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A LIBERDADE CRESCER EM LIBERDADE: VIRTUDES O uso do livre arbítrio produz costumes e hábitos. Existe uma classe de hábitos em cuja formação a liberdade de escolha intervém decisivamente. A natureza se aperfeiçoa com os hábitos, já que estes facilitam alcançar os fins do homem. Definimos o homem como um ser intrinsecamente perfectível, quer dizer, que toma a si próprio como tarefa. Se isso é possível é pelo caráter aberto da pessoa: suas possibilidades são limitadas em certo sentido, e estas vão se concretizando por força de escolha. Quer dizer, cada homem é um quem em suas próprias mãos: a mais bela das obras que nos foram encomendadas é a própria história. A responsabilidade neste campo é iniludível. Mas, no desenvolver da vida, existem inumeráveis obstáculos: externos (impedimentos, cantos de sereia, o mal) e internos (o cansaço, a distração, a debilidade da vontade etc.). É preciso fortalecer a capacidade humana. A esta co ado clássico: objetivo de sua vida. A virtude é, portanto, um fortalecimento da vontade, que leva ao rendimento positivo da liberdade. Graças a ela a pessoa adquire uma força que antes não tinha, e pode fazer coisas que antes pareciam impossíveis. Assim também é no campo do esporte: o treinamento permite adquirir facilidade para o esforço. A aquisição da virtude permite aspirar a bens árduos, mais afastados que a satisfação sensível presente, mas cuja consecução exige tempo e esforço. Sem as virtudes morais, o homem fica debilitado para empreender a busca e a conquista de bens árduos. Nem a investigação, nem a busca da verdade, nem a fidelidade à palavra dada, podem ser entendidas sem a virtude da fortaleza. Mas para saber o que é conveniente necessitamos da prudência, e querer ser justos, e não nos deixarmos levar pelas paixões, mas sermos temperados. Prudência, justiça, fortaleza e temperança são os eixos em torno dos quais gira a porta da moralidade. A terceira dimensão da liberdade se chama liberdade moral, que nasce do bom uso da liberdade de escolha e consiste no fortalecimento e ampliação da capacidade humana que se chama virtude. Se o homem escolhe mal, se opta pelo que não lhe convém, lhe sobrevém uma debilidade que se chama vício, hábito negativo que consiste em tornar-se incapaz de aspirar e perseguir bens convenientes e possíveis. Se uma pessoa mente, acaba sendo mentiroso, e lhe custará deixar esse modo de ser. As virtudes e os vícios se obtêm com a prática dos atos que os produzem, atos que no princípio são livres, mas logo não são tanto, pois a inclinação que produz o costume, economizando a decisão, torna mais custoso agir em sentido contrário. Assim, pois, a liberdade moral pode ser um ganho de liberdade, na medida em que a pessoa torna-se capaz de realizar coisas que antes não podia. A principal enriquecimento que a liberdade proporciona. A liberdade cresce ou diminui, em primeiro lugar, dependendo de como se usa. O próprio do homem é conseguir o incremento de sua liberdade. O PROJETO VITAL Se olharmos as coisas agora, não tanto pela perspectiva ética, mas a partir de uma perspectiva vital e existencial, diremos que a terceira dimensão da liberdade consiste na realização da liberdade fundamental ao longo do tempo, quer dizer, na tarefa de viver a própria vida e configurar uma determinada biografia e identidade: a de si próprio. A realização da liberdade consiste no conjunto de decisões que vão delineando a própria vida e na incorporação dos resultados que essas decisões produzem. Com isso, a pessoa opta por um um mecanismo de escolha, de preferência e adiamento. Toda escolha é ao Chama-se projeto vital ao perfil e realização desse conjunto de decisões. A instalação do homem no tempo vai mudando com seu próprio transcorrer. Nela, o homem vai se enfrentando com o futuro enquanto projeta e realiza sua própria vida. E a própria vida se vive para frente. Concretizá-la é decidir-se por um conjunto de trajetórias vitais que nascem das decisões tomadas por cada um em suas circunstâncias, é tomar decisões que acabam decidindo o mapa do mundo pessoal: escolher uma carreira ou outra, casar-se com uma pessoa, aceitar um posto de trabalho, mudar de cidade, sofrer um acidente, ter um filho etc. A biografia de nossa vida se compõe de um feixe de trajetórias concretas que têm a ver com o modo como uso minha liberdade em momentos diferentes, mas também com a felicidade que procuro e não chego a encontrar, com as oportunidades que tenha ou encontre, com as verdades que descubra, os acontecimentos que ocorram etc. Viver é exercer a capacidade de criar projetos, e de levá-los a termo. Daí que, dependendo da ambição dos projetos, as vidas sejam cinzentas, iluminadas, previsíveis, rotineiras, belas, heróicas, aborrecidas etc. Dessa maneira, notamos como a terceira dimensão da liberdade é o desenvolvimento no tempo da liberdade fundamental ou, dito de outra maneira, viver a própria vida, completar a própria biografia. Nesse caminho, a espontaneidade não basta. Se não existe um em direção escolha trivial Por isso, o importante nela são os projetos, o alvo para o qual as trajetórias apontam, o fim que se procura etc. Os clássicos chamavam de magnanimidade à virtude de aspirar ao verdadeiramente importante. Era magnânimo o homem que aspirava a coisas grandes por ser merecedor delas. Nós, hoje, podemos continuar dizendo que todo ser humano merece aspirar a coisas grandes, ainda que sua realização seja difícil. O risco e a dificuldade são próprios das tarefas que valem a pena e dos valores mais altos. Em caso contrário, a vida se converte em um contínuo estúpidas. Se não há um fim alto e atraente, um projeto rico e arriscado, a escolha se reduz ao trivial e a pessoa se empobrece vitalmente. Se existe, a liberdade e o homem mesmo se dilatam de modo irrestrito. Isto quer dizer, de momento, que à sua capacidade de auto-aperfeiçoamento mediante um bom uso da liberdade, a pessoa agrega uma capacidade de colocar-se metas ilimitadamente altas, que estimulam sua ação, e que nascem de certa infinitude de sua inteligência e de sua vontade. Às metas altas que o homem se propõe, se chamam ideais. Um ideal é um modelo de vida que a pessoa escolhe para si e que decide incorporar em suas ações. Converte-se em projeto vital quando se decide seriamente colocá-lo em prática. A terceira dimensão da liberdade consiste em realizar os próprios ideais. Chegar a ser o que a pessoa quer ser, ou não; ter êxito, na tarefa que mais importa, ou fracassar. A LIBERDADE SOCIAL É necessário realizar a liberdade: colocar-se a caminho, levar adiante o próprio projeto vital. Mas essa realização exige que se possa fazer o que a pessoa quer na sociedade. A liberdade social consiste em que os ideais possam ser vividos, e que toda pessoa tenha em suas mãos, a possibilidade de realizar suas metas. Por exemplo, para adquirir uma nova moradia não apenas é necessário que seja permitida a liberdade de residência, mas também que haja moradias a um preço acessível. Além disso, o ambiente social deveria encorajar o exercício da iniciativa na equação dos próprios ideais. Uma sociedade que só sabe ser crítica, ou que esteja demasiadamente ancorada a uma tradição que acaba se tornando uma corrente, atenta também contra o desenvolvimento equilibrado da pessoa. autonomamente podem caracterizar-se como situações de misér A miséria é Miséria significa não poder sair da a superação da situação de necessidade na qual o homem está amarrado. A liberdade social pode ser definida como liberação da falta de recursos econômicos, jurídicos, políticos, afetivos etc. Liberação da ignorância, a pobreza, a falta de propriedade e de trabalho, a opressão política, a ausência de liberdades, a insegurança, a enfermidade, a solidão etc. A miséria é a forma mais grave de ausência de liberdade, porque tolera a falta de bens necessários para a realização da vida humana em sociedade. Não nos esqueçamos, a sociedade diálogo, partilha racional, projetos de trabalho ou de família é o campo no qual, com propriedade, o homem podeinventar o humano. Por isso, a conquista das liberdades segue paralela à liberação da miséria. A partir desse ponto de vista, liberdade significa educação, quer dizer, se proporciona a liberdade ao colocar os meios para que as pessoas que formam uma sociedade tenham a possibilidade de guiar suas próprias vidas. O melhor investimento para o desenvolvimento não está em dar comida, mas em ensinar a criar riqueza. Somente os povos com meios econômicos e de autogoverno podem viver seus próprios fins. De todo modo, não é um processo simples. Não é normal que o melhor seja o mais fácil: a excelência requer virtude, a justiça social também. Além disso, é preciso levar em conta que a utopia (a abolição definitiva de toda miséria) não é nunca completamente realizável, já que a limitação do material nos é própria. Por outro lado, reduzir a liberação ao âmbito material é uma proposta unilateral e limitada, ainda que seja necessária a liberdade social. Habitualmente, o processo de liberação cresce quando se dão oportunidades, ocasiões para que as pessoas possam colocar em prática seus projetos. Se não se concede às pessoas oportunidades reais, a proclamação de liberdade é puramente retórica. As oportunidades são situações que têm de ser aproveitadas em um dado momento porque podem não voltar a acontecer. Na vida ordinária, é um a causa um gasto muito grande de dinheiro em festas ou celebrações que de um modo suspeito se repetem às dezenas a cada ano. É preciso dar ao homem a oportunidade para que dê o melhor de si mesmo. Sem elas, não faríamos nada. O aproveitamento das oportunidades é decisivo. Uma sociedade aberta é aquela na qual a liberdade existe, não apenas em teoria, mas também na prática. Há vários séculos, a América tem sido atraente por este motivo: ali cada um é o causador de seu próprio êxito ou fracasso. Se a postura se radicaliza, como ocorre em alguns pontos dos Estados Unidos, pode- se acabar criando uma sociedade excessivamente competitiva, que não conhece a virtude da piedade para com os que não ganham. Assim, não é estranho encontrar em meio de algumas grandes cidades (Los Angeles, Nova York etc.) bolsões de pobreza muito mais agudos que os que existem em países com um menor índice de desenvolvimento. Apesar desses excessos, uma sociedade fechada entrega tudo resolvido, é menos livre: não há possibilidade - gremial do final da Idade Média. Nele, a sociedade era estática, a vida estava perfeitamente prevista. Quando agimos, nossa conduta afeta os outros e nós próprios: o uso da liberdade e a ação humana modificam as situações. O uso da liberdade tem sempre algumas consequências. É muito corrente falar de liberdade, mas nem sempre se insiste suficientemente em que a pessoa é responsável por seus atos, e pelas modificações que seus atos levem consigo. Consideremos a relação entre a liberdade social e a responsabilidade e autoridade. O excesso de liberdade social, e o consequente defeito de responsabilidade e autoridade, pode ser chamado de permissivismo. É um modo de pensar e agir que hoje chega a ser predominante em muitos países desenvolvidos, em especial a partir de 1968. O permissivismo assume uma tese digna de apoio: o pluralismo, a diversidade e a tolerância são valores irrenunciáveis, que adotam a forma de um ideal ao qual aspirar, a partir do fato evidente de que somos diferentes, e temos de respeitar-nos como somos. O processo cultural dos três últimos séculos na Europa nos ensinou que essa pluralidade não é uma perda, mas, sim, um ganho. De todo modo, não tem sido nem é um processo carente de traumas: basta pensar sobre o tratamento que os emigrantes de países pobres recebem nos diferentes estados ocidentais. O respeito ao pluralismo é um valor que transcende em muito a tolerância do permissivismo. A ideologia tolerante é o desenvolvimento lógico da visão liberal do homem, arraigada principalmente no mundo anglo-saxão e germânico. Segundo essa visão, a liberdade consiste sobretudo na emancipação, quer dizer, independência, autonomia a respeito de qualquer autoridade: considera-se que cada um é a única autoridade legislativa sobre si mesmo e a autoridade civil não é mais que um simples árbitro, que organiza os interesses de indivíduos que escolhem livremente o que querem. A isso lhe acrescentam a ideia eu posso fazer o que quiser enquanto não prejudique. Este seria o único critério para decidir o que se pode ou não se pode fazer? Enquanto não se lese os direitos dos outros, cada um pode agir como lhe agrade. O problema desse princípio está em que na realidade não há nenhuma ação que não tenha influência nos outros, pois cada um ao ou outro sobre os homens que o rodeiem. Ou, o que dá no mesmo, na medida em que o homem é pessoa, sua realização não é independente do resto dos homens, mas tem uma dimensão relacional. A ideia mais que uma abstração racionalista que não quer enfrentar-se com a concretização da vida. O princípio de não causar dano a outros é um critério necessário, mas não é o único. Encerrar as pessoas nesse egoísmo constitutivo é empobrecê-las. A tolerância entendida como permissivismo pretende excluir qualquer forma de reprovação às condutas diferentes das que nós temos. Isto se chama political correctness, o politicamente correto. Consiste em não reprovar ninguém por sua conduta e evitar qualquer sinal que possa ser interpretado como discriminatório. modelos d Sobretudo, se prega um mundo no qual tudo palavras, conteúdos das palavras, a realidade etc. seja evitar um grau de compromisso elevado. A verdade se transtorna pela opinião: o importante é ter algo que dizer, não saber o que são as coisas. Assim, o paradigma da sabedoria é o talk-show televisivo, sempre na condição de que não se chegue a um acordo, de que haja um polêmico e estéril debate de posturas necessariamente enfrentadas. A afirmação da verdade é considerada nvicção subjetiva e incomunicável. Uma coisa é respeitar o pluralismo e outra impor uma tolerância ao preço da perda de todo conteúdo, ao preço da anulação da atitude benevolente: se as coisas são como são, por que não posso exigir que se respeitem? Confunde-se a liberdade com um encontrar-se só, que nega que se possa saber algo sobre a realidade e que , portanto, encerra o sujeito em suas próprias convicções. Visto isso, se nenhum tipo de convicção tem entidade superior ao seu contrário, por que vou ter de incluir, de um modo dogmático, a obrigação de ser tolerante ou respeitar a liberdade do outro? Se nos esquecemos do valor do real e de nosso possível acesso a ele, nos encontramos também sem motivos para sermos tolerantes. Os limites da ideologia tolerante aparecem de um modo especial quando se quer excluir do jogo o que não é tolerante. A partir da absolutização da tolerância, existe algum motivo para não aceitar a intolerância como opção? E se for essa a vontade da maioria de um povo? E se desejam algo que vá contra o próprio ser humano? Novamente, são perguntas que só se podem responder a partir de uma consideração da natureza humana: ou existe uma legalidade que pertence a todo ser humano ou, ante os argumentos da força, só nos resta unir-nos a eles ou fugir. Se o homem deve ser tolerante é porque nele existe uma verdade a ser defendida: o caráter situado de sua liberdade. Quer dizer, a existência dessa combinação entre liberdade e respeito ao que já se é. O defeito contrário à tolerância absoluta está em dizer que a liberdade é menos importante que assegurar que ela seja bem utilizada, e que, portanto, se necessita de uma autoridade forte encarregada de decidir por todos o que deve ser feito. O autoritarismo é uma institucionalização da atitude paternalista, e leva consigo um desprezo pela pessoa já que a considera incapaz de ser responsável por si mesma. O autoritarismo trata seus homens como meninos, como imbecis. O autoritarismo considera que não se pode correr o risco de que as pessoas sejam livres porque agiriam mal, porque não saberiam sê-lo. Hoje em dia, o autoritarismo mais temido se conhece com o fim do fundamentalismo,um amor radicalizado à tradição e de inspiração religiosa. O fundamentalismo costuma apoiar-se em uma doutrina moral muito severa e pode ter ramificações políticas, já que sua intenção é reorganizar a sociedade moral e religiosamente. O justo meio da liberdade social não pode prescindir nem da liberdade nem da autoridade: ambas são necessárias. Para isso, coloca o acento na responsabilidade social das pessoas. Conseguir um uso responsável da liberdade, obriga a preocupar-se com que o sistema educativo transmita valores morais e não apenas conteúdos neutros (o qual, como indicou MacIntyre, não é nenhuma postura neutra). O homem é um ser aberto: portanto, existe uma responsabilidade de ensinar a ser livre por parte dos estratos sociais dedicados à educação (em especial as famílias, mas também as escolas, universidades, meios de comunicação etc.), pois o fato de ser livre não garante que cada sujeito otimize as possibilidades de sua liberdade. Por outro lado, é certa a afirmação de muitos liberais convictos de que a liberdade é o motor da história e da sociedade inteira. A criatividade humana não se desenrola se não for em um clima de liberdade que a permita e alente. Por exemplo, um Estado que não estimule os empresários a investir criará pobreza, não riqueza. A liberdade é especialmente necessária no terreno econômico e social: é preciso um clima de confiança e de apoio à iniciativa privada. Essa é a maior riqueza de uma sociedade. Só os povos livres são capazes de progredir. Quando não há liberdade, a vida social se paralisa, decai a busca da verdade, desaparece a responsabilidade e a iniciativa, sobrevêm novas formas de miséria. Para que tudo isso ocorra, é preciso que a autoridade não seja despótica, mas política, que respeite o ser próprio das pessoas, que tenha uma atitude benevolente para com elas. A autoridade política é aquela que trata aos subordinados como seres livres, capazes de exercer a inteligência: as ordens da autoridade política se dão mediante a linguagem, e se espera que o receptor as entenda e execute, colocando nelas sua própria personalidade, ideia e iniciativa. A autoridade política é a única verdadeiramente adequada para mandar sobre as pessoas humanas. Talvez um menino necessite ser mandado sem opção (por exemplo, é porque seu caráter está sendo forjado: uma educação e um governo é boa quando sabe incentivar os homens a comportarem-se livremente, e mais ainda quando ainda assim sabe coordená-los em uma sinergia de frente para a ação comum. A autoridade política é a que os homens livres se dão a si próprios para governarem-se quando vivem em sociedade. Quando se manda com autoridade despótica sobre pessoas humanas, as rebaixam à condição de instrumentos. Logicamente, encontrar-se nessa situação antinatural leva a movimentos de rebelião e desordem. Em princípio, é muito mais fácil exercer a autoridade despótica do que a política, pois esta última exige o diálogo, a argumentação com raciocínio, e uma abertura à retificação e melhora das ordens. Aceitar o diálogo leva consigo não se considerar onisciente, saber que os outros também são fontes de colaboração e ideias, saber que o que a pessoa propõe pode ser considerado como pior que outras propostas. É mais difícil o governo político porque a retidão do governante não garante que o súdito queira colaborar: existem os preguiçosos, os que não se interessam, os que não querem interessar-se, os que gostam de fazer o mal ou procuram tirar um benefício da atitude confiante do que dirige. É um risco, mas vale a pena: viver na verdade do que é o ser humano, em longo prazo, é fazer justiça à realidade. O difícil é confiar homens. Por sua vez, saber obedecer supõe não tapear as ordens: se os súbitos não aceitam o que comanda, ou não fazem caso dele, a tarefa comum é paralisada. Obedecer não é o mesmo que não pensar sobre o que me mandam, não é converter-se em um instrumento, mas estar disposto a entrar no jogo de realizar uma tarefa comum. Obedecer é uma doação livre do próprio projeto vital enquanto não se entende, mas como parte (e colaboração) de outro projeto maior. No fundo, mandar é mais difícil, mas obedecer não pode por isso entender-se como passividade. Saber mandar e saber obedecer são requisitos necessários para que exista autoridade política. Origina-se nela um fluxo duplo: o que manda emite uma ordem ao que obedece. Este a aceita e a exerce, mas, por sua vez, ante os resultados emite sugestões de mudança, e assim estabelece o refluxo, a aceitação por parte do que comanda, de um diálogo com os subordinados sobre as condições de trabalho, os resultados obtidos etc. Só assim surge melhora real nas relações laborais e nos demais âmbitos nos quais a pessoa cumpre cooperando. Se o que comanda rejeita o refluxo, os subordinados por sua vez, deixam de aceitar o fluxo das ordens, e se interrompe o diálogo: passa-se então às formas de autoridade despótica, se apela para a força como meio de pressão, se abandona o diálogo etc. Quando se confia nas pessoas, elas crescem e aumentam sua criatividade, sua motivação. O que tem de se fazer, é pedir-lhes responsabilidades e conseguir que façam suas as ordens. O melhor modo de fazer crescer a liberdade social é que o que comanda saiba exercer a autoridade política e alente a liberdade e a iniciativa, e que o que obedece aceite as ordens e as execute de modo racional, livre e responsável, aceitando as consequências de sua atuação. Tudo isso pressupõe o diálogo racional, que é o único modo de garantir um uso responsável da liberdade, a única maneira de edificar uma sociedade realmente livre. Referência: FUNDAMENTOS DE ANTROPOLOGIA UM IDEAL DA EXCELÊNCIA HUMANA. Ricardo Yepes Stork, Javier Aranguren Echevarría Tradução: Patrícia Carol Dwyer. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência