Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA 
DA ÁFRICA 
AULA 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Edmar Almeida de Macedo 
 
 
 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
“A África tem uma história” (Silvério, 2013, p. 17). É com esse dístico que 
se abre a principal publicação sobre história da África já editada no Brasil. Trata-
se do terceiro maior continente, com uma área de mais de 30 milhões de 
quilômetros quadrados, que equivalem aproximadamente a 20% de todas as 
terras emersas do planeta terra e, ainda assim, por longo período, sua história 
foi relegada ao lugar que se relega a história dos continentes periféricos: como 
uma nota de rodapé na historiografia, ou aparecendo em flashs quando sua 
história particular se encontra com a história europeia. 
Mais do que uma obrigação legal, estudar a história da África no Brasil é 
estudar a história de um continente que forneceu ao nosso país milhares de 
pessoas que vieram compor nossa miscigenada população. Foi no contexto da 
luta pela superação do racismo na sociedade brasileira que passou a vigorar, em 
2003, a Lei 10639, que tornou obrigatório o ensino de torna-se obrigatório o 
ensino de História e Cultura Afro-Brasileira (Pereira; Silva, 2012). Nada mais 
sintomático do racismo do que a educação brasileira ter sido obrigada por lei a 
tratar desse tema. Ninguém imagina, por exemplo, uma lei obrigando a ensinar 
a história europeia no Brasil. 
Veremos, então, neste conjunto de aulas, os traços gerais da história do 
continente africano. Como não poderia deixar de ser, a abordagem que 
pretendemos nestas aulas seguirá um caminho já traçado (Silvério, 2013, p. 22-
24), buscando seguir os seguintes princípios: 
(a) interdisciplinaridade, que se já não é novidade na historiografia, é mais 
indispensável ainda ao pensarmos a história de um continente. 
(b) Uma história vista a partir da África evitando, como já afirmamos, uma 
história em flashs, procurando mostrar a articulação de uma história 
própria, que não se nega ao contato e a mútua influência com o mundo 
extracontinental, mas que possui uma perspectiva própria. 
(c) Uma história que tenta abarcar o conjunto dos povos africanos, ainda 
assim sem medo de omissões e escolhas, mas que considera que estes 
povos, independente de fronteiras posteriormente traçadas, são os atores 
coletivos que merecem nossa atenção. 
(d) Tentaremos pôr em evidência as civilizações, estruturas e instituições, em 
detrimento do excesso de narrativas acerca de fatos e acontecimentos. 
 
 
3 
 
Mas é preciso ter em conta, ainda, outros parâmetros: tratamos aqui da 
história de um continente, ou mais precisamente, de povos de um continente. 
Assim, a marca da diversidade não pode ser esquecida. Façamos um paralelo 
com a história da América. Se ao mesmo tempo é possível estudar a história da 
América em seu conjunto, não se pode esquecer que a América espanhola 
possui suas particularidades, assim como a América portuguesa, e assim por 
diante. Assim também devemos pensar a África. Nada mais diferente e diverso 
do que os povos da margem do Mediterrâneo africano e os povos do sul do 
continente. Será possível dizer que a América possui um prato típico? 
Dificilmente um único prato poderia representar a diversidade de culturas que 
compõem nosso continente. Assim também é a África. 
E essa diversidade nos remete a outra questão. Se é verdadeiro, como já 
vimos, que foi a ânsia pela maior democracia racial no Brasil que assentou a 
obrigatoriedade desse conteúdo no ensino médio e fundamental, por outro lado 
uma visão racializada da história da África nos conduziria a um erro. A raça, 
expressa na nossa cultura fundamentalmente por traços fenotípicos, que 
fundamentam a noção social de raça, não faz parte da história africana da 
mesma maneira. Ou seja, no continente africano a ideia de raça negra é uma 
chave menos importante para a compreensão de sua história do que a ideia de 
etnia, por exemplo, que guarda sentimentos de pertencimento que englobam, 
mas vão muito além de uma identidade racial. Afinal, não é possível “reduzir uma 
extrema diversidade de práticas, costumes e visões de mundo ao tom da pele, 
que necessariamente não é o mesmo entre os povos que vivem na África” (Lima, 
2016, p. 9-10). 
Assim, é possível afirmar que a África possui uma história própria, mas 
não uma história única. Os povos que lá viveram e vivem possuem uma 
identidade para além do pertencimento a um continente. Mais uma vez 
pensemos em nosso próprio exemplo: você se identifica, prioritariamente como 
um branco, como um latino-americano, como um brasileiro ou de outra forma? 
Idêntica questão está posta para os povos africanos, por isso a ideia de que a 
escravidão da era moderna está justificada pela escravidão ancestral que 
praticavam os próprios africanos é completamente fora de lugar. A ideia de 
“africanos” é muito recente, já que a identidade com seu povo (não o povo de 
um continente, mas os povos reais, que organizavam seus Estados, que tinham 
 
 
4 
sua cultura e tradições) é uma baliza identitária muito mais poderosa e duradoura 
na história africana (e em outras também). 
Nesta aula, começaremos a caminhar pela África, discutindo seus 
aspectos naturais atuais, para firmar uma imagem do continente, passando pelo 
seu relevo, vegetação, hidrografia e clima, cientes de que contar o transcorrer 
de suas transformações naturais passaria em muito dos objetivos desta 
disciplina, mas ao mesmo tempo mantendo a atenção para a diversidade de 
paisagens do continente. 
Passaremos, também, em revista alguns conceitos fundamentais para 
esta disciplina e para as ciências humanas no geral: etnocentrismo, 
eurocentrismo, racismo, evolução e cultura, sem os quais não é possível produzir 
um conhecimento suficientemente distante do preconceito e de abordagens já 
muito ultrapassadas acerca da história da África. 
Por fim, teremos que adotar, para esta disciplina, uma periodização, para 
fins didáticos, da história da África. Instrumento auxiliar fundamental da história, 
fixar, mesmo que de modo provisório, uma cronologia e uma periodização, nos 
permitirá ordenar nossa visão sobre a história desse continente. 
TEMA 1 – RELEVO E VEGETAÇÃO 
A África pode ser pensada como um espaço, como já vimos. Tomando-o 
como espaço é necessário caracterizá-lo apresentando-o em suas grandes 
linhas, antes de buscarmos sua história, mas também buscando 
incessantemente as relações entre o meio natural e a história. 
Esse tipo de abordagem não é novo. É o caminho seguido, por exemplo, 
na obra O Mediterrâneo (Braudel, 1987). É nas teias de relações entre o espaço 
geográfico e a história que se desenha uma 
historia casi inmóvil, la historia del hombre en sus relaciones con 
el medio que le rodea; historia lenta en fluir y en transformarse, 
hecha no pocas veces de insistentes reiteraciones y de ciclos 
incesantemente reiniciados. (Braudel, 1987, p. 17) 
Por outro lado, esse tipo de abordagem precisa estar precavido contra 
uma ideia de lançar mão da investigação geográfica apenas como introdução ao 
estudo histórico. É preciso estar prevenido 
con las tradicionales introducciones geográficas de los estudios 
de historia, inútilmente colocadas en los umbrales de tantos 
 
 
5 
libros, con sus paisajes minerales, sus trabajos agrícolas y sus 
flores, que se hacen desfilar rápidamente ante los ojos del lector, 
para no volver a referirse a ellos a lo largo del libro, como si las 
flores no rebrotaran en cada primavera, como si los rebaños se 
detuvieran en sus desplazamientos, como si los barcos no 
tuviesen que navegar sobre las aguas de un mar real, que 
cambia con las estaciones. (Braudel, 1987, p. 17) 
Assim como o Mediterrâneo de Braudel era um conjunto de rotas que 
possibilitavam encontros e desencontros, composto de obstáculos e pontos de 
ligação, palco e cenário que influenciam os atores, assim também é a África 
histórica na qual iremosmergulhar. 
Mas não se trata de tomar a realidade geográfica como mero palco. Sua 
influência vai além disso. E essa realidade não é um aspecto inerte e imóvel, 
afinal, em sua ação no tempo, o homem transforma o meio, constituindo uma 
segunda natureza. Assim, a relação homem-espaço no tempo precisa levar em 
conta que 
As atividades humanas são indissociáveis de seus respectivos 
ambientes. Muito mais que um quadro fixo e imóvel, o meio é 
uma estrutura, um personagem histórico de primeira grandeza. 
Complexo, ele não é apenas fonte de recursos de toda sorte, 
mas também algo hostil no qual as sociedades travam suas lutas 
pela sobrevivência. Um peso ora esmagador, ora contornável, 
mas sempre algo do qual não se pode escapar. É preciso 
entender os humores das estações, as dificuldades impostas 
pelo sítio, as múltiplas associações entre clima, relevo, 
vegetação e hidrografia. Embora parcialmente, o meio impõe um 
ritmo, uma cadência; a seu turno, os homens vão modificá-lo, 
adaptando-o às suas mais variadas exigências. (Ribeiro, 2014, 
on-line) 
 Por outro lado, o desafio ao abordar a história da África, colocando em 
perspectiva suas estruturas geográficas, é gigantesco, uma vez que ao 
tentarmos dar conta da longuíssima duração da história desse continente, 
precisamos levar em conta ainda um problema adicional: essas estruturas 
mudaram ao longo do tempo e a geografia da África de hoje não é igual a 
geografia da África de ontem. Assim, pelas características da abordagem em 
uma disciplina do ensino superior, limitada no tempo e na quantidade de esforço 
que pode ser desprendido, só é possível limitarmo-nos a um caráter introdutório. 
É o que faremos. 
 Grosso modo, do ponto de vista do relevo, atualmente a África apresenta-
se como uma plataforma tabular, com predominância das áreas planas, 
formadas principalmente por planaltos cristalinos muito antigos. A exceção é o 
 
 
6 
oriente africano com a região dos grandes lagos e os destacados aclives (picos 
rochosos) da região, que imprimem um caráter diversificado à paisagem, 
inclusive com a presença de tectonismo. 
Figura 1 – Monte Kilimanjaro (Tanzânia) e a Savana africana 
 
Créditos: Volodymyr Burdiak/Shutterstock. 
 A vegetação africana se divide pelo continente acompanhando, em linhas 
gerais, a distribuição dos diferentes tipos de climas. Na porção norte da Tunísia, 
Argélia e Marrocos, encontramos a vegetação mediterrânea, caracterizada por 
arvores espaçadas e arbustos. Mais ao sul, antes do deserto do Saara, mas 
também ao sul deste, temos as estepes africanas, coincidindo com o clima 
semiárido, com vegetação herbácea e arbustos ressecados. Já as regiões 
desérticas, tanto ao norte quanto ao sul, apresentam rara vegetação, 
predominando, a semelhança das estepes, as formações herbáceas e 
arbustivas. Já a imensa área de predomínio do clima tropical abriga as savanas 
(árvores esparsas, arbustos e gramíneas), mas também, em menor quantidade 
florestas tropicais, em seus locais mais úmidos (Moçambique e Madagascar ao 
sul, e Libéria, Serra Leoa, Costa do Marfim e Guiné, na porção ocidental. 
Coincidindo com a área de clima equatorial, temos a floresta equatorial, 
denominada também de floresta do Congo, coincide parcialmente com o trajeto 
do rio Zaire, e cobre várias extensões do centro do continente. 
 
 
7 
TEMA 2 – CLIMA E HIDROGRAFIA 
Esquematicamente o continente africano pode ser dividido em três 
grandes porções demarcatórias de clima. Ao norte o clima desértico, ao centro 
a predominância de climas tropicais e equatoriais, e áreas semiáridas e 
desérticas ao sul. 
Mas como este é apenas um esquema, ficam omitidos importantes áreas, 
como àquela demarcada pelo clima mediterrâneo no extremo norte do 
continente. O grande deserto do Saara, por sua vez, também na porção norte, é 
ladeado por áreas semiáridas de transição, sendo a que fica ao sul pródiga em 
ocupação humana. O centro do continente abriga a área equatorial que se inicia 
no oceano Atlântico, estendendo-se até o centro do continente, que por sua vez 
está “cercada” por uma extensa área tropical, que se projeta ainda até o sul pela 
porção oriental do continente. No leste africano estão localizadas algumas áreas 
de frio de montanha. Por fim, ao sul, a margem oeste abriga os desertos da 
Namíbia e do Calaari, seguidos por uma extensa área semiárida. 
Figura 2 – Deserto da Namíbia 
 
Créditos: Smelov/Shutterstock. 
Os rios africanos, como também em outras partes do mundo, são lugares 
de grande importância histórica, pois em suas margens desenvolveram-se 
 
 
8 
grandes populações, já que a oferta de água favorece a concentração 
populacional e possibilita o desenvolvimento de uma agricultura mais produtiva, 
que pode alimentar grandes contingentes populacionais. 
Os rios Niger, Zaire, Nilo e Orange são os maiores e mais caudalosos do 
continente. Com drenagem exorreica (Niger, Zaire e Orange no oceano Atlântico 
e Nilo no Mediterrâneo), o Niger é o principal rio do ocidente africano, com um 
incomum curso em forma de “arco”, o rio nasce na fronteira entre a atual Guiné 
e Serra Leoa, projetando-se em direção ao interior africano até desembocar na 
Nigéria na forma de um complexo, grande e intrincado delta. 
Figura 3 – Principais rios da África 
 
Créditos: dlyastokiv/Adobe Stock. 
 
O Rio Zaire (também chamado de rio Congo), por sua vez, está situado 
na porção central do território, nas áreas de clima tropical e equatorial. Seu curso 
desenha um “U” invertido, nascendo no norte da Zâmbia e desaguando no 
oceano Atlântico na fronteira entre Angola e a República Democrática do Congo. 
O Rio Nilo é o maior de todos os rios africanos em extensão, projetando-
se na direção sul-norte, na porção nordeste do continente. Sua nascente situa-
se no Lago Vitória, em Uganda, e seu delta no Egito. 
 
 
9 
Por fim, o rio Orange é o maior da porção sul do continente, correndo na 
direção Leste-Oeste. Possui sua nascente no Lessoto e desemboca no mar na 
fronteira entre a Namíbia e a África do Sul. 
TEMA 3 – ETNOCENTRISMO, EUROCENTRISMO E RACISMO 
Para mergulharmos na história da África, também é necessário passar em 
revista alguns conceitos-chave para a investigação histórica. Dentre diversos 
conceitos importantes, trataremos, aqui, do etnocentrismo, o eurocentrismo e o 
racismo, que estão profundamente ligados à história desse continente. 
 É necessário passar em revista esses conceitos e investigar sua relação 
com a história da África, pois a história como campo de conhecimento carrega 
consigo as fortes marcas de ser uma disciplina, como conhecemos hoje, gestada 
e desenvolvida em suas linhas gerais na Europa. Isto cobra um preço. A história 
como filha de seu tempo, mas também de seu lugar, fruto de uma determinada 
sociedade, não podia ter vacina contra os males do etnocentrismo, do 
eurocentrismo, do racismo e da xenofobia. Mas certamente existem remédios 
para esses males. Refletir sobre estes conceitos à luz das próprias modificações 
da historiografia certamente é um deles. 
 Assim, para estudarmos a história da África, o primeiro conceito que 
devemos levar em conta é o de eurocentrismo, que pode ser tomado como uma 
“crença generalizada de que o modelo de desenvolvimento europeu-ocidental 
seja uma fatalidade (desejável) para todas as sociedades e nações” (Barbosa, 
2008, p. 47). Profundamente ligado à ideia de evolução (que veremos em detalhe 
mais a frente), o pensamento eurocêntrico coloca não só o modelo europeu de 
sociedade como o modelo da civilização humana, mas também pressupõe uma 
hierarquia entre as sociedades, em que aquelas diferentes do modelo europeu 
são inferiores ou atrasadas em seu desenvolvimento histórico. 
 
 
 
10 
Figura 4 – A representação do mundo com a Europa sempre no centro e acima 
é também uma manifestação do eurocentrismo 
 
Créditos: António Duarte/Adobe Stock. 
 Enxergar a históriados múltiplos povos, civilizações e lugares por essa 
chave é a certeza de produzir uma narrativa unilinear e eivada de preconceito, 
afinal, não existe um único caminho de desenvolvimento histórico. Por opção, 
contingência ou pelo que quer que seja, o fato objetivo é que diversos povos 
tiveram diversos tipos e características de desenvolvimento de sua história, que 
comportam diferentes arranjos societais, culturais, estatais, de diversas ordens, 
e o “modelo” europeu de sociedade não é necessariamente o fim de um caminho 
unilinear de desenvolvimento. 
 Parente próximo do eurocentrismo, o etnocentrismo é uma “visão de 
mundo onde nosso grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são 
pensados e sentidos através de nossos valores, nossos modelos” (Rocha , 1988, 
p. 5). Se no eurocentrismo o nó do conceito está ligado ao lugar, no 
etnocentrismo o nó está ligado à etnicidade, que é uma identidade relacionada 
ao país de origem e/ou a língua, e/ou a religião, e/ou costumes (Platt, 2006), 
entre outros marcadores sociais possíveis, sendo um deles também a ideia de 
raça. 
 O etnocentrismo é, portanto, uma chave de leitura que tende a valorar 
uma etnia como portadora das melhores características, aquelas que estão no 
centro e pelas quais se pauta a visão do próprio historiador, enquanto o outro, o 
diferente, aquele portador de outra origem, língua, religião, costumes ou 
aparência, é colocado no lugar do diferente, e costumeiramente do inferior. O 
pensamento etnocêntrico se nega a ver a si mesmo como o outro de alguém, 
sendo sempre o diferente de si àquele que é taxado como o estranho. 
 
 
11 
Figura 5 – O Preconceito e a xenofobia são persistentes na história da 
humanidade 
 
Créditos: asiandelight/Adobe Stock. 
 Por sua vez a xenofobia é outro conceito articulado a estes dois primeiros, 
e que representa o 
miedo o rechazo hacia lo extranjero, por lo general expresado 
hacia grupos étnicos y/o raciales, su etimología proviene de los 
términos griegos “xénos” que quiere decir extraño o extra njero 
y “phóbos” cuyo significado es miedo, la ideología de la 
xenofobia es el rechazo y la exclusión de toda identidad cultural 
ajena a la propia. (Perilla, 2020, p. 122) 
 
Por fim, o último conceito que temos que levar em conta é o de racismo, 
que tão pesadamente atingiu os habitantes do continente africano e possui um 
lugar de destaque em especial na moderna história do continente. O racismo 
pode ser compreendido em três dimensões (Campos, 2017): 
a) “Como um fenômeno enraizado em ideologias, doutrinas ou conjuntos de 
ideias que atribuem uma inferioridade natural a determinados grupos com 
origens ou marcas adstritas específicas.” 
b) Como um fenômeno em que existe “uma precedência causal e semântica 
às ações, atitudes, práticas ou comportamentos preconceituosos e/ou 
discriminatórios na reprodução do racismo”. 
 
 
12 
c) Como um fenômeno que “teria assumido características mais sistêmicas, 
institucionais ou estruturais nos dias atuais. Embora práticas e ideologias 
sejam dimensões importantes do fenômeno, são as estruturas racistas os 
princípios causais fundamentais que devem ser investigados”. 
Assim, o conceito de racismo pode ter sua ênfase nas ideias, nas práticas, 
ou nas estruturas que o perpetuam e produziram um efeito tanto na historiografia 
quanto na história da África, em especial em seu período mais recente. 
Figura 6 – Movimentos como o “Black Lives Matter” nos EUA combatem o 
persistente racismo contra a população negra 
 
Créditos: bulgn/Adobe Stock. 
TEMA 4 – EVOLUÇÃO E CULTURA 
A ideia de que todas as sociedades transitam inexoravelmente de um 
estágio mais simples para um mais complexo e do mais primitivo para o mais 
civilizado sempre operou com muita força na historiografia. Mas é preciso ter 
cuidado. Será que o advento do nazismo pode ser tomado como momento de 
maior civilização do que o que vivia a Alemanha do Séc. XIX (Le Goff, 1996)? 
Será que a emergência de movimentos antivacina e diversos tipos de 
negacionismos são expressões da evolução humana? 
 
 
13 
Figura 7 – Os horrores das guerras e do nazismo colocam em dúvida a ideia de 
uma evolução permanente da humanidade rumo a um futuro cada vez mais 
civilizado. Na foto memorial aos mortos da IIª Guerra Mundial 
 
 
Créditos: Roman Dziubalo/Adobe Stock. 
O desenvolvimento linear e unilinear da história e de suas sociedades é 
um mito teórico. E essa ideia de evolução do tempo histórico unilinear está 
fortemente ancorada também no eurocentrismo. A sucessão de períodos 
históricos da maneira como foi consagrada pela historiografia francesa, com sua 
divisão em história antiga, história medieval, moderna e contemporânea, mal dá 
conta do que transcorreu na bacia mediterrânea, quanto mais no restante do 
mundo. Mesmo a história da Europa tem dificuldades em se encaixar nessa 
sucessão de etapas, afinal, nada mais diverso do que a realidade das cidades 
da península itálica, da península ibérica sob domínio muçulmano e do interior 
do que hoje chamamos de França, no ano 1000, no que convencionamos 
chamar de Idade Média. Ou ainda, qual o sentido dessa divisão para entender a 
história da América Latina ou mesmo da África? Essa crítica não é nova 
(Chesneaux, 1995), mas é preciso tê-la sempre em mente, em especial ao 
estudarmos a história do continente africano. 
 
 
14 
 A crítica a essa concepção linear de história passa pelo conceito de 
cultura. Nessa seara foi o antropólogo Franz Boas que estabeleceu uma das 
críticas mais fundamentadas quando, por exemplo, afirma que 
Não se pode dizer que a ocorrência do mesmo fenômeno 
sempre se deve às mesmas causas, nem que ela prove que a 
mente humana obedece às mesmas leis em todos os lugares. 
Temos que exigir que as causas a partir das quais o fenômeno 
se desenvolveu sejam investigadas, e que as comparações se 
restrinjam àqueles fenômenos que se provem ser efeitos das 
mesmas causas. Devemos insistir para que essa investigação 
seja preliminar a todos os estudos comparativos mais amplos. 
(Boas, 2004, p. 31-32) 
 Ou seja, não é possível estabelecer, no campo da história, relações 
inequívocas de causa e efeito, em que determinada configuração histórica 
evolua automaticamente para outra, da mesma forma, em todos os lugares. 
Figura 8 – Fachada da Universidade de Colúmbia onde Franz Boas, judeu-
alemão radicado nos EUA, desenvolveu seus estudos e revolucionou as 
Ciências Humanas 
 
 
Créditos: Bumble Dee/Adobe Stock. 
 Essa pluralidade de possibilidades do comportamento humano, de 
arranjos sociais e de desenvolvimentos históricos está ligada ao fato de que as 
 
 
15 
diversas sociedades humanas, no tempo e no espaço, possuem diferentes 
culturas. 
 Conceito que tenta dar conta de uma realidade complexa, o conceito de 
cultura pode ser tomado como “o modo de ver o mundo, as apreciações de 
ordem moral e valorativa, os diferentes [...] comportamentos sociais” (Laraia, 
2001, p. 68). E todo esse conjunto é produto “de uma herança cultural, ou seja, 
resultado da operação de uma determinada cultura” (Laraia, 2001, p. 68). 
 Portanto, não cabe, desse ponto de vista, estabelecer hierarquias de 
sociedades, mas sim entender que cada uma possui uma existência única, 
marcada por uma cultura única, o que não impede que se influenciem por outras, 
mas que não possuem um caminho de desenvolvimento histórico único. 
É essa concepção que interdita, por exemplo, ideias como a ocorrência 
de um “feudalismo” brasileiro ou africano, assim como as demais transposições 
de uma concepção e periodização da história europeia para o restante do 
mundo. É a própria ideia de uma história universal que está em jogo, afinal, o 
que seria essa história? Tomar os vencedores em um jogo de dominação, em 
determinado período histórico, como portadores do universal e relegar os demais 
povos a clausura de uma história regional, nos parece umgrau tão elevado de 
falta de senso crítico, que, no limite, impede a própria história de realizar-se como 
campo de conhecimento. 
TEMA 5 – DISCUTINDO PERIODIZAÇÕES 
Estabelecer períodos, em geral iniciados e terminados por marcos 
temporais, é uma operação própria dos historiados para organizar a narrativa 
acerca do transcorrer do tempo histórico. Ela organiza, pois permite distinguir 
traços característicos dominantes de uma época em contraste com outra e assim 
nos permite construir uma “história” acerca de algo. “A periodização é o principal 
instrumento de inteligibilidade das mudanças significativas” (Le Goff, 1996, p. 
47), mas ao mesmo tempo o demarcado das grandes continuidades. 
 Mas periodizar não é uma tarefa “técnica”, no sentido de estar livre de 
interferências de quem a faz. Ao contrário, estabelecer marcos e identificar 
traços dominantes que permitam distinguir uma época da outra está sempre 
balizado pelos referenciais epistemológicos do historiador, afinal “periodizar é 
estabelecer marcos, sendo assim, este ato é ideológico, tem seus 
condicionantes na sociedade que o concebe” (Oliveira; Miranda, 2014, p. 9). 
 
 
16 
Em busca de uma história da África, já vimos que a reprodução para esse 
continente do tempo e da periodização próprios da história europeia seria um 
erro. O erro inverso seria considerar a história africana como algo isolado e 
imune a influência de outros tempos históricos, em especial dos vizinhos do 
continente. 
Na tentativa de estabelecer uma periodização, partimos primeiramente da 
obra referencial da Unesco sobre História da África, que se organiza, em sua 
síntese publicada no Brasil, da seguinte maneira (Silvério, 2013): 
• Pré-história: 5,5 milhões de anos antes do presente a 3500 a.C. 
• Antiga: 3500 a.C. ao séc. VI 
• Séc. VII ao XI 
• Séc. XII ao XVI 
• Séc. XVI ao XVIII 
• Séc. XIX a 1880 
• Colonial: 1880 a 1935 
• Atual: 1935 em diante 
Muitas outras possibilidades existem de organizar a periodização do 
continente. Ainda assim, para os objetivos de uma disciplina do ensino superior 
e a necessidade de uma transposição didática que possa refletir também na 
prática do futuro professor de história, adotaremos, aqui, a seguinte 
periodização: 
• Pré-história: + ou - 5,5 milhões de anos antes do presente a 3500 a.C. 
• História antiga: 3500 a.C. ao séc. II a.C. 
• Período pré-colonial: séc. II a.C. ao séc. XIX 
• Período colonial: + ou - 1880 a + ou - 1960 
• Período pós-colonial: + ou – 1960 até os dias atuais 
Como é perceptível, mais do que uma periodização, essa é uma proposta 
de divisão didática dos períodos para fins de uma disciplina do ensino superior. 
Se fosse uma proposta apenas de periodização padeceria de alguns problemas: 
(a) uma história antiga demasiado estendida no tempo e uma história recente 
sobrevalorizada; (b) os termos pré-colonial, colonial e pós-colonial remetem à 
intersecção da história africana com a história dos povos colonizadores 
europeus, de uma forma, poderia se objetar, demasiado importante (Lima, 2016). 
 
 
17 
Ainda assim, ciente das limitações de nossa proposta, que 
conscientemente quer privilegiar a história mais recente em detrimento da mais 
antiga, e que considera incontornável para a história própria da África a 
hecatombe provocada pelo encontro com os colonizadores europeus, 
trabalharemos com essa periodização/organização didática. 
NA PRÁTICA 
Muitos são os parceiros na tentativa de produzir uma educação inclusiva 
no Brasil. Já vimos que estudar história da África possui um apelo nesse sentido. 
Um dos parceiros nessa tarefa é a Organização das Nações Unidas para a 
Educação, Ciência e Cultura (Unesco em sua sigla em inglês). 
Figura 9 – A Unesco é um órgão da Organização das nações unidas voltado para 
a promoção da paz através da Educação, Ciências e Cultura 
 
 
Créditos: Bumble Dee/Adobe Stock. 
 No site da representação da Unesco no Brasil existe um compêndio de 
materiais dedicados à educação de/sobre indígenas, deficientes, e um rico 
material sobre a educação para as relações étnico raciais e história da África. 
 Em sua preparação como futuro professor de história, uma das atividades 
práticas mais relevantes é procurar bibliografia atualizada e de confiança, livre 
 
 
18 
de revisionismos e bem fundamentadas academicamente. Nesse sentido, o site 
da Unesco fornece, para as temáticas mencionadas, materiais de altíssima 
qualidade. 
 Entre no site da Unesco 
 (Acesso em: 28 
maio 2021), leia os textos de apresentação, baixe os materiais e veja do que se 
trata cada um deles. Assim estará enriquecendo sua biblioteca particular e se 
preparando para a docência. 
FINALIZANDO 
Pudemos ver, nesta aula, que a África possui uma história. Certamente 
uma história própria, mas não isolada. Vimos, ainda, que uma abordagem que 
leve em conta o conjunto de suas populações, uma visão “interna” de sua história 
e também interdisciplinar, é a maneira como podemos dar conta desse 
gigantesco desafio de estudar a história Africana. 
Por outro lado, não podemos confundir a história da África com a história 
“dos negros”, pois não é a chave racial que permite compreender a diversidade 
de povos e etnias que marcam a diversidade do continente ao longo de sua 
história. 
É para esse intrincado labirinto de povos que se descortinam as 
características naturais do continente, com seu norte litorâneo, o majestoso 
deserto do Saara, sua área de transição até atingir as florestas do centro do 
continente e as pradarias e novos desertos ao sul. Sua diversidade de climas e 
vegetação é a testemunha de que estamos tratando de um continente de 
grandes extensões. Todo esse cenário, entrecortado por rios caudalosos, 
moldou e influenciou as possibilidades de ocupação humana do território. 
Vimos, ainda, que para estudar a história da África é preciso abjurar o 
eurocentrismo, o etnocentrismo, o evolucionismo vulgar e o racismo, sem o que 
sequer faz sentido uma história da África. Além disso, entendemos como a ideia 
de cultura pode fornecer chaves importantes para combater as hierarquizações 
na história e nos levar a um pensamento mais relativista, que dê conta da 
diversidade humana na história. 
Por fim, assim como “navegar é preciso”, periodizar também é necessário. 
E assim como na navegação uma rota oferece vantagens e desvantagens, na 
formulação ou escolha de uma periodização, o debate permanece sempre 
 
 
19 
aberto. E veremos, posteriormente, o quão útil pode ser (e os problemas que 
pode ter) a escolha que fizemos. 
 
 
 
20 
REFERÊNCIAS 
BARBOSA, M. S. Eurocentrismo, história e história da África. Sankofa, v.1, p. 
47-63, 2008. 
BOAS, F. Antropologia cultural. Trad. e Org. Celso Castro. Rio de Janeiro: 
Zahar, 2004. 
BRAUDEL, F. El Mediterrâneo y el mundo mediterraneo en la época de 
Felipe II. México: Fondo de cultura econômica, 1987. 
CAMPOS, L. A. (2017). Racismo em três dimensões: Uma abordagem realista-
crítica. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 32, n. 95, 2017. Disponível 
em: https://www.scielo.br/pdf/rbcsoc/v32n95/0102-6909-rbcsoc-
3295072017.pdf. Acesso em: 27 maio 2021. 
CHESNEAUX, J. Devemos fazer tábula Rasa do passado? São Paulo: Ática, 
1995. 
Laraia, R. B. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. 
LE GOFF, J. História e memória. Campinas: Editora da Unicamp, 1996. 
LIMA, I. M. Uma experiência docente: reflexões sobre História da África e razões 
para desracializar o que nuca devia ter sido racializado. Revista África(s), v. 3, 
p. 7-19, jul./dez. 2016. Disponível em: 
. Acesso em: 
27 maio 2021. 
OLIVEIRA, W. D.; MIRANDA, M. L. Uma discussão sobre a periodização na 
História. Tiempo y sociedad, p. 7-32, 2014. 
PEREIRA, M. M.; SILVA, M. Percurso da Lei 10639/03:Antecedentes e 
Desdobramentos. Linguagens & cidadania, v. 14, jan./dez. 2012. 
PERILLA, M. B. Migrantes Venezolanos en Colombia, entre la Xenofobia y 
Aporofobia; una Aproximación al Reforzamiento Mediático del Mensaje de 
Exclusión. Latitude, v. 2, n. 13, p. 119-128, 2020. Disponível em: 
. Acesso em: 27 
maio 2021. 
PLATT, L. Etnicidade. In: SCOTT, J. Sociologia: conceitos-chaves. Rio de 
Janeiro: Zahar, 2006. p. 87-90. 
 
 
21 
RIBEIRO, G. (2014). Fernand Braudel e as metamorfoses do tempo e do espaço 
: o conceito de geohistória em La Méditerranée et le monde méditerranéen à 
l’époque de Philippe II (1949 e 1966). Confins – Revista Franco-Brasileira de 
Geografia, n. 21, 2014. Disponível em: 
. Acesso em: 27 maio 2021. 
ROCHA, E. P. O que é etnocentrismo. São Paulo: Brasiliense, 1988. 
SILVÉRIO, V. R. Síntese da Coleção História Geral da África: Pré-história ao 
século XVI. Brasília: Unesco, Ministério da Educação, UFSCAR, 2013. 
TURINI, L. A. A crítica da história linear e da ideia de progresso: um diálogo com 
Walter Benjamin e Edward Thompson. Educação e filosofia, v. 18, p. 93-125, 
2004.

Mais conteúdos dessa disciplina