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C A R D I O L O G I A HIPERTENSÃO ARTERIAL SISTÊMICA MARÇO/2022 P R O F . P A U L O D A L T O Hipertensão Arterial Sistêmica PROF. PAULO DALTO APRESENTAÇÃO: /estrategiamedt.me/estrategiamed Estratégia MED @profpaulodalto @estrategiamed APRESENTAÇÃO DO PROFESSOR Olá, Revalidando(a), Este é um dos principais livros de cardiologia para a prova do Revalida. A partir de agora, você estudará o que é mais importante quando o assunto é hipertensão arterial. Muita atenção com o tratamento dessa doença, pois é o tema que, isoladamente, mais cai em prova. Eu sei que você pode estar com uma certa insegurança, mas fique tranquilo(a)! Você irá aprender e, digo mais, gostar desse assunto tão importante para as provas. Durante a faculdade, sempre tive medo das provas de Residência. Buscava alguém que me orientasse sobre a melhor forma de estudar e, principalmente, que me ensinasse a resolver provas e acertar questões. O primeiro e mais importante passo você já deu. É aluno do Estratégia MED. Antes de iniciarmos nosso estudo, vou me apresentar para que você conheça parte de minha história. Meu nome é Paulo, sou médico e professor de cardiologia do Estratégia MED. Sou graduado em medicina pela Faculdade de Medicina de Catanduva (FAMECA) no ano de 2012, fiz Residência de Clínica Médica na USP/RP e de cardiologia e ecocardiografia no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Possuo título de especialista em cardiologia e ecocardiografia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Por meio de muito estudo e disciplina durante a graduação, consegui ser aprovado em várias Residências Médicas como USP/RP, UNESP, FAMERP e SUS-SP. Após ter concluído os primeiros dois anos da Residência em Clínica Médica, fui buscar novos ares e me mudei para São Paulo a fim de concluir minha especialidade. Atualmente, faço parte da equipe de cardiologistas e ecocardiografistas de diversos hospitais particulares, além de trabalhar como cardiologista em clínicas privadas. Preparei este material da forma mais completa e didática possível, para que você acerte qualquer questão sobre esse tema que cair em provas. Então, vamos juntos em busca da tão sonhada classificação no Revalida?! Paulo Cesar Dalto Filho https://www.facebook.com/estrategiamed1 https://t.me/estrategiamed https://www.youtube.com/channel/UCyNuIBnEwzsgA05XK1P6Dmw https://www.instagram.com/profpaulodalto/ https://www.instagram.com/estrategiamed/ 3Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica SUMÁRIO APRESENTAÇÃO DO PROFESSOR 2 INTRODUÇÃO 6 PARTE 1: DIAGNÓSTICO, CLASSIFICAÇÃO, ESTRATIFICAÇÃO DE RISCO E TRATAMENTO 7 1.0 CONCEITUAÇÃO, EPIDEMIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA 7 2.0 DIAGNÓSTICO 10 3.0 CONCEITOS IMPORTANTES 14 4.0 CLASSIFICAÇÃO DA PRESSÃO ARTERIAL 19 5.0 AVALIAÇÃO CLÍNICA E EXAMES COMPLEMENTARES 20 5.1 ANAMNESE E EXAME FÍSICO 20 5.2 EXAMES COMPLEMENTARES 22 6.0 ESTRATIFICAÇÃO DE RISCO CARDIOVASCULAR 23 7.0 METAS TERAPÊUTICAS 29 8.0 TRATAMENTO NÃO MEDICAMENTOSO 32 9.0 TRATAMENTO MEDICAMENTOSO 34 9.1 . DIURÉTICOS 38 9.2 BLOQUEADORES DOS CANAIS DE CÁLCIO (BCC) 41 9.3 INIBIDORES DA ENZIMA CONVERSORA DE ANGIOTENSINA (IECA) E BLOQUEADORES DO RECEPTOR DA ANGIOTENSINA (BRA) 42 9.4 BETABLOQUEADORES 45 9.5 . SIMPATICOLÍTICOS DE AÇÃO CENTRAL 47 9.6 ALFABLOQUEADORES 48 9.7 VASODILATADORES DIRETOS 49 9.8 INIBIDORES DIRETOS DA RENINA 50 9.9 ASSOCIAÇÃO DE FÁRMACOS 50 4Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica 10.0 HIPERTENSÃO E CONDIÇÕES CLÍNICAS ASSOCIADAS 52 10.1 HIPERTENSÃO E DIABETES 52 10.2 HIPERTENSÃO E DOENÇA ARTERIAL CORONARIANA 52 10.3 HIPERTENSÃO E DOENÇA RENAL CRÔNICA 53 10.4 HIPERTENSÃO E INSUFICIÊNCIA CARDÍACA 53 10.5 HIPERTENSÃO EM NEGROS 56 PARTE 2: HIPERTENSÃO ARTERIAL SECUNDÁRIA 57 1.0 DEFINIÇÃO 57 2.0 QUANDO SUSPEITAR? 57 3.0 CAUSAS NÃO ENDÓCRINAS 59 3.1 DOENÇA RENAL CRÔNICA (DRC) 59 3.2 HIPERTENSÃO RENOVASCULAR 59 3.3 COARCTAÇÃO DA AORTA 62 3.4 APNEIA OBSTRUTIVA DO SONO (AOS) 63 4.0 CAUSAS ENDÓCRINAS 64 4.1 HIPERALDOSTERONISMO PRIMÁRIO (HP) 64 4.2 FEOCROMOCITOMA 65 PARTE 3: CRISES HIPERTENSIVAS 70 1.0 DEFINIÇÃO 70 2.0 CLASSIFICAÇÃO 70 2.1 PSEUDOCRISE HIPERTENSIVA 70 2.2 URGÊNCIA HIPERTENSIVA 70 2.3 EMERGÊNCIA HIPERTENSIVA 71 3.0 TRATAMENTO GERAL DA CRISE HIPERTENSIVA 73 4.0 TRATAMENTO DAS EH EM SITUAÇÕES ESPECIAIS 74 4.1 ENCEFALOPATIA HIPERTENSIVA 75 4.2 HAS ACELERADA-MALIGNA 78 5Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica 4.3 DISSECÇÃO AGUDA DE AORTA 79 4.4 EDEMA AGUDO DE PULMÃO (EAP) HIPERTENSIVO 83 4.5 USO DE DROGAS ILÍCITAS 83 5.0 LISTA DE QUESTÕES 86 6.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 87 7.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS 87 6Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica CAPÍTULO INTRODUÇÃO A hipertensão arterial sistêmica é o tema mais frequente de cardiologia nas provas do Revalida, com destaque para seu tratamento e para as crises hipertensivas. ECG Choque PCR IC tratamento IC aguda IC diagnóstico Miocardiopatias Periocardiopatias Bradiarritmias Taquiarritimias FA SCASSST IAMCSSST Crise hipertensiva HAS tratamento HAS diagnóstico Risco CV Semiologia Crise hipertensiva Valvopatias Estatística INEP + UFMT 0 1 2 3 4 5 6 7 8 Este livro está dividido em 3 módulos. O primeiro trata do diagnóstico, classificação da hipertensão, estratificação de risco e tratamento. Nos demais, estudaremos a hipertensão secundária e as crises hipertensivas. O tratamento da hipertensão arterial, sem dúvida, é o assunto mais importante de todo o livro. Portanto, dedique um carinho especial a ele, combinado? Este livro traz o que há de mais atual em relação ao tema. Tudo organizado de forma didática, com tabelas, fluxogramas, imagens e figuras. A intenção é facilitar ao máximo o aprendizado e fazer com que você entenda tudo sobre o assunto e, claro, acerte qualquer questão. Portanto, muita concentração na leitura, anote as dicas, e vamos juntos explorar esse tema tão importante para o Revalida! 7Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica PARTE 1: DIAGNÓSTICO, CLASSIFICAÇÃO, ESTRATIFICAÇÃO DE RISCO E TRATAMENTO CAPÍTULO 1.0 CONCEITUAÇÃO, EPIDEMIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é uma condição clínica multifatorial caracterizada por um aumento sustentado dos níveis pressóricos com uma pressão arterial (PA) sistólica ≥ 140 mmHg e/ou uma PA diastólica ≥ 90 mmHg. Essa doença é considerada um fator de risco importante para a ocorrência de eventos como morte súbita, acidente vascular cerebral (AVC), infarto agudo do miocárdio (IAM), insuficiência cardíaca (IC), doença arterial oclusiva periférica (DAOP) e doença renal crônica (DRC). A hipertensão arterial (HAS) essencial ou primária corresponde a, aproximadamente, 95% dos casos e possui diversas alterações fisiopatológicas envolvidas em sua gênese, que serão demonstradas na figura adiante. Já a hipertensão secundária costuma apresentar uma causa específica e será estudada no segundo módulo. A principal causa de morte no Brasil é a doença cardiovascular, responsável por cerca de 30% dos óbitos. A hipertensão arterial atinge, aproximadamente, 32,5% da população adulta brasileira, sendo que sua incidência é ainda maior entre os idosos (mais de 60%). A prevalência de HAS no Brasil varia de acordo com a população estudada e o método de avaliação utilizado, com os trabalhos mostrando uma tendência à diminuição da prevalência nas últimas três décadas. Já a taxa de controle adequado da pressão arterial permanece baixa, variando de 10 a 35% dos pacientes hipertensos. Qual é a conclusão que podemos tirar desses números? Que a prevalência de hipertensão vem diminuindo no Brasil, porém ainda há muito o que melhorar, principalmente no que se refere ao tratamento efetivo dessa doença. A figura abaixo ilustra os principais mecanismos fisiopatológicoscom diuréticos tiazídicos. Em diabéticos tipo I em uso de insulina, os betabloqueadores podem mascarar os sintomas de hipoglicemia e prolongar uma crise hipoglicêmica! As principais contraindicações aos betabloqueadores são relacionadas ao broncoespasmo grave (asma ou DPOC grave), bloqueios avançados (BAV de 2º e 3º graus) e doença oclusiva periférica grave com claudicação intermitente. Esses efeitos são mais evidentes nos betabloqueadores não seletivos, mas podem limitar o uso dos cardiosseletivos, especialmente em altas doses. 46Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Mecanismo de ação: Redução do débito cardíaco e secreção de renina Comparado aos outros anti-hipertensivos, aumenta o risco de AVE BETABLOQUEADORES Primeira opção somente nos portadores de IC e DAC Contraindicado na asma, DPOC, BAV de 2º e 3º grau e DAOP grave Bradicardia Broncoespasmo Astenia Disfunção sexual Insônia / Pesadelos Vasoconstrição periférica Efeitos colaterais principais Afetam metabolismo lipídico e glicídico Mascaram sintomas de hipoglicemia e prolongam a crise hipoglicêmica Não-seletivos Propanolol Nadolol Pindolol Cardiosseletivos Metoprolol Atenolol Bisoprolol Com ação vasodilatadora Carvedilol Nebivolol *AVE: acidente vascular encefálico; IC: insuficiência cardíaca; DAC: doença arterial coronariana; DPOC: doença pulmonar obstrutiva crônica; BAV: bloqueio atrioventricular, DAOP: doença arterial oclusiva periférica. Medicamento Dose diária habitual (mg) Frequência Comentários Propranolol 80-320 2-3x/dia Também pode ser utilizado em pacientes com tremor essencial, prolapso de valva mitral, síndromes hipercinéticas (hipertireoidismo e síndrome do pânico), cefaleia de origem vascular e hipertensão portal Pindolol 10-60 1-2x/dia Possui atividade simpaticomimética intrínseca (menos bradicardia) 47Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Atenolol 50-100 1-2x/dia CardiosseletivosMetoprolol 50-200 1x/dia Bisoprolol 5-20 1x/dia Carvedilol 12,5-50 1-2x/dia Efeito vasodilatador (antagonista alfa- 1 periférico) Nebivolol 2,5-10 1x/dia Efeito vasodilatador (liberação de óxido nítrico) 9.5 . SIMPATICOLÍTICOS DE AÇÃO CENTRAL Como seu nome sugere, esses medicamentos atuam em mecanismos simpaticoinibitórios por meio do estímulo dos receptores alfa-2 (também podem ser chamados de agonistas alfa central). Ao diminuir a atividade simpática, esperamos redução da frequência cardíaca (bradicardia relativa) e hipotensão ortostática, efeitos colaterais comuns nessa classe. Além disso, atuam na redução da resistência vascular periférica e débito cardíaco, assim como reduzem os níveis de renina. São medicamentos que não possuem efeitos metabólicos, isto é, não interferem no metabolismo glicídico nem lipídico. Os representantes dessa classe são: metildopa, clonidina e rilmenidina. Os efeitos colaterais clássicos são: sonolência, boca seca, fadiga, hipotensão postural e disfunção erétil. 48Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Mecanismo de ação: Redução da atividade simpática através do estímulo dos receptores alfa-2 Não interferem no metabolismo lipídico e glicídico Boa opção na hipertensão resistente Metildopa GESTANTES Reações autoi- munes, febre, anemia hemolítica e disfunção hepática Clonidina Rilmenidina Síndrome das pernas inquie- tas, retirada de opióides, flush- es da meno- pausa, diarreia associada à neuropatia diabética e na hiperatividade simpática em pacientes com cirrose alcóolica Menos efeitos colaterais que clonidina Fadiga Sedação Disfunção sexual Sonolência Boca seca Hipotensão postural Efeitos colaterais principais SIMPATICOLÍTICOS DE AÇÃO CENTRAL 9.6 ALFABLOQUEADORES São medicamentos pouco utilizados no tratamento da hipertensão arterial. Atuam inibindo o receptor alfa-1 pós-sináptico, reduzindo a resistência vascular periférica sem interferir no débito cardíaco. Os dois principais representantes dessa classe são a doxazosina e a prazosina. Essas drogas atuam na musculatura do assoalho prostático, auxiliando no esvaziamento vesical em portadores de hiperplasia prostática benigna (HBP). Com isso, são uma boa opção anti-hipertensiva em portadores dessa doença. O principal efeito colateral é a hipotensão sintomática com a primeira dose. 49Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Mecanismo de ação: inibem o receptor alfa-1 pós-sináptico, reduzindo RVP sem interferir no débito cardíaco Tolerância Hipotensão sintomática na primeira dose Incontinência urinária em mulheres Aumentam o risco de IC Efeitos colaterais principaisALFABLOQUEADORES Hiperplasia prostática benigna Doxazosina Prazosina Auxiliam o esvaziamento vesical na HPB 9.7 VASODILATADORES DIRETOS São medicamentos que atuam diretamente na musculatura lisa arterial, promovendo a redução da resistência vascular periférica. São utilizados principalmente na hipertensão refratária. Os dois representantes dessa classe são a hidralazina e o minoxidil. A hidralazina apresenta efeitos colaterais clássicos: cefaleia, flushing, taquicardia reflexa e reação lupus-like (dosedependente). O minoxidil é pouco utilizado, pois causa hirsutismo em 80% dos casos. Mecanismo de ação: desconhecido Anorexia Diarreia Náusea, vômito Reação lupus-like (dose-dependente) Taquicardia reflexa Retenção de sódio e água Efeitos colaterais principais VASODILATADORES DIRETOS Hipertensão Refratária Gestantes, Insuficiência Cardíaca (junto com nitrato) Hidralazina Minoxidil Hirsutismo 50Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica 9.8 INIBIDORES DIRETOS DA RENINA Esse é o famoso caviar no tratamento da hipertensão arterial (nunca vi, nem usei e só ouço falar). A droga atua por meio da inibição direta da renina, diminuindo a formação de angiotensina II. Sua eficácia anti-hipertensiva é semelhante aos outros inibidores do sistema renina-angiotensina-aldosterona, também promovendo redução da proteinúria em pacientes com doença renal crônica. Seu único representante é o alisquireno e, assim como os IECA e BRA, apresenta boa tolerabilidade. Os principais efeitos colaterais são: rash cutâneo, diarreia (em doses elevadas), aumento da creatinoquinase (CPK) e tosse (incomum). Também é contraindicado na gravidez, similarmente aos IECA e BRA. Mecanismo de ação: inibição direta da renina Rash cutâneo Tosse Aumento da CPK Diarreia (doses elevadas) Efeitos colaterais principais INIBIDORES DIRETOS DA RENINA Alisquireno Reduzem proteinúria na doença renal crônica Contraindicado em grávidas 9.9 ASSOCIAÇÃO DE FÁRMACOS Agora que você já sabe tudo sobre os anti-hipertensivos utilizados no tratamento da hipertensão arterial, vamos estudar quais são as combinações possíveis e quais são as proibitivas. Como temos três drogas de primeira linha (IECA/ BRA, BCC e diuréticos), a combinação inicial contemplará duas dessas três medicações, exceto na doença arterial coronariana e na insuficiência cardíaca, casos em que o betabloqueador ocupará o espaço de uma dessas drogas. A figura abaixo é uma adaptação da diretriz brasileira de hipertensão e mostra as combinações preferenciais, as não recomendadas e as possíveis: 51Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica ATENÇÃO! IECA + BRA nunca devem ser utilizados em associação! Não caia nessa pegadinha! Para fechar com chave de ouro, estudaremos as drogas de escolha conforme as condições clínicas associadas! 52Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica CAPITULO 10.0 HIPERTENSÃO E CONDIÇÕES CLÍNICAS ASSOCIADAS Existem algumas condições clínicas que demandam certas combinações de drogas e que são cobradas em prova. Vamos falar das principais: 10.1HIPERTENSÃO E DIABETES Essa é a combinação mais importante! Como o diabético hipertenso é um paciente de alto risco, SEMPRE teremos que utilizar duas drogas. Então, vai ser difícil deixar o IECA de fora! Você deve ter em mente que o IECA é uma droga fundamental no diabético, pois reduzirá a progressão da doença renal, especialmente no paciente que já possui algum grau de albuminúria. Portanto, viu hipertenso e diabético na mesma questão? Procure o IECA! HIPERTENSÃO + DIABETES = IECA E os BRA? O BRA é uma alternativa equivalente aos IECA. Geralmente, iniciamos o tratamento com IECA e só trocamos para o BRA se o paciente apresentar alguma intolerância (tosse seca é a mais comum). Outra boa opção no diabético é o bloqueador dos canais de cálcio, visto que não interfere no metabolismo glicídico e possui boa tolerabilidade. 10.2 HIPERTENSÃO E DOENÇA ARTERIAL CORONARIANA No paciente com doença arterial coronariana (DAC), além do controle da pressão arterial, devemos pensar nas drogas que atuarão reduzindo o trabalho cardíaco. Com isso, os betabloqueadores ganham destaque. Apesar de não possuir um bom efeito hipotensor, os betabloqueadores reduzem o trabalho cardíaco e apresentam resultados favoráveis tanto na doença coronariana estável como na síndrome coronariana aguda. Em pacientes pós-IAM, os betabloqueadores apresentam benefícios evidentes em até dois anos. O benefício será maior em pacientes que evoluem com disfunção ventricular. Outra droga com benefício comprovado na doença arterial coronariana é o IECA. No paciente pós-IAM e no portador de DAC estável, o IECA demonstrou redução de desfechos clínicos relevantes. Portanto, essa dupla deve estar presente sempre que possível. HIPERTENSÃO + DAC = IECA + BETABLOQUEADOR 53Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica 10.3 HIPERTENSÃO E DOENÇA RENAL CRÔNICA Nesse grupo, o IECA ou BRA está indicado independentemente dos níveis de albuminúria. Diversos estudos demonstraram retardo da evolução para doença renal em estágio final com o uso dessas medicações. Uma atenção especial deve ser dada aos diuréticos! Em pacientes com doença renal crônica (DRC) estágio 4-5 (clearance 16cmH 2 O) Taquicardia (FC > 120bpm) Perda de peso >4,5Kg em 5 dias em resposta ao tratamento Para o diagnóstico de IC, devemos ter dois critérios maiores SIMULTÂNEOS ou um critério maior e dois menores. Nesse caso, temos um critério maior (crepitações pulmonares) e três menores (dispneia aos esforços, edema nas pernas, e hepatomegalia). A provável causa da IC é a pressão arterial mal controlada, que resulta em hipertrofia do ventrículo esquerdo com consequente dificuldade de relaxamento e IC diastólica. Diferentemente da IC com fração de ejeção reduzida ( 50%), e, até o momento, não há nenhuma medicação que resultou em diminuição da mortalidade. O tratamento consiste basicamente no manejo dos fatores de risco (hipertensão, diabetes, coronariopatia etc.). A questão diz respeito ao tratamento da hipertensão arterial. Nesse caso, as medicações de primeira linha são: inibidores da ECA (IECA)/bloqueadores do receptor da angiotensina (BRA); bloqueadores dos canais de cálcio (BCC) e diuréticos tiazídicos. Incorreta a alternativa A. Captopril é um IECA, e losartana, um BRA. Essa associação é contraindicada pelo risco de efeito colaterais, principalmente a hipercalemia. Incorreta a alternativa B. Pois o betabloqueador (propranolol) não é um anti-hipertensivo de primeira linha. Além disso, o paciente está com uma frequência cardíaca limítrofe (55 bpm) e tem bloqueio atrioventricular de primeiro grau no ECG. Ambas as situações podem agravar-se com o uso de betabloqueador. Incorreta a alternativa C. Lisinopril é um IECA, e espironolactona, um diurético antagonista mineralocorticoide. O diurético mais indicado para início do tratamento são os tiazídicos (hidroclorotiazida), sendo a espironolactona reservada para os casos resistentes,em que é utilizada como quarta droga na associação. Correta a alternativa D. A associação de um BRA (losartana) com um diurético tiazídico é uma opção de primeira linha. Para esse caso, o losartana possui efeito nefroprotetor, diminuindo a proteinúria, e a hidroclorotiazida auxilia no controle dos sintomas congestivos. Incorreta a alternativa E. O alisquireno é um inibidor da renina, e a furosemida, um diurético de alça. Ambos não são medicações de primeira linha no tratamento da hipertensão arterial. Gabarito: alternativa D. 56Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica 10.5 HIPERTENSÃO EM NEGROS A prevalência de hipertensão é maior em negros, assim como suas complicações (hipertensão maligna, doença renal crônica e acidente vascular encefálico), pois a fisiopatologia nessa população é diferente, já que eles retêm mais sódio e água. Por isso, existe um racional para preferirmos diuréticos tiazídicos e bloqueadores de canais de cálcio. Essa é a combinação clássica recomendada para negros. Na prova, o tratamento de escolha será BCC + tiazídico, mas, se essa opção não estiver disponível, BCC + IECA também é uma boa escolha. HAS em NEGROS = BCC + TIAZÍDICO 57Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica PARTE 2: HIPERTENSÃO ARTERIAL SECUNDÁRIA Dentro de HA secundária e crise hipertensiva, os assuntos mais cobrados são tratamento/conduta e o diagnóstico. CAPITULO 1.0 DEFINIÇÃO A hipertensão arterial (HA) secundária é aquela que pode ser justificada por alguma causa, ou seja, como o próprio nome sugere, é secundária à alguma condição. Por ter uma etiologia identificável, é potencialmente reversível quando tratada de forma específica. Não se sabe sua real prevalência, mas estima-se algo em torno de 10 a 20% dos casos totais de hipertensão arterial sistêmica (HAS). CAPITULO 2.0 QUANDO SUSPEITAR? Principalmente em pacientes com hipertensão resistente ou refratária, jovens ( 1,5 cm A investigação pode ser iniciada com alguns dos seguintes exames: cintilografia renal com captopril (renograma), ultrassonografia com Doppler de artérias renais, angiotomografia ou angiorressonância de artérias renais. O padrão-ouro ainda é a arteriografia renal, porém, por ser um exame invasivo, não deve ser realizado como procedimento inicial, mas, sim, para os casos inconclusivos (Figura 2). SUSPEITA DE HIPERTENSÃO RENOVASCULAR Angiografia po RNM, TC + Acompanhamento clínico até que se justifique nova investigação Doppler renal + Quadro clinico + Doppler renal - Quadro clinico + Rastreamento: US doppler de artérias renais Arteriografia (padrão-ouro) Se indicado, tratamento intervencionista Figura 2. Fluxograma de investigação do paciente com suspeita de estenose de artéria renal. 61Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Os principais objetivos do tratamento são a redução da morbidade e da mortalidade associadas à elevação da pressão arterial. No tratamento medicamentoso, é recomendada a utilização de fármacos que bloqueiam o sistema renina- angiotensina-aldosterona (SRAA). A hipertensão renovascular de causa aterosclerótica requer mudança do estilo de vida, cessação do tabagismo, controle glicêmico, prescrição de estatinas e antiagregantes plaquetários. Os procedimentos de revascularização estão indicados em duas situações: 1. Nos portadores de displasia fibromuscular. 2. Para os pacientes com HA renovascular de causa aterosclerótica que não conseguiram controlar a PA ou que apresentam perda progressiva da função ou descompensação clínica (edema agudo de pulmão, insuficiência cardíaca e angina refratária). Na hipertensão renovascular de causa aterosclerótica, o procedimento de escolha é a angioplastia com colocação de stent. Na displasia fibromuscular, a angioplastia por balão é o procedimento indicado. O implante de stent está reservado em casos de complicações (dissecção ou ruptura arterial). CAI NA PROVA (Revalida – INEP 2015) Uma mulher de 42 anos de idade, assintomática, procura o ambulatório de clínica médica sendo diagnosticada hipertensão arterial. Negou tabagismo e etilismo, e afirmou não ter história familiar de hipertensão arterial. Ao exame clínico: eutrófica (IMC = 23 kg/m²) (VR = 18 - 25 kg/m²); fácies atípicas; lúcida; orientada; tireoide sem alteração volumétrica ou presença de nódulos; palpação de pulsos arteriaissimétricos e ausculta cardíaca normal; FC = 92 bpm; PA = 190 x 140 mmHg (posição sentada, em ambos os braços), além de ausência de sopros em artérias carótidas ou femorais. No exame do abdome, notou-se sopro abdominal sisto-diastólico, mais audível em flanco esquerdo; ausência de visceromegalias ou massas abdominais. Membros inferiores não apresentam edemas. Exames complementares foram realizados: glicemia de jejum, perfil lipídico, eletrólitos e função renal normais; ausência de microalbuminúria ou proteinúria e ECG sem sobrecarga ventricular. O ecodoppler de artéria renal evidenciou estenose renal bilateral. No caso dessa paciente, qual é a classe de drogas anti-hipertensivas que, quando administrada, pode precipitar insuficiência renal e por qual motivo? A) Diuréticos tiazídicos, por aumento da excreção de sódio no túbulo distal. B) Inibidores da enzima conversora de angiotensina, por dilatação arteriolar eferente. C) Betabloqueadores, por redução da frequência cardíaca e da contratilidade. D) Bloqueadores de canais de cálcio, por redução da resistência vascular periférica. 62Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica COMENTÁRIO: Questão interessante, que exige conhecimento do mecanismo de ação dos IECAs. Os inibidores da ECA promovem redução da resistência (dilatação) da arteríola eferente. No paciente com estenose bilateral de artéria renal, o fluxo renal já está comprometido (por conta da estenose) e a perfusão é garantida pelo aumento da resistência em arteríola eferente (aumenta a pressão intraglomerular). Por isso, o uso de IECA nesses pacientes está associado à piora progressiva da função renal. Incorreta a alternativa A. Os diuréticos tiazídicos promovem o aumento de excreção de sódio, mas não provocam piora da função renal em portadores de estenose bilateral da artéria renal. Correta a alternativa B. Conforme explicado acima. Incorreta a alternativa C. Os betabloqueadores não fazem a primeira linha de tratamento da hipertensão arterial. Além disso, não estão envolvidos na piora da função renal em pacientes com estenose bilateral da artéria renal. Incorreta a alternativa D. Os bloqueadores de canais de cálcio são boas opções no paciente com estenose bilateral de artéria renal, pois não promovem piora da função renal. Gabarito: alternativa B. 3.3 COARCTAÇÃO DA AORTA É uma alteração congênita caracterizada pelo estreitamento da aorta descendente no local de inserção do canal arterial, logo abaixo da artéria subclávia esquerda (figura 3). Em alguns casos, pode haver estreitamento do arco aórtico. Figura 3. Coarctação da aorta torácica descendente abaixo da artéria subclávia esquerda. Fonte: Shutterstock. A suspeita clínica ocorre quando um paciente hipertenso se apresenta com epistaxes, cefaleia, fraqueza nas pernas aos esforços, manifestações de insuficiência cardíaca, angina, dissecção de aorta ou hemorragia intracerebral. No exame físico, chama a atenção a diferença da PA sistólica entre os membros superiores (MMSS) e inferiores (MMII), sendo que a PA sistólica é pelo menos 10 mmHg maior nos membros superiores. Outros sinais clínicos são a ausência ou diminuição dos pulsos em MMII, sopro sistólico interescapular e no tórax. O diagnóstico é feito por meio de exames de imagem: radiografia de tórax (aorta torácica com dilatações pré e pós-estenose, corrosão de costelas), ecocardiograma (principal exame de rastreio) e angiografia por tomografia ou ressonância. A RNM é considerada o padrão-ouro para avaliação e segmento pós-intervenção. 63Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Achados clínicos (palavras-chaves para a prova) • Pulsos reduzidos em MMII • Diferença de PAS entre os MMSS e MMII (PAS MMSS > 10 mmHg PAS MMII) • Fraqueza nas pernas aos esforços • Sopro sistólico interescapular É indicado o tratamento (cirúrgico ou percutâneo com stent) nos pacientes com gradiente ≥ 20 mmHg evidenciado pelo ecocardiograma e naqueles com disfunção ventricular ou circulação colateral significativa, independentemente dos valores dos gradientes. Em adolescentes e adultos, a preferência é pela dilatação percutânea com implante de stent. 3.4 APNEIA OBSTRUTIVA DO SONO (AOS) Muito provavelmente, a apneia obstrutiva do sono é a principal causa de HA secundária, com prevalência de mais de 60% nos hipertensos resistentes. É caracterizada pelo colapso intermitente das vias aéreas superiores durante o sono, resultando em obstruções totais (apneias) ou parciais (hipopneias), fragmentação do sono e hipoxia. Além do envolvimento com os níveis pressóricos, a AOS aumenta a probabilidade de insuficiência cardíaca, arritmias (fibrilação atrial) e doença arterial coronariana. Os principais sinais e sintomas associados são roncos altos e frequentes, sonolência excessiva diurna, sono não reparador, pausas respiratórias ou engasgos durante a noite, fadiga, noctúria, cefaleia matutina e alterações de humor. Entre os fatores de risco, estão o sexo masculino, obesidade, idade acima de 50 anos, uso abusivo de álcool e anormalidades estruturais das vias aéreas superiores. Achados clínicos (palavras-chaves para a prova) • Ronco alto e frequente* • Sonolência excessiva diurna** • Engasgos noturnos • Fadiga excessiva • Obesidade *Principal sinal noturno ** Principal sintoma diurno O exame padrão-ouro para o diagnóstico é a polissonografia. O tratamento de escolha, principalmente para os casos moderados e graves, é o uso de um aparelho gerador de pressão positiva contínua na via aérea, o CPAP (do inglês continuous positive airway pressure). Para os casos menos graves, há outras formas de tratamento, como o avanço mandibular, exercícios orofaríngeos, terapia posicional e cirurgias. 64Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica CAPITULO 4.0 CAUSAS ENDÓCRINAS Entre as causas endócrinas de HAS secundária, as mais importantes para a cardiologia são o hiperaldosteronismo primário e o feocromocitoma. Vamos estudá-los. 4.1 HIPERALDOSTERONISMO PRIMÁRIO (HP) Condição clínica caracterizada pela produção excessiva e autônoma de aldosterona, acompanhada de supressão da atividade da renina plasmática (ARP). Atualmente, estima-se que sua prevalência seja de aproximadamente 22% dos pacientes com HA resistente. A causa mais frequente de HP é a hiperplasia adrenal cortical bilateral (50-60%), enquanto os adenomas produtores de aldosterona são responsáveis pelos 40% restantes. O carcinoma adrenal produtor de aldosterona e a hiperplasia adrenal cortical unilateral são raros. No rim, a elevação da aldosterona aumenta a reabsorção de sódio e água e a excreção de potássio e íons hidrogênio, resultando em sobrecarga hidrossalina, hipocalemia e alcalose metabólica. Na suspeita de HP, devemos solicitar a dosagem sérica de aldosterona, a atividade da renina plasmática e fazer uma relação entre ambas (A/ARP). Se a relação A/ARP for ≥ 30 ng/mL, associada à aldosterona ≥15 ng/dL, existe alta probabilidade do diagnóstico. O próximo passo é a realização de um dos testes confirmatórios: teste de sobrecarga salina, teste do captopril, teste da fludrocortisona ou teste da furosemida intravenosa. Após a confirmação de HP pelos testes, prosseguiremos com a realização de exames de imagem. O exame com maior acurácia é a TC de cortes finos. (Figura 4). Caso o exame mostre um adenoma, deve-se programar a cirurgia para a ressecção do tumor. Se a etiologia for a hiperplasia adrenal, o tratamento medicamentoso com espironolactona é recomendado. Para fixar esses conceitos, leia, com atenção, o fluxograma abaixo: RASTREAMENTO POSITIVO PARA HP: � Aldosterona ≥ 15 ng/dL +Relação A/R ≥ 2 OU � A/ARP ≥ 30 TC com cortes finos de suprarrenais (preferencial) ou RNM Sem indicação de teste confirmatório Realizar testes confirmatórios Teste positivo Renina suprimida, aldosterona > 20 e hipocalemia (Khiperaldosteronismo primário. 65Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Seguem algumas dicas de quando suspeitar de hiperaldosteronismo primário na prova. Achados clínicos (palavras-chaves para a prova) • HA resistente ou refratária • Hipopotassemia espontânea • Sobrecarga hidrossalina • Alcalose metabólica • Nódulo de adrenal 4.2 FEOCROMOCITOMA São tumores de células cromafins secretores de catecolaminas. Normalmente, estão localizados na medula da glândula suprarrenal. Cerca 10 a 15% são extradrenais (paragangliomas), 10%, bilaterais, e 15 a 20%, malignos. A tríade clássica da doença é composta por cefaleia, sudorese profusa e palpitações. Esses sintomas são acompanhados por aumento dos níveis pressóricos, que pode ocorrer de forma intermitente, ou seja, alternado com momentos de PA normal (Figura 5). Figura 5. Sinais e sintomas do feocromocitoma. 66Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Achados clínicos (palavras-chaves para a prova) • Tríade clássica: cefaleia, sudorese profusa e palpitações. Qual é o sinal mais comum do feocromocitoma? O aumento da pressão arterial sistêmica. O diagnóstico requer a confirmação do excesso de catecolaminas plasmáticas e a documentação do tumor. Que exames solicitar no screening de feocromocitoma? • Dosagem de catecolaminas e metanefrinas urinárias de 24 horas. • Metanefrinas livres plasmáticas (método de rastreio ideal, com alta sensibilidade e especificidade). Após os testes bioquímicos documentarem o excesso de catecolaminas e/ou metanefrinas, o próximo passo é a confirmação com exame de imagem. A tomografia computadorizada (TC) é a preferida, apresentando elevada sensibilidade para a detecção de tumores adrenais. A ressonância magnética é superior na identificação de paragangliomas ou doença metastática linfonodal. O tratamento cirúrgico é o preferencial. O preparo pré-operatório deve ser feito com alfa-1-bloqueadores (doxazosina ou prazosina) e hidratação, além do aumento da ingesta oral de sódio por, pelo menos, duas semanas antes da cirurgia. O tratamento medicamentoso de seguimento inclui alfa-1-bloqueadores, betabloqueadores (apenas após o início do alfabloqueio), bloqueadores dos canais de cálcio, IECA e agonistas de ação central (metildopa, clonidina). Para facilitar a memorização das causas endócrinas de HA secundária, lembre-se: 2 estão na hipófise, 3, no pescoço, e 2, nas suprarrenais (Figura 6). 67Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Figura 6. Causas endócrinas de HA secundária Você não achou que o estudo da HA secundária terminaria sem um resumão, achou? Na próxima tabela, você encontrará todas as causas que podem cair em prova. Não deixe de estudá-las. 68Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Tabela 2. Causas de HA secundária com seus achados clínicos e exames complementares recomendados. Suspeita diagnóstica Achados clínicos Exames complementares Causas não endócrinas Doença renal parenquimatosa Edema, ureia e creatinina elevadas, alterações do sedimento urinário (proteinúria/hematúria) Taxa de filtração glomerular, US renal, pesquisa de microalbuminúria ou proteinúria Doença renovascular Sopro abdominal, EAP súbito, alteração da função renal por medicamentos que bloqueiam o SRAA US com Doppler, renograma com captopril, angiografia por RNM ou TC, arteriografia renal AOS Ronco, sonolência diurna, obesidade Polissonografia Coarctação de aorta Pulsos femorais ausentes ou de amplitude diminuída, PA diminuída em membros inferiores, alterações na radiografia tórax Ecocardiograma com Doppler, angiografia de aorta por TC ou RNM (padrão- ouro) ou angiografia invasiva Causas endócrinas Hiperaldosteronismo primário HAR e/ou hipopotassemia e/ ou nódulo adrenal Relação A/R > 30, com níveis de aldosterona altos (> 15 ng/dL). TC ou RNM com nódulo na suprarrenal Feocromocitoma HA paroxística com cefaleia, sudorese e palpitações Metanefrinas plasmáticas livres e/ou urinárias. TC ou RNM de abdome 69Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Síndrome de Cushing Ganho de peso, diminuição da libido, hirsutismo, amenorreia, “fácies em lua cheia”, “giba dorsal”, estrias purpúreas, obesidade central Cortisol basal, cortisol salivar à meia-noite, cortisol matinal (7-8 h), cortisol livre urinário de 24 h e teste de supressão com dexametasona. TC, RNM de hipófise. Hipotireoidismo Fadiga, ganho de peso, perda de cabelo, fraqueza muscular, sonolência, HA diastólica Dosagens de T4 livre e TSH Hipertireoidismo Intolerância ao calor, perda de peso, palpitações, exoftalmia, hipertermia, tremores, HA sistólica Dosagens de T4 livre e TSH Hiperparatireoidismo Nefrolitíase, osteoporose, fraqueza, sede, poliúria, espasmos musculares. Cálcio total e ionizado, PTH Acromegalia Cefaleia, fadiga, problemas visuais, aumento de mãos, pés e língua. Dosagem de IGF-1, GH basal e GH pós-sobrecarga oral de glicose. TC ou RNM (preferencial) de sela túrcica. Obesidade Classe 1: IMC de 30 aacentuada da PA (PAD ≥ 120 mmHg) Elevação acentuada da PA (PAD ≥ 120 mmHg) Sem lesão de órgão-alvo Sem lesão de órgão-alvo Com lesão de órgão-alvo Tratamento com medicação oral (analgésicos e/ou ansiolíticos) Tratamento com medicação oral Tratamento com medicação parenteral Sem risco iminente de morte Sem risco de morte iminente Com risco de morte iminente Não internar! A elevação da PA é consequência de um quadro primário (ansiedade, estresse, cefaleia, pânico). Acompanhamento ambulatorial Internação em UTI 2.3 EMERGÊNCIA HIPERTENSIVA É uma elevação aguda da PA acompanhada por LOA e risco imediato de morte, fato que requer redução rápida da pressão em minutos a horas, com monitoramento intensivo e uso de fármacos por via endovenosa (EV). 72Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Para facilitar seu entendimento, elaborei este fluxograma para orientar o tratamento das crises hipertensivas no pronto-socorro: SALA DE TRIAGEM: Aumento de PA + sintomas não não sim sim Sala de atendimento + avaliação clínica Relação causal entre aumento de PA e sintomas Sala de observação: sintomáticos. Controle e alta Pseudocrise hipertensivaLesão de órgão-alvo? Emergência hipertensiva Admissão hospitalar e/ou UTI � Unidade de emergência � Investigação etiológica � Tratamento anti-hipertensivo EV Urgência hipertensiva � Sala de observação � Investigação etiológica � Controle pressórico não imediato (via oral) � Alta hospitalar com reavaliação pressórica precoce � Seguimento ambulatorial Figura 1: Sequência de atendimento das crises hipertensivas. CAI NA PROVA (Revalida – INEP 2020) Uma mulher com 69 anos de idade, hipertensa, em uso de enalapril 40 mg/dia e de hidroclorotiazida 25 mg/dia, tem palpitações, tremores de membros superiores e dispneia que começaram há cerca de 30 minutos, logo após ter sido assaltada. Está orientada, corada, sem déficits motores focais, FC = 110 bpm, PA = 200 x 120 mmHg em membros superiores. Ausculta cardíaca: bulhas normofonéticas, ritmo regular em 2 tempos, sem sopros. Pulsos radiais e femorais amplos, bilateralmente, FR = 24 irpm, sem esforço respiratório. Ausculta pulmonar normal. Oximetria de pulso de 99% (em ar ambiente). O eletrocardiograma mostra taquicardia sinusal e sinais de sobrecarga ventricular esquerda. A abordagem inicial adequada para essa paciente é administrar: A) nifedipina de liberação rápida por via oral ou sublingual, repetindo a medicação se PA permanecer acima de 180 x 100 mmHg após 60 minutos. B) ansiolítico por via oral, mantendo-a em observação em local tranquilo e reavaliando os níveis pressóricos num intervalo de 30 a 60 minutos. C) nitroglicerina por via endovenosa contínua, ajustando a dose a cada 5 minutos até alcançar níveis pressóricos inferiores a 160 x 90 mmHg. D) metoprolol em bólus por via endovenosa, repetindo a medicação se PA permanecer acima de 180 x 100 mmHg após 10 minutos. 73Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica COMENTÁRIO: Vamos lá, querido(a) Revalidando(a), aposto que você matou essa! Dica: a paciente apresentou um descontrole pressórico após ter sido assaltada, ou seja, muito típico de pseudocrise hipertensiva. Incorreta a alternativa A. Não há necessidade de nenhum tratamento anti-hipertensivo. Correta a alternativa B. Trata-se de uma pseudocrise hipertensiva e, como discutido, o tratamento consiste em deixar o paciente em um ambiente calmo e controlar o sintoma referido com analgésicos e/ou ansiolíticos. Não há necessidade de internação! A queda da PA ocorrerá sem a necessidade de anti-hipertensivos. Incorreta a alternativa C. Não há necessidade de nenhum tratamento anti-hipertensivo. Incorreta a alternativa D. Não há necessidade de nenhum tratamento anti-hipertensivo. Gabarito: alternativa B. CAPITULO 3.0 TRATAMENTO GERAL DA CRISE HIPERTENSIVA Na UH, como não há LOA nem risco iminente de morte, o tratamento pode ser feito com medicações via oral. Os anti-hipertensivos indicados são o captopril e a clonidina. Já na EH, o tratamento deve ser por meio de medicações endovenosas (EV), com a finalidade de reduzir os níveis pressóricos mais rapidamente. No Brasil, os seguintes fármacos estão disponíveis: nitropussiato de sódio (principal), nitroglicerina, labetalol, esmolol, metoprolol, hidralazina e enalaprilato. Via oral Captopril e clonidina UH Via endovenosa Nitroprussiato de sódio EH 74Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica As recomendações gerais de redução da PA nas EH podem ser resumidas da seguinte forma: • ↓ PA média ≤ 25% na 1ª hora. • PA 160/100-110 mmHg nas próximas 2 a 6 horas. • PA 135/85 mmHg em um período de 24-48 horas subsequentes. Não se conforme com essa regra básica, pois as EH devem ser abordadas considerando o sistema ou o órgão-alvo acometido. Em outras palavras: a intensidade e a velocidade da redução da PA dependerão do tipo de emergência vigente. CAPITULO 4.0 TRATAMENTO DAS EH EM SITUAÇÕES ESPECIAIS Neste capítulo, você estudará o tratamento específico das principais emergências hipertensivas. Nada melhor do que começar o assunto tendo uma visão geral de todas elas (tabela 2). Tabela 2. Achados da história e exame físico das diferentes emergências hipertensivas. Emergências hipertensivas Anamnese Exame físico Encefalopatia hipertensiva Letargia, cefaleia, confusão, distúrbios visuais e convulsões. Todas de início agudo ou súbito. Pode não ter qualquer achado. Fundo de olho: edema de papila. AVE Súbita alteração neurológica. Alteração no exame neurológico. Dissecção de aorta Dor precordial lancinante com irradiação para as costas. Pulsos assimétricos, diferença de PA entre os MMSS, sopro diastólico em foco aórtico. 75Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Síndrome coronariana aguda Dor ou opressão precordial acompanhada de náuseas, dispneia e sudorese fria. Pode ser normal. Edema agudo de pulmões Paciente agitado e com dispneia. Geralmente há algum grau de disfunção ventricular. Crepitação pulmonar, baixa saturação de O₂, B3 e/ou B4. HAS acelerada-maligna Astenia, mal-estar, emagrecimento, oligúria, sintomas cardiovasculares e/ ou neurológicos. Fundo de olho: edema de papila. Eclâmpsia Gestante após a 20ª semana ou até a 6ª semana após o parto. Edema, cefaleia, epigastralgia, convulsões. Intoxicação por cocaína Paciente com ansiedade histórico de uso de drogas. Sintomas adrenérgicos: sudorese, palpitação, taquicardia, taquipneia, hipertermia, midríase. Emergências hipertensivas Anamnese 4.1 ENCEFALOPATIA HIPERTENSIVA É caracterizada por sinais e/ou sintomas de edema cerebral secundário à elevação súbita da PA, associado à disfunção neurológica. O quadro clínico clássico é representado pelos sintomas de hipertensão intracraniana: alterações visuais e do nível de consciência, cefaleia, confusão mental, letargia, vômitos em jato, convulsões e até coma. Um importante auxílio diagnóstico é a realização do exame de fundo de olho. Nele, podemos encontrar o borramento da papila, que, quando associado à hipertensão intracraniana, recebe o nome de papiledema. Outros achados são os exsudatos e as hemorragias retinianas. 76Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Figura 2. Fundo de olho normal (esquerda) e na presença de encefalopatia hipertensiva (direita). Tríade da encefalopatia hipertensiva (PALAVRAS-CHAVES): 1. Elevação da PA 2. Alteração do nível de consciência 3. Edema de papila/papiledema A TC de crânio é um exame complementar importante, principalmente para afastar situações clínicas semelhantes, como o acidente vascular cerebral (AVC). Na encefalopatia hipertensiva, observa-se edema cerebral simétrico envolvendo a substância branca, principalmente nas regiões parietoccipitais. Durante o tratamento, a PA deve ser reduzida deforma lenta (reduzir a PA média em aproximadamente 10-15% na primeira hora e não mais do que 25% ao fim do primeiro dia). Diminuições mais rápidas podem provocar hipoperfusão e isquemia cerebral. Como precisamos ter um controle rigoroso da PA, os anti-hipertensivos endovenosos são as drogas de escolha. O mais utilizado é o nitroprussiato de sódio (Nipride®). Nas primeiras 24 a 48 h, anti-hipertensivos via oral devem ser administrados juntamente com o nitroprussiato, com a finalidade de facilitar o controle da PA. 77Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica CAI NA PROVA (Revalida – INEP 2021) Uma mulher de 48 anos de idade é trazida por familiares à unidade de emergência de hospital de alta complexidade com quadro de confusão mental, cefaleia e amaurose bilateral. Segundo familiares, a paciente é portadora de hipertensão arterial sistêmica há 2 anos, vindo em investigação diagnóstica por ser classificada como hipertensão arterial resistente. Nas últimas 2 semanas, a paciente passou a não tomar seus fármacos anti-hipertensivos, em razão de acreditar que o tratamento não estava mais funcionando. Na véspera, a paciente começou a queixar-se de cefaleia holocraniana, pouco responsiva a fármacos, além de turvação visual. No dia de hoje, a paciente tornou-se um pouco confusa e começou a se queixar de que não estava conseguindo enxergar nada, razão por que foi trazida, às pressas, à unidade de emergência. Ao exame físico, a paciente mostra-se confusa, sonolenta, atendendo com dificuldade a algumas solicitações verbais. Sua pressão arterial (PA) encontra-se em 240 x 160 mmHg em ambos os membros superiores, enquanto a frequência cardíaca é de 96 bpm. Um sopro é auscultado no flanco direito de seu abdome. Iniciado tratamento anti-hipertensivo intravenoso, a paciente é submetida a uma tomografia computadorizada de crânio em que foram detectadas áreas hipodensas em regiões occipitais. A paciente é, então, encaminhada para realização de uma ressonância magnética de encéfalo que, na imagem pesada em T2, revela a presença de hiperintensidade de sinal nos lobos occipitais, sem limites muito bem definidos. Instituído o tratamento indicado, a paciente evolui com regressão completa dos déficits neurológicos previamente descritos. Acerca do tratamento da paciente em questão, pode-se afirmar que A) o alvo terapêutico no caso seria a normalização da pressão arterial em, no máximo, 2 horas. B) após compensação clínica, seria fundamental ressecar o tumor adrenal secretor presente à direita. C) nicardipina e labetalol por via intravenosa seriam excelentes escolhas farmacológicas para a redução da PA da paciente. D) em razão da presença de trombose da artéria basilar, deveria ser adicionada anticoagulação plena com heparina de baixo peso molecular. COMENTÁRIO: Essa questão conta a história de uma senhora, provavelmente portadora de uma estenose de artéria renal (sopro no flanco direito), que apresenta uma encefalopatia hipertensiva, com PA de 240/160, configurando uma emergência hipertensiva. Além da confusão mental e sonolência, a paciente apresentou um outro quadro neurológico chamado de síndrome da encefalopatia posterior reversível (PRES), em que ocorre uma falha da autorregulação circulatória intracraniana, causando um quadro de leucoencefalopatia, com predomínio nas porções posteriores do encéfalo. Os principais sintomas da PRES são queixas de cefaleia, alteração do nível de consciência, alterações visuais diversas e, em alguns casos, crises epilépticas. Felizmente, a PRES costuma ser autolimitada! O tratamento é o manejo da emergência hipertensiva, de acordo com os protocolos habituais. É isso que a questão foca! 78Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Para uma encefalopatia hipertensiva sem AVC associado, devemos ter como alvo reduzir a PA em 10-20% na primeira hora e 5-15% nas próximas 23 horas. As escolhas para o tratamento podem ser: nitroprussiato, nicardipina ou labetalol. Com essas informações em mãos, vamos para as alternativas: Incorreta a alternativa A. A correção da PA deve ser gradual, não excedendo 20% na primeira hora e mais 15% nas próximas 24 horas. Incorreta a alternativa B. Tumores de adrenal não costumam causar sopro. Esse sinal seria mais factível no caso de uma estenose de artéria renal. Correta a alternativa C. Nicardipina e labetalol estão entre as opções para o tratamento da encefalopatia hipertensiva. Incorreta a alternativa D. O diagnóstico neurológico, como falamos acima, é encefalopatia posterior reversível, que não é uma doença encefálica isquêmica. Gabarito: alternativa C. 4.2 HAS ACELERADA-MALIGNA É caracterizada pela presença de hipertensão grave, retinopatia com edema de papila, com ou sem insuficiência renal e/ou cardíaca. Os órgãos mais afetados são a retina, que se manifesta tradicionalmente com edema de papila, e o rim, que sofre um processo de necrose fibrinoide e arteriosclerose hiperplásica, culminando em nefroesclerose. As principais manifestações clínicas são cefaleia, astenia, perda de peso, vômitos, confusão mental, tontura e sinais de alteração renal, como oligúria e uremia. A internação dos pacientes para tratamento com medicações endovenosas é primordial. No controle agudo da PA, deve-se utilizar a associação entre anti-hipertensivos venosos (nitroprussiato) e orais (diuréticos, bloqueadores do sistema renina-angiotensina, betabloqueadores, hidralazina etc.). A redução da PA deve ser gradual, mantendo-se níveis de PAD não inferiores a 100 mmHg nos primeiros dias. 79Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Fique ligado(a) nessa dica! Nas questões de prova, pode ser muito difícil a diferenciação entre a encefalopatia hipertensiva e a HAS acelerada-maligna. Porém, as bancas sempre dão algumas dicas. Quando o caso clínico trouxer um paciente com elevação da PA e lesão renal aguda, o diagnóstico que a banca quer é o de HAS acelerada-maligna! Como você irá lembrar? É só pensar no MALIGNO e em seu “precioso”. Esse carinha malvado que adora provocar lesão em vários órgãos, mas que tem um amor incondicional pelo rim. 4.3 DISSECÇÃO AGUDA DE AORTA Na dissecção aórtica aguda, ocorre uma ruptura da camada íntima da artéria, que se separa da camada média e forma uma falsa luz, que pode ou não se comunicar com a luz verdadeira. Há três formas de classificação (tabela 3): (1) Stanford, (2) DeBakey e (3) classificação anatômica. Dessas, a mais importante é a de Stanford. 80Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Classificação da dissecção de aorta Stanford • Tipo A: dissecções que envolvem a aorta ascendente. • Tipo B: dissecções que NÃO envolvem a aorta ascendente (acometimento apenas da aorta descendente, após a emergência da artéria subclávia esquerda). DeBakey • Tipo I: origem na aorta ascendente estendendo-se até a aorta descendente. • Tipo II: confinada à aorta ascendente. • Tipo III: origem na aorta descendente com extensão distal e, raramente, retrógrada, podendo atingir a ascendente. − Tipo IIIa: limitada à aorta torácica. − Tipo IIIb: extensão abaixo do diafragma. Descritiva • Proximal: inclui DeBakey I e II e Stanford A. • Distal: inclui DeBakey III e Stanford B. 81Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica A dor torácica é a manifestação mais comum, presente em 90% dos casos. Ela é descrita como intensa, de início súbito, como “rasgando”, “rompendo”, em “facada”, “apunhalando”, com irradiação para o dorso. Como pode haver comprometimento do arco aórtico e seus ramos (tronco braquiocefálico, artéria carótida comum esquerda e artéria subclávia esquerda), o paciente pode apresentar síncope e sinais neurológicos focais decorrentes de acidente vascular encefálico. Outras alterações presentes são a assimetria de pulsos e a diferença de pressão arterial entre os membrossuperiores (pressão do braço direito maior que a do esquerdo ou vice-versa). As artérias coronárias são acometidas em 3% dos indivíduos, causando angina e quadro típico de síndrome coronariana aguda, inclusive com supradesnivelamento do segmento ST nas derivações da coronária comprometida (artéria coronária direita é a mais afetada). A presença de insuficiência cardíaca aguda tem forte correlação com a disfunção da valva aórtica (insuficiência aórtica aguda). Achados clínicos (palavras-chaves para a prova) • Dor torácica súbita, de forte intensidade (severa) • Irradiação para dorso • Assimetria de pulsos e pressão arterial entre os membros superiores • Sopro de insuficiência aórtica aguda (diastólico) ▫ Paciente com infarto agudo do miocárdio, AVE isquêmico e insuficiência aórtica aguda simultaneamente: pensar em dissecção aórtica! Os principais exames diagnósticos são a radiografia de tórax (que demonstra um alargamento do mediastino), o ecocardiograma transesofágico (preferível nos pacientes hemodinamicamente instáveis) e a tomografia computadorizada helicoidal (padrão-ouro), que mostra uma lâmina de dissecção no local acometido (imagem 1). 82Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Imagem 1. Lâmina de dissecção em aorta abdominal (seta) em disseção do tipo Stanford B. O tratamento inicial envolve o controle da dor, da frequência cardíaca (FC) e da pressão arterial. Deve ser empregado em todos os pacientes, independentemente do tipo de dissecção (Stanford A ou B). O analgésico de escolha é a morfina! O betabloqueador é o primeiro agente anti-hipertensivo que deve ser utilizado. A principal finalidade é o controle do duplo produto cardíaco (PA e FC). Apenas após o betabloqueio adequado (FCBlood Pressure in Adults: A Report of the American College of Cardiology/American Heart Association Task Force on Clinical Practice Guidelines - Hypertension. 2018;71:e13-e115 CAPITULO 7.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS Fim de livro! Espero que a leitura tenha sido agradável e que o conhecimento adquirido o(a) acompanhe por toda vida. O material está bem completo, com o que é mais cobrado em provas. Portanto, sempre que necessário, você pode fazer uma releitura. Treine e pratique nossas questões do banco de questões e assista aos vídeos com os comentários dos professores. Estou SEMPRE à disposição. Sinta-se à vontade para entrar em contato e esclarecer suas dúvidas por meu Instagram @profpaulodalto. Críticas e sugestões são bem-vindas! Também estou disponível no FÓRUM DE DÚVIDAS DO ESTRATÉGIA. Agora, nada como aquele merecido descanso!!! Mas lembre-se: FOCO e DISCIPLINA SEMPRE!!! “A melhor preparação para o amanhã é fazer o seu melhor hoje” H. Jackson Brown Jr – Escritor norte-americano Cordial abraço, Prof. Paulo Dalto. APRESENTAÇÃO DO PROFESSOR INTRODUÇÃO PARTE 1: DIAGNÓSTICO, CLASSIFICAÇÃO, ESTRATIFICAÇÃO DE RISCO E TRATAMENTO 1.0 CONCEITUAÇÃO, EPIDEMIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA 2.0 DIAGNÓSTICO 3.0 CONCEITOS IMPORTANTES 4.0 CLASSIFICAÇÃO DA PRESSÃO ARTERIAL 5.0 AVALIAÇÃO CLÍNICA E EXAMES COMPLEMENTARES 5.1 ANAMNESE E EXAME FÍSICO 5.2 EXAMES COMPLEMENTARES 6.0 ESTRATIFICAÇÃO DE RISCO CARDIOVASCULAR 7.0 METAS TERAPÊUTICAS 8.0 TRATAMENTO NÃO MEDICAMENTOSO 9.0 TRATAMENTO MEDICAMENTOSO 9.1. Diuréticos 9.2 Bloqueadores dos canais de cálcio (BCC) 9.3 Inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) e bloqueadores do receptor da angiotensina (BRA) 9.4 Betabloqueadores 9.5. Simpaticolíticos de ação central 9.6 Alfabloqueadores 9.7 Vasodilatadores diretos 9.8 Inibidores diretos da renina 9.9 Associação de fármacos 10.0 Hipertensão e condições clínicas associadas 10.1 Hipertensão e diabetes 10.2 Hipertensão e doença arterial coronariana 10.3 Hipertensão e doença renal crônica 10.4 Hipertensão e insuficiência cardíaca 10.5 Hipertensão em negros PARTE 2: HIPERTENSÃO ARTERIAL SECUNDÁRIA 1.0 DEFINIÇÃO 2.0 QUANDO SUSPEITAR? 3.0 CAUSAS NÃO ENDÓCRINAS 3.1 DOENÇA RENAL CRÔNICA (DRC) 3.2 HIPERTENSÃO RENOVASCULAR 3.3 COARCTAÇÃO DA AORTA 3.4 APNEIA OBSTRUTIVA DO SONO (AOS) 4.0 CAUSAS ENDÓCRINAS 4.1 HIPERALDOSTERONISMO PRIMÁRIO (HP) 4.2 FEOCROMOCITOMA Parte 3: CRISES HIPERTENSIVAS 1.0 DEFINIÇÃO 2.0 CLASSIFICAÇÃO 2.1 PSEUDOCRISE HIPERTENSIVA 2.2 URGÊNCIA HIPERTENSIVA 2.3 EMERGÊNCIA HIPERTENSIVA 3.0 TRATAMENTO GERAL DA CRISE HIPERTENSIVA 4.0 TRATAMENTO DAS EH EM SITUAÇÕES ESPECIAIS 4.1 ENCEFALOPATIA HIPERTENSIVA 4.2 HAS ACELERADA-MALIGNA 4.3 DISSECÇÃO AGUDA DE AORTA 4.4 EDEMA AGUDO DE PULMÃO (EAP) HIPERTENSIVO 4.5 USO DE DROGAS ILÍCITAS 5.0 Lista de questões 6.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 7.0 CONSIDERAÇÕES FINAISenvolvidos no surgimento da hipertensão. 8Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Fisiopatologia da HAS Hiperatividade simpática Disfunção endotelial Excesso de insulina Hiperatividade do SRAA Retenção de sódio e água Mecanismos fisiopatológicos envolvidos na hipertensão essencial. *SRAA: sistema renina-angiotensina-aldosterona. Diversos fatores de risco relacionam-se diretamente com o surgimento da HA, como demonstrado na tabela abaixo: Fatores de risco para o desenvolvimento de HAS Idade Sedentarismo Etnia negra Ingestão de álcool Sobrepeso e obesidade Baixo nível socioeconômico Ingestão excessiva de sal Genética Baixa ingestão de potássio Baixa religiosidade e espiritualidade Quanto ao gênero, um dado interessante é que a hipertensão parece predominar em homens até a sexta década de vida. Depois disso, a relação inverte-se. Alguns desses fatores de risco demandam tratamento específico e devem ser abordados como orientado na tabela abaixo: 9Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Fator de risco modificável Recomendação Sobrepeso e obesidade Manter IMCna fase IV de Korotkoff. 14Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica CAPÍTULO 3.0 CONCEITOS IMPORTANTES Agora que você já relembrou como fazemos o diagnóstico da hipertensão, separei alguns conceitos importantes para recordarmos. Este tópico merece uma atenção redobrada! • Hipotensão ortostática: queda na PA sistólica ≥ 20 mmHg ou da PA diastólica ≥ 10 mmHg entre a aferição em decúbito dorsal e após 3 minutos de ortostatismo. • Hiato auscultatório: consiste no desaparecimento dos sons durante a desinsuflação do manguito, geralmente entre o final da fase I e o início da fase II dos sons de Korotkoff, o que pode resultar em valores falsamente baixos (subestimados) para a pressão sistólica ou valores falsamente altos (superestimados) para a pressão diastólica. Uma forma de minimizar o risco desse fenômeno é insuflar o manguito sempre, pelo menos 30 mmHg acima do desaparecimento do pulso radial e manter a ausculta até o término completo da desinsuflação do manguito para avaliar se haverá o retorno dos sons de Korotkoff. Surgimento dos sons de Korotkoff Sons de Korotkoff desaparecem Reaparecimento dos sons de Korotkoff Sons de Korotkoff desaparecem novamente Momento em que a pressão arterial sistólica pode ser subestimada Momento em que a pressão arterial diastólica pode ser superestimada PRESSÃO ARTERIAL SISTÓLICA PRESSÃO ARTERIAL DIASTÓLICA HIATO AUSCULTATÓRIO Demonstração esquemática do hiato auscultatório. • Pseudo-hipertensão: com a idade, ocorre o aumento da rigidez dos vasos devido à redução das fibras elásticas e aumento do colágeno. Quando esse processo se acentua, há uma maior dificuldade em comprimir a artéria com a insuflação do manguito, e, consequentemente, a pressão verificada pelo método palpatório será maior do que a pressão real, o que caracteriza a pseudo-hipertensão. O diagnóstico pode ser feito por meio da manobra de Osler, que consiste em insuflar o manguito pelo menos 30 mmHg acima da pressão 15Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica arterial sistólica obtida pelo método auscultatório, tentando-se delimitar à palpação as artérias radial e/ ou braquial. Se for possível palpá-las, a manobra de Osler é positiva e confirma o diagnóstico de pseudo- hipertensão arterial. • Hipertensão sistólica isolada: pressão arterial sistólica ≥ 140 mmHg e pressão arterial diastólicaos valores pressóricos aferidos no consultório (PAC) e no ambulatório (MAPA), numere os achados pressóricos da segunda coluna de acordo com os diagnósticos da primeira coluna. 1. Hipertensão controlada. 2. Hipertensão arterial sistêmica. 3. Hipertensão do avental branco. 4. Hipertensão mascarada. ( ) PAC 130/85 mmHg. ( ) PAC > ou = 140/90 mmHg, MAPA > 130/85 mmHg. ( ) PAC > ou = 140/90 mmHg, MAPA 130/85 mmHg: pressão arterial no consultório normal e pressão arterial no MAPA alterada, o diagnóstico é hipertensão mascarada. (2) PAC ≥ 140/90 mmHg, MAPA > 130/85 mmHg: pressão arterial no mapa e no consultório alteradas, o diagnóstico é hipertensão arterial sistêmica. (3) PAC ≥ 140/90 mmHg, MAPApode ser classificada de acordo com a gravidade da seguinte forma: • DAOP leve: ITB entre 0,71 e 0,9. • DAOP moderada: ITB entre 0,41 e 0,70. • DAOP grave: ITB ≤ 0,4. 5.2 EXAMES COMPLEMENTARES Os exames complementares são fundamentais na avaliação do paciente portador de HAS, pois permitem identificar a presença de fatores de risco cardiovascular adicionais e de lesões de órgãos-alvo, auxiliando na estimativa do risco cardiovascular dos pacientes. Vamos apresentar, na próxima tabela, os exames de rotina que devem fazer parte da avaliação inicial de todo paciente hipertenso, devendo ser repetidos pelo menos anualmente. Exames de rotina na avaliação inicial da HAS Exames de rotina no paciente hipertenso Glicemia de jejum e hemoglobina glicada (HbA1c) Creatinina plasmática Potássio sérico Ácido úrico plasmático Taxa de filtração glomerular estimada (TFG-e) Análise de urina (EAS) Perfil lipídico → colesterol total e frações (HDL-c e LDL-c), triglicerídeos plasmáticos Eletrocardiograma de 12 derivações 23Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica São muitos exames, não é mesmo? Sendo assim, vai aí nosso mnemônico: Um Único Grande Homem Pode, Facilmente, Conseguir Lembrar ou Esquecer! • Urina (EAS) • Úrico (ácido) • Glicemia • Hemoglobina glicada • Potássio • Filtração glomerular • Creatinina • Lipidograma • Eletrocardiograma Atente-se para algumas pegadinhas. A ureia não precisa ser dosada de rotina, assim como o teste de tolerância à glicose, o sódio e o ecocardiograma. Outro exame que deve ser feito de rotina é o fundo de olho. Porém, na Diretriz, não é considerado um exame complementar, e sim, uma extensão do exame físico. CAPÍTULO 6.0 ESTRATIFICAÇÃO DE RISCO CARDIOVASCULAR Feito o diagnóstico de hipertensão, o próximo passo é estratificar o risco cardiovascular do paciente. Essa estratificação terá um papel fundamental no prognóstico e no tratamento. A grande maioria dos indivíduos hipertensos apresenta outros fatores de risco que contribuirão para um aumento do risco global. Dessa forma, a estratificação do risco cardiovascular adicional do paciente hipertenso tem por objetivo a identificação de três elementos principais: • Presença de fatores de risco cardiovascular adicionais. • Presença de sinais de lesão em órgãos-alvo associados à hipertensão. • Presença de critérios de doença cardiovascular e/ou renal já estabelecida. A análise combinada dessas três variáveis, em conjunto com o valor absoluto dos níveis pressóricos, permite a classificação do risco cardiovascular adicional do paciente hipertenso em 3 níveis: baixo, moderado e alto risco. 24Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Os pacientes que apresentam lesões de órgão-alvo, doença cardiovascular ou renal documentada ou diabetes já são considerados como de alto risco cardiovascular! Para classificar os demais pacientes, devemos pesquisar os fatores de risco adicionais, apresentados na tabela abaixo: Fatores de risco cardiovascular na avaliação do risco adicional do hipertenso Fatores de risco Sexo masculino Idade • Homens ≥ 55 anos ou mulheres ≥ 65 anos Dislipidemia • Colesterol total > 190 mg/dL • LDL-c > 115 mg/dL • HDL-c 150 mg/dL Resistência à insulina • Glicemia de jejum entre 100 e 125 mg/dL • Teste oral de tolerância à glicose: 140-199 mg/dL em 2 horas • Hemoglobina glicada: 5,7% – 6,4% Obesidade • IMC ≥ 30 kg/m² • Circunferência abdominal ≥ 102 cm nos homens ou ≥ 88 cm nas mulheres Tabagismo História familiar positiva de doença cardiovascular precoce em parentes de 1º grau: • homens abaixo dos 55 anos ou mulheres abaixo dos 65 anos *LDL-c: lipoproteína de baixa densidade; HDL-c: Lipoproteína de alta densidade; IMC: índice de massa corporal 25Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Agora, veja a definição de lesão de órgão-alvo e de doença cardiovascular documentada no paciente hipertenso: Lesões de órgãos-alvo na avaliação do risco adicional do hipertenso Lesões de órgãos-alvo (alto risco) Hipertrofia ventricular esquerda (figura 1) • ECG: índice de Sokolow-Lyon → onda S de V1 + onda R de V5 ou V6 ≥ 35 mm • ECG: onda R de aVL ≥ 11 mm • ECG: índice de Cornell: (onda R de aVL + S de V3) ≥ 28 mm em homens e 20 mm em mulheres. • ECO: massa ventricular esquerda > 115 g/m² nos homens ou > 95 g/m² nas mulheres Placa carotídea detectada na ultrassonografia Velocidade da onda de pulso carotídeo-femoral > 10 m/s Índice tornozelo-braquial 300 mg/24 h ou relação albumina/creatinina urinária > 300 mg/g em amostra isolada Retinopatia avançada (graus 3 e 4) • Hemorragias retinianas, exsudatos, papiledema *AVC: acidente vascular cerebral; TFG-e: taxa de filtração glomerular estimada. Avaliar os níveis de PA Classificar em pré- hipertenso ou hipertenso estágio 1, 2 ou 3 PASSO 1 Avaliar se existe LOA, DCV, DCR ou DM PASSO 2 Avaliar os fatores de risco adicionais PASSO 3 Na vigência de qualquer um, o paciente é classificado como de alto risco cardiovascular. Após estabelecer o número de fatores de risco, deve-se classificar o paciente segundo a tabela que será apresentada adiante. PA: pressão arterial; LOA: lesão de órgão-alvo; DCV: doença cardiovascular; DRC: doença renal crônica; DM: diabetes mellitus. Após obter os dados desses fatores (níveis da pressão arterial, fatores de risco adicionais, lesões de órgão-alvo, diabetes mellitus e doença cardiovascular/renal crônica), devemos alocar o paciente na tabela abaixo, que é adaptada da VIII Diretriz Brasileira de Hipertensão. Dessa forma, realizaremos a classificação do risco cardiovascular: 28Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Estimativa de risco cardiovascular. Pré-hipertensão PAS 130-139 ou PAD 85-89 HAS estágio 1 PAS 140-159 ou PAD 90-99 HAS estágio 2 PAS 160-179 ou PAD 100-109 HAS estágio 3 PAS ≥ 180 ou PAD ≥ 110 Sem fator de risco Sem risco adicional Risco baixo Risco moderado Risco alto 1-2 fatores de risco Risco baixo Risco moderado Risco alto Risco alto ≥ 3 fatores de risco Risco moderado Risco alto Risco alto Risco alto Presença de LOA, DCV, DRC ou DM Risco alto Risco alto Risco alto Riscoalto LOA: lesão de órgão alvo; DCV: doença cardiovascular; DRC: doença renal crônica; DM: diabetes mellitus; PAS: pressão arterial sistólica; PAD: pressão arterial diastólica. Para facilitar sua vida, vou deixar um esquema de como estratificar o paciente de forma simples e rápida. Repare que, se a hipertensão estiver associada a qualquer uma das seguintes condições (diabetes, lesão de órgão-alvo, doença cardiovascular ou doença renal crônica estágio ≥ 3), o paciente é de ALTO RISCO. 29Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Doença renal crônica (estágio ≥ 3) ou ou ou Doença cardiovascular Lesão de órgão-alvo Diabetes RISCO ALTO Hipertensão Arterial As questões ADORAM explorar a dobradinha hipertensão e diabetes. Viu as duas? ALTO RISCO! Não esqueça também das outras condições que sempre irão conferir um risco cardiovascular elevado: lesão de órgão-alvo, doença cardiovascular e doença renal crônica. CAPÍTULO 7.0 METAS TERAPÊUTICAS A decisão de tratar ou não um paciente hipertenso e a estratégia a ser utilizada dependerão de seu risco cardiovascular. Quanto maior o risco, maior a AGRESSIVIDADE no tratamento e mais rígida a meta de PA! Manter a pressão arterial elevada pode ser fatal para seu paciente, aumentando o risco de infarto, AVC e morte! Estudos já demonstraram que a redução de 10 mmHg na pressão arterial sistólica (PAS) e de 5 mmHg na pressão arterial diastólica (PAD) pode reduzir o risco de acidente vascular encefálico em 37%, doença arterial coronariana em 22%, insuficiência cardíaca em 46%, mortalidade cardiovascular em 20% e morte total em 12%. Um detalhe importante: quanto maior o risco, maior o benefício! 30Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Resumindo as metas de tratamento... Risco cardiovascular baixo ou moderado Risco cardiovascular alto Idosos hígidos Idosos frágeis PA sistólica (mmHg) 30 mg/24 h), mostrando que há nefropatia incipiente. Agora ficou fácil: paciente hipertenso e diabético = ALTO RISCO. A meta de PA deve ser 7%. Entretanto, a maior causa de morte em pacientes diabéticos são as doenças cardiovasculares, assim, o controle glicêmico não é a principal medida na redução de morbimortalidade. Incorreta a alternativa B. A restrição de proteínas na dieta é feita quando há queda na taxa de filtração glomerular (Os pacientes abstêmios não devem ser estimulados ao consumo de bebidas alcoólicas. PAS: 5 mmHg PAD: 4 mmHg Exercício físico Preferir atividades aeróbicas: 150 minutos de atividade moderada por semana (30 minutos por 5 dias) PAS: 12 mmHg PAD: 6 mmHg (aeróbico) 34Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica CAPÍTULO 9.0 TRATAMENTO MEDICAMENTOSO Este é o tópico mais importante deste livro! Se você está cansado(a) ou com sono, é hora de jogar uma água no rosto ou tomar um café! Na maioria das situações, somente o tratamento não medicamento não será suficiente para atingirmos a meta de pressão arterial. Sendo assim, devemos iniciar o tratamento medicamentoso. O primeiro conceito que deve estar claro em sua mente é: em qual paciente eu devo começar tratamento medicamentoso? Como falado anteriormente, tudo depende do risco. Então, doentes de moderado ou alto risco devem receber tratamento medicamentoso logo após o diagnóstico. Além disso, os doentes que são MUITO hipertensos (estágio 2 e 3), independentemente do risco, também deverão receber tratamento medicamentoso ao diagnóstico. Também iniciaremos tratamento farmacológico nos pacientes que falharam na implementação da terapia não medicamentosa. Nesses casos, esperamos 3 meses para avaliar os efeitos desse tratamento. Por fim, iniciaremos tratamento medicamentoso no idoso hígido quando PAS ≥ 140 mmHg e no idoso frágil, quando PAS ≥ 160 mmHg. QUANDO INICIAR TRATAMENTO MEDICAMENTOSO NA HIPERTENSÃO ARTERIAL? Pré-hipertensão e DCV preexistente ou risco baixo Hipertensão estágio 1 Risco baixo APÓS 3 MESES EM CASO DE FALÊNCIA DO TNM Hipertensão estágio 1 Risco moderado ou alto Hipertensão estágio 2 Hipertensão estágio 3 Idosos frágeis com PAS ≥ 140mmHg Idosos hígidos com PAS ≥ 160mmHg AO DIAGNÓSTICO *DVC: doença cardiovascular; TNM: tratamento não medicamentoso; PAS: pressão arterial sistólica. Repare que, na maioria das situações, vamos iniciar o tratamento ao diagnóstico! O próximo passo é definir qual será a estratégia utilizada: monoterapia ou terapia combinada. A monoterapia será a opção quando desejarmos 35Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica pequena redução da pressão arterial (HAS estágio 1 com risco baixo, pré-hipertenso com risco alto e indivíduos idosos e/ou frágeis). Na maioria das vezes, optaremos pelo tratamento combinado por alguns motivos: • O uso de duas ou mais drogas permite a atuação em mecanismos fisiopatológicos distintos por ações sinérgicas e pela inibição dos mecanismos contrarregulatórios. • A combinação de fármacos permite a utilização de doses menores, reduzindo a ocorrência de efeitos colaterais que são, na maioria das vezes, dosedependentes. • O uso de combinações em comprimido único aumenta a adesão ao tratamento. Estudos demonstraram que o início do tratamento combinado com doses fixas associou-se à redução de desfechos cardiovasculares em comparação com a monoterapia, além de alcance mais rápido da meta pressórica. Você verá que a maioria das questões do Revalida envolve tratamento combinado. FLUXOGRAMA DE TRATAMENTO DA HIPERTENSÃO ARTERIAL Combinação de 2 fármacos Monoterapia � Pré-hipertenso com risco muito alto � Estágio 1 com risco baixo � Idosos e indivíduos frágeis � HAS estágio 1 (risco moderado/alto) � HAS estágio 2 e 3 Tiazídico, BCC, IECA, BRA e BB* Meta não alcançada Meta não alcançada Meta não alcançada Meta não alcançada IECA/BRA + BCC ou Tiazídico IECA/BRA + BCC + Tiazídico IECA/BRA + BCC + Tiazídico + Espironolactona Opções: BB, simpaticolítico central, alfabloqueadores, vasodilatador direto Combinação de 3 fármacos Quarto fármaco Adição de mais fármacos Há diversas opções no mercado na hora de selecionar os anti-hipertensivos para o paciente. Cada uma delas possui suas particularidades. Pontuaremos todos os detalhes importantes sobre essas drogas nos próximos tópicos, mas, antes de começar, você precisa saber quais são as drogas de PRIMEIRA LINHA: inibidores da ECA (IECA) ou bloqueadores do receptor da angiotensina (BRA), bloqueadores dos canais de cálcio (BCC) e diuréticos tiazídicos. Na maioria das vezes, o tratamento combinado necessitará de duas dessas três drogas. 36Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica DROGAS DE PRIMEIRA LINHA NO TRATAMENTO DA HIPERTENSÃO ARTERIAL: INIBIDORES DA ECA ou BLOQUEADORES DO RECEPTOR DE ANGIOTENSINA BLOQUEADORES DOS CANAIS DE CÁLCIO DIURÉTICOS TIAZÍDICOS CAI NA PROVA (Revalida – INEP 2016) Um homem com 45 anos de idade, trabalhador braçal, com 1,73 m de altura e 105 kg de peso (índice de massa corporal = 35 kg/m²), tabagista (20 cigarros/dia), procurou a unidade básica de saúde com relato de cefaleia constante na região da nuca, que piora no período vespertino. A medida de sua pressão arterial registrou 170 x 100 mmHg. A conduta a ser adotada para esse paciente é: A) Solicitar exames de sangue e urina para enquadrá-lo no escore de Framingham. B) Iniciar de imediato tratamento medicamentoso para controle da pressão arterial e orientar mudanças nos hábitos de vida. C) Recomendar a redução do peso e, caso a hipertensão persista após a redução do peso, iniciar o tratamento medicamentoso para controle da pressão arterial. D) Estimular e orientar mudanças nos hábitos de vida, fazer acompanhamento rigoroso com medições diárias da pressão arterial e aguardar resultados para iniciar o tratamento medicamentoso. COMENTÁRIO: Você se lembra das classificações de HA e de risco cardiovascular? Agora é o momento de utilizá-las. Uma PA de 170 x 100 mmHg classifica o paciente como hipertenso estágio 2. Além disso, ele possui 3 fatores de risco associados (sexo masculino, tabagismo, obesidade). Conclusão: trata-se de um homem com alto risco cardiovascular. A conduta é iniciar tratamento medicamentoso e mudança do estilo de vida imediatamente. Só mais uma informação importante: como temos uma PA > 140 x 90 mmHg associada a um risco cardiovascular alto, apenas uma aferição da pressão é suficiente para o diagnóstico. Incorreta a alternativa A. Os exames de sangue e urina certamente devem ser solicitados, porém o escore preconizado pela SBC é o escore de risco global, e não o de Framingham. Além disso, a prioridade agora é o tratamento, uma vez que a estimativa de risco não alteraria a conduta para hipertensos estágio 2 de alto risco cardiovascular. Correta a alternativa B. O paciente foi classificado como hipertenso estágio 2 de alto risco cardiovascular, portanto deve ser tratado imediatamente. 37Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Incorreta a alternativa C. A orientação de mudar o estilo de vida e depois retornar só pode ser considerada em hipertensos estágio 1 de baixo ou moderado risco cardiovascular. Incorreta a alternativa D. A orientação de monitorização residencial da pressão arterial estaria reservada a casos de suspeita de hipertensão do avental branco com hipertensão arterial estágio 1 no consultório. Gabarito: alternativa B. (Revalida – INEP 2013) Homem com 48 anos de idade procura o ambulatório de Clínica Médica para avaliação. Não apresenta história de comorbidades conhecidas prévias, mas é tabagista (20 maços-ano) e tem histórico familiar de hipertensão arterial sistêmica (HAS) importante. Nega diabetes, dislipidemia, etilismo, drogadição, acidente vascular cerebral, doença renal prévia, doenças da tireoide, doença arterial coronariana e uso crônico de medicações. No momento, encontra-se assintomático, com pressão arterial (PA) = 145 x 95 mmHg (medida duas vezes na consulta) e índice de massa corporal de 26,8 kg/m². A fundoscopia revelou arteríolas estreitadas, tortuosas e brilhantes (em fio de prata), além de cruzamento arterial patológico. A ausculta cardíaca revelou bulhas normofonéticas, ritmo cardíaco regular em três tempos, com presença de B4 e frequência cardíaca = 88 bpm. Não haviaturgência jugular. A ausculta pulmonar era normal. Não havia edema de membros inferiores. O eletrocardiograma revelou sinais de hipertrofia ventricular esquerda. A dosagem de creatinina e o sumário de urina (urina I) eram normais. Diante do quadro desse paciente, a meta de PA e a recomendação do tratamento neste momento são, respectivamente: A) PA 2,0 mg/mL ou clearance de creatinina ≤ 30 mL/min/1,73 m²) e na presença de edema (insuficiência cardíaca ou síndrome nefrótica). Os diuréticos poupadores de potássio (espironolactona e amilorida) também podem ser utilizados em associação com os tiazídicos. A espironolactona é a droga de escolha na hipertensão arterial resistente (será comentado adiante), enquanto a amilorida não é utilizada rotineiramente. Os efeitos colaterais mais frequentes dos tiazídicos são hipovolemia, cãibras, hipocalemia, hiponatremia, hipomagnesemia e disfunção erétil. A hipocalemia reduz a liberação de insulina, aumentando a intolerância à glicose e, com isso, o risco de evolução para diabetes. Por esse motivo, não será a primeira opção em pacientes diabéticos e com intolerância à glicose. Outro efeito colateral muito cobrado nas provas é a hiperuricemia. Viu gota no enunciado? Fuja dos diuréticos! Essa informação está lá para isso! Não caia nessa armadilha! Os diuréticos são muito bons na hipertensão sistólica isolada (elevação apenas da PAS), mais prevalente em idosos e na qual a fisiopatologia é relacionada à maior rigidez arterial. Por fim, como os negros possuem um perfil hiporreninêmico, os tiazídicos são boa opção nessa população. Os efeitos colaterais são cobrados nas provas! Então, vamos memorizar! EFEITOS COLATERAIS DOS TIAZÍDICOS � HIPOvolemia � HIPOcalemia � HIPOnatremia � HIPOmagnesemia � HIPOfunção sexual (disfunção erétil) 5 HIPO � HIPERcalcemia � HIPERuricemia � HIPERglicemia � HIPERlipidemia 4 HIPER 40Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Hiponatremia Hipocalemia Hiperuricemia Hipercalcemia Disfunção erétil Resistência insulínica Reduzem mortalidade e morbidade cardiovascular Mecanismo de ação: Inibem o transportador Na+/Cl- no TCD Redução da PA: Efeito natriurético inicial com redução da volemia. Após 4/6 semanas, redução da RVP Efeitos colaterais principais Medicamentos: hidroclorotizadida, Indapamida e clortalidona Boa opção em idosos, negros e hipertensão sistólica isolada DIURÉTICOS TIAZÍDICOS *TCD: túbulo contorcido distal; PA: pressão arterial; RVP: resistência vascular periférica. Medicamento Dose diária habitual (mg) Frequência Comentários Hidroclorotiazida 25-50 1x/dia A dose de 50 mg é pouco utilizada e agrega pouco do ponto de vista anti-hipertensivo. Clortalidona 12,5-25 1x/dia É um dos diuréticos mais potentes e deve ser escolhido em caso de HAS refratária ou resistente Indapamida 1,5 1x/dia Possui formulação de liberação estendida e afeta menos o perfil metabólico Com relação à espironolactona, os principais efeitos colaterais são: hipercalemia, ginecomastia, anormalidades menstruais, impotência e redução da libido. A droga deve ser utilizada com cautela nas seguintes situações: • Hipercalemia significativa (K+ > 5,0 mmol/L): considerar suspender a droga ou reduzir dose. • Disfunção renal significativa (creatinina > 2,5 mg/dL ou clearanceque NÃO costumamos usar para hipertensão são os NÃO di-hidropiridínicos. Os di-hidropiridínicos bloqueiam os canais de cálcio presentes na membrana muscular lisa das arteríolas. Você lembra que o cálcio é um íon fundamental para contração? Então, com seu bloqueio, a quantidade de cálcio no interior das células musculares será menor e, com isso, a contração vascular ficará prejudicada, reduzindo a resistência vascular periférica. Essa classe possui potente efeito vasodilatador e atuará no leito arterial e venoso (mais potente no leito arterial). Já os não di-hidropiridínicos atuarão, principalmente, no tecido miocárdico, reduzindo o inotropismo (força de contração) e cronotropismo (frequência cardíaca), com pouco efeito vasodilatador. Por isso esses medicamentos não fazem parte do arsenal terapêutico de primeira linha da hipertensão arterial. Na maioria das vezes, iremos usá-los como antiarrítmicos. As formulações com ação prolongada ou meia-vida mais longa são as preferíveis no tratamento do paciente hipertenso. O efeito colateral clássico dos BCC é o edema maleolar, que ocorre pela transudação capilar causada pelo maior efeito vasodilatador no leito arterial que no venoso. Em geral, os efeitos colaterais são dosedependentes e demandarão suspensão ou troca da medicação. Outros efeitos colaterais que podem surgir: cefaleia latejante, tonturas, rubor facial, dermatite ocre (hipercromia do terço distal das pernas) e hipertrofia gengival. Efeitos colaterais dos BCC. Foto gentilmente cedida pelo Dr. Bruno Souza. 42Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Edema maleolar Cefaleia latejante Dermatite ocre Tonturas Rubor facial Hipertrofia gengival Reduzem mortalidade e morbidade cardiovascular Mecanismo de ação dos di-hidropiridínicos: Redução do cálcio na membrana muscular lisa das arteríolas Não di-hidropiridínicos: Não uso na HAS Efeitos colaterais principais Medicamentos: anlodipino, nifedipino, felodipino, manidipino, levanlodipino... Boa opção em todos pacientes, exceto portadores de IC BLOQUEADORES DOS CANAIS DE CÁLCIO *IC: insuficiência cardíaca. Medicamento Dose diária habitual (mg) Frequência Comentários Anlodipino 2,5-10 1x/dia Mais utilizado Nifedipino 10-60 1-3x/dia Preferir a formulação de liberação prolongada Manidipino 10-30 1x/dia Boa opção no paciente que desenvolve edema maleolar Levanlodipino 2,5-5 1x/dia 9.3 INIBIDORES DA ENZIMA CONVERSORA DE ANGIOTENSINA (IECA) E BLOQUEADORES DO RECEPTOR DA ANGIOTENSINA (BRA) Os IECA atuam inibindo a conversão de angiotensina I em angiotensina II (que possui potente ação vasoconstritora) e reduzindo a degradação da bradicinina, molécula com propriedade vasodilatadora. Por outro lado, os BRA atuam inibindo o receptor AT1, responsáveis pela atuação da angiotensina II como vasoconstrição, liberação de aldosterona e estímulo à proliferação celular. Pode parecer bobagem, mas o detalhe da bradicinina faz toda a diferença. O acúmulo de bradicinina ativará algumas cascatas específicas que propiciarão a liberação de histamina pelos mastócitos e aumentarão 43Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica a sensibilidade das vias nervosas, provocando a tosse, principal efeito colateral dos IECA. Entendeu por que os IECA dão tosse, e os BRA, não? A figura abaixo sumariza o efeito dessas drogas: Angiotensinogênio Renina Angiotensina I Angiotensina II Bradicinina IECA Metabólitos inativos Receptor AT1 BRA ECA *ECA: enzima conversora de angiotensina I; IECA: inibidor da ECA; AT1: angiotensina 1; BRA: bloqueador do receptor da angiotensina II. Tanto os IECA como os BRA são drogas eficazes no tratamento da HAS, com redução de morbidade e mortalidade cardiovascular. Em geral, iniciamos o tratamento com o IECA e só trocamos pelo BRA se houver intolerância (principalmente tosse). São medicações com eficácia comprovada em diversas doenças cardiovasculares, como insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida e após infarto agudo do miocárdio, quando atua no remodelamento cardíaco. Um dos principais efeitos benéficos dos IECA/BRA é o retardo no declínio da função renal, especialmente em portadores de albuminúria. Por isso, é a droga queridinha dos diabéticos, visto que são pacientes com maior risco de doença renal. Nas provas, TEM QUE INCLUIR o IECA ou BRA no tratamento dos hipertensos diabéticos, exceto se houver contraindicações. Assim como as outras drogas que atuam no sistema renina-angiotensina-aldosterona, os IECA/BRA provocarão hipercalemia, tornando fundamental o acompanhamento dos níveis séricos de potássio após introdução da droga, especialmente em doentes renais crônicos. Se houver redução da função renal (superior a 30%), a medicação deve ser suspensa, e devemos investigar estenose de artérias renais (mais detalhes no módulo sobre HA secundária). Além disso, IECA e BRA não devem ser utilizados em associação em nenhuma hipótese. O uso concomitante dessas drogas não traz benefícios e aumenta o risco de efeitos colaterais. Por fim, esses medicamentos estão contraindicados em mulheres grávidas em qualquer fase da gestação, pois podem gerar complicações fetais. 44Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica Hipercalemia Angioedema Piora discreta da função renal Tosse seca com IECA Reduzem mortalidade e morbidade cardiovascular Mecanismo de ação: IECA: inibe a conversão de AT1 em AT2 BRA: inibe o receptor de AT1 Retardam o declínio da função renal, especialmente nos pacientes com albuminúria Efeitos colaterais principais Medicamentos: IECA: captopril, enalapril, lisinopril... BRA: losartana, valsartana, olmesartana... Boa opção em todos pacientes, especialmente DIABÉTICOS. portadores de IC e IAM IECA/BRA Contraindicado em grávidas Nunca usar IECA + BRA *AT1: angiotensina 1; AT2: angiotensina 2; IECA: inibidor da enzima conversora de angiotensina; BRA: bloqueador do receptor da angiotensina; IC: insuficiência cardíaca; IAM: infarto agudo do miocárdio. Medicamento Dose diária habitual (mg) Frequência Comentários Captopril 25-150 2-3x/dia Menor meia vida Enalapril 5-40 1-2x/dia IECA mais utilizado Lisinopril 10-40 1x/dia Permitem o uso único diário Ramipril 2,5-20 1-2x/dia Losartana 50-100 1-2x/dia BRA mais utilizado Valsartana 80-320 1x/dia Permitem o uso único diárioCandesartana 8-32 1x/dia Olmesartana 20-40 1x/dia 45Prof. Paulo Dalto | Cardiologia | Março 2022 Hipertensão Arterial Sistêmica 9.4 BETABLOQUEADORES Antigamente, os betabloqueadores faziam parte da lista dos medicamentos de primeira linha. No entanto, quando comparados aos outros anti-hipertensivos (especialmente os de primeira linha), os betabloqueadores aumentam em 16% o risco de AVC. Por isso, essa droga saiu do time titular e foi para o banco de reservas. Mas atenção: os betabloqueadores são drogas de primeira linha na insuficiência cardíaca e na doença arterial coronariana. ATENÇÃO! Betabloqueador só é anti-hipertensivo de primeira linha na insuficiência cardíaca e na doença arterial coronariana! Além de seu fraco efeito hipotensor, os betabloqueadores apresentam muitos efeitos adversos. Então, fique atento(a)! Os principais efeitos colaterais são: broncoespasmo e vasoconstrição periférica (mais comum nos betabloqueadores não seletivos), bradicardia, insônia, pesadelos, astenia e disfunção sexual. Para memorizar, basta lembrar que o betabloqueador gosta de reduzir as coisas: reduz o calibre do brônquio, reduz a frequência cardíaca, reduz o calibre do vaso periférico, reduz o sono, reduz a força e a libido. Além desses efeitos, esses medicamentos também afetam o metabolismo lipídico e glicídico. Os betabloqueadores podem interferir na liberação de insulina e aumentar a resistência à insulina endógena, fazendo surgir novos casos de diabetes. Atenção: o impacto sobre o metabolismo da glicose é potencializado quando em conjunto