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NEUROLINGUÍSTICA 
AULA 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Larissa Priscila Bredow Hilgemberg 
 
 
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CONVERSA INICIAL 
Olá, querido(a) estudante! Nesta aula, temos como tema central o 
funcionamento do cérebro referente à linguagem, apresentando as principais 
áreas cerebrais responsáveis pelo desenvolvimento da linguagem. O objetivo 
desta aula é nos aprofundarmos quanto à relação de linguagem e cérebro. Dessa 
forma, seguiremos a seguinte sequência de assuntos: 
1. Função cerebral da linguagem; 
2. Sistemas funcionais da linguagem; 
3. Ativação cerebral pela linguagem; 
4. Mecanismos de representação da linguagem; 
5. Compreensão dos símbolos cerebrais. 
Bons estudos! 
TEMA 1 – FUNÇÃO CEREBRAL DA LINGUAGEM 
Para entendermos a linguagem humana, precisamos entender o 
funcionamento dela no cérebro. De que forma ela é formada e organizada em 
nosso cérebro? De que forma cérebro e linguagem se relacionam? 
As funções da linguagem estão relacionadas ao tecido cerebral, assim, 
para compreender a relação entre elas, são investigadas as bases neurais dos 
tecidos. Exames como eletroencefalografia e ressonância magnética auxiliam 
nessas investigações, uma vez que por meio deles é possível decodificar as 
funções cognitivas de imagem no cérebro e analisar a anatomia da massa 
cinzenta e das fibras da substância branca (Luchesa, 2020). 
Para compreendermos o funcionamento do cérebro, precisamos saber 
que ele é dividido por dois hemisférios cerebrais, o direito e o esquerdo. Entre 
os dois, há o que denominamos corpo caloso, que é uma fissura longitudinal 
profunda. Cada um dos hemisférios é composto por uma massa cinzenta e uma 
massa branca, por vasos sanguíneos e por fluídos. Esses hemisférios são 
divididos por cinco lobos: frontal, parietal, temporal, occipital e insular. Os três 
primeiros lobos têm relação direta com a linguagem. Já os dois últimos têm 
relação indireta. 
 
 
 
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Figura 1 – Cérebro humano 
 
Créditos: Hank Grebe/Shutterstock. 
• Frontal: responsável pelo movimento, pensamento, planejamento, 
raciocínio, emoções, memória, linguagem (expressão) e personalidade; 
• Parietal: responsável pela localização espacial, recepção e 
processamento sensorial e leitura; 
• Temporal: responsável pela linguagem (compreensão), comportamento, 
memória, audição e habilidades matemáticas; 
• Occipital: responsável pela visão e equilíbrio; 
• Insular ou límbico: responsável pelas emoções e paladar. 
Na massa cinzenta do cérebro, encontramos o córtex cerebral (camada 
mais superficial do cérebro). 
O córtex cerebral tem 2-5 mm de espessura, e é responsável por cerca 
de 80% da massa total do cérebro. Estima-se que a sua área total seja 
de cerca de 2000 cm2. O córtex cerebral tem uma série complicada de 
pregas tortuosas, os giros (circunvoluções), e entre estes giros 
(circunvoluções) existem indentações, denominadas sulcos. 
(Aghoghovwia, 2020) 
 
 
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O córtex é responsável pelo funcionamento do pensamento, do raciocínio, 
da memória, da atenção e da linguagem. Na região temporal e frontal inferior 
esquerda do córtex, ocorrem os processos sintáticos, ao passo que na região 
frontotemporal ocorrem os processos semânticos. 
Os primeiros estudos sobre a localização cerebral da linguagem datam do 
final do século XVIII e foram organizados pelos médicos Franz Joseph Gall, 
Johann Caspar Spurzheim, Pierre-Paul Broca e Jean-Marie-Pierre Flourens. 
Esses primeiros estudos se baseavam em teorias localizacionistas e 
antilocalizacionistas. Enquanto os dois primeiros pesquisadores defendiam a 
teoria localizacionista, ou seja, que a linguagem estava representada em uma 
região específica do cérebro, os dois últimos baseavam-se na teoria 
antilocalizacionista, ou seja, que a linguagem não era organizada por uma região 
específica do cérebro, mas estava representada simultaneamente por todas as 
regiões cerebrais (Pinheiro, 2012). 
No início do século XX, as teorias antilocalizacionistas estavam preferidas 
em detrimento às teorias localizacionistas. Porém, na metade do século, entre 
as décadas de 1950 e 1960, as teorias localizacionistas voltam a ser discutidas 
e pesquisadas. Estudos acerca dos hemisférios cerebrais são elaborados e 
alcança-se o conceito de especialização funcional dos hemisférios cerebrais. 
Esta concepção em síntese admite que não existe um hemisfério 
dominante e outro dominado, mas sim dois hemisférios especialistas: 
um dos hemisférios se encarrega de um grupo de funções, enquanto o 
segundo encarrega-se de outro; às vezes são estratégias funcionais 
que diferenciam um hemisfério do outro. (Pinheiro, 2012, p. 26) 
De acordo com Friederici (citado por Luchesa, 2020), a área posterior do 
corpo caloso tem relação direta ao processamento da linguagem quanto a 
informações sintáticas e prosódicas. A sintaxe relaciona-se às palavras dentro 
de uma frase (suas relações de concordância, de ordem e de subordinação), já 
a prosódia refere-se ao ritmo e à entonação da língua falada. 
A neurolinguística investiga essas e outras alterações cerebrais: 
É assim que a neurolinguística estuda atividades cognitivas realizadas 
durante o processamento da linguagem: avaliando alterações elétricas 
e hemodinâmicas no cérebro, durante a realização de pequenas 
tarefas cognitivas estritamente linguísticas e também as não 
linguísticas, mas ligadas de alguma forma ao processamento 
linguístico. (França, 2005, p. 24) 
 
 
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Podemos verificar, portanto, que os processos cerebrais para ativação da 
linguagem são complexos e dependem de áreas específicas do cérebro, apesar 
de relacionarem-se com praticamente todo o córtex cerebral. 
TEMA 2 – SISTEMAS FUNCIONAIS DA LINGUAGEM 
Conforme verificamos anteriormente, a linguagem é processada pelo 
cérebro em uma complexa ativação. Os estudos realizados até o presente 
momento identificaram que a linguagem é elaborada pelo cérebro com base em 
três conjuntos de estruturas neuronais. O primeiro conjunto é composto nos dois 
hemisférios por numerosos sistemas de neurônios e relaciona-se à 
representação não linguística das coisas, emoções e relações. O segundo situa-
se, geralmente, no hemisfério esquerdo e organiza as palavras e estas palavras 
em frases. O último conjunto, composto no hemisfério esquerdo, coordena os 
dois primeiros conjuntos, produzindo palavras com base em um conceito, e 
conceitos com base em palavras (Damásio, 2004). 
De acordo com Damásio (1992), encontramos três sistemas funcionais 
relacionados à linguagem: 
• O primeiro, denominado operativo ou instrumental, é responsável pelo 
processamento fonológico, isto é, pela habilidade da oralidade e pela 
identificação das palavras, das sílabas e dos fonemas; 
• O segundo, denominado semântico, é responsável por dar significado às 
palavras; 
• O terceiro, chamado sistema de mediação, é responsável por estruturar o 
léxico. 
Para que a linguagem e a comunicação funcionem, nosso cérebro 
processa os três sistemas ao mesmo tempo. Ou seja, num diálogo, por exemplo, 
no mesmo instante em que processamos a fala do outro (que entra por nossos 
ouvidos e chega ao cérebro), organizamos o sentido para o que foi ouvido e 
produzimos uma resposta. 
Esse processo é explicado por Friederici (2011), que aponta que após a 
fase inicial de análise acústico-fonológica (ou seja, de ouvir e entender o que 
ouvimos), dão-se três fases de regulação linguística. A primeira fase organiza as 
palavras, o léxico. A segunda fase calcula as relações sintáticas e semânticas, 
 
 
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ou seja, a relação entre as palavras e as palavras e seu sentido. Dessa forma, é 
possível compreender a frase. 
A terceira fase acontece quando, apesar da segunda fase ocorrer, ainda 
não foi possível chegar à compreensão do contexto. Nesse caso, a terceira fase 
relaciona-se com o contexto ou conhecimento de mundo para dar conta da 
interpretação linguística. As três fases interagem com a prosódia linguística,fornecendo, por exemplo, informações sobre limite de frases relevantes para os 
processos sintáticos. 
A prosódia é um macrossistema que se constitui de três subsistemas 
(ordens estruturais): o sistema de organização métrica (acento rítmico), 
sistema de organização tonal melódica (tom, entonação) e o sistema 
de organização temporal (quantidade, tempo e pausas) que organizam 
a fala no nível lexical (morfema, palavra) e no nível pós-lexical 
(enunciado, discurso). (Couto, 2011, p. 63) 
Dessa forma, para que a linguagem seja ativada, nosso cérebro trabalha 
acionando diversas funções simultaneamente. A compreensão de uma palavra 
ou frase ouvida ocorre por meio de processos acústico-fonológicos, sintáticos e 
semânticos, ao passo que, para falarmos, também é necessário que os 
processos sintáticos e semânticos sejam ativados, além de processos 
fonológicos. Esses processos levam em conta tanto fatores internos quanto 
fatores externos e ocorrem em diferentes áreas cerebrais. 
De acordo com Friederici (2011), os processos fonético, semântico, 
sintático e prosódico no nível da sentença são processados no córtex frontal, 
temporal e inferior, já no hemisfério direito em interação com o hemisfério 
esquerdo ocorre o processamento da informação prosódica. 
Outras duas áreas essenciais no funcionamento da linguagem chamam-
se área de Broca e área de Werneck. As duas áreas estão conectadas pelo 
fascículo arqueado, que é um grupo de fibras nervosas. Enquanto a área de 
Broca está localizada na parte inferior do lóbulo frontal do hemisfério esquerdo 
e é responsável por planificar o modo de falar, a área de Werneck encontra-se 
no lóbulo temporal do hemisfério esquerdo (mas pode também estar no 
hemisfério direito) e é responsável pela compreensão sonora, ou seja, por 
compreendermos o que ouvimos (Gallardo, 2020). 
É importante também conhecer os estudos levantados pelos estudiosos 
russos Luria e Vygotsky acerca das funcionalidades da linguagem. Para Luria, 
os processos mentais são sistemas complexos, que se formam com base na 
linguagem. A linguagem, assim, não é organizada em uma área específica, mas 
 
 
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desenvolve-se com base em sistemas neurais por todo o cérebro. Dessa forma, 
ela também é um processo complexo que compreende, além da comunicação, 
diversos recursos, como os expressivos, os receptivos, os abstratos, os 
interpretativos e os motores. Além disso, a linguagem, principalmente a 
linguagem escrita, altera substancialmente esses processos, acarretando 
mudanças cognitivas (Gerken, 2008; Freitas, 2006; Bastos; Alves, 2013). 
A linguagem tem papel crucial na comunicação humana e nas interações. 
É função da linguagem o contato social (Vygotsky, 1934) e é por meio do contato 
e das interações sociais que aprendemos. A aprendizagem, pelo enfoque 
sociointeracionista, é alicerce e ferramenta para desenvolvermos o nosso 
conhecimento, não sendo possível separar um aspecto do outro, e um sendo 
ancoragem para o outro. 
A palavra não é apenas substituta do gesto, mas é necessidade vital para 
resolver situações e problemas, e ela é indispensável assim como os olhos ou 
as mãos. A fala auxilia, ainda, no desenvolvimento cognitivo da criança e na sua 
formação. A criança se percebe no mundo com base na própria fala. A linguagem 
permeia também as descobertas e as decisões acerca de diferentes questões 
(Vygotsky, 1978). 
O processo de construção do conhecimento supõe a integração das 
sensações, percepções e representações mentais. O cérebro é um 
sistema aberto, que está em interação constante com o meio, e que 
transforma suas estruturas e mecanismos de funcionamento ao longo 
desse processo de interação. Nessa perspectiva, é impossível pensar 
o cérebro como um sistema fechado, com funções pré-definidas, que 
não se alteram no processo de relação do homem com o mundo. 
(Alves; Bastos, 2013) 
Assim, tanto para Luria quanto para Vygotsky, a relação com o mundo vai 
ser essencial para a construção do conhecimento (e da linguagem). Assim, o 
processo de aquisição da linguagem, principalmente da escrita, é extremamente 
importante no desenvolvimento cognitivo da criança (Gerken, 2008). 
TEMA 3 – ATIVAÇÃO CEREBRAL PELA LINGUAGEM 
Durante os dois primeiros temas desta aula, pudemos compreender que 
a linguagem funciona com base em processos complexos e orquestrados de 
nosso cérebro. Não há, portanto, uma área específica que, sozinha, dá conta de 
“fazer funcionar” nossa linguagem. Mas é pela relação entre áreas e circuitos 
neurais que desenvolvemos a linguagem como um todo. 
 
 
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Já verificamos também que cada lóbulo é responsável por uma parte da 
linguagem, e ainda temos diferença entre os hemisférios direito e esquerdo, além 
de haver a ativação nas áreas de Broca e Werneck. 
Não foi sempre possível compreender como se dá a linguagem no 
cérebro. Estudiosos pesquisam há muito tempo sobre o funcionamento do nosso 
cérebro e como ativamos nossa linguagem. Porém, é a partir da década de 1980 
que a ativação cerebral pela linguagem passa a ser investigada de forma mais 
contundente. 
Os testes de potenciais relacionados a eventos (ERPs), que já existiam 
desde a década de 1950, começam a ser usados na década de 1980 para 
pesquisar a cognição da linguagem. Além disso, foram desenvolvidas técnicas 
não invasivas ou pouco invasivas, como a ressonância magnética funcional e a 
tomografia por emissão de pósitrons, para aferir a atividade cerebral por imagem 
(Luchesa, 2020). 
Com esse avanço nas pesquisas, tornou-se mais possível identificar de 
que forma o cérebro é ativado ao utilizarmos a audição, a fala, a escrita e a 
leitura. Mas como esses testes e exames auxiliam no entendimento da ativação 
da linguagem? De acordo com França (2015), ao monitorar o cérebro com testes 
com ressonância magnética funcional ou tomografia de emissão de pósitrons, 
vemos que as áreas cerebrais se tornam mais ou menos ativas a cada momento 
com base no rastreamento das variações na circulação sanguínea cerebral. 
As técnicas eletromagnéticas são poderosos instrumentos para 
monitorar a ativação elétrica relacionada a estímulos linguísticos 
exatamente porque oferecem grande precisão temporal: os impulsos 
elétricos no cérebro podem ser detectados quase instantaneamente no 
couro cabeludo, através do osso craniano. Enquanto o voluntário 
executa uma tarefa linguística — decidir, por exemplo, se a frase que 
ele está lendo na tela do computador é congruente —, a atividade 
elétrica de seu cérebro é monitorada por eletrodos fixados no couro 
cabeludo. 
Os eletrodos são ligados, pela outra extremidade, a um 
eletroencefalógrafo, que recebe e amplifica os fracos sinais elétricos 
captados. Tais sinais são sincronizados ao evento linguístico-alvo, ou 
seja, é possível saber exatamente quando um estímulo foi mostrado 
ao voluntário e que onda é resultante da reação a esse estímulo. 
(França, 2005, p. 23) 
Conforme verificamos anteriormente, todos os lobos relacionam-se com a 
linguagem, de maneira direta ou indireta. Assim, cada parte do cérebro será 
ativada para diferentes funções quanto à linguagem. Alguns exemplos são 
levantados por Faria (2015): 
 
 
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• Leitura silenciosa: hemisférios occipitais direito e esquerdo e córtex 
temporal direito; 
• Integração semântica e fonológica: lobo temporal esquerdo e lobo frontal 
esquerdo; 
• Ativação linguística: lobo temporal medial esquerdo; 
• Repetição de palavras: conjunto de áreas que envolve o giro 
supratemporal esquerdo, córtex motor e pré-motor ipsis-laterais, putâmen 
esquerdo, uma parte dos hemisférios. 
Hoje, conseguimos afirmar que a linguagem é ativada pelo cérebro, mas 
que também proporciona elasticidade a ele. Ou seja, ela possibilita que nossa 
cognição (aprendizagem) se desenvolva. Porém, ainda há muito o que se 
pesquisar e estudar sobre o cérebro e sobre as relações entre linguagem e 
cérebro. 
TEMA 4 – MECANISMOS DE REPRESENTAÇÃO DA LINGUAGEMQuais são os mecanismos cerebrais ativados pela linguagem? Como é 
possível relacionar o som ao seu sentido ou a palavra escrita ao seu signo? 
Muitos estudos foram e são feitos a esse respeito e vamos, neste tema, entender 
quais são os mecanismos para representar língua e linguagem. 
Ao processarmos a fala ouvida, pensamos e produzimos conteúdos, e 
organizamos esse pensamento de forma estrutural, discursiva e contextual — 
tudo ao mesmo tempo. São em torno de cinco sílabas por segundo no fluxo da 
comunicação. Assim, para que consigamos dar conta, acessamos a 
representação mental das palavras. Nesse processo, ativamos a fonologia, a 
semântica e a morfologia das palavras, ou seja, o som, o sentido e a forma das 
palavras (Faria, 2005). 
Esse processo de ativação múltipla acontece porque a palavra-alvo 
sempre se relaciona a múltiplos aspectos dos conteúdos mentais. As 
representações do som de uma palavra (fonologia), do seu significado 
(semântica) e dos pedaços que a formam (morfologia) entram em jogo 
nesse processo. Por exemplo, ouvir a palavra banana ativa 
representações mentais de palavras como batata e nana, por 
semelhança de som com a palavra ouvida. Mas também pode ativar 
manga e maçã, por serem do mesmo campo semântico, e bananada e 
embananada, por pertencerem à família de palavras formadas a partir 
da mesma raiz banan. E ativa também, é claro, a representação da 
palavra-alvo, banana, que acaba por ganhar a competição entre todas 
as representações de outras palavras relacionadas. (Faria, 2005, p. 21) 
 
 
10 
Os neurônios do sistema nervoso central estão ligados a todas as regiões 
cerebrais que processam a linguagem verbal e seu significado. Assim, a 
estruturação do sistema nervoso central permite que tenhamos capacidade para 
ler e escrever (Oliveira, 2013). 
Ainda com relação à escrita, a professora e pesquisa Emilia Ferreiro 
(1985) explica que há duas formas de identificarmos essa habilidade: como 
representação da linguagem ou como código de transcrição gráfica das unidades 
sonoras. E a forma que consideramos a escrita alterará o sentido da 
alfabetização das crianças. 
No caso da representação da linguagem, ou criação dessa representação, 
não há elementos ou relações predeterminadas. Ao se levar em conta essa 
afirmativa, também afirmamos que a aprendizagem é conceitual, ou seja, é a 
apropriação de um novo objeto de conhecimento. Apesar de se saber falar, 
mesmo a criança tendo audição e fala adequadas, ela está descobrindo uma 
nova forma de representar sua linguagem (Ferreiro, 1985). 
No segundo caso, da transcrição linguística, tanto os elementos 
envolvidos quanto as relações já estão predeterminados, “o novo código não faz 
senão encontrar uma representação diferente para os mesmos elementos e 
relações”. Ao aceitarmos essa alternativa como principal, estamos reduzindo a 
linguagem a uma série de sons, destruindo, assim, o signo linguístico. Ao 
conduzirmos a alfabetização sob esse ponto de vista, aceitamos que a 
aprendizagem de ler e escrever refere-se a apenas uma simples transcrição do 
sonoro para o código visual e, dessa forma, não há motivo para encontrarmos 
dificuldade em aprender a ler e escrever (Ferreiro, 1985). 
Dessa forma, ao levarmos em conta que a aquisição da leitura e escrita é 
uma nova forma de representação, levamos em conta também que a criança, ao 
aprender a ler e escrever, precisa reinventar o sistema linguístico, entendendo 
novos processos e regras (Ferreiro, 1985). 
TEMA 5 – COMPREENSÃO DOS SÍMBOLOS CEREBRAIS 
A linguagem é representada pelo cérebro como outro objeto. O cérebro, 
assim, elabora a linguagem com base em três conjuntos de estruturas neuronais, 
como vimos anteriormente. Vamos relembrar? 
O primeiro conjunto é responsável pelas interações não linguísticas — o 
que fazemos, percebemos, sentimos. O segundo conjunto é menor e representa 
 
 
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nosso sistema fonético — as palavras, as combinações entre elas e as regras 
de ordenação dentro de uma frase. O último conjunto, mas não menos 
importante, coordena os dois primeiros. Ele é responsável por dar sentido às 
palavras e produzir um conceito com base nelas, ou produzir palavras com base 
em um conceito. É uma via de mão dupla — verbalizar o que pensamos e 
ordenar intelectualmente o que foi verbalizado (Damásio, 2004). 
De acordo com Deacon (citado por Nunes e Galvão, 2006), os primeiros 
símbolos surgiram antes do desenvolvimento da fala. As habilidades simbólicas, 
assim, seriam uma mudança de estratégia de comunicação e foi fundamental 
para a coevolução da linguagem e do cérebro. 
Conforme afirmam Mello, Miranda e Muszkat (2013), é no lobo occipital 
do cérebro que processamos os símbolos gráficos e é no parietal que 
processamos as questões viso-espaciais da grafia e da leitura. Ainda de acordo 
com as pesquisadoras, as informações processadas nos dois lobos são 
reconhecidas e decodificadas na área de Werneck. Qualquer dano ou afasia que 
se encontrem nessas áreas resultarão em dificuldade de ler ou escrever. 
A compreensão de como a arquitetura neural processa a ortografia, ou 
seja, os símbolos, ainda é limitada (Carreiras et al., 2014). Em seu estudo, o 
autor verificou que há áreas específicas no cérebro que respondem mais a letras 
do que dígitos e símbolos, sendo que algumas áreas estão mais envolvidas a 
dígitos e símbolos e outras mais a letras. 
Você sabia que nosso cérebro interpreta isto =) como um rosto feliz, assim 
como ele interpreta isto =( como uma pessoa triste, certo? Ou seja, os emoticons 
são identificados por nosso cérebro como uma expressão facial. 
Pesquisas realizadas no Japão e na Austrália constataram que nosso 
cérebro aprende que emoticons (desenhos criados com pontos e parênteses) 
equivalem a algumas expressões faciais humanas. Os pesquisadores 
identificaram que os participantes do estudo, ao lerem frases com emoticons, 
tiveram ativada a região cerebral que envolve a compreensão de textos, ou seja, 
para o cérebro, os emoticons estão entre a comunicação visual e verbal (Carrera, 
2014). 
Assim, compreendemos que os símbolos são entendidos e interpretados 
de diferentes maneiras pelo nosso cérebro. 
 
 
 
12 
NA PRÁTICA 
Na aula de hoje, nós vimos como uma única palavra pode nos remeter a 
tantas outras, e como o nosso cérebro é incrível na busca por relacionar os 
aspectos morfológico, semântico e sintático. Vamos, agora, perceber na prática 
como o cérebro faz conexões quando pensamos em uma palavra. 
Vamos trazer uma palavra e, com base nela, convido você a fazer um 
mapa mental. Antes, vamos entender o que é um mapa mental: mapa mental é 
um diagrama para representar ideias, tarefas e conceitos relacionados a uma 
palavra ou ideia. 
Assim, trago um exemplo simples de como elaborar um: 
 
Perceba que para a palavra água, identificamos diversas outras palavras, 
seja pelo seu sentido, seja pelo seu som. Essas outras palavras “puxam” outras. 
Nesse mapa mental, poderíamos identificar, ainda, diversas outras palavras. 
Agora é a sua vez! Escreva num papel em branco ou no computador a 
palavra amarelo. Faça os links com outras palavras. O que vem à sua cabeça? 
Lembre-se de que não há certo ou errado, deixe sua imaginação fluir. 
Ao terminar seu mapa mental, visualize tudo o que você relacionou à 
palavra amarelo e perceba como o seu cérebro fez conexões. 
Não é incrível essa nossa máquina? 
 
 
 
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FINALIZANDO 
Nesta aula, aprendemos sobre: 
• as funções da linguagem estão relacionadas ao tecido cerebral; 
• anatomia básica do cérebro — hemisférios e lobos; 
• processos cerebrais para ativação da linguagem; 
• sistemas funcionais relacionados à linguagem; 
• prosódia linguística; 
• áreas de Broca e de Werneck; 
• processo da linguagem de acordo com Luria e Vygotsky; 
• como se dá a ativação cerebral pela linguagem; 
• áreas cerebrais ativadas pela linguagem; 
• os mecanismos cerebrais ativados pela linguagem;• processos na linguagem oral e na linguagem escrita; 
• processo escrita de acordo com Emilia Ferreiro; 
• processamento dos símbolos em nosso cérebro; 
• diferença no processamento de dígitos e símbolos e palavras; 
• como emoticons são processados pelas áreas visuais e verbais do 
cérebro. 
 
 
 
14 
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