Prévia do material em texto
1 ANTROPOLOGIA AULA 4 Prof. Rafael Pons Reis A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com 2 CONVERSA INICIAL Veremos, na primeira seção, o surgimento do termo popular, oriundo da sociedade europeia, e as respectivas diferenças entre cultura erudita de cultura popular. Na segunda seção, delinearemos a emergência do termo folclore, que quer dizer “conhecimento popular”, e sua importância como projeto político de um povo/nação para a construção de sua identidade nacional. Na seção seguinte, apresentaremos o mito das três raças (brancos, negros e índios) sobre a formação da identidade nacional brasileira, em que pese a tentativa de pensar a democracia racial no país. Na quarta seção, veremos alguns aspectos acerca do sistema racial no Brasil, tendo como parâmetro de análise a questão racial nos Estados Unidos, no sentido de procurar compreender sobre como a segregação racial foi entendida e aplicada em ambos os países. E, por fim, na última seção, delinearemos algumas implicações acerca da campanha de nacionalização e da institucionalização dos símbolos nacionais no governo de Getúlio Vargas, em que pese a fundação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN). TEMA 1 – CULTURA POPULAR E CULTURA ERUDITA Ao longo dos nossos estudos, vimos a importância da história da Europa em relação à emergência e evolução da antropologia, especificamente o surgimento de conceitos e modelos teóricos de análise para estudar as diferentes sociedades. Neste contexto, o termo popular também não é diferente, isto é, o conceito assenta suas bases na sociedade europeia em meados do fim da Idade Média e o início da Idade Moderna. Neste período, aquela sociedade era dividida, basicamente, em três grandes segmentos: i-) clero, conjunto de clérigos ligados a uma igreja; ii-) aristocracia, grupo de pessoas que, por berço ou por concessão, detêm determinados privilégios (o mesmo que nobreza); iii-) e plebeus, constituído por comerciantes, artesãos e camponeses. De modo geral, a sociedade era organizada de forma hierárquica, de modo que o rei era coroado mediante o reconhecimento da Igreja em relação ao seu direito de governar. Importante lembrarmos que o surgimento do referido termo coincide com a formação e ascensão dos Estados nacionais. O sistema de coleta e pagamentos de impostos obedecia à hierarquia social, sendo os camponeses A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com 3 os mais penalizados. Em linhas gerais, a terra não pertencia aos camponeses, mas sim aos nobres, a quem entregavam grande parte da produção das colheitas e, também, a quem pagavam pesados impostos. A maioria da população era analfabeta, ou seja, o conhecimento formal (saber ler e escrever) era restrito a poucas pessoas, sendo que o acesso a importantes obras filosóficas e literárias era exclusivo àqueles detentores de poder, por sua vez, membros do clero e da realeza (alta aristocracia). No decorrer dos séculos, em face das relações de poder estabelecidas na sociedade europeia, Ribeiro menciona que: “[...] a cultura erudita se consolidava como oficial, enquanto a outra cultura passava a ser classificada de forma pejorativa sob o termo popular” (2016, p. 133). Ao longo do desenvolvimento das sociedades europeias, as preocupações com a cultura estavam voltadas ao conhecimento dito como erudito das classes dominantes, e que os próprios registros das manifestações de caráter popular passavam pela intermediação daqueles que dominavam a linguagem formal. Importante mencionarmos que se a cultura dominante era registrada em livros, a cultura popular, por sua vez, apresentava algumas características particulares. Em um exemplo, o camponês tinha conhecimento sobre os ciclos da terra, das estações do ano e o impacto destes sobre a colheita. Esse saber, esse conhecimento, não era registrado em livros, mas sim transmitido oralmente e era voltado à experiência cotidiana. Por outro lado, o conhecimento erudito, com forte influência dos pensadores gregos e romanos, era mais abstrato e detinha-se a procurar explicar a realidade. No Quadro 1 a seguir podemos ver algumas características entre a cultura erudita e a cultura popular. Quadro 1 - Diferenças entre cultura erudita e cultura popular Cultura erudita Cultura popular Reflexão intelectual sistematizada Experiência cotidiana Racionalização do mundo sensível Apreensão intelectual da realidade Acesso restrito ao conhecimento Acesso compartilhado ao conhecimento Fonte: Ribeiro, 2016, p. 134. Neste momento podemos afirmar que a cultura é uma lente por meio da qual uma dada sociedade compreende o mundo. Inicialmente, o registro da cultura era realizado por um pequeno número de indivíduos que detinham o A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com 4 conhecimento formal, normalmente pertencente ao clero ou à aristocracia. Com o passar do tempo, invenções como a máquina de imprensa de Gutenberg, em 1430, permitiu uma verdadeira revolução na produção de livros e textos, contribuindo para que as camadas populares tivessem maior acesso, por exemplo, ao saber científico, às obras literárias e inclusive à Bíblia. TEMA 2 – FOLCLORE E INTELECTUAIS A literatura especializada defende a ideia de que o conhecimento popular e o erudito, embora diferentes, dialogavam entre si. Com o passar do tempo, esses encontros fizeram emergir a ideia de folclore e sua valorização estética, artística e como manifestação cultural de uma dada sociedade. O termo folclore, que quer dizer “conhecimento popular”, deriva dos termos folk, que significa “gente” ou “povo”, e lore, que significa “conhecimento”, foi usado pela primeira vez pelo arqueólogo Ambrose Merton em uma carta endereçada à revista inglesa “The Atheneum”, em agosto de 1845. Em comemoração foi instituído mundialmente o Dia do Folclore em 22 de agosto. Neste período, a sociedade europeia estava passando por um processo de profunda transformação ocasionada pela Revolução Industrial, momento que “a cultura popular passou a ser valorizada e tornou-se objeto de inspiração para manifestações artísticas e literárias as mais variadas, em uma época que se convencionou chamar de romantismo” (Ribeiro, 2016, p. 135). Surgidas como uma reação aos processos de industrialização e urbanização, as manifestações artísticas do romantismo tinham seus interesses nas paisagens naturais e nos cenários do campo e dos camponeses. Vai ser nesse contexto que o folclore passa a ser alvo de interesse de acadêmicos, no sentido de registrarem as práticas, ritos, costumes e tradições, cuja continuidade, porventura, acreditava-se ameaçada. Em paralelo ao movimento do romantismo estava a emergência de movimentos de cunho nacionalista de afirmação de identidade, que por sua vez buscava resgatar determinados símbolos e valores que representassem o território, a região onde habitavam e a nação. É neste momento que chamamos a atenção do leitor para a importância do resgate do folclore como uma manifestação política por parte de determinados grupos em busca de afirmação de identidade. Nesse contexto, Ribeiro vai defender o argumento de que: “Mitos e lendas foram acionados A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com 5 como sínteses do espírito de um povo. Da mesma forma, festejos e folguedos, até então muitas vezes marginalizados, passaram a ser valorados e transformados em símbolos nacionais” (2016, p. 136). O conceito de “tradições inventadas” trazido por Eric Hobsbawm e Terence Ranger, traz um maior entendimento acerca da utilização política de determinados ritos, valores e das tradições, para a construção de uma identidade quese projeta para além das fronteiras por um dado grupo social. Um exemplo bastante ilustrativo nesse sentido é o da suástica, um símbolo muito conhecido do nazismo que, por não ter uma origem única, é encontrado em diferentes culturas e religiões (hopis, celtas, hindus, budistas). No século XIX, o arqueólogo alemão Heinrich Schliemann (1822-1890), coordenando escavações na suposta localização da cidade de Troia, nas proximidades da Alemanha, descobriu um conjunto de artefatos que continham a suástica. Schliemann, ao estabelecer uma relação entre os povos teutos e a cultura grega, permitiu que a suástica simbolizasse as origens do povo alemão, invocando uma representação equivocada acerca da suposta supremacia da cultura alemã sobre as demais. Tal como ocorreu na Alemanha, em diferentes partes do mundo podemos encontrar exemplos de projetos intelectuais cujos grupos sociais e grupos de povos tinham por objetivo último resgatar suas respectivas ligações com o seu passado, de modo a construir suas identidades sociais. No Brasil, o processo de construção da identidade nacional não foi diferente. No final do século XIX, a abolição da escravidão e a formação da República contribuíram em grande medida para a construção de um projeto desafiador de unidade nacional. Em que pese a sociedade brasileira apresentar desde o início da colonização uma forte miscigenação entre as populações de imigrantes, indígenas e afrodescendentes, a ideia de se tentar construir a unicidade do “povo brasileiro” em meio a diversidade tratou-se, desde cedo, de ser um processo desafiador para as ciências sociais do país. Segundo Ribeiro, esse projeto “passou por diferentes movimentos de construção intelectual: da ideia de raça e miscigenação ao resgate e à valorização da cultura popular” (2016, p. 137). Dentre os pensadores brasileiros que contribuíram para a construção do projeto de identidade nacional, destacamos Sílvio Romero (1851-1914), que defendia o argumento de que as pesquisas folclóricas deveriam ser valorizadas A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com 6 e incentivadas como uma forma de descobrir nas raízes populares o sentimento e a percepção de nação brasileira. Sendo assim, no início do século XX, o aumento do volume das pesquisas folclóricas denotou uma mudança de perspectiva, isto é, se antes os pensadores tinham como ponto de referência a Europa, agora os estudos estavam direcionados para os limites do solo nacional, no sentido de tentar construir elementos que representassem a brasilidade. Outra figura importante na história do pensamento social brasileiro foi Mário de Andrade (1893-1945). Ligado ao movimento modernista, o autor inclusive fez duas expedições em solo brasileiro, na década de 1920, para o registro de canções, histórias e folguedos (são festas populares de caráter lúdico que fazem parte do folclore brasileiro, que envolvem dança, música e teatro). Em face da sua intimidade com a cultura popular, o autor escreveu sua obra mais conhecida, Macunaíma, de 1928. O movimento nacional acerca da valorização do folclore, bem como o resgate da cultura popular, teve repercussões em diversas áreas: na poesia, na música, na literatura e pintura. A expressão máxima desse movimento traduziu- se na realização da Semana de Arte Moderna, de 1922, que foi uma manifestação artístico-cultural que ocorreu no Theatro Municipal de São Paulo, reunindo diversas apresentações de música, dança, recital de poesias, palestras e exposição de obras (pintura e escultura), momento em que um novo conceito estético foi apresentado ao país, ao evidenciar as paisagens e cores locais como motivo de orgulho e apreço pela cultura popular brasileira. Não poderíamos deixar de mencionar outros importantes escritores que contribuíram para a construção da identidade nacional, como Monteiro Lobato (1882-1948), Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), Caio Prado Júnior (1907-1990) e Gilberto Freyre (1900-1987). TEMA 3 – DEMOCRACIA RACIAL Em um passado não muito distante, havia no Brasil um pensamento de que o racismo não era uma marca brasileira e que a coexistência das três raças formadoras do Brasil (branca, negra e indígena) ocorria de forma natural e harmoniosa. Havia a perspectiva equivocada de que o povo brasileiro era visto como acolhedor, capaz de acomodar as diferenças entre grupos e etnias que convivem no país em plena concórdia, isenta de conflitos. A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com 7 Da forma como o tema era tratado no país (desde a colonização até, pelos menos, a era Vargas) havia o entendimento de que esses povos se encontraram de forma “natural” e de que as relações entre eles seriam benéficas a todos. Ora, conforme o famoso antropólogo Roberto DaMatta assinalou, o mito das três raças camufla os processos e relações desiguais que resultaram na subordinação e, portanto, dominação, de outros povos em uma estrutura colonial desigual, exploradora e desumana. A literatura especializada sobre democracia racial, considerada a publicação da famosa obra “Casa-grande e senzala”, de Gilberto Freyre, foi a precursora da construção do mito da democracia racial brasileira. Na obra, o autor chama a atenção acerca da importância das relações pessoais na estrutura colonial da casa-grande e da senzala, situação esta que futuramente iria ser desenvolvida por outros importantes autores. Na obra “O que faz o Brasil, Brasil?”, Roberto DaMatta (1984), ao estudar o sistema racial dos Estados Unidos e do Brasil, destaca algumas diferenças importantes entre eles: enquanto nos Estados Unidos se desconsidera a existência do mestiço, no Brasil, o mestiço não apenas é uma realidade, mas também é exaltado em diversas manifestações artísticas (literatura, pintura, música). Em resumo, “A imagem que o Brasil tem de si mesmo é a de um país mestiço” (Ribeiro, 2016, p. 144). Em uma perspectiva histórica, enquanto em outros países a miscigenação era malvista, no Brasil, ela foi praticamente institucionalizada pela corte portuguesa. O diplomata francês, Arthur de Gobineau, quando se deparou com a miscigenação em sua vinda para o Brasil em pleno século XIX, declarou o fim do povo brasileiro, ao entender que a miscigenação provocaria uma suposta degenerescência provocada pela mistura de raças. O mito das três raças e a presença do mestiço na cultura popular formam o famoso triângulo racial brasileiro, representando na Figura 1 a seguir. A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com 8 Figura 1 – Triângulo racial brasileiro Fonte: Ribeiro, 2016, p. 146. Ao observar atentamente a figura, você chegará à conclusão de que estamos longe de sermos uma democracia racial, pelo contrário, existe uma hierarquia (repare na raça que está no topo da pirâmide: a branca, por sua vez, dominando e subjugando as demais) social ainda hoje presente na sociedade brasileira. O grande problema encontrado em compreender a sociedade brasileira apenas com base na análise do triângulo das três raças significa deixar de lado, em grande medida, a necessária e importante visão crítica e histórica pela qual a sociedade brasileira vem sendo estruturada ao longo dos séculos. Em outras palavras, o mito das três raças esconde o processo histórico de formação do território nacional, esconde também as mazelas provocadas pelas desigualdades sociais e, por fim, mas não menos importante, a negação dos preconceitos. É por esses motivos que a questão racial é tão difícil de discutir em nosso país, tendo em vista os séculos de discriminação, intolerância e dominação. TEMA 4 – RACISMO NO BRASIL Vamos retomar novamente o livro do famoso antropólogo Roberto DaMatta, “O que faz o Brasil, Brasil?” (1984), em específico,acerca da comparação entre a questão racial nos Estados Unidos e no Brasil. Comecemos com uma pergunta: por que o apartheid1 ocorreu nos Estados 1 O termo apartheid é uma palavra africâner que significa “separação”, ou “o estado de ser separado”, que por sua vez designa um sistema de segregação racial entre brancos e negros, BRANCO NEGRO ÍNDIO MESTIÇOS A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com 9 Unidos, e não no Brasil? A resposta reside no fato de que nos Estados Unidos havia uma tensão entre duas ideologias antagônicas: enquanto o centro e o norte do país defendiam a abolição da escravidão e igualdade de direitos em todo o território norte-americano, o sul, por seu lado, defendia o conservadorismo hierárquico oriundo das famílias ricas (donas de latifúndios). Precisamos lembrar da guerra civil que dividiu a sociedade estadunidense na década de 1860, e sobre como a questão racial esteve relacionada a ela. Quando o norte saiu vitorioso e, a escravidão, abolida, a aristocracia do Sul não aceitou a ideia de estar legalmente em igualdade com os negros. Desse modo, o apartheid foi instaurado no sul como uma forma de manter a separação entre negros e brancos em termos de espaços e também de direitos sociais. No Brasil, por sua vez, o fato do reconhecimento e da valorização da ideia de mestiçagem (conforme vimos na seção anterior) fez com que não se sustentasse a construção de uma estrutura segregacionista da forma como ocorreu na África do Sul e nos Estados Unidos. No entanto, ao olharmos atentamente sobre a questão racial no país podemos encontrar vários elementos e situações de segregacionismo no cotidiano. Neste sentido, Ribeiro aponta como exemplo “[...] a manutenção, ainda nos dias de hoje, dos elevadores sociais e de serviço em prédios de classe média” (2016, p. 148). Até hoje a questão racial continua sendo um tema delicado tanto nos meios de comunicação (formais e informais) como nos debates públicos em relação à construção de políticas públicas. Um exemplo bastante ilustrativo nesse sentido é o das cotas raciais, consideradas por muitos um resgate ou uma dívida histórica a ser paga para com grupos étnicos que foram explorados ao longo da história. No entanto, as cotas raciais devem ser entendidas como um benefício ou privilégio dado a tais grupos. Importante ressaltarmos que muitas pessoas chegam a se referir às cotas raciais como uma espécie de “racismo reverso”, ou ainda como políticas que instauram o racismo. Em tese, infelizmente esse tipo de discurso faz parte de um grupo de pessoas que não reconhece o caráter desigual e hierárquico da sociedade brasileira. no qual os espaços (públicos ou privados), são separados segundo critérios raciais. O regime de apartheid ficou muito conhecido na África do Sul e no sul dos Estados Unidos. A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com 10 TEMA 5 – SÍMBOLOS NACIONAIS O ponto de partida para o lançamento da campanha de nacionalização e da institucionalização dos símbolos nacionais deu início no período do governo de Getúlio Vargas (1937-1945), que por sua vez tinha como principal objetivo construir meios para fortalecer o sentimento de nacionalismo, de coesão e integração nacional, e, também, do autoritarismo do Estado Novo. Conforme vimos na segunda seção, ao longo das décadas de 1920 e 1930 havia um significativo interesse dos intelectuais pela cultura popular brasileira como parte de um processo mais amplo de construção da identidade do nosso povo. Neste contexto, em 1937, esse processo foi institucionalizado por meio da fundação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN). A institucionalização por parte do Estado de determinados elementos como o samba, a feijoada e o Carnaval como símbolos nacionais, contribuiu não apenas para a construção da identidade nacional, mas também para o mundo. O problema da presença do Estado nesse processo foi o uso da censura, dentre os muitos exemplos, em determinadas letras de samba quando associadas à malandragem e à contravenção. Conforme aponta Ribeiro, “[...] o carnaval, ao ser oficializado como festa nacional no final da década de 1930, precisou se adaptar. Na época, havia uma ‘orientação’ para que os sambistas valorizassem letras patrióticas de enaltecimento do país” (2016, p. 149). No bojo da campanha de nacionalização e da institucionalização dos símbolos nacionais, Vargas dedicou especial atenção aos imigrantes europeus e a seus descendentes. Em face do intenso fluxo de imigrantes desde o final do século XIX, em grande parte nas regiões Sul e Sudeste, nestas regiões os imigrantes falavam sua própria língua materna (ensinada nas escolas), mantinham clubes específicos para eles e viviam relativamente fechado nas colônias às quais pertenciam. Getúlio Vargas, ao entender que os imigrantes nessas regiões poderiam representar uma ameaça aos projetos de integração da identidade nacional, adotou um conjunto de medidas no sentido de “integrá- los” à sociedade nacional, “transformando-os em ‘verdadeiros’ brasileiros” (Ribeiro, 2016, p. 149). A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com 11 NA PRÁTICA A nossa dica cultural de hoje é o documentário intitulado “Preto no branco: nem tudo é o que parece” (Direção: Rosane Svartman. Brasil: Conselho Federal de Psicologia/Canal Futura, 2015. 25 min.). O documentário tenta responder a seguinte pergunta: existe democracia racial no Brasil? Na tentativa de encontrar uma resposta, o diretor realiza uma série de entrevistas a fim de evidenciar a perspectiva de diferentes indivíduos da sociedade brasileira, contestando, desse modo, o mito da democracia racial brasileira pelo qual o racismo faz parte de forma sutil na vida cotidiana dos brasileiros. FINALIZANDO Ao longo do presente texto foi possível revisar alguns importantes conceitos e pensamentos para o desenvolvimento e evolução da antropologia brasileira. Vimos na primeira seção o surgimento do termo popular, a partir da matriz sociedade europeia, criado com o intuito pejorativo, no sentido de separar as classes mais abastadas da população comum, em que pese as diferenças entre a cultura tida como erudita da cultura popular. Na segunda seção vimos o surgimento do folclore, também originado na Europa, e a importância da influência do Romantismo no resgate e na valorização da cultura popular brasileira, com destaque para a Semana de Arte Moderna, de 1922. Na seção seguinte foi apresentado brevemente o mito da coexistência natural das três raças (branca, negra e indígena) e a produção literária brasileira (com destaque para a obra “Casa-grande e senzala”, de Gilberto Freyre) em relação à miscigenação racial e à construção da democracia racial. Na quarta seção delineamos alguns aspectos principais sobre o racismo no Brasil, tendo como anteparo de análise a obra de DaMatta, “O que faz o Brasil, Brasil?”, dada a diferença entre os sistemas raciais nos Estados Unidos e no Brasil. E, por fim, vimos alguns elementos importantes quando da criação da campanha de nacionalização e da institucionalização dos símbolos nacionais no governo de Getúlio Vargas (1937-1945), dando destaque para a SPHAN e as políticas voltadas aos emigrantes das regiões Sul e Sudeste. A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com 12 REFERÊNCIAS DAMATTA, R. O que faz o Brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1984. HOBSBAWN, E.; RANGER, T. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997. RIBEIRO, A. S. P. Teoria e prática em antropologia. Curitiba: InterSaberes, 2016. A luno: R anna K arina F erreira e F erreira E m ail: ranna97karina@ gm ail.com