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TEORIA DE VOO AVANÇADO TEORIA DE VOO AVANÇADO Teoria de Voo Avançado Leonardo Augusto Lanza RamosLeonardo Augusto Lanza Ramos GRUPO SER EDUCACIONAL gente criando o futuro Dentro da aviação, o pro� ssional deve ter o conhecimento teórico para que consiga compreender as limitações, a resistência e o esforço que a aeronave sofre durante o voo. Uma consciência situacional, que entende como a aerodinâmica realmente age durante o voo, abrange também quais prerrogativas se deve ter. Assim, pode- mos entender como devemos agir para evitar o prejuízo ao desenvolvimento do voo e solucionar situações como parafusos e estol, e para reduzir os efeitos negativos de arrasto, a partir do estudo aprofundado da Teoria de Voo Avançado. Capa_SER_CA_TEVOAVA.indd 1,3 29/09/20 10:48 © Ser Educacional 2020 Rua Treze de Maio, nº 254, Santo Amaro Recife-PE – CEP 50100-160 *Todos os gráficos, tabelas e esquemas são creditados à autoria, salvo quando indicada a referência. Informamos que é de inteira responsabilidade da autoria a emissão de conceitos. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem autorização. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido pela Lei n.º 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. Imagens de ícones/capa: © Shutterstock Presidente do Conselho de Administração Diretor-presidente Diretoria Executiva de Ensino Diretoria Executiva de Serviços Corporativos Diretoria de Ensino a Distância Autoria Projeto Gráfico e Capa Janguiê Diniz Jânyo Diniz Adriano Azevedo Joaldo Diniz Enzo Moreira Leonardo Augusto Lanza Ramos DP Content DADOS DO FORNECEDOR Análise de Qualidade, Edição de Texto, Design Instrucional, Edição de Arte, Diagramação, Design Gráfico e Revisão. SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 2 03/02/21 09:19 Boxes ASSISTA Indicação de filmes, vídeos ou similares que trazem informações comple- mentares ou aprofundadas sobre o conteúdo estudado. CITANDO Dados essenciais e pertinentes sobre a vida de uma determinada pessoa relevante para o estudo do conteúdo abordado. CONTEXTUALIZANDO Dados que retratam onde e quando aconteceu determinado fato; demonstra-se a situação histórica do assunto. CURIOSIDADE Informação que revela algo desconhecido e interessante sobre o assunto tratado. DICA Um detalhe específico da informação, um breve conselho, um alerta, uma informação privilegiada sobre o conteúdo trabalhado. EXEMPLIFICANDO Informação que retrata de forma objetiva determinado assunto. EXPLICANDO Explicação, elucidação sobre uma palavra ou expressão específica da área de conhecimento trabalhada. SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 3 03/02/21 09:19 Unidade 1 - Introdução à aerodinâmica Objetivos da unidade ........................................................................................................... 12 Introdução à aerodinâmica ................................................................................................ 13 Noções da Física e definições ...................................................................................... 14 Parte estrutural aerodinâmica de um avião .............................................................. 17 Forças atuantes em voo....................................................................................................... 22 Forças aerodinâmicas .................................................................................................... 23 Peso e balanceamento .................................................................................................. 28 Fases operacionais do voo ................................................................................................. 29 Decolagem ........................................................................................................................ 30 Tipos de voo ...................................................................................................................... 31 Pouso ................................................................................................................................. 35 Parafuso ............................................................................................................................ 35 Esforços estruturais ............................................................................................................. 36 Fator carga ....................................................................................................................... 37 Tipos de estabilidade ...................................................................................................... 39 Sintetizando ........................................................................................................................... 42 Referências bibliográficas ................................................................................................. 43 Sumário SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 4 03/02/21 09:19 Sumário Unidade 2 - Conceitos básicos da teoria de alta velocidade e os efeitos em voo Objetivos da unidade ........................................................................................................... 45 Teoria de alta velocidade ................................................................................................... 46 Compressibilidade do ar ................................................................................................. 46 Número Mach .................................................................................................................. 49 VMO e MMO .......................................................................................................................... 51 Efeitos adversos da alta velocidade ................................................................................. 53 Variação da posição do Centro de Pressão (CP) ....................................................... 54 Efeitos aeroelásticos ...................................................................................................... 55 Ram rise ............................................................................................................................ 57 Consumo de combustível ............................................................................................... 58 Controlabilidade do voo transônico ................................................................................. 61 Enflechamento ................................................................................................................. 62 Aerofólios e demais superfícies ................................................................................... 66 Sintetizando ........................................................................................................................... 70 Referências bibliográficas ................................................................................................. 71 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 5 03/02/21 09:19 Sumário Unidade 3 - Noções aerodinâmicas de altas velocidades e suas implicações Objetivos da unidade ........................................................................................................... 73 Introdução .............................................................................................................................. 74 Velocidade do som ............................................................................................................... 74 Velocidade ........................................................................................................................ 75 Captação de velocidade ................................................................................................. 75 O som ................................................................................................................................. 77 Características do som ...................................................................................................TEORIA DE VOO AVANÇADO 45 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 45 03/02/21 09:20 Teoria de alta velocidade O avanço da tecnologia na aviação, principalmente no que se refere à moto- rização, resultou no desenvolvimento de aeronaves de alta performance, que alçam voo em grandes velocidades. Com o surgimento dos primeiros aviões e motores a jato, alguns efeitos adversos foram notados, como a tendência de pi- car, vibrações na aeronave e até inoperância de algumas superfícies de contro- le, como leme e profundores. Tais problemas resultaram, inclusive, em alguns acidentes fatais. O fi lho do famoso Geoff rey de Havilland, fundador da empre- sa de mesmo sobrenome, faleceu em um acidente com o DH 108 Swallow, oca- sionado por falha estrutural grave devido à alta velocidade. O estudo da aerodinâmica de alta velocidade tem signifi cativa diferença em relação ao estudo de velocidades subsônicas. Um dos principais fatores é a variação da densidade do ar em tais velocidades, resultante da compressibili- dade do ar (que veremos a seguir), o que requer uma análise mais minuciosa. Portanto, é necessária a compreensão da infl uência da alta performance das aeronaves e seus possíveis efeitos em voo. Compressibilidade do ar Não há como explicar a aerodinâmica de alta velocidade sem antes com- preender a compressibilidade do ar. Toda matéria na natureza é, teoricamente, compressível. Porém, exige-se uma grande pressão para uma ínfi ma altera- ção em sua densidade, então, é considerado que a mesma é incompressível. Quando aumentamos a pressão de uma para duas atmosferas sobre um litro de água, por exemplo, seu volume é comprimido apenas em 2 × 10 -8 litros. Fa- zendo o mesmo com igual quantidade de ar, seu volume é reduzido à metade. Assim, a compressão do ar em altas velocidades (acima de 260 nós, aproxi- madamente) impacta diretamente a performance das aeronaves em voo, pois a alteração na densidade do ar torna-se signifi cativa. É necessário, portanto, levar em conta os chamados efeitos da compressibilidade. Observe na Figura 1 a diferença das características de um escoamento de ar em baixa velocidade para um escoamento em alta velocidade em um duto. TEORIA DE VOO AVANÇADO 46 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 46 03/02/21 09:20 Incompressibilidade Baixa velocidade Compressibilidade Alta velocidade Convergente Convergente Aumento da velocidade Diminuição da velocidade Densidade constante Diminuição da velocidade Aumento da pressão Densidade constante Aumento da velocidade Diminuição da pressão Diminuição da densidade Diminuição da velocidade Aumento da pressão Aumento da densidade Divergente Divergente Figura 1. Fluxo de ar sob baixa e alta velocidade. Fonte: BIANCHINI, 2015. A Figura 2. Ponto de estagnação em um determinado aerofólio. Fonte: HURT, 1965. TEORIA DE VOO AVANÇADO 47 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 47 03/02/21 09:20 O fluxo de ar não muda sua direção à frente do bordo de ataque Conforme a Figura 2, semelhante ao que ocorre em um aerofólio, no ponto A (chamado de ponto de estagnação), há o aumento de pressão e densidade. Exemplificando, se um aerofólio se encontra a 80 nós em condições de atmos- fera padrão, o aumento da pressão seria de apenas 1% e de densidade do ar de 0,7%. Entretanto, caso o mesmo aerofólio esteja a 330, há um significativo aumento de 18% de pressão e de 13% na densidade do ar nesse ponto. Apesar de todos esses números provarem a compressibilidade do ar em altas velocidades, resta a pergunta: por que o ar se comprime significativamen- te quando objetos (aeronaves, no nosso caso) deslocam-se por ele em altas velocidades? Sempre que ocorre o deslocamento de um objeto, são criados distúrbios na massa de ar que o envolve. Esse distúrbio se propaga em todas as direções, na velocidade do som. Digamos que há um aviso para as moléculas de ar que envolvem o objeto durante o deslocamento dele em velocidade subsôni- ca para adequarem-se ao seu formato. Quando em um fluxo supersônico, não há esse aviso para as moléculas, e a massa de ar sofre um grande distúrbio, o que causa mudanças significativas de velocidade, pressão e temperatura para que o escoamento continue tangente ao objeto (Figura 3). Figura 3. Escoamento de ar supersônico. Fonte: HURT, 1965. (Adaptado). EXPLICANDO Atmosfera padrão definida pela Organização de Aviação Civil Interna- cional (OACI). Os principais parâmetros são a pressão atmosférica ao nível médio do mar em 1.013,2 hectopascais (hPa) ou 29,92 polegadas de mercúrio (polHg), densidade do ar atmosférico (seco e livre de im- purezas) de 1,225 Kg/m³, temperatura média ao nível do mar de 15 ºC e gradiente térmico de 2 ºC a cada 1.000 pés até o FL360, a partir de onde considera-se -56,5 ºC. TEORIA DE VOO AVANÇADO 48 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 48 03/02/21 09:20 Número Mach É possível observar que a compressibilidade do ar depende, diretamente, da relação entre o movimento de um objeto e a velocidade do som na região em que o mesmo se encontra. O Número Mach nos traz essa relação, por meio da seguinte fórmula: Sendo: M = Número Mach; V = Velocidade verdadeira da aeronave (True Airspeed – TAS); a = Velocidade do som na altitude em que a aeronave se encontra. Como a velocidade do som varia exclusivamente com a temperatura, ela de- cresce à medida em que a altitude aumenta, justamente pelo gradiente térmico da atmosfera. Pode-se afi rmar que, quanto menor a velocidade do som a uma velocidade verdadeira constante, maior o Número Mach. Isso é o que acontece conforme a aeronave ganha altitude. A velocidade do som em determinada altitude é expressa pela seguinte fórmula: a= a0 √θ θ = T ⁄ T0 Sendo: a = Velocidade do som na temperatura absoluta T (temperatura em Kelvin (K), expressa pela fórmula K = ºC + 273); a0 = Velocidade do som na temperatura absoluta T0 (Temperatura ISA (Interna- tional Standard Atmosphere) ao nível do mar (15 ºC), portanto, 661,7 nós ou 343 m/s); Por exemplo, se um Boeing 737-800 mantém 460 nós de velocidade verda- deira no FL350 (Temperatura ISA = -55 ºC), temos: a = a0 √θ → a = 661,7 × → a = 575,7 nós 273 + 15 √273 + (-55) M = → M = → M = 0,8a V 575,7 460 M = a V TEORIA DE VOO AVANÇADO 49 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 49 03/02/21 09:20 Isso quer dizer que a aeronave voa a 80% da velocidade do som. Os filetes de ar, enquanto passam por um aerofólio no extradorso, são mais rápidos que os filetes que passam pelo intradorso, podendo atingir em determinado ponto da parte superior da asa velocidade igual a Mach 1,0. Quando isso ocorre, atinge-se o Mach Crítico (MCRIT), que é fundamental para compreender que, a partir dessa velocidade, os efeitos da compressibilidade do ar tornam-se substanciais. Quando em velocidade subsônica, todo o escoamento de ar em contato com o aerofólio está a uma velocidade inferior à do som. Em regime transô- nico, a aeronave voa abaixo de Mach 1,0, mas parte do extradorso da asa já se encontra em velocidades maiores que a do som. Esse regime estende-se até Mach 1,2, pois algumas partes da aeronave podem ainda estar em regi- me subsônico. Nos regimes supersônicos e hipersônicos, todo o ar em contato com a aeronave está em velocidade superior a Mach 1,0. Observe a Tabela 1 acerca dos regimes de voo. Regime de voo Velocidade Subsônico M 5,0 TABELA 1. VELOCIDADES DOS REGIMES DE VOO Os escoamentos supersônicos, assim que estabelecidos, mudam a veloci- dade, densidade do ar e pressão muito rapidamente e em áreas relativamente pequenas. Essas súbitas mudanças são denominadas ondas. As ondas de compressão, também conhecidas como ondas de choque, ocorrem quando um fluxo de ar supersônico é subitamente desacelerado para subsônico. Tal mudança resulta em um grande aumento de densidade e pres- são estática após a onda,e também em grande perda de energia. Nas ondas de expansão, por sua vez, não há grande perda de energia; a densidade do ar e a pressão estática são reduzidas após a onda. TEORIA DE VOO AVANÇADO 50 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 50 03/02/21 09:20 Fonte: Bold Method, 2018. (Adaptado). -30 -20 -10 0 100 60 ,00 0 55 ,00 0 200 300 400 500 Velocidade calibrada (CAS) Co rre çã o de C AS p ar a EA S 600 Altitude de pressão em pés 50 ,00 0 45 ,00 0 40 ,00 0 35 ,00 0 25 ,00 0 30 ,00 0 20 ,00 0 15 ,00 0 10, 000 5,000 VMO e MMO Aeronaves de alta performance, principalmente aquelas a jato, possuem velocidades limitantes, objetivando garantir a segurança de voo. Antes de deta- lharmos tais limitantes, vamos recapitular alguns conceitos mais importantes acerca das velocidades para o nosso estudo: • Velocidade Calibrada (CAS - Calibrated Airspeed): Velocidade Indicada (IAS - Indicated Airspeed) calibrada para erros de posição (instalação) do sensor de velocidade na aeronave, além da inconsistência do fl uxo de ar quando a altitude da aeronave varia pela aplicação de fl aps, por exemplo. Alterna, nor- malmente, muito pouco em relação à IAS; • Velocidade Equivalente (EAS - Equivalent Airspeed): Velocidade Calibrada ajustada para erros de compressibilidade do ar, ou seja, a pressão dinâmica nas sondas de velocidade (tubos de Pitot). Até 200 nós e altitudes próximas de 10.000 pés, sua diferença em relação à CAS é negligenciável. Após essa altitude, há uma diferença signifi cativa. Uma aeronave a 300 nós de CAS, voando no FL350 (At- mosfera ISA), estaria a 280 nós de EAS. Na prática, os computadores de dados do ar (Air Data Computers) a bordo fazem cálculos e indicam aos pilotos diretamente a velocidade verdadeira (TAS), como é possível observar no Gráfi co 1. GRÁFICO 1. VARIAÇÃO PARA CORREÇÃO DE CAS PARA EAS TEORIA DE VOO AVANÇADO 51 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 51 03/02/21 09:20 • Velocidade Verdadeira (TAS – True Airspeed): Velocidade Equivalente corrigida para erros de densidade a grandes altitudes. Sabe-se que, conforme subimos, a densidade do ar diminui. Dessa maneira, o fluxo de ar admitido nas sondas para cálculo torna-se mais rarefeito, e isso impacta diretamente nos cálculos do velocímetro, pois o mesmo calcula velocidades a partir da pressão dinâmica. Ao manter a CAS constante, a aeronave está, na verdade, acelerando para que o fluxo de ar mantenha a mesma pressão nas sondas e o velocímetro aponte que a Velocidade Indicada (IAS – Indicated Airspeed) não está variando. Ou seja, a TAS aumenta conforme aumenta a altitude. Ela varia em torno de 2% a cada 1000 pés a partir da CAS e pode ser facilmente calculada pelo computa- dor de voo por meio da fórmula: TAS = EAS ou TAS = EAS √σ 1 ρ ρ0 Sendo: ρ0 = Densidade ao nível médio do mar em condições ISA; ρ = Densidade no nível de voo em condições ISA; σ = ρ ⁄ρ0 Utilizando o exemplo anterior de EAS = 280 nós no FL350, a TAS é computada da seguinte maneira: TAS = 280 × → TAS = → TAS = 503 nós 1 √0,3099 280 0,5567 A VMO é a Velocidade Máxima Operacional da aeronave que, se excedida, pode danificar a aeronave estruturalmente. É considerada em voos a relativas baixas altitudes (abaixo do FL260, aproximadamente), em que a densidade do ar é maior, os efeitos de compressibilidade ainda são negligenciáveis, e esfor- ços estruturais são mais significativos. A VMO do Boeing 737-800 é de 340 nós. Acima dessa altitude, considera-se o MMO, Mach Máximo Operacional, como limitante de velocidade da aeronave, pois a grandes altitudes os efeitos de compressibilidade são consideráveis, podendo haver diversos efeitos negati- vos quando ultrapassado. A MMO do Boeing 737-800 é de Mach 0,82. Sua típica velocidade de cruzeiro é de Mach 0,78. Apesar dessa pequena folga, nem sem- pre é vantajoso voar muito rápido por razões de performance (consumo de combustível, por exemplo). TEORIA DE VOO AVANÇADO 52 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 52 03/02/21 09:20 Portanto, para evitar exceder tanto a VMO quanto a MMO, o próprio compu- tador de bordo de jatos considera, acima do FL260, o Número Mach como velocidade da aeronave para efeitos de alertas e indicações aos pilotos. Nos velocímetros convencionais, o MMO é indicado por um ponteiro branco e verme- lho, conhecido como barber pole (poste do barbeiro, similar às barbearias nos EUA). Nos aviões modernos há um tracejado vermelho na speed tape (fi ta de velocidade). Observe a Figura 4. Figura 4. Indicadores de overspeed (velocidade excessiva). Efeitos adversos da alta velocidade Há diversas consequências dos voos em altas velocidades. Como apontado na introdução do tópico anterior, tais consequências podem causar acidentes, como no passado. Não apenas considerando a alta velocidade, mas o voo a jato pressurizado resultou em grande aprendizado para o desenvolvimento da aviação moderna, tendo custado, infelizmente, vidas humanas. TEORIA DE VOO AVANÇADO 53 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 53 03/02/21 09:20 Um dos mais marcantes fatos históricos acerca de voo em alta performance são as janelas do Havilland 106 Comet. Desenvolvido em 1949, foi um marco para a era da aviação a jato. Alguns de seus 26 acidentes registrados (que ceifaram, ao todo, 426 vidas) mostraram um severo desgaste de material nos arredores das janelas, e após longas investigações, constatou-se que o formato quadrado das janelas foi determinante para esse acúmulo de pressão. As janelas dos aviões modernos, ovaladas, distribuem melhor a pressão nos seus arredores. Nesse tópico, veremos alguns dos problemas resultantes da alta velocidade em voo, bem como algumas maneiras de atenuá-los. Vale lembrar que os pro- blemas não resultam apenas da física, mas o melhor custo-benefício tem papel fundamental no emprego de grandes velocidades. Variação da posição do Centro de Pressão (CP) O Centro de Pressão de um aerofólio é um ponto no qual a força resultante das pressões agindo sobre ele se estabelece, a resultante aerodinâmica, produzida pela relação entre sustentação e arrasto, basicamente. Ele não é facilmente calcu- lado, mas é de suma importância para entender a tendência de picar da aeronave quando em voos próximos à velocidade supersônica, conhecida como Mach Tuck. Quando estabelecido, o CP deve compor um equilíbrio de forças para a manu- tenção do voo, junto ao Centro de Gravidade (CG), à sustentação (L) e à força con- trária dos profundores da aeronave, indicada na Figura 5 por F. Sabe-se que o CG é cuidadosamente calculado pelos despachantes de voo nas companhias aéreas, e consiste em responsabilidade do piloto no caso da aviação geral. Ele infl uencia desde o controle longitudinal da aeronave até o consumo de combustível. L × a = F × b F L cpcg a b Figura 5. Momento de forças em uma aeronave. Fonte: SAINTIVE, 2013. TEORIA DE VOO AVANÇADO 54 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 54 03/02/21 09:20 O momento resultante é produto de uma força sobre uma determinada dis- tância (braço), representados por a e b na Figura 5. Qualquer variação na força ou no braço resulta em um desequilíbrio. A onda de choque produzida quan- do a aeronave acelera além do Mach crítico provoca um grande aumento de sustentação à frente dela. Conforme a aceleração continua, a onda de choque move-se para trás, pois é o ponto onde a velocidade passa de supersônica para subsônica novamente. Consequentemente, o Centro de Pressão também se move para trás, devido a esse aumento substancial de sustentação produzido logo antes da onda de choque. Observando a Figura 5, o movimento do CP para trás resulta diretamente em um maior braço a, tornando a relação L × a > F × b. É como se, ao trocar o pneu furado do carro, utilizássemos uma chave de roda mais comprida para desparafusá-la, ou segurássemos na ponta o máximo possível. Esse momentode picar, resultante da movimentação de posição do CP, é atenuado com o uso de estabilizadores de incidência variável, que veremos em detalhes no próximo tópico. A mesma lógica pode ser aplicada na movimentação do CG ao longo do voo, uma vez que isso afeta diretamente a relação de momento resultante do produto das forças pelos braços. Efeitos aeroelásticos A relação entre a estrutura de uma aeronave e as forças aerodinâmicas é infl uenciada pela aeroelasticidade. Materiais utilizados na construção de aero- naves devem possuir resistência e rigidez para suportar tais forças. É impor- tante não confundir ambas, uma vez que a resistência de uma estrutura nada mais é do que sua capacidade de aguentar cargas dinâmicas (fator carga, razão entre sustentação e peso), enquanto a rigidez é a capacidade de deformação ou defl exão de um material ou compósito. Isto é, um material de resistência adequada não possui, necessariamente, uma rigidez adequada à operação. É necessário, portanto, relacionar resistência e rigidez apropriadamente, a fi m de prevenir efeitos aeroelásticos indesejados durante operações normais de voo. Asas enfl echadas exigem grande complexidade estrutural, com longarinas maiores e mais reforçadas. As extremidades são mais suscetíveis a momentos de torção, o que aca- ba aliviando as cargas aerodinâmicas e movendo o Centro de Pressão para frente. TEORIA DE VOO AVANÇADO 55 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 55 03/02/21 09:20 O Boeing 747 apresentou um grave problema de cargas excessivas em suas asas e seu projeto quase precisou ser inteiramente reformulado. Joe Sut- ter, o pai do 747, reuniu-se com alguns engenheiros e descobriu que não seria necessário mudar o ângulo de incidência da asa inteira, somente na região próxima às extremidades. Isso já representou um alívio de cerca de 80% dos problemas de carga do jumbo, salvando o projeto. Observe a Figura 6, que mostra as extremidades torcidas. A grandes velocidades, as pressões dinâmicas suportadas pelos aerofólios resultam em um momento de torção da asa. Quando um aileron é defletido para baixo, a intenção é fazer com que sua asa levante para curvar a aeronave para o lado da asa oposta. No entanto, tal pressão força a região do bordo de fuga para cima, devido ao torque, enquanto a do bordo de ataque, consequen- temente, é forçada para baixo, resultando em um momento de picada. A isso chamamos de inversão de comandos, ou seja, na intenção de rolar à esquer- da, por exemplo, a aeronave curvaria à direita. Dentre as soluções encontradas para esses momentos de torção, decidiu- -se pela fabricação das asas de modo que o aileron ficasse mais próximo à raiz da asa, onde a estrutura é mais reforçada. Outra solução é a utilização de dois pares de ailerons, internos e externos. Em altas velocidades, os ailerons externos, críticos, não são defletidos, somente os internos, próximos à raiz. Os spoilers projetam-se acima da asa, no extradorso, interrompendo a sustenta- ção, atuando como freios aerodinâmicos e ajudando nas curvas, fazendo a asa em que abrem abaixar. A baixas velocidades, trabalham em conjunto aos aile- rons externos, e nas altas velocidades, aos internos. Eles são utilizados ainda durante o pouso, a fim de ajudar na parada, conhecidos como speed brakes, aumentando a carga sobre os trens de pouso. Figura 6. Aeronave Boeing 747-400 decolando. Fonte: The Full Gull, 2017. (Adaptado). TEORIA DE VOO AVANÇADO 56 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 56 03/02/21 09:20 ASSISTA De forma a explicar o efeito de inversão de comandos, assista ao vídeo What is high speed aileron reversal?. É uma animação gráfi ca bem interessante que ilustra esse efeito. Não se engane, entretanto, com a seta apontando para cima na asa que deveria abaixar; apesar disso, ela ainda gera sustentação, mas menos do que a outra asa. Porém, com a inversão de comandos, a sustentação gerada acaba sendo maior que a da asa que deveria, teoricamente, levantar. Ram rise Ram rise signifi ca o aumento (rise) de temperatura na fuselagem da aerona- ve pelo ar de impacto (ram air) a altas velocidades. Vimos que a velocidade do som varia única e exclusivamente com a temperatura, portanto, a medição dela é fundamental para obter o Número Mach. Algumas siglas de temperatura que aparecem em mostradores de aeronaves modernas são: • OAT (Outside Air Temperature): temperatura do ar externo; • SAT (Static Air Temperature): temperatura do ar estático; • RAT (Ram Air Temperature): temperatura do ar de impacto; • TAT (Total Air Temperature): temperatura total do ar. OAT e SAT são siglas diferentes para a mesma temperatura, a do ar exter- no imóvel. É em função dela que se calcula o Número Mach. A TAT é medida em função de SAT, tendo em vista que leva em conta a temperatura do ar externo somada ao aumento de temperatura resultante do impacto do ar, pela seguinte fórmula: TAT = SAT + 0,2 × M2 × SAT TAT = 222 + 0,2 × (0,78)2 × 222 → TAT = 249 K → TAT = -24 °C Fica claro pela fórmula que o ram rise é expresso por 0,2 × M² × SAT. Como o ar impacta a sonda de temperatura, ocorre compressão adiabática do mesmo e aquecimento de fricção, resultando no aumento da temperatura. Lembrem- -se que, para as fórmulas aqui expostas, é necessário calcular a temperatura absoluta (Kelvin). Se um Boeing 737 voa a Mach 0,78 no FL330 em condições ISA (SAT = - 51 ºC = 222 K), teremos: TEORIA DE VOO AVANÇADO 57 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 57 03/02/21 09:20 Pela diferença entre TAT e SAT, o ram rise, observamos um aumento de 26 ºC na temperatura devido ao ar de impacto. A fórmula acima, entretanto, considera que 100% do ar impactando a aeronave ganha energia pelo processo adiabático, mas parte dessa energia perde-se em forma de fricção. Dessa maneira, é utilizado para um cálculo da RAT, de maneira mais precisa, um fator de recuperação, K, o qual leva em consideração a porcentagem de ar que, de fato, está aumentando a TAT. Em aeronaves de alta performance modernas, essa perda é baixa, pois K está entre 0,9 e 1,0. Esse valor é disponibilizado no manual de operação da aeronave. Observe: RAT = 222 + 0,2 × 0,95 × (0,78)2 × 222 → RAT = 236,5 K → RAT = -36,5 °C RAT = 216,5 + 0,2 × 0,98 × (2,0)2 × 216,5 → RAT = 386,2 K → RAT = 113,2 °C RAT = SAT + 0,2 × K × M2 × SAT Levando em conta o exemplo anterior, consideremos um hipotético fator de recuperação de 0,95. Dessa maneira, conclui-se que quando K = 1,0, RAT = TAT. A diferença de aproximadamente 12 ºC levando em conta o fator K, nesse exemplo, a qual já parece relevante, torna-se irrisória quando comparada às aeronaves supersô- nicas. O Concorde, por exemplo, voava a incríveis Mach 2,0 a 58.000 pés! Va- mos calcular a temperatura do ar de impacto nessas condições, considerando um fator de recuperação de 0,98 e atmosfera em condições ISA. Lembrando que, próximo da tropopausa, a temperatura para de diminuir conforme subi- mos; então, a temperatura ISA em níveis superiores ao FL400 para efeitos de cálculos é tida como 56,5 ºC negativos. Veja que a temperatura sobe substancialmente, sendo necessário levar em conta, nesse caso, a resistência do revestimento da aeronave ao calor. Quando o Concorde atingia RAT aproximada de 127 ºC (ou seja, um ram rise de mais de 180 ºC), era necessário reduzir a velocidade para evitar danos na aeronave. Consumo de combustível Não podemos deixar de alinhar a teoria da alta velocidade à prática. Sabe- -se, hoje, que nem sempre a grande velocidade é vantajosa para o transporte TEORIA DE VOO AVANÇADO 58 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 58 03/02/21 09:20 aéreo. Não à toa, o Concorde, por exemplo, deixou de ser fabricado há anos e não há aeronaves comerciais em atividade que voam a velocidade supersôni- cas. A relação de velocidade e consumo de combustível é complexa e leva em conta diversos fatores meteorológicos e socioeconômicos. É comum uma brincadeira no âmbito aeronáuticoque o que faz um avião voar não é a sustentação, forças aerodinâmicas etc, e sim, o dinheiro. A indús- tria aeronáutica é conhecida pelos seus altos custos de operação e baixas mar- gens de lucro. O combustível representa, em média, 40% de todos os custos de operação de uma companhia aérea, portanto, sua economia é fundamental para a sobrevivência em um mercado disputado e globalizado. O principal indicador a ser utilizado nos voos de grandes empresas aéreas é o Cost Index (CI), ou Índice de Custo, em tradução livre. Ele é inserido no compu- tador de bordo dos jatos para que a própria aeronave calcule o melhor regime de voo. O CI é uma relação entre o custo operacional da hora de voo (manu- tenção da aeronave, leasing, remuneração de tripulantes, taxas aeronáuticas e aeroportuárias etc, exceto o combustível) e o custo do combustível, sensível à flutuação cambial (no caso do Brasil) e ao valor do barril de petróleo. Cost Index = (Custo do combustível,normalmente centavos de US$/libra) (Custo horário,normalmente US$/hora) A grosso modo, se o CI é zero, o regime utilizado será de velocidade de máxi- mo alcance e o menor consumo de combustível possível. Aplicando o valor má- ximo de CI, a aeronave utiliza-se das maiores velocidades possíveis, ignorando o consumo de combustível. O CI aplicado nunca será o mínimo ou o máximo, sendo que cada empresa o ajusta às suas particularidades. Rotas específicas podem ter o CI diferente, por exemplo. Quanto menor o CI empregado, mais alto o custo do combustível comparado a outros custos e despesas da empresa; e quanto maior o CI, mais barato o com- bustível relativamente. Entretanto, se a empresa tem parte de seus custos ope- racionais da hora de voo associados diretamente à utilização por hora, é mais in- teressante que voe mais rápido, a fim de reduzir a utilização. Emprega-se, assim, um CI maior, não necessariamente pela flutuação do preço do combustível. Caso os contratos de arrendamento de aeronaves e motores, por exemplo, sejam por um período fixo, o ganho de tempo não impacta esses custos, assim, de forma a TEORIA DE VOO AVANÇADO 59 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 59 03/02/21 09:20 otimizar a operação, é interessante consumir menos combustível. É empregado, então, um CI menor. O Gráfico 2 demonstra a variação do CI de acordo com o desejado em um voo em subida para altitude de cruzeiro, ponto A ao B. Fonte: ROBERSON, 2007. (Adaptado). A família do Boeing 737 séries -600, -700, -800 e -900 pode empregar um CI entre 0 e 500. Se um Boeing 737-700 estivesse empregando um CI de 45 em seus voos, sendo que o ideal é 12, estaria otimizando sua operação em apenas três minutos, a uma diferença de custo anualizada de US$ 1.800.000. Na nossa ótica de consumidor, três minutos parecem desprezíveis pelo seu altíssimo pre- ço. Porém, esses breves três minutos podem ser a diferença entre voos consi- derados dentro do horário e voos considerados atrasados, os quais penalizam a empresa financeiramente. Assim, pela ótica de investidores, a pontualidade é fundamental. Ou seja, às vezes é válido pagar mais caro para voar mais rápido. O consumo também é diretamente afetado pelo vento. A grandes altitudes os componentes de vento podem chegar a mais 50 nós, e isso precisa ser leva- do em consideração. Sabemos ainda que, via de regra, quanto mais alto, menor o consumo de combustível por vários fatores. Assim, o que é mais vantajoso: subir mais para economizar combustível, mas pegar um vento de proa; ou voar mais baixo, consumir mais combustível e pegar um vento de cauda? Para res- ponder essa questão, há tabelas de troca de vento e altitude (chamadas de wind-altitude trade) como a Tabela 2 de um bimotor a jato. GRÁFICO 2. GRADIENTE DE SUBIDA DE ACORDO COM O CUSTO DE INDÍCE Altitude inicial de cruzeiro Gradiente máximo de subida Cl = 0 Tempo mínimo para o ponto B Distância Altitude Cost index aumentando a B TEORIA DE VOO AVANÇADO 60 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 60 03/02/21 09:20 ALTITUDE PRESSÃO (MILHARES DE PÉS) PESO DA AERONAVE (TONELADAS) 62 58 54 50 46 42 38 37 - - 14 1 0 0 0 35 - 5 0 2 8 12 14 33 2 2 3 12 20 26 29 31 1 4 14 25 35 41 44 29 8 17 28 39 50 57 60 27 17 30 41 55 66 71 75 TABELA 2. WIND-ALTITUDE TRADE - CRUZEIRO DE LONGO ALCANCE Fonte: SAINTIVE, 2011. (Adaptado). Quanto menor o índice apontado na tabela, menor o consumo de combus- tível. Caso não houvesse vento em nível algum, bastaria buscar o menor índice. Assim, para contabilizar a vantagem, é necessário um cálculo rápido a partir da componente de vento na rota. Vamos a um exemplo simples. Para um determinado voo, observou-se no FL310, uma componente de 25 nós de vento de cauda, no FL330, 15 nós de vento de cauda e no FL 350, cinco nós de vento de proa. Considerando o peso de 50 toneladas, soma-se o vento de proa ao índice (pois aumenta o consumo) e subtrai-se o vento de cauda ao índice (uma vez que reduz o consumo). Portanto, os índices para os FL 310, 330 e 350 são, respectivamente 0 (25 – 25), - 3 (12 – 15) e 7 (2 + 5). Dessa maneira, o nível mais vantajoso é o FL330, seguido pelo FL310 e depois o FL350. Talvez, em um futuro próximo, o rendimento das aeronaves e motores ae- ronáuticos seja muito maior a ponto de serem vantajosos fi nanceiramente os voos comerciais supersônicos. O impulso para isso será a demanda, geralmente oriunda de viajantes de negócios. Obviamente, a economia de tempo com as via- gens aéreas sempre foi um fator crucial na escolha desse modal. Basta, entretan- to, o mercado estar disposto a pagar por essa vantagem que a indústria a oferte. Controlabilidade do voo transônico Observamos que em voos comerciais não há grande vantagem no emprego de ve- locidades supersônicas, atualmente. Entretanto, aeronaves militares, por exem- plo, utilizam-se taticamente das vantagens do voo transônico e supersônico. TEORIA DE VOO AVANÇADO 61 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 61 03/02/21 09:20 Uma fantástica aeronave militar era a Lockheed SR-71 Blackbird. Construída pelos EUA para espionagem durante a Guerra Fria, ela foi inteiramente fabri- cada em titânio, com um design de asas projetado para voar a extremos Mach 3,2 e altitude de 85.000 pés. A RAT poderia chegar a 500 ºC na ponta de seu nariz. Por isso, seus tanques não podiam ser completamente abastecidos antes de decolar, pois as chapas de titânio eram espaçadas, fazendo o combustível vazar. A grande temperatura suportada em voo fazia as chapas expandirem e vedarem os tanques. Assim, era necessário abastecê-la em voo antes de subir para grandes altitude e velocidade. Seus motores possuíam cones na entrada de ar, que se movimentam para controlar a onda de choque do ar admitido. Veremos quais as mudanças e fatores que auxiliam na manutenção do voo em grandes velocidades, reduzindo os efeitos da compressibilidade do ar, como enfl echamento, aerofólios e superfícies especiais, que são observadas na aeronave Blackbird. Figura 7. Lockheed SR-71 Blackbird. Fonte: Wikimedia Commons. Acesso em: 31/07/2020. Enflechamento É o ângulo formado entre o eixo lateral ou transversal da aeronave e o bordo de ataque das asas. Aeronaves menores não possuem enfl echamento, como o Cessna 152 e o Paulistinha, ambas amplamente utilizadas na instrução de voo, pois estão longe de problemas de compressibilidade. Quando enfl echada, a TEORIA DE VOO AVANÇADO 62 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 62 03/02/21 09:20 asa sofre os efeitos negativos da compressibilidade a velocidades maiores, ten- do em vista que a componente de vento relativo perpendicular ao bordo de ataque é menor. Observe a Figura 8. Enflechamento com 35º Componente de velocidade paralelo ao bordo de ataque Componente da velocidade perpendicular ao bordo de ataque θ Ve nt o re la tiv o Figura 8. Asa com enflechamento de 35º. Fonte: BIANCHINI, 2015. Se um determinado aerofólio sem enflechamento e demesma área do mos- trado da Figura 8 tivesse um MCRIT = 0,78, enflechando-no 35º seu novo MCRIT seria: cos θ = → cos 35 = novo MCRIT MCRIT novo MCRIT 0,78 novo MCRIT = → novo MCRIT = 0,95 0,8192 0,78 Como o cálculo de MCRIT é mais complexo do que o exposto acima (levando em conta outros fatores além do escoamento do fluxo de ar), pode-se afirmar que o novo MCRIT, devido ao enflechamento, compreende entre 0,78 e 0,95. Ape- sar de vantajoso por um lado, o enflechamento traz alguns problemas, como a redução do coeficiente de sustentação máximo, a movimentação transversal de filetes de ar pelo aerofólio, tendência de estol na ponta de asa e o Dutch roll. A diminuição da sustentação ocorre devido ao vento relativo que flui diagonal- mente à corda da asa (como na Figura 8), o que aumenta o arrasto gerado pela maior fricção com a superfície do aerofólio e redução do alongamento (razão entre en- vergadura e corda média geométrica) efetivo da asa. A grandes velocidades, esse TEORIA DE VOO AVANÇADO 63 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 63 03/02/21 09:20 problema é menor, pois a velocidade compensa a redução do coeficiente de sus- tentação. Entretanto, quando a velocidade é reduzida para operações de pouso e decolagem, é exigido um maior ângulo de ataque para compensar essa perda. Basta lembrarmos da fórmula da sustentação para compreender isso mais claramente. Observe que na fórmula para asas enflechadas é necessário levar em con- sideração o ângulo θ de enflechamento. Como o cosseno dele será sempre menor que 1,0, a sustentação gerada é menor que na asa enflechada. Assim, reduzindo a velocidade, a sustentação precisa ser compensada pelo aumento do coeficiente de sustentação (Cl), diretamente proporcional ao ângulo de ata- que. A curva do coeficiente no gráfico de aeronaves com enflechamento é mais achatada e com o C(l Max) ocorrendo em um ângulo de ataque maior. Isso torna a aeronave menos suscetível à perda de sustentação devido a rajadas de vento, por exemplo, ocasionando menos desconforto aos passageiros. A desvantagem desse aumento a baixas velocidades é a dificuldade dos pilo- tos em observar a pista durante a aproximação e o emprego de trens de pouso maiores. Como o C(l Max) é limitado, a velocidade de estol aumenta, exigindo pistas maiores para pousos e decolagens também. Além disso, para não ser necessário aumentar tanto o ângulo de ataque, aeronaves com asas enflechadas utilizam-se de dispositivos hipersustentadores avançados, como flaps fowler e slats. Mais uma desvantagem do enflechamento é a tendência dos filetes de ar se movimentarem transversalmente no aerofólio. Isso ocorre, principalmente, em elevados coeficientes de sustentação, pois a região próxima da raiz da asa possui diferenciais de pressão maiores que a região próxima à ponta, fazendo o ar fluir na direção da ponta da asa. Além de aumentar o arrasto, isso reduz a energia da camada limite, facilitando o descolamento e consequente estol. Os dispositivos chamados wing fences atenuam esse fluxo transversal. 1 2 Fórmula para uma asa com enflechamento → L = Cl × × ρ × S × (V × cos θ)² 1 2 Fórmula para uma asa sem enflechamento → L = Cl × × ρ × S × V² Figura 9. Wing fences no bombardeiro Tupolev Tu-95. Fonte: Wikimedia Commons. Acesso em: 31/07/2020. TEORIA DE VOO AVANÇADO 64 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 64 03/02/21 09:20 Outro sério problema relacionado às asas enflechadas e afilamento de aerofólios é a tendência de estolar nas extremidades, que está relacionada à movimentação transversal dos filetes de ar, os quais desenergizam a camada limite próximo às pontas, induzindo ao estol. É algo problemático, consideran- do que os ailerons são localizados mais próximos às extremidades das asas, e o estol, nessas regiões, os tornam inoperantes, reduzindo a controlabilidade da aeronave. Ademais, o CP desloca-se à frente causando um momento de cabra- gem (pitch up moment), oposto ao que ocorre no Mach Tuck, explicado anterior- mente. Essas consequências são ruins porque são exatamente o oposto do que deve ser feito diante de um estol, dificultando ainda mais sua recuperação. Os principais recursos utilizados para evitar esses efeitos indesejáveis são: • Torção nas pontas das asas, diminuindo o ângulo de ataque nessas regiões, retardando o estol; • Os slats, dispositivos hipersustentadores que são deslocados à frente no bordo de ataque das asas quando em voo, com elevados ângulos de ataque, permitindo que o ar escoe entre uma fenda e a asa, energizando a camada limite. Por fim, o Dutch roll, em geral, é um fenômeno dinamicamente estável, ou seja, tende a retornar à estabilidade com o tempo. Seu ciclo completo é muito rápido e dura entre dois a três segundos. Em algumas aeronaves, porém, seus efeitos são potencialmente perigosos. Asas enflechadas aumentam a estabili- dade lateral (em torno do eixo longitudinal) mais do que a estabilidade direcio- nal (em torno do eixo vertical), possibilitando essa oscilação adversa. Vejamos o trecho a seguir, que aborda o Dutch roll. Se o avião faz uma guinada para a direita, a asa esquerda (externa) irá avançar mais rapidamente e ficará mais exposta, produzindo mais susten- tação e também gerando mais arrasto. Por ter maior área exposta ao vento relativo à asa esquerda irá produzir mais arrasto, fazendo com que a aero- nave faça uma guinada para a esquerda no sentido oposto ao originalmente comandado. Esta divergência de oscilação é o que caracteriza o dutch roll (BIANCHINI, 2015, p. 203). A fim de reduzir seus efeitos, aeronaves modernas empregam o yaw damper, ou amortecedor de guinada. É um equipamento dotado de senso- res giroscópicos e acelerômetros, muito sensíveis às oscilações mínimas TEORIA DE VOO AVANÇADO 65 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 65 03/02/21 09:20 de guinadas e aplica correções bem precisas que evitam o Dutch roll antes mesmo da indicação de algum efeito. Vale salientar que esse sistema não interfere nos comandos de leme dos pilotos e ainda auxilia a evitar curvas não intencionalmente glissadas ou derrapadas. CURIOSIDADE Algumas aeronaves possuem enfl echamento negativo, como o caça Sukhoi Su-47. Ou seja, as asas apontam para frente. Uma grande vanta- gem é a eliminação da tendência de estol de ponta de asa, característica das aeronaves de enfl echamento positivo. Por outro lado, uma desvan- tagem é o efeito aeroelástico inverso, em que as pontas das asas torcem para cima, aumentando o ângulo de ataque ali, ao invés de abaixá-lo. Aerofólios e demais superfícies O formato dos aerofólios tem papel fundamental na defi nição do MCRIT e, consequentemente, na controlabilidade do voo transônico e supersônico. Além do formato, certas superfícies aerodinâmicas também aumentam o controle dos pilotos sobre a aeronave nesses regimes. Aerofólios mais afinados e menos curvados têm o MCRIT maior, justa- mente pelo seu extradorso ser mais achatado para acelerar menos o filete de ar que passa por ali, possibilitando voar a velocidades maiores e en- contrando problemas de compressibilidade mais tardiamente. As desvan- tagens de utilizar tais aerofólios, entretanto, envolvem menor capacidade de armazenamento de combustível (tanques menores nas asas), menos espaço para compartimento de trens de pouso e outros sistemas além de, naturalmente, limitada resistência estrutural. Já os aerofólios supercríticos, têm seu formato bem achatado nos pri- meiros 70% da superfície, reduzindo a sustentação. Para compensar essa perda, os últimos 30% acentuam sua curvatura, por isso o formato em S próximo ao bordo de fuga. Assim, possuem um bordo de ataque maior, ex- tradorso achatado e curvatura acentuada no intradorso próximo ao bordo de ataque. Observe a Figura 10. TEORIA DE VOO AVANÇADO 66 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 66 03/02/21 09:20 Figura 10.Aerofólio comum à esquerda e supercrítico à direita. Fonte: ANDERSON, 2016. Fonte: ANDERSON, 2016. (Adaptado). Os perfis supercríticos aumentam ainda o valor do Mach de Divergência de Arrasto (MDIV). Ele não deve ser confundido com o MCRIT (velocidade na qual determinado ponto do extradorso atinge M = 1,0. O MDIV é o ponto no qual o coe- ficiente de arrasto (Cd) aumenta significativamente, enquanto o Número Mach diminui após a onda de choque. Como os perfis supercríticos atrasam e suavi- zam a onda de choque, o MDIV é maior que em aerofólios padrões, reduzindo o arrasto e postergando seus efeitos. Na prática, há um distanciamento entre os pontos c e e do Gráfico 3. Além dos aerofólios, há também os processos e dispositivos específicos em- pregados para otimizar os voos transônicos. Um importante processo é a regra de área (area rule), criada pelo engenheiro aeronáutico norte-americano Richard M > 1 M > 1 M > 1 Onda de choque relativamente forte Onda de choque relativamente fraca GRÁFICO 3. CURVA DE COEFICIENTE DE ARRASTO EM FUNÇÃO DO NÚMERO MACH h g Barreira do som MCRIT M∞1.0 MDIV Cd Cd0 0 f e dcba TEORIA DE VOO AVANÇADO 67 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 67 03/02/21 09:20 T. Whitcomb. Ele observou o súbito aumento de arrasto nas regiões de insta- lação da asa na fuselagem em altas velocidades. Para resolver esse problema, sugeriu que os pontos de conexão de aerofólios com a fuselagem fossem mais aerodinâmicos ou acinturados, tornando-os mais aerodinâmicos e reduzindo o arrasto de interferência, tanto nas asas quanto em outros aerofólios. O que sur- tiu efeito imediato no Convair YF-102 Delta Dagger, que seria um projeto perdido sem a aplicação da regra de área, pois era um jato interceptador que não poderia sustentar velocidades supersônicas. Esse afunilamento da fuselagem também permitiu a ótima performance do Boeing 747, que pode chegar a M = 0,92. Além da regra de área, os geradores de vórtice (vortex generators) são pe- quenas barbatanas instaladas no bordo de ataque das aeronaves (com ângulo de aproximadamente 15º com a corda do aerofólio), na região do extradorso, que melhoram a sustentação a elevados ângulos de ataque para voos subsô- nicos também. Alguns são instalados, inclusive, nas carenagens de motores turbofan. Quando o escoamento passa por eles, um pequeno vórtice é gerado nesse fluxo de ar, energizando-o, o que permite retardar significativamente o descolamento da camada limite. Figura 11. Fluxo de ar com vórtices gerados. As superfícies de comando com maior eficiência auxiliam na estabilidade dos voos de alta performance. Isso ocorre com os estabilizadores horizontais de inci- dência variável. Estes, assim como as asas, são suscetíveis à formação de ondas de choque, o que resultaria em redução ou até eliminação da capacidade de arfagem da aeronave. Quando é possível alterar a altitude de toda a superfície, TEORIA DE VOO AVANÇADO 68 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 68 03/02/21 09:20 sua eficiência é aumentada significativamente. Durante o voo, eles são ajustados por meio dos sistemas de compensadores, principalmente para se adequarem à movimentação do CG conforme o combustível é consumido (Figura 11). Similar aos estabilizadores de incidência variável, há os stabilators (stabilizer + elevators). São comuns em caças, como o F-16. Diferentemente dos estabili- zadores, eles respondem aos comandos do piloto na coluna de controle (man- che), e como são fabricados para girar em torno de seu Centro Aerodinâmico, é necessário pouco esforço por parte dos pilotos. Aeronaves de pequeno porte possuem compensadores que evitam excesso de comandos pelos pilotos. Figura 12. Estabilizador horizontal de incidência variável do Embraer E170. Fonte: Wikimedia Commons. Acesso em: 31/07/2020. A fim de facilitar a pilotagem, aeronaves de alta performance têm também instalados sistemas de compensadores de Mach (Mach trimmer). Voos a grandes altitudes e velocidades, mesmo subsônicos, exigem uma sensibilidade além do que seres humanos conseguem praticar, por isso a vasta automatização dessas aeronaves. Para os voos transônicos, o Mach trimmer ajusta os profundores ou es- tabilizadores de incidência variável para compensar principalmente a tendência de picar a altas velocidades quando o deslocamento do CP para trás força o momento de picada, como apontado anteriormente. Dessa maneira, a estabilidade longitu- dinal da aeronave é mantida com esses sistemas, que compensam as tendências em voo. A depender da velocidade, a força exigida para manter a aeronave nivela- da pode chegar a 60 libras, algo inviável para aeronaves comerciais. EXPLICANDO O Centro Aerodinâmico, diferentemente do Centro de Pressão, é o ponto no qual o momento de altitude resultante, gerado pelas forças atuantes sobre um aerofólio, é praticamente nulo. Não se move com a mudança de ângulo de ataque, como o CP. TEORIA DE VOO AVANÇADO 69 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 69 03/02/21 09:20 Sintetizando Iniciamos esta unidade explicando a teoria básica do voo em alta velocida- de, como a compressibilidade do ar afeta a produção de sustentação e diversos outros aspectos da alta performance. Tratamos ainda da forma como a com- pressibilidade é afetada diretamente pela velocidade do som, perpassando pelos conceitos do Número Mach e a forma como é computado e influenciado pela temperatura a determinadas altitudes. Além disso, apontamos os regimes de voo, também de acordo com o Número Mach. Em seguida, analisamos as velocidades limitantes de operação da aeronave, que a relativas baixas altitudes, é restrita pela VMO, e a grandes altitudes pelo MMO, onde as ondas de choque afetam o voo significativamente. Apontamos ainda alguns efeitos adversos dos voos em regimes transônicos e supersônicos, como a variação da posição do Centro de Pressão e o consequente efeito de picada (Mach Tuck). Os efeitos aeroelásticos também podem afetar o voo causando inversão de comandos. Já o aumento da temperatura gerado pelo impacto do ar (ram rise), é necessário ser levado em conta, principalmente em aeronaves supersônicas, como o Concorde. Analisamos, na prática, a relação de custo-benefício de voos a velocidades tão altas, exemplificando com o Cost Index. Por fim, abordamos o controle e estabilidade dos voos transônicos e quais equipamentos e métodos são utilizados para atenuarem os efeitos da alta ve- locidade. Expomos ainda como o enflechamento das asas auxilia no aumento do Mach Crítico, apresentando algumas das desvantagens, tais como a neces- sidade de elevados ângulos de ataque a baixas velocidades e a perigosa ten- dência de estolar inicialmente nas pontas das asas. Outros dispositivos como os geradores de vórtice e compensadores de Mach auxiliam a estabilidade do voo pela energização da camada limite e limitação da tendência de atitudes indesejadas, respectivamente. TEORIA DE VOO AVANÇADO 70 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 70 03/02/21 09:20 Referências bibliográficas ANDERSON, J. Fundamentals of aerodynamics. 6. ed. Nova York: McGraw-Hill, 2016. BIANCHINI, D. Teoria de voo aviões. 5. ed. São Paulo: Bianchi, 2015. BOLD METHOD. Why true airspeed increases with altitude? 17 abr. 2018. [s.l.]. Disponível em: . Acesso em: 12 jul. 2020. FLIGHT SAFETY FOUDATION. ASN Aviation Safety Database. Aviation Safety Net- work. Disponível em: . Acesso em: 13 jul. 2020. HURT, H. H. Aerodynamics for naval aviators. U.S. Navy, [s.l.], 1965. ROBERSON, B. Fuel conservation strategies: cost index explained. Aeromaga- zine. Seattle, v. 26, n. 2, p. 26-38, 2007. Disponível em: . Acesso em: 15 jul. 2020.SAINTIVE, N. S. Aerodinâmica de alta velocidade. 10. ed. São Paulo: ASA, 2011. SAINTIVE, N. S. Performance de aviões a jato: peso e balanceamento. 11. ed. São Paulo: ASA, 2013. THE FULL GULL. The Sutter Twist - an engineering story. 26 ago. 2017. [s.l.]. Dis- ponível em: . Acesso em: 14 jul. 2020. WHAT is high speed aileron reversal? Postado por Flight-Club. (57s.). son. co- lor. Disponível em: . Aces- so em: 31 jul. 2020. TEORIA DE VOO AVANÇADO 71 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 71 03/02/21 09:20 NOÇÕES AERODINÂMICAS DE ALTAS VELOCIDADES E SUAS IMPLICAÇÕES 3 UNIDADE SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 72 03/02/21 09:20 Objetivos da unidade Tópicos de estudo Aprofundar temas relacionados à teoria da alta velocidade; Discorrer sobre a velocidade do som, suas características e comportamentos; Demonstrar os cálculos pertinentes à velocidade do som; Conceituar impulsos de pressão; Explicar as consequências dos impulsos de pressão e os movimentos upwash e downwash; Desenvolver os conceitos e as características que abarcam o número de Mach; Demonstrar os cálculos a serem efetuados para a obtenção do número de Mach; Aproximar o conteúdo da prática por meio da explanação da experiência do Concorde. Introdução Velocidade do som Velocidade Captação de velocidade O som Características do som Comportamento sonoro Ressonância Cálculo da velocidade do som Impulsos de pressão Número de Mach Concorde Motores Fuselagem Asas TEORIA DE VOO AVANÇADO 73 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 73 03/02/21 09:20 Introdução A busca por evolução é intrínseca à natureza humana, que desde seus pri- mórdios busca aperfeiçoar o modo, o meio e o estilo de vida a fi m de propiciar um ambiente de desenvolvimento mais favorável e seguro. As condições eco- nômicas, políticas e sociais de cada época demandam transformações rápidas e efi cazes para o alcance desse objetivo. Nesse aspecto, as inovações tecnoló- gicas ganham grande destaque e incentivo quando o assunto é evolução, ainda mais no que diz respeito ao setor aéreo. Esta unidade objetiva estudar a teoria da alta velocidade e seus aspectos. Inicialmente, veremos a velocidade do som, suas características, forma de cap- tação e cálculos a serem realizados para sua utilização. Em seguida, apresen- taremos os impulsos de pressão e a forma como agem durante um voo sob a aeronave. Por fi m, conheceremos o número de Mach, importante medida empregada na aviação. Velocidade do som Em benefício das melhorias a serem incrementadas em novas aeronaves, engenheiros buscam renovar e atua- lizar equipamentos, desenvolver mo- tores mais efi cientes e seguros, além de otimizar a aerodinâmica, cujo ob- jetivo é o aumento da performance. Contudo, mesmo com todas as reno- vações, existe um ponto em comum que não se altera signifi cativamente: a velocidade. É a velocidade de uma aeronave, além de infl uenciar em outras particu- laridades, proporciona fundamentalmente o seu deslocamento. Como tudo é evolução, o grande desafi o tem sido prover um deslocamento cada vez mais rápido, seguro e com um bom custo-benefício. Quem não gostaria de passar o menor tempo possível dentro de um avião para percorrer uma grande distân- cia, ainda mais quando o voo supera de oito ou nove horas de duração? TEORIA DE VOO AVANÇADO 74 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 74 03/02/21 09:20 Velocidade Primeiramente, é necessário entender o conceito básico de velocidade, que pressupõe o conhecimento de outras duas grandezas distintas: o tem- po e a distância. Tempo é uma grandeza da física que indica a medida de duração de um evento, preferencialmente, expressa em horas, podendo ser feita por um cronômetro. Em outras palavras, quando diz respeito à velocidade, o tempo se traduz pela duração do percurso a ser efetuado. Por sua vez, a distância é a medida de separação entre dois pontos, ou seja, o comprimento, pre- ferencialmente, expresso em metros ou quilômetros (SGUAZZARDI, 2014). Assim, pode-se defi nir velocidade como a “ra- zão de variação de posição de um corpo ou de uma massa, ou seja, é a extensão que um cor- po percorre dividida pelo tempo requerido para percorrê-la, sendo expressa em qualquer unida- de de distância, dividida por qualquer unidade de tempo” (ANTAS, 1980). Captação de velocidade A velocidade de uma aeronave, indicada em seu velocímetro, é obtida por meio do sistema Pitot estático, conforme ilustrado pela Figura 1. Esse sistema é responsável pela captação das pressões do ar encontradas na atmosfera e por sua transmissão até o instrumento, que as traduzem em informações. As aeronaves modernas têm conseguido desempenhar velocidades que ultrapassam os 900 km/h, aproximando-se à velocidade do som. Mas seria isso o sufi ciente? Por que não superar, então, a barreira entre o voo subsô- nico e o supersônico já que a diferença é pequena? Acontece que, quando se quebra a barreira do som, o ar altera signifi cativamente suas característi- cas e seu comportamento, sendo necessário mudar toda a base que envolve o desenvolvimento dos aviões comerciais atuais, desde os motores até as asas e fuselagem. TEORIA DE VOO AVANÇADO 75 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 75 03/02/21 09:20 Velocímetro Tubo de Pitot Variômetro Altímetro Tomada estática Figura 1. Sistema de captação de velocidade (sistema Pitot estático). Fonte: ELMAJDUB; BHARADWAJ, 2014, p. 139. (Adapta- do). Nesse sistema, o tubo de Pitot capta a pressão total do ar, resultado da pressão dinâmica juntamente com a pressão atmosférica (estática). A tomada estática, por sua vez, capta apenas a pressão estática. Ambas pressões são enviadas através de linhas para o velocímetro, que anula as duas pressões estáticas obtidas, resultando apenas na pressão dinâmica, indicando, assim, a velocidade. EXPLICANDO O tubo de Pitot foi inventado no século XVIII e recebeu esse nome em homenagem a seu inventor, Henri Pitot, conceituado físico francês. Trata-se de um instrumento para medir a velocidade dos fluidos, como água e oleodutos, no entanto, é muito utilizado para medir a velocidade de aeronaves. Em geral, o tubo de Pitot está instalado sob a asa do avião, apontando para a frente, e capta a pressão de ar de impacto. O velocímetro, ao receber essas informações das linhas de pressão, move seu indicador por meio da variação dessa medida através de uma cápsula ane- roide de pressão diferencial, que se expande ou se contrai, dependendo da pressão admitida, e movimenta a agulha do mostrador no painel. Aeronaves mais modernas, com glass cockpit, apresentam indicações digitais. No entanto, é possível considerar que essa indicação, resultante das pressões obtidas pelo instrumento, é exata? TEORIA DE VOO AVANÇADO 76 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 76 03/02/21 09:20 Na realidade, somente em dois casos há precisão das informações, pois, como se sabe, existem inúmeros fatores que infl uenciam no resultado. O pri- meiro é se a tomada estática fi car exatamente paralela ao movimento do ar e sua pressão é igual a pressão atmosférica ao nível médio do mar (1 atm) e o se- gundo é quando a tomada de pressão total está em um ponto onde não existe deslocamento dos fi letes de ar, ou seja, o ar em completo repouso. Som Segundo Hewitt (2015), “o som é uma onda mecânica, a propagação de vi- brações através de um meio material – um sólido, um líquido ou um gás. Se não existe tal meio de vibração, então não é possível existir o som.” As oscilações das moléculas provocadas pela onda mecânica se traduzem em impulsos de pressões que, em uma faixa de frequência entre 20 e 20.000 Hz, são compatíveis com a audição humana. A vibração é, então, captada por meio do aparelho auditivo, que envia tais impulsos elétricos até o cérebro, para decodifi - cação e interpretação daquele respectivo som.No entanto, nem sempre as ondas sonoras possuem uma frequência com- patível com a audição humana. Assim, quando se tem uma onda sonora abaixo de 20 Hz, denomina-se infrassom. Já, caso a mesma seja superior a 20.000 Hz, chama-se ultrassom. Contudo, apesar de ambas (infrassom e ultrassom) chega- rem ao sistema auditivo humano, esse não é capaz de decodifi cá-las e traduzi-las em som. ASSISTA No vídeo Física – Ondas e som: ondas sonoras, o professor Rafael Irigoyen, de modo bastante didático, explica as defi - nições e classifi cações das ondas sonoras, indicando ainda os conceitos de infrassom e ultrassom. No vídeo, o professor aborda as características do som (altura, intensidade sonora e timbre), além do comportamento do som em relação aos efeitos de refração e refl exão, por exemplo, entre outros conceitos de relevância, também abordados nesta unidade. A onda sonora se origina através de movimentos longitudinais alternados do ar, que produz compressões e rarefações das moléculas, aproximando-as e afastando-as, permitindo a sua propagação, conforme mostra a Figura 2. TEORIA DE VOO AVANÇADO 77 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 77 03/02/21 09:20 Compressão do ar Rarefação do ar Onda sonora Compressões Rarefações Figura 2. Onda sonora. Fonte: SILVA, 2017, p. 136. Além disso, sua velocidade de propagação ainda varia de acordo com o meio pelo qual se dissemina. Em um meio sólido, a velocidade de propagação geralmente aumenta devido à mudança de densidade e à sua capacidade de compressão e descompressão. Já em um meio líquido, como a água, a veloci- dade tende a diminuir, uma vez que as moléculas do meio se encontram mais afastadas. No caso dos gases, a velocidade é ainda menor quando comparada aos outros dois estados, isso porque suas moléculas se encontram ainda mais espaçadas. A Tabela 1 apresenta alguns exemplos de variações da velocidade em decorrência do meio. Meio Velocidade (m/s) Gases Ar (0 ºC) 331 Ar (20 ºC) 343 Hélio 965 Hidrogênio 1.284 TABELA 1. VELOCIDADE DO SOM EM MEIOS GASOSOS, LÍQUIDOS E SÓLIDOS TEORIA DE VOO AVANÇADO 78 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 78 03/02/21 09:20 Líquidos Água (0 ºC) 1.402 Água (20 ºC) 1.482 Água do mar (20 ºC e 3,5% de salinidade) 1.522 Sólidos Alumínio 6.420 Aço 5.941 Granito 6.000 Fonte: RESNICK; HALLIDAY; KRANE, 2017, p. 150. (Adaptado). Para evidenciar a velocidade do som na prática, pode-se compará-lo à ve- locidade da luz. Essa diferença fica visível quando observamos um relâmpago e, logo em seguida, o estrondo causado por ele. Ao contrário do que pode pa- recer, ambos têm origem no mesmo momento e chegam ao observador em tempos distintos. O relâmpago é composto por uma radiação eletromagnética resultado da junção de cargas magnetizadas decorrentes das polaridades (positivas e nega- tivas) das matérias presente no meio. Esse fenômeno tem como característica o clarão. Quando esse clarão atinge o solo acompanhado de toda essa carga, produz uma onda de choque expandindo a massa de ar e aumentando rapi- damente a temperatura em uma velocidade supersônica, tendo como conse- quência o som. O intervalo de tempo observado entre o clarão e o som é resultado da ve- locidade de ambos os fenômenos. A luz se propaga a uma velocidade de apro- ximadamente 3x108 m/s, enquanto o som, ao se propagar no ar a uma tempe- ratura de 20 °C, tem uma velocidade de 343 m/s. A diferença entre ambos se dá pelo fato de a luz ser observada antes do som. Um modo simples de calcular a distância em que um raio atingiu o solo é cronometrar o intervalo de segundos entre o lampejo e o som. Esse período multiplicado pela velocidade que o som se propa- ga na devida temperatura, resulta em uma ideia aproximada da distância em que ele aconteceu. TEORIA DE VOO AVANÇADO 79 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 79 03/02/21 09:20 Características do som O som possui basicamente três características: altura, intensidade e timbre. A altura não é o volume do som e nem sua amplitude, mas sua frequência. A frequência de uma onda é defi nida pelo número de oscilações que acontecem em um determinado espaço de tempo. Quando se tem uma alta frequência na onda, ela produz um som maior, ou seja, agudo. Por sua vez, quando se tem uma baixa frequência, o som é menor e, consequentemente, mais grave. A intensidade do som varia de acordo com a amplitude da onda e a energia que transporta através de uma área ao longo do tempo. É ela que de fato mo- difi ca o volume do som em mais ou menos intenso. Quanto maior a amplitude, maior o som. Sua fórmula pode ser representada do seguinte modo: P A I = (1) Onde: • I = intensidade; • P = potência (sendo defi nida pela relação entre energia por unidade de tempo); • A = área. Como exemplo, pode-se supor que para se localizar uma cachoeira, o seu som fi ca mais fraco ou mais forte de acordo com a distância que se está dela. Esse fato se dá pela intensidade do som que chega aos ouvidos, que acaba pendendo energia no caminho entre a origem e o observador. Na Figura 3, pode-se observar uma fonte sonora (S) em repouso e um ob- servador (O), representado por uma orelha, aproximando-se da fonte com velocidade (vO). Os círculos representam as frentes de ondas, propagando-se através do meio. Desse modo, o observador, ao se mover, encontra um maior número de ondas por segundo do que um observador em re- pouso (vS) e, portanto, deve medir uma fre- quência maior, ou seja, deve ouvir o som cada vez mais forte. Se o observador estiver se afas- tando da fonte, deve medir uma frequência me- nor, ouvindo o som cada vez mais fraco (HALLIDAY; RESNICK; KRANE, 2017). TEORIA DE VOO AVANÇADO 80 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 80 03/02/21 09:20 λ VS = 0 VO S λ O Diapasão Flauta Clarinete Baixo Corneta Piano Violino Vogal “a” (voz) Vogal “o” (voz) Oboé S: fonte de sonora; O: observador; VO = velocidade do observador; λ: comprimento da onda. Figura 3. Relação frequência/intensidade por aproximação, em que o observador se move e a fonte está em repouso. Fonte: HALLIDAY; RESNICK; KRANE, 2017, p. 160. Figura 4. Ondas demonstrando timbres de diferentes instrumentos musicais. Fonte: SCARPELLINI; ANDREATTA, 2012, p. 248. A última característica do som, mas não menos importante, é o timbre, que permite a identificação de uma onda sonora que vem de fontes diferentes, conservadas as características de altura e intensidade de onda iguais, mas que modifica o som. Por exemplo, uma nota musical tocada em um teclado não tem o mesmo som se tocada em um violino, conforme a Figura 4. TEORIA DE VOO AVANÇADO 81 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 81 03/02/21 09:20 Comportamento sonoro Quando o som tem origem em um meio que não possui nenhum obstáculo em sua volta, o mesmo se propaga em todas as direções, devido à ausência de infl uências que possam alterá-lo. Entretanto, nem sempre isso acontece e, como consequência, o som muda seu comportamento, o que pode ocasionar diferen- tes efeitos, tais como: a refl exão, a refração, a difração e a ressonância. A refl exão é o fenômeno que ocorre quando a onda sonora encontra em seu caminho uma superfície rígida e que não apresenta nenhuma imperfeição. A onda, então, bate na superfície e volta no mesmo ângulo de incidência, refl etin- do-se, conforme a Figura 5. O mesmo não ocorre nos casos em que se encontra com uma superfície curva, côncava ou convexa, pois sofrendo modifi cação cau- sada pelo obstáculo, os ângulos de incidência e de retorno são diferentes. Figura 5. Refl exões sonoras, em que o ângulo de incidência do som é igual ao ângulo de refl exão. Fonte: HEWITT, 2009, p. 270. A refração acontece quando a onda sonora muda seu meio de propagação, mantendo sua frequência, mas alterando tanto sua velocidade quanto à sua di- reção. Para exemplifi car, pode-se citar uma onda sonora que em um primeiro momento se propaga no ar e, após, passa a se propagar naágua, como ilustrado na Figura 6. Ao alterar-se o meio, também se modifi ca o ângulo de refração em relação ao de incidência, conservando sua frequência, mas alterando sua traje- tória e velocidade. TEORIA DE VOO AVANÇADO 82 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 82 03/02/21 09:20 Ângulo de refração Ângulos de incidência Água No rm al Ar Figura 6. Refração. Fonte: HEWITT, 2009, p. 316. Figura 7. Representação da difração sonora. Fonte: DARROZ; ROSA; ROSA, 2016, p. 21. A difração caracteriza a propriedade da onda sonora de contornar um obs- táculo, geralmente mudando a sua trajetória e reduzindo sua intensidade. Como exemplo, pode-se imaginar um ambiente de uma casa onde uma pessoa está no quarto e outras pessoas emitem sons em outro cômodo. Mesmo sem estar no seu campo de visão, a onda atravessa uma porta ou qualquer fresta (obstáculo), produzindo o ruído, como mostra a Figura 7. Nesse caso, a abertura se transfigu- ra como uma fonte de som secundária. TEORIA DE VOO AVANÇADO 83 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 83 03/02/21 09:20 Ressonância Trata-se do fenômeno que acontece quando uma onda sonora possui uma vibração coincidente com a vibração natural do receptor e incide nele de modo regular, ocasionando movimento sintonizado com grande acúmulo de energia que acaba por elevar a amplitude de oscilação dessa vibração e levar ao colapso as estruturas do receptor. Por exemplo, um helicóptero possui uma vibração natural em toda sua estrutura, resultado das somas das vibrações causadas pelos seus rotores e componentes dinâmicos. A vibração envolve todas as partes do helicóptero, incluindo seu trem de pouso. Quando o helicóptero entra em contato com o solo na hora do pouso, ocorre a ressonância. A ressonância é causada pela infl uência do solo, que am- plifi ca sua vibração natural ocasionando em um desbalanceamento, podendo destruir a aeronave. Caso o piloto tenha condições de tirar a aerona- ve rapidamente do solo, esse fenômeno cessa imediatamente. Cálculo da velocidade do som Basicamente, obtém-se a velocidade do som por meio da velocidade em que acontecem os picos de ondas, não infl uenciando a sua amplitude. Os únicos fatores que modifi cam a velocidade de propagação são as condições do meio – temperatura e densidade – e o local em si, como mencionado anteriormente. Assim, para realizar o cálculo da velocidade do som, utiliza-se a seguinte fórmula: (2)c = c0 T T0 Onde: • c = velocidade do som; • c0 = velocidade do som a 0º, ou seja, c0 = 331,45; • T = temperatura Kelvin do ambiente; • T0 = valor correspondente a 0 ºC em escala absoluta, ou seja, 273,15 Kelvin. TEORIA DE VOO AVANÇADO 84 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 84 03/02/21 09:20 Para a aviação, o que interessa de fato é a velocidade de propagação des- sas ondas mecânicas no ar. Para tanto, o único responsável pela variação da velocidade do som na atmosfera é a temperatura. Vale a pena destacar ain- da, que essas duas grandezas se modifi cam diretamente, isso implica dizer que, quando a temperatura aumenta, a velocidade aumenta. Se diminuir, o mesmo acontece com a velocidade do som. Para facilitar o entendimento, a partir da fórmula descrita anteriormen- te, realiza-se o cálculo para determinar a velocidade do som, considerando, como exemplo, uma aeronave a uma altitude de 45.000 pés, em uma tem- peratura de –50 ºC. Assim, a velocidade do som é calculada pela equação: (3)c = 331,45 273 + (-50 ºC) 273 c = 299,56 m s c = 331,45 0,81684982 c = 331,45 ∙ 0,903797 Assim, a velocidade do som, nas condições descritas no exemplo, é de aproximadamente 299,56 m/s. Para se ter o cálculo em km/h, basta multiplicar o resultado por 3,6 – conversão direta – resultando, então, em 1.078,43 km/h. Portanto, é possível encontrar o valor da velocidade do som na atmosfera par- tindo apenas das mudanças de temperatura que são decorrentes em voo. Impulsos de pressão Quando há um deslocamento através da atmosfera terrestre com uma velo- cidade acima da velocidade do som ocorre um fenômeno chamado de impulso de pressão. Uma aeronave, nessa condição de velocidade, acarreta alterações de pressão e de velocidade no ar que a circunda de modo instantâneo, gerando impulsos de pressão – mudanças repentinas na pressão – que se difundem na velocidade do som resultando na perturbação do ar. TEORIA DE VOO AVANÇADO 85 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 85 03/02/21 09:20 Em velocidades subsônicas, ou seja, abaixo da velocidade do som, o ar é “notificado” da passagem da aeronave e praticamente se “molda” ao avião an- tes mesmo que ele chegue de fato na massa de ar. As partículas são desloca- das para frente antes mesmo do contato com a aeronave, que por sua vez, deslocam outras partículas mais a frente, como se a aeronave não conseguisse alcançá-las. Esse movimento do ar produzido pela chegada de uma aeronave é traduzido em impulsos de onda que se propagam próximos a velocidade do som (343 m/s) a 20 °C. Devido a esse fenômeno, o ar que envolve a aeronave, previamente preparado pelos impulsos de pressão, gera menor arrasto e ainda propicia um deslocamento mais suave. O movimento desse ar sendo deslocado antes mesmo da chegada da ae- ronave, quando realiza um movimento ascendente através de uma superfície aerodinâmica, é chamado de upwash e, quando descendente, chamado de downwash. Upwash é o momento no qual o ar sobe e é desviado da sua trajetória por um aerofólio. No caso de uma asa, por exemplo, se desloca para seu ex- tradorso passando pela área de baixa pressão. Depois que esse fluxo de ar passa por completo pela asa, ele desce e, geralmente, retorna ao seu estado original. Dá-se, então, a esse movimento de descida o nome de downwash. Entretanto, quando uma aeronave se desloca na mesma velocidade do som, o ar atmosférico não recebe o aviso que antes era dado em velocidades subsônicas. O que ocorre devido ao deslocamento na velocidade do som dos impulsos de pressão que se tornam iguais à velocidade da aeronave, ou seja, a mesma consegue atingir os filetes de ar sem os moldar para o fluxo em sua estrutura. Consequentemente, o ar recebe o impacto repentino da aeronave mudan- do rapidamente sua pressão, temperatura e densidade e atua como uma bar- reira em seu nariz. Esse impacto gera uma onda chamada de onda de proa que se dispõe de modo perpendicular ao nariz da aeronave resultando em um aumento do arrasto. Essa onda de proa, também conhecida como onda de choque, é caracteri- zada por uma nuvem que se torna esbranquiçada no momento que a aeronave ultrapassa a velocidade do som. Fato esse que acontece devido à mudança abrupta de pressão do ar que condensa as partículas de ar presente no meio. TEORIA DE VOO AVANÇADO 86 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 86 03/02/21 09:20 Essa onda na proa molda seu formato fi cando semelhante a um cone ou oblíqua, que recebe o nome de cone de Mach. Como a aeronave tem mais velocidade que o deslocamento das ondas de pressão, a onda de choque deixa de ser paralela e seu ângulo diminui cada vez mais à medida que a velocidade aumenta. Número de Mach O número de Mach, em defi nição, é a relação que se estabelece entre a velocidade verdadeira de um determinado corpo e a velocidade do som, con- siderados nas mesmas condições do meio. Recebe essa denominação em ho- menagem ao físico e fi lósofo Ernst Mach, estudioso responsável por sua desco- berta, defensor do positivismo e um dos primeiros cientistas a estudar o fl uxo supersônico. Como visto anteriormente, a compressibilidade do ar depende diretamente da relação entre o movimento de um objeto e velocidade do som na região em que o mesmo se encontra, e é o número de Mach que faz essa relação, poden- do ser calculado pela fórmula: (4)M = V a Onde: • M = número de Mach; • V = velocidade do objeto em deslocamento (TAS); • a = velocidade do som. Vale ressaltar que para o cálculo do número80 Comportamento sonoro .................................................................................................. 82 Ressonância ..................................................................................................................... 84 Cálculo da velocidade do som ...................................................................................... 84 Impulsos de pressão ............................................................................................................ 85 Número de Mach .................................................................................................................. 87 Concorde ................................................................................................................................ 92 Motores ............................................................................................................................ 93 Fuselagem ......................................................................................................................... 94 Asas ................................................................................................................................... 95 Sintetizando ........................................................................................................................... 97 Referências bibliográficas ................................................................................................. 98 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 6 03/02/21 09:19 Sumário Unidade 4 - Formação e consequências das ondas de choque Objetivos da unidade ......................................................................................................... 100 Ondas de choque ................................................................................................................ 101 Impulsos de pressão ..................................................................................................... 102 Formação das ondas de choque ................................................................................. 104 Tipos de onda ................................................................................................................. 106 Efeitos adversos da onda de choque .............................................................................. 110 Estol de mach (estol de alta velocidade) e aumento do arrasto ........................... 112 Movimento do Centro de Pressão (CP) ...................................................................... 113 Redução de downwash e tuck under (mach tuck) .................................................. 116 Buffet: vibrações e comandos inoperantes .............................................................. 118 Rolloff .............................................................................................................................. 119 Dutch roll ......................................................................................................................... 119 Sintetizando ......................................................................................................................... 122 Referências bibliográficas ............................................................................................... 124 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 7 03/02/21 09:19 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 8 03/02/21 09:19 Dentro da aviação, o profi ssional deve ter o conhecimento teórico para que consiga compreender as limitações, a resistência e o esforço que a aeronave sofre durante o voo. Uma consciência situacional, que entende como a aerodi- nâmica realmente age durante o voo, abrange também quais prerrogativas se deve ter. Assim, podemos entender como devemos agir para evitar o prejuízo ao desenvolvimento do voo e solucionar situações como parafusos e estol, e para reduzir os efeitos negativos de arrasto, a partir do estudo aprofundado da Teoria de Voo Avançado. TEORIA DE VOO AVANÇADO 9 Apresentação SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 9 03/02/21 09:19 Dedico este conteúdo a todos os profi ssionais da aviação civil que buscam, por meio de pesquisa e desenvolvimento, melhorar o seu conhecimento teórico e técnico, almejando uma melhoria em suas habilidades práticas e promovendo uma aviação mais segura e efi ciente, segundo os parâmetros sociais, econômicos e ambientais. O professor Leonardo Augusto Lanza Ramos é bacharel em Ciências Aero- náuticas, pela Instituição Toledo de Ensi- no (Bauru/SP), tendo conquistado o mé- rito acadêmico Dr. Antônio Eufrásio de Toledo. Desenvolveu um projeto de Ini- ciação Científi ca com o tema: “Redução de custos aplicados à aviação agrícola”, premiado no XIV Congresso Iteano de Iniciação Científi ca. Dentro da aviação, é piloto de planador checado. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7834951330692213 TEORIA DE VOO AVANÇADO 10 O autor SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 10 03/02/21 09:19 INTRODUÇÃO À AERODINÂMICA 1 UNIDADE SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 11 03/02/21 09:19 Objetivos da unidade Tópicos de estudo Compreender os princípios físicos da aerodinâmica; Compreender as forças que atuam sobre o voo e as fases operacionais do voo; Compreender o funcionamento do peso e do balanceamento. Introdução à aerodinâmica Noções da Física e definições Parte estrutural aerodinâmica de um avião Forças atuantes em voo Forças aerodinâmicas Peso e balanceamento Fases operacionais do voo Decolagem Tipos de voo Pouso Parafuso Esforços estruturais Fator carga Tipos de estabilidade TEORIA DE VOO AVANÇADO 12 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 12 03/02/21 09:19 Introdução à aerodinâmica Primeiramente, precisamos entender tanto o princípio básico da aerodinâ- mica, compreendendo como ela está presente durante o voo, como também algumas defi nições essenciais da Física, das superfícies aerodinâmicas do avião e dos perfi s de aerofólio. A aerodinâmica é o resultado de uma interação entre um corpo e o ar, podendo se dar pela análise do movimento de um fl uido ou as forças que agem sobre um objeto sólido. Ou seja, é o estudo da reação que ocorre quando o ar se choca com algum objeto que está avançando na mesma ou mesmo contra a direção da corrente de ar, bem como o modo que o ar se desloca ao se encontrar com o corpo. Assim, para compreendermos como a aerodinâmica funciona, devemos sa- ber que o escoamento de um fl uido sobre um corpo varia. Ao colocarmos obje- tos dentro de um túnel aerodinâmico, constituído por um objeto retangular e outro com forma aerodinâmica, podemos notar que o escoamento sobre ambos será desigual, devido à diferença de resistência da corrente de ar ao se chocar com o objeto. O objeto retangular apresentará uma resistência superior e um arrasto mais elevado, quando comparado ao objeto com formato aerodinâmico. EXPLICANDO É utilizado o túnel aerodinâmico para que seja visível o modo como o escoa- mento do ar ocorre ao se chocar com uma superfície, permitindo verifi car se a mesma tem resistência à força do ar e como ela reage aerodinamicamente. O estudo da aerodinâmica é aplicado em função de diversas fi nalidades, pois ela atua sobre qualquer objeto que se desloca no ar. Dentro da aviação, ela possui uma vasta representatividade no desenvolvimento aeronáutico, já que todas as aeronaves devem apresentar superfícies aerodinâmicas bem estabelecidas, a fi m de obter-se um melhor escoamento do ar, levando em con- sideração que a aeronave deve ter resistência, estabilidade e desempenho. A resistência do ar varia com a distribuição de pressões, já que um objeto com uma área frontal maior apresentará maior resistência ao escoamento do ar (Figura 1). Dessa maneira, um perfi l de asa aeronáutica deve apresentar uma resistência pequena ao avanço e produzir força útil ao voo, para que se obtenha sustentação. TEORIA DE VOO AVANÇADO 13 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 13 03/02/21 09:19A necessidade de motores potentes é um ponto essencial quando a aeronave emprega velocidades supersônicas e, portanto, o consumo de combustível se eleva signifi cativamente, tornando esses aviões inviáveis quando se trata de competitivi- dade de mercado e da relação custo-benefício. No caso do Concorde, seus motores eram fabricados pela Rolls-Royce e despe- javam 38.050 libras de pressão na decolagem. Para gerar toda a tração que a ae- ronave carecia devido ao turbo jato não ser tão efi ciente em baixas velocidades, contava com pós-combustores ligados em partes – de início em dois motores, após os outros dois – de acordo com a necessidade durante a decolagem, e depois no intervalo entre o Mach 0,95 e 1,7. Acima dessa velocidade, a tração produzida sem os pós-combustores era sufi ciente para incrementar os 0,3% que faltavam até ele atin- gir a velocidade de Mach 2, a qual o Concorde empregava em voos sobre o oceano. Dos 100% de ar que o motor turbo jato capta, aproximadamente 25% é utilizado para a queima. Os 75% restantes podem ser aproveitados para prover mais tração pelo novo processo de queima. O ganho chega ou até passa de 50% de empuxo em fases do voo que se fazem necessárias o seu uso. Os pós-combustores – afterburn – são formados por um duto, um queimador, um suporte de chama e um bocal de área variável que fi cam posicionados na parte traseira do motor. Assim, aproveitam os gases quentes que não foram utilizados na combustão para injetar combustível e queimá-los. Esse processo resulta no aumen- to da temperatura do ar e, consequentemente, incrementa sua velocidade, aumen- tando a tração. Após ter sido um marco comercial supersônico na aviação, o Concorde rea- lizou seu último voo, em 2003, deixando seu legado de, até então, ser o único avião supersônico da história do transporte regular comercial de passageiros. Como se pode imaginar, o fato de a aeronave empregar velocidade de deslo- camento acima da velocidade do som, demandou alterações pontuais em toda sua estrutura, a fi m de evitar eventuais problemas. Diante disso, o Concorde foi projetado e construído partindo de uma fuselagem esguia, asas em formato de delta com grande enfl echamento e quatro motores turbo jato para prover a propulsão necessária capaz atingir a velocidade desejada. TEORIA DE VOO AVANÇADO 93 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 93 03/02/21 09:20 O ganho de empuxo é determinado pela variação, na mesma proporção, da divisão entre velocidades dos gases proporcional a raiz quadrada das tempera- turas absolutas. Outro fator a ser mencionado, devido às velocidades subsônicas e supersô- nicas empregadas pelo Concorde, o tubo de admissão e escapamento possuíam geometrias variáveis a fi m de manter sua efi ciência. O controle desses equipa- mentos era realizado por meio de um computador que alterava as confi gurações de acordo com velocidade de incidência dos fi letes e a quantidade de ar admitida. O duto de admissão na decolagem abria sua entrada auxiliar e sua rampa para admitir o máximo possível de ar. A entrada fechava aproximadamente a Mach 0,7 ainda em voo subsônico e a rampa a partir de 1,3 a fi m de reduzir a velocidade dos fi letes de ar, visto que precisava chegar no compressor de baixa pressão com no máximo Mach 0,5. O maior problema em relação aos motores acontecia quando o Concorde cortava um motor em velocidades superiores a Mach 1. Nesse momento, o mo- tor não precisava de praticamente nenhuma quantidade de ar, então, as rampas se fechavam e a entrada auxiliar se abria para deslocar a pouca quantidade de ar admitida para baixo. Devido à alteração da geometria nessa disposição, caso a aeronave estivesse com velocidade de Mach 2, o motor ainda admitia um ex- cesso de ar que era jogado para baixo pela entrada auxiliar e, então, a asa subia, fazendo com que a aeronave tendesse a rolar em seu eixo longitudinal para o lado contrário. Fuselagem A fuselagem priorizou a aerodinâmica, deixando a desejar quanto à capaci- dade de passageiros que seria transportada pelo avião. O intuito era diminuir de modo signifi cativo o arrasto produzido para incrementar o ganho de velo- cidade e, como se sabe, isso é proporcional ao quadrado da relação entre o comprimento/diâmetro da aeronave. Devido ao projeto para voos em altas velocidades, o Concorde produzia uma sustentação menor em baixas velocidades, fazendo com que fosse neces- sárias pistas com grandes extensões para decolagem com seu peso máximo e, também, ângulos de ataques elevados para prover a sustentação necessária TEORIA DE VOO AVANÇADO 94 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 94 03/02/21 09:20 durante aproximações. Por conta desses ângulos elevados, os pilotos perdiam praticamente toda a visão da pista caso o nariz fi casse alinhado com a fusela- gem. Para isso, os engenheiros atribuíram ao nariz da aeronave quatro confi - gurações diferentes de posições, gerando uma mobilidade que variava em até 12,5º para baixo, em velocidades inferiores a 250 kt, buscando aumentar a área visual a frente do cockpit. Desse modo, sua estrutura era feita de ligas de alumínio que limitou sua velocidade em Mach 2 pela propriedade do material que não suportaria veloci- dades superiores. Por conta do impacto de ar e seu aumento de temperatura, os pilotos dispunham, no painel, de um instrumento que indicava a tempera- tura do nariz. Quando a temperatura era superior a 127 ºC, o piloto reduzia de Mach 2 para 1,98 visando a sua diminuição, considerando que existia um valor máximo para a estrutura. Asas O Concorde possuía uma asa em formato de delta, com enfl echamento de 70º – mais que o dobro da maioria aeronaves comerciais – e fi na, a fi m de evitar o deslocamento do centro de pressão para trás. Na própria asa, fi cavam os pro- fundores, visto que não tinha empenagem. Como era projetado para atingir grandes velocidades, quando em aproxima- ções precisava de um ângulo de ataque elevado, que resultava em um vórtice que envolvia toda a parte superior da asa aumentando a sucção e, consequente- mente, provia mais sustentação para a aeronave. Com a experiência comercial do Concorde, entendeu-se que projetos que almejam a construção de aeronaves que empregam velocidades supersônicas envolvem muito mais que a velocidade. Trata-se de projetos extremamente ca- ros, tanto em sua fabricação quanto em sua operacionalização, não sendo rentável e pouco competitivo. Considerou-se ainda que a operação trouxe diversas restrições, como grandes comprimentos de pistas e a diminuição da capa- cidade de transporte de passageiros. Em virtude disso, é algo que, ainda, precisa de tempo e estudo em prol de soluções. TEORIA DE VOO AVANÇADO 95 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 95 03/02/21 09:20 CURIOSIDADE Em 1985, a Força Aérea Brasileira (FAB) realizou uma interceptação do Concorde operado pela Air France, no Brasil. A aeronave tinha como destino o aeroporto do Galeão, no Rio de janeiro, e a interceptação aconteceu a FL300-350 com velocidade de Mach 1,4, por um F-5 da FAB. A manobra foi um exercício aproveitando a rara oportunidade de interceptar uma aeronave acima da velocidade do som. TEORIA DE VOO AVANÇADO 96 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 96 03/02/21 09:20 Sintetizando Os avanços tecnológicos em busca de melhores condições de voo e rapidez de deslocamento permitiram e impulsionaram a criação de aeronaves cada vez mais rápidas e seguras. Nessas condições, desenvolveu-se aviões cada vez mais velozes, capazes de superar com folga a velocidade do som. Buscando explicar melhor os aspectos teóricos que envolvem a teoria da alta velocidade, esta unidade, em seu primeiro tópico, se debruçou sobre a velocidade do som, trabalhando conceitos, elementos e cálculos necessários para entender o tema. Em seguida, dando continuidade ao assunto, o enfoque do estudo passou ao fenômeno de impulsos de pressão, sendo trabalhado a sua constituição,as modalidades que se dá – upwash e downwash –, bem como os efeitos decorren- tes dele. Além disso, abordamos o número de Mach, importante medida para a avia- ção. Na oportunidade, apresentamos seu conceito bem como a forma corre- ta de realizar seu cálculo. Ainda, com o objetivo de trazer um panorama mais completo, vimos o modo de se conseguir os dados necessários para a realiza- ção do cálculo, além de trabalhar brevemente conceito que envolvem o núme- ro de Mach máximo operacional (MMO). Por fim, a fim de aproximar teoria e prática, apresentamos a história e expe- riência do Concorde, a única aeronave que operou regularmente no transporte comercial, capaz de voar duas vezes acima da velocidade do som. TEORIA DE VOO AVANÇADO 97 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 97 03/02/21 09:20 Referências bibliográficas ANTAS, L. M. Dicionário de termos técnicos. 4. ed. São Paulo: Traço, 1980. BIANCHINI, D. Teoria de voo aviões. 5. ed. São Paulo: Editora Bianchi, 2015. DARROZ, L. M.; ROSA, C. T. W.; ROSA, A. B. Experimentos simples para visuali- zação dos fenômenos de difração e interferência da luz. Revista Thema, v. 13, n. 2, p. 18-26, 2016. Disponível em: . Acesso em: 28 jul. 2020. ELMAJDUB, N. F. A. B.; BHARADWAJ, A. K. Important Pitot Static System in Air- craft Control System. AJER, v. 3, n. 10, p. 138-144. Disponível em: . Acesso em: 28 jul. 2020. FERNANDES, E. J. C. (Org.). Conhecimentos técnicos de aeronaves. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2018. FÍSICA – Ondas e som: ondas sonoras. Postado por Pura Física. (34min. 29s.). son. color. Disponível em: . Acesso em: 28 jul. 2020. HEWITT, P. G. Física conceitual. 12. ed. Porto Alegre: Bookman, 2015. HEWITT, P. G. Fundamentos de física conceitual. Porto Alegre: Bookman, 2009. RESNICK, R.; HALLIDAY, D.; KRANE, K. S. Física. 5. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2017, v. 2. SANTOS JR, W. A. M. (Org.). Fundamentos da navegação aérea. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2017. SCARPELLINI, C.; ANDREATTE, V. B. Manual compacto de física. São Paulo: Edi- tora Rideel, 2012. SGUAZZARDI, M. M. M. U. (Org.). Física geral. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2014. SILVA, O. H. M. Física e a dinâmica dos movimentos. Curitiba: Editora Inter- Saberes, 2017. TEORIA DE VOO AVANÇADO 98 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 98 03/02/21 09:20 FORMAÇÃO E CONSEQUÊNCIAS DAS ONDAS DE CHOQUE 4 UNIDADE SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 99 03/02/21 09:20 Objetivos da unidade Tópicos de estudo Analisar impulsos de pressão e como se propagam; Diferenciar regimes subsônicos, transônicos e supersônicos; Definir mach crítico; Apresentar e diferenciar os tipos de ondas; Diferenciar estol de alta velocidade do de baixa velocidade; Descrever os movimentos do centro de pressão conforme variação de ângulo de ataque e velocidade; Explicar como ocorre o downwash e suas implicações; Explicar o rolloff e o dutch roll. Ondas de choque Impulsos de pressão Formação das ondas de choque Tipos de onda Efeitos adversos da onda de choque Estol de mach (estol de alta velocidade) e aumento do arrasto Movimento do Centro de Pres- são (CP) Redução de downwash e tuck under (mach tuck) Buffet: vibrações e comandos inoperantes Rolloff Dutch roll TEORIA DE VOO AVANÇADO 100 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 100 03/02/21 09:21 Ondas de choque Ao discorrer sobre aeronaves capazes de voar com velocidades maiores que a velocidade do som, é improvável não associar esta imagem à noção das ondas de choque. Talvez as imagens mais icônicas sejam as de caças militares atravessando uma espécie de névoa, como ocorre na Figura 1. Figura 1. Aeronave militar “rompendo a barreira do som”. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 26/08/2020. Perceba que, na legenda da fi gura, a expressão “rompendo a barreira do som” está entre aspas. Isso se dá porque, apesar de não possuirmos todas as infor- mações a respeito da foto, muito provavelmente a mesma foi concebida quando a aeronave ainda não apresentava velocidade maior que a velocidade do som. Grande parte deste tipo de fotografi a é feita quando as aeronaves efetuam voos a baixa altura e sobre áreas de grande umidade do ar. O que vemos são, de fato, as consequências da compressibilidade do ar (e vapor d’água) e de sua alta velocidade, embora, neste caso, provavelmente ainda aquém da velocida- de do som. Para se ter certeza de que a aeronave rompeu de fato esta barreira, sua passagem deve ser seguida de um estampido conhecido como sonic boom, o que é impossível de constatar com as possibilidades de uma foto. Quando voando a grandes velocidades, a aeronave está passível de sentir os efeitos da compressibilidade do ar e pode ter em alguns pontos de sua fu- TEORIA DE VOO AVANÇADO 101 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 101 03/02/21 09:21 selagem (principalmente asas) fi letes de ar que chegam e ultrapassam a veloci- dade do som. É durante a aceleração e desaceleração destes fi letes de ar - ou fl uxo de ar - que começam a ser formadas as ondas de choque. Impulsos de pressão Antes de analisar a aeronave ou aerofólio, é necessário retomar o conceito dos impulsos de pressão. Para facilitar o entendimento, imagine um objeto ou aparelho que emita determinado som. Figura 2. Ondas de pressão. 1 2 3 4 Na figura apresentada, o número 1 representa o objeto estático emitindo sinais sonoros. Note que as ondas sonoras (ou ondas de pressão) se propagam em todos os sentidos e são concên- tricas em seu emissor. Já para o número 2, o objeto emissor ganhou certa velocidade de deslocamento para a esquerda. A velocidade aqui é bem abaixo da velocidade do som, o que é denominado de regime subsônico. É interessante observar que na parte frontal ao deslocamento as ondas de pressão são mais próximas umas das outras, ao passo que na retaguarda apresentam maiores distâncias. Para o caso do número 3, a velocidade empregada é igual ou muito pró- xima à velocidade do som. Isto caracteriza o chamado regime transônico, ou seja: a transição entre o subsônico e o supersônico. É neste caso que se têm os primeiros indícios das ondas de choque. Por fim, no número 4, o objeto emissor possui velocidade superior à do som. Aqui temos o regime supersônico, em que o objeto se move com TEORIA DE VOO AVANÇADO 102 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 102 03/02/21 09:21 velocidade maior do que o som produzido por ele mesmo. Além das ondas de choque formadas na superfície dos aerofólios, é no regime supersônico que também se formará a onda de proa. Quando o objeto se movimenta, ele entra em contato com a massa de ar. Esse contato físico com as partículas que compõem essa massa de ar gera perturbações, graças à variação de pressão e velocidade. Por sua vez, estas partículas também entram em movimento e se chocam com outras partículas à frente. A este fenômeno se dá o nome de impulsos de pressão. Nos deslocamentos subsônicos, caracterizados por velocidades de até M = 0.75, as aeronaves voam atrás dos impulsos de pressão, e as partícu- las conseguem se moldar e se ajustar à forma do corpo em movimento. Além disso, a essa baixa velocidade, o movimento dos objetos (aeronaves, por exemplo) não consegue alterar substancial e drasticamente as carac- terísticas físicas da massa ar, tais como velocidade, pressão, densidade e temperatura. Quando a velocidade do objeto é aumentada para regimes transônicos, este passa a se deslocar praticamente na mesma velocidade com a qual os impulsos de pressão se deslocam, e o ar à frente do objeto não tem tempo de se ajustar a ele. Ao receber o impacto desse objeto em deslocamento, a massa de ar no entorno sofre grandesalterações, principalmente quanto à sua densidade. Os gases, quando submetidos a grandes pressões, têm sua tempera- tura aumentada e, consequentemente, o mesmo ocorre com sua visco- sidade. É interessante observar que ao elevar a temperatura de líquidos reduz-se sua viscosidade, efeito contrário, portanto, ao que ocorre nos gases. Lembrando que viscosidade é a característica de um fluído (seja ele líquido ou gasoso) em resistir ao avanço, o que gera, por consequência, maior arrasto. As variações quanto às propriedades dessa massa de ar são consideradas desprezíveis em velocidades abaixo da do som. Para aquelas iguais ou acima da velocidade do som, tais variações não apenas são consideradas como são determinantes para o bom desempenho destes objetos em deslocamento. TEORIA DE VOO AVANÇADO 103 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 103 03/02/21 09:21 Figura 3. Fluxo de ar nos regimes subsônicos e supersônicos. Fonte: JUNIOR HURT, 1965, p. 203. (Adaptado). Padrão típico de fl uxo subsônico Padrão típico de fl uxo supersônico Direção do fl uxo de ar muda antes do bordo de ataque Sem mudanças aparentes na direção do fl uxo de ar à frente do bordo de ataque A palavra “objeto” foi utilizada ao longo do texto diversas vezes para referir-se ao corpo em deslocamento, pois não apenas aeronaves viajam a grandes velocidades. Há foguetes, mísseis e até mesmo projéteis de armas de fogo, e todos se valem dos conceitos que serão discutidos posterior- mente. Todavia, a partir deste momento, somente aeronaves e aerofólios serão nossas referências. Outro ponto a ser levado em consideração é que o termo “massa de ar” foi utilizado diversas vezes, como se a atmosfera estivesse calma e o ob- jeto se deslocasse por meio dela. Na literatura de aerodinâmica avançada, o termo “fluxo de ar” será utilizado mais frequentemente, assumindo com isto que esse fluxo de ar se desloca com a mesma velocidade que a aero- nave (ou aerofólio), mas em sentido contrário. Formação das ondas de choque A onda de choque é formada quando o fl uxo de ar passa a ser comprimi- do em grau sufi ciente para que sejam alteradas suas propriedades físicas. De maneira genérica, dizemos que as ondas ocorrem na passagem de um fl uxo subsônico para um supersônico ou de um fl uxo supersônico para um subsôni- co, ou seja: tanto acelerando quanto desacelerando. A aceleração das aeronaves até suas velocidades máximas é realizada de maneira gradual. O fl uxo de ar, por consequência, também acelera gradual- TEORIA DE VOO AVANÇADO 104 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 104 03/02/21 09:21 mente, e experimenta suaves variações durante essa aceleração. Portanto, as ondas de choques se formam mais raramente. A desaceleração, por outro lado, provoca grandes variações na propriedade do fluxo, e ocorre sempre acompa- nhada de ondas de choque. Em suma: se a aeronave ou objeto acelera de maneira gradual e tem sua for- ma suavizada com pequenos ângulos em relação ao fluxo de ar (vento relativo), é rara a aparição da onda de choque na passagem de subsônico para super- sônico. Já a desaceleração (supersônico para subsônico) será sempre acompa- nhada de uma onda de choque. Figura 4. Aceleração do fluxo de ar sobre o aerofólio. Fonte: BIANCHINI, 2015, p. 187. (Adaptado). Mach 0.84 Mach 0.84 0.89 0.88 0.94 0.95 1.0 Grosso modo, os aerofólios das aeronaves são construídos de modo que seja possível gerar pressões maiores no extradorso que no intradorso, e a es- tas pressões dá-se o nome de sustentação. Para que se consiga isso, acelera-se o fluxo de ar do lado em que se pretende gerar sustentação. Assim, nas aero- naves, é desejável que a sustentação esteja no extradorso. Na Figura 4, é possível perceber diferentes velocidades do fluxo de ar em diferentes pontos do extradorso, as quais chamamos de velocidades locais ou mach locais. Pode-se inferir, então, que um determinado ponto do aerofólio pode estar em velocidades iguais ou superiores à velocidade do som, mesmo que a aeronave em si não esteja. Esta velocidade na qual um determinado ponto da aeronave atinge pela primeira vez a velocidade do som (geralmente na asa, próximo à fuselagem) é chamada de mach crítico. Na figura apresentada, o mach crítico equivale ao mach 0.84, e é acima desta velocidade que haverá problemas associados ao regime transônico, tais como redução do downwash, tuck under, rollof, buffet e comandos inoperantes, entre outros. TEORIA DE VOO AVANÇADO 105 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 105 03/02/21 09:21 Ainda com relação à Figura 4, a aeronave encontra-se em regime subsônico, visto que nenhum de seus pontos ultrapassou a velocidade do som. Caso ace- lerássemos a aeronave e pelo menos um dos pontos passasse para mach 1.1, haveria a coexistência de pontos em regimes acima e abaixo da velocidade do som, ou seja: o regime transônico. Tipos de onda A depender de como o fl uxo de ar se comporta ao passar por uma onda de choque, é possível classifi car as ondas em três tipos distintos: onda de choque normal, onda de choque oblíqua e onda de expansão. Cada um destes tipos de onda tem suas próprias particularidades. Onda de choque normal É o tipo de onda que se forma sempre na desaceleração de um fl uxo super- sônico para um subsônico. Também pode ocorrer quando o fl uxo de ar entra em contato com a superfície da aeronave em ângulos elevados. Desta maneira, após passar por uma onda de choque normal, o fl uxo de ar desacelera para o inverso da velocidade que ele mantinha antes da onda. Por exemplo: se antes da onda o fl uxo de ar mantinha Mach local (ML) de 1.2, ao passar pela onda a velocidade do fl uxo será de 0.83. DICA O cálculo para encontrar o inverso da velocidade é realizado simplesmen- te ao dividir Mach (M) 1 pelo número do Mach local (ML) antes da onda (1.2). Neste caso: M/ML = 1 ÷ 1.2 = 0,83. Características do fl uxo de ar ao passar pela onda de choque normal: • Direção do fl uxo de ar: não se altera; • Velocidade e mach: decrescem para subsônico; • “Energia” do fl uxo de ar: grande decréscimo; • Pressão estática e densidade: grande acréscimo. Onda de choque oblíqua Esta é a onda característica dos regimes supersônicos, e denomina-se oblíqua quando o fl uxo de ar entra em contato com as superfícies da aeronave que são mais afuniladas, ou seja: com pequenos ângulos em relação ao vento relativo. TEORIA DE VOO AVANÇADO 106 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 106 03/02/21 09:21 Características do fluxo de ar ao passar pela onda de choque oblíqua: • Direção do fluxo de ar: alterada para um ângulo 180º menor que a direção anterior; • Velocidade e mach: decrescem, mas ainda se mantêm supersônicos; • “Energia” do fluxo de ar: decréscimo; • Pressão estática e densidade: aumenta. Onda de expansão O fluxo de ar interage com as superfícies da aeronave de modo a aumentar o ângulo da direção na qual se moviam previamente. É importante notar que esta onda não é considerada uma onda de choque, uma vez que as partículas de ar não se comprimem em dado local. Ocorre exatamente o contrário, com estas se divergindo umas das outras. Características do fluxo de ar ao passar pela onda de choque oblíqua: • Direção do fluxo de ar: alterada para um ângulo 180º maior que a direção anterior; • Velocidade e mach: aumentam para supersônicos; • “Energia” do fluxo de ar: diminui; • Pressão estática e densidade: diminui*. *única onda em que pressão e densidade do fluxo de ar diminuem. Tipo de onda Onda de choque oblíqua Onda de choque normal Onda de expansão Mudança de direção ângulo menor que 180° com nova direção Não modifica Ângulo superior a 180° com nova direção Efeito na velocidade e no nº de mach Decresce, porém continua supersônica decresce para subsônica velocidade aumenta QUADRO 1. ONDAS SUPERSÔNICAS TEORIA DE VOO AVANÇADO 107 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 107 03/02/21 09:21 Efeito na pressão estática edensidade Aumenta Grande aumento diminui Efeito na energia ou pressão total diminui Grande diminuição Não modifica Fonte: SAINTIVE, 2014, p. 76. Onda de proa Esse não é exatamente um tipo diferente de onda em sua concepção, uma vez que esta agrega características de duas ondas de choque: a normal e a oblí- qua. Conforme a aeronave acelera com velocidades maiores que a do som, o conjunto todo passa a se locomover supersonicamente, e o ar imediatamente à frente das superfícies da aeronave, principalmente no nariz e no bordo de ataque das asas, passa a ser comprimido, formando uma onda de compressão. Nos perfis mais espessos, a onda de proa que se forma imediatamente à frente da superfície de contato é uma onda de choque normal. Desta maneira, conforme diverge-se da zona de contato, a onda de choque passa a ter caracte- rísticas de uma onda de choque oblíqua. Figura 5. Onda de proa. Fonte: JUNIOR HURT, 1965, p. 210. (Adaptado). Onda de choque normal Onda de choque normal Subsônico Subsônico Ondas de choque oblíquas 90º 90º A Figura 5 representa um perfil de nariz de aeronave não tão afunilado e a interação do fluxo de ar ao passar pela onda de proa (à esquerda está o perfil TEORIA DE VOO AVANÇADO 108 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 108 03/02/21 09:21 representado por uma área plana equivalente). Note que, nas áreas à frente da área plana, os fluxos de ar não alteram a direção ao passar pela onda, somente quando em contato com o perfil. Todavia, para além da área plana, os fluxos de ar já sofrem alteração de sentido após passarem pela onda de proa. Isso significa que, imediatamente à frente da área plana, o fluxo de ar desa- celera para velocidades subsônicas antes de entrar em contato com a superfí- cie da aeronave, sofrendo além disso todas as consequências dessa desacele- ração, tais como: aumento da temperatura, da densidade e da viscosidade do ar e, consequentemente, maior arrasto. Para diminuir as consequências negativas de tal fenômeno, as superfícies que recebem os primeiros contatos com o vento relativo são afuniladas ao má- ximo. Conforme se reduz o ângulo de impacto com o vento relativo, a onda de proa fica mais próxima da superfície de contato até o ponto em que ela literal- mente tangencia a superfície do aerofólio. A partir daí, a onda de proa se torna exclusivamente oblíqua, e todos os fluxos de ar em contato com as superfícies da aeronave o fazem em velocidades supersônicas. Figura 6. Diferença de perfis e as ondas de proa. Fonte: JUNIOR HURT, 1965, p. 214. (Adaptado). Choque oblíquo Ondas de expansão Choque oblíquo Choque normal fluxo de ar subsônico Choque oblíquo Choque oblíquo Ondas de expansão Nos voos supersônicos, acima de mach 1.15, são formadas duas ondas de cho- que: uma no nariz da aeronave e outra na cauda. As outras ondas formadas no bor- do de ataque dos aerofólios, naceles dos motores, canopy, entre outros, tendem a se juntar a estas duas principais. Segundo Saintive (2014), diferentes aviões supersônicos produzem diferentes estrondos sônicos, como se cada um possuísse sua própria assinatura. Quando o avião é pequeno, as duas ondas estarão muito próximas e parecerão uma única onda, no que diz respeito à audição humana. Já os sons produzidos pelo Concorde eram suficientemente separados para não serem confundidos com um único ruído. TEORIA DE VOO AVANÇADO 109 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 109 03/02/21 09:21 Figura 7. Assinatura sônica. Fonte: SAINTIVE, 2014, p. 93. Onda de choque Onda de choque de proa Onda refl etida Pressão relativa Assinatura do avião Assinatura do avião Tempo 21 Onda de choque traseira Efeitos adversos da onda de choque Antes de iniciarmos a discussão sobre os efeitos nocivos que as ondas de choque exercem sobre as aeronaves e aerofólios, convém relembrarmos al- guns fundamentos da teoria de voo. Diversos fatores contribuem para o desenvolvimento da sustentação de um aerofólio, mas pode-se eleger a diferença de pressão entre intradorso e extra- dorso como sendo o principal. E, para que se consiga tal diferença, os aerofó- lios são construídos (e/ou montados) de modo que o fl uxo de ar no extradorso seja mais rápido que no intradorso. Assim, partimos do pressuposto de que a) o ambiente e as massas de ar estão em equilíbrio antes da interação da aeronave/aerofólio e b) tenderão re- tornar ao equilíbrio após a passagem do avião. Ao enfrentar um estrangulamento no caminho percorrido, o fl uido aumen- ta sua velocidade de maneira que a vazão seja mantida em todo o movimento. Já o aumento da velocidade faz com que a pressão dinâmica aumente e a pres- são estática diminua. Assim, a relação do aumento da velocidade e consequen- tes alterações nas pressões estática e dinâmica podem ser comprovadas pelo Princípio de Bernoulli. TEORIA DE VOO AVANÇADO 110 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 110 03/02/21 09:21 Figura 8. Consequências do aumento do ângulo de ataque. Fonte: HOMA, 2104, p. 26. (Adaptado). Fazendo uma analogia simples, ao abrir um registro ligado a uma manguei- ra, a vazão de água será sempre constante. Ao colocar o polegar no bocal da mangueira, a passagem de água será restringida. Para que a vazão na man- gueira continue a mesma, é necessário que a água aumente a sua velocidade. Assim, ao passar pelo estrangulamento produzido pelo dedo no bocal da man- gueira, o fluido precisou aumentar sua velocidade e pressão dinâmica para que a vazão fosse mantida constante. Com relação ao aerofólio, para que haja diferença de pressão é necessário que fluxos de ar percorram as superfícies deste constantemente. Desta manei- ra, o fluxo de ar em contato com o extradorso do aerofólio é portanto denomi- nado de camada limite. Observe na primeira imagem, da esquerda para direita, que o aerofólio mantém um ângulo de ataque pequeno. O fluxo de ar um pouco mais à frente do bordo de ataque já inicia o movimento para cima, de modo a acompanhar o formato do aerofólio. Essa tendência do fluxo de ar para cima é chamada de up- wash. Destarte, o fluxo de ar nesta imagem permanece colado e praticamente sem alterações durante todo seu trajeto até a saída pelo bordo de fuga. Na imagem central, o ângulo de ataque foi elevado a praticamente 16° com o vento relativo. Neste caso, o upwash é mais forte e nítido, e o fluxo de ar adquire maior diferença de velocidade de escoamento e consequente maior diferencial de pressão. Todavia, este mesmo fluxo de ar já sofre bastante com as perturbações causadas pelo diferencial de pressão e pelo elevado ângulo de ataque. Neste momento, a camada limite começa a se descolar do extradorso a partir da metade do aerofólio. O aerofólio é observado em seu ângulo crítico, em que sustentação e arrasto estão em seus valores máximos. Na terceira e última imagem, o ângulo crítico foi ultrapassado. As perturba- ções no extradorso foram tão grandes que acarretaram no desprendimento TEORIA DE VOO AVANÇADO 111 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 111 03/02/21 09:21 completo da camada limite. Sem o fl uxo de ar em contato com o extradorso do aerofólio, não há diferença de pressão e, por conseguinte, não há mais sustenta- ção. A aeronave está em condição de estol ou “estolada”, como dizem os pilotos. Nas aeronaves de alto desempenho, além do estol devido a elevados ângu- los de ataque, estas também estão sujeitas a outro tipo de descolamento da camada limite. Em altas velocidades, o desprendimento da camada limite pode ocorrer também pela formação de fortes ondas de choque. Estol de mach (estol de alta velocidade) e aumento do arrasto Conforme as aeronaves foram aumentando suas velocidades para um valor próximo da velocidade do som, estas começaram a se deparar com problemas relacionados à formação das ondas de choque. Estes contratempos se tornam acentuadamente críticos quando voando em regime transônico, no qual a ae- ronave ainda transita entreos regimes subsônico e supersônico. Figura 9. Estol de mach. Fonte: BIANCHINI, 2015, p. 189. (Adaptado). Fluxo subsônico Fluxo subsônico Área com fl uxo supersônico Onda de choque normal M = 0,76 M = 0,85 Descolamento da camada limite Analisando a Figura 10, é possível perceber que, para este determinado perfi l, o mach crítico se estabelece ao se atingir o mach 0.76, ou seja: a partir dessa velocidade identifi ca-se que algum ponto na superfície deste aerofólio já possui Mach local (ML) = 1.0. TEORIA DE VOO AVANÇADO 112 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 112 03/02/21 09:21 Conforme a velocidade aumenta, a onda de choque vai se tornando cada vez mais forte, assim como seus efeitos adversos, que também se intensifi cam, mesmo que de maneira suave. A partir de uma certa velocidade, denominada Mach de divergência de arrasto (Mdd), o arrasto aumenta exponencialmente com o aumento da velocidade. No aerofólio da fi gura supracitada, o aumento da velocidade é possível até velocidades menores que mach 0.85, visto que nesta velocidade há o despren- dimento por completo da camada limite atrás da onda de choque. Os efeitos desse descolamento da camada limite se assemelham em muito aos efeitos observados no estol de baixa velocidade que, devido a isso, foram batizados de estol de alta velocidade. Movimento do Centro de Pressão (CP) Outra grande diferença da baixa velocidade para a alta velocidade é o movi- mento do Centro de Pressão. A baixas velocidades, o centro de pressão perma- nece inalterado, a despeito das velocidades empregadas. O movimento do CP somente se dá quando há alterações no ângulo de ataque. Já nas altas velocidades, por consequência do aparecimento das ondas de choque, o deslocamento do CP ocorre em direção ao bordo de fuga. Mas antes explorar propriamente o porquê de o CP se mover para trás quando em alta velocidade, vale recordar o que é exatamente o centro de pressão. O centro de pressão nada mais é do que uma convenção física que confi gura- -se praticamente como um resumo das pressões que agem sobre determinado aerofólio. Isso posto, existem pressões agindo em toda a superfície de um aero- fólio, para todos os lados. Ao analisar essas pressões, são montados gráfi cos de- terminando a direção e intensidade das pressões em cada segmento do aerofólio. Ao combinar todos esses vetores de pressão em um único vetor, obtém- -se a pressão média exercida sobre aquele determinado aerofólio. A mudança do centro de pressão indica que as pressões se alteraram sobre a superfície daquele aerofólio, seja por uma diferença no ângulo de ataque ou curvatura média da asa (como na aplicação de fl aps, por exemplo). É necessário ter em mente que tanto no extradorso quanto no intradorso o fl uxo de ar é “estrangulado” pelo aerofólio e a pressão dinâmica aumenta com TEORIA DE VOO AVANÇADO 113 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 113 03/02/21 09:21 consequente diminuição da pressão estática, ou seja: como dito, há pressões atuando em toda a superfície do aerofólio e em todas as direções. Desta maneira, os aerofólios são construídos e/ou montados para que o fluxo de ar passe com maior velocidade pelo extradorso que pelo intradorso. A diferença de velocidade de escoamento é conseguida, em grande parte, pelo formato do aerofólio, que é mais espesso em sua parte superior (a espessura é medida entre corda e superfície). Ao se elevar o ângulo de ataque, as velocidades de escoamento do fluxo de ar se tornam ainda mais discrepantes, no que diz respeito a intradorso e extra- dorso. Por conseguinte, as pressões também apresentam maiores diferenças. Esse aumento do diferencial de pressão, sobretudo no bordo de ataque do aerofólio, faz com que o centro de pressão seja deslocado para frente. EXPLICANDO Ao dizer que o aumento do diferencial de pressão é o que move o CP de lugar, pode-se ter a errônea ideia de que a pressão resultante se dê exclusivamente pela diferença das pressões estáticas entre intradorso e extradorso. Essa diferença é de fato o maior contribuinte, mas há também pressões advindas da ação e reação do fluxo de ar (upwash) com o pró- prio aerofólio e a força de arrasto, entre outras. Figura 10. Variação do CP em fluxos subsônicos. Fonte: NASA, [s.d.]. (Adaptado). Na alta velocidade o movimento do centro de pressão também existe, porém será em sentido contrário, ou seja: em direção ao bordo de fuga. O CP inicia seu movimento a partir do mach crítico, quando o Mach local (ML) atinge velocidade sônica e surgem os primeiros indícios de ondas de choque. Vento relativo Pequeno ângulo de ataque Resultante aerodinâmica Variação da pressão Centro de pressão Grande ângulo de ataque TEORIA DE VOO AVANÇADO 114 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 114 03/02/21 09:21 Figura 11. Movimento do CP para trás. Fonte: ATPL TRAINING, 2018. (Adaptado). Onda de choque da superfície superior CL CL CD CD M 0 - 75 M 0 - 84 M 0 - 75 M 0 - 75 M 0 - 75 M 0 - 84 MACH No. MACH No. MACH No. MACH No. Separação do fluxo de ar Diferencial de pressão (‘negativo’) CP CP Nos gráficos à esquerda da Figura 12, o eixo vertical representa o decréscimo das pressões atuando no extradorso (linha azul) e no intradorso (linha vermelha) de um aerofólio. À direita, vemos o aumento tanto do coeficiente de sustentação (CL), quanto do coeficiente de arrasto (CD) conforme a velocidade aumenta. TEORIA DE VOO AVANÇADO 115 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 115 03/02/21 09:21 A diferença entre a linha azul e a linha vermelha representa a força de sus- tentação, ou seja, o quanto o avião é “puxado” para cima. O estabelecimento do centro de pressão está localizado no centro da área formada relativa ao diferen- cial de pressão entre o extradorso e o intradorso. Pela análise do gráfi co, é possível observar que na mach 0.75, e antes da onda de choque, a linha azul se sobrepõe mais à linha vermelha próxima ao bordo de ataque. Isto signifi ca que as pressões atuantes nesse aerofólio são menores no extradorso e próximas ao bordo de ataque, e tendem a se igualar a partir do meio do aerofólio. Ao acelerar para mach 0.84, as pressões sobre o extradorso atingem seu mí- nimo e nivelam. No intradorso, as pressões se mantêm praticamente inaltera- das. Quando na presença da intensa onda de choque no extradorso, as pressões se elevam, e ultrapassam as pressões do intradorso em intensidade. Isto signi- fi ca que, a partir da onda de choque, existe uma força puxando o aerofólio para baixo contrária à sustentação. Ao analisar a área localizada entre pressão positiva (para cima) e pressão ne- gativa (para baixo) para a designação do centro de pressão (CP), chega-se em um ponto localizado anterior se comparado a mach 0.75. Redução de downwash e tuck under (mach tuck) Para que uma aeronave voe de maneira estabilizada em nível de cruzeiro, é necessário que as forças atuantes sejam balanceadas. Perceba que o centro de gravidade da aeronave estará sempre localizado à frente do centro de pres- são, e os estabilizadores horizontais são os responsáveis pelo equilíbrio dessas duas “forças”. Figura 12. Deslocamento do CP e tuck under. Fonte: FAA, [s.d.]. Balanceamento de carga traseira Centro de gravidade Centro de sustentação TEORIA DE VOO AVANÇADO 116 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 116 03/02/21 09:21 Assim como explicado anteriormente, o deslocamento do centro de pres- são para trás é decorrente do aumento da pressão sobre o extradorso do ae- rofólio. Ao deslocar o centro de pressão para trás, este é distanciado do centro de gravidade e, portanto, há o aumento do torque da força do CP. Este aumento do torque, por si só, já é um dos responsáveis pela tendência de abaixar o nariz da aeronave, causando o tuck under. Outro fator que influencia no tuck under é a redução do downwash. Como visto, a tendência dos fluxos de ar em subir antes do bordo de ataque chama-se upwash.Ao entrar em contato com a superfície do aerofólio, o fluxo de ar tende a acompanhar o formato do aerofólio e, sendo o bordo de ataque geralmente defletido para baixo, o fluxo de ar segue com trajetória descendente ao aban- donar o aerofólio. Essa tendência de o fluxo de ar acompanhar o formato do aerofólio pode ser explicada pelo efeito Coandă. ASSISTA Para compreender melhor o que é o efeito Coandă, assis- ta ao vídeo disponibilizado a seguir. Resumidamente, o efeito Coandă diz respeito a como os fluidos em mo- vimento tendem a acompanhar as formas de objetos arredondados. Devido a esta tendência, o fluxo de ar em contato com o aerofólio não diverge deste após o impacto, mas sim se adequa à sua forma. Todavia, com o aparecimento das ondas de choque, a direção do fluxo da camada limite é influenciada. Se antes a tendência da direção do fluxo de ar era acompanhar a forma do aerofólio para baixo, com o descolamento da camada limite, este fluxo de ar agora passa a se mover mais paralelamente ao desloca- mento da aeronave. A diminuição do downwash, portanto, altera a angulação na qual o fluxo de ar se encontrará com os estabilizadores horizontais. Com a diminuição do ângulo no qual o fluxo se choca com os estabilizadores, por consequência, há diminuição da força produzida por estas superfícies. Com a redução das forças atuando nos estabilizadores (importante para manu- tenção do voo nivelado), têm-se a tendência de a ae- ronave baixar o nariz. A solução é fazer com que os TEORIA DE VOO AVANÇADO 117 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 117 03/02/21 09:21 estabilizadores horizontais consigam responder às mudanças no angulo do fl uxo de ar. Tais superfícies são chamadas de estabilizadores de incidência va- riável, e são controladas pelo mach trimmer. Buffet: vibrações e comandos inoperantes Na alta velocidade, os buff ets ou vibrações ocorrem em grande parte de- vido aos efeitos da intensifi cação das ondas de choque. Vimos anteriormente que, quando no aparecimento das ondas, as propriedades físicas do ar come- çam a ser alteradas, sendo neste caso pressão e densidade as mais relevantes. Quanto maior a pressão, mais denso, mais quente e mais viscoso o ar, o que consequentemente gera maior arrasto. Esse aumento no arrasto é responsável pela criação de uma área instável sobre as superfícies do aerofólio. Ademais, o fl uxo de ar que passa por essas zonas de instabilidade também se desestabiliza. Sabemos que as superfícies de controle das aeronaves funcionam com base na alteração das pressões ao longo de si próprias. Em relação às ações dos ailerons, por exemplo, quando em curva para a direita, o aileron direito será elevado e o esquerdo abaixado. Na asa direita, o aileron elevado aumenta a pressão estática no extradorso da asa direta, e do outro lado, o aileron abaixa- do diminui a pressão estática no extradorso da asa esquerda. Se houver ondas de choque no extradorso dessas asas, a defl exão dos ailerons surtirá efeitos reduzidos ou até nulos. Voos prolongados sobre efeito dessas vibrações e em desacordo com o estipulado nos limites operacionais da aeronave podem provocar danos severos à estrutura da aeronave, principalmente em decorrência da resso- nância catastrófi ca. A fi m de se reduzir os efeitos do buff et, os aerofólios são construídos de modo que a linha de curvatura média seja mais próxima da corda, ou seja, sem tanta diferença entre extradorso e intradorso. Isto faz com que as velocidades locais do fl uxo de ar sejam mais bem distribuídas, e evita-se que um ponto chegue a mach crítico muito antes do resto do aerofólio. É importante ressaltar que grande parte dos problemas ocorre com eleva- dos ângulos de ataque, uma vez que, assim como em baixa velocidade, quanto maior o ângulo de ataque, maior a velocidade local do fl uxo de ar sobre o extra- TEORIA DE VOO AVANÇADO 118 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 118 03/02/21 09:21 dorso. Ao se operar com grandes ângulos de ataque, atinge-se o mach crítico mais rapidamente do que ao voar niveladamente. Rolloff O rolloff também é chamado de guinada adversa de alta velocidade e, neste caso, os riscos de se entrar em um rolloff dizem respeito somente a quando voando próximo ao Máximo Mach Operacional (MMO). Operando em velocidades normais, ao pressionar o pedal esquerdo, por exemplo, você estaria comandando uma guinada para a esquerda. Como con- sequência dessa guinada para a esquerda, a asa direita acelera em relação à esquerda, produzindo mais sustentação, e se erguendo, ou seja, ao pressionar o pedal esquerdo, levanta-se a asa direita. Imagine a mesma situação supracitada, mas agora empregando velocida- des próximas ao MMO. Ao pressionar o pedal esquerdo, teremos como conse- quência o aumento da sustentação da asa direita, que se eleva. Mas, como a aeronave já se encontra próxima ao MMO, ao aumentar ainda mais a sustenta- ção da asa direita esta ultrapassa o MMO, aumentando drasticamente o arrasto nesta asa, o que provoca o estol. A asa direita baixa e, dependendo das condi- ções naquele momento, a aeronave pode entrar em um mergu- lho rotacionado pela direita. Desta maneira, cabe ressaltar que, quando voando em ve- locidades próximas ao MMO, recomenda-se que o pedal não seja utilizado. Quaisquer correções devem ser fei- tas utilizando-se os ailerons. Dutch roll O nome dutch roll vem da similaridade do movimento da aeronave com a de patinadores. Na época em que este movimento foi descrito, era notória a perícia dos patinadores holandeses e, devido a isto, terminou-se por batizar este movimento da aeronave de “rolamento holandês”. Para explicar o dutch roll, é necessário recordar dois movimentos básicos da aeronave: sobre o eixo longitudinal (rolamento/roll) e sobre o eixo vertical (guina- TEORIA DE VOO AVANÇADO 119 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 119 03/02/21 09:21 da/yaw). Outro dado importante é que as aeronaves que sofrem com o dutch roll possuem grande estabilidade lateral e pequena estabilidade direcional. Para explicar melhor o movimento, é necessário valermo-nos de um exemplo prático. Quando uma ae- ronave inicia uma guinada para a direita, a asa esquerda é acelerada e se eleva em relação à direita. Assim, esta elevação condiciona a aeronave a uma leve glissada para a direita. Devido a grande estabilidade lateral presente na aeronave, a asa direta tende a voltar a subir, buscando o nivelamento novamente. Ao nivelar a asa, a aeronave estará com o nariz um pouco mais à direita em relação ao vento relativo. Nesta condição, o leme de direção é mais impactado pelo lado esquer- do e tende a jogar o nariz da aeronave para a esquerda, buscando um novo alinhamento, ou seja: iniciando uma nova guinada, dessa vez para a esquerda. Com a segunda guinada, neste caso para a esquerda, a asa direita acelera e se eleva, guinando a aeronave para esta direção, e a estabilidade lateral entra em ação novamente e eleva a asa esquerda. Assim, o ciclo recomeça. O dutch roll nada mais é que um movimento oscilatório derivado das ações advindas das estabilidades lateral e direcional, muito semelhante ao que é vis- to na instrução de voo ao realizar a manobra de coordenação de primeiro tipo. Na instrução primária, é necessário realizar os movimentos em torno dos eixos longitudinais e verticais de maneira coesa, a fim de que a aeronave gire de um lado para o outro sem alterar proa nem atitude. Quando os alunos executam movimentos descoordenados, a aeronave entra em movimento oscilatório. Quando em alta velocidade, para mitigar os efeitos advindos do dutch roll, é instalado um equipamento denominado de yaw damper. A função deste equi- pamento é perceber os movimentos de glissada e aplicar o pedal de maneira a manter a aeronave em voo coordenado o tempo todo. Pequenas variações de aileron requerem pequenos movimentos com os pedais, muitos dos quais extremamente sensíveis para que opiloto os aplique. Assim, a constante análi- se de dados de voo faz com que os computadores realizem essas correções de maneira mais adequada que os pilotos. Caso você esteja voando com o yaw damper inoperante e se depare com uma situação de dutch roll, a técnica mais recomendada é auxiliar o nivelamen- TEORIA DE VOO AVANÇADO 120 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 120 03/02/21 09:21 to das asas apenas com o uso dos ailerons, e não dos pedais. Outra técnica seria simplesmente soltar os comandos da aeronave e esperar que a estabili- dade lateral aos poucos fosse atuando, uma vez que, após algumas oscilações, a aeronave tende a estabilizar. Acidente em decorrência de dutch roll Em outubro de 1959, em um Boeing 707 no voo de entrega da aeronave, a tripulação (que estava em treinamento) decidiu desligar o yaw dumper para fa- miliarização com a aeronave e para treinar algumas das técnicas de pilotagem. Quando o avião entrou em um dutch roll, o piloto em comando tentou corrigi-lo aplicando os pedais. Porém, quanto mais ele aplicava os pedais, mais as osci- lações pioravam. As forças G foram de tal magnitude que três dos quatro mo- tores do Boeing 707 foram arrancados, e a aeronave teve de realizar um pouso de emergência em um rio próximo à cidade de Seattle. Infelizmente, quatro dos oitos tripulantes morreram nesse dia. TEORIA DE VOO AVANÇADO 121 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 121 03/02/21 09:21 Sintetizando Nesta unidade, abordamos a formação das ondas de choque e os efeitos adversos que elas produzem na aeronave e seus aerofólios. Inicialmente, nos debruçamos sobre a diferença básica entre um objeto se mover em regimes subsônicos e supersônicos. Quando voando com velocidades iguais ou abaixo das velocidades dos impulsos de pressão, a aeronave experimenta poucos efei- tos referentes à compressibilidade do ar, tanto que tratamos as massas de ar como incompressíveis em baixas velocidades. Quando um ponto do aerofólio atinge velocidade local (ou Mach local - ML) igual a 1.0, têm-se os primeiros indícios de formação de onda de choque. A esta velocidade chamamos de mach crítico, e é a partir daqui que os efeitos de com- pressibilidade começam a se manifestar. Importante lembrar que, ao atingir o mach crítico, a aeronave em si ainda não atingiu mach 1.0 por completo. Vimos que existem três tipos de onda: choque normal, choque oblíqua e onda de expansão. Cada uma destas ondas modifica o fluxo de ar à sua manei- ra, e entendê-las foi essencial para o desenvolvimento de aeronaves cada vez mais velozes e eficientes. Após discutidas as ondas de choque, buscamos nos aprofundar nos tipos de problemas advindos de seu aparecimento. Ademais, iniciamos os estudos referentes ao estol de mach, cujas consequências se as- semelham muito ao estol de baixa velocidade. Passamos para o deslocamento do centro de pressão e, para melhor en- tendimento, voltamos à teoria de voo de baixa velocidade para compreender como as mudanças no ângulo de ataque modificam o centro de pressão. À medida que aumentamos as velocidades, percebemos que as ondas de choque também têm a capacidade de alterar as pressões atuantes em um aerofólio. Finalizamos esta unidade discorrendo brevemente acerca de alguns dos mais comuns efeitos adversos das ondas de choque, como: redução do down- wash, tuck under, rollof e dutch roll. Mais do que apenas comentar a respeito de- les, demos algumas dicas de como se comportar ao enfrentar tais tendências, ou, pelo menos, entender o que levou àquela condição. Termino esta unidade com um conselho: a bibliografia em português acerca destes temas é muito pequena. Não se contentem com conteúdos da literatura nacional, procurem em livros e sites de língua inglesa para melhor entendimen- TEORIA DE VOO AVANÇADO 122 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 122 03/02/21 09:21 to destes assuntos. O que vimos aqui é apenas um resumo deste conteúdo tão vasto que é a aerodinâmica de alta velocidade. Espero que esta matéria tenha despertado seu interesse, e que você continue os estudos com afinco. Grande abraço. TEORIA DE VOO AVANÇADO 123 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 123 03/02/21 09:21 Referências bibliográficas ANDERSON, J. Fundamentals of aerodynamics. 6. ed. [s.l.]: McGraw-Hill, 2017. ATPL Training / Principles of Flight #62 High Speed Flight - Shockwaves. Postado por Aviation Training Network. (11min. 36s.). son. color. Disponível em: . Acesso em: 19 ago. de 2020. BIANCHINI, D. Teoria de voo - aviões. 5. ed. São Paulo: Bianchi, 2015. EFEITO Coanda: do café ao avião - BugCast #7 | BláBláLogia. Postado por BláBláLogia. (03min. 53s.). son. color. port. Disponível em: . Acesso em: 01 set. 2020. Federal Aviation Administration - FAA. Transport airplane: airplane life cycle - accident overview. [s.d.] Disponível em: . Acesso em: 20 ago. de 2020. HOMA, J. M. Aerodinâmica e teoria de voo. 30. ed. São Paulo: ASA, 2011. JUNIOR HURT, H. H. Aerodynamics for naval aviators. [s.l.]: United States Navy, 1965. NASA. Center of Pressure – CP. [s.d.] Disponível em: . Acesso em: 19 ago. 2020. SAINTIVE, N. S. Aerodinâmica de alta velocidade. 10. ed. São Paulo: Editora Asa, 2011. SAINTIVE, N. S. Performance de aviões a jato – peso e balanceamento. 12. ed. São Paulo: Editora Asa, 2014. TEORIA DE VOO AVANÇADO 124 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 124 03/02/21 09:21O perfi l de uma asa se assemelha a um aerofólio. Seu funcionamento é pela aplicação do princípio de Bernoulli, que dita que, em um voo normal, o ar escoa pela asa com maior velocidade no extradorso do que no intradorso, pois a curvatura do perfi l encontra-se mais acentuada no bordo de ataque. O vento relativo, ao se chocar na superfície da asa, acaba gerando diferentes pressões e resulta em uma força que empurra a asa para cima e para trás. O vento relativo é o movimento do ar em relação a um corpo, ou seja, é o vento contra o qual a aeronave está a todo momento em choque durante um voo. Este vento é o mais estudado dentro da aviação e com ele se obtém ân- gulos e defi nições importantes. Por outro lado, o vento absoluto, conhecido também como vento atmosférico, é o movimento do ar em relação à Terra. Portanto, a força para cima recebe o nome de sustentação e a força para trás, arrasto. Ambas possuem grande importância, dado que é por meio do escoamento do ar pelo perfi l que se obtém a aerodinâmica, ou a capacidade da aeronave de romper o ar à sua frente, permitindo, então, que uma aeronave permaneça voando. Dentro da aviação, a teoria de voo é separada em duas partes: a teoria de baixa velocidade e a de alta velocidade. Nesse contexto inicial, deve-se compreender os conceitos básicos que ope- ram sobre o voo e como se dá o desenvolvimento destes estudos no voo real. Portanto, para melhor entendimento e aprofundamento no assunto, é neces- sário compreendermos noções básicas da Física, bem como as defi nições de elementos que atuam durante um voo. Na aviação, a Física mecânica é muito estudada, sendo responsável por explicar os movimentos dos corpos em re- pouso e em movimento. Noções da Física e definições A velocidade é o ramo da Física que determina a razão entre o deslocamento de um objeto e o intervalo de tempo necessário para se realizá-lo. Para medir a velocidade, há diferentes unidades de medida que podem ser utilizadas, sendo que, na aviação, a mais aplicada é a milha náutica, conhecida como nó e identifi - cada como KT (do inglês knot) e equivalendo a 1.852 km/h. Se um objeto móvel tem sua velocidade alterada em função do tempo, dizemos que ele possui aceleração. Assim, por exemplo, um avião que acelera durante 10 TEORIA DE VOO AVANÇADO 14 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 14 03/02/21 09:19 segundos e atinge a velocidade de 80 m/s, tem um aumento de velocidade de 8 m/s em cada segundo. Matematicamente, podemos dizer que a aceleração foi de 42 m/s². Compreende-se como massa a quantidade de matéria contida em um corpo. A massa de determinado corpo é invariável, desde que não seja acrescido ou extraído nenhum peso. As unidades de medida mais utilizadas para massa são o quilograma-massa (kg) e a libra (lb), equivalente a 0,454 kg. O peso, por sua vez, é o resultado da ação da gravidade sobre os corpos, podendo ser descrito como o produto entre a massa e a aceleração da gravidade local. Ainda que a massa seja invariável, o peso possui variação e pode ser indicado como kgf ou lbf. A densidade é a relação entre o volume que um determinado material ocupa e a quantidade de sua massa. Portanto, a densidade é a massa por unidade de volume. Por exemplo, um quilograma de chumbo apresenta um volume muito menor do que um quilograma de isopor. Ambos possuem o mesmo peso, mas apresentam densidades diferentes. A força é algo que pode deslocar um objeto no estado de repouso, por meio de um movimento. Assim, para movimentar, parar e alterar a direção de um cor- po, é necessária a aplicação de uma força. A potência, por outro lado, é o trabalho produzido por unidade de tempo. É o tempo que foi gasto para que fosse realizado algum trabalho. A unidade de medida para a potência, na aviação, é o HP (ou horse power, conhecido também como cavalo-vapor), equivalendo a, aproximadamente, 76 kgf. O trabalho nada mais é que o produto da força pelo deslocamento, represen- tada pelo símbolo W, na Física. Para que o deslocamento de um objeto ocorra, será necessária a aplicação de uma força. Portanto, quando há força e deslocamento, há a realização de um trabalho. Assim, ao empurrar um planador, energia é gasta para realizar força, que deslocará o planador, em uma relação denominada trabalho. Por fim, a pressão apresenta uma definição menos complexa, sendo a in- tensidade da força aplicada sobre uma determinada superfície, por unidade de área. Existem dois principais modelos de pressão: • A pressão estática é exercida sobre um corpo em repouso, independentemen- te de se está em movimento ou não, agindo da mesma forma em todas as direções; • A pressão dinâmica é o resultado do movimento de um corpo, que pode variar com a altitude e com o vento relativo, e é obtida pela conversão da energia cinética em energia de pressão, com sentido e velocidade. TEORIA DE VOO AVANÇADO 15 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 15 03/02/21 09:19 Durante o século XVII, o matemático e filósofo Sir Isaac Newton desenvolveu três grandes leis básicas sobre o movimento. Dentro da aviação, essas leis são amplamente aplicadas durante um voo, para entender como um voo reage fisi- camente, como a aerodinâmica está presente e como o movimento do ar auxilia uma aeronave a se manter aérea. A primeira lei de Newton, também conhecida como a lei da inércia, descreve que todo corpo tem a tendência de permanecer em repouso, se não houver nenhum trabalho realizado para seu deslocamento, ou em movimento retilíneo e uniforme, se assim já estiver, com a mesma velocidade e direção. Para compreender sua ação, um exemplo simples é analisar os passageiros em um avião. Quando o piloto realiza um pouso e utiliza o freio para o desaceleramento da aeronave, os passageiros que se encontram dentro da aeronave têm o seu corpo “empurrado para frente”. Na realidade, a mudança do estado de movimento é apenas do avião, os passageiros tendem a se manter no movimento em que se encontravam anteriormente. A segunda lei de Newton afirma que o total de forças que atuam sobre um corpo é proporcional ao produto da massa pela aceleração adquirida por ele. As- sim, a aceleração produzida sobre um corpo é diretamente proporcional à força aplicada sobre ele e inversamente proporcional à sua massa. A força aplicada sobre um corpo produz nele uma aceleração na mesma direção e sentido da força resultante, mas perde intensidade conforme a massa do corpo aumenta. Conhecida também como lei da ação e reação, a terceira lei de Newton é uma das mais importantes para a aviação. A lei estabelece que, para toda ação, há uma reação de intensidade igual, porém com sentido contrário. Seguindo este pensamento, ao ser acionado o motor a hélice de uma aeronave, ele deslo- ca o ar para trás e, consequentemente, empurra o avião para frente. Da mesma forma, a lei está presente no lançamento de satélites e foguetes, lançados por propulsão a jato. A força do motor a jato é tanta que, ao ser deslocado para trás, faz com que a nave tenha deslocamento para cima. ASSISTA Veja como é o lançamento de um foguete e compreenda como ocorre seu deslocamento, comprovando a terceira lei de Newton. TEORIA DE VOO AVANÇADO 16 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 16 03/02/21 09:19 Anos após o desenvolvimento das leis de Newton, Daniel Bernoulli surgiu com sua teoria de que a pressão de um fl uido varia com a velocidade do mo- vimento. Ficou estabelecido que, com o aumento da velocidade do fl uido, a pressão sobre ele será diminuída. Isso fi ca evidente no tubo de Venturi (Figu- ra 1), pois quando o fl uido passa pelo estrangulamento, ele automaticamen- te obtém aumento de velocidade e redução de pressão estática, elevando a pressão dinâmica. Figura 1. Tubo de Venturi. Fonte: BIANCHINI, 2015. (Adaptado). Velocidade Baixa Baixa Baixa Baixa Baixa BaixaAlta Alta Alta Alta Alta Alta Velocidade VelocidadePressão Pressão Pressão É com essa teoriaque conseguimos explicar a sustentação na asa da ae- ronave. Como exposto anteriormente, a pressão no extradorso da aeronave (região superior da asa) é inferior à do intradorso (região inferior da asa) e é devido a esse diferencial de pressão que se obtém a sustentação. Parte estrutural aerodinâmica de um avião Um avião é desenvolvido para ser o mais aerodinâmico possível, com todas as suas superfícies aerodinâmicas. Mesmo que não produzindo força útil ao voo, elas demonstram pequena resistência ao avanço, contribuindo com a efi ciência da aeronave. As superfícies que não se enquadram como aerodinâmicas rece- bem a denominação de aerofólios, que são superfícies que produzem força útil ao voo, sendo elas as asas, as hélices e o estabilizador. Os aerofólios têm um TEORIA DE VOO AVANÇADO 17 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 17 03/02/21 09:19 desenho aerodinâmico que coloca o teorema de Bernoulli em prática durante o voo, com a asa fixada na fuselagem e com a função de produzir sustentação, mantendo a aeronave em voo. A asa pode ter diversos tipos e tamanhos, variando conforme o fabricante e o modelo da aeronave. A seleção do melhor perfil aerodinâmico de uma asa é influenciada por uma série de fatores, bem como a velocidade de operação, características aerodinâmicas, limitação operacional da aeronave, dimensões e eficiência. Esses requisitos são de extrema necessidade para que a aeronave te- nha um bom desempenho no voo. Os planadores, por exemplo, têm como característica suas grandes asas, pois necessitam de uma área extensa para realizar o voo planado, se sustentando e realizando o voo apenas com correntes térmicas ascendentes. Conforme des- crito, a asa tem como finalidade fundamental suportar o avião em voo, dando sustentabilidade e eficiência. Sendo assim, as diferentes asas são utilizadas de acordo com a operação que a aeronave vai desempenhar. Quanto ao posicionamento da fixação da asa na fuselagem, ela pode ser bai- xa, média ou alta (Figura 2), cada modelo tendo uma vantagem e um motivo para ser utilizado. A asa alta traz maior sustentabilidade lateral para a aeronave e ne- cessita de menor comprimento de pista para pouso, devido ao efeito de solo ser menor. A asa média é a que apresenta o menor índice de arrasto, mas necessita de estrutura reforçada, devido aos problemas estruturais próximos à raiz da asa. Figura 2. Posicionamento da asa. Fonte: TALAY, 1975. (Adaptado). ASA ALTA ASA MÉDIA ASA BAIXA TEORIA DE VOO AVANÇADO 18 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 18 03/02/21 09:19 Como característica diferencial, o modelo de asa baixa permite uma me- lhor manobra de rolamento, tem grande aproveitamento do efeito de solo e não precisa de grandes distâncias para realizar uma decolagem. Entretanto, tem como desvantagem uma estabilidade lateral reduzida em relação aos ou- tros meios de fixação. Além da fixação, a aeronave pode demonstrar variação na quantidade de asas. Há aviões com um plano de asa, os monoplanos, e com dois planos de asa, chamados de biplanos. A asa também pode ter diferentes formas geomé- tricas, podendo ser: • Retangular: se destaca por ter baixo custo de fabricação, mas apresenta baixa eficiência aerodinâmica, quando comparada com as demais. Essa redu- ção se dá devido ao arrasto induzido na ponta de asa; • Elíptica: tem a melhor eficiência ao ser comparada com as demais, desta- cando o grande poder aerodinâmico, considerado ideal, porém possui um valor alto de fabricação; • Trapezoidal: dispõe de eficiência aerodinâmica, reduzindo o arrasto indu- zido na ponta de asa. A fabricação é altamente complexa, pois cada nervura possui uma dimensão diferente, exemplificando que uma asa apresenta dife- rentes aerofólios em apenas um plano; • Mista: apresenta todas as características dos demais modelos. Ela represen- ta ótima solução para que se aumente a área da asa sem criar arrasto parasita, reduzindo a velocidade de estol e deixando de comprometer o arrasto induzido. A asa tem uma composição bem simples. Seus elementos estruturais são: as nervuras, responsáveis por dar o formato aerodinâmico para a asa e trans- mitir os esforços do revestimento para a longarina, que, por sua vez, suporta as principais cargas aerodinâmicas atuantes durante o voo, sendo o principal componente estrutural da asa; bem como o bordo de ataque e o bordo de fuga. É fundamental o conhecimento de cada um, para que se compreenda os diferentes modos de aerofólio e suas estruturas. A área da asa é compreendia por algumas definições simples: a envergadu- ra é a distância entre uma ponta da asa até a outra; a raiz da asa é a parte mais próxima à fuselagem da aeronave; e a ponta da asa é a extremidade oposta à raiz. De maneira clara, a área da asa é identificada entre bordo de ataque, bor- do de fuga e a distância entre uma ponta e outra da nave (Figura 3). TEORIA DE VOO AVANÇADO 19 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 19 03/02/21 09:19 Figura 3. Definições de área da asa. Fonte: BIANCHINI, 2015. (Adaptado). Raiz da asa Ponta da asa Envergadura É muito importante entender que o aerofólio não é a asa inteira, mas apenas uma parte dela, já que uma mesma asa pode apresentar diferentes formas de aerofólio. Dado que o perfil aerodinâmico (Figura 4) é uma superfície cuja finalidade é obter uma reação aerodinâmica, de acordo com o escoamento do ar, todo perfil retrata uma característica própria, que depende da forma geométrica, do arqueamento, das dimensões, do coeficiente de sustentação e de arrasto, e do seu comprimento. Figura 4. Elementos de um perfil. Fonte: HOMA, 2011. (Adaptado). Bordo de fuga Extradorso Linha de curvatura média Intradorso Bordo de ataque Corda Desse modo, a área do perfil pode ser definida com base em: • Bordo de ataque: é a parte frontal de um perfil, sendo a extremidade que sempre enfrentará o vento relativo durante o voo; • Bordo de fuga: é a superfície traseira do aerofólio, sendo nesta extremida- de que o perfil exibe um afinamento e finaliza sua característica aerodinâmica; TEORIA DE VOO AVANÇADO 20 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 20 03/02/21 09:19 • Extradorso: é a parte superior da asa, onde ocorre maior velocidade do escoamento do fl uido de ar; • Intradorso: é a parte inferior da asa, que possui pressão maior que o ex- tradorso e velocidade menor de escoamento; • Corda: é a parte ligada entre o bordo de ataque e o bordo de fuga, deter- minando a área da asa e o ângulo de ataque; • Linha de curvatura média: é a linha entre o intradorso e o extradorso. Em um aerofólio simétrico, a linha média é igual à corda. O aerofólio pode apresentar dois tipos de perfi l, o assimétrico e o simé- trico. O perfi l simétrico exibe a característica de que, ao dividir o aerofólio, ele permanecerá com duas partes idênticas. Essa divisão é feita pela linha de corda, que é traçada desde o bordo de fuga até o bordo de ataque. O perfi l assimétrico, por outro lado, é encontrado na maioria das aeronaves e apre- senta as duas partes com tamanhos diferentes, devido à efi ciência em gerar maior sustentação. O ângulo de incidência é formado entre a linha de corda de asa e o eixo longitudinal da aeronave, que geralmente coincide com a direção do voo hori- zontal. O ângulo de diedro, por outro lado, pode ser positivo (se as pontas das asas estiverem acima do plano), negativo ou nulo, sendo formado entre o plano da asa e o plano horizontal (Figura 5). Figura 5. Ângulos do perfi l e de diedro. Fonte: HOMA, 2011. (Adaptado). Asa Linha de corda Eixo longitudinal Diedro Ângulo de incidência TEORIA DE VOO AVANÇADO 21 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 21 03/02/21 09:19 Forças atuantes em voo Durante o voo, algumas forças aerodinâmicas atuam sobre a aeronave, devi- do ao escoamento do ar pela asa. Com isso, temos a aplicação da aerodinâmica em um ponto do aerofólio denominado centro de pressão. Quando o vento re- lativovem de encontro com o aerofólio, temos um ângulo formado entre a linha da corda e a direção do vento. Este ângulo recebe o nome de ângulo de ataque, no qual é gerada a resultante aerodinâmica, ou RA. Ao aumentar-se o ângulo de ataque, aumenta também o centro de pressão e, dependendo do tipo de perfi l, ele se manifestará a partir de um deslocamento. A Figura 6 demonstra o resultado da variação do ângulo de ataque e como cada aerofólio se comporta. Assim, as forças aerodinâmicas se resumem em quatro: sustentação, tração, peso e arrasto. Figura 6. Posições das resultantes aerodinâmicas. Fonte: HOMA, 2011. (Adaptado). Vento RA anterior CP CP Observar que o CP avançou Perfi l assimétrico: O centro de pressão desloca-se para a frente. RA Aumentando α Vento CP CP Perfi l simétrico: O centro de pressão não se desloca. RA Aumentando α TEORIA DE VOO AVANÇADO 22 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 22 03/02/21 09:19 Forças aerodinâmicas Analisaremos primeiramente a sustentação e o ar- rasto, visto que, a partir deles, podemos compreen- der melhor as superfícies aerodinâmicas e o funcio- namento do aerofólio durante o voo. A sustentação é o componente da resultante aerodinâmica, por defi nição, perpendicular ao vento relativo, sendo assim, a força útil ao voo. Em cada perfi l, o comportamento desta força aero- dinâmica é muito signifi cativo para se obter um conhecimen- to sobre seu desenvolvimento. A quantidade de sustentação que um perfi l de asa consegue produzir de- pende do coefi ciente de sustentação da asa, que está relacionado ao ângulo de ataque e ao formato do aerofólio; da pressão dinâmica, que está atrelada à densidade do ar; e da velocidade da aeronave, dependendo diretamente da área da asa e da velocidade. No momento em que um ângulo de ataque é aumentado (Figura 7), a susten- tação também vai aumentando, até atingir o ângulo de Estol (também conhe- cido como estol), e a sustentação começará a diminuir rapidamente e o arrasto aumentará drasticamente. Quando o ângulo de ataque começa a aumentar de- mais, torna-se possível identifi car que o ar sobre o extradorso fi ca turbulento e a asa começa a tremer. Este momento nos indica que a aeronave se encontra em pré-estol e, logo, exibirá uma perda de sustentação. TEORIA DE VOO AVANÇADO 23 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 23 03/02/21 09:19 Figura 7. Diferentes ângulos de ataque no perfil. Fonte: HOMA, 2011. (Adaptado). L Ângulo de ataque positivo Vento α A sustentação é positiva qualquer que seja o perfil Ângulo de ataque nulo Vento Pequena sustentação Não há sustentação A sustentação depende do perfil Perfil assimétrico Perfil simétrico Vento Ângulo de ataque de sustentação nula (αLo) αLo é levemente negativo αLo é igual a zero Perfil assimétrico A sustentação é nula Perfil simétrico L Ângulo de ataque menor que o ângulo de sustentação nula Vento α A sustentação é negativa qualquer que seja o perfil. É usado em voo de dorso TEORIA DE VOO AVANÇADO 24 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 24 03/02/21 09:19 Se, mesmo após o ocorrido, for sentida a tremulação e o ângulo de ataque continuar aumentando, a aeronave logo perderá toda a sustentação e os filetes de ar deixarão de acompanhar a curvatura do extradorso, resultando em um ar excessivamente turbulento. Nesse momento, a aeronave tende a começar uma descendente, até que ganhe sustentação novamente e consiga se estabilizar no voo. Para sair de uma situação de estol, o piloto deverá aliviar o manche e esperar que a aeronave ganhe velocidade e sustentação novamente. O arrasto é o componente da resultante aerodinâmica paralela ao vento relativo. Quanto maior for a área, maior será o arrasto, ou seja, quanto maior for o ângulo de ataque, maior será o arrasto. Quanto maior o arrasto, mais turbilhonamento ocorrerá sobre a superfície da asa, reduzindo a sustentação (Figura 8). Dessa maneira, o arrasto se dá devido à distribuição desfavorável da pressão, formada pela separação dos filetes de ar na superfície do aerofólio. Figura 8. Relação entre sustentação e arrasto. Fonte: HOMA, 2011. (Adaptado). D L Vento Re su lta nt e ae ro di nâ m ica TEORIA DE VOO AVANÇADO 25 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 25 03/02/21 09:19 O arrasto pode ser classificado como induzido ou parasita, dependendo da densidade, da velocidade, da área da asa e do coeficiente de arrasto, que é o ângulo de ataque e o formato do aerofólio. Somando o arrasto parasita e o arrasto induzido, você terá o coeficiente do arrasto total. Compreende-se como arrasto induzido quando dois filetes de ar turbilho- nado se formam na ponta da asa, sendo muito comum em asas com o formato geométrico retangular. É muito frequente que ele ocorra em baixas velocida- des e quando o ângulo de ataque permanece grande, ou seja, em momentos de decolagem e pouso. A formação destes filetes se dá pela pressão do ar, que, sendo maior no intradorso do que no extradorso, força o ar a escapar para cima e pelas pontas de asa. Com a finalidade de reduzir este fenômeno, utiliza-se o alongamento de asa ou tanques conhecidos como tiptank, na ponta da asa, que não permitem o ar escoar pelo intradorso e sair pela ponta da asa, ou os winglets. O alongamento de asa é muito utilizado em planadores que possuem grandes envergaduras e necessitam de alto rendimento, para aproveitar melhor as térmicas. O outro arrasto que está presente no voo é o arrasto parasita, que se com- preende como uma área plana equivalente, cuja denominação é para as áreas que não produzem nenhuma força útil ao voo. É a resistência que a aeronave possui ao tentar passar as moléculas presentes no ar. Assim, todo arrasto pa- rasita que uma aeronave pode ter é composto por três elementos principais: • Arrasto de atrito: nenhuma superfície da aeronave é totalmente lisa, por- tanto, quando os filetes de ar passam sobre a face, acabam criando um peque- no arrasto. O motivo deste arrasto pode ser um rebite, uma rugosidade e até uma sujeira. Devido a isso, é de grande importância preservar a aeronave em boas condições de limpeza; • Arrasto de pressão: É a diferença de pressão que há entre o bordo de ataque e o bordo de fuga de qualquer objeto que está presente no avião. Desse modo, quando o filete de ar passa sobre o objeto, como, por exemplo, o trem de pouso, a pres- são na parte frontal será maior que na parte traseira. Esse arrasto pode ser reduzido fazendo melhorias no projeto e no desenvolvimento da aeronave, como, por exemplo, na polaina para o trem de pouso; TEORIA DE VOO AVANÇADO 26 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 26 03/02/21 09:19 • Arrasto de interferência: É a combinação de ambos arrastos de atrito e de pressão, sendo basicamente a interferência no fluxo de ar entre as partes adjacentes da aeronave. O peso total de uma aeronave está concentrado todo em um ponto, de- nominado centro de gravidade (CG), onde a força da gravidade atua e onde se encontra o equilíbrio da aeronave. Este ponto é definido pelo fabricante, que elenca todos os limites de peso, de alteração de ponto de CG, o peso máximo de decolagem e a resistência da aeronave. A determinação exata é importante para a segurança operacional. O ponto do CG depende apenas da distribuição das bagagens em voo, dos tripulantes, do combustível e do peso dos componentes fixos da aeronave, bem como a fuselagem, trem de pouso, asa, motor etc. Por fim, a tração é promovida pelo grupo motopropulsor, que é a força produzida para o deslocamento do avião e tem o sentido oposto ao do arrasto. A tração pode ser provida por motor a pistão e uma hélice, em pequenos aviões, e, para os de maior performance, por motor turboélice, turbofan e turbojato. Dentre as potências, existem algumas definições es- senciais para o entendimento da tração e o funcionamento da hélice e do grupo motopropulsor: • Potência teórica: é a potência que a queimada mistura de combustível fornece; • Potência indicada (indicated horse-power – IHP): é a potência bruta produ- zida pelo motor, que atua na cabeça do pistão; • Potência nominal: é a potência máxima que o motor foi projetado para desenvolver; • Potência efetiva (brake horse-power – BHP): é a potência líquida que o motor fornece à hélice, que é medida em seu eixo; • Potência útil: é a potência (também chamada de tratora ou disponível) que o grupo motopropulsor fornece ao avião, que depende diretamente da po- tência efetiva. Quanto maior a eficiência da hélice, maior será a sua capacidade em produzir tração. É basicamente para isso que a hélice foi projetada; • Potência necessária: é a potência que o avião requer para se manter em voo reto e nivelado. Se ela aumenta, a potência disponível diminui, e vice-versa; e • Potência de atrito ( friction horse-power – FHP): é a parcela que resta do atrito pelo processo da transformação de potência em tração. TEORIA DE VOO AVANÇADO 27 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 27 03/02/21 09:19 Peso e balanceamento O peso e o balanceamento da aeronave são essenciais para o voo, infl uen- ciando muito na performance do avião, principalmente durante uma decola- gem, mas também em perdas de sustentação e na aproximação. O fabricante da aeronave deve sempre disponibilizar para o piloto um manual, que deve ser seguido durante a realização do balanceamento e da distribuição do peso na aeronave. É muito importante realizar bem esta distribuição, pois, se o peso e o balanceamento estiverem errados, o centro de gravidade pode ser facilmente alterado e a estabilidade e o controle da aeronave comprometidos. Após um carregamento, deve-se verifi car se a aeronave se encontra dentro do envelope pré-determinado pelo manual. Um carregamento errôneo pode causar uma necessidade de velocidade maior para a decolagem e, consequentemente, uma distância maior a ser percorrida na pista. Assim, a razão de subida não será a mesma do manual de operação e a velocidade de estol aumentará, bem como a de aproximação. Dessa maneira, torna-se evidente que uma aeronave com o peso e o balanceamento errados será altamente prejudicial à segurança de voo. Desse modo, para entendermos o procedimento de peso e balanceamento, devemos compreender alguns termos e defi nições: • Plano de referência: é um plano vertical imaginário, a partir do qual são realizadas medidas horizontais, para fi ns de balanceamento; • Estação: é um local designado ao longo da fuselagem da aeronave, em relação ao plano de referência; • Braço: é a distância horizontal entre o plano de referência e o centro de gravidade; • Momento: é o peso de um item, multiplicado pelo seu braço; • Combustível utilizável: é o combustível disponível para o planejamento do voo; • Combustível não utilizável: é uma grande quantidade de combustível, nos tanques, usada nos primeiros sintomas de funcionamento irregular do mo- tor, para evitar condições adversas de alimentação; • Peso vazio equipado: é a soma dos pesos da estrutura, do grupo moto- propulsor, dos instrumentos, dos sistemas básicos, da decoração interna e dos equipamentos opcionais (se instalado); TEORIA DE VOO AVANÇADO 28 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 28 03/02/21 09:19 • Peso vazio básico (BEW, basic empty weight): é a soma do peso vazio equi- pado com os pesos do fl uido hidráulico total, óleo total do motor e combustível não utilizável; • Peso básico operacional (PBO ou BOW, basic operational weight): é a soma do peso vazio básico com os pesos dos itens móveis que não se alte- ram substancialmente durante o voo, incluindo tripulação (crew), bagagem dos tripulantes, equipamentos extras e de emergência, que possam ser utilizados; • Peso zero combustível (PZC ou ZFW, actual zero fuel weight): é o peso básico operacional com adição da carga paga, apenas faltando o combustível; • Peso de decolagem (PAD ou TOW, take-off weight): é o maior peso permi- tido para o início da corrida de decolagem; • Peso de pouso (LW): é o peso de decolagem, menos o peso do combustí- vel consumido durante o voo; • Peso máximo de pouso (MLW): é o peso máximo da aeronave no momen- to do toque; • Peso máximo de rampa: é o peso máximo para manobras no solo; • Peso máximo de táxi (MTW): é similar ao de rampa; • Peso máximo zero combustível (MZFW): é o peso máximo da aeronave, sem adição do combustível; • Carga paga (actual payload): é a carga transportada, incluindo passageiro, bagagem e/ou carga; • Carga útil: é a diferença entre o peso máximo de rampa, se aplicável, ou o peso de decolagem e o peso vazio básico; • Carga estática normal: é a soma do peso va- zio básico com o peso do combustível utilizável. Fases operacionais do voo Durante um voo, as fases operacionais serão executadas principalmente pelos controles primários. A aeronave realiza seus movimentos sobre três ei- xos, o vertical, o lateral e o longitudinal. O movimento sobre cada eixo é efetua- do por uma superfície primária específi ca, conforme a Figura 9 e o Quadro 1. TEORIA DE VOO AVANÇADO 29 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 29 03/02/21 09:19 Figura 9. Eixos da aeronave. Fonte: BIANCHINI, 2015. (Adaptado). Fonte: BIANCHINI, 2015. (Adaptado). Eixo longitudinal Eixo vertical Eixo lateral Leme Profundor Aileron Superfície de comando Movimento Eixo de rotação Tipo de estabilidade Aileron Rolagem Longitudinal Lateral Profundor Lateral Lateral Longitudinal Leme Vertical Vertical Direcional AileronAileron Profundor Aileron ProfundorProfundor LemeLeme RolagemRolagemRolagem LateralLateral VerticalVertical LongitudinalLongitudinalLongitudinal Lateral Longitudinal Lateral VerticalVertical Longitudinal Direcional QUADRO 1. EIXOS DA AERONAVE Decolagem A decolagem é a operação em que a aeronave inicia sua missão e levanta voo. A aceleração constante, com tração e potência (que deve ser máxima), é necessária para que a aeronave precise percorrer a menor distância possível antes de realizar uma decolagem em segurança. Conforme a aeronave ganha velocidade, ela obtém maior sustentação e, logo, chega na velocidade indicada para o levantamento do voo em segurança. As forças contrárias à decolagem são o arrasto aerodinâmico e o atrito dos pneus. Assim, é essencial que, ao realizar a decolagem, a aeronave esteja com TEORIA DE VOO AVANÇADO 30 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 30 03/02/21 09:19 o vento relativo vindo ao sentido da sua proa, ou seja, no sentido contrário ao que a aeronave vai manter. Isto é muito importante para que a aeronave per- corra o menor espaço possível e tenha maior sustentação ao decolar. Quanto maior a velocidade, mais a sustentação começará a atuar, aliviando o atrito do trem de pouso. As aeronaves convencionais necessitam erguer a cauda durante o procedimento de decolagem, com a fi nalidade de diminuir o atrito e o arrasto, reduzindo o ângulo de ataque. Dessa maneira, a aeronave acaba tendo uma redução de sustentação, fazendo com que decole apenas quando atinge a velocidade de segurança. Geralmente, a velocidade de decolagem corresponde a 130% da velocidade de estol. As condições ideais para a decolagem são: • Alta densidade do ar; • Pista em declive; e • Vento de proa. Tipos de voo Após a decolagem, a aeronave começará a realizar a operação de voo ascen- dente, com a fi nalidade de ganhar altitude e chegar até o voo de cruzeiro. Na su- bida, o avião possui a velocidade horizontal (Vh) e a razão de subida (R/S), que são as principais componentes de velocidade nesta fase. A R/S é medida em pés por minuto (fpm), na maioria dos aviões, e geralmente em metros por segundo (m/s), nos planadores. Essa não é uma regra geral, contudo, mas essas médias estão disponíveis no painel da aeronave, demonstradas no variômetro (climb). O ângulo formado entre a trajetória ascendente e a linha do horizonte do avião é conhecido comoângulo de subida. Este ângulo depende da diferença entre a tração e o peso da aeronave, pois quanto mais leve a aeronave, maior será o ângulo. Para aumentar o ângulo, o piloto deve recolher o trem (se o mo- delo de avião permitir) e retirar o fl ap após a altitude de segurança. Voos muito rápidos ou muito lentos têm como resultado um ângulo de su- bida reduzido. Há dois tipos distintos de subida, que se dá principalmente pela diferença das velocidades para o voo ascendente, sendo elas: • A velocidade de máximo ângulo de subida (ou Vx), que é utilizada para ultrapassar obstáculos. O avião sobe no maior ângulo possível, utilizando po- tência elevada; e TEORIA DE VOO AVANÇADO 31 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 31 03/02/21 09:19 • A velocidade de máxima razão de subida (ou Vy), que permite atingir uma altura maior, no menor tempo possível. À medida que o avião vai ganhando uma altitude maior, a densidade do ar tende a reduzir, diminuindo a potência do motor e, ao mesmo tempo, se o avião continuar mantendo esta atitude, ele necessitará de uma potência maior, para continuar subindo. Toda subida é realizada com a utilização de um excesso de potência, sendo que a altitude elevada faz com que a potência necessária au- mente e a potência disponível reduza (Figura 10). Figura 10. Teto para potência disponível. Fonte: HOMA, 2011. (Adaptado). Início da subida R/S 2000 ft/min R/S 1500 ft/min R/S 1000 ft/min R/S 500 ft/min R/S 100 ft/min R/S Zero 50 00 ft 10 .0 00 ft 15 .0 00 ft R/ S m áx im a = 10 0 ft/ m in o u 0, 51 m /s p or co nv en çã o Te to p rá tic o ou te to d e se rv iço Te to a bs ol ut o R/ S m áx im a ig ua l a ze ro Assim, para o ângulo de subida, as características que tornam esta modali- dade de subida são: baixo peso; alta densidade do ar; alta potência disponível; e área da asa maior. Para o voo com razão de subida maior, por outro lado, com a fi nalidade de ganhar altura mais rápido, as características são: baixo peso; alta densidade do ar; alta potência disponível; e área de asa menor. Diferente do voo ascendente, no voo horizontal (conhecido também como voo de cruzeiro) a sustentação tende a ser igual ao peso e a tração tende a ser igual ao arrasto, em condições de velocidade constante. Se for aplicada muita tração e o ângulo de ataque começar a aumentar, o avião logo começará a TEORIA DE VOO AVANÇADO 32 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 32 03/02/21 09:19 subir. Se a velocidade for demasiadamente reduzida e o ângulo de ataque au- mentado, o avião entra em estol, atingindo o ângulo de ataque crítico. Dessa maneira, ao aumentar-se a tração, deve-se então reduzir o ângulo de ataque, assim como o contrário deve ser feito, se a velocidade diminuir. O voo em rota se dá quando o avião atinge a altitude desejada para realizar a rota, ou seja, está na altitude para nivelar. Dentro do voo horizontal, o avião também terá uma velocidade necessária para que se mantenha nivelado, que será menor do que a exigida no voo ascendente, logo, terá uma potência dis- ponível maior. Desse modo, podemos elencar cinco tipos de velocidades do voo horizontal, sendo as três primeiras determinadas pelas características do avião, sem depender da hélice ou do motor. São eles: • A velocidade de máximo alcance, que estipula a maior distância em rela- ção ao consumo de combustível; • A velocidade de máxima autonomia, que permite voar o máximo de tempo possível; • A velocidade de estol, que é a ¬menor velocidade possível em voo horizontal; • A velocidade máxima, que é a maior velocidade possível em voo horizontal; e • A velocidade mínima, que é a menor velocidade possível para voar em velocidade constante. Em um voo em curva, o peso do avião é puxado para baixo, devido à gra- vidade, e a sustentação sofre uma força que puxa a aeronave para dentro da curva, empurrando o avião para cima. Assim, o peso (W) é produzido pela gra- vidade e a sustentação (L) é uma força inclinada produzida pela asa. Sendo a força de sustentação em uma curva maior que o peso do avião, ocorre o fenômeno da força centrípeta, que atua de maneira horizontal e puxa a aero- nave para dentro da curva. Aviões de um mesmo modelo, mesmo com diferentes pesos, terão a mesma inclinação durante a curva, pois o peso não influencia no ângulo de inclinação das asas. A única diferença é que o avião mais pesado deverá dar mais potência e maior ângulo de ataque. Desse modo, quando a asa estiver inclinada em 60 graus, a sustentação tem que apresentar o dobro do peso. Dentro da curva, o avião pode atingir um raio limite, que depende da potên- cia disponível do avião e a altitude na qual está voando. Em voos próximos ao mar, é possível realizar uma curva bem mais fechada do que quando se está em alta altitude, pois a densidade é maior e permite que o raio limite seja mínimo. TEORIA DE VOO AVANÇADO 33 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 33 03/02/21 09:19 Assim, devido à possibilidade de a aeronave entrar em estol em curva, a velo- cidade para “estolar” é maior do que numa operação de voo nivelado. Para entrar em curva, será necessário dar início à inclinação das asas, coman- dando o aileron e aplicando o pedal para o mesmo lado. Após entrar em curva, a asa externa ao sentido da curva terá uma sustentação ligeiramente maior do que a outra e, para corrigir, o piloto poderá reduzir o movimento, aplicando aileron ao contrário do sentido da curva. Pilotos de planador utilizam muito o voo em curva para obter maior aproveitamento das correntes térmicas que permitem ascensão. A curva coordenada é uma curva na qual se é mantida a altura, com os comandos primários bem aplicados e o avião alinhado com a trajetória deseja- da. É possível cometer dois erros durante o procedimento de curva, contudo: o piloto poderá realizar uma curva derrapada, utilizando muito o leme, sem inclinar a asa o suficiente, ou uma curva glissada, na qual há inclinação exage- rada das asas e o avião escorrega para dentro da curva. No voo planado, o ângulo de planeio é representado por Θ e é o ângulo formado pela trajetória do voo e pela linha do horizonte. Ele possui a peculia- ridade de diminuir o ângulo ao aumentar a sustentação, que também ocorre quando o coeficiente de arrasto diminui. Assim: • Θ diminui quando o CL aumenta; • Θ diminui quando o CD diminui. O peso não influencia na distância que o avião percorrerá no voo planado, a única diferença é que a aeronave mais pesada chegará mais rápido ao solo, porém percorrendo a mesma distância se mantiver o planeio ideal. Para o voo planado, existem velocidades corretas, um ângulo de ataque e decisões que o piloto deve manter durante esta modalidade, visto que podem alterar a distân- cia e aumentar a descendente do voo. Desse modo, as velocidades são: • A velocidade de melhor planeio (também conhecida como velocidade de menor ângulo de descida), que permite que o avião tenha o máximo alcance, possibilitando planar a maior distância possível; • Uma menor velocidade de planeio demonstra que, com um ângulo de ataque maior, o Θ aumenta, prejudicando o resultado do planeio e consequen- temente reduzindo a distância a ser percorrida; • Uma maior velocidade de planeio demonstra que, da mesma forma que o ângulo de planeio aumenta com o ângulo de ataque, o mesmo ocorre se o TEORIA DE VOO AVANÇADO 34 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 34 03/02/21 09:19 ângulo de ataque for menor, pois o aumento da velocidade não é benéfi co ao voo planado; • A velocidade fi nal é a velocidade máxima que o avião pode atingir quando realiza um mergulho vertical, tornando a sustentação nula e a velocidade fi nal dependendo do peso; e • A velocidade limite é a velocidade que não pode ser ultrapassada em nenhuma etapa do voo, sendo determinada pelo fabricante e dependendo de sua estrutura. Pouso Para o pouso, há duas técnicas principais: • Opouso de três pontos pode ser realizado apenas em aeronaves convencionais, quando, poucos metros antes de tocar na pista, a aeronave atinge o ângulo de ataque crítico, o trem de pouso e a bequilha tocando simultaneamente na pista de pouso; e • O pouso de pista pode ser realizado tanto por convencional quanto por triciclo, sendo um pouso mais suave que o de três pontos. Ele é feito tocando pri- meiro o trem de pouso principal e, gradualmente, a bequilha ou o trem de nariz, conforme o modelo da aeronave. Durante o pouso, para aeronaves convencionais, alguns problemas podem ocorrer, como a pilonagem e o cavalo de pau. Isso ocorre porque o centro de gravidade está atrás do trem principal e, se não for bem comandado, a aeronave tende a erguer a cauda e a hélice tocar o solo. As condições ideais para pouso, assim, são uma alta densidade do ar, uma pista em aclive e o vento de proa. Parafuso O parafuso é uma manobra que pode ser provocada para efeito de trei- namento ou pode ocorrer de forma acidental. O parafuso é o momento em que uma aeronave “estola” e acaba perdendo a sustentação, sofrendo uma leve derrapada para algum lado e caindo no seu eixo vertical, realizando uma rotação semelhante a um parafuso, em espiral. No curso prático de avião e pla- nador, o aluno é submetido a parafusos, para identifi car quando poderá entrar em um e o que deve ser feito para sair desta situação. TEORIA DE VOO AVANÇADO 35 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 35 03/02/21 09:19 Para iniciar um parafuso comandado, o piloto deverá “cabrar” a aeronave, até ela chegar próximo ao ângulo crítico e atingir o pré-estol. Depois, ele deverá provocar uma leve derrapagem, aplicando uma leve pressão no pedal. Feito isso, o parafuso iniciará e a aeronave se encontrará em velocidade de perda. O parafuso acidental pode ocorrer durante uma manobra descoordena- da, na qual o piloto não percebe que elevou demais o ângulo de ataque da aeronave e a sustentação está reduzindo (pode ocorrer também devido ao tor- que do motor). É muito comum que o parafuso acidental ocorra durante uma curva, tanto nos aviões quanto, principalmente, no voo de planador, tendo em vista que o planador voa em espiral, utilizando as térmicas. Quando a aeronave entra em parafuso em curva, ela tende a realizar a descida em espiral para o lado contrário da curva inicial. Para sair desta situação, o piloto deverá aliviar o manche e acionar o pedal contrário ao giro no qual a aeronave se encontra. Depois, ele deverá “cabrar” levemente, para fi nalizar a recuperação. O parafuso chato é sempre acidental e é típico de aeronaves que possuem a cauda mais pesada, sendo um parafuso muito difícil de se recuperar, pois todos os comandos acabam se tornando inoperantes. Pode- -se descrever que a aeronave se encontra em uma au- torrotação. Para tentar sair, o piloto deve buscar, de alguma maneira, alterar o centro de gravidade da aeronave. Para realizar esta manobra, ele pode até mesmo solicitar para que os tripulantes desloquem o corpo para frente, com a fi nalidade de alterar o CG. Esforços estruturais Durante um voo, a aeronave sofre devido a esforços estruturais e a força da gravidade. Toda aeronave tem uma limitação, seja ela de velocidade, peso, resistência ou outros, determinados de fábrica. O piloto deve sempre respeitar essas limitações, para nunca ter surpresas ou passar por imprevistos que o fabricante não tenha detalhado no manual de operação da aeronave. O piloto pode passar por turbulências severas e acabar extrapolando os limites determinados pelo fabricante. Quando isso ocorre, é de extrema im- portância que, após fi nalizar o voo, seja reportado para os mecânicos e seja TEORIA DE VOO AVANÇADO 36 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 36 03/02/21 09:19 realizada uma inspeção criteriosa, para avaliar se houve algum dano e realizar a manutenção preventiva ou até mesmo a corretiva. Dentro dos principais fa- tores determinados, dois se destacam: • Fator de carga limite: é o quanto uma aeronave geralmente suporta em relação à quantidade de forças estruturais por parte da gravidade. Esforços acima da tabela pré-estipulada pelo fabricante poderão causar danos irrever- síveis à estrutura da aeronave; • Fator carga última: conforme a legislação descreve, uma aeronave deve suportar pelo menos 50% a mais do fator de carga limite, sendo essa uma mar- gem de segurança para que, se em algum momento o piloto ultrapassar este limite, ele ainda não tenha sua aeronave em pedaços em pleno voo. Fator carga Para compreendermos bem as limitações da aeronave, devemos entender que toda aeronave, ao decolar ou realizar qualquer etapa do voo, está subme- tida à força da gravidade e aos esforços de se realizar uma manobra ou mesmo de uma turbulência mais severa. Estas cargas podem ser tanto verticais, que são mais fortes e tendem a trazer maiores danos as aeronaves, quanto hori- zontais, que são mais fracas e não danifi cam a estrutura da aeronave. O fator carga pode ser observado pelo piloto no acelerômetro, caso a ae- ronave seja equipada com este computador de voo. Ele pode ser representado pela letra n e nada mais é que a relação entre a sustentação e o peso. Sendo assim, o fator de carga (Figura 11) será: Figura 11. Fator carga. Fonte: HOMA, 2011. (Adaptado). Maior que 1 Menor que 1 Igual a zero Trajetória parabólicaMenor que zero (negativo) Igual a 1 TEORIA DE VOO AVANÇADO 37 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 37 03/02/21 09:19 • Maior que 1 G: quando o piloto realiza uma leve subida, “cabrando” a aeronave; • Igual a 1 G: em voos nivelados; • Menor que 1 G: quando o piloto realiza uma leve descida, “picando” a aeronave; • Igual a zero: quando o avião realiza uma trajetória parabólica, dando aos passageiros a sensação de gravidade zero; • Menor que zero (negativo): quando o piloto realiza uma descida brusca, “picando” a aeronave demasiadamente. CURIOSIDADE O avião que faz treinamento para astronautas utiliza a manobra de voo parabólico, em que a trajetória de voo se assemelha ao desenho de uma parabólica invertida, dando a sensação de gravidade zero. A maioria dos aviões acrobáticos tem um limite em torno de +6 G a -3 G de fator carga. Esta é a média de força da gravidade que uma pessoa conse- gue aguentar, embora existam pessoas e aeronaves que suportam até mais. Além disso, os principais fatores que fazem com que a aeronave tenha um fator carga elevado estão relacionados principalmente aos voos em curva, às manobras acentuadas, à recuperação de mergulho e às rajadas de vento. Sendo assim: • O fator carga nas rajadas ocorre quando há turbulência no ar, devendo o piloto reduzir e manter a velocidade para ar turbulento, descrito no manual ou arco verde; • O fator de carga nas recuperações dita que, quando uma aeronave se encontra em um mergulho, ela tem uma velocidade elevada, fazendo com que, para realizar a recuperação, o avião requeira um grande esforço para quebrar a inércia; • O estol de velocidade ocorre quando a aeronave tem o ângulo de ata- que bruscamente aumentado, tendendo a “estolar”. Se ela se encontra em uma manobra, a velocidade de estol será o valor dela multiplicado pelo fator carga. Para recuperar, o piloto deve aliviar o manche, “picando” levemente a aeronave, e depois realizando a recuperação. Vale apontar também que, em aeronaves com cauda em “T”, o profundor se torna inoperante ao se entrar em estol de velocidade. TEORIA DE VOO AVANÇADO 38 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 38 03/02/21 09:19 Tipos de estabilidade Cada aeronave tem uma peculiaridade em relação à resposta aos comandos de voo. Assim, para retornar à posição de equilí- brio após alguma manobra, a aeronave pode responder mais rápido ou agir de maneira dife- rente, devido à parte estrutural. Todos os detalhes dependem das especificações determinadas pelo fabricante e a denominação para qual a aeronaveserá utilizada. A estabilidade e os tipos de equilíbrio de uma aeronave são estabelecidos de três maneiras, determinadas pela maneira em que o avião tende a se comportar depois de se afastar do equilíbrio inicial, bem como o modo como ele reage. O equilíbrio ainda está presente com base nos eixos da aeronave, podendo afetar a estabilidade, que pode ser estática ou dinâmica. Assim: • Na estabilidade estável, há a tendência de permanecer em equilíbrio; • Na estabilidade instável, há a tendência de se afastar do equilíbrio; e • Na estabilidade indiferente (ou neutra), não há tendências. A estabilidade longitudinal ocorre no eixo lateral e pode ser facilmente al- terada por uma rajada de vento. A aeronave tenderá a sair do equilíbrio inicial e cada avião terá uma reação diferente. Com equilíbrio sendo facilmente altera- do, a perda de estabilidade longitudinal se torna uma das mais perigosas para a aviação. A posição do centro de gravidade é um dos principais fatores para alterar a estabilidade longitudinal e o ponto neutro, que é um ponto localizado entre o centro de pressão da asa e do estabilizador. O tipo de perfi l de um aerofólio também pode infl uenciar o modo como a aeronave irá se comportar e como terá seu equilíbrio alterado. Mesmo uma aeronave tendo um equilíbrio estável, ela ainda terá um resultado diferente no momento de retornar de uma alteração inicial. É evidente que a aeronave deve ter manobrabilidade e estabilidade, devendo ser estável, para que seja facilmente controlada. Assim, pode-se apontar três tipos diferentes de estabi- lidade dinâmica (Figura 12), sendo todas estaticamente estáveis. TEORIA DE VOO AVANÇADO 39 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 39 03/02/21 09:19 Figura 12. Equilíbrio longitudinal. Fonte: HOMA, 2011. (Adaptado). Es ta tic am en te in stá ve l Estatica mente indiferente Dinam icam ente instá vel Dinamicamente indiferente Estaticamente estáveis Dinamicamente estável A estabilidade lateral é observada no eixo longitudinal e pode ocorrer, prin- cipalmente, por rajadas de vento na horizontal. Seu comportamento em relação ao equilíbrio (Figura 13) se mantém igual ao visto na estabilidade longitudinal, mas a lateral tem uma influência menor, ocorrendo devido a cinco principais fatores: Figura 13. Equilíbrio lateral. Fonte: HOMA, 2011. (Adaptado). Posição inicial em desequilíbrio Estaticamente estável Estaticamente indiferente Estaticamente instável TEORIA DE VOO AVANÇADO 40 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 40 03/02/21 09:19 • O diedro é o ângulo formado entre o eixo lateral e o plano de asa. O efei- to ocorre porque a sustentação inclinada provoca uma glissada na direção da asa, que se encontra mais baixa. O diedro pode ser positivo (equilíbrio estável), nulo (sem tendência) ou negativo (instável); • O enflechamento atua principalmente quando o piloto tem que realizar a manobra de glissar ou derrapagem, o vento relativo permitindo maior susten- tação na extensão da asa. Ele pode ser positivo (equilíbrio estável), nulo (sem tendência) ou negativo (instável); • O efeito de quilha tem o equilíbrio alterado ao receber um vento lateral; • O efeito de fuselagem é um aumento de pressão próximo à raiz das asas, com a diferença de pressão em cada asa diminuindo o efeito de diedro; e • A distribuição de peso, que também afeta a estabilidade lateral. A estabilidade direcional ocorre no eixo vertical, quando o nariz é desviado para fora do equilíbrio inicial (Figura 14). Assim, ele pode ser estaticamente estável, quando a aeronave tende a retor- nar ao equilíbrio inicial; indiferente, quando não há ten- dências; ou instável, tendendo a ficar mais instável. Dois fatores principais ocasionam na estabilidade direcional, se tornando incômodas para a pilotagem: o enflechamento e o efeito de quilha. Figura 14. Equilíbrio direcional. Fonte: HOMA, 2011. (Adaptado). Estaticamente estável Estaticamente indiferente Estaticamente instável TEORIA DE VOO AVANÇADO 41 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 41 03/02/21 09:19 Sintetizando Começamos aqui uma exploração da aerodinâmica e do quanto ela está presente na aviação. É evidente que, dentro da operação aeronáutica, a condi- ção que faz com que a aeronave se mantenha em voo é a diferença de pressão. Assim, o estudo dos fenômenos da Física é essencial para compreendermos as resultantes da força aerodinâmica, que atuam em aeronaves tanto de baixa quanto de alta performance. Como vimos, uma asa de aeronave deve ser uma superfície que apresenta determinados formatos aerodinâmicos, para que o escoamento do ar ocorra de maneira positiva e forneça um resultado satisfatório ao voo. Um planador, por exemplo, desfruta de grandes áreas de asa para conseguir realizar o voo planado e ganhar ascensão sobre as correntes térmicas. Para o ganho de velocidade e a realização do deslocamento durante o voo planado, utiliza-se a troca de energia, alterando a altitude do planador e adqui- rindo maior sustentação. Em contrapartida, para aeronaves de pequeno porte, o grupo motopropulsor é quem fornece a tração, para que se torne possível a realização do voo e, consequentemente, das manobras. As forças atuantes em voo, como o equilíbrio, as estabilidades, o peso e o balanceamento, mostram o quão crucial é para o piloto apresentar domínio sobre as limitações das aeronaves e como elas podem se comportar durante o voo. Desse modo, o estudo que desempenhamos será de extrema relevância para auxiliar nos primeiros voos práticos, bem como na assimilação das próxi- mas unidades. TEORIA DE VOO AVANÇADO 42 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 42 03/02/21 09:19 Referências bibliográficas 4K Footage | SpaceX Launches. Publicado por SpaceX. (2min. 6s.) son. color. Disponível em: . Acesso em: 17 jun. 2020. BIANCHINI, D. Teoria de voo: aviões. 5. ed. São Paulo: Bianch, 2015. FAA - FEDERAL AVIATION ADMINISTRATION. Glyder flying handbook. US De- partment of Transportation. Oklahoma: Flight Standards Service, 2013. Dis- ponível em: . Acesso em: 17 jun. 2020. HOMA, J. M. Aerodinâmica e teoria de voo. 30. ed. São Paulo: ASA, 2011. NASA - NATIONAL AERONAUTICS AND SPACE ADMINISTRATION. What is aero- dynamics? Disponível em: . Acesso em: 13 fev. 2020. TALAY, T. A. Introduction to the Aerodynamics of Flight. Washington, DC: Langley Research Center. NASA History Division, 1975. Disponível em: . Acesso em: 17 jun. 2020. SAINTIVE, N. S. Teoria de voo: introdução à Aerodinâmica. 7. ed. São Paulo: ASA, 2015. TEORIA DE VOO AVANÇADO 43 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 43 03/02/21 09:19 CONCEITOS BÁSICOS DA TEORIA DE ALTA VELOCIDADE E OS EFEITOS EM VOO 2 UNIDADE SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 44 03/02/21 09:20 Objetivos da unidade Abordar os efeitos da compressibilidade do ar; Conceituar Número Mach; Discorrer acerca das velocidades limitantes de voo; Explicar a movimentação do Centro de Pressão (CP); Conceituar ram rise e seus efeitos; Apontar como os efeitos aeroelásticos influenciam os voos em alta velocidade; Relacionar a alta velocidade com o consumo de combustível; Demonstrar as consequências do enflechamento nos voos transônicos e supersônicos; Discorrer acerca de superfícies e processos empregados para atenuar os efeitos da alta velocidade. Tópicos de estudo Teoria de alta velocidade Compressibilidade do ar Número Mach VMO e MMO Efeitos adversos da alta velocidade Variação da posição do Centro de Pressão (CP) Efeitos aeroelásticos Ram rise Consumo de combustível Controlabilidade do voo transônico Enflechamento Aerofólios e demais superfíciespiloto os aplique. Assim, a constante análi- se de dados de voo faz com que os computadores realizem essas correções de maneira mais adequada que os pilotos. Caso você esteja voando com o yaw damper inoperante e se depare com uma situação de dutch roll, a técnica mais recomendada é auxiliar o nivelamen- TEORIA DE VOO AVANÇADO 120 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 120 03/02/21 09:21 to das asas apenas com o uso dos ailerons, e não dos pedais. Outra técnica seria simplesmente soltar os comandos da aeronave e esperar que a estabili- dade lateral aos poucos fosse atuando, uma vez que, após algumas oscilações, a aeronave tende a estabilizar. Acidente em decorrência de dutch roll Em outubro de 1959, em um Boeing 707 no voo de entrega da aeronave, a tripulação (que estava em treinamento) decidiu desligar o yaw dumper para fa- miliarização com a aeronave e para treinar algumas das técnicas de pilotagem. Quando o avião entrou em um dutch roll, o piloto em comando tentou corrigi-lo aplicando os pedais. Porém, quanto mais ele aplicava os pedais, mais as osci- lações pioravam. As forças G foram de tal magnitude que três dos quatro mo- tores do Boeing 707 foram arrancados, e a aeronave teve de realizar um pouso de emergência em um rio próximo à cidade de Seattle. Infelizmente, quatro dos oitos tripulantes morreram nesse dia. TEORIA DE VOO AVANÇADO 121 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 121 03/02/21 09:21 Sintetizando Nesta unidade, abordamos a formação das ondas de choque e os efeitos adversos que elas produzem na aeronave e seus aerofólios. Inicialmente, nos debruçamos sobre a diferença básica entre um objeto se mover em regimes subsônicos e supersônicos. Quando voando com velocidades iguais ou abaixo das velocidades dos impulsos de pressão, a aeronave experimenta poucos efei- tos referentes à compressibilidade do ar, tanto que tratamos as massas de ar como incompressíveis em baixas velocidades. Quando um ponto do aerofólio atinge velocidade local (ou Mach local - ML) igual a 1.0, têm-se os primeiros indícios de formação de onda de choque. A esta velocidade chamamos de mach crítico, e é a partir daqui que os efeitos de com- pressibilidade começam a se manifestar. Importante lembrar que, ao atingir o mach crítico, a aeronave em si ainda não atingiu mach 1.0 por completo. Vimos que existem três tipos de onda: choque normal, choque oblíqua e onda de expansão. Cada uma destas ondas modifica o fluxo de ar à sua manei- ra, e entendê-las foi essencial para o desenvolvimento de aeronaves cada vez mais velozes e eficientes. Após discutidas as ondas de choque, buscamos nos aprofundar nos tipos de problemas advindos de seu aparecimento. Ademais, iniciamos os estudos referentes ao estol de mach, cujas consequências se as- semelham muito ao estol de baixa velocidade. Passamos para o deslocamento do centro de pressão e, para melhor en- tendimento, voltamos à teoria de voo de baixa velocidade para compreender como as mudanças no ângulo de ataque modificam o centro de pressão. À medida que aumentamos as velocidades, percebemos que as ondas de choque também têm a capacidade de alterar as pressões atuantes em um aerofólio. Finalizamos esta unidade discorrendo brevemente acerca de alguns dos mais comuns efeitos adversos das ondas de choque, como: redução do down- wash, tuck under, rollof e dutch roll. Mais do que apenas comentar a respeito de- les, demos algumas dicas de como se comportar ao enfrentar tais tendências, ou, pelo menos, entender o que levou àquela condição. Termino esta unidade com um conselho: a bibliografia em português acerca destes temas é muito pequena. Não se contentem com conteúdos da literatura nacional, procurem em livros e sites de língua inglesa para melhor entendimen- TEORIA DE VOO AVANÇADO 122 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 122 03/02/21 09:21 to destes assuntos. O que vimos aqui é apenas um resumo deste conteúdo tão vasto que é a aerodinâmica de alta velocidade. Espero que esta matéria tenha despertado seu interesse, e que você continue os estudos com afinco. Grande abraço. TEORIA DE VOO AVANÇADO 123 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 123 03/02/21 09:21 Referências bibliográficas ANDERSON, J. Fundamentals of aerodynamics. 6. ed. [s.l.]: McGraw-Hill, 2017. ATPL Training / Principles of Flight #62 High Speed Flight - Shockwaves. Postado por Aviation Training Network. (11min. 36s.). son. color. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=l8pciZopxDE>. Acesso em: 19 ago. de 2020. BIANCHINI, D. Teoria de voo - aviões. 5. ed. São Paulo: Bianchi, 2015. EFEITO Coanda: do café ao avião - BugCast #7 | BláBláLogia. Postado por BláBláLogia. (03min. 53s.). son. color. port. Disponível em: <https://www.youtu- be.com/watch?v=GG9RmyHr8Rg>. Acesso em: 01 set. 2020. Federal Aviation Administration - FAA. Transport airplane: airplane life cycle - accident overview. [s.d.] Disponível em: <https://lessonslearned.faa.gov/ll_ main.cfm?TabID=2&LLID=39&LLTypeID=2>. Acesso em: 20 ago. de 2020. HOMA, J. M. Aerodinâmica e teoria de voo. 30. ed. São Paulo: ASA, 2011. JUNIOR HURT, H. H. Aerodynamics for naval aviators. [s.l.]: United States Navy, 1965. NASA. Center of Pressure – CP. [s.d.] Disponível em: <https://www.grc.nasa. gov/WWW/K-12/airplane/cp.html>. Acesso em: 19 ago. 2020. SAINTIVE, N. S. Aerodinâmica de alta velocidade. 10. ed. São Paulo: Editora Asa, 2011. SAINTIVE, N. S. Performance de aviões a jato – peso e balanceamento. 12. ed. São Paulo: Editora Asa, 2014. TEORIA DE VOO AVANÇADO 124 SER_CA_TEVOAVA_UNIDCompleto.indd 124 03/02/21 09:21