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HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Fazemos parte do Claretiano - Rede de Educação Profª. Drª. Maria Renata da Cruz Duran (Org.) Colaboradores: Profª. Dra. Ana Heloisa Molina; Profª. Dra. Claudia Regina Bovo; Profª. Ms. Carolina Carvalho de Lima; Prof. Carlos R. da C. Amorin; Prof. Ms. Dennys Montagner; Profª. Dra. Elisa Maria Verona; Profª. Ms. Erika Moreira Martins; Profª. Ms. Juliana Ducci; Profª. Ms. Maria Raquel da Cruz Duran; Profª. Dra. Monica Edelweiss. Graduada, mestre e doutora em História pela Universidade Estadual Paulista, pós-doutora pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, atuo como professora adjunta de História Moderna e Contemporânea na Universidade Estadual de Londrina. Entre 2003 e 2009, desenvolvi pesquisas na área de História do Brasil, enfocando a educação oitocentista e a invenção de uma literatura brasileira. Em 2008, recebi o prêmio Monografias da Sociedade Histórica da Independência de Portugal pela minha dissertação de mestrado, publicada em 2010, publicado pela Edunesp, com o título "Ecos do Púlpito". Em 2012, publiquei pela Eduff uma coletânea de sermões comentados intitulada "Triunfos da Eloquência". Recentemente, publiquei "Retórica à moda brasileira: transições da cultura oral para a cultura escrita no ensino fluminense de 1746 a 1834", minha tese de doutorado, pela Editora Unesp. Entre 2009 e 2011, trabalhei como consultora educacional para a UNESCO, OEI e Fundação Banco do Brasil na área de formação docente e uso de tecnologias de informação e comunicação. Em maio de 2013, os artigos produzidos nessa área foram contemplados pela menção honrosa do Prêmio Peter Murányi E-mail: mariarenataduran@gmail.com Claretiano – Centro Universitário Rua Dom Bosco, 466 - Bairro: Castelo – Batatais SP – CEP 14.300-000 cead@claretiano.edu.br Fone: (16) 3660-1777 – Fax: (16) 3660-1780 – 0800 941 0006 www.claretianobt.com.br Maria Renata da Cruz Duran (Org.) Batatais Claretiano 2015 HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO © Ação Educacional Claretiana, 2015 – Batatais (SP) Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, a transmissão total ou parcial por qualquer forma e/ou qualquer meio (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação e distribuição na web), ou o arquivamento em qualquer sistema de banco de dados sem a permissão por escrito do autor e da Ação Educacional Claretiana. CORPO TÉCNICO EDITORIAL DO MATERIAL DIDÁTICO MEDIACIONAL Coordenador de Material Didático Mediacional: J. Alves Preparação: Aline de Fátima Guedes • Camila Maria Nardi Matos • Carolina de Andrade Baviera • Cátia Aparecida Ribeiro • Dandara Louise Vieira Matavelli • Elaine Aparecida de Lima Moraes • Josiane Marchiori Martins • Lidiane Maria Magalini • Luciana A. Mani Adami • Luciana dos Santos Sançana de Melo • Patrícia Alves Veronez Montera • Raquel Baptista Meneses Frata • Rosemeire Cristina Astolphi Buzzelli • Simone Rodrigues de Oliveira Revisão: Cecília Beatriz Alves Teixeira • Eduardo Henrique Marinheiro • Felipe Aleixo • Filipi Andrade de Deus Silveira • Juliana Biggi • Paulo Roberto F. M. Sposati Ortiz • Rafael Antonio Morotti • Rodrigo Ferreira Daverni • Sônia Galindo Melo • Talita Cristina Bartolomeu • Vanessa Vergani Machado Projeto gráfico, diagramação e capa: Eduardo de Oliveira Azevedo • Joice Cristina Micai • Lúcia Maria de Sousa Ferrão • Luis Antônio Guimarães Toloi • Raphael Fantacini de Oliveira • Tamires Botta Murakami de Souza • Wagner Segato dos Santos Videoaula: José Lucas Viccari de Oliveira • Marilene Baviera • Renan de Omote Cardoso Bibliotecária: Ana Carolina Guimarães – CRB7: 64/11 DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) 370.9 D952h Duran, Maria Renata da Cruz História da educação / Maria Renata da Cruz Duran – Batatais, SP : Claretiano, 2015. 479 p. ISBN: 978-85-8377-388-7 1. Formação da sociedade ocidental. 2. Cultura educacional. 3. Regimes de saberes. 4. Disciplinas de ensino. 5. Formação profissional docente. I. História da educação. CDD 370.9 INFORMAÇÕES GERAIS Cursos: Graduação Título: História da Educação Versão: fev./2015 Formato: 15x21 cm Páginas: 479 páginas SUMÁRIO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO 1. INTRODUÇÃO .................................................................................................... 11 2. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO ......................................................................... 19 3. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 32 4. E-REFERÊNCIA ................................................................................................... 33 UNIdAdE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL 1. OBJETIVOS ......................................................................................................... 35 2. CONTEÚDOS ...................................................................................................... 35 3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE ................................................... 35 4. INTRODUÇÃO À UNIDADE ................................................................................. 37 5. A PAIDEIA .......................................................................................................... 38 6. OS PRIMEIROS FILÓSOFOS ............................................................................... 51 7. SÓCRATES, A FILOSOFIA SE CONSOLIDA ............................................................ 55 8. INSTRUÇÃO NA ROMA ANTIGA ......................................................................... 57 9. SINTETIZANDO .................................................................................................. 59 10. TEXTOS COMPLEMENTARES .............................................................................. 62 11. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS ........................................................................... 72 12. CONSIDERAÇÕES .............................................................................................. 73 13. E-REFERÊNCIAS ................................................................................................. 74 14. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 74 UNIdAdE 2 – EDUCAÇÃO E CULTURA NA IDADE MÉDIA 1. OBJETIVO ........................................................................................................... 75 2. CONTEÚDOS ...................................................................................................... 75 3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE .................................................. 75 4. INTRODUÇÃO À UNIDADE ................................................................................. 77 5. A ALTA IDADE MÉDIA: DA TRADIÇÃO CLÁSSICA IMPERIAL À FORMAÇÃO ESCOLAR CAROLÍNGIA ....................................................................................... 77 6. A CONTRIBUIÇÃO DE AGOSTINHO DE HIPONA ................................................. 82 7. ASCETISMO E MONASTICISMO ......................................................................... 83 8. A CONTRIBUIÇÃO DE BENTO DA NÚRSIA .......................................................... 84 9. AS ESCOLAS EPISCOPAIS E AS ESCOLAS DAS CATEDRAIS ................................... 85 10. O RENASCIMENTO CAROLÍNGIO ....................................................................... 85 11. O SABER AO ALCANCE DE POUCOS ................................................................... 87 12. O DESENVOLVIMENTO ESCOLAR NA IDADE MÉDIA CENTRAL ........................... 88 13. O SURGIMENTO DA UNIVERSIDADE ..................................................................é o que chamamos de senso comum, aquele que fornece a maior parte das noções que temos em nosso cotidiano, como, por exemplo, ao vermos nuvens cinzentas no céu, sabemos que provavelmente vai chover; porém, esse é um conhecimento des- provido de verificação, de certeza, o que não significa que seja errôneo, pois ele é a base para o conhecimento científico. Já o conhecimento científico assinala outra atitude, pois não se con- forma com o senso comum, buscando elevar-se, procurando um sentido ou razão comum no desenvolvimento ou acontecimento de um fato ou fenômeno. Por meio do trabalho científico é que se concretiza tal conhecimento, que se constitui ordenadamen- te, realizando uma classificação, uma síntese, buscando nexos ou laços que unam fatos. É um conhecimento metódico. No conhecimento filosófico, busca-se respostas de valor universal, não redutíveis a contingências de espaço e de tempo, pois esse conhecimento se relaciona à essência mesma dos pro- blemas. O conhecimento filosófico tem uma especificidade pró- pria, que é o seu caráter crítico-axiológico. Crítico para apreciar os pressupostos de algo conforme critérios de valor (axiológico), não no sentido vulgar de ver nas coisas o que elas têm de bom ou de ruim e de valor, mas no de estar de acordo com a moral, com os bons princípios, o que é direito. 45© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL O que os filósofos dos tempos da Grécia antiga fizeram foi procurar conhecer as coisas “cientificamente”, indo além da ma- neira usual da época, que eram as explicações por meio dos mi- tos e lendas, e um dos principais meios de ensino-aprendizagem desse mundo grego foi a Filosofia. Ora, já sabemos que a palavra Filosofia significa amizade ou amor pela sabedoria. Os primeiros filósofos não desejavam ser chamados de sábios porque acreditavam saber pouco ou quase nada, embora gostassem do conhecimento e/ou amassem o sa- ber. Preferiam ser chamados de filósofos, que quer dizer “amigos do conhecimento”. Para os gregos, o filósofo traz em si um estado de inquieta- ção consigo mesmo, com as coisas, com o mundo ao seu redor. Essa inquietação se liga a uma sensação de admiração diante da realidade, resultando numa atitude crítica de tudo e da vida. Des- tarte, podemos dizer que o homem começou a filosofar quando adquiriu consciência de que poderia pensar sobre si e sobre o mundo, quando não se contentou com as explicações existentes. Para os gregos antigos, a filosofia era a mais alta expressão da busca pela essência das coisas, também por isso se diz hoje que essa é a ciência das causas primeiras ou das razões últimas. Trata-se mais da busca pela razão mais íntima do que pela verda- de plena. Essa busca é uma penetração de camada em camada da realidade que busca atingir o cerne, o âmago do objeto de- limitado para estudo. Quando se chega a esse ponto, conta-se que se chegou a uma “verdade”, ou a um “princípio”, ou ainda a um “pressuposto”. Sendo uma ciência das causas primeiras ou primeiros princípios, a filosofia pretende reduzir essa verdade a um conceito de modo que atinja juízos que integrem um sistema para a compreensão do todo, ou seja, ela busca produzir, com 46 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL certeza, verdades universais, tudo isso utilizando o raciocínio. Atualmente, acredita-se que a mãe de todas as ciências está pas- sando por uma crise em função de sua submissão à sua filha, a Ciência. O termo “ciência”, no sentido utilizado nos dias atuais, con- solidou-se somente no século 20; porém, o conceito de “ciên- cia” remonta mais ou menos ao século 17. Nessa época, não se distinguia “ciência” de “filosofia”, tudo era Filosofia, e a palavra “ciência”, que já existia (em latim scientia, e em grego episteme), era utilizada para diferenciar o tipo de conhecimento universal (Filosofia) do particular (Ciência). Mas será que o homem sem- pre aprendeu por meio da Ciência e da Filosofia? No princípio, era o mito A partir do século 5 antes de Cristo, o homem começou a formular explicações dos fatos e fenômenos mundanos por meio de sua razão. Porém, até então, todas as suas perguntas tinham sido respondidas pelas diferentes religiões, explicações essas transmitidas de geração em geração. A religião está ligada ao sagrado, às divindades, ultrapas- sando os poderes e as virtudes humanas. Nela figuram central- mente os deuses, com seus poderes, mitos e lendas. O Mito é uma história de deuses que objetiva dar respostas aos questiona- mentos humanos. Para que se concretize a religião, ou seja, para que o humano se ligue ao sagrado, é preciso utilizar um processo denominado “ritual”, que são práticas tradicionais transmitidas por pessoas, de geração em geração, incumbidas especialmente dessa finalidade – os religiosos ou sacerdotes. 47© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL Na Grécia antiga, havia uma comunidade religiosa na qual os homens partilhavam as mesmas crenças, os mesmos rituais e um mesmo santuário – a comunidade de Delfos –, em que os gregos se reuniam em ocasiões especiais, como nas Olimpíadas. Entre os gregos, poetas como Homero e Hesíodo (séc. IX a.C. e VIII a.C.), inspirados por divindades ligadas à música e à poesia, transmitiram a religião e a tradição oralmente. Lá, nesse momento, a religião era politeísta, isto é, os gregos acreditavam que vários deuses os concebiam e interferiam em suas vidas e, portanto, havia diversas crenças, cultos e práticas religiosas. Tudo estava relacionado aos deuses, aos seus humores, desejos, paixões. Por exemplo, se caía um raio em determinada região, era porque Zeus havia manifestado algum desejo; se as águas do mar estavam revoltas, era porque Possêidon poderia estar enfurecido com os homens, e assim por diante – inclusive os mortos, chamados de antepassados, eram cultuados pelas fa- mílias. Todavia, os gregos não se preocupavam muito com a vida após a morte, não tinham dogmas e rituais muito complicados nem sacerdotes profissionais. A religião era praticada principal- mente com o intuito de se obter recompensas materiais. Para os gregos, os deuses habitavam o Olimpo, um monte localizado no norte da Grécia, na Tessália, sempre com o cume coberto de neve – os deuses se reuniam nesse lugar para discutir os negócios do mundo. Acreditava-se que os principais deuses eram em número de doze: Zeus, deus do trovão, o mais podero- so de todos e o que dirigia as reuniões; Hera, sua esposa; Possêi- don, deus dos mares e que fazia tremer a terra; Deméter, a deusa da fertilidade da terra; Apolo, o deus da música; Atena, a deusa da sabedoria; Afrodite, a deusa do amor; Hefesto, o deus do fogo 48 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL e da metalurgia; Ares, o deus da guerra; Hermes, o deus mensa- geiro; Ártemis, a deusa caçadora; e Héstia, a deusa dos lares. Além desses, outros deuses que habitavam o Olimpo com a mesma importância dos anteriores eram Plutão ou Hades, deus do reino dos mortos; Dionísio, deus do vinho e da euforia; e Hebe, deusa da juventude. O valor dos deuses para os gregos e também para os demais povos antigos permite compreender a natureza, o universo do ser humano e da sociedade. Da curiosidade humana se desenvolveram os mitos, his- tórias pelas quais o homem explica sua origem e forma de ser. Mitologia é, portanto, o conjunto de mitos que constitui a me- mória de uma civilização, com seus valores, práticas, costumes, ideais, cultura e conhecimento. Existem inúmeros mitos em todo o mundo, alguns muito interessantes, como o mito grego sobre a criação da mulher. Segundo a mitologia grega, a primeira mulher surgiu como uma represáliade Zeus contra o roubo do fogo por Prometeu. Conforme o relato de Hesíodo: Filho de Jápeto, sobre todos hábil em tuas tramas, apraz-te fur- tar o fogo fraudando-me as entranhas; grande praga para ti e para os homens vindouros! Para esses em lugar do fogo eu da- rei um mal e todos se alegrarão no ânimo, mimando muito esse mal. Disse assim e gargalhou o pai dos homens e dos deuses; or- denou então ao ínclito Hefesto muito velozmente, terra à água misturar e aí pôr humana voz e força, e assemelhar de rosto às deusas imortais, esta bela e deleitável forma de virgem; e a Ate- na, ensinar os trabalhos [...] em seu peito, Hermes mensageiro [...] mentiras, sedutoras palavras e dissimulada conduta, forjou, por desígnios de Zeus. [...] e a esta mulher chamou Pandora porque todos os que têm olímpica morada, deram-lhe um dom, um mal aos homens que comem pão. (HESÍODO, 1996, p. 54). Essa mulher foi dada de presente ao irmão de Prometeu, Epi- meteu (o que vê depois), e trouxe consigo, em uma caixa (em algumas versões, num jarro), todos os dons maléficos que os 49© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL deuses lhe deram. Proibiu-lhe abri-la, mas ele, cada vez mais curioso, não aguentou e, vendo-se sozinho, abriu-a. De den- tro saíram as doenças, as infelicidades, todos os males que os homens não conheciam até então. Desde esse dia os homens passaram a sofrer, e os longos e despreocupados festins que tinham com os deuses nunca mais aconteceram. (HESÍODO, DEUSES E MITOS NA VIDA DOS GREGOS, 2014, p. 72). Nem só de gregos vive a mitologia. Roma, segundo mito corrente, foi fundada por Rômulo, menino criado por uma loba, em 21 de abril de 753 a.C. Além disso, os homens da Antiguidade imaginavam que os deuses tivessem poderes superiores aos humanos e, por isso, desejavam cair nas suas graças para obterem favores especiais; então, procuravam estabelecer laços afetivos, de trocas e de consultas, por meio dos cultos e rituais, em geral, realizados nos santuários. Os Santuários Pan-Helênicos eram os mais famosos da Grécia porque eram comuns a todos os gregos, que, para bus- car conselhos, se reuniam em suas portas, onde consultavam os deuses por meio dos sacerdotes. O mais importante de todos foi o santuário de Delfos, onde o deus Apolo falava pela boca da pitonisa, Pítia, que ficava sentada num banquinho sobre uma fenda aberta na terra, de onde subiam vapores inebriantes (ne- cessários para que Pítia entrasse em “transe” e o Deus Apolo se manifestasse), respondendo a todas as perguntas que eram interpretadas pelos sacerdotes. Todos os homens, inclusive os chefes de Estado, só decidiam suas questões após consultar o oráculo de Delfos. No templo, havia uma famosa inscrição: Conhece-te a ti mesmo! Era para lembrar os homens de que eles eram mortais e que ninguém podia fugir do seu destino. As “tragédias” gregas 50 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL são o exemplo das histórias de que as pessoas não podiam fugir do seu destino. O Rei Édipo, por exemplo, na tentativa de fugir de seu destino, acabou correndo ao seu encontro. Ora, toda a reli- gião grega, assim como suas tragédias, constituem os primeiros traços da instrução clássica. Era a exemplo dos deuses e seguindo as instruções dos sa- cerdotes que os gregos antigos aprendiam como se comportar em sociedade, qual a melhor época para plantar, para colher, para casar, para procriar. Ainda assim, era com o exemplo dos deuses que eles logravam identificar as paixões humanas na ten- tativa de dar-lhes algum sentido ou solução – e o que é isso se não educação? Todavia, a educação grega também foi mais do que isso. Homero e Hesíodo e o registro da Mitologia Por volta de 700 a.C., Homero e Hesíodo registraram boa parte da mitologia grega em seus trabalhos – A Odisseia, Ilíada, Os trabalhos e os dias e Teogonia. Esse registro permitiu que as pessoas daquela época conhecessem seus mitos de um modo diferente do que até então ocorria. Quando esses poetas e histo- riadores colocaram tais mitologias no papel, criou-se uma nova situação. Nessa época, os domínios gregos se ampliaram e muitas cidades-estados gregas e colônias surgiram. Nelas os escravos faziam o trabalho pesado e os cidadãos livres dedicavam-se à política e à cultura, por isso puderam se dedicar ao pensamento. Além disso, o alargamento do mundo grego promoveu no ho- mem a capacidade de comparar a sua cultura com as demais. Assim, notou-se que em diversas regiões havia mitos que corres- pondiam às necessidades e condições de cada população. 51© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL Os cidadãos começaram a pensar sobre os escritos de He- síodo e Homero, que falavam justamente sobre essa “grande- za do mundo”, e a criticar a mitologia grega, pois para eles os deuses do papel tinham muita semelhança com os homens, eles eram egoístas e traiçoeiros como os humanos e, pela primeira vez, foi dito que os mitos eram fruto da imaginação dos homens. Xenófanes (570 a.C.) criticou os mitos, dizendo que os homens criaram os deuses a sua imagem e semelhança – onde o povo era loiro, o deus era loiro, e onde o povo era negro, o deus era negro, e assim por diante. Passo a passo, os gregos notaram que a transmissão dos seus mitos para outros sítios, com a ajuda preciosa de obras como a Odisseia, facilitava seu domínio nesses lugares. Ou seja, foram os gregos que primeiro se deram conta do quanto o co- nhecimento e a cultura também representavam algum tipo de poder. Além do mais, o cidadão não dependia de nada e de nin- guém e podia opinar como quisesse sobre a organização social. Essa liberdade grega concorreu para que se passasse a formu- lar questões sem recorrer aos mitos, o que desencadeou uma transformação na forma de pensar, embora os mitos ainda não estivessem totalmente descartados. 6. OS PRIMEIROS FILÓSOFOS Grande exemplo do início da especulação filosófica grega foram os três de Mileto: Tales, Anaximandro e Anaxímenes. Tales era de uma cidade que era colônia da Grécia, Mileto, situada na Ásia Menor. Tendo conhecido inclusive o Egito, Tales considerava a água como a origem de tudo, talvez porque tivesse visto as cheias do Egito, que fecundavam os campos e depois faziam sur- gir as rãs e as minhocas. 52 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL Anaximandro também era de Mileto e achava que a Terra era um dos muitos mundos que surgem de alguma coisa e se dis- solvem nessa alguma coisa que ele chamava de “infinito”. Para ele, tudo o que é criado, é finito, e o que vem antes e depois do que é finito tem de ser infinito. Concluiu então que a água não poderia ser a “substância básica” de tudo o que existe. Anaxímenes pensou que o ar ou o sopro de ar era a subs- tância básica de todas as coisas. Ele conhecia a teoria da água de Tales, mas não compreendia de onde vinha a água; por isso, imaginou que a água fosse o ar condensado e, se esta estivesse comprimida, bem poderia ser a terra. Quanto ao fogo, acreditou que se tratava do ar rarefeito; portanto, terra, água e fogo, para ele, surgiram do ar. Da terra e da água teriam surgido as plantas. Numa coisa concordava com Tales, tudo provinha de uma subs- tância básica que se transformava na natureza. Mas se tudo provinha de uma substância básica, como essa substância poderia se transformar em tantas coisas, com- pletamente diferentes entre si? Os primeiros filósofos que se in- teressaram por essa questão foram os eleatas, povo que viveu em cerca de 500 a.C. na colônia grega de Eleia, no sul da Itália. Parmênides (540-480 a.C.) acreditou que tudo o que existe sempre existiu, como a maior parte dos gregos,e assim nada poderia surgir do nada, e coisa nenhuma que existe poderia se modificar em nada, pois não acreditava que as coisas pudessem se transformar em algo diferente do que são, embora compreen- desse que havia transformações na natureza. Parmênides não confiava nem nos próprios sentidos, só na razão, porque dizia que os sentidos fornecem uma ilusão irreal. Ele era racionalista, ou seja, alguém que tem grande confiança na razão humana, en- quanto fonte de conhecimento do mundo. 53© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL Heráclito (540-480 a.C.) era de Éfeso, na Ásia Menor, e, para ele, as constantes variações da natureza eram justamen- te a característica mais fundamental da natureza. Ao contrário de Parmênides, Heráclito confiava nos seus sentidos e dizia que tudo flui, tudo está em movimento e nada dura para sempre, daí não podermos entrar duas vezes no mesmo rio, porque quando entramos pela segunda vez, tanto o rio quanto nós já não somos mais os mesmos. Heráclito achava que o mundo está cheio de opostos – por exemplo, se nunca ficarmos doentes não sabere- mos o valor da saúde, que o bem e o mal são coisas necessárias, que o mundo não existiria sem seus contrastes. Para ele, Deus ou o elemento divino é algo que abrange o mundo inteiro. Heráclito também confiava que havia uma razão universal, uma lei universal, que dirigia todos os fenômenos da natureza e a partir da qual todos se orientariam mesmo cada qual viven- do conforme sua própria razão. Ele não dava muita importância para a opinião das pessoas que o cercavam, pois as achava infan- tis. Em todas as alterações e oposições da natureza ele via uma unidade, um todo, e essa “alguma coisa”, que era subjacente a tudo, ele chamava de Deus ou de logos, palavra grega que signi- fica “razão”. Empédocles (494-434 a.C.) pensou que tanto Parmênides quanto Heráclito tinham razão em uma de suas afirmações, mas estavam enganados quanto à outra – Parmênides tinha razão em afirmar que nada se transforma sozinho, e Heráclito, em afirmar que era preciso confiar em nossos sentidos (a água sozinha ja- mais se transformará em peixe, mas precisamos acreditar nas constantes transformações que vemos). Empédocles concluiu então que a substância básica não poderia ser única. Afirmou, por sua vez, que eram quatro: ter- ra, ar, fogo e água, e que todas as transformações resultariam 54 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL da combinação desses elementos em diferentes proporções de mistura que novamente se separariam um do outro, retornan- do ao seu conjunto igual para se combinarem novamente. Por exemplo: a madeira quando queima, ao estalar, é água; ao emitir fumaça, é ar; quando as chamas se apagam e sobram cinzas, é terra. Além disso, ele pensou no que ocorreria para que esses elementos se unissem para se tornarem madeira e consequente- mente o que aconteceria para que essa madeira se desintegras- se. Empédocles imaginou que existem duas forças na natureza: o amor, que une, e a disputa, que desagrega. Anaxágoras (500-428 a.C.) foi o primeiro filósofo de Ate- nas. Mudou para lá aos 40 anos e de lá teve que partir, acusado de ateísmo. Esse filósofo, diferentemente dos demais, não acre- ditou que água, ar, fogo e terra pudessem se transformar em os- sos, pele ou cabelos. Achava que a natureza era composta por uma infinidade de partículas minúsculas, invisíveis a olho nu e que na menor parte de tudo existia um pouco de tudo (o que podemos associar às teorias de DNA). Disse também que o Sol não era um Deus, mas uma massa incandescente maior que a Península do Peloponeso (o que pode ser associado a Galileu). Demócrito (460-370 a.C.) foi o último filósofo da nature- za nascido em Abdera, ao norte do mar Egeu, uma cidade por- tuária. Demócrito criou o que hoje se chamaria Teoria Atômica, pois acreditava, assim como seus antecessores, que as coisas se transformavam na natureza, que era construída por uma infini- dade de partículas minúsculas, invisíveis, às quais denominou “átomos”, que quer dizer “indivisível”. Para ele, cada átomo não poderia ser dividido em unida- des menores porque, se isso fosse possível, essas partículas se 55© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL desintegrariam, e a natureza acabaria. Também afirmou que os átomos eram eternos, pois nada pode surgir do nada, eles não se criariam sozinhos; contudo, essas unidades, os átomos, eram diferentes uns dos outros, e era esse fato que possibilitava as transformações de todas as coisas. Quando elas morriam, retor- navam à natureza para originar outras coisas. Demócrito estava certo, menos numa assertiva: os átomos ainda podem ser dividi- dos em prótons, elétrons e nêutrons. Mas os cientistas de hoje também acreditam que ainda haverá um limite para essa divisão do átomo. Ele acreditava que só existia o átomo e o vácuo, que tudo era uma questão de combinação, sem força ou inteligência para unir ou desagregar, por isso, ele é chamado de materialista. Esses pensadores foram muito importantes na História, pois com eles houve o “despertar do pensamento humano”, para que o homem passasse a buscar a compreensão do mundo que o cercava, por meio de seu raciocínio e da observação, abando- nando as explicações mitológicas. Com eles, a educação também ganha novas abordagens, passa a se basear menos nos relatos do passado e mais na observação, reflexão e discussão dos fe- nômenos da natureza. Obviamente, os grupos que se dedicam a esses estudos são ainda muito restritos e sua atividade, em certa medida, diletante. 7. SÓCRATES, A FILOSOFIA SE CONSOLIDA Sócrates (470 a 399 a.C.) viveu o apogeu e a crise da demo- cracia ateniense, em que a vida cultural era intensa, com grandes escultores e artistas, dramaturgos como Ésquilo, historiadores como Heródoto e Tucídides, médicos como Hipócrates e homens públicos como Péricles, mas todo esse esplendor custou a riva- lidade com Esparta, o que acabou desencadeando a Guerra do 56 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL Peloponeso, sendo Atenas derrotada. A democracia enfraqueci- da por corrupções e conspirações cede lugar à tirania; os valores políticos e morais e a condenação de Sócrates, em 399 a.C., são o retrato dessa decadência. Sócrates foi casado com Xantipa. Guerreiro quando jovem, foi condecorado com um prêmio de bravura. Na maturidade, foi Senador e depois se dedicou à arte de esculpir e à filosofia. Seu temperamento era exótico, costumava abordar as pessoas na rua, perguntando: Quem é você? (To ti?) E quando a pessoa res- pondia, ele continuava perguntando, como se não tivesse ouvido a resposta. Sócrates queria que as pessoas percebessem o quan- to eram ignorantes e o quanto precisavam aprender – “Conhece- -te a ti mesmo!”, dizia ele. Mas os atenienses ficavam horroriza- dos com esse comportamento, pois se sentiam ridicularizados, e foi o que bastou para que importantes cidadãos se sentissem ofendidos e o acusassem de um crime: adoração a outros deuses que não os da cidade e a corrupção da mocidade, o que resultou em uma condenação à pena de morte. Sócrates foi a julgamento e, se pedisse clemência, sua vida lhe seria poupada, e ele seria exilado. No entanto, Sócrates não se defendeu nem pediu cle- mência. Platão descreve em Fedon o dia final da morte de Sócra- tes, que sucumbiu envenenado pela cicuta. Sócrates desenvolveu um método muito diferente, a maiêutica, ele não queria ensinar as pessoas, ele dialogava, dis- cutia fazendo a própria pessoa chegar à resposta. Para que as pessoas usassem a razão, Sócrates fingia-se de ignorante, e a essa forma de comportamento se deu o nome de “ironia socrá-tica”. Para ele, o importante era encontrar um alicerce seguro para os nossos conhecimentos, e ele pensava que esse alicerce estava na razão humana; foi, portanto, um racionalista convic- to. Pensava que o conhecimento do que é certo poderia levar o 57© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL homem a agir corretamente, tornando-o um homem de verda- de – segundo ele, quando fazemos o errado, é por puro desco- nhecimento. Por isso a importância do saber, do conhecer, de se ampliar os conhecimentos. No entanto, acreditava que houvesse uma unidade universal do que é o correto, do que seria certo em qualquer lugar do mundo. Sócrates teve muitos discípulos, e um dos que mais se destacaram foi Platão. História e Cinema –––––––––––––––––––––––––––––––––– Roberto Rosselini foi um diretor de teatro italiano que construiu sua carreira fazendo “filmes históricos”. Um dos mais famosos é Sócrates, em que a vida desse importante filósofo grego é contada de maneira detalhada. O filme, de 1971, está disponível no YouTube (2014). –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Platão (427-347 a.C.) forjou um modelo pedagógico a par- tir dos ensinamentos de Sócrates e Isócrates (professor de elo- quência, 436-338 a.C.). O modelo platônico é de base idealista e se divide em dois tipos de paideia: uma mais socrática, voltada para a contemplação e o cultivo da espiritualidade, e a outra, política, mais preocupada com os papéis sociais dos indivíduos. Dividida entre governantes, guerreiros e produtores, a sociedade ateniense ofertava três diferentes tipos de educação nessa época, e a proposta de Platão era unificá-las em um dado momento, para benefício de todos. 8. INSTRUÇÃO NA ROMA ANTIGA O livro Carne e Pedra: o corpo e a cidade na civilização oci- dental, de Richard Sennett, é resultado de estudos empreendi- dos por um grupo que trazia, em sua origem, a participação de Michel Foucault. Na explicação de seu recorte, escreveu Sennett: 58 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL Estudei algumas cidades em momentos específicos, marcados pela eclosão de guerras ou revoluções, a inauguração de um monumento, o anúncio de uma descoberta médica ou a publi- cação de uma obra, que tenham assinalado significativamente as relações entre as experiências corporais e os espaços em que as pessoas viviam. (SENNETT, 2001, p. 20). A respeito de Roma, na época do imperador Adriano, o au- tor escreveu: A obsessão romana por representações plásticas de pessoas ou objetos valia-se de um arranjo geométrico, fundamentado em princípios tranquilizadores que o próprio corpo podia perceber. Mais de um século antes de Adriano, o arquiteto Vitrúvio de- monstrava que a estrutura corporal obedece a relações equiva- lentes de forma e dimensão, principalmente no que diz respeito às simetrias bilaterais dos ossos e dos músculos, dos ouvidos e dos olhos. Estudando essa harmonia, Vitrúvio concluiu que poderia traduzi-la na arquitetura de um templo. A partir desse mesmo imaginário, outros romanos planejaram cidades com base nas regras da correspondência bilateral e privilegiando a percepção visual linear. Da fórmula do geômetra nasceu a Re- gra; as linhas dos corpos, templos e cidades revelaram os princí- pios de uma sociedade bem organizada. (SENNETT, 2001, p. 23). Nesse livro, a arquitetura das cidades é estudada como uma expressão da cultura dos homens que ali viveram. Roma é vista a partir da época do imperador Adriano (aquele mesmo do romance Memórias de Adriano, escrito por Marguerite de Your- cenar). Além disso, Sennett destaca, em um modo de morar, de viver, um modo de apreender o mundo, de aprender nele. É somente nos séculos 3 a.C. que a instrução livresca se estabelece na Roma Antiga. Dos 0 aos 7 anos, a instrução era materna. Dos 7 em diante, a criança acompanhava o pai para aprender por observação. Aos 16 anos, o jovem passava à instru- ção militar, tendo ali um tutor amigo da família como orientador 59© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL e protetor. Após o serviço militar, era comum que se passasse ao estudo do Direito e da Retórica, de uma maneira muito autodi- data, diga-se de passagem. Nesse ponto, o estudo da Eneida, de Virgílio, era essencial, assim como dos tratados do grande orador romano Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.). O tratado de Cícero é mais prático, já o de Aristóteles, mais teórico. Se você tiver inte- resse no assunto, pode ler o trabalho desse último em Aristóte- les: obras completas. (ARISTÓTELES, 2005). As escolas eram divididas em três níveis: nível elementar, que consistia em aprender a ler, escrever e calcular; nível se- cundário, com aprendizado de música, Geometria, Astronomia, Literatura (na forma de gramática dos textos gregos e latinos), Oratória; e escolas de retórica (política, forense, filosófica etc.). 9. SINTETIZANDO • A educação na Grécia antiga teve como base a Paideia, que, entre outras definições, pode ser entendida como o ideal de formação do homem pela cultura, buscando uma formação total e a perfeição interior. Efetivada so- mente nos séculos 3-2 a.C., essa educação era técnica (sentidos) e moral (ideal heroico). Em Esparta, os ensi- namentos eram todos voltados para a guerra. Em Ate- nas, o ensino era politizado. Em ambas, a oralidade era o principal meio de ensino. • Para os gregos dos séculos 6 e 5 a.C., em especial para Platão, conhecer era transportar por todos os meios e formas para dentro do nosso eu interior algo que ima- ginamos estar fora de nós mesmos. A percepção que os gregos tiveram do conhecimento contribuiu para a maneira como o entendemos hoje. Na atualidade, o 60 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL conhecimento é distinguido entre conhecimento vul- gar, científico e filosófico. Para os gregos, o filósofo era portador de um estado de inquietação generalizado, e a Filosofia era a mais alta expressão da busca pela es- sência das coisas; todavia, o mito foi a primeira forma de explicá-las. • O mito é uma história de deuses que objetiva dar res- postas aos questionamentos humanos. Na Grécia anti- ga, havia uma comunidade religiosa na qual os homens partilhavam as mesmas crenças, os mesmos rituais e um mesmo santuário, a comunidade de Delfos, em que os gregos se reuniam em ocasiões especiais, como nas olimpíadas. Entre os gregos, poetas como Homero e He- síodo (séc. IX a.C. e VIII a.C.), inspirados por divindades ligadas à música e à poesia, transmitiram a religião e a tradição oralmente. Passo a passo, os gregos notaram que a transmissão dos seus mitos para outros sítios, com a ajuda preciosa de obras como A Odisseia, facilita- va seu domínio nesses lugares. A religião era politeísta, e os santuários pan-helênicos, os mais famosos da Gré- cia. Era com o exemplo dos deuses que eles logravam identificar as paixões humanas na tentativa de dar-lhes algum sentido ou solução, constituindo a religião uma forma de educação. • A especulação grega teve início com os três de Mileto: Tales, Anaximandro e Anaxímenes. Parmênides (540- 480 a.C.) também contribuiu para o início da Filosofia e do conhecimento grego, assim como Heráclito (540-480 a.C.), Empédocles (494-434 a.C.), Anaxágoras (500-428 a.C.) e Demócrito (460-370 a.C.), entre outros. Todos eles ficaram conhecidos como os primeiros sofistas ou 61© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL filósofos da natureza, por se ocuparem de observar e refletir sobre o mundo que os rodeava. • Com Sócrates (470 a 399 a.C.), a filosofia grega se con- solida, embora não se registre.Sócrates tinha um méto- do muito diferente, a maiêutica. Ele não queria ensinar as pessoas, ele dialogava, discutia, fazendo a própria pessoa chegar à resposta. Sócrates teve muitos discípu- los, e um dos que mais se destacaram foi Platão. Este (427-347 a.C.) forjou um modelo pedagógico a partir dos ensinamentos de Sócrates e Isócrates (professor de eloquência, 436-338 a.C.). O modelo platônico é de base idealista e se divide em dois tipos de paideia: uma mais socrática, voltada para a contemplação e o cultivo da espiritualidade, e a outra política, mais preocupada com os papéis sociais dos indivíduos. • Na Roma antiga, somente nos séculos 3 a.C. é que a ins- trução livresca se estabelece na Roma Antiga. Dos 0 aos 7 anos, a instrução era materna. Dos 7 anos em diante, a criança acompanhava o pai para aprender por obser- vação. Aos 16 anos, o jovem passava à instrução militar, tendo ali um tutor amigo da família como orientador e protetor. Após o serviço militar, era comum que se pas- sasse ao estudo do Direito e da Retórica, sobretudo com o uso dos escritos de Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.). • As escolas eram divididas em três níveis: nível elemen- tar, que consistia em aprender a ler, escrever e calcular; nível secundário, com aprendizado de Música, Geome- tria, Astronomia, Literatura (na forma de gramática dos textos gregos e latinos), Oratória; e escolas de retórica (política, forense, filosófica etc.). 62 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL 10. TEXTOS COMPLEMENTARES Para que você se aprofunde um pouco mais no tema apre- sentado ao longo de nossas unidades, vamos sempre sugerir a leitura de um artigo ou de um livro, bem como que você assista a um vídeo ou filme. Ética e educação clássica: virtude e felicidade no justo meio ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– O presente estudo debruça-se sobre a interface do problema educativo com a problemática da ética, compreendendo a pedagogia com a arte/ciência volta- da para a busca do bem educar/instruir/formar. Para tanto, o texto mobilizará conceitos da concepção ética da Aristóteles e, na atmosfera mental da Grécia clássica, recorre-se ao termo específico grego e transdisciplinar na origem: paideia. A seguir, este ensaio procura pontuar alguns aspectos da concepção iluminista a propósito do tema, valendo-se da noção kantiana de imperativo categórico, a qual teria sido precedida pelo parecer de Rousseau, segundo o qual a vontade – e não a razão – seria a marca distintiva do gênero humano no ambiente natural. A ideia de Piaget de uma ética da reciprocidade também é aqui mobilizada. Abordando diacronicamente a temática, serão analisados conceitos de autores clássicos no debate da relação entre educação e ética, com destaque para o sentido conferido por Hanna Arendt para a autoridade como critério distintivo da relação assimétrica entre o educador (as gerações adultas de maneira geral) e os estudantes (ou as novas gerações). Arendt de- fende, como conceito e pressuposto operatório, a dimensão necessariamente conservadora do ato educativo: compete ao educador preservar do mundo as novas gerações e preservar o mundo das novas gerações – para que estas não destruam o suporte e o acervo cultural acumulados. –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Paideia, a formação do homem grego –––––––––––––––––– Esta obra busca ser um estudo profundo e completo sobre os ideais de educa- ção da Grécia antiga. Jaeger estudou a interação entre o processo histórico da formação do homem grego e o processo espiritual através do qual os gregos chegaram a elaborar seu ideal de humanidade. A partir da solução histórica e espiritual, foi possível chegar ao entendimento da criação educativa sem par de onde se irradia a imorredoura influência dos gregos sobre todos os séculos. –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– 63© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL Videoaula 1: Educação na Antiguidade, o que ela nos legou? –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Essa aula trata das primeiras práticas, concepções e teorias filosóficas dos antigos gregos e romanos sobre escola e educação, possibilitando a reflexão sobre os aspectos que ainda são atuais e importantes para a educação contemporânea. –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Como vimos, a educação está profundamente relacionada com a visão que o homem tem do mundo. Mas que visão é essa, e como ele chega a ela? Eis a pergunta que a antropóloga Maria Raquel da Cruz Duran se fez em um de seus trabalhos acadêmicos e cujo percurso acompanharemos neste texto complementar. Escavação: a busca da visão íntima do mundo –––––––––– Escavação Numa ânsia de ter alguma cousa, Divago por mim mesmo a procurar, Desço-me todo, em vão, sem nada achar, E minh’alma perdida não repousa! Nada tendo, decido-me a criar: Brando a espada: sou luz harmoniosa. E chama genial que tudo ousa Unicamente à força de sonhar... Mas a vitória fulva esvai-se logo... E cinzas, cinzas só, em vez do fogo... -Onde existo que não existo em mim? Um cemitério falso sem ossadas, Noites d’amor sem bocas esmagadas – 64 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL Tudo outro espasmo que princípio ou fim... (SÁ-CARNEIRO, 2001) Nesta poesia do livro Obra Poética Completa, de Mário de Sá-Carneiro – poeta brasileiro do século 20 – os temas apontados na introdução como significativos para a compreensão dos Weblogs estão frisados. Para explicar melhor esta afirmação, discorreremos sobre o texto intitulado Mundialização e Cultura, de Renato Ortiz. Inúmeros são os exemplos citados por Ortiz para explicar o que seria, para ele, a mundialização da cultura. A mundialização da cultura seria uma transforma- ção da característica específica de cada categoria da cultura – por exemplo, o espaço, o tempo, as relações sociais, como lidamos com estas categorias etc. – em algo mundializado, ou seja, sem orientação cultural, algo móvel, anô- nimo, sem pátria. A cultura neste contexto passa a ser desterritorializada, pois as referências culturais devem se desenraizar. Reconhecemos este movimento quando nos deparamos com locais comuns a nossa ideia de mundo em outros países, de culturas diferentes. Ortiz pensa isso quando observa nosso agir de for- ma natural em aeroportos ou cidades turísticas, onde as posições-padrão de determinados serviços nos fazem agir como se conhecêssemos o ambiente, nos fazendo sentir “em casa”. Este “reconhecer” estaria ligado a “mobília” da mundialização, que seria uma série de produtos, os quais estaríamos aptos a entender como nossos, ou melhor, do mundo. Marcas como a Coca-Cola, a Renault, o McDonald’s, Revlon, Sony, entre ou- tras mobiliam o ambiente mundializado, que nesta perspectiva está intimamen- te ligado ao consumo – não só de produtos, mas também de um sistema de valores. Insere-se aqui o papel da mídia. A mídia seria o instrumento ideal do consumo e aceitação deste sistema de valores, desta produção da mundialização. Na mídia, nos aconselhamos so- bre diversos assuntos na tentativa de obtermos maior segurança e autorrea- lização neste ambiente de relações móveis, anônimas, segmentadas. É pela mídia que podemos nos deparar com discursos (re)produtores deste sistema de valores moderno, é por ela que reconhecemos os tipos/estilos de vida que devemos consumir, que devemos idealizar, perseguir, comprar. Esta sensação de estarmos no mesmo lugar sempre, parecendo-nos que a vida está se repetindo, decorrente da prolongação do presente feita pela desterritorialização da cultura, nos traz a necessidade de construir uma outra ordem, a utópica, realidade esta em que homogeneização e segmentação po- dem coabitar, não são pensamentos dialéticos, realidade emque a falácia de que o poder é democrático e universal se descortina. Realidade diferente desta moderna, e consequentemente, desta realidade que mundializa a cultura, em 65© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL que a capacidade de escolha do indivíduo o oprime, tal como situou Mário de Sá-Carneiro e agora Fernando Pessoa: Tornamo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é o divino. (PESSOA, 1999, p. 60). “Decifra-me ou devoro-te” – estas são as palavras mágicas da modernidade. A união de influências globalizantes a disposições pessoais é uma caracterís- tica central na modernidade. Há uma reflexividade do eu e do institucional, de forma que as certezas da tradição e do hábito sejam substituídas pelo conhe- cimento racional, onde o princípio da dúvida transforma todo conhecimento em hipótese sobre si mesmo. Desta maneira, o eu é construído reflexivamente, assim como a sociedade e o viver social. “A modernidade é uma cultura de risco”, como diria Giddens (2002, p. 11). O construir-se, ao mesmo tempo em que, sendo construído da sociedade mo- derna, cria processos de reorganização do tempo e do espaço. Produzem- -se mecanismos de desencaixe destas categorias, sendo que “a influência de acontecimentos distantes sobre eventos próximos, e sobre as intimidades do eu, se torna cada vez mais comum” (2002, p. 12). O futuro é sempre pensado no presente, que reflete sobre si ao construir-se, já atento para o que resultará de sua formação e/ou realização no agora. Nesta perspectiva, a modernidade e o princípio de dúvida sobre a cultura, a tradição e a forma de aplicabilidade destas no privado e no público criam em torno de si uma atmosfera em que o risco está sempre presente, marcante. É como se soubéssemos que nossas decisões atuais serão, ou nossas tristezas ou nossas alegrias, num futuro pró- ximo. A senha da esfinge nunca esteve tão bem representada no imaginário humano. Insere-se neste âmbito uma série de diversidades de opções para a escolha de um estilo de vida, numa constituição reflexivamente organizada da auto- -identidade, da atividade diária, enfim, da base estrutural da sociedade; esta multiplicidade de opções fragmenta a vida em planejamentos para a mesma – a exclusão, a marginalização e as diferenças encaixam-se aqui, pois uns têm mais oportunidades de escolha do que outros. A ameaça em escolher erronea- mente permeia este mecanismo que está no meio de um jogo dialético entre local e global, distanciados. Entre as outras características da modernidade e da mundialização da cultura já citadas aqui – distanciamento e esvaziamento do tempo e do espaço, dis- persão e fragmentação pela dúvida, dinamização, ascensão da organização produzida pela autorreflexividade do eu e do viver socialmente, entre outras – estão as transformações na autoidentidade diretamente ligadas às conexões sociais de grande amplitude, como aborda Giddens primordialmente, dizendo 66 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL que “o nível do distanciamento tempo-espaço introduzido pela alta modernida- de é tão amplo que, pela primeira vez na história humana, ‘eu’ e ‘sociedade’ estão inter-relacionados num meio global” (2002, p. 36). As crises pessoais passam a ser características gerais da atividade social moderna, relacionadas à formação psíquica. Sendo assim, aponta Richard Sennett: O eu de cada pessoa tornou-se o seu próprio fardo; conhecer-se a si mesmo tornou-se antes uma finalidade do que um meio através do qual se conhece o mundo. E precisamente porque estamos tão absortos em nós mesmos é-nos extremante difícil chegar a um princípio privado, dar qualquer explicação clara para nós mesmos ou para os outros daquilo que são as nossas personalida- des. A razão está em que, quanto mais privatizada é a psique, menos estimu- lada ela será e tanto mais nos será difícil sentir ou exprimir sentimentos. [...] Multidões de pessoas estão preocupadas, mais do que nunca, apenas com as histórias de suas próprias vidas e com suas emoções particulares; esta preo- cupação tem demonstrado ser mais uma armadilha do que uma libertação. Como essa imaginação psicológica da vida tem consequências sociais am- plas, quero chamá-la por um nome que pode parecer inadequado à primeira vista: esta imaginação é uma visão íntima da sociedade. “Intimidade” conota calor, confiança e expressão aberta de sentimentos. Mas, precisamente por- que acabamos por esperar tais benefícios psicológicos permeando a gama de nossas experiências e precisamente porque muita vida social que tem uma significação não pode conceber tais recompensas psicológicas, o mundo ex- terior, o mundo impessoal, parece nos decepcionar, parece rançoso e vazio. (SENNETT, 1988, p. 16-7) A problemática moderna está, portanto, em querermos a liberdade de arbitrar nossas vidas simultaneamente ao desejo de segurança de que este livre-arbí- trio não nos cause nenhum mal, pelo excesso de domínio do homem. A relação contraditória entre mundializar o homem e o personificar aparece como padrão de legitimidade social. A indústria cultural globalizada molda os mecanismos que a totalidade mundializada utiliza, pois não há restrições de domínios para a mídia. A padronização desses mecanismos feita pela mídia - numa escala de maior divulgação – aproxima comportamentos, principalmente os de consumo (i)materiais. Edgar Morin, em seu livro A cultura de massa, afirma a existência da indus- trialização do espírito e da colonização da alma, demonstra como a cultura de massa (re)afirma/legitima uma série de diálogos postos ideal e materialmente pela cultura erudita/dominante, e dentro disso a penetração da mídia na vida cotidiana e as peculiaridades das relações sociais que se dão no real, no ideal e no virtual. O público consome o produto (simbólico ou não) veiculado pela mí- dia, ao mesmo tempo em que produz esta informação, que é transmitida pela própria mídia. A industrialização no âmbito material transformou a cultura, os 67© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL sujeitos, os objetos e suas relações, da mesma forma que a colonização ideal e materialmente transformou nossas vivências e pensamentos. No A identidade cultural na pós-modernidade, de Stuart Hall, observamos a veiculação desta mesma reflexão feita por Giddens, Morin e Ortiz: A internalização do exterior e a externalização do interior do sujeito feita pela sua ação no mundo social faria deste um sujeito que nasce e morre rapida- mente, pois o sujeito moderno está, ao mesmo tempo, na condição de impor sua individualidade ao mundo e de receber do mundo uma série de padrões de comportamento que moldam esta individualidade, que pelo “livre-arbítrio” o sujeito optaria. A relação desta teoria com a indústria cultural é óbvia, pois ela permeia este jogo de influências, contribuindo para sua afirmação e negação. Em A invenção do cotidiano, de Michel de Certeau, o consumo é o espaço de produção de sentido, do ideal. O produto que se consome é pensado sob a ótica do que as pessoas irão fazer dele. O que o consumidor faz do produto é pensado por Certeau em duas categorias-chave: a estratégia (cálculo de base das relações entre consumidores e produto, produção e consumo e entre produções) e a tática (opera na lógica do outro, “para subverter o domínio do dominador deve-se falar a língua dele”). O embate entre quem é o produtor e quem é produto, nas relações entre real e ideal, recebe atenção nesta te- mática. Na mesma concepção de Morin, a retroalimentação cultural/socialé observada em Certeau: “A mídia, enquanto produtora de cultura, a distingue conforme a pedida do consumidor, agindo numa estratégia e numa tática (ou várias)”. Sendo o consumo o espaço de produção do sentido, tudo se resumiria à rela- ção “consumidor – produto”, pois ao consumir um produto o consumidor estaria se permitindo o reproduzir de um novo sentido, ou a autoafirmação de um determinado sentido em sua vida, adquirido como produto. Neste contexto, a mídia seria o instrumento propiciador de relações entre consumo e produção na vida contemporânea, por meio inclusive – o que nos interessa – do discurso. Portanto, o ideal e o real são de naturezas coabitantes neste jogo de poderes, legitimação e de consumo. O ideal se efetua nas ações do material, ambos constroem processos de trabalho que comportam atos simbólicos, que agem sobre poderes invisíveis que controlam a reprodução da natureza e são tidos como podendo ou não conceder ao homem o que ele espera/deseja, ou seja, a realidade social. Em A parte ideal do real, Maurice Godelier diz que o pensa- mento (o ideal) produz sentido quando apresenta, interpreta, organiza e legiti- ma (ou não) as representações do real/material, anteriores ao pensar – pois já existem sem depender dele. A partir desta teoria, Godelier adentra a questão do que é ou não ideológico, dos discursos de legitimação, sendo que, nesta discussão, afirma ser 68 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL [...] impossível separar as representações que legitimam daquelas que organi- zam, e opô-las como ideológicas e não ideológicas, pois não se pode organizar um poder de opressão durável a não ser que se lhe dê a forma de uma troca, de um contrato, isto é, tornando-o legítimo de alguma maneira, transformando- -o em “compromisso recíproco” entre dominadores e dominados (GODELIER, 1978, p. 200). Neste sentido, quais seriam as representações que legitimam, ou que organi- zam, o discurso sobre o que é ser feliz? Poderíamos situar o discurso sobre a felicidade como uma ideologia, ou como uma não ideologia? Quais são as problemáticas que a mundialização da cultura traz para a reflexão sobre o ideal e o real? Como interpretar o ideal e o real dentro do ambiente virtual? E mais: o discurso da felicidade neste ambiente engendra os mesmos problemas que no contexto fora do virtual? A indústria cultural moldaria a visão de um “produto” como o mais digno ou não para consumo? Em reflexão sobre autores como Benjamin e Adorno, Martin-Barbero aponta para a banalização da vida cotidiana pela indústria cultural e a valorização da arte justamente por ser uma mercadoria distante desta vida. Esta negação se dá pela ideia de busca utópica de uma realidade diferente desta, que nos seria estranha. A aura da arte estaria neste afastamento do real, no vivenciar do ideal, sendo que a aproximação da arte à cultura das massas seria a deca- dência de sua sublime capacidade perceptiva do Belo – isto para Adorno, pois para Benjamin a aproximação é profícua. O sujeito, na vida contemporânea, não mais submerge da arte, mas sim de si mesmo. O intercâmbio entre imaginário e real e não mais o distanciamen- to entre eles constituem os novos espaços de conflitos e de afloramento da subjetividade moderna. Ao confrontar as divergentes teorias, Barbero tenciona outra discussão, àquela que reflete a si próprio, a crise da crítica, não mais a crítica da crise. A reflexão acerca da penetração da mídia na vida cotidiana nos leva a outras questões neste autor, referentes à construção da mídia enquanto instrumento transmissor, e que capta, a vida cotidiana em sua negatividade e positividade, como algo real e ideal que, em movimento simultâneo, penetra nossas vidas. Assim sendo, o modo como enxergamos a felicidade, dentro do que tentamos alcançar, é um valor cultural, parte de um sistema socioeconômico vigente, e não um conceito em si; ou seria o contrário? Disse Freud: A felicidade não é um valor cultural. A felicidade deve estar subordinada à dis- ciplina do trabalho como ocupação integral, à disciplina da reprodução mono- gâmica, ao sistema estabelecido de lei e ordem. O sacrifício metódico da libido, a sua sujeição rigidamente imposta às atividades e expressões socialmente úteis, é cultura. (MARCUSE, 1968, p. 27). 69© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL Desta forma, assim como uma vida religiosa mais ascética produziu um povo capaz de conviver com uma “gratificação retardada”, a crença no reconheci- mento futuro do trabalho efetuado, que o trabalho moderno então proporciona- va (JAMESON, 1991, p. 18). Na contemporaneidade, o “infotrabalhador” ou o trabalhador cognitivo é produzido para esta nova etapa do processo de desen- volvimento do capitalismo, em que a cognição humana é utilizada não para o prazer, mas para uma reprodução mais elaborada do sistema, bem como nos abalizou Berardi. O infotrabalhador talvez possa ser descrito como um artesão, porque muitas vezes tem o poder de organizar seu tempo, suas relações. Seu desejo segue diretrizes de forte desterritorialização, de forte densidade. [...] O investimento de desejo, que para o artesão fortemente ligado às necessidades da comuni- dade territorial, tinha um caráter tranquilizante, para o infotrabalhador segue linhas ansiógenas, não tranquilizantes, linhas continuamente redefinidas. [...] O trabalho cognitivo é essencialmente trabalho da comunicação, ou comunica- ção empenhada em trabalhar. (BERARDI, 2005, p. 49) Esta lógica é corroborada por meio da obra A fábrica da infelicidade, em que Berardi resume sua tese central nas palavras seguintes: A questão pode ser entendida de duas maneiras. A riqueza entendida como fruição diminui proporcionalmente ao aumento da riqueza como acumulação econômica, pela simples razão de que o tempo mental é destinado a acumular, e não a fruir. Por outro lado, a riqueza entendida como acumulação econô- mica aumenta quando se reduz o prazer dispersivo da fruição, enquanto, em consequência, o sistema nervoso social é submetido a uma contração e a um estresse sem os quais não pode haver acumulação. As duas perspectivas, embora distintas, resolvem-se num mesmo efeito: a ex- pansão da esfera econômica coincide com uma redução da esfera erótica. Quando as coisas, os corpos, os sinais começam a fazer parte do modelo semiótico da economia, a experiência da riqueza pode acontecer somente de maneira mediata, reflexa, adiada. Como num jogo infinito de espelhos, no qual o que se vive de verdade é a produção de escassez, de necessidades, compensada por um consumo veloz culpado e neurótico, porque não se deve perder tempo, é preciso voltar ao trabalho. A riqueza então não é apenas frui- ção no tempo das coisas, dos corpos e dos sinais, mas produção acelerada e expansiva de sua falta, transformada em valor de troca, em ânsia. (BERARDI, 2005, p. 45). Ao costurar pretensamente os textos de Barbero, Ortiz, Morin e Hall, tencio- namos elaborar um fechamento de contexto, qual seja, aquele em que a feli- cidade desponta como discurso que afirma toda a dualidade entre real e ideal que se quer construir na indústria cultural, ao diferenciar culturas, consumos, indivíduos, relações, todas elas rotineiramente vivenciadas como naturais. 70 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL Isto posto é possível captar a “utilidade” existente em justificar tal prática ideo- lógica: comum em mitologias modernas como Prometeu, Fausto, Frankens- tein, entre outras. Nelas, certifica-se que o resultado da desobediência humana perante as ordens divinas é fruto da cisão entre humanidade e mundo, da invenção de que a verdade do mundo se disfarçou e que, portanto, vivencia- mos o mito da caverna parafraseando com simulações dafelicidade suprema. Todavia, sendo a felicidade filha pródiga da perfeição, do ideal, e o mundo uma imperfeição, um purgatório, apenas a morte libertaria o espírito do corpo, e somente estando mortos obteríamos felicidade plena. Ao desenvolvermos culturalmente esta perspectiva dualista de vida, passamos a interpretar as coisas limitadamente, como se o que doesse fosse ruim e o que desse prazer fosse bom. A necessidade torna-se desejo e o desejo torna- -se necessidade. O homem transforma-se em escravo de seus apetites, eterno sonhador em busca da felicidade. Neste contexto é que se aplica a dialética da civilização, que tenciona a busca do prazer pelo sacrifício do mesmo (dor). E-Referências BITTAR, M. Videoaula 1: “A educação da Antiguidade: o que ela nos legou?”. Disponível em: . Acesso em: 22 ago. 2014. BOTO, C. Educ. Soc., v. 22, n. 76, p. 121-146, n.d. Disponível em: . Acesso em: 22 ago. 2014. Referências Bibliográficas ANDRADE, C. D. Noturno à janela do apartamento. In: Sentimento do mundo. 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A percepção que os gregos tiveram do conhecimento contribuiu para a maneira como o enten- demos hoje. Na atualidade, o conhecimento é distinguido entre: a) conhecimento pessoal e conhecimento geral. b) conhecimento vulgar, científico e filosófico. c) conhecimento popular e conhecimento erudito. d) conhecimento familiar e conhecimento acadêmico. e) conhecimento real e conhecimento virtual. 73© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL 3) Quem foram os três de Mileto? a) Platão, Sócrates e Aristóteles. b) Parmênides, Heráclito e Demócrito. c) Espartacus, Crixius e Batiatus. d) Sófocles, Ésquilo e Aritófanes. e) Tales, Anaximandro e Anaxímenes. 4) Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.) foi: a) um orador. b) um senador. c) um advogado. d) um dos assassinos de Júlio César. e) Todas as alternativas estão corretas Gabarito Confira, a seguir, as respostas corretas para as questões au- toavaliativas propostas: 1) a. 2) b. 3) e. 4) e. 12. CONSIDERAÇÕES A educação na Grécia e na Roma antiga influenciaram toda a instrução ocidental, daí a importância de seu estudo. Espera- mos que nesse capítulo você tenha gravado seus aspectos prin- cipais e se animado para estudar o que está por vir! 74 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL 13. E-REFERÊNCIAS Sites pesquisados ARISTÓTELES. Aristóteles: obras completas. Retórica. Disponível em: . Acesso em: 22 ago. 2014. CABRAL, J. F. P. Mito da caverna de Platão. Disponível em: . Acesso em: 22 ago. 2014. DEUSES E MITOS na vida dos gregos. Disponível em: . Acesso em: 21 ago. 2014. HQONLINE. Os 300 de Esparta. Disponível em: . Acesso em: 22 ago. 2014. ROSSELLINI, R. Sócrates – filme completo. Disponível em: . Acesso em: 22 ago. 2014. Adoro Cinema. Espártaco. Disponível em: . Acesso em: 27 out. 2014. 14. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FINLEY, M. Aspectos da Antiguidade. São Paulo: Martins Fontes, 1991. FUNARI, P. P. Roma, vida pública e vida privada. São Paulo: Ática, 1990. GAARDER, J. O mundo de Sofia: romance da história da Filosofia. Tradução de João Azenha Jr. 59. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. GUARINELLO, N. L. Uma morfologia da história: as formas da História Antiga. Politeia: História e Sociedade, 2003, v. 3, n. 1, p. 41-61. HESÍODO. Os trabalhos e os dias. Tradução de Mary de Camargo Neves Lafer. São Paulo: Iluminuras, 1996. (Coleção Pólen). JONES, P. V. (Org.) O mundo de Atenas. São Paulo: Martins Fontes, 1997. MARROU, H.-I. Históriada Educação na Antiguidade. São Paulo: Edusp/Herder, 1971. Edição original de 1966. POPPER, K. A lógica da investigação científica. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1980. (Coleção Os Pensadores).92 14. OS MENDICANTES E AS UNIVERSIDADES ......................................................... 94 15. A CAVALARIA E A EDUCAÇÃO ATRAVÉS DA LITERATURA VERNÁCULA ............. 96 16. SINTETIZANDO .................................................................................................. 99 17. TEXTOS COMPLEMENTARES .............................................................................. 100 18. QUESTÕES AUTOVALIATIVAS ............................................................................. 104 19. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 106 UNIdAdE 3 – A EDUCAÇÃO ARTÍSTICA E O ENSINO RELIGIOSO NA IDADE MODERNA 1. OBJETIVOS ......................................................................................................... 109 2. CONTEÚDOS ...................................................................................................... 109 3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE .................................................. 110 4. INTRODUÇÃO À UNIDADE ................................................................................. 111 5. O RENASCIMENTO E AS ACADEMIAS DE ARTE: HAVIA UMA EDUCAÇÃO LAICA NA ÉPOCA MODERNA? ........................................................................... 113 6. A REFORMA PROTESTANTE E A EDUCAÇÃO ...................................................... 126 7. A CONTRARREFORMA E O ENSINO JESUÍTA ...................................................... 136 8. O REALISMO NA EDUCAÇÃO ............................................................................. 142 9. SINTETIZANDO .................................................................................................. 146 10. TEXTOS COMPLEMENTARES .............................................................................. 148 11. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS ........................................................................... 151 12. CONSIDERAÇÕES ............................................................................................... 152 13. E-REFERÊNCIAS ................................................................................................. 153 14. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 153 UNIdAdE 4 – A CULTURA DOS VIAJANTES E A EDUCAÇÃO EM SEUS DESTINOS 1. OBJETIVOS ......................................................................................................... 155 2. CONTEÚDOS ...................................................................................................... 156 3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE .................................................. 156 4. INTRODUÇÃO À UNIDADE ................................................................................. 158 5. A VIAGEM, A LITERATURA DE VIAGEM E OS VIAJANTES ................................... 160 6. SINTETIZANDO .................................................................................................. 191 7. TEXTOS COMPLEMENTARES .............................................................................. 193 8. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS ........................................................................... 194 9. CONSIDERAÇÕES ............................................................................................... 196 10. E-REFERÊNCIAS ................................................................................................. 196 11. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 197 UNIdAdE 5 – AS NOVAS LUZES EDUCACIONAIS DA IDADE CONTEMPORÂNEA 1. OBJETIVO ........................................................................................................... 201 2. CONTEÚDO ........................................................................................................ 201 3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE ................................................... 201 4. INTRODUÇÃO À UNIDADE ................................................................................. 203 5. DO HUMANISMO AO ILUMINISMO ................................................................... 203 6. A PEDAGOGIA ILUMINISTA ................................................................................ 208 7. A PEDAGOGIA SETECENTISTA NA ALEMANHA E NA ITÁLIA ............................... 215 8. PEDAGOGIAS DE INSPIRAÇÃO SOCIALISTA E POSITIVISTA ................................. 221 9. A PSICOLOGIA ENTRA EM CENA ........................................................................ 229 10. PEDAGOGIAS DO FIM DO SÉCULO 19 E INÍCIO DO 20 ....................................... 234 11. SINTETIZANDO .................................................................................................. 238 12. TEXTOS COMPLEMENTARES .............................................................................. 241 13. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS ........................................................................... 242 14. CONSIDERAÇÕES ............................................................................................... 244 15. E-REFERÊNCIAS ................................................................................................. 245 16. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 245 UNIdAdE 6 – TEATRO E EDUCAÇÃO FEMININA NO BRASIL DO SÉCULO 1. OBJETIVO ........................................................................................................... 247 2. CONTEÚDOS ...................................................................................................... 247 3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE .................................................. 247 4. INTRODUÇÃO À UNIDADE ................................................................................ 249 5. TRANSFORMAÇÕES HISTÓRICAS A PARTIR DE 1808 E O PAPEL SOCIAL DA ATIVIDADE TEATRAL .......................................................................................... 250 6. SINTETIZANDO .................................................................................................. 272 7. TEXTOS COMPLEMENTARES .............................................................................. 273 8. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS ........................................................................... 276 9. CONSIDERAÇÕES ............................................................................................... 278 10. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 278 UNIdAdE 7 – O SÉCULO 20 E A EDUCAÇÃO NOVA 1. OBJETIVO ........................................................................................................... 281 2. CONTEÚDO ........................................................................................................ 281 3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE .................................................. 281 4. INTRODUÇÃO À UNIDADE ................................................................................ 283 5. A PEDAGOGIA ALEMÃ NO TEMPO DE HITLER ................................................... 283 6. NA FRANÇA DO GENERAL DE GAULLE... ............................................................ 285 7. NA INGLATERRA DE WINSTON CHURCHILL ....................................................... 288 8. NA URSS DE LÊNIN ............................................................................................ 290 9. ITALIANOS E ESPANHÓIS ................................................................................... 292 10. AS NOVAS TENDÊNCIAS DA EDUCAÇÃO ............................................................ 295 11. SINTETIZANDO .................................................................................................. 308 12. TEXTOS COMPLEMENTARES ..............................................................................309 13. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS ........................................................................... 318 14. CONSIDERAÇÕES .............................................................................................. 319 15. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 319 UNIdAdE 8 – REFORMAS UNIVERSITÁRIAS NO BRASIL: DEMOCRATIZAÇÃO, AUTONOMIA E PRODUÇÃO 1. OBJETIVOS ......................................................................................................... 321 2. CONTEÚDOS ...................................................................................................... 321 3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE .................................................. 322 4. INTRODUÇÃO À UNIDADE ................................................................................ 323 5. REFORMA UNIVERSITÁRIA dE 1963-1971: ESBOÇOS ........................................ 324 6. A REFORMA E OS PROFESSORES ....................................................................... 328 7. A REFORMA CONSENTIDA: PESQUISADORES × PROFESSORES ......................... 335 8. A UNIVERSIDADE EM RITMO DE PRODUÇÃO: A REFORMA UNIVERSITÁRIA DE 1988 ............................................................................................................ 338 9. OS ANOS 2000 ................................................................................................... 351 10. SINTETIZANDO .................................................................................................. 359 11. TEXTOS COMPLEMENTARES .............................................................................. 361 12. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS ........................................................................... 363 13. CONSIDERAÇÕES .............................................................................................. 364 14. E-REFERÊNCIAS ................................................................................................. 364 15. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 366 UNIdAdE 9 – DUAS VISÕES E UM TEMA: A HISTÓRIA NAS SALAS DE AULA DO BRASIL DE 1996 A 2008 1. OBJETIVOS ......................................................................................................... 369 2. CONTEÚDOS ...................................................................................................... 370 3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE .................................................. 370 4. INTRODUÇÃO À UNIDADE ................................................................................ 372 5. PROPOSTAS E IMPLEMENTAÇÃO DA LDBEN 9394/96 E DAS LEIS 1639/2003 E 1645/2008 E O ENSINO DA HISTÓRIA ............................................................... 372 6. “EM UMA BUSCA PELO APERFEIÇOAMENTO DO MEU ESTILO DE AULA”: NARRATIVAS DOS ALUNOS DOS ANOS FINAIS DO CURSO EM HISTÓRIA. UNIVERSIdAdE ESTAdUAL dE LONdRINA – 200 ................................................ 384 7. TEXTOS COMPLEMENTARES .............................................................................. 411 8. SINTETIZANDO .................................................................................................. 412 9. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS ........................................................................... 413 10. CONSIDERAÇÕES ............................................................................................... 414 11. E-REFERÊNCIAS ................................................................................................. 416 12. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 416 UNIdAdE 10 – HISTÓRIA DA FORMAÇÃO DE PROFESSORES NO BRASIL: ORGANIZAÇÃO DAS INSTITUIÇÕES, MODELOS EM DISPUTA E POLÍTICAS 1. OBJETIVOS ......................................................................................................... 419 2. CONTEÚDOS ...................................................................................................... 419 3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE .................................................. 420 4. INTRODUÇÃO À UNIDADE ................................................................................. 421 5. PARTE I – FORMAÇÃO dE PROFESSORES NO BRASIL PRÉ-LdB/1996................. 424 6. PARTE II – FORMAÇÃO dE PROFESSORES NO BRASIL PÓS-LdB/1996 ............... 437 7. SINTETIZANDO .................................................................................................. 445 8. TEXTOS COMPLEMENTARES .............................................................................. 448 9. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS ........................................................................... 450 10. CONSIDERAÇÕES ............................................................................................... 451 11. E-REFERÊNCIAS ................................................................................................. 451 12. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 451 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIdAdE 11 – EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA: UM RECORRIDO HISTÓRICO E UMA BREVE APRESENTAÇÃO SOBRE SUAS POTENCIALIDADES 1. OBJETIVOS ......................................................................................................... 453 2. CONTEÚDOS ...................................................................................................... 453 3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE .................................................. 454 4. INTRODUÇÃO À UNIDADE ................................................................................ 455 5. A EXPANSÃO DA EAD PARTICULAR .................................................................... 461 6. AS ESTRATÉGIAS PARA A EDUCAÇÃO CORPORATIVA ........................................ 465 7. dIVULGANdO OS RECURSOS EdUCACIONAIS ABERTOS (REAS) ........................ 467 8. O POTENCIAL INTERNACIONALIZADOR DA EAD ............................................... 469 9. SINTETIZANDO .................................................................................................. 471 10. TEXTOS COMPLEMENTARES .............................................................................. 473 11. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS ........................................................................... 475 12. CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................... 476 13. E-REFERÊNCIAS ................................................................................................. 477 14. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 478 11 CADERNO DE REFERÊNCIA DE CONTEÚDO Contéudos –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– A educação na Antiguidade Clássica: formação do modelo ocidental de edu- cação. A educação na Idade Média. A educação na Idade Moderna: a história da educação no renascimento, nas reformas religiosas e nas revoluções bur- guesas. A educação na Idade Contemporânea: a educação e as principais cor- rentes pedagógicas dos séculos 19 e 20 na Educação Ocidental. A História da Educação como campo de conhecimento que privilegiou, até o momento, dois segmentos de estudos: a educação num sentido mais amplo e as maneiras como se estruturou o ensino formal nesta ou naquela sociedade. Formação de um sistema de ensino público no Brasil e a criação de uma noção de educação especificamente brasileira. A Educação na Era Vargas. A expansão quantitati- va da escola no Brasil. O período Militar. A educação tecnicista e o modelo de educação empresarial. A abertura democrática. A educação e a promoção de democracia e cidadania. –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– 1. INTRODUÇÃO “Não existe história que não seja do presente.” (FEBVRE, 1977, p.145 apud RICOEUR, 2010, p. 365). O escritor argentino Jorge Luís Borges escreveu um curtís- simo texto chamado Magias parciais de Quixote . Nele, Borges apresenta a recorrente inquietação dos leitores de ficção diante de obras que contêm, dentro de si, autorrepresentações – como quando Dom Quixote lê histórias sobre um certo Quixote. Segun- do Borges, esse tipo de obra inquieta o leitor porque coloca os 12 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO personagens de ficção na mesma posição dos leitores –, o limite entre o real e o fictício, permitindo ao leitor, real, a percepção de que, de uma certa maneira, ele próprio poderia atravessar a fronteira do vivido e do escrito, tornando-se texto nas mãos do literato. Borges, entretanto, não se limita a inquietar o leitor de ficção. Ele encerra essa sua pequena consideração com as se- guintes palavras: Por que nos inquieta que o mapa esteja incluído no mapa e as 1001 noites no livro das Mil e uma noites? Por que nos inquieta que Dom Quixote seja leitor do Quixote e Hamlet espectador de Hamlet? Creio ter dado com a causa: tais inversões suge- rem que, se os personagens de uma ficção podem ser leitores ou espectadores, nós, seus leitores ou espectadores, podemos ser fictícios. Em 1833, Carlyle observou que a história universal é um infinito livro sagrado que todos os homens escrevem e leem e procuram entender, e no qual também eles são escritos. (BORGES, 2007, p. 65). Se Jorge Luís Borges foi um bom entendedor de Carlyle, e nós, educadores, de Borges, nossa história inscreve-se no tem- po à medida que a escrevemos. Somos seus personagens, seus autores, seus editores e seus leitores. Porém, lembremos que, em nenhuma dessas qualidades, nossa situação é estável. Como Quixote, lemos, escrevemos e atuamos nessa história a um só tempo, e quaisquer uma de nossas pequenas atitudes – uma co- nexão, uma vírgula, um olhar – podem modificá-la. Terreno minado de ideias, correntes de pensamento e es- tilos narrativos, a História, como campo de conhecimento cien- tífico, é constituída por meio da historiografia – ou seja, pela es- crita da história. A historiografia contemporânea, por sua vez, é debitária de uma renovação iniciada nos anos 1940, comumente conhecida como Escola dos Annales, em que autores como Marc Bloch e Lucien Febvre, entre outros historiadores, propuseram 13© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO uma atualização dos métodos, objetos e fontes dessa área, em detrimento de um suposto positivismo que privilegiava a história dos vencedores, agregando a ela, ainda, ferramentas e metodo- logias de outras áreas do conhecimento, como a Antropologia, a Sociologia, a Estatística e a Comunicação. Fernand Braudel, Jac- ques Le Goff, Phillipe Ariès e outros autores mantiveram e am- pliaram essa proposta historiográfica até meados dos anos 1980, promovendo uma história cada vez mais cultural e das mentali- dades, quando a emergência de estudos marxistas heterodoxos, além da arqueologia do saber, proposta por Michel Foucault, iriam, novamente, revolver o território historiográfico. Com Thompson, Trevor Roper, Hobsbawm e outros ingle- ses marxistas, o tema do trabalho e o viés da distinção por classes sociais, bem como o da tomada de consciência, são reavivados e misturados aos aspectos culturais – o ganho é imenso. Com Fou- cault, o entendimento da história como um discurso inventado, tal como o quadro As meninas, de Velásquez, que Foucault usa para introduzir sua tese, em mais de uma camada representati- va, abre margem para verdades constituídas muito mais como um padrão de frequência do que como uma essência das coisas, colocando o historiador na posição de um arqueólogo de pala- vras. Recentemente, Roger Chartier e Robert Darton apontaram na leitura e nos leitores um campo de estudos sem tamanho, as- sim como Stephen Greenblath assinalou, também, uma maneira literária de redigir a História. Sobreviventes dessa bateria de estudos, os historiadores da Educação dedicam-se, especialmente, ao modo como o ensi- no e a Educação (sempre mais ampla e fugaz) se desenvolveram nas sociedades. Dominique Julia refresca os ares desse lado da biblioteca: em 1995, ele propõe um estudo da cultura escolar, tendo em vista que a História da Educação não deve ser confun- 14 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO dida com a história da escolarização, ainda que essa última nos ajude a compreender a primeira (e vice-versa). Neste ensejo, o termo Cultura Escolar é: [...] um conjunto de normas que definem conhecimentos a ensinar e condutas a inculcar, e um conjunto de práticas que permitem a transmissão desses conhecimentos e a incorpora- ção desses comportamentos; normas e práticas coordenadas a finalidades que podem variar segundo as épocas (finalidades religiosas, sociopolíticas ou simplesmente de socialização). Normas e práticas não podem ser analisadas sem se levar em conta o corpo profissional dos agentes que são chamados a obedecer a essas ordens e, portanto, a utilizar dispositivos pe- dagógicos encarregados de facilitar sua aplicação, a saber, os professores primários e os demais professores. Mas, para além dos limites da escola, pode-se buscar identificar, em um sentido mais amplo, modos de pensar e de agir largamente difundidos no interior de nossas sociedades, modos que não concebem a aquisição de conhecimentos e de habilidades senão por inter- médio de processos formais de escolarização […]. Enfim, por cultura escolar é conveniente compreender também, quando isso é possível, as culturas infantis (no sentido antropológico do termo), que se desenvolvem nos pátios de recreio e o afasta- mento que apresentam em relação às culturas familiares. (JU- LIA, 2001, p. 10). Assim, espraiada pela sociedade, mesmo a cultura escolar pode ser vista como algo tão abrangente quanto costumamos acreditar que a ideia de Educação o seja e, para Julia, não é pos- sível estudar a escola sem passar pela cultura que a produz e é produzida por ela. Nesse sentido, uma das centelhas lançadas por Julia nesse importante texto é a de que a cultura escolar, como objeto de estudo histórico, deve compreender dinâmicas que vão além da hierarquização entre docentes e discentes, a fim de dar conta de seu objeto e apresentar uma história que possa contribuir para as superações momentâneas da eterna cri- 15© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO se educacional, apontada por Nóvoa (2014) no vídeo Desafios da Educação. Educador experimentado, Nóvoa assinala o quanto a crise faz parte da natureza da Educação, uma vez que uma de suas principais funções é a criação de um futuro constante, que, por sua vez, existe negando o presente; eis um dos nós entre História e Educação e um dos motivos para que haja uma interação entre essas áreas. Se a Educação nega o presente para construir o fu- turo, há que se reconhecer neste e noutros presentes o passado, há que se saber: o que negar, como negar, por que negar. Ora, o que vivemos será passado, o que se viveu já foi presente e já foi futuro. Destarte, como bem salienta Paul Ricoeur, num dos textos que compõem o famoso livro de Edgar Morin (2004), A religação dos saberes, “o passado tinha um futuro”. Nesse texto, o filósofo francês problematiza o estudo da História, assinalando o desconforto dos historiadores em relação às reduções de sua área de conhecimento: evolucionista, retrospectiva, simples. A História, despossuída de seu caráter complexo, atende apenas à exaltação dos poderosos e ao preciosismo dos colecionadores, perde a capacidade de demonstração de como os discursos e as informações são construídas e ganham estatuto de verdade e, com isso, poder. Eis um movimento ao qual só atentei por causa das pala- vras da professora Verena Alberti, em palestra sobre o ensino de História na Universidade em que leciono atualmente. Para Alber- ti, numa sociedade em que basta digitar conceitos, ideias, frases, nomes num browser comum, e as informaçõessão apresentadas, dificilmente nos ocorre de onde e como aqueles discursos foram construídos. Afinal, como as ideias e as palavras foram parar ali? Por interesse de quem? Para usufruto de quais tipos de pessoas? 16 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO Esse é um dos principais problemas dos historiadores em geral e dos especialistas da Educação em específico: para o pri- meiro grupo, trata-se, como assinalou Georges Duby, de refletir sobre sua atividade, no seguinte sentido: Até então eu esperava dos documentos que me ensinassem a verdade dos fatos, cuja lembrança tinham por missão preser- var. Logo verifiquei que esta verdade é inacessível e que o his- toriador só tem oportunidade de aproximar-se dela em nível intermediário, ao nível da testemunha, questionando-se não sobre os fatos que relata, mas sobre a maneira como os relatou. (DUBY, 1993, p. 99). Para o segundo, trata-se de pensar que uma história da Educação no sentido amplo, tal como descrito por Dominique Julia e tendo em vista a reflexão de Duby, só é possível se o histo- riador for capaz de valer-se de sua análise do presente e de seu conhecimento do passado para apresentar questões pertinentes a ambos: “Não existe uma história que não seja do presente!” (FEBVRE apud RICOEUR, 2010, p. 365). Para a professora Verena Alberti, quando esse historiador entra em sala de aula, seu papel é engajar o aluno nessa mesma busca, compartilhando com ele uma visão complexa da História, em que o passado nem é dado de maneira fechada a partir de uma pesquisa no Google, nem é narrado sem uma labuta repleta de sentido e posicionamento para quem o faz. Nesses termos, a empreitada de escrever uma História da Educação do princípio ao fim para ser ministrada a distância, como fizemos aqui, é, se me permite a piadinha de historiador, uma Odisseia! E não poderia ser feita sem a ajuda de professores e pesquisadores que comungam desse respeito pela complexi- dade do tema e do ofício em jogo. Obviamente, apresentamos mais lacunas do que espaços preenchidos, sobretudo porque, 17© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO para começo de conversa, nunca nos dispusemos a apresentar uma narrativa linear: nossa proposta foi pontuar os elementos que nos pareceram mais importantes, conforme os golpes de vista que nossas armas permitiram. Todavia, nada desse esforço terá sentido sem que você nos acompanhe. Mesmo do ponto de vista mais distante, como um observador das estratégias do oponente, é necessário que você esteja aqui conosco, atento ao que fizermos para tomá-lo de assalto com a realidade construída por nós. Vejamos, pois, como esse exército de palavras está dispos- to. Tenha em mente, em primeiro lugar, que o material se divide conforme as seguintes épocas: • História Antiga • História Medieval • História Moderna • História Contemporânea • História do tempo presente Em segundo lugar, que em cada unidade você irá encon- trar, respectivamente, a seguinte estrutura: 1) Ementa: contendo o que você vai estudar. 2) Objetivos: com uma proposta do que você deve espe- rar como seu desempenho na leitura da unidade. 3) Texto da unidade: um texto acerca do tema proposto. 4) Sintetizando: um resumo do que foi escrito naquela unidade. 5) Questões autoavaliativas: de 3 a 5 questões para você avaliar sua atenção na leitura do texto e sua apreensão do tema. 18 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO 6) Textos complementares: será recomendado, geral- mente, um artigo, um livro e um vídeo/filme para você aprender mais sobre o tema estudado. 7) Referências bibliográficas: relação completa dos li- vros, artigos, sites e filmes utilizados na elaboração de cada uma das unidades deste trabalho. Por fim, em todas elas, o tempo, o espaço e os temas perpassam os textos com as seguintes diretrizes: O tempo Adotou-se um posicionamento tradicional, vamos da his- tória da Educação na época clássica, ou Antiguidade, até a época contemporânea, limitando-nos aos anos 2000. O espaço Também fomos tradicionais neste quesito, estudamos a história da Educação ocidental (há apenas um texto complemen- tar sobre o Oriente), que, diferentemente do que costumamos encontrar nos manuais da área, passa a se entrelaçar com a his- tória da Educação no Brasil, a partir do terceiro capítulo. Com essa estratégia, esperamos que você seja capaz de estabelecer um paralelo entre a história geral e a história local. Os temas Procuramos abordar, em cada capítulo, um tema especí- fico. Por exemplo, no primeiro capítulo, abordamos a noção de conhecimento e o ensino filosófico. No terceiro capítulo, a edu- cação artística e religiosa. No sétimo, a instrução das mulheres. 19© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO Com isso, esperamos propiciar uma noção mais alargada da edu- cação e da cultura escolar das épocas estudadas, conferindo a você subsídios para um entendimento mais aprofundado da área em questão. 2. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO Abordagem Geral Neste tópico, apresenta-se uma visão geral do que será estudado nesta obra. Aqui, você entrará em contato com os as- suntos principais deste conteúdo de forma breve e geral e terá a oportunidade de aprofundar essas questões no estudo de cada unidade. Desse modo, esta Abordagem Geral visa fornecer-lhe o conhecimento básico necessário a partir do qual você possa construir um referencial teórico com base sólida – científica e cultural – para que, no futuro exercício de sua profissão, você a exerça com competência cognitiva, ética e responsabilidade social. Vamos começar nossa aventura pela apresentação das ideias e dos princípios básicos que fundamentam esta obra. Unidade 1 – Um ensaio sobre o conhecimento científico e o mitológico na Filosofia do Mundo Antigo Ocidental A Paideia, ideal de formação do homem pela cultura, na Grécia, será nosso ponto de partida e a noção de conhecimento dos gregos, ensinado e aprendido conforme a Filosofia, nosso ponto de chegada. Uma antropóloga segura nossa bússola, isso porque, como você já deve saber, o passado é um país estran- geiro, e os antropólogos são bons com o reconhecimento do diferente. 20 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO Unidade 2 – Educação e cultura na Idade Média Propondo o fim do preconceito que envolve a Idade Mé- dia, a historiadora Claudia Regina Bovo nos apresenta um perío- do longo e polissêmico de maneira clara e didática, a fim de su- primir quaisquer dúvidas que você tenha ou já tenha tido sobre a importância do estudo desse período na atualidade. Unidade 3 – A educação artística e o ensino religioso na Idade Moderna Nessa Unidade, foi apresentada a educação moderna por meio da instrução dos artistas – pivôs do chamado Renascimen- to italiano, movimento ao qual reputamos o início da idade mo- derna. Também atuei no sentido de demonstrar influência das reformas religiosas na educação do homem ocidental, procu- rando, assim, apresentar-lhe tanto a educação laica e informal quanto a religiosa e formal. A interseção entre elas é tratada na Unidade 4. Unidade 4 – A cultura dos viajantes e a educação em seus destinos A literatura de viagem, segundo Flora Sussekind, apresenta fora e dentro do Brasil um país a ser descoberto, um país a ser inventado. Na criação de uma ideia de Brasil, veremos o esbo- ço de uma instrução nacional com o trabalho dos historiadores e também de professores do Ensino Médio Carolina de Lima e Dennys Montagne. 21© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO Unidade 5 – As novas luzes educacionais da Idade Contemporânea É a partir das ideias iluministas na Educação que esta Ida- de Contemporânea foi escrita. A história das ideias pedagógicas faz-se por uma revisão da bibliografia coetânea do século 19. Do Emílio, de Rousseau, aos Miseráveis, de Victor Hugo, entretanto, há muita história para ser contada! Unidade 6 – Teatro e educação feminina no Brasil do século 19 O século 19 é o campo de pesquisa da historiadora Elisa Verona,a literatura é a sua matéria-prima, e as mulheres, o seu tema. Como veremos, poucas são as instituições voltadas à ins- trução da mulher nos primórdios do Brasil. Então, por que es- crever sobre isso? Por que a ausência de determinadas coisas, em História, também deve ser reconhecida como um objeto de pesquisa e um tópico digno de nota, dados os significados e as consequências que ela pode envolver? Unidade 7 – O século 20 e a educação nova O historiador Eric Hobsbawm costuma escrever que o sé- culo 20 durou da Primeira Guerra Mundial até a queda do Muro de Berlim. Essa periodização está baseada, entre outros fatores, porque tal intervalo encerra uma mudança radical na maneira como o mundo ocidental se destruiu, se recriou e se destruiu novamente. Sobre a capacidade regenerativa do século 20 e o apoio que a Educação deu a ela a partir de uma constante im- pressão de novidade, foi tratada essa unidade, que, em paralelo à Unidade 5, também se dedica à literatura; porém, à literatura científica. 22 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO Unidade 8 – Reformas universitárias no Brasil: democratização, autonomia e produção. A autonomia universitária segue como um dos principais temas abordados em congressos internacionais acerca da educa- ção na América Latina. A verificação dessa afirmativa, bem como a exposição de como a questão se constituiu no compasso das reformas universitárias de 1971 e 1996 são os elementos consti- tutivos desse texto que, escrito a quatro mãos, ainda apresenta a visão de um professor de história da rede pública de ensino sobre a instrução nacional aos auspícios dos dois últimos (e mais duradouros) ministros da educação: Paulo Renato e Fernando Haddad. Vejamos, pois, como essa fogueira será apagada nos fó- runs virtuais! Unidade 9 – Duas visões e um tema: a História nas salas de aula do Brasil de 1996 a 2008 A pedagoga Monica Pagel e a historiadora Ana Heloisa Mo- lina dedicam-se a um mesmo tema: quais os efeitos da Lei de Diretrizes e Bases dos anos 2000 para a Educação e, no limite, para a formação dos professores. Para que ficassem claras as di- ferenças de abordagem e metodologia de pedagogos e historia- dores, ambas ainda se dispuseram a analisar um mesmo grupo em foco: a licenciatura em História e o ensino de História. A essa altura de seus estudos, você já é capaz de avaliar como esses olhares se complementam e interagem. Na leitura dessa unida- de, sairá vencedor aquele que souber aproveitar a junção de es- forços em vez de dicotomizar os métodos. 23© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO Unidade 10 – História da Formação de Professores no Brasil: Organização das Instituições, Modelos em Disputa e Políticas pós-LDB/1996 Como temos visto ao longo dos textos que compõem este material didático, a Educação e mesmo o ensino formal vão além da escolarização de primeiro e segundo graus. Aqui, já estuda- mos o ensino profissional (das artes), informal (das mulheres), religioso (dos jesuítas), universitário (das reformas de 1970- 2000) etc. Passemos agora a um tema que vai lhe interessar de maneira especial, porque trata-se justamente do que fazemos aqui: a formação de professores. Do ponto de vista das políticas públicas de formação inicial docente, Erika Moreira Martins, au- tora do capítulo, traçou esse panorama desde a década de 1990 até os anos 2000. Oxalá que essa unidade lhe permita uma au- torreflexão sobre a formação que você está proporcionando a si mesmo e que, com ele, se aplique ainda mais nesta, que é uma das mais belas carreiras a seguir! Unidade 11 – Educação a Distância: um recorrido histórico e uma breve apresentação sobre suas potencialidades Presente de maneira maciça no quadro educacional atual, a Educação a Distância foi abordada aqui como tópico de pesqui- sa e como espaço de mudanças. Como esse tópico de pesquisa é relativamente jovem; jovem também é nossa pesquisadora. No texto, a pedagoga Juliana Duci mapeia alguns dos principais autores do tema, bem como as tendências que impulsionam a continuidade, os desdobramentos e as justificativas para um crescimento cada vez maior e mais consistente desta que é a modalidade de ensino a que se destina este trabalho: o ensino a distância. 24 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO Como você pôde perceber, preparamos um caminho re- pleto de novidades e questões que farão parte de seu cotidiano de trabalho como professor. Mais do que lhe apresentar uma li- nha do tempo estática para que você decore as principais datas, queremos que você pense conosco a História de uma maneira complexa e multifacetada. Pode ser que seu objetivo não seja se tornar um historiador, mas, à medida que você compreender os princípios básicos desse ofício, acessará uma maneira de analisar o real, o presente, as políticas públicas, o tipo de conduta das ins- tituições escolares, as coisas que acontecem e a própria ideia de acontecimento de uma maneira diferente: mais densa, mais po- lissêmica, menos simplista. Ou seja, você exercitará e desenvol- verá novas e velhas capacidades de estar no mundo; lembremos o que Borges pensou em seu texto: na História, o leitor também é autor (Borges, 2007). Por isso, junte-se a nós! Glossário de Conceitos O Glossário de Conceitos permite a você uma consulta rá- pida e precisa das definições conceituais, possibilitando-lhe um bom domínio dos termos técnico-científicos utilizados na área de conhecimento dos temas tratados na obra História da Educa- ção. Veja, a seguir, a definição dos principais conceitos: 1) Conceitos: diz Foucault , em A arqueologia do saber: “a história de um conceito não é, de forma alguma, a de seu refinamento progressivo, de sua racionalidade continuamente crescente, de seu gradiente de abstra- ção, mas a de seus diversos campos de constituição e de validade, a de suas regras sucessivas de uso, a dos meios teóricos múltiplos em que foi realizada e con- cluída a sua elaboração”. Essa é uma ideia preciosa 25© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO para todos aqueles que se dispõem ao estudo da His- tória, e ela culmina no seguinte raciocínio: não é possí- vel construir/concluir uma história positiva dos concei- tos porque seu desenvolvimento e disseminação, em geral, são dispersos. 2) Historiografia: o antropólogo Marshall Sahlins define a narrativa histórica com as seguintes palavras: “O con- tar história histórico é o recontar, desde o começo, de um resultado já conhecido, aquele conhecimento que guia a seleção (dos arquivos) dos sucessivos eventos da narrativa”. Assim, da mesma maneira que a histó- ria dos conceitos não possui sentido (a priori), sua His- tória (tal como contada pelos historiadores) o possui. Devemos ficar atentos, portanto, aos artifícios e inte- resses daqueles que escrevem a História, desvendá-los também faz parte desse jogo. Esquema dos Conceitos-Chave Para que você tenha uma visão geral dos conceitos mais importantes deste estudo, apresentamos, a seguir (Figura 1) um Esquema dos Conceitos-Chave. O mais aconselhável é que você mesmo faça o seu esquema de conceitos-chave ou até mesmo o seu mapa mental. Esse exercício é uma forma de você construir o seu conhecimento, ressignificando as informações a partir de suas próprias percepções. É importante ressaltar que o propósito desse Esquema dos Conceitos-Chave é representar, de maneira gráfica, as relações entre os conceitos por meio de palavras-chave, partindo dos mais complexos para os mais simples. Esse recurso pode auxiliar 26 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO você na ordenação e na sequenciação hierarquizada dos conteú- dos de ensino. Com base na teoria de aprendizagem significativa, enten- de-se que, por meio da organização das ideias e dos princípios em esquemas e mapas mentais, o indivíduo pode construir o seu conhecimento de maneira mais produtiva e obter, assim, ganhos pedagógicos significativos no seu processo de ensinoe aprendizagem. Aplicado a diversas áreas do ensino e da aprendizagem escolar (tais como planejamentos de currículo, sistemas e pes- quisas em Educação), o Esquema dos Conceitos-Chave baseia-se, ainda, na ideia fundamental da Psicologia Cognitiva de Ausubel, que estabelece que a aprendizagem ocorre pela assimilação de novos conceitos e de proposições na estrutura cognitiva do alu- no. Assim, novas ideias e informações são aprendidas, uma vez que existem pontos de ancoragem. Tem-se que destacar que “aprendizagem” não significa, apenas, realizar acréscimos na estrutura cognitiva do aluno; é preciso, sobretudo, estabelecer modificações para que ela se configure como uma aprendizagem significativa. Para isso, é im- portante considerar as entradas de conhecimento e organizar bem os materiais de aprendizagem. Além disso, as novas ideias e os novos conceitos devem ser potencialmente significativos para o aluno, uma vez que, ao fixar esses conceitos nas suas já exis- tentes estruturas cognitivas, outros serão também relembrados. Nessa perspectiva, partindo-se do pressuposto de que é você o principal agente da construção do próprio conhecimen- to, por meio de sua predisposição afetiva e de suas motivações internas e externas, o Esquema dos Conceitos-Chave tem por objetivo tornar significativa a sua aprendizagem, transformando 27© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO o seu conhecimento sistematizado em conteúdo curricular, ou seja, estabelecendo uma relação entre aquilo que você acabou de conhecer com o que já fazia parte do seu conhecimento de mundo (adaptado do site disponível em: . Acesso em: 11 mar. 2010). 28 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO Figura 1 Esquema dos Conceitos-chave de História da Educação 29© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO 30 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO Como pode observar, esse Esquema oferece a você, como dissemos anteriormente, uma visão geral dos conceitos mais im- portantes deste estudo. Ao segui-lo, será possível transitar entre os principais conceitos e descobrir o caminho para construir o seu processo de ensino-aprendizagem. O Esquema dos Conceitos-Chave é mais um dos recursos de aprendizagem que vem se somar àqueles disponíveis no am- biente virtual, por meio de suas ferramentas interativas, bem como àqueles relacionados às atividades didático-pedagógicas realizadas presencialmente, no polo. Lembre-se de que você, aluno EaD, deve valer-se da sua autonomia na construção de seu próprio conhecimento. Questões Autoavaliativas No final de cada unidade, você encontrará algumas ques- tões autoavaliativas sobre os conteúdos ali tratados, as quais podem ser de múltipla escolha, abertas objetivas ou abertas dissertativas. Responder, discutir e comentar essas questões, bem como relacioná-las com a prática do ensino de História da Educação pode ser uma forma de você avaliar o seu conhecimento. Assim, mediante a resolução de questões pertinentes ao assunto tra- tado, você estará se preparando para a avaliação final, que será dissertativa. Além disso, essa é uma maneira privilegiada de você testar seus conhecimentos e adquirir uma formação sólida para a sua prática profissional. 31© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO Figuras (ilustrações, quadros...) Neste material instrucional, as ilustrações fazem parte in- tegrante dos conteúdos, ou seja, elas não são meramente ilus- trativas, pois esquematizam e resumem conteúdos explicitados no texto. Não deixe de observar a relação dessas figuras com os conteúdos, pois relacionar aquilo que está no campo visual com o conceitual faz parte de uma boa formação intelectual. Dicas (motivacionais) Este estudo convida você a olhar, de forma mais apurada, a Educação como processo de emancipação do ser humano. É importante que você se atente às explicações teóricas, práticas e científicas que estão presentes nos meios de comunicação, bem como partilhe suas descobertas com seus colegas, pois, ao com- partilhar com outras pessoas aquilo que você observa, permite- -se descobrir algo que ainda não se conhece, aprendendo a ver e a notar o que não havia sido percebido antes. Observar é, por- tanto, uma capacidade que nos impele à maturidade. Você, como aluno dos Cursos de Graduação na modalidade EaD, necessita de uma formação conceitual sólida e consistente. Para isso, você contará com a ajuda do tutor a distância, do tutor presencial e, sobretudo, da interação com seus colegas. Sugeri- mos, pois, que organize bem o seu tempo e realize as atividades nas datas estipuladas. É importante, ainda, que você anote as suas reflexões em seu caderno ou no Bloco de Anotações, pois, no futuro, elas po- derão ser utilizadas na elaboração de sua monografia ou de pro- duções científicas. 32 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO Leia os livros da bibliografia indicada, para que você am- plie seus horizontes teóricos. Coteje-os com o material didático, discuta a unidade com seus colegas e com o tutor e assista às videoaulas. No final de cada unidade, você encontrará algumas ques- tões autoavaliativas, que são importantes para a sua análise sobre os conteúdos desenvolvidos e para saber se estes foram significativos para sua formação. Indague, reflita, conteste e construa resenhas, pois esses procedimentos serão importantes para o seu amadurecimento intelectual. Lembre-se de que o segredo do sucesso em um curso na modalidade a distância é participar, ou seja, interagir, procuran- do sempre cooperar e colaborar com seus colegas e tutores. Caso precise de auxílio sobre algum assunto relacionado a este estudo, entre em contato com seu tutor, ele estará pronto para ajudar você. 3. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BORGES, J. L. Outras inquisições. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. BURKE, P. A Escola dos Annales (1929-1989): a Revolução Francesa da Historiografia. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997. CAMBI. F. História da pedagogia. São Paulo: Editora UNESP, 1999. DUBY, G. A história continua. Tradução de Clóvis Marques. Revisão de Ronaldo Vainfas. Rio de Janeiro: Zahar/UFRJ, 1993. FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003. JULIA, D. A cultura escolar como objeto histórico. In: Revista Brasileira de História da Educação, Rio de Janeiro, ano 1, v. 1, n. 1, 2001. LUZURIÁGA, L. História da Educação e da Pedagogia. São Paulo: Editora Nacional, 1971. 33© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CONTEÚDO INTRODUTÓRIO MONROE, P. História da Educação. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1958. RICOEUR, P. O passado tinha um futuro. In: MORIN, E. (Org.). A religação dos saberes. O desafio do século 21. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010. SAHLINS, M. História e cultura. Apologias a Tucídides. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. 4. E-REFERÊNCIA NÓVOA, A. Desafios da Educação. Disponível em: . Acesso em: 18 set. 2014. © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO 35 UNIDADE 1 UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL Maria Raquel da Cruz Duran Maria Renata da Cruz Duran 1. OBJETIVOS • Entender os primeiros esquemas de escolarização da sociedade ocidental. • Compreender a noção de conhecimento que tornou ne- cessária a escola. 2. CONTEÚDOS • A distinção entre conhecimento mitológico e científico na Antiguidade. • A paideia e o ensino de filosofia na Grécia. • O ensino da oratória em Roma. 36 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL 3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE Antes de iniciar o estudo desta unidade, é importante que você leia as orientações a seguir: 1) Antes de começar seus estudos, é importante que você tenha em mente algumas informações sobre as autoras desta unidade. Isso lhe ajudará a tomar uma posiçãocrítica sobre o conhecimento que está prestes a contatar, bem como a buscar, num momento pos- terior, informações que possam complementar seu aprendizado. Maria Raquel da Cruz Duran. Concluiu o curso de graduação em Ciências Sociais na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mes- quita Filho” (UNESP), campus de Araraquara, em 2007; o Mestra- do em Ciência, Tecnologia e Sociedade pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) em 2011 e atualmente é doutoranda em Antropologia Social na Universidade de São Paulo (USP). Leciona a disciplina de Antropologia na Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS). Tem experiência na área de Teoria Antro- pológica, atuando, principalmente, nos seguintes temas: conheci- mento tradicional, propriedade intelectual e patrimônio cultural imaterial. E, além de ter escrito os textos “Uma análise latouria- na do Caso Cupulate: os sentidos do conhecimento tradicional”, publicado no Quaderni Di Thule, v. XXXIV, p. 205-218, 2012, e “A construção paradoxal de sentido: o conhecimento tradicional no contexto da propriedade intelectual”, publicado no livro Aponta- mentos de Estudos sobre Ciência, Tecnologia & Sociedade. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010, redigiu, em parceria com Maria Renata da Cruz Duran o texto “La polisemia de la cultu- ra y de la política en el patrimonio histórico de Brasil: del Río de Janeiro ochocentista a los indios contemporâneos”, publicado na revista colombiana Baukara, v. 1, p. 99-122, 2013. Maria Renata da Cruz Duran é a organizadora do CRC de História da Educação, e nas unidades a seguir, muito será dito sobre seus trabalhos. Por hora, vale dizer que as duas irmãs redigiram juntas 37© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL esta unidade, e é com um espírito fraternal, portanto, que seu trabalho começa. 2) Ciente dos caminhos de pesquisa das autoras, prepa- re-se para uma leitura que deve ser feita em dois mo- mentos: primeiro, o texto principal e, após sua refle- xão, o texto complementar. 3) Todas as nossas unidades contêm um tópico intitula- do Sintetizando, em que as principais referências da unidade são revisadas. Procure dar bastante atenção à leitura desse tópico e faça anotações sobre pontos que também deveriam figurar nele. 4) Na sequência, sugerimos que faça um quadro sinópti- co e/ou um mapa mental dessa leitura, o que facilitará o desenvolvimento de suas atividades. Aproveite tam- bém esse momento para perguntar ao seu tutor so- bre algum ponto que não ficou claro ou que lhe deixou curioso em sua leitura. 5) No final de cada unidade, há um tópico com um mate- rial de apoio. Nele figuram: um livro, um artigo e um filme. Não deixe de passar os olhos em, pelo menos, um desses materiais, são eles que vão garantir que seu aprendizado seja mais eficaz! 4. INTRODUÇÃO À UNIDADE Começamos nossos estudos de História da Educação na Idade Antiga. Esta teve início com a invenção da escrita, por volta dos anos 4.000 a 3.500 a.C., e terminou com a queda do Império Romano, em 476 d.C. Segundo o professor de História Antiga da 38 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL Universidade de São Paulo, Norberto Guarinello (2003), é cos- tume destacar Grécia e Roma como as civilizações clássicas que mais influenciaram a Europa Ocidental. Na Grécia Antiga, tive- ram lugar as primeiras discussões sobre o que é conhecimento e como colocá-lo em circulação. Ainda assim, maior destaque é dado à cidade de Atenas, que, com a presença de pensadores como Platão, Epicuro e Sócrates, é reputada como o berço da academia. Como podemos notar, não nos é possível iniciar um estudo do que seja o ensino ou de qual é a ideia clássica de educação, para os povos ocidentais, sem antes revisarmos como os gregos formaram sua ideia de conhecimento e se essa ideia de conhe- cimento foi criada no âmbito da Filosofia e das primeiras manei- ras de ensiná-la. Passemos, pois, algumas páginas detidos nesse tema e veremos como nossa compreensão de toda a História da Educação será beneficiada. 5. A PAIDEIA A Grécia antiga cria a ideia de um pedagogo, ou seja, um acompanhante da criança, responsável por lhe ministrar ensina- mentos básicos. Somente num momento posterior é que essa criança teria contato com a Paideia, que, entre outras definições, pode ser entendida como o ideal de formação do homem pela cultura, buscando uma formação total e a perfeição interior. To- davia, um sistema efetivo de instrução só se concretizou no que chamamos de período helenístico, ou seja, entre os séculos 3-2 a.C. Nesse sistema, o indivíduo deixava de ser apenas um guer- reiro para ser também um homem de letras, operação que se dava por meio da instrução. Tal sistema só foi efetivado graças às obras de Homero, a quem Platão dedica o título de maior edu- 39© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL cador da Grécia. Em sua instrução literária, dois aspectos eram recorrentes: um técnico, que dizia respeito à educação dos sen- tidos (música, esportes, oratória), e outro moral, de que dava conta do ideal heroico. Segundo esse ideal “agonístico grego”, havia que se desenvolver no homem uma espécie de ânsia em se dedicar para ser o melhor em algo. Uma maneira interessante de tomar conhecimento das linhas gerais desse tipo de ensino é assistir à série Spartacus, produzida pela Starz, em 2010. Nela, figura Spartacus, escravo feito gladiador e reputado como líder de uma grande revolta na Roma Antiga. Sua instrução como lutador inclui algumas prescri- ções morais que nos dão uma imagem do ensino na época (claro, salvo as muitas concessões em prol de uma boa audiência). Ou- tros filmes sobre esse personagem são: Spartaco, filme italiano de 1952; Spartacus, filme estadunidense de 1960, dirigido por Stanley Kubrick e com Kirk Douglas no papel principal; Spartacus, versão para a televisão, de 2004, estrelada por Goran Višnjić (o dr. Luka Kovač, de ER) (AdORO CINEMA, 2014). A atmosfera militar e austera de Esparta também pode ser experimentada na famosa HQ (história em quadrinhos) de Frank Miller e Lynn Varley: Os 300 de Esparta. Nos cinco volumes da sé- rie, os reis Leônidas e Xerxes enfrentam-se na Batalha de Termó- pilas – em que 300 espartanos foram encurralados pelo exército macedônico. Se você quiser, pode baixar as HQs para trabalhar com esse material em sala de aula, a diversão será garantida! (HQONLINE, 1998). Nessa cidade grega, a instrução era conhecida como ago- gé, cujo fim era único: a educação dos soldados, a preparação para a guerra, o que começava cedo, na separação, pelo Conse- lho dos Anciãos, daqueles recém-nascidos considerados saudá- 40 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL veis ou não. Vivo, o bebê ficaria na casa dos pais até os 7 anos. Dos 7 aos 21, formavam-se grupos juvenis organizados hierarqui- camente para formação militar, carreira que todos seguiam após concluírem os estudos. As mulheres, por sua vez, estudavam es- portes e artes. Em 508 a.C., com a consolidação da democracia ateniense, é comum assinalar a vulgarização da instrução e o surgimento de estabelecimentos voltados para o ensino: as primeiras escolas. As “escolas” eram, em sua maioria, estabelecimentos particu- lares que forneciam uma instrução básica mais artística e espor- tiva que literária e intelectual. O pedótriba treinava as crianças nos exercícios físicos, e o citarista, na música. Na escrita, era a vez do gramático – ainda que a escrita fosse utilizada muito mais para registro, dada a oralidade dessa cultura. Tanto para o ateniense quanto para o espartano, a edu- cação só se efetivava na relação entre iguais: a pederastia (pai- derasteia).Nela se busca um ideal de perfeição, que encontra no amor entre iguais uma forma de “realizar, em sua plenitu- de, as tendências próprias de seu sexo, para tornarem-se mais plenamente homens” (MARROU, 1966, p. 56). A instrução tinha início aos 18 anos. Um filme que nos dá certa noção de como se estabelecia essa relação entre homens é Troia (2004), estrelado por Brad Pitt e dirigido por Wolfgang Petersen. Vale a pena ver! A partir da segunda metade do século 5 a.C., entretanto, o ideal da paideia fica comprometido em função de uma distinção no entendimento do que seria o conhecimento. O que é o conhecimento? Conforme o exposto, a Grécia antiga foi o lugar em que se registrou o surgimento ocidental de uma perspectiva cognitiva 41© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL do saber: a dos chamados “filósofos” (amantes da sabedoria), em que se buscou conhecer as coisas e os objetos que cercavam os homens. Essa busca do saber pelo saber deu início à especu- lação sobre todas as coisas, e a essa atitude, posteriormente, se deu o nome de “Filosofia”. Com o passar dos séculos, o homem, acreditando que seu raciocínio poderia confundi-lo ou mesmo enganá-lo, passou a observar a repetição dos fenômenos naturais e a realizar expe- rimentações na tentativa de verificar se a exata reprodução de determinadas ações levariam a um mesmo resultado. Essa nova atitude o levou a concluir que havia duas formas de conhecimen- to: uma por meio do raciocínio e outra por meio da observação e experimentação. Daí em diante as duas formas de conhecimento caminha- ram paralelamente, pois se relacionam entre si. Elas estão intrin- secamente ligadas, uma vez que a ciência nasce da curiosidade humana, e quando o homem especula, reflete, busca formas para satisfazer sua curiosidade; questiona o que existe e está fi- losofando e, ao mesmo tempo, observa o mundo que o rodeia, aprendendo com ele, sendo esse o âmbito no qual as questões são levantadas e suas respostas podem ser observadas. O novo método investigativo de observação e verificação aliou-se ao cri- vo do raciocínio, e, assim, o conhecimento ampliou-se. Para os gregos dos séculos 6 e 5 a.C., conhecer era trans- portar por todos os meios e formas para dentro do nosso eu in- terior algo que imaginamos estar fora de nós mesmos. Segundo João Francisco P. Cabral, colaborador do site Brasil Escola, essa percepção decorre do Mito da Caverna, de Platão. Segundo ele: O mito ou “Alegoria” da caverna é uma das passagens mais clás- sicas da história da Filosofia, sendo parte constituinte do livro 42 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL VI de A República onde Platão discute sobre teoria do conheci- mento, linguagem e educação na formação do Estado ideal. A narrativa expressa dramaticamente a imagem de prisioneiros que desde o nascimento são acorrentados no interior de uma caverna de modo que olhem somente para uma parede ilumi- nada por uma fogueira. Essa, ilumina um palco onde estátuas dos seres como homem, planta, animais etc. são manipuladas, como que representando o cotidiano desses seres. No entan- to, as sombras das estátuas são projetadas na parede, sendo a única imagem que aqueles prisioneiros conseguem enxergar. Com o correr do tempo, os homens dão nomes a essas sombras (tal como nós damos às coisas) e também à regularidade de aparições destas. Os prisioneiros fazem, inclusive, torneios para se gabarem, se vangloriarem a quem acertar as corretas deno- minações e regularidades. Imaginemos agora que um destes prisioneiros é forçado a sair das amarras e vasculhar o interior da caverna. Ele veria que o que permitia a visão era a foguei- ra e que, na verdade, os seres reais eram as estátuas e não as sombras. Perceberia que passou a vida inteira julgando apenas sombras e ilusões, desconhecendo a verdade, isto é, estando afastado da verdadeira realidade. Mas imaginemos ainda que esse mesmo prisioneiro fosse arrastado para fora da caverna. Ao sair, a luz do sol ofuscaria sua visão imediatamente e, só depois de muito habituar-se com a nova realidade, poderia vol- tar a enxergar as maravilhas dos seres fora da caverna. Não de- moraria a perceber que aqueles seres tinham mais qualidades do que as sombras e as estátuas, sendo, portanto, mais reais. Significa dizer que ele poderia contemplar a verdadeira reali- dade, os seres como são em si mesmos. Não teria dificuldades em perceber que o Sol é a fonte da luz que o faz ver o real, bem como é desta fonte que provém toda existência (os ciclos de nascimento, do tempo, o calor que aquece etc.). Maravilhado com esse novo mundo e com o conhecimento que então passa- ra a ter da realidade, esse ex-prisioneiro lembrar-se-ia de seus antigos amigos no interior da caverna e da vida que lá levavam. Imediatamente, sentiria pena deles, da escuridão em que esta- vam envoltos e desceria à caverna para lhes contar o novo mun- do que descobriu. No entanto, como os ainda prisioneiros não 43© HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL conseguem vislumbrar senão a realidade que presenciam, vão debochar do seu colega liberto, dizendo-lhe que está louco e que se não parasse com suas maluquices acabariam por matá- -lo. Este modo de contar as coisas tem o seu significado: os pri- sioneiros somos nós que, segundo nossas tradições diferentes, hábitos diferentes, culturas diferentes, estamos acostumados com as noções sem que delas reflitamos para fazer juízos cor- retos, mas apenas acreditamos e usamos como nos foi transmi- tido. A caverna é o mundo ao nosso redor, físico, sensível em que as imagens prevalecem sobre os conceitos, formando em nós opiniões por vezes errôneas e equivocadas, (pré-conceitos, pré-juízos). Quando começamos a descobrir a verdade, temos dificuldade para entender e apanhar o real (ofuscamento da vi- são ao sair da caverna) e, para isso, precisamos nos esforçar, estudar, aprender, querer saber. O mundo fora da caverna re- presenta o mundo real, que para Platão é o mundo inteligível por possuir Formas ou Ideias que guardam consigo uma iden- tidade indestrutível e imóvel, garantindo o conhecimento dos seres sensíveis. O inteligível é o reino das matemáticas que são o modo como apreendemos o mundo e construímos o saber humano. A descida é a vontade ou a obrigação moral que o homem esclarecido tem de ajudar os seus semelhantes a saí- rem do mundo da ignorância e do mal para construírem um mundo (Estado) mais justo, com sabedoria. O Sol representa a Ideia suprema de Bem, ente supremo que governa o inteligível, permite ao homem conhecer e de onde deriva toda a realidade (o cristianismo o confundiu com Deus). Portanto, a alegoria da caverna é um modo de contar imageticamente o que concei- tualmente os homens teriam dificuldade para entenderem, já que, pela própria narrativa, o sábio nem sempre se faz ouvir pela maioria ignorante. (CABRAL, 2014). Conhecer é apreender; é apropriar-se espiritualmente de algo, o que pressupõe, neste contexto, dois elementos: o sujeito, aquele que conhece, e o objeto, o algo que se conhece. Conhe- cer é uma atividade da mente e, entre outros processos, ela sig- nifica transportar algo para dentro de nós que será racionalizado 44 © HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO UNIDADE 1 – UM ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O MITOLÓGICO NA FILOSOFIA DO MUNDO ANTIGO OCIDENTAL e ficará gravado, numa perspectiva digamos “virtual”, como, por exemplo, a casa em que moramos, que obviamente não cabe fisicamente dentro de nosso eu interior, mas “cabe” dentro de nossas lembranças e pensamentos, com seus cômodos, objetos e particularidades. Hoje em dia, costumamos dizer que existem três tipos de conhecimento: o vulgar, o científico e o filosófico. O conhecimen- to vulgar