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LOGÍSTICA REVERSA Ligia Maria Fonseca Affonso Sustentabilidade na logística reversa Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Descrever sustentabilidade empresarial. � Definir triple bottom line. � Explicar como a logística reversa pode contribuir com a sustentabi- lidade empresarial. Introdução A evolução tecnológica trouxe consigo implicações que afetaram e conti- nuam afetando tanto as nossas relações sociais quanto a forma como nos relacionamos com o meio ambiente. Nesse cenário, o aumento popula- cional e a rapidez com que bens duráveis são descartados destacam-se como causadores diretos de uma crescente preocupação ambiental que paira sobre as diversas esferas da sociedade e acaba por alterar a dinâmica das ações dos setores empresariais. Frente a cidadãos cada vez mais conscientes, preocupados e ativos, políticas públicas em favor da responsabilidade ambiental e demandas de um mercado alinhado a propostas sustentáveis, torna-se imperativo às empresas contemplar, quando da sua atuação, aspectos não apenas econômicos, mas também sociais e ambientais. Neste capítulo, você vai ler sobre sustentabilidade empresarial, co- nhecer o triple bottom line (TBL) e a sua pertinência no cenário atual das relações das empresas, além de ser apresentado à contribuição fornecida pela logística reversa à sustentabilidade empresarial. Mobile User 1 Sustentabilidade empresarial Em um mercado altamente competitivo, as empresas necessitam buscar a todo momento meios de manterem-se competitivas a fim de preservar sua sobrevivência. Além da concorrência, elas têm outro desafio: atender às neces- sidades dos consumidores, que, cada vez mais conscientes e exigentes, além de se preocuparem com sua saúde e qualidade de vida, estão atentos também aos aspectos sociais e ambientais. Isso significa que as pessoas passaram a dar maior importância tanto a seus hábitos de consumo quanto a questões relativas à procedência dos produtos e serviços que consomem, buscando informações sobre o modo de extração da matéria-prima utilizada em sua produção; o impacto do processo produtivo no meio ambiente; o envolvi- mento dessas atividades com trabalho infantil, trabalho escravo; a prática da logística reversa pela empresa; a reutilização de seus resíduos em novos ciclos produtivos; e a correta destinação a seus rejeitos (aquilo que não tem como ser reaproveitado). Essas atitudes incluem também a reflexão sobre os impactos positivos e negativos que o consumo exerce não somente na sua própria vida, mas também na vida de outras pessoas, o que demonstra que a preocupação dos consumidores ultrapassa os limites da produção, abrangendo aspectos econômicos, sociais e ambientais. A conscientização da sociedade, de modo geral, exerce pressão sobre as empresas, levando-as a adequar seus processos produtivos e administrativos para atender às necessidades de consumo e respeitar as novas exigências do consumidor. Isso inclui uma nova atitude das empresas em relação ao meio ambiente e à sociedade, de modo que deixem de ser um problema e façam parte das soluções. Essa pressão sobre as empresas é reforçada pelo mercado e pelo governo, que, como se pode observar na Figura 1, influenciam o modo como elas lidam com questões sociais e ambientais. Sustentabilidade na logística reversa2 Mobile User Figura 1. Forças que influenciam as empresas em relação aos aspectos sociais e ambientais. Fonte: Adaptada de Braungart e McDonough (2013). Meio ambiente Governos Sociedade Mercado Empresas O mercado pressiona as empresas a considerarem as questões ambientais e sociais em suas estratégias de negócios e adequarem seus processos de forma sustentável. Ou seja, com o mercado altamente competitivo, quem não se adequar às exigências para um desenvolvimento sustentável vai ficando para trás e tem sua sobrevivência comprometida. As empresas sustentáveis, por sua vez, têm maior vantagem competitiva em um cenário de competição acirrada, melhoram sua imagem, transmitem confiança, atraem investidores (que não querem investir em empresas com passivo ambiental, em razão do não cumprimento das leis ambientais), têm maiores chances de obter crédito (uma vez centenas de instituições financeiras possuem critérios ambientais para conceder créditos), não representam uma ameaça às seguradoras (que pressionam as empresas a melhorarem seu desempenho ambiental porque os sinistros ambientais podem tomar proporções consideráveis), firmam parce- rias (com empresas globais ou locais, que somam suas forças, sua expertise, seus conhecimento e suas tecnologias para ampliar seu mercado de atuação ou conquistar novos mercados) e agradam aos consumidores (conquistando novos e mantendo os clientes de sua cartela fidelizados), estando, assim, à frente de empresas cujo comprometimento com questões sociais e ambientais são menores (BRAUNGART; MCDONOUGH, 2013). 3Sustentabilidade na logística reversa Mobile User Passivo ambiental diz respeito a todos os tipos de impacto causado ao meio ambiente por determinado negócio e que não foi recuperado. O governo pressiona as empresas criando e aprovando leis de forma mais intensa e com maior frequência, o que demonstra sua preocupação com essas questões, ou seja, são questões que entraram definitivamente para a agenda política do governo, influenciado pelos diversos segmentos da sociedade. São essas pressões da sociedade, do mercado e do governo que impulsionam cada vez mais empresas a se envolverem com as questões ambientais e sociais (BARBIERE, 2016). Você deve estar se perguntando por que estamos falando em mercado competitivo, legislações, consumidores, questões ambientais e sociais, se nosso assunto aqui é sustentabilidade empresarial. Ora, porque esses são aspectos que fazem parte do contexto das empresas e da sustentabilidade. A sustenta- bilidade vem sendo discutida há muitos anos, e sua preocupação é equilibrar aspectos econômicos, sociais e ambientais de forma que, combinados, possam contribuir para um futuro mais saudável e promissor, em que a humanidade e o meio ambiente possam conviver em harmonia. As discussões sobre a sustentabilidade empresarial surgiram a partir da conclusão de um estudo realizado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) em 1972. Solicitado pelo Clube de Roma, o relatório Os Limites do Crescimento mostrou que, mesmo considerando-se os avanços tecnológicos, o crescimento populacional, em um ritmo estimado pelos pesquisadores, levaria ao aumento da utilização de recursos naturais e energia, aumentando a poluição. O que se previa era a escassez dos recursos naturais e o consequente risco à vida humana e aos negócios (SILVEIRA, 2017). O Clube de Roma é uma organização independente e sem fins lucrativos dedicada à realização de estudos, pesquisas e debates sobre os desafios mundiais e seus fatores causais. Dentre os seus temas de trabalho, destacam-se a sustentabilidade ambiental, o crescimento econômico e o consumo de recursos (CLUBE DE ROMA, 2015 apud SILVEIRA, 2017). Sustentabilidade na logística reversa4 Mobile User Quase 50 anos após esse estudo, podemos perceber que as previsões se confirmaram. Vivenciamos atualmente os impactos que a produção indus- trial e o crescimento econômico vêm gerando no ambiente e na vida hu- mana: o crescente aumento da poluição e o acúmulo de resíduos, o consumo desenfreado de recursos naturais, a extinção dos ecossistemas terrestres, a destruição da biodiversidade, o efeito estufa, o aquecimento global — todos com seus desdobramentos que afetam também a nossa saúde e a nossa qualidade de vida. Em 1987, teve início a criação de um novo conceito de sustentabilidade. Mais consistente, ele começou a despertar o interesse de grandes empresas de vários países, inclusive do Brasil, que se comprometeram a adotar práti- cas sustentáveis, iniciando-se, assim, a sustentabilidade empresarial, isto é, as empresascomeçaram a se movimentar no sentido de manter sua compe- titividade e sua lucratividade ao longo do tempo, oferecendo produtos e/ou serviços de qualidade, praticando os preços de mercado e remunerando bem seus stakeholders (BIELSCHOWSHY, 2009). Stakeholders são todas as partes interessadas de uma empresa que são afetadas de algum modo por seus resultados e suas decisões, como clientes, funcionários, acionistas, proprietários, fornecedores, comunidades, governos, etc. (INSTITUTO ETHOS, 2013). A sustentabilidade empresarial é um modelo de negócio que visa a equilibrar o crescimento econômico, a conservação do meio ambiente e o desenvolvimento social de modo a alcançar o desenvolvimento sustentável, considerado como o meio para atingir-se a sustentabilidade. No entanto, ela valoriza também aspectos como o bem-estar de seus funcionários, a ética nas relações, a trans- parência, a governança corporativa, a escolha de fornecedores e distribuidores comprometidos com a sustentabilidade, etc., todos elementos importantes em uma empresa sustentável. Dessa forma, para ser sustentável uma empresa necessita compreender essa nova demanda da sociedade e responder a ela gerando valor agregado que se transforme em benefícios tanto para seus stakeholders quanto para a comunidade e o meio ambiente, sempre pautando suas ações na ética e na transparência. 5Sustentabilidade na logística reversa Mobile User 2 Triple bottom line A sustentabilidade pode ser alcançada por meio do desenvolvimento sus- tentável, que consiste em aliar crescimento econômico, proteção ao meio ambiente e igualdade social. Foram esses aspectos que, associados à mudança do paradigma das empresas (que apenas visavam ao lucro), deram origem ao TBL, também conhecido como o tripé da sustentabilidade. Criado por John Elkington, o conceito do TBL surgiu nos anos 1990 com o objetivo de auxiliar empresas do ramo de petróleo e gás a unirem os três componentes do desenvolvimento sustentável: crescer economicamente, ser socialmente justo e preservar o meio ambiente. No entanto, segundo o próprio Elkington (1999), adotar o conceito do TBL exige mudanças significativas, pois envolve alterações nos processos operacionais e comerciais da empresa, que alteram também sua participação nos mercados local e global (COTRIM; GOUVEIA; LIMA, 2006). John Elkington é sociólogo e consultor britânico, considerado uma das maiores referên- cias na área de responsabilidade corporativa sustentável (COTRIM; GOUVEIA; LIMA, 2006). Conforme Elkington (1999), nesse modelo as empresas devem: � atuar em mercados mais amplos, tanto nacionais como internacionais, atendendo às condições impostas pelos clientes e pelos mercados finan- ceiros, o que requer o comprometimento com o desempenho econômico, social e ambiental; � mudar seus valores, uma vez que o foco passa a ser não somente no produto, mas também nos aspectos sociais e ambientais; � dar transparência às suas atividades e aos impactos gerados por elas, bem como sobre seu desempenho econômico, social e ambiental; � monitorar e avaliar os impactos econômicos, sociais e ambientais gerados pelos novos processos, produtos e tecnologias; � pensar seu negócio a longo prazo, com atenção e preparo para novas situações e possibilidades futuras, considerando que a utilização ex- Sustentabilidade na logística reversa6 Mobile User cessiva dos recursos naturais e a degradação ambiental permanente podem provocar mudanças que precisam ser gerenciadas; � manter os aspectos econômicos, sociais e ambientais presentes nas discussões da diretoria, buscando continuamente o equilíbrio entre eles de modo a construir um cenário que possibilite a continuidade e a ampliação de suas atividades, no presente e no futuro; � estabelecer parcerias não apenas com outras empresas, mas com seus stakeholders — prática cada vez mais demandada e importante para determinar conjuntamente o caminho da empresa na direção da sus- tentabilidade, as parcerias são um exemplo de responsabilidade social corporativa, cujas relações devem ser pautadas no respeito e na ética. Cabe destacar que a responsabilidade social corporativa tem sido res- ponsável por determinar novas formas de as empresas se relacionarem com seus stakeholders, buscando maior qualidade na relação empresa-sociedade. Tais questões vêm impondo mudanças nas dinâmicas de mercado e no meio ambiente. Dessa forma, podemos entender que o termo TBL é utilizado para expressar um conjunto de valores, objetivos e processos de uma empresa cuja finalidade é criar valor econômico, social e ambiental, reduzindo os danos causados por suas atividades. Assim, o TBL representa a união dos aspectos econômicos, sociais e ambientais como base para o desenvolvimento sustentável, que devem interagir de forma abrangente para que a sustentabilidade se sustente. A imagem do tripé representa perfeitamente a sustentabilidade, como é possível ver na Figura 2. Figura 2. Tripé da sustentabilidade. Fonte: Berlato, Saussen e Gomez (2016). SOCIAL AMBIENTAL ECONÔMICA SUSTENTABILIDADE 7Sustentabilidade na logística reversa Mobile User Por meio do gerenciamento de seu desempenho e dos impactos econômicos, ambientais e sociais, as empresas podem ampliar seu valor junto ao mercado e a seus stakeholders a curto e longo prazo, criar oportunidades e reduzir seus riscos. Veja na Figura 3 o equilíbrio entre as três dimensões. Figura 3. Triple bottom line. Fonte: Adaptada de IPIECA (2020). ECONÔMICA SOCIAL AMBIENTAL ECO- EFICIÊNCIA SOCIO- ECONÔ- MICO SOCIO- AMBIENTAL A dimensão econômica na empresa prevê o lucro, os rendimentos, as movimentações financeiras e o retorno aos acionistas. A dimensão socioe- conômica prevê a criação de empregos, o aperfeiçoamento de habilidades, os impactos econômicos locais, os investimentos sociais, a ética nos negócios e a responsabilidade com impostos e taxas. A dimensão de ecoeficiência prevê a eficiência de recursos, o cuidado com o produto e a análise do seu ciclo de vida. A dimensão social prevê a diversidade na empresa, a satisfação do empregado, o respeito aos direitos humanos, os padrões de trabalho, a relação mais próxima e o diálogo com a comunidade. A dimensão socioambiental prevê a segurança e a saúde, a avaliação do impacto ambiental local, a aten- ção à mudança de clima global e o gerenciamento adequado de recursos. A dimensão ambiental prevê a minimização das perdas em todos os processos da empresa, a redução de emissões de gases poluentes, a flexibilidade nas regulamentações, o cuidado com a biodiversidade e a prevenção de acidentes. Sustentabilidade na logística reversa8 Mobile User Vamos entender melhor cada um desses aspectos? Quando falamos em aspectos sociais, estamos nos referindo ao olhar que a empresa deve ter sobre as pessoas, não só as que nela trabalham, mas também as da comunidade onde ela está inserida, bem como as da(s) comunidade(s) de onde retira os recursos naturais para sua produção — e as da sociedade de modo geral. Assim, além de prover salários justos e estar adequada à legislação trabalhista, é neces- sário à empresa promover o bem-estar dos funcionários mediante a criação de um ambiente saudável e agradável para se trabalhar, pensando na saúde deles e de sua família. A empresa também deve estar atenta ao modo como suas atividades afetam as comunidades ao seu entorno, incluindo a promoção de projetos sociais que envolvam educação, lazer, problemas de violência e outros temas necessários que permitam reduzir a situação de vulnerabilidade presente no local, solucionar problemas, etc. O aspecto ambiental refere-se ao meio natural e ao impacto negativo sobre ele, que todas as empresas causam tanto ao extrair a matéria-prima em sua produção, como a emissão de gases CO2, quanto durante o descarte dos resíduos. Nesse sentido, as empresas devem buscar meios de minimizar esses impactos, não somente alterando os métodos de produção e adotando novas tecnologias,mas também diminuindo ao máximo a utilização de matéria-prima ou substituindo os componentes que formam o produto e repondo ao meio aquilo que elas retiram. Outro ponto importante, que é o ponto de partida para que a empresa migre para a sustentabilidade, é respeitar e atender à legislação ambiental e a outros princípios da sustentabilidade. O aspecto econômico está ligado à forma de produção, distribuição e con- sumo de bens e serviços, considerando-se sempre os dois aspectos anteriores. As empresas necessitam do lucro, de rendimentos, precisam dar retorno a seus acionistas, etc.; no entanto, devem fazer isso sem gerar impactos negativos ao ambiente e à vida humana. Em outras palavras, isso quer dizer que as empresas continuam tendo o lucro como seu objetivo principal, pois de outra forma elas não sobrevivem. Porém, ao decidir seguir o caminho para o desenvolvimento sustentável, seu sucesso passa a não ser mais condicionado a uma capacidade produtiva eficiente, mas à forma como ela exerce seu papel na sociedade, nas dimensões sociais e ambientais. Assim, esses aspectos devem fazer parte da estratégia de negócios da empresa, de forma equilibrada com os seus resultados financeiros. Cabe destacar que, em seus relatórios corporativos, as empresas passam, dessa forma, a incluir o conceito TBL, de modo que seus resultados são mensurados a partir das três dimensões: social, ambiental e econômica. 9Sustentabilidade na logística reversa Mobile User Para que as empresas alcancem o desenvolvimento sustentável, é neces- sário que satisfaçam as necessidades básicas da sociedade; se solidarizem com as próximas gerações; permitam a participação da população nas ações sociais e até mesmo ambientais implementadas na comunidade; conservem os recursos naturais e o meio ambiente; possuam um sistema de criação de empregos; colaborem com a segurança social, respeitando as diferentes cultu- ras; e implementem programas educacionais. Dessa forma, elas contemplam os três pilares da sustentabilidade, uma vez que promove o equilíbrio entre eles (SACHS, 2002). As empresas que adotam a sustentabilidade como um valor integrado à sua estratégia de negócios se diferenciam no mercado, pois ser sustentável gera vantagens competitivas significativas, como já foi comentado anteriormente: redução de custos, crescimento dos lucros a médio e longo prazo, aumento de produtividade, elevação do valor da marca, melhor imagem institucional, além de fidelizar os clientes e conquistar novos, atrair investidores e parcerias que ajudem a ampliar os negócios e sua fatia de mercado. Elas necessitam, ainda, pensar suas estratégias no curto, médio e longo prazo, acompanhando seus resultados por meio de indicadores sustentáveis, que devem fazer parte dessa nova prática empresarial (BARBIERE, 2016). Todos os aspectos comentados nas dimensões econômica, social e ambien- tal do TBL têm relação com os 17 objetivos do desenvolvimento sustentável (ODS) com 169 metas para a Agenda 2030, estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU), como é possível verificar na Figura 4. Figura 4. ODS da sustentabilidade. Fonte: ONU (s.d). Sustentabilidade na logística reversa10 Mobile User É importante destacar que o conceito do TBL pode ser adotado por qualquer empresa, independentemente de seu tamanho, em qualquer comunidade, em qualquer casa de qualquer cidadão, e em qualquer lugar do planeta. Para saber mais sobre a Agenda 2030, leia o texto “Transformando nosso mundo: a agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável”, disponível no site da ONU do Brasil. 3 Logística reversa e sua contribuição na sustentabilidade empresarial Antes de falarmos sobre a logística reversa, vamos relembrar o conceito da logística integrada? A logística integrada é considerada a logística tradicional, que inclui as atividades de movimentação e armazenamento de produtos, desde o ponto de onde se retira a matéria-prima até a chegada ao consumidor final, o que exige, como em qualquer outra área, processos de planejamento, implementação e controle tanto da sua eficiência quanto dos custos envolvidos em todas essas operações (BERTAGLIA, 2003; BALLOU, 2006). A logística reversa, em seu primeiro conceito, nos anos 1980, significava apenas o movimento dos materiais desde o consumidor até o produtor. De lá para cá, esse conceito foi sendo ampliado, e atualmente podemos entender logística reversa como uma área empresarial responsável pelas ações de pla- nejamento e controle do fluxo das operações e das informações relacionadas ao retorno dos produtos de pós-venda e pós-consumo a seu ciclo produtivo, agregando valor econômico, ambiental e social à imagem da empresa. Em outras palavras, a logística reversa apoia o ciclo de vida do produto, que é um dos objetivos da logística moderna (LEITE, 2009; BOWERSOX; CLOSS, 2009). 11Sustentabilidade na logística reversa Mobile User Veja na Figura 5 a representação da logística integrada e da logística reversa. Figura 5. Logística integrada e logística reversa. Fonte: Logística74 (2014, documento on-line). Como é possível observar, na logística integrada o fluxo acontece do fornecedor de matéria-prima à indústria, que entrega seus produtos a seus distribuidores, que os transportam até os varejistas, que, por sua vez, os vendem ao consumidor. Nesse caso, a responsabilidade da empresa termina quando o produto é entregue ao consumidor final. Na logística reversa, o produto que seria descartado pelo consumidor retorna ao varejista (pós-consumo), que o transporta até o distribuidor, que o transporta à fábrica onde foi produzido para, então, retornar ao ciclo produtivo do mesmo produto, ou em outro ciclo. Assim, a logística reversa diz respeito a todos os procedimentos relacionados à devolução de materiais que já foram utilizados no processo produtivo. Veja-se que, na logística integrada, o fluxo é de produção linear e, na logística reversa, o fluxo é circular — ou seja, os resíduos sólidos são reaproveitados em novos processos produtivos. No entanto, aqueles que não estiverem em condições para isso devem ser descartados adequadamente, evitando-se que impactos negativos sejam gerados ao meio ambiente e garantindo-se a sustentabilidade dos negócios. Sustentabilidade na logística reversa12 Mobile User O fluxo reverso de pós-consumo diz respeito ao retorno de produtos e de suas em- balagens já utilizados pelos consumidores ao ciclo produtivo, por meio de reuso, remanufatura e reciclagem (LEITE, 2009). A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída por meio da Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, possui vários objetivos. Dentre eles, destacam-se o incentivo a hábitos sustentáveis de consumo; o aumento da reciclagem e da reutilização de resíduos sólidos que tenham valor econômico e que possam realmente ser reciclados e reutilizados; a destinação correta de rejeitos, ou seja, daquilo que não pode ser reciclado ou reutilizado, por meio da logística reversa, um dos instrumentos da PNRS (BRASIL, 2010b). A logística reversa é definida na PNRS como: [...] instrumento de desenvolvimento econômico e social caracterizado por um conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação final am- bientalmente adequada (BRASIL, 2010b, documento on-line). Resíduos sólidos são todos os materiais, as substâncias, os objetos ou os bens descar- tados pelos homens que resultam de suas atividades em sociedade. Esses resíduos podem ter estado sólido ou semissólido e, ainda, possuir gases ou líquidos contidos em recipientes, que não devem ser lançados em redes de esgoto ou em outros locais inapropriados (BRASIL, 2010b). Cabe destacar que a logística reversa é regulamentada pelo Decreto nº 7.404, de 23 de dezembro de 2010, o qual preconiza que a responsabilidade compartilhada pelos resíduosgerados após o consumo dos produtos é de fa- bricantes, importadores, distribuidores, consumidores e governos, ou seja, são todos responsáveis pelos resíduos gerados após o uso dos produtos (BRASIL, 2010a). Assim, todos os produtos criados em um processo de industrialização, 13Sustentabilidade na logística reversa Mobile User aqui no Brasil, estão sujeitos aos processos de logística reversa (desde que viável, econômica e tecnologicamente possível), sobretudo pilhas e baterias; óleos lubrificantes; lâmpadas; medicamentos; agrotóxicos; eletrônicos e seus componentes; e embalagens plásticas, metálicas ou de vidro. No entanto, para que possa ser efetiva, a logística reversa deve ser estimu- lada por meio da legislação ou de programas de incentivo. Como exemplo, podemos citar a coleta seletiva, considerada uma forma de engajamento da população para a separação entre resíduos secos e úmidos, que possam ou não ser recicláveis. Mas, para que isso possa acontecer, é necessário que os governos garantam o transporte e a destinação correta dos resíduos domésticos, implementando, ainda, projetos referentes ao tratamento limpo, à gestão adequada de aterros sanitários e ao cumprimento das leis que determinam a extinção de lixões. As principais atividades realizadas na logística reversa são o retorno do produto a sua origem e sua revenda após a remanufatura, a reciclagem, a reparação ou reabilitação em mercados secundários e outlets (LEITE, 2009). Nas empresas, os sistemas de logística reversa devem ser estruturados por meio de um acordo setorial, que são os “[...] contratos firmados entre o Poder Público e os fabricantes, importadores, distribuidores ou comerciantes, visando a implantação da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida do produto” (BRASIL, 2010b, documento on-line). Esse acordo se dá porque, a fim de que a logística reversa seja viável economicamente, é necessária a colaboração de todos os agentes que atuam em determinado setor e, dessa forma, reúnem grande volume de resíduos semelhantes. Nesse sentido, são estabelecidas pelo Decreto nº 9.177, de 23 de outubro de 2017, em seu Art. 1º, normas que garantam a imparcialidade na fiscalização e no cumprimento das obrigações atribuídas aos fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes de produtos, de seus resíduos e de suas embalagens, subordinados à logística reversa obrigatória. Ou seja, independentemente de acordos setoriais ou termos de compromisso (outro instrumento da logística reversa), todos esses agentes devem adotar sistemas de logística reversa de acordo com o determinado na PNRS. Dessa forma, utilizando a logística reversa, as empresas, além de Sustentabilidade na logística reversa14 Mobile User cumprirem as leis, geram benefícios para a sociedade e, consequentemente, melhoram a sua imagem junto ao mercado (BRASIL, 2017). A logística reversa pode ser considerada a logística da sustentabilidade, uma vez que contribui para a redução dos impactos causados ao meio ambiente ao evitar que os resíduos sólidos retornem à natureza. A adoção da logística reversa nas empresas traz benefícios ambientais e econômicos. Dentre os bene- fícios ambientais, podemos destacar a redução do volume de descarte tanto de forma segura quanto de forma ilegal, a economia de energia na fabricação de novos produtos, a minimização da poluição por meio do controle dos resíduos, a melhoria da imagem corporativa e a maior consciência ambiental. Dentre os benefícios econômicos, destacam-se a criação de novos negócios na cadeia produtiva, o incremento de fluxo de caixa com a comercialização dos produtos secundários e dos resíduos, o aproveitamento dos canais de distribuição para escoar os produtos secundários nos mercados secundários e a melhoria da reputação e da imagem da empresa junto a instituições financeiras, investi- dores e consumidores, uma vez que práticas ambientalmente corretas atraem novos públicos e negócios, além de gerar vantagem competitiva (SHIBAO; MOORI; SANTOS, 2010). Você deve estar se perguntando qual é a contribuição da logística reversa para a sustentabilidade empresarial. Ora, a logística reversa possui ligação direta com a sustentabilidade empresarial, uma vez que ajuda a melhorar a imagem da empresa no mercado, isto é, uma empresa que adota o processo de logística reversa ganha credibilidade junto aos consumidores que se pre- ocupam com o meio ambiente e com aspectos sociais. Em relação ao meio ambiente, a logística reversa contribui para a sua conservação ao ajudar as empresas a reduzir a quantidade de resíduos sólidos descartados em locais inapropriados, evitando o seu direcionamento a aterros. Economicamente, ela permite às empresas reduzir custos com matéria-prima, pois os resíduos de sua produção podem ser reciclados e reutilizados em novos ciclos produtivos, e, em muitos casos, o uso de materiais reciclados na produção é mais baixo que o uso de matéria-prima virgem. A logística reversa contribui, ainda, para a sustentabilidade empresarial. Isso porque, ao ser adotada pelas empresas, ela contribui para a geração de emprego e renda, pois esse trabalho envolve a coleta seletiva dos resíduos sólidos e sua reciclagem, atividades que podem ser realizadas por cooperativas ou associações de catadores (BRASIL, 2010a). Na Figura 6, você pode observar o TBL da sustentabilidade e como a interação entre os aspectos econômicos, sociais e ambientais, no contexto da logística reversa, pode trazer resultados. 15Sustentabilidade na logística reversa Mobile User Figura 6. Tripé da sustentabilidade: econômico, social e ambiental (TBL). Fonte: Caiado et al. (2018). Ambiental Economia Social Sustentabilidade Conforme Corrêa e Xavier (2013), a interação entre as dimensões econô- mica e social privilegia a criação de emprego e renda; a interação entre as dimensões econômica e ambiental privilegia práticas economicamente viáveis e ambientalmente corretas; a interação entre as dimensões social e ambiental privilegia práticas sociais que não gerem impactos negativos ao meio ambiente; e o ponto de intersecção entre as três dimensões representa a sustentabilidade em seu sentido mais amplo. É importante destacar que a logística reversa é uma das práticas sustentáveis que, ao serem adotadas pelas empresas, podem gerar vantagem competitiva estratégica. Isso se dá, primeiramente, em razão da conscientização e da preocupação crescentes dos consumidores, sobretudo em relação aos impactos gerados pela produção, pela utilização e pelo descarte do produto no meio ambiente. Em segundo lugar, em razão da crescente atenção dos consumidores em relação aos impactos que o consumo do produto gera na sociedade. Por fim, a terceira razão é que, como já foi aqui comentado, ao utilizar materiais reciclados na produção, a empresa diminui seus custos com matérias-primas virgens, pois o material reciclado é menos oneroso (CORRÊA et al., 2013). Assim, logística reversa e a sustentabilidade devem andar juntas, como uma estratégia para se alavancar a lucratividade e ampliar o posicionamento da empresa no mercado em direção a um mundo sustentável (CORRÊA; XAVIER, 2013; PEREIRA et al., 2012). Sustentabilidade na logística reversa16 Mobile User BALLOU, R. H. Gerenciamento da cadeia de suprimentos/logística empresarial. Porto Alegre: Bookman, 2006. BERLATO, L. F.; SAUSSEN, F.; GOMEZ, L. S. R. A sustentabilidade empresarial como van- tagem competitiva em branding. DAPesquisa, v. 11, n. 15, p. 24–41, 2016. Disponível em: http://www.revistas.udesc.br/index.php/dapesquisa/article/view/6893/5254. Acesso em: 26 abr. 2020. BERTAGLIA, P. R. Logística e gerenciamento da cadeia de abastecimento. São Paulo: Sa- raiva, 2003. BIELSCHOWSKY, R. Ideologia e desenvolvimento: Brasil, 1930-1964. In: PÁDUA, J. A. (org.). Desenvolvimento, justiça e meio ambiente. Belo Horizonte: UFMG; São Paulo: Peirópolis, 2009. p. 82–123. BOWERSOX, D. J.; CLOSS, D. J. Logística empresarial:o processo de integração da cadeia de suprimento. São Paulo: Atlas, 2009. BRASIL. Decreto nº 7.404, de 23 de dezembro de 2010. Regulamenta a Lei no 12.305, de 2 de agosto de 2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos; cria o Comitê Interministerial da Política Nacional de Resíduos Sólidos; e o Comitê Orientador para a Implantação dos Sistemas de Logística Reversa, e dá outras providências. Brasília, DF, 2010a. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/ Decreto/D7404.htm. Acesso em: 26 abr. 2020. BRASIL. Decreto nº 9.177, de 23 de outubro de 2017. Regulamenta o art. 33 da Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, e com- plementa os art. 16 e art. 17 do Decreto nº 7.404, de 23 de dezembro de 2010 e dá outras providências. Brasília, DF, 2017. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Decreto/D9177.htm. Acesso em: 26 abr. 2020. BRASIL. Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010. 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