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Práticas Integrativas e Complementares em Saúde: Principais Abordagens e Legislação Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof.ª Dr.ª Karina Camasmie Abe Prof.ª Esp. Nidi Maria Camasmie Revisão Textual: Prof. Me. Luciano Vieira Francisco Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) • Introdução; • Histórico da PNPIC (BRASIL, 2006); • Legislação e Marcos Regulatórios Acerca das Práticas Integrativas e Complementares; • Principais Pontos da PNPIC; • Oportunidades e Desafios; • Diagnóstico Situacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS; • Perspectivas das PIC. • Compreender o contexto que originou a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC); • Conhecer o histórico da PNPIC e as principais ações e articulações que permitiram a sua criação; • Identifi car os principais marcos regulatórios e a legislação sobre o tema; • Identifi car os principais objetivos e diretrizes da PNPIC; • Reconhecer as oportunidades e os desafi os que essa política insere no contexto nacional; • Conhecer a disseminação das práticas integrativas e complementares no sistema de saúde, nos municípios brasileiros. OBJETIVOS DE APRENDIZADO Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como seu “momento do estudo”; Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo; No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você tam- bém encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados; Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus- são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e de aprendizagem. Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma Não se esqueça de se alimentar e de se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. UNIDADE Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) Introdução Antes da criação e aprovação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), as experiências na rede pública estadual e municipal não possuíam diretrizes específicas, o que poderia ocasionar acesso aos serviços de modo desigual e, muitas vezes, sem o devido registro, fornecimento adequado de insumos ou ações de acompanhamento e avaliação (BRASIL, 2006). Com a cria- ção de uma política específica, há novos desafios que devem ser discutidos e traba- lhados como, por exemplo, a capacitação dos profissionais que atuarão nesse cam- po de práticas integrativas; no entanto, iniciou-se o processo regulatório dessas práticas, o que pode auxiliar no seu monitoramento, análise situacional e expansão do acesso. Diretrizes: orientações, guias, rumos. São linhas que definem e regulam um traçado ou um caminho a seguir. São instruções ou indicações para se estabelecer um plano, uma ação, um negócio etc. No sentido figurado, diretrizes são as normas de procedimento. Ex pl or Fonte: https://goo.gl/ej88Cv De acordo com a PNPIC, ao se levar em consideração o indivíduo na sua di- mensão global – sem perder de vista a sua singularidade –, a PNPIC contribui para a integralidade da atenção à saú- de, favorecendo a interação das ações e dos serviços existentes no Sistema Único de Saúde (SUS). Estudos têm de- monstrado que tais abordagens contri- buem para a ampliação da correspon- sabilidade dos indivíduos pela saúde, contribuindo, assim, para o aumento do autocuidado (BRASIL, 2006). Histórico da PNPIC (BRASIL, 2006) No final da década de 1970, a Organização Mundial da Saúde (OMS) criou o Programa de Medicina Tradicional, objetivando a formulação de políticas nessa área e o documento intitulado Estratégia da OMS sobre Medicina Tradicional 2002- 2005 e sua atualização, o documento Estratégia da OMS sobre Medicina Tradicio- nal 2014-2023, reafirmando o desenvolvimento desses princípios. No Brasil, a legitimação e institucionalização dessas abordagens de atenção à saúde intensificaram-se a partir da década de 1980. Alguns eventos e documentos merecem destaque na regulamentação e tentativas de construção das políticas Figura 1 Fonte: Getty Images 8 9 nacionais nessa área (BRASIL, 2006; FIGUEREDO; GURGEL; GURGEL JUNIOR, 2014), vejamos: • 1985: convênio entre o Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdên- cia Social (Inamps), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Instituto Hahnemaniano do Brasil, com o intuito de institucionalizar a assistência homeopática na rede pública de saúde; • 1986: a Conferência Nacional de Saúde (CNS), instância máxima de delibera- ção de políticas de saúde, recomendou a implantação da Fitoterapia, Acupun- tura, Homeopatia e outras práticas integrativas e complementares no SUS. Estas recomendações estão explícitas nos relatórios da oitava (1986), décima (1996), décima primeira (2000) e décima segunda (2003) conferências; • 1988: as resoluções da Comissão Interministerial de Planejamento e Coor- denação (Ciplan) números 4, 5, 6, 7 e 8/88, que fixaram normas e diretrizes para o atendimento em Homeopatia, Acupuntura, Termalismo, técnicas alter- nativas de saúde mental e Fitoterapia; • 1995: foi instituído o Grupo Assessor Técnico-Científico em Medicinas Não Convencionais por meio da Portaria GM n.º 2.543, de 14 de dezembro de 1995; • 1999: inclusão das consultas médicas em Homeopatia e Acupuntura na tabela de procedimentos do SIA/SUS (Portaria GM n.º 1.230, de outubro de 1999); • 2001: ocorreu a primeira Conferência Nacional de Vigilância Sanitária, a qual discutiu a necessidade de implantar práticas integrativas e complementares no SUS e incentivar o seu ensino e a sua pesquisa; • 2003: foi constituído um grupo de trabalho no Ministério da Saúde, tendo por objetivo elaborar a Política Nacional de Medicina Natural e Práticas Comple- mentares (PMNPC, ou apenas MNPC) no SUS (atual PNPIC); • 2003: foi publicado o relatório da primeira Conferência Nacional de Assistên- cia Farmacêutica, que enfatizava a importância de ampliação do acesso aos medicamentos fitoterápicos e homeopáticos no SUS; • 2003: relatório final da décima segunda Conferência Nacional de Saúde (CNS), deliberando para a efetiva inclusão da MNPC no SUS (atual PNPIC); • 2004: ocorreu a segunda Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovações em Saúde, que incluiu a PNPIC na agenda nacional de prioridades em pesquisa; • 2005: foi publicado o Decreto Presidencial de 17 de fevereiro de 2005, que criou o Grupo de Trabalho para a elaboração da política nacional de plantas medicinais e fitoterápicos; • 2005: foi publicado o relatório final do Seminário Águas Minerais do Brasil, que indicou a constituição de projeto pilotode termalismo social no SUS; • 2006: foi publicada a Portaria GM/MS n.º 971, com cinco práticas integrati- vas (Homeopatia, Medicina tradicional chinesa, Medicina antroposófica, plan- tas medicinais, Fitoterapia e Termalismo social/Crenoterapia). Essa portaria representa a publicação da PNPIC em sua primeira edição; 9 UNIDADE Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) • 2006: foi publicada também a política nacional de plantas medicinais e fitoterápicos; • 2015: publicou-se a segunda edição da PNPIC; • 2017: foi publicada a Portaria n.º 145, em janeiro, que incluiu no rol de proce- dimentos do SUS as práticas da arteterapia, meditação, musicoterapia, trata- mentos naturopático, osteopático, quiroprático e Reiki; • 2017: publicou-se a Portaria n.º 849, que amplia a PNPIC, incluindo a arteterapia, ayurveda, biodança, dança circular, meditação, musicoterapia, naturopatia, osteo- patia, quiropraxia, reflexoterapia, shantala, terapia comunitária integrativa e ioga. Legislação e Marcos Regulatórios Acerca das Práticas Integrativas e Complementares Para facilitar a consulta aos principais marcos regulatórios, organizou-se o Qua- dro 1 com a descrição e respectiva identificação legislativa: Quadro 1 – Principais marcos regulatórios e legislação das práticas integrativas e complementares em saúde Tipo Número Descrição Decretos Decreto Presidencial n.º 5.813, de 22 de junho de 2006 Aprova a política nacional de plantas medicinais e fi- toterápicos e dá outras providências Portarias Portaria GM n.º 971, de 3 de maio de 2006 Aprova a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no SUS Portaria GM n.º 1.600, de 17 de julho de 2006 Aprova a constituição do Observatório das Experiên- cias de Medicina Antroposófica no SUS Portaria SAS n.º 853, de 17 de novembro de 2006 Inclui na tabela de serviços/classificações do Sistema de Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (SCNES) de informações do SUS, o serviço de código 068 – práticas integrativas e complementares Portaria SAS n.º 154, de 18 de março de 2008 Recompõe a tabela de serviços/classificações do SC- NES (Anexo I) Portaria Interministerial n.º 2.960, de 9 de dezembro de 2008 Aprova o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos e cria o Comitê Nacional de Plantas Me- dicinais e Fitoterápicos Portarias Portaria NR n.º 7/DGP, de 27 de janeiro de 2009 Aprova as normas reguladoras do exercício da Acu- puntura no âmbito do serviço de saúde do Exército Portaria SAS n.º 84, de 25 de março de 2009 Adequa o serviço especializado 134 – práticas inte- grativas – e sua classificação 001 – Acupuntura Portaria DNPM n.º 374, de 1 de outubro de 2009 Aprova a Norma Técnica n.º 001/2009, que dispõe so- bre as “Especificações Técnicas para o Aproveitamen- to de água mineral, termal, gasosa, potável de mesa, destinadas ao envase, ou como ingrediente para o preparo de bebidas em geral ou ainda destinada para fins balneários”, em todo o território nacional na for- ma do Anexo a esta Portaria 10 11 Tipo Número Descrição Portarias Portaria DGP n.º 48, de 25 de fevereiro de 2010 Aprova a diretriz para implantação dos Núcleos de Estudos em Terapias Integradas (Neti) no âmbito do serviço de saúde do Exército Portaria GM n.º 886, de 20 de abril de 2010 Institui a Farmácia Viva no âmbito do SUS Portaria DNPM n.º 127, de 25 de março de 2011 Aprova o roteiro técnico para a elaboração do projeto de caracterização crenoterápica para águas minerais com propriedades terapêuticas utilizadas em comple- xos hidrominerais ou hidrotermais Portaria SAS n.º 470, de 19 de agosto de 2011 Inclui na tabela de serviços/classificações do SCNES, no serviço de código 125 – Farmácia –, a classificação 007 – Farmácia Viva Portaria n.º 533, de 28 de março de 2012 Estabelece o elenco de medicamentos e insumos da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rena- me) no âmbito do SUS Portaria n.º 145, de 11 de janeiro de 2017 Altera procedimentos na tabela de procedimentos, medicamentos, órteses, próteses e materiais especiais do SUS para atendimento na Atenção Básica Portaria n.º 849, de 27 de março de 2017 Inclui arteterapia, Ayurveda, biodança, dança circular, meditação, musicoterapia, naturopatia, osteopatia, quiropraxia, reflexoterapia, Reiki, shantala, terapia comunitária integrativa e ioga à política nacional de práticas integrativas e complementares Portaria n.º 633, de 28 de março de 2017 Atualiza o serviço especializado de 134 práticas inte- grativas e complementares na tabela de serviços do sistema de Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (Cnes) Instruções Normativas Instrução Normativa Anvisa n.º 5, de 11 de dezembro de 2008 Determina a publicação da lista de medicamentos fi- toterápicos de registro simplificado Instrução Normativa Anvisa n.º 5, de 31 de março de 2010 Estabelece a lista de referências bibliográficas para avaliação de segurança e eficiência de medicamen- tos fitoterápicos Resoluções Resolução CNS n.º 338, de 6 de maio de 2004 Aprova a política nacional de assistência farmacêutica Resolução Anvisa-RDC n.º 67, de 8 de outubro de 2007 Dispõe sobre boas práticas de manipulação de pre- parações magistrais e oficinais para uso humano em farmácias Resolução Anvisa-RDC n.º 87, de 21 de novembro de 2008 Altera o Regulamento Técnico sobre Boas Práticas de Manipulação em Farmácias Resolução Anvisa-RDC n.º 95, de 11 de dezembro de 2008 Regulamenta o texto de bula de medicamentos fito- terápicos Resolução Anvisa-RDC n.º 10, de 9 de março de 2010 Dispõe sobre a notificação de drogas vegetais junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e dá outras providências Resolução Anvisa-RDC n.º 14, de 31 de março de 2010 Dispõe sobre o registro de medicamentos fitoterápicos Resolução Anvisa-RDC n.º 17, de 16 de abril de 2010 Dispõe sobre as boas práticas de fabricação de medicamentos Fonte: Brasil (2018) 11 UNIDADE Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) Hierarquia legislativa: I Constituição: é a Lei fundamental, da qual todas as leis são subsidiárias. A Constituição é a Lei mais importante de um país; II Leis: Lei é uma regra de direito ditada pela autoridade estatal e tornada obrigatória para manter, numa comunidade, a ordem e o desenvolvimento; III Decretos: os decretos são decisões de uma autoridade superior, com força de Lei, que visam disciplinar um fato ou uma situação particular. O Decreto, sendo hierarquicamente inferior, não pode contrariar a Lei, mas pode regulamentá-la, ou seja, pode explicitá-la, aclará-la ou interpretá-la, respeitados os seus fundamentos, objetivos e alcance; IV Portarias: são documentos que estabelecem ou regulamentam assuntos específicos; V Resoluções: são normas administrativas provenientes de secretarias ligadas ao Poder Executivo, visando disciplinar assuntos específicos já definidos nos Decretos e Portarias (fonte: SÃO PAULO, [20--?]). Ex pl or Figura 2 – Representação da hierarquia legislativa, sendo o topo da pirâmide a Constituição Federal e sua base, as Resoluções e Normas Fonte: Getty Images Principais Pontos da PNPIC O Ministério da Saúde procurou conhecer as experiências que já eram desenvolvi- das na rede pública dos municípios e Estados. Dessa forma, adotou como estratégia a realização de um diagnóstico nacional. Realizou-se, portanto, uma pesquisa pelo Departamento de Atenção Básica, da Secretaria de Atenção à Saúde, do Ministério da Saúde, no período de março a junho de 2004, por meio de questionário enviado a todos os gestores municipais e estaduais de saúde, no total de 5.560 questionários. Foram preenchidos e devolvidos 1.340 questionários, mostrando que, em alguns municípios e Estados existia a estruturação de algumas dessas práticas integrativas, chegando a 232 municípios, em um total de 26 Estados. A amostra foi considerada satisfatória no cálculo de significânciaestatística para um diagnóstico nacional. 12 13 A Atenção Básica é o primeiro nível de atenção em saúde e se caracteriza por um conjunto de ações de saúde, nos âmbitos individual e coletivo, que abrange a promoção e proteção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnóstico, tratamento, a reabilitação, redução de danos e manutenção da saúde com o objetivo de desenvolver uma atenção integral que impacte positivamente na situação de saúde das coletividades. Ex pl or O SUS é um sistema público e universal de saúde criado a partir da Constituição Federal brasileira de 1988, que foi regulamentado pela Lei Federal n.º 8.080/90, disponível em: https://goo.gl/twYSz Aproveite e acesse também a publicação da política nacional de atenção básica, disponível em: http://bit.ly/1wiLCE6 Ex pl or Objetivos da PNPIC De acordo com o documento publicado da política nacional, são seus principais objetivos (BRASIL, 2006): • Construir a implementação da PNPIC no SUS, principalmente na perspectiva da prevenção de agravos e da promoção e recuperação da saúde, com ênfase na Atenção Básica voltada ao cuidado continuado, humanizado e integral em saúde; • Contribuir ao aumento da resolubilidade do sistema e à ampliação do acesso à PNPIC, garantindo qualidade, eficácia, eficiência e segurança no uso; • Promover a racionalização das ações de saúde, estimulando alternativas inovado- ras e socialmente contributivas ao desenvolvimento sustentável de comunidades; • Estimular as ações referentes ao controle e à participação social, promovendo o envolvimento responsável e continuado dos usuários, gestores e trabalhado- res nas diferentes instâncias de efetivação das políticas de saúde. Diretrizes da PNPIC Segundo o documento da política nacional, a PNPIC possui como diretrizes (BRASIL, 2006): • A estruturação e o fortalecimento das Práticas Integrativas e Complementares (PIC) no SUS se dão mediante: » Incentivo à inserção da PNPIC em todos os níveis de atenção à saúde, com ênfase na Atenção Básica; » Desenvolvimento da PNPIC em caráter multiprofissional para as categorias profissionais presentes no SUS e em consonância com o nível de atenção; » Implantação e implementação de ações e fortalecimento de iniciativas existentes; » Estabelecimento de mecanismos de financiamento; 13 UNIDADE Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) » Elaboração de normas técnicas e operacionais para a implantação e o desen- volvimento dessas abordagens no SUS; » Articulação com a política nacional de atenção à saúde dos povos indígenas e demais políticas do Ministério da Saúde. • Desenvolvimento de estratégias de qualificação para profissionais em PIC no SUS; • Divulgação e informação dos conhecimentos básicos da PIC para profissionais de saúde, gestores e usuários do SUS, considerando as metodologias partici- pativas e o saber popular e tradicional; • Estímulo às ações intersetoriais, de forma a desenvolvê-las integralmente; • Fortalecimento da participação social; • Promover o acesso a medicamentos homeopáticos e fitoterápicos; • Garantia do acesso aos demais insumos estratégicos da PNPIC, com qualidade e segurança das ações; • Incentivar a pesquisa em PIC com vistas ao aprimoramento da atenção à saúde, avaliando eficiência, eficácia, efetividade e segurança dos cuidados prestados; • Desenvolvimento de ações de acompanhamento e avaliação da PIC, para ins- trumentalização de processos de gestão; • Promoção de colaboração nacional e internacional das experiências da PIC; • Garantia do monitoramento da qualidade dos produtos fitoterápicos pelo siste- ma nacional de vigilância sanitária. Diretrizes são orientações, guias, rumos. São linhas que definem e regulam um traçado ou um caminho a seguir. São instruções ou indicações para se estabelecer um plano, uma ação, um negócio etc. No sentido figurado, diretrizes são as normas de procedimento Disponível em: https://bit.ly/36DXcz1 Ex pl or O documento publicado pelo Ministério da Saúde traz informações adicionais sobre a im- plementação das diretrizes que compõem a PNPIC. Acesse-o para se aprofundar nas ações referentes à implantação da política nacional, especialmente no tocante à página 28. Disponível em: https://goo.gl/xCGNt Ex pl or 14 15 Oportunidades e Desafios De acordo com alguns pesquisadores, de modo geral, a implantação da PNPIC no SUS tem recebido pouco apoio, pois ainda há baixo incentivo financeiro, poucos e recentes investimentos em formação e escassa avaliação e monitoramento, sobretudo quanto à inserção das PIC na atenção primária à saúde (SOUSA; TESSER, 2017). Entretanto, existem diversas experiências que contemplam diferentes racionalidades médicas e práticas integrativas e complementares. Segundo o Ministério da Saúde, em 2008, 25% dos municípios brasileiros tinham oferta das PIC, diferenciada con- forme os contextos locais, com forte presença na Atenção Primária à Saúde, princi- palmente na Estratégia Saúde da Família (ESF). As experiências municipais têm sido fruto de arranjos locais e gerado um cenário diversificado de inserção das PIC no SUS (SOUSA; TESSER, 2017). Figura 3 Fonte: Getty Images A partir da revisão global, torna-se evidente que existem várias oportunidades e desafios em relação às políticas, leis e regulamentos nacionais, qualidade, seguran- ça e eficácia das PIC, cobertura de saúde universal e integração dessas práticas nos sistemas de saúde. Embora existam muitas questões sociais e econômicas urgentes, segundo a OMS, o aumento previsto das doenças crônicas é o motivo mais urgente para o desenvolvimento e fortalecimento da colaboração entre os setores de saúde convencionais e as PIC (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2013). 15 UNIDADE Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) Segundo alguns pesquisadores, não se deve desperdiçar as experiências exis- tentes de inserção e integração das práticas integrativas. A significativa e crescente presença das PIC no SUS demanda um raciocínio estratégico para a sua expansão para além da Atenção Básica, enfatizada na PNPIC (SOUSA; TESSER, 2017). Além disso, há um contexto mundial favorável às práticas integrativas e com- plementares, devido à crise dos paradigmas de Medicina Convencional até então vigentes, com seus altos custos e apoio intensivo em tecnologias que observam o indivíduo em partes isoladas. Em termos econômicos, existe um forte mercado internacional de PIC: apenas a Fitoterapia movimenta anualmente na Europa 3,5 bilhões de euros e na China, 14 bilhões de dólares, mostrando crescimento ex- pressivo ano a ano. Atualmente, tal mercado chega a 30% do total do comércio de medicamentos em geral (BRASIL, 2009) com futura expansão. Diagnóstico Situacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS Reiterando informação aqui já passada, o diagnóstico foi realizado pelo Departamento de Atenção Básica, da Secretaria de Atenção à Saúde, do Ministério da Saúde, no período de março a junho de 2004. Essa análise se iniciou com o envio de 5.560 questionários, os quais retornaram 1.342, dos quais 232 apresentaram resultados positivos e demonstra- ram a estruturação de alguma prática integrativa e/ou complementar em 26 Estados, em um total de 19 capitais. Essa amostra foi significativa do ponto de vista estatístico. Observou-se a existência de alguma das práticas em 26 Estados da Federação, com concentração na região Sudeste (Figura 5). Os resultados ainda demonstra- ram que apenas 6% das práticas dispõem de Lei ou Ato Institucional estadual ou municipal criando algum tipo de serviço relativo às práticas integrativas e comple- mentares. Constatou-se também que as ações estão, principalmente, inseridas na Atenção Básica – saúde da família – em todas as práticas contempladas. Figura 4 Fonte: Getty Images 16 17 Quanto à capacitação dos profissionais, as atividades são desenvolvidas prin- cipalmente nos próprios serviços de saúde, seguidas por capacitaçãoem outros centros formadores. SP MG RS PR SC CE ES RJ GO PA PB MA PE SE TO AL AM BA MS PI RN AP RO AC DF MT 50 45 35 30 25 20 15 10 5 0 Figura 5 – Distribuição, por Estado, das práticas integrativas e complementares no SUS (resultado baseado nos questionários respondidos) Para o Ministério da Saúde, a institucionalização das práticas integrativas e com- plementares no SUS pela PNPIC ampliou o acesso a produtos e serviços antes res- tritos à área privada, assim como trouxe o desafio de integrar saberes e práticas nas diversas áreas do conhecimento com o intuito de desenvolver novos projetos transdis- ciplinares na área da Saúde (BRASIL, 2009). O impacto da política alcança diversos campos – econômico, técnico e sociopolítico (AZEVEDO; PELICIONI, 2011). Após dois anos da implantação da PNPIC, o primeiro Seminário Internacional de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde promoveu o intercâmbio de experiências nos sistemas oficiais de atenção à saúde de modelos instituídos em outros países (BRASIL, 2009). Desde então, a inclusão das práticas integrativas e complementares no SUS tem acontecido de forma gradual, como é esperado, em virtude do pouco conhecimento sobre as quais, pela falta de pesquisas na área e pela escassa formação de profissionais qualificados para realizá-las (AZEVEDO; PELICIONI, 2011). Uma edição especial da Revista Brasileira de Saúde da Família, publicada pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2006; AZEVEDO; PELICIONI, 2011), compilou as experiências com tais práticas no SUS nos diferentes Estados e municípios, confor- me resumidas a seguir: • O Estado do Espírito Santo aprovou, em 2008, a proposta de instituciona- lização da política das práticas integrativas e complementares: Homeopatia, Acupuntura e Fitoterapia; • No mesmo ano, o Município de São Paulo criou o Programa Qualidade de Vida com Medicinas Tradicionais e Práticas Integrativas em Saúde; • Em Campinas, SP, há uma Coordenadoria de Saúde Integrativa. Entre as suas várias realizações, destacam-se: a introdução da Medicina tradicional chinesa e Acupuntura e da Homeopatia nas Unidades Básicas de Saúde / Saúde da Fa- mília (UBS/SF), a utilização da Fitoterapia e o Projeto Corpo em Movimento, 17 UNIDADE Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) que oferece as atividades de tai chi chuan, ginástica harmônica, ioga, atualiza- ção terapêutica, ginástica postural, lian gong e osteopatia; • Em Suzano, SP, o Programa Saúde da Família oferece atividades de lian gong realizadas nas UBS/SF e em outros espaços comunitários espalhados por todo o Município; • A Secretaria Municipal de Saúde de Vitória, ES, implantou o Programa de Fi- toterapia, em 1996, oferecendo aos usuários da Atenção Básica medicamentos fitoterápicos; • Em Itajaí, SC, a prática do do-in, associada ao uso da Homeopatia, foi intro- duzida na Atenção Básica / Saúde da Família, em 2006, como uma das estra- tégias de promoção da saúde no Município. Além disso, o Fundo Municipal de Saúde dessa cidade fornece 100% dos medicamentos homeopáticos prescritos pelos profissionais da Atenção Básica aos usuários do SUS; • No Amapá (CRTN), existe um Centro que atua, desde 2004, na assistência especializada em uma variedade de práticas e terapias naturais, entre as quais: Fitoterapia, Geoterapia, Iogaterapia, Acupuntura e Medicina tradicional chine- sa, Homeopatia, terapia da autoestima, Reiki, pilates, Quiropraxia, Bioginásti- ca, tai chi chuan, lian gong, chi gong; • Em Fortaleza, CE, há espaços para ações coletivas e individuais, além de uma farmácia de manipulação, escola para as crianças do bairro e uma UBS onde se desenvolve o Projeto Quatro Varas, com base na terapia comunitária e nas técnicas de massagem; • Ainda em Fortaleza, desenvolve-se o Programa Farmácias Vivas, com orientação para a população sobre como empregar com segurança as plantas medicinais; • No Recife, PE, em 2010, lançou-se o Núcleo de Apoio em Práticas Integrativas e uma equipe de profissionais, instrutores e terapeutas integrativos passou a atuar juntamente com o Programa de Saúde da Família; • Belo Horizonte, MG, desenvolveu o Programa de Homeopatia, Acupuntura e Medicina Antroposófica, atendendo em 21 UBS/SF e em uma unidade mista. Perspectivas das PIC Segundo as pesquisadoras Elaine de Azevedo e Maria Cecília Focesi Pelicioni (2011), da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e da Universidade de São Paulo (USP), respectivamente, percebe-se que as práticas integrativas e com- plementares têm o potencial de revitalizar as discussões da saúde coletiva e estimu- lar mudanças no padrão biologizante e medicalizante do cuidado e da promoção da saúde. Entretanto, evidencia- -se o despreparo político e técnico de profissionais da Saúde para uma atuação efetiva com PIC dentro da realidade do SUS. 18 19 Dessa forma, julga-se fundamental fomentar um amplo processo educativo e polí- tico que contextualize e forme profissionais de Saúde capacitados em algumas práti- cas integrativas e complementares e que seja estimulada e facilitada a especialização em alguma dessas práticas ou em outras racionalidades médicas. É também sugerido que todos os cursos de formação em PIC insiram o conteúdo do SUS e da saúde coletiva em suas formações, de modo a contribuir para o fortalecimento da PNPIC (AZEVEDO; PELICIONI, 2011). Dado que as PIC têm potencial para melhorar a saúde individual, sua integração adequada nos sistemas nacionais de saúde permitirá que os consumidores tenham um ampliado leque de escolhas. Embora a integração possa ser de maior relevância para as populações que vivem com doenças crônicas ou na promoção da saúde, em certas circunstâncias, pode contribuir para o tratamento da doença aguda. A integração apropriada também foi abordada pela doutora Margaret Chan, direto- ra geral da OMS, ao afirmar que: Os dois sistemas de Medicina tradicional (“alternativa”) e ocidental não precisam entrar em conflito. No contexto dos cuidados de saúde pri- mários, eles podem se misturar em uma harmonia benéfica, usando as melhores características de cada sistema e compensando certas fraquezas em cada um. Isso não é algo que aconteça sozinho, mas pode ser realiza- do com sucesso (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2013). Em alguns países, certos tipos de PIC foram completamente integrados no sis- tema de saúde. Na China, por exemplo, a Medicina tradicional e a Medicina con- vencional são praticadas juntas em todos os níveis do serviço de saúde público ou privado (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2013). Segundo o relatório do primeiro Seminário Internacional em Práticas Integrati- vas e Complementares em Saúde, que ocorreu em Brasília, DF, em 2008, é certo que há progressos na situação mundial das PIC, por exemplo, no incremento da informação obtida; isto no fato de que 30% dos países-membros da OMS dispõem de políticas nacionais para PIC, como é o caso do Brasil, bem como de 65% das nações já apresentarem procedimentos legais e de regulação. Logo, grande con- tingente populacional de países em desenvolvimento ou desenvolvidos faz uso das PIC (BRASIL, 2009). É interessante destacar que, antes da década de 1990, apenas cinco nações possuíam regulamentação e políticas voltadas à Medicina complementar. Em 2003, esse número subiu para 44. Em 1986, apenas 14 países tinham regulamentação sobre a Homeopatia, número que, em 2003, foi alterado para 83. Dados encami- nhados pelos diversos povos, em 2007, revelam que: em 48 países, a Medicina complementar estava integrada ao sistema nacional de saúde; em 110 nações foi estabelecida regulamentação para a Fitoterapia; em 62 países existiam institutos de pesquisas voltados à Medicina complementar (BRASIL, 2009). Tais dados mostram a expansão e maior aceitabilidade das PIC, com grandes oportunidades futuras de complementação da Medicina convencional. 19 UNIDADE Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) Material Complementar Indicaçõespara saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Livros A política nacional de plantas medicinais e fitoterápicos: construção, perspectivas e desafios FIGUEREDO, C. A. de; GURGEL, I. G. D.; GURGEL JUNIOR, G. D. A política nacio- nal de plantas medicinais e fitoterápicos: construção, perspectivas e desafios. Physis: Revista de Saúde Coletiva, v. 24, p. 381-400, 2014. Vídeos A PNPIC, seu processo de construção e as práticas contempladas COMUNIDADE DE PRÁTICAS. A PNPIC, seu processo de construção e as práticas contempladas. 2014. https://youtu.be/w7MGvRr1uJ4 Leitura As práticas integrativas na Estratégia Saúde da Família: visão dos agentes comunitários de saúde PARANAGUÁ, T. T. de B. et al. As práticas integrativas na Estratégia Saúde da Família: visão dos agentes comunitários de saúde. Rev. Enferm. UERJ, v. 17, n. 1, p. 75-80, 2009. https://goo.gl/f1LJqJ Práticas integrativas e complementares de desafios para a educação AZEVEDO, E. de; PELICIONI, M. C. F. Práticas integrativas e complementares de desafios para a educação. Trab. Educ. Saúde, Rio de Janeiro, v. 9, n. 3, p. 361-378, nov. 2011. https://goo.gl/LgHQsi 20 21 Referências AZEVEDO, E. de; PELICIONI, M. C. F. Práticas integrativas e complementares de desafios para a educação. Trab. Educ. Saúde, Rio de Janeiro, v. 9, n. 3, p. 361-378, nov. 2011. Disponível em: . Acesso em: 26 jan. 2018. BRASIL. Ministério da Saúde. Práticas integrativas e complementares em saúde: uma realidade no SUS. Revista Brasileira Saúde da Família, 2008. Disponível em: . Acesso em: 25 jan. 2018. ______. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Portal da saúde: informes e legislação. Biblioteca/Estação Multimídia. 2018. Disponí- vel em: . Acesso em: 25 jan. 2018. ______. Política nacional de práticas integrativas e complementares no SUS: atitude de ampliação de acesso. 2. ed. Brasília, DF, 2015. ______. Relatório do 1º Seminário Internacional de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PNPIC). Brasília, DF, 2009. (Série C. Projetos, Programas e Relatórios). ______. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS (PNPIC-SUS). Brasília, DF, 2006. (Série B. Textos Básicos de Saúde). FIGUEREDO, C. A. de; GURGEL, I. G. D.; GURGEL JUNIOR, G. D. A política nacional de plantas medicinais e fitoterápicos: construção, perspectivas e desafios. Physis: Revista de Saúde Coletiva, v. 24, p. 381-400, 2014. SÃO PAULO (Estado). Secretaria dos Transportes. Departamento de Estradas de Rodagem. Manual de produtos perigosos. São Paulo, [20--?]. SOALHEIRO, B.; NUNES A. C. Medicina alternativa. Superinteressante, 31 out. 2016. Disponível em: . Acesso em: 12 jan. 2018. SOUSA, I. M. 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