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ANTROPOLOGIA 
AULA 4 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Rafael Pons Reis 
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CONVERSA INICIAL 
Veremos, na primeira seção, o surgimento do termo popular, oriundo da 
sociedade europeia, e as respectivas diferenças entre cultura erudita de cultura 
popular. Na segunda seção, delinearemos a emergência do termo folclore, que 
quer dizer “conhecimento popular”, e sua importância como projeto político de 
um povo/nação para a construção de sua identidade nacional. Na seção 
seguinte, apresentaremos o mito das três raças (brancos, negros e índios) 
sobre a formação da identidade nacional brasileira, em que pese a tentativa de 
pensar a democracia racial no país. Na quarta seção, veremos alguns aspectos 
acerca do sistema racial no Brasil, tendo como parâmetro de análise a questão 
racial nos Estados Unidos, no sentido de procurar compreender sobre como a 
segregação racial foi entendida e aplicada em ambos os países. E, por fim, na 
última seção, delinearemos algumas implicações acerca da campanha de 
nacionalização e da institucionalização dos símbolos nacionais no governo de 
Getúlio Vargas, em que pese a fundação do Serviço do Patrimônio Histórico e 
Artístico Nacional (SPHAN). 
TEMA 1 – CULTURA POPULAR E CULTURA ERUDITA 
Ao longo dos nossos estudos, vimos a importância da história da Europa 
em relação à emergência e evolução da antropologia, especificamente o 
surgimento de conceitos e modelos teóricos de análise para estudar as 
diferentes sociedades. Neste contexto, o termo popular também não é 
diferente, isto é, o conceito assenta suas bases na sociedade europeia em 
meados do fim da Idade Média e o início da Idade Moderna. Neste período, 
aquela sociedade era dividida, basicamente, em três grandes segmentos: i-) 
clero, conjunto de clérigos ligados a uma igreja; ii-) aristocracia, grupo de 
pessoas que, por berço ou por concessão, detêm determinados privilégios (o 
mesmo que nobreza); iii-) e plebeus, constituído por comerciantes, artesãos e 
camponeses. De modo geral, a sociedade era organizada de forma hierárquica, 
de modo que o rei era coroado mediante o reconhecimento da Igreja em 
relação ao seu direito de governar. 
Importante lembrarmos que o surgimento do referido termo coincide com 
a formação e ascensão dos Estados nacionais. O sistema de coleta e 
pagamentos de impostos obedecia à hierarquia social, sendo os camponeses 
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os mais penalizados. Em linhas gerais, a terra não pertencia aos camponeses, 
mas sim aos nobres, a quem entregavam grande parte da produção das 
colheitas e, também, a quem pagavam pesados impostos. A maioria da 
população era analfabeta, ou seja, o conhecimento formal (saber ler e 
escrever) era restrito a poucas pessoas, sendo que o acesso a importantes 
obras filosóficas e literárias era exclusivo àqueles detentores de poder, por sua 
vez, membros do clero e da realeza (alta aristocracia). 
No decorrer dos séculos, em face das relações de poder estabelecidas 
na sociedade europeia, Ribeiro menciona que: “[...] a cultura erudita se 
consolidava como oficial, enquanto a outra cultura passava a ser classificada 
de forma pejorativa sob o termo popular” (2016, p. 133). Ao longo do 
desenvolvimento das sociedades europeias, as preocupações com a cultura 
estavam voltadas ao conhecimento dito como erudito das classes dominantes, 
e que os próprios registros das manifestações de caráter popular passavam 
pela intermediação daqueles que dominavam a linguagem formal. 
Importante mencionarmos que se a cultura dominante era registrada em 
livros, a cultura popular, por sua vez, apresentava algumas características 
particulares. Em um exemplo, o camponês tinha conhecimento sobre os ciclos 
da terra, das estações do ano e o impacto destes sobre a colheita. Esse saber, 
esse conhecimento, não era registrado em livros, mas sim transmitido 
oralmente e era voltado à experiência cotidiana. Por outro lado, o 
conhecimento erudito, com forte influência dos pensadores gregos e romanos, 
era mais abstrato e detinha-se a procurar explicar a realidade. No Quadro 1 a 
seguir podemos ver algumas características entre a cultura erudita e a cultura 
popular. 
Quadro 1 - Diferenças entre cultura erudita e cultura popular 
Cultura erudita Cultura popular 
Reflexão intelectual sistematizada Experiência cotidiana 
Racionalização do mundo sensível Apreensão intelectual da realidade 
Acesso restrito ao conhecimento Acesso compartilhado ao conhecimento 
Fonte: Ribeiro, 2016, p. 134. 
Neste momento podemos afirmar que a cultura é uma lente por meio da 
qual uma dada sociedade compreende o mundo. Inicialmente, o registro da 
cultura era realizado por um pequeno número de indivíduos que detinham o 
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conhecimento formal, normalmente pertencente ao clero ou à aristocracia. Com 
o passar do tempo, invenções como a máquina de imprensa de Gutenberg, em 
1430, permitiu uma verdadeira revolução na produção de livros e textos, 
contribuindo para que as camadas populares tivessem maior acesso, por 
exemplo, ao saber científico, às obras literárias e inclusive à Bíblia. 
TEMA 2 – FOLCLORE E INTELECTUAIS 
 A literatura especializada defende a ideia de que o conhecimento 
popular e o erudito, embora diferentes, dialogavam entre si. Com o passar do 
tempo, esses encontros fizeram emergir a ideia de folclore e sua valorização 
estética, artística e como manifestação cultural de uma dada sociedade. 
 O termo folclore, que quer dizer “conhecimento popular”, deriva dos 
termos folk, que significa “gente” ou “povo”, e lore, que significa 
“conhecimento”, foi usado pela primeira vez pelo arqueólogo Ambrose Merton 
em uma carta endereçada à revista inglesa “The Atheneum”, em agosto de 
1845. Em comemoração foi instituído mundialmente o Dia do Folclore em 22 de 
agosto. Neste período, a sociedade europeia estava passando por um 
processo de profunda transformação ocasionada pela Revolução Industrial, 
momento que “a cultura popular passou a ser valorizada e tornou-se objeto de 
inspiração para manifestações artísticas e literárias as mais variadas, em uma 
época que se convencionou chamar de romantismo” (Ribeiro, 2016, p. 135). 
 Surgidas como uma reação aos processos de industrialização e 
urbanização, as manifestações artísticas do romantismo tinham seus 
interesses nas paisagens naturais e nos cenários do campo e dos 
camponeses. Vai ser nesse contexto que o folclore passa a ser alvo de 
interesse de acadêmicos, no sentido de registrarem as práticas, ritos, costumes 
e tradições, cuja continuidade, porventura, acreditava-se ameaçada. Em 
paralelo ao movimento do romantismo estava a emergência de movimentos de 
cunho nacionalista de afirmação de identidade, que por sua vez buscava 
resgatar determinados símbolos e valores que representassem o território, a 
região onde habitavam e a nação. 
 É neste momento que chamamos a atenção do leitor para a importância 
do resgate do folclore como uma manifestação política por parte de 
determinados grupos em busca de afirmação de identidade. Nesse contexto, 
Ribeiro vai defender o argumento de que: “Mitos e lendas foram acionados 
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como sínteses do espírito de um povo. Da mesma forma, festejos e folguedos, 
até então muitas vezes marginalizados, passaram a ser valorados e 
transformados em símbolos nacionais” (2016, p. 136). 
O conceito de “tradições inventadas” trazido por Eric Hobsbawm e 
Terence Ranger, traz um maior entendimento acerca da utilização política de 
determinados ritos, valores e das tradições, para a construção de uma 
identidade quese projeta para além das fronteiras por um dado grupo social. 
Um exemplo bastante ilustrativo nesse sentido é o da suástica, um símbolo 
muito conhecido do nazismo que, por não ter uma origem única, é encontrado 
em diferentes culturas e religiões (hopis, celtas, hindus, budistas). No século 
XIX, o arqueólogo alemão Heinrich Schliemann (1822-1890), coordenando 
escavações na suposta localização da cidade de Troia, nas proximidades da 
Alemanha, descobriu um conjunto de artefatos que continham a suástica. 
Schliemann, ao estabelecer uma relação entre os povos teutos e a cultura 
grega, permitiu que a suástica simbolizasse as origens do povo alemão, 
invocando uma representação equivocada acerca da suposta supremacia da 
cultura alemã sobre as demais. 
Tal como ocorreu na Alemanha, em diferentes partes do mundo 
podemos encontrar exemplos de projetos intelectuais cujos grupos sociais e 
grupos de povos tinham por objetivo último resgatar suas respectivas ligações 
com o seu passado, de modo a construir suas identidades sociais. 
No Brasil, o processo de construção da identidade nacional não foi 
diferente. No final do século XIX, a abolição da escravidão e a formação da 
República contribuíram em grande medida para a construção de um projeto 
desafiador de unidade nacional. Em que pese a sociedade brasileira apresentar 
desde o início da colonização uma forte miscigenação entre as populações de 
imigrantes, indígenas e afrodescendentes, a ideia de se tentar construir a 
unicidade do “povo brasileiro” em meio a diversidade tratou-se, desde cedo, de 
ser um processo desafiador para as ciências sociais do país. Segundo Ribeiro, 
esse projeto “passou por diferentes movimentos de construção intelectual: da 
ideia de raça e miscigenação ao resgate e à valorização da cultura popular” 
(2016, p. 137). 
Dentre os pensadores brasileiros que contribuíram para a construção do 
projeto de identidade nacional, destacamos Sílvio Romero (1851-1914), que 
defendia o argumento de que as pesquisas folclóricas deveriam ser valorizadas 
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e incentivadas como uma forma de descobrir nas raízes populares o 
sentimento e a percepção de nação brasileira. Sendo assim, no início do século 
XX, o aumento do volume das pesquisas folclóricas denotou uma mudança de 
perspectiva, isto é, se antes os pensadores tinham como ponto de referência a 
Europa, agora os estudos estavam direcionados para os limites do solo 
nacional, no sentido de tentar construir elementos que representassem a 
brasilidade. 
Outra figura importante na história do pensamento social brasileiro foi 
Mário de Andrade (1893-1945). Ligado ao movimento modernista, o autor 
inclusive fez duas expedições em solo brasileiro, na década de 1920, para o 
registro de canções, histórias e folguedos (são festas populares de caráter 
lúdico que fazem parte do folclore brasileiro, que envolvem dança, música e 
teatro). Em face da sua intimidade com a cultura popular, o autor escreveu sua 
obra mais conhecida, Macunaíma, de 1928. 
O movimento nacional acerca da valorização do folclore, bem como o 
resgate da cultura popular, teve repercussões em diversas áreas: na poesia, na 
música, na literatura e pintura. A expressão máxima desse movimento traduziu-
se na realização da Semana de Arte Moderna, de 1922, que foi uma 
manifestação artístico-cultural que ocorreu no Theatro Municipal de São Paulo, 
reunindo diversas apresentações de música, dança, recital de poesias, 
palestras e exposição de obras (pintura e escultura), momento em que um 
novo conceito estético foi apresentado ao país, ao evidenciar as paisagens e 
cores locais como motivo de orgulho e apreço pela cultura popular brasileira. 
Não poderíamos deixar de mencionar outros importantes escritores que 
contribuíram para a construção da identidade nacional, como Monteiro Lobato 
(1882-1948), Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), Caio Prado Júnior 
(1907-1990) e Gilberto Freyre (1900-1987). 
TEMA 3 – DEMOCRACIA RACIAL 
 Em um passado não muito distante, havia no Brasil um pensamento de 
que o racismo não era uma marca brasileira e que a coexistência das três 
raças formadoras do Brasil (branca, negra e indígena) ocorria de forma natural 
e harmoniosa. Havia a perspectiva equivocada de que o povo brasileiro era 
visto como acolhedor, capaz de acomodar as diferenças entre grupos e etnias 
que convivem no país em plena concórdia, isenta de conflitos. 
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 Da forma como o tema era tratado no país (desde a colonização até, 
pelos menos, a era Vargas) havia o entendimento de que esses povos se 
encontraram de forma “natural” e de que as relações entre eles seriam 
benéficas a todos. Ora, conforme o famoso antropólogo Roberto DaMatta 
assinalou, o mito das três raças camufla os processos e relações desiguais que 
resultaram na subordinação e, portanto, dominação, de outros povos em uma 
estrutura colonial desigual, exploradora e desumana. 
 A literatura especializada sobre democracia racial, considerada a 
publicação da famosa obra “Casa-grande e senzala”, de Gilberto Freyre, foi a 
precursora da construção do mito da democracia racial brasileira. Na obra, o 
autor chama a atenção acerca da importância das relações pessoais na 
estrutura colonial da casa-grande e da senzala, situação esta que futuramente 
iria ser desenvolvida por outros importantes autores. 
 Na obra “O que faz o Brasil, Brasil?”, Roberto DaMatta (1984), ao 
estudar o sistema racial dos Estados Unidos e do Brasil, destaca algumas 
diferenças importantes entre eles: enquanto nos Estados Unidos se 
desconsidera a existência do mestiço, no Brasil, o mestiço não apenas é uma 
realidade, mas também é exaltado em diversas manifestações artísticas 
(literatura, pintura, música). Em resumo, “A imagem que o Brasil tem de si 
mesmo é a de um país mestiço” (Ribeiro, 2016, p. 144). 
 Em uma perspectiva histórica, enquanto em outros países a 
miscigenação era malvista, no Brasil, ela foi praticamente institucionalizada 
pela corte portuguesa. O diplomata francês, Arthur de Gobineau, quando se 
deparou com a miscigenação em sua vinda para o Brasil em pleno século XIX, 
declarou o fim do povo brasileiro, ao entender que a miscigenação provocaria 
uma suposta degenerescência provocada pela mistura de raças. 
 O mito das três raças e a presença do mestiço na cultura popular 
formam o famoso triângulo racial brasileiro, representando na Figura 1 a seguir. 
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Figura 1 – Triângulo racial brasileiro 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Ribeiro, 2016, p. 146. 
Ao observar atentamente a figura, você chegará à conclusão de que 
estamos longe de sermos uma democracia racial, pelo contrário, existe uma 
hierarquia (repare na raça que está no topo da pirâmide: a branca, por sua vez, 
dominando e subjugando as demais) social ainda hoje presente na sociedade 
brasileira. O grande problema encontrado em compreender a sociedade 
brasileira apenas com base na análise do triângulo das três raças significa 
deixar de lado, em grande medida, a necessária e importante visão crítica e 
histórica pela qual a sociedade brasileira vem sendo estruturada ao longo dos 
séculos. Em outras palavras, o mito das três raças esconde o processo 
histórico de formação do território nacional, esconde também as mazelas 
provocadas pelas desigualdades sociais e, por fim, mas não menos importante, 
a negação dos preconceitos. É por esses motivos que a questão racial é tão 
difícil de discutir em nosso país, tendo em vista os séculos de discriminação, 
intolerância e dominação. 
TEMA 4 – RACISMO NO BRASIL 
Vamos retomar novamente o livro do famoso antropólogo Roberto 
DaMatta, “O que faz o Brasil, Brasil?” (1984), em específico,acerca da 
comparação entre a questão racial nos Estados Unidos e no Brasil. 
Comecemos com uma pergunta: por que o apartheid1 ocorreu nos Estados 
 
1 O termo apartheid é uma palavra africâner que significa “separação”, ou “o estado de ser 
separado”, que por sua vez designa um sistema de segregação racial entre brancos e negros, 
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Unidos, e não no Brasil? A resposta reside no fato de que nos Estados Unidos 
havia uma tensão entre duas ideologias antagônicas: enquanto o centro e o 
norte do país defendiam a abolição da escravidão e igualdade de direitos em 
todo o território norte-americano, o sul, por seu lado, defendia o 
conservadorismo hierárquico oriundo das famílias ricas (donas de latifúndios). 
Precisamos lembrar da guerra civil que dividiu a sociedade 
estadunidense na década de 1860, e sobre como a questão racial esteve 
relacionada a ela. Quando o norte saiu vitorioso e, a escravidão, abolida, a 
aristocracia do Sul não aceitou a ideia de estar legalmente em igualdade com 
os negros. Desse modo, o apartheid foi instaurado no sul como uma forma de 
manter a separação entre negros e brancos em termos de espaços e também 
de direitos sociais. 
 No Brasil, por sua vez, o fato do reconhecimento e da valorização da 
ideia de mestiçagem (conforme vimos na seção anterior) fez com que não se 
sustentasse a construção de uma estrutura segregacionista da forma como 
ocorreu na África do Sul e nos Estados Unidos. No entanto, ao olharmos 
atentamente sobre a questão racial no país podemos encontrar vários 
elementos e situações de segregacionismo no cotidiano. Neste sentido, Ribeiro 
aponta como exemplo “[...] a manutenção, ainda nos dias de hoje, dos 
elevadores sociais e de serviço em prédios de classe média” (2016, p. 148). 
Até hoje a questão racial continua sendo um tema delicado tanto nos 
meios de comunicação (formais e informais) como nos debates públicos em 
relação à construção de políticas públicas. Um exemplo bastante ilustrativo 
nesse sentido é o das cotas raciais, consideradas por muitos um resgate ou 
uma dívida histórica a ser paga para com grupos étnicos que foram explorados 
ao longo da história. No entanto, as cotas raciais devem ser entendidas como 
um benefício ou privilégio dado a tais grupos. Importante ressaltarmos que 
muitas pessoas chegam a se referir às cotas raciais como uma espécie de 
“racismo reverso”, ou ainda como políticas que instauram o racismo. Em tese, 
infelizmente esse tipo de discurso faz parte de um grupo de pessoas que não 
reconhece o caráter desigual e hierárquico da sociedade brasileira. 
 
 
no qual os espaços (públicos ou privados), são separados segundo critérios raciais. O regime 
de apartheid ficou muito conhecido na África do Sul e no sul dos Estados Unidos. 
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TEMA 5 – SÍMBOLOS NACIONAIS 
 O ponto de partida para o lançamento da campanha de nacionalização e 
da institucionalização dos símbolos nacionais deu início no período do governo 
de Getúlio Vargas (1937-1945), que por sua vez tinha como principal objetivo 
construir meios para fortalecer o sentimento de nacionalismo, de coesão e 
integração nacional, e, também, do autoritarismo do Estado Novo. 
 Conforme vimos na segunda seção, ao longo das décadas de 1920 e 
1930 havia um significativo interesse dos intelectuais pela cultura popular 
brasileira como parte de um processo mais amplo de construção da identidade 
do nosso povo. Neste contexto, em 1937, esse processo foi institucionalizado 
por meio da fundação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional 
(SPHAN). 
 A institucionalização por parte do Estado de determinados elementos 
como o samba, a feijoada e o Carnaval como símbolos nacionais, contribuiu 
não apenas para a construção da identidade nacional, mas também para o 
mundo. O problema da presença do Estado nesse processo foi o uso da 
censura, dentre os muitos exemplos, em determinadas letras de samba quando 
associadas à malandragem e à contravenção. Conforme aponta Ribeiro, “[...] o 
carnaval, ao ser oficializado como festa nacional no final da década de 1930, 
precisou se adaptar. Na época, havia uma ‘orientação’ para que os sambistas 
valorizassem letras patrióticas de enaltecimento do país” (2016, p. 149). 
 No bojo da campanha de nacionalização e da institucionalização dos 
símbolos nacionais, Vargas dedicou especial atenção aos imigrantes europeus 
e a seus descendentes. Em face do intenso fluxo de imigrantes desde o final do 
século XIX, em grande parte nas regiões Sul e Sudeste, nestas regiões os 
imigrantes falavam sua própria língua materna (ensinada nas escolas), 
mantinham clubes específicos para eles e viviam relativamente fechado nas 
colônias às quais pertenciam. Getúlio Vargas, ao entender que os imigrantes 
nessas regiões poderiam representar uma ameaça aos projetos de integração 
da identidade nacional, adotou um conjunto de medidas no sentido de “integrá-
los” à sociedade nacional, “transformando-os em ‘verdadeiros’ brasileiros” 
(Ribeiro, 2016, p. 149). 
 
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NA PRÁTICA 
 A nossa dica cultural de hoje é o documentário intitulado “Preto no 
branco: nem tudo é o que parece” (Direção: Rosane Svartman. Brasil: 
Conselho Federal de Psicologia/Canal Futura, 2015. 25 min.). O documentário 
tenta responder a seguinte pergunta: existe democracia racial no Brasil? Na 
tentativa de encontrar uma resposta, o diretor realiza uma série de entrevistas 
a fim de evidenciar a perspectiva de diferentes indivíduos da sociedade 
brasileira, contestando, desse modo, o mito da democracia racial brasileira pelo 
qual o racismo faz parte de forma sutil na vida cotidiana dos brasileiros. 
FINALIZANDO 
 Ao longo do presente texto foi possível revisar alguns importantes 
conceitos e pensamentos para o desenvolvimento e evolução da antropologia 
brasileira. Vimos na primeira seção o surgimento do termo popular, a partir da 
matriz sociedade europeia, criado com o intuito pejorativo, no sentido de 
separar as classes mais abastadas da população comum, em que pese as 
diferenças entre a cultura tida como erudita da cultura popular. Na segunda 
seção vimos o surgimento do folclore, também originado na Europa, e a 
importância da influência do Romantismo no resgate e na valorização da 
cultura popular brasileira, com destaque para a Semana de Arte Moderna, de 
1922. Na seção seguinte foi apresentado brevemente o mito da coexistência 
natural das três raças (branca, negra e indígena) e a produção literária 
brasileira (com destaque para a obra “Casa-grande e senzala”, de Gilberto 
Freyre) em relação à miscigenação racial e à construção da democracia racial. 
Na quarta seção delineamos alguns aspectos principais sobre o racismo no 
Brasil, tendo como anteparo de análise a obra de DaMatta, “O que faz o Brasil, 
Brasil?”, dada a diferença entre os sistemas raciais nos Estados Unidos e no 
Brasil. E, por fim, vimos alguns elementos importantes quando da criação da 
campanha de nacionalização e da institucionalização dos símbolos nacionais 
no governo de Getúlio Vargas (1937-1945), dando destaque para a SPHAN e 
as políticas voltadas aos emigrantes das regiões Sul e Sudeste. 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
DAMATTA, R. O que faz o Brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 
1984. 
HOBSBAWN, E.; RANGER, T. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz 
e Terra, 1997. 
RIBEIRO, A. S. P. Teoria e prática em antropologia. Curitiba: InterSaberes, 
2016. 
 
 
 
 
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