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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓSGRADUAÇÃO EM HISTÓRIA ciência, objeto da h is tór ia Gabriel da Costa Ávila Belo Horizonte 2015 Gabriel da Costa Ávila ciência, objeto da h is tór ia Tese apresentada ao Programa de PósGraduação em História da Universidade Federal de Minas Gerais, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em História. Linha de Pesquisa: Ciência e Cultura na História Orientador: Prof. Dr. Mauro Lúcio Leitão Condé Belo Horizonte 2015 112.1 A958c 2015 Ávila, Gabriel da Costa Ciência, objeto da história [manuscrito] / Gabriel Ávila. 2015. 213 f. Orientador: Mauro Condé. Tese (doutorado) Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Inclui bibliografia 1. História – Teses. 2. Ciência – História Teses. 3 Historiografia Teses. I. Condé, Mauro Lúcio Leitão. II. Universidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. III. Título. Não afirmamos, por exemplo, que Aristóteles é tão bom quanto Einstein; o que se afirma e argumenta é que “Aristóteles é verdadeiro” é um juízo que pressupõe certa tradição, é um juízo relacional que pode mudar quando a tradição subjacente for mudada. Pode existir uma tradição para a qual Aristóteles é tão verdadeiro quanto Einstein, mas existem outras tradições para as quais Einstein é muito desinteressante e não merece ser examinado. Paul Feyerabend, 1978 AGRADECIMENTOS Escrever os agradecimentos é uma tarefa árdua para quem não é poeta (nem comerciante, que “Agradece ao amigo cliente pela preferência”). Agradecer devidamente fica mais difícil, pois demanda tempo e inspiração. Por isso agradeço como quem se desculpa por não poder agradecer melhor aos que são mais importantes. Agradeço imensamente a Mauro Lúcio Leitão Condé pela orientação atenta e pelas intervenções preciosas. A confiança que Mauro me transmitia garantiu a essa pesquisa uma segurança talvez impossível de ser conquistada sem o seu inestimável apoio. Ao professor Carlos Maia, um entusiasta das nossas investidas pela teoria e pela historiografia das ciências e fonte inesgotável de energia intelectual. Xs professorxs e colegas do Scientia – em especial Anny Jackeline, Betânia Gonçalves, Bernardo Jefferson, Carol Vimieiro e Reinaldo Bechler – que mostraram, desde a minha chegada à UFMG em 2009, que um grupo de pesquisa pode ser um local de intensas trocas intelectuais e afetivas. Uma bolsa da CAPES (Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) financiou essa pesquisa durante seus primeiros três anos. Sem ela, talvez esta tese fosse apenas uma expectativa. Justamente enquanto acabo de escrevêla os cortes se abatem sobre essa política pública, comprometendo o projeto de inclusão social, formação cidadã e produção de conhecimento – um projeto que está ele mesmo imbricado em algumas questões que surgem na tese. Ele herda a ambição da utopia Iluminista, pensa assim garantir o progresso da ciência e da sociedade. Agradeço a Edilene Oliveira, que teve participação decisiva no sucesso de empreitadas como o ENAPEHC e o EPHIS. Xs professorxs Yurij Castelfranchi, Patrícia Kauark, José Newton Coelho, Kátia Baggio, Regina Horta e Miriam Hermeto, que ajudaram a tornar a FAFICH a minha segunda casa em Belo Horizonte. Essa casa estava sempre habitada por amigxs e foi muitas vezes o ponto de partida para aventuras nas Minas Gerais. Agradeço a Adriano, Douglas, Fabi, Georginho, Mariana, Raul, Rodrigo Osório e Warley. Pezzonia, Katy e Anita deixaram saudade e a vontade de se ver de novo, em Campinas ou em Lisboa. Fran, Paloma e Valéria, Barudinha, Ju e Gu reforçaram sempre a certeza de que amar é um ato político nessa vida ordinária que a gente leva. À Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e aos colegas do Centro de Artes, Humanidades e Letras, que me acolheram nas margens do Paraguaçú. Especialmente aos amigos Antonio Liberac, Denis Correa, Eliazar da Silva, Nuno Gonçalves, Roberto Duarte, Sérgio Guerra e Wellington Castellucci. Xs alunxs que torceram pelo sucesso desta tese. Xs amigxs soteropolitanxs Fábio Freitas, Dimitri Marques, Dimitri Tavares, Juliana e Rafael. Xs que respeitaram minha angústia com o fim da tese e que me fizeram rir dela com elxs. Marcelinho, Julienne e Pi, Rodrigo e Raquel, Wolninho, Augusto e Fernanda, Rafa, Costinha, Rita e Giuia. Marcelo e Adelma, Nice, Heleni e Roberto, Paulo. A Ana Marília, cuja importância quando medida em léguas marítimas seria suficiente para atravessar algumas vezes o Atlântico. Cujo amor não pode ser medido de nenhuma maneira linear. Resumo Esta tese se ocupa de um exame historiográfico da história das ciências ao longo dos últimos cem anos, aproximadamente. Tal percurso segue a tensão entre os fatores “internos” e “externos” como formas de organizar a narrativa histórica sobre a ciência, de demarcar a fronteira entre ciência e nãociência, de compreender a dinâmica da mudança científica e de articular as suas funções sociais. Este texto está também interessado nas relações que se estabeleceram entre os modos de produção do conhecimento científico, as Políticas de Ciência e Tecnologia e a escrita da história das ciências. Tendo essas frentes de investigação como guia, o trabalho destaca quatro períodos históricos apontando para as suas principais características historiográficas e para as maneiras que atitudes distintas em relação ao passado da ciência legitimam determinados pactos entre ciência, Estado e sociedade (mas também resistem e contestam outros). Primeiro, o período clássico da “querela do internalismo versus externalismo” entre os anos 1930 e 1960. O segundo momento é o surgimento de uma “tradição kuhniana”, isto é, a profundidade e a direção das transformações sofridas pela história das ciências sob o impacto do célebre ensaio de Thomas Kuhn, A estrutura das revoluções científicas. Os dois últimos períodos são abordados através da análise de dois livros representativos de movimentos mais amplos. O Leviathan and the airpump de Simon Schaffer e Steven Shapin foi tomado como um exemplo da historiografia produzida nos anos 1980, momento de amplas transformações nas relações entre ciência e Estado e de intenso diálogo com os science studies e com o conceito de tecnociência. Finalmente, o livro Objectivity, de Lorraine Daston e Peter Galison, serviu de suporte para uma análise dos principais elementos da historiografia das ciências na virada do século XX para o XXI – destacando como esse livro propõe a historicidade radical da ciência. A pesquisa do processo de disciplinarização da história das ciências lida simultaneamente com a transformação da ciência em objeto da história e as suas implicações. Palavraschave: História das Ciências, História da historiografia, Século XX. Abstract This thesis examines the historiography of sciences in the last hundred years or so. Such trajectory will follow the tensions between “internal” and “external” factors as ways to organize the historical narrative about science, to demarcate between science and non science, to understand the dynamics of scientific change, and to articulate its social functions. This text is also interested in the relations stablished between the modes of production of scientific knowledge, the Science and Technology Policy, and the writing of the history of sciences. Being guided by these research goals, theentre guerras. Lá, uma campanha orquestrada a partir do começo dos anos 1920 por cientistas de prestígio – como Marie Curie e sua filha Irène, Frédéric JoliotCurie, Paul Langevin e Jean Perrin – tentava convencer o governo da necessidade de investir seus recursos na pesquisa. A educação superior e as Universidades já contavam com apoio estatal desde meados do século XIX, garantindo a formação superior, especialmente voltada para as áreas economicamente estratégicas (assim como na maioria dos países europeus no período). No entanto, os cientistas formados nessas instituições tinham poucas opções para viver de ciência, escolhendo entre a docência ou a indústria. As pesquisas conduzidas nesse período eram bancadas por meio de atividades filantrópicas ou com fundos pessoais de cientistas mais abastados. Esse sistema era considerado insuficiente e responsável pela má situação da ciência francesa, que via seus históricos rivais, Inglaterra e Alemanha, ultrapassaremna (WEART, 1979). O apoio à ciência não surgia como uma necessidade apenas para os liberais que buscavam reverter os investimentos em benesses econômicas para a iniciativa privada. A defesa das aplicações práticas da ciência nas atividades econômicas, no caso francês, fazia parte de uma ideologia de esquerda mais ampla, explícita nesse grupo de cientistas, que herdara do Iluminismo uma forte crença na ciência como maior 31 expressão do espírito humano e possuía um componente utópico expresso na possibilidade da ciência produzir riqueza e bemestar suficientes para acabar com as desigualdades (desde que gerenciada para tanto). Essa visão encontrou espaço no governo com a vitória do Cartel des Gauches, uma coalizão de várias tendências da esquerda francesa, nas eleições de 1932. Esse novo ambiente político preparou o terreno para a criação do CNRS em 1935, na época chamado Caisse Nationale de La Recherche Scientifique19, uma instituição de escopo bem mais amplo do que o National Physical Laboratory ou o Instituto Imperial de Física e Tecnologia, que empregou várias centenas de cientistas envolvidos apenas em atividades de pesquisa antes da Segunda Guerra Mundial (WEART, 1979). Com a ascensão da Alemanha nazista e o início da guerra, no entanto, esses argumentos se tornam praticamente irrelevantes. A ciência tinha caráter de urgência e seus recursos provinham agora das verbas militares e de defesa. Do outro lado do Atlântico Norte, a situação era consideravelmente distinta. O sistema de patronagem privada foi extremamente bem sucedido entre 1900 e 1939 – com as instituições filantrópicas que retiravam recursos das fortunas dos Rockefeller e dos Carnegie, por exemplo – e garantia a maior parte do financiamento da ciência nos Estados Unidos (KOHLER, 1991). Foram as transformações estruturais que ocorreram nas ciências e nos Estados nacionais entre o último quartel do século XIX e o fim da Segunda Guerra Mundial que modelaram uma nova forma de articulação entre o poder público e a pesquisa científica e levaram à substituição da antiga “patronagem” estatal por aquilo que se pode propriamente chamar de Política de Ciência e Tecnologia (ABIRAM, 1982, p. 342). Ao fim da Segunda Guerra Mundial, o Estado estava iluminado pelo espírito do progresso e exibia, orgulhoso, a sua fé na ciência. Essas transformações não atingem apenas os Estados, mas também o mercado. O crescimento dos setores farmacêutico, elétrico e químico, baseados em conhecimentos técnicos e científicos, era marcante nas economias mais dinâmicas do período, beneficiandose do rápido crescimento do número de profissionais especializados (fruto das políticas educacionais desses Estados desde a segunda metade do século XIX) e demandando, por sua vez, um maior investimento na ciência e na tecnologia. 19 O CNRS assumiu a atual nomenclatura em 1939, após a sua fusão com o Centre National de la Recherche Scientifique Appliquée. 32 A consolidação dessa nova situação passa pela consideração da ciência como uma ferramenta indispensável para o progresso material, uma concepção que já estava disponível e frequentava os circuitos eruditos há vários séculos. A articulação da ciência como um “saberfazer”, que visava não apenas o conhecimento da natureza, mas o seu domínio e transformação é um dos mitos de fundação da Modernidade, inaugurado na filosofia de Francis Bacon. “Conhecimento é poder” é o slogan desse programa que aproxima ciência e técnica, verdade e utilidade. Essa locução destacada vinculase à ascensão de valores ligados à burguesia mercantil, como a valorização de uma dimensão mais ativa diante do mundo, seja através da recuperação das artes mecânicas como fonte de conhecimento, seja pelo estabelecimento do trabalho como fundamento legítimo do poder econômico e político, em contraposição aos direitos de berço e aos privilégios nobiliárquicos (OLIVEIRA, 2010; JAPIASSÚ, 2001; ROSSI, 1989; ZILSEL, 2000). A ciência não comporta apenas essa dimensão ativa, de dominação da natureza (o deslizamento da forma inquérito do domínio jurídico para o científico, magistralmente explorado por Foucault [1999], aponta para uma postura quase tirânica frente à natureza). Existe outra dimensão de importância capital que opera discursivamente na chave da pureza, da ingenuidade e do arrebatamento diante da natureza. Nesse modo, o cientista se transfigura em uma criança curiosa que brinca e se encanta com fenômenos naturais (CASTELFRANCHI, 2008, pp. 189190). Qualquer aspiração ao poder e à dominação é aí uma invasão, um atentado à liberdade da pesquisa. Esses dois modos de caracterizar a atividade científica estiveram constantemente imbricados em um tipo de relação que não é meramente de legitimação mútua (do tipo: “deixeme brincar, pois o resultado será importante” ou “não me envolva em questões políticas, estou apenas exercendo a pura curiosidade”). Muitas pesquisas foram efetivamente guiadas por um princípio (um ethos?) de pureza e desinteresse. Essa duplicidade é uma das responsáveis pelo sucesso da ciência em conquistar a hegemonia ideológica na Modernidade. É também responsável por gerar certo sentimento de ambiguidade e contradição, como expressou Irène JoliotCurie (S/D, p. 19) em uma emissão radiofônica no final dos anos 1930: Creio que o que caracteriza realmente um trabalho de Pesquisa Científica é que ele destina a satisfazer uma curiosidade desinteressada; circunstância paradoxal, é também esse gênero de 33 trabalho que tem, finalmente, as consequências práticas mais sensacionais.20 A guinada operativa da ciência, no entanto, não conseguiu se estabelecer para além das práticas discursivas de cientistas e filósofos. É só a partir da segunda metade do século XIX que as promessas dessa ideologia científica começam, timidamente, a frutificar21. Nesse período, então, ela pode ser atualizada, articulada a novos argumentos e evidências e reconfigurada para que funcione no novo contexto social. A ciência liberava a sua potência e se qualificava para ocupar uma nova posição, central, na estrutura social. O suporte a esse novo lugar social da ciência vem das rápidas mudanças atravessadas desde meados do século XIX – como a utilização significativa de insumos químicos na indústria, a utilização da eletricidade, os avanços médicos proporcionados pela microbiologia. Nos primeiros anos do séculoXX, a euforia epistemológica alcançava patamares elevados com as revoluções que ocorriam naquela que era a ciência paradigmática por excelência, a Física. A física quântica e, principalmente, a teoria da relatividade levaram os temas esotéricos da pequena comunidade científica para audiências mais amplas. Não havia, aparentemente, como ficar imune à sedução da ciência, aos seus poderes. Finalmente, as promessas de abundância pareciam prestes a se concretizar. A qualquer momento, o antigo desejo dos alquimistas se realizaria pelas mãos dos seus (pretensos) inimigos ideológicos22. Os poderosos Estados nacionais europeus não seriam convencidos apenas por bons argumentos. Era preciso que a materialidade das lâmpadas elétricas, micróbios e radiografias fossem arregimentados para as fileiras da campanha da ciência. Ao mesmo 20 No original: “Je crois que ce qui caractérise réellement um travail de Recherche Scientifique, c’est qu’il est destine à satisfaire une curiosité désintéressée; circonstance paradoxale, c'est aussi ce genre de travail qui a finalement les conséquences pratiques les plus sensationnelles”. Tradução minha. 21 O termo “ideologia” não aparece aqui no sentido que alguns marxistas lhe atribuem, como “falsa consciência”; está mais próximo de um estilo de pensamento ligado a uma posição social, como na definição de Karl Mannheim (1986). Ao reduzir a ideologia ao seu caráter ilusório, mistificador, submisso aos critérios do falso e do verdadeiro, a sua capacidade de mobilização do mundo se enfraquece. Contudo, é preciso notar certa ambiguidade do termo na obra do sociólogo húngaro. Ideologia aparece como: a) um sentido mais restrito, sistema de representação “conservador”, destinado à manutenção da ordem social, em oposição à utopia, que é um conjunto orientado para o futuro, para a mudança social, contendo uma função transformadora; e também b) uma dimensão já referida de visão de mundo socialmente dependente, a “ideologia total”, que engloba ideologias e utopias particulares (MANNHEIM, 1986; LÖWY, 2000). 22 Claro que essa leitura do processo revolucionário no âmbito das ciências físicas no período compreendido entre 1895 e 1905 parte de uma concepção simultaneamente racionalizada e mitificada de um processo que se desenvolve de maneira mais complexa, recalcitrante e devedora de desenvolvimentos anteriores do que a imagem de uma revolução profunda nas maneiras como vemos o Universo (KRAGH, 1996, p. 61) 34 tempo, é muito provável que tais “evidências” não tivessem tanto impacto caso não fossem articuladas por um imaginário tão poderoso, que por tanto tempo fermentou na mentalidade ocidental. Esse imaginário adquire uma expressão radical no cientificismo. É preciso realizar aqui um breve desvio para explicar esse conceito. O cientificismo pode ser definido a partir de algumas características: 1) a identidade entre ciência e conhecimento, que concebe a ciência como a única forma possível de conhecer o mundo, a única ferramenta intelectual preparada para atingir a verdade; 2) do ponto anterior decorre a concepção da ciência como uma forma epistemologicamente superior a outros tipos de interpretação ou explicações da realidade; 3) outra decorrência é que a ciência, e apenas ela, é capaz de explicar toda a realidade – não há nada digno de valor epistemológico fora da ciência; 4) por ser a única expressão intelectual verdadeira (ou, ao menos, capaz de atingir a verdade), a ciência é a única forma de nos guiar objetivamente na realidade e, por isso, tem garantida também uma superioridade moral. Esse último ponto é muito relevante, pois ele se vincula a uma concepção da função social da ciência. Como veremos no Capítulo 5 desta tese, os “defensores da ciência” nos anos 1990 vão interpretar os “ataques à ciência” como “ataques à civilização ocidental”. O cientificismo é uma atitude filosófica que atribui certa onipotência à ciência, outorgandolhe o domínio completo do campo intelectual e um forte componente de autoridade moral. Peter Schöttler (2013) traça uma genealogia política desse conceito e identifica seu surgimento no terço final do século XIX. Concentrando sua análise no espaço discursivo francês, esse historiador vai analisar a emergência do conceito no interior das disputas entre ciência e religião que se acirram às vésperas do século XX e se espraiam até o começo da Primeira Guerra Mundial. A acepção pejorativa do termo já data desse momento e uma das tarefas dos propagandistas de uma visão científica do mundo foi a de incorporar o termo ao seu vocabulário e conferirlhe um significado positivo. A invenção do cientificismo era, assim, uma reação conservadora, tentando mostrar que a ciência não era capaz de suprir a humanidade de certas necessidades espirituais e que ela não poderia responder a determinadas questões existenciais de cunho metafísico. A sua incorporação ao vocabulário dos cientistas e seus partidários e publicistas não conseguiu esvaziar o conceito do seu conteúdo pejorativo, seu uso 35 permanece tendo, quase sempre, um tom de denúncia dos abusos da ciência, indicando uma postura dogmática. Apesar disso, essa atitude perante o mundo teve imenso sucesso no século XX, será um dos traços da visão de mundo hegemônica. Ele surge ora como um otimismo exagerado em relação ao potencial da ciência em resolver os problemas sociais (muitas vezes problemas gerados pela própria ciência), ora como um dos fundamentos da tecnocracia e de totalitarismos. O cientificismo surgirá nesta tese como um “desastre ideológico” (MAIA, 2013, p. 30), um elemento que aparecerá frequentemente não apenas como um obstáculo à transformação da ciência em objeto da história, mas como uma ameaça à democracia e ao pleno exercício da cidadania. Retornando à corrente principal da narrativa, é fundamental notar que disciplinarização e a institucionalização da história das ciências ocorre simultaneamente à transição entre esses modelos e a organização da Política de Ciência e Tecnologia, no seio da reativação desse imaginário sobre a ciência. Analistas da Política de Ciência e Tecnologia têm ressaltado as formas pelas quais a concepção dominante de ciência “modela” as relações entre ciência e Estado (VELHO, 2011). A história das ciências seria um dos agentes de transformação dessa concepção da qual essas políticas seriam o resultado. Escolher uma maneira de escrever a história das ciências é uma forma de atuar politicamente, interferir na agenda pública. No entanto, não devemos supervalorizar o papel da história das ciências nessa transformação que ocorre entre fins do século XIX e início do XX. Em primeiro lugar, porque o seu surgimento como disciplina autônoma é concomitante às mudanças às quais tenho me referido; em segundo lugar, porque a sua produção não circulava muito além do seu próprio campo e áreas intelectuais afins, ela não possuía (e ainda não possui) capilaridade suficiente para influenciar decisivamente na alteração da imagem da ciência em todo o corpo social ou mesmo nos grupos responsáveis pelas tomadas de decisão, capazes de alterar a Política de Ciência e Tecnologia. As apropriações e releituras que caracterizam a ideologia da ciência normalmente acabam por remeterse a um tipo de visão do passado das ciências incessantemente criticada por Thomas Kuhn: a imagem “de manual”, utilizada como ilustração com fins pedagógicos e que transmite uma imagem oficial, anacrônica e hagiográficado empreendimento científico. De qualquer maneira, a maioria dos historiadores das ciências atuantes à época não estava muito disposta a apresentar uma 36 imagem diferente dessa. A relevância funcional dessa mitologia para o edifício científico foi enfatizada pelo próprio Thomas Kuhn (2001, pp. 173182). A alegação frequente de desmistificação da ciência não passava de correções pontuais que mantinham intacta essa estrutura narrativa e, principalmente, a imagem de ciência dela decorrente. Como já afirmei acima, a história das ciências nesse período não foi praticada por historiadores profissionais, sendo muitas vezes uma atividade diletante de cientistas ou realização de filósofos (KUHN, 2011a, p. 127; MAIA, 2013). Por ora, é importante considerar que a história das ciências não é apenas produtora de uma imagem da ciência, ela é também consumidora de concepções que circulam em determinada configuração sóciohistórica, funcionando como espaço de reverberação, formulação e legitimação de certos interesses sociais. A história das ciências, nessa perspectiva, passa de agente de transformação da imagem da ciência no tecido social para uma posição mais passiva, de reprodutora de imagens e valores produzidos alhures. Por outro lado, apesar dessas ressalvas, poderíamos argumentar que a história das ciências fornece um dos únicos acessos “autorizados” para a ciência do passado, através do uso controlado e sistemático das fontes originais, o que pretensamente garantiria precisão e objetividade. Desse modo, o surgimento da história das ciências como disciplina autônoma e regida por normas de erudição e coerção do discurso responde à participação cada vez maior da ciência na construção da “identidade ocidental” a partir de meados do século XIX. A ciência, não estando mais restrita aos seus praticantes, mas espraiandose por todas as esferas da sociedade, precisa ter seu desenvolvimento histórico compreendido, domesticado e regulado por formas socialmente sancionadas de discurso. A escrita da história das ciências seria um exercício reflexivo, de autoconhecimento, uma racionalização de certas características do sujeito moderno com vias à tomada de consciência e ao autocontrole. A história das ciências realiza a seu tempo aquilo que Reinhart Koselleck apontou em sua análise do surgimento da ciência da história. A conquista da autonomia intelectual da história, das suas condições de cientificidade e da sua função no vocabulário político se constroem simultaneamente e “a gênese do moderno conceito de História coincide com a sua função social e política” (KOSELLECK, 2013, p. 186)23. 23 A sequência dessa passagem citada é significativa da postura do historiador alemão em relação à determinação social do conhecimento, uma postura diversa da que adoto aqui. Para ele, “a gênese do 37 Mais adiante nesse texto, o autor enfatiza que: Nações, classes, partidos, seitas e outros grupos de interesse podiam – e até deveriam – recorrer à História, na medida em que a derivação genética da posição que o respectivo grupo defendia lhe dava o direito à existência dentro do campo de ação político ou social (KOSELLECK, 2013, p. 188). Assim, a produção de sentido e a orientação temporal se apresentam como funções fundamentais (embora não exclusivas) na emergência da história das ciências. Duas formas de encarar essa disciplina – como interferência política e como reflexão identitária – estão entrelaçadas. Tendo ressaltado isso, pretendo investigar de que maneiras a historiografia – ao avaliar a ciência do passado – dialogou com o seu presente? Como a historiografia transitava entre duas imagens de ciência e as colocava em diálogo por meio da sua narrativa, as aproximava e distanciava, enxergava traços de continuidade e pontos de ruptura, intercambiava valores e objetivos, projetava expectativas e experiências? Especificamente, para o que aqui me interessa, como a articulação entre fatores “internos” e “externos”, a demarcação do espaço epistêmico, social e institucional da ciência se relacionava com a condição da ciência no presente da escrita? Antes de prosseguir a análise com uma leitura do modo internalista de escrever história da ciência, é preciso tecer duas considerações. Em primeiro lugar, a questão não pode ser posta na forma de uma redução. Interpretações internalistas admitem a relevância de fatores externos e viceversa. Essas duas formas de encarar a história das ciências estão completamente de acordo no estabelecimento das fronteiras entre o que é intrínseco à ciência e aquilo que lhe é estranho, exterior. No entanto, o ponto no qual essas correntes divergem se dá na relação estabelecida entre os fatores, no papel que cada tipo de fator desempenha no “resultado”, no conhecimento científico efetivamente produzido. Quem é o motor das transformações da ciência, o “conteúdo” ou o “contexto”? Em segundo lugar, não pretendo fazer um inventário de autores em seus respectivos grupos. No início desse capítulo, caracterizei o internalismo e o externalismo como “modelos ideais”, o que acarreta em uma posição que não considera os historiadores como pertencendo completamente a uma ou outra dessas correntes. moderno conceito de História coincide com a sua função social e política – sem naturalmente se limitar a ela”. Com isso, ele entendia certa validade duradoura das formulações teóricocientíficas da história à despeito da sua vinculação a um lugar social de produção. 38 Assim, o foco da minha investigação estará nos argumentos mobilizados em favor de uma ou outra vertente, na forma como esses tipos de visão conformam uma narrativa histórica e como eles constituem práticas discursivas que emergem em diálogo com outras formas de considerar o lugar da ciência na trama histórica que chamamos de sociedade. Obviamente, me servirei de exemplos que se utilizam efetivamente desses argumentos para a explicação da história das ciências; esse corpus textual, no entanto, não nos permite rotular os autores. Comecemos então por aquele que considero o argumento axial da explicação internalista: a centralidade da teoria. Herbert Butterfield caracteriza a ciência moderna como uma nova “atividade mental” conduzida, em seus traços essenciais, por homens sem acesso a novas observações ou novas evidências, mas que estavam dispostos a pensar de maneira diferente sobre dados já conhecidos, situálos diante de um novo enquadramento teórico (BUTTERFIELD, 1982, p. 1112). Ao examinar a história da química com vistas a estabelecer as razões que retardaram a sua entrada no rol das ciências modernas, o professor Butterfield assevera que “a experimentação e nem mesmo os progressos da técnica foram suficientes por si sós para estabelecer a base sobre a qual se pudesse construir o que chamamos ‘ciência moderna’” (BUTTERFIELD, 1982, p. 193)24. Assim, a explicação para a derrocada da alquimia se dá pelo seu fracasso em se adaptar à estrutura de pensamento da nova ciência e a química do flogisto é apresentada como uma teoria conservadora, que usou diversos malabarismos intelectuais para adequarse aos dados conflitantes de modo a retardar o surgimento de um corpo teórico condizente com a nova “estrutura mental” que já revolucionara áreas como a mecânica e a astronomia (BUTTERFIELD, 1982, 193210)25. O grande professor de Harvard, Bernard Cohen, que sempre valorizou o lugar 24 No original: “La experimentación e incluso los progresos de la técnica no fueran suficientes por si solos para estabelecer la base sobre la que se pueda construir lo que llamamos ‘ciencia moderna’”. Tradução minha. 25 Certamente, Herbert Butterfield é um personagem que ainda não recebe o merecido destaque na historiografia das ciências. Ele é corretamente reconhecido pelas suas críticas ao “presentismo” do que chamou de história whig (uma tese que discutirei logo adiante). No entanto, ele é um dos primeiros historiadores de formação a encarar seriamente a história das ciências e seu papel no estabelecimento desse campo do conhecimento como uma disciplina autônoma na Inglaterra é pouco conhecido e frequentemente ignorado. Assim como a sua defesa – que se liga diretamente à sua crítica teórica ao “presentismo” – de que a história das ciências fosse praticada por pessoas com formação em história. O domínio dos conteúdos científicos não garante aos historiadores das ciências a perícia necessária para a sua prática. O conhecimento histórico é também essencial e exige o domínio de técnicas e ferramentas intelectuais tão sofisticadas e complexas como aquelas da ciência. Conversamente, ele chama a atenção para a importância de estudar a ciência (em especial a revolução científica) como exigência para compreender a história da Europa (BUTTERFIELD, 1950; MAYER, 2000). 39 da experimentação na nova física dos séculos dezesseis e dezessete enfatiza que “a importância do pensamento abstrato [...] foi muito mais revolucionário para a ciência que o telescópio” (COHEN, 1988, p. 114). Para esse autor, apesar da relevância das experiências efetivas levadas a cabo por Galileu ou Tycho Brahe, foram as experiências de pensamento que criaram, em última instância, a moderna ciência. Mesmo Thomas Kuhn – que mais tarde será responsável pela pretensa superação da polarização entre internalismo e externalismo na história das ciências – insere o seu primeiro livro, A revolução copernicana, de 1957, no rol dos estudos de história intelectual sobre a ciência dando clara ênfase às teorias, valores e conceitos científicos, considerando que a “Revolução Copernicana foi uma revolução de ideias” (KUHN, 1990, p. 19). Os exemplos com variações desse argumento poderiam se estender longamente. Não é o caso. Creio ser fundamental apenas apontar para a formulação mais direta e mais consistente desse argumento, uma formulação que encontramos enunciada e defendida convictamente por Alexandre Koyré. O historiador russofrancês, grande entre os grandes, que participara, em sua terra natal, da revolução de 1905 e da revolução de fevereiro de 1917, insiste em diversas ocasiões que a história das ciências é a história do pensamento humano, um movimento de ideias. Ele considera, na sua interpretação antipositivista (e, consequentemente, antiempirista), a predominância da razão sobre a experiência, chegando a afirmar que a filosofia experimental não conduz a parte alguma (KOYRÉ, 2011b)26. Advogado da descontinuidade, ele assevera que “as grandes revoluções científicas do século XX, tanto quanto as revoluções do século XVII ou do século XIX, embora naturalmente assentadas sobre a descoberta de fatos novos – ou na impossibilidade de verificálos –, são fundamentalmente revoluções teóricas” (KOYRÉ, 2011b, p. 80). No seu texto fundamental sobre as Perspectivas da história das ciências o nosso autor afirma, em tom de polêmica com as posições externalistas (que serão discutidas adiante), que “não é a estrutura social do século XVII que nos pode explicar Newton, nem é a da Rússia de Nicolau I que pode lançar alguma luz sobre a obra de Lobatchevski” (KOYRÉ, 2011e, p. 424). E o autor prossegue (assumindo o idealismo que lhe cabe): a ciência, a ciência de nossa época, como a dos gregos, é essencialmente theoria, busca da verdade e que, por isso, que ela tem 26 Lembremonos também da leitura que o autor faz das relações entre técnica e ciência, especialmente quando se refere ao surgimento do telescópio e do relógio (KOYRÉ, 1990, pp. 5989). 40 e sempre uma teve vida própria, uma história imanente, e que é somente em função de seus próprios problemas, de sua própria história, que ela pode ser compreendida por seus historiadores (KOYRÉ, 2011e, p. 424). Na chave com que os homens do começo do século XX liam a história da ciência moderna, a da oposição entre empirismo e racionalismo, o internalismo se inscreve explicitamente na tradição desse último. O foco na teoria não é apenas uma questão metodológica, não estamos simplesmente diante da escolha de um olhar que poderia ser diferente e que é complementar com outras abordagens – como alguns autores quiseram nos fazer crer. Tratase de uma concepção de ciência que se relaciona com outros argumentos importantes. Um desses argumentos, fundamental nas explicações de viés internalista, surge do esforço de evitar estabelecer uma linearidade evolutiva entre as ciências do passado e as do presente. Thomas Kuhn parece encontrar aí o principal traço que define essa perspectiva, “o historiador [de tendência internalista] deveria pôr de lado a ciência que conhece. A sua ciência deveria ser apreendida dos livros e revistas do período que estuda, e deveria dominar estes e as tradições intrínsecas que exibem” (KUHN, 1989, pp. 148149). Penso que existem duas fontes principais para essa postura na história das ciências. Na Inglaterra, o influente ensaio de “psicologia dos historiadores” (que chamaríamos hoje de teoria da história) escrito em 1931 por Herbert Butterfield sobre a interpretação whig da história desempenhou um papel decisivo27. Nesse livro, a concepção de história qualificada como whiggish é saturada de julgamentos de valor, pensada a partir dos termos do presente, descontextualizada do seu próprio tempo (BUTTERFIELD, 1931). O processo histórico é narrado pela via da polarização entre os heróis (que supostamente defenderiam posições mais progressistas, próximas às do historiador) e os vilões (agentes da reação, obstáculos à efetivação de forças irrefreáveis). Seria, em suma, uma historiografia teleológica e anacrônica. Em seu lugar, Butterfield propõe aos historiadores que analisem o passado em seus próprios termos, os problemas do passado são problemas postos pelas circunstâncias específicas de cada 27 Na Inglaterra, desde meados do século XVII, o vocabulário da polarização políticoideológica se articula através dos termos Tory, tendência conservadora e Católica, e Whig, mais liberais e de religião protestante. A sobrevida dessas denominações no Reino Unido ainda é forte. No começo do nosso século, o então primeiroministro Tony Blair (do Partido Trabalhista, que acolhe muitos whigs) foi jocosamente apelidado, por críticos à esquerda, de Tory Blair devido à suposta guinada conservadora do seu governo. 41 tempo histórico. Avaliando a Reforma Protestante, o autor explica que “a questão entre protestantes e católicos no século XVI foi uma questão do mundo deles e não do nosso mundo” (BUTTERFIELD, 1931, p. 23)28. Embora não tratasse especificamente de história das ciências, as lições de Butterfield foram bastante assimiladas e discutidas nesse campo. Para os seus defensores, elas deveriam implicar num tratamento que nãovisse as realizações científicas do passado como desenvolvimentos em direção ao conhecimento contemporâneo; não devemos procurar, por exemplo, sinais de uma Ciência ou de um Método Científico latente em pensadores do passado, como se essas “entidades” possuíssem existência transhistórica e apenas esperassem pela sua completa libertação do obscurantismo e da ignorância (BUCHDAHL, 1962, pp. 7172). Alguns críticos, por sua vez, vêem um componente whiggish indissociável da escrita da história das ciências. Argumentam que o progresso da ciência só pode ser avaliado corretamente a partir de uma dimensão presentista e anacrônica que julga os avanços do conhecimento em termos qualitativos (sabemos “mais” e “melhor” que antes) (ALVARGONZÁLEZ, 2013). A segunda fonte, desenvolvida na França e transferida para os EUA, é o anti positivismo historiográfico e filosófico de Alexandre Koyré. Também ele insistiu no princípio de que a ciência do passado deve ser compreendida e explicada nos seus próprios termos. Ao comentar esse aspecto da obra de Koyré, Georges Canguilhem (2012, p. 7) aponta que “a história das ciências não é progresso das ciências derrubado, isto é, a colocação em perspectiva de etapas ultrapassadas cuja verdade de hoje seria o ponto de fuga”. Em diversas passagens, Koyré reforça esse argumento e convida os historiadores a não tomar como evidente o conhecimento que possuem da ciência. Pelo contrário, a atitude do historiador deve ser a de enxergar as transformações na ciência como um gesto difícil e doloroso de destruição de determinada visão de mundo. Sua crítica às traduções das obras de Copérnico e Galileu, por exemplo, se dá nesse registro, e o autor enfatiza os perigos de projetarmos os nossos hábitos, nosso valores, nossas concepções (através da nossa linguagem) em um texto produzido sob a égide de concepções bastante diversas (KOYRÉ, 2011d, p. 283). A ciência é engendrada em conjunto com uma visão de mundo, “todo método científico implica uma base 28 No original: “The issue between Protestants and Catholics in the sixteenth century was an issue of their world and not of our world”. Tradução minha. 42 metafísica ou, pelo menos, alguns axiomas sobre a natureza da realidade” (KOYRÉ, 2011b, p. 62). Um antecedente notável desse princípio é o famoso livro As bases metafísicas da ciência moderna, que tem a sua primeira edição publicada nos Estados Unidos em 1925 e no qual o filósofo Edwin Burtt parte da filosofia para fazer uma leitura histórica sobre os fundamentos da moderna concepção de mundo não em sua filosofia moral ou ético social, mas em seus filósofos naturais, questionando como o pensamento e a obra de personagens como Copérnico, Kepler, Descartes, Boyle, Galileu e Newton contribuíram para moldar a corrente principal do pensamento moderno (BURTT, 1983). Alexandre Koyré e Thomas Kuhn reconheceram o débito que possuíam com esse trabalho. Esse princípio de investigação afasta uma concepção redutora do internalismo como uma história da marcha das ideias científicas “puras” (que caracterizaria mais apropriadamente uma versão do positivismo). Certamente, o foco do internalismo está no pensamento, nas ideias, é uma história intelectual. Está longe, no entanto, de ser apenas um conjunto de narrativas cientificistas, herméticas, ensimesmadas nos aspectos técnicos. Consideremos, por exemplo, Alexandre Koyré, que passou para a tradição historiográfica – em parte devido a sua própria autoidentificação – como internalista (talvez o maior representante desse grupo) e que, certamente, apresenta uma das melhores defesas dessa perspectiva. No entanto, para Koyré (mas não apenas para ele), a ciência está em constante intercâmbio com o contexto intelectual – religião, filosofia, metafísica, estética (ideias transcientíficas, de acordo com Koyré) – formando um corpo indissociável de conhecimento, uma visão de mundo, que tem na ciência um dos seus aspectos centrais e deve ser levado em consideração pelo historiador interessado em compreender a ciência moderna (KOYRÉ, 1991, pp. 201214). A professora Francismary Alves da Silva chama a atenção para a forma como o autor dos Estudos de História do Pensamento Científico conecta as ideias científicas com outras dimensões da vida social através do conceito de unidades (ou estruturas, ou estilos) de pensamento (SILVA, 2013, pp. 161166). Esse sistema deve ser considerado em sua integridade, reforçando o papel dos “erros” em determinada concepção de ciência e explicando a sua incidência em termos históricos, como parte de uma estrutura mental autolimitada, nas quais as possibilidades de explicação do mundo natural não são indefinidas. Os erros que 43 parecem evidentes ao observador contemporâneo são, muitas vezes, frutos da natureza e dos limites da visão de mundo na qual determinada ciência se desenvolveu ou certa descoberta foi realizada, não podem ser tomados automaticamente como sinais de incapacidade ou incompetência dos cientistas da época (KOYRÉ, 2011; RUPERT HALL, 1988). Foi através de um gigantesco esforço do pensamento humano, em luta contra concepções poderosas, que essas noções tomadas como “simples” ou naturais puderam ser assim percebidas, em processos de reforma ou revolução no qual participaram homens (e aqui o marcador de gênero é muito importante) que construíram o universo mental da Modernidade. Assim, o estudo cuidadoso e que suspende os julgamentos de valor em relação às ciências do passado fornece um acesso precioso para a compreensão da visão de mundo na qual esses conhecimentos emergem e do qual eles fazem parte. A história das ciências não deveria focar meramente naqueles pontos dos conhecimentos passados que são transmitidos às novas gerações e que chegam à nossa cultura científica como “verdades” (STUMP, 2001, p. 244). Tratase, digamos, de uma “contextualização de primeiro grau” de uma consideração de “historicidade parcial” do conhecimento científico, solidário com outros produtos do pensamento, mas não com “fatores” sociais, econômicos ou políticos. Essa consideração encaminha a questão para a relação entre fatores internos e externos na explicação da história das ciências que as abordagens internalistas nos proporcionam. Tratase do problema da causalidade histórica: quais as causas para as transformações (ou para as permanências) da ciência? Esse não é, evidentemente, um problema menor e não receberá aqui o tratamento exaustivo e minucioso que o tema merece. Não retomarei toda a tradição que (desde Aristóteles) considerou em detalhe os diversos tipos de causas, nem tampouco abordarei a acidentada e vacilante trajetória da causalidade na teoria da história. Meu interesse está nas formas específicas como essa vertente historiográfica abordou a questão e propôs (muitas vezes implicitamente) um modelo de explicação, focando na emergência dos fatores intrínsecos e extrínsecos à ciência na construção desse modelo. A historiografia desse período possuía uma fixação na revolução científica dos séculos XVI e XVII. Mais propriamente, ela constituiu esse objeto da forma como o conhecemos. Apesar da ocorrência eventual da expressão desde o século XVIII, o conceito de revolução científica, seus principais personagens, suas principais 44 características e sua posição na história da “civilização ocidental” são uma invenção (heterogênea e conflituosa) da historiografiadas ciências desenvolvida em meados do século XX (COHEN, 1989; SILVA, 2015; SHAPIN, 1998). A revolução científica é um conceito historiográfico. Ele opera como um marcador do surgimento da ciência moderna. E é principalmente à explicação desse objeto que o internalismo irá se voltar, se dedicando a compreender esse fenômeno no tempo em que ocorreu (entre os séculos XVI e XVIII) e no lugar que ocorreu (a Europa Ocidental) ao mesmo tempo em que o construíam. Já sabemos que, segundo essa abordagem, a ciência moderna é um fenômeno predominantemente teórico e sistemático, uma nova concepção de mundo que engloba uma metafísica subjacente. Resta saber quais as suas origens, de onde ele teria surgido, o que teria provocado tamanha transformação? Em uma palavra: quais são as causas da revolução científica? Essa é uma questão que praticamente não aparece de forma explícita, deve ser buscada indiretamente (o externalismo, como veremos, fará dessa exploração das causas uma divisa mais evidente). A ciência moderna é um produto da gradual, lenta e difícil destruição do sistema filosófico dominante na Idade Média, o sistema aristotélico e escolástico, a passagem, nos diz Koyré repetidas vezes, do “Mundo do ‘mais ou menos’ ao Universo da precisão”. De forma sucinta, definese a nova física a partir de duas características: em primeiro lugar, tratase da destruição da imagem (de origem grega) do Cosmos hierárquico, ordenado, dividido em supralunar e sublunar, animista, colocando em seu lugar a ideia de um Universo aberto, homogêneo, mecanicista no qual a astronomia (que lidava com os corpos celestes) e a física (dos corpos terrestres) podem se unir em torno de um mesmo empreendimento; em segundo lugar, abandonase uma física “sensível”, preocupada com os fenômenos imediatos, com os fatos do “senso comum” em prol de uma ciência que exige abstração, de fenômenos que ocorrem no espaço abstrato da geometria euclidiana, instaurase a matematização da natureza e, portanto, da ciência. Essa substituição não representa, no entanto, apenas a criação de uma nova visão de mundo, mas a recuperação de certas tradições da antiguidade clássica – sobretudo aquela derivada de Platão, mas também Arquimedes, Euclides e todo um conjunto de acepções filosóficas mais matematizante (além de Galeno, para a medicina) – e a permanência de alguns desenvolvimentos intelectuais que tiveram lugar na Europa desde o século XIII – como os estudos sobre o movimento e a elaboração da teoria do 45 impetus. Ao mesmo tempo, isso não impede que os historiadores continuem falando em revolução, uma revolução “intelectual” ou do “espírito”, transformação profunda nas “estruturas mentais” ou nos “sistemas de pensamento”. A mente humana está completamente transformada em seus fundamentos depois da revolução científica. Sabemos que as tradições e as influências nunca são tomadas da mesma forma como se manifestavam em sua formulação “original”, são sempre adaptadas ao novo ambiente no qual se manifestam, transformadas de acordo com novas necessidades e interesses, utilizadas de forma mais ou menos flexível. Assim, a revolução científica é narrada como uma constante tensão entre continuidade e ruptura, permanência e mudança. Koyré parece representar bem essa tensão: critica duramente a tese continuísta de Pierre Duhem e Alistair Crombie, considerando a revolução científica, acima de tudo, uma ruptura com o mundo medieval e antigo (KOYRÉ, 2011b), afirma que “Galileu é impossível antes de Arquimedes” (KOYRÉ, 1990, p. 59). Nessa mesma passagem, Koyré faz uma afirmação que nos soa completamente antihistórica: Podemos, sem duvida, interrogarnos por que razão a antiguidade não produziu um Galileu... Mas isso equivale a retomar o problema da paragem, tão brusca, do magnífico ímpeto da ciência grega: por que motivo cessou o seu desenvolvimento? Por causa da ruína da polis? Da conquista romana? Da influencia cristã? Talvez. Todavia, nesse intervalo, Euclides e Ptolomeu puderam muito bem viver e trabalhar no Egipto. Realmente, nada se opõe a que Copérnico e Galileu lhes tivessem sucedido directamente (KOYRÉ, 1990, p. 60). No entanto, a elucidação do problema das causas da mudança científica parece explicar esse trecho. O que está em jogo é a retomada de certas atitudes intelectuais presentes na ciência grega (em parte dela, pelo menos) e o seu desenvolvimento e elaboração em direções específicas. O contexto social, político e econômico não fazem mais que o papel de um meio no qual se propaga o pensamento; meio que pode ser um obstáculo ou que pode favorecer o seu desenvolvimento. Os mais de mil anos que separam Arquimedes da Renascença não tiveram outro papel, segundo essa interpretação, senão o de impedir o avanço do pensamento matemático sobre a natureza (eventualmente, reconhecese a pequena contribuição de certos desenvolvimentos técnicos medievais). O domínio completo de uma corrente de pensamento que associava aristotelismo e cristianismo foi um fato paralisante de uma linha que, em outras condições intelectuais, poderia ter se estendido muitos séculos antes. O caráter fundamentalmente qualitativo e impreciso da ontologia e da metafísica hegemônicas do 46 medievo impediu mesmo de perceber a quantificação, a matematização e o domínio da precisão como ferramentas intelectuais válidas para o estudo da natureza. Desse modo, a revolução científica é, nas interpretações internalistas, resultado da destruição da ontologia aristotélica, um processo que se inicia no Renascimento – mas que apenas se completará no século XVII, com Descartes, Galileu e Newton (que as substituirão por outro sistema) –, fruto da revolta contra a escolástica e da insatisfação com a autoridade constituída. O humanismo renascentista fornecerá um ponto de partida crucial, posto que “a grande inimiga da Renascença, do ponto de vista filosófico e científico foi a síntese aristotélica e pode dizerse que sua grande obra foi a destruição dessa síntese” (KOYRÉ, 2011a, p. 44). O processo que conduz à ciência moderna se origina de uma reação às concepções medievais dominantes e um retorno à “civilização clássica” (é o que o Renascimento fará no mundo das letras e das artes, mas não no da ciência) e, sobretudo, da possibilidade de pôr em questão essa autoridade que conseguiu se impor durante mais de um milênio. Ao mesmo tempo esse primeiro passo, destrutivo, era uma condição necessária, mas não suficiente. Entre a destruição do antigo sistema e a elaboração de um novo foi preciso recorrer a referências intelectuais diversas daquelas que sustentavam a concepção até então dominante. Por isso, outro fator decisivo foi o acesso a uma “biblioteca maior, mais variada e mais excitante”, como nos diz Rupert Hall (1988, pp. 4849). A redescoberta da tradição a que fiz referência acima foi certamente decisiva e não é em vão que Koyré considera Galileu um platônico e a revolução científica a “desforra de Platão”. Apesar disso, a ciência moderna não é arquimediana ou platônica, mas cartesiana, galileana e newtoniana. Como pertinentemente nos lembra Koyré (2006, p. 9): Não podemos esquecer, ademais, que a “influência” não é uma relação simples; pelo contrário, é bilateral e muito complexa. [...] Em certo sentido, talvez o mais profundo, somos nós mesmos que determinamos as influências a que nos submetemos... Os homens que começaram o processo de construção de uma nova metafísica, da qual sairia uma nova ciência – homens comoNicolau de Cusa, Giordano Bruno e Copérnico – não estavam apenas seguindo a pista deixada por autores antigos. Eles estavam buscando nesses autores elementos para situar uma insatisfação que tem origens muito mais teológicas (que é, por sua vez, uma das bases fundamentais da metafísica medieval) que científicas. O novo Universo que constroem é erigido 47 inicialmente em nome de uma nova concepção da divindade, nasce de uma ideia sobre Deus (KOYRÉ, 2006). Assim, os fatores aventados para explicar as transformações no nosso conhecimento são de ordem intelectual. De certa maneira, é uma afirmação da tese de que a filosofia engendra ciência. Questões teológicas, ontológicas e metafísicas estiveram na base da construção de um novo modo de produção do conhecimento científico. As causas da revolução científica não são apenas científicas, mas não poderiam sêlo, já que um dos princípios interpretativos fundamentais do internalismo é a sua consideração da ciência no interior de um sistema de pensamento mais amplo. Porém, restam perguntas subsequentes: por que o aristotelismo durou tanto tempo? Por que foi destruído e substituído nessa época? Por que escolher essas influências (Platão, Arquimedes, Pitágoras, etc.) e não outras disponíveis? Perguntas que o internalismo (como, de resto, qualquer concepção informada por uma filosofia idealista da história) não poderia responder. Para fazêlo teria que recorrer a explicações positivistas (“porque essas teorias se mostraram corretas, passaram no teste empírico”) ou sóciopolíticas (“porque respondiam a questões demandadas pela estrutura política do período, se relacionavam com a estrutura social na qual aparecem”). Em resumo, quando perguntado “de onde vem as ideias?”, o internalismo se cala. A caracterização do internalismo a partir dos argumentos apontados acima me parece mais próxima da prática efetiva dessa historiografia do que uma definição redutora que circulou amplamente – seja durante a vigência da querela, por seus detratores, seja depois, quando o pequeno interesse em compreender o tema para além da mera menção como corrente historiográfica superada deixava pouco espaço para uma leitura mais atenta. Nessa acepção, o internalismo seria a um tipo de história cujas ideias científicas seriam consideradas em si mesmas. Seria algo próximo da “reconstrução racional”, colocando a história das ciências em uma posição completamente submissa em relação à filosofia, que forneceria “metodologias normativas segundo as quais o historiador reconstrói a ‘história interna’ e desse modo fornece uma explicação racional do desenvolvimento do conhecimento objectivo” (LAKATOS, 1998, p. 21). A história das ciências seria o “laboratório da epistemologia”, um conhecimento instrumental (embora importante) a serviço de problemas formulados alhures pela filosofia da ciência. No entanto, o próprio Lakatos sabia que essa sua definição de história interna não estava de acordo com o que geralmente faziam os historiadores (LAKATOS, 1998, p. 63). 48 Com efeito, tal concepção tem pelo menos um problema: ela não poderia ser encontrada nas narrativas do período, não há mais do que vestígios historiográficos que teriam que ser isolados e descontextualizados para que essa proposição faça sentido. Tratase de um “espantalho” facilmente atacável por aqueles que se opõem ao internalismo e que é utilizado muitas vezes por defensores dos argumentos elencados acima para fugirem de certa carga negativa que o termo recebeu depois dos anos 1970, uma tentativa de “salvar” esses autores e argumentos, como faz, por exemplo, James Stump (2001) em relação a Alexandre Koyré. Penso que os argumentos internalistas não precisam ser salvos, mas compreendidos como uma contribuição crucial para a consolidação teórica e institucional da história das ciências e como um conjunto de práticas intelectuais dotadas de historicidade, produtos do seu tempo. Foi Koyré quem forneceu o modelo intelectual de história das ciências que cresceria aproveitando os espaços intelectuais abertos por George Sarton. O seu modo de interpretação, conscientemente limitado, coloca os “fatores internos” no centro da explicação histórica, já que são eles que definem a ciência e que ela possui uma lógica imanente. A ciência não pode ser explicada por algo que não a constitui, deve ser buscada naquilo que ela é e não naquilo que ela não é. Manterei em suspenso, por enquanto, a discussão sobre o modo como percebo as condições específicas de historicidade do internalismo e me voltarei para o externalismo. No próximo capítulo, depois de analisar essa vertente da história das ciências como um campo plural, retornaremos ao problema das correlações entre a escrita da história das ciências e as formas de organizar a ciência na trama social a partir da querela entre explicações “internas” e “externas”. 2. Ordem social, ordem cognitiva O externalismo será dividido em dois grandes grupos: marxista e mertoniano. Dedicarei mais atenção ao primeiro tipo, que oferece uma oposição – teórica e política – 49 mais interessante ao internalismo e à filosofia das ciências do período e que me parece mais influente nos desenvolvimentos posteriores da história das ciências. Além disso, o modelo marxista é mais antigo. A versão elaborada por Merton, cujo sucesso não deve ser menosprezado, será abordada em seguida. Defenderei que ela se propõe a combater mais o marxismo que o internalismo. Assim, duas formas diferentes interpretar os fatores externos são colocadas em disputa – uma disputa centrada no papel que a “dimensão social” exerce na determinação (ou não) do conteúdo da ciência, mas que guarda um consenso em relação ao que conta como “fator externo”. Ao ressaltar a tensão entre a sociologia da ciência mertoniana e a histórial social das ciências de inspiração marxista, apontarei para o entrelaçamento entre posturas políticas e filiações ideológicas, atribuições quanto às funções sociais da ciência e atitudes metafísicas diante dela, argumentos epistemológicos. Esses elementos não podem – é importante que se repita – sujeitarse à mera redução da ciência à política sob a pena de oferecer uma interpretação insuficiente do processo que pretendemos analisar. Não há como identificar onde reside definitivamente o fundamento do conhecimento científico, não há como definir um ponto fixo a priori (“a” sociedade ou “a” ideologia, de um lado; “a” natureza ou “as” ideias, de outro) de onde podemos derivar as demais características da ciência como mera expressão, como efeito. Por fim, esse se capítulo se encerra com uma aproximação entre o internalismo e o externalismo para ressaltar as suas diferenças e, principalmente, apontar para a existência de uma concepção de ciência que é – em aspectos determinantes – comum aos dois modos de explicação discutidos. A história da emergência da interpretação marxista da história das ciências e do seu texto fundador já está bem estabelecida. Tratase da participação da delegação soviética liderada pelo destacado teórico marxista e revolucionário russo Nikolai Bukharin no II Congresso Internacional de História da Ciência e da Tecnologia, ocorrido em Londres em 1931. Os textos dos autores soviéticos foram publicados na Inglaterra logo após o evento na coletânea Science at the crossroads e tiveram um impacto decisivo sobre algunscientistas próximos ao marxismo interessados em questões históricas e políticas da ciência. Alguns desses jovens cientistas se tornariam depois importantes representantes da vertente externalista, como John Bernal ou Joseph Needham. O texto mais influente desse livro foi, sem dúvida, The social and economic 50 roots of Newton’s Principia, comunicação apresentada naquele congresso pelo físico e historiador soviético Boris Hessen29. O propósito do texto é a “aplicação do método do materialismo dialético e da concepção do processo histórico criado por Marx para analisar a gênese e o desenvolvimento da obra de Newton, em relação com o período em que viveu e trabalhou” (HESSEN, 1985, p. 31). Para isso, nosso autor se apóia principalmente nos escritos do jovem Marx e na interpretação que lhes dá Lênin. Porém, sabemos que as interpretações e os usos da concepção materialista da história são – como em qualquer grande sistema filosófico – bastante variáveis. O rótulo “marxista” não explica muito sobre um texto ou sobre um personagem, especialmente no clima turbulento da União Soviética dos nos 1920 e 1930. Desde os primeiros anos do século XX, os marxistas russos já haviam produzido um considerável volume de reflexões sobre a lição do velho mestre, segundo a qual a estrutura social determina as formas de consciência. Diversos autores, entre eles Lênin e Plekhanov – filosoficamente mais sofisticado e historiograficamente mais relevante –, discutiram e ampliaram a concepção materialista da história. O marxismo soviético dos anos 1920 estava particularmente interessado nessa temática, em busca de interpretações para a própria história da Rússia e da revolução (nos anos 1930 a situação era consideravelmente diferente, como mostrarei adiante). Diante disso, devemos nos perguntar que usos Hessen fez desse instrumental, como realizou a sua leitura e o que isso significava para a história das ciências? Para a consecução do seu objetivo, Hessen parte de uma análise dos problemas de ordem técnica impostos pela transição do feudalismo para o mercantilismo na Europa (seleciona três eixos principais: transporte, indústria e guerra) e se pergunta quais os problemas científicos que estão na base das questões da época. Estes seriam problemas de mecânica, justamente a área mais importante das ciências físicas no período. Diante disso: Comparando os principais problemas técnicos e físicos da época com os das investigações que dominavam a física no período em que estudamos, chegamos à conclusão de que estes temas eram determinados, principalmente, pelas tarefas econômicas e técnicas que a burguesia em ascensão colocava em primeiro plano (HESSEN, 1985, p. 44, grifo meu). 29 Ambos, Hessen e Bukharin, foram figuras notáveis na vida intelectual soviética dos anos 1930. Os dois foram presos e executados (em 1936 e 1938, respectivamente) pela ditadura stalinista. 51 Não devemos, de acordo com o autor, precipitarmonos na crítica fácil ao “determinismo econômico” dessa abordagem. Algumas páginas depois, ele nos lembra que Seria, entretanto, uma grande simplificação, e mesmo vulgarização, de nosso objeto se deduzíssemos diretamente da economia e da técnica cada problema que tenha sido estudado por um físico, cada tarefa que tenha resolvido (HESSEN, 1985, p. 53). Os determinantes – termo fundamental para o marxismo – são de várias ordens: religiosos, políticos, jurídicos, filosóficos etc. Assim, passa a examinar a luta de classes na Inglaterra na época de Newton para deduzir que o pertencimento do eminente cientista à determinada classe social (filho de pequenos fazendeiros, protestante, whig) teve influência direta no seu sistema filosófico, impedindoo adotar um materialismo consequente e levandoo a adotar preceitos idealistas e teológicos na explicação do mundo físico. Da mesma forma explica a incapacidade de Newton de deduzir, do seu próprio sistema de mecânica, a lei da conservação da energia. Apesar de reconhecer a concorrência de outros fatores que não os econômicos, Hessen o faz a partir da rígida e esquemática divisão entre a “base” e a “superestrutura”; entre a economia e os produtos culturais e intelectuais, política, direito, arte, ciência. Uma interpretação típica do marxismo soviético dos anos 1920 (HESSEN, 1985, p. 53; FREIRE, 1993). Em sua análise, Boris Hessen coloca a ciência não apenas como um produto do seu tempo, mas também como um elemento fundamental na evolução das forças produtivas, determinado pela classe que dirige a mudança na estrutura do modo de produção (HESSEN, 1985, p. 79). O capitalismo mercantil dos séculos XVI e XVII, com a sua sociedade burguesa nascente só poderia ter criado uma ciência preocupada em favorecer os interesses da sua classe. É por isso que – por exemplo – essa ciência se desenvolve fora das Universidades e contra elas, que ainda mantinham uma postura reacionária, aristotélica e aristocrática, praticando uma “ciência oficial”, visto que eram “centros científicos do feudalismo, não apenas portadoras das tradições feudais como também suas ativas defensoras” (HESSEN, 1985, P. 44). Do ponto de vista historiográfico temos aí duas teses fundamentais para o desenvolvimento da corrente externalista. A primeira nos informa que as demandas técnicas de uma época criam conhecimento científico, os problemas de ordem prática que tem que ser resolvidos pela sociedade (ou pelas classes dominantes) em determinado período pautam as atividades dos filósofos naturais e cientistas (ao menos, ditamlhe o rumo). A segunda tese, 52 consequência da anterior, encerra a ciência no horizonte da sua época, enquadrandoa na necessidade histórica ditada pelas formas de intercâmbio material dos homens em um momento histórico específico, da qual se torna uma forma específica de consciência histórica atuando no interior de limites estruturais últimos (MÉSZÁROS, 2009, pp. 9 19; FREUDENTHAL e MCLAUGHLIN, 2009, pp. 141). A ciência é uma atividade altamente carregada de ideologia (no sentido marxista do termo). “Apenas na sociedade socialista a ciência se tornará patrimônio de toda a humanidade” (HESSEN, 1985, p. 85). Somente o proletariado, que não tem nada a perder (“a não ser os seus grilhões...”) e não precisa ocultar a realidade, pode criar uma “história verdadeira e genuína da natureza e da sociedade” (HESSEN, 1985, p. 32)30. Essa perspectiva abrirá caminho para que, no Ocidente, os historiadores marxistas possam analisar a ciência do passado nesses termos e também projetar as ciências do futuro por meio da planificação. Contudo, a história que nos conta Hessen não avança nas relações entre o conteúdo cognitivo da física newtoniana e as determinações históricas da sua produção, apesar de apontar as relações entre a visão filosófica de Newton e seus pressupostos religiosos e políticos. As afirmações genéricas sobre o problema e a questão da impossibilidade da formulação do princípio da conservação da energia estão muito distantes da grandiosidade científica da obra de Newton, não atingem o seu núcleo. Pelo contrário, Hessen parece se contentar em apontar as correlações entre os temas dos Principia e os problemas técnico do período, deixando intactas as soluções específicas adotadas e como elas poderiam se relacionar quando analisadas do ponto de vista do materialismo dialético (HESSEN, 1985, pp. 5053; FREIRE, 1993, 1954). Será que Hessen foi incapaz de ir mais longe? Será quenão é possível atacar os problemas técnicos de uma teoria, relacionandoos com as forças produtivas, as classes dominantes, a luta de classes etc.? O conteúdo técnico é intransponível e, no limite, a histórico? Muitos críticos do artigo de Hessen, dentro e fora do espectro do marxismo, julgaram corretamente encontrar aí a sua grande limitação31. No entanto, em seu 30 Essa visão, apesar de tudo, não carrega o otimismo exagerado de Lênin que, analisando a “crise das ciências” nos primeiros anos do século XX, afirmara que “a física contemporânea está a dar à luz. Está a dar à luz o materialismo dialético” (LÊNIN, 1982, p. 237). 31 O próprio Marx escreveu muito pouco sobre as ciências naturais (sabemos da sua grande admiração por Charles Darwin e, através das correspondências trocadas principalmente com Engels, do seu interesse eventual por astronomia). Em uma de suas passagens mais conhecidas sobre o tema, no Capital, ele 53 brilhante artigo The socialpolitical roots of Boris Hessen, o professor Loren Graham nos fornece uma interpretação muito perspicaz e profunda sobre esse trabalho, inserindoo no contexto mais amplo das discussões sobre a ciência na União Soviética e sobre a posição que nela se encontrava Boris Hessen. Graham recupera a trajetória de Hessen no período anterior à viagem à Londres em 1931 e explica como suas preocupações se voltavam principalmente para a defesa da teoria da relatividade e da mecânica quântica nos circuitos científicos soviéticos. No entanto, essa havia se tornado uma atividade realmente perigosa, visto que a classe dirigente emergente após a guerra civil russa (19181921) – que começava a vasculhar as teorias científicas em busca de ideologias burguesas em seu projeto de reconstrução total da ciência a partir do materialismo – considerava essas teorias como fruto da ciência burguesa e imperialista. Não apenas julgavamnas equivocadas do ponto de vista científico, mas interpretavam nas como filosoficamente e politicamente danosas, abstrações vazias carregadas de misticismo burguês, montadas para destruir o materialismo. Após 1929, o cerco se fecha sobre os defensores de Einstein e Bohr, muitos são perseguidos, expurgados, presos. Hessen, um defensor de primeira linha da revolução, estava sob suspeita. Em seus textos, ele buscava reconciliar o marxismo com a física contemporânea. Concordava com as origens imperialistas e burguesas dessas teorias e com as implicações filosóficas antimaterialistas que elas acarretavam, mas defendia que deveria haver uma separação entre esses aspectos da ciência e seu valor de verdade; o reconhecimento das origens filosóficas e sociais nãomaterialistas dessa ciência não deveria ser motivo para descartar o seu conteúdo físico. Essa posição colocavao em dificuldade, tendo sido censurado publicamente, em 1930, por suas ideias “metafísicas” e “idealistas”. Assim, para Graham, a participação de Hessen no Congresso de Londres foi uma chance de se redimir, assumindo uma posição mais ortodoxa, mais próxima do “marxismo oficial” e, ao mesmo tempo, inserir uma mensagem sutil. Por isso ele retoma Newton, tido em alta conta nos círculos científicos dominantes da União Soviética e demonstra como o seu programa de pesquisas estava diretamente vinculado aos indica que: “A necessidade de calcular os movimentos do Nilo gerou a astronomia egípcia e com ela o domínio da casta sacerdotal como dirigente da agricultura” (MARX, 1996, p. 142, grifos meus). Assim, ele apenas reconhece a capacidade das questões práticas de engendrar certos tipos de conhecimento e de propor temas à investigação do mundo natural, mas não ataca a questão do conteúdo desse conhecimento e sua relação com esses mesmos problemas. É nas suas análises mais metodológicas sobre a relação entre estrutura social e formas de consciência ou sobre a concepção materialista da história que os marxistas encontram chaves analíticas para avançar nesse problema. 54 interesses da burguesia mercantil e como a sua filosofia estava eivada de idealismo e teologia, reflexos da luta de classes na época da Revolução Inglesa e da posição adotada por Newton nessa conjuntura. Hessen procede em relação a Newton como esperava que seus colegas, de volta à União Soviética, procedessem em relação a Einstein e Bohr. Por isso ele evita associar o conteúdo da física newtoniana à sua posição na luta de classes e nas relações sociais de produção, recusase a considerálo mera ideologia. Ao analisar em bases marxistas a mecânica clássica, ele não retira as mesmas conclusões que seus pares da intelligentsia soviética retiravam para a análise que faziam da relatividade e da mecânica quântica. Assim, o famoso ensaio de Hessen adquire um significado bastante diferente. Ele continua sendo um marco para as interpretações marxistas (Hessen era efetivamente um marxista militante) da história das ciências, mas deve ser visto também como uma estratégia de defesa diante das acusações que sofria na União Soviética, ao assumir um tom mais próximo daquele que era esperado dos intelectuais comprometidos com o novo regime, e como um recurso à história para elaborar um argumento que tornassem viáveis as suas posições científicas. A separação do valor de verdade de uma teoria dos seus condicionamentos históricos e sociais – que surge, em uma primeira leitura, como uma limitação involuntária – se torna, depois da cuidadosa avaliação do contexto da sua produção levado a cabo por Loren Graham, uma atitude deliberada (GRAHAM, 1985, pp. 705722). Sabemos que todo esse contexto permaneceu desconhecido durante mais de cinquenta anos e que o texto de Boris Hessen passou à tradição e influenciou toda uma geração de historiadores da ciência no Ocidente que ignorava a maior parte dessas condições de produção. Por outro lado, era bem conhecida a assombrosa ascensão da União Soviética. Desde 1917, o espectro de uma Modernidade alternativa assombrava a Europa, afirmandose como uma sociedade superior à civilização capitalista e destinada a triunfar sobre esse sistema. O surgimento desse colosso oriental – que prometera realizar para a humanidade aquilo que a Revolução Francesa havia deixado inacabado e que transformara um país com uma estrutura econômica e social extremamente arcaica e um governo nos moldes do Absolutismo em uma potência industrial aparentemente imune à grande depressão que assolara os países capitalistas – causou preocupação nas potências europeias ao mesmo tempo em que atraiu uma parcela significativa da 55 juventude universitária do continente para as fileiras do comunismo (HOBSBAWM, 2006, pp. 6389; HILL, 1967)32. O regime instaurado após a revolução de outubro na Rússia tinha grande interesse no campo das Políticas de Ciência e Tecnologia. De acordo com Loren Graham, “nenhum governo anterior na história foi tão abertamente e energicamente a favor da ciência” (GRAHAM, 1967, pp. 3233)33. Os soviéticos apostaram na modernização do país com uso das ciências naturais e no seu poder de transformar radicalmente a sociedade soviética, não apenas através do uso da tecnologia e da ciência na indústria e na economia, mas também na construção de uma cultura despida de todo “misticismo”, de um “novo homem”. Não só a direção da economia devia ser organizada com base em princípios científicos, mas toda a vida social deveria ser “racionalizada”. Por outro lado, a própria atividade científica deveria ser reorganizada para se adequar aos moldes do comunismo e à construção da novasociedade. Assim, nos últimos anos da década de 1920 é implementado na URSS um processo de planificação do trabalho científico com vistas a aperfeiçoar a utilização dos seus recursos. Esse fenômeno ocorre quase em simultaneidade com o fim da Nova Política Econômica (NEP, na sigla em russo) adotada após a guerra civil e o início da coletivização e da industrialização forçada que marca a ascensão de Stalin ao poder. Essas mudanças acabaram dando fim a um período, entre 1922 e 1928, de relativa liberdade de pesquisa. A íntima relação entre técnica e ciência defendida pelo marxismo oficial, o pavor à abstração vazia e a ênfase na ciência como peça importante na estrutura produtiva colocavam o controle da ciência como uma atividade prioritária para o Estado soviético. Além disso, a convicção de que a ciência era fruto dos interesses da classe dominante e uma expressão do estado das forças produtivas – ligada ao domínio da necessidade – fazia com que ela fosse vista como socialmente dirigida e, portanto, dirigível (GRAHAM, 1967, pp. 3279). 32 É verdade que a Rússia, desde a década de 1860, se inseria timidamente no processo de modernização, com o surgimento de algumas indústrias, a construção de ferrovias e instalação de linhas de telégrafo financiadas por capital estrangeiro. A distância para as economias mais dinâmicas da Europa era, contudo, gigantesca. Em relação à estrutura política, o czar Nicolau II repetia frequentemente que governava por “direito divino” e repelia qualquer tentativa de ampliação da participação da sociedade nas decisões estatais. 33 No original: “No previous government in history was so openly and energetically in favor of science”. Tradução minha. 56 Isso explica também porque o controle da ciência tinha como um objetivo fundamental a destruição da “ciência burguesa” e a edificação de uma “ciência socialista”, que passava pela recuperação de uma suposta tradição genuinamente materialista presente na ciência moderna. Esses objetivos, porém, não estavam apenas restritos aos interesses oficiais da URSS. Espraiaramse para além de Moscou e fizeram parte das aspirações de diveros historiadores das ciências de matriz marxista. Entre eles, um dos mais importantes foi o inglês John Desmond Bernal. Como muitos historiadores das ciências da sua geração, Bernal era um cientista natural de formação. E um dos grandes, tendo trabalhado com os principais nomes da ciência do seu tempo e circulado pelas instituições científicas mais importantes da GrãBretanha, como a Royal Society, da qual foi membro desde 1937. É considerado uma das figuras capitais da ciência britânica do século XX. Suas pesquisas na área de cristalografia foram fundamentais para os desenvolvimentos da físico química e da bioquímica posteriores, fornecendo algumas das técnicas utilizadas ainda hoje e possibilitando as pesquisas que conduziriam, por exemplo, à dupla hélice do DNA. Em 1945, recebeu a Royal Medal, maior condecoração da ciência britânica por suas contribuições à cristalografia, e o Prêmio Stalin da Paz (depois rebatizado de Prêmio Lênin da Paz, em meio ao processo de desestalinização do período Khrushchev) em 1953 (HODGKIN, 1980). Especulase que o prêmio Nobel não lhe foi concedido por suas convicções ideológicas. Segundo Gary Werskey (2007, pp. 404405), foi o impacto causado pela delegação soviética no já mencionado Congresso de História da Ciência e da Tecnologia que possibilitou a conversão de Bernal e de um grupo de jovens cientistas ao marxismo. Eles faziam parte de uma geração de desiludidos com o capitalismo liberal na esteira do fim da Primeira Guerra Mundial e da crise de 1929 e com a incapacidade desse modelo político e econômico de utilizar a ciência em benefício da sociedade. Em oposição ao pessimismo britânico, os soviéticos anunciavam uma sociedade que não havia sido afetada pela crise e na qual a ciência estaria alcançando seu auge e direcionando seus esforços para o bemestar coletivo. Essa perspectiva implicava em uma nova abertura para as Políticas de Ciência e Tecnologia, fortemente influenciada em uma leitura sociológica e embasada em um conceito de história (e de história das ciências) completamente diferente daquele a que estavam acostumados os intelectuais ocidentais. Não tratarei aqui da sociologia da ciência inaugurada por Bernal no seu clássico de 57 1939, The social function of science. Lidarei prioritariamente com a sua grande compilação de história das ciências elaborada após a Segunda Guerra Mundial e publicada pela primeira vez em 1954 sob o título de Science in history. Bernal chegou à história (e também à sociologia) das ciências através da militância política. Utilizava deliberadamente a história das ciências, como Hessen antes dele e como muitos marxistas do seu tempo e depois, para afirmar a incapacidade estrutural do capitalismo de distribuir igualmente as riquezas e proporcionar uma sociedade mais justa. Sua interpretação prioriza as interferências mútuas entre ciência e sociedade, inscrevendose no campo da história social – que já possuía uma larga tradição na Inglaterra e que justamente nesse período se renovava à luz do materialismo histórico e se agrupava em torno da New Left Review34. A história social das ciências, distintiva da corrente externalista, mantinha seu foco nas maneiras como a ciência servia antes de tudo à transformação do mundo material. A abordagem de Bernal dá um tom funcionalista ao processo, a ciência possui um papel social a desempenhar, surge como uma demanda derivada de problemas de ordem técnica e econômica, está sempre à serviço de um modo de produção. Desse modo, o autor critica duramente a noção de “ciência pura” e a ênfase nas suas características abstratas: De fato, o ideal da ciência pura – a busca da Verdade por si mesma – é a afirmação consciente de uma atitude social que fez muito para impedir o desenvolvimento da ciência e ajudou a colocála nas mãos de obscurantistas e reacionários (BERNAL, 1954, p. 17)35. Assim, o papel da história das ciências é o de desvendar a dimensão social das teorias, expor as correlações entre estas e a estrutura social vigente, inserindo a ciência na função que lhe cabe em determinado momento histórico. Ao longo de toda a história humana, da Idade da Pedra à Era Atômica, Bernal constrói um padrão de desenvolvimento da ciência. Os longos períodos de relativa inatividade entrecortados por surtos de transformação intensa não estão associados ao surgimento de indivíduos capazes de revolucionar o conhecimento disponível, elevandoo a outro patamar, não 34 Esse grupo, que incluía autores da importância de Eric Hobsbawm, Edward Thompson, Christopher Hill, Raymond Willians e Perry Anderson, se tornaria a maior força de renovação da historiografia inglesa do século XX. Sua relação com essa história das ciências que se desenvolvia, apesar da afinidade ideológica, não era muito próxima. Christopher Hill tratou do papel da ciência no seu livro Origens intelectuais da revolução inglesa e Hobsbawm, em parte por sua relação pessoal com Joseph Needham, incluiu capítulos sobre ciência nas suas Eras. 35 No original: “Indeed, the ideal of pure science – the pursuit of Truth for its own sake – is the conscious statement of a social attitude which has done much to hinder the development of science and has helped to put it into obscurantist and reactionary hands”. Tradução minha. 58 são gênios “à frente do seu tempo”.work highlights four historical periods pointing to their main historiographical characteristics and to the ways that different attitudes about the past of science legitimize certain agreements between science, State, and society (but also resist and contest others). First, the classical period of the “internalist versus externalist quarrel” from the 1930’s to the 1960’s. The second moment is the rising of the “Kuhnian tradition”, that is, the depth and direction of the changings suffered by the history of sciences under the impact of Thomas Kuhn’s famous essay The structure of the scientific revolutions. The two last periods are seen through the analyses of two books that represent wider movements. Simon Schaffer and Steven Shapin’s Leviathan and the airpump was taken as an example of the historiography produced in the 1980’s, a moment of huge transformations in the relations between science and the State and of intense dialogue with the science studies, and with the concept of technoscience. Finally, the book Objectivity, by Lorraine Daston and Peter Galison, served as a stand to an analysis of the main outlines of the historiography of sciences at the turn of the twentieth to the twentyfirst century – stressing how this book proposes the radical historicity of science. The research over the process of disciplinarization of the history of sciences deals simultaneously with the transformation of science in an object of history and their implications. Keywords: History of sciences, History of historiography, Twentieth Century. Sumário Introdução.......................................................................................................................9 Parte I. A ordem dos fatores........................................................................................20 1. A centralidade da teoria...................................................................................20 2. Ordem social, ordem cognitiva........................................................................49 Parte II. Da Big Science à tecnociência......................................................................77 3. A comunidade científica como solução política..............................................77 4. O passado da tecnociência.............................................................................101 5. O self e a comunidade....................................................................................142 Conclusão ou ciência, objeto da história...................................................................186 Referências Bibliográficas..........................................................................................199 9 Introdução Uma das estratégias recorrentes de deslegitimação dos discursos com pretensão à verdade, na Modernidade Ocidental, é o “desmascaramento ideológico”. Tratase de revelar, na “essência” de um discurso – por baixo da “mera retórica” de veracidade, necessidade ou cientificidade –, um argumento de fundo teológico ou (como ocorre com mais frequência na contemporaneidade) político. Obedece à estratégia da denúncia, voltada para os inimigos e apontando para as “imposturas intelectuais”. Pautase no vocabulário do desvio, do erro, da distorção; tratase, em uma palavra, de uma abordagem assimétrica, na definição de David Bloor (2009). Nesta pesquisa, evito ao máximo essa assimetria. Nesta tese, parto do pressuposto que toda obra de história das ciências guarda, em seu discurso, um conteúdo de Política de Ciência e Tecnologia. Todo texto de história das ciências endossa, critica ou propõe um pacto entre a ciência e o Estado; estabelece um modo de relação entre a ciência e a sociedade. Como toda história, a história das ciências fala do seu tempo e para ele; sua condição política não pode (e nem deve) ser eliminada, não é um motivo para queixumes ou tentativas de correção em busca da “objetividade” e da “neutralidade”. Ressaltar essa condição não significa, para a perspectiva adotada, apontar para uma fonte de perturbação na produção do conhecimento histórico. Esse é um ponto de partida: é dele que se seguirão as análises desenvolvidas aqui. A leitura das tensões entre “fatores internos” – racionais, cognitivos, intelectuais – e “fatores externos” – sociais, culturais, econômicos, políticos – na história das ciências será feita a partir desse registro. A definição do que vem a ser ciência, incluindo aí o que foi a ciência no passado, é sempre uma definição política com sérias implicações. Tal definição autoriza e legitima certas práticas discursivas e epistêmicas, ao mesmo tempo em que nega e proíbe outras; inclui e exclui sujeitos e grupos; delega direitos e deveres; impõe condutas e estabelece relações de força; garante acesso a recursos. Enfim, instaura um campo de positividades específicas de cada definição. Mesmo a historiografia das ciências mais recente, que evitou uma definição rigorosa e sistemática do seu objeto, o fez tomando uma posição neste embate. Com efeito, a falta de uma definição clara já se configurava como uma tomada de posição. Ao negar as variadas definições – que, como veremos, quase nunca concordavam entre si – formuladas na primeira metade do século 10 XX e substituílas por um conjunto de proposições que deixa em aberto pontos antes considerados fundamentais, a historiografia contemporânea dilui a rigidez das fronteiras entre o “interno” e o “externo” na ciência; põe em xeque essa divisão e, com ela, modelos de história e filosofia das ciências que a criaram e a legitimavam. Os critérios que garantem cientificidade a uma prática social são buscados cada vez menos em epistemologias normativas ou logicistas e cada vez mais na cultura e na história. A recusa a uma definição formal de ciência é acompanhada de uma guinada em direção aos usos locais e condicionamentos pragmáticos. Com isso, visavam intervir em certos circuitos políticos e estruturas sociais nos quais essa imagem de ciência circulava (STENGERS, 2002; LAKATOS, 1998; PESTRE, 1996). Não seria um exagero muito grande afirmar que a questão da demarcação entre ciência e nãociência figurou como o principal problema da filosofia das ciências na primeira metade do século XX. A busca por critérios satisfatórios para estabelecer os fundamentos da ciência e sua distinção de outros campos da vida social alimentou algumas das mentes mais poderosas do século e fundou as principais correntes filosóficas do período. Foi também em torno desse problema que muito do debate crítico se desenvolveu. A corrente principal da nascente sociologia da ciência dedicou se a estabelecer os critérios que diferenciavam a ciência de outras esferas da vida social e garantiam a sua autonomia em relação a elas. Na historiografia, o problema da demarcação também conheceu a sua forma de manifestação, sob a rubrica da “querela internalismo x externalismo”. Como pretendo apontar adiante, essa historiografia não é apenas fruto da discussão filosófica; em ambos os campos esse debate surge a partir da mesma configuração histórica e, em especial, da condição da ciência e sua relação com o Estado em dois momentos distintos: na euforia epistemológica da virada do século XIX para o século XX e na consolidação da Big Business Science após 1945. Obviamente, os desenvolvimentos na filosofia, na sociologia e na história das ciências se retroalimentavam na forma de convergências ou acalorados contrapontos. A demarcação doOs saltos que ocorrem no conhecimento da natureza estão diretamente ligados à criação de novos modos de produção, à ascensão de uma nova classe dominante e ao surgimento de novas demandas técnicas e econômicas (para o favorecimento dessas classes e não da sociedade como um todo). A ciência não é a busca pela verdade, mas a busca por soluções. O caráter classista da ciência é explicado não apenas em termos de domínio político e econômico, mas pela própria maneira como a ciência e a sociedade se estruturam historicamente. Devido ao seu caráter formal e à exigência de domínio de certas habilidades intelectuais – leitura e escrita, matemática – restritas a certas camadas da sociedade, a ciência não poderia ser praticada indistintamente. Além disso, a possibilidade de dedicar tempo às atividades científicas antes da sua profissionalização na segunda metade do século XIX era um privilégio das camadas dominantes. Dessa característica seguem dois resultados. Em primeiro lugar, isso implica em um avanço mais lento, já que muitos dos que poderiam contribuir com o seu talento para o desenvolvimento do conhecimento são excluídos da prática da ciência. Em segundo lugar, o conhecimento produzido e (mais importante) as suas aplicações práticas tendiam a aumentar a exploração (BERNAL, 1954, p. 394). Segundo o autor, os períodos mais frutíferos de desenvolvimento científico ocorrem justamente quando a barreira entre classes sociais diferentes diminui ou é abolida (BERNAL, 1954, pp. 867 873). Dessa concepção concluise que a ciência é regida por fatores externos, as causas das suas transformações escapam ao seu alcance, residem na tensão dialética entre forças produtivas e relações de produção, embora ela possa retroalimentar essa tensão (e geralmente o faz). A história das ciências seria a história de como o conhecimento da natureza se acomoda a uma nova situação histórica, como ele é moldado por forças estruturais às quais ela não pode controlar, das quais participa como expressão superestrutural e como parte integrante da reprodução de certos modos de produção. A função social da ciência lhe é determinada de fora. É um instrumento essencial para a manutenção (ou transformação) das estruturas sociais. Desse modo, a melhor alternativa para o desenvolvimento da ciência é a planificação (defendido por Hessen e aparentemente bem sucedido na URSS entre os anos 1930 e 1950). O modelo de ciência planificada só encontraria oposição das classes dominantes e seus representantes intelectuais (que, de acordo com essa perspectiva, já dirigia a ciência 59 para os seus interesses) ou por aqueles que, sob o impacto traumático da utilização maciça de ciência e tecnologia nos esforços de guerra e incapazes de imaginar uma sociedade diferente, viam o planejamento apenas como gerador de sofrimento e destruição (BERNAL, 1954, pp. 582585). No entanto, a narrativa produzida por Bernal parece não conseguir demonstrar o efeito dos fatores externos, da estrutura econômica e social de determinada época histórica, na sua respectiva estrutura cognitiva – assim como Boris Hessen, com a diferença significativa de que o físico russo evitou esse passo deliberadamente, enquanto Bernal se esforça para demonstrar essa dependência. Com a exceção de alguns exercícios pouco satisfatórios, como a relação entre o lugar central ocupado pelo Sol na astronomia copernicana e a metáfora do le Roi Soleil das monarquias absolutas36, ou, o que me parece bastante interessante, embora incompleto, a associação entre a estrutura rígida, hierárquica, fechada e imobilista da astronomia aristotélica com a sociedade feudal e a nova imagem do universo indefinido, aberto, dinâmico e homogêneo vinculada a uma sociedade capitalista; em ambos os casos, as formações sociais poderiam ser definidas quase nos mesmos termos das suas concepções astronômicas (BERNAL, 1954, pp. 279344). De maneira geral, as mudanças econômicas e técnicas indicam a direção que deve ser seguida pela ciência, mas não o ponto no qual ela chegará. Para Bernal, e esse é um argumento decisivo para a concepção externalista da história das ciências, o que há de mais importante para se compreender na ciência encontrase do lado de fora das mentes dos cientistas. Não se busca a abstração (o método), mas as suas origens materiais. De qualquer modo, será apenas nos anos 1970 e 1980 que a historiografia começará a avançar nesse problema, partindo sobretudo de estudos de caso mais detalhados. Ao mesmo tempo, na descrição apresentada para o método da ciência, Bernal mantém uma postura bastante tradicional, próxima de abordagens empiristas filosoficamente pobres. Embora considere que o método científico seja uma abstração da forma de organização institucional da ciência, o autor limitase a considerar o método científico como um caso especial das operações do senso comum, requeridas não mais em situações cotidianas de sobrevivência e intercâmbio material, mas nas 36 Embora a referência explícita a este epíteto só tenha sido utilizada no reinado de Luis XIV, um século após a publicação do De revolutionibus orbium coelestium. 60 situações específicas de investigação dos fenômenos naturais. Assim, observações e experimentos, leis, hipóteses e teorias, aparelhos, classificação e medição e mesmo a linguagem da ciência são derivadas do uso comum. A diferença entre as suas utilizações habituais e científicas está simplesmente no maior controle às quais essas operações são submetidas. A justificável preocupação com a afirmação de uma história social das ciências e a óbvia impossibilidade de tratar de todos os temas relevantes em uma mesma obra – além da necessidade de uma definição que seja elástica o suficiente para permitir falar de ciência em todas as épocas históricas – parece resultar na pouca atenção dedicada aos procedimentos internos da ciência. No entanto, as grandes críticas ao projeto de Bernal não decorrem da sua abordagem historiográfica, mas da opção política que a informa. Foi a defesa intransigente da planificação como única forma de garantir o progresso – o que na Grã Bretanha ficou conhecido como “bernalismo” – que provocou as mais acesas reações. Já em 1938, um grupo de cientistas britânicos liderados por Michael Polanyi – um polímata húngaro que emigrara para a Europa ocidental depois da anexação da Hungria à URSS – e John Baker criou a Society for Freedom in Science (SFS) como resposta ao surgimento, no interior da British Association for the Advancement of Science, de uma divisão dedicada a fornecer orientações sociais para o progresso da ciência. Para os líderes da SFS, o “bernalismo” constituía, do ponto de vista teórico, um ataque à ciência pura – já que a nobre ciência seria reduzida apenas à busca um tanto mesquinha por necessidades econômicas e materiais – e, de uma perspectiva mais prática, um perigo à autonomia intelectual e à liberdade dos cientistas de decidirem o tópico das suas pesquisas e a maneira adequada de conduzilas (FULLER, 2007; POLANYI, 1964; WERSKEY, 2007, pp. 412413). As fortes contradições que polarizavam a Europa naqueles anos imediatamente anteriores à Segunda Guerra (e que foram momentaneamente suspensos na união contra o inimigo comum, o nazifascismo) ainda não haviam alcançado a escala global que marcariamo período da Guerra Fria, mas já se manifestavam claramente na ciência e nas formas de interpretar a sua história. O próprio Polanyi, por exemplo, insistiria que existem certos elementos na ciência que são tácitos, não são passíveis de sistematização ou formalização e dependem profundamente de julgamentos e compromissos pessoais. Essa tese servia imensamente na batalha pela “liberdade” contra a planificação. A dimensão tácita impede a compreensão completa de todas as operações envolvidas na 61 criação científica. Essa compreensão parcial, por sua vez, impede o controle dessas operações e a sua devida planificação. A inserção de um componente impossível de ser racionalizado não visava atacar a racionalidade da ciência, mas as pretensões socialistas de “racionalização da sociedade”. A ideia de uma dimensão tácita na atividade científica seria depois parcialmente apropriada por outros autores, como Thomas Kuhn ou Harry Collins. Outro autor da “tradição marxista” que devemos mencionar aqui, por sua importância na formulação de uma explicação da ciência que leve em conta a sua dimensão social, é Edgar Zilsel37. Em trabalho recente, Mauro Condé (2015, pp. 3542) toma a chamada “tese de Zilsel” como uma síntese da corrente externalista. A elaboração dessa tese se dá de maneira fragmentária, uma vez que trajetória pessoal desse historiador e filósofo austríaco (participou do Círculo de Viena) que migrou para os Estados Unidos com a ascensão do nazismo e a iminente anexação da Áustria pela Alemanha, não permitiu uma sequência na sua carreira acadêmica. Ao contrário de outros intelectuais que fugiram do nazismo, Zilsel teve dificuldades em encontrar um posto em uma universidade norteamericana, tendo conseguido produzir alguns artigos durante o período que contou com uma bolsa de estudos. Cometeu suicídio em 1944. Deixou uma produção relativamente pequena, composta principalmente de textos curtos. Minha análise estará fundada em uma breve exploração da “tese de Zilsel” a partir de dois artigos: The sociological roots of modern science e The Genesis of the concept of physical law, ambos publicados em 1942. Nesse último texto, o autor faz uma história da criação do conceito de “lei natural” passando em revista uma vasta literatura. Atravessa toda a cultura ocidental, usando fontes da antiguidade – escritos tão diversos quanto Anaximandro e a Bíblia, com citações marginais ao monoteísmo egípcio, mas também Platão, Aristóteles e Arquimedes –, abordando a concepção medieval e chegando, finalmente, aos fundadores da ciência moderna. Ao longo desse percurso, a apresentação das ideias dos autores é eventualmente pontuada com observações sobre a “importância das mudanças sociais para a história das ideias” (ZILSEL, 1942, p. 267, n. 79)38. O objetivo central do texto é mostrar que o conceito, embora apareça de forma embrionária em alguns 37 Diferentemente de Boris Hessen ou John Bernal, Zilsel não pretendia “aplicar” o materialismo histórico marxista à análise das ciências. A sua história social das ciências é tributária direta da interpretação marxista sem, contudo, resumirse a ela. 38 No original: “the importance of social changes to the history of ideas”. Tradução minha. 62 textos e possua certas raízes antigas cuja origem pode ser traçada, vai adquirir a forma atual a partir da combinação de elementos que somente se torna possível em determinado contexto social. A transformação da metáfora jurídica e teológica em um conceito central para a moderna concepção de ciência, a transformação de uma noção vaga e ambígua em um conceito denso e preciso é obra de um novo ambiente social. O difícil deslocamento do terreno da teologia para o terreno da filosofia natural é uma tarefa que se inicia em Descartes, se prolonga na primeira geração da Royal Society e ganha com Newton uma forma mais precisa. É a partir da imensa repercussão da obra de Newton que o conceito de “lei natural” se instala definitivamente na concepção de natureza e a metáfora jurídica é abandonada em favor de uma noção estritamente científica (ZILSEL, 1942, pp. 267274). O entrelaçamento desses campos discursivos (teologia e filosofia natural) é uma marca desse período; com efeito, poderíamos dizer que a divisão entre esses campos e a sua autonomização também é uma marca desse período, algo que para a sociedade moderna parece bem estabelecido e evidente. No caso do conceito de “leis naturais”, esse processo pode ser expresso na visão de Deus como um legislador que, no momento da criação do mundo, enunciou as leis que regem a natureza e que ela é obrigada e obedecer. Depois de se ocupar ao longo de trinta páginas com a descrição dessa trajetória, Zilsel propõe explicar porque esse conceito surgiu em determinado tempo e lugar e assumiu determinada forma. Antes de passar à explicação, ele afirma que não é suficiente apontar para a força da tradição religiosa como fonte de concepções metafísicas presentes na ciência. Afinal de contas, a noção de “lei natural” não decorre diretamente da experimentação e da percepção de regularidades nos fenômenos; pelo contrário, ela é anterior e imprime na observação a busca incessante por regularidades, por vezes difíceis de constatar, exigindo soluções matemáticas complexas. Se não basta recorrer à teologia (ou ao domínio das ideias, em geral), como podemos explicar o surgimento desse conceito? É aí que Zilsel expõe a sua interpretação externalista. É na configuração do Estado que devemos buscar a solução. A forma política do capitalismo nascente, o Absolutismo, necessita de uma concepção diferente de lei e fornece o modelo para a noção de natureza. A própria noção religiosa do “reino de Deus” – inspiração teológica para a ciência moderna – decorre dessa transformação do Estado feudal pulverizado e dos laços sociais que o sustentam para o Estado moderno 63 centralizado. O domínio da lei racional é uma necessidade do capitalismo mercantil e do Estado moderno, ele determina a visão de mundo dos filósofos naturais desse período. Essa explicação macrosociológica da noção de “lei natural” é um exemplo do projeto mais amplo desenvolvido por Zilsel. A sua expressão geral será desenvolvida no texto que passo agora a analisar: The sociological roots of science. O problema que motiva esse artigo é comum à grande parte da história e da sociologia das ciências dos anos 1930 e 1940. Por que a ciência só se desenvolve plenamente na Europa Moderna? Que motivos impedem a realização completa de uma atividade científica em outras civilizações? Distanciandose do positivismo, o autor faz uma importante ressalva: Estamos muito inclinados a considerar a nós mesmos e a nossa civilização como o auge natural da evolução humana. Dessa pressuposição se origina a crença de que o homem simplesmente se torna mais e mais inteligente até que um dia alguns grandes investigadores e pioneiros apareceram e produziram a ciência como o último estágio de uma ascensão intelectual linear. Portanto, não se percebe que o pensamento humano se desenvolve de maneiras variadas e divergentes – entre as quais uma é científica. Esquecemos como é extraordinário que a ciência tenha surgido especialmente em certo período e sob certas condições sociológicas (ZILSEL, 2000, p. 936, grifo meu).39 De acordo com esse argumento, a principal tarefa da pesquisa histórica das ciências é investigar quais são essas condiçõese como elas determinam as formas de conhecimento necessárias e possíveis. Em Zilsel, essas condições dizem respeito – como já apontei em relação ao conceito de “lei natural” – à estrutura social do início da Era Moderna. Dois conjuntos principais de argumentos são mobilizados. Em um plano, se encontram as profundas mudanças sociais que marcam a passagem do feudalismo para o capitalismo: as cidades se tornam os centros de produção de cultura; a tecnologia se desenvolve rapidamente, acarretando na maior utilização de máquinas para a produção e para a guerra; a competição econômica estimula o individualismo e a crítica da autoridade constituída; o restabelecimento da atividade mercantil impõe a necessidade de contar e calcular, obriga a retomada da matemática e da racionalidade quantitativa para fins práticos; essa racionalidade dissolve os antigos vínculos 39 No original: “We are only too inclined to consider ourselves and our own civilization as the natural peak of human evolution. From this presumption the belief originates that man simply became more and more intelligent until one day a few great investigators and pioneers appeared and produced science as the last stage of a oneline intellectual ascent. Thus it is not realized that human thinking has developed in many and divergent ways – among which one is the scientific. One forgets how amazing it is that science arose at all and especially in a certain period and under special sociological conditions”. Tradução minha. 64 tradicionais e cria novas formas de interação social monetizadas, mediadas pelas trocas mercantis (ZILSEL, 2000, pp. 936938; CONDÉ, 2015, pp. 3738). A despeito da validade dessas asserções – a bibliografia das décadas posteriores aos textos de Zilsel tem reavaliado, por exemplo, a importância das cidades ou a extensão do renascimento comercial para a formação do mundo moderno (WOOD, 2001, pp. 2135) –, o que deve ser ressaltado é a conexão necessária que o autor estabelece entre as estruturas sociais e as formas de produzir conhecimento. Apesar de reconhecer que, nesse tipo de leitura, determinada visão das características da sociedade moderna implicará em uma noção específica de que tipo de conhecimento pode ser produzido, o que nos importa aqui é perceber uma estratégia narrativa e explicativa. Em outra escala, uma mudança complementar criará as demandas sociais e as condições de emergência da ciência moderna. Classes sociais que mobilizavam racionalidades distintas vão se colocar em contato e produzir um tipo de prática social que identificamos com a ciência. Ao analisar as transformações ocorridas entre os séculos XIV e XVII, Zilsel vai mostrar como o estabelecimento de uma sociedade burguesa irá romper com certas barreiras sociais e intelectuais que impediam a realização da ciência. Em especial, sua atenção se volta para as formas de interação entre três “estratos sociais” produtores de formas diferentes de conhecimento. O saber da escolástica, encastelado nas universidades e solidamente fundado sobre a autoridade de autores antigos (Aristóteles, principalmente) e dos “Doutores da Igreja” (Agostinho de Hipona, Tomás de Aquino). O humanismo renascentista, que se volta contra a escolástica e propõe uma retomada de certas tradições antigas esquecidas ou proibidas pelo saber oficial. Sua condição social e profissional difere do primeiro grupo: esses autores surgem nas cidades italianas nos séculos XIV e XV, muitos são funcionários letrados das cortes ou da administração pública ou, em um período posterior, literatos que vivem do patronato de nobres ou famílias abastadas. Da sua posição social deriva – afirma Zilsel – os seus objetivos intelectuais. A sua sobrevivência depende, em grande medida, do sucesso dos seus escritos, da força dos seus argumentos; é através desses escritos que os patronos ampliam sua fama e mantém o apoio às atividades desses homens. Esses dois grupos, apesar de opostos, compartilham posturas fundamentais. No âmbito da cisão entre artes liberais e ofícios mecânicos, entre atividades intelectuais e trabalhos manuais, eles se posicionam fortemente a favor da proeminência das artes liberais. Essa é também uma divisão de classes, já que o trabalho manual era 65 considerado menor, inapropriado para a nobreza e as classes dominantes. O terceiro grupo é o representante do “saber fazer”, dos ofícios mecânicos. São os artesãos, marinheiros, carpinteiros, arquitetos, escultores, mineiros, construtores de navios, barbeiros, cirurgiões, boticários, ourives etc. Esses inventores com pouca educação formal (muitas vezes analfabetos) desenvolveram diversas técnicas, artefatos e “trabalharam em silêncio pelo avanço da tecnologia e da sociedade moderna” (ZILSEL, 2000, p. 941)40. Dentre estes, Zilsel (2000, pp. 940941) destaca um grupo superior de artesãos que demandava maiores conhecimentos, são os “artistasengenheiros”, cujo maior representante é Leonardo da Vinci. Esses seriam os “predecessores imediatos dos cientistas” (ZILSEL, 2000, p. 942)41. Pra que os predecessores se tornassem cientistas, era preciso fazer confluir características desses diferentes grupos; isso é, era necessário o surgimento de um novo grupo capaz de realizar essa aproximação. A questão é resumida por Zilsel (2000, p. 945): No geral, a ascensão dos métodos dos trabalhadores manuais às fileiras dos scholars academicamente treinados no final do século XVI é o evento decisivo na gênese da ciência. O estrato superior poderia contribuir com formação lógica, erudição e interesse teórico; o estrato inferior acrescentou espírito causal, experimentação, medição, regras quantitativas de operação, negligência à autoridade escolar e cooperação objetiva.42 Esse é um processo sociológico. As barreiras que precisavam ser rompidas para produzir esse novo conhecimento eram barreiras sociais. A pergunta inicial (“por que a ciência só se desenvolve na Europa Moderna?”) se transforma em outra questão: que condições sociais existiam nesse ambiente social que permitiram o surgimento de um programa científico pleno? A busca por condições externas ao desenvolvimento das ideias é o motor da explicação. A “tese de Zilsel” então, é que as relações sociais de produção no capitalismo tornam possível a emergência da ciência (CONDÉ, 2015, p. 40; ZILSEL, 2000, p. 946). “A ascensão da ciência é normalmente estudada por historiadores que estão interessados principalmente na sucessão temporal das 40 No original: “worked in silence on the advance of technology and modern society”. Tradução minha. 41 No original: “the immediate predecessors of science”. Tradução minha. 42 No original: “On the whole, the rise of the methods of the manual workers to the ranks of academically trained scholars at the end of the sixteenth century is the decisive event in the genesis of science. The upper stratum could contribute logical training, learning, and theoretical interest; the lower stratum added causal spirit, experimentation, measurement, quantitative rules of operation, disregard of school authority, and objective cooperation”. Tradução minha. 66 descobertas científicas. Mas a gênese da ciência pode ser estudada também como um fenômeno sociológico” (ZILSEL, 2000, p. 946)43. Em meio à tão vigorosa oposição e mesmo depois da crise do marxismo no final da década de 1950, o insight da leitura marxista, que se contrapunha tanto ao positivismo quanto ao internalismo, foi extremamente importantepara o desenvolvimento da história das ciências. A tese geral de que a ciência, em seus aspectos mais teóricos ou técnicos, é um produto do meio social se tornaria um dos princípios da historiografia das ciências nas décadas seguintes e seria reelaborada por diversos autores e correntes teóricas. No entanto, os marxistas não foram os únicos que contribuíram para a apreciação mais cuidadosa dos fatores externos à ciência. Outra grande contribuição veio dos escritos do sociólogo Robert King Merton, considerado o fundador da sociologia da ciência nos Estados Unidos. Seu programa de investigação foi dominante entre o final dos anos 1930 e os anos 1960, justamente no período que se atribui à vigência da querela entre o internalismo e o externalismo. As famosas normas mertonianas e o seu papel na formação do ethos da ciência são objeto de debate, crítica e revisão por parte de estudiosos da ciência ainda hoje. Entre 1938 e 1942, Merton publicou três textos que rapidamente inauguraram uma nova área de pesquisa e se tornaram referências obrigatórias para as discussões sobre ciência e sociedade: são eles Science, technology and society in Seventeenth Century England, A ciência e a ordem social e A ciência e a estrutura social democrática. O modelo elaborado por Merton era em grande medida uma tentativa de refutar simultaneamente a história marxista das ciências e a sociologia do conhecimento praticada na Alemanha e que teve Karl Mannheim como um dos principais representantes. Essas duas interpretações possuem em comum a tentativa de relacionar ordem social e ordem cognitiva. Em uma série de artigos escritos desde a metade dos anos 1920 e especialmente no seu Ideologia e utopia, publicado em alemão em 1929, o sociólogo de origem húngara formulou uma análise sociológica do pensamento e desenvolveu uma teoria da determinação social do conhecimento explorando a relação entre conhecimento e existência de forma bastante sofisticada. Mannheim se voltou contra a epistemologia 43 No original: “The rise of science is usually studied by historians who are primarily interested in the temporal succession of the scientific discoveries. Yet the genesis of science can be studied also as a sociological phenomenon”. Tradução minha. 67 tradicional e sua forma de interpretar o conhecimento de forma independente do seu contexto de produção; tentou demonstrar que o conhecimento não se desenvolve de forma autônoma a partir da “natureza das coisas” ou de uma “lógica interna”, mas que sofre influência decisiva de fatores externos, inclusive no seu conteúdo, alcance e intensidade (MANNHEIM, 1986, pp. 289290). Como sabemos, Mannheim preservou as ciências naturais dessa leitura, que se aplicaria ao pensamento social, às teorias políticas, às “ciências culturais” (na terminologia alemã) e à filosofia. No entanto, apontou para as limitações na epistemologia praticada no mundo germanófono dos anos 1920 e 1930 – criticando as suas pretensões fundacionalistas – e apontando um caminho para a investigação sociológica do pensamento. Para Karl Mannheim, era ingênua a pretensão da epistemologia de se constituir como um conhecimento anterior à ciência, que lhe ditaria os limites e lhe estabeleceria as bases. A epistemologia está sempre atrasada e se constrói a partir dos princípios valorizados por determinado conjunto de conhecimentos. Ela é a justificação filosófica a posteriori (ÁVILA, 2012; MAIA, 1992, 2013; MANNHEIM, 1952, 1986). A distinção entre sociologia da ciência e sociologia do conhecimento não é apenas uma questão semântica. Em 1937, Merton publicou um artigo sobre a sociologia do conhecimento na revista Isis. Nesse texto, o sociólogo recenseia uma série de livros sobre o tema (embora concentrado nos trabalhos de Mannheim), fazendolhes severas críticas. Essa perspectiva estaria levando as implicações epistemológicas da dependência do conhecimento em relação à posição social a um “nível excessivo e estéril” (MERTON, 2013, p. 95). Tal programa – indica Merton, recorrendo a um argumento que seria repetido ao longo do século XX – terá que lidar com o problema da verdade da própria perspectiva. “Como pode então Mannheim reivindicar validade para seu próprio pensamento?” (MERTON, 2013, p. 105). Se se afirma que todo pensamento social é dependente do grupo social que o gerou e corresponde a uma racionalização dos interesses desse grupo, como garantir a verdade dessa afirmação? “A racionalidade circular dessas doutrinas é clara” (MERTON, 2013, p. 98). Alcançamos assim o que imagina ser o ponto fraco de todo relativismo, a ausência de um ponto axial exterior ao discurso no qual ele possa estar fundado, que possa garantirlhe sustentação. Esse critério fundacionalista, no entanto, é justamente aquilo que a sociologia do conhecimento (e muitas outras abordagens que compartilham as premissas “relativistas” ou “historicistas”) toma por problemático. 68 A disciplina “fundada” por Merton, por sua vez, não pretendia tornar o pensamento objeto de investigação sociológica. O principal pressuposto dessa sociologia da ciência é examinar como as diferentes ordens sociais interferem no ritmo do desenvolvimento da ciência (MERTON, 2013, p. 159). A ciência só teria sucesso quando praticada em determinadas condições sociais, quando combinada com instituições que não atentem contra o seu avanço. A compreensão desses processos é vista como essencial para garantir a construção de um programa de ação em defesa do desenvolvimento do conhecimento científico autônomo. De modo a realizar esse objetivo, a ciência era analisada em seus aspectos institucionais, para os quais a contribuição de Merton e dos seus partidários foi enorme. Em seu estudo seminal sobre a ciência inglesa do século XVII, originalmente produzido como tese de doutorado na Universidade de Harvard, o sociólogo explora essa relação entre o desenvolvimento da ciência e a estrutura social em busca dos elementos que forneceram as condições culturais e materiais favoráveis à atividade científica naquele contexto (MERTON, 1970). No que tange ao último conjunto de condições (que já eram objeto de investigação de “materialistas”), Merton reconhece uma importância relativa – e quantitativa – das demandas técnicas, econômicas e militares para o direcionamento da ciência. “De modo geral, entre 30 e 60 por cento das pesquisas da época [o século XVII inglês] parecem ter sido, direta ou indiretamente, influenciadas desse modo” (MERTON, 2013, p. 90). Seguindo bastante de perto a correlação aventada por Boris Hessen entre problemas técnicos e problemas científicos e desdobrando alguns apontamentos indicados em The social and economic roots of Newton’s Principia ao longo de vários capítulos do seu livro, Merton enfatiza também a distância entre as conclusões do físico russo e as suas, quando lidando com questões muito semelhantes. A racionalização que permeia o capitalismo, defende o sociólogo, é um estímulo à ciência e à tecnologia que está ausente de outros tipos de sociedade (MERTON, 1970, p. 142143). Nessa passagem, Merton não se refere diretamente à URSS, mas a necessidade de marcar o limite da influência do “provocativo ensaio” de Hessen no seu próprio trabalho indica a plausibilidade dessa inferência. Além da clara diferença ideológica (ou por causa dela), há uma substancial diferença de interpretação.Em primeiro lugar, Merton insiste na existência de uma larga parcela da atividade científica que se desenvolve de forma completamente independente 69 das pressões práticas, a “ciência pura” (expressão que o autor ajudou a difundir). Ela seria estatisticamente dominante e ocuparia uma posição de destaque intrínseca no desenvolvimento da ciência (MERTON, 2013, pp. 8191). A hipótese defendida pelos marxistas, de que a ciência seria totalmente ou predominantemente o fruto de pressões sociais, é classificada como “extremista” (MERTON, 2013, p. 81). Além disso, em segundo lugar, mesmo onde a importância dos fatores extrínsecos é reconhecida, a forma como ela se relaciona com o conteúdo da ciência é substancialmente diferente. Quanto ao conjunto de condições culturais, que havia sido tratado por autores que interpretavam a história de forma “idealista”, Merton analisa detidamente a conexão entre ethos protestante e ciência moderna (as semelhanças com Max Weber são conscientes e declaradas), tomando como objeto privilegiado a formação da Royal Society na segunda metade do século XVII44. Tratase da parte mais original do seu livro e uma de suas grandes contribuições ao estudo histórico e sociológico das ciências. A análise detida dos valores que compõem a base teológica da visão de mundo protestante aponta para uma correlação direta e não acidental com aspectos fundamentais do espírito científico que emerge na época moderna (MERTON, 1970, pp. 5579). A combinação de racionalismo e empirismo seria encontrada, articulada e justificada de modo quase idêntico na religião reformada e na investigação do mundo natural; a concepção de que o conhecimento de Deus se daria através do conhecimento do mundo, que é a sua obra, marcava fortemente os escritos de teólogos e filósofos naturais; a defesa da capacidade individual e do livre exame do texto sagrado contra as interpretações baseadas na autoridade da Igreja era simétrica à defesa da livre investigação da natureza em detrimento da autoridade da doutrina aristotélica. A integração valorativa entre protestantismo e ciência é evidenciada em praticamente todos os pontos que as definem. Além disso, Merton investiga a filiação religiosa dos membros da Royal Society (e do “colégio invisível” que a antecedeu) de forma bastante perspicaz e fundamentada não se contentando apenas com uma mera filiação nominal, mas observando a ocorrência de aspectos doutrinários nos escritos desses autores (MERTON, 1970, pp. 112136). 44 É importante notar que Merton não é meramente um weberiano. A sua sociologia da ciência é bastante eclética e incorpora contribuições metodológicas de diversos autores cujas ideias circulavam em Harvard nos anos 1930, como o italiano Vilfredo Pareto e sociólogo russo, fundador do Departamento de Soiologia da Universidade de Harvard, Ptirim Sorokin (SHAPIN, 1988). 70 Essa análise, contudo, é fortemente marcada pela circunscrição da pesquisa aos aspectos institucionais da ciência. O protestantismo seria um dos responsáveis pelo aumento do interesse pela ciência e à sua valorização na Inglaterra. A emergência desses valores daria um ímpeto à investigação do mundo natural, mas não determinaria a sua forma ou conteúdo (MERTON, 1970; SHAPIN, 1988, p. 595).Eles são a base historicamente necessária (mas não indispensável) para a emergência da ciência. De maneira semelhante ao que faria Alexandre Koyré uns poucos anos depois, Merton considera que a visão de mundo religiosa fornecia uma metafísica adequada para a nova filosofia natural. A referência bibliográfica comum, que parece ser a fonte dessa concepção em Merton e Koyré (que aprofunda, refina e complexifica bastante essa tese), é o livro de Edwin Burtt (1983). Na ética protestante, a ciência encontraria as suposições básicas na qual pode erigir o seu sistema de conhecimentos. No entanto, a sua influência se encerra nisso. Avaliando essa tese, Steven Shapin (1988) desenvolve o argumento de que o protestantismo desempenhava, na obra de Merton, um papel funcional no desenvolvimento da ciência; um papel que poderia ser ocupado por outros “fatores culturais” e que não era exclusivo do ethos protestante. Ao enfatizar o funcionalismo e o ecletismo dessa abordagem, Shapin tenta proteger Merton do estigma de externalista. No entanto, essa leitura parece enfraquecer a originalidade da posição mertoniana ao ignorar deliberadamente a dimensão da integração valorativa entre ciência e protestantismo. Na versão mertoniana do externalismo, os fatores externos só podem ser a causa da dimensão social da ciência. E o papel dessa dimensão social é deliberadamente restringido: a sociedade funciona apenas como facilitadora ou inibidora do desenvolvimento de ideias que possuem uma dinâmica própria. Há uma interdição consciente e explícita das tentativas de utilizar fatores externos para explicar aspectos internos da ciência (MARCOVICH e SHINN, 2013; MERTON, 2013, pp. 126145, SHAPIN, 1988, pp. 594596). A ciência só é objeto de sociologia naquilo que ela tem de instituição social. Definida como conhecimento, ela está fora do alcance do sociólogo, o seu aparato conceitual é da alçada do epistemólogo. Merton não se preocupa em fornecer uma definição tipicamente sociológica para o conhecimento científico, aceita aquela formulada pelo positivismo lógico, se posiciona confortavelmente em relação à divisão entre “contexto da descoberta” e “contexto da 71 justificação” como fora estipulada por Hans Reichenbach (ÁVILA, 2012; MAIA, 2013). Terry Shinn e Pascal Ragouet (2008) descrevem a sociologia da ciência “pré kuhniana” derivada dos trabalhos de Merton como “diferenciacionista”. É um tipo de abordagem que enfatiza a diferença entre a ciência e outras dimensões da vida social, considerandoa uma entidade epistemologicamente superior. Tratase de uma sociologia que compartilha com a ciência muitas pressuposições metafísicas típicas da primeira metade do século XX. Essa avaliação poderia facilmente ser estendida para setores da história das ciências praticadas à época. A sua tarefa seria demarcar as diferenças entre o conhecimento científico e outros produtos intelectuais e investigar as condições sociais que garantem a manutenção dos valores supostamente necessários para o seu progresso. Com efeito, a própria discussão sobre as relações entre ciência e sociedade – quando não pautadas pela via dos benefícios sociais da ciência e da tecnologia, vista como seu produto direto – seria sintoma de que algo está errado nessa relação. A sociologia da ciência seria uma espécie de “disciplina de crise”: necessária somente para explicar o que vai mal, como certas influências sociais conduzem a ciência ao erro, como determinados tipos de sociedade impedem o avanço do conhecimento (por mais que, formalmente, se esforcem em promover a ciência) e como restabelecer o virtuoso caminho da pureza, da separação, da autonomia. É imbuído desse objetivo que Merton analisa a ciência moderna de modo a depreender dela o seu ethos, as prescrições morais e técnicas que derivariam dos métodos da ciência e se estabeleceriam como um costume cuja função seria a de garantir a eficiência da investigação (MERTON, 2013, pp. 181185). Como sabemos, esse ethos é composto basicamente por quatro imperativos institucionais: o universalismo é a submissãodos enunciados científicos a critérios impessoais de avaliação e a completa recusa de vincular a fonte de produção de uma alegação de verdade à sua validade (não pode haver “ciência nacional”, nem “ciência proletária”); o comunismo é a noção de que as descobertas científicas não pertencem ao cientista que a nomeia, o conhecimento científico é patrimônio comum de toda a comunidade científica e de toda a humanidade (o que entra em conflito com o processo de patentes e direitos autorais que começava a ter um papel importante na época em que Merton escrevia); o desinteresse, garantido pelo caráter público da ciência e pela responsabilidade dos cientistas diante dos seus pares, não deve ser confundido com um altruísmo ou com um 72 alto padrão moral que supostamente caracterizaria os cientistas, mas é uma norma cuja função é assegurar a estabilidade institucional; por fim, o ceticismo organizado é uma estratégia metodológica e existencial de suspensão do julgamento, é o exercício da dúvida e da imparcialidade diante dos fatos, a negação de suposições a priori (MERTON, 2013, pp. 181198). Assim, tanto os estudos de sociologia histórica quanto as proposições de caráter mais normativo de Merton visam expurgar das análises históricosociológicas sobre a ciência quaisquer tentativas de atacar o conteúdo da ciência. Não se trata apenas da circunscrição disciplinar da sociologia e da história das ciências, da divisão social do trabalho intelectual que traça os limites de determinado campo de investigação; tratase também da demarcação simultânea do próprio objeto de pesquisa. O conhecimento científico não pode ser tratado sociologicamente nem historicamente posto que ele é independente do seu contexto. Em resumo: a ciência, naquilo que ela tem de essencial, não é objeto da história. Esse argumento, tornado mais explícito nos trabalhos de Robert Merton, acompanha todo o desenrolar do processo de formulação das diretrizes programáticas da história das ciências na primeira metade do século passado. O momento de cristalização dessa disciplina se dá sob a égide desse princípio e a própria formulação do vocabulário do internalismo e externalismo nesse campo é fruto dessa escolha. A esse respeito, faço duas observações. Em primeiro lugar, a ideia de uma prática autocentrada e mais ou menos infensa às perturbações de outros fenômenos não é exclusividade da ciência ou da sua história. Na literatura, nas artes, no direito e na filosofia, o problema de compreender a relação entre o conteúdo da produção e o seu contexto teve um papel importante. De forma mais geral, o trabalho de estabelecimento de fronteiras é vital para a individuação de qualquer prática cultural. Estipular o que é intrínseco e o que é extrínseco é um mecanismo de definição generalizado. Isso pode explicar em parte porque o problema adquiriu a centralidade das discussões teóricometodológicas da história das ciências precisamente no momento da sua afirmação no rol das especialidades do saber humano. O discurso das fronteiras, do interno e externo, é um discurso que lida com uma dupla legitimidade: a da disciplina (a história das ciências) e a do objeto (as ciências). No entanto, além da forma genérica do papel da linguagem da diferenciação em diversas atividades socialmente organizadas, existem as evidentes singularidades que 73 marcam cada processo, determinadas pelas especificidades de cada campo. No caso da história das ciências, falamos da necessidade de afirmação da própria ciência nas sociedades contemporâneas, a emergência de uma série de discursos que articularam uma poderosa rede cujo nó central que supostamente mantinha firme a civilização ocidental era a ciência moderna. A supremacia do cientificismo. Em segundo lugar (e fruto desse processo de afirmação das ciências no século XX), a forma assumida pela historiografia das ciências não foi “natural” ou meramente “inevitável”. Ela é fruto da seleção de um repertório de possibilidades de enunciação. O que, por sua vez, implica na interdição de certas iniciativas que desviavam desse projeto. É o caso da já mencionada sociologia do conhecimento de Karl Mannheim e da epistemologia histórica de Ludwik Fleck. O itinerário dessas propostas e o papel ativo da afirmação da polarização entre internalismo e externalismo como modos válidos de análise da história das ciências em detrimento de outras possibilidades narrativas foi primorosamente analisado em um trabalho recente de Carlos Alvarez Maia (2013). As tentativas de adicionar historicidade ao conteúdo cognitivo da ciência foram duramente combatidas, derrotadas e condenadas a um silêncio do qual só foram resgatadas três décadas mais tarde. Elas ressurgirão a partir da inflexão gerada pelo surgimento do livro de Thomas Kuhn em 1962 e do “programa forte” da sociologia do conhecimento científico em meados dos anos 1970. Apesar da importância dessas contribuições, tomadas como um dos problemas centrais da análise de Carlos Maia, devemos atentar para os significados da hegemonia das explicações ahistóricas da história das ciências, para os motivos da vigência daquilo que esse autor chama de hiato historiográfico. A manutenção dessas interpretações não é um erro histórico, fruto da incompetência dos autores que produziam no período (nem dos que defendiam a historicidade por não conseguir com que ela vingasse, nem dos que a negavam). Se uma dimensão mais normativa da teoria da história não pode se furtar a recriminar essas formas historiográficas (internalistas e externalistas) por manterem – de forma deliberada ou inconsciente – a historicidade apenas do lado de fora da ciência ou por se contentarem com uma forma parcial de historicidade (por exemplo, uma relação direta da produção de conhecimento científico com a temporalidade dos produtos cognitivos combinada com uma independência em relação aos “fatores externos”), uma das tarefas de uma história da historiografia é compreender porque a história das ciências assumiu aquela configuração no período. 74 Seria um equívoco negar à história das ciências praticada sob as rubricas de externalismo ou internalismo a condição de história, seja através da justificativa de que elas negam a historicidade do seu próprio objeto, seja porque não há uma “comunidade” dos historiadores da ciência, um circuito profissional de praticantes. Essa postura empobrece o debate e reforça os argumentos dos que defendem que a história das ciências não é história, mas um campo à parte epistemologicamente e institucionalmente, posto que comprometido com os valores do objeto historiado. Ao reconhecer nessas correntes o estatuto de conhecimento histórico (sem a arrogância de quem “garante” as condições ou estipula os critérios definidores do estatuto epistemológico de certa prática intelectual) e avaliar as condições que possibilitaram o surgimento e a estabilização de certos tipos de discurso sobre o passado das ciências (ou sobre as ciências do passado, o que não é a mesma coisa) estamos reforçando a historicidade da própria história, a transitoriedade dos critérios através dos quais se julga o trabalho historiador. O vocabulário teórico utilizado pela história das ciências entre as décadas de 1930 e 1970 foi forjado em meio à ampla afirmação da ciência como expressão máxima da civilização e o seu cultivo como obrigação do Estado, uma noção que crescia no imaginário ocidental desde meados do século anterior. Corresponde a uma necessidade de demarcação ecriação identitária exigida por setores da sociedade que percebiam na ciência, cada vez mais, uma dimensão importante da sua constituição e que se articulavam em torno de um projeto de difusão dessa concepção da ciência e da sua relevância fundamental. As transformações desse ideal científico após a Segunda Guerra Mundial – como a percepção do potencial destrutivo da ciência e o recrudescimento de grupos que se opunham à forma como se organizou o complexo militarindustrialcientífico nos anos subsequentes ao conflito (em especial nos EUA) – repercutiram de forma mais consequente na historiografia apenas a partir dos anos 196045. Nesse sentido, no curso de um processo de divisão social do trabalho intelectual, a história das ciências supre pelo menos duas funções de importância capital para o projeto de consolidação de certo ideal de ciência. Em primeiro lugar, institucionalizase 45 A historiografia do final dos anos 1940 e dos anos 1950 não deixou de referirse à ameaça nuclear, porém, em geral, sua resposta era pela necessidade de mais história das ciências como forma de educar o público e os decisionmakers para reforçar a divisão entre ciência pura e ciência aplicada e, com isso, fazer com que utilizassem a tecnologia da “melhor forma possível”. 75 como uma disciplina com um forte interesse na compreensão do papel da ciência na modernidade ocidental (daí a sua ênfase na revolução científica) e na criação de um passado que legitimasse o seu lugar privilegiado na paisagem dos saberes. Embora considerassem científicas quaisquer tentativas de apreender a “natureza” que fossem (alegadamente) racionais e sistemáticas (como a astronomia das antigas civilizações babilônicas ou egípcias), esses autores estavam diretamente preocupados com o suposto salto qualitativo ocorrido na forma de compreender a natureza durante a revolução científica na Europa dos séculos XVI e XVII, ou seja, no estabelecimento do “método científico”. Essa história das ciências expressava a profunda crença não apenas na existência do método científico como também na sua prioridade epistêmica sobre outras formas de investigação acerca do mundo natural. Ainda nesse processo, era importante recuperar o viés crítico, aberto e libertador que a ciência possuía nos séculos XVI, XVII e XVIII, geralmente tratandoo como essencial à própria definição de ciência e identificandoo com o método científico. No entanto, tratase agora de um contexto completamente diferente, de uma configuração histórica na qual a ciência começa a ocupar o lugar de hegemonia (se não de monopólio) no interior dos Estados do capitalismo desenvolvido (e na URSS). O recurso à história da ciência moderna e o reforço da imagem (já há muito transformada) da ciência como permanentemente dinâmica e aberta a contestações, avessa a argumentos de autoridade (baseando as suas afirmações em “verdades”), essencialmente antidogmática, servia para legitimar o seu lugar de fundamento da organização da vida social. Elas cristalizam, entre o público erudito (mas não só para esse grupo), certos estereótipos sobre a ciência e os cientistas e se aproximam sobremaneira das narrativas míticas que julgam destruídas pela ciência que veneram. Possui também uma função teórica (sobre a qual as posições conflitantes efetivamente divergem). Nem o internalismo e nem o externalismo se preocuparam em fornecem uma concepção completa de história ou uma teoria exaustiva da ciência. Transpuseram para a forma de conhecimento que desenvolviam uma série de conceitos e valores elaborados em outros ambientes intelectuais (especialmente na filosofia ou nas próprias ciências, de onde saíram muitos autores que produziram no período), adaptandoos aos seus padrões intelectuais. Isso não significa que repetiam acriticamente noções estranhas à sua forma de produção de conhecimento, mas que compartilhavam essas noções, tomavam como nãoproblemáticos certos valores em 76 relação à ciência. Mais do que isso, a história das ciências era um participante ativo no processo de consolidação e capilarização de uma determinada imagem de ciência. O ponto em disputa encontrase justamente naquilo que esse corpus textual produziu de mais original: teorias da mudança científica. É o ponto de fuga para o qual convergem questões de teoria da história, de teoria da ciência e da própria ordem social em torno do problema da causalidade. Qual a causa de uma nova teoria, de um novo objeto de pesquisa, de uma nova técnica de medição astronômica? Em suma: qual a causa de uma transformação histórica? Não é difícil perceber, ao final desse percurso, em que diferem as interpretações que tem nos ocupado ao longo desses dois capítulos. Ao ressaltar essa perspectiva, endosso o argumento de que as formas de lidar com questões de ciência são também formas de encarar a sociedade e as disputas políticas. Como já afirmei, a história das ciências é sempre um empreendimento engajado nas causas do seu tempo. Embora as escolhas teóricas sejam por vezes influenciadas pelas divisões entre os dois grandes sistemas políticoeconômicos do século XX, o socialismo e o liberalismo (com o eco das polarizações de outras ordens, como entre idealismo e materialismo ou entre iluminismo e romantismo), as propostas não são meras reelaborações das filiações políticas dos seus autores. Para além das discussões ideológicas, entre a “liberdade individual” do cientista e a necessidade de planejar o avanço da ciência de acordo com os “interesses da sociedade”, há um grande consenso ideológico (e metafísico) em torno do cientificismo. Nenhuma agenda política poderia vingar (talvez sequer ser concebida) sem o apelo à autoridade da ciência. Parte II: Da Big Science à tecnociência 77 3. A comunidade científica como solução política Conforme aprendemos com a narrativa padrão da historiografia das ciências, a querela entre o internalismo e o externalismo foi supostamente ferida de morte pela proposta teórica apresentada por Thomas Kuhn e agonizou até morrer esquecida no final da década de 197046. De Bourdieu a Latour, as tentativas de teorizar as ciências em décadas mais recentes têm oferecido alternativas à velha dicotomia, sempre tentando superar ou ultrapassar a divisão entre externo e interno, considerada superficial e infrutífera para a compreensão dos fenômenos que designamos por ciência. O que ofereço aqui, no entanto, não é nem uma descrição do cortejo fúnebre, nem uma autópsia dos fatores internos e externos. Pelo contrário, minha intenção é perseguir os seus traços; perceber como eles foram reconfigurados pela historiografia contemporânea em um momento de profundas transformações no capitalismo, nas ciências e nas formas de interpretálas. Meu ponto de partida é a publicação de A estrutura das revoluções científicas; com isso, a escolha metodológica está demarcada, pois é a historiografia que se enquadra na “tradição kuhniana” que será o alvo das análises empreendidas nos próximos capítulos desta tese. Por “tradição kuhniana” entendo a produção histórica que – realizando uma leitura eminentemente sociológica da contribuição de Thomas Kuhn – tomou para si a herança de estabelecer “um papel para a história” na explicação efetiva das ciências. Como ficará mais claro no decorrer dos capítulos, os historiadores (em sua grande maioria) não seguiram o modelo de história das ciências delineado na Estrutura,a obra não se tornou um manual de como abordar o passado das ciências47; não se pode 46 Até os anos 1980, proliferam as análises que consideram a contribuição kuhniana um ponto de inflexão não apenas para a história das ciências, mas para a filosofia das ciências (REISCH, 1991) e para a sociologia das ciências (MARTINS, 1972). A partir da década de 1990, começam a surgir mais fortemente as abordagens que reconsideram o alcance da ruptura efetuada por Kuhn e passam a buscar – como é o caso aqui para a questão dos fatores internos e externos – continuidades com a tradição historiográfica e filosófica anterior (REISCH, 1991; FULLER, 1992; MAIA, 1996). Na seção especial da revista Social Studies of Science dedicada ao cinquentenário da Estrutura, a maioria dos autores ressalta a importância da obra ao mesmo tempo em que a identifica como uma reelaboração (por vezes ingênua) das ideias de Fleck, Polanyi, Conant, Wittgenstein, Koyré ou Peter Winch (Cf. COLLINS, 2012; DEAR, 2012; PICKERING, 2012; TURNER, 2012; SISMONDO, 2012). Há mesmo quem julgue que o principal feito de Kuhn foi colaborar (involuntariamente) com a epistemologia popperiana (SPRINGER DE FREITAS, 1998). 78 falar de uma “historiografia kuhniana” do mesmo modo que se fala, por exemplo, de uma “historiografia marxista”. Por isso a escolha da expressão “tradição kuhniana”, que deve refletir mais uma inspiração, um tipo de leitura conscientemente enviesado e seletivo. Que incluí certamente a apropriação de certos princípios metodológicos, mas que se atém principalmente à proposta de elaboração de uma nova imagem para a ciência e para o papel da história nesse processo. Supostamente, essa historiografia recusava a divisão entre internalismo e externalismo e, principalmente, o lugar secundário reservado para a história das ciências na estratégia determinada pelo positivismo lógico do Círculo de Viena desde os anos 1920 e 1930; uma posição que a historiografia produzida sob a égide da divisão entre internalismo e externalismo não conseguiu romper48. Especificamente, tratarei dessa historiografia a partir de dois livros. No capítulo seguinte deste trabalho, o foco será o texto de Simon Schaeffer e Steven Shapin, Levianthan and the Airpump, publicado em 1985. Serão os problemas historiográficos apontados por essa obra que nos servirão de guia. A partir deles, abrirei espaço pela historiografia das ciências da década de 1980 e da primeira metade dos anos 1990, inserindo na discussão e na análise autores que compartilham sensibilidades historiográficas e que forjaram parte importante (talvez hegemônica) da disciplina nesse período. No capítulo 5, que encerra a Parte 2, realizarei uma leitura similar tendo como foco o livro Objectivity, de Lorraine Daston e Peter Galison. De modo a avaliar a inovação proporcionada pela interpretação kuhniana em relação ao problema dos fatores internos e externos, seus possíveis contatos com o modo de produção das ciências no período em que foi escrito e, posteriormente, o quanto a historiografia que reivindicou a sua herança constituiu também uma ruptura com essa interpretação, farei uma breve incursão pela contribuição kuhniana. A intenção aqui não é desenvolver uma interpretação original da Estrutura ou do momento de sua produção; apenas, de forma mais modesta, retomar alguns dos argumentos oferecidos por autores que realizaram importantes leituras da contribuição 47 Felizmente, levando em consideração as críticas que Kuhn dirige aos manuais. 48 Para esses autores, Kuhn conseguiu derivar diretamente da avaliação das práticas científicas do passado uma nova imagem da ciência, mais “relativista”, embora, simultaneamente, mais “realista”. Seus críticos irão alegar, pelo contrário, que ele partiu de uma concepção filosófica relativista em relação às ciências e tentou aplicála ao material histórico (sobre a distinção entre relativismo aplicado e relativismo derivado, cf. OLIVA, 2012). 79 de Kuhn à historiografia das ciências, ressaltando aqueles aspectos mais relevantes para o propósito desta pesquisa49. Um dos pontos que diversos autores enfatizam – com certa ironia – ao relatar o surgimento da obra de Kuhn é que A estrutura das revoluções científicas foi concebida para figurar na International Encyclopedia of Unified Sciences, um projeto editorial idealizado por Otto Neurath no final dos anos 1930 e organizado primordialmente por membros do Círculo de Viena que haviam emigrado para a Inglaterra e os EUA com a ascensão do nazismo na Áustria. O Comitê Organizador (Committee of Organization) incluía, entre outros, Otto Neurath (editorchefe), Rudolf Carnap e Phillip Frank. No Comitê Consultivo (Advisory Committee), nomes como Hans Raichenbach50 e Herbert Feigl, além de Niels Bohr, Bertrand Russel, Alfred Tarski e Ernest Nagel e outros importantes filósofos e cientistas da época51. O ambicioso projeto foi publicado entre 1938 e 1970, ano em que foi interrompido e permaneceu incompleto. Bem ao espírito do empirismo lógico, a enciclopédia pretendia contribuir para a compreensão dos mais diversos campos científicos, da sua história, sociologia e fundamentos filosóficos, além de ditarlhes um plano geral de desenvolvimento (REISCH, 1994)52. A estrutura das revoluções científicas correspondia ao segundo número do segundo volume, dedicado aos Fundamentos da Unidade da Ciência. Talvez essa inserção explique em parte o didatismo e esquematismo da obra e também a surpresa do autor, explícita no posfácio à segunda edição, ao rebater as leituras que consideravam sua aproximação relativista. Kuhn pensava o seu trabalho como internalista no campo da historiografia e, 49 Como sabemos, a bibliografia sobre Kuhn e, especificamente, sobre a Estrutura, é assustadoramente gigantesca (uma busca por “Thomas Kuhn” no Google Scholar, por exemplo, retorna aproximadamente 51.800 resultados; se usarmos “The structure of scientific revolutions” como palavraschave da busca, 62.400 resultados. Para efeito de comparação, uma busca por “The logic of scientific discovery” gera 18.600 resultados). Aqui sigo parcialmente os argumentos historiográficos desenvolvidos pelo professor Carlos Alvarez Maia (1996; 2001; 2013), especialmente em dois aspectos: a) o papel desempenhado pela nova forma de gestão estatal da ciência e da tecnologia nos EUA na concepção de história das ciências presente na obra de Thomas Kuhn e b) a consequência de “domesticação” e subordinação da atividade historiadora que essa nova estrutura científica acarretou. Devo muitas das ideias presentes nessa seção aos estudos de Steve Fuller (1992; 1997; 2000) sobre a obra de Thomas Kuhn e sua relação com os problemas da science policy estadunidense do pósGuerra. 50 Que não foi membro do Círculo de Viena, mas de sua “filial” alemã, o Círculo (ou Escola) de Berlim, e cujas influências decisivas no programa do positivismo lógico são inegáveis. 51 A lista completa dos membros foi consultada na edição norteamericana de 1970 de A estrutura das revoluções científicas. Cf. KUHN, 1970. 52 O projeto da enciclopédia foi sempre inconstante, repleto de atrasos, interrupções e toda ordem de problemas. Ele nunca conseguiu se firmar como uma série coerente de publicações, a maioria do que foi produzido acabou tendo vida própria na forma de monografias (como foi com A estrutura das revoluções científicas). 80 filosoficamente, como uma continuidade em relação ao projeto do positivismo lógico, embora seguindo uma direção diferente53. A leitura da obra de Kuhn como ummanifesto revolucionário em favor de uma imagem de ciência diametralmente oposta à oferecida pelo empirismo lógico foi formulada à revelia do autor. Essa é, obviamente, uma chave de leitura possível – e não temos nenhuma razão para atribuir ao próprio Kuhn qualquer tipo de prioridade interpretativa sobre a sua obra, a autoexegese é uma avaliação entre outras – que serviu para ancorar as pretensões de ruptura da geração subsequente à de Kuhn (especialmente a sociologia do conhecimento científico e a “guinada pragmática” da filosofia da ciência)54. A contribuição original e transformadora da teoria kuhniana da ciência não pode ser descartada. Neste trabalho, a obra de Kuhn é tomada como um ponto de inflexão, uma abertura para novas formas de investigação histórica das ciências que, ao mesmo tempo, traz consigo marcas de velhas formas supostamente abandonadas. A dinâmica histórica permite o convívio, nem sempre pacífico, de continuidades e rupturas. Como conceber a história sem encarar a presença das tradições mortas – sempre apropriadas, reelaboradas – a oprimir o cérebro dos vivos? Tão importante quanto perceber a inserção da Estrutura em um poderoso projeto intelectual é apontar as condições históricas da sua produção. Perceber a combinação entre a tradição filosófica do positivismo lógico e as profundas transformações sociais do período pósguerra talvez ajude a compreender a posição ambígua de Thomas Kuhn, a tensão presente na sua obra que possibilitava leituras tão díspares. O livro de Kuhn foi gestado nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial e nos primeiros anos da Guerra Fria, quando a forma geral do capitalismo consolidava sua feição keynesiana. A reestruturação dos Estados nos países centrais buscava soluções tanto para a falência do liberalismo clássico (experimentada duramente durante a crise dos anos 1930), quanto para a alternativa comunista que assomava no leste (DAHL e LINDBLOM, 1971). Assim, o que se seguiu foi uma combinação de Estado, mercado e instituições democráticas que variou de formas de “liberalismo embutido” até bem 53 A correspondência trocada entre Carnap e Kuhn, por ocasião do convite para contribuir para a Encyclopedia of Unified Sciences, mostra como o principal filósofo do Círculo de Viena concordava com grande parte da teoria da ciência esboçada na Estrutura (REISCH, 1991). 54 Steve Fuller (1992) traça brevemente a trajetória dessa interpretação a partir da primeira resenha publicada sobre a obra de Kuhn, ainda em 1964. Muitos autores destacaram a contrariedade de Thomas Kuhn em ter sido tomado como precursor do construtivismo, da sociologia do conhecimento científico e dos science studies (CONDÉ e OLIVEIRA, 2004; GOLINSKI, 2005; ZAMMITO, 2004). 81 sucedidas experiências de Estados de bemestar social, conferindo taxas elevadas de crescimento aos países desenvolvidos com relativa distribuição da riqueza em praticamente todo o mundo desenvolvido. Essa forma “híbrida” de organização política e econômica dos Estados teve também impacto nas Políticas de Ciência e Tecnologia. Com efeito, a ciência desempenhou um papel fundamental no sucesso da manutenção do bom desempenho da economia capitalista global no período e também se beneficiou desse crescimento. Segundo Carlos Alvarez Maia (2013, p. 41): “Uma fórmula que resume bem as mudanças historiográficas nesse quadro seria: ‘existe uma história das ciências para 0,2% do PIB e outra para 2,7%’”. O novo pacto entre ciência e Estado – formulado nos EUA ainda em meados dos anos 1940 e largamente exportado – foi tão bem sucedido porque conseguiu sintonizar se com a virada em direção a um Estado de bemestar social, no qual o confortável crescimento permitia financiar a ciência a taxas crescentes baseado na confiança de que ela proporcionaria ainda mais bemestar, sem exigências imediatas. Em um livro marcado pelo excessivo otimismo em relação ao papel da ciência (não apenas na criação de “produtos” capazes de resolver os problemas sociais, mas na forma de organização da ciência como modelo que torna obsoletas as instituições democráticas modernas), o cientista político Don K. Price afirma que “a ciência está começando a alterar a relação básica entre o poder político e econômico” (PRICE, 1965, p. 24)55. Apesar dessa confiança, é preciso notar que o monstruoso aparato científico militarindustrial montado pelos EUA para o esforço de guerra gerava todo o tipo de sentimento duvidoso, desde o orgulho nacionalista até o pânico das teorias da conspiração caipiras56. Obviamente, essas reações não eram sem propósito. Os acontecimentos de Auschwitz e Hiroshima dependiam diretamente da participação de cientistas e engenheiros. No mesmo ano que A estrutura das revoluções científicas é publicada, a Crise dos Mísseis de Cuba reacende nos corações e mentes de todo o mundo a paranoia nuclear e o medo do holocausto global pelas mãos dos governos armados de tecnologias de destruição em massa57. 55 No original: “science is beginning to alter the basic relation of political and economic power”. Tradução minha. 56 Lembremos, por exemplo, da adaptação da Guerra dos Mundos por Orson Welles, que levou milhares de pessoas, que acreditavam estar ouvindo a transmissão real de uma “invasão marciana”, à histeria coletiva em 1938. 57 O historiador Eric Hobsbawm resumiu formidavelmente esse espírito: “Nenhum período da história foi mais penetrado pelas ciências naturais nem mais dependente delas do que o século XX. Contudo, nenhum 82 Depois da guerra, essa imensa estrutura foi mantida e redirecionada para a pesquisa básica em praticamente todas as áreas, com óbvia predileção para “setores estratégicos”. A Guerra Fria foi decisiva para manter essa mentalidade e sustentar essa agenda política. O principal documento para compreender esse processo de reorganização no âmbito das Políticas de Ciência e Tecnologia é o chamado “Relatório Bush”, encomendado diretamente pelo presidente Franklin D. Roosevelt ao físico e engenheiro Vannevar Bush ainda em 1944, já com o objetivo de planejar o direcionamento dessa estrutura após o fim da guerra (CASTELFRANCHI, 2008, pp. 2936; STOKES, 2005, pp. 1625). Quando da encomenda, Bush ocupava uma importante posição na administração e formulação de Políticas de Ciência e Tecnologia e já estivera à frente de diversas instituições de pesquisa ligadas ao governo. Durante a Segunda Guerra, ele foi um dos responsáveis por formular as diretrizes que aproximaram pesquisa científica e esforço bélico, ocupando um papel decisivo no Projeto Manhattan e dirigindo o Office of Scientific Research and Development (Escritório de Pesquisa e Desenvolvimento Científico). Suas credenciais e sua posição privilegiada o tornavam apto para uma tarefa de tamanha envergadura. Mobilizando o aparato que estava ao seu alcance, Vannevar Bush instituiu comissões que o ajudaram a compor o relatório. Obviamente, o sucesso dessa empreitada não pode ser atribuído exclusivamente à competência do Dr. Bush ou da sua equipe, mas às condições históricas singulares que conformavam as Políticas Públicas de Ciência e Tecnologia após a Segunda Guerra Mundial. Sugestivamente intitulado Science – The endless frontier, o relatório ficou pronto em julho de 1945, depois da morte do presidente Roosevelt (foi entregue ao seu sucessor, Henry Truman) e poucos meses antes do fim da guerra. De forma exemplar, ele sintetizou a mentalidade científica do período e definiu as linhasgerais da Política de Ciência e Tecnologia que seria seguida pelos EUA e copiada por vários países do Ocidente. Uma análise desse importante documento me parece útil para enraizar o livro de Thomas Kuhn em sua historicidade; afinal, é contra esse pano de fundo que ele emerge e ganha notoriedade. O objetivo não é a comparação desses dois textos, tão distintos nos seus objetivos, públicos, espaços de circulação e apropriação, mas uma período, desde a retratação de Galileu, se sentiu menos à vontade com elas” (HOBSBAWM, 2006, p. 504). 83 avaliação das visões de ciência que eles apresentam. Se, em grande parte, o trabalho de Kuhn pretendia utilizar a história das ciências contra a visão dominante de ciência à época, não só nos debates filosóficos, mas entre cientistas e no “senso comum”; se, da mesma forma, tal conceito de ciência tinha “implicações profundas no que diz respeito à sua natureza e desenvolvimento” (KUHN, 2001, p. 20), devemos perceber essa imagem de ciência em sua expressão política mais efetiva. Nesse sentido, o texto do Dr. Bush não pretende apresentar nenhuma grande novidade no que tange especificamente à imagem da ciência58. Ele capturou ideias relativamente consolidadas e se aproveitou de um momento extremamente propício. Yurij Castelfranchi caracteriza esse personagem como um dos principais representantes da “visão cowboy” da ciência. Um modelo no qual “cabe ao Estado estimular a abertura de novas fronteiras do conhecimento científico, enquanto a iniciativa privada tem o papel de colonizar os novos faroestes cognitivos e tornálos produtivos” (CASTELFRANCHI, 2008, p. 29)59. Um golpe certeiro. O presidente dos Estados Unidos da América, o país que saiu da Segunda Guerra Mundial como o mais poderoso do mundo, entregoulhe de bandeja a oportunidade para que ele, Bush, colocasse a ciência no centro desse império. De maneira quase inocente, o presidente Roosevelt pergunta, na carta que solicita o relatório: como a experiência acumulada pelos institutos de pesquisa criados para a guerra poderia servir, em tempos de paz, para incrementar a saúde da Nação, gerar novos empregos e elevar o padrão de vida (ROOSEVELT, 1944)? Ora, tudo que uma pessoa na posição de Vannevar Bush poderia querer se realizava e a resposta não poderia ser outra: dênos o recurso que a ciência fará o resto! Para isso, no entanto, era preciso recorrer a uma poderosa retórica, já há muito versada em cantar a superioridade da ciência e darlhe nova roupagem. Não era preciso, a aquela altura do século XX, criar novos argumentos para convencer quem quer que fosse que a ciência era importante e poderosa e que o progresso científico era essencial para o bem estar da população e a segurança nacional. O que era preciso era criar um argumento inescapável que mostrasse como a ciência era uma responsabilidade social direta do Estado e, 58 De acordo com David Hollinger (1990, p. 902), “Bush was merely codifying two popular beliefs that dominated American discourse about science and society in the 1920s and 1930s”. Poderíamos estender esse argumento e afirmar que Bush manipulava argumentos muito mais antigos e geograficamente difusos presentes na “tradição Ocidental”. 59 O vocabulário do faroeste já estava presente nos documentos que compõem o Relatório Bush, com referências aos “pioneiros” e as “fronteiras” (ROOSEVELT, 1944; BUSH, 1945). 84 simultaneamente, como não se poderia interferir na autonomia da pesquisa científica; isso foi feito de maneira irretocável. A ciência deveria ser maciçamente financiada pelo Estado seja pela formação de instituições próprias (no caso americano, muitas delas ligadas ao Departamento de Defesa e ao Pentágono) ou pelo apoio à iniciativa privada (universidades e institutos de pesquisa). Seu desenvolvimento ocorre de maneira lenta e desinteressada por meio da pesquisa básica (qualquer semelhança com o ethos mertoniano não é coincidência). O estudo de temas e fenômenos aparentemente distantes da experiência cotidiana pode trazer benefícios inesperados e deve ser preservado. A liberdade de pesquisa e a autonomia dos pesquisadores é um valor supremo. O progresso da ciência é fruto da atividade livre de intelectos livres, trabalhando em áreas de sua própria escolha e predileção. Além disso, o incentivo deve ser constante para que as novas gerações ingressem, em número cada vez maior, em carreiras científicas. A pena para o desrespeito a esses princípios poderia ser altíssima, colocando em risco a soberania e a segurança nacional e, em última instância, o futuro da humanidade; afinal, “sem progresso científico nada que for conquistado em outras direções poderá assegurar nossa saúde, prosperidade e segurança enquanto nação no mundo moderno” (BUSH, 1945). Outro ponto fundamental é a cadeia linear seguida pelo desenvolvimento da ciência. A pesquisa básica leva à ciência aplicada e essa leva à tecnologia. Ao travar a busca desinteressada e curiosa pela verdade, onde quer que ela leve, interrompese o fluxo natural do desenvolvimento que tem, no seu extremo, os avanços necessários à saúde, à indústria, etc. Para garantir o bemestar público, a ciência deve ser preservada e incentivada em seu percurso de desenvolvimento. O determinismo do relatório é impressionante, com sua insistência na relação automática entre as três “fases” do desenvolvimento científico e delas para a promoção do bem comum. A citação seguinte é bastante representativa do tom da argumentação e do seu conteúdo: Os avanços na ciência, quando colocados em prática, significam mais empregos, salários maiores, jornadas de trabalho menores, colheitas mais abundantes, mais tempo para a recreação, para o estudo, para aprender a viver sem o trabalho mortalmente fatigante que tem sido a sina do homem comum há eras. Os avanços na ciência também trarão padrões de vida mais elevados, levarão à prevenção ou à cura de doenças, permitirão a preservação dos nossos recursos naturais, que são limitados, e nos darão meios de nos defender de agressões. Mas para atingir esses objetivos – garantir um alto nível de emprego, 85 manter uma posição de liderança mundial – o fluxo de novos conhecimentos científicos deve ser contínuo e substancial (BUSH, 1945). Para que o automatismo derivado dessa concepção não acarretasse em um controle direto da atividade científica por parte da burocracia estatal desejosa de novas aplicações práticas dos avanços científicos em ritmo cada vez maior (o que geraria, por sua vez, índices cada vez maiores de frustração com a incapacidade da ciência de responder na velocidade necessária aos incessantes problemas sociais), era preciso limitar o controle externo ao mínimo possível60. A proposta de Vannevar Bush prescreve a criação de um órgão central de administração da pesquisa científica controlado pelos próprios cientistas (chamada no relatório de National Research Foundation e que seria criada, depois de uma intensa disputa política travada no parlamento americano, sob o nome de National Science Foundation [NSF]). Carlos Alvarez Maia (2013) mostra como essa disputa, que se arrastou ao longo de cinco anos, gira primordialmente em torno do poder de decisão no interior da futura NSF61. O desenrolar desse processo evidencia “a difusão do mito da ciência ‘pura’, no qual a ciência teria um crescimento dependente só de seus parâmetros internos” (MAIA, 2013, p. 44). Ecampo da ciência não é uma preocupação exclusiva dos seus analistas. Ela interessa diretamente aos próprios cientistas e aos formuladores e administradores de Políticas de Ciência e Tecnologia. Esses grupos gastam grande parte do seu tempo com esforços para garantir a especificidade da ciência em relação a outras atividades técnicas ou intelectuais e proteger as fronteiras do seu território social e epistêmico. Parte expressiva da historiografia das ciências nas últimas décadas tem 11 refletido sobre as formas através das quais os atores sociais envolvidos na produção de conhecimento científico desenham os contornos de um espaço no interior do qual a prática da ciência é possível1. Isso explica, em parte, o sucesso da expressão comunidade científica na historiografia e em várias modalidades de discursos sobre a ciência. No entanto, não acredito que devamos insistir em dois tipos de demarcação: o analítico, sustentado por filósofos, historiadores, sociólogos, e o prático, fruto da atividade dos próprios cientistas (GIERYN, 1983). O trabalho analítico é uma atividade prática. Em algumas circunstâncias, visa endossar e reforçar a visão dos cientistas, garantindolhe outras instâncias de legitimidade, outros conjuntos de argumentos de defesa; em outras, visa criticálas, atacálas, substituílas, reformálas. Vista sob esse ângulo, a história da demarcação, a história da delimitação e atribuição de funções aos fatores “internos” e “externos” da ciência é um aspecto crucial da história do conceito de ciência. No entanto, não será através da análise conformada pelos métodos dessa disciplina venerável que é a história dos conceitos, à maneira de Koselleck (2006), que prosseguirei. Apesar disso, prossigo achando profundamente inspiradora a ideia de que “na multiplicidade cronológica do aspecto semântico reside [...] a força expressiva da história” (KOSELLECK, 2006, p. 101). O jogo entre o espaço de experiência e o horizonte de expectativa se realiza também no discurso, essa trama heterogênea eivada pelas relações de força que atravessam o tempo no qual é criado e consumido. Como prossegue o autor: “[o]s momentos de duração, alteração e futuridade contidos em uma situação política concreta são apreendidos por sua realização no nível linguístico” (KOSELLECK, 2006, p. 101). O reconhecimento da pertinência desses argumentos não significa uma adesão a essa perspectiva, nem nos impede de criticar a persistência da polarização entre linguagem e mundo presente na concepção de Koselleck, que implica na cisão tão marcada entre história dos conceitos e história social (embora, de acordo com o autor, uma se sirva da outra). De qualquer modo, esta não é uma história do conceito de ciência, embora me utilize fartamente dessa história e pretenda contribuir para algum aspecto da sua compreensão. Ainda tratando da relação entre a dimensão simbólica e a dimensão material, é preciso aqui realizar a crítica da perspectiva de certa vulgata marxista, fundada na divisão rígida e estreita entre base e superestrutura. Nesta versão mecanicista, as 1Esse é um aspecto muito importante do livro de Simon Schaffer e Steven Shapin, Leviathan and the air pump, que será abordado no quarto capítulo deste trabalho. 12 manifestações linguísticas, assim como os demais “produtos intelectuais” (arte, cultura, ideias) – excetuandose, na maioria das vezes, as ciências naturais – fazem parte da superestrutura, vista como mero epifenômeno, determinado pela base, que seria a organização material da vida e da sociedade, a esfera das forças produtivas (WILLIAMS, 2005). Assim, o discurso seria mero reflexo de uma estrutura econômica e social que o ultrapassa e o determina. O marxismo vulgar guarda um curioso paradoxo: se trata de um pensamento social que afirma a irrelevância de todo pensamento social, sendo a superestrutura apenas um reflexo ideológico do modo de produção dominante. Daí deriva parte da insistência radical desse marxismo na sua “dimensão científica” (mais precisamente, cientificista), colocandose em contraposição ao pensamento de caráter ideológico e mistificador e à “ciência burguesa”. Essa visão, da qual parecemos já ter nos livrado há muito tempo, ainda aparece para nos assombrar. É evidente que o materialismo histórico acentua o caráter historicamente dependente do pensamento, como também a sua dimensão prática. “A produção das ideias, das representações, da consciência está em princípio diretamente entrelaçada com a atividade material e o intercâmbio material dos homens, linguagem da vida real” (ENGELS e MARX, 2009, p. 31). No entanto, nesse último caso, não se trata de uma redução do pensamento a um efeito da estrutura social. Encarada de forma a repelir todo mecanicismo e todo dogmatismo, o materialismo histórico tornase uma tese sociológica extremamente fértil, que ocupará uma posição importante na nossa tradição intelectual e que servirá de inspiração constante neste trabalho. Teria muitas outras dívidas teóricas para confessar. Essa digressão, no entanto, não serve apenas para prestar um tributo, mas para ressaltar a concepção do discurso como uma prática social. Como um campo de batalhas. Um lugar demarcado por sua própria ordem, mas que não escapa à historicidade. É desta maneira que o discurso histórico sobre as ciências será visto neste texto. É assim que os textos de história das ciências aqui analisados serão lidos, obras entrelaçadas com o seu tempo, expressão semântica da historicidade e práticas de intervenção na realidade social (CERTEAU, 2006; FOUCAULT, 2012). Esta perspectiva, obviamente, nutrese da história da historiografia. É nesse campo que procuro me inscrever, oferecendo um olhar reflexivo sobre as obras de história das ciências e enfatizando a condição de historicidade presente nessas obras. A reflexividade, no entanto, não pode ser sinônimo de auto 13 referência, de isolamento circular. Assim, procuro nesta tese cobrir o percurso da história das ciências durante grande parte do século XX e adentrar na primeira década do XXI. Essa abertura cronológica, contudo, será contrabalançada pelos recortes temáticos e bibliográficos. O problema que tratarei aqui será referente aos “fatores internos” e “externos” na explicação da dinâmica da ciência, é em torno desse recorte que gira a maior parte das preocupações teóricas que serão abordadas. Este trabalho propõe uma nova cronologia para o debate entre internalismo e externalismo, o que implica uma visão um pouco diferente do material avaliado. Em relação a ele, a escolha feita nesta tese foi a de priorizar alguns livros específicos (especialmente na medida em que a discussão avança) e restringir o debate a uma tradição específica no interior da história das ciências; os livros analisados aqui participaram daquilo que chamei de “tradição kuhniana” e foram influenciados pelos desenvolvimentos dos science studies. Esta tese procura também se engajar no combate por uma história das ciências efetivamente histórica, um projeto que acompanha a guinada historicista na epistemologia e que implica necessariamente na historicidade da ciência. Felizmente, nos últimos anos, esse movimento tem crescido em quantidade e qualidade. Em muitos livros e artigos que têm sido publicados no Brasil e fora dele, especialmente nas últimas duas décadas, ressaltase a impossibilidade de produzir conhecimento fora da história, a dependência da ciência em relação à história,o autor prossegue, afirmando que: Esse mito traz como corolário uma ciência ‘neutra’, que não deveria sofrer coerções sociais. Decorre daí a ação política dos cientistas em luta corporativa pelo poder de gerir sua autonomia. Nessa luta, os cientistas atuam sob o modelo de uma ‘comunidade’: uma fraternidade de iguais (MAIA, 2013, pp. 4445). A comunidade científica deve ser “protegida” da sociedade, que aparece apenas como uma fonte de atrasos para o avanço da ciência. Qualquer intromissão de não cientistas nos assuntos da ciência é visto como potencialmente danoso ao progresso que os cientistas tão diligentemente lutam para atingir em benefício dessa mesma sociedade (HOLLINGER, 1990, p. 902). Um exemplo bem acabado dessa visão apareceu na revista Science em sua edição de janeiro de 1961. The moral unneutrality of science, transcrição de um discurso proferido por Charles Pierce Snow (famoso por sua reflexão sobre as “duas 60 A discrepância entre as promessas de progresso ilimitado e a capacidade limitada da ciência em fornecer respostas efetivas levou a muito descontentamento e frustração em certos setores sociais. Nas ocasiões mais delirantes, às suposições de que “o governo” ou “os militares” mantinham em segredo as realizações tecnológicas relevantes (armamentos absurdamente poderosos, vírus mortais e coisas do gênero). 61Segundo Donald Stokes (2005, p. 86): “o projeto organizacional de Bush foi derrotado, ao passo que a sua ideologia triunfou”. 86 culturas”) na reunião anual de 1960 da American Association for the Advancement of Science (AAAS)62. O tom do texto é o da polarização entre os cientistas (“o grupo profissional mais importante do mundo atual” [SCIENCE, 1961, p. 256]63) e o “resto do mundo”. O seu objetivo é retirar os cientistas da posição subalterna de “soldados sem uniforme” no sistema de Pesquisa & Desenvolvimento da Big Science eivada pelas tensões da Guerra Fria e colocálos no topo da cadeia de comando. Esse período é marcado pelos debates em torno das atribuições de autoridade e poder decisório no âmbito da pesquisa científica. De um lado, alguns setores do establishment político e econômico – diante da centralidade da ciência nos projetos de poder dos Estados nacionais – passam a considerar a ciência “importante demais para ser deixada aos cientistas” (CASTELFRANCHI, 2008, p. 36). Do outro lado, os cientistas buscavam operações discursivas que legitimassem a sua autonomia e a sua autoridade exclusiva para legislar e julgar sobre temas de ciência. A transformação do cientista (e do físico, em especial) em “recurso militar” e a subsequente sujeição à regras externas de conduta, à disciplina militar de obediência e hierarquia, seria um abandono (imperceptível) da plenitude da vida científica. Embora Snow enfatize que não há distinção conceitual entre produzir armas de destruição em massa ou medicamentos – a diferença é estritamente moral (SCIENCE, 1961, p. 258)64. A estratégia que o autor emprega é uma aguerrida defesa da disciplina moral dos cientistas que dispensaria qualquer tipo de controle externo65. São duas as fontes dessa moral: a busca da verdade como motor da investigação e, uma vez bem sucedida essa busca, a certeza do conhecimento66. Tudo que a sociedade deve fazer em retribuição pelo gesto abnegado de altruísmo – além do pagamento de vultosas somas de dinheiro público – é simplesmente deixar com que os cientistas resolvam por si mesmos como gerir os seus recursos. 62 Sobre o papel da AAAS na domesticação da história das ciências nos EUA, ver MAIA, 2001. Os cientistas radicais dos anos 1970, de modo a marcar o caráter elitista e corporativista dessa instituição, apelidaramna de AAA$ (LÉVYLEBLOND e JAUBERT, 1973, p. 20). 63 No original: “the most important occupational group in the world today”. Tradução minha. 64 Esse ponto ecoa a seguinte questão: existe moral dos cientistas, mas não moral da ciência. 65 Um exemplo curioso (para nós, pelo menos) que Snow utiliza para defender a virtude dos cientistas é a sua convicção de que os cientistas se divorciam menos do que outros grupos profissionais com o mesmo nível de educação e renda (SCIENCE, 1961, p. 256) 66 Aqui, Snow recorre a um procedimento logicamente inconsistente (especialmente para alguém tão imbuído de cientificismo), mas sociologicamente recorrente e revelador: a passagem da denotação à prescrição. Mesmo que aceitemos que os cientistas sejam capazes de enunciar verdades sobre certos aspectos da realidade, não teremos nenhuma garantia lógica que essa verdade nos ajude a agir sobre a realidade. Essa conexão só funciona no interior de uma cultura cientificista, em que a moral é percebida como decorrente da “verdade” e essa, por sua vez, é independente da moral. 87 Apontar para a relação entre a mitologia cientificista da “comunidade” e a posição política da ciência nos EUA do pósguerra é fundamental para uma compreensão historiográfica da obra de Kuhn (e terá um papel relevante no problema dos fatores internos e externos, com os quais estamos preocupados aqui). Outra fonte importante para a compreensão do ambiente no qual é forjado o discurso kuhniano sobre as ciências é a sua atividade docente no interior do programa de General Education in Science da Universidade de Harvard. Foi através desse programa que Kuhn afastouse da sua formação original (nessa época ele já finalizava o seu doutoramento em física), teve contato com a história das ciências e desenvolveu as ideias que dariam origem à Estrutura (que ele chega a descrever, defensivamente, como “uma tentativa de explicar a mim mesmo e a amigos como me aconteceu de ter sido lançado da ciência para a sua história” [KUHN, 2001, p. 10]). Esse novo plano de ensino de ciências foi elaborado sob o comando do químico, historiador da ciência, administrador e policy maker James Bryant Conant67. Ao mesmo tempo em que a proposta de uma nova Política de Ciência e Tecnologia era elaborada, uma tentativa de transformação na educação científica no ensino superior dos EUA reforçava o argumento da centralidade da ciência na promoção de progresso social – a Universidade de Harvard foi o centro irradiador dessa iniciativa (em grande parte frustrada). Nesse modelo, todas as formações superiores deveriam receber cursos básicos de ciências para incutir nas novas gerações uma imagem de respeito e admiração pelas ciências e determinado conjunto de valores que se supunha ser parte da visão científica de mundo. Em suma: era preciso imbuir a elite intelectual americana de certo “espírito científico”. Conant tinha a firme convicção de que o estudo histórico das ciências deveria ser parte integrante desse esforço de criação de uma cultura científica. Especialmente após a Segunda Guerra Mundial, essa seria uma das formas de combater o medo e a desconfiança contra a ciência, fomentando uma atitude positiva. Sabendo que a elite formada por Harvard seria responsável pelos grandes cargos administrativos nas esferas pública e privada, Conant pretendia criar “especialistas em julgar especialistas” 67Conant teve uma carreira múltipla e bem sucedida. Foi presidente da Universidade de Harvard entre 1933 e 1953, trabalhou na administração dos laboratórios federais durante a Segunda Guerra Mundial (estando envolvido inclusive com o Projeto Mannhatan), foi enviado para a Alemanha Ocidental nos anos 1950, desenvolveu projetos de avaliação da educação nos EUA e propôsdiversas reformas (geralmente de cunho liberal) no sistema educacional. Foi também autor de diversas obras de história das ciências e editor das importantes Harvard Case Studies in the History of Science. Além disso, Conant foi o mentor de Thomas Kuhn na sua transição da física para a história das ciências. 88 (CONANT apud FULLER, 2000, p. 23)68. Assim, se tratava de fornecer uma espécie bastante particular de alfabetização científica, de um tipo que mantivesse os futuros financiadores da pesquisa a uma distância respeitosa da atividade cotidiana dos cientistas69. Segundo Steve Fuller (2000), a teoria da ciência desenvolvida por Thomas Kuhn relacionase diretamente com a sua longa prática pedagógica nesse programa. A seleção cuidadosa de estudos de caso retirados preferencialmente do período anterior à metade do século XIX revelava uma tendência a distanciarse da ciência contemporânea e tratá la como mera continuidade de um padrão estabelecido em qualquer atividade digna de ser adjetivada de científica. As gigantescas diferenças de organização social, impacto político e mobilização de recursos materiais envolvidas na prática da ciência no século XVII e no século XX eram virtualmente apagadas. A ciência normal, seja ela praticada por Newton ou por Bohr, é sempre resolução de quebracabeças. Isso não significa que Kuhn desconsiderasse a existência da Big Science (ele mesmo foi recrutado para um laboratório militar durante a Segunda Guerra Mundial); ela simplesmente não era levada em conta como relevante para a forma de produção de conhecimento científico. A elaboração do conceito de ciência normal parece guardar uma imagem de ciência como portadora de um modelo de desenvolvimento bastante estável ao longo de vários séculos, mas que, simultaneamente, adaptase perfeitamente ao modo de produção de conhecimento científico do pósguerra. Assim, uma ciência industrial e especializada, firmemente apoiada na divisão do trabalho intelectual entre as diversas comunidades de especialistas, mantém as características “essenciais” que fazem com que ela um empreendimento tão bem sucedido. Embora a mentalidade científica esteja sujeita a mudanças radicais por meio das mudanças de paradigma, a estrutura da comunidade científica permanece. E é a comunidade e não a mentalidade que garante o sucesso da ciência. O par conceitual dominante de Kuhn, “comunidade” e “paradigma”, oferece uma superação bastante limitada para a questão dos fatores internos e externos. O que se apresenta como alternativa – o “sincretismo” da obra de Kuhn – é uma “sociologia internalista” (ou uma “história social dos fatores internos”) na qual noções 68 No original: “experts in judging experts”. Tradução minha. 69Carl Sagan nos relata a sua experiência com o currículo de educação integral inserido na reforma da Universidade de Chicago no começo dos anos 1950, na qual “a ciência era apresentada como parte integrante da magnífica tapeçaria do conhecimento humano” (SAGAN, 2006, p. 15). 89 “irracionalistas” – como fé, compromisso, dogma e conversão – são utilizados para compreender uma organização e uma dinâmica social que se desenvolve exclusivamente no interior da comunidade científica70. Politicamente, podemos extrair dessa descrição a implicação da autonomia radical da comunidade científica (FULLER, 1992, p. 257; STENGERS, 2002, pp. 1315). As influências externas seriam acionadas nos momentos de crise, nos quais, juntamente com o novo paradigma, se configura uma nova comunidade que é forjada em meio a pressões sociais, culturais, políticas e assimila questões “externas”. Na Estrutura, Kuhn apenas tangencia esse tema e, de forma não muito diferente do que encontramos nas descrições de alguns autores internalistas, e oferece um tipo de justificativa que tem a seguinte estrutura: “os fatores externos participam de alguma maneira, mas esse trabalho não é sobre eles”. Em um trecho largamente citado, ele aponta alguns “elementos históricos significativos” que contribuíram para a crise na astronomia ptolomaica e a ascensão do paradigma copernicano e afirma que: “numa ciência amadurecida [...] fatores externos [...] possuem importância especial na determinação do momento de fracasso do paradigma” (KUHN, 2001, p. 97)71. Apesar do caráter historiograficamente e filosoficamente relevante do papel desempenhado pelas revoluções na abordagem kuhniana, é a ciência normal que desempenha um papel central na produção de conhecimento científico. Nos (geralmente longos) períodos de ciência normal é que as banais atividades de resolução de quebra cabeças permitem um domínio maior do terreno coberto pelo paradigma. É durante esses períodos que há efetivamente progresso. Tratando dessa questão no último capítulo da Estrutura, ao apresentar a sua conhecida concepção “darwiniana” e antiteleológica de progresso72, Kuhn discute algumas definições do progresso científico e as suas possibilidades nos regimes normais 70 Essa “sociologia internalista” influenciou decisivamente a configuração do campo da sociologia do conhecimento científico, em especial a primeira geração dos “laboratory studies”, que estudavam etnograficamente o trabalho dos cientistas, focando principalmente naquilo que eles fazem quando fazem ciência – nas práticas que delimitam a “comunidade”. 71 Para Kuhn, esse debate não diz respeito apenas à escolha entre internalismo ou externalismo como eixo explicativo das mudanças científicas, mas também à discussão positivista da distinção entre “contexto da descoberta” e “contexto da justificação”, que Kuhn classifica como “extremamente problemática” (KUHN, 2001, p. 28). O autor retornaria a essa discussão em um artigo do início da década de 1970 no qual tenta esclarecer justamente esse ponto da sua argumentação na Estrutura e coloca no centro do debate a resistência dos “contextos” a um teste empírico efetivamente histórico. Nesse texto, ele volta a afirmar que “outros fatores relevantes [para a escolha entre teorias] se encontram fora das ciências” (KUHN, 2011, p. 344). 72 De uma maneira bastante similar às “conjecturas e refutações” de Sir Karl Popper. 90 e revolucionários de atividade científica. Na ciência normal “o progresso parece óbvio e assegurado” e, mais do que isso, “a comunidade científica está impossibilitada de ver os frutos do seu trabalho de outra maneira” (KUHN, 2001, p. 205). Isso deriva diretamente das especificidades da comunidade científica, que lhe garantem maior competência e eficácia na resolução dos problemas legítimos postos pelo paradigma e, portanto, capacidade de progredir no interior daquilo que é percebido como prioridade. Durante os períodos de crise e revolução, a concepção de progresso é bastante diferente e depende de um recurso à história do campo de conhecimento em questão. Uma revolução só pode ser percebida como gerando progresso quando, depois de resolvida, os membros do novo paradigma dominante percebemno como a única forma de solucionar uma série de problemas que esse próprio paradigma indica como relevantes (uma “história reescrita pelos poderes constituídos”, nas palavras de Kuhn [2001, p. 209]). Retrospectivamente, atribuem às suas realizações a capacidade de avançar onde seus antecessores estagnaram e traçam uma linha de evolução contínua e inexorável da sua disciplina desde os precursores (geralmente em algum lugar da Antiguidade) até os praticantes contemporâneos. A únicaforma das revoluções serem vistas como progresso é negando a existência de revoluções tais como Kuhn as concebe e apelando para a imagem teleológica tradicional de ciência que a sua teoria pretende substituir. Conforme afirma o autor em outra passagem: Grande parte da imagem que cientistas e leigos têm da atividade científica criadora provém de uma fonte autoritária que disfarça sistematicamente – em parte devido a razões funcionais importantes – a existência e o significado das revoluções científicas (KUHN, 2001, p. 174. Grifo meu). Desse modo, Kuhn não vê nenhum problema na manutenção dessa imagem pelos praticantes de determinada ciência e a justifica pelo seu papel na manutenção da coesão da comunidade e na sua “utilidade pedagógica” (KUHN, 2001, p. 10). “É pelo fato de o paradigma não ser objeto de um recuo crítico que os cientistas abordam com confiança os fenômenos mais desconcertantes”, afirma Isabelle Stengers (2002, p. 14). O que aparenta ser um jogo equilibrado entre “interno” e “externo” é um juízo de valor bastante claro: ciência se produz apenas dentro da comunidade funcionando em regime normal. É preciso ressaltar também que a alegada superação “sincrética” operada por Thomas Kuhn não questiona a definição dos fatores. Pelo contrário, a metáfora da comunidade garante uma delimitação rigorosa daquilo que é do âmbito “interno” e 91 daquilo que é “externo”. O paradigma impõe rígidas fronteiras, sempre patrulhadas. O (pretenso) isolamento da comunidade em relação à sociedade – resultado da forma específica como ela se configura – deve ser defendido e preservado, pois é o que garante à ciência a sua capacidade de progresso. Mesmo nos momentos em que estamos diante de uma situação de acúmulo irreversível de “anomalias” capazes de pôr em xeque a viabilidade de um paradigma dominante, a especificidade da comunidade científica justificaria a sua exclusiva autoridade na escolha entre teorias rivais. Kuhn é taxativo em relação a esse ponto e considera que “a própria existência da ciência depende da delegação do poder de escolha entre paradigmas a membros de um tipo especial de comunidade” (KUHN, 2001, p. 210). A vitória da comunidade científica73, expressão cuja popularização devemos a Michael Polanyi (e que está ausente do relatório Bush, por exemplo), como conceito explicativo central é também a vitória da corporação dos cientistas em sua luta por afirmação e conquista do poder. A escolha de Thomas Kuhn por essa solução entre as formas possíveis de narrar a história das ciências marca a sua relação com o seu tempo histórico (MAIA, 2013, pp. 5053). Considero que essa avaliação reforça a posição da história da historiografia em sua busca pelas condições de produção do discurso histórico; especificamente, serve ao argumento que sustento nesta tese e que considera a história das ciências uma forma de intervenção política na arena pública. Obviamente, isso não significa que a obra de Kuhn é mera reprodução historiográfica da acomodação entre esquerda e direita no âmbito do Estado de bemestar, como uma forma de “internalismo embutido” que projeta inadvertidamente no passado as questões do presente. Essas tensões, embora participem da construção da escrita da história, não estão sozinhas. É preciso considerar que há um gesto ativo de interferência, uma espécie de consciência de que descritivo e normativo não são tão facilmente discerníveis. E claro, não há razão para que se deixe de lado o esforço legítimo de escrever o passado das ciências (se estivermos lidando com um autor sério). Um esforço que só pode se realizar por meio da mobilização de recursos teóricos, linguísticos e políticos já disponíveis, que só pode ser pensado enquanto participante de um conjunto 73 A origem da expressão “comunidade científica” é incerta. Alguns atribuem a sua cunhagem ao próprio Polanyi (FULLER, 1992, p. 260). David Hollinger (1990, p. 899) data o seu surgimento um século antes, sendo “comunidade científica” um conceito central na filosofia da ciência de Charles Pierce desenvolvida nos anos 1860 e 1870, embora enfatize o seu desaparecimento do vocabulário das discussões sobre ciência nos EUA até o seu retorno (reconfigurado), na década de 1960, quando se torna uma expressão de circulação corriqueira. 92 considerável de normas de conduta (intelectual, digase) socialmente estabelecidas (embora nem sempre com a participação ou anuência de todos os setores sociais) em meio a amplos processos de resistências, conflitos, negociações, imposições. Se a leitura que apresentei de Thomas Kuhn parece tão desfavorável à efetiva historicização do conhecimento científico, o que restou do “papel para a história”? Como atribuir a esse autor um papel tão significativo na guinada que marcou a análise das ciências no último quartel do século XX? Por mais que os esforços de revelar uma continuidade entre a obra de Kuhn e a filosofia do Círculo de Viena tenham chegado a conclusões importantes e que devem ser levadas em conta, é fundamental retomar uma leitura “revolucionária” da sua obra. A tentativa de posicionar a virada em direção às concepções renovadas de ciência em algum momento dos anos 1970 (ou nos anos 1930, com Fleck e Mannheim) – longe da influência direta de Thomas Kuhn – era um sinal de maturidade do campo dos science studies, uma tentativa de ocultar a figura do “precursor” e “andar com as próprias pernas”. Uma avaliação que tem por objeto a história da historiografia, contudo, não pode realizar tal operação sob pena de não compreender o papel que a ambiguidade de Kuhn desempenhou em seus “discípulos”. Kuhn frequentemente referiuse à ambiguidade na leitura da Estrutura a um “mal entendido”, que ele tomava como indício da “comunicação parcial” entre paradigmas incomensuráveis. Ele indica esse tipo de situação tanto em relação à filosofia da ciência que o precedeu, quanto em relação aos desdobramentos na sociologia, na filosofia e na história das ciências que alegavam uma herança kuhniana. A resposta ao primeiro grupo aparece principalmente quando Kuhn reage às críticas que lhe foram dirigidas por Sir Karl Popper, Stephen Toulmin, Paul Feyerabend e outros importantes filósofos da ciência durante o famoso Quarto Colóquio Internacional de Filosofia da Ciência, em 1965. Nessa ocasião ele chega a “postular a existência de dois Thomas Kuhn” (KUHN, 2006, p. 156) que teriam escrito dois livros diferentes embora com o mesmo nome e utilizando as mesmas palavras. Em relação aos seus “seguidores”, Kuhn parece ainda mais impaciente, considerando muitas das ideias surgidas nas décadas posteriores à publicação da Estrutura e por ela influenciadas (especialmente o “programa forte”) como “inadmissíveis”, “desvairadas” e “absurdas” (KUHN, 2006, pp. 115151; CONDÉ E OLIVEIRA, 2002). 93 Não penso que as ambiguidades de interpretação da obra de Kuhn sejam um mero mal entendido. Não precisaríamos ir muito longe nos estudos linguísticos, na teoria literária ou nos debates sobre história do livro e da leitura para afirmar a centralidade do leitor nas práticas de leitura. As possibilidades de leituras diferentes de um mesmo texto dependem diretamente de quando ele é lido, por quem e em que condições. Não há uma essência única a ser extraída do texto, uma ideia transferida da mente do autor para o papel e que de lá só poderia ser retirada pela correta interpretação74. Dessa forma, não acredito serpossível julgar como maus leitores aqueles que consideram a obra de Kuhn um ponto de inflexão na sociologia (que, com a ascensão da comunidade científica ao papel de grande unidade criativa, teria acesso ao interior da produção de conhecimento científico), na história (cujos argumentos seriam indispensáveis para a compreensão de uma atividade científica) e na filosofia das ciências (ela também obrigada a realizar uma “virada historicista” caso quisesse continuar a entender a ciência). Pelo contrário, acredito ser necessário entender a leitura que a geração posterior à Kuhn realizou da sua obra e que permitiu que essa geração se considerasse representante da “tradição kuhniana” de análise da ciência. Como lidaremos largamente com a historiografia que se origina dessa tradição, apontarei aqui, apenas brevemente, como a filosofia e a sociologia das ciências reagiram ao aparecimento de A estrutura das revoluções científicas e porque esse texto foi considerado relevante nessas áreas. É na corporação dos filósofos da ciência que a Estrutura causa o primeiro impacto, ainda nos anos 196075, embora não se tratasse propriamente de um livro de filosofia das ciências. Era um trabalho que pretendia fornecer subsídios para a renovação da filosofia das ciências e da epistemologia a partir de implicações teóricas retiradas da historiografia das ciências produzida nas décadas de 1940 e 1950 (especialmente os escritos de Alexandre Koyré), uma abordagem capaz de modificar a imagem de ciência corrente à época (KUHN, 2001, pp. 1922 e 2728; 2011, pp. 2744). Segundo Paul HoyningenHuene, um dos mais importantes intérpretes da obra de Thomas Kuhn, a Estrutura ganhou evidência entre os filósofos justamente por desafiar 74 Do mesmo modo, não precisamos nos alongar na discussão sobre os limites da interpretação. Limites que não são dados pelo próprio texto. Se há, virtualmente, infinitas possibilidades de leitura de um texto é porque as possibilidades de injunção entre o texto, o leitor e o contexto são também, virtualmente, infinitas. 75 Vide o já mencionado Quarto Colóquio Internacional de Filosofia da Ciência. 94 as convicções estabelecidas pela filosofia das ciências (HOYNINGENHUENE, 2013, p. 24). O autor enumera alguns aspectos, como: a crítica da ideia teleológica e cumulativa do progresso das ciências; o abandono do método científico como um conjunto coerente de critérios a partir dos quais é possível a prática da ciência; a refutação do racionalismo crítico de Popper pela ênfase no caráter “tradicionalista”, “conservador” e “dogmático” da ciência normal; o deslocamento do agente produtor de conhecimento científico, que passa da dimensão individual, do cientista para a dimensão coletiva da “comunidade científica” (HOYNINGENHUENE, 2013, pp. 2425)76. No entanto, nesse momento, as contribuições kuhnianas não foram assimiladas, mas atacadas, rotuladas de relativistas, irracionalistas e – o que para nós é muito relevante – historicistas (LAKATOS e MUSGRAVE, 1979; STENGERS, 2002, pp. 12 13). Na filosofia das ciências, a obra de Thomas Kuhn é a maior expressão de um movimento que causaria, nas palavras de Ian Hacking, uma “crise de racionalidade” na disciplina (HACKING, 2012, p. 59)77. Essa crise seria derivada da incapacidade dos filósofos de perceberem a ciência como fruto de um processo histórico78. Uma incapacidade que é decorrente da ênfase na ciência como um conhecimento que possui acesso privilegiado à realidade e segue certas regras, o método científico, que garantem o seu isolamento da sociedade. Sem a pretensão de reduzir um conjunto filosófico que é extremamente sofisticado, podemos afirmar que a ciência era vista como uma entidade epistemologicamente superior, um conjunto de enunciados objetivos fundados na observação e pairando sobre a confusão dos assuntos mundanos. Essa imagem era 76 É preciso esclarecer dois pontos em relação a esse argumento. Em primeiro lugar, já apontei acima como vários estudos tem aproximado as concepções kuhnianas daquelas elaboradas pelos empiristas lógicos ou pelos popperianos. Em segundo lugar, outros autores haviam produzidos críticas filosoficamente mais substantivas aos pressupostos da filosofia das ciências e não tiveram o mesmo impacto que Thomas Kuhn. Dez anos antes da Estrutura, em 1951, Quine (uma das grandes influências filosóficas de Kuhn) publicou o seu brilhante ensaio “Dois dogmas do empirismo”, no qual desmonta pacientemente um pressuposto básico da filosofia das ciências desde pelo menos meados do século XIX (transformado em bandeira filosófica pelo Círculo de Viena): a radical oposição entre ciência e metafísica (QUINE, 2010, p. 3771). O seu trabalho, no entanto, não circulou para além dos ambientes profissionais da filosofia das ciências e áreas correlatas e não provocou escândalo. O impacto de Kuhn parece estar mais relacionado ao que ele propõe (vagamente) do que ao que ele critica. 77 A obra de Kuhn é fruto de um amplo processo de transformação na compreensão das ciências. Não é um evento isolado. Entre outros filósofos preocupados com as implicações filosóficas da história das ciências nos anos 1960, podemos citar Stephen Toulmin, Paul Feyerabend e Imre Lakatos (apesar das evidentes diferenças entre as teorias da ciência desenvolvida por cada um e a relação entre história e filosofia da ciência nas respectivas teorias). 78 Esse argumento referese muito mais à filosofia das ciências de matriz germânica e anglosaxã, na tradição que remonta à lógica, ao empirismo e ao pragmatismo. O caso francês, por exemplo, é bastante diverso. Ao sul do Canal da Mancha e Oeste do Reno, a relação entre filosofia e história das ciências, naquilo que se chamou de epistemologia histórica, é mais antiga e mais independente da inflexão kuhniana (fazem parte dessa tradição autores como Bachelard, Koyré, Canguilhem e Duhem). 95 incompatível com a noção de historicidade, uma vez que “as filosofias tanto de Carnap quanto de Popper não levam em consideração nem o tempo nem a história” (HACKING, 2012, p. 65). Essa certamente seria uma imagem que agradaria Thomas Kuhn, posto que sua obra teria atingido o principal objetivo, o de modificar a imagem dominante de ciência de uma maneira certamente semelhante à descrição do processo de transformação dos paradigmas. A estrutura das revoluções científicas pode ser lida como uma coleção de fragmentos históricos que funcionam como anomalias, desvios na imagem cumulativa do progresso científico, causando uma crise no modo normal de operação da filosofia das ciências. Desse modo, a geração precedente, presa ao antigo modelo, não seria capaz de avaliar a profundidade das mudanças que ocorriam, cabendo à nova geração de filósofos a construção de um novo mundo para que pudessem habitar. Não devemos levar muito longe a analogia entre a teoria kuhniana do desenvolvimento científico e a trajetória da sua própria contribuição à filosofia das ciências79. A insistência nesse procedimento levaria à afirmação, certamente insustentável, da existência de uma filosofia das ciências funcionando no interior de um paradigma80. Aqui, lanço mão dessa imagem apenas para reforçar a inflexão causada nesse campo, a transformação em grande parte das pesquisas realizadas em filosofia das ciências, que se desviam do seu “curso normal” e passam a ser orientadas de modo a refutar ou confirmar as teses levantadas na Estrutura81. É essa a contribuição “revolucionária” de Kuhn (mas não apenas dele) para a filosofia:a passagem de uma concepção normativa e sincrônica para outra (pretensamente) descritiva e processual (HOYNINGENHUENE, 1992, p. 487). Ian Hacking, um importante filósofo das ciências contemporâneo, é um dos autores que parece bastante convencido de que a intervenção de Thomas Kuhn teve um efeito profundo na filosofia das ciências. “[V]ejam só como nos tornamos historicistas”, afirma ele, com alguma satisfação, e prossegue asseverando que o “discurso da filosofia 79Outros autores recorreram à metáforas semelhantes, citando a Estrutura como selfexemplifying revolutions (LYNCH, 2012) ou como uma performance do próprio argumento central (JASANOFF, 2012). 80 Curiosamente, alguns dos membros influentes do Círculo de Viena tentaram dar uma feição “científica” à sua filosofia. 81 Alberto Cupani referese à inevitabilidade da obra de Kuhn na filosofia das ciências mesmo depois de passados tantos anos da sua publicação (CUPANI, 2013, p. 13). 96 da ciência foi transformado desde a obra de Kuhn. Não mais demonstraremos nosso respeito pela ciência destoricizandoa” (HACKING, 2012, p. 77). A relação entre a história e a filosofia das ciências, no entanto, nunca foi tão próxima e tão consensual como sugeria Hacking; apesar da disseminação, especialmente nos Estados Unidos, de programas de PósGraduação em História e Filosofia das Ciências a partir dos anos 1970 e de alguns esforços para que se tornassem uma disciplina unificada. O próprio Thomas Kuhn (2011, p. 45) posicionavase favorável à manutenção da separação entre essas disciplinas, sugerindo um aumento na comunicação entre elas, mas não a sua fusão. Essa tensão causada pela obra de Thomas Kuhn na filosofia das ciências causou desconforto no autor, que via nos filósofos interlocutores privilegiados e como o público preferencial do seu livro (que, não obstante, era um livro de história das ciências). Em parte devido a esse desconforto, Kuhn passou grande parte da sua carreira discutindo o seu próprio trabalho com filósofos, refinando seus argumentos a partir de leituras filosóficas, justificando as suas investigações históricas à luz de uma teoria do conhecimento mais abrangente (Cf. KUHN, 2006). A relação de Thomas Kuhn com a sociologia das ciências é sensivelmente diferente – embora não menos desconfortável e ambígua. Ao citar Fleck, ainda no “Prefácio” da Estrutura, Kuhn se refere à necessidade de colocar as suas ideias no “âmbito da Sociologia da Comunidade Científica” (KUHN, 2001, p. 11, grifo meu). Já no seu famoso posfácio de 1969, ao tentar esclarecer a confusão causada pela polissemia do conceito de paradigma e isolar a sua ocorrência em dois sentidos principais, o autor se refere explicitamente a um sentido sociológico do termo, definido como “toda constelação de crenças, valores, técnicas, etc..., partilhadas pelos membros de uma comunidade determinada” (KUHN, 2001, p. 218)82. Ao mesmo tempo, apesar de ter sido educado em Harvard e da sua relativa familiaridade com a discussão mertoniana sobre a sociologia das ciências, essa tese não parece ter exercido grande influência sobre a visão kuhniana da ciência83. A forma como Kuhn possibilitou a 82 Podemos também argumentar que o paradigma é a contrapartida epistemológica de um conceito mais claramente sociológico como o de “comunidade científica” (cuja importância para a obra de Kuhn está além de qualquer suspeita). Embora seja a partir desse conceito, como argumentei acima, que Kuhn isola a ciência da sociedade mais ampla, garante a sua autonomia e assegura o caráter “racional” da escolha de teorias. A comunidade científica kuhniana é o que permite à referida “sociologia internalista”. 83 Sal Restivo e Randall Collins (1983, pp. 190191) consideram que Kuhn herdou o funcionalismo de Merton. 97 abertura de um novo campo de investigações para os sociólogos – apesar das indicações apontadas aqui – é algo mais ou menos oblíquo na sua obra. Como sabemos, o próprio Thomas Kuhn combateu duramente as consequências da abertura que lhe atribuíam (KUHN, 2006, pp. 133151; CONDÉ e OLIVEIRA, 2002; OLIVEIRA, 2004). Apesar de todos esses sinais contraditórios, não é possível negar que a obra de Kuhn representou uma inflexão na leitura sociológica das ciências84. Ainda no começo da década de 1970, o sociólogo português (radicado na Inglaterra) Hermínio Martins chamava a atenção para a disjunção entre a sociologia da ciência, cuja matriz principal deriva de Robert Merton, e a sociologia do conhecimento, desenvolvida por Karl Mannheim, e tentava mostrar como a obra de Kuhn – vinda de fora da sociologia – contribuía para a superação dessa fissura e para a reabertura de problemas propositalmente abandonados pelos sociólogos (MARTINS, 1972, pp. 13 19)85. Já neste século, Terry Shinn e Pascal Ragoeut atribuíram à Kuhn o papel de “autor de encruzilhada”, sendo responsável por empreender um duplo ataque: de um lado, contra Merton e, de outro, contra o Círculo de Viena. Com isso, Kuhn iria detonar os fundamentos da perspectiva sociológica “diferenciacionista” – que, como já defini no capítulo anterior, enfatiza a superioridade epistêmica da ciência e procura explicar os fatores institucionais e sociais (como o ethos mertoniano) capazes de criar ou preservar essa especificidade – e fornecer subsídios para a fundação da corrente “antidiferenciacionista” – que, como sugere o nome, tratam a ciência com uma atividade humana entre outras, produto da cultura, socialmente construída, sem superioridade hierárquica em relação às diversas manifestações sociais (RAGOUET e SHINN, 2008, pp. 4757). Assim, a “nova sociologia da ciência” retém alguns pontos da teoria da ciência de Thomas Kuhn, a saber: (1) Que as comunidades científicas são complexos inseparavelmente sociais e cognitivos; (2) Que os cientistas são, tal como todo ator social, arraigados a representações preconcebidas da natureza; 84 Esse ponto foi defendido, de forma independente, por autores escrevendo em situações diferentes, a partir de referenciais teóricos diferentes, com objetivos diferentes e posturas diferentes em relação ao valor da contribuição kuhniana. 85 Sua avaliação, no entanto, parecia mais preocupada com o estatuto epistemológico da sociologia, a sua cientificidade, diante da teoria kuhniana (ecoando a distinção entre “ciências préparadigmáticas” e ciências “paradigmáticas” e a existência de um paradigma monopolista e excludente como sinal de maturidade de um campo científico). 98 (3) Que eles decidem a propósito de sua adesão paradigmática em função de razões externas à lógica e (4) Que o conhecimento científico não pode escapar das ciências sociais, como tinham proposto os sociólogos funcionalistas (RAGOEUT e SHINN, 2008, p. 5657) O mais notório expoente dessa nova sociologia da ciência é o programa forte da sociologia do conhecimento científico, proposto na segunda metade dos anos 1970 no âmbito do Science Studies Unit da Universidade de Edimburgo86. Os principais autores envolvidos nesse projeto ressaltaram o impacto da abordagem kuhniana. Recentemente, David Bloor reconheceu a publicação da Estrutura como um importante estímulo para a renovação da sociologia das ciências e afirmou que “Kuhn contou a história da ciência em termos sociológicos” (BLOOR, 2009, p. 433)87. A melhor caracterização da herança kuhniana na sociologia das ciências da década de 1970 permanece sendo Thomas S. Kuhn and Social Science. Essa pequena introduçãode Barry Barnes é, ao mesmo tempo, uma defesa da teoria kuhniana da ciência (especialmente contra as filosofias de Lakatos e Popper) e um convite à sua utilização na sociologia (não apenas no estudo das ciências, mas na investigação mais ampla da cultura, do conhecimento e da cognição). Barnes não parece ter dúvida do papel profundamente renovador desempenhado por essa teoria. Muitas teorias do conhecimento são peças morais situadas em um cosmos maniqueísta. A fonte da luz é a experiência; seu agente, a “razão”. A fonte da escuridão é a cultura; seu agente, a autoridade. [...] Verdade, validade, racionalidade, objetividade figuram entre os muitos filhos da luz vestidos de branco; erro e irracionalidade, costume, convenção, dogma e muitos outros estão vestidos de preto. O princípio motor desse drama é o conflito incessante entre as duas forças opostas e irreconciliáveis. [...] Kuhn, no entanto, não é nenhum maniqueísta. (BARNES, 1982, pp. 2223, grifo meu)88 Não, Kuhn não é maniqueísta e mostra como autoridade, razão, experiência e dogma são todos elementos que desempenham papéis importantes no desenvolvimento do conhecimento científico; a boa ciência não se produz sem que se combinem esses elementos aparentemente irreconciliáveis. A teoria kuhniana – da forma como foi 86 Alguns autores referemse a esse grupo como Escola de Edimburgo (Cf. PESTRE, 1996; GOLINSKI, 2005) 87 No original: “Kuhn told the history of science in sociological terms”. Traduçãominha. 88 No original: “Many theories of knowledge are morality plays set in a Manichean cosmos. The source of light is experience; its agent ‘reason’. The source of darkness is culture; its agent authority. [...] Truth, validity, rationality, objecivity are to be seen among the many whiteapparelled children of the light; error and irrationality, custom, convention, dogma and many others are dressed in black. The moving principle of the drama is the unremitting conflict of the two opposed and irreconcilable forces. [...] Kuhn, however, is no Manichean”. Tradução minha 99 interpretada por Barnes – descreve a ciência como algo que é convencional e, simultaneamente, é uma forma de conhecimento da natureza. Assim, por exemplo, uma descoberta científica não é um evento, a revelação de algo que estava invisível ou escondido, pronto e à espera do cientista; a descoberta é um processo que depende tanto da natureza (a “coisa a ser descoberta”) quanto da sociedade, que transforma o seu modo de perceber o ambiente que a cerca. A noção da descoberta como evento, embora desempenhe uma função na pedagogia científica, estabelece uma violação da história das ciências89. A sociologia, por meio da análise do tipo de comunidade que realiza a descoberta, é requerida para dar conta de uma abordagem mais realista das ciências (BARNES, 1982, pp. 4145). Finalmente, quero destacar um ponto que interessa sobremaneira à discussão encampada nesta tese: o problema das fronteiras da ciência (que nos remete à questão do internalismo e externalismo). Aqui, o papel da sociologia ganha enorme relevância. A citação é bastante esclarecedora: A fronteira entre científico e não científico deve ela mesma ser uma convenção, gerada por processos sociais. Consequentemente, entender onde essa fronteira realmente incide requer não a formulação de qualquer princípio de demarcação, mas antes o estudo empírico daqueles processos sociais que tornam a fronteira visível e a sustentam (BARNES, 1982, p. 90).90 Esse ponto deixa claro o tipo de leitura da obra kuhniana que foi realizado pela nova sociologia das ciências. Provavelmente, Kuhn tenderia a concordar (não sem ressalvas) com a primeira afirmação; dificilmente encamparia a segunda afirmação com os argumentos que lhe subjazem e o projeto sociológico que ela desenha. Essa, contudo, é uma das novidades da sociologia do conhecimento científico no que diz respeito ao debate entre internalismo e externalismo, ela problematiza mais frontalmente e mais profundamente essa divisão, não toma como garantida a separação entre conteúdo e contexto. Antes, passa a questionar essas categorias. Para concluir, é importante ressaltar dois pontos. Em primeiro lugar, como espero ter deixado claro nas páginas precedentes, a formulação kuhniana não apresenta 89 Apesar de notar para a importância da posição kuhniana, Barnes a considera extremamente cautelosa e conservadora, sugerindo que se abandone o conceito de descoberta caso o objetivo seja estudar efetivamente o funcionamento das ciências (BARNES, 1982, p. 45) 90 No original: “The boundary between the scientific and the nonscientific must itself be a convention, generated by social processes. Hence to understand where this boundary actually falls requires, not the formulation of any principle of demarcation, but rather the empirical study of those social processes whereby the boundary is made visible and sustained”. Tradução minha. 100 mais do que breves sugestões sobre o tratamento sociológico para as ciências. Não há o desenvolvimento de diretrizes a serem seguidas ou de um programa de pesquisa. O que Kuhn faz é chamar a atenção para a importância de uma abordagem sociológica do conhecimento científico, tarefa que será levada a cabo pela geração que surge na década de 1970. Consequentemente, em segundo lugar, a abertura proporcionada por essa leitura não bastou para essa sociologia, ela se formou na confluência de diversas abordagens. A estrutura das revoluções científicas é um marco, um catalisador de um conjunto de condições intelectuais e históricas disponíveis naquele momento – obviamente, sem a sua contribuição, o destino dos estudos sociais das ciências seria bastante diferente. 4. O passado da tecnociência 101 Neste capítulo, passarei à análise do Leviathan and the airpump. O objetivo é perceber como as estratégias narrativas dos autores se conectam a um novo momento na produção da ciência, como a historiografia responde às transformações que marcaram os anos 1970 e 1980 e o fim do pacto cristalizado na solução proposta por Thomas Kuhn. O livro em questão foi forjado nesse ambiente e guarda fortemente as marcas desse debate. É a mais importante obra historiográfica a incorporar o novo modelo sociológico desenvolvido a partir daquilo que chamei de “tradição kuhniana”. Steven Shapin, um dos autores desse livro, fez parte do Science Studies Unit e esteve diretamente engajado nos debates sobre a sociologia o conhecimento científico. Por isso, as questões teóricas e implicações políticas desse programa serão analisadas em mais detalhe ao longo do texto. Como argumentarei adiante, o livro não é uma aplicação retrospectiva da sociologia do conhecimento científico. Tratase de uma obra de história, o que implica uma especificidade que levaremos em conta. Para chegar a essas questões, começarei por identificar certo malestar intelectual em relação às ciências que surge no final da década de 1960 e se fortalece nos anos 1970. Uma das condições históricas que contribuíram fortemente para o surgimento de disciplinas (ou a reconfiguração de disciplinas mais antigas) que se organizam em torno de uma nova visada teórica em relação às ciências – como a sociologia do conhecimento científico, os science studies e certa vertente da história das ciências – foi o crescimento (em quantidade e em intensidade) de atitudes críticas ao modo de produção de ciência após a Segunda Guerra Mundial. E o pior, essas críticas vinham de grupos sociais anteriormente alinhados ao establishmentcientífico: filósofos, intelectuais e até cientistas naturais. Essas críticas, por sua vez, identificavam uma mudança na estrutura das ciências com a formação dos complexos industriaismilitarescientíficos que caracterizaram o surgimento da Big Science e direcionamse a essa estrutura91. No entanto, essa crítica não pretendia defender a neutralidade do conhecimento científico em face dos interesses militares, geopolíticos ou econômicos – como fizeram Vannevar Bush ou C. P. Snow. Com efeito, seu interesse é o oposto disso, uma tentativa de 91 Do ponto de vista do “imaginário”, há também uma frustração evidente na geração criada na cultura científica do pósguerra. Todas as imagens promissoras de maravilhas tecnológicas incessantemente bombardeadas pela indústria cultural de massa (da Inteligência Artificial ao Teletransporte) não se cumpriram e pareciam não figurar mais no horizonte de expectativa. Obviamente, elas tiveram um efeito importante de manter altas as taxas de adesão ao mito do progresso crescente e indefinido da ciência, à dimensão prometeica, à retórica do “milagre”. 102 desmascarar o discurso da neutralidade como uma estratégia ideológica. Herbert Marcuse é bastante claro nessa questão afirmando que não existem dois mundos: o mundo da ciência e o mundo da política (e sua ética), o reino da teoria pura e o reino da prática impura – existe apenas um mundo no qual a ciência, a política e a ética, a teoria e a prática estão inerentemente ligadas (MARCUSE, 2009, p. 160). Nesse pequeno texto, convenientemente intitulado A responsabilidade da ciência, o filósofo alemão atinge um ponto que considero central: a transformação da função social da autonomia da ciência. Se no surgimento da ciência moderna a retórica da cisão entre a ciência e os valores sociais tinha uma função progressista e emancipatória, no século XX esse procedimento acarretava numa posição conservadora, em favor de um aparato repressivo e do potencial aniquilamento da espécie humana. Essa transformação pode ser encarada como análoga ao processo de mutação da burguesia, que passa de classe revolucionária (entre os séculos XVII e XIX) para classe conservadora (a partir de meados do século XIX). Publicado originalmente em 1966, o texto é marcado pelo temor de uma catástrofe nuclear de grandes proporções – uma preocupação onipresente no período. As duras críticas de Marcuse prosseguem. Sua própria “indiferença quanto aos valores” torna a ciência cega para o que acontece com a existência humana. Ou, formulando isso de modo diferente, e um pouco menos caridosamente, a ciência livre de valores promove cegamente certos valores políticos e sociais e, sem abandonar a teoria pura, a ciência sanciona uma prática estabelecida. O puritanismo da ciência transformase em impureza. E essa dialética levou à situação na qual a ciência (e não apenas a ciência aplicada) colabora na construção da mais eficiente maquinaria de aniquilamento da história (MARCUSE, 2009, p. 162). No entanto, ainda sobra espaço no argumento do autor – talvez o ponto de chegada da sua reflexão – para uma valorização da ciência. A oposição entre cientificismo e irracionalismo, ou entre tecnofobia e tecnofilia, é simplesmente falsa, embora ela tenha um valor estratégico para aqueles preocupados em conservar a sua posição de poder. Não se trata de uma reedição do luddismo com verniz acadêmico, mas de uma crítica ao modo específico de produção do conhecimento científico – que obedece a uma lógica imposta externamente92. Os traços iluministas de um projeto no 92 Embora pareça claro que a ciência traz sempre consigo o seu oposto, que “Skepticism is the skeleton in the Western rationalism’s closet” (WILLIAMS, 2001, p. 5), e que essa é também uma dimensão constitutiva da dinâmica científica, o ponto em questão não se refere à mera oposição, desafio, ceticismo; mas a construção de alternativas que recuperem para a ciência determinada função social emancipatória – embora isso demande uma crítica profunda da estrutura da ciência que soa como ceticismo aos ouvidos mais sensíveis do cientificismo. 103 qual a ciência, socialmente transformada, desempenha um papel relevante, são explicitados. A ciência não deve ser abandonada, ela deve recuperar o seu telos, sua força progressiva, libertadora. A ciência está ameaçada pelos seus próprios progressos, ameaçada por seu avanço como instrumento de um poder livre de valores, em vez de um instrumento de conhecimento e verdade. A ciência, como todo pensamento crítico, tem sua origem no esforço de proteger e melhorar a vida humana em sua luta com a natureza; o telos interno da ciência não é nada mais que a proteção e o melhoramento da existência humana. Essa tem sido a razão de ser da ciência, e seu abandono é equivalente à ruptura entre a ciência e a razão. A ciência pode de fato continuar a crescer, em um sentido limitado, como uma técnica, mas perderá sua própria raison d´être. A ciência como um esforço humano continua a ser a mais poderosa arma e o instrumento mais eficaz na luta por uma existência livre e racional. Esse esforço estendesepara além do estudo, além do laboratório, além da sala de aula, e visa a criação de um ambiente, tanto social quanto natural, no qual a existência pode ser libertada de sua união com a morte e a destruição. Tal libertação não será um objetivo externo ou subproduto da ciência, mas antes a realização da própria ciência. (MARCUSE, 2009, p. 164). A mensagem é ao mesmo tempo nostálgica e utópica, projeta um futuro alternativo recuperando uma dimensão (certamente ilusória) do passado. Paul Feyerabend endereça uma crítica semelhante, sem a ilusão de um telos intrínseco ou de uma razão de ser essencialista da ciência. Não há nada que garanta à ciência o papel de uma força de libertação social ou mental. Para Feyerabend (2011, p. 94): Esse tipo de atitude fazia sentido perfeito nos séculos XVII, XVIII e até XIX, quando a Ciência era uma das muitas ideologias que competiam entre si, quando o Estado ainda não tinha se declarado a seu favor e quando sua atividade determinada era mais do que contrabalançada por visões e instituições alternativas. Naqueles anos a ciência era uma força libertadora, não porque tivesse encontrado a verdade, ou o método certo (embora os defensores da Ciência presumissem que essa era a razão), mas porque limitava a influência de outras ideologias e, com isso, dava ao indivíduo espaço para pensar. Nesse mesmo período, entre o final dos anos 1960 e meados dos anos 1970, vários grupos de “cientistas radicais” começam a surgir93. Ligados ao marxismo e às 93A existência de organizações de cientistas que direcionam seus esforços coletivos para um tema social ou político (à direita e, especialmente, à esquerda) não era uma novidade, sobretudo em torno do debate entre “liberdade” versus “planejamento” (como comentei em relação à polêmica entre Polanyi e o “bernalismo” no capítulo anterior) ou em relação às questões levantadas pela utilização bélica da ciência. No entanto, nesse período, o número de grupos é impressionante; citarei apenas os principais. Na França, as revistas Impascience e LaboContestation, o movimento Survivre, o Syndicat National des Chercheurs 104 dissidências de esquerda do movimento socialista internacional, rebentos da crise dos partidos comunistas ocidentais após 1956 e 1968 (embora alguns permaneçam vinculados aos partidos e à URSS), refletem sobre as condições da produção de ciência e suasrelações com a ideologia, a economia, o poder e a política, os militares e a guerra, o ensino, o meio ambiente, a luta de classes e o “proletariado científico”, o racismo, o feminismo, etc. A sua produção teve uma expressão relevante, sendo algumas obras publicadas por grandes editoras na França, no Reino Unido e nos EUA. Mas não era através das grandes edições que esses movimentos angariavam apoio e faziam as suas ideias circularem, o principal foco e meio de propagação estava na publicação de periódicos baratos e de produção coletiva – ao modo do it yourself da contracultura e dos fanzines – e na realização de workshops, conferências e encontros entre cientistas, trabalhadores (especialmente dos setores industriais de maior insumo tecnológico), comunidades atingidas por sistemas tecnológicos nocivos ou de risco (como usinas nucleares ou indústrias químicas altamente poluentes). No plano da elaboração sistemática de uma crítica à ciência, esses grupos possuíam grande variedade de perspectivas e de posicionamentos. Acontece que essas divergências só podem se manifestar porque se assentam sobre uma base mais ou menos sólida sobre certos entendimentos fundamentais. Como o meu objetivo não é fazer a história desses movimentos, nem realizar um escrutínio da sua diversidade – mas mostrar como eles contribuíram para a formação de um ambiente de contestação e crítica da ciência que não se confunde com antiintelectualismo ou irracionalismo – utilizarei materiais nos quais há um esforço programático de sistematização, onde se destacam os pontos comuns94. Scientifiques (SNCS) e o Centre National des Jeunes Scientifiques (CNJS); no Reino Unido, a British Society for Social Responsability in Science (BSSRS), os periódicos Radical Science Journal e Science for people; nos EUA, o Scientists and Engineers for Social and Political Action (SESPA) – que editava o importante periódico Science for the people, publicação quase artesanal que circulou entre 1970 e 1989 – e o Science for Vietnam, além de grupos na Itália, Espanha, México e a Federação Mundial de Trabalhadores Científicos, com pretensões internacionalistas e suprasindicais (LÉVYLEBLOND e JAUBERT, 1973; ROSE e ROSE, 1976a). 94 Destaco aqui os dois volumes organizados na Inglaterra em 1976 por Hilary Rose e Steven Rose, The radicalisation of science e The political economy of science, que compartilham o mesmo subtítulo, Ideology of/in the natural sciences, os mesmos agradecimentos, a mesma introdução e a mesma, sintomática, dedicatória: “To the heroic peoples of Indochina, who demonstrated to the world how to struggle successfully against the science and technology of profit and opression” (ROSE e ROSE, 1976a, p. v). Valime também da coletânea francesa (Auto)critique de la science, editada em 1973 por Alain Jaubert e JeanMarc LévyLeblond. 105 Uma das questões centrais é que o marxismo oficial, ortodoxo, não dava conta do tipo de crítica que se pretendia realizar. Ele era cientificista na sua veneração pela objetividade das ciências naturais (que deveria ser o modelo para o “socialismo científico”), no modo de gestão tecnocrática do Estado soviético, nas repetidas declarações de que é o avanço da ciência e da tecnologia que trará as contradições do sistema capitalista à termo (e que, no limite, o socialismo é apenas o resultado da evolução tecnológica ou, na fórmula de Lênin, “socialismo é os sovietes mais eletricidade”). A visão do conhecimento científico como um saber supraideológico, localizado acima dos interesses de classe paralisava qualquer tentativa de “recriar uma crítica revolucionária das funções sociais efetivas da ciência como elas existem atualmente nas sociedades capitalistas e no socialismo de Estado” (ROSE e ROSE, 1976a, p. xvi)95. Isso implicava em elaborar uma versão do socialismo (e do próprio marxismo) que incorporasse a visão crítica sobre as ciências. O ponto principal aqui seria atacar o problema das ciências a partir de duas direções intimamente ligadas. Duas faces de um mesmo processo histórico que transformou o “problema da ciência” no principal desafio para a construção de uma nova sociedade (que significava, para a maior parte dos grupos envolvidos nos movimentos de radical science, superar o capitalismo e o socialismo de Estado de tipo soviético). De um lado, digamos, ideológico, havia a tarefa de separar ciência e cientificismo e combater duramente este último. O cientificismo foi descrito como a nova religião oficial (SURVIVRE, 1973), a unir capitalistas e comunistas no mesmo credo comum. Os seus princípios – identidade entre verdade e ciência, realidade como conjunto “formalizável”, neutralidade axiológica da ciência, privilégio exclusivo da ciência e da tecnologia na solução dos problemas humanos (incluindose aqui aqueles causados pela própria tecnologia), necessidade de credenciais científica para a tomada de decisões, por exemplo – foram retratados como um conjunto de mitos cujas funções eram garantir a autoridade inconteste do discurso científico e monopolizar o poder de decisão sobre temas científicos e tecnológicos nas mãos dos experts, uma “casta” diretamente vinculada às elites políticas e econômicas (LÉVYLEBLOND, 1976; SURVIVRE, 1973)96. Esse grupo se esforçou por denunciar como falsa e perigosa a 95 No original: “recreate a revolutionary critique of the actual social functions of science as they exist in today’s capitalist and state socialist societies”. Tradução minha. 106 associação automática entre ciência e progresso social; o cientificismo consistiria na maior ameaça ideológica depois de 1945. A eliminação da dimensão ideológica da ciência seria um passo decisivo para mostrar que a sua pretensão de neutralidade é uma estratégia política e que ela está a serviço da dominação capitalista97. De outro lado, o segundo problema a ser enfrentado (depois de “retirado o véu ideológico”) seria explicitar como a ciência se liga constitutivamente ao capitalismo como modo de produção e como forma social. A sua etapa mais evidente é a incorporação da ciência à produção capitalista servindo como força produtiva direta no processo de renovação contínua requerido pelo modo de produção capitalista. A divisão entre “ciência pura” e “ciência aplicada” é meramente um recurso ideológico. Na prática, esses dois campos estão intimamente conectados no seu objetivo de produzirem inovações – sejam elas conhecimentos, técnicas ou produtos – para abastecer o capitalismo. A unidade entre ciência e tecnologia é realizada pela sua subordinação ao capital (ROSE e ROSE, 1976)98. Além de participar como força produtiva, a ciência se transforma, sob o capitalismo, em mercadoria; informações, conhecimentos e produtos são postos à venda e produzidos de acordo com a lógica específica do mercado (CICCOTTI, CINI e MARIA, 1976). A feição geral que adquire o posicionamento desses autores envolvidos com a radical science aponta para uma “crise da ciência”, que estaria tão profundamente 96 A relação entre ciência e religião tem sido exaustivamente mencionada a partir de diversos pontos de vista. Duas visões predominam: a) o surgimento da ciência moderna em oposição à religião entre os séculos XVI e XVIII – tendo a ciência uma função “subversiva”, “emancipatória”, “progressista” e “contrahegemônica”, liberando a nascente sociedade burguesa da “opressão medieval”, do “obscurantismo” e do“dogmatismo” da Igreja Católica (e os casos de Giordano Bruno e Galileu marcam o ápice desse processo); b) a substituição da religião pela ciência como o “quadro mental dominante”, a “principal referência cultural”, a “ideologia oficial” das sociedades ocidentais desde o século XIX e, de forma mais intensa, no XX – nesse contexto, a ciência passaria a desempenhar algumas das funções sociais que haviam sido da Igreja Católica nos séculos precedentes, sendo uma força conservadora e impondo o seu próprio dogmatismo. Essa leitura se tornou mais complexa no interior dos campos acadêmicos dedicados ao estudo da ciência e – sem desconsiderar os conflitos, tensões e rupturas – as continuidades e interferências foram ressaltadas e a oposição radical entre os dois campos foi relativizada (CAMENIETZKI, 2000; KOYRÉ, 2006; MARICONDA, 2001; ROSSI, 1992). Defendendose das críticas à sua versão da sociologia do conhecimento científico, David Bloor recorreu à analogia da sacralidade da ciência e comparou o “programa forte” a uma heresia, a uma interpretação desviante do Texto Sagrado (BLOOR, 2010). 97 A despeito dos muitos debates que esses autores travam a respeito do conceito de ideologia, de todas as restrições que impõem ao seu uso dogmático, permanece latente (e às vezes explícito) a identificação do termo com a “mistificação da realidade”. 98 Nesse ponto, os autores endereçam uma dura crítica ao “internalismo acadêmico” de “historiadores, sociólogos e filósofos burgueses” que se interessariam pela ciência como um sistema autônomo de ideias e que colocariam ênfase em áreas cujo interesse teórico é grande, mas a relevância social seria pequena (ROSE e ROSE, 1976). 107 entranhada na sociedade de mercado que seus interesses se confundiriam com os do capitalismo e estariam distantes dos interesses da massa da população, dos “oprimidos”. Para construir uma “ciência para o povo”, os próprios cientistas deveriam tomar a frente da ação, reconhecendo que “a ciência é inevitavelmente política e que [...] contribui amplamente para a exploração e opressão da maioria das pessoas” (MEYERS, RADINSKY, ROTHENBERG e ZIMMERMAN, 1973, p. 66)99. Em seguida, estabelecer uma agenda de “pesquisa socialmente orientada” com vistas ao empoderamento popular e à oposição ao sistema dominante de ciências. Essa crítica chega, no entanto, em um momento em que as contradições desse modelo atingiam um ponto insustentável e davam lugar a uma nova forma de organização da ciência (em coordenação com as transformações da economia e do Estado). A década de crise econômica global que tem início em 1973 será determinante na formação de uma nova relação entre capitalismo, ciência e tecnologia. Paralelamente às críticas endereçadas ao sistema da Big Business Science começam a surgir análises que apontam para a sua transformação profunda. Começam a circular as noções de tecnociência, capitalismo cognitivo, trabalho imaterial, entre outras expressões que apontavam a tendência das próximas décadas. Essa transformação será retomada mais detidamente adiante, quando será confrontada com a historiografia das ciências no período. É certamente difícil avaliar até que ponto esse clima histórico teve participação direta na formação das críticas “profissionais”, de sociólogos ou historiadores, uma vez que a produção da radical science não é alvo de citação ou comentário por parte daqueles que encampam as novas propostas de análise das ciências (excetuandose algumas poucas menções feitas por Barry Barnes [1974] aos trabalhos do historiador Robert Young, figura importante do radical science movement britânico) – e que, de qualquer modo, não compartilhavam dos princípios ideológicos que norteavam esse movimento. O cientista social Brian Martin (1993) relata, a partir da sua trajetória pessoal, o processo de migração de muitos críticos da ciência dos anos 1970 de uma posição mais “militante” (especialmente durante os primeiros anos de carreira como estudante de alguma disciplina das ciências naturais) para uma crítica “profissional”, 99 No original: “la science est inévitablement politique et que[...] elle contribue largement à l’exploitation et à l’oppression de la majorité des gens”. Tradução minha. 108 “acadêmica” (mais sofisticada e até radical do ponto de vista teórico, embora mais afastada dos movimentos sociais e da intervenção pública). O que se pretende mostrar é que havia uma insatisfação em relação ao modo de produção da ciência sendo vocalizado de forma bastante radical por grupos de cientistas. Com isso, tenderíamos a diminuir o caráter subversivo das novas disciplinas que surgem sob a rubrica de sociologia do conhecimento científico ou science studies? A pretensa subversão proposta por esses novos modelos de análise das ciências seria, como em Thomas Kuhn, domesticação? Seria mera adequação a um novo modo de produção do conhecimento científico? Uma crítica nostálgica a um modelo perdido de cientificidade? Estou convencido que a sociologia do conhecimento científico é filha da “sociedade do conhecimento”. Bastarda ou pródiga? E, mais importante para essa pesquisa, como a historiografia produzida em contato direto com essas disciplinas e sob as contradições impostas por essa configuração histórica reagiu? Como bem aponta Mario Biagioli (1999), o extremo sucesso da ciência é motivo de força e de dificuldade em definir os science studies100. Seu objeto é sólido e vasto, porém seus princípios metodológicos são extremamente variados e seus praticantes dispersos em diversos campos disciplinares, instituições e departamentos. Esse campo emerge nos anos 1980, a partir da união de uma série de esforços relativamente independentes levados à cabo por jovens sociólogos, historiadores, antropólogos e filósofos, além de representantes de muitas outras disciplinas. Tomados em conjunto, esses autores fazem parte de uma bibliografia que começava a se tornar disponível desde meados dos anos 1970 e que encontrava no periódico Social Studies of Science um local de difusão e um espaço de identidade para esse grupo (que não era isento de disputas internas). O primeiro texto canônico foi o livromanifesto de David Bloor, Conhecimento e imaginário social, que apresenta as primeiras regras de método em torno das quais os autores que viriam a formar a primeira geração dos science studies desenvolveriam um signo de identidade (PESTRE, 1996). A viga mestra da arquitetura teórica blooriana será o seu princípio de simetria. A distinção entre verdade e erro é diluída, ao menos sociologicamente. As explicações correntes à época afirmavam que, quando um cientista agia corretamente, nada havia para ser explicado. Por outro lado, um erro deveria ser explicado em termos de desvios 100 Para uma avaliação mais detalhada do surgimento dos science studies, Cf. GOLINSKI, 2005; BIAGIOLI, 1999; FULLER, 2006. 109 ideológicos ou psicológicos, influências externas etc. Seguindo o princípio de simetria, somos compelidos a explicar sociologicamente ambas as situações. Não há motivos para crer que as implicações ideológicas acarretarão apenas em má ciência. A sociologia pode, e deve, se ocupar de toda a trama da ciência em suas mais sutis tecnicidades. As ressonâncias desse princípio de simetria no corpo teórico do “programa forte” são significativas. Desse mesmo modo, a definição naturalista de conhecimento, como sendo “tudo aquilo que as pessoas consideram conhecimento” (BLOOR, 2009 p. 18) ou definição de objetividadecomo crença institucionalizada criam uma situação de inversão da polarização ontológica entre natureza e cultura, mas não fogem do seu raio de ação. Ao passo que o realismo criou o cientista como sujeito neutro, transparente, através do qual o “fato fala por si”, o construtivismo blooriano criou uma imagem da ciência da qual a natureza não participa. Tudo é resolvido por acordos sociais, negociações. Segundo Bloor (2009, p. 117), as teorias do conhecimento não são expressões do mundo objetivo e da forma de alcançálo, mas reflexos de ideologias sociais. As teorias científicas e mesmo a fria matemática são artefatos sociais, que seguem protocolos linguísticos e culturais sociologicamente localizáveis e explicáveis. Explicar a ciência é explicar a sociedade. São as condições sociais de existência que moldam as imagens do mundo exterior possíveis em determinado contexto. Essa ênfase em um relativismo metodológico se apresenta também na teoria da verdade esboçada por Bloor. Segundo o sociólogo, o indicador de verdade de uma teoria científica é sempre interno à coerência da própria teoria. Não há um modo de fixar de forma precisa as relações de correspondência entre teoria e realidade. Como as teorias são originadas de coerções sociais, a verdade é também uma forma de convenção social. Não há critérios suprassociais de estabelecimento da verdade. Os testes empíricos não são neutros e se dão sempre no interior de um arcabouço teórico prédeterminado. Embora não negue a existência da realidade, Bloor indica que ela não cumpre nenhum papel nas formulações teóricas ou no estabelecimento da verdade. Isso, no entanto, não retira o rigor do critério. As convenções sociais são exigentes e se apóiam em uma disciplina severa, não são “arbitrárias”. Assim, uma análise da verdade de uma teoria deve buscar as causas sociais e os regimes de adaptação às condições convencionais (BLOOR, 2009, pp. 6475). 110 A crítica às noções tradicionais de conceitos como verdade e objetividade e o deslocamento desses conceitos para o terreno de atuação da sociologia marcam a guinada em direção a uma compreensão da ciência a partir da sua historicidade, dos protocolos linguísticos que constitui e utiliza, dos acordos sociais que regulam a sua prática. De modo crescente, com o surgimento dos science studies, a ciência será interpretada como uma atividade cultural entre tantas outras, como um complexo enredado na trama social e histórica. No entanto, esse projeto sofrerá duras críticas. Autores de uma geração anterior irão considerar o “programa forte” e seus correlatos como um desvario relativista, um exagero sociológico que encerra todas as questões sobre o conhecimento científico nas negociações sociais. O próprio Thomas Kuhn irá endereçar um duro ataque a esse grupo. A principal crítica de Kuhn (2006, p. 139) diz respeito ao caráter totalizante das explicações sociais: “a própria natureza, seja lá o que for isso, parece não ter papel algum no desenvolvimento das crenças ao seu respeito”.Os science studies e, mais frequentemente, a sociologia do conhecimento científico foram também acusados de incorrer em uma paradoxal incoerência: não levar a sério o princípio da reflexividade (proposto por David Bloor [2009]). Esse argumento utilizado pelos críticos, o argumento da “retorsão” à que se refere Isabelle Stengers (2002), pode ser assim resumido: “vocês afirmam que todo conhecimento é uma construção social, a sociologia do conhecimento científico é conhecimento, logo...” (MENDONÇA, 2008, pp. 4855). Ao afirmar, com Barry Barnes (2011), que o relativismo metodológico é a realização do projeto científico (sua continuidade) ou ao Bloor enunciar a pretensão de que o “programa forte” poderia dar um estatuto científico à sociologia da ciência, esses autores ajudaram a alimentar os críticos. Bloor foi vago ao responder à acusação de inconsistência, de ter “historicizado e sociologizado as ciências naturais, ao alto preço de ter naturalizado a sociologia” (MENDONÇA, 2008, p. 54). Refletindo sobre um ponto semelhante – o suposto obstáculo que a sociologia do conhecimento científico poderia oferecer à cientificidade da sociologia em geral –, Steven Shapin recorre a Peter Winch e afirma que a sua “crítica aos empreendimentos que tentaram basear o entendimento da ação social nos métodos da ciência natural foi decisiva para vários praticantes da sociologia do conhecimento científico” (SHAPIN, 1995, p. 295)101. Para tomar a ciência como um 111 objeto de investigação, defende Shapin, as ciências sociais devem construir um modelo de cientificidade próprio, possuindo objetos e métodos diversos daqueles das ciências da natureza. Da minha parte, considero essas respostas insatisfatórias. A discussão sobre as diferenças entre ciências sociais e naturais não faz parte dos fundamentos da sociologia? Porque Winch resolveria essa questão de forma mais apropriada102? O argumento da retorsão, no entanto, só parece ganhar força quando se atribui à sociologia do conhecimento científico algo que ela não se propõe a fazer: denunciar a influência perversa de “fatores sociais” na ciência (numa tentativa de resgatar a sua pureza), estudar a “dimensão social da ciência” como algo a ser combatido e minimizado. Se a ciência é constitutivamente uma atividade social e isso não significa fraqueza nem um juízo de valor negativo, se afirmar que a ciência é uma construção social não é uma forma de anticientificismo, então a crítica endereçada à reflexividade não deveria causar incômodos. Assim, a primeira fase dos science studies foi marcada pelo viés sociológico. O “programa forte” foi uma das suas expressões, provavelmente a mais influente; ao explicitar suas principais características, tentei explicitar a atitude geral dos praticantes engajados nesse campo103. Nesse período, os science studies tomam de assalto os temas da epistemologia e, ao contrário de Kuhn, que pedia licença a cada passo que parecesse muito heterodoxo para essa disciplina, subverte as suas posições e a transforma radicalmente tanto do ponto de vista teórico quanto nas suas investidas empíricas. Imbuídos do clima geral de crítica das grandes narrativas do Ocidente Moderno, embora sem citar diretamente a pósmodernidade ou o giro linguístico, essa nova perspectiva sobre a ciência tem como um dos principais legados teóricos a ideia da construção social do conhecimento científico104. Levado ao seu extremo, o argumento construtivista parece esquizofrênico. No momento em que estamos completamente imersos em uma sociedade científica e tecnológica, a saída crítica é dizer que a ciência se resume a negociações sociais? 101 No original: “critique of enterprises that tried to base an understanding of social action on the methods of natural science was decisive for several practitioners of SSK”. Tradução minha. 102 Em que pese a importância de A ideia de uma ciência social e sua relação com a filosofia, especialmente no que tange à aproximação do Programa Forte com a filosofia de Wittgenstein. 103 Pontos de vista semelhantes em sua atitude geral em relação à ciência (apesar dos intensos debates que geraram no interior dos sciences studies) podem ser encontrados, entre outros lugares, em BARNES E EDGE, 1982; BARNES, BLOOR E HENRY, 1996; COLLINS, 1981. 104 Marx, Durkheim e Mannheim já haviam mostrado como tratar as ideias como produtos sociais. No entanto, como ressaltado,a dimensão constitutiva da historicidade para os saberes. Posturas semelhantes às que defendo nesta tese. Beneficieime muito dessa bibliografia, incluindo aí trabalhos que surgiram enquanto essa pesquisa era desenvolvida. Em especial, destaco aqui o livro ainda inédito de Mauro Condé (No prelo), “Um papel para a história”, que destaca a emergência da historicidade das ciências e os obstáculos à efetivação desse processo em diferentes momentos e tradições intelectuais do século passado e situa no encontro entre Ludwik Fleck e Ludwig Wittgenstein uma chave frutífera para compreender a ciência em sua historicidade sem recorrer às soluções relativistas. É preciso também ressaltar que este trabalho se desenvolve em constante diálogo com o projeto levado a cabo há muitos anos pelo professor Carlos Alvarez Maia, principalmente seus dois últimos livros, História das ciências: uma história de historiadores ausentes (2013) e Estudios de historia, ciencias y lenguaje (2011), este último vertido para o português quando esta tese já se encontrava em sua fase final de escrita. A “história da história” proposta por Maia 14 realiza um esforço relevante para afirmar a plena historicidade da ciência e integrar a história das ciências ao território disciplinar da história. Além dessas referências mais próximas, dois trabalhos se aproximam daquilo que pretendi fazer aqui. Primeiro, a Introduction à la philosophie des sciences, de Hans Jörg Rheinberger (2014) que, apesar do nome, é um ensaio sobre a historicização da epistemologia no século XX. Em segundo lugar, o livro Making natural knowledge, de Jan Golinski (2005), que oferece um balanço temático das contribuições da nova historiografia das ciências e do papel do construtivismo de uma maneira bastante simpática às posições apresentadas. Por fim, é preciso fazer menção ao livro A nice derangement of epistemes, de John Zammito (2003), um trabalho que cobre praticamente o mesmo período abarcado nesta tese e lida com autores e problemas bastante semelhantes, embora defenda uma posição muito diferente da que os autores listados acima apoiam e se esforce em mostrar as fraquezas filosóficas dos argumentos dos estudos sobre a ciência “póspositivistas” e os seus perigos intelectuais, defendendo a necessidade de um conhecimento objetivo na ciência e na sua história. Ao contrário da maioria dessas obras, no entanto, não pretendo aqui sugerir como a história das ciências deve ser praticada para garantir a consecução dos objetivos que defendo. O texto não tem caráter propositivo, nem há nenhum modelo que possa ser retirado dele. Nos capítulos a seguir, tento traçar a história da disputa entre internalismo e externalismo, extrapolada para além dos limites tradicionalmente imputados a ela (embora não se opondo a eles). Ao longo dos anos 1970 parece haver uma superação da “querela internalismo x externalismo” com a ascensão de uma nova historiografia das ciências. O tópico passa a ser tema de curiosidade historiográfica. O processo de pacificação da disputa a partir da obra de Thomas Kuhn, A estrutura das revoluções científicas, encerrou a polarização entre os grupos. Não há mais internalistas ou externalistas2. Defendo que as questões em jogo na disputa não foram efetivamente superadas na historiografia até o começo do século XXI. Em publicação anterior, havia dado pouca atenção à querela, me referindo a ela como meramente submissa ao que chamei de estratégia positivista, seguindo a formulação de Alan Chalmers (1994). Afirmava ainda que a disputa se restringia a um espaço epistemológico extremamente limitado e que ambos os lados em disputa 2 Pelo menos, não no mainstream da História das Ciências. A adesão a uma dessas correntes, hoje, é interpretada como sinal de amadorismo (SHAPIN, 1992). 15 concordavam em pontos cruciais sobre o papel da história na explicação do conhecimento científico. Localizava as principais contribuições teóricas do período fora da disputa e não advindas dela. Por fim, consideravaa superada pela renovação historiográfica dos anos 1970 (ÁVILA, 2013). Embora não fosse equivocada em sua tese geral, essa descrição era apressada e simplista, não era o meu objetivo explorar essa historiografia. Neste texto, tenho a possibilidade de rever com mais vagar esse tema, tornando mais complexa a sua interpretação. O meu principal desiderato, aqui, é explorar os papéis desempenhados pela articulação entre “fatores internos” e “fatores externos” na historiografia contemporânea das ciências. Essa consideração deve levar em conta como as transformações na visão dessa questão se relacionam diretamente com o ambiente no qual a história das ciências é produzida, os públicos a quem se destina o seu consumo, as formas de circulação desses discursos. Como já afirmei acima, a investigação é conduzida a partir do pressuposto que a história das ciências não se contenta em explicar o passado, mas responde também a questões colocadas pelo presente. O recorte escolhido não perde de vista uma preocupação mais geral dessa pesquisa, que é a de compreender as diferentes maneiras pelas quais as ciências foram tomadas como objeto da história nas últimas décadas do século XX. Para realizar o que aqui se propõe, o texto se dividirá em duas partes. Na primeira parte, composta por dois capítulos, realizo uma leitura dos modos de delimitação e articulação dos fatores internos e externos na vigência da querela entre o internalismo e o externalismo em sua datação clássica. A releitura da querela será pautada pela “função política” da história das ciências em um momento, entre as décadas de 1930 e 1950, de afirmação da importância da ciência no interior dos Estados nacionais. O primeiro capítulo tratará das principais características historiográficas e ideológicas do internalismo em meio a discussões sobre as nascentes Políticas de Ciência e Tecnologia. O internalismo será analisado como uma forma de historiar as ciências que rejeitava a postura positivista dos primeiros praticantes da disciplina no final do século XIX e início do XX. É certo que os historiadores adeptos dessa corrente concebiam a ciência como teoria, como uma aventura intelectual; mas eles apontavam para uma compreensão das teorias do passado em seus próprios termos e assim reivindicavam o combate à teleologia e ao anacronismo. Não se trata de medir o grau de 16 historicidade conferido à ciência por tal ou qual corrente, mas de perceber as condições específicas de historiar as ciências possível em cada configuração histórica. No Capítulo 2, complementando a leitura iniciada no capítulo anterior, abordarei o externalismo. Aqui, destaco duas principais vertentes, com relevantes diferenças historiográficas e ideológicas. A primeira, mais antiga e também mais duradoura, é a interpretação marxista da história das ciências. Tratavase, naquele período, de um tipo de abordagem que visava construir um modelo interpretativo para a história das ciências capaz não apenas de explicar essa história, mas de utilizála para a apropriação social da ciência e para a transformação profunda do mundo. A história dessa vertente não pode ser devidamente examinada sem uma avaliação conjunta das disputas ideológicas que se agudizam depois do surgimento da União Soviética. O externalismo marxista se opõe tanto ao positivismo quanto ao internalismo. A história social das ciências que emerge daí estará profundamenteeles nunca expandiram essas observações à ciência. O antecedente direto dessa perspectiva é o livro de Berger e Luckmann, A construção social da realidade, de 1967. 112 Acreditase piamente na força das coerções e das normas sociais, mas duvidase da “realidade” dos fatos científicos? Bruno Latour formulou essa crítica nos próprios termos do grupo. Não adianta propor uma simetria entre verdade e erro e manter uma assimetria entre Natureza e Cultura. É preciso, diz ele, uma segunda simetria, que considere não apenas a ciência, mas a própria sociedade como um construto (LATOUR, 2008). Ao mesmo tempo, a críticas “conservadoras” não consideravam essa possibilidade, mas apenas o retorno a uma sociologia mertoniana, a um respeito quase religioso com a epistemologia. Considerar o conhecimento científico como um produto cultural que não tem prioridade epistemológica sobre nenhuma outra manifestação humana possibilitou à história utilizar o mesmo princípio. Isto é, os estudos históricos podem investigar exaustivamente os modos através dos quais, no passado, certo tipo de conhecimento se entrelaçou profundamente com as condições sociais de sua produção. Além disso, o princípio da simetria também poderia ser aplicado às realizações científicas passadas. Não apenas a “má ciência” pode ser investigada como influenciada por fatores sociais, mas também (e principalmente) a “boa ciência”, o conhecimento vencedor. Perguntas anteriormente sem sentido para a história das ciências se tornaram pertinentes e, mais do que isso, centrais para as novas abordagens. Shapin e Schaffer (2011, p. 3) puderam centrar seu estudo na seguinte questão: “Por que alguém realiza experimentos para chegar à verdade científica?”105. Esse tipo de interrogação só é possível quando abandonase a visão que se acostumou a enxergar a história das ciências como a marcha irreversível do progresso, a paulatina conquista da racionalidade contra a ignorância, o mito e a superstição em direção à verdade e à realidade. Com essa visão, abandonase também o necessário anacronismo que ela implica. Os atores históricos serão analisados por seus próprios critérios, pelas condições de possibilidade e escolha que tinham disponíveis em determinadas circunstâncias. Ao transferir a responsabilidade da construção do conhecimento científico da natureza para a sociedade, o construtivismo social possibilitou não apenas a renovação da história das ciências, mas tornoua efetivamente histórica106. Essa renovação historiográfica se beneficiou também do abandono, por parte dos science studies, da filosofia e do imperativo da dimensão normativa e prescritiva que 105 No original: “Why does one do experiments in order to arrive at scientific truth?”. Tradução minha. 106 Esse é o argumento central de Jan Golinski (2005) para explicar o sucesso do construtivismo na historiografia das ciências. 113 caracterizou a primeira metade do século XX. Essa guinada pragmática possibilitou substituir uma busca pela definição de ciência por investigações variadas das múltiplas formas de práticas científicas107.Não se perguntava mais o que a ciência é, mas sim o que a ciência faz. O vocabulário desse grupo marcou exemplarmente essa mudança, falase, cada vez mais, de práticas científicas, atividade científica, ciência tal qual se faz (LATOUR, 2000; PICKERING, 1992; PESTRE, 1996).O pretenso abandono da normatividade por parte dos historiadores da ciência, que deixaram de apontar para um “ideal de boa ciência” em nome da descrição da ciência do passado sem julgamentos de valor – um aspecto notado tanto por críticos (que veem como um equívoco), quanto por promotores da nova historiografia (que veem como um avanço teórico e historiográfico) – não é procedente. Pelo contrário, toda descrição pressupõe uma prescrição. No entanto – e tal vez seja isso que os historiadores tentaram ocultar e o que os críticos não conseguiram perceber – essa normatividade se dá sob novas bases, em nome de regras diferentes daquelas que instituíam o ideal de boa ciência sacralizado no século XIX e reafirmado por parte das análises da ciência da primeira metade do século XX (cujos representantes maiores seriam Robert Merton e Karl Popper). A boa ciência não é mais aquela que segue o método científico e se organiza de acordo com um ethos comunalista, universalista, desinteressado etc. Nem mesmo aquela atividade intelectual essencialmente crítica e aberta, onde a vida dos enunciados dependia apenas da sua capacidade de sobrevivência a sucessivos testes. Para a nova historiografia, esse ideal é uma ficção, um mito de criação. A boa ciência é aquela que negocia com o poder, procura aliados fortes, insinuase na estrutura social, modificandoa. Aquela que se torna dominante não por ser verdadeira, mas, ao contrário, se torna verdadeira ao se tornar dominante. A boa ciência não deve ser julgada em termos morais ou ser considerada o estágio mais perfeito e elevado da consciência humana, mas em termos de desempenho, performance e eficácia e considerada uma “máquina de criar consensos” extremamente eficaz. Steve Fuller (2006) argumenta que a negação da filosofia fazia parte da estratégia política do grupo que, interessado em criar uma identidade própria e se estabelecer como uma disciplina autônoma, rejeitou aquilo que via como provável inimigo às suas pretensões. Porém, ao mesmo tempo, precisaram constituir uma base 107 Curiosamente, enquanto os science studies queriam se livrar da filosofia em nome de uma recusa da normatividade, a própria filosofia das ciências passava, desde os anos 1950, por uma guinada pragmática e historicista (HACKING, 2012; QUINE, 2010; RORTY, 1994; ZAMMITO, 2004). 114 filosófica para a sua prática, “isso envolveu um desvio do papel do filósofo de legislador a subordinado” (FULLER, 2006. p. 45)108. Essa transição permitiu domesticar a filosofia e tornála segura para a prática dos science studies. Por fim, penso que não é possível compreender adequadamente esse campo disciplinar sem apontar alguns traços do momento histórico no qual ele emerge – traços que ajudam a desenhar as feições que assumem as interpretações das ciências nesse período. A passagem da década de 1970 para a década de 1980 é marcada pela ascensão do neoliberalismo como política econômica hegemônica de algumas das principais potências globais.Embora os fundamentos da teoria neoliberal tenham surgido como resposta ao new deal no final dos anos 1940 na Mont Pelerin Society – um grupo de intelectuais liderados por Friederich von Hayek e que contou com a participação engajada de Karl Popper –, a sua transformação em solução para os problemas atravessados pelo capitalismo e pelo Estado Providência só ocorreria na esteira da crise do petróleo, que eclode em 1973109. As novas formas de organização do Estado e da economia (ou do Estado em função da economia) tiveram lugar de destaque e irradiação global a partir das administrações de Margaret Thatcher na GrãBretanha e Ronald Reagan nos Estados Unidos da América110. Como sabemos, a agenda neoliberal implica na redução da participação estatal nas atividades econômicas, no incentivo ao livre comércio e na liberação dos mercados através de privatizações, diminuição das regulamentações, flexibilização de direitos trabalhistas etc. Segundo o argumento corrente desde meados da década de 1970, o Estado estava fadado a tomar decisõesequivocadas no campo econômico devido a sua fragilidade diante da influência de diversos grupos de pressão política e, principalmente, pela sua incapacidade de captar e gerir todas as informações necessárias para a condução da economia (HARVEY, 2013, p. 30). Há certa “teologia” neoliberal que propaga a superioridade absoluta do mercado em termos de eficácia e de capacidade de cálculo (PESTRE, 2014a, p. 263). Isso é mais forte no momento em que essas informações se tornam mercadorias sujeitas às regras do mercado. No entanto, o Estado não pode ser somente reduzido, deve servir a novos 108 No original: “this involves a shift in the role of the philosopher from legislator to underlaborer”. Tradução minha. 109 O documento de fundação do grupo não traz um programa econômico específico, se fundando na “preservação da sociedade livre”, na defesa dos “valores da civilização” e do “homem ocidental” (STATEMENT OF AIMS, 1947). 110 Com a importante e irônica experiência dos Chicago Boys na ditadura chilena do general Pinochet. 115 interesses: é responsável por incentivar a criação de mercados em setores econômicos pouco atrativos, garantir o cumprimento dos contratos, proteger o direito à propriedade privada etc. Não se trata apenas de “menos Estado”, mas de uma readequação das funções estatais. A função do Estado deve ser repensada também a partir do aprofundamento de dois processos interligados: a “financeirização” e a globalização (ou “mundialização”), processos que dependem intensamente do desenvolvimento de tecnologias de comunicação e transporte, um ponto que nos interessa diretamente e ao qual retornaremos. A “financeirização” se refere ao deslocamento da principal fonte de acumulação de capital, que passa da produção e circulação de mercadorias – a base produtiva ou “economia real” – para o “capital portador de juros” – a “economia fictícia” ou “virtual” (LAPYDA, 2011, p. 49). Essa fase de valorização do capital monetário, da centralidade do dinheiro como mercadoria relativamente autônoma em relação ao campo da produção, é acompanhada de um processo de “desterritorialização”. A economia globalizada não é apenas a sequência do processo de integração mundial que ocorre desde o início da Era Moderna. Mais do que a integração entre diferentes regiões, a globalização (econômica) se refere à transformação da superfície global em um plano equivalente onde as transações, a transferência de capital e mesmo as atividades industriais podem ser livremente (ou quase) transportadas de um ponto a outro. A transformação do planeta em unidade econômica (ao menos idealmente) ocorre com o apoio de uma forte base institucional de órgãos transnacionais ou multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e, posteriormente, a Organização Mundial do Comércio (OMC), cristalizado em 1989 no Consenso de Washington (CHESNAIS, 2008; PESTRE, 2014b, pp. 298303). Com isso, os Estados nacionais redirecionam suas forças diante de uma forma de organização econômica que não se limita mais por fronteiras territoriais. Isso é tanto mais sentido em países periféricos, já que aqueles Estados localizados no centro do capitalismo global continuam fazendo valer o seu poder político (e bélico, quando necessário). O neoliberalismo configura “um ponto de ruptura revolucionário na história social e econômica do mundo”, na opinião do geógrafo David Harvey (2013, p. 11)111. 116 Importa perceber que esse fenômeno não é apenas uma nova ideologia ou uma nova ordem econômica global, mas uma nova formação sóciohistórica. As transformações massivas atravessadas pela economia capitalista desde o final dos anos 1970 são suficientes para caracterizar um novo momento histórico. Como resume Dominique Pestre (2014a, p. 270): Um momento que se segue a uma fase diversamente qualificada como keynesiana, fordista ou do Estado social e que começa entre os anos de 1970 e 1980. O vocábulo é, então, um marcador cronológico, caracterizando um tempo que repousa sobre o conjunto já evocado por nós – sobre a articulação de uma teologia messiânica, de novas tecnologias de governo, de uma globalização financeira e de mercado [...] O termo indica a substituição de um sistema de organização social por outro...112 Esse momento neoliberal se constitui em profunda relação com a ciência e a tecnologia. Com efeito, ele se constitui a partir dessa relação, se define pelo reposicionamento estratégico da ciência e da tecnologia no interior dessa estrutura. Nessa nova etapa do capitalismo, o modelo de organização de ciência proposto por Vannevar Bush foi sendo desmontado e reconfigurado. Esse processo, que continua em operação e cujos resultados definitivos ainda são difíceis de medir, tem como direção principal a gradativa substituição do Estado e das universidades pelo mercado e centros de pesquisa privados como locais mais importantes para a produção de conhecimento científico, bem como a formação de “parcerias estratégicas” entre centros tradicionais de pesquisa e a indústria. “Os pesquisadores universitários [...] empenham se, em legiões cada vez maiores, em projetos a prazo maior ou menor que refletem objetivos industriais explícitos” (FERNÉ, 1994, p. 365). Isso não significou o abandono das antigas estruturas, mas o deslocamento do seu centro dinâmico. Inovação é a palavra de ordem. Não se pode mais esperar a pesquisa básica e desinteressada gerar resultados em sua exploração aleatória, é preciso direcionar fortemente e cobrar os resultados, medir a produtividade quantitativamente. Os principais índices não são novas pesquisas, mas novas patentes. Grupos com interesses 111 Yurij Castelfranchi (2008, pp. 3641) não toma como evidente a caracterização do neoliberalismo como passagem revolucionária e coloca em discussão diferentes opiniões a respeito da natureza dessa nova etapa do capitalismo. 112 No original: “Un moment qui fait suite à une phase diversement qualifiée de keynesienne, fordiste ou à État social, et qui commence entre les années 1970 et 1980. Le vocable est alors un marqueur chronologique, caractérisant un temps qui repose sur l’ensemble de ce que nous avons évoqué – sur l’articulation d’une théologie messianique, de nouvelles technologie de gouvernement, d’une globalisation financiére et marchande [...] Le vocable signale le remplacement d’un régime d’organisation du social par un autre...”. Tradução minha. 117 distintos – sejam policy makers engajados em políticas de “transferência tecnológica”, cientistas saudosos de uma ilusória “era de ouro” da pesquisa ou sociólogos contrários à perversa “apropriação privada do conhecimento publicamente produzido” – debatem apaixonadamente as consequências do novo modo de produção da pesquisa científica. Algumas perguntas geram ansiedade: Uma ciência impulsionada pelos anseios do mercado continuará seguindo os mesmos valores? O ideal de objetividade, por exemplo, pode estar em risco quando o cientista não é mais um funcionário do Estado ou da universidade, cuja autonomia está garantida na pesquisa básica, mas um funcionário de uma empresa cujo principal objetivo é o lucro através da inserção acelerada de novos bens em um mercado ou mesmo quando ele é o dono da sua própria companhia, um empresário do mercado de bens científicos (ZIMMAN, 1996)? A ciência não é apenas um produto cultural como outro qualquer na sociedade, é também um bem econômico como outro qualquer no mercado. Para alguns analistas, aciência teria se tornado “pósacadêmica” e o ethos mertoniano (que havia funcionado como uma espécie de horizonte de valores compartilhados pelos cientistas) estaria sendo substituído por um novo conjunto de valores mais apropriados à nova configuração da ciência e ao novo papel social desempenhado pelos cientistas (CASTELFRANCHI, 2008; ZIMAN, 2000). O que ocorre desde os anos 1980 é que: Um pouco por todo o mundo acadêmico ocidental, e especialmente na investigação científica, dentro e fora das universidades, nos âmbitos da biotecnologia e de outras ciências e tecnociências da vida, estão sendo disseminados os traços tipicamente característicos dos campos comercial e empresarial (GARCIA e MARTINS, 2009, p. 83). Isso tem implicações óbvias na sociologia e na filosofia das ciências: a própria forma de caracterizar essas mudanças já é mediada por essas abordagens (CASTELFRANCHI, 2008, p. 41). A resposta veio através do conceito de tecnociência. Com essa expressão indica se não apenas a fusão e a diluição de fronteiras (tema que interessa especialmente a este trabalho) entre os campos da ciência e da tecnologia113, mas um emaranhamento, uma indistinção entre ciência, tecnologia e capitalismo neoliberal (CASTELFRANCHI, 2008, p. 9). Não existe mais uma grande ruptura entre ciência e nãociência, mas a 113 Para alguns autores, a tecnociência se refere à “conexão fundamental entre a ciência e a tecnologia, que leva a que ambos os domínios possam ser pensados conjuntamente” (DAGNINO, 2008, p. 28). Como tento mostrar aqui, essa conexão – apesar de fundamental e necessária – não é suficiente para definir o fenômeno. 118 identidade radical entre esses três domínios anteriormente tratados como autônomos. O conceito de tecnociência “sugere que não há barreiras prédeterminadas para o que constitui tecnologia ou ciência, o social ou o técnico, ciência ou política” (ASDAL, BRENNA e MOSER, 2007, p. 8)114. Essa nova configuração sóciohistórica (ou sociotécnica) foi apontada como uma das grandes transformações do final do século XX. Esse fenômeno impõe novos olhares, dentre os quais os science studies. Não é fortuita a associação que Paul Forman (2007) propõe entre a passagem da Modernidade à pósmodernidade e a proeminência da tecnologia sob a ciência. O autor é incisivo quanto a este ponto: “a tese deste artigo é que modernidade é quando ‘ciência’ denota também tecnologia; pósmodernidade, quando tecnologia denota também ciência” (FORMAN, 2007, p. 4)115. Não pretendo subestimar a função da cultura intelectual pósmoderna na conformação de uma aventura teórica ousada como o programa forte e os science studies. No entanto, não pretendo seguir de perto os padrões narrativos pósmodernos, a sua cronologia. Através do conceito de tecnociência, tentarei identificar certo ambiente simbólicomaterial comum à emergência do neoliberalismo e dos science studies. Talvez a leitura da pósmodernidade como a “lógica cultural do capitalismo tardio”, com todas as suas contradições e conflitos, poderia desenhar outra genealogia para esse campo interdisciplinar, alinhálo a determinada filiação epistemológica. A pósmodernidade é um fenômeno muitíssimo amplo, pulverizado e de difícil definição116. Para o que aqui nos interessa, podemos caracterizála como um movimento de recusa das categorias fundantes da Modernidade, especialmente aquelas tributárias da Ilustração (LYOTARD, 2004). As grandes narrativas universalistas do progresso, da verdade, da razão, da justiça, da liberdade, da história e da ciência (que se galvanizam na filosofia hegeliana) são denunciadas como sendo incapazes de cumprir as suas promessas de emancipação da humanidade, meras fachadas retóricas para o exercício de um eurocentrismo tacanho que, em nome dos universais, subjugou violentamente grande parte do território global117. Alguns autores recuam até o final do 114 No original: “suggests that there are no predetermined boundaries for what constitutes technology or science, the social or the technical, science or politics”. Tradução minha. 115 No original: the thesis of this paper is that modernity is when ‘science’ denotes technology too; postmodernity, when ‘technology’ denotes science too”. Tradução minha. 116 Na maior parte das suas apreciações, ela engloba o giro linguístico, o relativismo, a política das identidades etc. 119 século XIX para marcar a primeira inflexão em direção à pósmodernidade. Segundo Jürgen Habermas, é a crítica radical à razão moderna (e seu subsequente abandono), levada à cabo por Nietzsche, que abre a trilha pela qual caminhará o discurso pós moderno (HABERMAS, 2007). Embora menos ressentido em relação ao abandono da razão por Nietzsche, José Carlos Reis faz um diagnóstico semelhante da pós modernidade. Para o historiador, “Nietzsche foi um dos primeiros a recusar uma tirania da Razão sobre o sentido histórico, abrindo outra profunda fissura na identidade ocidental” (REIS, 2006, p. 42). No entanto, a pósmodernidade não depende apenas de uma crítica filosófica do conceito de Modernidade ou das suas características centrais118. Foi com a ocorrência de uma série de mudanças profundas nas sociedades ocidentais após a Segunda Guerra Mundial que a percepção de falência do projeto Moderno tomou contornos firmes e foi possível pensar em uma etapa posterior à Modernidade. Passamos a viver em uma nova fase do capitalismo. Nos países ricos, esse novo capitalismo foi definido como “pós industrial”. Assim, a antiga produção baseada em fábricas que contavam com exércitos de operários foi substituída por processos cada vez mais automatizados e a mãodeobra transferida para o setor de “serviços”. Isso criou também uma massa de profissionais com alto grau de treinamento, preparados para lidar com máquinas cada vez mais específicas e sofisticadas em uma escalada da demanda pela “expertise”. À época, algumas avaliações otimistas viam essa transição como acarretando na redução drástica das jornadas e na possibilidade de exercício criativo e tempo ocioso. A capacidade de “pleno emprego”, utopia do início do século XX, foi substituída pela utopia do “fim do trabalho”. Na prática, o que ocorreu e ainda ocorre é um processo de “proletarização” de todas as esferas produtivas (inclusive a intelectual) e, mais recentemente, a nefasta distopia do desemprego em massa119. A tecnociência é uma entidade muitas vezes descrita como resultado da captura da tecnologia e da ciência pelo mercado – o que acarreta mudanças nos próprios mecanismos do mercado. Yurij Castelfranchi (2008) utiliza a metáfora do líquen, que remete a uma relação de codependência e coprodudução, não a simples dominação 117 Para uma perspectiva um pouco distinta da trajetória da “retórica do universalismo” ver, WALLERSTEIN, 2006. 118 Rousseau, por exemplo, fez duras críticas à associação automática entre Progresso e Ciência; Marx dirigiu seus esforços para uma reavaliação das categorias modernas. Isso não os fez abandonar o projeto Moderno. 119 Para uma visão bastante ácida dessa economia, ver GRUPO KRISIS, 2003. 120 exercida pelo mercado impuro contra uma ciência pura. Para Michel Callon (1994, p. 78), “a técnica constitui um dos principais recursos na guerra a que se entregam os grupos industriais. [...] A inovação tecnológica é, hoje em dia, uma arma decisiva”. Para Laymert Garcia dos Santos (2003, p. 232, grifo meu), “o princípio da competitividade obriga a racionalidade econômica a atrelarseà racionalidade científica, ao subordinar as decisões de investimento não às taxas de retorno, mas à dinâmica da inovação”. O rol de citações que apontam nesse sentido poderia ser ampliado. Não será o caso. Mais importante aqui é perceber que, ao se dotar de uma identidade tecnocientífica e, simultaneamente, do controle sobre o modo de produção de ciência e tecnologia, o mercado (apesar das tensões internas) potencializa a sua inexorabilidade. Ao se colocar como o local privilegiado da racionalidade, ao pautar as suas ações sob a égide de técnica, a governamentabilidade neoliberal exclui a política em nome de decisões “neutras” e “objetivas”. Grande parte da produção crítica sobre esse fenômeno utilizou o conceito de tecnociência precisamente como uma ferramenta de combate, de oposição ao processo de gestão tecnocrática. Um dos objetivos explícitos é demonstrar que toda opção técnica é também opção política: carregada de interesses, negociações, jogos de poder. Despolitizadas, ciência e tecnologia estão à mercê dos grupos hegemônicos. Uma vez politizadas, é possível pôr em disputa o controle sobre elas. É preciso perceber, no entanto, que a tecnociência não se restringe a um conjunto de mecanismos de exclusão e dinâmicas de controle. Não se resume à tecnocracia. Não devemos ignorar a sua dimensão “interativa” e participativa, a contrapartida de um mercado que não é apenas oferta, mas também é demanda120. Em função disso, a pressão por inovação e por resultados práticos para as pesquisas é apresentada como “responsabilidade social dos cientistas” que devem prestar contas aos contribuintes ou aos consumidores. Essa dimensão não é apenas um disfarce que garante o respaldo e a legitimidade da tecnociência, ela é constitutiva desse novo modo de produção do conhecimento. Segundo Yurij Castelfranchi (2008, p. 225): No discurso da tecnociência atual tecnocracia e retórica da participação, delegação aos especialistas e slogans de uma democracia “de baixo para cima”, jargão e sensacionalismo convivem numa trama discursiva e numa rede de práticas em que, ao lado do discurso da necessidade, há uma necessidade do discurso. Junto com um discurso de inexorabilidade, há uma incessante produção de diálogos, em cada molécula do dispositivo. 120 Assim como o discurso da ciência entre meados do século XIX e meados do XX se constituiu de uma face baconiana, operativa e uma contemplativa, do arrebatamento diante das maravilhas da natureza. 121 Esse novo cenário dominado pela tecnociência engendra uma nova Política de Ciência e Tecnologia. Donald Stokes (2005) narra com certa angústia o esgotamento das políticas públicas inspiradas no modelo delineado no Relatório Bush, caracterizando a década de 1980 como um período de “desordem”. Certamente, isso se deve ao forte compromisso desse autor com o papel do Estado na promoção e no financiamento da ciência e da tecnologia, que deveria “manter sob controle” os “motores da modernização” (STOKES, 2005, p. 15). Diante de tal objetivo; diante da visão do pacto entre ciência e Estado no qual cabia a este último, se não guiar o desenvolvimento da pesquisa, fornecer as condições materiais e os enquadramentos institucionais para o desenvolvimento da ciência, a situação desde final dos anos 1970 parecia. A Política de Ciência e Tecnologia assume características bastante peculiares à medida que se converte em Política de Tecnociência. O Estado se torna mais um agente em uma arena de múltiplos interesses. A ligação orgânica que forma a tecnociência retira do poder público qualquer centralidade que ele porventura possuíra em décadas anteriores. Ao identificar como seus os interesses do mercado, a ciência e a tecnologia fazem também deslizar a função do Estado, remodelandoa. Esse novo ambiente, esse novo arranjo societário que possibilita a emergência da tecnociência, essa trama complexa de ciência, tecnologia e capitalismo, faz implodir o modo “tradicional” de contar a história das ciências, coloca novos desafios ao pensamento histórico, exige dele um novo esforço. A história se (re)escreve em função do presente, para dar sentido, profundidade e perspectiva a novos fenômenos. Diante de novos problemas, os historiadores imaginam, fabricam, reelaboram um novo passado.Como o passado das ciências será questionado visàvis as questões que, no presente, motivam essas investigações? Conhecemos, por exemplo, as mudanças na história da escravidão e as transformações do escravo em um agente, sujeito econômico racional, quase à imagem do selfmade man neoliberal (CHALHOUB E TEIXEIRA, 2009; REIS, 2012, pp. 124138). Para enfrentar essas questões – não para resolvêlas definitivamente, mas para sugerir hipóteses, ampliar o limite das explicações, fazer repensar criticamente esses temas inquietantes – a parte final desse capítulo será dedicada à análise do Leviathan and the airpump, uma das mais importantes obras de história das ciências do último quartel do século XX. 122 O Leviathan não será abordado aqui como representando apenas uma versão histórica da sociologia do conhecimento científico. É evidente que essa era uma das ambições explícitas dos autores, que pretendiam que o livro fosse “um exercício na sociologia do conhecimento científico” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 15)121. Para isso, se valiam de princípios metodológicos desenvolvidos por Bloor e Barnes (e pelo próprio Steven Shapin), do estudo das controvérsias científicas da forma como foi proposto por Harry Collins, da etnometodologia de Harold Garfinkel, dos estudos de laboratório de Bruno Latour, do vocabulário do “segundo” Wittgenstein etc. Para John Zammito, o Leviathan é o “grande exemplar do Programa Forte [...]. Nenhum outro texto no campo possui o status canônico – igualmente para amigos ou inimigos – que esse estudo assumiu” (ZAMMITO, 2004, p. 169, grifo no original)122. Como já afirmei acima, os autores não estavam apenas imersos nesse ambiente intelectual e institucional, eles possuíam um papel ativo na construção de uma nova visão sobre as ciências. No entanto, a consecução plena do projeto de utilizar a história como campo de teste empírico para teorias sociológicas é inexequível123. Não estou negando que os autores utilizam uma rede conceitual, procedimentos metodológicos e mesmo um conjunto de questões provenientes da sociologia e dos science studies. Essa tese não se propõe a patrulhar as fronteiras da história das ciências, mantêlas sob vigilância e recriminar os membros que escapam aos seus protocolos. Pelo contrário, tenho 121 No original: “an exercise in the sociology of scientific knowledge”. Tradução minha. Esse argumento é desenvolvido de forma mais alentada na longa introdução preparada pelos autores para a edição de 2011 do Leviathan and the airpump (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, pp. xlxliv). 122 No original: “the grand exemplar of the Strong Program […] No other text in the field has had the canonical status – for friends and foes alike – that this one study has assumed”. Tradução minha. 123 Para Lakatos (1998), sob o imperativo da “reconstrução racional” a história das ciências seria o “laboratório da epistemologia”. Steven Shapin parafraseia ironicamente o título do famoso artigo de Lakatos (History of science and its racional reconstructions) no título do texto no qual aborda as possibilidades de tratamento empírico da sociologia do conhecimento científico (History of science and its sociological reconstructions). Embora Shapin (1982, p. 158)reconheça que tratar a literatura empírica como mero teste de algum programa teórico seria “quite incorrect” e que ela deve ser avaliada “on its own terms”, ele não fornece nenhuma indicação de qual seriam os termos adequados para essa avaliação e insiste na sua empreitada de avaliar a sociologia do conhecimento através de trabalhos históricos; a dúvida que permanece é se a referência ostensiva a Lakatos por meio da ironia não esconde, mutatis mutandis, certa semelhança de programa para a história das ciências (isto é, ser um laboratório, um exercício de modelos, conceitos e teorias elaborados em outros campos epistemológicos). Diversamente, Michel de Certeau nos fala, em relação à história serial dos anos 1950 e 1960, de uma intervenção da história nos “modelos”, de uma experimentação crítica, da história como local de controle que coloca em evidência os limites do modelo. Restaria à história que perdeu a função que possuía até o século XIX, de “prover a sociedade de representações globais da sua gênese” ou “expressar o sentido”, a tarefa de encontrar o seu lugar em meio às ciências sociais (CERTEAU, 2006, p. 80). Essas perspectivas parecem perder força à medida que a história cultural, o “retorno da narrativa” e, especialmente, as obras de Paul Ricoeur exploram a relação constitutiva entre história e narrativa. 123 mostrado como o estabelecimento de zonas de troca é constitutivo da história das ciências. A relutância da corporação dos historiadores em assumir as ciências como objeto legítimo fez com que a história das ciências fosse desenvolvida à margem dos espaços institucionais da história. Assim, a história das ciências foi praticada por cientistas (como Thomas Kuhn), filósofos (como Koyré) e constituiu sua tradição disciplinar, seus espaços de sociabilidade institucional e mesmo seus critérios epistemológicos alheios à historiografia strictu sensu (MAIA, 2013). Esta situação forçou a história das ciências a criar laços institucionais e teóricos com outras disciplinas que estavam em torno do mesmo objeto, as ciências. Nessas zonas de troca, onde as barreiras que delimitam as disciplinas estariam abertas, seria possível um intercâmbio de técnicas, conceitos, formas de abordagem e até de questões, que podem ser depois levadas para o interior dos domínios disciplinares. O fluxo entre os territórios é frequente, embora não de forma constante ou homogênea. Os science studies desempenharam, nos anos 1980, um papel fundamental no estabelecimento de uma agenda de pesquisa, na forma de colocar os problemas, nas ferramentas conceituais e na própria concepção de ciência. Grande parte da historiografia do período não pode esconder o débito que contraiu com essa empresa interdisciplinar124. A prática da história social (e sociológica) das ciências é plenamente possível e desejável – revigora o conhecimento histórico, amplia o seu alcance. Negar as transformações sofridas pela história em contato com outras ordens de saber e, em especial, com as ciências sociais e o ideal de cientificidade que as informou desde o século XIX, seria ignorar a história da historiografia125. Contudo, deslocar esses elementos em direção à história e situálos nesse campo disciplinar já significa reconfigurálos em função da especificidade dessa disciplina126. Contentemonos, por enquanto, em situar essa especificidade no papel exercido pela narratividade na “arquitetura do saber histórico” (RICOEUR, 2007, p. 250) e especialmente na função que esse saber produzido sob o signo da narrativa desempenha na sociedade na qual se inscreve (e na qual escreve). Dito isto, avaliarei o Leviathan como uma obra de história 124 Embora uma parte também significativa dos historiadores tenha mantido uma atitude de repúdio ou indiferença aos science studies. 125 Convém evocar novamente aqui Michel de Certeau (2006, p. 65), para quem “cada sociedade se pensa ‘historicamente’ com os instrumentos que lhe são prórios”. 126 Não pretendo recolocar a eterna e provavelmente insolúvel questão “que é a história?”, nem refazer todo o percurso da filosofia crítica da história do século XX em busca da afirmação (e problematização) de uma identidade ou de uma essência da história. Interessame (evitando o essencialismo ontológico por vezes implicado no verbo “ser”) a sua correlata: “que é a história das ciências?”. 124 social das ciências profundamente marcada pelo convívio com a sociologia do conhecimento científico e com os science studies. A análise que empreenderei tem, acima de tudo, um objetivo historiográfico: inscrever essa obra (e a produção histórica mais ampla à qual ela pertence) na problemática dos fatores internos e externos. Ao lado dessa leitura que incorpora a historiografia dos anos 1980 na “tradição”, a pesquisa aponta também para aquilo que ela tem de peculiar. Joga assim com as continuidades e rupturas na historiografia das ciências e se interroga reflexivamente sobre a relação entre essa historiografia e a configuração sóciohistórica na qual emerge. Para isso, acompanharei mais de perto a urdidura do enredo, as estratégias narrativas e os argumentos mobilizados pelos autores para reconstruir a polêmica na qual emerge a “forma de vida experimental” como dimensão constitutiva da ciência moderna. A trama do Leviathan and the airpump é bem conhecida: o livro se debruça sobre a controvérsia travada na Inglaterra da década de 1660 entre Robert Boyle e Thomas Hobbes. A disputa entre essas eminentes figuras dizia respeito ao estatuto do experimento no conhecimento científico e à capacidade do experimento de produzir fatos científicos127 seguros e confiáveis. Como resumem os autores, o estudo trata de “estratégias conflitantes para a geração de conhecimento natural na Inglaterra de meados do século dezessete” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 131)128. Sobretudo, estavam em questão os experimentos pneumáticos realizados na bomba de ar construída por Boyle (também chamada de bomba de vácuo ou máquina boyleana [machina Boyleana]). A centralidade da bomba de ar na narrativa é evidente. No título da obra, nas detalhadas descrições presentes ao longo do livro, no interesse em cada componente, nos limites do seu funcionamento, na circulação desse artefato 127A expressão original utilizada pelos autores, matters of fact, é de difícil tradução. Na única tradução brasileira de textos de Steven Shapin preferiuse manter maior literalidade, traduzindose a expressão por “matéria de fato” (SHAPIN, 2013c, p. 91); uma tradução portuguesa de uma conferência de Simon Schaffer traduz mais simplesmente como “facto científico” (SCHAFFER, 1999, p. 415); a edição argentina do Leviathan escolheu uma via econômica e traduz por “hecho” (SCHAFFER e SHAPIN, 1998). No trecho em que Bruno Latour discute o Leviathan, a tradução brasileira de Jamais fomos modernos manteve – provavelmente seguindo o original francês – a forma matters of fact (LATOUR, 1994, p. 2327). Na primeira ocorrência, no entanto, Latour (1994, p. 23) explica a sua origem em uma “metáfora parajurídica” e traduz a expressão por “fato”, embora permaneça utilizando a forma em inglês. Edagr Silsel (1942) também utiliza esse conceito. Optei, quando necessário, por traduzir a expressão como “fato científico” devido a sua maior recorrência tanto no vocabulário comum quanto na literatura especializada, eventualmente será mantida a forma original em inglês. 128 Nooriginal: “conflicting strategies for generating natural knowledge in midseventeenthcentury England”. Tradução minha. 125 (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, pp. 2640, 225282). “A bomba de ar é a ‘Big Science’ do século dezessete” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 38)129. Em uma longa resenha da segunda edição do Leviathan, Ian Hacking (1991, pp. 235241) considera esse instrumento científico o protagonista do livro, que é descrito como uma biografia da bomba de ar. De modo semelhante, Bruno Latour (1994, p. 22) considera a bomba de ar o “verdadeiro herói dessa história”130. Grande parte das análises desse livro deu ênfase ao argumento que conecta epistemologia e política (GOLINSI, 2005, pp. 2127, 190193; LATOUR, 1994, pp. 21 35; SPRINGER DE FREITAS, 2003; ZAMMITO, 2004, pp. 171181). Esse argumento, afirmado diversas vezes ao longo do livro, foi resumido na frase que abre a conclusão e que se tornou uma das passagens mais conhecidas e citadas da obra: “soluções para o problema do conhecimento são soluções para o problema da ordem social” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 332)131. Assim, as propostas rivais de Hobbes e Boyle eram tanto tentativas de fundamentar a filosofia natural (ou filosofia experimental, como queriam os membros da Royal Society) quanto formas de organizar a vida social na Inglaterra da Restauração. “Para Boyle e seus colegas [na Royal Society] a solução experimental para o problema da ordem era possível, efetiva e segura. Sua praticidade, potência e inocuidade dependiam da ereção de uma barreira crucial ao redor das práticas da forma de vida experimental” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 80, grifo meu)132. Dessa maneira, “o matter of fact deve ser visto como uma categoria tanto epistemológica quanto social” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 25, grifo meu)133. A preocupação com esse ponto por qualquer autor interessado na leitura do Leviathan é completamente justificada – pela sua importância para a obra, mas também pelo impacto dessa fórmula, que se tornou um dos emblemas da nova historiografia. É 129 No original: “the airpump was seventeenthcentury ‘Big Science’”. Tradução minha. 130 Em certo sentido, a leitura realizada por Latour (1994, pp. 2133) cristalizou uma interpretação da obra de Schaffer e Shapin, não apenas conferindolhe o estatuto de clássico e situandolhe na base da nova historiografia da ciência, mas atrelando esse livro ao programa de antropologia simétrica que ele visava desenvolver, apesar das críticas que o intelectual francês dirige à conclusão demasiado blooriana do Levianthan. 131 No original: “Solutions to the problem of knowledge are solutions to the problem of social order”. Tradução minha. 132 No original: “To Boyle and his colleagues the experimental solution to the problem of order was possible, effective, and safe. Its practicality, potency, and innocuousness were dependent upon the erection of a crucial boundary around the practices of the experimental form of life”.Tradução minha. 133 No original: “the matter of fact is to be seen both as an epistemological and a social category”. Tradução minha. 126 essa percepção que faz com que “a história das ciências ocupe o mesmo terreno que a história da política” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 332)134. Apesar de reconhecer isso, não partirei aqui desse argumento para explicar o livro. Ele estará no horizonte dos questionamentos que levantarei aqui e não será tomado como evidente, apesar do seu extremo sucesso. O que pretendo é seguir a forma pela qual esses autores chegaram a essa conclusão (que se assemelha a um princípio heurístico, um a priori em busca de confirmação pelo estudo de caso, teste do modelo de explicação proposto da sociologia do conhecimento científico). Voltarei a minha sensibilidade para o modo como a construção narrativa dos autores explora algumas técnicas de produção do espaço. O livro é dominado por metáforas espaciais, geográficas. Seu enredo se desenrola ao redor (e no interior) de locais muito singulares, cujos limites se constituíam através de um árduo processo e que demandavam constante manutenção e ajuste: a bomba de ar, o laboratório e a Royal Society de Londres. A metáfora se expande para a circulação: circulação dos aparelhos e experimentos científicos (e a prática da replicação com suas muitas dificuldades); circulação de relatos dos experimentos que criavam “testemunhas virtuais” (a partir de uma série de tecnologias literárias que serão detalhadas adiante). E também para o controle do acesso a esses espaços, sobretudo através das normas que regulam a constituição de uma “comunidade de experimentalistas” na Europa setecentista. Além disso, o tema do espaço aparece de uma forma nada metafórica na querela entre “vacuístas” e “plenistas” que agitava o ambiente intelectual da época. É também com a metáfora do espaço (e suas correlatas) que lidamos ao tratar do internalismo e do externalismo. Aproveitando essa metáfora, farei duas perguntas de importância capital. Onde está localizada a ciência no modelo proposto por essa nova historiografia? Como o Leviathan se posiciona em relação ao internalismo e ao externalismo? Nas décadas finais do século XX, o problema da demarcação se relaciona diretamentecom a diluição da ciência no conjunto da sociedade, sintetizado no conceito de tecnociência. Comecei esse capítulo afirmando que o período posterior à publicação de A estrutura das revoluções científicas se caracterizava, entre outras coisas, pelas tentativas de superação da divisão da história das ciências entre internalismo e externalismo. Defendi também que essa empreitada não havia sido bem sucedida ou, 134 No original: “history of science occupies the same terrain as the history of politics”. Tradução minha. 127 pelo menos, não tanto quanto os principais autores das décadas de 1970 e 1980 acreditavam, daí a necessidade de retornar a esse problema. Essa questão aparece para Schaffer e Shapin de modo explícito: a preocupação dos autores é com a construção das fronteiras entre ciência e nãociência. Os autores tentam mostrar que essas fronteiras são erguidas historicamente, que não é evidente, óbvio ou natural que um determinado conjunto de práticas seja considerado ciência e outro conjunto seja deslegitimado e rebaixado à categoria de “opinião”. O argumento que sustenta essa aparente obviedade, dizem os autores, é o nosso pertencimento radical a uma cultura que naturalizou essas divisões. Como membros dessa comunidade, não enxergamos certas questões como problemas. A solução teórica encontrada é a de “bancar o estrangeiro”, exercitar o estranhamento face ao que associamos ao comportamento normal da sociedade (ou da natureza). “Nós queremos adotar uma suspensão calculada e informada das nossas percepções evidentes das práticas experimentais e seus produtos” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 6)135. Um dos pontos fortes da obra é justamente narrar o processo de construção do coletivo de produção do conhecimento, das suas instituições (a Royal Society, o laboratório), das novas práticas e conhecimentos que ela cria (a nova ciência), dos novos produtos, da nova cultura material (a bomba de ar), como sendo o mesmo fenômeno. É óbvio que essa narrativa, por certa persistência do vocabulário da demarcação, está repleta de remissões ao antigo estilo que visava superar. Essas passagens de certa hesitação são significativas, expressam a dificuldadeda tarefa executada por essa historiografia. A insistência “do fenômeno” em se seccionar em “o social” e “o natural”, entre o “teórico” e o “experimental”, entre o “discurso” e a “realidade”, o “interno” e o “externo” se exibe muito evidente para um espírito formado na tradição filosófica da primeira metade do século XX136. É justamente nos momentos que essa vacilação relampeja na trama que se aguça o interesse do historiador preocupado em examinar os interstícios dessa escrita. Para estimular uma leitura que privilegia esses momentos, dividirei essas etapas, tentando desvendar as formas através das quais os autores amarram os diversos fios dessa 135 No original: “We wish to adopt a calculated and informed suspension of our takenforgranted perceptions of experimental practices and its products”. Tradução minha. 136 O seguinte trecho fornece um exemplo excelente: “Now that we understand aspects of Hobbes condemnation of experimental practice we can parenthetically discuss his relations with the Royal Society as a corporate body” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 131). 128 trama.Em cada um desses momentos, a atividade de produção de fronteiras (boundary work) será o foco principal da leitura aqui desenvolvida. Não pretendo narrar novamente a história da disputa entre Hobbes e Boyle recolocando as tradicionais polarizações, tratando as diferentes “dimensões” como fenômenos distintos que obedecem a lógicas próprias, mas ressaltar a especificidade dessa nova forma de narrar a história das ciências. A primeira etapa que abordarei é a da formação do corpo social da ciência moderna, responsável pela elaboração coletiva do conhecimento legítimo – a “comunidade experimental” ou “moral”. Os autores descrevem a construção de um espaço social regulado por uma série de predicados sociais e morais que construíam a identidade do filósofo natural. Essa nova configuração que emerge no início da Era Moderna representa a si mesma como uma atividade pública e se opõe simultaneamente ao isolamento do alquimista em seu gabinete e à clausura do monge em sua cela (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 57; SHAPIN, 2013d). “Boyle propunha que os fatos científicos fossem estabelecidos pela agregação de crenças individuais. Membros de um coletivo intelectual tinham que assegurar mutuamente a si mesmos e a outros que a crença na experiência empírica estava garantida” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 25, grifo no original)137. A atividade da ciência moderna é uma atividade coletiva, fruto de um processo de “relocalização da filosofia natural no espaço cívico” (SHAPIN, 2013d, p. 132). Não é mais a reclusão individual que produz o conhecimento profundo e verdadeiro, mas a submissão a normas sociais. O entendimento humano individual precisava ser disciplinado pelo método, a saber um instrumento de indução verdadeira. E esse instrumento foi implementado não por um indivíduo, e sim por uma coletividade organizada de forma complexa e que interagia de modo inacessível. (SHAPIN, 2013d, p. 132)138 Assim, a constituição dessa comunidade se refere à necessidade de certas qualidades morais, de certo conjunto de valores indispensáveis à boa prática da filosofia natural: em uma palavra, se refere ao ethos da ciência moderna. Esse ethos não se 137 No original:“Boyle proposed that matters of fact be established by the aggregation of individual’s beliefs. Members of an intellectual collective had mutually to assure themselves and others that belief in an empirical experience was warranted”. Tradução minha. 138 Nesse mesmo texto, Shapin (2013d, p. 132139) aponta para a ambiguidade dos repertórios correntes em relação à identidade científica no século dezessete, mostrando a permanência da retórica do filósofo natural como “eremita” e “sacerdote da natureza” em figuras importantes, como Robert Boyle e Isaac Newton. O topos do cientista como um indivíduo isolado, à margem da sociedade (se não fisicamente, ao menos intelectualmente, voltado para os seus pensamentos) ainda é forte na atual imagem social do cientista. 129 identifica com as prescrições mertonianas descritas no capítulo anterior. Os experimentalistas elaboram para si uma identidade ligada à sobriedade, à humildade, à modéstia. Esses valores garantiam aos praticantes dessa filosofia natural um estatuto de nobreza139 (SCHAFFER e SHAPIN, pp. 6576). Esse sistema organizado de distribuição de valores, julgamentos e emoções – essa economia moral da ciência moderna (DASTON, 2014) – regula as fronteiras da comunidade, credencia os legítimos participantes do coletivo de produção de conhecimento verdadeiro. Uma das formas utilizadas para delimitar esse espaço foi através da produção literária de relatos de experimentos. Esses relatos, descrições minuciosas das atividades empíricas, destinavamse a ampliar o público da nova filosofia experimental por meio de testemunhas virtuais140. Esses relatos deveriam estabelecer um pacto de confiança entre o experimentalista e essas testemunhas, que passariam a acreditar e validar as performances experimentais e os seus resultados sem ter o contato direto com a operação da bomba de ar, por exemplo. Mais do que isso, os autores enfatizam o papel desses discursos na economia moral da comunidade. “A exposição literária de uma certa forma de moralidade era uma técnica na fabricação de fatos científicos” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 65)141. Logo adiante esse ponto é aprofundado. A tecnologia literária de Boyle dramatizava as relações sociais apropriadas para uma comunidade de filósofos experimentais. Apenas estabelecendo regras corretas de discurso os fatos científicos poderiam ser gerados e defendidos e apenas constituindo esses fatos científicos como as fundações acordadas do conhecimento a comunidade moral de experimentalistas poderia ser criada e sustentada (SCHAFFER e SHAPIN, p. 69, grifos meus)142. 139 Efetivamente, a maioria dos praticantes da filosofia natural na Europa dos séculos XVII e XVIII era de famílias aristocráticas ou de ricos proprietários. 140 O caráter público da experimentação será retomado em seguida, quando da discussão sobre as instituições da ciência moderna. 141 No original: “the literary display of a certain sort of morality was a technique in the making of matters of fact”. Tradução minha. 142 No original: “Boyle’s literary technology dramatized the social relations proper to a community of experimental philosophers. Only by establishing right rules of discourse could matters of fact be generated and defended, and only by constituting these matters of fact into the agreed foundations of knowledge could a moral community of experimentalists be created and sustained”. Tradução minha. Esse argumento é repetido ao longo o livro para se referir também à disputa entre tecnologias literárias diferentes em Boyle e Hobbes: “in both Boyle’s and Hobbes’s writings, literary structure and process dramatize the social relations and practices deemed appropriate to the production of knowledge. Differences in theories of knowledgeproduction and evaluation are displayed in different literary technologies” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 145). 130 Em uma versão preliminar do segundo capítulo do Leviathan, texto que exibe pela primeira vez o uso do conceito de tecnologias literárias, Shapin (2013b, p. 91) enfatiza que: A produção de conhecimento e a comunicação de conhecimento são normalmente consideradas como atividadesdistintas. Argumentarei em contrário: o discurso acerca da realidade natural é um meio de gerar conhecimento acerca da realidade, de assegurar a garantia para esse conhecimento e de determinar os domínios de certo conhecimento em relação a áreas de posição menos certa. Mostrarei o status convencional de maneiras específicas de se falar sobre a natureza e o conhecimento natural, e examinarei as circunstâncias históricas em que essas maneiras de falar foram institucionalizadas. [...] A etimologia de alguns de nossos termos chave é pertinente: se uma comunidade é um grupo que compartilha uma vida em comum, comunicação é um meio de tornar as coisas comuns. As fronteiras dessa comunidade eram estabelecidas a partir da distribuição desigual das qualidades e habilidades necessárias à prática da filosofia experimental. Embora, em princípio, o caráter público desse conhecimento fosse ressaltado, a função desse público seguia uma hierarquia bem definida, ele não se confundia com a comunidade. Os protocolos estabelecidos deveriam construir um espaço social pronto para superar o paradoxo de ser simultaneamente coletivo e isolado, uma vez que toda interferência social na produção de conhecimento era percebida como uma distorção. Desse modo, os autores apontam para a “desconstrução” da imagem da ciência como algo público, voltando sua atenção para uma estratégia dupla: de um lado, enunciar que o conhecimento científico deve ser público, aberto; de outro lado, como contrapartida necessária, restringir o efetivo acesso público à ciência, regular o espaço social no qual a ciência é praticada. Todo esse esforço de regulação e criação de uma comunidade dotada de autonomia é explicado como tendo a função de controlar as possibilidades de dissenso e consenso, como um processo de criação de maneiras apropriadas de expressar a divergência e conduzir as controvérsias. Essas convenções linguísticas e sociais deveriam prevalecer caso os experimentalistas quisessem efetivamente fazer avançar o seu modo de produção do conhecimento, a sua “forma de vida” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, pp. 7276, 151154). No momento em que o processo de privatização do conhecimento se intensifica na mesma medida em que as decisões se baseiam em escolhas tecnocráticas, a preocupação dos autores com essa dimensão parece extremamente relevante, pois 131 aponta para o caráter histórico e contingente dos limites da participação pública na produção e no consumo da ciência. Para prosseguir na análise dos procedimentos envolvidos nessa produção de limites, passarei ao exame das instituições onde a filosofia natural era praticada. A ênfase nos “estudos de laboratório” é um lugar comum para aqueles familiarizados com a trajetória da primeira geração dos science studies143. Os clássicos A vida de laboratório, publicado originalmente em 1979 por Bruno Latour e Steve Woolgar, e The manufacture of knowledge, que Karin KnorrCetina publica em 1981, lançam as bases dessa empreitada. A proposta elaborada por esses autores se distancia das “histórias de instituições científicas” (laboratórios, institutos de pesquisa, sociedades científicas etc.) que possuem uma larga e consolidada tradição. Esses espaços de produção do conhecimento científico não são vistos como “templos do saber” (eventualmente esse topos aparece de forma crítica e irônica), mas como algo que confere à ciência um caráter radicalmente situado, local, contingente (GOLINSKI, 2005, pp. 8081; LATOUR, 1994, pp. 2631; SHAPIN, 2013b). O Leviathan and the airpump se tornou uma das principais fontes históricas para esse campo. Essas instituições que se tornaram sinônimo de ciência emergem justamente no período tratado no livro e a escolha desse objeto é uma tentativa de atacar esses problemas antes da sua cristalização em entidades bem delimitadas, mostrando – para usar o vocabulário latouriano – a ciência em ação. “No programa de Boyle, deveria haver um espaço especial no qual a filosofia natural experimental seria feita, no qual os experimentos seriam realizados e testemunhados. Esse [espaço] era o laboratório nascente” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 334)144. Assim, o trabalho de Simon Schaffer e Steven Shapin desempenha a função de reler o surgimento da ciência moderna com uma sensibilidade que agrada aos science studies. O laboratório é a “casa da experiência”, local onde são arregimentados os elementos humanos e materiais indispensáveis à prática da ciência – ou, no século XVII, da filosofia natural (SHAPIN, 2013b). É um espaço onde elementos heterogêneos convivem e ganham certa coesão: os instrumentos e máquinas, os técnicos que realizam 143 Jan Golinski (2005, pp. 79103) fornece uma perspectiva abrangente dos principais desenvolvimentos dos estudos de laboratório ao longo dos anos 1980 e 1990. 144 No original: “In Boyle’s programme there was to be a special space in which experimental natural philosophy was done, in which experiments were performed and witnessed. This was the nascent laboratory”. Tradução minha. 132 o trabalho manual, a audiência cuidadosamente selecionada e os filósofos naturais, verdadeiros produtores do conhecimento. Mais importante, esses elementos são arranjados segundo uma disciplina estrita e exaustivamente reiterada através de vários dispositivos que Schaffer e Shapin (2011, pp. 1825, 7679) chamam de tecnologias sociais. Esses dispositivos tinham como principal atribuição garantir a legitimidade do conhecimento produzido no interior do laboratório, mas também produzido em outros locais menos acessíveis e levados ao laboratório para que lá fossem validados (GOLINSKI, 2005, pp. 8494; SHAPIN, 2013b). Assim como no caso da elaboração de regras de conduta que garantiam o pertencimento à “comunidade experimental”, essas tecnologias sociais regulavam uma ecologia do laboratório, distribuíam papéis sociais distintos, organizam convenções e protocolos. A emergência dessas instituições se apropria de normas sociais já vigentes, recombinandoas, calibrandoas de acordo com as suas necessidades específicas. Ao explicar as fontes de legitimidade de um relato na Inglaterra do século XVII, Steven Shapin comenta que “de modo aproximado, a distribuição da credibilidade seguia os contornos da sociedade inglesa e o fazia tão claramente que quase nenhum comentador sentiase obrigado a especificar a base do seu valor de credibilidade” (SHAPIN, 2013b, p. 64). A autoridade provinha de critérios sociais que circulavam ao longo do corpo social – o ideal de nobreza que indiquei como parte constitutiva da identidade do filósofo natural nesse período é sintomático. Ser um cavalheiro era tão determinante (ou talvez até mais, em meados do século XVII) do que ser versado em filosofia. A espacialidade adquire no laboratório uma acepção mais literal. Tratase de um ambiente, na maioria dos casos, especialmente construído ou adaptado aos propósitos da produção de conhecimento. Mas, assim como no caso de suas convenções sociais, as suas convenções arquitetônicas foram capturadas de outros espaços – como o teatro ou o fórum. As escolhas por esses modelos derivavam da necessidade de replicar no laboratório não apenas os fenômenos naturais, mas as condições de comportamento e distribuição social, a forma como os grupos sociais que frequentavam o laboratório percebiam os seus papéis e as normas de conduta (muitasvezes tácitas) que deveriam seguir. Como resume Jan Golinski (2005, p. 88): “o espaço físico do laboratório fornece meios para organizar as interações entre seus habitantes humanos enquanto eles se engajam no trabalho experimental”145. 133 Essa série de questões se relaciona diretamente com um problema decisivo no estabelecimento de um programa experimental de filosofia natural: o caráter público desse conhecimento. “O pouco que sabemos sobre os espaços experimentais ingleses em meados do século dezessete indica que o seu status como público ou privado era intensamente debatido” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 335)146. Esses debates estavam no centro da controvérsia entre Hobbes e Boyle e do sucesso na sua resolução dependeria o sucesso de toda nova “forma de vida experimental”. As operações retóricas e sociais necessárias a essa solução eram extremamente sofisticadas e dependiam de múltiplos recursos. Embora a dimensão pública da filosofia experimental fosse ponto chave para a própria legitimidade desse conhecimento da forma como o entendiam Robert Boyle e os fundadores da Royal Society, a “solitude” e a reclusão (provavelmente seria anacrônico falar em privacidade antes da segunda metade do século XVIII) eram valores necessários à prática naturalista. Equacionar essas atitudes se tornou um dos pontos principais da construção desses espaços (físicos ou sociais), muito do trabalho de construção de fronteiras se dedicava a refinar essas noções e superar o paradoxo entre público e privado. Para Schaffer e Shapin essa é também uma questão extremamente relevante. “Um modo de assegurar a multiplicação de testemunhas era realizar experimentos em um espaço social. O ‘laboratório’ experimental era contrastado com o gabinete do alquimista precisamente por que do primeiro se dizia ser um espaço público e o último privado” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 57)147. Em uma passagem mais extensa, os autores tentam definir o laboratório e as controvérsias em torno do seu caráter. O espaço onde essas máquinas trabalhavam – o laboratório nascente – deveria ser um espaço público, mas um espaço público restrito, algo que críticos como Hobbes logo apontaram. Se alguém desejasse produzir conhecimento experimental autenticado – matters of fact – deveria vir a esse espaço e trabalhar aqui com outros. Se alguém desejasse ver novos fenômenos criados por essas máquinas, deveria vir a esse espaço e vêlos com outros. Os fenômenos não estavam em exibição em qualquer outro lugar. O laboratório era, portanto, um espaço disciplinado, onde práticas experimentais, discursivas e sociais 145 No original: “the physical space of the laboratory provides means for organizing the interactions among its human inhabitants as they engage in experimental work”. Tradução minha. 146 No original: “What little we do know about English experimental spaces in the middle part of the seventeenth century indicates that their status as public or private was intensely debated”. Tradução minha. 147 No original: “In experimental practice one way of securing the multiplication of witness was to perform experiments in a social space. The experimental ‘laboratory’ was contrasted to the alchemist’s closet precisely in that the former was said to be a public and the latter a private space”. Tradução minha. 134 eram coletivamente controladas por membros competentes. Nesses aspectos, o laboratório experimental era um local melhor para gerar conhecimento autêntico do que o espaço externo no qual simples observações da natureza poderiam ser feitas (SCHAFFER e SHAPIN, p. 39)148. Dessa maneira, a tensão entre interno e externo parece ter sido deslocada para a disputa sobre o caráter da prática científica: público ou privado. Para falar como Fleck (embora a analogia não seja completamente adequada), diríamos que se trata de um jogo entre circuitos “esotéricos” e “exotéricos”. Não se trata de dentro ou fora da ciência – conteúdo ou contexto –, mas de uma ciência praticada dentro ou fora da sociedade, de um conhecimento produzido em locais sociais e físicos especialmente destinados, desenhados, protegidos, patrulhados para esse fim. Um conhecimento situado nos seus locais culturais de produção, coagido pelos arranjos que eles permitem e legitimam. Agora que sabemos como pertencer à comunidade e adentrar o laboratório, podemos ter acesso às máquinas. Neste caso, realizar experimentos na bomba de ar149. Como já indiquei acima, esse ponto adquire importância crucial no texto de Schaffer e Shapin. A bomba de ar corporifica a filosofia natural da forma como era praticada e professada por Robert Boyle e seus colegas. Discutindo o papel da máquina como um signo poderoso para aquele grupo, os autores examinam dois aspectos em especial. Em primeiro lugar, a necessidade expressada por experimentalistas de que outros experimentos e dispositivos ocupassem o lugar da bomba de ar quando ela já não conseguisse mais atrair a atenção do público. Um tema relacionado à teatralidade envolvida no processo de experimentação pública e aos efeitos dessa teatralidade nas tecnologias sociais, na manutenção das testemunhas necessárias à legitimação do saber ali produzido. A escolha do que exibir dependia de uma equação que havia de ser resolvida. De um lado, a satisfação de uma espécie de audiência que não fazia parte da 148No original: “The space where these machines worked – the nascent laboratory – was to be a public space, but a restricted public space, as critics like Hobbes were soon to point out. If one wanted to produce authenticated experimental knowledge – matters of fact – one had to come to this space and to work in it with others. If one wanted to see the new phenomena created by these machines, one had to come to that space and see them with others. The phenomena were not on show anywhere at all. The laboratory was, therefore, a disciplined space, where experimental, discursive, and social practices were collectively controlled by competent members. In these respects, the experimental laboratory was a better space in which to generate authentic knowledge than the space outside it in which simple observations of natures could be made”. Tradução minha. 149 A operação efetiva dos instrumentos era realizada por “técnicos invisíveis”. Em artigo posterior à publicação do Leviathan, Shapin (2013b, p. 80, grifo no original) explica: “Em sua maioria, contudo, a legião de ‘técnicos de laboratório’, ‘operadores’, ‘assistentes’ e ‘técnicosquímicos’ de Boyle eram atores invisíveis. Eles não faziam parte do público que dizia respeito a esses experimentos. Eles faziam com que as máquinas funcionassem, mas não podiam produzir conhecimento”. 135 comunidade experimentalista, mas enquadravase nos requisitos sociais e morais para participar do público do laboratório. Esse público era alimentado com novidades e espetáculos, não estava diretamente interessado na repetição exaustiva. De outro lado, as exibições deveriam ser instrutivas, sóbrias e filosoficamente relevantes. Adequadas à tarefa que desempenhavam. Elas deveriam expressar a identidade e os valores da comunidade, retratar as suas formas de conduta, de sociabilidade, sua existência como um ente (coletivo) específico no corpo social, seu lugar na hierarquia da produção do conhecimento150. Para construir essa audiência, eles precisavam domesticála, não se submeter às suas vontades. A bomba de ar conseguiu manter juntos os interesses em conflito, poissatisfazia a ambos. “Nenhum equipamento novo tomou o lugar da machina Boyleana como um emblema do programa experimental da Royal Society” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 32). O segundo aspecto é a exploração da fortuna iconográfica sobre a bomba de ar. As gravações e desenhos que exibem o aparelho são os pontos de interseção entre tecnologias materiais e literárias, o ponto onde máquina e discurso se confundem. Deslocando a perspectiva da questão, podemos dizer que é onde a distinção entre máquina e discurso não faz sentido. A intrincada configuração de figuras mitológicas, objetos filosóficos, olhares, gestos e disposição espacial dos elementos seguia um repertório que deveria ser compartilhado pelos experimentalistas (e pela cultura erudita em geral). A construção codificada das imagens que aparecem nas obras de filosofia natural desempenhavam um papel disciplinar. Elas não são meras ilustrações, são objetos constitutivos de uma forma específica de produzir e comunicar o conhecimento. As representações iconográficas da bomba de ar (e de outros elementos desse programa), a difusão dos seus modos de funcionamento e dos seus resultados em imagens detalhadas, garantiam a ampliação das testemunhas virtuais necessárias à legitimação desse saber, criavam uma camada mais distante de público. Um público que não tem acesso ao interior do laboratório, mas que deve ser convencido do seu poder por meios retóricos e pictóricos. A imagem da bomba de ar é poderosa, captura esse movimento complexo. A descrição detalhada da máquina era um recurso literário central para a estratégia de Boyle e é parcialmente reconstituído no Leviathan151. Não considero 150 Steven Shapin (2013b) brinca com o trocadilho entre pump (bomba) e pomp (pompa) para assinalar essa correlação. 136 necessário repetir essa descrição para explorar a estratégia historiográfica dos autores, embora devamos notar alguns pontos relevantes. A bomba de ar era um aparelho composto de um globo de vidro assentado sobre um suporte que continha pistões, alavancas, cilindros, registros, válvulas e diversos componentes que permitiam bombear o ar para fora do globo (e por meio dos quais a bomba poderia vazar, emperrar ou apresentar funcionamento deficiente). A evacuação da bomba servia prioritariamente para testar a natureza do ar (peso, elasticidade etc). Possibilitava também discussões sobre a existência do vácuo, sobre o éter, a composição da atmosfera. Na bomba de ar cabiam quase todas as questões da filosofia natural do século XVII. De dentro dela saia o principal fundamento da nova forma de produção de conhecimento científico, da nova “forma de vida experimental”. Além dos experimentos oriundos da própria operação da bomba, era possível realizar outros experimentos dentro do globo (como os testes com o mercúrio de Torricelli). As tarefas de construção e operação da bomba de ar eram consideradas extremamente complicadas, caras e delicadas. De forma sintética, três fatores justificavam a contínua preocupação com essa atividade árdua: “(1) que tanto a integridade do mecanismo quanto a seu vazamento limitado eram recursos importantes para Boyle na validação de suas descobertas pneumáticas e a interpretação apropriada destas; (2) que a integridade física da máquina era vital para a percepção de integridade do conhecimento que a máquina ajudava a produzir; (3) que a sua falta de integridade física era uma estratégia usada por críticos, particularmente Hobbes, para desconstruir as alegações de Boyle e substituílas por relatos alternativos” (SCHAFFER e SHAPIN, 30)152. A bomba de ar fornece também espessura e materialidade à história que os autores querem contar. Ela resume a categoria de tecnologia material, que participa ativamente na construção de um dos principais argumentos do livro. A solução dramática encontrada pelos autores é deslocar os fatos científicos para fora da natureza, situandoos como artifícios, produtos dessas séries de dispositivos, dessas três tecnologias (material, social e literária). “Ao usar tecnologia 151 Um trecho da descrição presente no Capítulo 2 do Leviathan (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, pp. 26 30) aparece em português na tradução do artigo de Steven Shapin (2013b, pp. 9394) que deu origem ao referido capítulo do livro. 152 No original: “(1) that both the engine’s integrity and its limited leakage were important resources for Boyle in validating his pneumatic findings and their proper interpretation; (2) that the physical integrity of the machine was vital to the perceived integrity of the knowledge the machine helped to produce; (3) that the lack of its physical integrity was a strategy used by critics, particularly Hobbes, to deconstruct Boyle’s claims and to substitute alternative accounts”. Tradução minha. 137 para se referir às práticas literárias e sociais, bem como a máquinas, nós desejamos enfatizar que todas as três são ferramentas de produção de conhecimento” (SHCAFFER e SHAPIN, 2011, p. 25, n. 4)153. A seguinte citação, embora extensa, elucida essa questão. Apesar da utilidade de distinguir as três tecnologias empregadas na produção de fatos, não devemos ter a impressão de que estamos lidando com categorias distintas: cada uma delas incorpora as outras. Como veremos, as práticas experimentais que empregam a tecnologia material da bomba de ar cristalizaram formas específicas de organização social; essas formas sociais valorizadas eram dramatizadas na exposição literária de descobertas experimentais; o relato literário das performances da bomba de ar estendiam uma experiência que era considerada essencial à propagação da tecnologia material ou mesmo como um substituto válido para o testemunho direto da exibição experimental. Se quisermos entender como Boyle trabalhou para construir fatos pneumáticos devemos considerar como cada uma das três tecnologias eram usadas e como elas se interpenetravam (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, pp. 2526)154. Do recurso às tecnologias decorre a organização do enredo e a composição da estrutura narrativa. O fato científico, produto dessas atividades, não é uma apenas uma lei geral ou uma entidade. Ele é um artifício, uma peça em um jogo de linguagem. No entanto, para que a operação funcione ele precisa ser autonomizado, isolado das suas formas de produção. Deve apagar os traços de sua construção e se assemelhar a uma evidência. Afinal, contra fatos não há argumentos. “Cada uma das três tecnologias de Boyle trabalhavam para alcançar a aparência dos fatos científicos como itens dados. Quer dizer, cada tecnologia funcionava como um recurso de objetivação. [...] A objetividade do fato científico experimental era um artefato de certas formas de discurso e certos modos de solidariedade social” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, pp. 7778). Os fatos são externos às vontades, interesses e limitações humanas. Quando o aparato experimental opera corretamente, eles provêm da própria natureza, sem interferências. 153 No original: “By using technology to refer to literary and social practices, as well as to machines, we wish to stress that all three are knowledgeproducing tools”. Tradução minha. 154 No original: “Despite the utility of distinguishing the three technologies employed in factmaking, the impression should not be given that we are dealing with distinct categories: each embedded the others. As we shall see, experimental practices employing the material technology of the airpump crystallized specificcomprometida com esses debates. A sociologia de Robert Merton será a matriz da segunda vertente de externalismo abordada no capítulo. Formulada nos EUA no final dos anos 1930 e exerceu domínio na sociologia das ciências até os anos 1960 e influenciou decisivamente a história das ciências no período. Essa abordagem ofereceu resistência ao marxismo e à sociologia do conhecimento teutônica das primeiras décadas do século passado. A partir de uma perspectiva funcionalista e inspirada em Weber, o externalismo mertoniano restringiu o acesso de qualquer elemento externo ao interior do conhecimento científico, que permaneceria autônomo. As famosas normas mertonianas, que formavam o ethos do cientista, serviam para organizar socialmente a pesquisa, não tendo qualquer interferência no resultado cognitivo daquilo que era produzido. A avaliação do internalismo e do externalismo realizada nesses dois capítulos será vinculada a outras disputas, em especial à tensão entre liberalismo e socialismo (sem que uma se reduza à outra). Pretendo aqui mostrar a formação clássica da querela. A Parte II aborda o aspecto mais original dessa pesquisa. Nela, ressalto a sobrevivência e as transformações das dimensões interna e externa na nova historiografia. Essas transformações ocorrem em contato com um novo modo de produção do conhecimento científico e com um novo ambiente social, econômico e político no qual as críticas à ciência vão crescer na mesma medida em que cresce a sua importância. No Capítulo 3, trato do surgimento de uma “tradição kuhniana” na história das ciências. Para isso, será preciso realizar uma leitura da principal obra de Thomas 17 Kuhn, A estrutura das revoluções científicas, e de algumas das suas apropriações. O texto de Kuhn será lido a partir de dois aspectos principais. Um desses aspectos é a vinculação da teoria da ciência elaborada por Kuhn ao complexo industrialmilitar científico que caracterizou a Big Science no pósguerra (em especial nos EUA). A autonomia garantida à comunidade científica será o elo entre essas duas esferas. O segundo aspecto será a alegada superação da disputa entre internalismo e externalismo realizada por Thomas Kuhn. A dialética entre “ciência normal” e “ciência revolucionária” será avaliada como uma espécie de combinação entre momentos internalistas (embora a noção de paradigma seja mais ampla que a de teoria) e momentos externalistas, de abertura para a confluência de fatores extracientíficos que ajudam a forjar um novo paradigma. Em seguida, tento avaliar a apropriação da obra de Kuhn pela sociologia e pela história das ciências das décadas de 1970 e 1980. Uma apropriação que não se dá pela replicação de um modelo, mas pela adesão a certos insights sociológicos presentes na abordagem kuhniana que fez com que a ideia de atribuir “um papel para a história” na explicação do desenvolvimento da ciência se tornasse um dos princípios da historiografia que emerge no final da década de 1970. No Capítulo 4, a análise será centrada no livro de Steven Shapin e Simon Schaffer, Leviathan and the air pump. Esse livro, publicado originalmente em 1985, foi escolhido pela sua importância para o desenvolvimento da historiografia e pela sua preocupação explícita com a superação da divisão das causas explicativas das mudanças nas ciências em internas e externas, uma das tônicas da produção do período que viu a ascensão meteórica dos science studies ao posto de fonte prioritária de análises das ciências. O sucesso do Leviathan em um momento de profundas transformações na historiografia das ciências – mudanças para as quais colaborou diretamente – será comparado com as transformações no modo de produção de conhecimento científico e suas relações com o Estado em um período de ascensão do modelo neoliberal. Pretendo retomar algumas injunções que marcam o período e conformam a história das ciências: a hegemonia dos science studies, o fim da polarização geopolítica e ideológica do período da Guerra Fria e a consolidação do capitalismo em escala global (e suas implicações para a relação entre ciência e Estado). Ao contar a história da emergência da ciência moderna no século XVIII através de uma série de tecnologias (social, material, literária), os autores acionam dispositivos discursivos similares aos que são utilizados para explicar a tecnociência, a fusão entre ciência, tecnologia, economia e 18 governamentabilidade típica do final do século XX. Aproximam duas temporalidades distintas e usam o presente como chave de compreensão do passado. Assim, ao abordar período marcado pela consolidação da nova historiografia e pelo fim do pacto representado pela obra de Kuhn, o capítulo deverá ressaltar como as abordagens surgidas nos anos 1980 se apropriam da história das ciências e a reconfiguram. O quinto capítulo deverá avançar em direção a um período ainda mais recente. Avança para a última década do século XX e avalia o peso que a “ressaca” que as Guerras da Ciência produziram na escrita da história das ciências depois da euforia epistemológica advinda das décadas de 1970 e 1980. O acirramento dos debates e a seriedade das acusações dirigidas aos pressupostos que guiavam a nova historiografia das ciências gerou um momento de reflexão, uma crise interna, uma suspeita em torno dos fundamentos que legitimavam as abordagens mais influentes. Em face das transformações produzidas nesse cenário, qual o destino dos fatores internos e externos? A resposta será buscada através da análise de outra obra considerada relevante: Objectivity, de Lorraine Daston e Peter Galison. Esse livro, publicado já na segunda metade da década de 2000, será o fio que conduzirá na jornada por essa complexa trama, chegando por fim a uma visão das coordenadas historiográficas que localizam a atual produção da história das ciências. Nesse capítulo, a questão da historicidade do conhecimento científico será avaliada a partir das opções teóricas e narrativas que informam o Objectivity. Por se tratar de uma obra muito recente, o seu exame será feito a partir de uma perspectiva um pouco diferente daquela presente nos capítulos anteriores. Ainda não sabemos os desdobramentos que ela produzirá, ainda não é possível medir plenamente o seu impacto. A hipótese que sustento é que o livro marca o fim de uma maneira de escrever a história das ciências. Isso terá reflexos na forma como os fenômenos internos e externos aparecem e se relacionam. Poderíamos colocar o problema da seguinte maneira: se a historiografia das ciências obteve finalmente sucesso em incorporarse à historiografia tout court, a discussão sobre a demarcação pode ser abandonada, não faz mais sentido falar em fatores internos e externos. A ciência é compreendida como uma expressão cultural completamente imersa no tecido social. Ao examinar diversas soluções para a questão da historicidade do conhecimento científico experimentadas ao longo do século XX, não pretendo escrever uma história teleológica da gradual incorporação das ciências ao campo dos objetos da história 19 através da evolução das técnicas de análise dos historiadores das ciências, progressivamente libertados da visão de uma ciência ahistórica, abstraída da corrosão da temporalidade pelas mãos da lógica e da racionalidadeforms of social organizations; these valued social forms were dramatized in the literary exposition of experimental findings; the literary reporting of airpump performances extended an experience that was regarded as essential to the propagation of the material technology or even as a valid substitute for direct witness of experimental display. If we wish to understand how Boyle worked to construct pneumatic facts we must consider how each of the three technologies was used and how each bore upon the others”. Tradução minha. 138 A comunidade, o laboratório e a bomba de ar são apenas meios transparentes para carregar um item de conhecimento ao longo de diversos circuitos sociais. Mas os autores não se contentam em dissecar a natureza convencional desse processo, em apontar – por meio do estudo das dificuldades na circulação da bomba de ar e na replicação dos experimentos – para a dimensão radicalmente local desse conhecimento, em demonstrar que “o fato é uma categoria constitutivamente social” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 225). Adotando esse tratamento para as diversas operações de Boyle e os experimentalistas, os autores apontam para uma nova forma de encarar historicamente a ciência. Podemos realizar uma leitura que encontra paralelos com a interpretação de Paul Forman (2007), que demarca a passagem da Modernidade para a pósmodernidade a partir inversão da relação de proeminência entre a ciência e a tecnologia. Se, na Modernidade, argumenta Forman, a ciência incluía também a tecnologia, na pósmodernidade a tecnologia inclui a ciência. A história do surgimento da “forma de vida experimental” e do triunfo da ciência moderna no século XVII é recontada como um processo de reconfiguração permanente de fatores disponíveis socialmente e postos em funcionamento para novos propósitos. A produção de dispositivos sociotécnicos não é uma mutação da ciência contemporânea. É o fruto de um processo que define a ciência moderna, desde a sua emergência, como tecnociência. As duas camadas de temporalidade – uma situada em meados do século XVII e a outra no final do século XX – se superpõe. A nova historiografia das ciências reconstrói o passado e apresenta uma solução diferente para os temas contemporâneos. É claro que o fato científico é o fundamento do conhecimento, mas não porque ele é “neutro” ou independente de “questões sociais”. Pelo contrário, ele inventa o contexto, o conteúdo e a demarcação entre os dois no mesmo processo. Ele fundamenta o conhecimento porque se converte em uma unidade de sentido histórico e social. Apesar de se valer do princípio de simetria para explicar a disputa entre dois modelos de filosofia natural, o livro (se) encerra (com) um juízo de valor: “Hobbes was right” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 344). Não em sua filosofia natural, mas em sua teoria das ciências. A vitória da ontologia proposta pelos experimentalistas (e da epistemologia a ela associada) não resulta da maior capacidade desse programa em produzir conhecimento verdadeiro, mas do seu sucesso em produzir consensos sociais em torno dos itens de conhecimento e das formas de organizálos. 139 Nem o nosso conhecimento científico, nem a constituição da nossa sociedade, nem as afirmações tradicionais sobre as conexões entre a nossa sociedade e o nosso conhecimento são mais dadas como certas. A medida que reconhecemos o status convencional e artefatual das nossas formas de conhecimento, nos colocamos em posição de perceber que os responsáveis por aquilo que sabemos somos nós e não a realidade (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 344, grifo meu)155 . A cisão entre o “externo” e o “interno” é reposicionada, saindo do campo da realidade social para o campo das convenções culturais. O vocabulário da demarcação é herdeiro da tradição fundadora da ciência moderna e só faz sentido nesse enquadramento. Os autores refletem sobre a sua posição a respeito dessa divisão na introdução preparada para a edição comemorativa de vinte e cinco anos de lançamento do livro. Afirmam a sua insatisfação com o debate entre “fatores internos” e “fatores externos” e procuram a solução justamente na problematização das fronteiras. Identificam o problema nas clivagens ideológicas que dominaram o clima cultural do século XX (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, pp. xiiixvii). Assim, o que eles pretendem mostrar como saída não é uma tentativa de combinar as abordagens, mas uma forma de superálas, mostrandoas como efeito de um processo histórico. Na narrativa do Leviathan, os fatores internos e externos são tratados como objetos históricos e não categorias historiográficas. Ao atacar a tradicional agenda de pesquisa da historiografia das ciências – uma agenda que já não possuía o mesmo poder de coerção desde Thomas Kuhn – os novos historiadores supõem reconfigurar grande parte do aparato conceitual que utilizamos para entender a ciência. Esse movimento desloca as funções sociais e políticas da história das ciências: a nova historiografia contesta frontalmente o espaço de ação política das ciências. As correlações de força envolvidas na produção dessas fronteiras são focalizadas e cruelmente exibidas como meras formas institucionalizadas de falar sobre o saber e de praticar a ciência. O modo encontrado para escapar dessas convenções foi seguir o princípio de simetria – não atribuindo ao conhecimento vitorioso nenhum privilégio epistemológico, nenhum posto superior na hierarquia dos saberes. Não existe triunfo da verdade ou marcha do progresso, existem formas de 155 No original: “Neither our scientific knowledge, nor the constitution of our society, nor traditional statements about the connections between our society and our knowledge are taken for granted any longer. As we come to recognize the conventional and artifactual status of our forms of knowing, we put ourselves in a position to realize that it is ourselves and not reality that is responsible for what we know”. Tradução minha. 140 conhecimento que se estabilizam e se cristalizam ao arregimentar recursos sociais e materiais. A simetria e as suas implicações filosóficas, historiográficas e políticas foram duramente combatidas. A pressuposição de equilíbrio entre as visões de Hobbes e Boyle a respeito do conhecimento é um dos pontos que ofereceu mais resistência a essa forma de escrever a história das ciências. Alguns críticos sugerem uma leitura do Leviathan and the airpump que obedeça a uma “estratégia sanduíche”, que aproveite as informações que o livro fornece e despreze as interpretações e explicações que ele supostamente retira dessas informações; isto é, “omita a introdução e a conclusão, o resto é simplesmente história” (ZAMMITO, 2004, p. 169). O enorme sucesso dos science studies e da historiografia associada a eles foi surpreendido, na passagem da década de 1980 para a década de 1990, por um ataque vindo prioritariamente de cientistas naturais atentos à situação das novas análises das ciências (e extremamente insatisfeitos com essas abordagens) e filósofos comprometidos com a objetividade. Essa reação, que marca o início das Guerras da Ciência, incide como um duro golpe nessa nova proposta. Em certo sentido, ela encerra um ciclo de expansão dessas abordagens e marca o início de um período de reflexão, dissidências, metaanálises. Essa crise não fará morrer a nova historiografia dasuniversais. Pretendo que o tratamento historiográfico dado às ciências em determinado momento e por determinado autor ou grupo de autores seja entendido como produto das suas condições sócio históricas específicas. Desse modo, esta tese pretende se configurar como uma análise das formas pelas quais a história das ciências – em sua conformação disciplinar ao longo do século XX e início do XXI – forjou o seu objeto em constante tensão com o ambiente intelectual e político que estava imersa. Sem dúvida uma pretensão um tanto ambiciosa que exige um olhar panorâmico; no entanto, a opção por examinar obras específicas (especialmente na Parte II) reduz sensivelmente o alcance dos argumentos que defendo. Grande parte da historiografia das ciências produzida no período será deixada de fora do texto. Pretendo que esta tese seja (a começar pelo título) mais uma afirmação da capacidade dos argumentos de tipo histórico contribuírem para uma leitura do conhecimento científico. Uma leitura que apenas a história das ciências pode fornecer e que considero indispensável (embora não seja excludente, nem possua o monopólio da explicação) para a compreensão efetiva da atividade científica e o exercício da cidadania em tempos de sociedade do conhecimento. 20 Parte I: A ordem dos fatores 1. A centralidade da teoria Louis Pasteur morreu, em 1895, como um herói nacional francês, com direito a funeral de Estado e enterro na catedral de Notre Dame de Paris. Um ano depois da sua morte, no entanto, seus restos mortais foram transferidos para a cripta construída no subsolo da ala oeste da mansão onde residiu e onde funcionava o seu famoso laboratório3. Esse aposento fornece um material extremamente relevante para compreender o imaginário sobre a ciência na Europa da segunda metade do século XIX – um imaginário que se estende às primeiras décadas do século XX. Tratase de um pequeno salão de teto abobadado, suas paredes estão cobertas com mosaicos em estilo bizantino cujas figuras narram episódios da vida do grande gênio ou objetos que simbolizam as suas conquistas científicas. Um homem segura um cão raivoso ao lado de seringas, microscópios e bactérias; à esquerda e à direta, uma lista das suas grandes realizações; no alto, três anjos exibem as virtudes teologais – “fé”, “caridade”, “esperança” – enquanto um quarto traz consigo “ciência”4. No centro desse espaço, uma tumba de mármore liso e negro guarda o corpo do Dr. Pasteur. Ao fundo, num pequeno altar, estão sepultados os corpos da sua esposa, Marie Pasteur, e de seu colaborador e sucessor, Émile Roux. Um visitante distraído poderia imaginar que se trata de um espaço religioso, um local de culto e adoração. Ali está o corpo do santo, nessas paredes, os milagres que operou em vida e os pios valores que pregava. Talvez o engano seja apenas o de identificar o catolicismo como essa religião. Pois é o progresso a religião do século XIX. É nesse século que um dos mais célebres adeptos da religião do progresso, o filósofo Auguste Comte5, propõe um programa para o estudo das sucessivas realizações do espírito humano na conquista de conhecimentos positivos, a história das ciências 3 Essa casa abriga hoje o Museu Pasteur e está localizada no centro do enorme Instituto Pasteur de Paris. O laboratório localizado no subsolo foi permanentemente modernizado e continua em funcionamento. 4Foi, charité, espérance e science, em francês. 5 É significativo dessa atitude “religiosa” que Comte seja autor do Catecismo positivista e fundador da Igreja Positivista (ou Religião da Humanidade). 21 (COMTE, 2008). O surgimento da história das ciências está ligado a essa visão de progresso. Esse primeiro período não deve ser negligenciado ou tratado meramente como uma “préhistória” da disciplina, como um momento de tentativas cegas de estabelecer linhas de investigação. Também não é necessário – para atingir os propósitos dessa tese – recuar indefinidamente em busca dos “pioneiros”, dos “precursores” ou das “origens” desse movimento. A minha intenção aqui é apontar como essa etapa lança bases que não serão abandonadas facilmente, como algumas características definidas ainda no século XIX permanecem na história das ciências praticada posteriormente. Farei isso assinalando um ponto que reaparecerá diversas vezes ao longo desse estudo, em suas várias manifestações. A história das ciências se estabelece fora da história tout court. Esse aspecto será um dos traços definidores da nossa disciplina. Conquanto hoje essa característica possa desempenhar um papel extremamente benéfico ao situar a história das ciências na confluência entre diversos saberes, produzido em uma encruzilhada institucional e epistemológica e constituindose em um dos seus pontos fortes, ela representava uma das principais fontes de agitação, de críticas e tentativas de “refundação”. Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do seguinte, a história das ciências não exibia essa componente multifacetada que adquiriria ao longo da construção da sua identidade disciplinar. Algumas das limitações epistemológicas que identificamos nesse período (e que se incorporam em certas tradições dessa disciplina) estão diretamente relacionadas a essa condição. Não ignoramos que a corrente principal da historiografia no século XIX – ocupada em construir a ciência da história – certamente considerava incluir a ciência no rol das histórias que deveriam ser escritas, seguindo a recomendação feita por Francis Bacon no começo do século XVII (KOSELLECK, 2013, p. 187). No entanto, os historiadores profissionais deram pouca atenção ao tema, se é que deram alguma. Essa “história de historiadores ausentes” – na expressão do professor Carlos Maia (2013) – foi uma criação de filósofos. Comte, na França, e William Whewell, na Inglaterra, são os nomes tradicionalmente associados a essa fase6. Este último foi suficientemente claro ao afirmar que não se trata de “uma simples narração dos fatos da história da Ciência, mas [de] uma base para a Filosofia da Ciência” (WHEWELL, 1875, p. 8)7. Ela não é um fim em si mesma. Claro que o campo da filosofia é grande o 6 Não custa lembrar que foi Whewell que cunhou o termo scientist, em 1833. O surgimento “tardio” dessa palavra aponta para a efetiva centralidade da ciência na vida cultural e intelectual moderna como um fenômeno do século XIX. 22 suficiente para admitir posturas diversas, às vezes opostas e irreconciliáveis. Seria útil perguntar que tipo de filosofia engendra a história das ciências. De maneira geral, esses sistemas filosóficos possuíam um compromisso com a ciência que será transferido para a história das ciências. Ela existe em função do seu objeto. Sobre isso, Paul Tannery escreve em 1904: Na vida da humanidade, a ciência desempenha doravante um tal papel que sua história merece evidentemente ser estudada e ensinada da mesma maneira que o são, por exemplo, a história da arte ou aquela da literatura. A evolução de um modo especial da atividade do espírito humano não pode, com efeito, ser negligenciada visàvis outras, considerando que esse modo foi, desde a origem, um dos fatores essenciais para o progresso da civilização. (TANNERY, 2008, p. 67)8. Essas duas marcas de nascença, autonomia em relação à comunidade dos historiadores profissionais e compromisso com a ciência, ecoarão por muito tempo. Como resume Carlos Alvarez Maia, apontando para a conexão constitutivaentre elas: Em linhas gerais, o distanciamento disciplinar da história das ciências do continente História ocorreu graças a uma contaminação sofrida por sua proximidade com as ciências historiadas. E esse contágio propagado pelas ciências naturais contamina também a disciplina história, porém produzindo um movimento na direção oposta. Se, por um lado, a história das ciências aproximase das ciências e incorpora os seus mitos, por outro lado, a história afastase dessas ciências, e o faz incorporando também os mesmos mitos. [...] O resultado dessa incorporação da mitologia cientifista é que a história não toma para si as ciências naturais por considerálas como nãohistóricas (MAIA, 2013, p. 12). Se tanto historiadores das ciências quanto historiadores tout court colaboraram para a ausência da historicidade no estudo das ciências (por respeito à metafísica cientificista), não seria suficiente (nem, talvez, necessário) ela ser praticada por historiadores. É necessário um abalo nessa metafísica para possibilitar o surgimento de uma “história histórica das ciências” e para o seu alojamento na historiografia profissional. A possibilidade de conferir historicidade às ciências não foi sempre uma preocupação para seus historiadores, ela surge em um momento específico e sofre diversas transformações (CONDÉ, 2015). O exame desse processo mostra como a história das ciências participa ativamente na construção das condições históricas que 7 No original: “not merely a narration of the facts in the history of Science, but a basis for the Philosophy of Science”. Tradução minha. 8 No original: “Dans la vie de l’humanité, les sciences jouent desórmais un tel rôle que leur histoire mérite évidemment d’être étudiée et ensignée au même titre que le sont, par example, l’histoire de l’art ou celle de la littérature. L’évolution d’un mode spécial de l’activité de l’esprit humain ne peut, en effet, être négligée visàvis dês autres, alors que ce mode a été, dês l’origine, un des facteurs essentiels du progrès vers la civilisation”. Tradução minha. 23 permitem o seu exercício pleno, pelo menos de acordo com as formas que hoje aceitamos coletivamente como os critérios de pertencimento ao campo. Mas ela não realiza esse movimento sozinha, se insere em uma textura social complexa na qual a historicidade da ciência emerge como fenômeno. As condições para a ocorrência desse processo só terão lugar a partir dos anos 1970, como tentarei mostrar na Parte II desta tese. Mas não anteciparei essa história. Por enquanto, retomarei o fio da historiografia, enfocando o primeiro movimento bem sucedido de institucionalização e disciplinarização da história das ciências, que ocorre por volta da Primeira Guerra Mundial9. George Sarton, que foi o seu primeiro personagem de destaque, via na história da ciência (e, nesse caso, o uso do singular é fundamental) a história de toda a humanidade, uma história cujo escopo cronológico e geográfico se estendia quase indefinidamente por todas as eras e civilizações. Principalmente, seguindo a filosofia positiva de Auguste Comte, identificava a história das ciências com o progresso da humanidade; a ciência seria o mais poderoso fator de evolução humana10. E estabeleceu para ela um programa que priorizava o conteúdo cognitivo11. Nos Estados Unidos em 1915, por exemplo, a história das ciências era uma atividade regular, embora não constituísse propriamente uma disciplina acadêmica. Já existiam nesse país pelo menos 176 cursos nessa área, espalhados em 113 instituições. Em sua grande maioria, se tratavam de cursos sobre ciências particulares, ministrados por cientistas amadores no campo da história e voltados para a formação dos novos membros de determinada especialidade (MERTON e THACKRAY, 1972, p. 483). O que faltava, lá como em todo lugar nessa época, era um esforço de sistematização desse conhecimento e de profissionalização dessa atividade. Coube a Sarton levar essa tarefa adiante. O propósito dessa história é o de investigar os fatos e ideias científicas, retraçar o progresso da mente humana (SARTON, 1948, pp. 2955). Ao mesmo tempo em que enfatizava a humanidade como personagem, seu foco estava nos “grandes heróis”, nos gênios, homens à frente do seu tempo, cujos sacrifícios serviram ao avanço da civilização (SARTON, 1918, p. 197). É significativo que, para Sarton, a Introdução aos 9 Não podemos esquecer a criação de uma cátedra de Histoire Générale des Sciences no Collège de France, em 1892 (LAFFITTE, 2008). 10 Para Sarton, seria Comte o fundador da história das ciências e o que primeiro forneceu à expressão uma “conception claire et précise, sinon complète” (SARTON, 1913, p. 9). 11 Apesar de ser, por vezes, considerado um representante da vertente externalista. Cf. MARKOVA, 1977, p. 21. 24 estudos históricos de Langlois e Seignobos, representantes máximos da escola metódica na França, figure entre os grandes tratados sobre o método histórico (SARTON, 1952, p. 72). De outra parte, Sarton (1948, pp. 3240) não hesitava em ressaltar o aspecto “orgânico” do desenvolvimento da ciência, querendo com isso dizer que as interações contínuas entre a ciência e a arte, a tecnologia, a religião, o direito, a política e a indústria produziam influências recíprocas. Apesar disso, insistia ao historiador das ciências que “o objetivo do seu trabalho é essencialmente estabelecer as conexões entre as ideias científicas” (SARTON, 1948, p. 33)12. Ainda em 1919, na revista Isis, da qual é o fundador, o historiador belga escreveu uma espécie de apelo ao mundo do pósguerra no qual a história das ciências ocupava um papel fundamental. É nessa disciplina que se baseava sua proposta de um “Novo Humanismo”, na medida em que a ela poderia proporcionar uma mistura entre o “espírito histórico” e o “espírito científico”, entre vida e conhecimento, entre beleza e verdade (SARTON, 1919, p. 319). A história das ciências, nesse texto emblemático que é War and civilization, seria uma das curas para o abatimento moral e o ceticismo provocados pela guerra. Ao ressaltar a neutralidade da ciência através do exame da sua história, poderíamos livrála da acusação de crimes de guerra e atribuir essa responsabilidade à sociedade. Poderíamos também retomar a história da civilização em seus momentos mais elevados, aqueles das grandes realizações científicas. Por fim, o alegado espírito da troca livre e desinteressada da ciência, da colaboração internacional em busca da verdade independentemente das colorações políticas, cabia na imagem de um mundo que buscava reconciliação e reconstrução (SARTON, 1919). Ao compartilhar certa concepção de ciência e fazer a sua história, Sarton se integrava em um projeto intelectual em curso, mas também mirava o futuro. Ao incorporar toda a civilização em um grande encadeamento intelectual progressivo, em um esforço coletivo de buscar a verdade que superava as divisões étnicas, nacionais e políticas e as integrava (sem, contudo, apagálas), essa história das ciências projetava um futuro diferente do mundo despedaçado e em conflito que havia atingido o seu ápice na Primeira Guerra Mundial (ou assim parecia, antes do profundo trauma que seria a Segunda Grande Guerra). 12 No original: “the aim of his work is essentially to establish the connecting links between scientific ideas”. Tradução minha. 25 O maior esforço de George Sarton, contudo, não foi o de fundar um estilo de escritada história das ciências, mas o de inaugurar propriamente uma disciplina. Ele forneceu uma identidade profissional e cognitiva para o campo (MERTON e THACKRAY, 1972). Criou as instituições, as carreiras, os temas de pesquisa, as ferramentas intelectuais. Imaginou uma função social e intelectual para a sua empreitada. Foi um incansável propagandista da causa da história das ciências. Paradoxalmente, falhou em fazer com o que o seu programa de pesquisa fosse levado adiante. Não deixou seguidores ou criou uma “escola”13. Seu legado foi o de criar um ambiente para o desenvolvimento da história das ciências, especialmente nos EUA. O surgimento dessa disciplina na paisagem de divisão intelectual do trabalho relacionase à vertiginosa ascensão da ciência ao posto de fundamento máximo da Modernidade Ocidental, que ocorre entre meados do século XIX e início do século XX e da qual emana a euforia epistemológica e o cientificismo que marcam algumas das mais relevantes investigações sobre a ciência no período14. À história das ciências cabia, assim, legitimar o papel central desempenhado pela ciência, identificála com o progresso e com o que há de mais fundamental e precioso no projeto de Modernidade do Ocidente. Um tipo de legitimação diferente daquele desempenhado pela filosofia, que estava, nesse momento, empenhada em dissecar a linguagem da ciência e depurála da metafísica através da análise lógica dos enunciados científicos, em busca de um fundamento filosoficamente rigoroso para o conhecimento científico. A história das ciências recorre à forma narrativa para relatar a trajetória épica dos heróis do saber, os grandes homens, responsáveis por conduzir a tocha do progresso e afastar a escuridão. Ela “internalizou os valores e reproduziu os ideais metafísicos dessas ciências” (MAIA, 2013, p. 13). Se a história é responsável por, entre outras coisas, forjar subjetividades, construir a identidade dos homens e mulheres em relação à temporalidade, a história das 13 Na sua famosa entrevista, Thomas Kuhn relata o isolamento de Sarton em Harvard e o modo como ele afastava qualquer interessado em pesquisar a história das ciências, exigindo um grau de erudição absurdamente elevado, uma disciplina férrea e um compromisso monástico. 14 Sentimento semelhante pode ser identificado também em relação às realizações técnicas (e tecnológicas) do período. As profundas transformações decorrentes do mundo industrial afetam todas as áreas da vida. Os diversos relatos de observadores e pensadores da época sobre as incríveis mudanças nas comunicações e nos transportes, cujo emblema é o sistema de ferrovias em rápida expansão por todo o mundo ocidental, estão quase sempre impregnados de “excitação, autoconfiança e orgulho” (HOBSBAWM, 2005, p. 97). Não foi à toa que a locomotiva se tornou um dos símbolos do progresso. Mesmo críticos desse projeto de modernidade, como Marx e Engels, não deixaram de reconhecer os espantosos progressos da “civilização burguesa”. Esse movimento arrastou também os Estados europeus, que investiam na construção de obras faraônicas na área de infraestrutura, embora com implicações diferentes daquelas que avaliamos aqui para a Política de Ciência e Tecnologia. 26 ciências não escapa a esta sina. Ela seleciona um determinado aspecto da identidade coletiva no tempo, a relação com o conhecimento científico, e constrói daí a sua identidade. Simultaneamente, esse processo de afirmação, legitimação e cristalização da posição epistemologicamente privilegiada da ciência, “coincide” com a expansão de sistemas baseados na ciência no interior dos Estados nacionais. Justamente por essa época começa a se configurar um movimento que buscava instaurar um novo pacto entre ciência e Estado. Inaugurase um processo de construção da Política de Ciência e Tecnologia como parte das obrigações inegociáveis do Estado, processo que se aceleraria enormemente após o fim da Segunda Guerra Mundial. A prevalência de dois modelos ideais e opostos de escrita da história das ciências é uma característica que dominou a paisagem intelectual desse campo disciplinar entre as décadas de 1930 e 1970. Esses dois modelos, internalismo e externalismo, travaram uma intensa disputa na qual colocavam em questão as condições que tornavam possíveis uma narrativa histórica sobre as ciências. Ao iniciado no ofício, cabia posicionarse em um dos lados da disputa. Nesse período, parecia bastante evidente aquilo que pertencia ao âmbito interno das ciências e aquilo que se chamava de externo. O “lado de dentro” das ciências seria composto por pensamento e ideias, teorias e teoremas, fórmulas e conceitos, hipóteses e leis, resultados experimentais. Em suma, o conteúdo cognitivo. Do “lado de fora”, por sua vez, fariam parte as instituições de pesquisa, as agências de fomento e o suporte material no qual o conteúdo se expressa (periódicos especializados, livros), as comunidades científicas e suas normas, as formas de sociabilidade e comunicação dos resultados; mas também a estrutura econômica e social, os regimes políticos, a cultura, a religião, as artes. Em uma palavra, o contexto. Para interpretar algumas das marcas distintivas da identidade disciplinar da história das ciências na primeira metade do século XX, quero destacar aqui a sua relação com esse projeto global para a ciência. Quero conectar as práticas intelectuais desses historiadores ao conjunto de práticas sociais em relação às ciências. Para tanto, é preciso dar um passo arriscado – que poderia cair na perspectiva assimétrica que tanto evito – e recolocar algumas questões estratégicas. O que se ganha com a concepção que emerge do internalismo? Quem se beneficia do externalismo? Que modelos de pacto 27 entre ciência e Estado são construídos, sancionados, reforçados e que modelos são criticados e denunciados pela história das ciências de uma ou de outra matriz? Não se trata de uma simples redução da perspectiva internalista, de uma história intelectual das ciências, aos valores do liberalismo e da lógica do mercado; ou da história social das ciências, externalista, ao socialismo e à planificação. Não se trata de perceber essas vertentes como mero verniz historiográfico de atitudes ideológicas em relação às ciências. Tratase de perceber como essas correntes emergem no interior de um campo de possibilidades específico, como elas são fruto de configurações sócio históricas que as determinam e com a qual estabelecem variadas formas de relação, que podem ser de reforço ou de contestação. Para isso, é preciso apontar para os principais traços que caracterizavam a relação entre a ciência e o Estado nas primeiras décadas do século XX de modo a conectála a esse projeto global para as ciências do qual a historiografia das ciências também faz parte. No período anterior à Segunda Guerra Mundial, ciência e tecnologia não eram objeto de políticas públicas sistemáticas. Obviamente, são bem conhecidos os esforços que fizeram os Estados nacionais para financiar e apropriarse dos conhecimentos científicos em áreas estratégicas, principalmente desde o final do século XVIII, e os esforços de filósofos naturais e cientistas para tornar estratégicas suas ciências e arregimentar o Estado para a sua causa. “A ‘racionalização’ progressiva da sociedade depende da institucionalização do progresso científico e técnico”, afirma Habermas (1987, p. 45, grifo meu)15. No entanto, não devemos superestimaro lugar da ciência nos projetos de organização do Estado antes do século XX, mesmo em países de capitalismo mais avançado, como Inglaterra, Prússia, Alemanha (depois de 1871) e França. A literatura que trata das Políticas de Ciência e Tecnologia geralmente marca em 1945 o início dessa atividade (ABIRAM, 1982; MOSELEY, 1978; SALOMON, 1977; VELHO, 2011)16. Russel Moseley descreve minuciosamente, por exemplo, os arranjos instáveis que acompanharam a instalação e consolidação do National Physical Laboratory, do 15 O tom desse famoso ensaio, Técnica e ciência como “ideologia”, é de crítica à função dessa racionalização no interior das sociedades capitalistas industriais. O trecho citado aparece logo no primeiro parágrafo para resumir a posição de Max Weber em relação à modernização; Habermas não compartilha integralmente da posição de Weber, mas parece concordar com essa afirmação. 16 Ver também a revista Science and Public Policy. 28 Reino Unido, nos primeiros anos do século XX (o laboratório foi fundado em 1900). Mostra como vários personagens históricos – indivíduos e instituições – foram arregimentados e se comportaram em relação ao papel do Estado na condução da pesquisa científica. O Estado não foi iluminado pelo espírito do progresso e passou a ter fé na ciência. Havia várias forças sociais em disputa, manifestações de interesses variados e argumentos conflitantes, vitórias e derrotas no âmbito dos projetos sociais (e intelectuais) em jogo. Os esforços de um grupo coeso e importante de físicos (apoiados pela Royal Society, por exemplo), que manipulava basicamente dois tipos de argumentos para justificar o investimento dos fundos públicos britânicos em uma “instituição de pesquisa”. De um lado, ressaltavam o papel fundamental da ciência para a atividade industrial, destacando a produção de padrões de medida rigorosos, o estabelecimento de constantes físicas precisas e a execução de testes das propriedades físicas de materiais comumente utilizados na indústria. De outro lado, citavam frequentemente as experiências internacionais (especialmente na Alemanha) e a suposta velocidade com a qual outros países adquiriam vantagens industriais e econômicas resultantes da pesquisa científica, explorando o clima de preocupação com a competição industrial internacional (MOSELEY, 1978). Mediavam, assim, uma ligação entre a pesquisa de ligas metálicas, calor e eletromagnetismo e a posição ocupada pelo Reino Unido no quadro do desenvolvimento das nações. De outra parte, esse projeto encontrava, quando foi inicialmente apresentado, pouca receptividade e resistências declaradas. O governo reclamava insistentemente dos custos e se resguardava na ortodoxia liberal (que começava a mostrar suas primeiras fissuras), encontrando eco em setores influentes da “opinião pública”. Os laboratórios privados e as Universidades pediam a limitação clara das atividades da nova instituição, preocupados com a sobreposição de funções e a disputa por espaço social. Nesse conjunto intrincado, o projeto de um laboratório público de física foi aos poucos ganhando terreno, aliandose a setores influentes do governo (MOSELEY, 1978). As frequentes dificuldades na liberação de recursos para o National Physical Laboratory, no período compreendido entre 1900 e 1914 “refletiam a inabilidade do governo de apreciar o valor da pesquisa orientada para a indústria” (MOSELEY, 1978, p. 238, grifo meu)17. Não seria o caso de perguntarmos pelos motivos históricos dessa 29 “inabilidade”? A história das ciências não deve tomar como problemático algo que hoje nos parece evidente, a necessidade de se investir recursos públicos na pesquisa científica? Situação semelhante foi descrita para o Império Germânico quando da criação do Instituto Imperial de Física e Tecnologia (PhysikalischTechnische Reichsanstalt) em 188718, após um longo processo de propostas e contrapropostas que durou quase quinze anos (PFETSCH, 1970). Apesar da existência de um número considerável de “instituições científicas” bancadas pela Prússia ou pelos pequenos estados que formavam a Confederação Germânica e que foram mantidas com subsídio estatal depois da unificação alemã de 1871, a criação de uma instituição pública com o objetivo de centralizar a padronização de medidas e a engenharia de precisão encontrou resistências importantes. Setores liberais do governo imperial se mostravam contra a ideia de um organismo público voltado a corrigir as imperfeições do setor industrial privado. Ao mesmo tempo, um grupo de cientistas via com receio a criação do Instituto, pois percebiam sua função centralizadora como uma ameaça à liberdade de pesquisa, além de uma possível sobreposição de funções que, segundo esse grupo, poderiam ser supridas pelas instituições já existentes (especialmente as universidades) ou pela própria iniciativa privada que tivesse interesse no estabelecimento de padrões mais rigorosos. Os defensores do projeto – uma aliança inusitada de forças políticas comumente em conflito (industriais, trabalhistas e monarquistas conservadores) –, por sua vez, afirmavam que o desempenho da economia alemã seria positivamente impactado, que a manutenção da ortodoxia liberal frente ao novo contexto internacional seria um erro e que o Estado poderia exercer uma intervenção compensatória e reguladora em casos de cenários negativos e como prevenção a estes. Aos cientistas descontentes, respondiam argumentando que atribuir ao governo imperial a obrigação da manutenção de pesquisa orientada para a indústria (e a economia, de modo mais geral) liberaria forças para serem alocadas em outros tipos de investigação nas universidades, além de tratarem de problemas cujos investimentos necessários ultrapassavam as possibilidades da grande maioria das instituições envolvidas em pesquisa científica à época (PFETSCH, 1970). 17 No original: “reflected the inability of the government […] to appreciate the value of industrially oriented research”. Tradução minha. 18 Esse instituto serviu constantemente de modelo de sucesso para o National Physical Laboratory britânico, já citado, e para o National Bureau of Standards dos Estados Unidos, fundado em 1901. 30 Os princípios liberais poderiam ser reforçados por membros do governo contrários à proposta – que pregavam maior rigor nos gastos públicos e condenavam a natureza centralizada da instituição proposta –, ou flexibilizados por alguns dos seus frequentes defensores, como os capitães da indústria, por perceber em instituições desse tipo uma forma de fazer com que o Estado assumisse os custos de conduzir pesquisas que poderiam ter resultados benéficos para as suas empresas. O grande inventor e industrial Werner Von Siemens, por exemplo, escreveu um memorando para o parlamento Imperial, em 1887, no qual explicita a relação linear entre pesquisa científica, progresso tecnológico, melhoramento da indústria e avanço econômico (PFETSCH, 1970, p. 571572). Assim, a promoção da ciência era apresentada por seus defensores como meio para um fim, a manutenção da posição de destaque econômico do Império Germânico no mercado mundial. O sucesso no estabelecimento dessa instituição foi, em parte, resultado do sucesso desse argumento. Uma variação um pouco mais sofisticada dessa ideia foi utilizada também nas tentativas de estabelecimento de um sistema de financiamento público da pesquisa científica na França do período