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ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA Prof. André de Faria Thomáz ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS “A Faculdade Católica Paulista tem por missão exercer uma ação integrada de suas atividades educacionais, visando à geração, sistematização e disseminação do conhecimento, para formar profissionais empreendedores que promovam a transformação e o desenvolvimento social, econômico e cultural da comunidade em que está inserida. Missão da Faculdade Católica Paulista Av. Cristo Rei, 305 - Banzato, CEP 17515-200 Marília - São Paulo. www.uca.edu.br Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem autorização. Todos os gráficos, tabelas e elementos são creditados à autoria, salvo quando indicada a referência, sendo de inteira responsabilidade da autoria a emissão de conceitos. Diretor Geral | Professor Valdir Carrenho Junior ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 5 SUMÁRIO CAPÍTULO 01 CAPÍTULO 02 CAPÍTULO 03 CAPÍTULO 04 CAPÍTULO 05 CAPÍTULO 06 CAPÍTULO 07 CAPÍTULO 08 CAPÍTULO 09 CAPÍTULO 10 CAPÍTULO 11 CAPÍTULO 12 CAPÍTULO 13 CAPÍTULO 14 CAPÍTULO 15 07 35 49 59 75 95 108 131 144 154 165 173 181 190 204 INTRODUÇÃO À CONTABILIDADE INTERNACIONAL O QUE SÃO COMITÊS DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS – CPC CPC 00 E CPC 26 ANÁLISES FINANCEIRAS CONTROLES DAS ATIVIDADES EMPRESARIAIS EVOLUÇÃO PATRIMONIAL BALANÇO PATRIMONIAL DEMONSTRAÇÃO DO RESULTADO DEMONSTRAÇÃO DOS LUCROS OU PREJUÍZOS ACUMULADOS DEMONSTRAÇÃO DO FLUXO DE CAIXA DEMONSTRAÇÃO DO RESULTADO ABRANGENTE NOTAS EXPLICATIVAS EVENTOS ECONÔMICOS DOS CPC’S CUSTOS EMPRESARIAIS CUSTOS FINANCEIROS ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 6 INTRODUÇÃO Olá, estudante no decorrer do nosso percurso de aprendizagem iremos aprender sobre as demonstrações contábeis são importantes ferramentas para análise da situação patrimonial e financeira, de desempenho e variações de caixa e equivalentes de caixa das entidades. Elas reúnem informações complementares e consistentes entre si, mesmo apresentando finalidades distintas. São importantes instrumentos para conhecimento da saúde financeira da entidade, e sua análise é vital para a tomada de decisão dos usuários. As demonstrações contábeis apresentam informações úteis e fidedignas que refletem as operações realizadas pelas entidades em determinado período. Cada uma delas apresenta suas finalidades próprias e permite compreender a situação econômica e financeira das entidades. Os usuários das informações contábeis precisam conhecer cada uma das demonstrações, bem como compreender como a análise conjunta pode fornecer informações úteis para o alcance de seus diferentes objetivos. Portanto, as demonstrações contábeis são ferramentas imprescindíveis para a avaliação e o planejamento futuro, uma vez que permitem a identificação de riscos e potencialidades de retorno da entidade. As demonstrações contábeis representam os efeitos patrimoniais e financeiros, o desempenho e o fluxo de caixa da entidade de maneira estruturada e simplificada aos usuários das informações (acionistas, sócios, administradores, funcionários, consumidores, fornecedores e instituições financeiras). Elas fornecem informações fi dedignas e relevantes para a análise e a avaliação na tomada de decisão, visando ao atendimento das necessidades de todos os interessados. A administração da entidade é responsável pela elaboração das demonstrações contábeis, que devem estar em conformidade com as normas contábeis vigentes e a estrutura conceitual. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 7 CAPÍTULO 01 INTRODUÇÃO À CONTABILIDADE INTERNACIONAL INTRODUÇÃO A contabilidade avançou rapidamente ao longo dos tempos, acompanhando a evolução da humanidade. A partir do momento em que o homem passa a viver em sociedade, começa a acumular bens e riquezas, surgindo, aí, a necessidade de controle patrimonial. As grandes navegações trouxeram novas perspectivas para a humanidade, encurtando distâncias e aprimorando a forma de comércio. Podemos nos arriscar em dizer que as grandes navegações eram uma forma primitiva da globalização que conhecemos hoje. Os avanços tecnológicos conquistados nos últimos séculos contribuíram para a revolução industrial, que ganhou forças principalmente após o final da segunda guerra mundial. A globalização torna-se cada vez mais presente, e o crescimento acelerado das empresas chama a atenção de investidores de todas as partes do planeta, onde o patrimônio tem o papel da contabilidade é o de controlar o patrimônio para atender às necessidades dos governos de regulação e tributação. A contabilidade, por sua vez, necessita acompanhar o ritmo de crescimento das empresas, fornecendo a seus investidores demonstrativos financeiros cada vez mais transparentes e confiáveis. Neste capítulo, estudaremos os avanços ocorridos na Contabilidade Internacional nos últimos séculos. Conheceremos os principais órgãos envolvidos no processo de convergência aos padrões IFRS (International Financial Reporting Standards), e quais são os países que trabalham para que a harmonização contábil se torne uma realidade universal. 1.0 EVOLUÇÃO DA CONTABILIDADE A contabilidade é uma técnica muito antiga de controle patrimonial, tão antiga que quase se confunde com a própria história da humanidade. Ambas praticamente ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 8 caminharam juntas ao logo dos tempos. Fica muito difícil separar a evolução da contabilidade da evolução do próprio homem, pois, à medida que o homem começa a viver em sociedade, inicia o processo de acumulação de riquezas, como armas, mantimentos, animais, etc. Surge, então, a necessidade de contar e registrar os bens acumulados, como uma forma de controle, e assim sobre as técnicas contábeis, podemos definir que: • Para atestar a veracidade e exatidão dos registros dos efeitos sobre o patrimônio da organização, aplica-se a técnica da auditoria. • Para apresentar a situação patrimonial e financeira da organização, utiliza-se a técnica contábil denominada demonstração. Essas contagens e registros são as formas mais rudimentares de contabilidade. Quando o patriarca da família morria, todos os bens acumulados eram deixados aos filhos ou parentes mais próximos, como forma de herança, daí a origem da palavra patrimônio, ou seja, deixado pelo “patriarca”. Com o surgimento das grandes civilizações e impérios, a contabilidade tornou-se uma prática cada vez mais respeitada e essencial para o controle patrimonial, exigindo- se aperfeiçoamento das técnicas de controle. A prática de registar e controlar vem acompanhando toda essa evolução e se aperfeiçoando conforme vai se aprimorando o conhecimento humano. Nesse sentido, Rocha (2006, p. 15) afirma: A contabilidade é uma ciência tão antiga como o próprio homem. Alguns historiadores e teóricos acreditam que a contabilidade existe há pelo menos 4.000 (quatro mil) anos A.C. No início definiam como sua única função a de avaliar a riqueza patrimonial do homem. A evolução da história nos mostra que a ciência da contabilidade ultrapassa, e muito, essa barreira. Convidamos você a fazer uma viagem imaginária pelo tempo para tentar compreender o longo caminho percorrido entre a contabilidade rudimentar, que comentamos lá no início, passando por um período mais racional e lógico, até chegar na ciência propriamente dita. Somente no início do século XIV, após vários anos de teorias, métodos e práticas contábeis em busca da verdade é que a contabilidade se torna reconhecida como ciência, tendo o patrimôniodeve formalizar suas ações e divulgar os processos para seus funcionários. A formalização consiste no grau de padronização dos comportamentos e processos de trabalho em regras, normas e procedimentos. Há vários fatores que podem afetar o grau de uma organização, como: • Tecnologia: as organizações que trabalham com tarefas mais rotineiras tendem a apresentar maior grau de formalização uma vez que têm mais estruturação e previsibilidade das atividades e tarefas organizacionais; • Tradição: a história da organização pode influenciar seu grau de formalização. Empresas que começam suas atividades em um contexto altamente formalizado tendem a manter alto grau de formalização no decorrer no tempo; • Processo decisório: o grau de formalização é resultado das decisões tomadas pelos gestores. É importante destacar que a excessiva formalização limita a flexibilidade, a criatividade e a rapidez de resposta dos entes presentes na empresa. Os processos realizados nas organizações devem ser explicados para todos os participantes, internos ou externos, para evitar que ocorram conflitos e demais problemas com o gerenciamento das funções empresariais. A internacionalização dos mercados demanda a unificação de padrões contábeis no âmbito internacional e contemporâneo para que os usuários consigam comparar informações entre companhias e ativos para investimentos. Sem elas, não seria possível interpretar e comparar informações contábeis produzidas por entidades em países diferentes. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 36 Partindo da premissa de que a contabilidade objetiva fornecer a seus usuários internos e externos informações contábeis úteis para a tomada de decisões, é preciso harmonizar suas normas, o que ocorreu a partir dos anos 2000 no Brasil. Nesse período, entidades como o International Accounting Standards Board (IASB), em conjunto com o FASB, elaboram as International Financial Reporting Standards (IFRS) visando padronizar o tratamento, a interpretação e a evidenciação das mutações patrimoniais das organizações empresariais quanto à sua compressibilidade, relevância, confiabilidade e comparabilidade. O atual contexto contábil mundial vem aprimorando a utilização e melhorando a transparência da informação contábil, produzindo maior accountability e reduzindo os riscos dos investimentos, onde as obrigações referem-se aos bens de terceiros que estão em poder da empresa, em muitas situações, representando transações de compra a prazo. 1. CONVENÇÕES E NORMAS Como dito, a contabilidade é uma ciência social aplicada que tem o objetivo de registrar, mensurar e controlar todos os fatos administrativos capazes de afetar o patrimônio, com a finalidade de produzir uma informação contábil-financeira que seja útil. O conceito de informação útil, trazido pelo CPC 00, refere-se a uma informação capaz de fazer a diferença para um usuário em seu processo de tomada de decisão. Portanto, “Ela precisa ser relevante e representar com fidedignidade o que se propõe a representar. A utilidade da informação contábil-financeira é melhorada se ela for comparável, verificável, tempestiva e compreensível (CFC, 2014)”. Diante desse conceito, abordaremos os aspectos iniciais para que a informação contábil-financeira seja útil ou, conforme definido pela Estrutura Conceitual Básica da Contabilidade, para que a informação contábil-financeira seja de propósito geral (CFC, 2014). As informações sobre o patrimônio de uma entidade precisam embasar as decisões de seus usuários, sejam internos ou externos. Esse processo decisório só poderá ser influenciado por informações contábeis úteis. O patrimônio não é composto apenas pelos bens de uma pessoa ou entidade, mas, sim, por um conjunto de bens, direitos e obrigações. Para ajudar na definição de padrões conceitualmente consistentes e garantir que transações semelhantes sejam ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 37 tratadas da mesma maneira, fornecendo informações úteis para usuários de maneira geral, o International Accounting Standard Board (IASB) elaborou o The Conceptual Framework for Financial Reporting, que, no Brasil, é chamado de Estrutura Conceitual para a Elaboração e Divulgação de Relatório Contábil-Financeiro, emitido pelo CPC 00 (CFC, 2014). Essa estrutura conceitual estabelece os conceitos fundamentais para elaboração de relatórios financeiros e orienta o Conselho Federal de Contabilidade (doravante, CFC) no desenvolvimento de normas brasileiras alinhadas às normas internacionais, chamadas de International Financial Reporting Standards (IFRS). Segundo Almeida (2018, p. 41), a Estrutura Conceitual “(...) é um conjunto de teorias que um órgão regulador, uma lei ou quem tem poder para emitir normas escolhe, entre as teorias e/ou suas vertentes todas à disposição, com o objetivo de nela se basear para emitir as normas contábeis”. Sendo assim, no Brasil, os profissionais da contabilidade precisam se preocupar em atender à estrutura conceitual ao elaborarem uma informação contábil-financeira para que ela seja carregada de utilidade para seus usuários. Além dos princípios e postulados, a contabilidade também tem algumas convenções cuja função é servir de restrições e delimitações às atribuições e direções dos profissionais da contabilidade. Com as convenções contábeis, os profissionais poderão sedimentar toda a experiência e o bom-senso que a profissão de contador acumulou ao longo dos anos. Elas servem também para que os profissionais possam tomar as melhores decisões durante o percurso da profissão. Sobre as convenções contábeis, Almeida (2018, p. 52) afirma que elas são “(...) tidas como restrições aos princípios contábeis. São também consideradas normas de caráter prático que devem ser observadas, como guias, facilitando o trabalho do contador. Não são consideradas geradoras de definições de critérios contábeis”. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 38 Figura 01 - Informações contábeis. Fonte: Pixabay (2024). As convenções existem, portanto, para ajudar os profissionais contábeis a definirem melhor a sua atuação. Ao se afirmar que as convenções são restritivas, isso não significa que elas minimizam a prática dos profissionais, mas, sim, que elas auxiliam os profissionais a definirem a sua atuação, impedindo que erros sejam gerados ou ocasionados pela inobservância de tais convenções, para que a situação líquida negativa indica que o patrimônio líquido da empresa também é negativo. A prática de adotar as convenções no dia a dia profissional é incorporada com o passar dos anos. Sendo assim, os profissionais que já atuam na contabilidade há mais tempo acabam integrando o uso das convenções em todas as suas atividades profissionais. A convenção da objetividade estabelece que o profissional contábil deverá sempre escolher o procedimento mais adequado, portanto, o mais objetivo, ao descrever um evento que impacte diretamente no patrimônio da entidade. Segundo essa convenção, o contador deverá sempre ser objetivo em suas escolhas, pois “(...) quando efetua uma escrituração de um fato, ele precisa alicerçar-se de elementos objetivos, visando tirar o máximo possível de subjetividade no lançamento contábil” (ALMEIDA, 2018, p. 103). A objetividade também afirma que, sempre que um novo lançamento for realizado, ele deve ser acompanhado de subsídios que ajudem a explicar tal fato. O contador, de ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 39 acordo com essa convenção, não deverá imprimir nenhum tipo de marca pessoal ao longo do processo de avaliação do objeto, por isso, a contabilidade deve ser ilesa de qualquer tipo de marcação que indique um comportamento ou atitude do profissional quea realizou, excetuando, é claro, a assinatura do profissional em documento. A consistência é também uma das convenções contábeis de grande importância. Alguns autores chegam a afirmar que ela poderia ser até considerada como um princípio contábil. A manutenção de critérios ao longo do tempo é importante para que seja possível efetuar a comparabilidade dos resultados de uma entidade. Essa convenção, portanto, é muito importante para realizar análises entre entidades de um mesmo setor ou, ainda, para analisar os resultados de uma mesma entidade em períodos distintos. A comparabilidade, conforme mencionado, faz parte das características qualitativas de melhoria apresentadas no CPC 00, que apresenta a estrutura conceitual para o relatório financeiro e que teve sua segunda revisão publicada no ano de 2018 (ALMEIDA, 2018). Uma das características qualitativas fundamentais da contabilidade e que também consta no CPC 00 é a materialidade. Ela está relacionada diretamente com o não desperdício de recursos, sejam eles financeiros, sejam de tempo, na realização da contabilização das atividades da entidade. Em uma situação em que houver inúmeros eventos a serem registrados, o profissional contábil deverá privilegiar os lançamentos que sejam dignos de atenção. Esses registros deverão ser realizados também no tempo oportuno. Segundo Sá (2000, p. 215), “(...) o julgamento quanto à materialidade também se relaciona com qual informação deve ser evidenciada, cuja exclusão dos relatórios publicados poderia levar o leitor a conclusões inadequadas sobre os resultados e as tendências da empresa”. 2. ESCOLAS CONTÁBEIS O valor científico da contabilidade foi reconhecido na primeira metade do século XIX, por volta de 1840, quando passou a ser classificada como uma ciência social aplicada. As escolas contábeis que recebem destaque devido à sua contribuição para o desenvolvimento da ciência contábil são a materialista, aziendalista, patrimonialista e neopatrimonialista, além da escola lombarda (ou administrativa), dos agrupamentos dos ativos e passivo, com intenção de: • O valor de financiamento de um veículo e o próprio valor do veículo são itens patrimoniais classificados como passivo e ativo, respectivamente. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 40 • A infraestrutura existente para a execução da sua atividade, tais como imóveis, terrenos e máquinas são itens patrimoniais classificados como ativo. Francesco Villa, pai da escola cientifica italiana, deu início às doutrinas contábeis italianas e da modernidade, originando a escola materialista, que se caracteriza por mesclar conceitos de contabilidade, administração e economia, dando uma visão interdisciplinar frente ao fenômeno patrimonial. Essa corrente, criada pela escola materialista, influenciou outras escolas, como a aziendalista, a patrimonialista e a neopatrimonialista. É possível encontrar um resumo dessas três escolas no Quadro 1. Escola Contribuição Essência Autores Aziendalista Aborda causa e efeito para as relações patrimoniais, instituindo a relação do débito como efeito do crédito. Interdependência entre a administração, a organização e a contabilidade. Fabio Besta, Giusepe Cerboni e Gino Zapa. Patrimonialista Define o patrimônio como objeto de estudo da contabilidade. Necessidade de uma medição monetária. Vincenzo Massi. Neopatrimonialista Reconhece a necessidade de estudo do fenômeno patrimonial. O fenômeno patrimonial se concebe de uma função sistêmica. Antônio Lopes de Sá. Quadro 1 - Escolas. Fonte: O autor. Convidamos você a fazer uma reflexão e tentar identificar a influência dessas escolas contábeis em seu curso de graduação ou na forma de atuação de um profissional da área contábil atual. Uma outra escola de destaque, a escola lombarda ou administrativa, contribuiu para o desenvolvimento da contabilidade no campo científico, definindo-a como um complexo de conhecimento e de operações que serve à aplicação de diversos métodos e uma disciplina de ordem superior destinada a interpretar a dinâmica das entidades, voltada para o controle da gestão. Essa escola reconhece a necessidade de os profissionais contábeis interagirem com as condicionantes econômicas do fenômeno patrimonial, e não somente quanto aos aspectos técnicos do registro. Apesar de toda a contribuição da escola italiana, sua decadência ocorreu com o que Schimidt (2016) chama de “Invasão Anglo-Saxônica”. Sua queda se deu ao mesmo tempo em que ocorria a ascensão da Escola Americana (Anglo-Saxônica). A Escola Americana deu origem ao Financial Accounting Standards Board (FASB) nos Estados Unidos. Ela era caracterizada pelo enfoque no aspecto prático do tratamento ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 41 de problemas econômico-administrativos, ditando regras de gestão financeira, de controle orçamentário, entre outros aspectos contábeis. O surgimento das gigantescas corporations, principalmente no início do século XX, aliado ao formidável desenvolvimento do mercado de capitais e ao extraordinário ritmo de desenvolvimento que aquele país experimentou e ainda experimenta, constitui um campo fértil para o avanço das teorias e práticas contábeis norte-americanas (ALMEIDA, 2018, p. 14). Como a Escola Italiana dava muita ênfase à teoria, a Escola Americana se fortaleceu através de uma informação útil ao usuário, auxiliando na tomada de decisão. Além disso, a relevância dada à auditoria, herança dos ingleses, representava a transparência das informações dos relatórios contábeis para investidores e credores, uma outra vantagem da Escola Americana. O mais interessante em ver todo esse processo de evolução da contabilidade por meio de suas escolas é compreender que, hoje, ela é uma Ciência que ainda está em constante construção e transformação. Assim, ela se insere em um contexto mundial que acompanha o próprio ritmo do desenvolvimento humano. 3. CONTABILIDADE NO BRASIL X CONTABILIDADE INTERNACIONAL A contabilidade no Brasil vivenciou um salto evolutivo a partir dos anos 2000, desde a necessidade do aprimoramento do olhar científico até a forte influência de convergência ao padrão internacional. Eventos como a instituição do BRGAAP (Princípios contábeis geralmente aceitos no Brasil) em 2010, o nascimento do CPC em 2005, a promulgação da Lei n° 11.638/2007 e a institucionalização do exame de suficiência causaram grandes avanços, que sujeitam a contabilidade brasileira a perseguir a qualidade das práticas e técnicas utilizadas nos países e mercados mais desenvolvidos. Entender a história da contabilidade no Brasil é fundamental para compreender o contexto em que se insere a profissão contábil em nosso País. Iremos nos aprofundar um pouco mais nesse assunto no próximo tópico. A contabilidade no Brasil é constituída de três momentos históricos demarcadores: anterior a 1964, posterior a 1964 e após 2007, com a consolidação jurídica da convergência ao padrão internacional e o caminho ao BRGAAP - Generally Accepted Accounting Principle (princípios contábeis geralmente aceitos no Brasil). ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 42 O ponto de início foi o ano de 1808, durante a instalação do reinado de D. João VI, quando foi publicado um alvará que obrigava os contadores gerais da real fazenda a aplicarem o método das partidas dobradas na escrituração mercantil. O Quadro 2 resume os principais marcos da evolução da contabilidade no País a partir de então. 1800 - 1963 1964 – 2005 2005 em diante 1808: alvará determinando a obrigação da partida dobrada pelos contadores gerais na escrituração mercantil. 1965: Criação do auditor independente. 005: Criação do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC). 1850: publicação do Código Comercial Brasileiro. 1972: Surgimentodos primeiros Princípios de Contabilidade geralmente aceitos no Brasil. 2007: Promulgação da Lei n° 11.638/2007 e a institucionalização e legitimação do CPC. 1905: reconhecimento do guarda-livros e do perito contador. 1976: Promulgação da Lei 6.404/76, conhecida como lei das S/As. 2008 – Elaboração do CPC 00 com a Estrutura Conceitual Básica nos padrões do IASB. 1931: reconhecimento da profissão de contador no Brasil. 1993: Estabelecimento da Resolução nº 750 quanto aos Princípios de Contabilidade. 2010: instituição do BRGAAP. 1940: surgimento da Lei das S/A no Brasil. 2010: Estabelecimento da obrigatoriedade do Exame de Suficiência para todos os contabilistas brasileiros. 1945: estabelecimento da contabilidade como formação universitária. 2011: revisão do CPC 00, ajustando-o ao Blue Book do IASB. 1946: fundação das primeiras faculdades de Contabilidade e Atuária no Brasil. 2011: revisão do CPC 26 R1 para a elaboração das Demonstrações Contábeis. 1946: Surgimento do Conselho Federal de Contabilidade (CFC). Quadro 2 - Evolução da Contabilidade no Brasil. Fonte: O autor. Segundo o American Accounting Association – AAA, a contabilidade é um processo que tem como finalidade auxiliar a tomada de decisões. Assim, segundo o CPC 00, quais são as características de uma informação contábil capaz de auxiliar a tomada de decisão? Perceba que a Lei 11.638/07 provoca uma virada nos padrões de contabilidade brasileira. Essa mudança foi necessária para que nossa contabilidade estivesse alinhada ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 43 aos padrões internacionais. Desde 2007, então, tem-se a elaboração de normas e a divulgação de procedimentos que permitem a comparação das informações contábeis brasileiras com as informações produzidas em diversos países do mundo. O investidor do mercado de capitais, nesse sentido, é um componente decisório nesse processo. Isso porque, ao promover uma contabilidade internacional, o investidor ganha maior grau de julgamento sobre as informações geradas pela contabilidade, o que aumenta a responsabilidade do contador perante as demonstrações. Como parte fundamental no desenvolvimento e normatização da profissão no Brasil estão o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) e os Conselhos Regionais de Contabilidade (CRC). Um pouco antes da segunda fase histórica da contabilidade brasileira, em 1946, o Decreto-Lei presidencial 9.295 fez ter materialidade e personalidade jurídica o Conselho Federal de Contabilidade (CFC), trazendo à tona também as atribuições dos contabilistas. O CFC trabalhou para a institucionalização dos Conselhos Regionais, de Contabilidade (CRCs), consolidando sua organização na Resolução nº 1 de 1946, revogada e alterada pela Resolução CFC nº 1.530, de 22 de setembro de 2017. Eles foram, então, direcionados ao registro dos profissionais em suas áreas de atuação, os quais, posteriormente, passaram a efetuar ações de fiscalização (ALMEIDA, 2018). Ao longo de sua história, o CFC tem emitido normas e regulamentações da atividade contábil no Brasil, frente a aspectos profissionais e técnicos, as quais são denominadas de Normas Brasileiras de Contabilidade (NBC), que, conjuntamente com os pronunciamentos do CPC, conduzem o dia a dia dos profissionais contábeis. Outros dois personagens importantes que praticam atos regulatórios no Brasil são o Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (IBRACON) e a Receita Federal do Brasil (RFB). Iremos estudar um pouco sobre eles a seguir. O IBRACON tem a função de emitir pronunciamentos, interpretações técnicas e orientações sobre temas contábeis. Ao longo de sua história, estabeleceu relacionamento com instituições e organismos internacionais e auxiliou o desenvolvimento da contabilidade no Brasil. Já a RFB é responsável pelo processamento do cadastro das pessoas físicas e jurídicas e pela fiscalização e arrecadação dos tributos de competência da União. Criada em 1968, a Secretaria da Receita Federal representou um avanço na facilitação ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 44 do cumprimento das obrigações tributárias, pois nasceu da unificação de diversos órgãos fiscais da administração pública federal. Durante um longo período, as regras contábeis eram confundidas com as regras fiscais. Desde sua promulgação em 1964, a lei das SAs trouxe diversas mudanças ao desenvolvimento das atividades contábeis, porém, a confusão entre o que era produção de informação contábil útil e o que era cumprimento de obrigações acessórias fez com que a atividade contábil ficasse subutilizada. Essa mudança de paradigma deu início ao processo de convergência das Normas Internacionais, que permitiu o desenvolvimento de uma atividade contábil independente das regras tributárias. Essas regras, por sua vez, passaram a ser contempladas por normativos específicos que não desvirtuam o contador de suas atividades contábeis, tampouco desobrigam-no de cumprir com a prestação de informações fiscais obrigatórias. Ao longo do tempo, essas normas da RFB passaram por diversas reformulações e hoje são constituídas por obrigações, como o Sistema Público de Escrituração Digital (SPED). O contexto mundial engloba empresas estrangeiras instaladas em países diferentes de suas origens. Nesse cenário globalizado, a contabilidade internacional tem como objetivo apresentar informações contábeis úteis e de alta qualidade a seus usuários, auxiliando-os, assim, na dinâmica das tomadas de decisões cotidianas. Logo, uma abordagem comportamental é um elemento diferencial para a produção de informações de qualidade e, consequentemente, para a manutenção dessas organizações. O processo de internacionalização das normas contábeis por meio das IFRS permite que a informação contábil tenha sua utilidade resguardada, preservando suas características de relevância e comparabilidade. Assim, essa informação não deixa de ser fidedigna ao prezar pela essência das operações uma vez que seu registro não é feito com o viés do contador, mas pautado na observação de como se registrar um fato, evidenciando como ele ocorreu. Diante disso, ao estudarmos a contabilidade dentro do contexto nacional, não podemos esquecer que os normativos contábeis seguem as IFRS (tanto no setor público quanto no privado). Esse entendimento é fundamental para compreender a abordagem comportamental, pois, a partir da internacionalização das Normas Brasileiras de Contabilidade, passamos a adotar normativos que prezam por uma postura com foco na produção de informações contábeis úteis. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 45 4. ESTRUTURA SOCIAL X CONTÁBIL Segundo a estrutura conceitual, a informação contábil-financeira de propósito geral é aquela capaz de atender às necessidades de uma gama de usuários, e não apenas a um usuário específico. Além disso, deve fornecer informações contábeis-financeiras acerca da entidade que as reporta (reporting entity) e que sejam úteis a investidores existentes e em potencial, a credores por empréstimos e a outros credores, quando for preciso tomar decisões ligadas ao fornecimento de recursos para a empresa em questão. Os investidores analisam as informações sobre a entidade para decidirem sobre compra, venda ou manutenção de seus investimentos, como ilustra a Figura 2 sobre o cuidado com o patrimônio. Figura 2 - Cuidado com o patrimônio. Fonte: Pixabay (2023c). Um dos pontos mais importantes da elaboração das informações contábeis- financeiras é compreender quem são seus usuários. A informação contábil-financeira de propósito geral é destinada a uma gama de usuários, que são credores, investidores e fornecedores, interessados em tomar decisões relativas a uma entidade. Os bancos, ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEISPROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 46 por exemplo, são credores que analisam a situação das empresas para analisar a concessão de crédito. Agora, para que esses usuários tomem suas decisões, eles se baseiam em três situações: 1. Situação financeira: está diretamente relacionada às disponibilidades da empresa para honrar com o pagamento de suas obrigações; 2. Situação econômica: apresenta os resultados econômicos da entidade (lucro ou prejuízo); 3. Situação patrimonial: diz respeito à composição do patrimônio da empresa. Essas informações contábeis permitem, por exemplo, que um credor avalie a capacidade de liquidez de uma entidade ou, ainda, que avalie a qualidade do seu endividamento. Também é possível obter informações sobre o grau de imobilização de capital da entidade ou a expectativa de entrada de recursos futuros por meio da análise de ativos recebíveis a longo prazo. 5. PROFISSÃO E PAPEL DO CONTADOR O campo de aplicação da contabilidade são as aziendas, que, segundo Almeida (2018), são entidades com natureza econômica com ou sem fins lucrativos, que têm um objetivo social ou econômico. Desse modo, o campo de atuação dos contadores é amplo, podendo, também, exercer suas atribuições de forma independente, nas empresas, na educação ou em órgãos públicos. Veja, a seguir, alguns campos de aplicação da contabilidade para os setores público e privado. Aproveite para ir refletindo e pensando sobre qual carreira seguir na profissão. A aplicação da contabilidade está situada no conjunto patrimonial, pertencente à pessoa física ou jurídica, pública ou privada, como indústrias, hospitais, igrejas, empresas e entidades governamentais, já que são sistemas organizados que visam a um fim específico. Pode-se dizer, então, que a contabilidade pode ser aplicada na abrangência dos setores públicos e privados, mesmo que incorpore a cada campo de atuação especificidades próprias para que atinja os fins propostos de reconhecer, mensurar e evidenciar a evolução do patrimônio e seus reflexos junto aos diversos usuários da informação. No setor privado, os profissionais da contabilidade têm atuação tanto gerencial como financeira. Na atuação gerencial, o contador atua na análise e desenvolvimento ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 47 de informações inerentes ao processo gerencial e decisório, utilizando-se de uma visão crítica e detalhada do patrimônio e suas inflexões frente aos acontecimentos do dia a dia. Na área de atuação financeira, por sua vez, o contador se ocupa do registro, controle e mensuração de todos os fatos patrimoniais, o que envolve o cumprimento de obrigações acessórias, como escrituração contábil e fiscal, prestação de informações sociais e elaboração de demonstrativos contábeis. A contabilidade e a administração pública estão intimamente ligadas, pois os contadores podem oferecer aos gestores públicos as informações fundamentais ao desenvolvimento do planejamento e execução orçamentária, que tem como base os Planos Plurianuais (PPA), a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA), nas quais o contador tem participação direta na produção de informações. Com a convergência ao padrão internacional, construiu-se no Brasil uma estrutura conceitual e normativa de práticas contábeis aplicadas ao setor público, que são as Normas Brasileiras de Contabilidade Aplicadas ao Setor Público. Os profissionais da área contábil também podem atuar no ensino da contabilidade, ainda mais com a convergência da contabilidade brasileira ao padrão internacional nos últimos anos. Essa mudança nos padrões contábeis brasileiros fez crescer a necessidade de reciclagem e de educação continuada dos profissionais já atuantes no mercado (ALMEIDA, 2018). Por conta desse processo de cientificação e alinhamento aos padrões internacionais, a oferta de cursos e eventos de educação continuada pôde ser ampliada, fazendo surgirem oportunidades de trabalho na área de atuação acadêmica. 6. APLICABILIDADE E INTRODUÇÃO DO CPC – COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS Durante muito tempo, a contabilidade brasileira foi determinada pela legislação tributária e pela legislação societária. Com o processo de globalização, tornou-se imprescindível uma harmonização da contabilidade, surgindo, assim, o IASC, organismo internacional mencionado anteriormente. Então, começou no Brasil o processo para alinhar as práticas contábeis aos padrões IFRS. Em 2005, foi criado para esse processo o CPC, um novo organismo independente, formado por diversas entidades representativas das áreas de contabilidade, finanças, mercado de capitais e bancos, além de seguradoras e a Receita Federal do Brasil (RFB). ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 48 Cabe ao CPC elaborar os pronunciamentos técnicos, as interpretações, as orientações e os comunicados acerca da contabilidade brasileira, sempre buscando a uniformização dos padrões brasileiros aos padrões contábeis internacionais com base nas IFRS. Todos os pronunciamentos técnicos devem ser submetidos a audiências públicas, assim como as orientações e as interpretações técnicas. O sistema contábil brasileiro sempre sofreu profundas influências legislativas, notadamente da legislação tributária e da legislação societária. Por sua vez, a Lei nº 11.638/07 atualizou a Lei das Sociedades por Ações e determinou que futuras normas devem estar de acordo com as normas internacionais de contabilidade, as IFRSs. Assim, o CPC se consolidou no Brasil com a emissão de diversas normativas técnicas alinhadas aos padrões IFRS, que são adotados pelos diversos órgãos regulamentadores de atividades profissionais e/ou de mercado, como o CFC, a Abrasca, a Apimec Nacional, entre outros. Está na net: Para que possamos realizar uma troca de conhecimento sobre a importância do CPC para a evolução das informações contábeis, indicamos um vídeo sobre a aplicabilidade do tema: Descomplicando os CPC´s, disponível em https://www. youtube.com/watch?v=a3jbyfovb4Q . ANOTE ISSO Após serem traduzidas, as IFRS são analisadas pelo CPC, que, depois de aprová- las, as transforma em NBCs. Outros órgãos reguladores também podem aprová- las para serem adotadas pelas entidades supervisionadas por esses órgãos reguladores. https://www.youtube.com/watch?v=a3jbyfovb4Q https://www.youtube.com/watch?v=a3jbyfovb4Q ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 49 CAPÍTULO 3 CPC 00 E CPC 26 Olá, estudante, você sabia que a construção e a apresentação das informações contábeis devem estar de acordo com as Normas Brasileiras de Contabilidade (NBC), alinhadas às International Financial Reporting Standards (IFRS) ou Normas Internacionais de Contabilidade. O processo de internacionalização da contabilidade brasileira, iniciado em 2007, objetiva conferir comparabilidade às informações contábeis produzidas em diferentes países, onde os registros contábeis são: • Os termos de débito e crédito fazem parte do conceito do método de partidas dobradas. • Uma redução no ativo gera uma mutação a crédito na conta contábil deste ativo, enquanto que uma redução no passivo gera uma mutação a débito na conta contábil deste passivo. • Toda mutação patrimonial e financeira repercute em mais de um item patrimonial ao mesmo tempo, existindo desta forma contas contábeis que serão debitadas e contas contábeis que serão creditadas, respeitando a regra de ouro de que montantes a débito devem ser iguais aos montantes a crédito. Um dos pronunciamentos mais relevantes nesse processo é o Pronunciamento Contábil 00, que deu origem à Estrutura Conceitual e enfatiza a necessidade de produzir informações úteis: se a informação contábil-financeira é para ser útil, ela precisa ser relevante e representar com fidedignidade o quese propõe a representar. A utilidade da informação contábil-financeira é melhorada se ela for comparável, verificável, tempestiva e compreensível (IUDÍCIBUS et al., 2020). A elaboração de informações contábeis tem restrições, como o custo para produção da informação. A Estrutura Conceitual define que o custo deve ser um fator observado na elaboração das informações, restringindo, inclusive, sua produção quando o custo superar o benefício que ela trará (CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE, 2014). As Normas Brasileiras de Contabilidade (NBC) baseiam-se em padrões internacionais de contabilidade emitidos por uma entidade internacional denominada International Accounting Standards Board (IASB). ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 50 O IASB é um órgão independente e de caráter privado, que tem como objetivo uniformizar os princípios de contabilidade geralmente aceitos, abrangendo todas as nações. Esses princípios são aplicados em entidades empresariais e demais organizações governamentais e não governamentais, decorrendo de suas atuações a terminologia International Financial Reporting Standards (IFRS). Essas normas internacionais (IFRS) servem de base para a elaboração de pronunciamentos contábeis no Brasil, que, por sua vez, se tornaram a base normativa de diversos órgãos brasileiros de regulação, como o Conselho Federal de Contabilidade, o Banco Central do Brasil e a Comissão de Valores Mobiliários. No Brasil, até 2007 o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) era o principal responsável pela criação e institucionalização das normas de contabilidade e auditoria no Brasil, o que veio a ser modificado em 2005 com a criação do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC). A legitimidade do Comitê de Pronunciamentos Contábeis foi consolidada com a edição da Lei 11.638/07, a qual alterou a Lei 6.404/76, a chamada Lei das Sociedades Anônimas. Após a promulgação da lei, em 2008, o CPC emitiu seu primeiro pronunciamento, o CPC 00. Atualmente, as entidades brasileiras estão submetidas às regulações dos órgãos normatizadores dependendo de seu porte, composição acionária e setor de atuação, e estes, por sua vez, referendam os pronunciamentos do CPC, os quais se tornam obrigatórios pelas entidades por eles reguladas. Exemplificando: o CFC tornou obrigatória a adoção do CPC 00 por meio da Resolução 1.374/11. A CVM aprovou a adoção do CPC 00 pelas empresas de capital aberto e de grande porte por meio da Normativa 675 de 2011 (IUDÍCIBUS et al., 2020). Desde 2008, esse órgão contribui com pronunciamentos, interpretações de normas, orientações e revisões de regras. Isso faz com que a contabilidade brasileira, além de convergir para os padrões contábeis internacionais, seja adequada à nossa realidade e atualizada constantemente. É importante destacar que todos os documentos emitidos pelo CPC são enviados aos órgãos reguladores, que decidem por acatar ou não, no todo ou em parte, seu conteúdo, para que o pagamento de uma parcela de financiamento representa a diminuição do ativo e passivo” e “O depósito do dinheiro em caixa no banco representa o aumento e a diminuição do ativo” referem-se a fatos permutativos ou compensativos (1). “O aumento do capital social pelos sócios representa o aumento do ativo e patrimônio líquido” corresponde a fatos modificativos e “A compra de uma ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 51 máquina a prazo representa o aumento do ativo e passivo, também corresponde a fatos permutativos ou compensativos. Esse novo modelo contábil abandonou a velha contabilidade, voltada para fins fiscais, e ressuscitou a verdadeira função da contabilidade: fornecer informações fidedignas aos usuários dos dados contábeis. Assim, tanto as regras contidas na Lei nº 11.638/07 quanto as normas emitidas pelo CFC passaram a dar preferência pela essência do fato em detrimento da forma como ele foi materializado, o que constitui a primazia da essência sobre a forma. Desde então, a contabilidade vem se desapegando da cultura enraizada de que suas informações são utilizadas, principalmente, para atender ao Fisco. Agora, apesar de ainda ser atendido, o Fisco não é mais o primeiro a se beneficiar das informações contábeis. Quando há conflito entre regras contábeis e fiscais, utiliza-se a regra contábil e realiza-se o devido ajuste em livro próprio fiscal, como no e-LALUR. Com esse novo padrão contábil, várias regras de contabilização, vigentes até então, começaram a ser revisadas e alteradas para atender ao renascimento da informação contábil no Brasil. A visão contábil passou a possibilitar a análise dos fatos contábeis sob a ótica de princípios e deixou de ser uma interpretação puramente literal ou legal. Contudo, como o projeto da Lei nº 11.638/07 levou anos para ser aprovado, durante esse período surgiram novas necessidades de adequação. Assim, a Lei nº 11.941/09 também alterou dispositivos da Lei nº 6.404/76. Ainda, surgiram novas denominações para antigas transações, desdobramento de fatos contábeis, alterações de classificações de contas e uma nova estrutura para o balanço patrimonial. Além dessas, aconteceram outras mudanças para adequar a contabilidade brasileira aos padrões internacionais (ALMEIDA, 2018). A compreensão do conceito de receita e sua classificação se tornam cruciais para podermos estudar a composição dos resultados de uma entidade. Porém, assim como as receitas, existem outras atividades da empresa que geram benefícios econômicos: são os valores denominados de ganho. Sendo assim, antes de nos aprofundarmos de fato no conceito de receitas, iremos aprender o que são ganhos. Em sua constituição e formalização, uma empresa define qual é sua atividade principal. Por exemplo, uma loja que vende roupas tem como atividade principal o comércio de artigos de vestuário. Por ser sua atividade principal, na contabilidade ela é definida como atividade operacional. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 52 Figura 1 - Avaliação financeira. Fonte: Pixabay (2023a). Agora imagine que essa mesma entidade que comercializa artigos de vestuário tenha decidido renovar sua loja e, para isso, vendeu os manequins antigos. Um erro muito comum é classificar essa venda como receita, mas é preciso esclarecer que os benefícios econômicos oriundos de transações que não fazem parte da atividade operacional de uma empresa devem ser definidos como ganhos. Mas o que seria, então, uma receita? Assim os custos das vendas são itens de desempenho e podem ser identificados nos agrupamentos do passivo circulante. O Comitê de Pronunciamentos Contábeis (2011) define receita como sendo aumentos nos benefícios econômicos durante o período contábil sob a forma de entrada ou aumento de ativos ou diminuição de passivos, que resultam em aumentos do patrimônio líquido e que não sejam provenientes de aporte dos proprietários da entidade. Prevista no CPC 00 (Estrutura Conceitual Básica da Contabilidade Brasileira), a definição de receita é muito mais abrangente, pois contempla tanto os recursos advindos das atividades operacionais de uma empresa (a venda de artigos de vestuário em nosso exemplo) como os ganhos (a venda de manequins em nosso exemplo). ISTO ESTÁ NA REDE Para complementar nossos estudos, segue um vídeo: CPC 00 ESTRUTURA CONCEITUAL, ELABORAÇÃO E DIVULGAÇÃO DE RELATÓRIOS CONTÁBEIS, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=SItmRdunDDk. As receitas, portanto, surgem das atividades usuais da entidade. Por exemplo, um escritório de contabilidade aufere receitas de honorários, enquanto uma empresa https://www.youtube.com/watch?v=SItmRdunDDk ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 53 comercial aufere receitas com vendas de mercadorias.Esses exemplos usam a classificação de receitas, pois fornece serviços contábeis (objeto social de um escritório contábil) são suas atividades usuais. Assim, como a comercialização de mercadorias é o objeto social de uma entidade comercial, o aumento de benefícios econômicos ocasionado por essas atividades é denominado de receita. Por outro lado, os ganhos, segundo o CPC (2011), representam outros itens que se enquadram na definição de receita e podem ou não surgir no curso das atividades usuais da entidade, representando aumentos nos benefícios econômicos. O próprio CPC 00 de 2011 traz como exemplo a venda de bens que estão no ativo não circulante. Por exemplo, quando um escritório contábil vende o prédio em que está localizado, ele obtém um ganho (HENDRICKSEN, 2015). Em qualquer entidade, o conhecimento das receitas é fundamental para determinar o resultado de uma empresa. Sem esse conhecimento, não é possível criar informação com valor preditivo e apontar, por exemplo, o ponto de equilíbrio da entidade, ou seja, o momento em que as receitas são suficientes para arcar com todos os custos e despesas. O CPC 47 faz menção à Obrigação de Desempenho, definindo que, para se ter o reconhecimento de uma receita, se faz necessária a transferência dos bens e serviços aos clientes, cumprindo com as obrigações assumidas. No entanto, essa “nova” definição de receita não é aplicável às entidades que seguem a ITG 1.000 (Interpretação Técnica geral – Modelo Contábil Simplificado para Microempresas e empresas de Pequeno Porte) (HENDRIKSEN, 2015). Uma obrigação de desempenho refere-se à promessa feita pela entidade em entregar um bem ou serviço, ou parte de um bem ou serviço, ao comprador. Uma promessa constitui uma obrigação de desempenho se o bem ou serviço prometidos forem distintos. Em outras palavras, o CPC 47 define que uma receita deve ser reconhecida apenas quando a entidade cumprir com as obrigações referentes àquela receita. Por exemplo, uma empresa que fabrica móveis sob medida cumpre com suas obrigações de desempenho quando finalmente realiza a entrega e a montagem dos móveis na casa do cliente, pois essa era sua obrigação de desempenho principal de acordo com a essência comercial da transação com o seu cliente. Ressalta-se que um contrato com um cliente vai além do que podemos imaginar. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 54 Mesmo que não exista um papel (um documento jurídico formal), é possível que tenhamos um contrato. Na venda de uma mercadoria, por exemplo, há um contrato; na prestação de um serviço, há um contrato. Nessas situações, as atividades desenvolvidas por uma entidade, seja pela prestação de serviços ou pela comercialização de mercadorias, há a necessidade de se reconhecerem receitas. Essas mudanças na forma como as receitas são reconhecidas, advindas do CPC 47, trouxeram inúmeras alterações práticas para o registro contábil dos fatos contábeis. 2. CONTAS DE INVESTIMENTOS – RECEITAS E DESPESAS As receitas oriundas da atividade operacional podem ser divididas em receitas de prestação de serviços e receitas de comercialização de mercadorias. As receitas de prestação de serviços são os aumentos de benefícios econômicos, obtidos pela empresa que presta serviços aos seus clientes. Assim, as receitas de comercialização de mercadorias são obtidas quando a entidade realiza atividade de venda de produtos. A diferenciação entre essas duas receitas é fundamental para que possamos representar, de forma fidedigna, a informação contábil e acrescentar a ela uma característica que eleve sua utilidade. Imagine uma concessionária de veículos - normalmente esse tipo de empresa, além de realizar a revenda de veículos (comercialização), também presta serviços de manutenção nos automóveis (prestação de serviços). Figura 2 - Investimentos. Fonte: Pixabay (2023f). Essas operações de comercialização de mercadorias e de prestação de serviços resultam de atividades principais (operacionais) da empresa, porém, são realizadas em momentos distintos e, provavelmente, têm relevância distinta. Desse modo, é importante distinguir uma da outra para que seja possível mensurar e reconhecer ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 55 a origem dos resultados obtidos pela entidade, onde a contabilidade tomou ciência de que a apuração do resultado do mês anterior foi efetuada de forma incorreta” corresponde à oportunidade “Foram informados os valores da folha de pagamento dos funcionários à contabilidade da empresa no dia 28 do mês, embora o pagamento só ocorra no quinto dia útil do próximo mês” refere-se ao item competência, “O sócio apresentou uma despesa particular à contabilidade da empresa” relaciona-se à entidade, “Houve pagamento de prestador de serviço em dinheiro, sem a presença do recibo do pagamento no livro-caixa da empresa” refere-se à objetividade e, por fim, “Encerrou-se o mês e foi necessário apropriar parcela do prêmio do seguro ao resultado” remete à competência. Portanto, a apresentação ideal das receitas de uma entidade deve considerar a separação entre aquelas que são originadas por meio da comercialização de mercadorias das que ocorrem por meio da prestação de serviços. Agora que você já compreende a definição de receita e sua classificação em receitas de serviços e receitas de venda (comercialização), iremos nos aprofundar em um outro aspecto da receita: as contas redutoras de receita. Conforme orienta a Estrutura Conceitual, as despesas e receitas precisam ser confrontadas. Esse processo faz parte da produção de uma informação contábil útil, com características de fidedignidade e relevância. Mas o que seriam as despesas? Almeida (2018) ressalta que as despesas representam as variações desfavoráveis dos aumentos ou diminuições de benefícios econômicos das organizações empresariais, produzindo redução nos lucros e, por conseguinte, no patrimônio. Na prática, podemos entender as despesas como sendo a diminuição do patrimônio de uma entidade como um esforço para a obtenção de receitas. É importante ressaltar, ainda, que a representação das despesas, segundo a Lei 6.404/76 e Pronunciamento contábil CPC 26, pode ser feita de acordo com a natureza da despesa (IUDICIBUS et al., 2020). Essa natureza pode ser sintética, demonstrando as despesas em categorias - como de vendas, gerais e administrativas -, ou ainda estar de acordo com sua função, demonstrando as despesas de forma analítica - como despesas com comissões, despesas com depreciação, entre outras. Desse modo, elas são inseridas no DRE de acordo com os objetivos da empresa para com seus stakeholders (usuários da informação). Assim, devem prevalecer os objetivos organizacionais para que a representação das despesas seja adequada às necessidades ou objetivos da entidade. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 56 Apesar de existir essa liberdade de escolha por parte da empresa (em demonstrar de acordo com a natureza ou função), há uma sequência a ser seguida para apresentação. De acordo com o CPC 26, as despesas devem ser apresentadas na seguinte ordem: despesas com vendas, gerais e administrativas, e outras despesas operacionais. O art. 187 da Lei 6.404/76 determina que as despesas apresentadas na DRE serão as despesas com as vendas, as despesas financeiras, deduzidas das receitas financeiras, as despesas gerais e administrativas, e outras despesas operacionais (SCHMIDT; SANTOS, 2016). 3. TOMADA DE DECISÃO X RAMIFICAÇÕES CONTÁBEIS No atual contexto socioeconômico, segundo Mendonça, Ferreira e Neiva (2016), as empresas estão permanentemente pressionadas a inovar e a rever o modus operandi que pode comprometer a sua sobrevivência ou para se adaptarem às dinâmicas do seu ambiente do negócio, ou até para estabelecerem novosobjetivos estratégicos através de uma boa tomada de decisão contábil. Independentemente dos motivadores, a investigação de problemas ou oportunidades e a análise organizacional são fundamentais para traçar cenários com informação acurada e válida afim de suportar o processo de tomada de decisão sobre como utilizar melhor os recursos para assegurar o desenvolvimento e a evolução sustentável da empresa, assim o gestor deverá comprar à vista, ocorrerá a redução das disponibilidades existentes na empresa, estejam elas no caixa ou na conta corrente no banco, ao mesmo tempo em que isso aumentará os estoques de mercadorias para revenda. Se o gestor decidir por comprar a prazo, ocorrerá o aumento das obrigações com fornecedores, ao mesmo tempo em que aumentarão os estoques de mercadorias para revenda. Como o impacto nos estoques é igual, em ambas as alternativas, a decisão será centrada na redução das disponibilidades ou no aumento das obrigações. As análises da organização referem-se ao esforço de investigação, classificação e caracterização dos seus componentes e elementos para determinar se eles constituem ou não problemas ou oportunidades (ALMEIDA, 2018). O processo de investigação ou análise organizacional consiste na coleta sistemática, organização e interpretação fundamentada da informação, seja relacionada à empresa como um todo e sua relação com o ambiente de negócio, sobre algum ou alguns dos componentes e elementos, ou sobre algum aspecto específico do funcionamento ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 57 da organização. Nesse sentido, a contabilidade proporciona algumas ramificações: finanças, tributária, gerencial, atuarial, custeio e administrativa, que compõem a análise organizacional. Figura 3 - Tomada de decisão. Fonte: Pixabay (2023j). De acordo com Almeida (2018, p. 79), o propósito da medição e análise da produtividade organizacional “(...) é um tema estudado em várias áreas, tais como a economia, a contabilidade, a gestão, o marketing, a gestão de recursos humanos e a engenharia industrial”. Entretanto, reitera o autor, “(...) medir a produtividade em diferentes níveis da organização requer uma compreensão aprofundada de como a informação da produtividade deve ser analisada e das limitações da medição”. O autor ainda utiliza como exemplos as definições e coleta de dados, bem como a frequência das análises (ALMEIDA, 2018, p. 85). ANOTE ISSO Para complementar nossos estudos, segue o artigo A importância da Contabilidade no processo de tomada de decisão nas empresas, disponível em https://www.lume. ufrgs.br/bitstream/handle/10183/25741/000751647.pdf?sequence=1. O conceito de estratégia é, de toda forma, bastante amplo, mas pode facilmente ser compreendido com exemplos de sua aplicação. Em uma maneira um pouco conceitual, a estratégia é a forma de analisar os objetivos da organização e identificar caminhos a seguir, que culminem no alcance dos resultados. Para Sá (2000), o conceito de estratégia pode ser compreendido na atualidade não apenas como uma soma de planos e intenções colocadas em um papel, mas as formas não racionais pelas quais https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/25741/000751647.pdf?sequence=1 https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/25741/000751647.pdf?sequence=1 ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 58 as organizações absorvem e interpretam seus processos internos e vivenciam os processos do ambiente no qual estão inseridas, ou seja, uma soma do racional da administração com a percepção extraída pelos participantes de cada processo. Da mesma forma como as principais decisões devem ser tomadas no âmbito organizacional, para atender aos direcionamentos estratégicos o desempenho organizacional também deve estar alinhado às diretrizes estratégicas organizacionais. Para melhor aproveitamento do potencial da medição da produtividade, Sá (2000) explica que devem ser utilizados oito direcionadores estratégicos: 1) comunicar orientações futuras; 2) estabelecer responsabilidades funcionais, individuais e de grupo; 3) definir os papéis e atividades; 4) alocar os recursos; 5) monitorar e controlar as atividades; 6) ligar os principais processos organizacionais; 7) estabelecer metas; e 8) preparar as mudanças necessárias para assegurar a melhoria contínua. A mensuração da produtividade, a partir do estudo de indicadores de desempenho, visa identificar, de forma clara e objetiva, como os processos, por meio das suas atividades e das competências dos profissionais, podem contribuir para o alcance dos objetivos estratégicos das organizações. As empresas precisam se empenhar na identificação e mensuração das suas competências essenciais e nas tecnologias necessárias para garantir seu posicionamento no mercado, de forma contínua. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 59 AULA 4 ANÁLISES FINANCEIRAS Olá, estudante, você sabia que quando se concebe a ideia da racionalidade ao homem de forma ordenada, é possível perceber, em sua essência condicionada à natureza humana, o sentido de posse e propriedade e as relações de poder (HENDRIKSEN, 2015). É nesse contexto que nos aprofundaremos na história da contabilidade e na formação de seus pensamentos e estruturas científicas, compreendendo seus instrumentos práticos do reconhecer, mensurar e evidenciar informações fundamentais para o processo decisório de diversos usuários. Figura 1 - Preocupações contábeis. Fonte: Pixabay (2023h). A estrutura fundamental classificatória da contabilidade é permeada por diversas correntes doutrinárias. Mas o que é contabilidade? Almeida (2018, p. 41) a define como a “(...) arte de registar, classificar e sumariar as transações e eventos de características financeiras”. Uma ciência que desenvolveu a lógica e a racionalidade e se constituiu por meio de um processo contínuo de hipóteses e de sua instrumentalização social, contendo os seguintes elementos e premissas básicas: • objeto de estudo definido; ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 60 • métodos de raciocínio de aspectos lógicos a serem investigados; • métodos de construção de proposituras e enunciados; • métodos frente aos aspectos técnicos de sua interpretação e análise; • referências comparativas e evolutivas cronologicamente. Frente ao exposto, é possível compreender que a contabilidade é uma ciência já que tem o patrimônio como objeto de estudo e compreende todos os aspectos elencados para sua caracterização, utilizando, em sua instrumentalização, as ferramentas de mensurar, reconhecer e evidenciar para a produção de informações úteis ao processo decisório, e assim sobre qualidades da informação contábil, relevância, fidedignidade e comparabilidade: • A informação contábil é relevante quando ela auxilia nas decisões dos gestores da organização. • A informação contábil será considerada fidedigna se não contemplar erros ou omissões sobre o fato contábil retratado. Pois a qualidade da verificabilidade está relacionada à capacidade de diferentes observadores, conhecedores e independentes chegarem a um consenso sobre como a informação representa a realidade econômica do fenômeno. Assim existem registros que comprovam que a essência do reconhecimento patrimonial e sua evolução ultrapassam o período pré-histórico mesolítico, entre 10.000 e 5.000 a.C., no que chamamos de arqueologia contábil (SÁ, 2000). Sá (2000, p. 6) cita que, na Bíblia Sagrada, também é possível encontrar passagens que remetem ao controle patrimonial, como em Jó, capítulo 42, versículo 12: “A relação de bens de Jó demonstra um cuidado no controle do seu patrimônio pessoal. Por questões espirituais, um dia, Jó perde toda sua fortuna, tornando-se um homem pobre, semnenhum bem”. No final do livro de Jó, algo inesperado acontece. Por motivos espirituais, ele recupera sua fortuna e não deixa de reencontrar um contador que, num certo momento, apresenta um relatório surpreendente: sua riqueza estava duplicada em relação ao primeiro inventário. Assim, desde o período medieval, a forma da escrita já se manifestava para compreender as necessidades de uma sociedade principalmente para a comunicação e interpretação da mesma, assim nas civilizações mais antigas, com o surgimento das primeiras grandes comunidades nas terras do Oriente Próximo. Mesmo inexistindo a escrita e a contagem, essas comunidades produziam fichas de controle. São os ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 61 primeiros registros dos meios de posse e propriedade (riqueza). Os primeiros indícios das partidas dobradas, por exemplo, foram encontrados em registros feitos com argila na baixa Mesopotâmia. Ainda conforme Sá (2000), a sistematização da escrita contábil se desenvolveu em função do progresso de 11 cidades-estados onde o progresso econômico foi expressivo, gerando um sistema altamente organizado para memorizar a informação. Outro fator determinante dos primórdios mesopotâmicos da contabilidade advém da necessidade de buscar o verdadeiro registro, o que deu origem à auditoria, ou contra- contagem, cujo registro histórico mais antigo data de 2.600 a.C. Anteriormente, na Itália do século XIV, houve um processo de intensa renovação cultural, cientifica e comercial. Esse período demarca o início do que os historiadores convencionam denominar de Idade Moderna, no qual se têm os primeiros registros sobre o uso de um sistema formal de escrituração contábil, representado sob a forma de documentos que evidenciavam os detalhes das transações comerciais e seus impactos na geração de riqueza da entidade empresarial denominada intuitiva, e assim sobre plano de contas: • Apoiar a elaboração de relatórios com informações precisas e simplificadas aos usuários internos e externos é um dos objetivos do plano de contas. • O plano de contas representa a organização da informação na empresa e será elaborado com base em suas necessidades e exigências legais, e de agentes externos. ANOTE ISSO Para complementar nossos estudos, segue indicação de um artigo que descreve a importância dos fatos e fatores históricos em relação à evolução e comportamento contábil. O artigo se chama Evolução do ensino da contabilidade no Brasil: uma análise histórica e está disponível em https://www.scielo.br/j/rcf/a/ xYXTw4XrWb6FJc7HnbFnpkw/?lang=pt. Mais adiante, o mês de novembro de 1494 foi um marco na história da contabilidade, com a obra do frei Luca Pacioli, intitulada Summa de Aritmetica, Geometria, Proportione et Proportionalita, que sistematizou a partida dobrada e sua universalidade, dando uma nova dimensão ao mundo contábil. Essa sistematização, trazida pela obra do https://www.scielo.br/j/rcf/a/xYXTw4XrWb6FJc7HnbFnpkw/?lang=pt https://www.scielo.br/j/rcf/a/xYXTw4XrWb6FJc7HnbFnpkw/?lang=pt ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 62 frei italiano, representava a ressignificação da contabilidade, dando relevância às necessidades da sociedade à época (SCHIMIDT; SANTOS, 2016). A obra foi, sem dúvida, um dos principais motores para a ascensão da escola europeia. O conteúdo organizado e sistematizado por Luca Pacioli é essencialmente respaldado nos conceitos da álgebra greco-romana, criada antes da era cristã e que chegou à Europa através do livro Liber Abaci, escrito por Leonardo Fibonacci (1170-1250). Toda essa evolução da ciência contábil não seria possível se não tivéssemos as contribuições das diversas escolas do pensamento contábil, aperfeiçoando, assim, as técnicas científicas para melhor desenvolver os cuidados relacionados ao patrimônio. A ciência contábil tem cerca de 10.000 anos de história, comprovados em registros desde a época em que a escrita ainda não havia se desenvolvido. Vimos as primeiras inscrições, da Mesopotâmia, passando pela formalização, as escolas basilares e a consolidação da partida dobrada, com os italianos, até chegar à padronização e aos institutos universalizados pelos americanos, assim o balanço patrimonial é um sumário das contas do ativo e passivo, e sempre é apresentado em nível sintético, mensal, semestral ou anualmente. Desta forma, não apresentará o saldo individualizado por fornecedor e em periodicidade semanal, como desejado pelo gerente. As escolas italianas e americanas (anglo-saxônica) influenciaram a formação do arcabouço teórico da contabilidade brasileira, dividido em três marcos temporais: do século XIX a 1946, de 1946 até os primeiros anos do século XXI e a partir de 2005, com a convergência aos padrões internacionais e o surgimento do CPC, pois, Controle de imobilizado diz respeito à placa de identificação do bem. Emissão de nota fiscal de venda” refere-se à descrição, quantidade, valor unitário do produto comercializado corretamente. Controle dos estoques” relaciona-se à identificação da unidade de localização da mercadoria Prestação de contas de viagem corresponde à nota ou cupom fiscal para comprovação do gasto com alimentação. Atualmente, a contabilidade é dividida em diversos ramos de atuação, dos quais os principais são o geral, o financeiro, o público e o gerencial. A existência e o desenvolvimento da contabilidade estão atrelados à necessidade de informações contábeis, que têm papel relevante no processo de tomada de decisão tanto em entidades privadas, com ou sem fins lucrativos, como nas da esfera pública, como as prefeituras e os governos estaduais e federal. Nesse sentido, veremos qual é o objeto e o objetivo do estudo da contabilidade. Em seguida, faremos uma distinção entre dados e informações para, então, compreendermos ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 63 o que cada usuário da contabilidade busca ao utilizar seus resultados, através dos estoques obsoletos, que Para identificar a existência de estoques obsoletos no patrimônio da empresa é necessário analisar o agrupamento de estoques, em vários meses, através do balancete de verificação. Ao identificar que não há movimentação em determinado item do estoque, deve-se analisar se esse item é um caso de estoque obsoleto. Se for, a empresa pode reconhecer a perda deste estoque em seu desempenho operacional e ajustar o patrimônio a valores reais. Um dos primeiros aspectos que se deve observar ao analisar a concessão ou não de um empréstimo é se a pessoa que pede terá ou não capacidade para realizar o pagamento dentro do prazo e das condições acordadas. Para tanto, é possível contar com o auxílio de relatórios financeiros sobre ela, indicando quão endividada está. Adaptando esse exemplo para o mundo corporativo, suponhamos que uma empresa queira ampliar sua área de atividade, necessitando do empréstimo de um banco. É comum que agentes de crédito peçam a seus clientes informações contábeis que demonstrem sua capacidade de pagamento. Ou seja, temos, nessa situação, um usuário da contabilidade pedindo informações que lhe ajudem a tomar uma decisão. Sendo assim, o propósito da contabilidade é controlar o patrimônio objetivando a produção de informações úteis ao processo decisório. 1. POSTULADOS CONTÁBEIS Como vimos até aqui, o principal objetivo da harmonização contábil global é fazer com que os demonstrativos contábeis financeiros possam ser compreendidos nos mais diversos países, sem que, para isso, seja preciso elaborar diversas demonstrações diferentes para atender às exigências do mercado internacional. Até aqui, compreendemos a dinâmica da contabilidade no mundo, os modelos contábeis dominantes e o posicionamento do Brasil nesse cenário por intermédio do CPC. Dessa forma, iremos apresentarneste momento os postulados contábeis, porém, o CPC não os cita mais em sua redação, mas, sim, manifesta sua existência e conceitos na harmonização contábil. A informatização de processos, a globalização, o aumento da concorrência e as mudanças frequentes que são impostas às organizações trazem aos profissionais e gestores uma série de desafios profissionais. Os profissionais que atuam na contabilidade também têm o seu trabalho influenciado por todas essas mudanças e devem estar sempre atentos a qualquer tipo de impacto que tais mudanças possam ocasionar na ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 64 forma de contabilizar o patrimônio, bem como na forma de gerar informações para a tomada de decisões e controles. A inovação é constantemente apontada como uma das principais formas de melhoria em processos organizacionais, portanto, as organizações devem incentivar seus colaboradores, independentemente do nível em que se encontram na empresa, a buscarem formas de inovar em seus processos. Ao estabelecer a criatividade como a tônica para os seus negócios, organizações de todos os setores agregam inúmeras vantagens competitivas diante da concorrência. Na contabilidade, a inovação em processos também é bem-vinda, pois permite que o setor ganhe maior eficiência e eficácia em todos os processos realizados. Entretanto, a contabilidade, como toda ciência, tem postulados, princípios e convenções que devem ser seguidos por todos os que atuam, ou pretendem atuar, na área. Os seis princípios têm igual importância e devem ser observados no dia a dia dos profissionais da contabilidade. Entretanto, dois deles, dada a sua aplicabilidade, são também denominados de postulados contábeis. Segundo Almeida (2018, p. 101), postulados “(...) são os elementos vitais, elementos básicos, em que se estruturou toda a contabilidade atual; são as condições sine qua non para o desenvolvimento da contabilidade”. São considerados postulados contábeis os princípios da entidade contábil e o princípio da continuidade. A inobservância dos princípios contábeis por parte do contador constitui uma infração ao Código de Ética Profissional do Contador (CEPC). O contador que não observar esses princípios poderá receber penalidades, como afastamento temporário ou até permanente da profissão. Outras penalidades são as multas, que podem variar de valor de acordo com a gravidade e os impactos ocasionados pela não aplicação dos princípios contábeis. Se quiser ler o texto completo do CEPC, basta pesquisar por “Código de Ética Profissional do Contador” no seu navegador da Internet e acessar uma fonte confiável do texto, como o site do CFC ou dos conselhos regionais de contabilidade. Os usuários da contabilidade devem receber as informações com o máximo de exatidão para que possam tomar as melhores decisões. Sendo assim, ao seguir os princípios da contabilidade e aplicar todos os aspectos a eles relacionados, a contabilidade poderá atender aos anseios e necessidades de todos os usuários. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 65 2. PRINCÍPIOS CONTÁBEIS Princípios contábeis são regras e diretrizes da contabilidade que são aplicáveis e aceitas por todos os profissionais e entidades que atuam na área. Esse conjunto de regras orienta a prática contábil e estabelece a estrutura conceitual da contabilidade. Essas regras são estabelecidas pelas entidades de classe, comitês, comissões especiais e órgãos reguladores (ALMEIDA, 2018). Entidades como o Instituto Brasileiro de Contadores (Ibracon) e o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) tiveram papel fundamental nas discussões relacionadas aos princípios contábeis no Brasil. Os princípios contábeis ajudam os profissionais da área a nortearem sua atuação, ajudam no processo de organização e também permitem à contabilidade manter sua essência como uma ciência social aplicada. Figura 1 - Princípios e normas. Fonte: Pixabay (2023i). Ao estudarmos os princípios contábeis, não devemos confundi-los com os objetivos e o objeto da contabilidade. Enquanto a contabilidade tem como objeto o patrimônio das entidades e como objetivo gerar informações aos usuários, os princípios são a forma, o meio e a estrutura que a prática contábil utiliza para chegar aos objetivos (SÁ, 2000). ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 66 Definir princípios contábeis é algo que auxilia a todos os profissionais que atuam, direta ou indiretamente, na contabilidade. A definição de padrões sempre contribui muito para a evolução e a aplicabilidade da própria ciência: Decorre que um padrão estabelece uma forma de conduta a ser seguida pelos operadores da contabilidade, os princípios subjacentes a essa norma de conduta podem ser considerados consoante duas linhas de raciocínio distintas, porém, complementares e não excludentes. A primeira refere-se à figura dos princípios como regramento, ou seja, o estabelecimento de diretrizes e regras que devem ser adotadas pelo contador no exercício de suas atividades operacionais. A segunda refere-se aos princípios sob uma perspectiva filosófica, voltada aos valores éticos, morais e responsáveis que permeiam o julgamento de valor na conduta do contador (IUDÍCIBUS et al., 2020). A contabilidade evolui constantemente em face das mudanças ocorridas na sociedade e também porque, como toda ciência, ela se transforma e se modifica, visando a acompanhar as necessidades dos seus usuários. Antigamente, os princípios contábeis eram denominados princípios contábeis geralmente aceitos, nome pelo qual ainda são reconhecidos em alguns países, como os Estados Unidos. Para o melhor entendimento da matéria, resumiremos o conjunto de princípios contábeis reconhecidos desde a sua criação até os dias atuais. Em 1981, o Conselho Federal de Contabilidade editou a Resolução CFC nº 530, de 23 de outubro de 1981, aprovando 16 princípios fundamentais de contabilidade. Nessa norma, ficou claro também que, até então, inexistia um consenso sobre o que era e quais eram os princípios contábeis no País. Segundo Sá (2000), “(...) a resolução definia como princípios os conceitos e postulados gerais emanados da doutrina contábil, voltados ao tratamento contábil uniforme dos atos e fatos administrativos e das demonstrações deles decorrente”. A convergência das normas contábeis para o padrão das Normas Internacionais de Relatório Financeiro (IFRS, International Financial Reporting Standards) avançou rapidamente, e as normas contábeis brasileiras passaram a ser traduzidas e adaptadas para a realidade brasileira. Com isso, surgiu a norma mais atual acerca dos princípios contábeis divulgada no Brasil. Trata-se da Resolução CFC nº 1.374, de 8 de dezembro de 2011. Essa norma, denominada Estrutura Conceitual, visa a adequar as definições de princípios adotadas pela contabilidade brasileira às normas internacionalmente aceitas (IUDÍCIBUS et al., 2020). ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 67 Reconhecer, conceituar e caracterizar os princípios de contabilidade aceitos no Brasil se faz importante como forma de auxiliar a aplicação deles, bem como de colaborar para a incorporação deles na formação de novos profissionais. Compreender os princípios de contabilidade é tarefa necessária de todos os profissionais da área, pois, a partir deles, é possível compreender todos os demais conceitos aplicáveis à contabilidade e à geração de informações para a tomada de decisões nas entidades. Aqui serão abordados os conceitos dos seis princípios de contabilidade: entidade, continuidade, oportunidade, registro pelo valor original, competência e prudência, que, a partir da Resolução 750/93, devido ao advento da Lei 11.638/2007, os princípios abrem caminho paraa contabilidade e a padronização internacional. a) Princípio da Entidade O princípio da entidade, como já vimos, ganha o status de postulado da contabilidade dada a sua abrangência. Ele prega que o patrimônio da entidade não deve se confundir com o patrimônio dos seus sócios, acionistas ou proprietário individual. Esse princípio se estrutura na personalidade jurídica da entidade, cujo(s) proprietário(s) são pessoas distintas (juridicamente, inclusive). O princípio da entidade se baseia também em autonomia patrimonial, patrimônio personalizado e autônomo (SCHIMIDT; SANTOS, 2016). Quer dizer, o patrimônio dos sócios não pode ser confundido e misturado com o patrimônio da entidade, sendo assim, é necessário que os profissionais da contabilidade cuidem para que isso não ocorra e orientem os sócios para que não realizem operações que possam gerar tal confusão. b) Princípio da Continuidade O princípio da continuidade também é considerado como um postulado. Segundo esse princípio, “(...) a empresa deve ser avaliada e, por conseguinte, ser escriturada, na suposição de que a entidade nunca será extinta; os ativos dessa empresa serão avaliados partindo desse pressuposto” (IUDÍCIBUS et al., 2020, p. 101). O princípio da continuidade existe porque, na contabilidade, as entidades são constituídas para “(...) operar por um período de tempo relativamente longo no futuro e esta premissa somente é abandonada quando há um histórico de prejuízos persistentes, perda de substância econômica e de competitividade de mercado” (IUDÍCIBUS et al., 2020, p. 76). Considerando que as entidades têm uma vida longa, os componentes patrimoniais contidos nas demonstrações contábeis emitidas por essas entidades serão mensurados ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 68 e apresentados levando essa longevidade em conta. Considera-se que a entidade continuará em operação e, dessa forma, é impossível que as demonstrações contábeis sejam desvinculadas umas das outras ou, ainda, que não sejam vinculadas a períodos anteriores ou subsequentes. Caso a entidade, por algum motivo qualquer, tenha de ser descontinuada e ter encerradas suas operações, essa informação deverá ser divulgada como um fato e mencionada em suas demonstrações contábeis (GRECO; AREND, 2016). A descontinuidade de uma entidade pode ocorrer por diversos fatores, entre eles, a paralisação de suas atividades produtivas, seja por motivos operacionais, seja por motivos comerciais, financeiros ou de dissolução aprovada pelos seus sócios, tendo como função do plano de contas e do balancete a produtividade da equipe de vendas é calculada pelo crescimento do seu volume ao longo do tempo. Desta forma, o plano de contas da empresa deve prever um nível de detalhamento que permita ao gestor acompanhar a evolução das vendas por período, por produto ou serviço, por área ou região, através do balancete de verificação. Por intermédio deste acompanhamento, o gestor pode tomar várias decisões como aumentar a equipe de vendas, abrir novas regiões de atuação, ampliar os esforços de publicidade e propaganda dos produtos, entre outros. c) Princípio da Oportunidade O terceiro princípio da contabilidade é o princípio da oportunidade. Ele tem como função garantir que, na contabilização do patrimônio da entidade, a mensuração e a evidenciação dos componentes patrimoniais produzam informações íntegras e tempestividade. O CPC (2019) apresenta dois grupos de características da informação contábil. O primeiro grupo refere-se às características qualitativas fundamentais e é composto por relevância, materialidade e representação fidedigna. O segundo grupo apresenta as características qualitativas de melhoria e é composto por comparabilidade, capacidade de verificação, tempestividade e compreensibilidade (IUDÍCIBUS et al., 2020). O princípio da oportunidade, portanto, tem forte relação com a qualidade das informações que são geradas a partir da atividade contábil, e a qualidade está relacionada aos usuários dessa informação. Entre os principais usuários da informação contábil que têm forte relação com a qualidade delas, estão os seguintes: ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 69 • Governo: para acompanhar a evolução do patrimônio com vistas à fiscalização e cobrança de impostos da entidade. • Sócios e proprietários: para acompanhar se a entidade está auferindo lucro ao final de cada período e, também, para definir os rumos do seu negócio. • Colaboradores: para acompanhar como a entidade está em relação à sua situação financeira. • Administradores e gestores: visam a acompanhar como a entidade tem se comportado a partir de cada uma das decisões que vêm sendo tomadas no dia a dia do negócio. d) Princípio do Registro pelo Valor Original O princípio do registro pelo valor original tem forte impacto nas atividades dos profissionais de contabilidade no momento em que eles estão registrando as operações realizadas pela entidade. Segundo este princípio, é esperado das entidades que “(...) os componentes do patrimônio devem ser inicialmente registrados pelos valores originais das transações, expressos em moeda nacional” (HENDRIKSEN, 2015, p. 7). As seguintes bases de mensuração podem ser adotadas pelas entidades no momento da elaboração das suas demonstrações: • Custo histórico: este conceito prega que os ativos deverão ser registrados pelos valores pagos na data de aquisição. Para isso, cabe também a consideração do valor justo. Em relação aos passivos, os mesmos deverão ser registrados pelos “(...) valores dos recursos que foram recebidos em troca da obrigação ou, em algumas circunstâncias, pelos valores em caixa ou equivalentes de caixa, os quais serão necessários para liquidar o passivo no curso normal das operações” (HENDRIKSEN, 2015, p. 15). • Custo corrente: nesta base de mensuração, os ativos são mantidos pelo montante ao equivalente em caixa que teria de ser pago na aquisição desse mesmo ativo na data de fechamento do balanço. Já em relação ao passivo, os passivos seriam avaliados pelo montante de recursos necessários para liquidar a obrigação também na data de fechamento do balanço. • Valor realizável: os ativos são mantidos pelo montante que poderia ser obtido pela venda desses ativos; já os passivos são mantidos “(...) pelos seus montantes de liquidação, isto é, pelos montantes em caixa ou equivalentes de caixa, não ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 70 descontados, que se espera serão pagos para liquidar as correspondentes obrigações no curso normal das operações” (HENDRIKSEN, 2015, p. 78). • Valor presente: os ativos são mantidos pelo valor presente, entretanto, devem-se descontar dos fluxos futuros de entradas de caixa os valores que esses ativos gerariam no curso normal das operações. Já os passivos são “(...) mantidos pelos valores em caixa e equivalentes de caixa, não descontados, que se espera seriam pagos para liquidar as correspondentes obrigações no curso normal das operações da entidade” (HENDRIKSEN, 2015, p. 15). e) Princípio da Competência Segundo o princípio da competência, o resultado de um período deverá ser apurado confrontando-se receitas e despesas do respectivo período. Com isso, ele prevê que a entidade tenha simultaneidade da confrontação das receitas e despesas no período em que estiver fechando suas demonstrações. Segundo Schmidt e Santos (2016, p. 93), esse é um dos mais importantes fundamentos da contabilidade uma vez que direciona a apuração dos resultados do período pela inclusão das receitas e das despesas que tiveram seus fatos geradores ocorridos durante o respectivo período, independentemente de as receitas terem sido recebidas e de as despesas terem sido pagas no respectivo período. f) Princípio da Prudência Acomo seu objeto de estudos. Já no século XX, com o surgimento das grandes indústrias, a contabilidade, agora reconhecida como ciência social, revoluciona-se junto à grande revolução industrial. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 9 Nesse contexto, temos Marques (2010, p. 8) afirmando que: “O final do século XIV e início do século XX foi marcado por uma série de acontecimentos que deram origem a uma excepcional expansão da contabilidade”. Mas você sabe por que a contabilidade é uma ciência social? Pois bem, vamos explicar: A contabilidade é uma ciência social, pois seu objeto de estudos é o patrimônio das entidades. É fácil imaginar que o patrimônio das empresas está diretamente ligado ao bem-estar de toda a sociedade. As instituições financeiras necessitam de informações sobre a situação financeira da organização, tais como o nível de endividamento e a existência de liquidez para honrar com seus compromissos. Os governos, por sua vez, necessitam de informações para criar políticas de incentivo ou regulação da atividade econômica. Já os sócios administradores precisam de informações para medir o desempenho da organização e estabelecer ações e metas de crescimento e os clientes, carecem de informações para determinar seu relacionamento com os produtos e serviços fornecidos pela organização. Vamos pensar juntos: Se as empresas inseridas em determinada região estão evoluindo, com certeza, estas mesmas empresas gerarão mais empregos e melhorarão a qualidade de vida das pessoas, direta ou indiretamente ligadas a elas. A consequência é que novas empresas e investidores sejam atraídos para esta região, motivando o desenvolvimento socioeconômico regional. Podemos ousar dizer que, ao redor de uma empresa promissora, podem surgir grandes cidades. Nesse sentido, temos Iudícibus (2002 apud MARQUES 2010, p. 15), explicando que “[...] o grau de avanço da contabilidade está diretamente associado ao grau do progresso econômico, social e institucional de cada sociedade”. A contabilidade tornou-se um instrumento indispensável para a tomada de decisão principalmente por parte de investidores e credores. Boa parte das empresas trabalham com grande fluxo de capital de terceiros, ou seja, buscam junto às instituições financeiras ou a investidores os recursos necessários para financiar seus ativos. Com essa conjectura de captar recursos, a contabilidade, por meio de seus demonstrativos financeiros, torna-se uma peça imprescindível na vida econômica das empresas, pois, através dela, a empresa poderá ganhar grande credibilidade e confiança, ou não, já que o inverso também é verdadeiro. Por esses motivos, é cada vez mais exigida pela sociedade e pelo mercado financeiro a transparência e a confiabilidade nos relatórios contábeis. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 10 Como você pode acompanhar até aqui, a humanidade vem evoluindo num ritmo acelerado. Tudo isso é fruto da curiosidade e inquietação dos seres humanos. No mesmo ritmo também crescem as indústrias, que se tornam cada vez mais dependentes do mercado financeiro, o qual, por sua vez, exige demonstrações contábeis fidedignas e transparentes, onde a finalidade da contabilidade, pode-se destacar suas principais funções: organizar, registrar, reportar, analisar e acompanhar as mutações patrimoniais da entidade em razão da atividade econômica e social que exerce no contexto econômico. Veremos a seguir alguns fatos que ocorreram já no século XX e que serviram para impulsionar a contabilidade como eficiente ferramenta, não apenas para o mercado financeiro, mas para toda a sociedade. Como você pode acompanhar até aqui, a humanidade vem evoluindo num ritmo acelerado. Tudo isso é fruto da curiosidade e inquietação dos seres humanos. No mesmo ritmo também crescem as indústrias, que se tornam cada vez mais dependentes do mercado financeiro, o qual, por sua vez, exige demonstrações contábeis fidedignas e transparentes, para definir patrimônio, entidade, ativo e empresa com foco: ativo é um dos componentes do patrimônio, a empresa é um tipo de entidade que se diferencia pela finalidade lucrativa, e assim o patrimônio é constituído de bens, direitos e obrigações que permitem que a organização execute sua finalidade social. 2.PRINCÍPIOS DE CONTABILIDADE Aqui é importante que antes de falarmos dos princípios contábeis propriamente ditos, possamos entender o que são princípios contábeis e como eles surgiram, compreendendo sua finalidade e aplicação. De acordo com Ferreira (2014, p.433), “Os princípios são decorrentes da observância da aplicação das técnicas contábeis, da prática contábil, e têm como objetivo tornar as informações contábeis uniformes, confiáveis e úteis para o público nelas interessado”. Portanto, podemos afirmar que os princípios contábeis são como o próprio nome sugere, o início de tudo, ou seja, de onde devemos começar a nos apoiar para que a contabilidade venha a atender às necessidades de seus usuários. Até o início do século XX, apesar de toda a evolução das técnicas contábeis, ainda havia uma grande lacuna, que era exatamente um entendimento uniforme de como deveriam ser reconhecidos alguns importantes fatos contábeis. Assim, os contadores poderiam registrar os fatos conforme melhor conviesse e interessasse às empresas. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 11 Foram os Estados Unidos da América os propulsores dos princípios contábeis que conhecemos hoje. Logo após a primeira guerra mundial, Unidos, Europa e Japão, devastados e precisando de reconstrução, atravessam uma grande crise que atinge principalmente as indústrias. Durante os anos 30, após os efeitos mais severos da crise, novas grandes corporações continuaram surgindo nos Estados Unidos. Diferenciavam-se, contudo, da maior parte das empresas que haviam prosperado nas décadas anteriores, nas mãos de famílias ou de indivíduos que se tornaram mundialmente conhecidos [...] (CVM, 2014, p. 160). Como até então não haviam regras específicas para a divulgação das informações contábeis, as empresas começam a manipular seus balanços, a fim de atrair investidores. Tais fatos contribuíram para a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, e a criação dos Princípios Fundamentais de Contabilidade, pelos Estados Unidos da América. Ainda, conforme a revista Mercado de Valores Mobiliários (2014), os executivos e conselheiros contratados pelos acionistas tenderiam a agir de forma a maximizar seus benefícios, agindo em interesse próprio, e não segundo os interesses da empresa e todos os acionistas e demais interessados. As pressões colocadas pelos novos investidores, aliados ao grande desenvolvimento econômico que os Estados Unidos vinham experimentando, a partir do início do século XX contribuíram para que no ano de 1930 surgissem as primeiras discussões entre a bolsa de valores de Nova York e o Instituto Americano de Contadores Públicos, visando a promulgação dos princípios de contabilidade (MARQUES, 2010, p. 9). Com isso, foram criados os primeiros princípios de contabilidade, os US GAAP (United States Generally Accepted Accounting Principles), ou Princípios Contábeis Geralmente Aceitos Norte-Americanos. Segundo Pederiva, Morgan e Niyama (2003, p. 3): [...] os GAAP constituem termo técnico da contabilidade financeira, [...]. Eles abrangem as convenções, as regras e os procedimentos necessários para definir as práticas contábeis reconhecidas em certo tempo e espaço. Os GAAP incluem desde as orientações mais amplas, de aplicação geral, até as práticas e os procedimentos detalhados e específicos, onde para a análise do desempenho das operações da empresa, o modelo de relatório mais indicado é a Demonstração do Resultado do Exercício (DRE). Esse relatório identifica como o resultado (lucroprudência determina a adoção do menor valor para os componentes do ativo e do maior para os do passivo quando houver dúvidas quanto a sua quantificação. O mesmo ocorre sempre que se apresentem alternativas igualmente válidas para a quantificação das receitas e despesas (IUDÍCIBUS et al., 2020, p. 12). Compreender os princípios e convenções contábeis é indispensável a todos os profissionais que atuam, ou pretendem atuar, na contabilidade. Como em toda ciência, a contabilidade faz jus aos seus pressupostos básicos, cabendo aos profissionais que se utilizam dessa ciência como trabalho fazerem o correto uso e emprego desses pressupostos em seu dia a dia profissional. 3. MENSURAÇÃO DE ATIVOS, PASSIVOS E CONTAS DE RESULTADO A contabilidade é a ciência responsável pela mensuração, controle e estudo das mutações que ocorrem no patrimônio das entidades. Estas podem ser com ou sem fins lucrativos, ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 71 ou ainda relacionadas a uma ou mais pessoas físicas ou jurídicas. O patrimônio, do ponto de vista contábil, é representado pelo conjunto de bens, direitos e obrigações de qualquer uma dessas entidades as quais são reconhecidas pela contabilidade em todas as suas nuances. Além disso, é preciso entender como esse patrimônio se forma, ou seja, quais são as movimentações que levam a alterações na situação patrimonial em uma entidade tendo alterada sua situação de um período a período. Compreender as características e o conceito do patrimônio das entidades e como ele é formado são os primeiros passos para aqueles que querem entender qual é o objeto e o campo de atuação da contabilidade. De forma bastante básica, o patrimônio pode ser definido pelo conjunto de bens, direitos e obrigações, sejam eles pertencentes a uma pessoa física ou jurídica, com ou sem fins lucrativos, e que terão suas mutações e aspectos estudados por essa ciência. O campo de aplicação da contabilidade irá contemplar tanto as aziendas, as quais estão voltadas para além da questão dos fins lucrativos, como para aquelas empresas que comercializam produtos, mercadorias e serviços em sua atividade principal. 4. CARACTERÍSTICAS DAS INFORMAÇÕES CONTÁBEIS Diferentemente do dado, a informação traz valor agregado, ou seja, é um dado que foi trabalhado e conectado a outros dados, que, em conjunto, conseguem fornecer aos usuários informações úteis ao processo decisório. A informação também pode ser definida, de forma mais genérica, como o resultado, o conhecimento que fora obtido por meio de uma análise ou investigação dos dados (SCHMIDT; SANTOS, 2016). INDICAÇÃO DE LEITURA Para complementar nossos estudos, segue um artigo que demonstra a capacidade de tomada de decisão através das informações contábeis. O título é A utilidade da informação contábil no processo de tomada de decisão: um estudo da percepção dos gestores das empresas de médio porte localizadas em Chapecó – SC e ele está disponível em https://www.ufrgs.br/congressocont/index.php/IIIContUFRGS/ IIIContUFRGS/paper/viewFile/92/62. 5. FORMALIDADES DAS ESCRITURAÇÕES Pode-se afirmar que o campo de aplicação da contabilidade é o das aziendas. Mas o que seria tal conceito? Segundo Schmidt e Santos (2016), as entidades, no sentido https://www.ufrgs.br/congressocont/index.php/IIIContUFRGS/IIIContUFRGS/paper/viewFile/92/62 https://www.ufrgs.br/congressocont/index.php/IIIContUFRGS/IIIContUFRGS/paper/viewFile/92/62 ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 72 geral, criadas sob forma econômica possuem elementos em comum. Nesse contexto, uma azienda pode ser definida como uma entidade constituída pelo conjunto de bens, direitos e obrigações, ou seja, todas as que possuem patrimônio. Ainda de acordo com os autores, as entidades, apesar dos laços em comum, diferenciam-se em questões bastante específicas. Com base nesse entendimento, a contabilidade é aplicável a entidades com ou sem fins lucrativos, empresas do setor público, religiosas, partidos políticos e qualquer tipo de organização ou pessoa física, as quais possuam um patrimônio. Já que a contabilidade se aplica tanto às pessoas físicas quanto às jurídicas, como elas se diferenciam dentro do mundo dos negócios? Uma pessoa física é considerada uma pessoa natural ou, ainda, aquela registrada em cartório e que possui um conjunto de bens, direitos e obrigações. Perante a contabilidade, ela responde de forma individual por seus atos, além disso, é finita quando se dá o seu falecimento. REFLITA No processo de controle patrimonial, outro ponto crucial também é entender as representações gráficas, ou seja, como é representado dentro da contabilidade, seus elementos e o significado de cada um dentro da natureza contábil. Isso irá permitir o conhecimento das situações, estados patrimoniais e como cada um deles impacta de forma diferenciada em uma organização. Para que alguém possa controlar o patrimônio de uma entidade, é necessária a compreensão de alguns elementos essenciais que farão parte do processo de mutação dos elementos patrimoniais. De forma inicial, é imprescindível o entendimento de como funciona a equação patrimonial e por que sua composição ocorre para que uma empresa tenha o seu patrimônio. 6. ESCRITURAÇÃO CONTÁBIL X DIGITAL A contabilidade pode ser entendida como a ciência que é responsável pelo estudo das mutações que ocorrem tanto no patrimônio das entidades como também no de uma pessoa física. Essas transformações podem ocorrer de forma aumentativa ou diminutiva, ou seja, o patrimônio poderá ser adicionado ou diminuído a todo tempo, e a contabilidade irá registrar e controlar essas movimentações. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 73 Adicionalmente, outra possibilidade de entendimento da contabilidade é que ela é encarregada também pelo registro – classificações e posterior elaboração de demonstrações contábeis, sejam elas obrigatórias ou não, referentes às mutações patrimoniais ocorridas em um determinado período, consequência de uma etapa anterior, a chamada escrituração contábil. ISTO ESTÁ NA REDE Vamos aprofundar nossa troca de conhecimento? Para tanto, segue um vídeo que demonstra toda aplicabilidade em relação à escrituração contábil digital e suas formalizações nas rotinas organizacionais. Assista a O que é a ECD? Tudo sobre a escrituração contábil digital, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=JGKI3JrwFJI. Assim, o processo de escrituração contábil evidencia, de forma ordenada, todos os registros referentes às mutações contábeis em questão, as quais ocorreram em um período. Atualmente tal processo ocorre de maneira digital e é conhecido como Sistema Público de Escrituração Digital (SPED). Assim, o nome escrituração está relacionado à forma como a contabilidade era realizada, de maneira manual (IUDÍCIBUS et al., 2020). Dentro do contexto contábil e empresarial, de modo simples, um bem pode ser classificado como algo capaz de satisfazer às necessidades humanas por meio de benefícios econômicos, os quais possuem valor e podem ser mensurados economicamente (HENDRIKSEN, 2015). Nesse contexto, um exemplo bastante comum são os maquinários de uma empresa, ressaltando-se que existe uma série infinita de bens em uma firma. Assim, podemos dizer que uma máquina é um ativo da empresa já que ela faz parte do patrimônio de uma organização. Ela serve como um mecanismo para satisfazer as necessidades humanas uma vez que, no caso de produção, ela é mensurável e tem valor econômico. Ademais, pode ser negociada entre duas empresas diferentes. O mesmo raciocínio pode ser aplicado a diversos tipos de ativos, como veículos, computadores, entre outros que são utilizados em uma empresa. Os direitos, representados por valores a receber (como clientes, adiantamentos a funcionáriose a fornecedores, entre outros valores), também irão compor o conjunto patrimonial que a empresa mantém junto a terceiros. Este, ainda que não represente https://www.youtube.com/watch?v=JGKI3JrwFJI ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 74 bens ativos propriamente ditos, de alguma forma permite à empresa cobrar algo de um terceiro (SÁ, 2000). ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 75 AULA 5 CONTROLES DAS ATIVIDADES EMPRESARIAIS Olá, estudante, você sabia que o correto reconhecimento de todos os fatos que alteram o patrimônio das entidades inclui a contabilização daqueles que afetam a contabilidade de forma antecipada, ou seja, os adiantamentos. Nesse contexto, é essencial reconhecê-los de forma adequada, classificando-os de acordo com o seu fato gerador e controlando a sua ocorrência dentro das demonstrações contábeis. Suponha que você está em um processo seletivo para contador de uma grande empresa do ramo automobilístico e, em uma das fases, você precisa explicar a importância das informações contábeis, como um contexto social e administrativo. Na qualidade de um profissional contábil, a informação precisa ser útil para o tomador de decisão, ela deve ter certas características e atender a determinados critérios, como: ser compreensível, relevante, completa, acessível e de estrutura interpretativa das funções e ferramentas contábeis, onde as informações contábeis se destacam por: • A contabilidade deve apresentar informações relevantes e fidedignas aos usuários, o que vai possibilitar um exame adequado da situação patrimonial e de desempenho da organização. • A informação contábil distorcida pode impactar a decisão do gestor, nesse caso, diz-se que faltou materialidade na informação prestada pela contabilidade. Uma informação completa, por sua vez, contém todos os fatos necessários para que o tomador de decisão resolva, satisfatoriamente, o problema em questão, utilizando essas informações. Nada importante deve ser desconsiderado. Embora a informação nem sempre seja completa, todo esforço razoável deve ser feito para obtê- la. A informação pode ser inútil se não for, prontamente, acessível na forma desejada, quando necessário. O objeto de estudo da ciência contábil é o patrimônio das entidades, e seu objetivo é o controle desse patrimônio para produzir informações contábeis úteis para as tomadas de decisão. A definição de patrimônio não se limita apenas aos bens de uma pessoa ou empresa, mas, sim, engloba um conjunto de bens, direitos e obrigações. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 76 As informações contábeis precisam ser construídas em uma base sólida, que possa permitir sua comparabilidade com informações contábeis produzidas por outras pessoas, empresas ou, até mesmo, países, pois serão utilizadas por diferentes usuários, os quais se dividem em internos e externos. Cada um tem interesses distintos, portanto, a contabilidade não pode produzir informações iguais para todos. Os usuários externos, como investidores, fornecedores e credores, têm acesso a um tipo de informação definido na contabilidade como relatórios contábeis-financeiros de propósito geral, que têm o objetivo de atender às necessidades de um grupo de usuários, e não um ou outro usuário específico. A necessidade dos usuários internos é diferente da dos externos, pois é sobre eles que recai o poder decisório, como responsáveis pela gestão de recursos das empresas, com o objetivo de maximizar resultados. Para que possamos atingir a finalidade da contabilidade (produção de informação contábil financeira útil para a tomada de decisão), é fundamental compreender como o patrimônio de uma entidade é afetado pela dinâmica patrimonial. Nesse sentido, pode-se dizer que o patrimônio de uma entidade tem seu valor aumentado ou prejudicado no desenvolvimento de suas atividades. Ou seja, a venda de produtos e mercadorias, ou a prestação de serviços, gera resultados (lucro ou prejuízo) que acabam por modificar o patrimônio. Para compreender essa dinâmica patrimonial, é necessário entender que o resultado de uma entidade em um determinado período de tempo, seja lucro ou prejuízo, é composto por receitas, custos, despesas e receitas, sendo o estudo desses elementos fundamental para medir e avaliar o desempenho de uma entidade na geração de benefícios econômicos e, consequentemente, para a gestão de seu patrimônio. 1. AVALIAÇÃO CONTÁBIL E FINANCEIRA A compreensão do conceito de receita e sua classificação se tornam cruciais para podermos estudar a composição dos resultados de uma entidade. Porém, assim como as receitas, existem outras atividades da empresa que geram benefícios econômicos: são os valores denominados de ganho. Sendo assim, antes de nos aprofundarmos de fato no conceito de receitas, iremos aprender o que são ganhos, onde a liquidez da empresa, o impacto é a redução das disponibilidades ao repassar o dinheiro aos sócios e, desta forma, os índices de liquidez da empresa vão diminuir. Se ocorrer a distribuição de um valor considerável dos lucros, a empresa corre o risco de não ter ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 77 recursos para honrar com suas obrigações de curto prazo. No caso do endividamento da empresa, a distribuição de lucros reduz o patrimônio líquido e, portanto, eleva os índices de endividamento da empresa. Se ocorrer a distribuição de um valor considerável dos lucros, a empresa corre o risco de ter dificuldades de obter crédito no mercado. Em sua constituição e formalização, uma empresa define qual é sua atividade principal. Por exemplo, uma loja que vende roupas tem como atividade principal o comércio de artigos de vestuário. Por ser sua atividade principal, na contabilidade ela é definida como atividade operacional. Figura 1 - Avaliação financeira. Fonte: Pixabay (2023a). Agora imagine que essa mesma entidade que comercializa artigos de vestuário tenha decidido renovar sua loja e, para isso, vendeu os manequins antigos. Um erro muito comum é classificar essa venda como receita, mas é preciso esclarecer que os benefícios econômicos oriundos de transações que não fazem parte da atividade operacional de uma empresa devem ser definidos como ganhos. Mas o que seria, então, uma receita? O Comitê de Pronunciamentos Contábeis (2011) define receita como sendo aumentos nos benefícios econômicos durante o período contábil sob a forma de entrada ou aumento de ativos ou diminuição de passivos, que resultam em aumentos do patrimônio líquido e que não sejam provenientes de aporte dos proprietários da entidade. Prevista no CPC 00 (Estrutura Conceitual Básica da Contabilidade Brasileira), a definição de receita é muito mais abrangente, pois contempla tanto os recursos advindos das atividades operacionais de uma empresa (a venda de artigos de vestuário em nosso exemplo) como os ganhos (a venda de manequins em nosso exemplo). ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 78 ISTO ESTÁ NA REDE Para complementar nossos estudos, segue um vídeo: CPC 00 ESTRUTURA CONCEITUAL, ELABORAÇÃO E DIVULGAÇÃO DE RELATÓRIOS CONTÁBEIS, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=SItmRdunDDk. As receitas, portanto, surgem das atividades usuais da entidade. Por exemplo, um escritório de contabilidade aufere receitas de honorários, enquanto uma empresa comercial aufere receitas com vendas de mercadorias. Esses exemplos usam a classificação de receitas, pois fornecer serviços contábeis (objeto social de um escritório contábil) são suas atividades usuais. Assim, como a comercialização de mercadorias é o objeto social de uma entidade comercial, o aumento de benefícios econômicosocasionado por essas atividades é denominado de receita. Por outro lado, os ganhos, segundo o CPC (2011), representam outros itens que se enquadram na definição de receita e podem ou não surgir no curso das atividades usuais da entidade, representando aumentos nos benefícios econômicos. O próprio CPC 00 de 2011 traz como exemplo a venda de bens que estão no ativo não circulante. Por exemplo, quando um escritório contábil vende o prédio em que está localizado, ele obtém um ganho (HENDRICKSEN, 2015). Em qualquer entidade, o conhecimento das receitas é fundamental para determinar o resultado de uma empresa. Sem esse conhecimento, não é possível criar informação com valor preditivo e apontar, por exemplo, o ponto de equilíbrio da entidade, ou seja, o momento em que as receitas são suficientes para arcar com todos os custos e despesas. O CPC 47 faz menção à Obrigação de Desempenho, definindo que, para se ter o reconhecimento de uma receita, se faz necessária a transferência dos bens e serviços aos clientes, cumprindo com as obrigações assumidas. No entanto, essa “nova” definição de receita não é aplicável às entidades que seguem a ITG 1.000 (Interpretação Técnica geral – Modelo Contábil Simplificado para Microempresas e empresas de Pequeno Porte) (HENDRIKSEN, 2015). Uma obrigação de desempenho refere-se à promessa feita pela entidade em entregar um bem ou serviço, ou parte de um bem ou serviço, ao comprador. Uma promessa constitui uma obrigação de desempenho se o bem ou serviço prometidos forem distintos. https://www.youtube.com/watch?v=SItmRdunDDk ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 79 Em outras palavras, o CPC 47 define que uma receita deve ser reconhecida apenas quando a entidade cumprir com as obrigações referentes àquela receita. Por exemplo, uma empresa que fabrica móveis sob medida cumpre com suas obrigações de desempenho quando finalmente realiza a entrega e a montagem dos móveis na casa do cliente, pois essa era sua obrigação de desempenho principal de acordo com a essência comercial da transação com o seu cliente. Ressalta-se que um contrato com um cliente vai além do que podemos imaginar. Mesmo que não exista um papel (um documento jurídico formal), é possível que tenhamos um contrato. Na venda de uma mercadoria, por exemplo, há um contrato; na prestação de um serviço, há um contrato. Nessas situações, as atividades desenvolvidas por uma entidade, seja pela prestação de serviços ou pela comercialização de mercadorias, há a necessidade de se reconhecerem receitas. Essas mudanças na forma como as receitas são reconhecidas, advindas do CPC 47, trouxeram inúmeras alterações práticas para o registro contábil dos fatos contábeis. 2. CONTAS DE INVESTIMENTOS – RECEITAS E DESPESAS As receitas oriundas da atividade operacional podem ser divididas em receitas de prestação de serviços e receitas de comercialização de mercadorias. As receitas de prestação de serviços são os aumentos de benefícios econômicos, obtidos pela empresa que presta serviços aos seus clientes. Assim, as receitas de comercialização de mercadorias são obtidas quando a entidade realiza atividade de venda de produtos. A mensuração da produtividade, a partir do estudo de indicadores de desempenho, visa identificar, de forma clara e objetiva, como os processos, por meio das suas atividades e das competências dos profissionais, podem contribuir para o alcance dos objetivos estratégicos das organizações. As empresas precisam se empenhar na identificação e mensuração das suas competências essenciais e nas tecnologias necessárias para garantir seu posicionamento no mercado, de forma contínua. Tomar decisão nem sempre é uma tarefa fácil. Em algumas civilizações, essa arte tem sido aprimorada através do tempo; em outras, encontra-se fortemente vinculada a crenças e experiências apreendidas em situações semelhantes ou com base na intuição ou ainda capricho do tomador de decisão. Ao tomar uma decisão, escolhemos correr mais, ou menos, risco. Sabemos que essa percepção de risco não é idêntica para todos os elaboradores de projetos e empreendedores. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 80 Em sua opinião, a percepção de risco varia de profissional para profissional? Um profissional da área contábil que opta por assumir mais riscos tem as mesmas chances de ser bem-sucedido do que alguém que opta por evitá-los? Defenda seu posicionamento, tendo por base os conceitos de estudo de mercado abordados na obra. Assim, definitivamente a percepção sobre o grau e a frequência do risco influencia na aceitação e consequente estratégia para administrar o risco, estando diretamente relacionada à capacidade individual de assumir riscos, a qual é definida a partir do histórico profissional e dos conhecimentos adquiridos previamente, além das recompensas ou prejuízos vinculados aos resultados das decisões gerenciais. ANOTE ISSO Trabalhamos as contas que representam a movimentação operacional da organização empresarial, destacando as grandes modificações sofridas ao reconhecer e mensurar as contas de receitas com a adoção do CPC 47. Assim, podemos observar que as receitas são consideradas acréscimos ao patrimônio da entidade, advindo da venda de bens e/ou de serviços. As despesas, por sua vez, correspondem ao uso ou o consumo de bens e/ou serviços no processo de obtenção dessas receitas. Elas podem ser tanto diretas quanto indiretas, ou seja, elas podem estar relacionadas ou não com o objeto operacional da organização. Além disso, elas também podem ser classificadas em fixas ou variáveis, sendo que as despesas fixas independem do volume vendido, enquanto as variáveis dependem. Quanto aos custos, eles correspondem aos gastos que são depreendidos para a elaboração final do produto ou serviço oferecido. Esses custos também podem ser classificados como diretos ou indiretos, ou como fixos ou variáveis, e tais classificações devem observar o comportamento dos custos durante o processo produtivo ou de prestação de serviços. A expressão análise organizacional é utilizada em diversos contextos organizacionais para a compreensão de suas variáveis, independentemente da sua natureza, para exprimir conformação ou desvios em relação a um determinado contexto ou planejamento através de uma estratégia de tomada de decisão. Muitas sociedades têm buscado associações com outras ao longo das últimas décadas. Tais mudanças têm como objetivo a melhoria dos resultados econômicos. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 81 As formas mais frequentes de reorganizações societárias são a fusão, a cisão e a incorporação, cada uma com características bem próprias, estudadas ao longo desta unidade. Veremos também os locais onde esses procedimentos devem ser realizados. Ademais, cite-se, desde já, que há outras modalidades de reorganização societária em torno de negócios: a criação de joint venture e a combinação de negócios. O Pronunciamento Técnico 18, item 3, do CPC (2012a) demonstra que um investimento permanente, realizado pela aquisição do capital social de uma empresa, pode ser classificado como o relacionamento entre um investidor e uma investida em coligadas, controladas e controladas em conjunto. São classificados como investimentos em controlada quando a investidora tem o controle de uma entidade por possuir 50% das ações ordinárias (ALMEIDA, 2018). Nesse caso, a investidora é o mandatário da investida. Portanto, a empresa que adquiriu as ações passa a ser denominada controladora; enquanto a que vendeu, controlada. A Lei das Sociedades por Ações (S.A.), nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, em seu artigo 243, parágrafo segundo, considera: (...) controlada a sociedade na qual a controladora, diretamente ou através de outras controladas, é titularde direitos de sócio que lhe assegurem, de modo permanente, preponderância nas deliberações sociais e o poder de eleger a maioria dos administradores (SCHMIDT; SANTOS, 2016). Almeida (2018) classifica o investimento em coligada quando o investidor tem influência significativa sobre a empresa em que investiu. Essa influência diz respeito ao poder de participar de diversas decisões: políticas, financeiras e operacionais, mas sem exercer o controle. Em participação societária, as empresas envolvidas, o investidor e a investida realizam transações entre si nas quais ocorre um resultado, lucro ou prejuízo. Isso acontece com a venda de um ativo, como, por exemplo, máquinas e mercadorias em estoques, que não poderão ser consideradas na aplicação do método de equivalência patrimonial (ALMEIDA, 2018, p. 55). ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 82 Figura 1 - Investimentos financeiros. Fonte: Pixabay (2023e). O item I do art. 248 da Lei nº 6404/76 estabelece que, na aplicação desse método no valor do patrimônio da coligada ou controlada, não há contabilização dos resultados não realizados que decorram “(...) de negócios com a companhia ou com outras sociedades coligadas à companhia, ou por ela controladas” (SCHMIDT; SANTOS, 2016). Existem dois métodos para avaliar os investimentos permanentes: o método de avaliação de equivalência patrimonial, que analisa investimentos em coligadas, controladas e controladas em conjunto; o método de equivalência patrimonial, que compara os valores das ações representadas no patrimônio líquido da investida, com a variação ocorrida, positiva ou negativamente, desse patrimônio líquido ao fim do exercício social da empresa; e o método de custo, utilizado para avaliar outros investimentos permanentes, comparando o valor de aquisição com o valor de mercado. Além disso, pudemos entender quais elementos estão presentes no valor de aquisição desses investimentos, como o ágio, ou goodwill, mais-valia e o deságio, considerado uma compra vantajosa. Vimos, ainda, como o patrimônio líquido de uma investida deve seguir formalidades para a sua apresentação. Por último, identificamos os resultados não operacionais, que são justificados quando há transações entre o investidor e sua investida, e o inverso também é verdadeiro. De modo geral, analisamos as formalidades legais e contábeis que compõem os métodos para avaliar investimentos permanentes em outras sociedades. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 83 Nas notas explicativas da sua Instrução 247/96, a CVM determina que a expressão joint venture significa a situação em que duas ou mais empresas investem em uma atividade econômica sujeita a um controle em conjunto. ANOTE ISSO Para complementar nossos estudos, segue indicação do artigo Joint ventures e a política antitruste brasileira, disponível em https://www.scielo.br/j/rec/a/ yGZrtpWXwSFLKYPYkvt656s/?lang=pt. Essa situação ocorre por meio de um acordo contratual e de parcelas fragmentadas de participações. Joint venture pode ser definida como, na visão de Almeida (2018): • Um negócio comercial ou marítimo, executado por diversas pessoas em conjunto; • Uma sociedade com responsabilidade limitada que não é considerada limitada no aspecto legal quanto à responsabilidade dos sócios, mas quanto à sua finalidade e à sua durabilidade; • Uma associação formada por duas ou mais pessoas para executar um empreendimento com intuito do lucro; • Nessa associação, são empenhados seus bens, dinheiro, conhecimento, habilidade e energia; • Um acordo realizado entre duas ou mais pessoas que decidem empreender um determinado negócio visando à lucratividade, sem se tipificar como sociedade ou companhia. Os critérios contábeis apresentam uma escolha adicional para o registro contábil dos empreendimentos controlados de forma conjunta, que pode ser executado pelo investidor ou não. O método é denominado de consolidação proporcional. Ele pode ser aplicado pela empresa como opção ao método de equivalência patrimonial. A consolidação proporcional consiste nos critérios de registro contábil em que as participações do investidor nos ativos, passivos, despesas e receitas da empresa investida são adaptadas uma por uma com elementos semelhantes nas demonstrações contábeis do investidor, ou em linhas separadas por meio das demonstrações contábeis. https://www.scielo.br/j/rec/a/yGZrtpWXwSFLKYPYkvt656s/?lang=pt https://www.scielo.br/j/rec/a/yGZrtpWXwSFLKYPYkvt656s/?lang=pt ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 84 A organização controlada em conjunto elabora suas atividades e transações como as demais empresas. À frente dos negócios , estão os administradores que vão conduzi-los com o objetivo de defender os interesses conjuntos dos empreendedores, que são considerados os controladores da organização. Dessa forma, os administradores operam de acordo com o que foi definido em conjunto com os demais investidores por meio da política empresarial aprovada pelo grande grupo. Uma organização que possui o controle compartilhado possivelmente é um tipo de empreendimento conjunto. Este é formado por meio da pessoa jurídica de uma sociedade por ações ou quotas. Contudo, há outros tipos de empreendimentos que não se originam de pessoa jurídica distinta. Considerando uma situação, a empresa que possui controle compartilhado preserva sua escrituração contábil e realiza a elaboração das suas demonstrações contábeis seguindo os modelos apresentados pelas demais organizações. Todos os recursos investidos pelos empreendedores e investidores nas entidades controladas em conjunto devem ser identificáveis nas demonstrações contábeis particulares como investimento feito em um modelo similar aos de outros tipos de participação já apresentados por outras empresas. A contabilização de aplicações em empreendimentos controlados em conjunto é regulada pelas IFRS. As demais contabilizações relativas a outros investimentos são tratadas de forma separada. As aplicações realizadas em empreendimentos controlados em conjunto possuem diversas características em comum com os investimentos que são contabilizados pelo método de equivalência patrimonial. Neste, o investidor possui influência relevante sobre a empresa investida, contudo, não possui o controle absoluto da empresa. Dessa forma, a consolidação total frequentemente não deve ser efetuada. As empresas controladas em conjunto têm sido consideradas uma nova tendência mundial em se tratando de investimentos em empreendimentos conjuntos. Essa é considerada uma opção de concentrar o capital que for preciso para a ampliação e a manutenção das atividades econômicas. Também é uma possibilidade de adicionar qualidades que são relevantes à nova transação, porém, impossibilitadas por acionistas diferentes, como capacidade gerencial ou mercadológica, tecnologia, rede de distribuição, entre outros. Por meio do controle compartilhado, é possível dividir as possíveis ameaças de um novo negócio. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 85 4. REFLEXOS FINANCEIROS SOBRE INVESTIMENTOS Reorganizar uma sociedade é dar uma nova roupagem a sociedades existentes, as quais serão absorvidas total ou parcialmente por outra. Esses processos ocorrem com objetivos diversos, entre os quais pode ser destacada a geração de valor para o acionista. No contexto macroeconômico das organizações, a geração de valor para o acionista pode ser realizada de algumas formas, tais como: buscar ganho de escala, abrir novos mercados, dificultar a entrada de novosconcorrentes, promover a economia de custos administrativos e incorporar novas tecnologias e expertise à organização. Figura 2 - Controle das finanças. Fonte: Pixabay (2023b). Mesmo sendo conhecidos alguns desses conceitos, uma questão que se coloca é: como conseguir realizar essas ações? A resposta vem quase de forma automática: por meio da integração de operações, conhecimentos e técnicas, com o objetivo de atender mais e melhor aos mercados existentes ou criar mercados em locais ainda não alcançados. A combinação, ou concentração, de negócios ocorre na concentração de Sociedades Anônimas organizadas em um grupo econômico (SCHMIDT; SANTOS, 2016), sendo sua principal característica a obtenção do controle de um ou mais negócios. Os processos de reorganização societária ocorrem, na maioria das vezes, objetivando criação de sinergias, otimização de recursos e aproveitamento da expertise. Esses objetivos concorrem para o alcance de um objetivo maior: a melhoria dos ganhos, lucros e resultados. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 86 Os elementos administrativos demandam movimentos individuais de cada empresa, isto é, é preciso organizar a empresa internamente para esse movimento na direção da reorganização societária. Além disso, é necessário criar uma assembleia de grupo. Nessa assembleia, dentre outros assuntos, devem ser definidas a forma de funcionamento de cada sociedade integrante do grupo, a declaração de nacionalidade do controle do grupo, a forma de controle da sociedade, a estrutura organizacional no tocante aos níveis de comando e a subordinação das sociedades individuais em relação às demais e à gestão do grupo. Reorganizações societárias são como uma metamorfose, isto é, a transformação de um ser em outro. Tais transformações, na estrutura das sociedades, provocarão consequências com efeitos contábeis, jurídicos e financeiros, no tocante às obrigações assumidas ou novas obrigações, assim como o registro dos ativos de uma ou mais sociedades que integram o processo de reorganização. 5. DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS A contabilidade é a ciência capaz de produzir informações contábeis-financeiras sobre a situação financeira e patrimonial das empresas, que sejam úteis aos usuários em seus processos decisórios. Essas informações são representadas em relatórios contábeis-financeiros de propósito geral, que seguem a Estrutura Conceitual Básica da Contabilidade, determinada no CPC 00 (SCHMIDT; SANTOS, 2016). INDICAÇÃO DE VÍDEO Para complementar nossos estudos, segue o vídeo Balanço Patrimonial e Demonstração do Resultado, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=EkNJ8v6T6bQ. a) O Balanço Patrimonial, a Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) e a Demonstração do Resultado Abrangente (DRA) são os principais demonstrativos utilizados para representar a situação financeira e patrimonial de uma organização. Cada um tem características distintas, são usados para atender a objetivos diferentes e, por maior que seja seu volume de informações, todos têm limitações. Balanço Patrimonial é um demonstrativo estático, pois apresenta a situação financeira e patrimonial da organização em um momento específico. Ou seja, por meio dele, não é possível acompanhar as variações patrimoniais ocorridas de um período para outro, https://www.youtube.com/watch?v=EkNJ8v6T6bQ ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 87 apenas visualizar os saldos de cada conta patrimonial sem conseguir entender o que motivou seu aumento ou diminuição. b) A Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) apresenta a composição das receitas, custos e despesas, permitindo a compreensão de como ocorreu o resultado da entidade, seja lucro ou prejuízo. Já a Demonstração dos Resultados Abrangentes (DRA), segundo Almeida (2018), deve conter: • Resultado líquido do período; • Cada item dos outros resultados abrangentes classificados conforme sua natureza; • Parcela dos outros resultados abrangentes de empresas investidas, reconhecida por meio do método de equivalência patrimonial; • Resultado abrangente do período. c) A DRA pode ser apresentada separadamente da DRE, nesse caso, o Resultado Líquido do Exercício não deve fazer parte dela. Uma das características mais marcantes da DRE é o reconhecimento de receitas e despesas de acordo com o momento em que ocorreu o fato gerador, obedecendo ao regime de competência. Em outras palavras, pelo regime de competência, a entidade deve reconhecer uma receita ou uma despesa independentemente de seu recebimento ou pagamento, respectivamente. Sendo assim, apesar de apresentar a constituição do resultado da empresa, a DRE é incapaz de fornecer subsídios sobre a saúde do caixa, visto que as receitas que estão ali presentes podem não ser realizadas no curto prazo, dando à empresa o registro de direitos a receber, e não de disponibilidades. Concluímos, então, que a principal utilidade da DRE é fornecer a informação de como o resultado da empresa foi constituído, permitindo a visualização de como os tributos, custo da mercadoria e as despesas impactaram seu resultado. Por outro lado, a DRA demonstra ser um instrumento voltado à análise gerencial e apresenta como limitação o fato de considerar modificações patrimoniais cuja realização pode ser incerta. Por outro lado, embora não seja um demonstrativo estático como o Balanço Patrimonial, a DRE tem suas limitações. A principal está na impossibilidade de ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 88 compreender como as receitas ou despesas impactaram as disponibilidades da empresa. Ao mesmo tempo em que a DRE completa as informações do Balanço Patrimonial, esse demonstrativo deve ter sua utilidade complementada pelo Balanço. As Demonstrações dos Fluxos de Caixa (DFC) complementam as informações do Balanço Patrimonial ao proporcionarem o entendimento da formação dos valores de caixa, apresentando informações cruciais sobre como eles se constituíram por meio das diversas atividades da empresa. d) A DFC apresenta os resultados dos fluxos de caixa de uma entidade por meio de uma apresentação de atividades operacionais, de financiamento e de investimento, resultando em consumo ou geração de caixa. Os requisitos para a elaboração e apresentação da DFC estão na NBC TG 03: Demonstração dos Fluxos de Caixa, a qual afirma que suas informações são “(...) úteis para proporcionar aos usuários das demonstrações contábeis uma base para avaliar a capacidade de a entidade gerar caixa e equivalentes de caixa, bem como as necessidades da entidade de utilização desses fluxos de caixa” (SCHMIDT; SANTOS, 2016). A função mais importante da DFC é informar como cada uma das atividades da empresa gera ou consome caixa. Para isso, é necessário compreender as definições dos três tipos de atividades trabalhadas na DFC, segundo a NBC TG 03 (SCHMIDT; SANTOS, 2016): • Atividades operacionais são as principais atividades geradoras de receita da entidade e outras, que não são de investimento e tampouco de financiamento. • Atividades de investimento são referentes à aquisição e venda de ativos de longo prazo e de outros investimentos não incluídos nos equivalentes de caixa. • Atividades de financiamento são aquelas que resultam em mudanças no tamanho e na composição do capital próprio e no de terceiros da entidade. De acordo com Iudicibus et al. (2020), uma das maiores utilidades da DFC para seus usuários é a possibilidade de elaborar previsões dos fluxos futuros de caixa para períodos curtos. Contudo, seus fluxos de caixa (entradas e saídas) são registrados seguindo os princípios do regime de caixa, o que os ajuda ao analisarem o caixa que consta na empresa, o que limita a integração com os resultados apresentados na DRE, por exemplo, que é elaborada pelo regime de competência.ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 89 A DFC pode ser apresentada por dois métodos: direto e/ou indireto. A NBC TG 03, em seu item 18, alínea “a”, permite às empresas apresentarem os fluxos de caixa pelo método direto (SCHMIDT; SANTOS, 2016). Sobre esse método, Almeida (2018) explica que: (...) explicita as entradas e saídas brutas de dinheiro dos principais componentes das atividades operacionais, como os recebimentos pelas vendas de produtos e serviços e os pagamentos a fornecedores e empregados. O saldo final das operações expressa o volume líquido de caixa provido ou consumido pelas operações durante um período (ALMEIDA, 2018, p. 106). O nome método direto se refere à forma como as informações utilizadas para elaboração da DFC são obtidas. A principal fonte se encontra nos registros contábeis da empresa, que são separados de acordo com os três tipos de atividades e apresentados por meio dos fluxos de caixa. No método indireto, as informações são obtidas por meio de uma conciliação entre as informações de lucro líquido e as de caixa gerado pelas operações da empresa. Por esse meio de apresentação, as informações sobre os fluxos de caixa partem do lucro líquido, e a DFC é elaborada por meio de ajustes/conciliação. Em outras palavras, a DFC apresenta os fluxos de caixa da empresa por meio das informações da DRE, ajustando-as para que representam as entradas e saídas de caixa efetivas, respeitando o regime de caixa. e) A Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido (DMPL) e a Demonstração do Valor Adicionado (DVA) têm o objetivo de apresentar informações sobre a riqueza das organizações. A DMPL esclarece como a riqueza própria, isto é, o Patrimônio Líquido, passou por modificações de um período para outro, enquanto a DVA demonstra toda a riqueza gerada pela entidade e como ela foi distribuída e o quanto foi retida, afetando a DMPL. A DMPL mostra como o patrimônio líquido da entidade evoluiu ou se retraiu ao longo do tempo, explicando também como os resultados do período e resultados abrangentes afetaram a sua composição, já que tanto o lucro quanto o prejuízo o afetam. Sua usabilidade está voltada, principalmente, à compreensão de como ocorreram as variações no PL da entidade. Como limitação, suas informações são dependentes do encerramento de outros demonstrativos contábeis, como DRE e DRA. Além disso, ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 90 esse demonstrativo não se preocupa com a riqueza total gerada pela entidade; seu foco está apenas na riqueza própria e sua distribuição por meio de dividendos. f) A DVA, que se preocupa justamente em explicar a riqueza total formada pela entidade, como ela foi distribuída para diversos usuários e quanto ficou retido para própria entidade e foi parar no Patrimônio Líquido. DVA tem caráter social, pois a divulgação das informações está atrelada aos benefícios que a entidade traz para a sociedade por meio da distribuição de sua riqueza devido ao pagamento de tributos ou aos dividendos, pagamento de aluguéis e juros, entre outros. Segundo Almeida (2018), seu objetivo é: (...) demonstrar o valor da riqueza econômica gerada pelas atividades da empresa como resultante de um esforço coletivo e sua distribuição entre os elementos que contribuíram para a sua criação. Desse modo, a DVA acaba por prestar informações a todos os agentes econômicos interessados na empresa, tais como empregados, clientes, fornecedores, financiadores e governo (ALMEIDA, 2018, p. 153). Uma das maiores utilidades desse demonstrativo é que suas informações podem ser utilizadas por agentes estatísticos responsáveis por apresentar o Produto Interno Bruto (PIB) de um segmento econômico ou do País. A principal limitação da DVA está ligada ao regime de elaboração, que é o de competência. Isso acontece porque as informações sobre riqueza distribuída não levam em conta o ato de desembolso de caixa pela entidade, mas, sim, o compromisso estabelecido em realizar tais pagamentos. Além disso, as receitas são reconhecidas pelo momento de sua realização, e não de recebimento. Contudo, isso não seria um problema se sua destinação não fosse também econômica. Almeida (2018) afirma que, para a contagem do PIB, por exemplo, são consideradas as informações de produção, enquanto a ótica contábil leva em conta as riquezas geradas pelas vendas, e não pela produção. g) As Notas Explicativas (NE) devem complementar a informação para uma representação adequada das informações contábeis-financeiras. Segundo Almeida ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 91 (2018), são informações complementares às demonstrações contábeis, representando parte delas, e: (...) podem estar expressas tanto na forma descritiva como na forma de quadros analíticos, ou mesmo englobar outras demonstrações contábeis que forem necessárias ao melhor e mais completo esclarecimento dos resultados e da situação financeira da empresa (ALMEIDA, 2018, p. 128). O parágrafo 5º do artigo 176 da Lei 6.404/1976 determina que as NE devem apresentar informações sobre a base de preparação das demonstrações financeiras e das práticas contábeis específicas selecionadas e aplicadas para negócios e eventos significativos e fornecer informações adicionais não indicadas nas próprias demonstrações financeiras e consideradas necessárias para uma apresentação adequada (SCHMIDT; SANTOS, 2016). As NE são apresentadas seguindo a Lei nº 6.404/1976 e atualizações, os CPCs e as normas emitidas pelos órgãos reguladores, como CFC, Agência Nacional de Energia (ANEEL), Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), entre outros. De acordo com o CPC 16: Estoques (SCHMIDT, SANTOS, 2016), as NE devem evidenciar: • As políticas contábeis adotadas na mensuração dos estoques, incluindo formas e critérios de valoração utilizados; • O valor total escriturado em estoques e o valor registrado em outras contas apropriadas para a entidade; • O valor de estoques escriturados pelo valor justo menos os custos de venda; • O valor de estoques reconhecido como despesa durante o período; • O valor de qualquer redução de estoques reconhecida no resultado do período; • O valor de toda reversão de qualquer redução do valor dos estoques reconhecida no resultado do período; • As circunstâncias ou os acontecimentos que conduziram à reversão de redução de estoques; • O montante escriturado de estoques dados como penhor de garantia a passivos. Além dessas informações complementares, a norma determina que as empresas devem informar aos usuários, por meio de NE, o critério para recuperação dos tributos recuperáveis. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 92 6. COMBINAÇÃO DE NEGÓCIOS Os instrumentos que permitem tais operações estão definidos na Lei nº 6.404/1976, a Lei das Sociedades por Ações (S.A.). Em seu artigo 223, estabelecem-se as formas de reorganização societária, que são: cisão, fusão e incorporação. O Pronunciamento Técnico 15 (R1) do CPC (2011) trata da reorganização societária, inclui e define a combinação de negócios (SCHMIDT; SANTOS, 2016). Nesse sentido, a combinação de negócios é uma forma de reorganização societária que pode ser operacionalizada por meio do que está previsto na Lei n. 6.404/1976 (cisão, fusão ou incorporação). Além disso, essa combinação se dá quando há a ocorrência do controle de um ou mais negócios: - Fusão A fusão ocorre entre duas ou mais empresas ou sociedades para formar uma nova empresa ou sociedade. - Cisão A cisão é a extinção de uma companhia. Isso ocorre pela transferência do patrimônio líquido para uma ou mais empresas, exterminando a empresa cindida. - Incorporação Por fim, incorporação é a transformação de duas ou mais empresas em uma outraempresa, passando a existir somente esta última. No caso de pessoa jurídica cujo regime tributário seja o lucro presumido ou arbitrado e que opte pela avaliação a valor de mercado, a tributação das operações de reorganização societária será tratada na Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) como ganho de capital, e esse ganho será incluído na base de cálculo do Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). Isso ocorrerá por meio da diferença resultante entre o valor de mercado e o custo de aquisição, com a amortização ou a exaustão diminuída dos encargos de depreciação (SCHMIDT; SANTOS, 2016). Outro ponto relevante na motivação da feitura de reorganizações societárias é a economia tributária. Alguns processos de reorganização societária têm esse objetivo. O planejamento tributário busca a forma legal de proceder com a elisão fiscal, detectando brechas legislativas que desincumbam o contribuinte do tributo ou de parte dele. Essa desvinculação se dá por razões distintas, as quais são: evitar a incidência do tributo, reduzir o valor do tributo a pagar e postergar o pagamento do tributo, sem a ocorrência de multa. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 93 Diferentemente da evasão fiscal, a elisão fiscal é um expediente legal utilizado pelo contribuinte, e seu objetivo final é a redução do impacto tributário. É um procedimento legalmente autorizado, ou seja, uma forma honesta de se buscar a economia tributária. Na fusão, as empresas fundidas deixam de existir, ocorrendo, assim, a extinção delas. A fusão entre sociedades deve ser precedida de reuniões ou assembleias em cada sociedade por meio das quais devem ser deliberados, individualmente, entre outros aspectos: • a aprovação do ato constitutivo da nova sociedade, isto é, o ato constitutivo da empresa que surgirá, • o plano de distribuição do capital social da nova sociedade; • os peritos nomeados para avaliação do patrimônio da sociedade. A abertura econômica e a crescente procura por facilitação do trabalho empresarial, especialmente o empreendedorismo, alavancaram a busca pela legalização de pequenos ou médios negócios por meio do registro mercantil do empresário individual. Eventualmente, tais negócios crescem e atingem patamares que demandam transformações societárias, migrando esses negócios para sociedades limitadas ou mesmo S.A. Entretanto, alguns empresários individuais podem não se sentir tão à vontade com as possibilidades mencionadas. Além disso, o empresário individual, apesar da sua personalidade jurídica, é também uma pessoa física. Muitas sociedades têm buscado associações com outras ao longo das últimas décadas. Tais mudanças têm como objetivo a melhoria dos resultados econômicos. As formas mais frequentes de reorganizações societárias são a fusão, a cisão e a incorporação. Cada uma delas tem características bem próprias, que são: • fusão: processo por meio do qual duas ou mais empresas se unem e formam uma nova empresa, deixando as anteriores de existir; • cisão: é o processo pelo qual uma empresa é dividida em duas ou mais empresas, criando estruturas distintas, ficando cada sócio com uma parte; • incorporação: é o processo por meio do qual uma sociedade absorve todo o patrimônio de outra. Contudo, é preciso estabelecer um limite para evitar o monopólio. Isso tem sido definido pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômico (CADE), órgão brasileiro que analisa, autoriza (ou desautoriza) reorganizações societárias, com vistas a manter algum nível de concorrência no mercado. Outra fronteira, nesse sentido, pode ser imposta por questões geográficas, especialmente em negócios que utilizam mão de ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 94 obra de forma intensiva, dada a dificuldade de concentração de um monopólio em determinada região e o deslocamento da força de trabalho para tal local, de forma a atender à demanda. Além disso, em relação à fusão entre empresários individuais, a providência mais imediata é a transformação societária de empresário individual para sociedade por cotas de responsabilidade limitada. Esse tipo de sociedade pode realizar quaisquer formas de reorganização societária. No mais, esses procedimentos devem ser realizados nas juntas comerciais dos estados, na Receita Federal e prefeituras, órgãos que devem registrar as sociedades resultantes dos processos de reorganização societária. As empresas sucessoras desses processos são as que devem realizar tais registros. Vale ressaltar, ainda, que, além da fusão, cisão e incorporação, existem outras modalidades de reorganização societária em torno de negócios: a criação de joint venture, cuja característica principal é a independência jurídica das suas criadoras, isto é, das empresas que deram origem; e a combinação de negócios, regulamentada pelo Pronunciamento Técnico 15 do CPC. Os demonstrativos contábeis devem seguir políticas contábeis definidas pela empresa e podem suprimir elementos para facilitar sua apresentação e leitura. Por exemplo, um estoque pode ser formado por estoque de matéria-prima, de produtos que ainda estão em processo de produção e de produtos já acabados, embora seja apresentado simplesmente como estoque. Mesmo assim, a informação é útil, pois estoques que ainda não estão prontos não cumprem o propósito da empresa em vendê- los, tampouco deixam de representar fidedignamente a informação, já que apresenta o estoque como sendo um só. Mas essas questões podem ser esclarecidas por Notas Explicativas que acompanham as demonstrações. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 95 CAPÍTULO 6 EVOLUÇÃO PATRIMONIAL Olá, estudante, a contabilidade é uma ciência aplicada, baseada em normas, procedimentos e princípios, que são amparados por regras e legislações, as quais oferecem diretrizes para a execução das práticas contábeis. As transações na contabilidade, realizadas pelos sistemas de informações, apresentam um desafio no sentido para a área, com foco no planejamento e tomada de decisão estratégico, para que quando ocorrem perdas anormais no processo fabril, elas podem ser consideradas, conforme sua natureza, como custo de produção. A gestão de organizações é composta por diversas áreas, como administração, contabilidade, marketing, tecnologia da informação, recursos humanos, financeiros, sustentabilidade, dentre outros. A contabilidade é uma área decisiva na tomada de decisão dos gestores, por apresentar os dados financeiros e contábeis das instituições. Ela proporciona conhecimentos, por meio de informações, demonstrações contábeis e financeiras, lançamentos e registros das transações realizadas. A contabilidade geral é uma área na gestão, capacitada para fornecer informações de uma organização privada ou pública, com a finalidade de identificar o patrimônio e as mutações, os elementos que podem influenciar nas mudanças das variáveis, seja para reduzir despesas, aumentar o lucro, diminuir o endividamento, ampliar o patrimônio e/ou proporcionar a melhor alternativa de tributação. A contabilidade tem um objetivo central: o patrimônio da pessoa física ou da pessoa jurídica e a sua mensuração de forma quantitativa e monetária, conforme a moeda do país, no caso do Brasil, em reais, a moeda vigente. As informações econômicas e financeiras do patrimônio das organizações, levantadas pela contabilidade, podem influenciar as decisões estratégicas dos negócios no mercado. Por exemplo, se, em uma situação de crise econômica, a empresa perde patrimônio, terá redução brusca de receita e lucro. Quais as demonstrações financeiras da contabilidade que podem passar informações para a gestão do negócio? Como influenciam as decisões da gestão? ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF.ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 96 1. EVOLUÇÃO DA CONTABILIDADE COMO UMA CIÊNCIA A contabilidade é a ciência responsável pela mensuração, controle e estudo das mutações que ocorrem no patrimônio das entidades. Estas podem ser com ou sem fins lucrativos, ou ainda, relacionadas a uma ou mais pessoas física ou jurídica. O patrimônio, do ponto de vista contábil, é representado pelo conjunto de bens, direitos e obrigações de qualquer uma despesa entidades as quais são reconhecidas pela contabilidade em todas as suas nuances. Além disso, é preciso entender, como esse patrimônio se forma, ou seja, quais são as movimentações que levam a alterações na situação patrimonial em uma entidade alterada sua situação de um período a período, com foco em Gastos com materiais secundários relacionam-se ao consumo de material direto. Gastos com manutenção de máquinas relacionam-se ao tempo de utilização de máquinas. Gastos com locação de imóvel, à área ocupada. E gastos com energia elétrica, a quilowatts-hora consumidos. Compreender as características e o conceito do patrimônio das entidades e como este é formado são os primeiros passos para aqueles que querem entender qual é o objeto e o campo de atuação da contabilidade. De forma bastante básica, o patrimônio pode ser definido pelo conjunto de bens, direitos e obrigações, sejam estes pertencentes a uma pessoa física ou jurídica, com ou sem fins lucrativos, e que terão suas mutações e aspectos estudados por essa ciência. Figura 1 – Controle das manifestações Contábeis. Fonte: Pixabay (2023). O campo de aplicação da contabilidade irá contemplar tanto as aziendas, as quais estão voltadas para além da questão dos fins lucrativos, como para aquelas empresas que comercializam produtos, mercadorias e serviços em sua atividade principal. É preciso também compreender que a contabilidade possui como objeto de estudo e ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 97 se aplica às pessoas físicas da mesma forma que às jurídicas, já que estas também possuem patrimônio. 2. HISTÓRICOS CONTÁBEIS Segundo afirmam Viceconti e Neves (2018), “[...] a contabilidade desempenha importantes funções tanto enquanto funções administrativas quanto econômicas” (VICECONTI; NEVES, 2018). No custeio por absorção, os gastos com MD, MOD e CIF são apurados e atribuídos aos produtos ou serviços. Para que tais gastos possam ser absorvidos é necessário efetuar a apuração em cinco passos. Identifique a descrição de cada um dos passos necessários, considerando que os CIF são rateados diretamente aos produtos ou serviços. Sequência dos Passos: Descrição dos passos: (1) Apurar o valor dos itens de custos. (2) Alocar MD ao produto, conforme apontamentos de consumo. (3) Alocar MOD ao produto, conforme apontamentos de consumo. (4) Alocar o CIF ao produto, por rateio. (5) Apurar os custos totais e unitários de cada produto. Em outras palavras, a contabilidade é responsável por controlar a administração do patrimônio de uma empresa, seus recursos e também pelo controle dos resultados financeiros de uma organização. Nesse sentido, a contabilidade serve como uma importante ferramenta administrativa, financeira e econômica para o controle das operações das empresas na atualidade, fornecendo importantes informações para os processos decisórios na gestão empresarial. Estudar a contabilidade atende não só aos administradores de empresas, mas também todos os interessados em suas operações. Dos próprios funcionários a clientes, fornecedores, concorrentes e o governo por meio dos controles de mercado ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 98 e arrecadação de impostos, muitos são os envolvidos nos resultados de ações de controle contábil nas empresas. A contabilidade visa não só permitir o acompanhamento, registro e o controle das atividades empresariais, mas também permitir o planejamento do futuro da empresa. Sem a contabilidade, ou, em outra visão, os dados que a contabilidade proporciona, as empresas não são capazes de tomar decisões racionais e com eficiência. Imagine a situação em que a empresa quer melhorar o seu lucro sem saber quanto suas operações custam, quanto precisa para manter seus funcionários e quanto precisa pagar em impostos. Nesse sentido, fica evidente a necessidade de ter controles contábeis eficientes que sejam capazes de refletir a realidade patrimonial e financeira da empresa. “A contabilidade retrata a imagem da empresa, conta sua história, objetivos e o método pela qual é administrada” (CREPALDI, 2019). Partindo deste raciocínio, em que a contabilidade apresenta grande importância no andamento das atividades em empresas, o que acontece caso os controles da empresa, isto é, sua contabilidade não seja controlada corretamente? Quem controla os controles da empresa? Como garantir que os dados empresariais estejam de fato corretos, que os controles sobre o patrimônio empresarial reflitam de fato a realidade ocorrida na empresa? Uma vez que entendemos a necessidade de controles contábeis eficientes, ao mesmo tempo que se faz necessária a realização de procedimentos de classificação contábil, outro conceito igualmente essencial surge: a contabilidade. Com o uso da contabilidade, temos a certeza de aplicar corretamente os conceitos de contabilidade nas práticas de administração empresarial. Manter sistemas contábeis unificados, capazes de identificar, mensurar, acumular, interpretar e comunicar informações que auxiliem os gestores a atingir os objetivos da empresa é essencial para o sucesso de qualquer empresa (MARION, 2018). Dessa forma, utilizar conceitos da contabilidade representa uma importante ferramenta na administração e condução das operações em qualquer empresa, independentemente de seu ramo, de seu porte ou de seus objetivos. 3. ESCOLAS E SIMBOLOGIA CONTÁBIL A contabilidade é responsável por demonstrar a realidade do patrimônio da empresa, bem como suas eventuais alterações em determinado período. Proporciona aos ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 99 gestores diferentes informações sobre a realidade financeira da empresa e permite a estes tomarem decisões gerenciais. Assim, ao longo dos tempos, a contabilidade busca administrar o dinheiro em uma empresa necessita de controles rígidos, um planejamento bem elaborado, bem como mecanismos corretivos em caso de acontecimentos que venham a mudar o cenário em que a empresa esteja em determinado momento, principalmente no que tange o controle e a evolução das escolas contábeis. Desta forma, temos que a pioneira foi a escola contista e teve seu início no século X, com foco no aumento e evolução populacional, e, desta forma, averiguar novas possibilidades de proteção ao patrimônio e suas aplicabilidades, devido à uma economia mais acirrada e controlada, seu pensamento está centrado que a contabilidade é uma ciência baseada nas contas e na escrituração. A escola administrativa surgiu em 1840, através do olhar crítico e bem elaborado de Luca Pacioli, com foco que as contas devam ser representadas sempre por valores, através de um método sistêmico, e sua utilização tem como pilar o desenvolvimento científico da contabilidade para tomada de decisão empresarial. A escola personalista teve sua repercussão no século XIX, e sua manifestação inicial é aplicar as contas em separado para pessoas físicas e jurídicas. A escola controlista foi criada em 1880, na Itália, e vem para caracterizar o controle do patrimônio como foco central da contabilidade e da gestão econômica. Desta forma, em 1887, foi apresentada ao universo contábil a escola norte-americana, delegando mais responsabilidades e informações aos profissionais da área e com destaque para a contabilidade gerencial e a contabilidade financeira.Assim, a escola matemática vem apresentar uma contabilidade mais científica e não social, em que a escola neocontista apresenta o foco no controle econômico, em 1914, trouxe a contribuição da analise patrimonial. Assim, com o surgimento da moderna escola italiana, o controle passa a ser pelos sistemas e doutrinas contábeis. A escola patrimonialista, prioriza o patrimônio como fonte de recursos e atividades econômicas dentro das rotinas administrativas e financeiras. E por último a escola do Neopatronalismo, que descreve o cuidado com o patrimônio através das atividades financeiras, tendo como percursor Prof. Lopes de Sá, que defendeu as ideias de uma conciliação do patrimônio as escriturações contábeis. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 100 Ao passo de que uma empresa administra seus recursos econômicos visando evoluir suas operações, as empresas em determinado mercado também interagem entre si. Desse modo, entender as estruturas também se faz necessário para a compreensão das dinâmicas empresariais que envolvem o uso do capital e consequentemente, a aplicação da contabilidade. Uma empresa que está sozinha em seu mercado possui necessidades específicas quanto a seus controles internos em contabilidade e, com isso, apresenta especificidades relacionadas à necessidade de processos de controle interno. Por outro lado, empresas que possuem muitos concorrentes podem necessitar realizar uma auditoria para obter ganhos de excelência operacional e aumento de vantagem competitiva perante seus concorrentes. O mercado econômico é dinâmico, apresenta muitos detalhes e características. Entendê-lo permite refinar capacidades de controle administrativo-contábil ao adaptar realidades empresariais que diferem entre os mercados existentes. Assim, com a evolução das escolas contábeis, evidencia-se que a contabilidade é uma área multidisciplinar. Envolve práticas de economia ao tratar sobre empresas, seus recursos, seus níveis de atuação e seus objetivos. Além da economia, relaciona- se também com a administração de empresas. Sendo a auditoria uma ferramenta que auxilia no controle de aspectos gerenciais, é fundamental entender o que é a administração e como ela ocorre nas organizações. Por fim, também é necessário compreender a administração financeira, conhecida comumente como as finanças empresariais, responsáveis por gerenciar os recursos financeiros e monetários de uma companhia. A contabilidade se relaciona diretamente com estas áreas de estudo, e, com isso, compreendê-las permite ampliar conhecimentos sobre as rotinas de controle administrativo e financeiro. 4. OBJETO, FUNÇÕES E CONTROLES CONTÁBEIS A contabilidade utiliza ferramentas de controle interno, somadas a práticas de governança corporativa para gerenciar as informações úteis para os processos decisórios em uma empresa. Assim, podemos definir que o objeto da contabilidade e o estudo e a proteção do patrimônio sejam de pessoas físicas ou jurídicas, com foco em aprimorar o ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 101 comportamento deste para que ele possa se desenvolver nas rotinas contábeis através dos bens, direitos e obrigações. Figura 2 – Controle Financeiro. Fonte: Pixabay (2023). Segundo Ribeiro (2015), “[...] a contabilidade utiliza técnicas e procedimentos contábeis que são capazes de proporcionar apoio à mensuração, decisão e geração de novas informações em empresas” (RIBEIRO, 2015). Afinal, como as funções da contabilidade funcionam nas empresas? Uma das formas de aplicarmos os controles contábeis voltados ao processo de controle de decisões gerenciais está na capacidade de processar diferentes dados e transformá-los em novas informações. Vale explicitar aqui a diferença entre dados e informação. Dados, quando isolados, nada mais são do que fragmentos de informação. A informação corresponde a dados em conjunto que possuem significado, utilidade, aplicação definida. Por exemplo, uma informação contábil pode ser a quantidade de custos com a compra de determinada matéria-prima, bem como qual foi o resultado de vendas, em valores, do produto que utilizou essa matéria-prima. Em um primeiro momento, estes são apenas dados. No momento que estes dados são cruzados, interligados no sentido de, por exemplo, analisar qual foi o lucro desta operação, qual foi a aceitação por parte do público em relação a esse produto, qual foi o tempo médio de estoque e de venda, bem como quaisquer outras análises, os dados, outrora isolados, tornam-se uma importante informação à empresa que os possui. A informação é um processo essencial à contabilidade e à proteção do patrimônio. Uma das formas de coletarmos informações contábeis em uma empresa está presente na figura dos documentos contábeis. Os documentos, em contabilidade, também ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 102 conhecidos como demonstrações financeiras, correspondem, segundo Padoveze (2017), “[...] aos dados coletados pela contabilidade, que são apresentados periodicamente a todos os seus interessados de maneira organizada, resumida e ordenada” (PADOVEZE, 2017). 5. CONTABILIDADE NO BRASIL X CONTABILIDADE INTERNACIONAL A contabilidade possui, como uma das principais qualidades, a capacidade de mensuração, ou seja, transformar itens não numéricos em número e narrar uma história através desses números. Antes mesmo da harmonização às normas internacionais de contabilidade, o Brasil já possuía um grande arcabouço de normas, técnicas e legislações que buscavam evidenciar, da melhor maneira possível, o patrimônio das empresas deste setor. Contudo, a contabilidade sofre naturalmente com o viés normativo, esse viés leva a ciência contábil para uma perigosa via na qual prevalece a forma sobre a essência. Quando pensamos em contabilidade, antes das normas internacionais de contabilidade, o principal fator era o orçamento, em que a peça orçamentária da obra era o item monetário mais importante. Com a elucidação, através da criação dos CPCs – Comitê de Pronunciamentos Contábeis –, a contabilidade aplicada às organizações ganhou mais essência e menos forma. Entretanto, faz-se necessário entender como era antes dessa convergência, haja vista que, ainda existem muitos conceitos válidos e nem todos são ultrapassados. Dito isso, essa parte da unidade tem a missão de elucidar sobre o passado de modo que esclarece e auxilia o presente, no que tange o momento contábil da contabilidade aplicada às organizações empresariais. A adoção das normas internacionais de contabilidade (International Financial Reporting Standards – IFRS) no Brasil representou um marco importante na evolução da contabilidade no país, trazendo novos desafios e oportunidades. Antes da adoção das normas internacionais, o Brasil tinha suas próprias normas contábeis, conhecidas como “Princípios Contábeis Brasileiros” (PCBs), que eram diferentes das normas internacionais. Isso criava dificuldades para a comparação de demonstrações financeiras entre empresas brasileiras e empresas estrangeiras, prejudicando a integração das empresas brasileiras no mercado internacional. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 103 ANOTE ISSO Para complementar nossos estudos sobre a aplicabilidade e os efeitos sociais da contabilidade internacional, segue um artigo: UFSC. Contabilidade Internacional – análise dos periódicos internacionais sobre pesquisas em educação contábil face à convergência e globalização. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ contabilidade/article/view/2175-8069.2011v8n15p177. Com a adoção das normas internacionais, as empresas brasileiras passaram a ter uma base contábil comum com empresas de outros países, facilitando a comparaçãode informações financeiras e aumentando a transparência e a confiança dos investidores. Além disso, as normas internacionais trazem uma abordagem mais padronizada e coerente para a contabilidade, o que ajuda a melhorar a qualidade das informações financeiras e a confiabilidade dos relatórios contábeis. Outra vantagem da adoção das normas internacionais é que elas são atualizadas regularmente para refletir as mudanças nas condições econômicas e financeiras do mundo, garantindo que as empresas estejam sempre seguindo as melhores práticas contábeis. Além disso, as normas internacionais promovem a consistência na aplicação da contabilidade, o que é fundamental para a confiabilidade dos relatórios financeiros. No entanto, a adoção das normas internacionais também trouxe desafios para as empresas brasileiras. O processo de transição para as normas internacionais exigiu uma grande quantidade de tempo, esforço e recursos financeiros para se adaptar aos novos requisitos contábeis. Além disso, a falta de conhecimento e de treinamento sobre as normas internacionais pode levar a aplicações incorretas ou incompletas, prejudicando a qualidade das informações financeiras. Antes das normas internacionais de contabilidade, a base da contabilidade aplicada às organizações empresariais era a mesma legislação que regia as demais áreas contábeis, que é a Lei nº 6.404/76. No entanto, em nenhum ponto esta legislação aborda especificidades da área imobiliária. De acordo com Marion (2018): A Secretaria da Receita Federal determinou, por meio da Instrução Normativa número 84/79, os parâmetros para balizamento dos procedimentos contábeis necessários a serem adotados nesses casos para fins de apuração do lucro tributável. Essa Instrução, apesar de ainda vigorar, apresenta pontos de divergência com as práticas baseadas na teoria da contabilidade, nos princípios fundamentais de contabilidade e na legislação societária vigente (MARION, 2018). https://periodicos.ufsc.br/index.php/contabilidade/article/view/2175-8069.2011v8n15p177 https://periodicos.ufsc.br/index.php/contabilidade/article/view/2175-8069.2011v8n15p177 ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 104 Nesse contexto, a adoção das normas internacionais de contabilidade no Brasil trouxe muitos benefícios, incluindo uma base contábil comum com outros países, uma abordagem padronizada e coerente para a contabilidade, além de uma possibilidade de seguir as melhores práticas. 6. TÉCNICAS CONTÁBEIS Para que ocorra o correto reconhecimento e registro das mutações patrimoniais, é preciso delimitar corretamente quais são as políticas contábeis da entidade. Este processo começa com a diferenciação entre atos e fatos contábeis e seu correto reconhecimento dentro da contabilidade, além do impacto que cada um destes irá ter para as organizações, no que tange aos controles, impacto legal e tomada de decisões. Outro fator determinante é a elaboração do plano de contas, sua adequação é de acordo com as atividades da empresa e, posteriormente, o lançamento de todos os fatos que produzirão efeitos no patrimônio das entidades. Adicionalmente, é preciso lembrar da documentação do processo, assim como as atribuições dos envolvidos de forma direta e indireta nestas atividades. Tais fatores serão determinantes para a inserção de contas, ou ainda a criação de centros de custos e maiores detalhamentos nos planos de contas de uma organização. Quando uma empresa está sendo constituída, ou seja, quando os sócios se reúnem e resolvem que irão constituir uma pessoa jurídica já configura o momento em que as normas contábeis necessitam ser definidas, e, para isso, vários elementos precisam ser analisados e colocados em evidência, como seu porte, segmento, nicho de mercado, tipo societário e natureza dos produtos ou serviços que irá oferecer. Isto é importante porque a seleção de tais variáveis é que definirá se a entidade estará ou não suscetível a uma determinada legislação. Podemos admitir como exemplo uma construtora de médio porte a ser instituída. Certamente, ela deverá seguir normas e leis especificas das construtoras, que, por exemplo, as revendas de produtos industrializados não estarão suscetíveis. Assim, neste momento, muitos detalhes essenciais são importantes para que nenhuma surpresa ou fato inesperado ocorra durante a operação da empresa. 7. O PAPEL DO PATRIMÔNIO NA CONTABILIDADE A contabilidade auxilia os gestores de empresas no processo de tomada de decisão, baseando-se na demonstração do seu patrimônio, os sistemas de informação tornam ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 105 este processo integrado, informatizado e que utiliza a tecnologia para processar informações de uma forma mais eficiente, rápida e confiável. Quando comparamos o uso de métodos tradicionais de composição e análise contábil apenas por seres humanos, ao uso de sistemas integrados de informação, como os SIGs, fica evidente o ganho de capacidade no manuseio da informação e consequentemente a melhoria nos processos de análise. ISTO ESTÁ NA REDE Para que possamos aprofundar um pouco mais nossa troca de conhecimento, segue um vídeo que apresentar a importância e as características do patrimônio na ótica contábil. Patrimônio (Contabilidade). Professor Quintino. Disponível: https:// www.youtube.com/watch?v=ltyDuc5zRxI. O uso destes sistemas visa uma série de benefícios, que são, inclusive, comuns aos objetivos da contabilidade enquanto ferramenta gerencial para controle da proteção do patrimônio. Dentre estes objetivos, destacam-se: o alcance e as melhorias em excelência operacional; a criação de novos produtos, serviços e modelos de negócios; proporcionar um relacionamento mais estreito com os clientes e fornecedores; proporciona melhores tomadas de decisão; aumenta as vantagens competitivas e melhora as chances de sobrevivência da organização (CREPALDI, 2019). Figura 03 – Análise X Tomada de Decisão. Fonte: Pixabay (2023). https://www.youtube.com/watch?v=ltyDuc5zRxI https://www.youtube.com/watch?v=ltyDuc5zRxI ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 106 Ao aplicar os Sistemas de Informação (SI) em sistemas de contabilidade, a empresa passa a ter melhores condições de controlar suas finanças, utilizando o controle contábil para melhorar itens relevantes em sua precificação, em seus processos operacionais, em sua estrutura geral de custos etc. O objetivo da proteção do patrimônio está em melhorar sua excelência operacional, alcançando, assim, melhores resultados financeiros e, com estes resultados, ser capaz de reinvestir em suas operações para criar condições de evolução em seus negócios. Segundo afirma Ribeiro (2015): [...] os SIG devem ser baseados em informações advindas da contabilidade financeira, contabilidade baseada em outras moedas (câmbio), custos e orçamentos, contabilidade por setores e/ou unidades de negócios, gestão tributária, gestão da tesouraria, análise financeira das demonstrações contábeis e a controladoria estratégica (RIBEIRO, 2015). Com sua aplicação, diferentes setores, processos e pessoas são conectados e utilizam as mesmas informações para realizar os processos organizacionais. Dessa forma, ao mesmo tempo que a informação é utilizada, novas são criadas, armazenadas e distribuídas por toda a empresa. A contabilidade ganha eficiência e agilidade, integrando suas informações e tornando-as muito mais acessíveis de forma digital em sistemas de informação integrados. A contabilidade representa inúmeros benefícios ao planejamento e ao controle das atividades das empresas. Contudo, sem processos de controle e verificação quanto sua correta aplicação, a contabilidade pode não desempenhar funções plenamente eficientes ou mesmo apresentar inconsistências em seus processos. Oou prejuízo) da empresa foi formado a partir das suas operações, em determinado período. Com isso, foram criados os primeiros princípios de contabilidade, os US GAAP (United States Generally ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 12 Accepted Accounting Principles), ou Princípios Contábeis Geralmente Aceitos Norte- Americanos. Tem-se, aí, o início de uma nova era na contabilidade em busca de informações mais uniformes e transparentes, relatórios financeiros e contábeis mais confiáveis, tanto para aqueles que tenham interesse em investir nas companhias como para credores e outros usuários da contabilidade. Os princípios contábeis passam a ser obrigatórios nos Estados Unidos. A partir daí outros países também criaram e editaram seus próprios princípios contábeis. Cada qual de acordo com suas necessidades e realidade econômica, porém com a mesma essência e objetivos deles, ou seja, a uniformidade, a transparência e a confiabilidade. Além disso, os aspectos políticos, econômicos, culturais e sociais de cada país têm grande influência nas práticas contábeis, remetendo-nos novamente ao campo social da contabilidade. 3. PRINCÍPIOS DE CONTABILIDADE NO BRASIL No Brasil, a Lei n. 6.404/76 surgiu com o objetivo de oferecer diretrizes para a elaboração das demonstrações contábeis financeiras, porém sem ter o status de princípios contábeis. Somente com a resolução do CFC (Conselho Federal de Contabilidade) n. 750/93, o Brasil passou a adotar os Princípios Fundamentais de Contabilidade, o procedimento que o funcionário do setor de Contas a Pagar deverá obedecer é o registro do compromisso de pagamento, logo após receber o boleto bancário (título ou duplicata) do fornecedor, cadastrando nos controles internos (sistema de software) da empresa, o valor a ser pago, a data de vencimento do título e o destinatário do pagamento. Com o sistema atualizado, o pagamento ocorrerá nas condições acordadas, evitando atrasos e problemas de relacionamento com o fornecedor. Assim, essa resolução reuniu os fundamentos que estavam contidos em Leis e criou, originalmente, sete Princípios Fundamentais de Contabilidade. Mais tarde, em 2010, o CFC, por meio da Resolução n. 1.282/2010, fez algumas modificações, extinguindo o Princípio da Atualização Monetária e, também, dando nova denominação para os Princípios Fundamentais de Contabilidade, que agora passam a denominar-se Princípios de Contabilidade. Conforme Ferreira (2014, p. 431), “[...] essa denominação foi substituída por Princípios de Contabilidade, expressão que segundo o Conselho Federal de Contabilidade, é suficiente para o perfeito entendimento dos usuários [...]”. Acompanhe abaixo um quadro com os princípios de contabilidade, conforme a Resolução n.1.282/2010 do CFC: ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 13 • Princípio da Entidade Reconhece o Patrimônio como objeto da Contabilidade e afirma que o patrimônio da entidade não se confunde com o dos sócios. • Princípio da Continuidade Pressupõe que toda entidade nasce para ter continuidade, ou seja, não será extinta. • Princípio da Oportunidade Exige que os registros de variação patrimonial devem ser reconhecidos no momento em que eles ocorrerem mesmo que os valores sejam estimados. • Princípio Registro Pelo Valor Original Determina que sejam reconhecidos pelo valor original de todas as transações, permitindo que as variações posteriores sejam reconhecidas. • Princípio da Competência As receitas e despesas devem ser reconhecidas na data a qual pertencem, independentemente de seu recebimento ou pagamento. • Princípio da Atualização Monetária Extinto pela Resolução n. 1.282/2010. • Princípio da Prudência Deve ser adotado o menor valor para o Ativo e Maior valor para o Passivo, no caso de duas ou mais situa- ções que poderão vir a se concretizar. Em especial atenção ao Princípio da Atualização Monetária, vale mencionar, aqui, que ele apenas perdeu o status de princípio, mas continua sendo aplicado dentro do princípio do Registro pelo Valor Original (FERREIRA, 2014). Quanto à aplicação dos princípios de contabilidade, podemos dizer que são critérios obrigatórios a serem seguidos pelos profissionais de contabilidade, para que haja um padrão e entendimento por todos que se utilizam das informações contábeis. Em relação a esse entendimento, Ferreira (2014) nos dá um exemplo, no qual diz que se uma empresa adotasse o princípio da competência e outra o regime de caixa não teríamos como comparar os resultados entre as duas empresas, já que estariam completamente diferentes. Portanto, os princípios de contabilidade não são uma opção, mas, sim, uma obrigação na elaboração de qualquer peça contábil, sob pena de multa e de suspensão do exercício profissional. 4. FUNDAMENTOS DA CONTABILIDADE INTERNACIONAL Para entendermos os fundamentos da contabilidade internacional, precisamos entender o processo da globalização. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 14 Com o surgimento das grandes navegações, as transações comerciais deixaram de ser territoriais e se expandiram pelos diversos continentes. Podemos concluir que temos, desse modo, o início singelo da globalização. Com a comercialização entre os povos de diversos continentes, cresce o consumo e as diversidades de produtos oferecidos no mercado. Os países abrem suas fronteiras para o comércio internacional, alavancando o crescimento industrial. O avanço da tecnologia também é grande aliado para encurtar a distância entre os povos e contribuir para o acelerado processo de globalização. Além disso, é fácil de entendermos que, com a entrada de produtos estrangeiros nos países, as empresas locais se veem obrigadas a reduzir seus preços e melhorar suas estratégias comerciais. O crescimento e surgimento de grandes companhias se deu justamente pelo fortalecimento e melhorias na gestão devido à concorrência e, também, ao ingresso no universo do mercado internacional. Você deve estar se perguntado: Como a globalização influenciou a contabilidade? Pois bem, podemos dizer que o processo de internacionalização da contabilidade se deu justamente quando os investidores começaram a observar com interesse o crescimento de algumas empresas, e viram nelas grande oportunidade de lucros. Em consonância com o afirmado, Eiteman, Stonehill e Moffett (2013 apud MORAES; MENGDEN, 2015) definiram globalização como: produzir onde for mais eficiente em termos de custo, vender onde for mais lucrativo e obter capital onde for mais barato, sem se preocupar com fronteiras nacionais. Como já estudamos anteriormente, sabe-se que, para atrair investidores, as empresas precisam demonstrar transparência e confiabilidade em seus resultados e é nesse momento que entram os órgãos responsáveis por regulamentar e normatizar as demonstrações contábeis e financeiras. Cada país possui uma entidade responsável por normatizar e regular os investimentos no mercado financeiro. Essa entidade serve de ligação entre a empresa e o investidor, ou seja, é ela que repassa as informações sobre a movimentação no mercado financeiro, além de fiscalizar as ações e procedimentos a serem adotados pelas empresas a fim de proteger os investidores. No Brasil, temos a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que exerce a tarefa de fazer a ligação entre investidores e as empresas. A CVM é uma entidade autárquica, em regime especial, vinculada ao Ministério da Fazenda, criada pela Lei n. 6.385, de 07 de dezembro de 1976, com finalidade de disciplinar, fiscalizar e desenvolver o mercado de valores mobiliário (CVM, 2016). ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 15 Ainda podemos citar a definição de Girotto (2016), em que a CVM tem a atribuição de acompanhar o trabalhofoco da contabilidade está em garantir que os processos utilizados reflitam de forma verídica, ética e confiável, a realidade patrimonial da empresa. Essa representação correta dos dados contábeis atende não só aos interesses da própria empresa, no sentido de verificar que seus métodos de controle interno estão sendo aplicados de maneira eficiente, mas também para assegurar o cump No decorrer desta unidade, você aprendeu que o uso da contabilidade é consideravelmente antigo devido à sua alta relevância no controle de atividades humanas que envolvem o controle de apurações financeiras e contábeis. Mesmo que de forma “primitiva” ou não intencional, além de exercer o controle sobre as atividades realizadas por meio das anotações, de uma contabilidade inicial, o processo de conferência ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 107 sobre esses métodos analisados também surgiu como uma necessidade humana em melhorar os processos aplicados nos controles contábeis. A aplicação da contabilidade, por muito tempo, foi realizada de forma minuciosa, detalhada e demorada, pois os lançamentos contábeis eram exaustivamente conferidos. Como forma de melhorar essa realidade, a evolução dos processos de controle do patrimônio levou a uma nova realidade na qual os auditores analisam os sistemas de controle internos das organizações empresariais, buscando identificar falhas nos seus processos e emitir relatórios visando sua correção. Com isso, podemos verificar que a contabilidade é uma importante área profissional e, por meio de suas análises, demonstrativos e ações de controle sobre o patrimônio da empresa, uma organização pode melhorar a maneira em que administra seus recursos e, consequentemente, ser capaz de melhorar seus resultados. Adicionalmente, a contabilidade e o controle financeiro adicionam importantes aspectos no desempenho da contabilidade, melhorando seu desempenho e tornando possível utilizar aspectos de controle contábil para trazer melhorias a uma organização. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 108 CAPÍTULO 7 BALANÇO PATRIMONIAL INTRODUÇÃO Olá, estudante, estamos iniciando a disciplina de Análise das Demonstrações Contábeis. Esta disciplina é fundamental para se analisar a situação patrimonial, financeira e econômica de uma entidade. Qualquer tipo de tomada de decisão que seja realizada quanto a uma empresa precisa se embasar em uma Análise das Demonstrações Contábeis coerente. Mas como saber por onde iniciar? Neste momento, vamos começar a compreender os aspectos conceituais e introdutórios, para seguir posteriormente para a prática. Vamos realizar muitos cálculos de indicadores e análise de demonstrações, porém, caso os princípios não estejam bem compreendidos, tudo será em vão. Por isso, vamos aproveitar bem este primeiro momento de estudos! 2 O QUE É A ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES As demonstrações financeiras (também chamadas de demonstrações contábeis) são relatórios contábeis estruturados que fornecem informações sobre a situação patrimonial, financeira e econômica da empresa. Estas informações permitem aos seus usuários realizar tomada de decisões, assim como notar tendências futuras. Isto porque a finalidade da contabilidade é exatamente essa: fornecer informações para a tomada de decisão. A obrigatoriedade de se manter registros contábeis e elaborar demonstrações está presente no Código Civil (Lei nº 10.406/02), no artigo 1.179 (entre outros), que atinge todas as empresas e legisla o seguinte: Art. 1.179. O empresário e a sociedade empresária são obrigados a seguir um sistema de contabilidade, mecanizado ou não, com base na escrituração uniforme de seus livros, em correspondência com a documentação respectiva, e a levantar anualmente o balanço patrimonial e o de resultado econômico (BRASIL, 2002). ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 109 Também consta na Lei nº 6.404/1976, conhecida como Legislação das Sociedades por Ações (ou seja, voltada às empresas que possuem acionistas), demais especificações sobre as demonstrações. Em seu artigo 176, é expresso que: Art. 176. Ao fim de cada exercício social, a diretoria fará elaborar, com base na escrituração mercantil da companhia, as seguintes demonstrações financeiras, que deverão exprimir com clareza a situação do patrimônio da companhia e as mutações ocorridas no exercício: I- balanço patrimonial; II- demonstração dos lucros ou prejuízos acumulados; III- demonstração do resultado do exercício; IV- demonstração das origens e aplicações de recursos. IV- demonstração dos fluxos de caixa; e (Redação dada pela Lei nº 11.638, de 2007) V- se companhia aberta, demonstração do valor adicionado. (Incluído pela Lei nº 11.638,de 2007) § 1º As demonstrações de cada exercício serão publicadas com a indicação dos valores correspondentes das demonstrações do exercício anterior. § 2º Nas demonstrações, as contas semelhantes poderão ser agrupadas; os pequenos saldos poderão ser agregados, desde que indicada a sua natureza e não ultrapassem 0,1 (um décimo) do valor do respectivo grupo de contas; mas é vedada a utilização de designações genéricas, como «diversas contas» ou «contas-correntes». § 3º As demonstrações financeiras registrarão a destinação dos lucros segundo a proposta dos órgãos da administração, no pressuposto de sua aprovação pela assembleia-geral. § 4º As demonstrações serão complementadas por notas explicativas e outros quadros analíticos ou demonstrações contábeis necessárias para esclarecimento da situação patrimonial e dos resultados do exercício (BRASIL, 1976). Além do § 5º, que trata das exigências nas Notas Explicativas, que veremos de forma mais aprofundada na Unidade 3. Além das Leis citadas, há outros decretos, normas, resoluções, deliberações etc., que tratam das exigências para a elaboração das demonstrações, como o artigo 286 do Decreto nº 9.580/2018 (RIR – Regulamento do Imposto de Renda) e o Pronunciamento Contábil CPC 26, que foi aprovado em resoluções/normas específicas para cada órgão competente relacionado. Veremos mais adiante o assunto em detalhes. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 110 Então, é realizada a elaboração e divulgação das demonstrações, e fica a questão: como utilizá-las? É só uma obrigatoriedade legal? Vamos descobrir agora, assim o volume de vendas estão associados há, a redução do volume de vendas vai impactar negativamente no resultado operacional da empresa e a margem de contribuição total vai acompanhar o movimento da alteração do volume de vendas, ou seja, crescerá se o volume aumentar e reduzirá se o volume diminuir. Análise das Demonstrações Contábeis é a coleta de dados existentes nas Demonstrações Financeiras “com vistas à apuração de indicadores que permitem avaliar a capacidade de solvência (situação financeira), conhecer a estrutura patrimonial (situação patrimonial) e descobrir a potencialidade da entidade em gerar bons resultados (situação econômica)” (SILVA, 2019, p. 4). Dá para descobrir com tal análise se a empresa está sendo bem administrada, se está tendo boa rentabilidade, se consegue quitar suas dívidas, a forma como os saldos das contas contábeis vem evoluindo etc. Para Padoveze e Benedicto (2010), se aplica sobre os valores dos elementos patrimoniais um raciocínio analítico dedutivo, a fim de se avaliar a situação econômico- financeira da entidade e sua capacidade de continuidade operacional e financeira. Fica claro que a utilização da Análise de Demonstrações é importantíssima para auxiliar nas decisões tomadas. Mas quem utiliza essas informações? É bem comum automaticamente pensarmos: os administradores das empresas. 2.1 USUÁRIOS DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS Mas não são somente os gestoresdas entidades, que as administram, que se beneficiam das análises das Demonstrações para tomar decisões sobre o processo de gestão. Os usuários das informações contábeis são os mais variados, por exemplo: • Investidores: analisam as demonstrações financeiras das empresas para que tenham confiança em adquirir ações emitidas por elas, pois sua intenção é receber alguma remuneração sobre esses investimentos alocados. • Bancos: antes de conceder crédito às entidades, os bancos analisam a sua situação financeira, econômica e patrimonial, a fim de verificar se a empresa tem capacidade de pagamento. Só então decidem se concedem ou não o crédito. Ninguém vai emprestar dinheiro a alguém se achar que não irá receber o valor de volta. • Fornecedores: imagine se a maior parte da produção de um fornecedor é vendida para uma única empresa? Caso não fique atualizado quanto à capacidade de ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 111 continuidade que ela possui, pode ser que seja pego desprevenido com uma falência e acabe quebrando junto. • Funcionários: podem verificar se a empresa tem condições de continuar arcando com sua remuneração, ou até mesmo se podem contar com uma estabilidade empregatícia. Sobre a visão dos usuários das demonstrações financeiras no mundo, Hendriksen e Van Breda (2018) nos apresentam o seguinte cenário: A pergunta “Para quem?” é tradicionalmente respondida, nos Estados Unidos, com a afirmação de que os relatórios financeiros se destinam aos acionistas, a outros investidores e a credores. É reconhecido que se deve divulgar informação a funcionários, clientes, órgãos do governo e ao público em geral, mas esses grupos são encarados apenas como destinatários secundários dos relatórios anuais e de outras formas de divulgação. Em parte, o motivo dessa falta de ênfase em outros usuários, que não investidores, é devida a ausência de conhecimento a respeito de suas decisões. As decisões a serem tomadas por investidores e credores são relativamente simples e bem definidas: os investidores basicamente tomam decisões de compra, manutenção e venda, e as decisões dos credores estão fundamentalmente associadas à concessão de crédito à empresa. Acionistas, e, às vezes, credores, também tomam decisões a respeito da contratação, dispensa e remuneração de administradores e da aprovação ou não de mudanças importantes das políticas de uma empresa. Portanto, os objetivos de divulgação financeira, no que diz respeito a esses usuários, podem ser razoavelmente claros. Os objetivos de apresentação de informação a funcionários, clientes e ao público em geral, por outro lado, não têm sido tão bem formulados. Na ausência de conhecimento mais específico, a premissa geral é a de que informação útil a investidores e credores será útil para outros grupos. [...] Outras partes do mundo, particularmente a Europa, tendem a dar uma resposta mais ampla à pergunta “Para quem?” Em particular, tendem a colocar os interesses de funcionários e do estado no mesmo nível dos interesses dos acionistas, onde o resultado operacional da empresa não será afetado se os gastos variáveis oscilarem, pois os gastos variáveis impactam sobre a margem de contribuição total da empresa, que, por sua vez, vai absorver os gastos fixos e gerar o resultado operacional da empresa no período. Considerando que os gastos variáveis diminuam, a margem de contribuição total da empresa vai se elevar e, após a absorção dos gastos fixos, o resultado será superior. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 112 Interessante refletir sobre como o processo pode ser diferente dependendo da realidade e da cultura do país que analisamos! Mas voltando à multiplicidade de usuários possíveis, o CPC 00 (R2) (2019, s. p.) corrobora com a questão, afirmando que uma demonstração “reporta como um todo e não do ponto de vista de qualquer grupo específico de investidores, credores por empréstimos e outros credores, existentes ou potenciais, da entidade”. Mesmas demonstrações sendo utilizadas para infinitas possibilidades de análise, dependendo só de nossa proatividade e interesse, é realmente uma ideia espetacular. Agora, pense: dois usuários diferentes demandam os mesmos tipos de informações? E se forem ambos, por exemplo, Investidores? A resposta é: cada usuário tem um objetivo diferente ao analisar as informações contábeis. Mesmo dois investidores podem focar em aspectos diferentes; um pode ter uma visão voltada ao curto prazo e busca analisar o retorno que a empresa vem proporcionando, enquanto o outro investidor vislumbra o longo prazo, mais preocupado em analisar os riscos envolvidos nesse investimento. Para Iudícibus (2017, p. 14),: Consideramos que a análise de balanços é uma arte, pois, embora existam alguns cálculos razoavelmente formalizados, não existe forma científica ou metodologicamente comprovada de relacionar os índices de maneira a obter um diagnóstico preciso. Ou, melhor dizendo, cada analista poderia, com o mesmo conjunto de informações e de quocientes, chegar a conclusões ligeiras ou até completamente diferenciadas. É provável, todavia, que dois experientes analistas, conhecendo igualmente bem o ramo de atividade da empresa, cheguem a conclusões bastante parecidas (mas nunca idênticas) sobre a situação atual da empresa, embora quase sempre apontariam tendências diferentes, pelo menos em grau, para o empreendimento. “O analista financeiro extrairá elementos e fará julgamentos sobre o futuro da entidade objeto de análise. Portanto, é parte conclusiva da análise de balanço o julgamento do avaliador sobre a situação da empresa e suas possibilidades futuras” (PADOVEZE; BENEDICTO, 2010, p. 3). Por isso, é muito importante que o analista conheça bem tanto a empresa quanto o segmento em que essa empresa atua. E que não se utilize somente de uma demonstração financeira específica – o que impede uma visão clara da situação empresarial; o ideal é analisar as demonstrações financeiras em conjunto, assim como demais informações qualitativas e quantitativas às quais tiver acesso. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 113 O Balanço Patrimonial demonstra a situação patrimonial de uma empresa em um determinado momento. É muito utilizada a comparação com uma fotografia, pois apresenta um momento estático da empresa. O Ativo (bens e direitos) da Entidade é apresentado no lado esquerdo do BP, enquanto o Passivo (obrigações) e o Patrimônio Líquido (diferença entre o Ativo e o Passivo) são apresentados do lado direito do BP. De acordo com Iudícibus et al. (2019, p. 105): O Balanço Patrimonial é importante pois apresenta as aplicações de recursos feitas pela empresa (Ativos) e as origens desses recursos, que podem ser de terceiros (Passivos) ou próprios (Patrimônio Líquido). [...] Para a Análise de Balanços ser mais bem-feita, o ideal é que o BP apresente seus dados em dois períodos: o período do último exercício encerrado e o do exercício anterior a este. A visão de dois balanços consecutivos mostra facilmente a movimentação ocorrida no período e como a estrutura patrimonial e financeira da empresa se modificou. Para ilustrar melhor essa explicação sobre Origens e Aplicação de recursos, que tal visualizar uma representação do Balanço Patrimonial? O nome é Balanço Patrimonial para demonstrar o equilíbrio entre os dois lados: o total do Ativo (lado esquerdo do balanço) sempre é igual ao total do Passivo + Patrimônio Líquido (lado direito do balanço). Fica claro na marcação inserida na imagem do BP da Metisa. Na primeira coluna de valores, referentes a 2020 da Controladora, o valor tanto do Ativo quanto do Passivo é R$356.254.072. É importante notar que as contas do Ativo são apresentadas por ordem decrescente de grau de liquidez (que é sua capacidade de gerarcaixa). Parte-se então da conta com maior liquidez, que é Caixa e Equivalentes de Caixa (que já é dinheiro propriamente dito) seguindo até os Ativos que não têm finalidade de comercialização, logo, que a empresa não pretende transformar em dinheiro. Já as contas do Passivo são apresentadas por ordem decrescente de exigibilidade, ou seja, as obrigações que precisam ser pagas antes aparecem primeiro, seguindo até as obrigações de longo prazo, com vencimento mais distante. 1.1 GRUPOS CONSTANTES NO BALANÇO PATRIMONIAL Já aprendemos na Unidade 1 – Tópico 1 deste livro didático, em ‘Elementos das Demonstrações Contábeis’, sobre o que são Ativo, Passivo e Patrimônio Líquido. Caso necessário, é só retomar esse tópico para relembrar. Eles são divididos em subgrupos: ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 114 Sobre a divisão, basicamente, é composto por: Ativo Circulante – segundo o CPC 26 (2011, s. p.), é considerado circulante quando satisfazer qualquer dos critérios a seguir: (a) espera-se que seja realizado, ou pretende-se que seja vendido ou consumido no decurso normal do ciclo operacional da entidade; (b) está mantido essencialmente com o propósito de ser negociado; (c) espera-se que seja realizado até doze meses após a data do balanço; ou (d) é caixa ou equivalente de caixa, a menos que sua troca ou uso para liquidação de passivo se encontre vedada durante pelo menos doze meses após a data do balanço. Ativo Não Circulante – Todos os demais ativos que não se enquadrem como circulante, precisam ser classificados como não circulante. Realizável a longo prazo – Itens semelhantes aos circulantes, mas que possuem menor liquidez, logo, serão realizáveis no longo prazo (MARTINS; MIRANDA; DINIZ, 2020). Investimento – Não relacionados à atividade da empresa nem se destinam a negociações: entram as participações em outras sociedades, imóveis alugados a terceiros (com objetivo de obter renda), obras de arte etc. (IUDÍCIBUS, 2017). Imobilizado – Bens corpóreos (físicos), que se destinam à manutenção da atividade da entidade, e que “é mantido para uso na produção ou fornecimento de mercadorias ou serviços, para aluguel a outros, ou para fins administrativos; e (b) se espera utilizar por mais de um período” (CPC 27, 2009, s. p.). Intangível – “Bens incorpóreos destinados à manutenção da companhia ou exercidos com essa finalidade. São exemplos: direitos autorais, patentes, marcas, [...] gastos com desenvolvimento de novos produtos etc.” (MARTINS, MIRANDA, DINIZ, 2020). Passivo Circulante – segundo o CPC 26 (2011, s. p.), é considerado passivo circulante quando satisfazer qualquer dos critérios a seguir: (a) espera-se que seja liquidado durante o ciclo operacional normal da entidade; (b) está mantido essencialmente para a finalidade de ser negociado; (c) deve ser liquidado no período de até doze meses após a data do balanço; ou (d) a entidade não tem direito incondicional de diferir a liquidação do passivo durante pelo menos doze meses após a data do balanço. Passivo Não Circulante – Todos os demais passivos que não se enquadrem como circulante, precisam ser classificados como não circulante. É o chamado Exigível a Longo Prazo. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 115 No Patrimônio Líquido “são contabilizados principalmente os recursos investidos pelos sócios no negócio e os lucros retidos na forma de reservas” (ALMEIDA, 2019, p. 57). É importante ressaltar que: A conta lucros ou prejuízos acumulados é utilizada para receber o resultado do período obtido pela entidade. No entanto, as sociedades anônimas que tiverem resultados positivos terão que destiná-los totalmente às diversas reservas e à distribuição na forma de dividendos. No Balanço Patrimonial das sociedades por ações essa conta somente deverá aparecer quando houver resultados negativos, ou seja, Prejuízos Acumulados (MARTINS, MIRANDA, DINIZ, 2020, p. 27). 2.2 'PADRONIZAÇÃO DOS REGISTROS CONTÁBEIS E DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS Para que se consiga tomar decisões com base na análise das informações contábeis, precisa haver certa padronização, uma vez que analisar envolve uma comparação entre a) dados históricos; b) padrões existentes em outros períodos da empresa; e/ou c) indicadores de seus concorrentes (ALMEIDA, 2019). Dizemos ‘certa’ padronização porque mesmo os pronunciamentos técnicos e as normativas permitem alternativas diferentes de escolha, podendo o contador definir qual critério mais se aplica à situação de sua empresa. Martins, Miranda e Diniz (2020, p. 2) complementam que: Como se vê, não é uma tarefa fácil cumprir os objetivos da Contabilidade. Isto é, desejar que um modelo retrate a realidade econômico-financeira de uma entidade para vários usuários, os quais têm objetivos díspares em termos de informações. Além disso, por ser um modelo, as informações geradas pelos profissionais da contabilidade nem sempre são idênticas, posto que por mais normatizados que sejam os procedimentos utilizados na elaboração das demonstrações contábeis, sempre vai existir a possibilidade de escolhas diferentes, e, por consequência, a simplificação da realidade econômico-financeira pode ser apresentada de formas distintas. Para tentar padronizar internacionalmente as contabilizações e tratamento de eventos contábeis, existem normativas que visam guiar uma estrutura que possa ser base para análise das demonstrações e, assim, evitar distorções na comparação entre empresas. Há algumas específicas para elaboração das Demonstrações Financeiras, ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 116 constantes nos Pronunciamentos Técnicos do CPC – Comitê de Pronunciamentos Contábeis. Podem-se citar alguns deles: • CPC 00 (R2), que trata da Estrutura Conceitual para Relatório Financeiro; • CPC 02 (R2), que trata dos Efeitos das Mudanças nas Taxas de Câmbio e Conversão de Demonstrações Contábeis; • CPC 26 (R1), que trata da Apresentação das Demonstrações Contábeis; • CPC 35 (R2), que trata das Demonstrações Separadas; • CPC 36 (R3), que trata das Demonstrações Consolidadas; e • CPC 44, que trata das Demonstrações Combinadas. Mas o que é o Comitê de Pronunciamentos Contábeis? Ele foi criado no Brasil para auxiliar na convergência internacional das normas contábeis, facilitando a centralização da emissão das normas contábeis no Brasil e buscando um processo democrático, no qual os profissionais da área consigam participar das audiências públicas sobre as matérias abordadas nos pronunciamentos. Afinal, com a padronização, diminui-se o risco de os contadores registrarem eventos iguais de formas extremamente diferentes, o que dá mais segurança e comparabilidade ao processo, pois o resultado operacional é inversamente proporcional aos gastos fixos da empresa, ou seja, ele aumenta quando os gastos fixos diminuem e diminui quando os gastos fixos aumentam. Fazem parte do Comitê de Pronunciamentos Contábeis 2 membros de cada uma das 7 entidades a seguir: 1) Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca). 2) Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec Nacional). 3) B3 Brasil Bolsa Balcão. 4) Conselho Federal de Contabilidade (CFC). 5) Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon). 6) Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi). 7) Entidades representativas de investidores do mercado de capitais. Além destes membros, sempre são convidados a participar representantes dos órgãos a seguir: • Banco Central do Brasil (BACEN). • Comissão de Valores Mobiliários (CVM). ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 117 • Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) • Superintendência de Seguros Privados (SUSEP). • FederaçãoBrasileira de Bancos (FEBRABAN). • Confederação Nacional da Indústria (CNI). • Superintendência Nacional de Previdência Complementar (PREVIC). Como vemos, é um procedimento muito bem estruturado, que conta com representantes e membros de diversos setores, que juntos buscam um alinhamento quanto às normatizações em elaboração. O que torna o processo rico, pois cada órgão traz sua perspectiva única para debate. Além de os profissionais contábeis terem voz no processo e conseguirem participar nas audiências públicas antes de uma aprovação de um pronunciamento contábil. Esse processo iniciou-se com a harmonização mundial das práticas contábeis, com a hoje chamada IASB – International Accounting Standards Board –, que emite e revisa as normas internacionais de Contabilidade (IFRS – International Financial Reporting Standards) (PEREZ JUNIOR; BEGALLI, 2015). Consultando o site do IFRS, é possível ver que uma das razões de sua existência é o lema ‘Padrões globais para mercados globais’, pois “economias modernas dependem de transações além de suas fronteiras e do livre fluxo de capital internacional. Mais de um terço das transações financeiras ocorrem além das fronteiras, e é esperado que esse número cresça” (tradução livre) (IFRS, 2022, s. p.). Além disso, complementam que “investidores buscam diversificação e oportunidades de investimento ao redor do mundo, enquanto companhias aumentam seu capital, realizam transações ou tem operações e subsidiárias internacionais em múltiplos países” (tradução livre) (IFRS, 2022, s. p.). Pensando na globalização, mais de 140 países aderiram às normas internacionais de contabilidade, e esse processo de revisão e estudo das normas internacionais de Contabilidade é constante. Iudícibus (2017, p. 21) explica que: Deve-se entender, portanto, que certos conceitos que regem a Contabilidade são mutáveis, parcial ou totalmente, no tempo e no espaço, adaptando-se às peculiaridades econômicas, institucionais, políticas e sociais de cada época e, às vezes, observando peculiaridades de cada país. É claro que outros são imutáveis, como o princípio da dualidade, cuja evidenciação contábil resume- se no método das partidas dobradas. Ainda assim, a forma de consubstanciar as partidas dobradas, por exemplo, pode alterar-se. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 118 Além disso, o autor nos relembra que o analista externo à empresa utiliza os relatórios gerados pela entidade e, “embora admitindo certa liberdade de manobra no âmbito dos princípios contábeis, os relatórios [...] não poderão deixar de se basear em tais princípios; ou, então, a gama de exceções e de desvios deve ser perfeitamente enumerável e controlável” (IUDÍCIBUS, 2017, p. 19). No entanto, o analista interno, com foco na análise de balanços para auxiliar o próprio administrador da empresa, tem acesso a mais informações inseridas nos sistemas de informação gerencial do que o analista externo e, por isso, pode considerá-las, devendo o analista interno “estar perfeitamente a par dos conceitos de lucro admitidos e das mensurações necessárias, a fim de adequar suas análises aos novos conceitos introduzidos no sistema” (IUDÍCIBUS, 2017, p. 19). O processo se inicia com a ocorrência dos fatos e eventos econômicos e financeiros (entradas), que são registrados e lançados pela contabilidade (processamento), gerando as informações e demonstrações contábeis (saída). Os usuários então utilizam técnicas de análise das demonstrações contábeis, calculando indicadores. Só aí, essas informações são avaliadas, elaborando-se um diagnóstico ou conclusão, e sendo finalmente utilizadas para a tomada de decisões. 3 ELEMENTOS DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS É importante relembrar que os registros contábeis e, consequentemente, as demonstrações financeiras, seguem o Regime de Competência, no qual “os efeitos das transações e outros eventos são reconhecidos quando ocorrem (e não quando caixa ou outros recursos financeiros são recebidos ou pagos) e são lançados nos registros contábeis e reportados nas demonstrações contábeis dos períodos a que se referem” (MARTINS; MIRANDA; DINIZ, 2020, p. 11). Assim que ocorrem os eventos econômicos, há o seu lançamento (contabilização) na respectiva conta contábil. Essas contas contábeis são agrupadas de acordo com sua natureza e aceitam diversos registros, acumulando os valores de transações diferentes, de forma a facilitar o gerenciamento contábil e financeiro. E, posteriormente, as informações retiradas desses grupos são estruturadas e evidenciadas nas Demonstrações Contábeis (PADOVEZE; BENEDICTO, 2010). Os elementos das Demonstrações Contábeis, conforme CPC 00 (R2) (2019) são: a- ativos; b- passivos; c- patrimônio líquido; ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 119 d- receitas; e e- despesas (CPC 00 (R2) 2019). Vamos relembrar cada um deles? Afinal, eles já foram vistos em outras disciplinas do curso anteriormente. 3.1 ATIVO Sua definição conforme o CPC 00 (R2) é: “Recurso econômico presente controlado pela entidade como resultado de eventos passados, que tenha potencial de produzir benefícios econômicos futuros” (CPC, 2019, s. p.). É composto por bens e direitos da entidade. As contas do Ativo são divididas em dois grandes grupos: o Ativo Circulante (curto prazo) e o Ativo Não Circulante (longo prazo) (MARTINS; MIRANDA; DINIZ, 2020). Alguns exemplos de ativos são: caixa, bancos, duplicatas a receber, estoques, máquinas e equipamentos, terrenos. 3.2 PASSIVO O CPC 00 (R2) define o Passivo como uma “obrigação presente da entidade de transferir um recurso econômico como resultado de eventos passados”. Ou seja, são as obrigações da entidade. O Passivo é dividido em dois grandes grupos: o Passivo Circulante (curto prazo) e o Passivo Não Circulante (longo prazo). Exemplos de passivos são: empréstimos a pagar, fornecedores a pagar, impostos a pagar, salários a pagar, juros a pagar, duplicatas a pagar. 3.3 PATRIMÔNIO LÍQUIDO Para o CPC 00 (R2), “patrimônio líquido é a participação residual nos ativos da entidade após a dedução de todos os seus passivos”. Ou seja, é um valor residual da diferença entre o Ativo e o Passivo, que evidencia o capital próprio da entidade (IUDÍCIBUS, 2017). Basicamente, Patrimônio Líquido é o valor residual que fica se a entidade pegar todos os seus Ativos e deduzir deles todos os seus Passivos. São três situações possíveis para o PL: O Patrimônio Líquido, então, “representa a riqueza real de uma entidade e é formado pelo valor que os proprietários têm aplicado no negócio mais os resultados gerados ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 120 pelo desenvolvimento das atividades” (PEREZ JUNIOR; BEGALLI, 2015, p. 10). Exemplos de patrimônio líquido são: capital social, reservas de capital, reservas de lucros, lucros ou prejuízos acumulados. 3.3.1 Equaçăo fundamental Ribeiro (2020, p. 25) afirma que “o Passivo mostra a origem dos capitais que estão à disposição da empresa e que o Ativo mostra em que esses capitais foram aplicados”. Há também o diferencial entre capital próprio e capital de terceiros: Com todas as explicações sobre Ativo, Passivo e Patrimônio Líquido, conclui-se que a equação fundamental da contabilidade é: Para ilustrar melhor e compreender como é o funcionamento do Ativo, Passivo e Patrimônio Líquido e da equação fundamental da contabilidade, segue uma imagem com a estrutura de uma demonstração chamada de Balanço Patrimonial: Podemos ver que do lado esquerdo temos as contas do Ativo, enquanto do lado direito temos as contas do Passivo + Patrimônio Líquido. O equilíbrio encontrado na equação fundamental da contabilidade é que o valor total do Ativo sempre será igual ao valor do Passivo + Patrimônio Líquido. Para entender melhor, veja a seguir o exemplode um Balanço Patrimonial fictício: Pode-se notar que o valor total do Ativo é R$58.000, exatamente o mesmo valor total do Passivo + Patrimônio Líquido. Sempre será assim, por causa do Método das Partidas Dobradas, no qual basicamente “o registro de qualquer operação implica que a um débito em uma ou mais contas deve corresponder um crédito equivalente em uma ou mais contas, de forma que a soma dos valores debitados seja sempre igual à soma dos valores creditados” (IUDÍCIBUS et al., 2019, p. 33). Exemplificando: se para registrar um evento, realizo um ou mais lançamentos a débito que totalizam R$150, vou obrigatoriamente ter como contrapartida um ou mais lançamentos a crédito totalizando os mesmos R$150. 3.4 RECEITAS E DESPESAS O CPC 00 (R2) define que Receitas e Despesas são os elementos relacionados ao desempenho financeiro da entidade, e conceitua-as como: Receitas São aumentos nos ativos, ou reduções nos passivos, que resultam em aumentos no patrimônio líquido, exceto aqueles referentes a contribuições de detentores de direitos sobre o patrimônio. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 121 Despesas São reduções nos ativos, ou aumentos nos passivos, que resultam em reduções no patrimônio líquido, exceto aqueles referentes a distribuições aos detentores de direitos sobre o patrimônio. FONTE: CPC 00 (R2) (2019, s. p.) Iudícibus et al. (2019, p. 45) explicam o que são Receitas e Despesas de uma forma bem didática: Receita representa a entrada de elementos para o Ativo, sob a forma de dinheiro ou direitos a receber, correspondentes, normalmente, à venda de mercadorias, de produtos ou à prestação de serviços. Uma receita também pode derivar de juros sobre depósitos bancários ou títulos, de aluguéis e outras origens. Às vezes, a receita ocorre em função da redução de um passivo. A obtenção de uma receita resulta em um aumento de Patrimônio Líquido. Despesa representa o consumo de bens ou serviços, que, direta ou indiretamente, ajuda a produzir uma receita. Diminuindo o Ativo ou aumentando o Passivo, uma despesa é realizada com a finalidade de se obter receita. Às vezes, o vínculo entre uma despesa e uma receita é direta; às vezes, não há o vínculo direto, mas verifica-se que a despesa está sendo incorrida para ajudar na produção das receitas em geral. Do confronto entre Receitas e Despesas se chega ao Resultado da empresa. Ou seja, se a empresa teve mais Receitas que Despesas, ela obteve Lucro. Se ela teve mais despesas que Receitas, ela incorreu em Prejuízo. 4 RECONHECIMENTO DOS ELEMENTOS DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS O capítulo 5 do CPC 00 (R2) (2019, s. p.) trata do reconhecimento e desreconhecimento dos elementos das Demonstrações Contábeis, e afirma que “reconhecimento é o processo de captação para inclusão [...] de item que atenda à definição de um dos elementos das demonstrações contábeis – ativo, passivo, patrimônio líquido, receita ou despesa”. Além disso, pelo reconhecimento se vinculam os elementos, o balanço patrimonial e a demonstração do resultado e a demonstração do resultado abrangente (CPC, 2019, s. p.): “As demonstrações estão vinculadas porque o reconhecimento de item (ou mudança em seu valor contábil) exige o reconhecimento ou desreconhecimento de um ou mais outros itens (ou mudanças no valor contábil de um ou mais outros itens)”. Para melhor compreensão, vamos a um exemplo: se existir o reconhecimento de uma despesa, ao mesmo tempo obrigatoriamente há: ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 122 “(i) o reconhecimento inicial do passivo, ou aumento no valor contábil do passivo; ou (ii) o desreconhecimento do ativo, ou diminuição no valor contábil do ativo” (CPC, 2019, s. p.). Pela imagem, apresenta-se uma relação entre as demonstrações contábeis (partes cinzas) e os elementos das demonstrações (partes brancas). Ou seja, parto de um Balanço Patrimonial inicial, composto de Ativo, Passivo e Patrimônio Líquido. Há o resultado do exercício e resultado abrangente que, somados ao resultado do confronto das contribuições de detentores e das contribuições aos detentores, é transferido e transforma-se no Balanço Patrimonial no final do período. 4.1 CRITÉRIOS DE RECONHECIMENTO O CPC 00 (R2) – no qual o R2 significa que é a segunda revisão da Estrutura Conceitual – estipula que os critérios de reconhecimento são relacionados com as características qualitativas de informações financeiras úteis, que seriam 1) Relevância e 2) Representação Fidedigna. É importante se atentar a isso, pois antes da revisão R2, os critérios de reconhecimento eram que “a entidade deveria reconhecer um item que atendesse à definição de um elemento se fosse provável que benefícios econômicos fluiriam para a entidade e se o item tivesse um custo ou valor que pudesse ser determinado com segurança” (RIOS; MARION, 2020, p. 39). Somente itens que atendem à definição de ativo, passivo ou patrimônio líquido devem ser reconhecidos no balanço patrimonial. Similarmente, somente itens que atendem à definição de receitas ou despesas devem ser reconhecidos na demonstração do resultado e na demonstração do resultado abrangente. Contudo, nem todos os itens que atendem à definição de um desses elementos devem ser reconhecidos. Não reconhecer um item que atenda à definição de um dos elementos torna o balanço patrimonial, a demonstração do resultado e a demonstração do resultado abrangente menos completos e pode excluir informações úteis das demonstrações contábeis. Por outro lado, em algumas circunstâncias, reconhecer alguns itens que atendem à definição de um dos elementos não forneceria informações úteis. O ativo ou passivo é reconhecido somente se o reconhecimento desse ativo ou passivo e de quaisquer receitas, despesas ou mutações do patrimônio líquido resultantes fornece aos usuários das demonstrações contábeis informações que são úteis. Então, as duas características qualitativas são a Relevância e a Representação Fidedigna: ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 123 A Relevância quer dizer que um item até pode se enquadrar nas definições de ativo, passivo, patrimônio líquido, receita e despesa, porém nem sempre ele é útil para o usuário das demonstrações contábeis. Algumas razões para isso são, conforme CPC 00 (R2): (a) é incerto se existe ativo ou passivo (ver item 5.14); ou (b) existe ativo ou passivo, mas a probabilidade de entrada ou saída de benefícios econômicos é baixa. “Mesmo no caso de baixa probabilidade de entrada ou saída de benefícios econômicos, o reconhecimento do ativo ou do passivo pode fornecer informações relevantes e isso pode depender de uma série de fatores” (RIOS; MARION, 2020, p. 40). Já a Representação Fidedigna está relacionada com a incerteza na mensuração, pois, muitas vezes, essa mensuração é estimada, e o uso de estimativas razoáveis faz parte da elaboração das demonstrações e “não prejudica a utilidade das informações se as estimativas são descritas e explicadas de forma clara e precisa. Mesmo o elevado nível de incerteza na mensuração não impede, necessariamente, essa estimativa de fornecer informações úteis” (CPC, 2019, s. p.). Há casos em que o nível de incerteza chega a um ponto tão alto que nem mesmo a explicação das incertezas e a descrição de como foi realizada a estimativa forneceriam informações úteis: Em circunstâncias limitadas, todas as mensurações relevantes de ativo ou passivo que estão disponíveis (ou podem ser obtidas) podem estar sujeitas a essa alta incerteza na mensuração de que ninguém forneceria informações úteis sobre o ativo ou passivo (e quaisquer receitas, despesas ou mutações do patrimônio líquido resultantes), mesmo se a mensuração estivesse acompanhada de uma descrição das estimativas feitas ao realizá-la e uma explicação das incertezas que afetamessas estimativas. Nessas circunstâncias limitadas, o ativo ou passivo não deve ser reconhecido (CPC, 2019, s. p.). Em contrapartida, pode ocorrer o Desreconhecimento, que seria a retirada de parte ou da totalidade de um ativo ou passivo reconhecido no balanço, que normalmente ocorre nos casos em que o item não se enquadre mais na definição de ativo ou passivo (CPC, 2019). O CPC 00 (R2) também explica as situações mais comuns em que ocorrem: (a) para o ativo, o desreconhecimento normalmente ocorre quando a entidade perde o controle da totalidade ou de parte do ativo reconhecido; e ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 124 (b) para o passivo, o desreconhecimento normalmente ocorre quando a entidade não possui mais uma obrigação presente pela totalidade ou parte do passivo reconhecido. Ou seja, considerar as características qualitativas de Relevância e Representação Fidedigna como critério permite reconhecimentos mais coerentes dos elementos das demonstrações contábeis. 4.2 MENSURAÇÃO DOS ELEMENTOS DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS Como os elementos são quantificados em termos monetários, há a necessidade de uma base de mensuração, sendo que o CPC 00 (R2) cita as formas de mensuração descritas no Quadro 5. Custo histórico Fornece informações monetárias sobre ativos, passivos e respectivas receitas e despesas, utilizando informações derivadas, pelo menos em parte, do preço da transação ou outro evento que deu origem a eles. Diferentemente do valor atual, o custo histórico não reflete as mudanças nos valores, exceto na medida em que essas mudanças se referirem à redução ao valor recuperável de ativo ou passivo que se torna onerosa. Valor atual Fornecem informações monetárias sobre ativos, passivos e respectivas receitas e despesas, utilizando informações atualizadas para refletir condições na data de mensuração. Devido à atualização, os valores atuais de ativos e passivos refletem as mudanças, desde a data de mensuração anterior, em estimativas de fluxos de caixa e outros fatores refletidos nesses valores atuais. Diferentemente do custo histórico, o valor atual de ativo ou passivo não resulta, mesmo em parte, do preço da transação ou outro evento que deu origem ao ativo ou passivo. Valor justo É o preço que seria recebido pela venda de ativo ou que seria pago pela transferência de passivo em transação ordenada entre participantes do mercado na data de mensuração. Valor em uso e valor de cumprimento É o valor presente dos fluxos de caixa, ou outros benefícios econômicos, que a entidade espera obter do uso de ativo e de sua alienação final. Valor de cumprimento é o valor presente do caixa, ou de outros recursos econômicos, que a entidade espera ser obrigada a transferir para cumprir a obrigação. Esses valores de caixa ou outros recursos econômicos incluem não somente os valores a serem transferidos à contraparte do passivo, mas também os valores que a entidade espera ser obrigada a transferir a outras partes de modo a permitir que ela cumpra a obrigação. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 125 Custo corrente É o custo de ativo equivalente na data de mensuração, compreendendo a contraprestação que seria paga na data de mensuração mais os custos de transação que seriam incorridos nessa data. O custo corrente de passivo é a contraprestação que seria recebida pelo passivo equivalente na data de mensuração menos os custos de transação que seriam incorridos nessa data. Custo corrente, como custo histórico, é o valor de entrada: reflete preços no mercado em que a entidade adquiriria o ativo ou incorreria no passivo. Assim, é diferente do valor justo, valor em uso e valor de cumprimento, que são valores de saída. Contudo, diferentemente de custo histórico, custo corrente reflete condições na data de mensuração. Há regras para a utilização de cada um desses tipos de mensuração, dependendo do tipo de movimentação, do grupo considerado, do evento, dentre outros. No entanto, destrinchar essas especificações não cabe ao intuito deste livro. 5 CONCEITOS DE CAPITAL E MANUTENÇÃO DE CAPITAL Quando se trata de Capital, pode-se pensar em dois tipos: Capital financeiro = ativos líquidos ou patrimônio líquido. É a visão mais comum dos usuários na análise das demonstrações, se estão “principalmente preocupados com a manutenção de capital nominal investido ou com o poder de compra do capital investido” (CPC, 2019, s. p.). Capital físico = refere-se à capacidade operacional, ou seja, “a capacidade produtiva da entidade com base, por exemplo, nas unidades de produção diária” (CPC, 2019, s. p.). Logo, para cada um deles há diferença na manutenção de capital: Manutenção do capital financeiro = o lucro é auferido somente se o montante financeiro (ou dinheiro) dos ativos líquidos no final do período exceder o montante financeiro (ou dinheiro) dos ativos líquidos no início do período, após excluir quaisquer distribuições para, e contribuições de sócios durante o período. [...] Manutenção do capital físico = o lucro é auferido somente se a capacidade produtiva física (ou capacidade operacional) da entidade (ou os recursos ou fundos necessários para alcançar essa capacidade) no final do período exceder a capacidade produtiva física no início do período, após excluir quaisquer distribuições para, e contribuições de, sócios durante o período (CPC, 2019, s. p.). Outra especificidade é que o capital físico exige a adoção do custo corrente como base de mensuração, enquanto o capital financeiro não tem exigências de mensuração específica. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 126 6 CONVERSÃO PARA A MOEDA DE APRESENTAÇÃO O Pronunciamento Técnico que trata sobre o assunto é o CPC 02 (R2) – Efeitos das Mudanças nas Taxas de Câmbio e Conversão de Demonstrações Contábeis (2010), cujo foco é “orientar acerca de como incluir transações em moeda estrangeira e operações no exterior nas demonstrações contábeis da entidade e como converter demonstrações contábeis para moeda de apresentação” (CPC, 2010, s. p.). Nas situações em que a moeda funcional não seja de uma economia hiperinflacionária, os procedimentos de conversão são os seguintes: (a) ativos e passivos para cada balanço patrimonial apresentado (incluindo os balanços comparativos) devem ser convertidos, utilizando-se a taxa de câmbio de fechamento na data do respectivo balanço; (b) receitas e despesas para cada demonstração do resultado abrangente ou demonstração do resultado apresentada (incluindo as demonstrações comparativas) devem ser convertidas pelas taxas de câmbio vigentes nas datas de ocorrência das transações; e (c) todas as variações cambiais resultantes devem ser reconhecidas em outros resultados abrangentes (CPC, 2010, s. p.). ANOTE ISSO Hiperinflação é o nome dado ao fenômeno inflacionário que ultrapassa os níveis considerados como adequados. De forma mais objetiva, situações onde os índices de inflação atingem mais de 50% ao mês podem ser considerados como hiperinflação. Muitos sabem que essa é, normalmente, uma condição rara de se encontrar, no entanto ela ocorreu algumas vezes em países como China, Brasil, Rússia, Argentina, Hungria, entre outros. Os efeitos nocivos de uma inflação extremamente alta são bastante concentrados na corrosão do poder de compra da classe baixa e média de um país. Desse modo, uma inflação muito elevada pode causar uma recessão econômica afetando de forma generalizada a economia de um país. Normalmente, uma hiperinflação acontece quando há um aumento significativo na oferta monetária não suportada pelo crescimento do produto interno bruto. Esse fenômeno acontece todas as vezes que há um desequilíbrio na oferta e na demanda pelo dinheiro. Quando vem em conjunto com guerras, essa elevação da inflação ocorre ESTRUTURAE ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 127 devido à perda de confiança na capacidade da moeda em manter o seu valor no mercado. Desse modo, os negociadores de moeda normalmente exigem um prêmio de risco para que possam aceitar a moeda a ser transacionada, aumentando assim os preços cobrados. Outro propulsor da inflação alta é a liberação de crédito de forma intensa e indiscriminada, irrigando assim a economia com dinheiro “fácil”. Essa política foi muito vista através da concessão de empréstimos subsidiados realizada pelo BNDES. Além disso, uma inflação extremamente elevada pode ser acentuada, pela prática de acumular mercadorias por parte da população de modo que haja escassez de itens básicos nas prateleiras, criando assim uma espiral ascendente de inflação. Já nos casos em que a moeda funcional seja de uma economia hiperinflacionária, inicialmente a entidade precisa reelaborar suas demonstrações nos moldes do CPC 42 (2018, s. p.) – Contabilidade e Evidenciação em Economia Altamente Inflacionária e, após, os procedimentos para a conversão são: (a) todos os montantes (isto é, ativos, passivos, itens do patrimônio líquido, receitas e despesas, incluindo saldos comparativos) devem ser convertidos pela taxa de câmbio de fechamento da data do balanço patrimonial mais recente, exceto que, (b) quando os montantes forem convertidos para a moeda de economia não hiperinflacionária, os montantes comparativos devem ser aqueles que seriam apresentados como montantes do ano corrente nas demonstrações contábeis do ano anterior (isto é, não ajustados para mudanças subsequentes no nível de preços ou mudanças subsequentes nas taxas de câmbio). 7 APRESENTAÇÃO DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS CONSOLIDADAS O CPC 36 (R3) (2012) trata sobre as Demonstrações Contábeis Consolidadas (quando a entidade controla uma ou mais entidades). Almeida (2020, p. 37) explica que “a consolidação tem por objetivo apresentar demonstrações contábeis de duas ou mais sociedades, representadas pela controladora e pelas suas controladas, como se fossem uma única entidade”. O autor deixa claro que a consolidação ocorre apenas extracontabilmente, pois as sociedades consolidadas continuam existindo juridicamente. Da mesma forma, não há efeitos fiscais ou legais. Imagine, no exemplo dado por Rios e Marion (2020), um grupo de entidades que tenha em seu quadro uma empresa com resultados operacionais e financeiros espetaculares, porém que só consegue alcançar tal patamar por outra empresa dentro do mesmo ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 128 grupo operar com prejuízo para fornecer operações à primeira. A consolidação existe, pois, para os acionistas e administradores, o que vale é a situação do conjunto dessas empresas, não a de cada uma individualmente (caso em que algumas empresas do grupo poderiam parecer em situação especialmente ruim). Com a consolidação, as operações entre essas companhias são eliminadas, pois passam a ser consideradas operações internas de uma única empresa. Os autores resumem da seguinte forma: Consolidar significa reunir todos os dados das demonstrações financeiras de todas as empresas integrantes de um grupo econômico, eliminar os dados referentes às operações comerciais ou financeiras realizadas entre as mesmas e apresentar a situação patrimonial e o resultado das operações como se fosse uma única empresa (RIOS; MARION, 2020, p. 132). Mas como saber se uma empresa tem controle sobre outra? O CPC 36 (R3) aponta que o investidor controla a investida se, e somente se, o investidor possuir todos os atributos seguintes: (a) poder sobre a investida: possui direitos que lhe permitam dirigir as atividades relevantes da investida. (b) exposição a, ou direitos sobre, retornos variáveis decorrentes de seu envolvimento com a investida: retornos resultantes do envolvimento com a investida variam conforme o resultado de desempenho da investida. (c) a capacidade de utilizar seu poder sobre a investida para afetar o valor de seus retornos: consegue usar seu poder para afetar seus retornos. Outro detalhe fundamental é que a controladora precisa apresentar as participações de não controladores separadamente do patrimônio líquido dos proprietários da controladora. Sempre que a controladora não possuir 100% da controlada, existe a figura do não controlador, que seria a participação minoritária, a parte do patrimônio líquido que não é possuída pela controlada, nem direta nem indiretamente. Na imagem, a Alfa seria a Controladora (holding), que possui 100% de participação societária nas controladas Beta e Gama. Agora que compreendemos a parte teórica das Demonstrações Consolidadas, vamos ver um exemplo real de uma Demonstração de Resultados, da empresa Metisa S.A. Está marcado em vermelho o local em que se apresentam as informações consolidadas. No outro lado, constam os valores da Controladora, que seria considerada a Demonstração Individual. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 129 8 APRESENTAÇÃO DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS SEPARADAS Pode ocorrer de algum investidor ou credor solicitar à investidora as Demonstrações Contábeis Separadas, ou seja, pedir que apresente suas demonstrações separadamente do grupo. É para tratar dessas questões que foi criado o CPC 35 (R2) (2012). Um detalhe importante é que “as demonstrações contábeis em que a entidade não possui investimentos em controlada, em coligada ou em empreendimento controlado em conjunto não são consideradas demonstrações separadas” (CPC, 2012, s. p.). Mas não é muito comum a solicitação dessas Demonstrações Separadas, em geral, a situação apresentada nas Demonstrações Consolidadas acaba sendo mais condizente com a realidade da controladora, ou seja, mais coerente com o objetivo de análise dos usuários. 9 APRESENTAÇÃO DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS COMBINADAS As Demonstrações Combinadas não advêm de normas do IFRS, mas pela necessidade da realidade das práticas brasileira, culminando na criação do CPC 44 (2011). Também não há previsão legal na lei societária brasileira, por isso, não há obrigatoriedade de elaboração dessas demonstrações. No CPC 44 (2011, s. p.), é explicado de forma bem didática o que seriam as Demonstrações Combinadas: A entidade que controle uma ou mais entidades e elabore relatórios contábeis- financeiros, deve apresentar demonstrações contábeis consolidadas. No entanto, nem todas as entidades controladoras elaboram relatórios financeiros. Por exemplo, a entidade controladora pode ser um indivíduo ou grupo de indivíduos, tais como uma família. Se este for o caso, demonstrações contábeis combinadas podem fornecer informação importante sobre entidades sob controle comum, como um grupo. Ou seja, no caso das Demonstrações Combinadas, não existe a figura de uma controladora, mas de um grupo de entidades sob controle comum. Imagine uma pessoa física que tenha controle de entidades; pois bem, não existe previsão para elaboração de Demonstrações Financeiras de uma pessoa física, correto? Logo, pode- se criar as Demonstrações Combinadas, que fornecem as informações necessárias para a análise pelos usuários. • A análise das Demonstrações Financeiras acontece com a extração dos dados das Demonstrações Financeiras, seguida do cálculo dos indicadores e interpretação de informações quantitativas e qualitativas, e sua posterior utilização para a tomada de decisões. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 130 • Há vários usuários das Demonstrações Financeiras, entre eles os administradores das empresas, investidores, fornecedores, bancos, entre outros. Cada usuário possui um objetivo diferente e demanda informações diferentes para realizar sua análise. • Para garantir uma análise mais assertiva, háa padronização dos registros contábeis e das demonstrações financeiras, a fim de deixar o mais claro possível a realidade econômico-financeira da empresa. • Os elementos das Demonstrações Contábeis são: ativo, passivo, patrimônio líquido, receitas e despesas. Os critérios de reconhecimento são a Relevância e a Representação Fidedigna. • Além das Demonstrações Financeiras individuais das entidades, há casos em que se apresentam Demonstrações Consolidadas, Demonstrações Separadas e Demonstrações Combinadas. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 131 CAPÍTULO 8 DEMONSTRAÇÃO DO RESULTADO Olá, estudante a Demonstração do Resultado (DRE) mostra o resultado líquido do período (Lucro ou Prejuízo), através do confronto entre as receitas e despesas. “Em linhas gerais, o resultado é apurado deduzindo-se das receitas todas as despesas (inclusive os custos, que nesse momento se transformam em despesas) que a empresa incorreu no referido período” (MARTINS, MIRANDA, DINIZ, 2020, p. 32). Por isso, é apresentado como forma dedutiva, pois deduz-se das Receitas as Despesas. Você se lembra quando o Balanço Patrimonial foi comparado a uma foto estática? A Demonstração do Resultado (DRE), ao contrário, é comparada a um vídeo, pois demonstra o que ocorreu durante um determinado período. É interessante que “com os dois relatórios, qualquer pessoa interessada nos negócios da empresa tem condições de obter informações, fazer análises, estimar variações, tirar conclusões de ordem patrimonial e econômico-financeira, traçar novos rumos para futuras transações” (IUDÍCIBUS et al., 2019, p. 118). No entanto, de acordo com os autores, isso não tira a importância da análise das demais demonstrações, que serão explicadas no próximo tópico, pois em conjunto se consegue realizar um aprofundamento na situação patrimonial e financeira de uma entidade, através do orçamento empresarial, com foco em conhecer as informações sobre o ambiente interno e externo é uma das ações necessárias para realizar a etapa de elaboração do orçamento empresarial. A estrutura de uma Demonstração do Resultado básica pode ser apresentada conforme esquema a seguir: ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 132 DEMONSTRAÇÃO DO RESULTADO (em reais) 20x2 20x1 RECEITA LÍQUIDA 450.530 356.890 (-) Custo das Mercadorias Vendidas ou Serviços Prestados (160.125) (126.560) (=) LUCRO BRUTO 290.405 230.330 (-) DESPESAS OPERACIONAIS (38.200) (26.450) (-) Despesas de Vendas (25.300) (16.600) (-) Despesas Administrativas (12.900) (9.850) LUCRO OPERACIONAL ANTES DO RESULTADO FINANCEIRO 252.205 203.880 (+) Receitas Financeiras 2.600 1.550 (-) Despesas Financeiras (3.000) (2.000) (=) RESULTADO ANTES DO IMPOSTO DE RENDA E CONTRIBUIÇÃO SOCIAL 251.805 203.430 (-) Provisão para Imposto de Renda e Contribuição Social (61.614) (48.823) (=) LUCRO LÍQUIDO DO EXERCÍCIO 190.191 154.607 QUADRO 1 – EXEMPLO DE DEMONSTRAÇÃO DO RESULTADO (DRE) FONTE: A autora 3.1 ITENS CONSTANTES NA ESTRUTURA DA DEMONSTRAÇÃO DO RESULTADO Receita líquida: “Nas publicações deve-se começar a Demonstração com a Receita Líquida, ficando a conciliação entre esse valor e a Receita Bruta evidenciada apenas em nota explicativa” (MARTINS; MIRANDA; DINIZ, 2020, p. 34). Receita Bruta seria o total bruto vendido no período, e para chegar à Receita Líquida são realizadas as Deduções, que basicamente incorporam as Devoluções (cancelamentos de venda), Abatimentos (descontos incondicionais concedidos) e Impostos sobre as vendas (que na realidade pertencem ao governo, não à empresa, que é simplesmente uma intermediária, responsável por cobrar do adquirente e repassar o valor ao governo) (IUDÍCIBUS, 2017). Da Receita Líquida se deduz o Custo das Mercadorias Vendidas ou Custo dos Serviços Prestados, chegando no Lucro Bruto. São listados então as Despesas Operacionais, ou seja, aquelas relacionadas com a atividade-fim da empresa, como as Despesas de Venda e as Despesas Administrativas. Chega-se, então, ao Lucro Operacional antes do Resultado Financeiro, assim As etapas do processo de conciliação bancária compreendem: a prestação de contas, que é o registro e organização dos documentos para a análise; conferência dos saldos, para verificar possíveis erros que acarretem na desarmonia financeira; verificação dos detalhes, que compreende a checagem de ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 133 valores, datas e outros detalhes e; correção e armazenamento caso haja diferenças ou erros procede-se à correção, armazenando os documentos. O Resultado Financeiro é obtido pelo confronto entre Receitas Financeiras e Despesas Financeiras. Somando-se ou subtraindo-se o resultado (dependendo se for positivo ou negativo), chega-se ao Resultado antes do Imposto de Renda e Contribuição Social. Deduzindo a provisão do Imposto de Renda e Contribuição Social, chega-se, por fim, ao Lucro Líquido do Exercício, onde no caso o caixa 2, a empresa, ao prestar serviço sem nota fiscal, acaba não sinalizando ao fisco à não execução da atividade e, portanto, a não existência do fato gerador de tributos. Dessa forma, os valores não são registrados pela contabilidade ou são registrados em uma contabilidade paralela que fica oculta ao fisco. Cada entidade estrutura a DRE da forma que apresentar melhor sua realidade, desde que apresente os itens obrigatórios constantes nas normas contábeis. Como são realizadas comparações entre períodos diferentes, é importante, apesar disso, que a entidade mantenha um padrão para suas demonstrações, a fim de permitir a comparabilidade. Vamos consultar uma DRE real da Metisa, publicada por ser empresa aberta na Bolsa: TABELA 3 – DEMONSTRAÇÃO DO RESULTADO DA METISA S.A. FONTE: Metisa S.A. (2022, s.p.) ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 134 Todas as empresas, sejam elas atuantes no mercado nacional ou Internacional e que estejam envolvidas em atividades de indústria, comércio ou de serviços, estarão sempre enfrentando o peso da concorrência como forças competitivas, pelas contas de adiamentos de fornecedores: • Trata-se operação monetária relativa à determinada compra, que será concluída posteriormente. • O adiantamento a fornecedores está compreendido no Ativo Circulante (Balanço Patrimonial). • O pagamento dos impostos decorrentes da venda será realizado somente após a entrega da mercadoria. As forças competitivas estão subdivididas em cinco, a saber: a) novos concorrentes; b) produtos substitutos que podem tomar facilmente o mercado; c) as forças e ameaças na negociação juntamente com os fornecedores; d) a capacidade, a técnica e a habilidade para negociação dos compradores; e) a potencial rivalidade existente entre os concorrentes no mercado. Todas as forças competitivas irão possibilitar o aperfeiçoamento na habilidade dos gestores das empresas em negociar melhores taxas de retorno dos investimentos para que essas sempre sejam superiores ao custo do capital investido. É bom ressaltar que essas características variam do mercado de atuação de cada empresa, assim como a capacidade de gestão dos seus administradores, uma empresa pode evoluir mais rápido que a outra, pois muitos fatores externos são determinantes para alavancar os resultados das empresas, ou não. Um exemplo são as variações das taxas cambiais que têm forte influência nos custos de aquisição das matérias-primas importadas. O desembaraço aduaneiro das matérias-primas importadas do dia em que a taxa cambial estiver elevada aumentará o custo de aquisição dos valores das matérias- primas no estoque em moeda nacional. Em períodos de sazonalidade, como o inverno e o verão, determinadas empresas têm essas cinco forças competitivas como sendo favoráveis e que trarãoretornos maiores, pois haverá maior busca por produtos da moda, como no caso do vestuário. Outros exemplos de empresas com retornos favoráveis podem ser do ramo farmacêutico, de refrigerantes, dentre outros. Algumas empresas podem alcançar menor retorno, por exemplo, empresas siderúrgicas que trabalham com o processamento primário da matéria-prima e empresas que produzem videogames, pois os consumidores sempre buscam por novidades e os produtos possuem curto tempo de vida no mercado, ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 135 onde depreciação se configura como a perda de valor de bem tangíveis ao longo do tempo, deve considerar, além do tempo de uso, propriamente dito, a situação do bem, seu desgaste, obsolescência, função, entre outros, e inicia a partir da operação do bem e se encerra com sua baixa ou transferência. A amortização se refere a bens intangíveis. A rentabilidade da indústria não é uma questão de aparência ou estilo de produto e sim da própria estrutura industrial existente no mercado, pois a cadeia de suprimentos deve atender de maneira eficaz a todo o ciclo, desde a extração da matéria- prima, transformação primária, industrialização, comercialização e atendimento pós- venda. Dessa forma, as cinco forças competitivas acabam impactando diretamente na empresa, com influência nos preços, nos custos e no montante dos investimentos. Com isso, os gestores devem sempre acompanhar as tendências do mercado e avaliar quais são os tipos de influência externa que os produtos da empresa podem sofrer, como novas tecnologias, novas tendências de moda, dentre outros, pois a DVA - demonstração do valor adicionado – o valor da riqueza gerada pela companhia, a sua distribuição entre os elementos que contribuíram para a geração dessa riqueza, tais como empregados, financiadores, acionistas, governo e outros, bem como a parcela da riqueza não distribuída. O giro do ativo é um indicador da atividade da empresa que avalia quantas vezes os ativos da empresa giraram em função das vendas. Para uma análise mais rápida, podemos calcular o giro do ativo utilizando a fórmula seguinte: GAT = RLV AT GAT = Giro Ativo Total RLV = Receita Líquida de Vendas AT = Ativo Total Vamos apurar o resultado conforme os dados do Balanço Patrimonial. Vejamos o quadro a seguir, que apresenta o Balanço Patrimonial com as informações do Ativo, para o cálculo do giro do Ativo. No Ativo Total em X2, a empresa apresenta o valor de R$ 33.974.000,00. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 136 Para identificar o valor da Receita Líquida de Vendas, é necessário buscar a DRE – Demonstração do Resultado – em X2 no valor de R$ 19.841.000,00. QUADRO 2 – DEMONSTRAÇÃO DO RESULTADO DE EXERCÍCIO FONTE: O autor Para apurar o índice do Giro do Ativo da empresa, é necessário dividir o valor da Receita Líquida de Vendas em R$ 19.841.000,00 por R$ 33.974.000,00. Giro Ativo = Receita Líquida de Vendas Ativo Total Giro Ativo = 19.841.000 33.974.000 Giro Ativo = 0,5840 De acordo com os dados apresentados, o giro do ativo da empresa está em 0,58. Em outras palavras, significa que os ativos foram gerados um pouco acima de 50% em relação às receitas líquidas de vendas. 1 GIRO DO ATIVO OPERACIONAL O giro do ativo operacional é outro interessante indicador para os gestores da empresa avaliarem e acompanharem os resultados da empresa. É utilizado para avaliar quantas vezes ocorreu o giro dos ativos aplicados às atividades operacionais da empresa, comparado ao valor das receitas líquidas de vendas geradas, entre outras palavras, o imobilizado. Zdanowicz (1998) contribui dizendo que o giro sobre o ativo operacional líquido (GAOL) é calculado, considerando as receitas operacionais líquidas (ROL) e todo o ativo operacional líquido (AOL) necessário para gerar aquela receita, deduzindo-se todos os elementos patrimoniais estranhos à atividade-fim da empresa (inclusive as depreciações). Para o cálculo do Giro do Ativo Operacional (GAO), aplica-se seguinte fórmula: ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 137 Fórmula: GAO = RLV / AO Onde: GAO = Giro Ativo Operacional RLV = Receita Líquida de Vendas AO = Ativo Operacional (Ativo Permanente ou Imobilizado) Vamos apurar o resultado conforme os dados do Balanço Patrimonial. Vejamos o quadro a seguir, que apresenta o Balanço Patrimonial com as informações do Ativo Permanente, para o cálculo do giro do Ativo Operacional. O valor do Ativo Operacional (Ativo Permanente ou Imobilizado) da empresa em X2 corresponde a R$ 21.358.000,00. QUADRO 3 – BALANÇO PATRIMONIAL FONTE: O autor Para identificar o valor da Receita Líquida de Vendas, é necessário buscar a DRE – Demonstração do Resultado – em X2 no valor de R$ 19.841.000,00. QUADRO 4 – DEMONSTRAÇÃO DO RESULTADO DE EXERCÍCIO FONTE: O autor Para apurar o índice do Giro do Ativo da empresa, é necessário dividir o valor da Receita Líquida de Vendas de R$ 19.841.000,00 por R$ 21.358.000,00. GAO = RLV AO GAO = 19.841.000 21.358.000 GAO = 0,9290 ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 138 De acordo com os dados apresentados, o resultado do giro do ativo operacional está em 0,92 ou 92%. O ideal é que o ativo operacional (imobilizado) possa contribuir para gerar um volume maior que uma vez o seu valor com as receitas líquidas de vendas. 2 MARGEM BRUTA De acordo com Zdanowicz (1998), a margem bruta é obtida pela apuração do resultado entre o lucro bruto (LB) e a receita líquida de vendas (RLV). O lucro bruto é obtido a partir da apuração da diferença entre a receita líquida de vendas e o custo dos produtos vendidos (custo das vendas, custo dos serviços prestados pela empresa). A receita líquida de vendas é a diferença entre a receita bruta de vendas e as deduções das vendas como sendo os impostos, as devoluções das vendas e os abatimentos das vendas. Para identificar o valor da Receita Líquida de Vendas, é necessário buscar a DRE –Demonstração do Resultado – em X2 no valor de R$ 19.841.000,00 e o Lucro Bruto no mesmo período de R$ 5.653.000,00. QUADRO 5 – DEMONSTRAÇÃO DO RESULTADO DE EXERCÍCIO FONTE: O autor Para apurar o índice da Margem Bruta, é necessário dividir o valor do Lucro Bruto de R$ 5.653.000,00 pelo valor da Receita Líquida de Vendas em R$ 19.841.000,00. Fórmula: MB = LB / RLV Onde: MB = Margem Bruta LB = Lucro Bruto RLV = Receita Líquida de Vendas MB = LB ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 139 RLV MB = 5.653.000 19.841.000 MB = 0,2849 De acordo com os dados apresentados, o resultado da margem bruta está em 0,28 ou 28,49%. 3 MARGEM OPERACIONAL Quando for apurado o lucro bruto, este deve ser o suficiente para cobrir as despesas operacionais (despesas administrativas, comerciais, financeiras, tributárias, dentre outras). Para esse indicador, é necessário apurar o lucro operacional (LO) que é calculado com o uso do valor do lucro operacional líquido (LOL) e a receita operacional líquida (ROL), conforme Zdanowicz (1998). Para identificar o valor da Receita Líquida de Vendas, é necessário buscar a DRE – Demonstração do Resultado – em X2 no valor de R$ 19.841.000,00 e o Lucro Operacional no mesmo período em R$ 2.565.000,00. QUADRO 6 – DEMONSTRAÇÃO DO RESULTADO DE EXERCÍCIO FONTE: O autor Para apurar o índice da Margem Bruta, é necessário dividir o valor do Lucro Operacional de R$ 2.565.000,00 pelo valor da Receita Líquida de Vendas em R$ 19.841.000,00. Fórmula: MO = LO / RLV Onde: MO = Margem Operacional LO = Lucro Operacional RLV = Receita Líquida de Vendas ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 140 MO= LO RLV MO = 2.565.000 19.841.000 MO = 0,1293 De acordo com os dados apresentados, o resultado da margem operacional está em 0,12 ou 12,93%. 4 MARGEM LÍQUIDA DO EXERCÍCIO A margem líquida do exercício é um excelente indicador de análise, pois apresenta o retorno gerado em todas as operações realizadas pela empresa durante o período, comparada às vendas líquidas dela. É um percentual que identifica se a empresa gerou o retorno sobre as vendas que foram estipuladas na estrutura dos custos dos produtos. É o mesmo que dizer que na formação do preço de vendas dos produtos existe um percentual mínimo para gerar o lucro do negócio, e se esse lucro apurado na DRE – Demonstração do Resultado – corresponde ao resultado desse indicador apurado. Com isso, é possível averiguar se a margem líquida do exercício corresponde à média da margem estipulada na precificação dos produtos da empresa. Zdanowicz (1998) explica que a margem líquida do exercício (MLE) pode ser calculada após descontar a provisão para imposto de renda (PIR) do lucro antes dos impostos (LAI) sobre a receita líquida de vendas (RLV). Para identificar o valor da Receita Líquida de Vendas, é necessário buscar a DRE –Demonstração do Resultado – em X2 no valor de R$ 19.841.000,00. O valor do Lucro Operacional no mesmo período em R$ 2.565.000,00 e também o valor da Provisão do IRPJ – Imposto de Renda da Pessoa Jurídica e CSLL – Contribuição Social sobre o Lucro Líquido em R$ 928.000,00. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 141 Para apurar o índice da Margem Bruta, é necessário dividir o resultado do valor do Lucro Operacional de R$ 2.565.000,00 subtraído do valor da Provisão IRPJ e CSLL em R$ 928.000,00, que perfaz o resultado de R$ 1.637.000,00 divididos pelo valor da Receita Líquida de Vendas em R$ 19.841.000,00. Portanto, o valor é de R$ 1.637.000,00 divididos por R$ 19.841.000,00. A fórmula é: MLE = (LO – PIR) / RLV Onde: MLE = Margem Líquida do Exercício LO = Lucro Operacional PIR = Provisão para o Imposto de Renda RLV = Receita Líquida de Vendas MLE = LO (-) PIR RLV MLE = 1.637.000 19.841.000 MLE = 0,0825 De acordo com os dados apresentados, o resultado da margem líquida do exercício está em 0,0825 ou 8,25%. É um percentual interessante, visto que também deve corresponder à expectativa da lucratividade na formação dos preços de vendas dos produtos da empresa. Significa que na prática esse resultado foi atingido, do contrário, toda estimativa da precificação dos produtos ao serem comparados com a margem líquida do exercício, precisa ser revista periodicamente. 5 RENTABILIDADE DO ATIVO A rentabilidade do ativo também pode ser caracterizada como a taxa do retorno dos investimentos realizados pelos gestores na empresa, podendo comparar com a TIR que é a taxa interna de retorno. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 142 A Taxa de Retorno sobre Investimentos (TRI) é um índice que apresenta quanto a empresa obteve de lucro líquido em relação ao valor aplicado. De acordo com Iudícibus et al. (2010, p. 4), Por meio da DRE - demonstração do resultado do exercício -, é possível conceituar o lucro líquido do exercício, estabelecendo os critérios de classificação de certas despesas. O lucro líquido apurado na DRE é o que se pode chamar de lucro dos acionistas, porque, além dos itens normais, já se deduzem como despesas o imposto de renda e as participações sobre os lucros a outros que não os acionistas, de forma que o lucro líquido demonstrado é o valor final a ser adicionado ao patrimônio líquido da empresa que, em última análise, pertence aos acionistas, ou é distribuído como dividendo. Pode-se dizer que é uma medida para avaliar a capacidade da empresa em gerar o lucro líquido em função dos investimentos por ela realizados (MARION, 2019). A fórmula aplicada é: RENTABILIDADE DO ATIVO = LLE / ATM Onde: LLE = Lucro Líquido do Exercício ATM = Ativo Total Médio ((Ativo Total de X1 + Ativo Total de X2) / 2) Vamos apurar o resultado conforme os dados do Balanço Patrimonial. Vejamos o quadro a seguir, que apresenta o Balanço Patrimonial com as informações do Ativo, para o cálculo da rentabilidade do Ativo. O valor do Ativo Total de X1 é de R$ 26.965.000,00 que, somados ao valor do Ativo Total de X2 em R$ 33.974.000,00, resulta em R$ 60.939.000,00, que divididos por 2 para apurar a média, resulta no valor de R$ 30.469.500,00. O valor do LLE – Lucro Líquido do Exercício – de X2 na DRE – Demonstração do Resultado – é de R$ 1.425.000,00. QUADRO 9 – DEMONSTRAÇÃO DO RESULTADO DE EXERCÍCIO FONTE: O autor ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 143 Portanto, para apurar o índice da Rentabilidade do Ativo da empresa, é necessário dividir o valor do LLE – Lucro Líquido do Exercício – pelo valor do Ativo Total Médio em R$ 30.369.500,00. RA = LLE Ativo Total Médio RA = 1.425.000 30.469.500 RA = 0,0468 De acordo com os dados apresentados, o resultado da margem líquida do exercício está em 0,0468 ou 4,68%. Dessa forma, podemos utilizar esse percentual para identificar o tempo aproximado do retorno de todos os investimentos realizados na empresa, utilizando coeficientes em 100% e dividindo por esse percentual apurado, pois a Sociedades por ações são regidas por legislações específicas. No Brasil, a lei que rege as sociedades por ações é a n.º 6.404, de 15 de dezembro de 1976, e as suas alterações posteriores. Nessa lei, são fixados os principais deveres da sociedade para com os seus acionistas visando à proteção dos direitos desses, em especial dos acionistas minoritários. → Tempo aproximado do retorno de investimento = 100 % / 4,68%. → Tempo aproximado do retorno de investimento = 21 anos. ANOTE ISSO Esse percentual a cada ano pode alterar visto que novos investimentos serão realizados na empresa, novas vendas serão realizadas, novos resultados serão apurados e dessa forma esse resultado poderá alterar constantemente. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 144 CAPÍTULO 9 DEMONSTRAÇÃO DOS LUCROS OU PREJUÍZOS ACUMULADOS INTRODUÇÃO Olá, estudante, sabemos que o Balanço Patrimonial e a Demonstração do Resultado, as mais conhecidas demonstrações financeiras. No entanto, há outras demonstrações, e é sobre elas que vamos tratar agora. Como já conversamos, é importante uma análise em conjunto de todas as demonstrações elaboradas pelas empresas, pois cada uma esclarece pontos específicos, que ficariam pendentes se fossem por acaso ignorados no processo, com visão do ponto contábil, pois o adiantamento ocorreu, pois há pagamento de valor prévio que difere do fato gerador. As especificidades de cada uma das demonstrações são úteis para os usuários das informações contábeis, pois os auxiliam em suas tomadas de decisão. Analistas que sabem aproveitar dados extras conseguem obviamente resultados mais satisfatórios dos que realizam os cálculos padrões de indicadores, que são em geral mais amplamente conhecidos. Preparados para iniciar mais esta etapa? 2 DEMONSTRAÇÃO DAS MUTAÇÕES DO PATRIMÔNIO LÍQUIDO – DMPL Como o próprio nome já deixa claro, a Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido – DMPL apresenta as mutações que ocorreram em todas as contas do Patrimônio Líquido. Com ela, consegue-se verificar o que aconteceu com a riqueza da empresa, ou seja, de que forma houve alterações no seu capital próprio. “Sua estrutura é bastante simples: nas colunas, são indicadas as contas do PL (com uma coluna final para apresentar o total das contas); e nas linhas, são apresentadas as operações que provocaram alterações das contas do PL durante o período de apresentação” (SALOTTI et al., 2019, p. 112). A conta clientes pertence ao ativo circulante e por isso apresenta saldodos auditores independentes, que são responsáveis pela validação das demonstrações contábeis, nas quais os investidores, credores e outros interessados movimentam grandes somas, comprando, vendendo ou mantendo valores mobiliários. Para conceituar valores mobiliários, podemos dizer que existe uma relação que se estabelece no mercado de capitais, na qual os investidores emprestam seus recursos diretamente às empresas e adquirem títulos, que representam as condições estabelecidas no negócio. A essa operação chamamos de valores mobiliários. Nos Estados Unidos, a Securities and Exchange Commission (SEC) é o órgão responsável por atuar junto ao mercado financeiro, e que tem o mesmo papel que a CVM no Brasil. Já na Europa, com o surgimento da União Europeia, criou- se recentemente a Autoridade Europeia dos Valores Mobiliários e dos Mercados (ESMA). Assim, cada país que atua no mercado financeiro possui um órgão responsável pela supervisão dos valores mobiliários e proteção aos investidores. E para representar as Comissões de Valores Mobiliários do mundo todo, foi criada a IOSCO (International Organization of Securities Commissions and Similar Organization), uma associação interamericana que promove fóruns internacionais nos quais reúne representantes de todo o mundo ligado ao mercado de capitais e trata de assuntos relevantes à área financeira, sempre com o objetivo de proteger o investidor. Sobre a IOSCO estudaremos com maior abordagem um pouco mais adiante. É muito importante entender que a expansão dos mercados e avanços tecnológicos mudaram a conjuntura das organizações, que, por sua vez, têm interesse em publicar seus balanços em outros países e, assim, torna-se imprescindível que as práticas contábeis permitam uma análise e comparação de desempenho financeiro das organizações, contribuindo para o fortalecimento da transparência e da confiabilidade para seus usuários (NIYAMA, 2005 apud KAVESKI; CARPA; KLANN, 2015). O mercado financeiro globalizado torna muito complexa a execução de relatórios financeiros comparáveis entre si e, principalmente, no que diz respeito à compressão e à transparência desses relatórios. Nesse sentido, Martins e Brasil (2008) afirmam que a difusão de princípios internacionais de contabilidade se deu, fundamentalmente, quando as multinacionais começaram a se instalar em diversos países e começaram a encontrar normas e princípios diferentes. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 16 Um exemplo disso é quando a matriz está instalada em determinado país e a filial está em outro, como no caso das multinacionais. A matriz pode ter seus estoques mensurados pelo custo histórico, enquanto a filial poderá estar avaliando os estoques pelo valor de mercado. Outro exemplo seria uma das empresas gerar resultados diferentes: a matriz poderia estar com resultado positivo e a subsidiária indicar prejuízos, dependendo da lei de onde ambas as empresas estejam instaladas. Veja que existem diferenças impactantes nessa avaliação. Nesse sentido, pode haver diversas distorções na comparabilidade das demonstrações contábeis. Isso levou as empresas a terem que gerar dois conjuntos de demonstrativos financeiros, para atender a duas autoridades regulamentadoras, gerando custos e muito mais trabalho para as multinacionais elaborarem seus demonstrativos contábeis (FLOWER, 2002 apud MARTINS; BRASIL, 2008). Os problemas citados seriam facilmente eliminados se as normas contábeis atendessem a um único padrão, e que fossem aceitas internacionalmente por todos do país. Segundo Martins e Brasil (2008), dessa forma, o que se convenciona adotar é um conjunto de normas padronizadas que seja flexível o suficiente e possa atingir as expectativas dos usuários da informação contábil em países diferentes. No XV Congresso Mundial de Contadores (Paris, 1997), conforme afirma Franco (1999 apud MARTINS; BRASIL, 2008), o representante da Austrália, na ocasião, mencionou que pessoas bem informadas acreditavam que a globalização seria a base do futuro e que a ideia de economia nacional não teria mais sentido, assim como as ideias de empresas nacionais, capitais nacionais, produtos nacionais e tecnologias nacionais. Afirmou, ainda, que a globalização estava tornando irreversível o processo de uniformização contábil em todo o mundo. Acrescentou, também, que, de acordo com sua experiência, os investidores eram atraídos para mercados nos quais eles confiavam e sobre os quais conheciam. Com essas considerações, podemos concluir que a adoção de um padrão contábil reconhecido internacionalmente passa a ser uma exigência do mercado financeiro do mundo todo, não sendo mais viável que as empresas tenham que fazer demonstrações financeiras desiguais para atender a normas diferentes. Isso, além de induzir ao erro, custo torna o custo bastante elevado e inviável para as companhias. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 17 5.CONTABILIDADE NORTE-AMERICANA E EUROPEIA Como vimos até aqui, desde o final dos anos 60 e início da década de 70, a globalização está mais presente, cresce o interesse de investidores nas companhias internacionais, além disso, essa forma de investimento passa a interessar não apenas aos grandes investidores, mas desperta o interesse daqueles que possuem pequenas economias para investir, esperando rendimentos melhores. Vamos fazer aqui uma breve definição de quem são os investidores e quais suas reais preocupações: Investidores são pessoas físicas ou jurídicas que possuem recursos para aplicar no mercado financeiro e mercado de ações, cujo objetivo final é o retorno do investimento em forma de lucros. Portanto, podemos dizer que a principal preocupação dos investidores é a veracidade das informações contábeis, que são a fonte de informações em que eles se apoiam para a tomada de decisão. Nesse sentido, Martins, Martins e Martins (2007), afirmam ser vital conseguir meios de dar a esses investidores informações que sejam confiáveis, a fim de que o mercado acionário possa crescer, os acionistas possam vender suas ações quando julgarem necessário, e onde possam as corporações obter novos recursos mediante venda de novas ações. O mercado internacional, nesse contexto, encontra barreiras significativas, pois a contabilidade não possui uma linguagem universal. Cada país cria seus próprios princípios e normas de acordo com sua realidade econômica, cultural e jurídica. Martins e Brasil (2008) parafraseiam o filósofo Pascal afirmando que “o que é verdade neste lado do Atlântico é um erro do outro lado”. Asseguram, ainda, que quando uma companhia cruza o atlântico contábil, seus resultados podem se transformar de lucro em prejuízo, o que é um tanto embaraçoso para o investidor. Caro (a) acadêmico (a), a contabilidade, apesar de sua autonomia como ciência, sofre grandes impactos da filosofia do direito principalmente nos aspectos econômicos, jurídicos e culturais. Portanto, estudaremos, a seguir, duas grandes filosofias do Direito, a Common Law e Code Law, bem como veremos quais as consequências e influências que elas exercem sobre as práticas contábeis no mundo todo. Portanto, como bem definem Martins, Martins e Martins (2007), os países anglo- saxônicos adotam a filosofia Common Law, que segue os costumes, na qual se escreve o mínimo possível na lei e deixa-se aos julgadores a aplicação dessa lei, baseando-se nas tradições e na jurisprudência. Não há preocupação em seguir os pormenores da ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 18 lei, os julgadores é que devem estar preparados para definir o que é justo perante a sociedade. Não só nos parâmetros do Common Law, mas ainda nos sistemas jurídicos de Direito codificado, o ponto central de gravitação de toda criação judicial incide na decisão de casos particulares,devedor, além disso é um direito que a empresa tem. A conta de Adiantamento de Clientes, surge da necessidade de a empresa adiantar recursos, por isso, ela é considerada de natureza credora pois pertence ao passivo e representa uma obrigação da empresa para com o cliente. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 145 Um detalhe importante a relembrar é que só a conta de Prejuízos Acumulados pode constar no Patrimônio Líquido. Quando uma empresa apresenta Lucro Líquido, ela deve destinar esse valor, não pode deixar uma conta de Lucros Acumulados no PL. Como podemos ver no exemplo do Bradesco, houve destinação dos lucros para: aumento de Reserva Legal e Estatutária, pagamento de Juros sobre Capital Próprio ou distribuição de Dividendos. A interpretação é simples: quando aparece um número entre parênteses em uma coluna, é porque esse valor saiu daquela conta específica; e quando aparece um número sem parênteses, é porque aquela conta foi aumentada com aquele valor. Por exemplo, na primeira linha do período de 2019, a primeira coluna explica qual foi a mutação ocorrida, no caso, Aumento de Capital Social com Reservas. A linha apresenta um valor de (8.000.000) na coluna Reserva de Lucros Estatutária, e um valor de 8.000.000 na coluna de Capital Social. Então, podemos concluir que o aumento do Capital Social ocorreu totalmente com valores que já estavam registrados como Reserva de Lucros Estatutária. Simples de compreender! TABELA 1 – DMPL 2020, DO BRADESCO S.A. FONTE: Bradesco (2022, s.p.). Com isso, analisar a DMPL auxilia o analista das demonstrações, e “sua importância se torna acentuada em face dos novos critérios da lei, pois a demonstração indicará claramente a formação e a utilização de todas as reservas” (PEREZ JUNIOR; BEGALLI, 2015, p. 224). O autor também aponta que, além disso, auxilia na verificação do cálculo realizado para definir os dividendos obrigatórios, informação relevante para quem investe em uma determinada empresa, pelas despesas pagas antecipadamente: • Comissões comerciais são relativas aos benefícios ainda não usufruídos. • IPVA reflete na legalização do veículo para o próximo ano. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 146 As Demonstrações de Lucros e Prejuízos são instituídas por Lei para acompanhar as destinações do lucro e suas compensações com prejuízos acumulados. Em geral ele é utilizado em paralelo com o Demonstrativo das Mutações do Patrimônio Líquido. Ambos fornecem as informações necessárias para entender as mudanças ocorridas no Patrimônio Líquido da empresa, pois, a conta retificadora do ativo serve para ajustar o saldo de uma conta principal. • Entender os conceitos e legislações sobre as Demonstrações de Lucro ou Prejuízo - DLPA e Demonstrações de Mutações do Patrimônio Líquido - DMPL; • Compreender a utilidade das Demonstrações de Lucro ou Prejuízo - DLPA e Demonstrações de Mutações do Patrimônio Líquido - DMPL; • Elaborar a Demonstração de Lucro ou Prejuízo - DLPA e Demonstração de Mutações do Patrimônio Líquido - DMPL. CONCEITOS SOBRE O DEMONSTRATIVO DOS LUCROS E PREJUÍZOS ACUMULADOS - DLPA O Demonstrativo de Lucros e Prejuízos Acumulados é essencialmente contábil, e tem finalidade de mostrar a quem foi destinado o lucro líquido apurado no ano calendário ou exercício social, geralmente apurados em 31 de dezembro. Após a promulgação da lei nº 11.638/2007, que alterou somente a alínea “d” do parágrafo 2º da lei nº 6.404/1976, extinguindo a conta de lucros e Prejuízos acumulados do Patrimônio Líquido, ao qual o DLPA evidencia. “Art. 178. No balanço, as contas serão classificadas segundo os elementos do patrimônio que registrem, e agrupadas de modo a facilitar o conhecimento e a análise da situação financeira da companhia. (...) § 2º No passivo, as contas serão classificadas nos seguintes grupos: (...) d) patrimônio líquido, dividido em capital social, reservas de capital, ajustes de avaliação patrimonial, reservas de lucros, ações em tesouraria e prejuízos acumulados”. Portanto a lei nº 11.638/2007 ainda manteve sua obrigatoriedade de apresentação do demonstrativo para que se possa evidenciar o saldo inicial dos prejuízos acumulados ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 147 (caso tenha), ajustes de períodos anteriores, reversões de reservas e a apuração do lucro líquido e sua destinação. ESTRUTURA DO DLPA Sua estrutura está contida no artigo 186 da lei nº 6.404/1976, que diz: “Art. 186. A demonstração de lucros ou prejuízos acumulados discriminará: I - o saldo do início do período, os ajustes de exercícios anteriores e a correção monetária do saldo inicial; II - as reversões de reservas e o lucro líquido do exercício; III - as transferências para reservas, os dividendos, a parcela dos lucros incorporada ao capital e o saldo ao fim do período. § 1º Como ajustes de exercícios anteriores serão considerados apenas os decorrentes de efeitos da mudança de critério contábil, ou da retificação de erro imputável a determinado exercício anterior, e que não possam ser atribuídos a fatos subsequentes. § 2º A demonstração de lucros ou prejuízos acumulados deverá indicar o montante do dividendo por ação do capital social e poderá ser incluída na demonstração das mutações do patrimônio líquido, se elaborada e publicada pela companhia”. MODELO DO DEMONSTRATIVO DE LUCROS E PREJUÍZOS ACUMULADOS - DLPA Vemos neste exemplo a destinação integral do lucro do exercício. EMPRESA XYZ 1. Saldo no início do período 2. Ajustes de exercícios anteriores 3. Saldo ajustado 4. Lucrou ou prejuízo do exercício 5. Reversões de reservas 50.000,00 6. Saldo a disposição 50.000,00 7. Destinação do exercício Reserva legal Reservas estatutárias Reservas para contingencias ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 148 2.500,00 27.500,00 Outras reservas Dividendos p/ ação Juros s/ Capital Próprio Saldo final do exercício 20.000,00 CONCEITOS SOBRE O DEMONSTRATIVO DAS MUTAÇÕES DO PATRIMÔNIO LÍQUIDO – DMPL O Demonstrativo das Mutações do Patrimônio Líquido, apresenta todas as ocorrências nas contas do patrimônio líquido de um determinado período. Não há um modelo nem padrão que a lei nº 6.404/1976 estipula para as empresas elaborarem, porém todas as informações contidas no DLPA devem constar neste relatório, além é claro de todas as movimentações das contas do patrimônio líquido. Quando há fluxos de informações de uma conta de patrimônio para outra, devem ser evidenciadas através de notas explicativas, onde a conta capital a integralizar do patrimônio líquido serve para ajustar a integralização de patrimônio quando feita em parcelas, pois a natureza devedora da conta capital a integralizar permite ajustes entre o capital subscrito e o realizado. Não há embasamento legal para a estruturação e elaboração da DMPL, ficando a cargo da empresa determinar os recursos a serem utilizados. No entanto os dados que a empresa terá de extrair estão contidos no livro razão. MODELO DE ELABORAÇÃO DO DEMONSTRATIVO DAS MUTAÇÕES DO PATRIMÔNIO LÍQUIDO - DMPL Descrição Capital social Reserva de capital Reserva de lucros Ajust. Avaliação patrimonial Ações em tesouraria Prejuizo acumulado Lucros a destinar TOTAIS Saldo em 31 / 12 / XXXX Aumento de capital *Reservas de lucro ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 149 Lucro ou prejuizo do exercício Reversão de reserva Destinação do exercício *Reserva legal *Dividendos *Juros sobre o capital próprio Saldo em 31 / 12 / XXX1 Aumento de capital *Reservas de capital Lucro ou prejuizo do exercício Reversão de reservaDestinação do exercício *Reserva legal *Dividendos *Juros sobre o capital próprio Saldo em 31 / 12 / XXX2 Fonte: RIBEIRO, Osni Moura – Contabilidade Intermediaria. – 2. Ed. – São Paulo: Saraiva, 2009. Para um acionista que deseja conhecer a situação da empresa em que está investindo, quanto maior o número de informações, melhores e mais exatas serão as suas interpretações, conclusões e, consequentemente, as suas tomadas de decisões. Para isso, além do balanço patrimonial e da demonstração do resultado do exercício, a empresa conta também com a DLPA, que contribui para a compreensão da situação econômica e financeira da empresa, além de explicitar a destinação dos lucros da companhia. A DLPA tem por finalidade apresentar as movimentações ocorridas na conta de lucros ou prejuízos acumulados, evidenciando as alterações ocorridas no saldo desta conta. Uma vez que inúmeras operações que se processam nesta conta fazem com que o lucro líquido do exercício, constante da demonstração do resultado do exercício, seja diferente do saldo final da conta de lucros ou prejuízos acumulados, a DLPA constitui- se, então, imperativa na apresentação de tais modificações (GELBCKE et al., 2018). A conta de lucros ou prejuízos acumulados, apresentada pela DLPA, pode ser obtida também pela demonstração das mutações do patrimônio líquido, a qual inclui uma ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 150 coluna específica para evidenciar as movimentações que transitaram pela conta de lucros ou prejuízos acumulados. Segundo Padoveze (2017), a DLPA tem por objetivo apresentar as seguintes informações: n os lucros ainda não distribuídos ou transferidos; n os lucros ou prejuízos ocorridos no exercício; n as transferências para reservas e lucros distribuídos; n a absorção dos prejuízos de exercícios anteriores por novos lucros; n os prejuízos acumulados de exercícios anteriores não absorvidos por lucros. O art. 286 do Decreto nº. 9.580, de 22 de novembro de 2018, determina a obrigatoriedade da apuração da DLPA: Ao fim de cada período de apuração, o contribuinte deverá apurar o lucro líquido por meio da elaboração, em observância às disposições da lei comer- cial, do balanço patrimonial, da demonstração do resultado do período de apuração e da demonstração de lucros ou prejuízos acumulados (BRASIL, 2018, documento on-line). Em seu item 6.5, o Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) PME define que a DLPA deve conter: (a) lucros ou prejuízos acumulados no início do período contábil. (b) dividendos ou outras formas de lucro declarados e pagos ou a pagar du- rante o período. (c) ajustes nos lucros ou prejuízos acumulados em razão de correção de erros de períodos anteriores. (d) ajustes nos lucros ou prejuízos acumulados em razão de mudanças de práticas contábeis. (e) lucros ou prejuízos acumulados no fim do período contábil (CPC, 2009, p. 35). O CPC-PME (R1) complementa, em seu item 3.18, que se as únicas alterações no patrimônio líquido durante os períodos para os quais as demonstrações contábeis são apresentadas derivarem do resultado, de distribuição de lucro, de correção de erros de períodos anteriores e de mudanças de políticas contábeis, a entidade pode apresentar a DLPA no lugar da demonstração do resultado abrangente (DRA) e da demonstração das mutações do patrimônio líquido (MONTOTO, 2018). ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 151 O § 2º do art. 186 da Lei nº. 6.404, de 15 de dezembro de 1976 (BRASIL, 1976), também reforça que a DLPA pode ser substituída pela demonstração das mutações do patrimônio líquido. A DLPA poderá ser incluída na demonstração das mutações do patrimônio líquido, se elaborada e divulgada pela companhia, visto que esta não inclui somente o movimento da conta de lucros ou prejuízos acumulados, mas também o de todas as demais contas do patrimônio líquido (MONTOTO, 2018). O art. 286 do Decreto nº. 9.580/2018 (BRASIL, 2018) determina a obriga- toriedade da DLPA para as sociedades limitadas. Montoto (2018) ressalta que a DLPA não faz parte do conjunto de demonstrações exigido pelo Conselho Federal de Contabilidade (CFC) no CPC 26 (R1), itens 10 e 11 (CPC, 2011), para as empresas de grande porte, mas a Lei nº. 6.404/1976 e o CPC-PME sim. De acordo com o art. 186, § 2º da Lei nº. 6.404/1976 (BRASIL, 1976), a DLPA deverá apresentar as seguintes informações: n o saldo do início do período e os ajustes de exercícios anteriores; n as reversões de reservas e o lucro líquido do exercício; n as transferências para reservas, os dividendos, a parcela dos lucros incorporada ao capital e o saldo ao fim do período. O plano de contas pode apresentar as duas contas: “lucros acumulados” (credora) e “prejuízos acumulados” (devedora). O saldo credor representa a parcela do resultado da empresa não destinada especificamente. O saldo devedor representa o saldo dos resultados negativos da empresa, e deverá ser compensado com lucros futuros (MONTOTO, 2018). A DLPA é constituída de forma ordenada e racional, explicitando todas as movimentações ocorridas com a conta lucros ou prejuízos acumulados — e esta, por sua vez, no balanço patrimonial, é apresentada no patrimônio líquido da empresa. O ponto de partida da DLPA é o saldo inicial — isto é, o valor constante na conta lucros ou prejuízos acumulados no início do exercício da empresa — até o saldo final — o valor que encerra o exercício —, elencando de maneira clara e sucinta todas as operações que tenham refletido na conta de lucros ou prejuízos acumulados, pelos fluxos de caixa: • Quando o funcionário vai realizar atividades externas em longas distâncias que são custeadas pela empresa a empresa faz o adiantamento. • Quando a empresa faz o pagamento do salário mensal em duas parcelas. A DLPA apresenta as retenções de lucros, as distribuições de lucros aos sócios, os ajustes de exercícios anteriores, os saldos ainda não destinados, entre outros itens cujas ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 152 causas e efeitos dos registros e do saldo são de grande importância para o público interessado na empresa. Para efeito de publicação, deve-se incluir nessa demonstração as operações ocorridas no exercício anterior para fins de comparação. Ela é elaborada após terem sido realizados todos os ajustes e procedimentos de encerramento contábil, ou seja, após a finalização do balanço patrimonial e da demonstração do resultado do exercício, pelo CPC 09, para os investidores e outros usuários, essa demonstração proporciona o conhecimento de informações de natureza econômica e social e oferece a possibilidade de melhor avaliação das atividades da entidade dentro da sociedade na qual está inserida. É importante ressaltar que a Lei nº. 11.638, de 28 de dezembro de 2007 (BRASIL, 2007), não permite a manutenção do saldo na conta de lucros ou prejuízos acumulados para as companhias abertas e de grande porte, pois todos os lucros existentes devem ter uma destinação ao final do exercício, podendo ser distribuídos na forma de dividendos ou juros sobre capital próprio para os sócios ou acionistas, ou, também, ser transferidos para o capital social ou reservas de lucros. Cabe destacar que o CPC PME (para pequenas e médias empresas) conserva a manutenção do saldo da conta de lucros acumulados, por se tratar de empresas de pequeno e médio porte (PADOVEZE, 2017). A supressão do termo “lucros acumulados”, ao lado de “prejuízos acumula- dos”, evidencia que os lucros acumulados até 2007 tiveram que ser destinados nas demonstrações de 2008 e que não é mais possível deixar de destinar todo o lucro de um exercício. Se ocorrer de o resultado do exercício ser negativo, este será obrigatoriamente absorvido pelos lucros acumulados, pelas reservas de lucros e pelareserva legal, nesta ordem. A partir da publicação da Lei nº. 11.638/2007, não poderá haver saldo de “lucros acumulados” no patrimônio líquido, pelo método indireto é diferente do método direto porque sua elaboração começa a partir do resultado final da DRE, ou seja, com o resultado que deverá ser ajustado com itens como a depreciação ou a amortização. Isso não significa que durante um exercício os balanços patrimoniais intermediários não possam ter saldos na conta de lucros ou prejuízos acumulados. Essa conta não desapareceu da contabilidade. Contudo, seu saldo terá que ser completamente utilizado (destinado) ao final de cada exercício. Ou seja, o saldo final da DLPA não deve ser positivo, porque entende-se que todo lucro que a empresa auferir deverá ser destinado, seja pela distribuição de lucros ou pela destinação para reservas (MONTOTO, 2018). ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 153 ANOTE ISSO Analisando as informações geradas pela DLPA, é possível observar em quais períodos a empresa obteve maior lucro e maior prejuízo, e a extensão de crescimento possível da empresa. Conhecer com detalhes suas reservas de lucros significa conhecer as perspectivas da empresa para o futuro e ter uma análise detalhada de suas possibilidades de expansão — se há como investir em novos produtos, instalações ou até mesmo outras filiais com os resultados obtidos. Além do mencionado, é possível efetuar uma análise global do resultado, isto é, verificar o desempenho das estratégias aplicadas na empresa com o objetivo de obtenção de lucro, analisando se existe um alinhamento entre as equipes da empresa, e, de posse da DLPA, verificar se existem pontos que devam ser alterados para estimular o crescimento da empresa e o aumento do lucro (INSTITUTO COACHING FINANCEIRO, c2016). ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 154 CAPÍTULO 10 DEMONSTRAÇÃO DO FLUXO DE CAIXA Olá, estudante a Demonstração dos Fluxos de Caixa busca apresentar o efeito das operações ocorridas no caixa da empresa. Isso porque a Contabilidade mantém o registro dos eventos pelo regime de competência, ou seja, não necessariamente há alteração no caixa; por exemplo, no caso de uma venda à prazo, a contabilização não envolve movimentação de recebimento em dinheiro, e sim de um direito a receber posteriormente. Com isso, “os usuários das demonstrações contábeis podem avaliar a capacidade de gerar fluxos futuros de caixa da entidade, a capacidade de saldar obrigações e pagar dividendos, a flexibilidade financeira da empresa e a taxa de conversão do lucro em caixa entre outros aspectos” (MARTINS; MIRANDA; DINIZ, 2020, p. 47). A Demonstração dos Fluxos de Caixa vai conseguir demonstrar a movimentação ocorrida entre os saldos inicial e final do grupo Disponibilidades (caixa e equivalentes de caixa), onde os valores relativos ao caixa, ao banco, aos clientes e aos fornecedores constituem as Contas Patrimoniais e, previstas no Balanço Patrimonial, representam a situação do patrimônio da empresa. Sobre as contas de resultado: • Receita de vendas e pagamento de salários são exemplos de Contas de Resultado. • Todos os valores dispendidos para o desenvolvimento da atividade empresarial são alocados nas Contas de Resultado. Na construção da Demonstração dos Fluxos de Caixa, são três os grupos nos quais são distribuídos os eventos que afetam o caixa: ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 155 Atividades Operacionais São as principais atividades geradoras de receita da entidade e outras atividades que não são de investimento e tampouco de financiamento. Exemplos: Recebimentos de caixa pela venda de mercadorias e pela prestação de serviços. Pagamentos de caixa a fornecedores de mercadorias e serviços. Atividades de Investimento São as referentes à aquisição e à venda de ativos de longo prazo e de outros investimentos não incluídos nos equivalentes de caixa. Exemplos: Pagamentos em caixa para aquisição de ativo imobilizado. Recebimentos de caixa pela liquidação de adiantamentos ou amortização de empréstimos concedidos a terceiros. Atividades de Financimento São aquelas que resultam em mudanças no tamanho e na composição do capital próprio e no capital de terceiros da entidade. Exemplos: Caixa recebido pela emissão de ações ou outros instrumentos patrimoniais. Pagamentos em caixa a investidores para adquirir ou resgatar ações da entidade. QUADRO 1 – GRUPOS DA DEMONSTRAÇÃO DOS FLUXOS DE CAIXA FONTE: Adaptado de CPC 03 (R2) (2010) 4.1 MÉTODO DIRETO E MÉTODO INDIRETO A Demonstração dos Fluxos de Caixa pode ser estruturada de duas formas diferentes: pelo Método Direto ou pelo Método Indireto. No Método Direto, apresentam- se as principais classes de pagamentos e recebimentos divididos entre os três grupos de atividades (operacionais, de investimento e de financiamento). Já no Método Indireto, inicia-se pelo Lucro Líquido do Exercício, conciliando-o com as transações que não afetaram diretamente o caixa e equivalentes de caixa. Apesar de o Método Direto ser o mais fácil de compreender pelos usuários, em geral as empresas costumam publicar pelo Método Indireto. “Em outros países que já adotaram a exigência legal do DFC, o método mais utilizado tem sido o indireto, pois possibilita a conferência dos valores por meio das demonstrações contábeis publicadas” (PEREZ JUNIOR; BEGALLI, 2015, p. 243). O próprio CPC 03 (R2), que trata da DFC, trouxe um exemplo de cada um dos Métodos. O primeiro é o Método Direto: ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 156 FONTE: CPC 03 (R2) (2010, s. p.) Dá para notar de forma clara as classes de pagamentos e recebimentos, por exemplo, Recebimento de clientes no valor de R$30.150. No entanto, muitas informações precisam ser retiradas dos registros contábeis da empresa ou de demais informações gerenciais, o que não há como ser conferido em outras demonstrações pelos analistas. Já o Método Indireto, apesar de ser um pouco mais complexo para compreensão de analistas não tão familiriazados com aspectos contábeis, pode ser confrontado com as informações das outras Demonstrações publicadas: ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 157 TABELA 2 – EXEMPLO DE DFC PELO MÉTODO INDIRETO FONTE: CPC 03 (R2) (2010). Por exemplo, o Método Indireto exibido traz a informação Aumento nas contas a receber de clientes e outros, o que pode ser conferido no Balanço Patrimonial. Por isso, acaba sendo o mais utilizado nas publicações de Demonstrações Financeiras. Agora, vamos conferir uma Demonstração dos Fluxos de Caixa real, publicada pela empresa Marcopolo S.A.: Conforme DFC da Marcopolo, verificamos que utilizaram o Método Indireto, iniciando pelo Lucro Líquido do Exercício, seguido das transações relacionadas às atividades operacionais, de investimentos e de financiamentos. Se olhares na linha Redução Líquida de Caixa e Equivalentes de Caixa, verás que o valor é de (17.811), que fecha com a diferença entre o Caixa e equivalentes de caixa no início e no fim do exercício, apresentado logo abaixo da Redução Líquida. A seguir, confira a conta Caixa e equivalentes de caixa no Balanço Patrimonial: ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 158 BALANÇO PATRIMONIAL 2020, DA MARCOPOLO S.A. FONTE: Marcopolo (2020, s.p.) Ou seja, realmente a Redução Líquida apresentada na DFC fecha com a variação ocorrida no caixa e equivalentes de caixa no período analisado. Não é escopo deste livro didático detalhar aspectos contábeis avançados, mas em caso de dúvidas sobre os itens inclusos na DFC, é interessante reler os assuntos contábeis tratados emdisciplinas anteriores, ou até mesmo entrar no site RI das empresas para ler todas as demonstrações, relatórios da administração e da auditoria, assim como as Notas explicativas, sobre a escrituração contábil na rotina de um contador pois: • Trata-se do processo por meio do qual se registram todos os fatos ocorridos em uma organização. • O reconhecimento dos lançamentos contábeis está ligado ao processo de escrituração. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 159 A DFC mostra as entradas (recebimentos) e as saídas (pagamentos) ocorridas no caixa e equivalentes de caixa da entidade em determinado período. O caixa compreende o numerário em espécie e os depósitos bancários de livre movimentação interna do documento (Banco Conta Movimento). Já os equivalentes de caixa consistem em aplicações financeiras de curto prazo (no máximo, três meses de resgate) e alta liquidez, prontamente conversíveis em caixa, sujeitas a um insignificante risco de mudança e valor. A DFC permite que os usuários das demonstrações contábeis avaliem a capacidade de geração de caixa e equivalente de caixa, o tempo e o grau de segurança de geração dos recursos financeiros e a necessidade de liquidez da companhia. O art. 176 da Lei nº. 6.404, de 15 de dezembro de 1976, tornava voluntária a elaboração e a publicação da DFC para as sociedades anônimas de capital fechado com patrimônio líquido inferior a R$ 2 milhões (BRASIL, 1976). Porém, por meio da Lei nº. 11.638, de 28 de dezembro de 2007, a DFC foi regulamentada para as companhias brasileiras, determinando-se a obrigatoriedade de elaboração e publicação dessa demonstração às sociedades por ações, sejam elas abertas ou fechadas (BRASIL, 2007). No Brasil, o Comitê de Pronunciamentos Contábeis, por meio do pronunciamento CPC 03 (R2) — Demonstração dos fluxos de caixa, estipula e trata das diretrizes sobre a elaboração e a divulgação da DFC. A DFC considera o regime de caixa, ou seja, apropria as receitas e despesas no momento do recebimento e do pagamento, respectivamente. Com isso, a contabilidade apura o lucro ou prejuízo financeiro da companhia. Por sua vez, a demonstração do resultado do exercício (DRE) utiliza o regime de competência, ou seja, apropria as receitas e despesas independentemente do recebimento ou pagamento em dinheiro, apurando lucro ou prejuízo contábil, e assim o plano de conta focaliza seu uso durante as atividades da empresa, contas podem ser excluídas ou adicionadas ao plano. Para demonstrar as movimentações ocorridas no caixa e equivalente de caixa, a contabilidade segrega essas movimentações em grupos de atividade, em função da natureza da transação que as originou. Dessa forma, tem-se: • fluxo de caixa das atividades operacionais; • fluxo de caixa das atividades de investimento; • fluxo de caixa das atividades de financiamento. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 160 A evidenciação das movimentações segregadas nesses três tipos de atividades proporciona aos usuários avaliar o impacto das atividades sob o ponto de vista financeiro e patrimonial da organização, conforme apontam Borinelli e Pimentel (2017). Por esse motivo, é essencial a adequada classificação das transações ocorridas no caixa e equivalente de caixa, para dar clareza e transparência à DFC, pelas perdas estimadas em crédito: • O valor estimado de perdas em contas a receber indica a incerteza dessas operações se concretizarem. • Por conta da adequação a normas internacionais, passou-se a utilizar uma conta redutora com base na expectativa de perda. A soma do caixa gerado ou consumido em cada uma das atividades resulta na variação total de caixa e equivalente de caixa do período, que deve refletir o balanço patrimonial, isto é, a comparação entre o saldo inicial e final dos valores de caixa e equivalente de caixa. Representa pagamentos e recebimentos derivados da geração de lucro das operações da entidade. Em virtude disso, o fluxo de caixa das atividades operacionais está relacionado diretamente às transações que ocorreram na DRE e no balanço patrimonial (ativo circulante e passivo circulante). Os aumentos do fluxo de caixa das atividades operacionais são provenientes das receitas e das movimentações ocorridas no ativo circulante. As diminuições de caixa estão associadas às despesas e às movimentações no passivo circulante. De acordo com o CPC 03 (COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS, 2010), o valor referente ao fluxo de caixa de atividades operacionais é um indicador importante para as companhias identificarem se possuem fluxo de caixa suficiente para amortizar empréstimos, manter sua capacidade operacional, pagar dividendos e juros sobre capital próprio e realizar novos investimentos sem a necessidade de obter financiamento com fontes externas. O Relatório da Administração apresenta uma visão única da entidade e suas operações, pois é nele que os administradores conversam com os usuários das informações contábeis, tentando repassar de forma clara e objetiva informações e conhecimentos que só eles possuem, por gerirem a empresa e conhecerem profundamente suas especificidades, operações e processos, como no caso da depreciação: • A conta depreciação se justifica pela necessidade de se constituir um fundo para ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 161 • A depreciação é o valor monetário do desgaste, ainda que a máquina seja capaz de produzir em quantidades constantes. Por exemplo, é no Relatório da Administração que os gestores descrevem como aspectos da conjuntura econômica influenciaram a entidade no período; como a gestão lidou com sua atividade operacional (por exemplo, decisões de produção e logística); detalham informações sobre a companhia, seus valores e políticas internas; apresentam questões sociais e ambientais, e como lidam com sua força de trabalho interna; especificam de que forma é estruturada a Governança Corporativa; apontam questões que consideram importantes sobre o desempenho econômico-financeiro; dentre outros inúmeros temas que consideram fundamentais para o analista das Demonstrações Financeiras. Já na administração pública, a contabilidade e a administração pública estão intimamente ligadas, pois os contadores podem oferecer aos gestores públicos as informações fundamentais ao desenvolvimento do planejamento e execução orçamentária, que tem como base os Planos Plurianuais (PPA), a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA), nas quais o contador tem participação direta na produção de informações. Muitas vezes é essa visão interna e detalhada que fornece informações que suportam o entendimento das Demonstrações e Notas Explicativas em si. Entender por que os gestores optaram por certas decisões, ou definiram certas práticas em detrimentos de outras (visto que há várias práticas legais que podem ser optativas aos tomadores de decisão), é fundamental para criar uma base de critérios de análise para os usuários da contabilidade, e BRGAAP e os princípios contábeis, os eventos como a instituição do BRGAAP (Princípios contábeis geralmente aceitos no Brasil) em 2010, o nascimento do CPC em 2005, a promulgação da Lei n° 11.638/2007 e a institucionalização do exame de suficiência causaram grandes avanços, que sujeitam a contabilidade brasileira a perseguir a qualidade das práticas e técnicas utilizadas nos países e mercados mais desenvolvidos. Vamos ver dois extratos pequenos do Relatório da Administração da Renner S.A. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 162 RELATÓRIO DA ADMINISTRAÇÃO 2020 – OPERAÇÃO NO EXTERIOR, DA RENNER S.A. FONTE: Renner (2020, s. p.). É uma experiência ótima ler um pouco sobre como pensam os administradores e gestores de grandesempresas, sua interpretação dos resultados alcançados, quais seus objetivos e como pretendem alcançá-los. Assim como sua visão dos fatos econômicos nacionais e internacionais, como afetam a empresa e as perspectivas dos administradores quanto ao futuro. Muitas vezes, nos focamos somente na teoria e prática específica de nossos cursos, esquecendo de olhar para o mundo ao nosso redor, que impacta diretamente nas nossas empresas. Essa visão geral é o faz a diferença no sucesso de um empreendimento e, porque não dizer, no sucesso profissional de cada um de nós. Um dos principais procedimentos que o analista das informações contábeis deve providenciar é o de executar uma nova classificação das contas contábeis no balanço patrimonial. São realizados alguns ajustes (readequações) os quais não comprometem a veracidade na legalidade das demonstrações contábeis, para facilitar a interpretação da análise dessas informações. Com o agrupamento das contas contábeis nos demonstrativos, é possível identificar melhorias na análise dos índices conforme a condição econômico-financeira da empresa avaliada. Um exemplo típico é se os gestores decidirem em determinado período do exercício social vender algum imóvel. O imóvel está classificado no grupo do Ativo Não Circulante, porém, ao classificar esse valor do imóvel para o Ativo Circulante, o analista terá melhores evidências para projetar a geração do caixa da empresa no exercício social corrente. O contador deve ser imparcial para realizar os ajustes necessários. Por exemplo, ao agrupar as contas das receitas e despesas financeiras nas contas do resultado operacional, o contador deve elaborar outro demonstrativo contábil para o analista, isso porque estas contas são legalmente consideradas com valores a serem registrados ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 163 nas respectivas contas contábeis das atividades operacionais da empresa. Esses valores constantes das receitas e despesas financeiras devem ser classificados como resultado não operacional. Por quê? Porque as empresas devem gerar resultados a partir das suas atividades operacionais e não pela captação de recursos financeiros de terceiros. A reclassificação das contas contábeis (receitas e despesas financeiras) para o resultado não operacional permite ao gestor apurar a verdadeira taxa de rentabilidade da empresa. Vamos para o exemplo de uma empresa cujas atividades em decorrência do seu Contrato Social ou Estatuto Social não se encontram envolvidas com atividades financeiras, como é o caso de empresas do ramo comercial. As atividades operacionais de uma empresa do ramo comercial são comprar e vender mercadorias e não exercer atividades de intermediação financeira, nesse caso as receitas e despesas financeiras deverão ser registradas como resultado não operacional. Com relação à finalidade da análise das demonstrações contábeis para a empresa, Padoveze (2010, p. 198) afirma que “a avaliação sobre a empresa tem por finalidade detectar os pontos fortes e os pontos fracos do processo operacional e financeiro da companhia, objetivando propor alternativas de curso futuro a serem tomadas e seguidas pelos gestores da empresa”. A atividade da reclassificação das contas para análise é de extrema importância para identificar os pontos fortes e fracos na interpretação das informações contábeis. Vejamos um outro exemplo de reclassificação das contas contábeis: A conta de Duplicatas Descontadas, que está classificada subtraindo o grupo das contas de Duplicatas a Receber no Ativo Circulante, deverá ser reclassificada no Passivo Circulante, pois, pelas características e peculiaridades da operação pode existir o risco de a empresa desembolsar o dinheiro obtido junto com a instituição financeira, caso o seu cliente não liquidar a dívida (quitar a duplicata que foi descontada). Com essa reclassificação, fica evidente que existirá o compromisso da empresa junto ao banco que efetuou a operação de desconto e não o cliente da empresa que irá quitar o título. Isso demonstra a característica dessa operação onde a empresa passa a ser fiadora do cliente. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 164 ANOTE ISSO Outro bom motivo para realizar as reclassificações das contas contábeis está em padronizar os critérios no tratamento das informações para todas as empresas, facilitando assim o trabalho do analista. Isso quer dizer que, se uma empresa A opera com Duplicatas Descontadas e a empresa B opera com regime de Empréstimos Bancários, ambas terão classificadas no grupo do Passivo Circulante um compromisso financeiro com terceiros, pois as duplicatas descontadas representam uma coobrigação dessa dívida junto com a instituição financeira. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 165 CAPÍTULO 11 DEMONSTRAÇÃO DO RESULTADO ABRANGENTE Olá, estudante, já aprendemos que a Demonstração do Resultado demonstra o confronto entre as receitas realizadas e as despesas incorridas no período. Então, o que é abrangido na Demonstração dos Resultados Abrangentes – DRA? As mutações que ocorreram no Patrimônio Líquido e que não passaram pelo Resultado, desde que não decorram de transações com os proprietários. Para Martins, Miranda e Diniz (2020, p. 39): A adoção dos padrões internacionais de contabilidade no Brasil trouxe a obrigatoriedade da divulgação da Demonstração do Resultado Abrangente. Sem dúvida nenhuma, foi um avanço o reconhecimento de variações patrimoniais que ainda não transitaram pelo resultado. No entanto, do ponto de vista da tomada de decisões, ainda é preciso amadurecer o uso da referida demonstração. Não está consolidado na literatura, por exemplo, o efeito dos resultados abrangentes nos índices de rentabilidade, embora esteja claro que os valores nela reconhecidos são uma prévia de resultados futuros, onde é importante destacar que existe diferença entre os patrimônios de pessoas físicas e jurídicas, pois: • Por Pessoa Física entende-se qualquer cidadão em pleno exercício de sua cidadania, integrado a determinada sociedade. • No caso da Pessoa Física, a certidão de nascimento marca o início da vida legal dela. • Pessoas Jurídicas podem ser classificadas em: de direito público e de direito privado A DRA inicia pelo Resultado Líquido do Exercício, retirado do final da DRE, podendo ser lucro ou prejuízo. O CPC 26 (R1) (2011) estipula que os resultados abrangentes incluem, entre outros, variações na reserva de reavaliação quando permitidas legalmente, ganhos e perdas atuariais em planos de pensão e ganhos e perdas derivados de conversão ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 166 de demonstrações contábeis de operações no exterior. Vamos ver o exemplo de DRA da empresa Gerdau S.A., listada na bolsa: DEMONSTRAÇÃO DO RESULTADO ABRANGENTE 2020, DA GERDAU S.A. FONTE: Gerdau S.A. (2022, s.p.). Apesar de, neste livro, não nos aprofundarmos nos temas contábeis avançados como os descritos na DRA, é importante verificar como a demonstração pode ser utilizada para conhecer as especificidades da empresa, trazendo informações que podem ser relevantes para a decisão do analista das demonstrações financeiras. Ressalta-se que existem casos em que a empresa não possui eventos a relacionar em resultados abrangentes ou os eventos são em pequena quantidade, então, se durante seu estudo você consultar DRAs de empresas listadas na bolsa e a DRA não apresentar itens, não há problemas, e assim pela lei 6.404/76: • Essa lei procura definir, com o máximo de clareza, os preceitos e obrigações para as empresas constituídas no Brasil. • Determina as demonstrações contábeis que devem ser elaboradas e apresentadas não somente pelas sociedades anônimas, mas também pelas demaisentidades. onsiderando as variáveis que influenciam a tomada de decisão, as demons- trações contábeis agem como uma importante ferramenta capaz de oferecer informações estratégicas aos usuários. Nesse sentido, o Pronunciamento Téc- nico CPC 26 (R1) considera que as demonstrações contábeis devem fornecer informações para atender as necessidades dos usuários externos que não se encontram em condições de requerer relatórios específicos para atender às suas necessidades particulares, ou seja, as demonstrações contábeis devem apresentar com fidedignidade a situação patrimonial, financeira e de desem ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 167 2 Demonstração do resultado abrangente Desempenho de uma entidade, auxiliando na tomada de decisões (FERREIRA; LEMES; LEMES, 2015). A Lei nº. 6.404/76 (e suas alterações) define em seu artigo 176 que o conjunto de demonstrações contábeis que a companhia deve apresentar são o balanço patrimonial, demonstração dos lucros ou prejuízos acumulados, demonstração do resultado do exercício, demonstração dos fluxos de caixa e, caso seja companhia aberta, a demonstração do valor adicionado. Porém, o CPC 26 (R1) — Apresentação das Demonstrações Contábeis, define em seu item 10 que o conjunto de demonstrações contábeis que a companhia deve apresentar são o balanço patrimonial, demonstração do resultado do exercício, demonstração do resultado abrangente (DRA), demonstração das mutações do patrimônio líquido, notas explicativas. Esse CPC apresenta uma nova demons- tração: a DRA. Ou seja, embora a DRA não esteja prevista na Lei nº. 6.404/76, tem sua obrigatoriedade vinculada à Resolução CFC nº. 1.185/2009 e ao CPC nº. 26 (R1), item 81A ao 105. Resolução CVM 106, de 23 de maio de 2022, tornou obrigatória a DRA para as companhias abertas, como se segue: I — aprovar e tornar obrigatório, para as companhias abertas, o Pronuncia- mento Técnico CPC 26(R1) Apresentação das Demonstrações Contábeis, emitido pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis — CPC (COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS, 2011). Já o CPC PME define o conjunto completo de demonstrações contábeis a serem publicadas sendo: O conjunto completo de demonstrações contábeis da entidade deve incluir todas as seguintes demonstrações: (a) balanço patrimonial ao final do período; (b) demonstração do resultado do período de divulgação; (c) demonstração do resultado abrangente do período de divulgação. A demons- tração do resultado abrangente pode ser apresentada em quadro demonstrativo próprio ou dentro das mutações do patrimônio líquido. A demonstração do resultado abrangente, quando apresentada separadamente, começa com o resul- tado do período e se completa com os itens dos outros resultados abrangentes; (d) demonstração das mutações do patrimônio líquido para o período de divulgação; (e) demonstração dos fluxos de caixa para o período de divulgação; ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 168 (f) notas explicativas, compreendendo o resumo das políticas contábeis significativas e outras informações explanatórias. Se as únicas alterações no patrimônio líquido durante os períodos para os quais as demonstrações contábeis são apresentadas derivarem do resultado, de distribuição de lucro, de correção de erros de períodos anteriores e de mudanças de políticas contábeis, a entidade pode apresentar uma única demonstração dos lucros ou prejuízos acumulados no lugar da demonstração do resultado abrangente e da demonstração das mutações do patrimônio líquido. 3.19 Se a entidade não possui nenhum item de outro resultado abrangente em nenhum dos períodos para os quais as demonstrações contábeis são apresentadas, ela pode apresentar apenas a demonstração do resultado (COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS, [2011]). Pois o patrimônio, do ponto de vista contábil, é representado pelo conjunto de bens, direitos e obrigações de qualquer uma dessas entidades as quais são reconhecidas pela contabilidade em todas as suas nuances. Além disso, é preciso entender como esse patrimônio se forma, ou seja, quais são as movimentações que levam a alterações na situação patrimonial em uma entidade tendo alterada sua situação de um período a período. O CPC PME complementa, em seus itens 2.43, 2.44 e 2.45, que resultado abrangente é: 2.43 O resultado abrangente total é a diferença aritmética entre todas as receitas e todas as despesas. Ele não é um elemento separado das demons- trações contábeis, e não é necessário um princípio específico para o seu reconhecimento. O resultado abrangente total é a soma do Resultado com os Outros Resultados Abrangentes. 2.44 O Resultado é a diferença aritmética entre receitas e despesas outras que não as receitas e as despesas que este Pronunciamento classifica como itens de Outros Resultados Abrangentes. Ele não é um elemento separado das demonstrações contábeis, e não é necessário um princípio específico de reconhecimento para ela. 2.45 Este Pronunciamento não permite o reconhecimento de itens no balanço patrimonial que não atendam às definições de ativos ou passivos, independen- temente de resultarem da aplicação da noção comumente chamada “confronto entre receitas e ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 169 despesas” para a mensuração do lucro ou do prejuízo (COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS, [2011?]). E pelo papel do balancete: • Permite que se avalie o volume de operações que afetaram uma ou outra conta em determinado período de tempo. • Trata-se de uma demonstração prévia que tem por finalidade apresentar todas as operações realizadas pela empresa. • O balancete é utilizado para fins de validação do que foi previamente registrado pelas empresas. O CPC 26 (R1) estabelece em seus tópicos 81A a 105 que, além da DRE, as empresas deverão elaborar a DRA. A DRA é elaborada a partir do Resultado Líquido da DRE com os outros resultados abrangentes, que correspondem ao total da modificação no patrimônio líquido, que não tenha origem de movimentações no capital social, distribuição de lucros e compra de ações. Enquanto a DRE se associa aos fatores internos e prováveis e são reflexos da ação dos gestores, e a contabilidade como mensuração, tem como efeito a contabilidade é a ciência responsável pela mensuração, controle e estudo das mutações que ocorrem no patrimônio das entidades. Estas podem ser com ou sem fins lucrativos, ou ainda relacionadas a uma ou mais pessoas físicas ou jurídicas. A DRA se associa aos fatores externos e possíveis, não sendo reflexo da ação dos gestores e sim do mercado (SANTOS; VEIGA, 2014). De acordo com a Resolução CFC nº. 1.185/2009, item 7, a DRA irá apresentar o resultado abrangente, que é a mutação que ocorre no patrimônio líquido durante um período que resulta de transações e outros eventos que não derivados de transações com os sócios, registrando os ganhos e as perdas economicamente incorridos, mas de possível reversão futura, ou seja, resultado abrangente é aquele que abrange as variações futuras de receitas e despesas 4 Demonstração do resultado abrangente que já estão registradas no ativo ou no passivo, mas ainda não afetaram o resultado (MARCELINO, 2015). E sobre as notas explicativas: • A publicação das Notas Explicativas é obrigatória às empresas de capital aberto. • A publicação das Notas Explicativas facilita o entendimento dos leitores (acionistas, investidores e sociedade em geral), contribuindo para o esclarecimento da situação patrimonial e dos resultados do exercício. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 170 O resultado abrangente se refere às mudanças ocorridas no patrimônio líquido de uma empresa em um determinado período, oriundas das movimentações que não são relacionadas aosproprietários, como investimentos realizados por eles e distribuição de resultados (COELHO; CARVALHO, 2007). Conforme Rios e Marion (2017), são exemplos de resultados abrangentes: a) mudanças por reavaliações de ativos; b) ganhos ou perdas atuariais; c) ganhos ou perdas em decorrência de conversão das demonstrações contábeis em moeda estrangeira; d) ganhos ou perdas na avaliação de ativos financeiros disponíveis para venda. A DRA deve, no mínimo, incluir as seguintes rubricas: a) resultado líquido do período; b) cada item dos outros resultados abrangentes classificados conforme sua natureza; c) parcela dos outros resultados abrangentes de empresas investidas reco- nhecida por meio do método de equivalência patrimonial; d) resultado abrangente do período (SILVA, 2017). Esses resultados abrangentes compreendem itens de receita e despesa (incluindo ajustes de reclassificação) que não são reconhecidos na demons- tração do resultado como requeridos ou permitidos pelos pronunciamentos, interpretações e orientações emitidos pelo CPC. O CPC 26 (R1) apresenta de forma detalhada alguns exemplos de ajustes, ganhos e perdas que devem ser considerados quando da elaboração da DRA, enquanto as International Financial Reporting Standards (IFRS) estabelecem que o resultado abrangente deve ser demonstrado logo após a DRE, no Brasil a DRA deve ser elaborada como uma demonstração à parte, podendo ainda ser apresentada dentro da demonstração das mutações do patrimônio líquido (SILVA, 2017). Qual a diferença entre DRE e DRA? A DRE traz valores realizados pelo regime de competência, que passaram pelo resultado; engloba todos os itens de receitas e despesas reconhecidos no período; enquanto a DRA traz alterações em itens do patrimônio líquido, que está incluso no balanço patrimonial, que ainda não passaram pelo resultado, mas que poderão passar em períodos futuros, pois os relatórios externos servem para atender a públicos interessados e/ou a exigências dos órgãos de fiscalização, são exemplos: o relatório de demonstração dos resultados do exercício ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 171 e o relatório de balanço patrimonial. Os relatórios internos servem para atividades de tomada de decisão e, portanto, contêm informações sigilosas, são exemplos: o relatório de estrutura atual de custos e o relatório de projeção de lucro dos próximos períodos. A demonstração de resultados abrangentes é uma importante ferramenta de análise gerencial, pois atualiza o capital próprio dos sócios, por meio do registro no patrimônio líquido (e não no resultado) das receitas e despesas incorridas, porém de realização financeira “incerta”, uma vez que decorrem de investimentos de longo prazo, sem data prevista de resgate ou outra forma de alienação (GELBKE et al., 2018). O CPC 26 (R1) complementa que todas as mutações patrimoniais, que não as transações de capital com os sócios, integram a DRA, classificando as mutações do patrimônio líquido que são formadas por dois conjuntos de valores: transações de capital com os sócios (na sua qualidade de proprietários) e resultado abrangente total. E o resultado abrangente total é formado, por sua vez, de três componentes: o resultado líquido do período, os outros resultados abrangentes e o efeito de reclassificações dos outros resultados abrangentes para o resultado do período. O CPC 26 (R1) complementa que tanto o resultado líquido do período quanto os outros resultados abrangentes sejam evidenciados com relação a quanto pertence aos sócios da entidade controladora e quanto aos sócios não controladores nas controladas. No exemplo a seguir, esses valores ficam automaticamente divulgados, lembrando que é vedada a apresentação da demonstração do resultado abrangente apenas na demonstração das mutações do patrimônio líquido. A entidade pode optar por apresentar os ajustes de reclassificação em notas explicativas, porém, deve apresentar os itens de outros resultados abrangentes após os respectivos ajustes de reclassificação (GELBCKE et al., 2018). Tais ajustes devem ser incluídos no respectivo componente dos outros resultados abrangentes no período que ocorrer a reclassificação. Porém, não são considerados como reclassificações as mutações ocorridas nas reservas de reavaliação e ganhos e perdas nos planos de benefícios para empregados, pois ambos são registrados como outros resultados abrangentes e, posteriormente, serão reclassificados para a conta de lucros ou prejuízos acumulados, não afetando o resultado do exercício. Tais ajustes são necessários para evitar dupla contagem quando a entidade registrar o ganho ou a perda no resultado do exercício no momento da baixa dos respectivos ativos e, portanto, a DRA compreende todos os componentes da DRE, pois em sua ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 172 elaboração é incluído o resultado do exercício e outros resultados abrangentes (SANTOS et al., 2015). Conforme o item 93 do CPC 26 (R1), os ajustes que ocorrem nas reserva de reavaliação (quando permitida pela legislação vigente) ou de ganhos e perdas atuariais de planos de benefício devem ser reconhecidos como outros resultados abrangentes e não devem ser reclassificados para o resultado líquido em períodos subsequentes. As mutações na reserva de reavaliação podem ser transferidas para reserva de lucros retidos (ou prejuízos acumulados), na medida em que o ativo é utilizado. Por exemplo, o ganho realizado na alienação de ativo financeiro disponível para venda é reconhecido no resultado quando de sua baixa, pois as empresas de direito público surgem por meio de leis e apresentam finalidade comum como disponibilizar serviços, onde a Pessoa Jurídica de direito privado surge da livre iniciativa de atender às demandas das pessoas.. Esse ganho pode ter sido reconhecido como ganho não realizado nos outros resultados abrangentes do período corrente ou de períodos anteriores. ANOTE ISSO Dessa forma, os ganhos não realizados devem ser deduzidos dos outros resultados abrangentes no período em que os ganhos realizados são reconhecidos no resultado líquido do período, evitando que esse mesmo ganho seja reconhecido em duplicidade (VALOR ONLINE, 2016). ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 173 CAPÍTULO 12 NOTAS EXPLICATIVAS Olá estudante, as Demonstrações Financeiras apresentam saldos contábeis de forma estruturada, mas só olhando os valores constantes nos saldos é difícil ter informações suficientes para uma tomada de decisão. É aí que entram as Notas Explicativas, que apresentam a descrição sobre qual a base utilizada para a elaboração das demonstrações financeiras, descrevem as práticas e estimativas contábeis escolhidas pela empresa, trazem informações adicionais sobre a composição daquele saldo etc, pois o Balanço Patrimonial é a principal ferramenta de controle de uma entidade, pois nele estão contidas todas as movimentações realizadas na mesma, numa determinada posição estática, possibilitando assim uma análise clara que auxilie positivamente a tomada de decisão por parte dos usuários. Com a adoção das normas internacionais pelo Brasil, o número de notas explicativas aumentou substancialmente. Isso ocorre porque a contabilidade brasileira passou ser baseada em princípios, em que a essência se sobrepõe à forma, e porque deixou de ficar atrelada às regras fiscais. Com isso, a responsabilidade do contador foi substancialmente ampliada, suas atitudes e julgamentos podem ser questionados e, portanto, devem ser claros para os usuários das informações contábeis. O espaço mais adequado para explicação das diversas circunstâncias relevantes que afetam cada conta das demonstrações contábeis é exatamente as notas explicativas (MARTINS; MIRANDA; DINIZ, 2020, p. 65). E pelo plano de contas: • Cadaentidade adequa o plano de contas de acordo com as suas necessidades. • É necessário que as informações sejam padronizadas e agrupadas de forma a atender o maior número possível de usuários dentro de suas especificidades e objetivos. • Alimentar o plano de contas adequadamente oferece maior segurança às análises posteriores. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 174 Vamos juntos verificar algumas notas explicativas constante no Balanço Anual das Lojas Renner S.A., a fim de compreender algumas informações que podem ser detalhadas, facilitando as decisões do analista das demonstrações. Suas Notas Explicativas iniciam com a base de elaboração e apresentação das Demonstrações Financeiras, como Declaração de Conformidade às Normas Internacionais de Contabilidade, descrição de como foram as bases de mensuração, políticas contábeis, dentre outras informações. TABELA 11 – NOTA EXPLICATIVA SOBRE JULGAMENTOS, ESTIMATIVAS E PREMISSAS CONTÁBEIS CRÍTICAS FONTE: Renner (2020, s.p.) Outros tópicos importantes, como o Gerenciamento de Riscos, especificam com detalhes os vários tipos de riscos aos quais a empresa está sujeita, trazendo tanto dados internos quanto dados externos para corroborar a gestão de riscos realizada. Durante a análise das demonstrações, é interessante que o analista verifique a forma como as empresas se preocupam com os riscos inerentes ao negócio, pois consegue-se com isso identificar possíveis situações com as quais o analista não esteja confortável na hora de tomar a decisão de, por exemplo, investir nessas entidades. Considera-se como Ativo Circulante quando satisfizer qualquer dos seguintes critérios: seja realizado no decurso normal do ciclo operacional da entidade; está mantido com o propósito de ser negociado; ou é caixa ou equivalente de caixa, pois trata do grau de liquidez que determina em que grupo seja inserida a informação, estando assim determinado que os bens e direitos passíveis de serem convertidos em dinheiro em curto espaço de tempo estejam elencados no ativo circulante. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 175 FIGURA 1- NOTA EXPLICATIVA SOBRE GERENCIAMENTO DE RISCOS FONTE: Renner (2020, s.p.) Às vezes, a função da Nota Explicativa é simplesmente destrinchar os valores que compõem o saldo presente nas Demonstrações, de forma que o analista consiga visualizar do que realmente é composto aquele valor. Para exemplificar, vamos ver as Obrigações Fiscais constantes no Passivo do Balanço Patrimonial da Renner S.A., marcado na tabela a seguir: TABELA 2 – Passivo Circulante da empresa Renner S.A. FONTE: Renner (2020, s. p.) Podemos ver na coluna NOTA, que a Nota Explicativa que trata do assunto é a 21, que simplesmente faz a decomposição do saldo total, especificando todas as obrigações fiscais da entidade, conforme tabela a seguir. TABELA 3 – NOTA EXPLICATIVA SOBRE OBRIGAÇÕES FISCAIS DA EMPRESA RENNER S.A. FONTE: Renner (2020, s.p.) ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 176 Pois os circulantes atuam: • É elencado como Passivo Circulante quando espera-se que seja liquidado durante o ciclo operacional normal da entidade. • É compreendido como Passivo Circulante também a obrigação que deverá ser liquidada no período de até doze meses após a data do balanço. • Todas as demais contas de passivo adicionais são importantes ao entendimento da situação da entidade quanto as suas obrigações. Ou seja, para 2020, o saldo no BP da controladora é R$366.320, que é na verdade composto de: IR e CS – R$91.895; ICMS a Recolher – R$198.906; PIS e COFINS – R$57.772; outros tributos – R$17.747. Só olhando o saldo, não teríamos como saber que mais de 50% das Obrigações Fiscais é referente ao ICMS recolher. Outras vezes, as Notas Explicativas descrevem exatamente o cálculo feito para que se chegue ao valor definido. Vamos tomar, como exemplo, o cálculo para distribuição de juros sobre Capital Próprio e Dividendos. Em diversos momentos do Balanço Anual, foi explicada a razão dos Dividendos serem de 25%, por exemplo, na nota a seguir: TABELA 4 – NOTAS EXPLICATIVAS SOBRE DISTRIBUIÇÃO DE DIVIDENDOS DA EMPRESA RENNER S.A. FONTE: Renner (2020, s. p.) Quando chegamos à Nota Explicativa 28, encontramos a Base de Cálculo ajustada. O Lucro Líquido do Exercício ajustado de 2020 é de R$976.183, que se multiplicarmos pelos 25% estipulados para distribuição no ano, chega exatamente a R$244.046, valor constante na linha de Total distribuído aos acionistas, líquido do imposto de renda. Todo o relatório anual está interligado, é só estudá-lo com atenção, mas ainda há outros ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 177 relatórios importantes que podem estar contidos no relatório anual, como os Relatórios da Auditoria, da Administração e do Conselho Fiscal, pois, os relatórios de vendas, que possibilitam aos gestores acompanhar o desempenho dos seus vendedores, perceber algum padrão de comportamento dos clientes (como, por exemplo, o horário que preferem comprar e por quais meios, como telefone, e-commerce ou pessoalmente). Normalmente, constam nesse relatório o número de vendas, valor das vendas, ticket médio dos produtos mais vendidos e buscados, e dias e horas com maior percentual de vendas. 6 RELATÓRIO DA AUDITORIA, DA ADMINISTRAÇÃO, DO CONSELHO FISCAL, ENTRE OUTROS Tais relatórios trazem perspectivas de profissionais específicos, que podem fazer toda a diferença na análise das Demonstrações Financeiras. 6.1 RELATÓRIO DA AUDITORIA O Relatório da Auditoria, que é obrigatório às sociedades anônimas de capital aberto, sociedades fechadas de grande porte e alguns outros tipos de entidade (como as instituições financeiras, por exemplo), é realizado pela Auditoria Independente, ou seja, alheia à empresa, não submisso à gestão da empresa, pois, o balanço patrimonial e a demonstração do resultado do exercício são relatórios financeiros que refletem informações mais gerais da empresa, por isso são mais utilizados pelos usuários com o objetivo de extrair as informações necessárias. Ao identificar o balanço patrimonial da empresa, o analista deverá focar em três principais informações, que são os ativos, ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 178 as dívidas e os investimentos dos sócios na empresa. Ao identificar esses valores, o analista deverá, também, sinalizar os que estão mencionados como circulante e não circulante, com o objetivo de detectar a liquidez de cada conta. O principal objetivo da auditoria é a emissão de um parecer acerca das demonstrações contábeis face aos princípios contábeis geralmente aceitos, normas brasileiras de contabilidade, demais legislações aplicáveis e práticas adotadas no Brasil. Ou seja, o auditor irá analisar e verificar se as demonstrações contábeis estão de acordo com as práticas contábeis adotadas no Brasil (PEREZ JUNIOR; BEGALLI, 2020, p. 276). O parecer dos auditores pode ser, de acordo com Almeida (2019): a) Parecer sem ressalvas – o auditor concorda que as informações auditadas seguem as normas vigentes; b) Parecer com ressalvas - o auditor encontrou alguns procedimentos que divergem do seu entendimento sobre a questão de forma relevante, mas não generalizada; c) Parecer adverso – o auditor encontrou divergências que conclui serem relevantes e generalizadas; e d) Parecer com abstenção de opinião – o auditor não consegue obter evidências suficiente para emitir uma opinião. No relatório anual da Renner S.A., temos um Relatório do Auditor Independente com parecer sem ressalvas, ou seja, depois do processo de auditoria, os auditores independentes chegaram à conclusão de que, em todos os aspectos relevantes, foramseguidas as práticas contábeis brasileiras e as normas internacionais (IFRS), conforme a imagem. O parecer continua além do que consta na imagem, explicando os procedimentos realizados para os principais assuntos de auditoria, mas o recorte é suficiente para compreender como verificar o tipo de parecer do auditor independente. 6.2 RELATÓRIO DA ADMINISTRAÇÃO O Relatório da Administração apresenta uma visão única da entidade e suas operações, pois é nele que os administradores conversam com os usuários das informações contábeis, tentando repassar de forma clara e objetiva informações e conhecimentos que só eles possuem, por gerirem a empresa e conhecerem profundamente suas especificidades, operações e processos. Por exemplo, é no Relatório da Administração que os gestores descrevem como aspectos da conjuntura econômica influenciaram a entidade no período; como a gestão lidou com sua atividade operacional (por exemplo, decisões de produção e ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 179 logística); detalham informações sobre a companhia, seus valores e políticas internas; apresentam questões sociais e ambientais, e como lidam com sua força de trabalho interna; especificam de que forma é estruturada a Governança Corporativa; apontam questões que consideram importantes sobre o desempenho econômico-financeiro; dentre outros inúmeros temas que consideram fundamentais para o analista das Demonstrações Financeiras. Muitas vezes é essa visão interna e detalhada que fornece informações que suportam o entendimento das Demonstrações e Notas Explicativas em si. Entender por que os gestores optaram por certas decisões, ou definiram certas práticas em detrimentos de outras (visto que há várias práticas legais que podem ser optativas aos tomadores de decisão), é fundamental para criar uma base de critérios de análise para os usuários da contabilidade. É uma experiência ótima ler um pouco sobre como pensam os administradores e gestores de grandes empresas, sua interpretação dos resultados alcançados, quais seus objetivos e como pretendem alcançá-los. Assim como sua visão dos fatos econômicos nacionais e internacionais, como afetam a empresa e as perspectivas dos administradores quanto ao futuro. Muitas vezes, nos focamos somente na teoria e prática específica de nossos cursos, esquecendo de olhar para o mundo ao nosso redor, que impacta diretamente nas nossas empresas. Essa visão geral é o faz a diferença no sucesso de um empreendimento e, porque não dizer, no sucesso profissional de cada um de nós. Para complementar essas informações, a legislação prevê as notas explicativas. Elas se utilizam de textos, gráficos, quadros, entre outros recursos que são utilizados para compreender aspectos relativos a determinados conjuntos de contas das demonstrações contábeis, e devem ser exibidas após a apresentação das demonstrações contábeis publicadas pela empresa, sendo parte integrante do conjunto completo das demonstrações contábeis (RIBEIRO, 2013). As notas explicativas são definidas nos parágrafos 4º e 5º do artigo 176 da Lei nº. 6.404/1976: “§ 4º As demonstrações serão complementadas por notas explicativas e outros quadros analíticos ou demonstrações contábeis necessários para esclarecimento da situação patrimonial e dos resultados do exercício” (BRASIL, 1976, documento on-line). Além do mencionado, as notas explicativas devem tratar também dos seguintes itens: 1. critérios de avaliação de estoques; ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 180 2. cálculos de depreciação; 3. critérios para constituição de perdas e provisões; 4. investimentos em outras sociedades; 5. obrigações de longo prazo, os credores, data de vencimento, juros; 6. número de ações que compões o capital social (GELBCKE et al., 2018). Pode-se observar que a finalidade das notas explicativas é proporcionar aos usuários um melhor entendimento das demonstrações contábeis apresentadas, tendo um caráter de apresentar informações descritivas, informando critérios de avaliação, mudanças de políticas e práticas contábeis, detalhamento de grupos do balanço, como imobilizado, que podem ser objetos de análises mais específicas (PADOVEZE, 2017). Deve-se entender que as notas explicativas são complementares às demonstrações contábeis, ajudando a compreensão mais detalhada das demonstrações contábeis e do funcionamento da empresa, porém são fundamentais para a análise das demonstrações financeiras pelos usuários externos, uma vez que explicitam as práticas contábeis e os critérios que foram utilizados, além de evidenciar informações de itens que não estão reconhecidos nas demonstrações contábeis, mas que poderão impactar na tomada de decisão, sendo assim, uma ferramenta de cunho estratégico. ANOTE ISSO Mesmo as notas explicativas exercendo papel complementar às demonstrações contábeis é obrigatória divulgação, pois em um mercado cada vez mais globalizado e competitivo, as empresas precisam ter uma maior consciência além de cumprir o que está estabelecido nas legislação vigentes, e ao mesmo tempo estabelecer um diferencial e se comunicar diretamente com seus usuários externos, compreender suas necessidades e se elas estão sendo atendidas, assegurando que eles tenham acesso às informações que necessitam. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 181 CAPÍTULO 13 EVENTOS ECONÔMICOS DOS CPC’S Olá, estudante, para entender a figura e compreender a natureza das contas, imagine a constituição de uma empresa: para dar início às atividades operacionais, os sócios investem dinheiro na empresa, o qual é representado pela conta contábil Capital Social. Agora, use a sua imaginação e se coloque no lugar dessa conta, afinal, segundo a teoria personalista, cada conta possui sua própria personalidade. Assim, você, enquanto conta contábil, fornece dinheiro para a empresa, por isso, você, enquanto conta contábil, fica com crédito com a empresa. Assim, como as contas do passivo e patrimônio líquido representam fontes de recursos, elas sempre ficam com créditos na empresa, daí, então, a sua natureza credora, pois as despesas reduzidas, estão para que as receitas estão vinculadas, em grande parte, à atividade principal da organização. Agora, ainda utilizando a sua imaginação, coloque-se no lugar da conta caixa e quando houver redução de despesas, mesmo que se reduzam as despesas, elas não vão desaparecer, pois são essenciais para a manutenção da atividade empresarial. A empresa recebeu dinheiro dos sócios e aplicou esse recurso em você, enquanto conta contábil, assim você fica com um compromisso com a empresa, ou seja, torna- se devedor(a). Quando a empresa precisar do dinheiro, você devolverá o recurso a ela. Assim, como as contas do ativo representam aplicação de recursos, elas sempre ficam devedoras para a empresa, daí, então, a sua natureza devedora. As contas de resultado, por sua vez, impactam no patrimônio líquido. Dessa forma, como as receitas provocam aumento no patrimônio líquido, elas possuem natureza credora; por outro lado, como as despesas diminuem o patrimônio líquido, elas têm natureza devedora. Uma vez compreendida a natureza da conta, basta identificar o que o fato provocou: aumento ou diminuição, para, então, realizar o lançamento contábil, pois os custos de produção atuam em relação direta com a atividade fim, ou seja, quanto mais realiza essa atividade maior fica o custo. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 182 1. CONCEITUALIZAÇÃO DOS DÉBITO E CRÉDITO Você deve ter ouvido dizer que o débito e o crédito da Contabilidade são o contrário do débito e crédito do extrato bancário. Na verdade, não se trata de uma questão de oposição: na Contabilidade, a palavra débito também se refereàquilo que se deve, assim como a palavra crédito se refere àquilo que se tem a haver, a diferença está na interpretação de quem deve e de quem tem a haver. O mecanismo de débito e crédito é aplicado pela Contabilidade segundo a teoria personalista das contas. Segundo ela, cada conta contábil possui personalidade própria, e a interação entre a conta e a empresa, que também possui personalidade própria, dá origem aos débitos e créditos. Figura 1 – Apresentação das Contas. Fonte: Pixabay (2023). É em função dessa teoria que as contas do ativo têm natureza devedora e as contas do passivo e patrimônio líquido têm natureza credora, assim como as contas de receita têm natureza credora e as de despesa têm natureza devedora. Como por exemplo a usualidade do Sped: • Integra instituições da administração tributária e abrange as esferas federal, estadual e municipal. • É o meio pelo qual as empresas informam ao fisco suas movimentações relacionadas a impostos e documentos fiscais. 2. NATUREZA E MOVIMENTAÇÃO DAS CONTAS CONTÁBEIS A informação contábil, seja ela de cunho financeiro ou econômico, é essencial para que os tomadores de decisão, sejam eles partes da organização ou não, elaborarem suas análises e estratégias de forma assertiva, adequada e com base em dados que sejam confiáveis e passíveis de fazer a diferença nesse âmbito. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 183 Desta forma, o conjunto de informações contábeis, somado às informações sobre mercado, economia, índices e outros que os profissionais envolvidos na organização possuem, ajudam em todos os processos decisórios. Entretanto, é preciso refletir sobre quais são as possibilidades de utilização das informações geradas na contabilidade, quais seriam elas e como podem ser usadas por estes tomadores de decisão. Assim o patrimônio líquido: • O patrimônio líquido representa o lucro da empresa, após dedução de todos os passivos, inclusive impostos. • O patrimônio líquido é o resultado da diferença entre o ativo e o passivo de uma organização. Para tomar uma decisão, diversos tipos de informações podem ser úteis. Assim, o processo de tomada de decisão pode envolver elementos como o tempo utilizado pela mão de obra, quais materiais foram usados, o volume de recursos que a empresa possui, o valor do patrimônio, quanto tem a receber e a pagar, além de outras informações essenciais e pertinentes na avaliação de processos, atividades tanto de pessoas quanto de departamentos, pois o patrimônio da empresa é representado pelo conjunto dos bens, direitos e obrigações da empresa, os quais são calculados, segundo a equação patrimonial, e o resultado é chamado de patrimônio líquido. A informação é tão relevante que promove a melhoria dos custos, aumento da eficiência, dos indicadores da empresa e dos resultados da organização como um todo (PADOVEZE, 2017). Sem tais informações, seria impossível que as empresas definissem corretamente seus preços de venda, pudessem tomar decisões estratégicas, entre outras possibilidades que levam diretamente à melhoria de resultado. Pensando, agora, nos usuários externos. Sem as informações geradas pela contabilidade, seria impossível que um investidor pudesse definir se investiria ou não em um determinado negócio. Os financiadores, como bancos e outras instituições também precisam saber se a empresa tem liquidez para pagá-los, caso forneçam capital, além de empregados que estão interessados na manutenção de seus cargos e de seus benefícios. Além disso, os usuários externos também podem ser representados por outras empresas já que elas podem ter, por exemplo, interesses em adquirir uma organização. Logo, com base nos indicadores repassados pela organização, as firmas terão uma base para fazer suas ofertas, negociar valores ou, ainda, repensar suas estratégias no mercado. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 184 3. MECANISMOS DE DÉBITO E CRÉDITO Como já abordado neste material, a base dos registros contábeis é o Método das Partidas Dobradas. Não é à toa que o frei Luca Pacioli, que foi o primeiro a publicar o método, ficou conhecido como o “pai da Contabilidade”. O Método das Partidas Dobradas estabelece que: • Para cada causa, existe um efeito. • Para cada origem, existe uma aplicação. • Para cada débito, existe um crédito. É justamente por essa relação de causa e efeito, origem e aplicação, débito e crédito que o balanço sempre se mantém em equilíbrio. A ideia é que o registro contábil não deve evidenciar somente o recurso financeiro, mas sim contar como tal recurso foi adquirido. É por isso que todo registro contábil envolve, no mínimo, duas contas contábeis. Tudo isso ficará mais claro com os exemplos apresentados mais adiante. E os relatórios contábil-financeiros representam um fenômeno econômico em palavras e números. Para ser útil, a informação contábil- financeira não tem só que representar um fenômeno relevante, mas tem também que representar com fidedignidade o fenômeno que se propõe representar. Para ser representação perfeitamente fidedigna, a realidade retratada precisa ter três atributos. Ela tem que ser completa, neutra e livre de erro. É claro, a perfeição é rara, se de fato alcançável 4. TEORIA DAS CONTAS Imagine a constituição de uma empresa: para dar início às atividades operacionais, os sócios investem dinheiro na empresa, o qual é representado pela conta contábil Capital Social. Agora, use a sua imaginação e se coloque no lugar dessa conta, afinal, segundo a teoria personalista, cada conta possui sua própria personalidade. Assim, você, enquanto conta contábil, fornece dinheiro para a empresa, por isso, você, enquanto conta contábil, fica com crédito com a empresa. Assim, como as contas do passivo e patrimônio líquido representam fontes de recursos, elas sempre ficam com créditos na empresa, daí, então, a sua natureza credora. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 185 ISTO ESTÁ NA REDE Para complementar nossos estudos, segue um vídeo sobre: Você sabe sobre a teoria das contas? Papiro Contábil. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=abZgVyzotKM Para entender essa aplicação, utilizaremos o exemplo de uma compra de mercadorias a prazo no valor de R $2.000,00. Primeiramente, precisamos entender o fato: ao comprar mercadorias, o estoque da empresa aumentou, por outro lado, a compra a prazo gerou uma obrigação. Agora, identificamos as contas: mercadorias para revenda e fornecedores. Relatórios contábil-financeiros são elaborados para usuários que têm conhecimento razoável de negócios e de atividades econômicas e que revisem e analisem a informação diligentemente. Por vezes, mesmo os usuários bem informados e diligentes podem sentir a necessidade de procurar ajuda de consultor para compreensão da in- formação sobre um fenômeno econômico complexo. Por fim, conciliamos a conta contábil à sua movimentação: houve aumento na conta mercadorias e aumento na conta fornecedores, por isso, a conta contábil mercadorias deverá receber um lançamento a débito, e a conta fornecedores, um lançamento a crédito. Assim, a contabilização desse fato por meio do mecanismo de débito e crédito ficaria desta forma: • Débito: Mercadorias R$ 2.000,00. • Crédito: Fornecedores R$ 2.000,00. Perceba que o valor lançado a débito é igual ao valor lançado a crédito, atendendo à determinação do Método das Partidas Dobradas. No exemplo apresentado, houve aumento nas duas contas, mas existem fatos que provocam aumento em uma conta e diminuição em outra ou, até mesmo, diminuição em duas. De qualquer forma, não importa o fato a ser contabilizado, uma vez identificadas as alterações nas contas contábeis. Os atos administrativos são decisões tomadas pelos gestores da entidade, os quais não impactam, a priori, os elementose não na formulação de regras gerais e abstratas, pois a criação judicial expressada por sentenças dos juízes nos tribunais representa a fonte autêntica do Direito objetivado (FRAGA, 2012, p. 1). Você pode verificar que nesse sistema, cada situação ou cada caso, é julgado levando-se em consideração suas particularidades, não existem regras específicas a serem seguidas e, muito menos, generalização dos fatos. Você deve estar se perguntando: Como essa filosofia do direito interfere na norma contábil? Pois bem, interfere muito, se partirmos do princípio de que se nesse sistema o que prevalece é o julgamento do que é justo, e o profissional que lida diretamente com as demonstrações contábeis é o contador, com isso, afirmamos que, no sistema common law, é o contador que define como devem ser as informações contábeis, segundo o que ele julgar ser correto. Surge, desse modo, um grande problema: a desconfiança dos investidores. Ora, se o contador é o responsável por julgar como devem ser as demonstrações contábeis e financeiras, corre-se o risco de ele favorecer o empresário, que é quem paga seu salário. Martins, Martins e Martins (2007) definem bem essa ideia quando dizem que se criam associações de contadores para que eles digam como se deve atuar na contabilidade. Afirmam, ainda, que é daí que surge a famosa expressão “princípios contábeis geralmente aceitos”, e perguntam: Aceitos por quem? Pelos próprios contadores. Na mesma linha de pensamento, temos Souza et al. (2015, p. 16) que afirmam: “[...] sistema common law, que é o direito que se desenvolveu por meio das decisões dos tribunais e, não, mediante atos Legislativos ou Executivos. [...] o direito é criado ou aperfeiçoado pelos juízes, portanto não é necessário detalhar as regras a serem aplicadas”. b) Filosofia Code Law O sistema Code Law segue a filosofia do direito Romano, que é bastante conservadora e exige-se que a Lei seja cumprida em toda sua essência e forma, não dando margens para interpretações se não aquela definida em Lei ou Norma. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 19 O Brasil, assim como outros países latinos, adota o sistema Code Law, como grande maioria dos países da Europa e Japão. No Direito Romano, a Lei é soberana e todos devem seguir exatamente o que por ela está determinado. Os julgamentos não são baseados em costumes, como na filosofia common law, e seguem rigorosamente o que determina a Norma. No Brasil, por exemplo, também temos as jurisprudências, que podem ser consultadas pelos magistrados, porém elas servem apenas como uma direção, já que o juiz, ao fazer um julgamento, deverá seguir apenas o que determina a Lei. Por isso, nos países que seguem essa filosofia, o que determina os métodos contábeis, assim como seus demonstrativos, sempre será a Lei. A contabilidade no Brasil, inicialmente, foi direcionada pela Lei das Sociedades por Ações n. 6.404, de 15 de dezembro de 1976, e teve como objetivo principal a proteção aos acionistas minoritários. O projeto visa, basicamente, a criar a estrutura jurídica necessária ao fortalecimento do mercado de capitais de risco no País, imprescindível à sobrevivência da empresa privada na fase atual da economia brasileira. [...] os setores empresariais exigem, contudo, o estabelecimento de uma sistemática que assegure ao acionista minoritário o respeito a regras definidas [...] (BRASIL, 1976). Apesar de a Lei n. 6.404/76 trazer grandes avanços para a contabilidade no Brasil, ela não traz progressos no que se refere ao acesso à informação contábil voltada a investidores, mantendo seu foco apenas nos credores (Bancos) e no fisco. Portanto, no Brasil e nos países que seguem a filosofia Code Law, os Poderes Legislativo e Executivo são as entidades responsáveis por criar as Leis que normatizam a contabilidade. Nesse sentido, temos a contabilidade muito inclinada a atender aos interesses fiscais. Como sabemos, o objetivo da contabilidade é fornecer informações confiáveis para a tomada de decisão de seus usuários. Porém, se fizermos uma comparação entre as duas filosofias do direito que servem de base para as informações contábeis, veremos que ambas trazem características bem distintas, o que dificulta ainda mais a elaboração dos balanços consolidados para as multinacionais. Pois uma é muito conservadora, como é o caso do Code Law e a outra, o Commom Law, deixa muitas aberturas para a decisão baseada no julgamento pessoal dos interessados. Faremos, a seguir, um comparativo entre as duas filosofias. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 20 6. COMPARATIVOS ENTRE CONTABILIDADE NORTE- AMERICANA E EUROPEIA Você pode verificar que temos dois grandes sistemas ou filosofias em que se apoia a contabilidade, o Commom Law e o Code Law, e que cada país tem sua maneira de ver e fazer contabilidade de acordo com suas práticas jurídicas. Para entendermos as mudanças ocorridas nas últimas décadas na contabilidade, é preciso que conheçamos as consequências e a visão sistemática de cada uma dessas filosofias. Pois bem, vamos pensar em como o mundo evoluiu nas últimas décadas, principalmente após o término da segunda guerra mundial. Os países diretamente envolvidos ficaram completamente devastados, necessitando de reconstrução em grandes escalas. O governo por si só não teria como arcar com todos os custos. É, nesse momento, que nascem as grandes companhias, as quais ficam responsáveis por reconstruir estradas, ferrovias, prédios públicos, enfim, reconstruir o país. E esse é o cenário mundial. Americanos, europeus, japoneses, russos, enfim, todos tinham uma grande missão pela frente. Viu-se, aí, uma grande oportunidade de investimentos, tanto para pessoas físicas como para pessoas jurídicas: investir nas empresas envolvidas nessa reconstrução e que necessitavam de capital para ampliar sua linha de produção. Os investidores passam a ser as pessoas mais interessadas nos resultados das empresas, afinal de contas, é preciso acompanhar e medir os riscos de seus investimentos. Você pode imaginar que, de repente, a contabilidade tem novos interessados, que não são apenas os bancos e o governo? Com isso, é preciso que se repense a maneira de se fazer contabilidade no mundo todo para manter a confiança desses investidores, fazendo com que eles continuem a depositar seus recursos nas companhias e elas prossigam no crescimento. E, nesse contexto, surge a figura de um novo investidor, que é o investidor minoritário, aquele que possui pequenas economias e que, porém, faz grande diferença nos resultados das companhias. Em comentário a essa questão, Martins, Martins e Martins (2007) apontam que o investidor minoritário em ações, não pode, assim como os credores, ter acesso diretamente às informações das empresas, ou seja, o investidor minoritário não tem o mesmo poder dos credores em exigir informações adicionais que lhe permitam avaliar melhor a evolução do patrimônio da empresa. Como vimos, para os norte-americanos, bem como alguns outros países que adotam a filosofia Commom Law, praticamente não existe normatização da contabilidade, ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 21 cabendo ao profissional de contabilidade fazer o julgamento do que é certo ou errado. Como já citamos anteriormente, surge, a partir daí, a desconfiança por parte dos investidores, e agora, também, dos investidores minoritários, sugerindo-se que essa filosofia não é confiável, já que as informações contábeis podem facilmente serem manipuladas para atender aos interesses das companhias. Conforme afirmam Souza et al. (2015, p. 16): “A profissão contábil é autorregulamentada e responsável pela edição de normas contábeis, padrões de auditoria, [...]. Assim, o Commom Law tem pouca influência do Governo”. Na filosofia Code Law,patrimoniais ou de resultado. Quando se decide contratar um funcionário, adquirir um imóvel, firmar uma parceria etc., esses fatos, inicialmente, não impactam os elementos: somente quando o funcionário for contratado e trabalhar durante um mês é que surgirá a obrigação (passivo) de pagar o seu salário; somente quando a documentação do imóvel estiver pronta, ele representará um bem (ativo) para a entidade; e assim por diante. https://www.youtube.com/watch?v=abZgVyzotKM https://www.youtube.com/watch?v=abZgVyzotKM ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 186 Por outro lado, os fatos administrativos, também denominados fatos contábeis, são aqueles que provocam alterações nos elementos, patrimoniais ou de resultado, como os pagamentos, recebimentos, compras, vendas, entre outros. 5. CONTAS DE CUSTOS Estando diretamente relacionada ao controle, à mensuração e ao registro de gastos produtivos de uma entidade, a contabilidade voltada aos custos evoluiu bastante. Essa evolução foi marcada, principalmente, pela revolução industrial, que foi responsável por elevar o volume destes gastos. INDICAÇÃO DE LEITURA Para complementar nossos estudos segue um artigo sobre: A contabilidade de custos e sua relevância para Gestão. UFGRS. Disponível em: https://www.lume.ufrgs. br/bitstream/handle/10183/27218/000763037.pdf. Figura 2 – Centro de Custos. Fonte: Pixabay (2023). Identificar e classificar as contas de custos numa organização empresarial, portanto, começou a se tornar uma tarefa cada vez mais complexa, uma vez que esses custos devem ser identificados e alocados aos diversos produtos e serviços produzidos e vendidos. Uma outra distinção entre custos e despesas é que as despesas impactam diretamente o resultado das entidades no período em que elas ocorreram. Os custos, por sua vez, são acumulados em conta de ativo até que os produtos e serviços produzidos sejam entregues ao cliente. https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/27218/000763037.pdf https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/27218/000763037.pdf ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 187 A distinção em custos e despesas é fundamental para a elaboração dos relatórios contábeis financeiros, uma vez que as receitas precisam confrontar esses gastos que foram necessários para serem obtidas. Para uma melhor compreensão dos custos, pode-se dizer que eles são gastos que se relacionam com os bens e/ou com os serviços componentes da produção de outros bens, conhecidos como insumos. Nesse sentido, os custos só aparecem no resultado da empresa quando os produtos fabricados a partir dos insumos forem vendidos. Os custos diretos são aqueles que podem ser diretamente relacionados a um produto ou serviço específico, e que apresente sua medição de forma clara, sem restar dúvidas de sua apuração e alocação. Um exemplo de custo direto, é a mão-de obra direta. A mão-de-obra (MOD) pode ser tanto um custo direto como um custo indireto, a chamada mão-de-obra indireta (MOI). A MOD é reconhecida como um custo direto quando podemos atribuir claramente (sem a necessidade de critérios de rateio) o custo a um produto ou serviço específico. Por outro lado, a MOI é considerada um custo indireto pois representa gastos na produção que não conseguimos atribuir a um único produto ou serviço. Já os custos indiretos não podem ser diretamente relacionados a um produto ou serviço, pois decorrem do uso de recursos compartilhados por diversos produtos e serviços produzidos/ofertados pela entidade, como os gastos com energia elétrica, depreciação de máquinas e mão de obra indireta. Mas atenção, esses são apenas alguns exemplos de custos indiretos e não são, necessariamente, considerados custos indiretos em todas as empresas. Para serem considerados indiretos, basta que não possam ser diretamente atribuídos a um produto ou serviço específico. Assim, é possível determinar que todas as vezes que um custo puder ser relacionado diretamente a um único produto ou serviço, ele pode ser considerado direto. Por outro lado, quando um custo não puder ser identificado diretamente a um produto ou serviço específico, ele é considerado indireto. A classificação dos custos em diretos e indiretos depende unicamente da forma como ocorrem os gastos na produção. Essa classificação de custos mais detalhada é fundamental para auxiliar os gestores e administradores na tomada de decisão nos negócios, pois traz fidedignidade à informação e aumenta sua relevância. Enquanto nas despesas, são considerados variáveis os gastos que oscilam de acordo com a quantidade vendida, no caso dos custos, a classificação entre fixo ou variável está relacionada com a produção. Crepaldi (2019) define que o um custo ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 188 variável é aquele que varia proporcionalmente à quantidade produzida, ou seja, quanto mais unidades de um produto forem produzidas, maior será o custo. De igual modo, quanto menor for a quantidade produzida menor será o custo. O maior exemplo de custo variável é, sem dúvidas, a matéria-prima, pois sem produção, esse custo se mantém guardado sob a forma de investimento nos estoques de matéria-prima, porém quanto mais unidades forem produzidas, maior será esse custo. Figura 3 – Controle dos Custos. Fonte: Pixabay (2023). Por outro lado, os custos fixos são aqueles que se mantém estáveis até um determinado período de tempo ou volume de produção (MARION, 2018). Para entendermos melhor, pense no custo com aluguel de um galpão de fábrica. Este é um valor gasto pela empresa independentemente da quantidade que ela conseguir produzir dentro de um período. Produzindo apenas uma unidade ou um milhão, o valor cobrado pelo proprietário do imóvel será o mesmo. Porém, à medida que o tempo passa, este valor de aluguel certamente sofrerá variações, seja por um aumento periódico previsto em contrato, seja porque a empresa precisou alugar um espaço maior, ainda assim são considerados fixos, pois são fixos por um determinado período de tempo ou volume de produção. As teorias contábeis são desenvolvidas visando a melhor maneira de registrar, avaliar e controlar o patrimônio, seja em seu aspecto estático, que evidencia o conjunto de elementos patrimoniais em um determinado momento, seja em suas variações. O estudo sobre o patrimônio tem como finalidade fornecer aos seus usuários informações econômicas, financeiras e patrimoniais que auxiliem no processo de tomada de decisão, ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 189 através da composição dos Débitos e Créditos, teoria das contas para desenvolver melhorias dentro das organizações empresariais. Quanto aos custos, eles correspondem aos gastos que são depreendidos para a elaboração final do produto ou serviço oferecido. Esses custos também podem ser classificados como diretos ou indiretos, ou como fixos ou variáveis, e tais classificações devem observar o comportamento dos custos durante o processo produtivo ou de prestação de serviços. ANOTE ISSO Podemos dizer, porém, que não é uma tarefa fácil atender a todos os usuários da Contabilidade, isso porque a necessidade de informação é diferente entre eles. Os gestores, enquanto usuários internos, necessitam de informações financeiras e operacionais específicas dependendo do seu cargo ou função, normalmente, precisam saber sobre o fluxo de caixa, itens em estoque, valores a receber e a pagar, custo de produção, pedidos de clientes a serem atendidos, entre outras. Já os usuários externos, como fornecedores e instituições financeiras, normalmente, estão preocupados com a situação financeira da entidade, visando analisar sua capacidade de pagamento. Já o Governo e as entidades reguladoras procuramadotada por diversos países da Europa, Japão e Brasil, a contabilidade é conservadora e totalmente voltada ao cumprimento da Lei. Acredita- se, com isso, que está se protegendo as companhias e, também, os profissionais de contabilidade de possíveis ações judiciais por parte de usuários da contabilidade. Em relação a essa filosofia, Martins, Martins e Martins (2007) definem-na muito bem ao dizer que Leis determinam as normas contábeis propriamente ditas ou determinam quais órgãos governamentais têm o poder para tanto. O Estado é quase que absoluto nesse processo. Ora, novamente temos aqui um impasse bastante preocupante, se na filosofia Common Law, menos conservadora, a preocupação e a desconfiança dos investidores são a possibilidade de os interessados conseguirem manipular as informações contábeis, atendendo aos interesses das companhias, o mesmo acontece na filosofia Code law, apenas mudando o foco do interessado, que aqui passa a ser o próprio governo, ente tributante, e, também, os grandes credores, que são os bancos. Para concluir essa seção, vamos fazer uma reflexão? O mundo dos negócios pede com urgência uma solução para as diferenças nas normas contábeis dos países. A solução seria a contabilidade ter uma linguagem universal, ou seja, um padrão que seja reconhecido internacionalmente. Mas temos dificultadores: a guerra pelo poder e a soberania de cada país. Temos dois grandes interessados nesse processo, Estados Unidos, com sua filosofia Common Law, e países da Europa, com a filosofia Code law, cada qual com seus interesses políticos. 7. ORGANISMOS REGULADORES E AMBIENTE INTERNACIONAL Caro (a) acadêmico (a), você pode observar que, no início da década de 70, a contabilidade passa por uma fase de grande turbulência, devido ao crescimento ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 22 das indústrias, forte interesse de investidores e um cenário onde é preciso muita transparência e confiança nos demonstrativos contábeis. Ainda, aliada a toda essa insegurança do mercado internacional, havia outra questão bastante incômoda, principalmente para as empresas multinacionais que possuíam filiais espalhadas por diversos países: a execução do balanço consolidado. Ora, é fácil de concluir que com princípios e normas diferentes entre dois ou mais países, os resultados seriam diferentes. Compartilhando dessa ideia, temos Martins e Brasil (2008) afirmando que as normas contábeis de um país estão restritas à conjuntura econômica deste, submissas a sua legislação, estrutura societária e tradições culturais. Nesse contexto, os autores afirmam, ainda, que isso levou as empresas a terem que elaborar dois conjuntos de demonstrativos financeiros: um atenderia as normas adotadas pelo país da matriz e o outro obedecendo as exigências das autoridades reguladoras do país da subsidiária o que acaba por criar dois problemas para a gerência dessas multinacionais, os quais Flower (2002, p. 218) explica: 1. Consistência: Os dois relatórios podem gerar mensagens completamente diferentes (por exemplo, que à matriz indica uma perda e, que de acordo com a lei local, um lucro) que podem conduzir à confusão e à incerteza excedentes, ao medir o desempenho da subsidiária estrangeira. A gerência do grupo pode exigir que o desempenho esteja medido de acordo com seus princípios padrões. Entretanto, isto não impede que o feeling da gerência local seja tratado injustamente e, que seu desempenho seja medido de acordo com os princípios não aceitos localmente. 2. Custo: É caro manter um sistema de contabilidade que prepare duas demonstrações financeiras diferentes. Diante desse cenário, surge a discussão da necessidade de se criar um padrão de contabilidade que pudesse ser adotado por todos os países, pelo menos era isso que o mercado internacional almejava naquele momento. O primeiro passo para que a linguagem contábil tenha um padrão universal foi dado pelos Estados Unidos, contudo, com a visão de que o mundo deveria adotar a linguagem contábil americana. Porém, o próprio governo americano não tinha interesse em assumir o papel de reescrever a forma como deveriam ser elaboradas as peças contábeis. Além disso, entendeu-se que as novas normas de contabilidade não poderiam ser reescritas apenas por contadores, já que a tendência seria sempre de favorecimento próprio. Era preciso neutralidade nessa tarefa e delegou-se a missão a especialistas e ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 23 estudiosos da área, que seriam indicados pelo AICPA (American Institute of Certified Public Accountants) Instituto Americano de Contadores Públicos Certificados. Nesse sentido Martins, Martins e Martins (2007) descrevem que não mais apenas contadores seriam responsáveis por normatizar a contabilidade, mas sim um grupo mais amplo, no qual estivessem representados os que produzem os balanços (as companhias abertas), os auditores independentes, os usuários e a academia. Diante dessa inquietação do mercado, é criado nos Estados Unidos, em 1973, o FASB - Financial Accounting Standards Board, órgão privado responsável por emitir pronunciamentos contábeis americanos, de acordo com o US GAAP (United States Generally Accepted Accounting Principles) ou Princípios Contábeis Geralmente Aceitos Norte-Americano. Conforme bem define Castro (2001), os pronunciamentos contábeis emitidos pelo FASB têm como missão estabelecer e aperfeiçoar os padrões contábeis, e servem de guia para o público e legisladores da matéria contábil, auditores e usuários da contabilidade. 7.1 A estrutura do FASB é assim conceituada: O Financial Accounting Standards Board, FASB (Comitê de Normas de Contabilidade) é composto por sete membros indicados por uma junta de curadores (indicados pelo AICPA) para prestação de serviços em tempo integral. O FASB é um órgão independente, reconhecido pela SEC, com o objetivo de determinar e aperfeiçoar os procedimentos, conceitos e normas contábeis. Os recursos do FASB são providos por uma fundação contábil/financeira independente, a qual é responsável pela indicação dos seus sete membros (TAVARES, 2007 apud MACIEL; VIDAL; VIDAL, 2016, p. 3). Os pronunciamentos emitidos pelo FASB são denominados SFAC e servem como uma estrutura conceitual básica a ser utilizada pelo conselho para o estabelecimento de padrões Contábeis, conforme afirmado por Schimdt (apud MACIEL; VIDAL; VIDAL, 2016). A partir de então, todas as empresas que desejassem negociar suas ações, na bolsa de valores americana, deveriam ter seus balanços publicados, conforme as normas e padrões do FASB. Não podemos nos esquecer de que o maior mercado de capitais do mundo é o americano, o que torna a adoção dos SFAC (Statement of Financia Accounting Concepts) quase obrigatória por outros países cujas ações são negociadas na bolsa de valores americana. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 24 Pois bem, ocorre que os europeus, temendo que as práticas contábeis americanas se tornem obrigatórias por todos devido à grande influência do mercado, decidem, no mesmo ano, em 1973, criar um Comitê Internacional de Contabilidade, ao qual denominam de IASC - International Accounting Standards Committee, e que mais tarde, em 2001, torna-se a IASB – International Accounting Standards Board, a qual estudaremos um pouco mais a frente. O IASC é um órgão independente, sem fins lucrativos e mantido por seus membros. Conforme afirmam Niyama e Schimdt (apud MACIEL; VIDAL; VIDAL, 2016), tem sua sede em Londres e foi criado por representantes de nove países, sendo eles: Austrália, Canadá, França, Alemanha, Japão, México, Holanda, Reino Unido e Estados Unidos. Podemos nos arriscar em dizer que é nesse momento que nascem os padrões internacionais de contabilidade que conhecemos hoje. Nesse sentido, Iudícibus(2014) afirma que, a partir de 1973, FASB e IASB irrompem no cenário contábil americano e mundial, justamente no momento em que a globalização avança de forma avassaladora, aumentando a importância dos órgãos reguladores contábeis. O argumento principal foi o de se atingir um dos ideais de que a contabilidade se transforme numa linguagem universal dos negócios. O objetivo principal da IASC foi criar padrões de contabilidade que pudessem ser observados por todos os países do mundo, e que tivesse a aceitação pública com a intenção de derrubar as barreiras até aqui citadas. Além disso, a finalidade principal do IASC é a convergência das normas nacionais e internacionais de contabilidade com padrões rigorosos e de altíssima qualidade, em que todos tivessem a mesma linguagem contábil. Simplificando essa ideia, as demonstrações contábeis elaboradas em um determinado país seriam as mesmas que as produzidas em outro país com filosofia completamente diferente, ou seja, seria compreensível em qualquer lugar onde fosse publicada. Caro (a) acadêmico (a), diante do exposto, você deve estar se perguntando: por que os países da filosofia Commom Law, como os Estados Unidos, Irlanda e Austrália, entram inicialmente como representantes da IASC se até agora deu-se a entender que havia uma rivalidade entre Europa, que segue a filosofia Code law? Pois bem, para que isso fique bem claro, temos que analisar os interesses políticos por trás dessa questão. A ideia de criação do IASC era muito apropriada, porém seria preciso enfrentar interesses políticos, culturais e econômicos dos mais variados e também fazer com que países do mundo inteiro adotassem um único padrão de contabilidade sem ferir ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 25 a soberania de cada país. Isso é um desafio enorme a se vencer. Logicamente que esse processo de convergência das normas contábeis para um único padrão tem sido longo e de muitos obstáculos. Inicialmente, os membros do IASC, representantes dos países apoiadores, eram auditores, executivos, membros de academias e sócios de empresas de auditoria independente, que trabalhavam em tempo parcial. Cada país participante se fazia representar por três membros no grupo de discussão e elaboração das IAS. Em 1975 foi publicado o primeiro pronunciamento emitido pelo IASC, chamado de IAS ou International Accounting Standards. A seguir, conheceremos alguns dos principais órgãos internacionais envolvidos no processo de normatização e padronização da contabilidade pelos Estados Unidos e países europeus. a) INTERNATIONAL ORGANIZATION OF SECURITIES COMMISSIONS – (IOSCO) Segundo informações do portal da organização, a IOSCO é uma organização internacional de comissão de valores que reúne comissões de valores mobiliários de mais de100 países. Seu objetivo principal é proteger os investidores do mercado de capitais, além de promover a adesão a padrões internacionalmente reconhecidos para a regulamentação de valores mobiliários. Em 1996, foi criado o fórum da IOSCO, que se reúne com seus membros três vezes ao ano para discutir questões comuns aos bancários, títulos e setores de seguros, incluindo a regulamentação dos conglomerados financeiros e avaliação dos riscos do mercado. b) SECURITIES EXCHANGE COMMISSION - COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS (SEC) A SEC Securities Exchange Commission, semelhante a Comissão de Valores Mobiliários no Brasil, foi criada nos Estados Unidos, em 1934, após a quebra da bolsa de valores de Nova York, com o objetivo de regular o mercado de ações e evitar uma nova depressão. Segundo dados da CVM, a SEC, assim como a CVM, tem por objetivo principal fiscalizar as ações negociadas na bolsa de valores para proteger os investidores e diminuir os riscos do mercado. c) EUROPEAN UNION – UNIÃO EUROPEIA (EU) A criação da união europeia teve início com o fim da segunda guerra, com o objetivo de unir esforços para a reconstrução de uma Europa devastada e promover a integração dos países da Europa. Porém só foi totalmente realizada, segundo Castro (2001), com ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 26 o Tratado de Masstricht em 1991, que estabeleceu os planos para sua implantação e conta com 15 países membros. Ainda conforme Castro (2001), o Tratado de Masstricht estabeleceu planos e datas para sua implantação, conforme quadro abaixo: d) INTERNATIONAL FEDERATION OF ACCOUNTANTS – Federação Internacional dos Contabilistas – IFAC A IFAC foi fundada em 7 de outubro de 1977, em Munique, na Alemanha, com o objetivo de fortalecer a profissão contábil em todo o mundo, no interesse pelo desenvolvimento de normas internacionais de alta qualidade em auditoria e segurança, contabilidade pública, ética e educação para os profissionais contabilistas, e apoiar a sua adoção e utilização. Também é interesse do IFAC facilitar a colaboração entre seus membros e organizações internacionais, servindo, principalmente, de porta voz internacional para a profissão contábil. A IFAC iniciou em 1977 com 63 membros, de 51 países, e, atualmente, são 175 membros, de 130 países e jurisdições de todo o mundo. Ainda como comentado em CFC (2010), ela contribui para o funcionamento eficiente da economia internacional da seguinte forma: • Melhorando a confiança e qualidade das demonstrações contábeis. • Estimulando a produção de informações (financeiras e não financeiras) de alta qualidade sobre o desempenho das organizações. • Promovendo a prestação de serviços de alta qualidade por todos os • membros da profissão contábil ao redor do mundo. • Promovendo a importância da adesão ao Código de Ética para Contadores Profissionais por todos os membros da profissão contábil, inclusive membros na indústria, comércio, setor público, setor sem fins lucrativos, setor acadêmico e prática pública. e) MERCOSUL – MERCADO COMUM DO SUL Em 26 de março de 1991, assinaram o Tratado de Assunção, Argentina, Brasil e Uruguai com o objetivo de integração dos Estados Partes por meio de livre circulação de bens e serviços e fatores produtivos, além da adoção de políticas comerciais comuns, da coordenação política macroeconômica e setoriais e da harmonização de legislação nas áreas pertinentes. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 27 O Mercosul caracteriza-se, ademais, pelo regionalismo aberto, ou seja, tem por objetivo não só o aumento do comércio, mas também o estímulo ao intercâmbio com outros parceiros comerciais. A composição atual do bloco está assim definida: • Todos os países da América do Sul participam do MERCOSUL, seja como Estado parte, seja como estado Associado. • Estados Partes: Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai (desde 26 de março de 1991) e Venezuela (desde 12 de agosto de 2012). • Estado Parte em Processo de Adesão: Bolívia (desde de dezembro de 2012). • Estados Associados: Chile (desde 1996), Peru (desde 2003), Colômbia, Equador (desde 2004), Guiana e Suriname (ambos desde 2013). Os princípios do MERCOSUL visam à formação de mercado comum entre seus Estados partes. De acordo com o art. 1º do Tratado de Assunção, a criação de um mercado comum implica: • Livre circulação de bens e serviços e fatores de produção entre os países do bloco. • Estabelecimento de uma tarifa externa comum e a adoção de uma política comercial conjunta em relação a terceiros Estados ou agrupamentos de estados e a coordenação de posições em foros econômicos-comerciais regionais e internacionais. • Coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais entre Estados Partes. • Compromisso dos Estados Parte em harmonizar a legislação nas áreas • pertinentes, a fim de fortalecer o processo de integração. 8. PADRONIZAÇÃO X HARMONIZAÇÃO CONTÁBIL Você pode acompanhar até aqui que o mundo dos negócios, através da globalização, tornou-se bastantecomplexo, no sentido de fornecer transparência e confiabilidade nas negociações do mercado de capitais. Chegou-se num ponto em que é preciso que se encontre um denominador comum, em que todos falem a mesma linguagem. Não é mais possível que haja duplas interpretações nas demonstrações contábeis. É preciso, também, que as demonstrações contábeis sejam fidedignas, mostrando a realidade econômica e financeira da entidade. Sobre esse mesmo conceito, temos Castro (2001, p. 2) afirmando que: ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 28 Interpretações diferentes dos mesmos eventos e transações levam à falta de comparabilidade das demonstrações contábeis, o que pode fazer com que a informação contábil perca credibilidade no cenário mundial. Tem-se apontado como um dos caminhos para elevar a contabilidade como uma das ciências imprescindíveis para as unidades de negócios, a unificação dos padrões contábeis internacionais, [...]. Ainda, segundo Castro (2001), a pressão da sociedade, de forma ampla e precisa, faz com que estudiosos e profissionais se preocupem em encontrar, de forma prática e objetiva, os princípios que regem a Ciência Contábil, bem como definir normas e regras para sua aplicação. Como já estudamos anteriormente, pudemos ver que existem vários órgãos e entidades de diversos países preocupados em encontrar uma forma de resolver essas diferenças nas demonstrações contábeis e conseguir uma forma de harmonizar esses debates. Porém esse é um caminho muito difícil, pois não é somente o sistema contábil que se discute nesse momento, mas, também, o sistema político, de poder e soberania dos países. A padronização é o conceito de que todos devam usar o mesmo procedimento contábil, não sendo possível nenhum tipo de mudança. Portanto, a padronização, conforme entende Niyama (2005 apud MATOS et al., 2013, p. 70), trata-se de um “processo de uniformização de critérios, não admitindo flexibilização”. A padronização seria muito difícil de ser adotada por muitos países, pois sabemos que o mercado de capitais é fortemente influenciado pelos aspectos políticos, culturais e regionais de cada país. Quanto à harmonização, Weffor (2005 apud MATOS et al., 2013, p. 70) classifica como “a busca da acomodação das diferenças locais, reconhecendo que a abordagem one size fits all pode não ser a mais adequada. A convergência flexível que a padronização, não deixa de ser complexa, já que objetivo dos órgãos envolvidos nesse procedimento é a adesão de grande número de países, para que as demonstrações contábeis sejam coerentes, independentemente de onde está instalada a matriz e as subsidiárias e, principalmente, por investidores do mundo todo. Sabe-se que é um caminho longo a ser percorrido e envolverá muitos estudos e dedicação de todos os interessados. Nesse sentido, Martins, Martins e Martins (2007) afirmam que, antes de mais nada, é preciso que haja uma harmonização entre nós, já que temos tantos organismos emitindo normas sobre o mesmo assunto e, muitas vezes, não harmonicamente. A ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 29 harmonização só é viável se sentarem todos à mesma mesa. Os autores defendem, ainda, a ideia de que as normas contábeis são muito importantes para ficarem nas mãos de apenas um grupo dos que têm interesse nas informações. É preciso reunir quem vai preparar as informações, quem as audita, quem as analisa e as utiliza para fins comerciais e, também, quem estuda e pesquisa sobre elas e, ainda, o próprio governo. Segundo afirma Castro (2001), a rapidez do avanço da globalização do comércio e dos mercados de capital tem evidenciado a necessidade de harmonização das normas contábeis. As distâncias foram reduzidas a tal ponto que poucos minutos são suficientes para gerar efeitos relevantes em mercados que ficam em dois extremos no mundo. Como já foi visto até aqui, temos vários órgãos com interesse na harmonização contábil e o principal deles, com a missão de promover a harmonização, é o IASC (International Accounting Stantards Committee), criado para atender a toda demanda da globalização, que se iniciou após a segunda guerra mundial, de acordo com Martins e Brasil (2008). Martins e Brasil (2008) ainda afirmam que apesar de o IASC nascer com a adesão de nove países e ter o apoio de organismos importantes, como a IOSCO (International Organization for Governmental Securities Commissions), encontrou dificuldades porque os Estados Unidos não se dispuseram a adotar as suas normas, devido à divergência nas práticas do IASC e os US GAAP (Princípios de Contabilidade Geralmente Aceitos norte-americanos), que são regulados pelo FASB. Esta é uma ideia comprovada por Niyama (2006 apud MARTINS; BRASIL, 2008), que coloca a contabilidade nos Estados Unidos entre a dos países do bloco Anglo- Saxônico, no qual a classe contábil é forte e sofre pouca influência do governo. Esta última ideia é compartilhada também por Henddriksen e Breda (1999 apud MARTINS; BRASIL, 2008), que definem claramente o enfoque da escola americana nos usuários externos (acionistas, credores, fornecedores e outros) e não no governo. Portanto, podemos completar essas ideias afirmando que os norte-americanos não tinham interesse nas normas do IASC, pois teriam que submeter-se a outros padrões e, com isso, estariam enfraquecendo sua soberania perante o mercado internacional. O grande objetivo do FASB Financial Accounting Standards Board, órgão privado responsável por emitir pronunciamentos contábeis americanos, seria que suas normas fossem adotadas por outros países e não o inverso. Com isso, quem adotasse as IAS ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 30 (International Accounting Standards), normas emitidas pelo IASC, ao fazer negociações no mercado financeiro americano, seria obrigado a converter suas demonstrações para o padrão FASB e US GAAP. O IASC já sai na frente ao conquistar simpatizantes de diversos países, agregando os ingleses entre seus membros, o que é um grande avanço, inclusive, colocando sua sede em Londres, na Inglaterra. Segundo afirmam Martins, Martins e Martins (2007), essa conquista é politicamente muito boa, já que os ingleses sempre foram muito ligados aos norte-americanos, pois os teriam como aliados, e não como eventuais “inimigos”. Martins, Martins e Martins (2007) afirmam, ainda, que outra habilidade do IASC foi começar a produzir normas para uso internacional dentro da linha anglo- saxônica da essência sobre a forma, com a intenção de atrair simpatizantes e não assustar a todos, aceitando diversas alternativas e atendendo a diversas situações contábeis. Com essa linha de trabalho, o IASC vai se fortalecendo até que, em 2001, o órgão sofre grandes reformulações e passa a se chamar IASB (International Accounting Standards Board), cujas características principais estudaremos a seguir. a) IASB - INTERNATIONAL ACCOUNTING STANDARDS BOARD O IASB (International Accounting Standards Board) é o sucessor do IASC, que chega, em 2001, com sua forma estrutural e políticas mais amplas e reestruturadas para atender ao seu crescimento, já que a aceitação do mercado financeiro mundial pelas IAS está cada vez mais crescente. Podemos dizer que o IASB é uma versão mais moderna e democrática do IASC, e que, segundo afirmam Moraes e Mengden (2015), foi desenvolvido um conjunto de normas para as demonstrações financeiras verdadeiramente aceitas, que permite uma auditoria reconhecida em todos os países, consolidando as demonstrações conforme as normas emitidas pelo IASB. A esse conjunto de normas emitido pelo IASB, que antes era chamado de IAS (International Accounting Standards), passa, agora, a denominar- se IFRS (International Financial Reporting Standards), ou seja, Normas e Padrões Internacionais de Contabilidade,cujas características estudaremos detalhadamente mais adiante. De acordo com Moraes e Mengden (2015, p. 2, grifo nosso): “Considerando o cenário atual, um total de 143 economias globais adotaram os padrões internacionais sendo ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 31 que os países, que ainda não os adotaram, já estabeleceram a convergência IFRS para um futuro próximo”. Estrutura do IASB (International Accounting Standards Board) Como já descrevemos anteriormente, o IASB tem sua sede em Londres, na Inglaterra, e conta, atualmente, com o apoio e adesão de 143 países. As mudanças ocorridas em 2001 não se referem apenas ao nome, mas houve diversas mudanças, a fim de se criar um órgão mais confiável e adaptado às novas exigências do mercado do agora, século 21, no qual a globalização já é uma realidade presente, em sentido amplo da palavra. Conforme explicam Matos et al. (2013), o objetivo principal do novo órgão é desenvolver um conjunto de normas de alta qualidade, que sejam compreensíveis e, sobretudo, executáveis globalmente, e aceitas como base em princípios articulados de forma clara. Com isso, a estrutura do conselho e do processo normativo também foram alteradas, contando, atualmente, com representantes de todas as regiões do planeta. A principal qualificação para ser membro do IASB é competência profissional e experiência prática. O grupo é chamado a representar a melhor combinação disponível de conhecimentos técnicos e diversidade de negócios internacionais e experiência de mercado. Critérios mais específicos para a seleção dos membros do conselho: • Demonstrar competência técnica e conhecimentos de contabilidade e relatórios financeiros; • Capacidade de analisar; • Habilidades de comunicação; • Criterioso processo de decisão; • Consciência do ambiente de relatório financeiro; • Capacidade de trabalhar em um ambiente colegial; • Integridade, objetividade e disciplina; • Compromisso com a missão da Fundação IFRS e de interesse público. Além disso, segundo Matos et al. (2013), outra grande modificação se refere ao processo normativo, que é dividido em seis estágios, sendo eles: • Definição de uma agenda; • Planejamento do projeto; • Desenvolvimento e publicação; ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 32 • Desenvolvimento e publicação do exposure draft; • Desenvolvimento e publicação do IFRS; • Procedimentos após uma IFRS ser publicada. Como vimos, a harmonização contábil é vista como uma forma de diminuir as diferenças nas práticas contábeis, a fim de que as demonstrações financeiras possam ser comparadas entre si nos mais diversos países. Em relação à harmonização contábil, temos ainda algumas divergências de opiniões. Alguns estudiosos encontram vantagens e outros, por sua vez, apontam algumas desvantagens. 9. IFRS - NORMAS INTERNACIONAIS DE CONTABILIDADE Quando falamos de normas internacionais de contabilidade, estamos falando de um projeto ousado e muito complexo, pois envolve mexer na estrutura conceitual básica de contabilidade de todos os países. Todos os países que adotarem esse novo padrão de contabilidade precisarão rever e adaptar a contabilidade de acordo com os IFRS. Pelo que podemos ver, apesar de ser um projeto arriscado, vem dando certo, pois cada vez mais países adotam esse padrão e estão em processo e convergência de suas normas ao padrão IFRS. Para entender melhor as IFRS, você deve pensar nelas como o produto de muito estudo de grandes especialistas. São as normas emitidas pelo IASB e cujo principal objetivo é a transparência nas informações contábeis com foco na harmonização contábil. As normas internacionais de contabilidade estão dispostas em estruturas que compreendem cinco tipos de pronunciamentos técnicos, que são: Frameworks, IAS, IFRS, SIC e IFRIC. Vamos ver cada uma desses pronunciamentos abaixo: a) Framework: São as estruturas conceituais básicas, portanto, não são pronunciamentos contábeis, e sim uma orientação a ser seguida para a elaboração das demonstrações contábeis. É importante que saibamos: caso haja algum conflito entre as IFRS e as estruturas, sempre as IFRS é que deverão prevalecer. Conforme FIPECAFI (2010, p. 37), os pressupostos básicos das estruturas são os Princípio da Competência e Continuidade; • Características Qualitativas: As estruturas possuem também características qualitativas, que são fundamentais e não podem ser ignoradas na apresentação das demonstrações contábeis. São elas: Relevância e Representação Fidedigna. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 33 “As características qualitativas são atributos que tornam as demonstrações contábeis úteis para os usuários” (FIPECAFI, 2010, p. 37). – Relevância: São relevantes as informações capazes de influenciar a tomada de decisão do usuário. Para serem úteis, as informações devem ser relevantes às necessidades dos usuários na tomada de decisões. São relevantes quando podem influenciar as decisões econômicas, ajudando-os a avaliar os impactos de eventos passados, presentes ou futuros ou confirmando ou corrigindo as suas avaliações anteriores (FIPECAFI, 2010, p. 37). – Representação Fidedigna: As demonstrações contábeis devem representar fidedignamente a estrutura patrimonial, de forma confiável e adequada, conforme a realidade da entidade. Para que isso seja possível, deve-se considerar a essência das transações, e não apenas sua forma jurídica, ou seja, a essência prevalece sobre a forma. ISTO ESTÁ NA REDE Link: https://www.youtube.com/watch?v=99vs307imBM Para ser confiável a informação deve representar adequadamente as transações e outros eventos que ela diz representar. Assim, por exemplo, o balanço patrimonial numa determinada data deve representar adequadamente as transações e outros eventos que resultam em ativos, passivos e patrimônio líquido da entidade e que atendam aos critérios de reconhecimento (FIPECAFI, 2010, p. 37). Além dessas duas características fundamentais, é importante saber que para uma informação ser útil, ela deve ter materialidade. A materialidade não é uma caraterística fundamental, porém ela é intrínseca. A relevância da informação é material se sua omissão ou divulgação distorcida puder influenciar na decisão do usuário. A materialidade depende do tamanho do item ou do erro, julgado nas circunstâncias específicas de sua omissão ou distorção. Assim, materialidade proporciona um patamar ou ponto de corte ao invés de ser uma característica qualitativa primária que a informação necessita ter para ser útil (FIPECAFI, 2010, p. 37). https://www.youtube.com/watch?v=99vs307imBM ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 34 ANOTE ISSO Pois bem, vamos exemplificar todo esse conceito de representação fidedigna. Representação fidedigna é reconhecer as operações exatamente da maneira como elas acontecem, e não como a Lei exige que elas sejam reconhecidas. Como exemplo, podemos citar a depreciação. Ora, vamos pensar na depreciação como é feita no Brasil. A Receita Federal fornece as taxas que devem ser utilizadas e o tempo de vida útil dos bens classificados no imobilizado. Todas as empresas utilizam-se de uma mesma taxa de depreciação, não se levando em consideração as características de utilização desses imobilizados, que, com certeza, não são as mesmas para todas as empresas. Veja que essas taxas de depreciação dificilmente vão coincidir com a realidade dos desgastes de bens de todas as empresas. ESTRUTURA E ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS PROF. ANDRÉ DE FARIA THOMÁZ FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 35 CAPÍTULO 02 O QUE SÃO COMITÊS DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS – CPC Olá, estudantes, com a intenção de disseminar todas as informações produzidas em suas atividades, a organização