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SOCIOLOGIA, EXTENSÃO E 
COMUNICAÇÃO RURAL 
AULA 6 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Alexsandro Ribeiro 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Em meio à sociedade da informação, é preciso ajustar algumas propostas 
e atividades para dar conta de novas realidades sociais, tanto na área urbana 
quanto na rural. A conectividade e a necessidade de inclusão digital promovem 
um processo de aprimoramento do extensionismo, com foco em ampliar as 
ações e se apropriar de ferramentas inovadoras. 
Isso já estava previsto na política de inclusão digital do governo federal 
em 2020, contudo a pandemia da Covid-19 fez acelerar a implantação da 
Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) Digital em algumas áreas do país. 
Dentre as vantagens, podemos destacar: redução de custos, o que é benéfico, 
diante de um quadro de fragilidade das Ater’s, com pouco investimento dos 
estados; maleabilidade de horário, o que permite que o produtor possa aliar seu 
dia de trabalho com o processo de aprendizagem; e cobertura de atuação dela. 
 Vamos abordar aqui alguns aspectos desse cenário. Confira os tópicos 
que serão explorados: 
• Ater digital participativa; 
• elementos da Ater híbrida dialógica; 
• perfil do técnico educador dialógico; 
• diagnóstico rural participativo – conceito e diagnóstico; e 
• diagnóstico rural participativo – métodos de coleta de dados e 
apresentação. 
TEMA 1 – ATER DIGITAL PARTICIPATIVA 
O cenário de pandemia e de isolamento social pressionou para um avanço 
da digitalização nos serviços de assistência técnica e extensão rural. Como 
vimos anteriormente, a Ater foi se moldando para ajustar sua capacidade de 
atendimento, incorporando tecnologias digitais, ora em atividades mesclando 
práticas presenciais e virtuais, ora migrando funções para acesso total pelo meio 
digital com recursos de inteligência artificial. Esse processo de inclusão digital 
na extensão rural, com ensino virtual ou de forma híbrida, com aprendizado em 
forma síncrona ou assíncrona, resulta no que denominamos Educação Digital 
em Rede (EDR). 
 
 
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Para Zuin et al. (2022), a relação que resulta do convívio entre atividades 
presenciais e virtuais produz um ecossistema de ensino-aprendizagem que se 
organiza em três dimensões: organizacional, pedagógica e técnica. A dimensão 
organizacional é a que se consolida a partir da estrutura formal e informal das 
instituições, já a pedagógica está relacionada às competências para o processo 
de ensino e aprendizado, com uso de recursos e metodologias ativas, e a 
dimensão técnica é relativa ao aprendizado prático. 
Contudo, essa dinâmica demanda comprometimento em políticas 
públicas focadas em uma educação digital dialógica que “seja significativa na 
vida do educador e educando, assegurando entre outros elementos 
capacitações que levem a um bom letramento digital das pessoas que vivem e 
trabalham nos territórios rurais" (Zuin et al., 2022, p. 31). A Ater Digital, como um 
espaço de inclusão e de aprendizado no campo, está inserida no arcabouço da 
educação em rede, a partir de um ecossistema, ou seja, em um Ecossistema 
Digital em Rede (ECDR), uma vez que não é apenas uma plataforma, mas toda 
uma dimensão presencial e virtual que cria uma comunidade focada no 
aprendizado. 
Pela perspectiva do meio rural, uma ECDR apresenta ao menos 
elementos e ações. O primeiro é a identificação de conteúdos que devem se 
organizados na plataforma de compartilhamento, ou seja, é preciso mapear as 
necessidades de determinada comunidade para constituir um conjunto de 
conteúdos que seja abrangente o suficiente para subsidiar diversas realidades. 
Dentro da perspectiva de um ecossistema digital, é preciso pensar que o 
produtor deve ter uma participação mais ativa, e para isso o sistema deve 
permitir que ele busque as informações proativamente. 
À medida que se organiza o conjunto de conteúdos, é necessário 
estabelecer um método de gestão do aprendizado. Assim, como apontam Zuin 
et al. (2022), isso busca um desenvolvimento de método comunicacional que 
alcança a maioria do público-alvo da plataforma, como atividades em aplicativos 
ou em redes sociais digitais vinculadas aos serviços da Ater. 
Um terceiro ponto é realizar o recorte dos assuntos a serem 
disponibilizados na plataforma ou material de aprendizado para o produtor. 
Soma-se a isso outro ponto, a organização desses conteúdos em um repositório 
que fique acessível aos usuários ativos no processo, tanto os educadores quanto 
os educandos. A etapa seguinte da ECDR é a estruturação de roteiros e fluxos 
 
 
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de atividades para auxiliar na condução do aprendizado autônomo do produtor 
que acessa a plataforma de extensão. Esses roteiros devem aliar não apenas 
teoria, mas recursos práticos que permitam uma relação entre a situação 
conceitual e a situação-problema vivida no campo. 
Considerando que é uma plataforma de aprendizado, um sistema de 
análise do rendimento ou do aprendizado é fundamental na capacitação. Assim, 
Zuin et al. (2022) reforçam como etapa a organização de processos avaliativos, 
estabelecidos em observação à comunidade-foco. Isso reitera outra etapa, que 
é o emprego de ferramentas de comunicação e de construção de uma situação 
dialógica. Como sublinham os autores, essa etapa é formada pelo “próprio 
ambiente de ensino digital, como no caso da ATER Digital participativa sendo 
constituídas pelas redes sociais e aplicativos das organizações públicas e 
privadas que prestam serviços nos territórios rurais” (Zuin et al., 2022, p. 33). 
Como elemento final, é essencial estabelecer um suporte tecnológico de 
orientação dos extensionistas, com fornecimento de materiais e de capacitações 
para uso das ferramentas com fins pedagógicos. 
Pensando na plataforma consolidada, é possível ainda organizar posturas 
ou modelos educativos como formas de ação pensando as lógicas e dinâmicas 
do ambiente em que a ferramenta será implantada, ou seja, é preciso pensar a 
comunidade e suas características. O primeiro modelo é focado no educador. 
Nesse ponto, parte-se de uma postura ativa do extensionista, que organiza as 
atividades e promove o acesso à plataforma, incentivando os educandos ou 
produtores rurais no processo educativo. 
O segundo modelo é focado no educando, em que o aluno assume uma 
postura de autonomia nos estudos, organizando proativamente a agenda e 
forma de leitura e acompanhamento dos conteúdos. Por fim, temos um modelo 
centrado na tecnologia (Zuin et al., 2022), em que o foco é a condução por parte 
do sistema com automatização do processo de aprendizado sem uma mediação 
ampla entre educador e educando. Assim, a mediação é promovida pelo sistema 
por meio de algoritmos e etapas automatizadas. 
TEMA 2 – ELEMENTOS DA ATER HÍBRIDA DIALÓGICA 
Considerando-se a falta de abrangência ampla da rede no meio rural, uma 
extensão que promova uma atividade que vincule meio digital e meio presencial 
parece um aprimoramento nas atividades de educação e divulgação científica no 
 
 
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campo. Aqui temos a possibilidade de uma Ater Híbrida dialógica, que é o meio-
termo entre as atividades convencionais do atendimento exclusivamente 
presencial (prejudicado pela pandemia e pela redução de investimento dos 
estados na extensão rural) e as atividades digitais, reduzindo os ruídos 
provenientes da falta de inclusão digital, dos recursos de acesso aos serviços de 
dados e equipamentos, bem como da falta do letramento para a tecnologia 
digital. 
Segundo Zuin et al. (2022), os últimos anos foram marcados pela 
expansão e aplicação da Ater no formato híbrido em vários territórios rurais, 
principalmente fomentado por cinco elementos que ajudam a determinar tal 
realidade. O primeiro é relativo ao ponto nevrálgico que vinha prejudicando a 
extensão rural desde a extinção da Embrater e o arrefecimento no investimento 
no setor, ou seja, a questão financeira. 
O uso das tecnologiaspode não apenas ampliar a abrangência, mas 
efetivamente reduz custos na Ater a partir das Tecnologias de Comunicação e 
Informação (TICs). Isso se dá pela diminuição da necessidade de visitas técnicas 
do extensionista na propriedade ou ainda na restrição desse atendimento, 
limitando-se apenas aos momentos fundamentais. Isso não significa que 
ocorrerá menor atendimento; muito pelo contrário, do ponto de vista do contato, 
intensifica-se a conexão entre extensionista e produtor, mediada pelas TICs. 
A cobertura de atuação da Ater também pode ser ampliada nessa 
dinâmica híbrida, na medida em que a agenda do extensionista se torna mais 
adequada à demanda e em que produtores com áreas mais distantes dos polos 
de atendimento podem recorrer às TICs para iniciar e realizar parte do suporte 
de forma síncrona ou assíncrona. 
Outro aspecto é a redução do tempo, e isso se dá por dois aspectos. O 
primeiro se refere à ferramenta tecnológica que pode oferecer um repositório 
aliado à inteligência artificial que filtra e apresenta conteúdos que possam 
orientar o produtor em sua demanda. Formulários com campos de 
preenchimento podem apontar uma série de soluções organizadas previamente 
pelo extensionista, e isso fica à disposição do produtor 24 horas por e sete dias 
por semana. 
Outro ponto que agiliza é o uso de ferramentas de comunicação que 
permitam multiplicar o contato e o aprendizado. Ou seja, em vez de realizar 
dezenas de palestras nas associações, por exemplo, indicando novos processos 
 
 
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de manejo de determinada cultura, o extensionista pode usar recursos como 
podcasts ou ainda série de videoaulas no YouTube para amplificar sua atuação 
e reduzir o tempo de retorno para os produtores. 
Outro aspecto destacado por Zuin et al. (2022, p. 41) se refere à 
biossegurança no campo. Independentemente do setor ou do tamanho e 
composição da empresa ou empreendimento agropecuário, a partir da Ater 
híbrida "os elementos relacionados e constitutivos da biossegurança de todo o 
território rural serão constantemente monitorados por organizações privadas e 
governamentais, como os de defesa sanitária”. Assim, procedimentos e 
ferramentas de gestão de saúde são facilmente apresentados a um público 
maior, com controle e fiscalização a distância, o que ajuda a reduzir situações 
de entrada de patógenos nas propriedades. Ou seja, o efeito não é apenas para 
aumento da produtividade, mas também para segurança da sociedade. 
Por fim, aponta-se justamente a criação de uma instância de ensino e de 
aprendizado que é deslocada de um espaço, mas identificada na relação entre 
a instituição da Ater e os produtores aprendizes. Ou seja, a troca de experiências 
consolida o espaço ou ambiente educacional, o que se dá de forma dialógica e 
inclusiva do ponto de vista de maior autonomia e participação dos educandos. 
Contudo, para que isso ajude a consolidar uma Ater híbrida, Zuin et al. 
(2022) indicam que é importante alçar ao menos duas questões. A primeira é 
que a Ater Digital seja de fato participativa, isto é, incluída em uma política 
pública, que se consolide e que seja integrada com a comunidade. A segunda é 
que esteja ancorada em uma série de atividades de políticas públicas para 
fomento ao aprendizado e aprimoramento das rotinas produtivas do campo, com 
caráter democrático e inclusivo. 
TEMA 3 – PERFIL DO TÉCNICO EDUCADOR DIALÓGICO 
Apesar de contar com pressão e idealização dos extensionistas, das 
entidades estaduais do setor, do movimento social rural e dos produtores rurais, 
a Ater Digital (Brasil, 2020) é uma iniciativa encampada e em implantação pelo 
governo federal a partir de um programa de digitalização ou de inclusão digital 
na área rural. O programa iniciou a primeira fase em 2020 e segue em ajustes 
devido aos impactos da pandemia. 
Na esteira de que a extensão e a assistência rural promovem a melhoria 
da renda e qualidade de vida das famílias rurais a partir de um aperfeiçoamento 
 
 
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das rotinas e processos de produção, o programa Ater Digital, segundo o 
governo federal, foca parcerias inovadoras com práticas convencionais e 
processos de aprendizado digital, bem como iniciativas conjuntas do poder 
público e da inciativa privada a partir de propostas de empresas de tecnologia 
para o oferecimento de acesso à rede ou ainda de sistemas digitais de 
plataformas de aprendizado. Assim, as “Tecnologias de Informação e 
Comunicação (TICs) são importantes aliadas no desenvolvimento de uma Ater 
Digital que amplifique os resultados do trabalho dos extensionistas” (Brasil, 
2020). 
A proposta surge sustentada em cinco pilares: organização de 
conhecimentos e informações focados em extensão na área agrícola; 
modernização do sistema de Ater a partir do uso de tecnologias de comunicação 
e informação; criação de um repositório de sistemas com o compartilhamento 
desses aplicativos e sistemas de modo geral entre as Ater’s para fortalecimento 
de um plano nacional e com foco na melhoria de qualidade e produtividade; 
capacitação dos profissionais de extensão para uso de recursos e metodologias 
aliadas às tecnologias da comunicação e informação; e criação de um hub de 
informação e tecnologia para agricultura familiar (Brasil, 2020). 
A demanda suscita algo importante, que é pensar que o profissional da 
extensão precisa se atualizar para compreender seu papel na Ater Digital e como 
usar as tecnologias como ferramentas. Esse é um desafio, pois a maioria dos 
estados não investe de forma intensiva na contratação ou concursos para esses 
profissionais; em alguns, a defasagem do quadro funcional das Ater’s é de 
décadas. 
Segundo Zuin et al. (2022), na Ater Digital com foco na participação e 
atuação dialógica, o duplo ou múltiplo fluxo de dados é fundamental. Isso 
significa que é um processo não apenas de transmissão, mas de envio e 
recebimento de dados. Por isso, é importante que não haja ruídos nem no meio 
nem no contexto ou semântica, como vimos anteriormente a partir do modelo 
matemático da comunicação (Weaver, 1971). 
Assim, ferramentas que integram os usuários são primordiais para essa 
proposta de Ater, como WhatsApp ou Telegram. Desse modo, é fundamental 
entender a forma de uso desses recursos pelos agentes, bem como ter domínio 
deles para fins pedagógicos. É necessário compreender os processos de 
formação de sentido entre os interlocutores, uma vez que pode se consolidar a 
 
 
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partir de várias “formas e caminhos como nos encontros presencias ou de 
maneira remota nas propriedades, em momentos síncronos e assíncronos” (Zuin 
et al., 2022, p. 75). 
Assim, é fundamental que o perfil do profissional de extensão abranja a 
capacidade de mapeamento e demandas de recursos tecnológicos mais 
adequados. Nos casos dos programas de mensagens mencionados acima, além 
de uma série de capacitações on-line e uma massificação no acesso, é 
importante destacar a gratuidade da ferramenta. Outro ponto a se destacar sobre 
o perfil do extensionista na Ater Digital é a capacidade de ajustar a linguagem de 
contato conforme o público, reduzindo aspectos técnicos e garantindo o 
entendimento. Ou seja, como vimos no paradigma matemático da comunicação 
(Weaver, 1971), se o problema é semântico, não basta aumentar a quantidade 
de repetições, mas a variação que ajude a explicar o conteúdo. 
Baseados em resultados de implantação de unidades de Ater Digital, Zuin 
et al. (2022) destacam que é fundamental ao extensionista evitar o 
academicismo em sua linguagem, e sim buscar propostas mais didáticas de 
linguagem, com uma variação linguística mais próxima à trabalhada no campo 
em atuação, ou seja, na comunidade em que será desempenhada a atividade de 
ensino-aprendizado. Os autores reforçam que não se trata de uma linguagem 
mais simples ou complexa apenas, o que se busca é o “exercício de, dentro da 
mesma língua, promover aberturas a novas falas, inclusive, a formasde 
expressões que não incluiriam, necessariamente, a verbalização da palavra” 
(Zuin et al., 2022, p. 76). 
Por fim, o profissional técnico da Ater deve buscar na organização do 
aprendizado no meio digital participativo a intencionalidade na proposta, ou seja, 
sempre pensar que as medidas a serem adotadas, os materiais a serem 
empregados e recursos devem ter uma finalidade relativa ao desenvolvimento 
social e ambiental sustentável no campo. Assim, tal intencionalidade está 
vinculada à proposta da ação de ensino, que busca sempre a "a melhora da vida 
do produtor rural, sua família e funcionários nesses aspectos irá conduzir todas 
as etapas do planejamento didático de uma ação educativa" (Zuin et al., 2022, 
p. 77). 
Outro aspecto que deve fazer parte das preocupações do profissional da 
Ater é afetividade, ou seja, a capacidade de impactar o meio a partir do ensino e 
da extensão. Com isso, são fundamentais a empatia e o perfil didático, que 
 
 
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possibilitam a construção conjunta de conhecimento. Trata-se de um processo 
dialógico (de mão dupla) e dialético, portanto demanda um perfil de humildade 
diante do educando, buscando uma relação dupla de aprendizado, uma vez que 
o extensionista também é impactado pelo meio e pelo processo de aprendizado 
(Zuin et al., 2022). 
Por fim, outro aspecto destacado pelos autores é o planejamento didático, 
ou seja, o profissional deve sempre estabelecer uma organização clara e objetiva 
que crie uma conexão entre ferramentas técnicas e digitais ao conteúdo teórico 
e ao conhecimento que deve ser reproduzido (Zuin et al., 2022). 
TEMA 4 – DIAGNÓSTICO RURAL PARTICIPATIVO: CONCEITO E PASSOS 
Independentemente do formato de Ater que se consolide, algumas 
estratégias são primordiais para quem vai atuar na extensão rural, como o 
mapeamento da realidade local, que visa estabelecer ações e plano de 
desenvolvimento. Uma dessas ferramentas é o Diagnóstico Rural Participativo 
(DRP). Trata-se de um roteiro ou conjunto de instrumentos que possibilita um 
autodiagnóstico por parte das comunidades rurais sobre suas necessidades e 
realidade, para que a partir daí possam realizar um autogerenciamento. Como 
destaca Verdejo (2006, p. 12), a partir do DRP os produtores podem 
“compartilhar experiências e analisar os seus conhecimentos, a fim de melhorar 
as suas habilidades de planejamento e ação. Embora originariamente tenham 
sido concebidas para zonas rurais, muitas das técnicas do DRP podem ser 
utilizadas igualmente em comunidades urbanas”. 
O DRP consiste em uma metodologia de coleta de dados, análise de 
dados e desenvolvimento de um plano de ação. A partir de um procedimento 
objetivo e de uma série de métodos como questionários e formulários, os 
integrantes de uma comunidade podem alcançar um cenário de reflexão sobre 
as situações ou espaço em que vivem e identificar como valorizar diferentes 
opções de melhorar sua condição. Nesse método, a equipe de extensionistas 
orienta o processo, mas evita maior interferência, já que a atuação proativa dos 
produtores é primordial. 
Dentre as vantagens do DRP, podemos destacar que ele estabelece uma 
relação de proximidade entre os produtores e os extensionistas rurais, bem como 
da própria comunidade, pois é uma proposta de mapeamento com atuação 
coletiva. Outro ponto é a melhora do fluxo de informações entre os grupos da 
 
 
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comunidade. Por fim, é um instrumento democrático, que possibilita uma 
atuação equânime de gênero, considerando que a fala é democrática no 
mapeamento e análise. 
Como uma das propostas do diagnóstico é estabelecer a inclusão da 
comunidade, há etapas ou perfis de participação conforme as potencialidades e 
características pessoais de cada um. Assim, a escolha do nível de participação 
deve considerar o perfil da comunidade e a dimensão dos problemas a serem 
resolvidos. Verdejo (2006) indica sete níveis ou escada de participação. Na base, 
está a passividade, que é o estágio em que o projeto estabelece os objetivos e 
atividades com informações coletadas diretamente pelos extensionistas, sem a 
necessidade de acessar ou consultar os beneficiários. 
O segundo degrau é o de fontes de informação, a partir das quais o 
produtor oferece informações à equipe com base em uma pesquisa, mas não 
desempenha papel de definição ou de decisão sobre as ações. O terceiro degrau 
é o da consulta, em que a opinião do produtor ou beneficiário começa a ser 
integrada ao enfoque da pesquisa, mas ainda não há um poder de decisão. Já o 
quadro é o da participação à base de incentivos materiais, em que se propõe "a 
participação em troca de insumos de produção ou de colocar à disposição terras 
com fins de exibição (‘unidade demonstrativa’), mas a possibilidade de intervir 
nas decisões é muito limitada" (Verdejo, 2006, p. 16). 
A quinta etapa da escada é com a participação funcional. Aqui, a proposta 
é de divisão dos produtores em grupos para debate e busca dos objetivos que 
foram indicados anteriormente no projeto; depois, eles assumem definições na 
etapa de execução, e o projeto segue de forma independente (sem a 
interferência dos extensionistas). A sexta etapa é relativa à participação 
interativa, em que há uma participação plena dos produtores no processo. Por 
fim, o processo de autoajuda constituiu o último degrau, em que os produtores 
decidem e executam atividades de forma independente. 
Estabelecidas as premissas de participação, seguimos para a preparação 
do DRP, dividido também em sete etapas sequenciais, listadas a seguir e 
brevemente descritas. Segundo Verdejo (2006, p. 21), integram os sete passos: 
1. Fixar o objetivo do diagnóstico. 
2. Selecionar e preparar a equipe mediadora. 
3. Identificar participantes potenciais. 
4. Identificar as expectativas dos/as participantes no DRP. 
5. Discutir as necessidades de informação. 
6. Selecionar as ferramentas de diagnóstico. 
7. Desenhar o processo do diagnóstico. 
 
 
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Descrevendo cada etapa, iniciamos pela fixação do objetivo. Verdejo 
(2006) orienta que é momento de estabelecer uma finalidade, ou seja, um norte 
a ser seguido com o processo de diagnóstico. Um primeiro aspecto que ajuda a 
pensar nesses objetivos é definir se será um diagnóstico para identificar um novo 
projeto ou para aprimorar e analisar um já existente, ou seja, algo em andamento 
que precisa ser redefinido. Outra tarefa é estabelecer as premissas pontuais, por 
exemplo se o diagnóstico deve observar algo específico ou é mais amplo, como 
uma área da comunidade ou ramo de produção de uma área agrícola. 
Definido o objetivo do diagnóstico, passa-se a indicar e preparar a equipe 
mediadora, que atuará na condução do processo com orientação dos 
extensionistas. É importante pensar que ela deve ser multidisciplinar, a 
considerar as profundidades de análises que serão necessárias, por exemplo: 
acompanhamento de profissionais das ciências agrárias para perceber as 
lógicas relativas à produção; participação de sociólogos para identificar as 
dinâmicas sociais envolvidas na comunidade; participação de economistas para 
ajustar um plano financeiro ou econômico; e outros. 
O terceiro passo é descobrir os participantes potenciais. A equipe 
mediadora busca propor algumas questões básicas que podem ajudar nesse 
processo, como: perceber os grupos de interesses que estão representados nas 
áreas do estudo e os que estão de fora; se há participação de todos os gêneros; 
se existem barreiras linguísticas ou culturais; e quais são as características 
compartilhadas entre os indivíduos da comunidade. 
O quarto passo preparatório é identificar e mapear as expectativas de 
cada produtor com relação à comunidade, à sua área e ao projeto de 
aprimoramento a ser estabelecido no diagnóstico. Nessa etapa, é preciso buscar 
um quadro que indique o que os produtores e demais participantes esperam de 
benefício com o processo. 
O quinto passo é debater as demandasde informação. Um processo de 
diálogo e de inferência ajuda a perceber os dados requeridos à coleta que, em 
geral, está atrelada à identificação da realidade do meio rural, as necessidades 
dos integrantes, os fatores que limitam os potenciais da comunidade, o acesso 
aos recursos naturais, dentre outros pontos (Verdejo, 2006). 
Definir os parâmetros e ferramentas de pesquisa integra a sexta etapa do 
diagnóstico. Aqui, é preciso perceber os objetivos, entender o perfil da 
comunidade a fim de escolher as ferramentas que pode ajudar a obter os dados 
 
 
12 
necessários. Na seleção delas, podemos considerar as seguintes questões: 
"Que ferramentas correspondem às necessidades de informação? Que 
ferramentas preferem os participantes? Que ferramentas produzem informação 
desagregada por gênero? Que informação já existe em relatórios, mapas ou 
estudos?" (Verdejo, 2006, p. 23). 
Por fim, definidas as ferramentas, segue-se para o desenho do 
diagnóstico. Nessa etapa, resolve-se quem integrará a equipe, quando será 
realizado, o cronograma e formas de finalização. 
TEMA 5 – DIAGNÓSTICO RURAL PARTICIPATIVO: MÉTODOS DE COLETA DE 
DADOS E APRESENTAÇÃO 
Retomando os passos do DRP, vamos abordar as ferramentas e a forma 
de finalização do relatório. É importante frisar que todo o processo ocorre em 
três etapas: apresentação da equipe de extensionistas à comunidade, bem como 
os demais integrantes da equipe de apoio; análise da situação dos problemas da 
comunidade, das potencialidades e limitações; e profundidade da análise dos 
dados, buscando o enfoque a partir das soluções (Verdejo, 2006). 
São várias as ferramentas metodológicas que podem ser empregadas, e 
aqui vamos abordar algumas e suas aplicabilidades. A forma mais simples é a 
partir de entrevistas semiestruturadas, por meio das quais podemos estabelecer 
um contato direto com os membros da comunidade, dando voz e vez para que 
expressem suas demandas e percepções sobre a realidade. Essas entrevistas 
partem de algumas perguntas predefinidas e depois se desenvolvem conforme 
as respostas. O ideal é que as perguntas iniciais não sejam muitas, limitando-se 
a 15 no máximo, uma vez que podem demandar tempo para as respostas. 
Verdejo (2006) recomenda algumas posturas na aplicação. Primeiro, no 
que diz respeito às pessoas a serem entrevistadas e ao local da entrevista, é 
preciso que seja um ambiente familiar ou que garanta uma conexão com o 
entrevistado e com um cenário que não prejudique o processo. É importante que 
a pesquisa seja presencial, que seja possível gravar e anotar não apenas o que 
dizem as pessoas, mas as manifestações de expressão facial, o silêncio ou 
demora em responder uma questão etc. Tudo isso pode representar uma 
resposta. Por fim, deve-se buscar perguntas que resultam em respostas abertas, 
ou seja, que não sejam respondidas com um simples “sim” ou “não”. 
 
 
13 
Outra forma de coleta de dados é centrada no extensionista ou nos 
demais membros da equipe de DRP. Trata-se da observação participante, a 
partir da qual pode-se compreender a realidade da comunidade, coletando 
dados pela impressão. Como alguém que acompanha uma rotina ou um 
processo produtivo, o observador mapeia e anota em um caderno ou agenda de 
pesquisa todas as informações que considera pertinentes, como a forma de 
relação entre os integrantes da comunidade, seus papéis, tarefas cotidianas etc. 
Outros recursos também são empregados para auxiliar no processo de 
análise dos dados coletados nas entrevistas ou nas observações (ou ainda em 
outras maneiras, como grupo de discussão, grupo focal etc.). Uma forma de 
pensar em estratégias é a partir de mapas e maquetes, por meio dos quais os 
pesquisadores e extensionistas têm uma visão tridimensional ou ampla do 
espaço. Quando determinado problema está vinculado a uma condição 
geográfica, o mapa ajuda a pensar estratégias a partir de estímulos visuais. 
Conforme aponta Verdejo (2006), o mapa pode ser usado para indicar 
também o estado dos recursos naturais e como estes podem ser empregados 
para aprimoramento da produtividade. Assim, esse instrumento pode indicar 
zonas de habitação, recursos de fauna e flora, espaços de cultivos etc. Outra 
forma de representação visual que pode favorecer a lógica de produtividade é a 
de diagrama de fluxos. A partir de um desenho que indica o fluxo de determinado 
conteúdo ou informação, é possível entender os agentes e caminhos que o 
conteúdo segue. 
Os resultados da análise devem subsidiar um plano de ação com 
elementos quantitativos e qualitativos relativos à melhor das condições de 
produção, condições econômicas e sociais dos produtores junto à comunidade. 
A documentação final do processo do diagnóstico registra todas as etapas, 
desde a idealização e formação das equipes até a análise e identificação das 
atividades e delimitação de um cronograma. 
É essencial que esse relatório seja apresentado à comunidade e a todos 
os integrantes do processo de coleta de dados para conferência e confronto 
antes do fechamento. Isso ajuda também a consolidação de uma leitura sobre a 
realidade da comunidade por parte dos próprios membros dela. 
 
 
14 
FINALIZANDO 
O ambiente digital cria condições de aprimoramento e ampliação das 
atividades de extensão rural. Com isso, mais pessoas conseguem acessar 
serviços de assistência técnica e extensão e aprimorar os processos produtivos 
das suas áreas, melhorar a condições e qualidade de vida das famílias e dos 
espaço em que atuam. A Ater Digital dialógica permite o uso das ferramentas 
tecnológicas para fins de aprendizado e difusão dos avanços técnicos na área 
rural. 
Propostas que mesclam ações virtuais e presenciais conseguem iniciar 
um processo de aprendizado às ferramentas digitais on-line (ou seja, uma forma 
de letramento e inclusão), na mesma medida em que ainda mantêm as ações 
presenciais. Isso favorece o sentimento de pertença e de ação coletiva da 
comunidade. 
 
 
 
15 
REFERÊNCIAS 
BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Programa Ater Digital. Brasília: 
Ministério da Agricultura e Pecuária, 2020. Disponível em: 
. 
Acesso em: 22 fev. 2023. 
VERDEJO, M. E. Diagnóstico rural participativo: guia prático DRP. Brasília: 
MDA / Secretaria da Agricultura Familiar, 2006. 
WEAVER, W. A teoria matemática da comunicação. In: COHN, G. (Org.). 
Comunicação e indústria cultural. São Paulo: Editora Nacional, 1971. p. 25-
37. 
ZUIN, L. F. S. et al. Ater digital participativa: metodologias pedagógicas e 
exemplos de aplicação. Campina Grande: EDUEPB, 2022.

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