cistos sebáceos e epidermoides, lipomas, osteomas do crânio e da mandíbula, dentes supranumerários, pólipos gástricose HCEPR) síndrome de Turcot (É outra variante fenotípica da PAF caracterizada por múltiplos pólipos adenomatosos e tumores do sistema nervoso central (gliobastomas supratentoriais). As características genéticas dessa síndrome ainda não são bem compreendidas.) polipose atenuada.( Caracteriza-se por pólipos colorretais adenomatosos em menor quantidade (mais de 20 e menos de 100), geralmente localizados no cólon direito, com o início da doença em idade mais avançada e menor risco, em longo prazo, para manifestações extraintestinais.) Polipose associada ao MYH Difere das anteriormente descritas por ser transmitida de forma recessiva. Esse gene, quando mutado, promove alterações no gene APC, desencadeando essa polipose. Pode se manifestar apresentando de 15 a 100 pólipos (e algumas vezes centenas deles), lembrando o fenótipo da PAF. A idade média dos pacientes é 45 anos, e os pólipos estão preferencialmente localizados no cólon direito. Outras afecções que aparecem na PAF também podem estar presentes, além de uma maior incidência de câncer de mama nesta população. JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA Síndrome de Lynch (SL) ou câncer colorretal hereditário não polipoide (HNPCC) A Síndrome de Lynch (SL), também conhecida como câncer colorretal hereditário não polipoide (HNPCC), é a causa mais comum de câncer colorretal (CCR) hereditário. Diferente da Polipose Adenomatosa Familiar (PAF), a SL não se caracteriza pela presença de numerosos pólipos, mas sim por pólipos adenomatosos que tendem a evoluir mais rapidamente para câncer, muitas vezes em partes mais proximais do cólon (mais próximas do intestino delgado). Além do câncer colorretal, pessoas com essa síndrome apresentam um risco aumentado de desenvolver outros tipos de câncer, como câncer de endométrio, ovário, estômago, intestino delgado, sistema hepatobiliar, pancreático, trato urogenital superior e cérebro. Os riscos de desenvolver diferentes tipos de câncer variam, e incluem: Câncer colorretal (CCR) em homens: 28% a 75% Câncer colorretal (CCR) em mulheres: 24% a 52% Câncer de endométrio: 27% a 71% Câncer de ovário: 3% a 13% Câncer gástrico: 2% a 13% Câncer do trato urinário superior: 1% a 12% Câncer cerebral: 1% a 4% Essa síndrome é causada por mutações em genes responsáveis pelo reparo do DNA, que incluem MLH1, MSH2, MSH6 e PMS2. Mais de 80% das mutações envolvem os genes MLH1 e MSH2. Quando esses genes sofrem mutações, o sistema de reparo de erros de DNA não funciona corretamente, o que aumenta a chance de que células danificadas se tornem cancerosas. Para diagnosticar a Síndrome de Lynch, uma das abordagens é testar o tecido tumoral para identificar a instabilidade de microssatélites (IMS), que é uma característica da maioria dos tumores em pessoas com essa síndrome. A IMS ocorre devido à incapacidade das células de corrigir erros no DNA, resultando em alterações na sequência genética (inserções ou deleções) em regiões repetitivas do DNA. Dependendo da quantidade dessas alterações, a IMS pode ser classificada como alta, estável ou baixa. Detectar essa instabilidade ajuda a confirmar a presença da síndrome e pode guiar o tratamento. Para se realizar o diagnóstico da SL, além de obter um histórico familiar detalhado, estabelecendo—se uma genealogia, foram criados alguns outros critérios.23 O atualmente mais utilizado é o sistema de Bethesda revisado, que sugere que pacientes com CCR devem ser testados por IMS quando um ou mais dos critérios a seguir forem identificados: CCR em pacientes com menos de 50 anos de idade. CCR e a presença de outros tumores associados à SL, sejam eles concomitantes ou não, independentemente da idade. CCR com histologia de IMS-alto, em paciente com menos de 60 anos de idade. CCR diagnosticado em parentes, um ou mais, de primeiro grau, com um tumor associado à SL. É um dos cânceres diagnosticado antes dos 50 anos. CCR diagnosticado em dois ou mais parentes, de 1º ou 2º grau, com tumores associados à SL. São diagnosticados com qualquer idade. JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA Recomenda-se, em razão do alto risco de desenvolvimento de CCR, que tais pacientes realizem uma colonoscopia a cada 1 ou 2 anos, a partir dos 20 a 25 anos de idade, com o intuito de diminuir a incidência de CCR, diminuindo também sua mortalidade. Síndrome de Muir-Torre É uma variante rara da SL. Além das malignidades viscerais que ocorrem na SL, manifesta-se também por lesões cutâneas (adenomas sebáceos, epiteliomas, carcinomas, ceratoacantomas). Seus portadores devem ser monitorados e avaliados como os portadores de SL. Síndrome de Peutz-Jeghers Caracteriza-se por lesões hiperpigmentadas nos lábios e na mucosa oral, associadas a múltiplos pólipos hamartomatosos do trato gastrointestinal. O local mais comum onde se localizam os pólipos é o intestino delgado, seguido do cólon e estômago, respectivamente. Essa síndrome também é autossômica dominante e está associada a uma mutação germinativa do gene STK 11/LKB1 localizado no cromossomo 19p13. O teste genético para essa síndrome já está disponível. Estudos mostram o risco cumulativo para todos os cânceres nesses pacientes em 93%. O intestino delgado é o sítio mais comum, seguido pelo cólon, reto, estômago e pâncreas. Outros cânceres, como os ginecológicos, também têm maior risco nessa população. Pacientes portadores dessa síndrome podem apresentar obstrução intestinal, sangramento ou intussuscepção, em decorrência do grande tamanho que tais pólipos podem alcançar. A partir daí o diagnóstico da síndrome pode ser feito e, então, encaminhar o paciente para acompanhamento clinico e endoscópico, programando-se também a investigação nos familiares sob risco. Polipose juvenil (PJ) A Polipose Juvenil (PJ) é uma condição genética rara, caracterizada pelo surgimento de vários pólipos juvenis ao longo do trato gastrointestinal, especialmente no cólon, geralmente na primeira década de vida. É uma doença de herança autossômica dominante, o que significa que uma pessoa precisa herdar apenas uma cópia do gene alterado para desenvolver a condição. Essa síndrome está associada a mutações germinativas nos genes SMAD4, localizado no cromossomo 18q21, e BMPR1A, localizado no cromossomo 10q23. Os pólipos juvenis são hamartomas, ou seja, tumores benignos compostos por uma mistura de tecidos normais da região. Critérios Clínico-Endoscópicos para Diagnóstico de PJ: Cinco ou mais pólipos juvenis no cólon e reto. Pólipos juvenis em várias partes do trato gastrointestinal. Pólipos juvenis em um membro de uma família com diagnóstico prévio de PJ. Sintomas: Os sintomas mais comuns da Polipose Juvenil incluem: Hematoquezia (sangue nas fezes). Anemia, devido à perda de sangue crônica. Sinais de obstrução intestinal, resultantes de grandes pólipos que bloqueiam o intestino. JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA Estudos demonstram que existe a possibilidade de os pólipos juvenis sofrerem degeneração adenomatosa, o que pode predispor ao câncer em cerca de 60% dos casos. Isso significa que, ao longo do tempo, alguns desses pólipos podem se transformar em tumores malignos, aumentando o risco de câncer, principalmente no cólon e reto. Em adição, a PJ foi associada à malignidade do pâncreas, estômago, duodeno, trato biliar e algumas anomalias congênitas. Síndrome de Cowden Hamartomas são tumores benignos que se formam por um crescimento anormal de tecidos normais na região onde ocorrem. Ao contrário dos tumores malignos, que podem se espalhar para outras partes do corpo, os hamartomas permanecem localizados e não causam metástase. Eles são formados por uma mistura desorganizada de células que normalmente compõem o tecido da área afetada. A síndrome rara que você mencionou é caracterizada pela presença desses hamartomas cutâneos (na pele) e nas membranas mucosas do trato gastrointestinal. Essa condição é herdada de forma autossômicadominante, o que significa que, se um dos pais possui a mutação genética, há 50% de chance de ela ser transmitida aos filhos. A síndrome ocorre devido a mutações no gene PTEN, que está localizado no cromossomo 10. Esse gene é importante para a regulação do crescimento celular, e sua mutação pode levar ao desenvolvimento descontrolado de células, formando os hamartomas e aumentando o risco de alguns tipos de câncer. Características Clínicas: Um sinal típico dessa síndrome é a presença de neoplasmas benignos, que aparecem como pequenas pápulas assintomáticas ou lesões com aspecto de verrugas na face, conhecidas como triquilemomas. Essas lesões são patognomônicas da síndrome, o que significa que sua presença é um indicativo claro do diagnóstico. Síndrome da polipose hiperplásica (SPH) Define-se essa síndrome quando se encontram pólipos hiperplásicos maiores que 1 cm de diâmetro ou em número superior (> 30) àqueles identificados na população geral. Parece que a chance de ocorrência de CCR nesses pacientes também é maior; no entanto, ainda não foram bem esclarecidos quais os mecanismos genéticos envolvidos. A Organização Mundial da Saúde (World Health Organization – WHO) determina que para ser portador dessa síndrome deve-se encontrar: 1. Pelo menos cinco pólipos hiperplásicos proximais ao cólon sigmoide, sendo dois maiores que 10 mm. 2. Qualquer número de pólipos hiperplásicos presentes nos segmentos proximais ao sigmoide, em paciente com parente em primeiro grau, que seja portador dessa síndrome. 3. Mais de 30 pólipos hiperplásicos ao longo do cólon. Não existem manifestações extraintestinais nessa síndrome. - Identificar a epidemiologia dos tumores de colorretais. JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA O câncer de cólon representa uma das neoplasias malignas de maior incidência e mortalidade, sendo o terceiro câncer mais comum no mundo. O câncer colorretal (CCR) é a quinta neoplasia mais comum na população brasileira, excluindo o câncer de pele não melanoma, segundo estimativa do Instituto Nacional do Câncer (INCA). Mesmo novas tecnologias e tratamentos empregados no combate ao câncer, o CCR continua sendo uma importante causa de morte, de acordo com os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), com número estimado de 880 mil óbitos em todo o mundo no ano de 2018. A análise de 509 laudos positivos para câncer colorretal permitiu identificar o predomínio de pacientes do sexo masculino e a idade média de diagnóstico de 62 anos. A malignidade mostrou-se mais incidente na faixa etária de 61 a 70 anos (29,9%), e considerável número de casos ocorreu em pacientes abaixo de 50 anos (19,6%). Houve predomínio em cólon esquerdo e do tipo histológico adenocarcinoma infiltrativo moderadamente diferenciado. Verificou-se associação entre topografia da doença e sexo, com maior predominância do sexo feminino para tumores do cólon direito e do sexo masculino para tumores do cólon esquerdo (p=0,0081). Em todo o mundo são diagnosticados anualmente cerca de 1,2 milhões de casos novos, sendo o câncer de reto a terceira causa mais comum de câncer no mundo e a segunda causa em países desenvolvidos. No Brasil, esse é o terceiro tumor mais frequente, tendo sido previstos mais de 28 mil casos novos no Brasil em 2010 No Brasil, em 2014, foram estimados 15.070 novos casos de câncer de cólon e reto em homens e 17.530 em mulheres. Esses valores correspondem a um risco de 15,44 novos casos a cada null null JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA 100 mil homens e de 17,24 a cada 100 mil mulheres. A raça e os fatores étnicos podem influenciar o risco de câncer colorretal Mais alarmante é o fato de que a incidência de tumores colorretais vem aumentando ao longo dos anos em todo o mundo ocidental Doença é mais comum em São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina – No Brasil, o câncer colorretal é mais prevalente nos estados de São Paulo, Santa Catarina e Rio de Janeiro. Entre os homens, São Paulo registra 33,1 casos para cada 100 mil, seguido por Santa Catarina (32,4) e Rio de Janeiro (25,3). Entre as mulheres, Santa Catarina lidera com 25,1 casos para cada 100 mil, seguido por São Paulo (20,9%) e Rio de Janeiro (18,7%). Por região, a maior prevalência se dá na região Sudeste, no qual o câncer colorretal representa 11,3% de todos os cânceres em homens e 10% de todos os casos em mulheres. Comparativamente, na região Norte, a doença representa 5,3% dos casos de câncer em homens e 6,3% dos cânceres diagnosticados nas mulheres. Estimativa de novos casos: 45.630, sendo 21.970 homens e 23.660 mulheres (2022 – INCA); e Número de mortes: 21.262, sendo 10.662 homens e 10.598 mulheres (2021 – Atlas de Mortalidade por Câncer – SIM). - Identificar os fatores desencadeantes e de prevenção destes tumores FATORES DESENCADEANTES Fatores de risco relacionados à alimentação, nutrição e atividade física: O câncer de intestino está fortemente associado a hábitos de alimentação, nutrição e atividade física. A incidência da doença vem aumentando nos últimos anos e, em paralelo, observa-se que a população está cada vez mais exposta aos fatores de risco e menos exposta aos fatores de proteção. Excesso de gordura corporal (sobrepeso e obesidade) aumenta o risco de desenvolver câncer colorretal, com evidente relação dose-resposta. Manter a gordura corporal em níveis adequados (IMC entre 18.5 e 24.9 Kg/m²), por sua vez, reduz as chances de desenvolver esse tipo de câncer. Maior quantidade de gordura corporal está relacionada a elevados níveis de insulina, com decorrente crescimento celular e inibição do processo de apoptose. O excesso de gordura corporal também promove um estado de inflamação crônica no organismo. Essas alterações biológicas decorrentes do excesso de gordura são promotoras de carcinogênese nas células intestinais. O consumo de carnes processadas (presunto, salsicha, linguiça, bacon, salame, mortadela, peito de peru, blanquet de peru, dentre outros). Estimativas indicam que para cada porção de 50 gramas de carne processada consumida diariamente o risco de câncer colorretal aumenta em 18%. Durante o processamento, as carnes processadas são submetidas a altas temperaturas, resultando na produção de aminas heterocíclicas e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos com potencial carcinogênico em pessoas com predisposição genética. O consumo de carne vermelha em excesso está fortemente associado ao aumento do risco de desenvolvimento de câncer colorretal. Apesar de serem importantes fontes de proteína, ferro, zinco e vitamina B12, as carnes vermelhas in natura (bovina, suína, de cordeiro e de cabra), null null null JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA quando consumidas em excesso, aumentam o risco de câncer colorretal. Observa-se efeito dose resposta na relação entre carne vermelha e câncer de intestino, quanto maior o consumo maior o risco da doença. Recomenda-se limitar o consumo de carne vermelha a menos de 500 gramas de carne cozida por semana (aproximadamente 700-750g do peso cru). Uma das possíveis explicações para essa associação é que as carnes vermelhas são fontes importantes de ferro-heme, nutriente essencial ao corpo, mas que, em excesso, pode levar à formação de compostos N-nitrosos e de formas alcenais citotóxicas oriundas da peroxidação lipídica. Uma alimentação saudável (os in natura e minimamente processados de origem vegetal) têm efeito protetor nas diferentes fases da carcinogênese, desde a iniciação até a progressão do tumor. Evidências apontam que consumir alimentos contendo fibra e cereais integrais (grãos) minimamente processados (arroz, milho, aveia) reduz o risco desse câncer. As fibras dos alimentos de origem vegetal estimulam a formação de produtos de fermentação, especialmente os ácidos graxos de cadeia curta, como o butirato, que reduzem a proliferação celular e induzem à apoptose. Uma alimentação rica em fibrastambém reduz a resistência à insulina, alteração reconhecida como fator de risco para esse câncer. A recomendação para um adulto saudável é consumir de 25g a 30g de fibras ao dia. O consumo de laticínios (leite, queijo e iogurte), assim como a suplementação de cálcio, são associados à diminuição do risco para câncer colorretal. Porém, não é recomendado o uso de suplementos alimentares com a finalidade de prevenir nenhum tipo de câncer. O consumo desses alimentos deve ser incentivado dentro do padrão de uma alimentação saudável. Fortes evidências associam o consumo de bebidas alcoólicas ao aumento do risco para câncer de intestino quando a quantidade ingerida é superior a 30 gramas de etanol por dia (cerca de duas doses de bebida alcoólica). Resultados de estudos de coorte e metanálises recentes fornecem evidências consistentes da relação dose-resposta entre o consumo médio de álcool e câncer colorretal. Entre os mecanismos reconhecidos que explicam a associação do álcool com o câncer, está o fato de o etanol ser convertido em acetoaldeído no organismo. Ambos são classificados como agentes carcinógenos para humanos. Além disso, o etanol funciona como solvente, facilitando a entrada de outras substâncias carcinógenas nas células. Já a atividade física configura-se como um importante fator de proteção para o câncer de cólon, não demonstrando o mesmo efeito para o câncer de reto. A atividade física também contribui para a redução da mortalidade por câncer colorretal, devendo ser recomendada inclusive durante o tratamento. Alguns mecanismos biológicos explicam como a prática da atividade física pode prevenir a doença. Além de promover o equilíbrio nos níveis de hormônios (os sexuais e os relacionados ao metabolismo da glicose, por exemplo), a atividade física reduz os marcadores inflamatórios e o tempo de trânsito gastrointestinal, com consequente redução do período de contato das substâncias que favorecem a carcinogênese com a mucosa do intestino. Outro benefício é o fortalecimento da imunidade. Recomenda-se fazer atividade física de intensidade moderada a vigorosa. Sugere-se iniciar com menos tempo (duração / minutos) e e/ou intensidade (velocidade/sobrecarga) e na medida em que o condicionamento físico melhorar e/ou houver percepção de bem-estar, aumentar a duração e/ou a intensidade para alcançar 150 minutos ou mais de atividade física moderada a vigorosa por semana. JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA Recomenda-se ainda limitar hábitos sedentários, como ficar muito tempo sentado ou deitado vendo televisão, computador, celular, tablet ou videogame. Para isso a atividade física de intensidade leve pode ser uma importante opção, por exemplo levantando e caminhando de um cômodo ao outro após algum tempo nas posições referidas. Fatores de risco Os fatores de risco mais conhecidos e bem estabelecidos são a idade, sexo masculino, pólipos colônicos, história individual e/ou familiar de câncer colorretal e fatores ambientais (dieta rica em carne vermelha e gorduras e pobre em frutas e verduras, obesidade, tabagismo, sedentarismo e diabetes mellitus). Doença inflamatória intestinal, como colite ulcerativa e doença de Crohn, também são fatores de risco importantes para o câncer colorretal e seu risco aumenta com a gravidade e o tempo da doença inflamatória. Estudos epidemiológicos identificaram a prática regular de exercícios físicos aeróbicos e o uso crônico de ácido acetilsalicílico como fatores protetores para o desenvolvimento de câncer de cólon e reto. Há fortes evidências de que o uso regular de ácido acetilsalicílico, em diferentes doses, reduz a incidência de adenomas e parece ter um impacto positivo na sobrevida câncer-específica de pacientes com câncer colorretal, particularmente naqueles pacientes cujo tumor expressa cicloxigenase-210. Contudo, o benefício parece ser restrito aos pacientes que desenvolveram o câncer sem ter história pregressa de uso crônico do ácido acetilsalicílico. Indivíduos com história familiar de CCR ou pólipos podem ter risco aumentado em até 20%. Um indivíduo com parente de primeiro grau portador de CCR apresenta risco relativo aumentado em 2,25 vezes em relação àqueles sem histórico familiar. O risco aumenta ainda mais se houver dois ou mais parentes de primeiro grau com CCR, se o diagnóstico for feito antes dos 45 anos e, também, quando há parente de primeiro grau com adenomas. Os grupos de risco entre famílias podem ser atribuídos a suscetibilidade hereditária, exposições ambientais, ou combinação de ambos os fatores. As heranças genéticas ocorrem em porcentagem pequena de casos, sendo a maior parte dos CCR considerados esporádicos. Ainda que a grande maioria dos tumores de cólon seja do tipo esporádico, o câncer colorretal pode surgir como parte de algumas síndromes hereditárias, sendo as mais comuns a síndrome de polipose adenomatosa familiar (FAP) e a síndrome de Lynch ou síndrome hereditária de câncer colorretal não poliposo (HNPCC). A chance de o indivíduo desenvolver câncer colorretal é de 100% no caso da FAP e de até 48% no caso da síndrome de Lynch, dependendo do gene de reparo que perdeu a sua função. A FAP é herdada de forma autossômica dominante. Manifesta-se em indivíduos jovens e caracteriza-se por centenas ou milhares de adenomas no cólon. Essa condição deriva de uma mutação do gene APC (adenomatous polyposis coli) e o diagnóstico definitivo se faz através de teste genético que busca identificar essa mutação. Já a HNPCC (ou síndrome de Lynch) é a síndrome genética associada ao câncer colorretal mais comum, compreendendo aproximadamente 3% dos tumores colorretais. É uma herança autossômica dominante, de alta penetrância, que se caracteriza por cânceres de cólon sincrônico e metacrônico, além de uma série de outros tipos de cânceres fora do trato intestinal, como adenocarcinomas de endométrio, ovário, próstata, entre outros. Na prática clínica, os pacientes com câncer colorretal secundário à síndrome Lynch se caracterizam por presença de tumores de cólon direito, em indivíduos jovens (menos de 50 anos), presença de infiltrado inflamatório linfocítico peritumoral e presença de um genótipo característico chamado de instabilidade de microssatélites. Comparativamente aos cânceres de cólon e reto esporádicos, esses parecem ter um prognóstico melhor em termos de sobrevida global. JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA Cânceres Sincrônicos Cânceres sincrônicos são múltiplos tumores no cólon que ocorrem simultaneamente ou dentro de um intervalo de tempo relativamente curto (geralmente até 6 meses). Em outras palavras, quando um paciente é diagnosticado com dois ou mais cânceres no cólon que surgem ao mesmo tempo ou em um período curto entre eles, esses cânceres são classificados como sincrônicos. Características: São encontrados em diferentes locais do cólon e reto durante o mesmo exame ou em exames realizados em um curto espaço de tempo. Pode ocorrer como resultado de uma única neoplasia que evolui para múltiplos focos ou de múltiplas neoplasias independentes. Geralmente, são identificados através de exames de imagem ou durante a cirurgia inicial para o câncer colorretal. Cânceres Metacrônicos Cânceres metacrônicos referem-se a tumores que ocorrem em diferentes momentos, geralmente mais de 6 meses após o diagnóstico e tratamento do primeiro câncer. O câncer metacrônico é um segundo tumor que surge após um período de remissão ou cura do primeiro câncer. Características: O segundo tumor é diagnosticado em um momento distinto do primeiro, e pode ocorrer vários anos após o tratamento inicial. Pode ser um resultado de recidiva local ou desenvolvimento de um novo câncer, possivelmente associado a predisposições genéticas ou ambientais. Exige um monitoramento contínuo dos pacientes que tiveram câncer colorretal, pois o risco de desenvolver um novo câncer pode persistir.A idade é o fator de risco de maior importância, sendo que 90% dos casos são diagnosticados após os 50 anos, e o risco tende a aumentar com a idade.2 O risco relativo de pessoas entre 80 e 84 anos terem câncer é sete vezes o da população de 50 a 54 anos. A raça e os fatores étnicos podem influenciar o risco de câncer colorretal. Os judeus asquenazes têm risco aumentado em relação à população em geral. Isso pode ser atribuído à mutação I1307K do gene da polipose adenomatosa (APC), que confere maior risco de câncer colorretal. Nos Estados Unidos, a incidência de CCR é maior na população afro-americana, em ambos os sexos, quando comparada a caucasianos. As outras etnias (hispânicos, asiáticos, nativos americanos, entre outros) têm menor incidência que os caucasianos. Há uma importante variação geográfica na incidência de câncer colorretal, ocasionando índices relativamente altos na América do Norte, no Oeste Europeu e na Austrália, em comparação a baixas incidências na África e na Ásia. Tais observações remetem à hipótese de Burkitt; ele acredita que diferenças dietéticas, especialmente relacionadas à ingesta de fibras e de gorduras, podem estar relacionadas a diferentes incidências. Tabagismo JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA Estudos mais recentes observaram nítida associação entre o hábito de fumar e o desenvolvimento de adenomas colorretais, havendo de duas a três vezes mais riscos em relação a não fumantes. O cigarro pode alterar o efeito de micronutrientes, por exemplo, betacaroteno, vitaminas C e E, ou seja, o efeito protetor dessas substâncias pode ser cancelado pela ação do tabaco FATORES PROTETORES Fibras Em 1969, Burkitt foi quem primeiro hipotetizou a associação de dieta rica em fibras como fator protetor contra a carcinogênese do CCR. No entanto, os dados atuais são conflitantes. Alguns mecanismos protetores foram propostos, como: a fibra acelerando o trânsito intestinal, reduzindo, assim, a exposição do cólon a carcinógenos, além de as fibras teoricamente diluírem ou absorverem alguns carcinógenos, em particular, os sais biliares. Em geral, a consistência dessa evidência é fraca. Mais uma vez acredita-se que a proteção contra o CCR provém de fatores associados, já que as fibras podem estar ligadas a uma vida mais saudável. A existência de diferentes tipos de fibras (solúveis, não solúveis, polissacarídicas e não polissacarídicas) pode ainda ter influência sobre o risco de CCR. Cálcio Evidências epidemiológicas e experimentais comprovam o efeito benéfico do cálcio na prevenção de neoplasias colorretais. O cálcio tem a capacidade de se conectar e precipitar os ácidos biliares, podendo influenciar diretamente na proliferação de células da mucosa. No entanto, nem todos os estudos observacionais que avaliam a influência do cálcio da dieta demonstraram um efeito protetor contra o CCR. Ácido fólico O ácido fólico é importante para a metilação normal do DNA. A deficiência de folato pode desencadear o câncer a partir da quebra da síntese e reparo do DNA ou perda do controle da atividade de proto-oncogenes. Em 15 estudos retrospectivos epidemiológicos avaliando a associação entre o folato e o risco de CCR, a maioria demonstrou significância estatística ou tendência à relação significante entre a ingesta alta de folato e o risco reduzido de CCR ou de formação de adenomas. Terapia de reposição hormonal Os possíveis mecanismos de ação incluem a redução da secreção de ácidos biliares (potenciais promotores e iniciadores do CCR), bem como o efeito do estrógeno no epitélio colônico, tanto diretamente como a partir de alterações de fatores de crescimento. No entanto, o risco de efeitos colaterais, principalmente do desenvolvimento do câncer de mama em longo prazo, não permite a utilização de TRH como estratégia primária de prevenção de CCR. Aspirina e anti-inflamatórios não hormonais Existe evidência considerável de que o uso de aspirina e de anti-inflamatórios não hormonais (AINH) tenha um efeito protetor em todos os estágios da carcinogênese colorretal (focos de criptas aberrantes, adenoma, carcinoma) e morte por CCR. O mecanismo de ação antineoplásica não é totalmente compreendido, mas acredita-se que ambas as vias da ciclo- oxigenase (COX)-dependente e da COX-independente tenham um papel importante. Os efeitos JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA colaterais, principalmente gastrointestinais, e o custo da utilização prolongada limitam o uso extenso dessa terapêutica. O ácido acetilsalicílico (AAS), comumente conhecido como aspirina, tem sido estudado por suas propriedades além da analgesia e antipirese, incluindo sua potencial capacidade de prevenir o câncer colorretal (CCR). A prevenção do câncer colorretal pelo ácido acetilsalicílico ocorre por vários mecanismos: Mecanismos de Prevenção do Câncer Colorretal pelo Ácido Acetilsalicílico Inibição da Cicloxigenase (COX): O AAS inibe as enzimas cicloxigenase-1 (COX-1) e cicloxigenase-2 (COX-2). Essas enzimas são responsáveis pela produção de prostaglandinas, que são mediadores inflamatórios e estão envolvidas na formação de pólipos e no processo carcinogênico. A COX-2, em particular, é frequentemente expressa em células tumorais e está associada à promoção do crescimento tumoral e à invasão. A inibição da COX-2 reduz a inflamação e a promoção do crescimento tumoral. Redução da Inflamação: O câncer colorretal é frequentemente precedido por uma fase de inflamação crônica no cólon. A redução da inflamação por meio da inibição das prostaglandinas pode diminuir o risco de desenvolvimento de pólipos e câncer. Modulação da Apoptose: O AAS pode influenciar a apoptose (morte celular programada). Estudos sugerem que ele pode induzir a apoptose em células que têm o potencial de se tornar cancerosas, ajudando a eliminar essas células antes que elas possam se transformar em um tumor maligno. Alteração no Ambiente Microbiano Intestinal: O uso de AAS pode alterar a composição do microbioma intestinal, reduzindo a prevalência de bactérias que podem promover a carcinogênese. Inibição da Proliferação Celular: O AAS pode reduzir a proliferação das células epiteliais intestinais, diminuindo o crescimento de pólipos adenomatosos que são precursores do câncer colorretal. Estudos Epidemiológicos: Estudos mostraram que o uso regular de AAS pode reduzir o risco de câncer colorretal em 25% a 30% em comparação com indivíduos que não utilizam o medicamento. O efeito protetor parece ser mais significativo com o uso prolongado e em doses mais altas, mas os benefícios devem ser pesados contra os riscos potenciais. Diretrizes Clínicas: A utilização de AAS para a prevenção do câncer colorretal é geralmente recomendada para indivíduos com risco elevado, como aqueles com histórico de pólipos adenomatosos ou síndrome de polipose, e em algumas diretrizes, para pessoas com risco aumentado devido a histórico familiar ou outras condições. - Explicar os sinais e sintomas apresentados durante a evolução dos tumores colorretais. JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA A carcinogênese do adenocarcinoma colorretal geralmente segue um processo denominado sequência adenoma-carcinoma. Neste processo, um pólipo adenomatoso benigno no cólon pode se transformar em câncer colorretal ao longo de 20 a 25 anos. Durante essa transformação, ocorrem várias alterações moleculares importantes. Entre as primeiras mudanças estão mutações nos genes APC e KRAS. O gene APC, quando mutado, perde sua capacidade de regular o crescimento celular, facilitando a formação de tumores. Mutações no gene KRAS promovem a sobrevivência e proliferação descontrolada das células tumorais e podem também ajudar na metastatização. As condições clínicas compreendidas nestas Diretrizes são codificadas segundo a CID-10 como: C18 Neoplasia maligna do cólon: C18.0 Neoplasia maligna do ceco – válvula ileocecal; C18.1 Neoplasiamaligna do apêndice (vermiforme); C18.2 Neoplasia maligna do cólon ascendente; C18.3 Neoplasia maligna da flexura (ângulo) hepática(o); C18.4 Neoplasia maligna do cólon transverso; C18.5 Neoplasia maligna da flexura (ângulo) esplênica(o); C18.6 Neoplasia maligna do cólon descendente; C18.7 Neoplasia maligna do cólon sigmoide – exclui junção retossigmoide; C18.8 Neoplasia maligna do cólon com lesão invasiva; C18.9 Neoplasia maligna do cólon, não especificado. C19 Neoplasia maligna da junção retossigmoide; C20 Neoplasia maligna do reto. O câncer colorretal é um grupo heterogêneo de tumores que pode ser classificado com base nas características moleculares. Aproximadamente 85% dos casos apresentam instabilidade cromossômica, que se manifesta por alterações estruturais nos cromossomos, como deleções e inserções. Um exemplo comum é a deleção do cromossomo 18q, que é frequentemente observada neste tipo de câncer. Os outros 15% dos cânceres colorretais apresentam instabilidade de microssatélites (MSI). A MSI resulta de defeitos no complexo de reparo de DNA conhecido como MMR (mismatch repair), que inclui genes como MLH1, MSH2, MSH6 e PMS2. Quando esses genes estão mutados ou inativos, ocorre um acúmulo de erros no DNA, especialmente em regiões com sequências repetidas chamadas microssatélites. Esses tumores frequentemente têm características distintas, como serem mucinosos, localizados no cólon direito, e apresentarem um infiltrado inflamatório linfocítico. A MSI pode ocorrer de forma hereditária, como na síndrome de Lynch (HNPCC), ou esporadicamente. Nos casos esporádicos, a hipermetilação de ilhas CpG na região promotora do gene MLH1 pode silenciar sua expressão, levando à instabilidade de microssatélites. Além disso, mutações no gene BRAF, como a V600E, são comuns em cânceres com MSI esporádico, mas não estão associadas à MSI germinativa. Para diagnosticar MSI, utiliza-se a imunohistoquímica para verificar a presença de proteínas dos genes MMR e técnicas como a reação em cadeia de polimerase (PCR) para detectar instabilidade em microssatélites. Se necessário, o sequenciamento genético pode identificar mutações específicas para orientar o rastreamento de familiares. PATOLOGIA JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA Macroscopia A avaliação macroscópica do espécime cirúrgico pode distinguir quatro tipos de lesões: ulcerada, polipoide, anular e infiltrativa. A ulcerada é a forma mais comum e apresenta um formato circular irregular e de bordas elevadas. As lesões polipoides têm aspecto fungoide, projetando-se para o lúmen do órgão. O aspecto anular estenosante é mais encontrado no cólon esquerdo e tende a ocupar toda a circunferência. As lesões difusamente infiltrativas comportam—se como a linite plástica do estômago, espessando o órgão, sem, no entanto, provocar lesões específicas na mucosa. A região retossigmoideana é mais atingida por esse tipo, que pode acometer, ainda, qualquer outra região do cólon. Microscopia A histologia dos CCR está diretamente relacionadas ao prognóstico. O tipo histológico para adenocarcinoma mais comum é o moderadamente diferenciado (60%), sendo que os tipos bem diferenciados e pouco diferenciados têm uma incidência semelhante, em torno de 20%. A incidência de metástases linfonodais segue o grau de diferenciação, sendo de aproximadamente 25% nos tumores bem diferenciados, 50% nos moderadamente diferenciados e 80% nos pouco diferenciados. A diferenciação histológica pode, ainda, influenciar na sobrevida em cinco anos, que está por volta de 77% nos bem diferenciados, 61% nos moderadamente e 29% nos pouco diferenciados. SINTOMATOLOGIA O sangramento anal é provavelmente o sintoma mais comum no doente com CCR. A causa mais frequente de sangramento anal é a doença hemorroidária, que, associada à negligência do próprio paciente, dificulta o diagnóstico precoce e preciso de lesões colorretais. Principalmente em pacientes de meia-idade ou mais velhos, esse sintoma deve ser valorizado e investigado. A alteração do hábito intestinal, seja diarreia ou constipação, é o segundo sintoma mais comum, devendo ser valorizada em pacientes com suspeita de CCR. As lesões no cólon proximal podem não apresentar alteração do hábito intestinal até estarem bastante avançadas. No cólon distal, esses sintomas são mais frequentes em virtude do menor calibre e da presença de fezes formadas. Outros sintomas associados são: dor abdominal, que, de maneira geral, é inespecífica. Descarga de muco, perda ponderal, anemia e febre esporádica podem estar presentes. A anemia pode estar relacionada a lesões principalmente em cólon proximal, podendo predizer o diagnóstico em pacientes idosos com perdas crônicas. Os sintomas mais frequentemente associados ao câncer do intestino são: Sangue nas fezes; Alteração do hábito intestinal (diarreia e/ou prisão de ventre); Dor, cólica ou desconforto abdominal; Fraqueza e anemia; Perda de peso sem causa aparente; Alteração na forma das fezes (fezes muito finas e compridas); Massa (tumoração) abdominal Esses sinais e sintomas são inespecífico e podem estar presentes em doenças benignas como hemorroidas, verminose, doenças inflamatórias intestinais, síndrome do cólon irritável, úlcera gástrica e outros, e devem ser investigados para seu diagnóstico correto e tratamento especifico. JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA O câncer de cólon pode se apresentar de maneira assintomática e sintomática. O diagnóstico em pacientes assintomáticos normalmente ocorre durante a realização de exames de rastreamento (pesquisa de sangue oculto, retosigmoidoscopia ou colonoscopia), recomendado para todos os pacientes acima dos 50 anos de idade. Entre os sintomas, os mais frequentes ao diagnóstico são a presença de dor abdominal, alteração do hábito intestinal e hematoquezia ou melena. Outros como fraqueza, sintomas de anemia e perda de peso podem também ser encontrados. Em relação à localização, os tumores do cólon direito comumente cursam com anemia, o que é explicado pela maior perda sanguínea assintomática nessa topografia; já tumores do cólon esquerdo comumente causam alteração do hábito intestinal e obstrução, justificadas pela consistência mais endurecida das fezes e menor diâmetro do cólon. Outros sintomas menos usuais são a formação de fístulas para bexiga (causando infecções de repetição e/ou eliminação de fezes pela urina), vagina ou pele. - Caracterizar o rastreamento, diagnóstico e estadiamento do CA colorretal As estratégias para a detecção precoce do câncer são o diagnóstico precoce (abordagem de pessoas com sinais e/ou sintomas iniciais da doença) e o rastreamento (aplicação de exame numa população alvo assintomática, aparentemente saudável, com o objetivo de identificar lesões sugestivas de pré-câncer e câncer e encaminhar os pacientes com resultados alterados para investigação diagnóstica e tratamento) (WHO, 2007). Diagnóstico Precoce A estratégia de diagnóstico precoce contribui para a redução do estágio de apresentação do câncer, consequentemente melhorando o prognóstico, possibilitando tratamentos menos invasivos e aumento da sobrevida e da qualidade de vida (WHO, 2017). Nessa estratégia, destaca-se a importância de a população e os profissionais de saúde estarem aptos para reconhecer sinais e sintomas suspeitos de câncer, bem como do acesso rápido e facilitado aos serviços de saúde. O diagnóstico precoce do câncer de intestino deve ser buscado por meio da investigação dos seguintes sinais e sintomas mais comuns (Nice, 2015): Hemorragia digestiva baixa; Massa abdominal; Dor abdominal; Perda de peso e anemia; Mudança do hábito intestinal. Rastreamento O rastreamento do câncer é uma estratégia dirigida a um grupo populacional específico em que o balanço entre benefícios e riscos dessa prática é mais favorável,com maior impacto na redução da mortalidade e da incidência, nos casos de existência de lesões precursoras. Os benefícios são o melhor prognóstico da doença, com tratamento mais efetivo e menor morbidade associada. Os riscos ou malefícios incluem os resultados falso-positivos, que geram ansiedade e excesso de exames; os resultados falso-negativos, que resultam em falsa tranquilidade para o paciente; o sobrediagnóstico e o sobretratamento, relacionados à JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA identificação de tumores de comportamento indolente (diagnosticados e tratados sem que representassem uma ameaça à vida); e os possíveis riscos do teste elegível (Brasil, 2010; INCA, 2021). Os tumores de cólon e reto podem ser detectados precocemente por meio de dois exames principais: pesquisa de sangue oculto nas fezes e endoscopias (colonoscopia ou retossigmoidoscopia). Esses exames devem ser realizados em pessoas com sinais e sintomas sugestivos de câncer, visando ao diagnóstico precoce, ou como rastreamento, nas pessoas sem sinais e sintomas, mas pertencentes a grupos de médio risco (pessoas com 50 anos ou mais) e alto risco (indivíduos com história pessoal ou familiar de câncer de intestino, de doenças inflamatórias do intestino ou síndromes genéticas, como a de Lynch). A Organização Mundial da Saúde preconiza o rastreamento com pesquisa de sangue oculto nas fezes para pessoas com 50 anos e mais nos países com condições de garantir a confirmação diagnóstica, a referência e o tratamento (WHO, 2013). O exame de sangue oculto nas fezes é um primeiro teste de suspeição, que necessitará, nos casos positivos, de exame complementar/confirmatório. As grandes vantagens desse exame são: simplicidade, baixo custo e ausência de complicações. Os exames endoscópicos (retossigmoidoscopia e colonoscopia) são confirmatórios, pois permitem realizar a biópsia para exame histopatológico. Estudos já comprovaram a redução da incidência, por meio da exérese de lesões precursoras (pólipos), e da mortalidade específica por câncer de cólon e reto com rastreamento organizado (USTaskForce, 2021). A recomendação no Sistema Único de Saúde brasileiro é que sejam priorizadas ações de diagnóstico precoce e abordagem personalizada para o grupo de alto risco. O Brasil apresenta diferentes realidades epidemiológicas e de redes de saúde e ainda são necessários estudos para subsidiar a análise de viabilidade da introdução do rastreamento nos diversos contextos. O protocolo de encaminhamento da Atenção Básica para a Atenção Especializada do Ministério da Saúde (2016) define que o rastreamento de paciente com história familiar de câncer colorretal ou suspeita de síndrome de Lynch ou Polipose Adenomatosa Familiar deve ser feito em serviço especializado de genética e gastroenterologia, mas também recomenda que, onde houver baixa oferta de colonoscopia, sejam priorizados os pacientes com suspeita do câncer (Ministério da Saúde, 2016). DIAGNÓSTICOS O diagnóstico dos tumores colônicos é feito pelo exame anatomopatológico em material normalmente obtido através da colonoscopia, pela visualização de lesão e biópsia da mesma ou pela ressecção de um pólipo. A grande maioria das neoplasias malignas do cólon é representada pelos adenocarcinomas. Outras neoplasias primárias que podem ser encontradas mais raramente no cólon são os linfomas, sarcoma de Kaposi e tumores carcinoides. Metástases de outros tumores para o cólon (mama e ovário, por exemplo) são ainda mais raras. Exame proctológico completo A inspeção externa do canal anal é o primeiro passo do exame proctológico, e pode revelar alterações visíveis, como pólipos que se exteriorizam ou lesões próximas à margem anal. O toque retal é essencial para detectar lesões no reto médio e distal. Esse exame permite avaliar JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA a mobilidade da lesão, o turgor e se há invasão de órgãos adjacentes, como a parede posterior da vagina ou outros órgãos da pelve. Anuscopia e retossigmoidoscopia rígida A anuscopia é utilizada para examinar os 5 cm mais distais do reto e o canal anal, sendo especialmente útil para identificar sangramentos causados por doenças como hemorroidas. Já a retossigmoidoscopia rígida alcança até 25 cm dentro do reto e sigmoide, sendo importante para determinar a distância entre uma lesão e a borda anal. Ela também permite mobilizar levemente o tumor para avaliar sua fixação. Retossigmoidoscopia flexível Este exame oferece uma visão mais ampla do intestino e da mucosa em relação à versão rígida, mas não substitui a rígida para medir com precisão a distância entre a lesão e o ânus. Ainda assim, a retossigmoidoscopia flexível é usada para obter uma visão mais detalhada de partes mais superiores do reto e sigmoide. Colonoscopia A colonoscopia é o exame mais eficaz para diagnosticar e tratar lesões colorretais. Permite uma visualização completa do cólon e do reto, possibilitando a retirada imediata de pólipos, que são analisados posteriormente para detectar a presença de câncer. Além disso, a colonoscopia é recomendada antes de cirurgias colorretais, pois até 7% dos pacientes podem apresentar tumores sincrônicos, o que pode alterar o planejamento cirúrgico. Colonoscopia virtual ou colonografia por tomografia computadorizada A colonoscopia virtual, ou colonografia por TC, é uma técnica minimamente invasiva que examina a estrutura do cólon e do reto. Ela é útil quando a colonoscopia convencional é dificultada por obstruções neoplásicas. Também é utilizada para detectar pólipos ou lesões sincrônicas em pacientes que serão submetidos a cirurgias. Tomografia computadorizada (TC) A TC do tórax, abdome e pelve tem um papel fundamental na avaliação de metástases em órgãos como fígado, pulmões e linfonodos. Ela também é usada para estimar a extensão da invasão local do câncer colorretal, avaliando se o tumor está comprometendo estruturas adjacentes, como a parede abdominal ou outros órgãos. Ressonância nuclear magnética (RNM) A RNM, principalmente da pelve, é usada no estadiamento inicial do câncer de reto, ajudando a determinar a profundidade da invasão tumoral. Ela também pode identificar o envolvimento de linfonodos e avaliar a proximidade do tumor com outras estruturas importantes na pelve, como bexiga e útero. A RNM também é usada no reestadiamento após tratamentos neoadjuvantes, e no acompanhamento pós-operatório para detectar recidivas. Tomografia por emissão de pósitrons (PET) A PET é usada para avaliar a atividade metabólica do câncer, fornecendo informações sobre a função celular que não são oferecidas por exames morfológicos como a TC e a RNM. A PET é particularmente útil para detectar recidivas tumorais após a cirurgia ou tratamento do câncer colorretal, pois indica a atividade biológica do tumor. JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA Ultrassonografia endorretal (USER) A USER permite a visualização das camadas anatômicas da parede retal, o que ajuda a avaliar o quão profundamente o tumor invadiu essas camadas. Apesar de ser útil para isso, ela tem limitações, como ser operador-dependente e ter baixa aceitação por parte dos pacientes. Além disso, não é indicada em casos de lesões obstrutivas ou localizadas no reto proximal. Antígeno carcinoembrionário (CEA) O CEA é um marcador tumoral que, quando elevado, pode sugerir a presença de adenocarcinoma colorretal. Níveis elevados de CEA antes da cirurgia podem ser indicativos de uma maior carga tumoral e pior prognóstico. O monitoramento dos níveis de CEA é útil no seguimento pós-operatório para identificar possíveis recidivas do câncer, já que seu aumento pode preceder a detecção clínica de uma recidiva. No entanto, nem todos os tumores colorretais expressam o CEA, o que limita sua aplicabilidade em alguns casos. ESTADIAMENTO O estadiamento dessa doença segue o sistema TNM. JULIA CAROLINA CARDOSO-MEDICINA JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA TRATAMENTO A ressecção cirúrgica é o principal pilar no tratamento do adenocarcinoma colorretal. O câncer colorretal avançado, que atinge pelo menos até a camada muscular própria do cólon, deve ser tratado com técnica operatória adequada, que envolve: domínio da anatomia para evitar complicações e lesões inadvertidas de outros órgãos e tecidos, delicado manuseio dos tecidos JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA com mínima manipulação tumoral para evitar a disseminação local ou a distância, ligadura vascular na origem para obter uma adequada linfadenectomia e ressecções em bloco da lesão. A ressecção cirúrgica é o tratamento principal para a maioria dos casos de câncer colorretal. O principal objetivo desse tratamento é remover o segmento do cólon afetado, juntamente com os linfonodos regionais, que fazem parte da drenagem linfática do tumor. A extensão da ressecção depende tanto do suprimento sanguíneo quanto da localização dos linfonodos ao redor do tumor. A técnica envolve a ligadura do pedículo vascular na raiz do vaso, garantindo que todo o tecido linfático próximo, como os linfonodos periaórticos, mesentéricos e pericólicos, seja removido. Além disso, se o tumor estiver aderido a órgãos ou estruturas adjacentes, essas áreas também precisam ser removidas em bloco, garantindo a eliminação completa da doença local. Uma margem de ressecção de pelo menos 5 cm de cólon de cada lado do tumor é recomendada, mas essa margem pode ser maior, dependendo da necessidade de ressecar a área de suprimento arterial, que causa isquemia na região circundante. A qualidade da cirurgia é geralmente avaliada pelo número de linfonodos removidos, sendo que, de acordo com as diretrizes da UICC/AJCC, é necessário remover ao menos 12 linfonodos para garantir um estadiamento adequado. Estudos mostram que a quantidade de linfonodos ressecados está diretamente associada à sobrevida de pacientes com tumores colorretais nos estágios II e III. Em relação ao linfonodo sentinela, técnica que utiliza a injeção de tinta ou radioisótopos para mapear o primeiro linfonodo que drena o tumor, estudos não mostraram uma melhoria significativa na precisão do estadiamento. No entanto, o número total de linfonodos ressecados continua sendo um indicador crítico da qualidade do procedimento. Embora a idade avançada e o estado fisiológico do paciente possam influenciar a mortalidade operatória, a idade, isoladamente, não tem impacto significativo sobre a mortalidade pós- operatória, o que significa que pacientes idosos podem se beneficiar igualmente da cirurgia, desde que estejam em boas condições gerais. Ressecção laparoscópica A ressecção laparoscópica tem se mostrado uma alternativa eficaz às operações abertas tradicionais no tratamento de tumores colorretais. Apesar de serem tecnicamente mais complexas e demandarem maior tempo operatório, diversos estudos indicam que essa abordagem minimamente invasiva oferece resultados comparáveis à cirurgia aberta em termos de qualidade oncológica, incluindo o número de linfonodos removidos e as margens de ressecção. Estudos randomizados e metanálises demonstraram que os resultados oncológicos da laparoscopia são semelhantes aos da cirurgia aberta, com taxas comparáveis de complicações, sobrevida e controle do tumor. No entanto, a cirurgia laparoscópica oferece vantagens significativas para o paciente, como menor morbidade operatória, o que inclui uma recuperação pós-operatória mais rápida, retorno precoce às atividades normais, menor necessidade de analgésicos, menor risco de infecções na área cirúrgica e um tempo de internação hospitalar reduzido. Por essas razões, a colectomia por videolaparoscopia é amplamente aceita como uma opção segura e eficaz para pacientes com câncer colorretal, proporcionando os mesmos benefícios JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA oncológicos da cirurgia aberta, mas com as vantagens adicionais de uma abordagem minimamente invasiva. Cólon direito ou ascendente e ceco No cólon direito ou ascendente e no ceco, a abordagem é a colectomia direita, onde os vasos ileoapendicocólicos são ligados e o trânsito intestinal é reconstruído por meio de uma anastomose entre o íleo distal e o cólon transverso remanescente. A linfadenectomia é realizada e a presença de linfonodos acometidos implica um prognóstico pior. Ângulo hepático e cólon transverso proximal Para lesões no ângulo hepático ou no cólon transverso proximal, a colectomia direita ampliada é o tratamento escolhido. Essa técnica inclui a ligadura dos vasos ileoapendicocólicos e cólica direita, e a ressecção dos ramos da artéria cólica média para garantir margens adequadas e remoção dos linfonodos. Cólon transverso médio No cólon transverso médio, realiza-se a transversectomia, que envolve a ressecção do segmento do cólon transverso afetado e a reconstrução com anastomose entre o cólon ascendente e descendente. Nessa abordagem, a liberação dos ângulos esplênico e hepático é crucial para evitar tensão na anastomose. Ângulo esplênico As lesões no ângulo esplênico podem ser tratadas com uma colectomia esquerda segmentar ou colectomia esquerda clássica, dependendo da extensão do tumor. Na primeira, é preservado o cólon sigmoide, enquanto na segunda, a ressecção inclui o cólon esquerdo, com ligadura da artéria mesentérica inferior em sua origem. Cólon esquerdo ou descendente No cólon esquerdo ou descendente, a cirurgia indicada é a colectomia esquerda, seguida de anastomose entre o cólon transverso e o reto. Nessa cirurgia, a liberação completa do ângulo esplênico é essencial para uma anastomose sem tensão. Cólon sigmoide e reto alto Para lesões no cólon sigmoide e no reto alto, realiza-se a retossigmoidectomia, onde a ligadura dos vasos mesentéricos inferiores é feita na sua origem, e o ângulo esplênico é mobilizado para uma anastomose adequada. Nos casos de tumores no reto alto, é necessário garantir uma margem distal de 5 cm, o que pode exigir uma dissecção além da reflexão peritoneal. Tratamento adjuvante O tratamento adjuvante para adenocarcinoma de cólon é recomendado para pacientes com estádio 2 de alto risco ou estádio 3. A quimioterapia adjuvante, que visa aumentar a sobrevida desses pacientes, tem sido amplamente aceita e recomendada pela Organização Mundial de Saúde desde a década passada. O objetivo desse tratamento é eliminar possíveis micrometástases que podem não ter sido removidas durante a cirurgia, diminuindo o risco de recidiva. Tratamento do adenocarcinoma de reto extraperitonial JULIA CAROLINA CARDOSO- MEDICINA Historicamente, a abordagem para tumores de reto envolvia a ressecção extensa, incluindo a remoção dos esfíncteres para garantir a eliminação de possíveis áreas de disseminação. No entanto, descobertas recentes mostraram que a disseminação linfática lateral e inferior é rara e geralmente ocorre apenas em casos avançados. A técnica revolucionária de excisão total do mesorreto (TME), proposta por Heald e Rydall, mudou essa abordagem. A TME foca em remover o reto e o tecido adiposo circundante, preservando os esfíncteres e melhorando os resultados funcionais. A utilização de suturas mecânicas e a combinação com radioterapia adjuvante também têm sido importantes para reduzir a recidiva local, que antes era alta. O uso de quimiorradioterapia neoadjuvante é agora a abordagem preferida para tumores localmente avançados, ajudando a reduzir o volume tumoral e melhorar a chance de preservação do esfíncter. Tratamento para tumores precoces Para tumores de reto extraperitonial classificados como T1 e com baixo risco, a ressecção local, seja convencional ou por excisão transanal endoscópica (TEM), é geralmente suficiente. Se o tumor é de alto risco ou T2 sem comprometimento linfonodal, a retossigmoidectomia com excisão total do mesorreto