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Disciplina Digital 1Unidade 2 I Psicometria Nesta unidade, você conhecerá as classificações dos testes psicológicos, as etapas necessárias para a construção destes instrumentos, os critérios ou etapas necessárias para a utilização dos testes psicológicos e seus pressupostos psicométricos. INICIANDO O TEMA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de: • identificar alguns tipos de classificações de testes psicológicos; • compreender os pressupostos psicométricos dos testes psicológicos e as etapas necessárias para a construção de um teste psicológico; • compreender os critérios necessários para a utilização dos testes psicológicos; • desenvolver habilidades e competências para a aplicação dos testes psicológicos baseado em pressupostos científicos e éticos visando à prevenção, promoção e reabilitação da saúde psicológica e social, considerando os aspectos individuais, grupais e socioeconômicos e as regulamentações técnicas internacionais e nacionais. Prof. Jamir João Sardá Jr. 2 PRESSUPOSTOS PSICOMÉTRICOS Psicometria I Unidade 22 Disciplina Digital 2.1 CLASSIFICAÇÃO DOS TESTES PSICOLÓGICOS Como já foi visto anteriormente, um teste psicológico é uma medida objetiva e padronizada de uma amostra de comportamento (ANASTASI, 1998 apud URBINA, 2007). Existem classificações mais genéricas e outras mais específicas sobre os instrumentos de medida. Além disto, não existe um consenso sobre como classificá-los, nem uma nomenclatura única. A seguir, apresentaremos algumas formas de classificação, segundo apresentado por Erthal (2009): • Cerdá (1972): administração, modo de expressão, o que medem. • Anastasi (1975): objetivo, instrumento, conteúdo, examinando, e uso da linguagem. • Yela (1979): método, fim, aplicador, forma de aplicação, material, característica. ATENÇÃO As classificações apresentadas não se contrapõem, na verdade, se complementam ou compartilham elementos em comum. O modo de administração e a forma de aplicação são elementos que abordam os mesmos aspectos. Da mesma forma o que medem, fim ou objetivo dizem respeito ao mesmo aspecto. A seguir, serão apresentadas e comentadas as diversas possibilidades de classificação, segundo proposto por Erthal (2009): a. Objetividade/padronização/método Com relação ao método, os testes psicológicos podem ser subdivididos em: • Testes Psicométricos ou Psicológicos: este tipo de teste é de natureza quantitativa, possuindo uma padronização estabelecida em termos de aplicação e correção. Seus resultados são expressos em números. O resultado é um produto e poderíamos conceber o avaliador como um fotógrafo, que registra um evento de forma precisa. 3Unidade 2 I Psicometria Disciplina Digital • Técnicas Projetivas: são de natureza qualitativa, embora as técnicas mais modernas possam considerar alguns recursos quantitativos. Os resultados são mais descritivos, as informações produzidas mais ricas. Existe uma subjetividade maior no processo de aplicação e correção, sendo o avaliador comparado a um artista, pois muitas vezes a interpretação dos resultados depende da habilidade do avaliador. b. Finalidade A finalidade se refere ao propósito do teste, podendo este ser classificado como um teste de velocidade e rapidez ou potência e nível. • Velocidade ou rapidez: medem a rapidez na execução de uma tarefa em um determinado tempo. • Potência ou nível: medem o desempenho em termos de qualidade na execução das tarefas. Este tipo de classificação não é muito adotado atualmente. Todavia, é importante lembrar que diversos testes consideram em sua correção o desempenho do teste em termos de itens corretos respondidos em um determinado tempo. Em muitos casos, a resposta em menor tempo acrescenta pontos adicionais (ex.: alguns subtestes do WISC). c. Examinador Este critério salienta a interferência do avaliador no processo de aplicação e correção. Classificando os testes como pessoais ou impessoais. Nos testes pessoais, há uma maior influência do sujeito na aplicação e correção (ex.: técnicas projetivas), já nos impessoais (ex: testes psicológicos) há uma menor influência do avaliador. d. Modo de administração No tocante ao modo de administração dos testes, estes podem ser classificados como: • Individual: neste caso, o teste só pode ser aplicado a um sujeito de cada vez (ex.: WISC). • Coletivo: aqui o teste ou técnica pode ser aplicado a diversos indivíduos simultaneamente (ex.: BDI ou palográfico). • Autoaplicável: uma outra possibilidade de classificação, diz respeito aos testes que contém uma instrução bastante padronizada, que permitem ao avaliado, ler as instruções e realizados. Este tipo de instrumento permite em geral a aplicação de forma individual e coletiva. Psicometria I Unidade 24 Disciplina Digital e. Modo de expressão Esta classificação se refere ao tipo de resposta dada. Neste sentido, as respostas de um teste podem ser verbais ou orais, impressas, que implicam em respostas escritas ou de execução, quando sujeito realiza uma tarefa. f. Organização Este tipo de classificação implica na aplicação dos testes de modo individual, ou seja, a aplicação de um único teste. Porém, há situações em que aplicamos um conjunto de testes, uma bateria de testes, porém eles não estão relacionados, ou seja, avaliam construtos que não apresentam relação (ex.: aplicação dês testes para obtenção da CNH). Já na aplicação de escalas, os testes aplicados avaliam construtos relacionados (ex.: escalas Beck ou WISC). g. Construto/fenômeno/atributo Esta categoria de classificação diz respeito ao fenômeno que o teste avalia. Pode ser dividida em testes que medem: • Capacidade/aptidão: acessam fenômenos como memória, inteligência ou outras funções cognitivas. • Personalidade: diz respeito aos testes que medem os construtos de personalidade, características estáveis. Por exemplo, neuroticismo (ex.: EFN, IFP II, Quati). • Interesses, atitudes: aqui estão os testes que medem atitudes sobre determinadas situações ou outros fenômenos que não contemplam aspectos cognitivos ou de personalidade (ex.: estresse, habilidades sociais). Dentre as diversas formas ou tipo de classificação, embora todas elas ilustrem aspectos importantes ou características importantes de um teste, é importante salientar que as mais relevantes dizem respeito ao método, ou abordagem metodológica do teste (psicométricos ou técnicas projetivas) e a classificação com relação ao construto, pois define o que o teste mede, qual o atributo ou objeto avaliado (capacidade ou aptidão, personalidade ou interesses ou atitudes). Agora que você já conhece as diversas classificações dos testes ou técnicas, cite três tipos de classificação de testes. NA PRÁTICA 5Unidade 2 I Psicometria Disciplina Digital 2.2 CRITÉRIOS PARA O USO DOS TESTES PSICOLÓGICOS Agora vamos conhecer alguns elementos que devem ser observados no uso dos testes psicológicos. Para que um teste psicológico atinja seus objetivos como instrumento de medida cientificamente válido, é necessário seja utilizado de forma adequada. É imprescindível o controle em relação à sua utilização, limitando a venda e o uso a pessoas habilitadas para tal, e também evitando a divulgação do seu conteúdo (ERTHAL, 2009, p. 68). Vale a pena salientar que o aplicador deve estar preparado para o uso do teste. Isto implica em conhecer e estar familiarizado com o que o teste avalia, como deve ser conduzida sua aplicação e correção, bem como ter os cuidados necessários na divulgação dos resultados. Segundo van Kolck (apud ERTHAL, 2009), três aspectos devem ser observados para o uso pleno de um teste psicológico. • escolha; • aplicação; • avaliação. 2.2.1 A escolha do instrumento a. Objetivo Este item diz respeito à importância de definir claramente o objetivo da aplicação do teste e o que se pretende medir. Por exemplo, existem diversos testes que avaliam estresse, porém alguns avaliam ouacessam sintomas de estresse, enquanto outros investigam os eventos estressores ou ainda as estratégias de enfrentamento utilizadas. b. Características do sujeito Na escolha de determinado teste, também é importante estar atento às características da população em que o teste vai ser aplicado. Os principais aspectos aqui são grau de escolaridade e faixa etária. Por exemplo, temos versões de testes de estresse para crianças, adolescentes e adultos. Em outras situações, temos versões de testes, formas ou instruções diferenciadas segundo nível de escolaridade. Psicometria I Unidade 26 Disciplina Digital c. Requisitos do teste Para que possamos utilizar um teste, é importante observarmos seus requisitos primários e secundários. Os requisitos primários dizem respeito à validade, fidedignidade e padronização do teste. Se o teste não apresenta algumas destas propriedades ele não pode ser utilizado (no próximo tópico, abordaremos as propriedades psicométricas dos testes psicológicos). Uma das formas de examinar isto é acessando o parecer do Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos do Conselho Federal de Psicologia (SATEPSI). Acesse: SAIBA MAIS! A Resolução CFP nº 009/2018 estabelece diretrizes para a realização de Avaliação Psicológica no exercício profissional do psicólogo e regulamenta o Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos – SATEPSI, bem como estabelece quais requisitos mínimos os instrumentos devem apresentar para serem reconhecidos como testes psicológicos. No site do SATEPSI são apresentados, em duas abas, os instrumentos que podem ser usados pelas(os) psicólogas(os) na prática profissional (testes psicológicos favoráveis e instrumentos não privativos do psicólogo) e aqueles que não podem ser utilizados na prática profissional (testes psicológicos desfavoráveis e testes psicológicos não avaliados). 7Unidade 2 I Psicometria Disciplina Digital O referido sistema foi desenvolvido pela Gerência de Tecnologia da Informação do CFP. ATENÇÃO Esta consulta ao parecer do CFP não o exime de verificar as propriedades psicométricas do teste no manual, mas lhe dá uma segurança. Caso você opte por utilizar escalas ou inventários publicados em revistas científicas, as propriedades psicométricas são sempre descritas nos artigos. Com o intuito de colocá-lo(a) em contato com estes aspectos referentes às propriedades psicométricas dos testes psicológicos, sugiro que você acesse o link do SATEPSI no site do CFP, disponibilizado anteriormente ou no endereço . SAIBA MAIS! As qualidades secundárias dizem respeito à simplicidade do material, facilidade e rapidez na aplicação, tempo de aplicação, correção e interpretação e custo do teste. Neste sentido, um teste ideal deveria ser interessante, fácil de corrigir e interpretar e ser barato. Infelizmente nem sempre é simples assim, por isto estes aspectos devem ser observados e pesados quando da escolha do teste psicológico a ser usado. 2.2.2 Aplicação dos testes Os testes psicológicos podem ser usados para diferentes fins. Segundo Erthal (2009), eles podem ser usados para classificação, promoção do autodesenvolvimento, intervenção psicoterapêutica, avaliação de programas ou pesquisa científica. Independente dos fins objetivos da aplicação, as instruções contidas no manual devem ser rigorosamente cumpridas, incluindo o tempo de aplicação. Modificações das instruções podem muitas vezes invalidar a aplicação. Psicometria I Unidade 28 Disciplina Digital A seguir, destacamos alguns aspectos que devem ser observados: • Condições do ambiente: incluem aspectos referentes à luminosidade e adequação do material necessário para realizar o teste. • Vínculo: é importante deixar o sujeito à vontade para a aplicação do teste, explicando o que o teste avalia, como será feito. • Este relacionamento estabelecido entre o avaliador e o avaliado pode contribuir para a redução da ansiedade, que uma situação de avaliação pode gerar contribuindo para o melhor desempenho no teste. • É necessário também estar atento à escolha do teste e instrumentos que são excessivamente usados e por isto podem ter suas respostas aprendidas ou fraudadas. ATENÇÃO Em função de existirem atualmente diversas instruções na internet sobre o modo de fazer testes, a escolha adequada de um instrumento minimiza este fator. 2.2.3 Avaliação A avaliação dos testes em geral é feita após a aplicação, porém em alguns casos, é necessário saber se as respostas dadas estão corretas ou erradas, pois isto implica pular questões ou passar p outra fase do teste (ex.: WISC). É óbvio que o avaliador deve estar familiarizado com os procedimentos de aplicação e correção do teste, devendo conhecer as normas do teste para a correção, conversão dos pontos obtidos. 2.2.4 Aspectos éticos Em muitas situações, principalmente quando estamos avaliando menores ou realizando a aplicação do teste para fins de pesquisa, é necessário que o sujeito assine o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). 9Unidade 2 I Psicometria Disciplina Digital Além disto, os resultados de um teste ou uma avaliação só devem ser fornecidos a quem os realizou, salvo exceções como concursos públicos. Em algumas situações, o avaliador deve elaborar um relatório psicológico ou parecer com os resultados da testagem ou avaliação. Mas isto já é um assunto para outro momento. 2.2.5 Vantagens e desvantagens do uso dos testes psicológicos Vantagens: • Praticidade. • Redução do tempo de avaliação. • Comparação dos resultados. • Possibilidade de serem aplicados a um grande número de sujeitos em uma mesma ocasião. Desvantagem: • Não englobam a totalidade de um fenômeno. • Se você deseja ampliar seu conhecimento sobre o uso dos testes psicológicos, existe uma série de resoluções do Conselho Federal de Psicologia sobre o uso dos testes psicológicos. SAIBA MAIS! Agora que você já conhece as definições formas de classificação dos testes psicológicos, vamos conhecer as etapas necessárias para a construção. Psicometria I Unidade 210 Disciplina Digital 2.3 PRESSUPOSTOS PSICOMÉTRICOS DOS TESTES PSICOLÓGICOS A figura a seguir descreve de forma sucinta os elementos presentes na construção de um teste psicológico. Figura 1 - Etapas para elaboração de medida psicológica Teóricos Teoria Construção do Instrumento Reflexão – Interesse – Livros Literatura – Peritos –Experiência – Análise de conteúdo Cat. de comportamentos – Literatura – Experiência - Entrevista Análise teórica e Semântica Sistema psicológico Propriedade Dimensionalidade Definições Operacionalização Análise dos itens Objeto psicológico Atributo Fatores Constitutiva Operacional Itens Instrumento piloto Experimentais Analítico Validação do instrumento Normatização Literatura, experiência, peritos Seguir planejamento Análise empírica Análise fatorial Consistência interna Teoria-definição de grupos critério e análise estatística Planejamento da aplicação Aplicação e coleta Dimensionalidade Análise dos itens Precisão da escala Estabelecimento de normas Amostra Instruções: formato e tarefa Dados (Matriz f) Fatores: Carga fatorial, eigenvalue, comunalidade Índice de dificuldade e discriminação Índice de precisão Normas (%, Z) Fonte: Pasquali (2006). Esta figura descreve de forma bastante sucinta as etapas necessárias na construção de um teste ou escala psicométrica. É necessário salientar que neste processo existem três etapas: • Teórica. • Experimental. • Análise dos dados. 11Unidade 2 I Psicometria DisciplinaDigital Na etapa teórica, devemos nos basear em modelos teóricos visando definir o construto a ser avaliado fundamentado na literatura científica. É importante salientar que os fenômenos psicológicos têm em geral modelos teóricos diversos. Portanto, cabe aqui uma demarcação teórica do fenômeno, do objeto e seus atributos constitucionais, considerando suas dimensões. Uma vez que o objeto a ser medido está solidamente definido, bem como suas dimensões, busca-se operacionalizar os itens, ou seja, criar frases ou tarefas que reflitam as propriedades do objeto a ser avaliado. Uma vez feito isto, a próxima etapa análise teórica e semântica dos itens constituídos. Posteriormente, ocorre a definição do tipo de escala a ser usada, por exemplo uma escala Likert de três ou quatro intervalos. Nesta etapa, com o instrumento piloto pronto, o teste é submetido à análise de juízes experts no assunto para que avaliem se os itens estão adequados do ponto de vista semântico e se refletem teoricamente as dimensões do construto proposto. A etapa experimental se inicia com o planejamento da aplicação, e isto implica em definir as instruções para a realização do teste, a definição da amostra ou população para a qual o teste será validado e sua aplicação. Considerando aqui a representatividade da amostra, que está relacionada com as características da população e o número de itens do teste. Uma vez que o teste foi aplicado, se dará início à etapa analítica ou à análise dos dados. Nesta etapa serão avaliadas as propriedades psicométricas do instrumento. Aqui podemos escolher diferentes procedimentos estatísticos para avaliar a normalidade dos resultados, ou seja, se eles são homogêneos. Feito isto, em geral, é realizada a análise fatorial dos itens, visando definir as dimensões ou fatores que melhor definem o construto, baseado em critérios estatístico e às vezes clínicos. Outros tipos de validade também podem ser analisados a partir de correlações deste instrumento com outros, ou mesmo comparações dos resultados entre diferentes grupos. Posteriormente, é feita a análise da fidedignidade ou precisão, que pode ser feita através da consistência interna dos itens (Alpha de Chronbach), teste-reteste, formas paralelas ou duas metades. Uma vez que o teste apresente validade e fidedignidade, vamos estabelecer os aspectos referentes à padronização. Ou seja, definir a forma utilizada para a interpretação dos resultados. Isto é feito a partir da média e do desvio padrão dos escores, estabelecimento de percentis e comparações entre grupos. A construção de um bom instrumento depende da consistência teórica, da capacidade de operacionalizar os itens, da coleta de dados com uma população representativa e das propriedades psicométricas do instrumento psicológico (validade, fidedignidade e padronização). NA PRÁTICA Psicometria I Unidade 212 Disciplina Digital Agora que você já tem uma ideia das etapas presentes na construção de um teste psicológico, vamos conhecer melhor as propriedades psicométricas, destes instrumentos. As propriedades psicométricas dos testes psicológicos são: validade, fidedignidade, padronização e aferição (ERTHAL, 2009; ANASTASI, 2006). 2.3.1 A Padronização A padronização diz respeito à uniformidade do processo de aplicação, avaliação e interpretação do teste. Sendo que alguns autores a subdividem em aferição, que concerne na graduação do teste, à fixação de graus de resultados a fim de poder comparar objetivamente os resultados de diversos indivíduos. Todavia, em nosso entendimento, a padronização contempla os aspectos implícitos na aferição, vamos, portanto, usar apenas o termo padronização. Padronização remete à uniformidade do processo na aplicação, avaliação e interpretação do teste. Implica em fixar critérios para se comparar objetivamente os resultados de diferentes indivíduos. Instruções para a administração do teste e para a avaliação e interpretação dos resultados. A estatística permite organizar e resumir dados para facilitar o entendimento. Implica na graduação do teste, fixação de graus de resultados, de unidades, a fim de comparar objetivamente diversos resultados. Ou ainda, fixar critérios para comparar objetivamente os resultados de diferentes indivíduos. Perceba que a padronização permite o estabelecimento de padrões para interpretar um escore. É importante compreender a necessidade de transformar escores ou pontos brutos em escore padronizados, e isto é necessário pois não existe um zero absoluto quando tratamos de fenômenos psicológicos. Isto ocorre porque não estamos medindo um objeto que possui propriedades absolutas como volume ou tamanho. Quando meço a quantidade de algo em litros, podemos dizer que está vazio ou não possui líquido algum. Já quando medimos fenômenos psicológicos isto não é possível, não podemos afirmar que alguém não possui inteligência ou memória alguma. Podemos, sim, inferir que seu resultado é o menor possível quando comparado com seu grupo. Esta é a principal razão para utilizar escores padronizados. Agora vamos avançar um pouco mais para compreender como isto pode ser feito. Para que possamos comparar resultados entre grupos ou indivíduos, precisamos utilizar da estatística paramétrica, uma estatística que trabalha com dados homogêneos. A curva normal representa a posição ou escores de todos os indivíduos. Escore Bruto Escore Padronizado Acertos e erros, pontos, tempo. Transformado, contextualizado Interpretação do resultado, significado 13Unidade 2 I Psicometria Disciplina Digital Figura 2 - Curva Normal Fonte: Pasquali (2006). A curva normal dispõe ou representa todos os escores de uma determinada população, desde os que têm o menor ao maior escore. A média e o desvio padrão são as estatísticas que permitem interpretar os resultados de uma população. A média consiste numa medida de tendência central, sendo obtida a partir dos escores de todos os sujeitos e dividida pelo número de sujeitos. Já o desvio padrão é uma medida de dispersão, e permite entender como os resultados se distanciam da média. Em geral, estamos interessados nos resultados abaixo de dois desvios padrões, onde se concentram 2,5% das menores respostas, em caso de testes onde uma menor pontuação indica um pior desempenho. Também estamos interessados em resultados localizados acima de dois desvios padrões, pois lá se localizam os maiores resultados. Isto é válido para os testes onde o maior número de pontos indica um melhor desempenho. Para os testes onde mais pontos indicam a presença de um transtorno, o raciocínio é o inverso (ex.: depressão), menores pontos indicam ausência de sintomas. NA PRÁTICA Psicometria I Unidade 214 Disciplina Digital Estabelecendo pontos de corte Conforme explicado, podemos estabelecer pontos de corte para interpretar os resultados de um teste. Isto significa escolher um escore que indica resultados importantes ou significativos. As principais formas de interpretação dos escores são realizadas a partir estatísticas ou critérios para o estabelecimento de pontos de corte, e podem ser realizadas a partir do: • escore bruto; • média e Desvio Padrão (tendência central e dispersão); • estanino (escores que vão de 1 a 10); • posto percentílico (%); • escore padrão (z= X-M/DP); • categorias (inferior, média inferior, média, média superior, superior). Aspectos relevantes na padronização Todos estes aspectos podem interferir na padronização e interpretação dos resultados e devem ser observados: • Estabelecimento de instruções para o sujeito. • Grau de escolaridade. • Material da testagem (validade e fidedignidade). • Pertinência e relevância do teste. • Características do ambiente (físico, psicológico). • Vínculo. • Situações adversas (isonomia, testagem para seleção ou perícia). • O aplicador: conhecimento, aparência, comportamento durante a sessão (atitude, linguagem), gravação da sessão. 15Unidade 2 I PsicometriaDisciplina Digital 2.3.2 Fidedignidade A fidedignidade de um teste diz respeito a sua precisão. Os conceitos centrais são consistência interna e estabilidade no tempo. De certa forma, um teste é preciso se seus itens ou perguntas são homogêneos, o que permite que os itens avaliem o construto desejado, bem como se as respostas não variam ao acaso. De forma análoga, podemos pensar num teste como qualquer instrumento, por exemplo, um termômetro. Se um termômetro é preciso, a temperatura não varia aleatoriamente ou ao acaso. Os métodos para avaliar a fidedignidade ou precisão de um teste são: • Teste reteste. • Formas paralelas. • Duas metades. • Consistência interna. Método teste-reteste: uma escala ou teste é fidedigno se repetidas mensurações são obtidas em condições constantes e dão o mesmo resultado (CUNHA, 2001). Neste método, o teste é aplicado em dois momentos (em geral um período de 10 a 15 dias) e os resultados comparados a partir de correlações. Se o sujeito apresenta resultados semelhantes (em geral um Alpha de Cronbach entre 0.70 e 0.99), isto indica que os resultados não variaram significativamente. Embora este método seja bastante simples de realizar, alguns aspectos podem interferir nos resultados. Neste sentido, a principal limitação deste método pode ocorrer devido à existência de variáveis intervenientes. Por exemplo, se você está avaliando o construto ansiedade, e se entre o período de aplicação aconteceu alguma situação que faça com que a pontuação do teste tenha aumentado, isto pode interferir na análise da precisão do teste, o que invalidaria a utilização deste método. Método das formas paralelas: consiste em aplicar versões equivalentes do instrumento nos mesmos indivíduos, correlacionado o resultado posteriormente. Por exemplo, se construirmos um teste que avalie depressão, teríamos a forma A e a B, e compararíamos os resultados do sujeito em ambas as formas. Se elas realmente refletem o mesmo construto, o sujeito deveria ter resultados semelhantes em ambas as formas. Uma das limitações deste método consiste na dificuldade em assegurar que não existem diferenças entre as duas formas. Além disto, trata-se de um método mais trabalhoso. Psicometria I Unidade 216 Disciplina Digital Método das duas metades: neste método, o conjunto de itens do teste é dividido em duas metades e os dois escores são correlacionados. Por exemplo, se temos um teste com 20 itens, compararíamos os escores obtidos nos itens pares com os escores obtidos nos itens impares. Se as duas metades avaliam o mesmo construto, temos um conjunto de itens homogêneos, o que contribui para a precisão do teste. Quanto maior for a escala, maior será sua fidedignidade. Coeficientes de consistência interna: consiste em avaliar se todos os itens da escala medem o mesmo construto, sendo assim altamente correlacionados. É possível também avaliar a consistência inter-itens e do item com a escala total através do α de Cronbach (expresso em coeficientes que variam de 0-1). Quanto mais próximo de um, maior a correlação entre os itens. Quando vamos construir um teste, não é necessário examinar todos os tipos ou métodos de fidedignidade, um ou dois métodos já são suficientes para avaliar se seu instrumento é preciso. NA PRÁTICA A seguir, descremos alguns aspectos que podem interferir na fidedignidade de um teste: • Uso impreciso de palavras. • Extensão exagerada do item. • Uso de palavras desconhecidas. • Estrutura defeituosa da frase. • Uso de dupla negação. • Instruções inadequadas. • Apresentação defeituosa. 17Unidade 2 I Psicometria Disciplina Digital 2.3.3 Validade Diz respeito à representação comportamental de traços latentes. Um teste é válido quando ele mede aquilo que se propõe medir. A validade, assim como a fidedignidade, deve se medida e não suposta. A validade de um teste depende de problemas teóricos (qualidade na definição do construto), empíricos (problemas de amostragem) e estatísticos (análise complexas), sendo que existem três categorias principais: • Validade de conteúdo. • Validade de critério. • Validade de construto. Vejamos cada uma delas. a. Validade relacionada a conteúdo: “trata do exame sistemático do conteúdo do teste, para determinar se os itens cobrem uma amostra representativa do universo do comportamento a ser medido e para determinar se a escolha dos itens é apropriada e relevante” (CUNHA, 2001, p.163). A validade de conteúdo diz respeito à amostra representativa de um universo de um universo finito de comportamentos, representação proporcional de cada conteúdo em termos de importância. Existem dois tipos de validade de conteúdo. Ambos os tipos de validade de conteúdo são realizados por juízes que devem identificar se os comportamentos relevantes e as áreas do conteúdo foram representativamente amostradas. • Validade de face: consiste em avaliar o que o teste mede aparentemente, apresentação das questões apropriadas a grupos específicos. • Validade de conteúdo: os itens são avaliados por especialistas e seus resultados são comparados. Se a avaliação feita pelos especialistas se assemelha, conclui- se que o teste apresenta validade de conteúdo. b. Validade de critério: correlaciona o resultado de um teste com o desempenho do sujeito. Avalia a qualidade do instrumento como preditor de um comportamento presente ou futuro. É empírica. Ex.: o desempenho acadêmico pode ser preditor de desempenho profissional? Existem dois tipos de validade de critério: Psicometria I Unidade 218 Disciplina Digital • Validade concorrente: refere-se à propriedade, qualidade ou capacidade da escala em descrever um comportamento presente/atual. Por exemplo, se estou avaliando a validade concorrente de um teste que avalie TDAH (hiperatividade), posso aplicá-lo a dois grupos de crianças, um com sintomas de TDAH e outro sem sintomas. Neste caso, é esperado que os escores do teste sejam diferentes entre os grupos. Se o teste consegue identificar grupos diferentes, ele apresenta validade concorrente. • Validade preditiva: qualidade com que uma escala pode predizer um comportamento futuro. Ex.: escores altos confirmados por diagnóstico a posteriori. Ou seja, aplicamos um teste para avaliar atenção difusa, que é uma habilidade necessária para dirigir um carro, e se o indivíduo que apresenta escores baixos, mais tarde se envolve num acidente de carro relacionado à ausência desta habilidade. Isto estaria confirmando a validade preditiva do teste. ATENÇÃO A validade preditiva de um teste em geral não é avaliada quando o teste está sendo criado, mas a posteriori, por outros estudos. c. Validade relacionada a construto: pretensão de representar um construto, sendo assim é teórica. Neste sentido, o teste constitui uma hipótese empírica representando um traço latente. Portanto, é fundamental que um teste tenha um modelo teórico consistente. Segundo Cunha (2001), a validade é uma característica relativa e existente em diferentes graus. Um teste pode ser válido para certos fins em diferentes grupos, mas não para outros fins e indivíduos. A validade é uma característica complexa e não existe isoladamente. Existem três tipos de validade de construto: • Convergente. • Discriminante. • Análise fatorial. Vejamos cada uma delas. 19Unidade 2 I Psicometria Disciplina Digital a. Validade convergente: verifica se a medida/construto em questão está relacionada com outras já existentes. Correlação externa com outro teste similar. Por exemplo, se estou criando um teste para avaliar ansiedade, posso aplicá-lo em conjunto com um outro teste, que avalie ansiedade, e comparar seus resultados. Os testes, se avaliam o mesmo fenômeno, devem apresentar uma correlação maior que 0.50. b. Validade discriminante: verifica se a medida em questão não está indevidamente relacionada com outros construtos. Isto pode ser realizado quando aplicamos diversos testes simultaneamente, mas que avaliam fenômenosdiferentes. Ao analisar as correlações dos resultados, esperamos ter correlações não muito fortes (menor que 0.50), pois os testes medem fenômenos diferentes. Nesta tabela, podemos observar as correlações entre alguns testes. Tabela 1 - Correlação entre as variáveis demográficas, clínicas, RMDQ Escala de Pensamentos Catastróficos e seus componentes 1 2 3 4 5 6 7 8 1. Idade _ 2. Duração da dor -.01 _ 3. Intensidade da dor -.09 -.01 _ 4. Local da dor .07 .17* .05 _ 5. RMDQ escore total .06 .08 .31* .27* _ 6. Escala de catastrofização -.16* .22* .28* .07 .34* _ 7. Fator ruminação -.22* .17* .31* .05 .29* .92* _ 8. Fator desesperança -.06 .24* .19* .08 .32* .88* .62* _ * Nível de significância p = 0.01 Nesta tabela, podemos observar que os escores da escala de catastrofização (em vermelho) possuem uma correlação de 0,34 com os escores do questionário RMDQ, o que indica que eles medem construtos diferentes, a RMDQ mede incapacidade e a escala mede catastrofização, assim esperamos correlações baixas, o que foi confirmado pelo alpha de cronbach. c. Validade fatorial: avalia a dimensionalidade de um construto e a dimensão subjacente. A carga fatorial deve ser maior que 0.50, não é uma medida de correlação, e seus resultados são expressos em carga fatorial ou eingenvalue. Por exemplo, em geral as definições teóricas de depressão propõem que este construto tem duas ou três dimensões (sintomas orgânicos, afetivos e cognitivos). Portanto, quando construímos uma escala para medir depressão, esperamos encontrar, quando fazemos uma análise fatorial, dois ou três fatores ou dimensões. Para que possamos realizar uma análise fatorial, devemos examinar diversas estatísticas para examinar a homogeneidade dos resultados, uma vez que os dados sejam normais, podemos proceder para análises exploratórias e confirmatórias. Psicometria I Unidade 220 Disciplina Digital Destaco a você que este assunto é bastante complexo e vamos abordá-lo aqui de uma forma simplificada. A tabela a seguir apresenta um exemplo de análise fatorial de uma escala de pensamentos catastróficos. Tabela 2 - Análise da validade de construto através da análise de componentes principais da Escala de Pensamentos Catastróficos sobre Dor Fatores e conteúdo dos itens F 1 F 2 h² Fator 1 Ruminação (8) Eu não consigo mais continuar. .98 -.09 .86 (9) Essa dor está me deixando maluco. .88 -.02 .76 (1) Não posso mais suportar esta dor. .86 -.03 .72 (7) Essa dor está me matando. .76 .14 .73 (3) Preciso tomar remédios para dor. .38 .17 .25 Fator 2 Desesperança (4) Isso nunca vai acabar. -.08 .91 .74 (5) Sou um caso sem esperança. .00 .86 .75 (2) Não importa o que fizer minhas dores não mudarão. .03 .78 .65 (6) Quando ficarei pior novamente? .15 .68 .61 Eigenvalue 4.91 1.17 Percentual de variância 54.5 12.9 F1 e F2: carga factorial de cada item em cada fator ou componente. h²: comunalidades Nesta tabela podemos perceber que os nove itens se agrupam em dois fatores, um nomeado ruminação, e o outro nomeado desesperança. Teoricamente, o construto pensamentos catastróficos é composto de duas ou três dimensões, ou seja, a análise fatorial desta escala está de acordo com os modelos teóricos sobre este conceito. O que confirma a validade desta medida. Em termos de análise fatorial, é esperado que os itens tenham uma carga fatorial maior que 0.50, portanto podemos observar que o item três apresenta uma carga fatorial inferior a 0.50. Neste caso, se desejássemos, poderíamos retirar este item da escala, melhorando sua validade. 21Unidade 2 I Psicometria Disciplina Digital Caso você deseje conhecer melhor esta escala e ter uma descrição de todo seu processo de validação, ela pode ser acessada no link: SAIBA MAIS! Vimos que os testes psicológicos são instrumentos de medida de fenômenos psicológicos, e embora existam diferentes modalidades de instrumentos, como escalas ou inventários, todos estes instrumentos devem apresentar as propriedades psicométricas de validade, fidedignidade e padronização. Conforme foi descrito anteriormente, os testes psicológicos, instrumentos de uso exclusivo dos psicólogos, devem ser submetidos ao Satepsi para sua prévia avaliação antes de serem comercializados. Uma consulta ao Satepsi sempre é adequada quando desejamos usar um teste, embora todos os testes psicológicos comercializados passem por este requisito. Caso o psicólogo opte por usar escalas não comercializadas, em geral publicadas em revistas científicas, o psicólogo deve estar atento às propriedades psicométricas dos instrumentos. FINALIZANDO O TEMA Finalizamos destacando ser importante observar a especificidade e a sensibilidade de um instrumento psicológico. A especificidade diz respeito à capacidade de um teste de medir um fenômeno psicológico, já a sensibilidade se refere à capacidade do instrumento de identificar ou mensurar bem este fenômeno, identificando-o. De maneira geral, um teste psicológico não pretende identificar patologias, mas sim níveis ou graus de características de determinado fenômeno. Psicometria I Unidade 222 Disciplina Digital REFERÊNCIAS ALCHIERI, J. C; CRUZ, R. M. Avaliação psicológica: conceito, métodos e instrumentos. 4. ed. São Paulo, SP: Casa do Psicólogo, 2009. CUNHA, J. A. Psicodiagnóstico V. 5. ed. rev. e ampl. Porto Alegre, RS: Artmed, 2001. ERTHAL, T. C. Manual de psicometria. 8. ed. Rio de Janeiro, RJ: Zahar, 2009. HUTZ, C. S.; BANDEIRA, C. R.; TRENTINI, C. M. Psicometria. Porto Alegre: Artmed, 2015. PASQUALI, L. Instrumentos psicológicos: manual prático de elaboração. Brasília, DF: LabPAM/IBAPP, 1999. PASQUALI, L. Técnicas de exame psicológico TEP: manual. 2. ed. São Paulo, SP: Casa do Psicólogo, 2006. SARDÁ JR., J.; BOBATTO, S. T. Reflexões sobre o ensino e atuação na avaliação psicológica em Santa Catarina: contribuições do Curso de Psicologia da UNIVALI. In: SARDÁ JR., Jamir; SILVA, Josiane Delvan. Psicologia na Univali: 30 anos de atuação na formação profissional. Itajaí: UNIVALI, 2017. URBINA, S. Fundamentos da testagem psicológica. Porto Alegre, RS: Artmed, 2007. 23Unidade 2 I Psicometria Disciplina Digital CONSIDERAÇÕES FINAIS Esperamos que a partir da realização destas duas unidades você esteja apto a identificar alguns elementos presentes na história da medida de fenômenos psicológicos e as teorias que os fundamentam, bem como identificar os tipos de instrumentos de coleta de dados, suas classificações, aspectos importantes de serem observados na aplicação e interpretação dos testes psicológicos e compreender as propriedades psicológicas necessárias para a construção e uso dos testes psicológicos. Os testes psicológicos são instrumentos importantes que subsidiam a realização de pesquisa e nossa prática clínica. Em sua carreira como psicólogo, você provavelmente irá utilizá-los como instrumentos auxiliares em diagnósticos psicológicos. Portanto, é importante aprender a utilizá-los com qualidade. Uma vez que abordamos todos estes conteúdos, acreditamos que você tenha subsídios necessários para usar os testes psicológicos sob supervisão. Portanto, mãos à obra! Nossa instituição tem um amplo acervo de testes psicológicos que se encontram à disposição no Laboratório de Avaliação Psicológica – LAP, que fica na Coordenação do Curso de Psicologia, contando com monitores dispostos para ajudá-lo.