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CAPITULO 0 SEGUNDO REINADO 13 [1840-1889] [...] D. Pedro II compactuou com uma cultura que, ao mesmo tempo que se europeizou com sua presença, tornou-se negra e indígena no convívio, por certo desigual, de tantas culturas. Na dinâmica interna entre estas vingaram a reelaboração e a criação de novas imagens e rituais. Afinal, como explicar a permanência, por quase sessenta anos, de uma monarquia rodeada de repúblicas por todos os lados? Como entender o enraizamento de uma realeza Bragança, mas também Bourbon e Habsburgo, em um ambiente tropical, cercado de indígenas, negros e mestiços? A resposta é estranhar o que parece tão natural em nossos compêndios de História. Longe das luxuosas cortes europeias, a capital da monarquia brasileira, em 1838, possuía cerca de 37 mil pessoas escravizadas numa população total de 97 mil habitantes, e em 1849, em uma população de 206 mil pessoas, 79 mil cativos. Além disso, 75% dos escravizados eram, em média, africanos, dado que indica a importância da população de con na cidade do Rio de Janeiro. Por outro lado, os grupos indígenas, tão afastados da corte e dizimados de forma bastante sistemática, eram convertidos, porém, em símbolo da monarquia. Distantes enquanto realidade, ganhavam vida na representação: nos quadros e alegorias, nas esculturas e nos títulos de nobreza. SCHWARCZ, Lilia. As barbas do D. Pedro II, um monarca nos trópicos. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 14-15. PARA COMPLETAR PALAVRAS-CHAVE A REINSTALAÇÃO DA MONARQUIA - 70 APOGEU DO SEGUNDO REINADO (1850-1870) - 76 DECLÍNIO DO SEGUNDO REINADO (1870-1889) - 99 Digitalizado com CamScannerDiferentemente da América Espanhola, que se fragmentou em diversos países, a América Portuguesa manteve sua unidade, dando origem ao Estado brasileiro. No entanto, essa unidade não esteve garantida após a Independência. A história brasileira foi marcada por diversas revoltas separatistas que, se tivessem sido bem-sucedidas, não estaríamos observando esses dados surpreendentes sobre a dimensão do Brasil. Foi durante o Segundo Reinado que o Estado brasileiro alcançou sua consolidação política e territorial, representado por Dom Pedro II, o governante que ficou mais tempo à frente do poder brasileiro - por quase 50 anos. Estudar essa fase do Império nos permite compreender por que fazemos parte de um país com dimensões continentais e unido, mesmo com todas as suas diversidades regionais e culturais. Neste capítulo, vamos estudar esses 49 anos de governo período em que o Brasil, além de manter sua unidade territorial, envolveu-se em guerras externas, foi o maior exportador de café do mundo, recebeu uma grande leva de imigrantes dos mais diversos países e foi palco de lutas contra a escravidão - questão que nos deixou marcas visíveis até hoje. E EXERCÍCIOS PRECISO REVER FACIL: CONSEGUI INTERPRETAR SEM DIFICULDADES. CONSULTAR ALGUM MATERIAL. DA AJUDA DE UM(A) COLEGA E / ou PROFESSOR(A). Digitalizado com CamScanner1. A reinstalação da monarquia 1.1. Ministério dos Irmãos e as eleições de 1840 A antecipação da maioridade de Pedro II foi um golpe organizado pelos liberais, que se opunham ao governo conservador de Lima. Em 23 de julho de 1840, D. Pedro prestou juramento e assumiu trono, dando início ao período da história brasileira conhecido como Segundo primeiro ministério nomeado por D. Pedro II era formado por políticos liberais e ficou conhecido como Ministério dos Irmãos, porque dele faziam parte Antônio Carlos Ribeiro de Andrada e seu irmão, Martim Francisco, e os irmãos Holanda Cavalcanti (Antônio Francisco e Francisco de Paula). ministério liberal, entretanto, não contava com apoio da Câmara dos Deputados, que, composta pela maioria conservadora, dificultava a ação do Executivo. Para eliminar esse obstáculo, imperador dissolveu a Câmara e convocou novas eleições, que se caracterizaram pela fraude e pela violência entre liberais e conservadores. Por isso, esse episódio ficou conhecido na história como as "Eleições do Cacete". Após esse fato favorável aos liberais, ocorreu uma enorme pressão dos conservadores sobre imperador, qual optou por colocá-los no poder, dissolvendo Ministério dos Irmãos. Assim, D. Pedro II dissolveu ministério liberal e formou outro, cujos membros pertenciam ao Partido Conservador, que, no poder, retomou projeto de centralização. Figura 1. MOREAU, François-René. ato de coroação de Dom Pedro 1842. sobre tela. 238 cm x 310 cm. A coroação de Dom Pedro II. Após assumir efetivamente poder, era hora de organizar Estado brasileiro, processo que foi marcado por disputas políticas entre liberais e conservadores. Digitalizado com CamScanner1.2. A centralização do poder As medidas conservadoras foram retomadas e, juntamente com o exercício do Poder Moderador, o Conselho de Estado foi restabelecido. Era um órgão vitalício, que, junto com o Senado (também vitalício), formou uma oligarquia que comandou a política e a administração do país. o Código do Processo Criminal também foi modificado por uma lei de 1841. Assim, todo o aparelho administrativo e judiciário voltou às mãos do governo central, sendo estabelecida uma rígida hierarquia de cargos e funções. No topo dessa estrutura, estava o ministro da Justiça, que nomeava os chefes de polícia, os comandantes da Guarda Nacional e quase todos os magistrados. A própria Guarda Nacional sofreu intervenções. o princípio eletivo, que na prática não funcionou, foi eliminado por completo. Os oficiais, então, passaram a ser escolhidos pelo governo central ou pelos presidentes de província, que, por sua vez, eram nomeados pelo ministro do Império. Além disso, para serem convocados a assumir os postos, foram aumentadas as exigências de renda dos oficiais. o novo ministério conservador também conseguiu a aprovação de leis que punham fim à autonomia das autoridades das províncias, reforçando ainda mais o poder central. Essas medidas tomadas pelos conservadores acirraram os ânimos dos liberais, que temiam ficar excluídos definitivamente do poder. A situação agravou-se em 1° de maio de 1842, quando o ministério conservador determinou a dissolução da Câmara Liberal sem que ela tivesse se reunido uma única vez, sob a alegação de que tal câmara havia sido eleita por meio da fraude e da violência impostas nas "Eleições do Cacete". Em resposta, os liberais passaram da oposição legal à revolta armada. 1.3. As revoltas liberais de 1842 em São Paulo e Minas Gerais A dissolução da Câmara provocou a eclosão de revoltas liberais em 1842 em São Paulo e Minas Gerais, agravando ainda mais a disputa pelo poder entre o Partido Liberal e o Partido Conservador. Em 17 de maio de 1842, teve início a rebelião em São Paulo, que contou com a adesão do padre Feijó; e, em 10 de junho, Minas Gerais também entrou na luta, tendo à frente os líderes liberais locais Teófilo Otoni e Limpo de Abreu. Os revoltosos das duas províncias pretendiam forçar a queda do ministério conservador. Não havia a pretensão de derrubar o imperador nem de se implantar reformas sociais. Isso evidencia o fato de as camadas populares não terem aderido ao movimento, que ficou limitado a um grupo de proprietários de terra insatisfeitos com as medidas regressistas. As tropas legalistas dominaram facilmente as revoltas, que duraram apenas um mês em São Paulo e dois em Minas Gerais. Os principais líderes foram presos e deportados para Lisboa. Em 1844, foram anistiados pelo imperador e retornaram ao governo, aceitando as regras do jogo político, ou seja, a alternância de liberais e conservadores no poder à custa de fraudes eleitorais e sob o patrocínio do Poder Moderador. 1.4. A política indigenista no Segundo Reinado Durante o Segundo Reinado, a política imperial em relação aos povos indígenas foi influenciada pelo decreto imperial de 1845, o chamado Regulamento de Catequese e Civilização dos Índios. Esse decreto não promoveu grandes alterações em relação ao modo como os indígenas eram tratados, mas indicou a forma como o Império enxergava as comunidades indígenas. Bernoulli Sistema de Ensino 71 Digitalizado com CamScanner13 0 Segundo Reinado (1840-1889) o decreto determinou que os aldeamentos indígenas deveriam ser administrados por um Diretor Geral de escolhido pelo imperador. Esse administrador tinha entre os seus objetivos indicar quais terras eram para plantação comum, quais eram para plantação particular dos e aquelas que deveriam ser arrendadas. Além dessa função, o objetivo do regulamento era empregar a política de assimilação, o que significa a inserção dos indígenas na sociedade imperial, desde que eles deixassem de ser indígenas, tornando-os cidadãos e trabalhadores rurais. o trecho a seguir mostra algumas considerações importantes sobre essa política: As propostas assimilacionistas construíam-se de forma a ressaltar as vantagens que a nova condição de cidadão daria aos índios. Tais propostas eram reforçadas pelas construções dos intelectuais que idealizavam os índios do passado enquanto viam seus contemporâneos como degradados. A solução ideal para eles era, de acordo com esses discursos, integrarem-se à sociedade nacional, tornarem-se cidadãos e terem acesso a propriedades individuais. Valores caros aos índios, como vida comunitária e reciprocidade, eram vistos como negativos e obstáculos ao progresso [...]. ALMEIDA, Maria Regina Celestino. Os índios na História do Brasil no século XIX: da invisibilidade ao protagonismo. Disponível em: https://rhhj.anpuh. org/ RHHJ/article/view/39/29 Acesso em: 21 maio 2021. [Fragmento] o Regulamento de Catequese e Civilização dos Índios revelou, mais uma vez, a visão eurocêntrica dos grupos dominantes, que não respeitavam as identidades dos diversos povos indígenas. Ele tinha como objetivo alterar a forma de organização dos indígenas, contando com intervenção de ordens religiosas responsáveis pela catequização. Esse decreto sofreu, assim, intensa resistência dos povos originários, que buscavam defender os seus territórios e preservar as suas culturas. Figura 2. FRISCH, Albert. Tipos humanos e aspectos naturais. 1867. Foto em papel albuminado, 19 cm 24 cm. Acervo da Biblioteca Uma família de Tapuias em frente à sua casa em Rio Negro-AM. 1.5. A Revolução Praieira (1848-1850) A última rebelião provincial durante o Império teve início em 1848, em Pernambuco, e sua denominação deriva de um jornal liberal o Diário Novo -, cuja sede ficava na Rua da Praia, em Recife, o que deu origem ao Partido da Praia. A revolta se iniciou em meio aos conflitos políticos ocasionados pela reação dos senhores de engenho ligados ao Partido Liberal, insatisfeitos com a perda do controle da província para os conservadores. Ao mesmo tempo, surgiram lideranças das camadas populares, destacando-se, entre outros, Borges da Fonseca. No dia 7 de novembro, teve início o movimento revolucionário, quando os praieiros mais radicais e as forças populares resolveram contestar abertamente o governo central. A fase armada da revolta deu destaque a líderes populares, como Pedro Ivo Veloso, capitão de artilharia muito ligado à massa praieira do interior, que passou a comandar as forças militares de pequenos arrendatários, boiadeiros, mascates, mulatos e negros. 72 Coleção EF8 Digitalizado com CamScannerNo Manifesto ao Mundo (1849), os praieiros apresentaram suas principais reivindicações, como: a nacionalização do comércio, até então controlado pelos portugueses que, por sua vez, deveriam ser expulsos; a completa reforma judicial a fim de assegurar as garantias individuais dos cidadãos; o voto livre e universal; a independência dos poderes constituídos, sem submissão de um a outro; a abolição do Poder Moderador; maior autonomia política para as unidades do Império. Durante o desenvolvimento da revolta, a questão da escravidão provocou divergências entre os revolucionários, já que muitos envolvidos estavam ligados aos escravocratas. Por isso, não foi apresentada, no manifesto, nenhuma reivindicação em defesa dos escravizados. Os praieiros tentaram ocupar Recife, mas foram derrotados pelas forças imperiais sob o comando do coronel José Joaquim Coelho. Borges da Fonseca foi preso e Pedro Ivo acabou por se entregar, confiando na promessa de anistia. Entretanto, acabou sendo condenado, junto com outros companheiros, à prisão perpétua. Ivo conseguiu fugir, embarcando em um navio estrangeiro rumo à Europa, mas acabou morrendo durante a viagem. Em 28 de novembro de 1851, todos os praieiros foram anistiados. 1.6. A introdução do parlamentarismo e a Política de Conciliação Partidária Os desentendimentos entre o Partido Liberal e o Partido Conservador não envolviam ideologias ou orientações políticas tão diferentes entre si, pois ambos os grupos políticos eram, em larga medida, representantes da classe latifundiária. Ambos os grupos desejavam a manutenção da ordem socioeconômica e política vigente. Isso é, desejavam a continuação da concentração fundiária (de terras), a escravidão, o modelo de monocultura para exportação e a exclusão política da maioria da população por meio do voto alfabetizado e controle dos cargos políticos pelas elites. Os desacordos partidários referiam-se principalmente ao desejo de um dos grupos de subir ao poder e mantê-lo, de forma a lucrar com os benefícios obtidos pelo exercício dos cargos públicos. Assim, podemos afirmar que as diferenças entre os partidos não eram irreconciliáveis, o que possibilitou que Pedro II fizesse o arranjo político que veremos a seguir. Haja vista a semelhança nas propostas dos dois grupos e o esfriamento dos ânimos com o controle das revoltas Liberal e Praieira, o ambiente para a grande "Conciliação Partidária" foi preparado nos anos seguintes. Desse modo, o ciclo da "reinstalação da monarquia" completou-se, finalmente, em 1847, com uma ampla reforma institucional promovida pelo próprio imperador. Ele instaurou no Brasil um sistema parlamentarista de governo, inspirado no modelo inglês, ou seja, foi criado o cargo de presidente do Conselho de Ministros, que deveria cumprir a função de primeiro-ministro na estrutura administrativa brasileira. Bernoulli Sistema de Ensino 73 Digitalizado com CamScanner11 12 13 0 Segundo Reinado (1840-1889) de Figura 3. A charge ilustra o funcionamento do parlamentarismo "às o imperador, como um carrossel, exerce seu controle sobre o Partido Liberal (representado pela mulher) e o Partido Conservador (representado pelo homem). Embaixo, a diplomacia gira o carrossel. Apesar da influência inglesa, o parlamentarismo brasileiro era o inverso do modelo europeu e, por isso, ficou conhecido como um parlamentarismo "às avessas". Na Inglaterra, o centro do poder político é o Parlamento, formado por representantes eleitos pelos o partido que tiver a maioria de votos no Parlamento tem o direito de indicar o primeiro-ministro, que é o chefe de governo e que compõe o gabinete (grupo de ministros); juntos, esses dois componentes, exercem o poder Executivo. Nesse caso, o rei é muito mais um símbolo da tradição do que um governante, o que explica a frase, "o rei reina, mas não governa". Já no Brasil, ao contrário, o centro do poder político continuava sendo o imperador que "reina, governa e administra", ou seja, o primeiro-ministro se encontrava subordinado à autoridade do Poder Moderador, representado por Dom Pedro II. Como as eleições eram cheias de irregularidades, a maioria parlamentar costumava pertencer ao partido do presidente do Conselho de Ministros. Desse modo, com esse modelo, D. Pedro assumiu o papel de árbitro do jogo político, comandando o processo de revezamento dos partidos no governo e suprimindo as divergências entre liberais e conservadores, que garantiram para si o poder. Durante o governo imperial, 21 gabinetes (ministérios) ficaram sob o controle dos liberais e 15 sob o controle dos Teve início, então, um período de estabilidade política interna, caracterizada pelo pleno funcionamento das instituições monárquicas. Tudo isso permitiu, inclusive, que, entre 1853 e 1858, passasse a ser adotada a Política de Conciliação Partidária, ou seja, a prática de reunir políticos liberais e conservadores em um ministério. Somam-se a essa estabilidade as novas condições econômicas pelas quais o Império vinha passando, sendo, sem dúvida, a época de maior desenvolvimento da monarquia no Brasil. 74 Coleção EF8 Digitalizado com CamScannerPARLAMENTARISMO INGLÊS Rei Primeiro- Parlamento Eleições Reina, mas Escolha do -ministro Eleições diretas não governa. primeiro-ministro PARLAMENTARISMO AVESSAS" (1847) Imperador Primeiro- Eleições Pedro reina, Nomeia -ministro Parlamento exonera Eleições indiretas governa e Preside conselho Voto Censitário administra. de ministros. Poder de dissolver e convocar ENTENDI EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM 01. Leia o texto a seguir: Tem Sr. Alencar empregado quanto há de arbitrário, pérfido e indigno para intimidar os pacíficos habitantes desta província, a fim de lhes tolher a liberdade de votar e vencer S. Ex. nas próximas eleições, a cujo efeito nada poupa para afinal mostrar-se vitorioso na Corte, fazendo acreditar ser ele o senhor absoluto e exclusivo desta parte do Brasil. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/alm/n2/2236-4633- alm-02-00126.pdf. Acesso em: 11 maio 2021. [Fragmento] o trecho anterior faz parte de uma petição de 1841 contra os desmandos de um político (Sr. Alencar) no Ceará. Baseando-se na petição, CARACTERIZE as eleições no Império. 02. A partir do golpe da maioridade, ocorreu um processo de centralização do poder no Brasil promovido por D. Pedro II e pelos conservadores. EXEMPLIFIQUE essa afirmação. 03. Leia o trecho a seguir: o grito da rebelião acaba de rebentar na pacífica província de Minas. Os agitadores aquelles que sob falsos pretentos tramão contra o Throno Constitucional do senhor D. Pedro II, e contra a nossa liberdade, já começarão a execução de seus planos na cidade de Barbacena, recorrendo às armas, e pondo em coacção as Autoridades constituídas. Disponível em: souza a22revolucao22_de_1842.pdf?m=1508852404. Acesso em: 11 maio 2021. [Fragmento] A) IDENTIFIQUE a rebelião à qual o texto faz referência. B) ANALISE o significado desse movimento. Bernoulli Sistema de Ensino 75 Digitalizado com CamScanner13 0 Segundo Reinado (1840-1889) 04. A Praieira foi a última revolta importante das muitas que ocorreram neste conturbado processo de formação do Estado Imperial. Um novo período teria início a partir de então, e, ao contrário do anterior, seria marcado por uma relativa estabilidade política e social e por uma certa prosperidade econômica. BASILE, Marcello Otávio. o Império brasileiro: panorama político. In: LINHARES, Maria Yedda. (org.) et al. História Geral do Brasil. Rio de Janeiro: Elsevier, 1990. p. 244. [Fragmento] A) EXPLIQUE o fato que determinou o início da Praieira. B) IDENTIFIQUE os segmentos sociais a que pertenciam seus líderes. C) INDIQUE duas reivindicações apresentadas no Manifesto do Mundo, pelos praieiros. 05. Para político do Segundo Reinado, Ferreira Viana, "o partido que sobe entrega o programa de oposição ao partido que desce e recebe deste o programa de governo". ANALISE a afirmação do político citado, sobre o Partido Liberal e o Partido Conservador. 06. Até hoje, o regime parlamentar inglês é conhecido como um modelo clássico de parlamentarismo. Nele se diz comumente "o rei reina, mas não governa". Já o modelo de parlamentarismo que vigorou no Brasil era bem diferente. A) APONTE duas características do sistema parlamentarista, observando o modelo inglês. B) CONTRAPONHA o funcionamento do modelo brasileiro ao do modelo inglês. C) EXPLIQUE por que o sistema parlamentarista foi instituído no Brasil e DETERMINE a época em que esse fato aconteceu. 2. o apogeu do Segundo Reinado (1850-1870) 2.1. A economia brasileira no século XIX A independência política proclamada por Pedro I em 1822 não implicou alterações significativas em nossa economia, que entrou no Segundo Reinado com os mesmos traços coloniais: base agrário-exportadora sustentada pelo latifúndio, pela monocultura e pela mão de obra escrava. Essa situação se manteve porque a classe latifundiária, envolvida no processo da independência, não se interessava por transformações radicais na economia brasileira. Essa manutenção dos traços coloniais atendeu às necessidades inglesas de controlar mercados fornecedores de matérias-primas e de produtos agrícolas e mercados consumidores de produtos industrializados. Uma mudança na estrutura econômica do Brasil Império que se destacou foi o investimento na produção cafeeira, que, durante o Segundo Reinado, alcançou altas de produção e exportação, sendo o produto consumido em escala crescente nos mercados externos, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, tornando-se, assim, o sustentáculo de nossa economia. Nessa época, os tradicionais produtos de exportação brasileiros sofreram uma importante queda dos preços no mercado internacional, em razão da concorrência externa. No caso do açúcar de cana, além da antiga concorrência das Antilhas, entrou no mercado o açúcar de beterraba, produzido principalmente pela França, que passou a ser largamente utilizado nos países europeus, reduzindo ainda mais a faixa de mercado para o produto brasileiro. Por outro lado, o algodão sofreu forte concorrência da produção estadunidense, que abastecia as indústrias têxteis inglesas. 76 Coleção EF8 Digitalizado com CamScannerDurante século XIX, dois outros produtos entraram na pauta das exportações brasileiras: a borracha e o cacau, explorados nas regiões Norte e Nordeste, respectivamente. No final do século, a borracha começou a ser muito utilizada pela indústria europeia, em especial como matéria-prima para pneus de automóveis e bicicletas. o aumento do consumo mundial do cacau também contribuiu para elevar as exportações desse produto, cultivado, principalmente, no sul da Bahia. Por fim, houve uma expansão da atividade industrial no Brasil a partir de 1850. A formação de uma burguesia nacional, ligada ao capital excedente da economia cafeeira, foi um dos principais fatores que contribuíram com a implantação de algumas fábricas com tecnologia importada e algum capital nacional, visando à instalação de um parque industrial. Figura 4. Representação de um seringueiro na Amazônia. A borracha, obtida a partir do das seringueiras, tornou-se produto valorizado no mercado europeu. Brasil exportação de mercadorias (% do valor dos oito produtos principais sobre valor total da exportação) Couros Decênio Total Café Açúcar Cacau Erva-mate Fumo Algodão Borracha e peles 1821-1830 85,8 18,4 30,1 0,5 2,5 20,6 0,1 13,6 1831-1840 89,8 43,8 24,0 0,6 0,5 1,9 10,8 0,3 7,9 1841-1850 88,2 41,4 26,7 1,0 0,9 1,6 7,5 0,4 8,5 1851-1860 90,9 48,8 21,2 1,0 1,6 2,6 6,2 2,3 7,2 1861-1870 90,3 45,5 12,3 0,9 1,2 3,0 8,3 3,1 6,0 1871-1880 95,1 56,6 11,8 1,2 1,5 3,4 9,5 5,5 5,6 1881-1890 92,3 61,5 9,9 1,6 1,2 2,7 4,2 8,0 3,2 1891-1900 95,6 64,5 6,6 1,5 1,3 2,2 2,7 15,0 2,4 COMÉRCIO EXTERIOR DO BRASIL. n. 1, C:E: n n.12-A, de Serviço de Estatística Econômica e Financeira do Ministério da Fazenda apud SILVA, 1953, n. 8. Tabela 1. Bernoulli Sistema de Ensino 77 Digitalizado com CamScanner2.2. A agricultura cafeeira o café, originário da Ásia, chegou ao Brasil no século XVIII, ainda no Período Colonial. Nessa época, era cultivado esparsamente, sem grande valor econômico, destinando-se basicamente ao consumo local. Tratado durante muito tempo como planta exótica, de valor decorativo, passou a ser plantado, no início do século XIX, como gênero de exportação, para atender ao mercado europeu, onde o hábito de consumir o produto começava a ser divulgado. Durante o Período Joanino, o Brasil passava, então, por uma grave crise econômica que coincidia com o da mineração, da exportação do algodão para a Inglaterra e da exportação do açúcar. Assim, D. João VI incentivou sensivelmente a produção cafeeira por ver nela a possibilidade de recuperação econômica do Brasil. Contudo, foi somente no Período Regencial que a lavoura cafeeira atingiu níveis realmente lucrativos no quadro das exportações nacionais. A expansão da agricultura cafeeira no Brasil resultou de uma série de fatores, como: o aumento do consumo do café na Europa e Estados Unidos, valorizando o seu preço nos mercados mundiais; as condições naturais, como as temperaturas amenas, as chuvas regulares e a existência da terra roxa (tipo de solo extremamente fértil); e a disponibilidade de muitos recursos, como a mão de obra escrava, os meios de transporte e os equipamentos. A grande expansão alcançada pelas lavouras exportadoras de café, no decorrer do século XIX, foi o fator mais importante para a recuperação econômica e financeira do Brasil. Ocupando o primeiro lugar na pauta das exportações brasileiras, o café recuperou e sustentou a economia nacional, suprindo quase que 70% do consumo mundial em fins do século XIX. As principais áreas de produção cafeeira o Vale do Rio Paraíba, na sua área fluminense e paulista, e na Zona da Mata de Minas Gerais, constituiu a região mais tradicional de produção do café até 1880. A cafeicultura dessa região manteve a estrutura de produção característica do Período Colonial, baseada no trabalho escravo. Não foi introduzida qualquer mecanização e a sociedade manteve-se patriarcalista, de forma semelhante à sociedade açucareira do Nordeste. o Rio de Janeiro tornou-se o principal centro financeiro do Império, por ser o mais importante porto de escoamento do café. A partir de 1850, também o Nordeste Paulista começou a apresentar uma produção crescente, em que se destacaram as cidades de Campinas, Limeira, Itu, e Sorocaba como importantes centros produtores e exportadores do país. Nessa região, foi mantida a estrutura de produção tradicional, baseada na monocultura, no latifúndio e na mão de obra escrava. Nas décadas de 1870-1880, a cafeicultura do Oeste Paulista conheceu um grande desenvolvimento, expandindo-se em direção a Bauru, São José do Rio Preto, Barretos, Ribeirão Preto e Mogi Mirim. Nessa região, muitas máquinas agrícolas foram introduzidas na produção do café, tornando as fazendas mais especializadas, aumentando sua produtividade etransformando-as em verdadeiras empresas capitalistas. Digitalizado com CamScannerFoi no Oeste Paulista que a lavoura de café sofreu as mudanças mais significativas em sua estrutura de produção, pois, além das máquinas, empregou-se o trabalho assalariado, principalmente do imigrante, a partir de 1850, quando foi proibido o tráfico de pessoas escravizadas. latifundiário assumiu uma mentalidade verdadeiramente empresarial, o que deu origem a uma nova classe enriquecida, conhecida como os "barões do café", que recebia de D. Pedro II títulos de nobreza. Essa nova elite acabou por compor a base conservadora de apoio ao Imperador durante boa parte do Segundo Reinado, em troca D. Pedro II protegeu e auxiliou os barões em sua consolidação econômica. o volume crescente das safras, as grandes distâncias entre as lavouras e o porto de Santos, que se tornou o mais importante do país, e o elevado preço do transporte animal, que se tornou antieconômico, levou os cafeicultores a exigirem do governo a ampliação das redes de transporte, principalmente a construção de ferrovias que pudessem garantir o escoamento mais rápido e mais barato do café até o litoral. Expansão cafeeira N Pires do Rio GO São Governador Valadares ES MG Colatina MT Cachoeiro do Vitória Até 1850 Ribeirão Preto Aracatuba Juiz de Fora De 1850 a 1900 4 Araraquara RJ De 1901 a 1950 2 6 Baur Depois de 1950 Pres. 1 Ourinhes Campinas Maringá Rio de Janeiro 3 Londrina 1. Vale do Paraíba fluminense e paulista 5 SP São Sebastião 2. Zona da Mata mineira Santos 3. Região de Campinas OCEANO 4. Centro-Oeste paulista PR 5. Norte do Paraná Vale do Ivai 0 170 km 6. Sudeste do Mato Grosso do Sul Mapa 1. A importância do café na economia nacional o café contribuiu para a recuperação econômica do Império e permitiu uma estabilidade financeira durante parte da segunda metade do século XIX. Essa situação foi atingida devido à manutenção de uma balança comercial favorável ao país em razão dos altos índices de exportação do produto. A economia cafeeira incentivou a abertura de vias de comunicação, especialmente de estradas de ferro entre o interior e o litoral, e a construção de portos exportadores no Sudeste, dando uma razoável infraestrutura de transportes à região. o dinamismo econômico resultou na criação de uma infraestrutura financeira e comercial com o estabelecimento do Banco do Brasil em 1851. Em 1875, o Brasil já contava com 36 bancos sediados, principalmente, no Rio de Janeiro. Digitalizado com CamScanner2.3. processo de industrialização Fatores favoráveis à instalação de indústrias Até século XIX, Brasil não conheceu nenhum desenvolvimento industrial, porque sistema colonial não permitia. Além do pacto colonial imposto pela não havia uma infraestrutura adequada, que contasse com mão de obra especializada, grande mercado consumidor, transportes e vias de comunicação suficientes. Devemos também levar em conta que a tradição agrária do país fez com que os grupos dominantes não tivessem interesse em tornar Brasil autossuficiente do ponto de vista industrial. É verdade que João VI, durante o Período Joanino, chegou a tomar algumas medidas significativas para a instalação de indústrias na colônia. No entanto, a assinatura de tratados favoráveis à Inglaterra reforçou a concorrência dos produtos ingleses, que eram de melhor qualidade e mais baratos. Foi a partir da década de 1840 que começaram a se desenvolver as primeiras condições realmente propícias à instalação de indústrias no Brasil. Em 1844, o ministro da Fazenda, Manuel Alves Branco, adotou uma nova política em relação aos impostos alfandegários, que foram elevados, modificando as taxas dos produtos importados. Essa medida, conhecida como Tarifa Alves Branco, foi adotada com o objetivo de solucionar o problema do orçamento deficitário, ao aumentar a arrecadação do Estado com as tarifas alfandegárias, mas acabou tendo um caráter protecionista, favorecendo o crescimento de alguns setores econômicos. A medida consistia em elevar os impostos de importação a uma taxa de 60% para os produtos que tivessem similares no Brasil, e de 30% para aqueles produtos que não fossem fabricados no país. A aprovação da Lei Eusébio de Queirós, em 1850, que determinou a abolição do tráfico negreiro para o Brasil, também favoreceu a atividade industrial. A paralisação do tráfico significou a liberação de um grande volume de capitais que, antes investido na compra de escravizados, passou a ser investido em outros setores da economia, como os transportes, o comércio, a indústria e os bancos. A própria expansão da lavoura cafeeira contribuiu para o surgimento das indústrias, porque, à medida que os lucros aumentavam, os cafeicultores animavam-se a investir o capital excedente em outros setores da economia. A Era Mauá o grande empreendedor dessa época foi Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, cujas realizações dinamizaram vários setores e atraíram capitais estrangeiros, principalmente ingleses. Isso porque Mauá tentou desenvolver no país uma gama variada de atividades que iam da construção naval à produção de chapéus. Porém, foi no campo dos melhoramentos urbanos, comunicações e transportes que ele mais se destacou, realizando várias iniciativas pioneiras. Em 1846, por exemplo, Mauá adquiriu um estabelecimento industrial na Ponta da Areia (Rio de Janeiro), onde desenvolveu vários setores de produção: fundição de ferro e bronze, construção naval, caldeiraria, serralheria, mecânica e galvanização. Bernoulli Sistema de Ensino 81 Digitalizado com CamScannerNo setor de transportes, o Barão de Mauá organizou algumas companhias de navegação a vapor. Mas foi nas ferrovias que ocorreram alguns dos principais investimentos do visconde. Em 30 de abril de 1854, foi inaugurada a primeira ferrovia brasileira, ligando a praia da Estrela, no Rio de Janeiro, à raiz da serra de Petrópolis, com os vagões puxados pela locomotiva Baronesa. Foi construída, também, a Estrada de Ferro Dom Pedro II (mais tarde, Estrada de Ferro Central do Brasil) e a Estrada de Ferro entre outras. o Brasil conheceu, nessa segunda metade do século XIX, um considerável progresso material e uma sensível mudança nos modos de vida da população urbana do país, especialmente no Rio de o uso de bondes, a iluminação urbana, a utilização de serviços telegráficos e a fundação de clubes recreativos são reflexos dessa modernização econômica. No entanto, quase sempre os modismos eram de origem inglesa devido à grande influência que a Inglaterra exercia sobre a vida nacional. Figura 5. Barão de Contudo, os esforços de Mauá não tiveram o apoio necessário do Estado, que mantinha um compromisso constante com a elite Na década de 1860, o país abriu-se de novo ao comércio estrangeiro, voltando às relações tradicionais de dependência econômica. Desse modo, a falta de crédito e isenções fiscais, a concorrência e a pressão do capital estrangeiro, além da falta de apoio de outros agentes sociais, provocaram o dos empreendimentos de Mauá, levando-o à falência. Figura 6. Em 1852, o empreendedor brasileiro Irineu Evangelista de Souza, conhecido como Barão de recebeu a concessão para a construção e exploração de uma linha férrea. A estrada de ferro foi inaugurada em 30 de abril de 1854. Digitalizado com CamScannerA partir de 1880, novas condições propícias fizeram com que a industrialização tivesse um novo impulso chegando mesmo a se criar a Associação Industrial do Rio de Janeiro para defender os interesses da burguesia emergente industrial. No fim da monarquia, o país se achava modestamente industrializado na região Sudeste, basicamente no setor de indústrias leves, de consumo como têxteis e alimentícias. ! TÁ NA MÍDIA Mauá o imperador e o rei. Brasil, 1999. Com base em informações biográficas sobre o Barão de Mauá, o filme percorre o universo do século XIX no Rio de Janeiro, apresentando as dificuldades de se promover o desenvolvimento industrial do Brasil em meio a uma sociedade arcaica e escravocrata. ENTENDI EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM 07. A economia brasileira entrou o século XIX com os mesmos traços coloniais. EXPLIQUE essa afirmação. 08. ANALISE o quadro das exportações brasileiras no século XIX (página 77), destacando os novos produtos que passaram a ser comercializados no mercado internacional. 09. Observe a tabela a seguir sobre a expansão das estradas de ferro do Brasil: Região Anos Brasil (km) Região Anos Cafeeira*(km) Brasil (km) Cafeeira*(km) 1854 14,5 14,5 1884 3 830,1 1859 77,9 109,4 1889 5 590,3 1864 163,2 411,3 1894 7 676,6 1869 450,4 713,1 1899 8 13 1874 1 053,1 1904 1879 2 895,7 1906 11 281,3 *Espírito Santo, Rio de Janeiro, Guanabara (antigo Distrito Federal), Minas Gerais e São Paulo (apud SILVA, Sérgio. Expansão cafeeira e origens da indústria no Brasil). RELACIONE a expansão das estradas de ferro no Brasil à economia cafeeira. 10. A partir de meados do século XIX, alguns fatores favoreceram o processo de industrialização brasileiro. A) EXPLIQUE dois desses fatores. B) INDIQUE dois fatores que dificultaram o desenvolvimento industrial do Brasil até a segunda metade do século XIX. Bernoulli Sistema de Ensino 83 Digitalizado com CamScanner13 Reinado 11. marco inicial do processo de expansão das ferrovias no Brasil pode ser identificado em 1854, com a inauguração da Estrada de Ferro INDIQUE responsável por essa iniciativa. CARACTERIZE esse período da história imperial. 2.4. A abolição da escravidão fim do comércio negreiro e suas consequências Desde início da colonização portuguesa no Brasil, o trabalho escravo foi utilizado como principal solução para as atividades econômicas na colônia. A mão de obra cativa tornava a produção mais barata porque no seu preço de custo não se incluíam os gastos com salário. Uma produção barata, vendida a preços elevados no mercado externo, produzia lucros mais significativos. No entanto, do ponto de vista econômico, a utilização dessa mão de obra apresentava também aspectos negativos, como a necessidade de muito capital para a compra de escravizados e a falta de especialização do escravizado que trabalhava em atividades que não conhecia ou às quais não se adaptava. Além disso, a população escravizada não constituía um mercado consumidor que pudesse dinamizar outros setores da economia. A partir do século XVIII, a Revolução Industrial evidenciou ainda mais as contradições desse sistema de trabalho, que não atendia às suas necessidades de mão de obra especializada e de mercados consumidores. Essa nova realidade levou a Inglaterra, interessada na consolidação do capitalismo e em impedir que empresários ingleses investissem no comércio negreiro e não na indústria, a abolir a escravidão em suas colônias das Antilhas em 1807, passando a pressionar e a coagir outras localidades a fazerem o mesmo. Os ingleses invocavam razões humanitárias para a abolição do tráfico negreiro, divulgando que os africanos recebiam péssimo tratamento por parte dos traficantes e que a escravidão era injusta. o Brasil sofreu de perto essas pressões. Assim, em 1810, ao assinar os tratados de comércio com a Inglaterra, D. João VI comprometeu-se a encaminhar a questão da abolição da escravidão e, em 1827, ao assinar a renovação dos tratados, D. Pedro I assumiu a promessa de que, em quatro anos, seria abolido o tráfico de escravizados. De fato, em 1831, o governo regencial promulgou uma lei, de autoria do marquês de Barbacena, de caráter abolicionista em relação à importação de escravizados; entretanto, a lei permaneceu "letra morta", isto é, não foi colocada em prática e não surtiu os efeitos desejados pela Inglaterra. Nessa época, a cafeicultura estava em plena expansão no Vale do Paraíba e o país precisava da maior quantidade possível de braços para a lavoura. Como não havia nenhuma ação concreta por parte do governo brasileiro, em 1845, o Parlamento inglês aprovou uma lei (ou "bill") que tomou o nome de seu propositor, o ministro George Aberdeen, e que ficou conhecida como Bill Aberdeen, pela qual o governo inglês assumia o poder de fiscalizar os mares e os oceanos e impedir qualquer comércio de escravizados, punindo com a apreensão dos navios e o julgamento da sua tripulação por tribunais militares britânicos. No entanto, essa decisão não teve o resultado esperado, pois ocorreu a intensificação do comércio negreiro em razão da expansão cafeeira, que exigia, cada vez mais, a ampliação e a reposição da mão de obra, e do alto preço do escravizado, que compensava os riscos de uma travessia até o Brasil. Se, em 1845, entraram 19 463 escravizado no Brasil, em 1846, chegaram 50 324 escravizados, e a tendência foi de aumentar esse número. o negócio tornou-se perigoso, mas altamente lucrativo. 84 Coleção EF8 Digitalizado com CamScannerA Inglaterra, por sua vez, fechou cerco contra o comércio de escravizados. Entre 1849 e 1851, a Marinha britânica capturou, condenou e destruiu 90 embarcações brasileiras empregadas no tráfico, inclusive dentro de alguns portos brasileiros. Finalmente, em 1850, o governo brasileiro promulgou a Lei Eusébio de Queirós, que abolia definitivamente o comércio negreiro e estabelecia severas penas para os contrabandistas. É a partir de então que podemos falar em tráfico negreiro, uma vez que antes de 1850 era um comércio não só legalizado, como lucrativo e incentivado pela Coroa Essa nova situação resultou no considerável aumento dos preços dos escravizados que já estavam no Brasil, chegando a crescer, em alguns casos, em mais de comércio interno de escravizados entre as províncias brasileiras foi estimulado, e as províncias do Norte, do Nordeste e do extremo Sul do país tornaram-se centros abastecedores das regiões produtoras de café. Esse movimento interno acabou resultando na concentração de escravizados nas grandes fazendas de café do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Vale lembrar que a utilização da mão de obra livre no Brasil em grandes propriedades era rara, pois os mais de três séculos de escravidão haviam incentivado uma desvalorização do trabalho manual, principalmente na lavoura, já que este sempre foi feito pelo escravizado que era considerado inferior. Assim, proprietários de terra ofereciam terríveis condições de trabalho e pagamentos depreciativos, sendo comum castigos físicos e endividamento do trabalhador com o latifundiário. Importação de pessoas escravizadas no Brasil 1845-1852 Ano Quantidade Ano Quantidade 1845 19 463 1849 54 000 1846 1850 23 000 1847 1851 1848 60 000 1852 700 IBGE. Estatísticas históricas do Brasil. 1987. p. 58. Tabela 2. Observe que, a partir de 1850, ocorreu uma significativa redução da entrada de escravizados no Brasil, encerrando-se poucos anos depois da Lei Eusébio de Queirós. A campanha abolicionista e o fim da escravidão A partir de 1850, a abolição da escravidão passou a ser um problema exclusivamente nacional, conduzido, em grande parte, por políticos intelectuais, por grande parcela da população urbana e, em especial, pelo Exército ao final da Guerra do Paraguai. o envolvimento do Exército se justifica, por exemplo, pelo fato de, durante a guerra, o governo alforriar escravizados que se dispusessem a participar da luta. Assim, o ambiente dos acampamentos favorecia o aparecimento de um espírito de camaradagem entre soldados e ex-escravizados. A maior resistência à abolição vinha do Vale do Paraíba, onde os proprietários, acostumados à tradição latifundiária, monocultora e escravocrata, ainda dependiam dos escravizados para o plantio e cultivo do café. Eles admitiam, apenas, uma abolição muito lenta e gradual, pois tinham medo de que a agricultura entrasse em colapso. Além disso, consideravam o escravizado uma propriedade particular e, por isso, desejavam que o Estado lhes pagasse uma indenização mediante cada negro que fosse libertado. Assim, a proposta da abolição lenta, gradual e indenizada marcou toda a campanha abolicionista. Bernoulli Sistema de Ensino 85 Digitalizado com CamScanner13 0 Segundo Reinado (1840-1889) Enquanto as discussões sobre o fim da escravidão aconteciam no Parlamento, a campanha abolicionista ganhou força nos meios urbanos, a partir de 1870. Foram fundados jornais, clubes e associações abolicionistas, cuja ação motivou a intensificação das manifestações e comícios de rua com apoio de profissionais liberais, artesãos, comerciantes, estudantes e políticos, transformando a campanha abolicionista em um movimento de mobilização popular e de pressão sobre o governo. Em 1871, foi apresentado à Câmara um projeto que partiu de um gabinete conservador, presidido pelo visconde do Rio Branco, que suscitou muitos debates e que, ao ser aprovado, resultou na Lei do Ventre Livre ou Lei Rio Branco. Essa lei estabelecia que os filhos de escravizados nascidos a partir da data da lei seriam livres, devendo, porém, permanecer sob a tutela dos senhores até a idade de oito anos. A partir dessa idade, os proprietários poderiam optar ou por entregá-los ao Estado, mediante uma indenização, ou por retê-los até os 21 anos, utilizando-se dos seus serviços, em troca de subsistência. Na prática, essa lei não teve maiores resultados do ponto de vista da libertação dos escravizados, pois poucos meninos foram entregues ao Estado e seus donos continuaram a usar os seus serviços. Na década de 1880, o movimento contra a escravidão ganhou nova força com o aparecimento de novas associações, jornais e líderes abolicionistas de diferentes condições sociais que desempenharam importante papel nessa campanha. Figura 7. Imagens como essas circulavam nos principais jornais brasileiros como forma de criticar a escravidão e apoiar a causa abolicionista. Ângelo Agostini, caricaturista renomado da época, foi um dos responsáveis por realizar trabalhos como esses. No entanto, essas críticas se limitaram à prática escravista. Após a abolição, grande parte da sociedade se silenciou a respeito do destino dos libertos, que ficaram totalmente desassistidos pelo Estado e por todos. Em 1885, foi aprovada a Lei dos Sexagenários ou Lei Saraiva-Cotegipe, que concedia liberdade aos cativos maiores de 60 anos e estabelecia normas para a libertação gradual de todos os escravizados mediante indenização. A lei foi bem recebida pelos escravocratas, já que os poucos cativos que chegavam a essa idade não conseguiam mais realizar trabalhos pesados. Nesse contexto, ainda resistiam à ideia da abolição da escravidão principalmente os representantes das velhas áreas cafeeiras do Vale do Paraíba, que concentravam grandes fortunas com a posse de escravizados. Desse modo, com a intensificação cada vez maior das campanhas abolicionistas, foi decretada uma lei decisiva em relação à escravidão no Brasil. Cedendo às fortes pressões da sociedade brasileira, em 13 de maio de 1888, foi sancionada pela princesa Isabel, que se encontrava na regência do trono, a Lei Áurea, que declarou extinta a escravidão no Brasil. 86 Coleção EF8 Digitalizado com CamScannerÉ importante ressaltar que a abolição, da forma como foi feita, deixou muitos problemas. Afinal, não existiu uma preocupação com a integração dos ex-escravizados à sociedade, como garantindo-lhes parcelas da terra, trabalho nas fazendas, instrução ou mesmo algum instituto previdenciário. Sem muitas escolhas, muitos ex-escravizados permaneceram nas fazendas em que já trabalhavam e continuaram a ser explorados da mesma forma. Aqueles que se aventuraram a ir para as cidades tornaram-se marginalizados, pois não tinham qualquer preparo profissional. Dessa maneira, o fim da Questão Abolicionista gerou um problema social muito agudo, caracterizado pela discriminação, presente ainda hoje, de um considerável setor da sociedade, conforme critica a historiadora e antropóloga brasileira Lilia Schwarcz, em 2018, ano que a Lei completou 130 anos: População total e escrava no Segundo Reinado 15 milhões 14-333-915 10 415 000 10 milhões 800 000 930 478 5 milhão 171 500 1 1 milhão 0 1850 1864 1869 1872 1874 1884 1887 1890 Anos População total no Brasil População escrava no Brasil REIS, J. J. Presença Negra: conflitos e encontros. In: INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Brasil: 500 anos de povoamento. Rio de Janeiro: IBGE, 2000. p. 91; INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Brasil: 500 anos de povoamento. Rio de Janeiro: IBGE, 2000. p. 221. o [momento] pós-emancipação não teve nenhuma preocupação com inclusão dessas populações [de ex-escravos]. Eu me refiro a educação, saúde, habitação, todos os problemas estruturais. Mas isso não quer dizer que a gente só deva culpar o passado. o que vemos hoje no país é uma recriação, uma reconstrução do racismo estrutural. Nós não somos só vítimas do passado. o que nós temos feito nesses 130 anos é não apenas dar continuidade, mas radicalizar o racismo estrutural. Disponível em: sobre-a-escravidao-diz-historiadora.ghtm Acesso em: 11 maio 2021. [Fragmento] As consequências políticas da Lei Áurea foram, também, negativas para o Império. A lei gerou o descontentamento dos tradicionais plantadores de café do Vale do Paraíba, insatisfeitos principalmente pela falta de indenização pela abolição (vale lembrar que os fazendeiros viam os escravizados como sua propriedade). Por isso, uma parcela considerável dos políticos dos partidos Liberal e Conservador passou a fazer oposição ao governo imperial. Insatisfeitos com a monarquia, esses segmentos políticos e econômicos do país dirigiram seus interesses para a instalação de uma república na qual esperavam ter maior poder e prestígio. Figura 8. Essa imagem faz parte de uma etiqueta para SIM! tecidos, criada em 1888, pela empresa Samuel, Irmãos e Cia em Etiqueta para tecidos registrada por referência à Lei Áurea. A imagem utópica retrata uma suposta Samuel, Irmãos e Cia, em 25 de agosto igualdade e aproximação entre brancos e ex-escravizados. de 1888. Arquivo Nacional. Bernoulli Sistema de Ensino 87 Digitalizado com CamScanner[...] No Brasil, a classe média branca raramente convive com pessoas de uma cor de pele diferente da sua e talvez isso explique por que muita gente refuta os programas de cotas raciais. [...] "São muitos anos de escravidão para poucos anos de cotas", diz pedagogo Jorge Alberto Saboya, que fez sua tese de doutorado sobre o sistema de inclusão no ensino superior. Acima de tudo, são muitos anos de preconceito. Como se elimina isso? "Não se combate racismo com palavras", diz sociólogo Muniz Sodré, pesquisador da UFRJ. "O que combate o racismo é a proximidade entre as diferenças." Não é a proximidade entre as diferenças o que, afinal, promove o sistema de cotas brasileiro? Disponível em: https://istoe.com.br/288556_POR+QUE+AS+COTAS+RACI Acesso em: 11 maio 2021. PARA REFLETIR A política de cotas nas universidades, em partidos políticos e empregos em órgãos e empresas públicas pode contribuir para modificar a desigualdade, herança trazida da escravidão, que ainda existe entre negros e brancos? ! TÁ NA MÍDIA Na Trilha da História. Brasil, 2018. Esse programa de rádio da EBC promove um bate-papo sobre os 130 anos do decreto da Lei Áurea e as dificuldades enfrentadas pela população negra após a lei abolicionista, com participação da rapper Vera Veronika e historiadora Lucilene Reginaldo. 8 relatos sobre como é ser negro no Brasil. Brasil, 2017. Nesse curto vídeo, são apresentados relatos de oito negros de diferentes realidades do Brasil para contar, de acordo com sua perspectiva, como é ser negro no país, destacando as suas lutas diárias. 2.5. A imigração e o trabalho assalariado A solução buscada pelo governo e pela elite brasileira para suprir a deficiência de mão de obra nas lavouras cafeeiras, acentuada a partir da abolição do tráfico negreiro, foi continuar incentivando a vinda de imigrantes da Europa. Desse modo, o Brasil recebeu, especialmente das áreas meridionais europeias (Itália, Portugal, Espanha) e da Alemanha, a mão de obra para o cultivo do café. o estímulo à imigração também está associado ao projeto de branqueamento do povo brasileiro, defendido por uma grande parcela da elite brasileira, em contato com teorias eurocêntricas, que era contra a origem miscigenada de nossa sociedade. Assim, para esse grupo, o imigrante branco poderia ser o responsável pela "melhoria moral e étnica do brasileiro". Bernoulli Sistema de Ensino 89 Digitalizado com CamScannerA partir de 1850, foram buscados imigrantes para serem trabalhadores braçais, destinados ao plantio da terra e à produção do café, trabalhando nas grandes fazendas, muitas vezes ao lado dos remanescentes da escravidão e recebendo pagamento correspondente a parte do lucro ou a um Até 1870, empregou-se o sistema de parceria, isto é, o grande proprietário trazia imigrante, financiando-lhe a passagem, para trabalhar nos cafezais, recebendo uma parcela do lucro da venda da safra anual. desconto do valor da passagem e as despesas iniciais do estabelecimento do imigrante eram abatidos da parcela que o trabalhador deveria receber, sobrando muito pouco como pagamento líquido. imigrante era vigiado e impedido de sair das terras na qual trabalhava por medida de segurança do latifundiário, receoso de investimento feito na passagem da Europa para o Brasil. Tudo isso, além dos vários casos de maus-tratos contra os imigrantes, fez com que muitos europeus deixassem de vir ao Brasil, fazendo desse sistema um fracasso e obrigando o governo imperial a intervir nesse processo. o Senador e proprietário de terras Campos Vergueiro foi protagonista nessa forma de patrocínio de imigração, sendo ele mesmo alvo de uma revolta de seus trabalhadores contra exploração de sua mão de obra. Desse modo, cada vez mais necessitando de mão de obra para as lavouras, o governo chamou para si a responsabilidade de promover a imigração, instituindo um novo sistema, conhecido como sistema de contrato ou imigração subvencionada. Nessa nova realidade, o governo pagava a passagem dos trabalhadores europeus para o Brasil e encaminhava-os às fazendas interessadas. o latifundiário obrigava-se a manter o imigrante pelo menos por um ano sem nenhuma despesa, ao final do qual ele era livre para continuar na fazenda ou transferir-se para pequenos centros urbanos do Sudeste. As relações de trabalho se modificaram. Passou a predominar o trabalho assalariado, cujo valor se compunha de duas parcelas: uma fixa, de acordo com o número de pés de café sob a responsabilidade de cada família; e outra parcela, que variava de acordo com os alqueires colhidos. Nesse sistema, sobrava ao imigrante alguma terra para plantar gêneros alimentícios por conta própria (o que aumentava sua renda); existia a possibilidade de trabalho artesanal manufatureiro nos pequenos centros urbanos; e, para o latifundiário, havia a vantagem de contar, quando necessário (na colheita, por exemplo), com a mão de obra feminina e infantil não assalariada. Digitalizado com CamScannerDiante dessa leva de imigrantes que chegou ao Brasil, a elite agrária pressionou o governo a criar alguma medida para dificultar o acesso às terras pelos imigrantes, de modo a garantir que eles se dedicassem ao trabalho assalariado nas lavouras de café. Assim, foi aprovada a Lei de Terras em 1850, que definia que as terras públicas só poderiam se tornar propriedade privada por meio de compra, e não mais por doação ou posse. As elevadas taxas para a obtenção das terras fizeram com que aqueles que detinham baixa renda não conseguissem acesso à propriedade no Brasil, o que contribuiu para a permanência da concentração de terras no A imigração europeia para o Brasil no século XIX trouxe importantes modificações econômicas para país. o trabalho livre e assalariado generalizou-se nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, ocorrendo um aumento da produtividade dos cafezais, o que refletiu no crescimento geral da produção agrícola do país, que pôde contar com a introdução de novas técnicas agrícolas trazidas pelos imigrantes. Houve a formação de um razoável mercado capaz de consumir a produção industrial nascente que se desenvolvia no país, ajudando a dinamização do novo setor econômico. Além disso, ocorreu desenvolvimento de uma pequena atividade manufatureiro-artesanal, destinada à produção de tecidos, calçados, chapéus, vinhos e alimentos em vários centros urbanos, que, em consequência, aumentaram consideravelmente de tamanho. A imigração contribuiu para a melhor qualificação da mão de obra, que se tornou mais apta ao trabalho industrial ao iniciar o século XX. REGISTRANDO ELABORE um parágrafo abordando o papel dos imigrantes na história do Brasil. Bernoulli Sistema de Ensino 91 Digitalizado com CamScanner2.6. A sociedade e a vida intelectual no século XIX As mudanças que aconteceram durante o século XIX estão ligadas, por um lado, à substituição do trabalho escravo pelo imigrante europeu assalariado e, por outro, pela incipiente atividade industrial responsável por algumas transformações, como o processo de urbanização e o desenvolvimento de um estilo de vida urbano, que guardaram, em certa medida, uma semelhança com as modificações que a Europa vinha sofrendo no mesmo período. Grupos sociais, cujo germe existia desde o Período Colonial, aumentaram seu prestígio, especialmente os grandes comerciantes de importação e exportação (quase sempre estrangeiros) e os pequenos e médios comerciantes varejistas. Formou-se uma burocracia composta de advogados, juízes, oficiais de justiça e fiscais, além da fundação de escolas superiores que permitiu o aumento dos profissionais liberais nas principais cidades. A estes "grupos médios" da sociedade devemos acrescentar o clero (que parte do funcionalismo público por causa da união Igreja-Estado) e, depois da Guerra do Paraguai, o Exército, já que a Marinha conservava um caráter aristocrático. A elite latifundiária, decadente em alguns lugares, era forte e poderosa no Sudeste. Devemos aqui identificar dois segmentos que a compunham: a "antiga" classe agrária do Vale do Paraíba, agraciada pelo Império com títulos de nobreza e fiel à monarquia, e uma "nova" elite agrária, de mentalidade empresarial, descontente com as instituições monárquicas e de interesses republicanos. Essa elite, em conjunto, ocupava o poder por meio dos partidos políticos e da composição de sucessivos gabinetes imperiais. Figura 9. Fotografia da família imperial brasileira, trajada aos moldes europeus do século XIX. o uso da fotografia foi disseminado entre as elites brasileiras nessa época. As fotos da família imperial retratam desde cotidiano, como na imagem destacada, até os acontecimentos mais formais do Império. Bernoulli Sistema de Ensino 93 Digitalizado com CamScanner13 0 Segundo Reinado (1840-1889) Os escravizados, por sua vez, vinham diminuindo numericamente desde a Lei Eusébio de Queirós e se concentravam em maior número no Sudeste. Depois, com a Lei Áurea, adquiriram a sua Entretanto, mesmo livre, o ex-escravizado continuou ocupando o lugar mais baixo na hierarquia social brasileira ao final do século XIX e início do século XX, pois, como vimos, as leis abolicionistas não trataram de integrá-lo à sociedade. Finalmente, os imigrantes trouxeram sensíveis mudanças sociais para o Brasil: introduziram novos costumes, miscigenaram-se lentamente com os descendentes dos portugueses e escravizados e dinamizaram o mercado consumidor nacional. Sobretudo, contribuíram com uma mão de obra apta para o trabalho industrial e ajudaram a diminuir os preconceitos existentes em relação ao trabalho não intelectual. Também foram responsáveis por trazer novas ideias e ideologias que influenciaram diversos movimentos sociais no Brasil. Culturalmente, o país ainda se orientou, como no Período Colonial, pelos parâmetros da Europa, especialmente da França e da Inglaterra. Esses países exerceram influência, por exemplo, sobre a literatura, as artes em geral, os modos de vida, as habitações, os costumes sociais, as roupas, etc. PARA SABER MAIS Paralelamente à vinda de europeus, assistiremos, principalmente durante a segunda metade do século XIX, a uma migração de costumes. Em todos os aspectos do cotidiano brasileiro, procurou-se imprimir a marca europeia. No café da manhã, por exemplo, o pão "francês" substitui a mandioca cozida, enquanto, no almoço, a cerveja começa a ser registrada, e, na sobremesa, os sorvetes disputam, palmo a palmo, com centenários doces, cujas receitas foram transmitidas de geração a geração nas fazendas coloniais. As formas de tratamento também não ficam imunes a essas mudanças: expressões tradicionais, portuguesas ou resultados da influência africana, como "dona", "sinhá" ou "yayá", dão lugar a denominações afrancesadas, tipo "mademoiselle" ou, mais popularmente, No vestuário, apesar do clima tropical, adotam-se a e o veludo como padrão, em roupas sobrepostas, como no caso das saias compostas por três camadas de panos. As cores vivas, comuns a roupas e objetos de uso diário colonial, também tendem a ser substituídas pela sisuda e puritana cor preta quase luto fechado, conforme sublinha Gilberto Freyre. Nas cidades, os antigos sobrados e casas-grandes dão lugar a chalés ou a construções de inspiração neoclássica, enquanto nos jardins substituem-se as antigas espécies nativas, como a maria-sem-vergonha, por exuberantes roseiras, ao fundo acompanhadas não mais por canários-da-terra, mas sim por seus rivais belgas... [...] A imigração europeia, e a importação de modas que a acompanhou, tendeu a se concentrar em áreas economicamente mais desenvolvidas. o resultado disso foi o aumento das diferenças culturais entre o Norte e o Sul do país, assim como entre a cidade e o campo, entre o litoral e o sertão. Era como se a história tivesse sofrido uma "aceleração" nas regiões mais desenvolvidas, enquanto as áreas tradicionais continuassem a reproduzir o modelo de vida brasileiro do Período Colonial. 94 Coleção EF8 Digitalizado com CamScannerTHE LADIE'S HOME JOURNAL. The Paris Fashion Number. September, 1910. DEL PRIORE, Mary; VENÂNCIO, Renato Pinto. livro de ouro da História do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 225-227. 2.7. Aspectos da política externa brasileira no século XIX Durante o Segundo Reinado, a política externa do Brasil orientou-se para garantir a situação de nação politicamente independente frente às nações do mundo, em primeiro lugar em relação à Inglaterra e, para garantir a posição de potência na América do Sul, frente às nações platinas, em uma área de interesse geopolítico para o Império. Entretanto, não podemos nos esquecer de que a Inglaterra ainda tinha uma presença importante no país, já que possuía muitos capitais aplicados aqui em diversos setores e cobrava compensações financeiras pelos empréstimos concedidos anteriormente ao Brasil, apesar de cerca de 50% de nossas exportações de café já se dirigirem aos Estados Unidos. A Questão Christie (1861-1865) Na segunda metade do século XIX, ocorreu um sério conflito diplomático entre o governo imperial e a Inglaterra, envolvendo o embaixador inglês no Brasil, William Christie. Esse atrito iniciou a partir de um incidente em 1861: o navio inglês de Gales naufragou no litoral do Rio Grande do Sul e teve sua carga roubada. Por isso, o embaixador exigiu indenizações e reparações públicas para o acontecimento. Em meio a essa discussão, outro incidente aconteceu no Brasil: três oficiais da Marinha britânica, embriagados e trajados de civis, foram presos no Rio de Janeiro após promoverem arruaças na cidade e discutirem com militares brasileiros. Logo, William Christie passou a exigir também do governo imperial um pedido formal de desculpas e uma punição aos militares brasileiros envolvidos no ocorrido, mesmo os oficiais ingleses tendo sido imediatamente soltos após a detenção. Bernoulli Sistema de Ensino 95 Digitalizado com CamScanner13 0 Segundo Reinado (1840-1889) Buscando retaliar essas ações, uma esquadra inglesa chegou a realizar a prisão de algumas embarcações brasileiras. Assim, todas essas tensões acabaram levando à ruptura das relações diplomáticas entre Brasil e a Inglaterra, as quais foram reatadas em 1865, quando um representante inglês pediu formalmente desculpas a D. Pedro II, depois que o arbitramento do rei Leopoldo I, da Bélgica, deu ganho de causa ao Brasil. As Questões Platinas No que se refere à região platina, o que estava em jogo eram as disputas expansionistas dos países do Cone Sul. Ao Brasil, interessava garantir a livre navegação do Rio da Prata e de seus formadores (Uruguai, Paraguai e Paraná), essencial para a comunicação das províncias do Mato Grosso e com o Rio de Janeiro. Interessava também ao Brasil afirmar um equilíbrio de poderes entre os três países platinos para evitar as tendências expansionistas da Argentina e do Paraguai, assim como a formação de uma potência que pudesse vir a ameaçar o Brasil. Das questões platinas, a que mais se destacou foi a Guerra do Paraguai, ocorrida entre 1864 e 1870. A Guerra do Paraguai As razões da guerra Os fatos que levaram ao início do conflito são ainda hoje muito discutidos entre os historiadores, que apresentaram interpretações diferentes. Até fins da década de 1950, o conflito era visto como o resultado das pretensões expansionistas na região Platina do presidente paraguaio Francisco Solano López, visto como um ditador sanguinário e ambicioso, enquanto os brasileiros apenas teriam reagido à agressão sofrida. A partir da década de 1960, surgiram novas versões para a guerra, que viam o Paraguai como uma República desenvolvida, com uma economia tendendo à autossuficiência, o que o colocava numa posição de independência em relação ao capital estrangeiro, promovendo o desenvolvimento industrial e possibilitando aos camponeses a posse de pequenas extensões de terras, enquanto o Brasil e a Argentina eram dominados pelo capital inglês. Por isso, o Paraguai seria um obstáculo e uma ameaça à expansão inglesa na região platina, e o Brasil e a Argentina teriam sido instrumentos de capitalismo inglês na região, provocando a guerra contra o Paraguai. Essa interpretação passou a ser questionada por trabalhos mais recentes. A historiografia atual argumenta que o Paraguai não dispensava a presença britânica e muito menos era autossuficiente e, se comparado com seus vizinhos, recebia menos investimentos ingleses, apesar da presença de casas comerciais britânicas em Assunção, e das crescentes importações paraguaias de mercadorias vindas da Inglaterra. o mais apropriado seria entender a Guerra do Paraguai como um conflito resultante do processo de formação dos países platinos e da disputa entre eles pelo domínio político-econômico da região. início do conflito A Guerra do Paraguai teve início a partir de uma ação de Solano López, que, em 11 de novembro de 1864, buscando efetivar seu projeto expansionista, ordenou que uma canhoneira paraguaia aprisionasse o navio brasileiro Marquês de Olinda, que seguia pelo Rio Paraguai com destino à província de Mato Grosso. 96 Coleção EF8 Digitalizado com CamScannerA partir desse fato, uma rede de alianças se formou, isolando Paraguai. Brasil aliou-se à Argentina, que se sentia ameaçada pelo expansionismo paraguaio, e ao Uruguai, que contava com um governo que havia chegado ao poder por meio de um golpe e com o apoio brasileiro. Formara-se, então, a chamada Tríplice Aliança. Os termos do tratado definiam como objetivos dos países aliados: destruir o governo de garantir a livre navegação pelos rios Paraguai e Paraná, destruindo as fortificações fluviais paraguaias existentes; impor ao Paraguai o pagamento de indenizações pelas despesas aliadas com a guerra e pelos prejuízos causados a particulares; estabelecer os limites do Paraguai com o Brasil e com a Argentina. A primeira fase da guerra foi marcada pela ofensiva das tropas paraguaias comandadas pelo coronel Estigarribia. Entre maio e agosto de 1865, os paraguaios alcançaram São Borja e Uruguaiana, no Rio Grande do Sul. Entretanto, não conseguiram alcançar o Uruguai, rendendo-se em Uruguaiana. A segunda e mais importante fase da guerra teve início com a invasão das tropas aliadas no Paraguai, em 16 de abril de 1866. No final desse ano, o então marquês de Caxias foi nomeado para o comando geral das forças navais e terrestres. A partir de 1868, o avanço aliado não foi mais detido, culminando com sucessivas vitórias. Em janeiro de 1869, a capital Assunção foi finalmente conquistada pelas tropas brasileiras. Solano López conseguiu escapar da investida aliada e organizou um novo Exército, dando início a uma campanha de guerrilha contra seus inimigos que estavam, agora, sob o comando do conde d'Eu, marido da princesa Isabel, o que constituiu a terceira fase da guerra. Em 11 de junho, foi estabelecido um governo provisório em Assunção, do qual participaram representantes dos aliados. Em 1° de março de 1870, Solano López foi encurralado e morto. Sua morte marcou o fim da Guerra do Paraguai. CORONEL ALFERES VOLUNTÁRIO SARGENTO ZUAVO DA VOLUNTARIO DE VOLUNTARIOS PAULO DA PÁTRIA Figura 10. Os "voluntários da pátria" do Exército brasileiro. Durante a guerra, o Exército brasileiro teve que se reorganizar e buscar efetivo para as forças militares. Para isso, muitos brasileiros foram forçados a compor o exército. Foi permitida também a presença de escravizados, sendo prometida a alforria que participassem da guerra. Bernoulli Sistema de Ensino 97 Digitalizado com CamScanner13 0 Segundo Reinado (1840-1889) Os efeitos da guerra o Paraguai A guerra do Paraguai vitimou milhares de paraguaios, brasileiros, uruguaios e argentinos, sendo considerado o conflito sul-americano mais sangrento e, também, o de maior duração, ocorrido durante século XIX no continente americano. Ao longo do conflito, morreram cerca de trezentas mil pessoas (entre militares e civis), em combate ou em decorrência de doenças e epidemias. o Paraguai foi o país que mais sofreu, saindo arrasado do conflito. Quando a guerra começou, o país possuía aproximadamente oitocentos mil habitantes e, quando terminou, só existiam cento e noventa e quatro mil indivíduos. Desses, cerca de quatorze mil eram homens e cento e oitenta mil mulheres. Ou seja, a população masculina foi praticamente exterminada, pois dos quatorze mil homens sobreviventes pelo menos setenta por cento eram crianças de menos de dez anos. Além das perdas materiais e da devastação do seu território, o que significou a ruína de sua economia (agricultura, pecuária, comércio internacional e indústria emergente), o país perdeu cerca de 40% de seu território para o Brasil e a Argentina, sendo-lhe imposta uma vultosa indenização que jamais teria condições de pagar e que foi revista pelo Brasil somente durante a Segunda Guerra Mundial. Figura 11. Pedro. Batalha do 1872 a 1879. Óleo sobre tela. 600 cm 1 100 cm. Museu Nacional de Belas Artes - MnBA, Rio de Janeiro. Obra retrata uma das últimas batalhas ocorrida na Guerra do Paraguai, em 1868 Digitalizado com CamScannero Brasil o Brasil saiu da guerra mais endividado, pois só conseguiu saldar seus compromissos mais urgentes aumentando os empréstimos com os bancos ingleses, especialmente ao Ao lado da formação de um mercado interno, resultante da expansão cafeeira e do aumento do número de trabalhadores assalariados, a guerra estimulou um novo surto industrial no país, qual se manteve até os primeiros anos da República. Além do impulso no setor de mineração, com surgimento de fábricas de artefatos de ferro, o setor de bens de consumo se expandiu e a produção fabril têxtil ganhou alguma expressão. A permanência das tropas brasileiras em território paraguaio favoreceu a fabricação de produtos necessários à manutenção dos soldados e, em especial, de artigos Por outro lado, o Exército brasileiro afirmou-se como instituição que passou a ter objetivos próprios, pois foram os militares que sustentaram a luta nas frentes de batalha, defendendo a causa brasileira, assumindo posições contrárias à sociedade escravista e demonstrando simpatia pela causa republicana. 3. o do Segundo Reinado (1870-1889) 3.1. A situação nacional após 1870 A partir da década de 1870, o Brasil vinha apresentando transformações econômicas que, aos poucos, traçavam os contornos de uma nova realidade nacional. Se, por um lado, permanecia a dependência econômica em relação ao estrangeiro e uma estrutura interna de feições agrárias, por outro lado, o país apresentava um pequeno processo de industrialização incentivado pelas necessidades militares da Guerra do Paraguai e aumentava a produção e a exportação da nossa maior riqueza: o café. Os grupos médios da sociedade, representados por militares, profissionais liberais e outros, cresciam, adquirindo peso político em um contexto de urbanização. A imigração e a substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre assalariado por sua vez, para a formação de um pequeno mercado consumidor interno e para que o Sudeste consolidasse a sua posição de liderança entre as diversas regiões brasileiras. A sobrevivência da monarquia, dentro desse novo quadro, tornava-se problemática e incerta. Criticava-se o unitarismo por não permitir a autonomia administrativa e econômica das províncias, conforme o desejo dos políticos de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, que se diziam obrigados a sustentar o resto do país. Além disso, combatiam-se o Poder Moderador e o Conselho de Estado, vistos como duas instituições ultrapassadas, de caráter absolutista, sem razão para continuarem existindo às vésperas do século XX. Contestava-se a união Igreja-Estado, especialmente por interesse do clero, que aspirava a uma liberdade de ação longe dos entraves impostos pelo rei, cuja intervenção em assuntos religiosos ocorria por meio de dois direitos: o beneplácito, que dava ao governante o direito de acatar ou não bulas papais, e o padroado, pelo qual o governante nomeava altas autoridades religiosas para os cargos existentes na Igreja do país. Bernoulli Sistema de Ensino 99 Digitalizado com CamScanner13 0 Segundo Reinado (1840-1889) Os grupos militares lutavam por obter representatividade, uma vez que saíram bastante fortalecidos após a vitória que obtiveram ao final da Guerra do Paraguai. A consciência de que as instituições monárquicas precisavam ser modificadas foi acompanhada por um crescimento, entre os políticos jovens e a elite cafeicultora do oeste de São Paulo, de um ideal republicano, adormecido desde início do Segundo Reinado. A aparecia, dessa forma, como uma solução natural para todos os grupos descontentes com a monarquia. 3.2. As Questões do Império Costuma-se explicar a queda da monarquia em 1889 como o resultado de várias "questões" que abalaram Império nas décadas de 1870 e 1880. Ao contrário de terem sido causas, estas questões são reflexo da situação de crise pela qual o regime vinha passando. Como o governo imperial não teve habilidade para lidar com essas transformações, acabou se envolvendo em atritos com Exército, a Igreja e a classe latifundiária, as quais contribuíram para a sua queda. A Questão Militar Desde o seu retorno da Guerra do Paraguai, os militares vinham demonstrando sua insatisfação tanto pela demora no processo de promoção, o que dificultava o progresso na carreira militar, quanto pela proibição de utilizarem a imprensa para expressar suas opiniões políticas. Essa insatisfação tornou-os simpatizantes das ideias republicanas, além de defenderem a abolição da escravidão. A corrente filosófica do Positivismo serviu de base teórica para as reivindicações dos militares. Entre outras coisas, a vertente positivista do Exército apoiava um Estado republicano; cientificista, isso é, orientado pela ciência e não religião; Estado Laico; e um governo forte e militarizado, por considerar que a população ainda não tinha consciência política suficiente para definição das políticas públicas. A situação agravou-se quando os tenentes-coronéis Sena Madureira e Cunha Matos manifestaram-se publicamente pela imprensa e participaram de campanhas eleitorais e de discussões públicas com membros da Assembleia Nacional sem permissão superior, sendo, por isso, severamente punidos pelo governo. o espírito de corporação do Exército provocou uma inesperada reação de apoio aos dois militares envolvidos e uma confrontação aberta com a monarquia, que, a partir desse incidente, perdeu o apoio dos militares do Exército, que se colocaram em oposição ao governo e participaram diretamente da queda do Império. A Questão Religiosa A Constituição de 1824 estabelecia a submissão da Igreja ao Estado. Dessa maneira, a vigência do padroado dava ao imperador o direito de indicar os sacerdotes para os cargos eclesiásticos, sendo os padres considerados funcionários públicos, pois recebiam remuneração do governo, devendo obediência ao Estado. Assim, por não ser do seu interesse, o governo imperial não atendeu às determinações da Bula Syllabus, do papa Pio IX, a qual condenava a e impunha uma série de medidas contra os seus frequentadores. Os bispos de Olinda e Belém, Dom Vital de Oliveira e Dom Macedo Costa, resolveram acatar as determinações do papa, ameaçando de excomunhão a todos os católicos que se declarassem maçons. As pressões políticas fizeram com que o imperador punisse os bispos, destituindo o seu poder (usando o direito do padroado), e os condenasse à prisão com trabalhos forçados. Essa atitude repercutiu negativamente e, apesar de D. Pedro II ter, posteriormente, anistiado os bispos, a monarquia perdeu o apoio da Igreja. 100 Coleção EF8 Digitalizado com CamScannerA Questão Abolicionista A política empreendida no Império em relação à questão escravista acabou desagradando tanto aqueles que se opunham ao regime escravocrata quanto aqueles que o apoiavam. Entre os que se opunham, consideravam o imperador omisso à questão abolicionista. Essa oposição aumentou significativamente a partir da participação dos negros na Guerra do Paraguai, já que muitos membros do Exército, ao participarem do conflito junto aos negros, retornaram da guerra reprovando o regime escravocrata e engrossando o movimento abolicionista. Esse movimento passou a associar a escravidão à monarquia e a luta pela abolição ao projeto republicano. Por outro lado, quando finalmente o governo imperial decretou a Lei Áurea, em 1888, sem indenizar os donos de escravizados, provocou grande insatisfação entre os fazendeiros de café, principalmente os do Vale do Paraíba, que estavam em decadência e não tinham condições de completamente o regime de produção. Apesar de sua difícil situação econômica, os fazendeiros do Vale do Paraíba ainda influência política. Sem o seu apoio, a monarquia perdeu uma importante base de sustentação. Fim do Império As questões do Império demonstram a crise ampla que envolvia todos os setores da vida nacional da época. o Império estava abalado em suas estruturas, não havendo soluções que pudessem restabelecer-lhe o prestígio. Ruindo o Império, pôde o modelo republicano estabelecer-se no Brasil, sendo Figura 12. A charge ironiza a queda da monarquia proclamado em 15 de novembro de 1889. no Brasil. ENTENDI EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM 19. Em meados da década de 1860, o Brasil rompeu as relações diplomáticas com a Inglaterra. EXPLIQUE os fatores que levaram a essa ruptura. 20. As tensões nas fronteiras do Prata andavam apenas momentaneamente serenadas no início da década de 1860. o quebra-cabeça não estava terminado. Em torno de dois grandes rios, o Uruguai e o Paraguai, quatro nações dividiam fronteiras: Brasil, Uruguai, Paraguai e Argentina. Nesse terreno, quatro contendores aplicavam-se em bem desempenhar o complicado jogo das fronteiras. SCHWARCZ, L. M. As barbas do São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 297. [Fragmento] RELACIONE a Guerra do Paraguai a essas "tensões nas fronteiras do Prata" na América do Sul. Bernoulli Sistema de Ensino 101 Digitalizado com CamScanner

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