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História da Filosofia Antiga Responsável pelo Conteúdo: Prof. Dr. Antonio Auresnedi Minghetti Revisão Textual: Aline Gonçalves A Filosofia Platônica A Filosofia Platônica • Conhecer a teoria platônica das “ideias” das formas eternas e imutáveis que pertencem ao âmbito do inteligível e sua relação com o mundo sensível e o mundo inteligível. OBJETIVO DE APRENDIZADO • Platão; • O Monismo Parcial em Platão; • A Democracia Ateniense – Política em Platão; • A Utopia de Platão; • A “Segunda Navegação” e a Teoria das Ideias; • A Cosmogonia de Platão; • O Conhecimento e a Eidologia em Platão. UNIDADE A Filosofia Platônica Platão Arístocles, exato nome de Platão (428-348 a.C.), nasceu na cidade-estado de Atenas. O codinome Platão, significando ombros largos, foi dado ao pensador em sua juven- tude, em face de seus atributos físicos. Platão foi um dos mais importantes pensadores do período antropológico da filosofia grega; discípulo de Sócrates, optou por uma filosofia fundeada na teoria de que o mundo que percebemos com os sentidos seria ilusório, ambíguo. A partir de Platão, três principais ramos da filosofia se acentuam: • Ontologia: estudo do ser ou da existência. Os filósofos que estudam ontologia indagam sobre o que queremos dizer quando afirmamos que algo existe; • Epistemologia: estudo do conhecimento. Os filósofos que estudam epistemologia questionam o que queremos dizer quando afirmamos que sabemos algo; • Ética (ação): estudo do comportamento moral e social. Os filósofos que estudam ética querem saber o que significa ser uma pessoa e como as pessoas podem e devem agir. Platão fundou um pensamento metafísico próprio, pelo qual colocou em segundo plano a questão do “ser” e das “essências”, como princípio e fundamento apriorístico para a obtenção de quaisquer tipos de conhecimento acerca do mundo. Para Platão, o mundo espiritual seria mais elevado, eterno, seria o locus onde se encontram ver- dadeiramente as ideias, somente acessíveis por meio da razão. O mundo espiritual platônico seria a realidade intelectual, verdadeira e só acessada somente através da racionalidade do ser humano. Distinção entre Mundo Sensível e Mundo Inteligível Em Platão, o mundo sensível seria a realidade com a qual nos defrontamos cotidia- namente, acessada por nossa experiência suprassensível, mas essa realidade é ilusória e inferior, dado levar o ser humano ao erro, motivado pelas aparências das coisas, as quais não correspondem às essências. Para Platão, as ideias que surgem no pensamento são imutáveis, eternas e levam à aquisição de conceitos que conduzem ao conhecimento. No mundo platônico espiri- tual das ideias, estariam as essências das coisas, ou as ideias fixas e imutáveis que delineiam cada ser ou objeto existente. Assim ele escreveu: “As coisas desfazem-se em pó e as ideias ficam” (1993, p. 4). Platão tinha Sócrates como seu mestre e iniciador na Filosofia, enquanto mentor intelectual e amigo. A maioria dos escritos de Platão configura os diálogos socráticos, narrativas em que Sócrates se faz personagem principal. Não obstante a dificuldade his- toriográfica em apartar as teses que seriam inéditas de Platão do exposto por Sócrates, o que se deve ter na consciência é que Sócrates legou a Platão suas principais ideias, ético-políticas, metafísicas e epistemológicas, proliferadas na Academia fundada por Platão, onde se cultivavam as influências socráticas no modo de se ensinar daquele período. 8 9 A dialética platônica, influenciada por Parmênides, constitui-se em determinada téc- nica oral de diálogo filosófico para a obtenção de uma nova ideia, resultante da síntese entre duas ideias opostas, a tese e a antítese. Em Platão surgem as bases do idealismo, doutrina filosófica que atribui ao conheci- mento puramente racional e às ideias a centralidade na busca pela verdade sem proba- bilidade de erros. Considerada como a mais importante e a mais influente, nela Platão criou ideias e conceitos para encontrar a verdadeira essência e o verdadeiro conheci- mento possível dos eventos. Segundo o filósofo, todo o conhecimento e toda a verdade existiria, verdadeira e imutavelmente, em sua forma ideal, que seria suprema e verda- deira. Esse conhecimento ideal estaria no Mundo das Ideias, uma instância metafísica e racional, que só poderia ser obtida por nosso intelecto. Em oposição, aquilo que conhe- cemos por meio de nossos sentidos corpóreos seriam meras ilusões, um conhecimento inferior e falaz. O idealismo platônico permeia tanto aspectos metafísicos quanto aspectos epistemológicos. O Monismo Parcial em Platão Parmênides defendia o monismo e o imobilismo ao propor que toda a existência fosse eterna, imutável, indestrutível, indivisível e, por conseguinte, imóvel. O monismo parmenediano estabelece a existência de uma realidade única, por isso Platão estabe- leceu uma distinção entre realidade e aparência. O monismo, em sua acepção, refere nomeadamente à metafísica, ao defender a con- cepção de que a essência, na realidade, funda-se em um princípio único e original, em contraponto à concepção filosófica dualista, que afirma haver existência de mais de um princípio explicativo para aludir à realidade. Não obstante, quaisquer sejam as interpre- tações, no monismo, entende-se que, por trás da aparência e da pluralidade existencial, o universo consiste em uma substância comum, a qual permite explicar a natureza de todas as coisas existentes. Segundo o dicionário de filosofia de Ferrater Mora (1977, p. 269), no monismo é possível admitir que existe apenas a matéria, ou apenas o espírito, mas que não se deixa de ser monista quando se admite a existência de uma pluralidade de indivíduos, sempre que que estes sejam da mesma substância. É comum utilizar os termos monis- mo e monistas para se referir, respectivamente, à doutrina e aos filósofos que defendem a existência de uma substância única, como o fizeram Parmênides de Eleia (530-460) e Baruch Spinoza (1632-1677). O monismo exibe algumas variantes: • Monismo Ontológico: pensamento metafísico que entende a realidade como for- mada por único elemento originário, o qual pode contrair todo tipo de forma e jeito de se estruturar; • Monismo Materialista: assevera que qualquer realidade se reduz a algo específico, como os átomos, independentemente da forma como se organizam; 9 UNIDADE A Filosofia Platônica • Monismo Espiritualista: reduz toda a existência real e singular a uma invenção da mente humana, com uma característica basal, a de ser espiritual; • Monismo Antropológico: refere um conjunto de doutrinas filosóficas que entende seres humanos a partir de única substância material ou espiritual. Platão segue parcialmente a teoria de Parmênides, transformando-a em uma me- tafísica dualista, o Mundo das Ideias e das Formas e o mundo sensível, opondo-se às doutrinas monistas dos filósofos pré-socráticos, que defendiam a existência de uma substância única e originária para explicar a natureza. Especificamente, Platão afirmava que o ser humano seria uma combinação de alma, um princípio imaterial e imortal, e corpo, uma matéria mortal; por isso Platão pregava que o verdadeiro conhecimento deveria enfocar a parte espiritual do ser humano e não sua dimensão corporal. A con- cepção dualista atinge sua máxima relevância com os filósofos cristãos medievais, que passaram a defender a distinção entre alma e corpo para explicar o homem. A Democracia Ateniense – Política em Platão Platão se interessou pela concepção de democracia ateniense (demo = povo e kracia = governo), partiu de fundamentos e estruturas políticas, consolidadas nas poleis, as cida- des-estados, que em Atenas se tornou uma organização institucionalizada, autônoma e basal para a organização política e social dos atenienses, uma estreita intercomunicação em assembleias populares abertas a todos os cidadãos, as Eclésias, que uniam o po- der público e os cidadãos. A democracia grega requisitava a liberdade eera demandada como um atributo de cidadania, exalando um sentimento de orgulho, não obstante limitações em face dos direitos do Estado, responsabilidades impostas pela disciplina cívica, que impunha a submissão aos prelados estabelecidos, e a sujeição às leis instituídas. No entanto, essa democracia ateniense foi profundamente afetada por uma dicotomia, de um lado o par- ticularismo da cidade, de outro, o universalismo helênico cultural, citado por Platão no livro I da República, o conceito socrático de Areté, a virtude política, praticada na vida pública de forma livre e igualmente por todos em sua plenitude, que confrontava as atribuições condizentes à cidadania porque estava ligado à ideia de érgon, a função que Platão une à Areté do homem, que lhe permitiria cumprir o seu érgon, com o mais alto grau de perfeição, quando então conclui que o homem seria um ser de corpo e alma, com essa última destinada à função de governar, deliberar e dirigir o corpo. O mito de Er é uma história que Platão conta em A República, livro X, referindo um conto que fala de alguém que retornou do reino de Hades, ou mundo inferior, na mitologia grega, uma referência à terra dos mortos. No mito de Er, o essencial é que, fossem quais fossem as injustiças cometidas, as almas injustas pagavam a pena de quan- to houvessem feito em vida, a fim de purificarem a alma. Platão, discípulo de Sócrates, dizia que o poder da virtude era tal que teria repercussões para além da própria e limi- tada vida de um indivíduo. Assim, Platão retoma o tema da imortalidade por meio de 10 11 um mito, que se tornou uma figura literária muito usada na Grécia antiga, mais como O Purgatório, pois, para alguns, representa um nível intermédio entre o Inferno e o Céu. As obras de Platão, em sua maior parte, referem diálogos socráticos, com um tema específico, sem se encerrar nele, o que o distingue dos escritos de Aristóteles, que re- fere temas exclusivos. A Utopia de Platão Em A República, a mais famosa de Platão, uma descrição do paraíso terrestre, foi a primeira grande utopia política ocidental, obra produzida por Platão por volta de 380 a.C., dividida em dez livros escritos em forma de diálogo, no qual Sócrates se faz perso- nagem principal. Na obra, Platão apresenta a procura de Sócrates por um sistema ideal de governo e propõe um tratado sobre teoria política, no qual despontam tanto tendên- cias democráticas quanto totalitárias. Para Platão, o Estado Ideal se constituiria de uma espécie de monarquia intelectual, que atendesse a todos os cidadãos da polis, para tanto, sugere um governo absoluto da sociedade pelos filósofos ou sábios, no qual deveria im- perar um forte igualitarismo, com a divisão de poderes e os tipos de caráter envolvendo o bem e a justiça, que deveriam preponderar entre os ocupantes de cargos públicos. A obra A República marca um influente pensamento político que se convencionou denominar a Utopia de Platão, considerada por ele como fundamental para a edifica- ção de uma ordem social, na qual o protótipo da perfeição seria o elemento norteador da existência de uma coletividade plenamente harmônica e fraterna. A Utopia Platônica idealizava uma organização social altamente hierarquizada, que seria a sociedade ideal, constituída de uma divisão tripartite, conforme a capacidade intelectual de cada indivíduo: • A primeira seria constituída de agricultores, artífices e mercadores, uma cama- da de indivíduos responsáveis pela produção e distribuição de provimentos para a comunidade ; • A segunda seria composta por militares, mais dedicada à defesa da polis ; • A terceira constituiria os Filósofos Governantes, uma classe superior, que se serve da razão em suas atitudes, intelectuais com poder político. Platão exemplifica seu mundo das ideias por meio de uma alegoria, o conhecido Mito da Caverna, também conhecido como a Alegoria da Caverna, metáfora que apresenta uma visão que excede meras aparências, escrito por Platão no livro VII de A República; contém um diálogo de Sócrates, personagem principal, e Glauco, perso- nagem inspirado no irmão de Platão, a exemplificar o modo de governo perfeito por meio da intelecção pura e do conhecimento racional, através de um conto alegórico para explicar a superioridade do conhecimento advindo do Mundo das Ideias e do raciocí- nio, o exercício da razão pelo qual se procura alcançar o entendimento de atos e fatos, no qual se formulam ideias, se elaboram juízos, se deduz algo a partir de uma ou mais premissas, através do método dialético. Esse mito revela a relação estabelecida pelos conceitos de escuridão e ignorância, luz e conhecimento. 11 UNIDADE A Filosofia Platônica O Mito da Caverna, disponível em: https://bit.ly/2BljJXQ Em A República, Sócrates exercita a fantasia e a imaginação de Glauco, solicitando ao jovem conceber uma caverna cuja entrada seria extensa a ponto de não lhe adentrar a luz do sol, e em seu interior existem prisioneiros ali mantidos desde seu nascimento, acorrentados em uma parede, tal que eles somente poderiam ver a parede frontal a eles, na qual sombras formadas por uma fogueira num fosso anterior a eles seriam proje- tadas, refletindo imagens que os fazem acreditar que toda a realidade seriam aquelas sombras, restritas ao mundo refletido naquelas experiências, as quais acreditavam ser a realidade. Certo dia, um dos prisioneiros é liberto por uma razão qualquer e começa a ex- plorar o interior da caverna, descobrindo que as sombras que ele sempre via seriam aleatórias e ocorrentes por trás da fogueira. Esse prisioneiro consegue sair da caverna e encontra uma realidade muito mais ampla, viva e complexa do que a que julgava existir quando estava preso. Primeiro sente um intenso incômodo com a luz solar, que o cega momentaneamente, e, após algum tempo, consegue enxergar e perceber que a realida- de e a totalidade do mundo seriam muito distintas daquilo que ele tinha conhecimento até então. Tomado por um dilema entre retornar à caverna e se submeter ao julgamento de seus companheiros que o achariam um louco e aproveitar a oportunidade de desbra- var o novo mundo que se lhe apresentava. O homem aprende que aquilo que julgava co- nhecer seria fruto de um dolo de seus sentidos, o que comprovaria as limitações destes. A intenção de Platão com a metáfora foi apresentar graus de conhecimento hierar- quizados: Existiria um grau inferior, sensível, que identificaria o conhecimento obtido pelos sentidos do corpo, que permitiria ao prisioneiro ver tão somente as sombras e, em grau superior, o conhecimento racional disponibilizado no exterior da caverna. Por trás da metáfora é possível ler: • Os prisioneiros representam os homens comuns, que se satisfazem com o grau inferior de conhecimento e não procuram o conhecimento racional; • A caverna seria o nosso próprio corpo, cujos sentidos apresentam limitações em seus sentidos, e a caverna seria a única opção de uma sabedoria enganadora e dis- ponível por meio das sombras na parede da caverna; • A saída da caverna seria o movimento em direção ao conhecimento racional e verdadeiro, e abandonar a caverna representaria alçar à sabedoria por meio do entendimento de conceitos racionais; • A luz solar, que no início causaria um inicial desconforto, seria a sabedoria, a única adequada a tornar o ser humano diverso dos outros animais e inteiramente desenvolvido. Alegoria da Caverna No livro “Convite à Filosofia”, de Marilena Chaui, encontram-se possíveis interpre- tações da Alegoria da Caverna de Platão, da qual podemos destacar a seguir. 12 13 As sombras na parede correspondem às percepções, reflexos que identificam o mundo das aparências, ou a realidade perceptível das coisas do mundo físico, e aquilo que se encontra fora da caverna representa as formas ideais, a alegoria, as aspirações. Platão estabelece uma distinção entre o mundo das trevas, da ignorância (a caverna), e o mundo das luzes (o sol), que na alegoria implicaria o conhecimento verdadeiro.A alegoria da caverna mostra o quão difícil é entender a realidade quando ela nos aparece somente na forma como se põe, o que põe em causa justificar que a realidade aparente seria tudo o que existe, ou seja, se faz absolutamente necessário enxergar além das aparências e agir de acordo com a verdade ideal. Dado que jamais tivessem visto coisas outras, os prisioneiros concebem que as sombras vistas são a realidade, não podem saber que são sombras, tampouco poderiam saber que são imagens, nem que exista outro mundo fora da realidade da caverna. Para Platão, as coisas seriam sombras das ideias perfeitas do topus auranios, um local supraceleste, tal que a ele se ascenda somente pelo conhecimento e não pela exata realidade, mas que, através da dialectica ascendente, o homem, antes preso à caverna e submetido aos enganos dos sentidos, poderia se aproximar. A dialética na metafísica de Platão é considerada a ponte capaz de realizar a passagem do mundo sensível para o mundo inteligível, reportada no livro VII da obra A República, que aborda esse diálogo a partir do “mito da caverna” e na sua relevância com o processo da formação de um bom governante para a cidade. A dialética platônica seria um procedimento que consistiria em operar expondo e examinando teses contrárias sobre um mesmo assunto ou sobre a mesma coisa, tal a descobrir qual das teses seria falsa e deveria ser abandonada e qual seria verdadeira e deveria ser conservada, com o objetivo de, ao término, intuir intelectualmente uma essência ou ideia. A interpretação do prisioneiro que se fez liberto indica a cegueira inicial a que é submetido num primeiro momento de liberdade plena e de conhecimento do real, ante a contemplação da própria realidade. Então, conhecedor do mundo, o prisioneiro regressaria à caverna e, desorientado pela escuridão, descreveria aos outros o que viu e tentaria libertá-los. No entanto, seus amigos prisioneiros outros abusariam dele, pois não acreditariam em suas palavras, expondo o liberto ao risco de ser flagelado. No Mito da Caverna existe uma relação íntima entre a Paideia e a Aletheia grega. A Paideia era uma referência ao sistema de educação e formação ética da Grécia Antiga, a qual incluía a Ginástica, a Gramática, a Retórica, a Música, a Matemática, a Geografia, a História Natural e a Filosofia com o objetivo de formação integral de um cidadão, para que fosse perfeito e completo, capaz de liderar e ser liderado e desempenhar um papel profícuo dentro da sociedade. A Aletheia refere o não oculto, o não escondido, o não dissimulado; para os antigos gregos, indicava a verdade e a realidade, simultaneamente. Entendiam que o verdadeiro é aquilo que se manifesta aos olhos do corpo e ao espírito, revelando a verdade, a manifestação pura daquilo que é ou que existe tal como é, tal que o verdadeiro seria o evidente ou o plenamente visível para a razão. Na Aletheia, a ver- dade seria uma qualidade das próprias coisas, tal que o verdadeiro estaria nas próprias coisas. Portanto, conhecer seria ver e dizer a verdade que está na própria realidade e, dessa forma, a verdade dependeria de que a realidade se manifestasse (CHAUÍ, 2002). 13 UNIDADE A Filosofia Platônica O Mito da Caverna propõe uma analogia entre os olhos do corpo e os olhos do espírito, exatamente como na passagem da obscuridade à luz; tal como ocorre com os olhos ofuscados pela luminosidade do Sol, assim também ocorre com o espírito ao pri- meiro contato com a luz da ideia do Bem, que ilumina o mundo das ideias, o eîdos ou as formas inteligíveis, que requisita a visada do olho do espírito. Assim, alegoricamente, a Paideia envolta no mito requisita uma conversão do olhar que, ao deixar de olhar as sombras, passa a olhar as coisas verdadeiras. Todo o texto da Alegoria da Caverna é carregado de uma simbologia muito singular, em que ontologicamente se aloca a realidade sensível e a suprassensível. As sombras projetadas na caverna podem simbolizar as aparências sensíveis, enquanto sua oclusão poderia simbolizar a linha divisória entre esses dois tipos de realidades, e aquilo que se encontra do lado de fora da caverna poderia simbolizar o verdadeiro, conjuntamente com todas as ideias que suscita, como a ideia do bem representado pelo sol. A visão das sombras promove a eikasía ou imaginação, e a movimentação das imagens leva à pístis ou crença em uma pseudoverdade. A experiência do prisioneiro liberto, entre a imaginação do real e a realidade exterior, reflete a dialética humana em seus múltiplos graus e intelecção. A experiência desse jovem não deixa de ter certo aspecto ascético, espiritual, místico e contemplativo, dado que a vida na pura luz representa a vida na dimensão do próprio espírito, onde o passar do sensível para o inteligível implica a libertação das coerções e uma conversão à visão do bem e na contemplação da divindade. Retornar à caverna expressa uma política-educativa, que consiste na libertação dos prisioneiros subjugados às sombras e à ignorância. Nessa ocupação surge o filósofo-po- lítico-pedagogo, o sábio, que se guia pela racionalidade, indica o caminho à liberdade; é a chamada Sofocracia. Neste ponto, convido-os a assistir ao filme Matrix e a estabelecer confluências com a Ale- goria da Caverna de Platão. Matrix – Filme (1999). Disponível em: https://bit.ly/31ApHhW The Matrix, filme de ficção científica e ação dirigido pelas irmãs Lilly e Lana Wachowski, lançado em 1999, se fez um ícone dentro do mundo cyberpunk, um subgênero de ficção científica caracterizado pelo avanço da tecnologia e pela incerteza da vida vivida. O filme revela a aventura de Neo, um hacker que é chamado para o movimento de resistência comandado por Morpheus, que luta contra a dominação dos humanos pelas máquinas. Morpheus lhe oferece dois comprimidos de cores diferentes: com um persistirá na ilusão, e outro deparará a verdade. Matrix, em latim, significa útero, reflete uma distopia, uma narrativa passada em um universo opressivo, totalitário, onde o indivíduo verdadeiramente vive como um feto estático e imerso na matriz; não tem liberdade nem controle sobre si mesmo, algo semelhante ao cenário que Platão constrói, utilizando a filosofia idealista em seu Mito da Caverna. A vinculação entre o mito da caverna de Platão com o filme Matrix se faz evidente, em face de ambos discutirem a natureza do que é real e o processo de conhecimento para se chegar a essa realidade. 14 15 Matrix narra a estória de Neo Anderson, um hacker de computador que, por meio de invasões pela internet, descobre a existência de um estranho programa na rede, a Matrix. Após as invasões, Neo é descoberto e procurado por um grupo que se intitula hackers, os quais alegam saber de uma verdade então desconhecida da maioria das pessoas, deixando a critério do protagonista conhecer a verdade e mudar sua vida para sempre ou continuar sendo enganado pela Matrix e esquecer todas as suas descobertas, no que Neo faz a opção por conhecer a verdade, buscar e encontrar a verdade por trás das aparências. Segundo a prof.ª Marilena Chaui (2005), a condição de Neo Anderson, o protagonis- ta do filme, é semelhante à do prisioneiro do Mito platônico da Caverna, o escravo que consegue se libertar da caverna e que representaria o filósofo. Libertar-se da caverna, em uma linguagem platônica, significa acessar o famoso mundo das ideias, o locus livre de enganos, que está ancorado com as essências puras que envolvem as coisas do mundo. Para Platão, o conhecimento verdadeiro advém das ideias puras residentes no intelecto, em contraste com o conhecimento enganoso, advindo das sensações do corpo. Neo, tal qual o escravo liberto, descobriu existir uma realidade totalmente diversa daquela em que acreditava, o que, no filme, mostra que a responsabilidade pelo engano inicial de Neo seria o Software da Matrix, programado para iludir os humanos e levá- -los a viver na ilusão de um mundo prazeroso, quando, na verdade, se constituía de um estadocaótico. Sócrates defendia que a saída da caverna seria o mesmo que investir em uma busca pelo conhecimento, que ultrapassaria qualquer doutrina, filosófica ou não, que se apre- sentasse como de caráter indiscutível: evidências dúbias, crenças, preceitos, preconceitos e dogmas representados por uma cultura cominada, que impeça o homem de acessar o conhecimento puro. A prof.ª Marilena Chaui comenta determinada cena de Matrix, em que Neo sai pela primeira vez do programa, e a compara com a ocasião na qual o escravo na Alegoria da Caverna sai da caverna pela primeira vez e tem sua visão ofuscada pelo Sol, tendo dificuldades para se habituar com a luz. Da mesma forma ocorre quando Neo se des- conecta e experimenta as insatisfações da vida real, até quando sua mente e seu corpo percebem e aceitam a desconstrução de tudo que ele tinha por certo. Para Chaui, conhecer a verdade permitiria a emancipação do cidadão. Platão encerra o diálogo de sua obra A República, incitando a Causa Universal: O antro subterrâneo é o mundo visível. O fogo que o ilumina é a luz do sol. O cativo que sobe à região superior e a contempla é a alma que se eleva ao mundo inteligível. Ou, antes, já que o queres saber, é este, pelo menos, o meu modo de pensar, que só Deus sabe se é verdadeiro. Quan- to a mim, a coisa é como passo a dizer-te. Nos extremos limites do mun- do inteligível está a ideia do bem, a qual só com muito esforço se pode conhecer, mas que, conhecida, se impõe à razão como causa universal de tudo o que é belo e bom, criadora da luz e do sol no mundo visível, autora da inteligência e da verdade no mundo invisível, e sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos fixos para agir com sabedoria nos negócios particulares e públicos (g.m.). (1993, livro VII) 15 UNIDADE A Filosofia Platônica A “Segunda Navegação” e a Teoria das Ideias À investigação da realidade inteligível, que só poderia ser feita por meio de pensa- mento, Platão denominou de “segunda navegação”, a qual envolveria a descoberta da metafísica, em oposição à investigação dos filósofos naturalistas. Essa segunda navegação” consistiria na descoberta de uma realidade suprassensível, uma dimensão suprafísica do ser, um gênero de ser não físico, a qual os naturalistas tentaram explicar apelando às causas de caráter físico. Para Platão, esse seria um problema basal, ou seja, até que ponto as causas de caráter físico representariam as verdadeiras causas ou constituiriam simplesmente concausas, conjunto de condições preexistentes, suscetíveis de modificar o curso natural dos resul- tados. A questão que suscitava em Platão envolvia saber se a causa daquilo que é físico não estaria em algo não físico. Para encontrar respostas a esse problema, Platão empreendeu aquilo que ele simbo- licamente chamou de “segunda navegação”, uma expressão utilizada na antiga lingua- gem dos homens do mar, a qual se referia ao fato de que, tendo o vento cessado e não mais as velas a impulsionar o barco, recorria-se aos remos, ou seja, o caminhar seguiria seu rumo independentemente das circunstâncias. Segundo Giovanni Reale (1994), essa metáfora refere duas maneiras de navegar: a primeira, na qual o barco é impulsionado pelos ventos, e a segunda, mais exaustiva, com o barco impulsionado por remos: A primeira navegação é feita com velas ao vento, corresponderia àque- la levada a cabo, seguindo os naturalistas e o seu método; A segunda navegação é uma expressão tirada da linguagem dos marinheiros, e sua significação parece ser fornecida por Eustáquio1, que, referindo-se a Pausâneas (geógrafo grego), explica: “Chama-se Segunda Navegação àquela que se leva adiante com remos quando se fica sem ventos”. Esta segunda navegação, feita com remos e ao serem muito mais cansa- tivas e exigentes, corresponde ao novo tipo de método, que leva à conquista da esfera suprassensível. As velas ao vento dos físicos eram os sentidos e as sensações; os remos da segunda navegação são os raciocínios e os postulados. Justamente sobre eles se funda um novo método. (REALE, 1994, p. 52-53) Para Platão, a primeira navegação representaria o percurso da filosofia realizado por meio do vento da filosofia naturalista, enquanto a segunda representaria a na- vegação, realizada sob o impulso de sua construção pessoal. A primeira navegação se revelaria basicamente um desvio de rumo, utilizado pelos filósofos pré-socráticos, que não conseguiram explicar o sensível através do próprio sensível, enquanto a se- gunda navegação se faz do encontro com o suprassensível por meio do ser inteligível. 1 Eustácio de Tessalônica (1115-1195/6), bispo e acadêmico grego bizantino. 16 17 Na primeira navegação, o filósofo ainda é prisioneiro dos sentidos e do sensível, e na segunda, segundo Platão, existe um deslocamento diligente em direção do raciocínio puro adquirido pelo intelecto e pela mente. A Cosmogonia de Platão A cosmogonia de Platão inclui a filosofia natural, exposta em seu diálogo Timeu, tratado teórico em forma de um diálogo socrático, escrito em, aproximadamente, 360 a.C., no qual apresenta especulações sobre a natureza do mundo físico, onde revela o que é permanente, imutável, adquirido pela inteligência e o que está em transformação, adquirido pelo que ele chamou de opinião. No Timeu, Platão apresenta suas concep- ções sobre a origem do universo, cindido entre as divindades e os humanos, e dado que ele seja apreendido por nossas sensações, não poderia ser eterno, não obstante ter sido criado por Deus. Esse mundo platônico surge entre narrativas míticas e especulações de filósofos pré-socráticos, mas Platão exibe uma teoria distinta e ligada ao seu pensa- mento idealista, no qual a relação entre a humanidade e o universo jazem simétricas e a presença do bem permeia a totalidade do universo. No Fédon (2003), Platão escreveu: Pensei nessa possibilidade e receei ficar com alma inteiramente cega, se fixasse os olhos nas coisas e procurasse alcançá-las por meio de um dos sentidos. Pareceu- me aconselhável acolher-me ao pensamento, para nele contemplar a verdadeira natureza das coisas. É muito provável que minha comparação claudique um pouco, pois estou longe de admitir que quem considera as coisas por meio do pensamento só contemple suas imagens, o que não se dá com que as vê na realidade. De qualquer modo, meu caminho foi esse. Em cada caso particular, parto sempre do princí- pio que se me afigura mais forte, considerando verdadeiro o que com ele concorda, ou se trate de causas ou do que for, e como falso o que não afina com ele. Vou expor-te com maior clareza minha maneira de pen- sar, pois quer parecer-me que não a apreendeste muito bem. (PLATÃO, Acrópolis, XLVIII) Platão também se fez famoso por sua “teoria da anamnese” (a reminiscência), de acordo com a qual muitos de nossos conhecimentos não são adquiridos por meio da experiência, mas já conhecidos pela alma na ocasião do nascimento, uma vez que a experiência serve apenas para ativar a memória. A teoria da reminiscência envolvia a alma, sábia e imortal, através da qual po- deríamos, pela memória, distinguir o mundo suprassensível. Ao pensar a teoria da reminiscência, t ambém chamada anamnese, Platão propõe como papel fundamental ao filósofo, fazendo uso da maiêutica socrática, a responsabilidade de fazer a alma re- cordar os conhecimentos que ela já contemplara anteriormente à encarnação no corpo. Para a reminiscência platônica, entre uma vida e outra, a alma imortal contem- plaria as ideias perfeitas do mundo ideal, no entanto, ao reencarnar, olvidaria ideias 17 UNIDADE A Filosofia Platônica apresadas na esfera superior e as reevocaria posteriormente na forma de ideias inatas, daí concluir que a verdade plena não estaria fora do homem, mas em seu interior onisciente. Pitágoras de Samos (571/570-500/490 a.C.) criara a Teoria da Metempsicose, ao asserir à alma prisioneira de um corpo em face de punição de faltas passadas. A encar- nação seria, pois, um encarceramentoprovisório da alma, tal que pela morte do corpo renasceria em outro sucessivamente, via transmigração, até que, purificado pela virtude e pela prática de ritos iniciáticos, fizesse jus à libertação derradeira de toda a sua matéria. Platão reevoca essa retentiva e a distingue em uma bifurcação que implica de um lado a memória (mnèma), e de outro a reminiscência (anamnèsis). Filosoficamente, para Platão, a memória se dividiria em dois andamentos, um inicial, que preservaria o traço inicial, e um segundo, que promoveria sua reevocação, ambos a conferirem certa autonomia à memória na propriocepção de eventos, decorrentes de afastamentos e de aproximações recorrentes, nos quais o instante retentivo se faz o traço mnêmico, cons- titutivo da questão basal da tradição filosófica, quando seu caráter imanente acaba por exceder os liames da pura propriocepção memorial e acaba por revelar o caráter efême- ro da alma na percepção. Platão deparara o problema ligado à memória como um traço inscrito na alma, pelo qual se concederia à reminiscência a condição da possibilidade de ré evocação de uma lembrança armazenada em momentos anteriores. Platão derivou, pois, da Metempsicose pitagórica à Teoria da Reminiscência ou Anamnese, a vida além-túmulo, que surge em forma de mito ao final de seu livro A República. Esse pressuposto contempla o conhecimento humano como saber inato, do qual o conhecer seria o rememorar, fundamento retirado do mito escatológico que tem por protagonista Er, que, após morrer em combate, decorridos dez dias, já em estado de putrefação, retornou do Hades à vida e observou que na outra existência as almas seriam selecionadas, submetidas a um julgamento e penalizadas por quanto de ilícito tivessem feito em vida. Segundo Platão, em A República, Sócrates concebia a alma como atividade pensante do homem ético, incluídas, pois, a consciência e as personalidades intelectual e moral; donde se conclui que cuidar de si mesmo significaria mais que cuidar tão somente do corpo. No Fédon (1981-a), Platão reaviva Sócrates, que, na busca da verdade, afirmou a alma ser enganada por percepções do corpo, por isso sempre na condição de erro. No entanto, Platão, ao buscar o inteligível, retoma a reminiscência em nova configura- ção, em particular, para conhecimentos matemáticos, e conclui que, com os sentidos, se constata a existência de coisas iguais, maiores e menores, quadradas, circulares e outras análogas. Platão vai além no Filebo, onde apresenta o traço da origem sensível na memó- ria, enquanto no Teeteto mostra o traço de origem inteligível e assim direciona a memó- ria ao reconhecimento das essências e do universal para concernir à realidade perceptível. Leszek Kolakowski referiu à teoria da reminiscência: Se Deus, como foi dito, é incompreensível, o fato de observar e saber não é menos incompreensível – O meu (corpo) pode ser um milagre, mas o fato de tornar meu um corpo estranho, não previamente presente em mim, mas convertido num ato de consciência, é o milagre dos milagres. Uma vez que pensamos sobre isto, ainda, sentimos uma tentação de ceder à teoria platônica-augustiniana da anamnese, que conhecemos 18 19 somente aquilo que sempre esteve em nós. Este é um dos caminhos pelo qual podemos abordar a visão do Todo-em-uma-parte: O todo está em nós e esta é a razão pela qual podemos saber alguma coisa (g.m.). (KOLAKOWSKI, 1988, p. 79) Participar de um diálogo filosófico, mesmo que seja um diálogo da alma consigo mesma, implica um afastamento de meras opiniões sobre as coisas para contemplar absolutamente as ideias e, ao recordar tudo o que se viu no mundo das ideias, onde tudo seria eternamente Bom, Belo e Verdadeiro, a alma aspira a se libertar do corpo corrup- tível, no qual está aprisionada, e a voltar para o mundo das ideias. Enquanto isso não ocorre, a alma se afasta de tudo que é ligado ao corpo, dedicando-se à contemplação e à filosofia. Existem almas que se agarram ao corpo e a seus apetites e tomam o efêmero por duradouro, o relativo pelo verdadeiro. Cumpre precisar que se conclui por sensação a competência em decodificar certos aspectos físico-químicos circundantes e intencionados através da recepção de estímulos captados por algum de nossos cinco sentidos: visual, auditivo, tátil, olfativo e gustativo. Porém, para Platão, a memória presentificaria fenômenos vividos não a partir das sen- sações citadas, mas a partir de reminiscências percepcionadas, o que implicaria também especificar o conceito de percepção, que aqui se refere à interpretação dessas sensa- ções, juntadas às informações sensoriais da memória e sua cognição, de modo a formar conceitos sobre o mundo e sobre nós mesmos. Platão, mesmo a distância, segue a proposição dos sofistas Heráclito de Éfeso e Parmênides de Eleia, denominada de relativismo, a qual considerava a inexistência de verdades absolutas, mas apenas verdades relativas que mudariam no decorrer do tempo e, em especial, de uma cultura para outra. Heráclito, responsável pela ideia de que os sentidos nos enganam e de que o mundo estaria em estado de perpétua mudança, uma luta permanente entre constantes opostas, por isso considerado o “pai” da Dialética, pregava que: “o ser é e não é ao mesmo tem- po”; “tudo flui” – tudo estaria em movimento e nada duraria para sempre. Parmênides concorda parcialmente com o estado de mudança permanente de Heráclito, mas admite que existe algo que não muda, a essência de cada ser, a qual permanece inalterada ao longo de seu tempo de existência. Embora nossos olhos vejam mudanças, o que real- mente ocorre é que o “ser” permanece sempre o mesmo, porque o “ser” não se perde. Platão segue ambos os sofistas, mas substitui a palavra essência por modelo ao ad- mitir que as coisas mudariam, mas que seus modelos seriam eternos. Para Platão, a re- alidade estaria sempre mudando, dado que as coisas nascem e morrem, mas ao mesmo tempo também é certo que existem coisas que não morrem, tampouco mudam, porque se essa perenidade não existisse, só restariam meras opiniões, a doxa, que se refere à crença comum, e jamais o conhecimento, a episteme que refere o conhecimento justi- ficado como verdade. Para Platão, o que não muda são as ideias, das quais as coisas são meras cópias; tudo poderia mudar, mas a soma dos ângulos internos de um triângulo será sempre 180 graus; o que sabemos da realidade não é aquilo percebido através dos sentidos, mas, sim, os modelos ideais imutáveis que estão para além das aparências. Dessa forma, seria inútil procurar alguma verdade no mundo sensível, imperfeito e corrupto, quando temos o 19 UNIDADE A Filosofia Platônica mundo das ideias, imutável e inteiramente separado do nosso mundo de meras aparên- cias. Se observarmos João e Maria, veremos seres humanos, mas daí não poder concluir que existiria mais humanidade em João do que em Maria, porque o conceito em si de humanidade não seria parte integrante deles, mas apenas um referencial linguístico sujeito a interpretações muito singulares, daí a inutilidade de se buscar alguma verdade no mundo sensível. Segundo Platão, não apenas ele, mas todos nós sabemos dessa verdade, ou seja, o mundo das ideias é conhecido e apartado do nosso mundo, e só o sabemos porque jazemos nesse mundo de juízos. Segundo Platão, nós nos constituiríamos de uma natureza dual, um corpo corrup- tível e de uma alma imortal, a qual teria sua gênese no mundo das ideias, quando contempla tudo o que existe. Na Grécia Antiga surgiu o eidolon, imagem espiritual de uma pessoa viva ou perecida, uma aparição com forma humana, tal qual aquelas sombras reportadas por Platão em sua Alegoria da Caverna, sombras da realidade. O Conhecimento e a Eidologia em Platão Em Platão surge a Eidologia, ideias, formas, comprovações, percepções fundidas nas opiniões e nos conhecimentos de cada ser racional, mais precisamente a episteme das coisas, como forma de superar a dicotomia entre Heráclito e Parmênides. Platão pensa doismundos que interagem entre si: o mundo real e sensível (material) é totalmente mutável pelas percepções da pluralidade das coisas, e o mundo das ideias, do Eidos, no qual cada ideia prevalece única, imutável e independente de opiniões quaisquer. Para Platão, a verdadeira filosofia se recusa à relativização da verdade, no que recusa a solução sofista, de justiça e injustiça, quando ali não passaria de convenções causais. Para Schuback: “(...) seguir o Eidos das coisas significa seguir os limites de seu contorno” (1999, p. 172). Esses limites implicam poder ver no já visto o não visto, ou seja, ver no passado o presente do futuro, o que nos coloca no entre-ser, o sendo no limite e não limite do ser. O conceito de Eidologia implica que toda imagem se apresente com uma dupla refe- rência; por um viés, apresenta o imaginado, e por outro, afirma-se a si mesma como pertencendo a um eu, um mundo de representações de um Ego, que lhe constitui. Não posso, pois, representar algo sem que se lhe atribua ao meu Ego, no que se constituirá de parte dele, sua representação. A eidologia como ciência das imagens, em Platão, se opõe à sensação, se opõe à Episteme (ciência demonstrativa, operando sobre essências). Para Platão, o nosso corpo faz parte do Mundo dos Sentidos, enquanto nossa alma faz parte do Mundo das Ideias, e nosso corpo se deteriora até sua finitude, mas nossa alma não, dado que ela seja imortal, pois se originou do Mundo das Ideias e a ele retornará. Essa é a agonia da alma que, ao conhecer o mundo perfeito, o recordar daquilo que contemplou no mundo das formas ideais e, ao estar acoplada ao corpo no mundo dos sentidos, tudo lhe parecerá imperfeito, quando um grande vazio lhe ocupará, o qual Platão identificará com o desejo de retornar ao Mundo das Ideias. 20 21 Platão derivou para uma teoria política, fundamentada em uma teoria idealista, na qual existiriam três tipos de caráter a moldar as almas dos homens; pode-se dizer que os corpos são instrumentos usados pela alma em sua vontade; por isso Platão definiu o homem como uma alma que se serve de um corpo: • Caráter concupiscível: tipo de alma na qual existe a prevalência dos desejos e das paixões mais animais; • Caráter irascível: tipo de alma na qual prevalecem os impulsos de ira e cólera, agressividade e força ; • Caráter racional: nesse tipo de alma existiria o predomínio absoluto da razão, característica basal de filósofos e pensadores. Imortalidade da alma A teoria platônica sobre a Imortalidade da alma envolvia estarmos presos ao Mundo dos Sentidos, não obstante sabermos da existência de algo superior, porque em algum momento nós estivemos nesse mundo perfeito. Após a morte de Sócrates, Platão fundou sua própria escola de filosofia, chamada de Academia, em homenagem ao deus grego Academus. Em sua Academia, Platão e seus discípulos se dedicaram ao estudo da Filosofia e das Ciências, e, no campo científico, se dedicaram especialmente à Matemática e Geometria. O principal legado de Platão foi, principalmente, uma profunda fé na razão e na virtude, sob o mote de Sócrates, que dizia ser o sábio um virtuoso. Figura 1 – Mosaico da Academia de Platão (Museu Arqueológico, Nápoles) Fonte: Wikimedia Commons 21 UNIDADE A Filosofia Platônica Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Vídeos O Purgatório é uma invenção medieval? Assistir ao vídeo “O Purgatório é uma invenção medieval?” e compará-lo com o “Mito de Er”platônico. https://youtu.be/aaQwy-6Sxiw Filmes Matrix Uma produção australo-estadunidense de 1999, dos gêneros ação e ficção científica, dirigido por Lilly e Lana Wachowski, protagonizado por Keanu Reeves, Laurence Fishburne e Carrie-Anne Moss, e que estabelece conexões com a Sofocracia. https://youtu.be/2KnZac176Hs Leitura A música como causa universal e sua influência na formação do caráter https://bit.ly/3gdp55W Analise o mito da caverna platônica em uma situação hodierna https://bit.ly/2BtX0sw 22 23 Referências BENSON, H. H. et al. Platão. Porto Alegre: Artmed, 2011. (e-book) BONJOUR, L.; BAKER, A. Filosofia: textos fundamentais comentados. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. (e-book) CHAUI, M. Convite à Filosofia. São Paulo: Ed. Ática, 2005. _______ _. Dos Pré-Socráticos a Aristóteles. 2. ed. São Paulo: Cia. das Letras. 2002. CORNFORD, F. M. Antes de depois de Sócrates. Trad. 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