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HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA DA ÁFRICA AULA 1 Prof. Edmar Almeida de Macedo 2 CONVERSA INICIAL “A África tem uma história” (Silvério, 2013, p. 17). É com esse dístico que se abre a principal publicação sobre história da África já editada no Brasil. Trata- se do terceiro maior continente, com uma área de mais de 30 milhões de quilômetros quadrados, que equivalem aproximadamente a 20% de todas as terras emersas do planeta terra e, ainda assim, por longo período, sua história foi relegada ao lugar que se relega a história dos continentes periféricos: como uma nota de rodapé na historiografia, ou aparecendo em flashs quando sua história particular se encontra com a história europeia. Mais do que uma obrigação legal, estudar a história da África no Brasil é estudar a história de um continente que forneceu ao nosso país milhares de pessoas que vieram compor nossa miscigenada população. Foi no contexto da luta pela superação do racismo na sociedade brasileira que passou a vigorar, em 2003, a Lei 10639, que tornou obrigatório o ensino de torna-se obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira (Pereira; Silva, 2012). Nada mais sintomático do racismo do que a educação brasileira ter sido obrigada por lei a tratar desse tema. Ninguém imagina, por exemplo, uma lei obrigando a ensinar a história europeia no Brasil. Veremos, então, neste conjunto de aulas, os traços gerais da história do continente africano. Como não poderia deixar de ser, a abordagem que pretendemos nestas aulas seguirá um caminho já traçado (Silvério, 2013, p. 22- 24), buscando seguir os seguintes princípios: (a) interdisciplinaridade, que se já não é novidade na historiografia, é mais indispensável ainda ao pensarmos a história de um continente. (b) Uma história vista a partir da África evitando, como já afirmamos, uma história em flashs, procurando mostrar a articulação de uma história própria, que não se nega ao contato e a mútua influência com o mundo extracontinental, mas que possui uma perspectiva própria. (c) Uma história que tenta abarcar o conjunto dos povos africanos, ainda assim sem medo de omissões e escolhas, mas que considera que estes povos, independente de fronteiras posteriormente traçadas, são os atores coletivos que merecem nossa atenção. (d) Tentaremos pôr em evidência as civilizações, estruturas e instituições, em detrimento do excesso de narrativas acerca de fatos e acontecimentos. 3 Mas é preciso ter em conta, ainda, outros parâmetros: tratamos aqui da história de um continente, ou mais precisamente, de povos de um continente. Assim, a marca da diversidade não pode ser esquecida. Façamos um paralelo com a história da América. Se ao mesmo tempo é possível estudar a história da América em seu conjunto, não se pode esquecer que a América espanhola possui suas particularidades, assim como a América portuguesa, e assim por diante. Assim também devemos pensar a África. Nada mais diferente e diverso do que os povos da margem do Mediterrâneo africano e os povos do sul do continente. Será possível dizer que a América possui um prato típico? Dificilmente um único prato poderia representar a diversidade de culturas que compõem nosso continente. Assim também é a África. E essa diversidade nos remete a outra questão. Se é verdadeiro, como já vimos, que foi a ânsia pela maior democracia racial no Brasil que assentou a obrigatoriedade desse conteúdo no ensino médio e fundamental, por outro lado uma visão racializada da história da África nos conduziria a um erro. A raça, expressa na nossa cultura fundamentalmente por traços fenotípicos, que fundamentam a noção social de raça, não faz parte da história africana da mesma maneira. Ou seja, no continente africano a ideia de raça negra é uma chave menos importante para a compreensão de sua história do que a ideia de etnia, por exemplo, que guarda sentimentos de pertencimento que englobam, mas vão muito além de uma identidade racial. Afinal, não é possível “reduzir uma extrema diversidade de práticas, costumes e visões de mundo ao tom da pele, que necessariamente não é o mesmo entre os povos que vivem na África” (Lima, 2016, p. 9-10). Assim, é possível afirmar que a África possui uma história própria, mas não uma história única. Os povos que lá viveram e vivem possuem uma identidade para além do pertencimento a um continente. Mais uma vez pensemos em nosso próprio exemplo: você se identifica, prioritariamente como um branco, como um latino-americano, como um brasileiro ou de outra forma? Idêntica questão está posta para os povos africanos, por isso a ideia de que a escravidão da era moderna está justificada pela escravidão ancestral que praticavam os próprios africanos é completamente fora de lugar. A ideia de “africanos” é muito recente, já que a identidade com seu povo (não o povo de um continente, mas os povos reais, que organizavam seus Estados, que tinham 4 sua cultura e tradições) é uma baliza identitária muito mais poderosa e duradoura na história africana (e em outras também). Nesta aula, começaremos a caminhar pela África, discutindo seus aspectos naturais atuais, para firmar uma imagem do continente, passando pelo seu relevo, vegetação, hidrografia e clima, cientes de que contar o transcorrer de suas transformações naturais passaria em muito dos objetivos desta disciplina, mas ao mesmo tempo mantendo a atenção para a diversidade de paisagens do continente. Passaremos, também, em revista alguns conceitos fundamentais para esta disciplina e para as ciências humanas no geral: etnocentrismo, eurocentrismo, racismo, evolução e cultura, sem os quais não é possível produzir um conhecimento suficientemente distante do preconceito e de abordagens já muito ultrapassadas acerca da história da África. Por fim, teremos que adotar, para esta disciplina, uma periodização, para fins didáticos, da história da África. Instrumento auxiliar fundamental da história, fixar, mesmo que de modo provisório, uma cronologia e uma periodização, nos permitirá ordenar nossa visão sobre a história desse continente. TEMA 1 – RELEVO E VEGETAÇÃO A África pode ser pensada como um espaço, como já vimos. Tomando-o como espaço é necessário caracterizá-lo apresentando-o em suas grandes linhas, antes de buscarmos sua história, mas também buscando incessantemente as relações entre o meio natural e a história. Esse tipo de abordagem não é novo. É o caminho seguido, por exemplo, na obra O Mediterrâneo (Braudel, 1987). É nas teias de relações entre o espaço geográfico e a história que se desenha uma historia casi inmóvil, la historia del hombre en sus relaciones con el medio que le rodea; historia lenta en fluir y en transformarse, hecha no pocas veces de insistentes reiteraciones y de ciclos incesantemente reiniciados. (Braudel, 1987, p. 17) Por outro lado, esse tipo de abordagem precisa estar precavido contra uma ideia de lançar mão da investigação geográfica apenas como introdução ao estudo histórico. É preciso estar prevenido con las tradicionales introducciones geográficas de los estudios de historia, inútilmente colocadas en los umbrales de tantos 5 libros, con sus paisajes minerales, sus trabajos agrícolas y sus flores, que se hacen desfilar rápidamente ante los ojos del lector, para no volver a referirse a ellos a lo largo del libro, como si las flores no rebrotaran en cada primavera, como si los rebaños se detuvieran en sus desplazamientos, como si los barcos no tuviesen que navegar sobre las aguas de un mar real, que cambia con las estaciones. (Braudel, 1987, p. 17) Assim como o Mediterrâneo de Braudel era um conjunto de rotas que possibilitavam encontros e desencontros, composto de obstáculos e pontos de ligação, palco e cenário que influenciam os atores, assim também é a África histórica na qual iremosmergulhar. Mas não se trata de tomar a realidade geográfica como mero palco. Sua influência vai além disso. E essa realidade não é um aspecto inerte e imóvel, afinal, em sua ação no tempo, o homem transforma o meio, constituindo uma segunda natureza. Assim, a relação homem-espaço no tempo precisa levar em conta que As atividades humanas são indissociáveis de seus respectivos ambientes. Muito mais que um quadro fixo e imóvel, o meio é uma estrutura, um personagem histórico de primeira grandeza. Complexo, ele não é apenas fonte de recursos de toda sorte, mas também algo hostil no qual as sociedades travam suas lutas pela sobrevivência. Um peso ora esmagador, ora contornável, mas sempre algo do qual não se pode escapar. É preciso entender os humores das estações, as dificuldades impostas pelo sítio, as múltiplas associações entre clima, relevo, vegetação e hidrografia. Embora parcialmente, o meio impõe um ritmo, uma cadência; a seu turno, os homens vão modificá-lo, adaptando-o às suas mais variadas exigências. (Ribeiro, 2014, on-line) Por outro lado, o desafio ao abordar a história da África, colocando em perspectiva suas estruturas geográficas, é gigantesco, uma vez que ao tentarmos dar conta da longuíssima duração da história desse continente, precisamos levar em conta ainda um problema adicional: essas estruturas mudaram ao longo do tempo e a geografia da África de hoje não é igual a geografia da África de ontem. Assim, pelas características da abordagem em uma disciplina do ensino superior, limitada no tempo e na quantidade de esforço que pode ser desprendido, só é possível limitarmo-nos a um caráter introdutório. É o que faremos. Grosso modo, do ponto de vista do relevo, atualmente a África apresenta- se como uma plataforma tabular, com predominância das áreas planas, formadas principalmente por planaltos cristalinos muito antigos. A exceção é o 6 oriente africano com a região dos grandes lagos e os destacados aclives (picos rochosos) da região, que imprimem um caráter diversificado à paisagem, inclusive com a presença de tectonismo. Figura 1 – Monte Kilimanjaro (Tanzânia) e a Savana africana Créditos: Volodymyr Burdiak/Shutterstock. A vegetação africana se divide pelo continente acompanhando, em linhas gerais, a distribuição dos diferentes tipos de climas. Na porção norte da Tunísia, Argélia e Marrocos, encontramos a vegetação mediterrânea, caracterizada por arvores espaçadas e arbustos. Mais ao sul, antes do deserto do Saara, mas também ao sul deste, temos as estepes africanas, coincidindo com o clima semiárido, com vegetação herbácea e arbustos ressecados. Já as regiões desérticas, tanto ao norte quanto ao sul, apresentam rara vegetação, predominando, a semelhança das estepes, as formações herbáceas e arbustivas. Já a imensa área de predomínio do clima tropical abriga as savanas (árvores esparsas, arbustos e gramíneas), mas também, em menor quantidade florestas tropicais, em seus locais mais úmidos (Moçambique e Madagascar ao sul, e Libéria, Serra Leoa, Costa do Marfim e Guiné, na porção ocidental. Coincidindo com a área de clima equatorial, temos a floresta equatorial, denominada também de floresta do Congo, coincide parcialmente com o trajeto do rio Zaire, e cobre várias extensões do centro do continente. 7 TEMA 2 – CLIMA E HIDROGRAFIA Esquematicamente o continente africano pode ser dividido em três grandes porções demarcatórias de clima. Ao norte o clima desértico, ao centro a predominância de climas tropicais e equatoriais, e áreas semiáridas e desérticas ao sul. Mas como este é apenas um esquema, ficam omitidos importantes áreas, como àquela demarcada pelo clima mediterrâneo no extremo norte do continente. O grande deserto do Saara, por sua vez, também na porção norte, é ladeado por áreas semiáridas de transição, sendo a que fica ao sul pródiga em ocupação humana. O centro do continente abriga a área equatorial que se inicia no oceano Atlântico, estendendo-se até o centro do continente, que por sua vez está “cercada” por uma extensa área tropical, que se projeta ainda até o sul pela porção oriental do continente. No leste africano estão localizadas algumas áreas de frio de montanha. Por fim, ao sul, a margem oeste abriga os desertos da Namíbia e do Calaari, seguidos por uma extensa área semiárida. Figura 2 – Deserto da Namíbia Créditos: Smelov/Shutterstock. Os rios africanos, como também em outras partes do mundo, são lugares de grande importância histórica, pois em suas margens desenvolveram-se 8 grandes populações, já que a oferta de água favorece a concentração populacional e possibilita o desenvolvimento de uma agricultura mais produtiva, que pode alimentar grandes contingentes populacionais. Os rios Niger, Zaire, Nilo e Orange são os maiores e mais caudalosos do continente. Com drenagem exorreica (Niger, Zaire e Orange no oceano Atlântico e Nilo no Mediterrâneo), o Niger é o principal rio do ocidente africano, com um incomum curso em forma de “arco”, o rio nasce na fronteira entre a atual Guiné e Serra Leoa, projetando-se em direção ao interior africano até desembocar na Nigéria na forma de um complexo, grande e intrincado delta. Figura 3 – Principais rios da África Créditos: dlyastokiv/Adobe Stock. O Rio Zaire (também chamado de rio Congo), por sua vez, está situado na porção central do território, nas áreas de clima tropical e equatorial. Seu curso desenha um “U” invertido, nascendo no norte da Zâmbia e desaguando no oceano Atlântico na fronteira entre Angola e a República Democrática do Congo. O Rio Nilo é o maior de todos os rios africanos em extensão, projetando- se na direção sul-norte, na porção nordeste do continente. Sua nascente situa- se no Lago Vitória, em Uganda, e seu delta no Egito. 9 Por fim, o rio Orange é o maior da porção sul do continente, correndo na direção Leste-Oeste. Possui sua nascente no Lessoto e desemboca no mar na fronteira entre a Namíbia e a África do Sul. TEMA 3 – ETNOCENTRISMO, EUROCENTRISMO E RACISMO Para mergulharmos na história da África, também é necessário passar em revista alguns conceitos-chave para a investigação histórica. Dentre diversos conceitos importantes, trataremos, aqui, do etnocentrismo, o eurocentrismo e o racismo, que estão profundamente ligados à história desse continente. É necessário passar em revista esses conceitos e investigar sua relação com a história da África, pois a história como campo de conhecimento carrega consigo as fortes marcas de ser uma disciplina, como conhecemos hoje, gestada e desenvolvida em suas linhas gerais na Europa. Isto cobra um preço. A história como filha de seu tempo, mas também de seu lugar, fruto de uma determinada sociedade, não podia ter vacina contra os males do etnocentrismo, do eurocentrismo, do racismo e da xenofobia. Mas certamente existem remédios para esses males. Refletir sobre estes conceitos à luz das próprias modificações da historiografia certamente é um deles. Assim, para estudarmos a história da África, o primeiro conceito que devemos levar em conta é o de eurocentrismo, que pode ser tomado como uma “crença generalizada de que o modelo de desenvolvimento europeu-ocidental seja uma fatalidade (desejável) para todas as sociedades e nações” (Barbosa, 2008, p. 47). Profundamente ligado à ideia de evolução (que veremos em detalhe mais a frente), o pensamento eurocêntrico coloca não só o modelo europeu de sociedade como o modelo da civilização humana, mas também pressupõe uma hierarquia entre as sociedades, em que aquelas diferentes do modelo europeu são inferiores ou atrasadas em seu desenvolvimento histórico. 10 Figura 4 – A representação do mundo com a Europa sempre no centro e acima é também uma manifestação do eurocentrismo Créditos: António Duarte/Adobe Stock. Enxergar a históriados múltiplos povos, civilizações e lugares por essa chave é a certeza de produzir uma narrativa unilinear e eivada de preconceito, afinal, não existe um único caminho de desenvolvimento histórico. Por opção, contingência ou pelo que quer que seja, o fato objetivo é que diversos povos tiveram diversos tipos e características de desenvolvimento de sua história, que comportam diferentes arranjos societais, culturais, estatais, de diversas ordens, e o “modelo” europeu de sociedade não é necessariamente o fim de um caminho unilinear de desenvolvimento. Parente próximo do eurocentrismo, o etnocentrismo é uma “visão de mundo onde nosso grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através de nossos valores, nossos modelos” (Rocha , 1988, p. 5). Se no eurocentrismo o nó do conceito está ligado ao lugar, no etnocentrismo o nó está ligado à etnicidade, que é uma identidade relacionada ao país de origem e/ou a língua, e/ou a religião, e/ou costumes (Platt, 2006), entre outros marcadores sociais possíveis, sendo um deles também a ideia de raça. O etnocentrismo é, portanto, uma chave de leitura que tende a valorar uma etnia como portadora das melhores características, aquelas que estão no centro e pelas quais se pauta a visão do próprio historiador, enquanto o outro, o diferente, aquele portador de outra origem, língua, religião, costumes ou aparência, é colocado no lugar do diferente, e costumeiramente do inferior. O pensamento etnocêntrico se nega a ver a si mesmo como o outro de alguém, sendo sempre o diferente de si àquele que é taxado como o estranho. 11 Figura 5 – O Preconceito e a xenofobia são persistentes na história da humanidade Créditos: asiandelight/Adobe Stock. Por sua vez a xenofobia é outro conceito articulado a estes dois primeiros, e que representa o miedo o rechazo hacia lo extranjero, por lo general expresado hacia grupos étnicos y/o raciales, su etimología proviene de los términos griegos “xénos” que quiere decir extraño o extra njero y “phóbos” cuyo significado es miedo, la ideología de la xenofobia es el rechazo y la exclusión de toda identidad cultural ajena a la propia. (Perilla, 2020, p. 122) Por fim, o último conceito que temos que levar em conta é o de racismo, que tão pesadamente atingiu os habitantes do continente africano e possui um lugar de destaque em especial na moderna história do continente. O racismo pode ser compreendido em três dimensões (Campos, 2017): a) “Como um fenômeno enraizado em ideologias, doutrinas ou conjuntos de ideias que atribuem uma inferioridade natural a determinados grupos com origens ou marcas adstritas específicas.” b) Como um fenômeno em que existe “uma precedência causal e semântica às ações, atitudes, práticas ou comportamentos preconceituosos e/ou discriminatórios na reprodução do racismo”. 12 c) Como um fenômeno que “teria assumido características mais sistêmicas, institucionais ou estruturais nos dias atuais. Embora práticas e ideologias sejam dimensões importantes do fenômeno, são as estruturas racistas os princípios causais fundamentais que devem ser investigados”. Assim, o conceito de racismo pode ter sua ênfase nas ideias, nas práticas, ou nas estruturas que o perpetuam e produziram um efeito tanto na historiografia quanto na história da África, em especial em seu período mais recente. Figura 6 – Movimentos como o “Black Lives Matter” nos EUA combatem o persistente racismo contra a população negra Créditos: bulgn/Adobe Stock. TEMA 4 – EVOLUÇÃO E CULTURA A ideia de que todas as sociedades transitam inexoravelmente de um estágio mais simples para um mais complexo e do mais primitivo para o mais civilizado sempre operou com muita força na historiografia. Mas é preciso ter cuidado. Será que o advento do nazismo pode ser tomado como momento de maior civilização do que o que vivia a Alemanha do Séc. XIX (Le Goff, 1996)? Será que a emergência de movimentos antivacina e diversos tipos de negacionismos são expressões da evolução humana? 13 Figura 7 – Os horrores das guerras e do nazismo colocam em dúvida a ideia de uma evolução permanente da humanidade rumo a um futuro cada vez mais civilizado. Na foto memorial aos mortos da IIª Guerra Mundial Créditos: Roman Dziubalo/Adobe Stock. O desenvolvimento linear e unilinear da história e de suas sociedades é um mito teórico. E essa ideia de evolução do tempo histórico unilinear está fortemente ancorada também no eurocentrismo. A sucessão de períodos históricos da maneira como foi consagrada pela historiografia francesa, com sua divisão em história antiga, história medieval, moderna e contemporânea, mal dá conta do que transcorreu na bacia mediterrânea, quanto mais no restante do mundo. Mesmo a história da Europa tem dificuldades em se encaixar nessa sucessão de etapas, afinal, nada mais diverso do que a realidade das cidades da península itálica, da península ibérica sob domínio muçulmano e do interior do que hoje chamamos de França, no ano 1000, no que convencionamos chamar de Idade Média. Ou ainda, qual o sentido dessa divisão para entender a história da América Latina ou mesmo da África? Essa crítica não é nova (Chesneaux, 1995), mas é preciso tê-la sempre em mente, em especial ao estudarmos a história do continente africano. 14 A crítica a essa concepção linear de história passa pelo conceito de cultura. Nessa seara foi o antropólogo Franz Boas que estabeleceu uma das críticas mais fundamentadas quando, por exemplo, afirma que Não se pode dizer que a ocorrência do mesmo fenômeno sempre se deve às mesmas causas, nem que ela prove que a mente humana obedece às mesmas leis em todos os lugares. Temos que exigir que as causas a partir das quais o fenômeno se desenvolveu sejam investigadas, e que as comparações se restrinjam àqueles fenômenos que se provem ser efeitos das mesmas causas. Devemos insistir para que essa investigação seja preliminar a todos os estudos comparativos mais amplos. (Boas, 2004, p. 31-32) Ou seja, não é possível estabelecer, no campo da história, relações inequívocas de causa e efeito, em que determinada configuração histórica evolua automaticamente para outra, da mesma forma, em todos os lugares. Figura 8 – Fachada da Universidade de Colúmbia onde Franz Boas, judeu- alemão radicado nos EUA, desenvolveu seus estudos e revolucionou as Ciências Humanas Créditos: Bumble Dee/Adobe Stock. Essa pluralidade de possibilidades do comportamento humano, de arranjos sociais e de desenvolvimentos históricos está ligada ao fato de que as 15 diversas sociedades humanas, no tempo e no espaço, possuem diferentes culturas. Conceito que tenta dar conta de uma realidade complexa, o conceito de cultura pode ser tomado como “o modo de ver o mundo, as apreciações de ordem moral e valorativa, os diferentes [...] comportamentos sociais” (Laraia, 2001, p. 68). E todo esse conjunto é produto “de uma herança cultural, ou seja, resultado da operação de uma determinada cultura” (Laraia, 2001, p. 68). Portanto, não cabe, desse ponto de vista, estabelecer hierarquias de sociedades, mas sim entender que cada uma possui uma existência única, marcada por uma cultura única, o que não impede que se influenciem por outras, mas que não possuem um caminho de desenvolvimento histórico único. É essa concepção que interdita, por exemplo, ideias como a ocorrência de um “feudalismo” brasileiro ou africano, assim como as demais transposições de uma concepção e periodização da história europeia para o restante do mundo. É a própria ideia de uma história universal que está em jogo, afinal, o que seria essa história? Tomar os vencedores em um jogo de dominação, em determinado período histórico, como portadores do universal e relegar os demais povos a clausura de uma história regional, nos parece umgrau tão elevado de falta de senso crítico, que, no limite, impede a própria história de realizar-se como campo de conhecimento. TEMA 5 – DISCUTINDO PERIODIZAÇÕES Estabelecer períodos, em geral iniciados e terminados por marcos temporais, é uma operação própria dos historiados para organizar a narrativa acerca do transcorrer do tempo histórico. Ela organiza, pois permite distinguir traços característicos dominantes de uma época em contraste com outra e assim nos permite construir uma “história” acerca de algo. “A periodização é o principal instrumento de inteligibilidade das mudanças significativas” (Le Goff, 1996, p. 47), mas ao mesmo tempo o demarcado das grandes continuidades. Mas periodizar não é uma tarefa “técnica”, no sentido de estar livre de interferências de quem a faz. Ao contrário, estabelecer marcos e identificar traços dominantes que permitam distinguir uma época da outra está sempre balizado pelos referenciais epistemológicos do historiador, afinal “periodizar é estabelecer marcos, sendo assim, este ato é ideológico, tem seus condicionantes na sociedade que o concebe” (Oliveira; Miranda, 2014, p. 9). 16 Em busca de uma história da África, já vimos que a reprodução para esse continente do tempo e da periodização próprios da história europeia seria um erro. O erro inverso seria considerar a história africana como algo isolado e imune a influência de outros tempos históricos, em especial dos vizinhos do continente. Na tentativa de estabelecer uma periodização, partimos primeiramente da obra referencial da Unesco sobre História da África, que se organiza, em sua síntese publicada no Brasil, da seguinte maneira (Silvério, 2013): • Pré-história: 5,5 milhões de anos antes do presente a 3500 a.C. • Antiga: 3500 a.C. ao séc. VI • Séc. VII ao XI • Séc. XII ao XVI • Séc. XVI ao XVIII • Séc. XIX a 1880 • Colonial: 1880 a 1935 • Atual: 1935 em diante Muitas outras possibilidades existem de organizar a periodização do continente. Ainda assim, para os objetivos de uma disciplina do ensino superior e a necessidade de uma transposição didática que possa refletir também na prática do futuro professor de história, adotaremos, aqui, a seguinte periodização: • Pré-história: + ou - 5,5 milhões de anos antes do presente a 3500 a.C. • História antiga: 3500 a.C. ao séc. II a.C. • Período pré-colonial: séc. II a.C. ao séc. XIX • Período colonial: + ou - 1880 a + ou - 1960 • Período pós-colonial: + ou – 1960 até os dias atuais Como é perceptível, mais do que uma periodização, essa é uma proposta de divisão didática dos períodos para fins de uma disciplina do ensino superior. Se fosse uma proposta apenas de periodização padeceria de alguns problemas: (a) uma história antiga demasiado estendida no tempo e uma história recente sobrevalorizada; (b) os termos pré-colonial, colonial e pós-colonial remetem à intersecção da história africana com a história dos povos colonizadores europeus, de uma forma, poderia se objetar, demasiado importante (Lima, 2016). 17 Ainda assim, ciente das limitações de nossa proposta, que conscientemente quer privilegiar a história mais recente em detrimento da mais antiga, e que considera incontornável para a história própria da África a hecatombe provocada pelo encontro com os colonizadores europeus, trabalharemos com essa periodização/organização didática. NA PRÁTICA Muitos são os parceiros na tentativa de produzir uma educação inclusiva no Brasil. Já vimos que estudar história da África possui um apelo nesse sentido. Um dos parceiros nessa tarefa é a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco em sua sigla em inglês). Figura 9 – A Unesco é um órgão da Organização das nações unidas voltado para a promoção da paz através da Educação, Ciências e Cultura Créditos: Bumble Dee/Adobe Stock. No site da representação da Unesco no Brasil existe um compêndio de materiais dedicados à educação de/sobre indígenas, deficientes, e um rico material sobre a educação para as relações étnico raciais e história da África. Em sua preparação como futuro professor de história, uma das atividades práticas mais relevantes é procurar bibliografia atualizada e de confiança, livre 18 de revisionismos e bem fundamentadas academicamente. Nesse sentido, o site da Unesco fornece, para as temáticas mencionadas, materiais de altíssima qualidade. Entre no site da Unesco (Acesso em: 28 maio 2021), leia os textos de apresentação, baixe os materiais e veja do que se trata cada um deles. Assim estará enriquecendo sua biblioteca particular e se preparando para a docência. FINALIZANDO Pudemos ver, nesta aula, que a África possui uma história. Certamente uma história própria, mas não isolada. Vimos, ainda, que uma abordagem que leve em conta o conjunto de suas populações, uma visão “interna” de sua história e também interdisciplinar, é a maneira como podemos dar conta desse gigantesco desafio de estudar a história Africana. Por outro lado, não podemos confundir a história da África com a história “dos negros”, pois não é a chave racial que permite compreender a diversidade de povos e etnias que marcam a diversidade do continente ao longo de sua história. É para esse intrincado labirinto de povos que se descortinam as características naturais do continente, com seu norte litorâneo, o majestoso deserto do Saara, sua área de transição até atingir as florestas do centro do continente e as pradarias e novos desertos ao sul. Sua diversidade de climas e vegetação é a testemunha de que estamos tratando de um continente de grandes extensões. Todo esse cenário, entrecortado por rios caudalosos, moldou e influenciou as possibilidades de ocupação humana do território. Vimos, ainda, que para estudar a história da África é preciso abjurar o eurocentrismo, o etnocentrismo, o evolucionismo vulgar e o racismo, sem o que sequer faz sentido uma história da África. Além disso, entendemos como a ideia de cultura pode fornecer chaves importantes para combater as hierarquizações na história e nos levar a um pensamento mais relativista, que dê conta da diversidade humana na história. Por fim, assim como “navegar é preciso”, periodizar também é necessário. E assim como na navegação uma rota oferece vantagens e desvantagens, na formulação ou escolha de uma periodização, o debate permanece sempre 19 aberto. E veremos, posteriormente, o quão útil pode ser (e os problemas que pode ter) a escolha que fizemos. 20 REFERÊNCIAS BARBOSA, M. S. Eurocentrismo, história e história da África. Sankofa, v.1, p. 47-63, 2008. BOAS, F. Antropologia cultural. Trad. e Org. Celso Castro. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. BRAUDEL, F. El Mediterrâneo y el mundo mediterraneo en la época de Felipe II. México: Fondo de cultura econômica, 1987. CAMPOS, L. A. (2017). Racismo em três dimensões: Uma abordagem realista- crítica. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 32, n. 95, 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/rbcsoc/v32n95/0102-6909-rbcsoc- 3295072017.pdf. Acesso em: 27 maio 2021. CHESNEAUX, J. Devemos fazer tábula Rasa do passado? São Paulo: Ática, 1995. Laraia, R. B. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. LE GOFF, J. História e memória. Campinas: Editora da Unicamp, 1996. LIMA, I. M. 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Confins – Revista Franco-Brasileira de Geografia, n. 21, 2014. Disponível em: . Acesso em: 27 maio 2021. ROCHA, E. P. O que é etnocentrismo. São Paulo: Brasiliense, 1988. SILVÉRIO, V. R. Síntese da Coleção História Geral da África: Pré-história ao século XVI. Brasília: Unesco, Ministério da Educação, UFSCAR, 2013. TURINI, L. A. A crítica da história linear e da ideia de progresso: um diálogo com Walter Benjamin e Edward Thompson. Educação e filosofia, v. 18, p. 93-125, 2004.