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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS­GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA
ciência,  objeto da h is tór ia
Gabriel da Costa Ávila
Belo Horizonte
2015
Gabriel da Costa Ávila
ciência,  objeto da h is tór ia
Tese apresentada ao Programa de Pós­Graduação em 
História  da  Universidade  Federal  de Minas  Gerais, 
como parte dos requisitos necessários à obtenção do 
título de Doutor em História.
Linha de Pesquisa: Ciência e Cultura na História
Orientador: Prof. Dr. Mauro Lúcio Leitão Condé
Belo Horizonte
2015
112.1
A958c
2015 Ávila, Gabriel da Costa
     Ciência, objeto da história [manuscrito] / Gabriel Ávila. ­ 
2015.
     213 f. 
     Orientador: Mauro Condé. 
 
     Tese (doutorado) ­ Universidade Federal de Minas 
Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. 
      Inclui bibliografia
  
      1. História – Teses. 2. Ciência – História ­ Teses. 3 
Historiografia ­ Teses. I. Condé, Mauro Lúcio Leitão. II. 
Universidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de 
Filosofia e Ciências Humanas. III. Título.
 
Não  afirmamos,  por  exemplo,  que Aristóteles 
é  tão bom quanto Einstein;  o que  se  afirma e 
argumenta  é  que  “Aristóteles  é  verdadeiro”  é 
um  juízo  que  pressupõe  certa  tradição,  é  um 
juízo  relacional  que  pode  mudar  quando  a 
tradição  subjacente  for  mudada.  Pode  existir 
uma  tradição  para  a  qual  Aristóteles  é  tão 
verdadeiro  quanto  Einstein,  mas  existem 
outras tradições para as quais Einstein é muito 
desinteressante e não merece ser examinado.
Paul Feyerabend, 1978
AGRADECIMENTOS
Escrever  os  agradecimentos  é  uma  tarefa  árdua  para  quem  não  é  poeta  (nem 
comerciante,  que  “Agradece  ao  amigo  cliente  pela  preferência”).  Agradecer 
devidamente  fica  mais  difícil,  pois  demanda  tempo  e  inspiração.  Por  isso  agradeço 
como quem se desculpa por não poder agradecer melhor aos que são mais importantes. 
Agradeço  imensamente  a Mauro  Lúcio  Leitão  Condé  pela  orientação  atenta  e 
pelas  intervenções  preciosas.  A  confiança  que  Mauro  me  transmitia  garantiu  a  essa 
pesquisa  uma  segurança  talvez  impossível  de  ser  conquistada  sem  o  seu  inestimável 
apoio. Ao professor Carlos Maia, um entusiasta das nossas investidas pela teoria e pela 
historiografia das ciências e fonte inesgotável de energia intelectual.
Xs  professorxs  e  colegas  do  Scientia  –  em  especial  Anny  Jackeline,  Betânia 
Gonçalves, Bernardo  Jefferson, Carol Vimieiro  e Reinaldo Bechler  –  que mostraram, 
desde a minha chegada à UFMG em 2009, que um grupo de pesquisa pode ser um local 
de  intensas  trocas  intelectuais  e  afetivas.  Uma  bolsa  da  CAPES  (Comissão  de 
Aperfeiçoamento  de  Pessoal  de Nível  Superior)  financiou  essa  pesquisa  durante  seus 
primeiros três anos. Sem ela, talvez esta tese fosse apenas uma expectativa. Justamente 
enquanto  acabo  de  escrevê­la  os  cortes  se  abatem  sobre  essa  política  pública, 
comprometendo  o  projeto  de  inclusão  social,  formação  cidadã  e  produção  de 
conhecimento  –  um  projeto  que  está  ele mesmo  imbricado  em  algumas  questões  que 
surgem  na  tese.  Ele  herda  a  ambição  da  utopia  Iluminista,  pensa  assim  garantir  o 
progresso da ciência e da sociedade. Agradeço a Edilene Oliveira, que teve participação 
decisiva no sucesso de empreitadas como o ENAPEHC e o EPHIS. 
Xs professorxs Yurij Castelfranchi, Patrícia Kauark, José Newton Coelho, Kátia 
Baggio, Regina Horta  e Miriam Hermeto,  que  ajudaram  a  tornar  a  FAFICH  a minha 
segunda  casa  em Belo Horizonte. Essa  casa  estava  sempre  habitada  por  amigxs  e  foi 
muitas vezes o ponto de partida para aventuras nas Minas Gerais. Agradeço a Adriano, 
Douglas, Fabi, Georginho, Mariana, Raul, Rodrigo Osório e Warley. Pezzonia, Katy e 
Anita deixaram saudade  e  a vontade de  se ver de novo,  em Campinas ou  em Lisboa. 
Fran, Paloma e Valéria, Barudinha, Ju e Gu reforçaram sempre a certeza de que amar é 
um ato político nessa vida ordinária que a gente leva. 
À  Universidade  Federal  do  Recôncavo  da  Bahia  e  aos  colegas  do  Centro  de 
Artes,  Humanidades  e  Letras,  que  me  acolheram  nas  margens  do  Paraguaçú. 
Especialmente  aos  amigos  Antonio  Liberac,  Denis  Correa,  Eliazar  da  Silva,  Nuno 
Gonçalves,  Roberto  Duarte,  Sérgio  Guerra  e  Wellington  Castellucci.  Xs  alunxs  que 
torceram pelo sucesso desta tese. 
Xs  amigxs  soteropolitanxs  Fábio  Freitas,  Dimitri  Marques,  Dimitri  Tavares, 
Juliana e Rafael.
Xs que respeitaram minha angústia com o fim da tese e que me fizeram rir dela 
com elxs. Marcelinho, Julienne e Pi, Rodrigo e Raquel, Wolninho, Augusto e Fernanda, 
Rafa, Costinha, Rita e Giuia. Marcelo e Adelma, Nice, Heleni e Roberto, Paulo.
A  Ana  Marília,  cuja  importância  quando  medida  em  léguas  marítimas  seria 
suficiente para atravessar algumas vezes o Atlântico. Cujo amor não pode ser medido de 
nenhuma maneira linear.
Resumo
Esta  tese  se ocupa de um exame historiográfico da história das ciências  ao  longo dos 
últimos  cem  anos,  aproximadamente.  Tal  percurso  segue  a  tensão  entre  os  fatores 
“internos” e “externos” como formas de organizar a narrativa histórica sobre a ciência, 
de  demarcar  a  fronteira  entre  ciência  e  não­ciência,  de  compreender  a  dinâmica  da 
mudança  científica  e  de  articular  as  suas  funções  sociais.  Este  texto  está  também 
interessado  nas  relações  que  se  estabeleceram  entre  os  modos  de  produção  do 
conhecimento científico, as Políticas de Ciência e Tecnologia e a escrita da história das 
ciências.  Tendo  essas  frentes  de  investigação  como  guia,  o  trabalho  destaca  quatro 
períodos  históricos  apontando para  as  suas  principais  características  historiográficas  e 
para  as  maneiras  que  atitudes  distintas  em  relação  ao  passado  da  ciência  legitimam 
determinados  pactos  entre  ciência,  Estado  e  sociedade  (mas  também  resistem  e 
contestam  outros).  Primeiro,  o  período  clássico  da  “querela  do  internalismo  versus 
externalismo” entre os anos 1930 e 1960. O segundo momento é o surgimento de uma 
“tradição kuhniana”, isto é, a profundidade e a direção das transformações sofridas pela 
história das ciências sob o impacto do célebre ensaio de Thomas Kuhn, A estrutura das 
revoluções  científicas.  Os  dois  últimos  períodos  são  abordados  através  da  análise  de 
dois livros representativos de movimentos mais amplos. O Leviathan and the air­pump 
de  Simon  Schaffer  e  Steven  Shapin  foi  tomado  como  um  exemplo  da  historiografia 
produzida nos anos 1980, momento de amplas transformações nas relações entre ciência 
e Estado e de intenso diálogo com os science studies e com o conceito de tecnociência.  
Finalmente, o  livro Objectivity, de Lorraine Daston e Peter Galison,  serviu de suporte 
para  uma  análise  dos principais  elementos  da historiografia  das  ciências  na virada do 
século XX para o XXI – destacando como esse livro propõe a historicidade radical da 
ciência.  A  pesquisa  do  processo  de  disciplinarização  da  história  das  ciências  lida 
simultaneamente  com  a  transformação  da  ciência  em  objeto  da  história  e  as  suas 
implicações.
Palavras­chave: História das Ciências, História da historiografia, Século XX. 
Abstract
This thesis examines the historiography of sciences in the last hundred years or so. Such 
trajectory will follow the tensions between “internal” and “external” factors as ways to 
organize the historical narrative about science, to demarcate between science and non­
science,  to  understand  the  dynamics  of  scientific  change,  and  to  articulate  its  social 
functions. This  text  is also  interested  in  the  relations stablished between  the modes of 
production of scientific knowledge, the Science and Technology Policy, and the writing 
of  the  history  of  sciences. Being  guided  by  these  research  goals,  theentre guerras. Lá, uma campanha orquestrada a partir do 
começo dos anos 1920 por cientistas de prestígio – como Marie Curie e sua filha Irène, 
Frédéric  Joliot­Curie,  Paul Langevin  e  Jean Perrin  –  tentava  convencer  o  governo  da 
necessidade  de  investir  seus  recursos  na  pesquisa.  A  educação  superior  e  as 
Universidades já contavam com apoio estatal desde meados do século XIX, garantindo 
a formação superior, especialmente voltada para as áreas economicamente estratégicas 
(assim  como  na  maioria  dos  países  europeus  no  período).  No  entanto,  os  cientistas 
formados  nessas  instituições  tinham  poucas  opções  para  viver  de  ciência,  escolhendo 
entre a docência ou a indústria. As pesquisas conduzidas nesse período eram bancadas 
por  meio  de  atividades  filantrópicas  ou  com  fundos  pessoais  de  cientistas  mais 
abastados. Esse sistema era considerado insuficiente e responsável pela má situação da 
ciência francesa, que via seus históricos rivais, Inglaterra e Alemanha, ultrapassarem­na 
(WEART, 1979).
O apoio à ciência não surgia como uma necessidade apenas para os liberais que 
buscavam reverter os investimentos em benesses econômicas para a iniciativa privada. 
A defesa das aplicações práticas da ciência nas atividades econômicas, no caso francês, 
fazia  parte  de  uma  ideologia  de  esquerda  mais  ampla,  explícita  nesse  grupo  de 
cientistas,  que  herdara  do  Iluminismo  uma  forte  crença  na  ciência  como  maior 
31
expressão  do  espírito  humano  e  possuía  um  componente  utópico  expresso  na 
possibilidade  da  ciência  produzir  riqueza  e  bem­estar  suficientes  para  acabar  com  as 
desigualdades  (desde  que  gerenciada  para  tanto).  Essa  visão  encontrou  espaço  no 
governo  com  a  vitória  do Cartel  des Gauches,  uma  coalizão  de  várias  tendências  da 
esquerda francesa, nas eleições de 1932. Esse novo ambiente político preparou o terreno 
para a criação do CNRS em 1935, na época chamado Caisse Nationale de La Recherche 
Scientifique19, uma instituição de escopo bem mais amplo do que o National Physical 
Laboratory  ou  o  Instituto  Imperial  de  Física  e  Tecnologia,  que  empregou  várias 
centenas de  cientistas  envolvidos  apenas  em atividades de pesquisa  antes  da Segunda 
Guerra Mundial  (WEART, 1979). Com a ascensão da Alemanha nazista e o  início da 
guerra,  no  entanto,  esses  argumentos  se  tornam  praticamente  irrelevantes.  A  ciência 
tinha  caráter  de  urgência  e  seus  recursos  provinham  agora  das  verbas  militares  e  de 
defesa.  
Do outro  lado do Atlântico Norte, a situação era consideravelmente distinta. O 
sistema  de  patronagem  privada  foi  extremamente  bem  sucedido  entre  1900  e  1939  – 
com as instituições filantrópicas que retiravam recursos das fortunas dos Rockefeller e 
dos Carnegie, por exemplo – e garantia a maior parte do financiamento da ciência nos 
Estados Unidos (KOHLER, 1991).
Foram as  transformações  estruturais  que ocorreram nas  ciências  e nos Estados 
nacionais entre o último quartel do século XIX e o fim da Segunda Guerra Mundial que 
modelaram uma nova forma de articulação entre o poder público e a pesquisa científica 
e  levaram  à  substituição  da  antiga  “patronagem”  estatal  por  aquilo  que  se  pode 
propriamente  chamar  de Política  de Ciência  e Tecnologia  (ABIR­AM,  1982,  p.  342). 
Ao  fim  da  Segunda  Guerra  Mundial,  o  Estado  estava  iluminado  pelo  espírito  do 
progresso  e  exibia,  orgulhoso,  a  sua  fé  na  ciência. Essas  transformações  não  atingem 
apenas  os Estados, mas  também o mercado. O  crescimento  dos  setores  farmacêutico, 
elétrico e químico, baseados em conhecimentos técnicos e científicos, era marcante nas 
economias  mais  dinâmicas  do  período,  beneficiando­se  do  rápido  crescimento  do 
número de profissionais especializados (fruto das políticas educacionais desses Estados 
desde  a  segunda  metade  do  século  XIX)  e  demandando,  por  sua  vez,  um  maior 
investimento na ciência e na tecnologia.    
19  O  CNRS  assumiu  a  atual  nomenclatura  em  1939,  após  a  sua  fusão  com  o Centre  National  de  la 
Recherche Scientifique Appliquée.
32
A  consolidação  dessa  nova  situação  passa  pela  consideração  da  ciência  como 
uma ferramenta indispensável para o progresso material, uma concepção que já estava 
disponível e frequentava os circuitos eruditos há vários séculos. 
A  articulação  da  ciência  como  um  “saber­fazer”,  que  visava  não  apenas  o 
conhecimento  da  natureza,  mas  o  seu  domínio  e  transformação  é  um  dos  mitos  de 
fundação da Modernidade, inaugurado na filosofia de Francis Bacon. “Conhecimento é 
poder” é o slogan desse programa que aproxima ciência e técnica, verdade e utilidade. 
Essa locução destacada vincula­se à ascensão de valores ligados à burguesia mercantil, 
como  a  valorização  de  uma  dimensão  mais  ativa  diante  do  mundo,  seja  através  da 
recuperação  das  artes  mecânicas  como  fonte  de  conhecimento,  seja  pelo 
estabelecimento do trabalho como fundamento legítimo do poder econômico e político, 
em  contraposição  aos  direitos  de  berço  e  aos  privilégios  nobiliárquicos  (OLIVEIRA, 
2010; JAPIASSÚ, 2001; ROSSI, 1989; ZILSEL, 2000). 
A ciência não comporta apenas essa dimensão ativa, de dominação da natureza 
(o  deslizamento  da  forma  inquérito  do  domínio  jurídico  para  o  científico, 
magistralmente explorado por Foucault [1999], aponta para uma postura quase tirânica 
frente  à  natureza).  Existe  outra  dimensão  de  importância  capital  que  opera 
discursivamente  na  chave  da  pureza,  da  ingenuidade  e  do  arrebatamento  diante  da 
natureza. Nesse modo, o cientista se transfigura em uma criança curiosa que brinca e se 
encanta  com  fenômenos  naturais  (CASTELFRANCHI,  2008,  pp.  189­190).  Qualquer 
aspiração  ao  poder  e  à  dominação  é  aí  uma  invasão,  um  atentado  à  liberdade  da 
pesquisa.  Esses  dois  modos  de  caracterizar  a  atividade  científica  estiveram 
constantemente imbricados em um tipo de relação que não é meramente de legitimação 
mútua  (do  tipo:  “deixe­me  brincar,  pois  o  resultado  será  importante”  ou  “não  me 
envolva  em  questões  políticas,  estou  apenas  exercendo  a  pura  curiosidade”).  Muitas 
pesquisas  foram  efetivamente  guiadas  por  um  princípio  (um  ethos?)  de  pureza  e 
desinteresse.  Essa  duplicidade  é  uma  das  responsáveis  pelo  sucesso  da  ciência  em 
conquistar  a  hegemonia  ideológica  na Modernidade. É  também  responsável  por  gerar 
certo  sentimento  de  ambiguidade  e  contradição,  como  expressou  Irène  Joliot­Curie 
(S/D, p. 19) em uma emissão radiofônica no final dos anos 1930:
Creio  que  o  que  caracteriza  realmente  um  trabalho  de  Pesquisa 
Científica  é  que  ele  destina  a  satisfazer  uma  curiosidade 
desinteressada;  circunstância  paradoxal,  é  também  esse  gênero  de 
33
trabalho  que  tem,  finalmente,  as  consequências  práticas  mais 
sensacionais.20 
A guinada  operativa  da  ciência,  no  entanto,  não  conseguiu  se  estabelecer  para 
além das práticas discursivas de cientistas e filósofos. É só a partir da segunda metade 
do  século XIX  que  as  promessas  dessa  ideologia  científica  começam,  timidamente,  a 
frutificar21.  Nesse  período,  então,  ela  pode  ser  atualizada,  articulada  a  novos 
argumentos e evidências e reconfigurada para que funcione no novo contexto social. A 
ciência liberava a sua potência e se qualificava para ocupar uma nova posição, central, 
na estrutura social.
O  suporte  a  esse  novo  lugar  social  da  ciência  vem  das  rápidas  mudanças 
atravessadas desde meados do século XIX – como a utilização significativa de insumos 
químicos na indústria, a utilização da eletricidade, os avanços médicos proporcionados 
pela  microbiologia.  Nos  primeiros  anos  do  séculoXX,  a  euforia  epistemológica 
alcançava  patamares  elevados  com  as  revoluções  que  ocorriam  naquela  que  era  a 
ciência  paradigmática  por  excelência,  a  Física. A  física  quântica  e,  principalmente,  a 
teoria  da  relatividade  levaram  os  temas  esotéricos  da  pequena  comunidade  científica 
para audiências mais amplas. Não havia, aparentemente, como ficar imune à sedução da 
ciência, aos seus poderes. Finalmente, as promessas de abundância pareciam prestes a 
se concretizar. A qualquer momento, o antigo desejo dos alquimistas se realizaria pelas 
mãos dos seus (pretensos) inimigos ideológicos22.
Os  poderosos  Estados  nacionais  europeus  não  seriam  convencidos  apenas  por 
bons argumentos. Era preciso que a materialidade das  lâmpadas elétricas, micróbios e 
radiografias fossem arregimentados para as fileiras da campanha da ciência. Ao mesmo 
20 No original: “Je crois que ce qui caractérise réellement um travail de Recherche Scientifique, c’est 
qu’il est destine à satisfaire une curiosité désintéressée; circonstance paradoxale, c'est aussi ce genre de 
travail qui a finalement les conséquences pratiques les plus sensationnelles”. Tradução minha.
21  O  termo  “ideologia”  não  aparece  aqui  no  sentido  que  alguns  marxistas  lhe  atribuem,  como  “falsa 
consciência”;  está  mais  próximo  de  um  estilo  de  pensamento  ligado  a  uma  posição  social,  como  na 
definição de Karl Mannheim (1986). Ao reduzir a ideologia ao seu caráter ilusório, mistificador, submisso 
aos critérios do falso e do verdadeiro, a sua capacidade de mobilização do mundo se enfraquece. Contudo, 
é preciso notar certa ambiguidade do termo na obra do sociólogo húngaro. Ideologia aparece como: a) um 
sentido mais restrito, sistema de representação “conservador”, destinado à manutenção da ordem social, 
em oposição à utopia, que é um conjunto orientado para o futuro, para a mudança social, contendo uma 
função  transformadora;  e  também  b)  uma  dimensão  já  referida  de  visão  de  mundo  socialmente 
dependente,  a  “ideologia  total”,  que  engloba  ideologias  e  utopias  particulares  (MANNHEIM,  1986; 
LÖWY, 2000).    
22  Claro  que  essa  leitura  do  processo  revolucionário  no  âmbito  das  ciências  físicas  no  período 
compreendido entre 1895 e 1905 parte de uma concepção simultaneamente racionalizada e mitificada de 
um processo que se desenvolve de maneira mais complexa, recalcitrante e devedora de desenvolvimentos 
anteriores do que a imagem de uma revolução profunda nas maneiras como vemos o Universo (KRAGH, 
1996, p. 61)
34
tempo,  é  muito  provável  que  tais  “evidências”  não  tivessem  tanto  impacto  caso  não 
fossem articuladas por um imaginário tão poderoso, que por tanto tempo fermentou na 
mentalidade ocidental.
Esse  imaginário  adquire  uma  expressão  radical  no  cientificismo.  É  preciso 
realizar  aqui  um  breve  desvio  para  explicar  esse  conceito.  O  cientificismo  pode  ser 
definido  a  partir  de  algumas  características:  1)  a  identidade  entre  ciência  e 
conhecimento,  que  concebe  a  ciência  como  a  única  forma  possível  de  conhecer  o 
mundo,  a  única  ferramenta  intelectual  preparada  para  atingir  a  verdade;  2)  do  ponto 
anterior decorre a concepção da ciência como uma forma epistemologicamente superior 
a outros tipos de interpretação ou explicações da realidade; 3) outra decorrência é que a 
ciência, e apenas ela, é capaz de explicar toda a realidade – não há nada digno de valor 
epistemológico fora da ciência; 4) por ser a única expressão intelectual verdadeira (ou, 
ao  menos,  capaz  de  atingir  a  verdade),  a  ciência  é  a  única  forma  de  nos  guiar 
objetivamente na realidade e, por isso, tem garantida também uma superioridade moral. 
Esse  último  ponto  é muito  relevante,  pois  ele  se  vincula  a  uma  concepção  da  função 
social da ciência. Como veremos no Capítulo 5 desta  tese, os “defensores da ciência” 
nos  anos  1990  vão  interpretar  os  “ataques  à  ciência”  como  “ataques  à  civilização 
ocidental”. 
O cientificismo é uma atitude  filosófica que atribui certa onipotência à ciência, 
outorgando­lhe  o  domínio  completo  do  campo  intelectual  e  um  forte  componente  de 
autoridade moral. Peter Schöttler (2013) traça uma genealogia política desse conceito e 
identifica  seu  surgimento  no  terço  final  do  século XIX. Concentrando  sua  análise  no 
espaço  discursivo  francês,  esse  historiador  vai  analisar  a  emergência  do  conceito  no 
interior das disputas entre ciência e religião que se acirram às vésperas do século XX e 
se espraiam até o começo da Primeira Guerra Mundial. A acepção pejorativa do termo 
já data desse momento e uma das tarefas dos propagandistas de uma visão científica do 
mundo  foi  a  de  incorporar  o  termo  ao  seu  vocabulário  e  conferir­lhe  um  significado 
positivo.  A  invenção  do  cientificismo  era,  assim,  uma  reação  conservadora,  tentando 
mostrar  que  a  ciência  não  era  capaz  de  suprir  a  humanidade  de  certas  necessidades 
espirituais  e  que  ela  não  poderia  responder  a  determinadas  questões  existenciais  de 
cunho metafísico. A sua incorporação ao vocabulário dos cientistas e seus partidários e 
publicistas  não  conseguiu  esvaziar  o  conceito  do  seu  conteúdo  pejorativo,  seu  uso 
35
permanece tendo, quase sempre, um tom de denúncia dos abusos da ciência, indicando 
uma postura dogmática. 
Apesar disso, essa atitude perante o mundo teve imenso sucesso no século XX, 
será um dos  traços da visão de mundo hegemônica. Ele surge ora como um otimismo 
exagerado em relação ao potencial da ciência em resolver os problemas sociais (muitas 
vezes  problemas  gerados  pela  própria  ciência),  ora  como  um  dos  fundamentos  da 
tecnocracia  e  de  totalitarismos. O  cientificismo  surgirá  nesta  tese  como  um  “desastre 
ideológico”  (MAIA,  2013,  p.  30),  um  elemento  que  aparecerá  frequentemente  não 
apenas como um obstáculo à transformação da ciência em objeto da história, mas como 
uma ameaça à democracia e ao pleno exercício da cidadania.   
Retornando  à  corrente  principal  da  narrativa,  é  fundamental  notar  que 
disciplinarização e a institucionalização da história das ciências ocorre simultaneamente 
à transição entre esses modelos e a organização da Política de Ciência e Tecnologia, no 
seio da reativação desse imaginário sobre a ciência.
Analistas  da  Política  de  Ciência  e  Tecnologia  têm  ressaltado  as  formas  pelas 
quais  a  concepção  dominante  de  ciência  “modela”  as  relações  entre  ciência  e  Estado 
(VELHO, 2011). A história das ciências seria um dos agentes de  transformação dessa 
concepção da qual essas políticas seriam o resultado. Escolher uma maneira de escrever 
a história das ciências é uma forma de atuar politicamente, interferir na agenda pública. 
No  entanto,  não  devemos  supervalorizar  o  papel  da  história  das  ciências  nessa 
transformação que ocorre entre fins do século XIX e início do XX. Em primeiro lugar, 
porque  o  seu  surgimento  como  disciplina  autônoma  é  concomitante  às  mudanças  às 
quais tenho me referido; em segundo lugar, porque a sua produção não circulava muito 
além  do  seu  próprio  campo  e  áreas  intelectuais  afins,  ela  não  possuía  (e  ainda  não 
possui)  capilaridade  suficiente para  influenciar decisivamente na alteração da  imagem 
da ciência em todo o corpo social ou mesmo nos grupos responsáveis pelas tomadas de 
decisão, capazes de alterar a Política de Ciência e Tecnologia.
As  apropriações  e  releituras  que  caracterizam  a  ideologia  da  ciência 
normalmente  acabam  por  remeter­se  a  um  tipo  de  visão  do  passado  das  ciências 
incessantemente  criticada  por  Thomas Kuhn:  a  imagem  “de manual”,  utilizada  como 
ilustração  com  fins  pedagógicos  e  que  transmite  uma  imagem  oficial,  anacrônica  e 
hagiográficado  empreendimento  científico.  De  qualquer  maneira,  a  maioria  dos 
historiadores das ciências atuantes à época não estava muito disposta a apresentar uma 
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imagem  diferente  dessa.  A  relevância  funcional  dessa  mitologia  para  o  edifício 
científico  foi  enfatizada  pelo  próprio  Thomas Kuhn  (2001,  pp.  173­182). A  alegação 
frequente  de  desmistificação  da  ciência  não  passava  de  correções  pontuais  que 
mantinham intacta essa estrutura narrativa e, principalmente, a imagem de ciência dela 
decorrente.  Como  já  afirmei  acima,  a  história  das  ciências  nesse  período  não  foi 
praticada por historiadores profissionais, sendo muitas vezes uma atividade diletante de 
cientistas ou realização de filósofos (KUHN, 2011a, p. 127; MAIA, 2013). 
Por  ora,  é  importante  considerar  que  a  história  das  ciências  não  é  apenas 
produtora  de  uma  imagem da  ciência,  ela  é  também consumidora  de  concepções  que 
circulam  em  determinada  configuração  sócio­histórica,  funcionando  como  espaço  de 
reverberação,  formulação  e  legitimação  de  certos  interesses  sociais.  A  história  das 
ciências, nessa perspectiva, passa de agente de transformação da imagem da ciência no 
tecido  social  para  uma  posição  mais  passiva,  de  reprodutora  de  imagens  e  valores 
produzidos alhures.
Por  outro  lado,  apesar  dessas  ressalvas,  poderíamos  argumentar  que  a  história 
das  ciências  fornece  um  dos  únicos  acessos  “autorizados”  para  a  ciência  do  passado, 
através  do  uso  controlado  e  sistemático  das  fontes  originais,  o  que  pretensamente 
garantiria  precisão  e  objetividade. Desse modo,  o  surgimento  da  história  das  ciências 
como  disciplina  autônoma  e  regida  por  normas  de  erudição  e  coerção  do  discurso 
responde  à  participação  cada  vez  maior  da  ciência  na  construção  da  “identidade 
ocidental” a partir de meados do século XIX. A ciência, não estando mais restrita aos 
seus  praticantes, mas  espraiando­se  por  todas  as  esferas  da  sociedade,  precisa  ter  seu 
desenvolvimento  histórico  compreendido,  domesticado  e  regulado  por  formas 
socialmente  sancionadas  de  discurso.  A  escrita  da  história  das  ciências  seria  um 
exercício reflexivo, de auto­conhecimento, uma racionalização de certas características 
do sujeito moderno com vias à tomada de consciência e ao auto­controle. 
A  história  das  ciências  realiza  a  seu  tempo  aquilo  que  Reinhart  Koselleck 
apontou em sua análise do surgimento da ciência da história. A conquista da autonomia 
intelectual  da  história,  das  suas  condições  de  cientificidade  e  da  sua  função  no 
vocabulário político se constroem simultaneamente e “a gênese do moderno conceito de 
História coincide com a sua função social e política” (KOSELLECK, 2013, p. 186)23. 
23  A  sequência  dessa  passagem  citada  é  significativa  da  postura  do  historiador  alemão  em  relação  à 
determinação  social  do  conhecimento,  uma  postura  diversa  da  que  adoto  aqui.  Para  ele,  “a  gênese  do 
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Mais adiante nesse texto, o autor enfatiza que:
Nações, classes, partidos, seitas e outros grupos de interesse podiam – 
e  até  deveriam –  recorrer  à História,  na medida  em que  a  derivação 
genética da posição que o respectivo grupo defendia lhe dava o direito 
à  existência  dentro  do  campo  de  ação  político  ou  social 
(KOSELLECK, 2013, p. 188). 
Assim,  a  produção  de  sentido  e  a  orientação  temporal  se  apresentam  como 
funções fundamentais (embora não exclusivas) na emergência da história das ciências. 
Duas  formas de  encarar  essa disciplina –  como  interferência política  e  como  reflexão 
identitária – estão entrelaçadas.
Tendo ressaltado isso, pretendo investigar de que maneiras a historiografia – ao 
avaliar  a  ciência  do  passado  –  dialogou  com  o  seu  presente?  Como  a  historiografia 
transitava  entre  duas  imagens  de  ciência  e  as  colocava  em  diálogo  por  meio  da  sua 
narrativa,  as  aproximava  e  distanciava,  enxergava  traços  de  continuidade  e  pontos  de 
ruptura,  intercambiava  valores  e  objetivos,  projetava  expectativas  e  experiências? 
Especificamente,  para  o  que  aqui  me  interessa,  como  a  articulação  entre  fatores 
“internos”  e  “externos”,  a  demarcação do  espaço  epistêmico,  social  e  institucional  da 
ciência se relacionava com a condição da ciência no presente da escrita? 
Antes de prosseguir a análise com uma leitura do modo internalista de escrever 
história da ciência, é preciso tecer duas considerações. Em primeiro lugar, a questão não 
pode  ser  posta  na  forma  de  uma  redução.  Interpretações  internalistas  admitem  a 
relevância de fatores externos e vice­versa. Essas duas formas de encarar a história das 
ciências estão completamente de acordo no estabelecimento das fronteiras entre o que é 
intrínseco à ciência e aquilo que  lhe é estranho, exterior. No entanto, o ponto no qual 
essas  correntes  divergem  se  dá  na  relação  estabelecida  entre  os  fatores,  no  papel  que 
cada tipo de fator desempenha no “resultado”, no conhecimento científico efetivamente 
produzido.  Quem  é  o  motor  das  transformações  da  ciência,  o  “conteúdo”  ou  o 
“contexto”? 
Em  segundo  lugar,  não  pretendo  fazer  um  inventário  de  autores  em  seus 
respectivos  grupos.  No  início  desse  capítulo,  caracterizei  o  internalismo  e  o 
externalismo como “modelos ideais”, o que acarreta em uma posição que não considera 
os  historiadores  como  pertencendo  completamente  a  uma  ou  outra  dessas  correntes. 
moderno conceito de História coincide com a sua função social e política – sem naturalmente se limitar a 
ela”. Com  isso,  ele  entendia certa validade duradoura  das  formulações  teórico­científicas da história  à 
despeito da sua vinculação a um lugar social de produção.
38
Assim, o  foco da minha  investigação estará nos argumentos mobilizados em  favor de 
uma ou outra vertente, na  forma como esses  tipos de visão conformam uma narrativa 
histórica  e  como  eles  constituem  práticas  discursivas  que  emergem  em  diálogo  com 
outras  formas  de  considerar  o  lugar  da  ciência  na  trama  histórica  que  chamamos  de 
sociedade. Obviamente, me  servirei  de  exemplos  que  se  utilizam  efetivamente  desses 
argumentos para a explicação da história das ciências; esse corpus  textual, no entanto, 
não nos permite rotular os autores.
Comecemos  então  por  aquele  que  considero  o  argumento  axial  da  explicação 
internalista: a centralidade da teoria. Herbert Butterfield caracteriza a ciência moderna 
como uma nova “atividade mental” conduzida, em seus  traços essenciais, por homens 
sem  acesso  a  novas  observações  ou  novas  evidências,  mas  que  estavam  dispostos  a 
pensar  de  maneira  diferente  sobre  dados  já  conhecidos,  situá­los  diante  de  um  novo 
enquadramento  teórico  (BUTTERFIELD,  1982,  p.  11­12). Ao  examinar  a  história  da 
química  com  vistas  a  estabelecer  as  razões  que  retardaram  a  sua  entrada  no  rol  das 
ciências  modernas,  o  professor  Butterfield  assevera  que  “a  experimentação  e  nem 
mesmo  os  progressos  da  técnica  foram  suficientes  por  si  sós  para  estabelecer  a  base 
sobre  a  qual  se  pudesse  construir  o  que  chamamos  ‘ciência  moderna’” 
(BUTTERFIELD, 1982, p. 193)24. Assim, a explicação para a derrocada da alquimia se 
dá  pelo  seu  fracasso  em  se  adaptar  à  estrutura  de  pensamento  da  nova  ciência  e  a 
química  do  flogisto  é  apresentada  como  uma  teoria  conservadora,  que  usou  diversos 
malabarismos intelectuais para adequar­se aos dados conflitantes de modo a retardar o 
surgimento  de  um  corpo  teórico  condizente  com  a  nova  “estrutura  mental”  que  já 
revolucionara  áreas  como  a  mecânica  e  a  astronomia  (BUTTERFIELD,  1982,  193­210)25. O grande professor de Harvard, Bernard Cohen, que sempre valorizou o lugar 
24 No original:  “La  experimentación  e  incluso  los  progresos  de  la  técnica  no  fueran  suficientes  por  si 
solos  para  estabelecer  la  base  sobre  la  que  se  pueda  construir  lo  que  llamamos  ‘ciencia  moderna’”. 
Tradução minha.
25  Certamente,  Herbert  Butterfield  é  um  personagem  que  ainda  não  recebe  o  merecido  destaque  na 
historiografia das ciências. Ele é corretamente  reconhecido pelas  suas críticas ao “presentismo” do que 
chamou  de  história whig  (uma  tese  que  discutirei  logo  adiante).  No  entanto,  ele  é  um  dos  primeiros 
historiadores  de  formação  a  encarar  seriamente  a  história  das  ciências  e  seu  papel  no  estabelecimento 
desse  campo  do  conhecimento  como  uma  disciplina  autônoma  na  Inglaterra  é  pouco  conhecido  e 
frequentemente  ignorado. Assim  como  a  sua  defesa  –  que  se  liga  diretamente  à  sua  crítica  teórica  ao 
“presentismo” – de que a história das ciências fosse praticada por pessoas com formação em história. O 
domínio dos conteúdos científicos não garante aos historiadores das ciências a perícia necessária para a 
sua prática. O conhecimento histórico é  também essencial e exige o domínio de  técnicas e  ferramentas 
intelectuais tão sofisticadas e complexas como aquelas da ciência. Conversamente, ele chama a atenção 
para  a  importância  de  estudar  a  ciência  (em  especial  a  revolução  científica)  como  exigência  para 
compreender a história da Europa (BUTTERFIELD, 1950; MAYER, 2000). 
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da  experimentação  na  nova  física  dos  séculos  dezesseis  e  dezessete  enfatiza  que  “a 
importância  do pensamento  abstrato  [...]  foi muito mais  revolucionário  para  a  ciência 
que  o  telescópio”  (COHEN,  1988,  p.  114).  Para  esse  autor,  apesar  da  relevância  das 
experiências efetivas levadas a cabo por Galileu ou Tycho Brahe, foram as experiências 
de  pensamento que  criaram,  em última  instância,  a moderna  ciência. Mesmo Thomas 
Kuhn – que mais  tarde  será  responsável  pela  pretensa  superação da polarização  entre 
internalismo  e  externalismo  na  história  das  ciências  –  insere  o  seu  primeiro  livro, A 
revolução  copernicana,  de  1957,  no  rol  dos  estudos  de  história  intelectual  sobre  a 
ciência dando clara ênfase às teorias, valores e conceitos científicos, considerando que a 
“Revolução Copernicana foi uma revolução de ideias” (KUHN, 1990, p. 19).   
Os exemplos com variações desse argumento poderiam se estender longamente. 
Não  é  o  caso. Creio  ser  fundamental  apenas  apontar  para  a  formulação mais  direta  e 
mais  consistente  desse  argumento,  uma  formulação  que  encontramos  enunciada  e 
defendida convictamente por Alexandre Koyré. 
O  historiador  russo­francês,  grande  entre  os  grandes,  que  participara,  em  sua 
terra  natal,  da  revolução  de  1905  e  da  revolução  de  fevereiro  de  1917,  insiste  em 
diversas  ocasiões  que  a  história  das  ciências  é  a  história  do  pensamento  humano,  um 
movimento  de  ideias.  Ele  considera,  na  sua  interpretação  anti­positivista  (e, 
consequentemente,  anti­empirista),  a  predominância  da  razão  sobre  a  experiência, 
chegando a afirmar que a filosofia experimental não conduz a parte alguma (KOYRÉ, 
2011b)26.  Advogado  da  descontinuidade,  ele  assevera  que  “as  grandes  revoluções 
científicas do século XX, tanto quanto as revoluções do século XVII ou do século XIX, 
embora  naturalmente  assentadas  sobre  a  descoberta  de  fatos  novos  –  ou  na 
impossibilidade de verificá­los –, são fundamentalmente revoluções teóricas” (KOYRÉ, 
2011b, p. 80). No seu texto fundamental sobre as Perspectivas da história das ciências 
o  nosso  autor  afirma,  em  tom  de  polêmica  com  as  posições  externalistas  (que  serão 
discutidas adiante), que “não é a estrutura social do século XVII que nos pode explicar 
Newton, nem é a da Rússia de Nicolau  I que pode  lançar alguma  luz sobre a obra de 
Lobatchevski”  (KOYRÉ, 2011e, p. 424). E o autor prossegue (assumindo o  idealismo 
que lhe cabe): 
a  ciência,  a  ciência  de  nossa  época,  como  a  dos  gregos,  é 
essencialmente theoria, busca da verdade e que, por isso, que ela tem 
26 Lembremo­nos também da leitura que o autor faz das relações entre técnica e ciência, especialmente 
quando se refere ao surgimento do telescópio e do relógio (KOYRÉ, 1990, pp. 59­89).
40
e  sempre  uma  teve  vida  própria,  uma  história  imanente,  e  que  é 
somente  em  função  de  seus  próprios  problemas,  de  sua  própria 
história,  que  ela  pode  ser  compreendida  por  seus  historiadores 
(KOYRÉ, 2011e, p. 424). 
Na  chave  com  que  os  homens  do  começo  do  século  XX  liam  a  história  da 
ciência  moderna,  a  da  oposição  entre  empirismo  e  racionalismo,  o  internalismo  se 
inscreve  explicitamente  na  tradição  desse  último. O  foco  na  teoria  não  é  apenas  uma 
questão metodológica,  não  estamos  simplesmente  diante  da  escolha  de  um  olhar  que 
poderia  ser  diferente  e  que  é  complementar  com  outras  abordagens  –  como  alguns 
autores quiseram nos fazer crer. Trata­se de uma concepção de ciência que se relaciona 
com outros argumentos importantes.
Um desses argumentos,  fundamental nas explicações de viés  internalista, surge 
do esforço de evitar estabelecer uma linearidade evolutiva entre as ciências do passado e 
as  do  presente.  Thomas  Kuhn  parece  encontrar  aí  o  principal  traço  que  define  essa 
perspectiva, “o historiador [de tendência internalista] deveria pôr de lado a ciência que 
conhece.  A  sua  ciência  deveria  ser  apreendida  dos  livros  e  revistas  do  período  que 
estuda, e deveria dominar estes e as  tradições  intrínsecas que exibem” (KUHN, 1989, 
pp. 148­149). 
Penso  que  existem  duas  fontes  principais  para  essa  postura  na  história  das 
ciências. 
Na  Inglaterra,  o  influente  ensaio  de  “psicologia  dos  historiadores”  (que 
chamaríamos hoje de teoria da história) escrito em 1931 por Herbert Butterfield sobre a 
interpretação  whig  da  história  desempenhou  um  papel  decisivo27.  Nesse  livro,  a 
concepção de história  qualificada  como whiggish  é  saturada de  julgamentos  de  valor, 
pensada  a  partir  dos  termos  do  presente,  descontextualizada  do  seu  próprio  tempo 
(BUTTERFIELD, 1931). O processo histórico é narrado pela via da polarização entre os 
heróis  (que  supostamente  defenderiam  posições  mais  progressistas,  próximas  às  do 
historiador)  e  os  vilões  (agentes  da  reação,  obstáculos  à  efetivação  de  forças 
irrefreáveis). Seria, em suma, uma historiografia teleológica e anacrônica. Em seu lugar, 
Butterfield propõe aos historiadores que analisem o passado em seus próprios termos, os 
problemas  do  passado  são  problemas  postos  pelas  circunstâncias  específicas  de  cada 
27  Na  Inglaterra,  desde  meados  do  século  XVII,  o  vocabulário  da  polarização  político­ideológica  se 
articula através dos  termos Tory,  tendência conservadora e Católica, e Whig, mais  liberais e de religião 
protestante. A sobrevida dessas denominações no Reino Unido ainda é forte. No começo do nosso século, 
o então primeiro­ministro Tony Blair (do Partido Trabalhista, que acolhe muitos whigs) foi jocosamente 
apelidado, por críticos à esquerda, de Tory Blair devido à suposta guinada conservadora do seu governo.   
41
tempo histórico. Avaliando a Reforma Protestante, o autor explica que “a questão entre 
protestantes e católicos no século XVI foi uma questão do mundo deles e não do nosso 
mundo” (BUTTERFIELD, 1931, p. 23)28. 
Embora  não  tratasse  especificamente  de  história  das  ciências,  as  lições  de 
Butterfield  foram  bastante  assimiladas  e  discutidas  nesse  campo.  Para  os  seus 
defensores,  elas  deveriam  implicar  num  tratamento  que  nãovisse  as  realizações 
científicas  do  passado  como  desenvolvimentos  em  direção  ao  conhecimento 
contemporâneo; não devemos procurar, por exemplo, sinais de uma Ciência ou de um 
Método  Científico  latente  em  pensadores  do  passado,  como  se  essas  “entidades” 
possuíssem existência  transhistórica e apenas esperassem pela sua completa  libertação 
do obscurantismo e da ignorância (BUCHDAHL, 1962, pp. 71­72). Alguns críticos, por 
sua  vez,  vêem  um  componente  whiggish  indissociável  da  escrita  da  história  das 
ciências. Argumentam que o progresso da ciência só pode ser avaliado corretamente a 
partir de uma dimensão presentista e anacrônica que julga os avanços do conhecimento 
em termos qualitativos (sabemos “mais” e “melhor” que antes) (ALVARGONZÁLEZ, 
2013).  
A  segunda  fonte,  desenvolvida na França  e  transferida para os EUA,  é o  anti­
positivismo  historiográfico  e  filosófico  de  Alexandre  Koyré.  Também  ele  insistiu  no 
princípio  de  que  a  ciência  do  passado  deve  ser  compreendida  e  explicada  nos  seus 
próprios  termos.  Ao  comentar  esse  aspecto  da  obra  de  Koyré,  Georges  Canguilhem 
(2012, p. 7) aponta que “a história das ciências não é progresso das ciências derrubado, 
isto é, a colocação em perspectiva de etapas ultrapassadas cuja verdade de hoje seria o 
ponto  de  fuga”.  Em  diversas  passagens,  Koyré  reforça  esse  argumento  e  convida  os 
historiadores a não tomar como evidente o conhecimento que possuem da ciência. Pelo 
contrário, a atitude do historiador deve ser a de enxergar as  transformações na ciência 
como um gesto  difícil  e  doloroso  de  destruição  de  determinada  visão  de mundo.  Sua 
crítica às traduções das obras de Copérnico e Galileu, por exemplo, se dá nesse registro, 
e  o  autor  enfatiza  os  perigos  de  projetarmos  os  nossos  hábitos,  nosso  valores,  nossas 
concepções  (através  da  nossa  linguagem)  em  um  texto  produzido  sob  a  égide  de 
concepções  bastante  diversas  (KOYRÉ,  2011d,  p.  283).  A  ciência  é  engendrada  em 
conjunto  com  uma  visão  de  mundo,  “todo  método  científico  implica  uma  base 
28 No original:  “The  issue  between Protestants  and Catholics  in  the  sixteenth  century was  an  issue  of 
their world and not of our world”. Tradução minha.
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metafísica  ou,  pelo menos,  alguns  axiomas  sobre  a  natureza  da  realidade”  (KOYRÉ, 
2011b, p. 62).
Um antecedente notável desse princípio é o famoso livro As bases metafísicas da 
ciência moderna, que tem a sua primeira edição publicada nos Estados Unidos em 1925 
e no qual o filósofo Edwin Burtt parte da filosofia para fazer uma leitura histórica sobre 
os fundamentos da moderna concepção de mundo não em sua filosofia moral ou ético­
social, mas  em  seus  filósofos  naturais,  questionando  como o  pensamento  e  a  obra  de 
personagens como Copérnico, Kepler, Descartes, Boyle, Galileu e Newton contribuíram 
para moldar  a  corrente principal do pensamento moderno  (BURTT, 1983). Alexandre 
Koyré e Thomas Kuhn reconheceram o débito que possuíam com esse trabalho.
Esse  princípio  de  investigação  afasta  uma  concepção  redutora  do  internalismo 
como  uma  história  da  marcha  das  ideias  científicas  “puras”  (que  caracterizaria  mais 
apropriadamente uma versão do positivismo). Certamente, o foco do internalismo está 
no  pensamento,  nas  ideias,  é  uma  história  intelectual.  Está  longe,  no  entanto,  de  ser 
apenas um conjunto de narrativas cientificistas, herméticas, ensimesmadas nos aspectos 
técnicos.
Consideremos,  por  exemplo,  Alexandre  Koyré,  que  passou  para  a  tradição 
historiográfica –  em parte  devido  a  sua própria  auto­identificação –  como  internalista 
(talvez  o  maior  representante  desse  grupo)  e  que,  certamente,  apresenta  uma  das 
melhores defesas dessa perspectiva. No entanto, para Koyré (mas não apenas para ele), 
a ciência está em constante intercâmbio com o contexto intelectual – religião, filosofia, 
metafísica, estética (ideias transcientíficas, de acordo com Koyré) – formando um corpo 
indissociável de conhecimento, uma visão de mundo, que  tem na ciência um dos seus 
aspectos  centrais  e  deve  ser  levado  em  consideração  pelo  historiador  interessado  em 
compreender  a  ciência  moderna  (KOYRÉ,  1991,  pp.  201­214).  A  professora 
Francismary Alves da Silva chama a atenção para a forma como o autor dos Estudos de 
História do Pensamento Científico  conecta as  ideias científicas com outras dimensões 
da vida social através do conceito de unidades (ou estruturas, ou estilos) de pensamento 
(SILVA, 2013, pp. 161­166).
Esse  sistema deve  ser  considerado em sua  integridade,  reforçando o papel dos 
“erros” em determinada concepção de ciência e explicando a sua incidência em termos 
históricos,  como  parte  de  uma  estrutura  mental  auto­limitada,  nas  quais  as 
possibilidades  de  explicação  do  mundo  natural  não  são  indefinidas.  Os  erros  que 
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parecem evidentes ao observador contemporâneo são, muitas vezes, frutos da natureza e 
dos  limites  da  visão  de mundo  na  qual  determinada  ciência  se  desenvolveu  ou  certa 
descoberta  foi  realizada,  não  podem  ser  tomados  automaticamente  como  sinais  de 
incapacidade  ou  incompetência  dos  cientistas  da  época  (KOYRÉ,  2011;  RUPERT 
HALL, 1988). Foi  através de um gigantesco esforço do pensamento humano, em  luta 
contra  concepções  poderosas,  que  essas  noções  tomadas  como  “simples”  ou  naturais 
puderam  ser  assim  percebidas,  em  processos  de  reforma  ou  revolução  no  qual 
participaram homens (e aqui o marcador de gênero é muito importante) que construíram 
o  universo  mental  da  Modernidade.  Assim,  o  estudo  cuidadoso  e  que  suspende  os 
julgamentos  de  valor  em  relação  às  ciências  do  passado  fornece  um  acesso  precioso 
para a compreensão da visão de mundo na qual esses conhecimentos emergem e do qual 
eles fazem parte. A história das ciências não deveria focar meramente naqueles pontos 
dos  conhecimentos  passados  que  são  transmitidos  às  novas  gerações  e  que  chegam  à 
nossa cultura científica como “verdades” (STUMP, 2001, p. 244).  
Trata­se,  digamos,  de  uma  “contextualização  de  primeiro  grau”  de  uma 
consideração  de  “historicidade  parcial”  do  conhecimento  científico,  solidário  com 
outros  produtos  do  pensamento,  mas  não  com  “fatores”  sociais,  econômicos  ou 
políticos.
Essa  consideração  encaminha  a  questão  para  a  relação  entre  fatores  internos  e 
externos  na  explicação  da  história  das  ciências  que  as  abordagens  internalistas  nos 
proporcionam. Trata­se do problema da  causalidade histórica:  quais  as  causas para  as 
transformações  (ou para  as permanências) da  ciência? Esse não é,  evidentemente,  um 
problema menor  e  não  receberá  aqui  o  tratamento  exaustivo  e minucioso  que  o  tema 
merece. Não retomarei toda a tradição que (desde Aristóteles) considerou em detalhe os 
diversos tipos de causas, nem tampouco abordarei a acidentada e vacilante trajetória da 
causalidade na teoria da história. Meu interesse está nas formas específicas como essa 
vertente historiográfica abordou a questão e propôs  (muitas vezes  implicitamente) um 
modelo  de  explicação,  focando  na  emergência  dos  fatores  intrínsecos  e  extrínsecos  à 
ciência na construção desse modelo.
A historiografia desse período possuía uma fixação na revolução científica dos 
séculos XVI  e XVII. Mais  propriamente,  ela  constituiu  esse  objeto  da  forma  como o 
conhecemos.  Apesar  da  ocorrência  eventual  da  expressão  desde  o  século  XVIII,  o 
conceito  de  revolução  científica,  seus  principais  personagens,  suas  principais 
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características  e  sua  posição  na  história  da  “civilização  ocidental”  são  uma  invenção 
(heterogênea e conflituosa) da historiografiadas ciências desenvolvida em meados do 
século XX (COHEN, 1989; SILVA, 2015; SHAPIN, 1998). A revolução científica é um 
conceito  historiográfico.  Ele  opera  como  um  marcador  do  surgimento  da  ciência 
moderna. E é principalmente à explicação desse objeto que o internalismo irá se voltar, 
se dedicando a compreender esse fenômeno no tempo em que ocorreu (entre os séculos 
XVI e XVIII) e no lugar que ocorreu (a Europa Ocidental) ao mesmo tempo em que o 
construíam.
Já  sabemos  que,  segundo  essa  abordagem,  a  ciência moderna  é  um  fenômeno 
predominantemente teórico e sistemático, uma nova concepção de mundo que engloba 
uma metafísica subjacente. Resta saber quais as suas origens, de onde ele teria surgido, 
o que teria provocado tamanha transformação? Em uma palavra: quais são as causas da 
revolução  científica?  Essa  é  uma  questão  que  praticamente  não  aparece  de  forma 
explícita,  deve  ser  buscada  indiretamente  (o  externalismo,  como  veremos,  fará  dessa 
exploração das causas uma divisa mais evidente).  
A ciência moderna é um produto da gradual, lenta e difícil destruição do sistema 
filosófico dominante na Idade Média, o sistema aristotélico e escolástico, a passagem, 
nos  diz  Koyré  repetidas  vezes,  do  “Mundo  do  ‘mais  ou  menos’  ao  Universo  da 
precisão”. De forma sucinta, define­se a nova física a partir de duas características: em 
primeiro  lugar,  trata­se  da  destruição  da  imagem  (de  origem  grega)  do  Cosmos 
hierárquico, ordenado, dividido em supralunar e sublunar, animista, colocando em seu 
lugar a ideia de um Universo aberto, homogêneo, mecanicista no qual a astronomia (que 
lidava com os corpos celestes) e a física (dos corpos terrestres) podem se unir em torno 
de um mesmo empreendimento; em segundo lugar, abandona­se uma física “sensível”, 
preocupada com os fenômenos imediatos, com os fatos do “senso comum” em prol de 
uma  ciência  que  exige  abstração,  de  fenômenos  que  ocorrem  no  espaço  abstrato  da 
geometria euclidiana, instaura­se a matematização da natureza e, portanto, da ciência. 
Essa substituição não representa, no entanto, apenas a criação de uma nova visão 
de mundo, mas  a  recuperação de  certas  tradições  da  antiguidade  clássica  –  sobretudo 
aquela derivada de Platão, mas  também Arquimedes, Euclides e  todo um conjunto de 
acepções  filosóficas  mais  matematizante  (além  de  Galeno,  para  a  medicina)  –  e  a 
permanência  de  alguns  desenvolvimentos  intelectuais  que  tiveram  lugar  na  Europa 
desde o século XIII – como os estudos sobre o movimento e a elaboração da teoria do 
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impetus. Ao mesmo tempo, isso não impede que os historiadores continuem falando em 
revolução,  uma  revolução  “intelectual”  ou  do  “espírito”,  transformação  profunda  nas 
“estruturas  mentais”  ou  nos  “sistemas  de  pensamento”.  A  mente  humana  está 
completamente transformada em seus fundamentos depois da revolução científica. 
Sabemos que as  tradições e as  influências nunca são tomadas da mesma forma 
como  se manifestavam  em  sua  formulação  “original”,  são  sempre  adaptadas  ao  novo 
ambiente  no  qual  se manifestam,  transformadas  de  acordo  com  novas  necessidades  e 
interesses, utilizadas de forma mais ou menos flexível. Assim, a revolução científica é 
narrada  como  uma  constante  tensão  entre  continuidade  e  ruptura,  permanência  e 
mudança. 
Koyré parece  representar bem essa  tensão: critica duramente a  tese continuísta 
de  Pierre  Duhem  e  Alistair  Crombie,  considerando  a  revolução  científica,  acima  de 
tudo,  uma  ruptura  com  o  mundo  medieval  e  antigo  (KOYRÉ,  2011b),  afirma  que 
“Galileu  é  impossível  antes  de  Arquimedes”  (KOYRÉ,  1990,  p.  59).  Nessa  mesma 
passagem, Koyré faz uma afirmação que nos soa completamente anti­histórica: 
Podemos, sem duvida, interrogar­nos por que razão a antiguidade não 
produziu  um  Galileu...  Mas  isso  equivale  a  retomar  o  problema  da 
paragem,  tão brusca, do magnífico  ímpeto da  ciência grega: por que 
motivo  cessou  o  seu  desenvolvimento? Por  causa  da  ruína  da polis? 
Da  conquista  romana?  Da  influencia  cristã?  Talvez.  Todavia,  nesse 
intervalo, Euclides e Ptolomeu puderam muito bem viver e  trabalhar 
no Egipto. Realmente,  nada  se  opõe  a  que Copérnico  e Galileu  lhes 
tivessem sucedido directamente (KOYRÉ, 1990, p. 60).
No entanto, a elucidação do problema das causas da mudança científica parece 
explicar  esse  trecho. O  que  está  em  jogo  é  a  retomada  de  certas  atitudes  intelectuais 
presentes  na  ciência  grega  (em  parte  dela,  pelo  menos)  e  o  seu  desenvolvimento  e 
elaboração em direções específicas. O contexto social, político e econômico não fazem 
mais que o papel de um meio no qual se propaga o pensamento; meio que pode ser um 
obstáculo  ou  que  pode  favorecer  o  seu  desenvolvimento.  Os  mais  de  mil  anos  que 
separam  Arquimedes  da  Renascença  não  tiveram  outro  papel,  segundo  essa 
interpretação, senão o de impedir o avanço do pensamento matemático sobre a natureza 
(eventualmente,  reconhece­se  a  pequena  contribuição  de  certos  desenvolvimentos 
técnicos medievais). O domínio completo de uma corrente de pensamento que associava 
aristotelismo  e  cristianismo  foi  um  fato  paralisante  de  uma  linha  que,  em  outras 
condições  intelectuais,  poderia  ter  se  estendido  muitos  séculos  antes.  O  caráter 
fundamentalmente qualitativo e impreciso da ontologia e da metafísica hegemônicas do 
46
medievo impediu mesmo de perceber a quantificação, a matematização e o domínio da 
precisão como ferramentas intelectuais válidas para o estudo da natureza.
Desse modo, a revolução científica é, nas  interpretações  internalistas, resultado 
da  destruição  da  ontologia  aristotélica,  um processo  que  se  inicia  no Renascimento  – 
mas que apenas se completará no século XVII, com Descartes, Galileu e Newton (que 
as  substituirão  por  outro  sistema)  –,  fruto  da  revolta  contra  a  escolástica  e  da 
insatisfação  com  a  autoridade  constituída.  O  humanismo  renascentista  fornecerá  um 
ponto de partida crucial, posto que “a grande inimiga da Renascença, do ponto de vista 
filosófico e científico foi a síntese aristotélica e pode dizer­se que sua grande obra foi a 
destruição  dessa  síntese”  (KOYRÉ,  2011a,  p.  44).  O  processo  que  conduz  à  ciência 
moderna se origina de uma reação às concepções medievais dominantes e um retorno à 
“civilização clássica” (é o que o Renascimento fará no mundo das letras e das artes, mas 
não no da ciência) e, sobretudo, da possibilidade de pôr em questão essa autoridade que 
conseguiu se impor durante mais de um milênio.  
Ao mesmo tempo esse primeiro passo, destrutivo, era uma condição necessária, 
mas não suficiente. Entre a destruição do antigo sistema e a elaboração de um novo foi 
preciso  recorrer  a  referências  intelectuais  diversas  daquelas  que  sustentavam  a 
concepção  até  então  dominante.  Por  isso,  outro  fator  decisivo  foi  o  acesso  a  uma 
“biblioteca maior, mais variada e mais excitante”, como nos diz Rupert Hall (1988, pp. 
48­49). A redescoberta da tradição a que fiz referência acima foi certamente decisiva e 
não  é  em  vão  que  Koyré  considera  Galileu  um  platônico  e  a  revolução  científica  a 
“desforra de Platão”. Apesar disso, a ciência moderna não é arquimediana ou platônica, 
mas cartesiana, galileana e newtoniana. Como pertinentemente nos lembra Koyré (2006, 
p. 9):
Não podemos esquecer, ademais, que a “influência” não é uma relação 
simples;  pelo  contrário,  é  bilateral  e muito  complexa.  [...]  Em  certo 
sentido,  talvez  o  mais  profundo,  somos  nós  mesmos  que 
determinamos as influências a que nos submetemos... 
Os homens que começaram o processo de construção de uma nova metafísica, da 
qual  sairia  uma  nova  ciência  –  homens  comoNicolau  de  Cusa,  Giordano  Bruno  e 
Copérnico  –  não  estavam  apenas  seguindo  a  pista  deixada  por  autores  antigos.  Eles 
estavam  buscando  nesses  autores  elementos  para  situar  uma  insatisfação  que  tem 
origens  muito  mais  teológicas  (que  é,  por  sua  vez,  uma  das  bases  fundamentais  da 
metafísica  medieval)  que  científicas.  O  novo  Universo  que  constroem  é  erigido 
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inicialmente em nome de uma nova concepção da divindade, nasce de uma ideia sobre 
Deus (KOYRÉ, 2006).  Assim, os fatores aventados para explicar as transformações no 
nosso  conhecimento  são  de  ordem  intelectual. De  certa maneira,  é  uma  afirmação  da 
tese de que a filosofia engendra ciência. Questões teológicas, ontológicas e metafísicas 
estiveram  na  base  da  construção  de  um  novo  modo  de  produção  do  conhecimento 
científico.  As  causas  da  revolução  científica  não  são  apenas  científicas,  mas  não 
poderiam sê­lo, já que um dos princípios interpretativos fundamentais do internalismo é 
a sua consideração da ciência no interior de um sistema de pensamento mais amplo.
Porém,  restam  perguntas  subsequentes:  por  que  o  aristotelismo  durou  tanto 
tempo?  Por  que  foi  destruído  e  substituído  nessa  época?  Por  que  escolher  essas 
influências  (Platão,  Arquimedes,  Pitágoras,  etc.)  e  não  outras  disponíveis?  Perguntas 
que  o  internalismo  (como,  de  resto,  qualquer  concepção  informada  por  uma  filosofia 
idealista da história) não poderia responder. Para fazê­lo teria que recorrer a explicações 
positivistas (“porque essas teorias se mostraram corretas, passaram no teste empírico”) 
ou  sócio­políticas  (“porque  respondiam a  questões  demandadas  pela  estrutura  política 
do  período,  se  relacionavam  com  a  estrutura  social  na  qual  aparecem”).  Em  resumo, 
quando perguntado “de onde vem as ideias?”, o internalismo se cala.      
A caracterização do  internalismo a partir  dos  argumentos  apontados  acima me 
parece  mais  próxima  da  prática  efetiva  dessa  historiografia  do  que  uma  definição 
redutora  que  circulou  amplamente  –  seja  durante  a  vigência  da  querela,  por  seus 
detratores, seja depois, quando o pequeno interesse em compreender o tema para além 
da mera menção como corrente historiográfica superada deixava pouco espaço para uma 
leitura mais atenta. Nessa acepção, o internalismo seria a um tipo de história cujas ideias 
científicas  seriam  consideradas  em  si  mesmas.  Seria  algo  próximo  da  “reconstrução 
racional”,  colocando a história das ciências em uma posição completamente  submissa 
em  relação  à  filosofia,  que  forneceria  “metodologias  normativas  segundo  as  quais  o 
historiador reconstrói a ‘história interna’ e desse modo fornece uma explicação racional 
do desenvolvimento do conhecimento objectivo” (LAKATOS, 1998, p. 21). A história 
das  ciências  seria  o  “laboratório  da  epistemologia”,  um  conhecimento  instrumental 
(embora  importante)  a  serviço  de  problemas  formulados  alhures  pela  filosofia  da 
ciência. No entanto, o próprio Lakatos sabia que essa sua definição de história interna 
não estava de acordo com o que geralmente faziam os historiadores (LAKATOS, 1998, 
p. 63). 
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Com  efeito,  tal  concepção  tem  pelo menos  um  problema:  ela  não  poderia  ser 
encontrada nas narrativas do período, não há mais do que vestígios historiográficos que 
teriam  que  ser  isolados  e  descontextualizados  para  que  essa  proposição  faça  sentido. 
Trata­se  de  um  “espantalho”  facilmente  atacável  por  aqueles  que  se  opõem  ao 
internalismo e que  é  utilizado muitas  vezes por  defensores dos  argumentos  elencados 
acima para fugirem de certa carga negativa que o termo recebeu depois dos anos 1970, 
uma  tentativa  de  “salvar”  esses  autores  e  argumentos,  como  faz,  por  exemplo,  James 
Stump (2001) em relação a Alexandre Koyré. 
Penso  que  os  argumentos  internalistas  não  precisam  ser  salvos,  mas 
compreendidos  como  uma  contribuição  crucial  para  a  consolidação  teórica  e 
institucional  da  história  das  ciências  e  como  um  conjunto  de  práticas  intelectuais 
dotadas de historicidade, produtos do  seu  tempo. Foi Koyré quem  forneceu o modelo 
intelectual  de  história  das  ciências  que  cresceria  aproveitando  os  espaços  intelectuais 
abertos  por  George  Sarton.  O  seu  modo  de  interpretação,  conscientemente  limitado, 
coloca  os  “fatores  internos”  no  centro  da  explicação  histórica,  já  que  são  eles  que 
definem  a  ciência  e  que  ela  possui  uma  lógica  imanente.  A  ciência  não  pode  ser 
explicada por algo que não a constitui, deve ser buscada naquilo que ela é e não naquilo 
que ela não é. 
Manterei em suspenso, por enquanto, a discussão sobre o modo como percebo as 
condições  específicas  de  historicidade  do  internalismo  e  me  voltarei  para  o 
externalismo.  No  próximo  capítulo,  depois  de  analisar  essa  vertente  da  história  das 
ciências  como  um  campo  plural,  retornaremos  ao  problema  das  correlações  entre  a 
escrita da história das ciências e as formas de organizar a ciência na trama social a partir 
da querela entre explicações “internas” e “externas”.
2. Ordem social, ordem cognitiva
O  externalismo  será  dividido  em  dois  grandes  grupos: marxista  e mertoniano. 
Dedicarei mais atenção ao primeiro tipo, que oferece uma oposição – teórica e política – 
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mais interessante ao internalismo e à filosofia das ciências do período e que me parece 
mais influente nos desenvolvimentos posteriores da história das ciências. Além disso, o 
modelo marxista é mais antigo. A versão elaborada por Merton, cujo sucesso não deve 
ser menosprezado, será abordada em seguida. Defenderei que ela se propõe a combater 
mais  o  marxismo  que  o  internalismo.  Assim,  duas  formas  diferentes  interpretar  os 
fatores  externos  são  colocadas  em  disputa  –  uma  disputa  centrada  no  papel  que  a 
“dimensão  social”  exerce  na  determinação  (ou  não)  do  conteúdo  da  ciência, mas  que 
guarda um consenso em relação ao que conta como “fator externo”. 
Ao ressaltar a tensão entre a sociologia da ciência mertoniana e a histórial social 
das  ciências  de  inspiração  marxista,  apontarei  para  o  entrelaçamento  entre  posturas 
políticas  e  filiações  ideológicas,  atribuições  quanto  às  funções  sociais  da  ciência  e 
atitudes  metafísicas  diante  dela,  argumentos  epistemológicos.  Esses  elementos  não 
podem – é importante que se repita – sujeitar­se à mera redução da ciência à política sob 
a pena de oferecer uma interpretação insuficiente do processo que pretendemos analisar. 
Não  há  como  identificar  onde  reside  definitivamente  o  fundamento  do  conhecimento 
científico, não há como definir um ponto fixo a priori (“a” sociedade ou “a” ideologia, 
de um lado; “a” natureza ou “as” ideias, de outro) de onde podemos derivar as demais 
características da ciência como mera expressão, como efeito. 
Por fim, esse se capítulo se encerra com uma aproximação entre o internalismo e 
o  externalismo  para  ressaltar  as  suas  diferenças  e,  principalmente,  apontar  para  a 
existência de uma concepção de ciência que é – em aspectos determinantes – comum 
aos dois modos de explicação discutidos.
A história da emergência da interpretação marxista da história das ciências e do 
seu  texto  fundador  já  está  bem  estabelecida.  Trata­se  da  participação  da  delegação 
soviética  liderada  pelo  destacado  teórico  marxista  e  revolucionário  russo  Nikolai 
Bukharin  no  II  Congresso  Internacional  de  História  da  Ciência  e  da  Tecnologia, 
ocorrido  em Londres  em 1931. Os  textos  dos  autores  soviéticos  foram publicados  na 
Inglaterra  logo  após  o  evento  na  coletânea  Science  at  the  crossroads  e  tiveram  um 
impacto  decisivo  sobre  algunscientistas  próximos  ao  marxismo  interessados  em 
questões históricas e políticas da ciência. Alguns desses  jovens cientistas se  tornariam 
depois importantes representantes da vertente externalista, como John Bernal ou Joseph 
Needham. O texto mais influente desse livro foi, sem dúvida, The social and economic 
50
roots of Newton’s Principia, comunicação apresentada naquele congresso pelo físico e 
historiador soviético Boris Hessen29. 
O propósito do  texto  é  a  “aplicação do método do materialismo dialético  e da 
concepção  do  processo  histórico  criado  por  Marx  para  analisar  a  gênese  e  o 
desenvolvimento  da  obra  de  Newton,  em  relação  com  o  período  em  que  viveu  e 
trabalhou” (HESSEN, 1985, p. 31). Para isso, nosso autor se apóia principalmente nos 
escritos do  jovem Marx e na  interpretação que  lhes dá Lênin. Porém, sabemos que as 
interpretações e os usos da concepção materialista da história são – como em qualquer 
grande  sistema  filosófico –  bastante  variáveis. O  rótulo  “marxista”  não  explica muito 
sobre um texto ou sobre um personagem, especialmente no clima turbulento da União 
Soviética dos nos 1920  e 1930. Desde os primeiros  anos do  século XX, os marxistas 
russos já haviam produzido um considerável volume de reflexões sobre a lição do velho 
mestre, segundo a qual a estrutura social determina as formas de consciência. Diversos 
autores,  entre  eles  Lênin  e  Plekhanov  –  filosoficamente  mais  sofisticado  e 
historiograficamente mais relevante –, discutiram e ampliaram a concepção materialista 
da  história.  O  marxismo  soviético  dos  anos  1920  estava  particularmente  interessado 
nessa  temática,  em  busca  de  interpretações  para  a  própria  história  da  Rússia  e  da 
revolução  (nos  anos 1930 a  situação era  consideravelmente diferente,  como mostrarei 
adiante). 
Diante  disso,  devemos  nos  perguntar  que  usos Hessen  fez  desse  instrumental, 
como realizou a sua leitura e o que isso significava para a história das ciências?  
Para a consecução do seu objetivo, Hessen parte de uma análise dos problemas 
de ordem técnica impostos pela transição do feudalismo para o mercantilismo na Europa 
(seleciona  três  eixos  principais:  transporte,  indústria  e  guerra)  e  se  pergunta  quais  os 
problemas científicos que estão na base das questões da época. Estes seriam problemas 
de mecânica, justamente a área mais importante das ciências físicas no período. Diante 
disso:
Comparando os principais problemas técnicos e físicos da época com 
os  das  investigações  que  dominavam  a  física  no  período  em  que 
estudamos,  chegamos  à  conclusão  de  que  estes  temas  eram 
determinados, principalmente, pelas tarefas econômicas e técnicas que 
a  burguesia  em  ascensão  colocava  em  primeiro  plano  (HESSEN, 
1985, p. 44, grifo meu).
29 Ambos, Hessen  e Bukharin,  foram  figuras  notáveis  na vida  intelectual  soviética dos  anos 1930. Os 
dois foram presos e executados (em 1936 e 1938, respectivamente) pela ditadura stalinista. 
51
Não  devemos,  de  acordo  com  o  autor,  precipitarmo­nos  na  crítica  fácil  ao 
“determinismo econômico” dessa abordagem. Algumas páginas depois, ele nos lembra 
que 
Seria, entretanto, uma grande simplificação, e mesmo vulgarização, de 
nosso  objeto  se  deduzíssemos  diretamente  da  economia  e  da  técnica 
cada problema que tenha sido estudado por um físico, cada tarefa que 
tenha resolvido (HESSEN, 1985, p. 53).
Os determinantes – termo fundamental para o marxismo – são de várias ordens: 
religiosos, políticos, jurídicos, filosóficos etc. Assim, passa a examinar a luta de classes 
na  Inglaterra  na  época  de  Newton  para  deduzir  que  o  pertencimento  do  eminente 
cientista à determinada classe social (filho de pequenos fazendeiros, protestante, whig) 
teve  influência  direta  no  seu  sistema  filosófico,  impedindo­o  adotar  um materialismo 
consequente  e  levando­o  a  adotar  preceitos  idealistas  e  teológicos  na  explicação  do 
mundo físico. Da mesma forma explica a  incapacidade de Newton de deduzir, do seu 
próprio sistema de mecânica, a  lei da conservação da energia. Apesar de reconhecer a 
concorrência de outros fatores que não os econômicos, Hessen o faz a partir da rígida e 
esquemática divisão entre a “base” e a “super­estrutura”; entre a economia e os produtos 
culturais  e  intelectuais,  política,  direito,  arte,  ciência.  Uma  interpretação  típica  do 
marxismo soviético dos anos 1920 (HESSEN, 1985, p. 53; FREIRE, 1993).
Em sua análise, Boris Hessen coloca a ciência não apenas como um produto do 
seu  tempo,  mas  também  como  um  elemento  fundamental  na  evolução  das  forças 
produtivas,  determinado  pela  classe  que  dirige  a  mudança  na  estrutura  do  modo  de 
produção  (HESSEN,  1985,  p.  79). O  capitalismo mercantil  dos  séculos XVI  e XVII, 
com a  sua  sociedade burguesa nascente  só poderia  ter criado uma ciência preocupada 
em favorecer os interesses da sua classe. É por isso que – por exemplo – essa ciência se 
desenvolve  fora  das  Universidades  e  contra  elas,  que  ainda  mantinham  uma  postura 
reacionária, aristotélica e aristocrática, praticando uma “ciência oficial”, visto que eram 
“centros  científicos  do  feudalismo,  não  apenas  portadoras  das  tradições  feudais  como 
também  suas  ativas  defensoras”  (HESSEN,  1985,  P.  44).  Do  ponto  de  vista 
historiográfico  temos  aí  duas  teses  fundamentais  para  o  desenvolvimento  da  corrente 
externalista.  A  primeira  nos  informa  que  as  demandas  técnicas  de  uma  época  criam 
conhecimento científico, os problemas de ordem prática que tem que ser resolvidos pela 
sociedade (ou pelas classes dominantes) em determinado período pautam as atividades 
dos  filósofos  naturais  e  cientistas  (ao  menos,  ditam­lhe  o  rumo).  A  segunda  tese, 
52
consequência da anterior, encerra a ciência no horizonte da sua época, enquadrando­a na 
necessidade histórica ditada pelas  formas de  intercâmbio material dos homens em um 
momento  histórico  específico,  da  qual  se  torna  uma  forma  específica  de  consciência 
histórica atuando no interior de  limites estruturais últimos  (MÉSZÁROS, 2009, pp. 9­
19; FREUDENTHAL e MCLAUGHLIN,  2009,  pp.  1­41). A  ciência  é  uma  atividade 
altamente carregada de ideologia (no sentido marxista do termo).
“Apenas  na  sociedade  socialista  a  ciência  se  tornará  patrimônio  de  toda  a 
humanidade”  (HESSEN,  1985,  p.  85).  Somente  o  proletariado,  que  não  tem  nada  a 
perder (“a não ser os seus grilhões...”) e não precisa ocultar a realidade, pode criar uma 
“história verdadeira e genuína da natureza e da sociedade” (HESSEN, 1985, p. 32)30. 
Essa  perspectiva  abrirá  caminho  para  que,  no  Ocidente,  os  historiadores  marxistas 
possam analisar  a  ciência do passado nesses  termos e  também projetar  as  ciências do 
futuro por meio da planificação.
Contudo,  a  história  que  nos  conta  Hessen  não  avança  nas  relações  entre  o 
conteúdo cognitivo da física newtoniana e as determinações históricas da sua produção, 
apesar  de  apontar  as  relações  entre  a  visão  filosófica  de Newton  e  seus  pressupostos 
religiosos  e  políticos.  As  afirmações  genéricas  sobre  o  problema  e  a  questão  da 
impossibilidade  da  formulação  do  princípio  da  conservação  da  energia  estão  muito 
distantes da grandiosidade científica da obra de Newton, não atingem o seu núcleo. Pelo 
contrário,  Hessen  parece  se  contentar  em  apontar  as  correlações  entre  os  temas  dos 
Principia e os problemas técnico do período, deixando intactas as soluções específicas 
adotadas  e  como  elas  poderiam  se  relacionar  quando  analisadas  do  ponto  de  vista  do 
materialismo  dialético  (HESSEN,  1985,  pp.  50­53;  FREIRE,  1993,  1954).  Será  que 
Hessen  foi  incapaz  de  ir  mais  longe?  Será  quenão  é  possível  atacar  os  problemas 
técnicos  de  uma  teoria,  relacionando­os  com  as  forças  produtivas,  as  classes 
dominantes, a luta de classes etc.? O conteúdo técnico é intransponível e, no limite, a­
histórico? 
Muitos  críticos  do  artigo  de  Hessen,  dentro  e  fora  do  espectro  do  marxismo, 
julgaram  corretamente  encontrar  aí  a  sua  grande  limitação31.  No  entanto,  em  seu 
30 Essa visão, apesar de tudo, não carrega o otimismo exagerado de Lênin que, analisando a “crise das 
ciências” nos primeiros anos do século XX, afirmara que “a física contemporânea está a dar à luz. Está a 
dar à luz o materialismo dialético” (LÊNIN, 1982, p. 237).
31 O próprio Marx escreveu muito pouco sobre as ciências naturais (sabemos da sua grande admiração 
por Charles Darwin e, através das correspondências trocadas principalmente com Engels, do seu interesse 
eventual  por  astronomia).  Em  uma  de  suas  passagens  mais  conhecidas  sobre  o  tema,  no Capital,  ele 
53
brilhante artigo The  social­political  roots of Boris Hessen,  o professor Loren Graham 
nos  fornece  uma  interpretação  muito  perspicaz  e  profunda  sobre  esse  trabalho, 
inserindo­o no contexto mais amplo das discussões sobre a ciência na União Soviética e 
sobre a posição que nela se encontrava Boris Hessen. Graham recupera a  trajetória de 
Hessen  no  período  anterior  à  viagem  à  Londres  em  1931  e  explica  como  suas 
preocupações  se voltavam principalmente para  a defesa da  teoria da  relatividade  e da 
mecânica quântica nos circuitos científicos soviéticos. No entanto, essa havia se tornado 
uma atividade realmente perigosa, visto que a classe dirigente emergente após a guerra 
civil russa (1918­1921) – que começava a vasculhar as teorias científicas em busca de 
ideologias  burguesas  em  seu  projeto  de  reconstrução  total  da  ciência  a  partir  do 
materialismo – considerava essas teorias como fruto da ciência burguesa e imperialista. 
Não apenas julgavam­nas equivocadas do ponto de vista científico, mas interpretavam­
nas  como  filosoficamente  e  politicamente  danosas,  abstrações  vazias  carregadas  de 
misticismo burguês, montadas para destruir o materialismo. Após 1929, o cerco se fecha 
sobre os defensores de Einstein e Bohr, muitos são perseguidos, expurgados, presos.
Hessen,  um  defensor  de  primeira  linha  da  revolução,  estava  sob  suspeita.  Em 
seus  textos,  ele  buscava  reconciliar  o  marxismo  com  a  física  contemporânea. 
Concordava  com  as  origens  imperialistas  e  burguesas  dessas  teorias  e  com  as 
implicações  filosóficas  anti­materialistas  que  elas  acarretavam,  mas  defendia  que 
deveria haver uma separação entre esses aspectos da ciência e seu valor de verdade; o 
reconhecimento  das  origens  filosóficas  e  sociais  não­materialistas  dessa  ciência  não 
deveria  ser motivo  para  descartar  o  seu  conteúdo  físico.  Essa  posição  colocava­o  em 
dificuldade, tendo sido censurado publicamente, em 1930, por suas ideias “metafísicas” 
e “idealistas”. Assim, para Graham, a participação de Hessen no Congresso de Londres 
foi uma chance de se redimir, assumindo uma posição mais ortodoxa, mais próxima do 
“marxismo oficial” e, ao mesmo tempo, inserir uma mensagem sutil. Por isso ele retoma 
Newton,  tido  em  alta  conta  nos  círculos  científicos  dominantes  da União  Soviética  e 
demonstra  como  o  seu  programa  de  pesquisas  estava  diretamente  vinculado  aos 
indica que: “A necessidade de calcular os movimentos do Nilo gerou a astronomia egípcia e com ela o 
domínio da casta sacerdotal como dirigente da agricultura” (MARX, 1996, p. 142, grifos meus). Assim, 
ele apenas reconhece a capacidade das questões práticas de engendrar certos tipos de conhecimento e de 
propor temas à investigação do mundo natural, mas não ataca a questão do conteúdo desse conhecimento 
e sua relação com esses mesmos problemas. É nas suas análises mais metodológicas sobre a relação entre 
estrutura social e  formas de consciência ou sobre a concepção materialista da história que os marxistas 
encontram chaves analíticas para avançar nesse problema. 
54
interesses da burguesia mercantil  e  como a  sua  filosofia  estava eivada de  idealismo e 
teologia, reflexos da luta de classes na época da Revolução Inglesa e da posição adotada 
por Newton nessa conjuntura.  
Hessen procede em relação a Newton como esperava que seus colegas, de volta 
à União Soviética, procedessem em relação a Einstein e Bohr. Por isso ele evita associar 
o conteúdo da física newtoniana à sua posição na luta de classes e nas relações sociais 
de produção, recusa­se a considerá­lo mera ideologia. Ao analisar em bases marxistas a 
mecânica clássica, ele não retira as mesmas conclusões que seus pares da intelligentsia 
soviética  retiravam para  a  análise que  faziam da  relatividade  e da mecânica quântica. 
Assim,  o  famoso  ensaio  de  Hessen  adquire  um  significado  bastante  diferente.  Ele 
continua sendo um marco para as interpretações marxistas (Hessen era efetivamente um 
marxista  militante)  da  história  das  ciências,  mas  deve  ser  visto  também  como  uma 
estratégia de defesa diante das acusações que sofria na União Soviética, ao assumir um 
tom  mais  próximo  daquele  que  era  esperado  dos  intelectuais  comprometidos  com  o 
novo regime, e como um recurso à história para elaborar um argumento que tornassem 
viáveis as suas posições científicas. A separação do valor de verdade de uma teoria dos 
seus condicionamentos históricos e sociais – que surge, em uma primeira leitura, como 
uma limitação involuntária – se torna, depois da cuidadosa avaliação do contexto da sua 
produção levado a cabo por Loren Graham, uma atitude deliberada (GRAHAM, 1985, 
pp. 705­722).
Sabemos  que  todo  esse  contexto  permaneceu  desconhecido  durante  mais  de 
cinquenta anos e que o texto de Boris Hessen passou à tradição e influenciou toda uma 
geração  de  historiadores  da  ciência  no  Ocidente  que  ignorava  a  maior  parte  dessas 
condições de produção. Por outro  lado,  era bem conhecida  a  assombrosa  ascensão da 
União Soviética. Desde 1917, o espectro de uma Modernidade alternativa assombrava a 
Europa, afirmando­se como uma sociedade superior à civilização capitalista e destinada 
a  triunfar  sobre  esse  sistema.  O  surgimento  desse  colosso  oriental  –  que  prometera 
realizar para a humanidade aquilo que a Revolução Francesa havia deixado inacabado e 
que transformara um país com uma estrutura econômica e social extremamente arcaica e 
um  governo  nos  moldes  do  Absolutismo  em  uma  potência  industrial  aparentemente 
imune à grande depressão que assolara os países capitalistas – causou preocupação nas 
potências  europeias  ao  mesmo  tempo  em  que  atraiu  uma  parcela  significativa  da 
55
juventude  universitária  do  continente  para  as  fileiras  do  comunismo  (HOBSBAWM, 
2006, pp. 63­89; HILL, 1967)32. 
O  regime  instaurado  após  a  revolução  de  outubro  na  Rússia  tinha  grande 
interesse  no  campo  das  Políticas  de  Ciência  e  Tecnologia.  De  acordo  com  Loren 
Graham, “nenhum governo anterior na história  foi  tão abertamente e  energicamente a 
favor  da  ciência”  (GRAHAM,  1967,  pp.  32­33)33.  Os  soviéticos  apostaram  na 
modernização  do  país  com  uso  das  ciências  naturais  e  no  seu  poder  de  transformar 
radicalmente a sociedade soviética, não apenas através do uso da tecnologia e da ciência 
na indústria e na economia, mas também na construção de uma cultura despida de todo 
“misticismo”,  de  um  “novo  homem”.  Não  só  a  direção  da  economia  devia  ser 
organizada  com  base  em  princípios  científicos,  mas  toda  a  vida  social  deveria  ser 
“racionalizada”. 
Por  outro  lado,  a  própria  atividade  científica  deveria  ser  reorganizada  para  se 
adequar  aos  moldes  do  comunismo  e  à  construção  da  novasociedade.  Assim,  nos 
últimos anos da década de 1920 é implementado na URSS um processo de planificação 
do  trabalho  científico  com  vistas  a  aperfeiçoar  a  utilização  dos  seus  recursos.  Esse 
fenômeno  ocorre  quase  em  simultaneidade  com  o  fim  da  Nova  Política  Econômica 
(NEP, na  sigla  em  russo)  adotada  após  a guerra  civil  e o  início da  coletivização e da 
industrialização  forçada  que  marca  a  ascensão  de  Stalin  ao  poder.  Essas  mudanças 
acabaram dando fim a um período, entre 1922 e 1928, de relativa liberdade de pesquisa. 
A  íntima  relação  entre  técnica  e  ciência  defendida  pelo  marxismo  oficial,  o  pavor  à 
abstração  vazia  e  a  ênfase  na  ciência  como  peça  importante  na  estrutura  produtiva 
colocavam o controle da ciência como uma atividade prioritária para o Estado soviético. 
Além disso, a convicção de que a ciência era fruto dos interesses da classe dominante e 
uma expressão do estado das  forças produtivas –  ligada ao domínio da necessidade – 
fazia  com  que  ela  fosse  vista  como  socialmente  dirigida  e,  portanto,  dirigível 
(GRAHAM, 1967, pp. 32­79).
32 É verdade que a Rússia, desde a década de 1860, se inseria timidamente no processo de modernização, 
com o  surgimento  de  algumas  indústrias,  a  construção  de  ferrovias  e  instalação  de  linhas  de  telégrafo 
financiadas  por  capital  estrangeiro.  A  distância  para  as  economias  mais  dinâmicas  da  Europa  era, 
contudo,  gigantesca.  Em  relação  à  estrutura  política,  o  czar  Nicolau  II  repetia  frequentemente  que 
governava por “direito divino” e repelia qualquer tentativa de ampliação da participação da sociedade nas 
decisões estatais.
33 No original: “No previous government in history was so openly and energetically in favor of science”. 
Tradução minha.
56
Isso  explica  também  porque  o  controle  da  ciência  tinha  como  um  objetivo 
fundamental  a  destruição  da  “ciência  burguesa”  e  a  edificação  de  uma  “ciência 
socialista”,  que  passava  pela  recuperação  de  uma  suposta  tradição  genuinamente 
materialista presente na ciência moderna.
Esses  objetivos,  porém,  não  estavam apenas  restritos  aos  interesses  oficiais  da 
URSS. Espraiaram­se para além de Moscou e  fizeram parte das aspirações de diveros 
historiadores das ciências de matriz marxista. Entre eles, um dos mais importantes foi o 
inglês John Desmond Bernal. Como muitos historiadores das ciências da sua geração, 
Bernal era um cientista natural de formação. E um dos grandes, tendo trabalhado com os 
principais nomes da ciência do seu tempo e circulado pelas instituições científicas mais 
importantes da Grã­Bretanha, como a Royal Society, da qual foi membro desde 1937. É 
considerado uma das figuras capitais da ciência britânica do século XX. Suas pesquisas 
na  área  de  cristalografia  foram  fundamentais  para  os  desenvolvimentos  da  físico­
química e da bioquímica posteriores, fornecendo algumas das técnicas utilizadas ainda 
hoje  e  possibilitando  as  pesquisas  que  conduziriam,  por  exemplo,  à  dupla  hélice  do 
DNA. Em 1945,  recebeu a Royal Medal, maior condecoração da ciência britânica por 
suas  contribuições  à  cristalografia,  e  o  Prêmio  Stalin  da  Paz  (depois  rebatizado  de 
Prêmio Lênin da Paz, em meio ao processo de desestalinização do período Khrushchev) 
em 1953  (HODGKIN, 1980). Especula­se  que o prêmio Nobel  não  lhe  foi  concedido 
por suas convicções ideológicas. 
Segundo  Gary  Werskey  (2007,  pp.  404­405),  foi  o  impacto  causado  pela 
delegação soviética no já mencionado Congresso de História da Ciência e da Tecnologia 
que possibilitou a conversão de Bernal e de um grupo de jovens cientistas ao marxismo. 
Eles faziam parte de uma geração de desiludidos com o capitalismo liberal na esteira do 
fim da Primeira Guerra Mundial e da crise de 1929 e com a incapacidade desse modelo 
político e econômico de utilizar a ciência em benefício da sociedade. Em oposição ao 
pessimismo  britânico,  os  soviéticos  anunciavam  uma  sociedade  que  não  havia  sido 
afetada pela crise e na qual a ciência estaria alcançando seu auge e direcionando seus 
esforços para o bem­estar coletivo. Essa perspectiva  implicava em uma nova abertura 
para  as  Políticas  de  Ciência  e  Tecnologia,  fortemente  influenciada  em  uma  leitura 
sociológica  e  embasada  em  um  conceito  de  história  (e  de  história  das  ciências) 
completamente diferente daquele a que estavam acostumados os intelectuais ocidentais. 
Não  tratarei  aqui  da  sociologia  da  ciência  inaugurada  por  Bernal  no  seu  clássico  de 
57
1939,  The  social  function  of  science.  Lidarei  prioritariamente  com  a  sua  grande 
compilação  de  história  das  ciências  elaborada  após  a  Segunda  Guerra  Mundial  e 
publicada pela primeira vez em 1954 sob o título de Science in history.
Bernal  chegou  à  história  (e  também  à  sociologia)  das  ciências  através  da 
militância política. Utilizava deliberadamente a história das ciências, como Hessen antes 
dele  e  como  muitos  marxistas  do  seu  tempo  e  depois,  para  afirmar  a  incapacidade 
estrutural  do  capitalismo  de  distribuir  igualmente  as  riquezas  e  proporcionar  uma 
sociedade mais justa. Sua interpretação prioriza as interferências mútuas entre ciência e 
sociedade,  inscrevendo­se  no  campo  da  história  social  –  que  já  possuía  uma  larga 
tradição na Inglaterra e que justamente nesse período se renovava à luz do materialismo 
histórico e se agrupava em torno da New Left Review34. 
A história  social  das  ciências,  distintiva  da  corrente  externalista, mantinha  seu 
foco  nas  maneiras  como  a  ciência  servia  antes  de  tudo  à  transformação  do  mundo 
material. A abordagem de Bernal dá um tom funcionalista ao processo, a ciência possui 
um papel  social  a  desempenhar,  surge  como uma demanda derivada de problemas de 
ordem  técnica  e  econômica,  está  sempre  à  serviço  de  um modo  de  produção.  Desse 
modo,  o  autor  critica  duramente  a  noção  de  “ciência  pura”  e  a  ênfase  nas  suas 
características abstratas:
De fato, o ideal da ciência pura – a busca da Verdade por si mesma – é 
a  afirmação  consciente  de  uma  atitude  social  que  fez  muito  para 
impedir o desenvolvimento da ciência e ajudou a colocá­la nas mãos 
de obscurantistas e reacionários (BERNAL, 1954, p. 17)35.
Assim, o papel da história das ciências é o de desvendar a dimensão social das 
teorias, expor as correlações entre estas e a estrutura social vigente, inserindo a ciência 
na função que lhe cabe em determinado momento histórico. Ao longo de toda a história 
humana,  da  Idade  da  Pedra  à  Era  Atômica,  Bernal  constrói  um  padrão  de 
desenvolvimento  da  ciência. Os  longos  períodos  de  relativa  inatividade  entrecortados 
por surtos de  transformação  intensa não estão associados ao surgimento de  indivíduos 
capazes  de  revolucionar  o  conhecimento  disponível,  elevando­o  a  outro  patamar,  não 
34 Esse grupo, que  incluía autores da  importância de Eric Hobsbawm, Edward Thompson, Christopher 
Hill,  Raymond  Willians  e  Perry  Anderson,  se  tornaria  a  maior  força  de  renovação  da  historiografia 
inglesa do século XX. Sua relação com essa história das ciências que se desenvolvia, apesar da afinidade 
ideológica,  não  era  muito  próxima.  Christopher  Hill  tratou  do  papel  da  ciência  no  seu  livro Origens 
intelectuais da revolução inglesa e Hobsbawm, em parte por sua relação pessoal com Joseph Needham, 
incluiu capítulos sobre ciência nas suas Eras.
35 No original: “Indeed, the ideal of pure science – the pursuit of Truth for its own sake – is the conscious 
statement of a social attitude which has done much to hinder the development of science and has helped 
to put it into obscurantist and reactionary hands”. Tradução minha.
58
são gênios “à frente do seu tempo”.work  highlights 
four historical periods pointing to their main historiographical characteristics and to the 
ways  that  different  attitudes  about  the  past  of  science  legitimize  certain  agreements 
between  science,  State,  and  society  (but  also  resist  and  contest  others).  First,  the 
classical  period  of  the  “internalist  versus  externalist  quarrel”  from  the  1930’s  to  the 
1960’s. The second moment  is  the rising of  the “Kuhnian tradition”,  that  is,  the depth 
and direction of  the changings suffered by  the history of sciences under  the  impact of 
Thomas Kuhn’s  famous essay The structure of  the scientific revolutions. The  two  last 
periods  are  seen  through  the  analyses  of  two  books  that  represent wider movements. 
Simon  Schaffer  and  Steven  Shapin’s  Leviathan  and  the  air­pump  was  taken  as  an 
example  of  the  historiography  produced  in  the  1980’s,  a  moment  of  huge 
transformations  in  the  relations between science and  the State and of  intense dialogue 
with  the  science  studies,  and  with  the  concept  of  technoscience.  Finally,  the  book 
Objectivity, by Lorraine Daston and Peter Galison, served as a stand  to an analysis of 
the main  outlines  of  the  historiography of  sciences  at  the  turn  of  the  twentieth  to  the 
twenty­first century – stressing how this book proposes the radical historicity of science. 
The  research  over  the  process  of  disciplinarization  of  the  history  of  sciences  deals 
simultaneously  with  the  transformation  of  science  in  an  object  of  history  and  their 
implications. 
Keywords: History of sciences, History of historiography, Twentieth Century. 
Sumário
Introdução.......................................................................................................................9
Parte I. A ordem dos fatores........................................................................................20
1. A centralidade da teoria...................................................................................20
2. Ordem social, ordem cognitiva........................................................................49
Parte II. Da Big Science à tecnociência......................................................................77
3. A comunidade científica como solução política..............................................77
4. O passado da tecnociência.............................................................................101
5. O self e a comunidade....................................................................................142
Conclusão ou ciência, objeto da história...................................................................186
Referências Bibliográficas..........................................................................................199
9
Introdução
Uma das estratégias recorrentes de deslegitimação dos discursos com pretensão 
à verdade, na Modernidade Ocidental, é o “desmascaramento  ideológico”. Trata­se de 
revelar,  na  “essência”  de  um  discurso  –  por  baixo  da  “mera  retórica”  de  veracidade, 
necessidade ou cientificidade –, um argumento de fundo teológico ou (como ocorre com 
mais  frequência  na  contemporaneidade)  político.  Obedece  à  estratégia  da  denúncia, 
voltada  para  os  inimigos  e  apontando  para  as  “imposturas  intelectuais”.  Pauta­se  no 
vocabulário  do  desvio,  do  erro,  da  distorção;  trata­se,  em  uma  palavra,  de  uma 
abordagem assimétrica, na definição de David Bloor  (2009). Nesta pesquisa,  evito ao 
máximo essa assimetria.
Nesta  tese, parto do pressuposto que  toda obra de história das ciências guarda, 
em  seu  discurso,  um  conteúdo  de  Política  de  Ciência  e  Tecnologia.  Todo  texto  de 
história  das  ciências  endossa,  critica  ou  propõe  um  pacto  entre  a  ciência  e  o  Estado; 
estabelece  um modo  de  relação  entre  a  ciência  e  a  sociedade.  Como  toda  história,  a 
história das ciências fala do seu tempo e para ele; sua condição política não pode (e nem 
deve)  ser  eliminada,  não  é  um motivo  para  queixumes  ou  tentativas  de  correção  em 
busca da “objetividade” e da “neutralidade”. Ressaltar essa condição não significa, para 
a  perspectiva  adotada,  apontar  para  uma  fonte  de  perturbação  na  produção  do 
conhecimento histórico. Esse é um ponto de partida: é dele que se seguirão as análises 
desenvolvidas  aqui.  A  leitura  das  tensões  entre  “fatores  internos”  –  racionais, 
cognitivos, intelectuais – e “fatores externos” – sociais, culturais, econômicos, políticos 
– na história das ciências será feita a partir desse registro.
A  definição  do  que  vem  a  ser  ciência,  incluindo  aí  o  que  foi  a  ciência  no 
passado, é sempre uma definição política com sérias implicações. Tal definição autoriza 
e  legitima  certas  práticas  discursivas  e  epistêmicas,  ao mesmo  tempo  em  que  nega  e 
proíbe  outras;  inclui  e  exclui  sujeitos  e  grupos;  delega  direitos  e  deveres;  impõe 
condutas e estabelece relações de força; garante acesso a recursos. Enfim, instaura um 
campo  de  positividades  específicas  de  cada  definição.  Mesmo  a  historiografia  das 
ciências mais recente, que evitou uma definição rigorosa e sistemática do seu objeto, o 
fez tomando uma posição neste embate. Com efeito, a falta de uma definição clara já se 
configurava como uma tomada de posição. Ao negar as variadas definições – que, como 
veremos, quase nunca concordavam entre si – formuladas na primeira metade do século 
10
XX e  substituí­las por um conjunto de proposições que deixa  em aberto pontos  antes 
considerados fundamentais, a historiografia contemporânea dilui a rigidez das fronteiras 
entre  o  “interno”  e  o  “externo”  na  ciência;  põe  em  xeque  essa  divisão  e,  com  ela, 
modelos de história e filosofia das ciências que a criaram e a legitimavam. Os critérios 
que  garantem  cientificidade  a  uma  prática  social  são  buscados  cada  vez  menos  em 
epistemologias  normativas  ou  logicistas  e  cada  vez  mais  na  cultura  e  na  história.  A 
recusa a uma definição  formal de ciência é acompanhada de uma guinada em direção 
aos usos locais e condicionamentos pragmáticos. Com isso, visavam intervir em certos 
circuitos  políticos  e  estruturas  sociais  nos  quais  essa  imagem  de  ciência  circulava 
(STENGERS, 2002; LAKATOS, 1998; PESTRE, 1996).
Não seria um exagero muito grande afirmar que a questão da demarcação entre 
ciência  e  não­ciência  figurou  como  o  principal  problema  da  filosofia  das  ciências  na 
primeira metade do  século XX. A busca por  critérios  satisfatórios para  estabelecer os 
fundamentos  da  ciência  e  sua  distinção  de  outros  campos  da  vida  social  alimentou 
algumas  das  mentes  mais  poderosas  do  século  e  fundou  as  principais  correntes 
filosóficas  do  período.  Foi  também  em  torno  desse  problema  que  muito  do  debate 
crítico se desenvolveu. A corrente principal da nascente sociologia da ciência dedicou­
se a estabelecer os critérios que diferenciavam a ciência de outras esferas da vida social 
e  garantiam  a  sua  autonomia  em  relação  a  elas.  Na  historiografia,  o  problema  da 
demarcação também conheceu a sua forma de manifestação, sob a rubrica da “querela 
internalismo x externalismo”. Como pretendo apontar adiante, essa historiografia não é 
apenas fruto da discussão filosófica; em ambos os campos esse debate surge a partir da 
mesma configuração histórica e, em especial, da condição da ciência e sua relação com 
o Estado  em  dois momentos  distintos:  na  euforia  epistemológica  da  virada  do  século 
XIX  para  o  século  XX  e  na  consolidação  da  Big  Business  Science  após  1945. 
Obviamente, os desenvolvimentos na filosofia, na sociologia e na história das ciências 
se retroalimentavam na forma de convergências ou acalorados contrapontos. 
A demarcação doOs saltos que ocorrem no conhecimento da natureza 
estão diretamente  ligados  à  criação de novos modos de produção,  à  ascensão de uma 
nova classe dominante e ao surgimento de novas demandas técnicas e econômicas (para 
o  favorecimento dessas classes e não da sociedade como um todo). A ciência não é a 
busca pela verdade, mas a busca por soluções.
O  caráter  classista  da  ciência  é  explicado  não  apenas  em  termos  de  domínio 
político  e  econômico,  mas  pela  própria  maneira  como  a  ciência  e  a  sociedade  se 
estruturam historicamente. Devido  ao  seu  caráter  formal  e  à  exigência de domínio de 
certas habilidades intelectuais – leitura e escrita, matemática – restritas a certas camadas 
da  sociedade,  a  ciência  não  poderia  ser  praticada  indistintamente.  Além  disso,  a 
possibilidade de dedicar tempo às atividades científicas antes da sua profissionalização 
na  segunda metade  do  século XIX  era  um privilégio  das  camadas  dominantes. Dessa 
característica  seguem dois  resultados. Em primeiro  lugar,  isso  implica  em um avanço 
mais  lento,  já  que  muitos  dos  que  poderiam  contribuir  com  o  seu  talento  para  o 
desenvolvimento  do  conhecimento  são  excluídos  da  prática  da  ciência.  Em  segundo 
lugar,  o  conhecimento  produzido  e  (mais  importante)  as  suas  aplicações  práticas 
tendiam  a  aumentar  a  exploração  (BERNAL,  1954,  p.  394).  Segundo  o  autor,  os 
períodos  mais  frutíferos  de  desenvolvimento  científico  ocorrem  justamente  quando  a 
barreira entre classes sociais diferentes diminui ou é abolida (BERNAL, 1954, pp. 867­
873).  
Dessa  concepção  conclui­se  que  a  ciência  é  regida  por  fatores  externos,  as 
causas  das  suas  transformações  escapam  ao  seu  alcance,  residem  na  tensão  dialética 
entre  forças  produtivas  e  relações  de  produção,  embora  ela  possa  retroalimentar  essa 
tensão  (e  geralmente  o  faz).  A  história  das  ciências  seria  a  história  de  como  o 
conhecimento  da  natureza  se  acomoda  a  uma  nova  situação  histórica,  como  ele  é 
moldado por forças estruturais às quais ela não pode controlar, das quais participa como 
expressão  super­estrutural  e  como parte  integrante  da  reprodução de  certos modos  de 
produção.  A  função  social  da  ciência  lhe  é  determinada  de  fora.  É  um  instrumento 
essencial para a manutenção (ou  transformação) das estruturas sociais. Desse modo, a 
melhor  alternativa para o desenvolvimento da  ciência  é  a  planificação  (defendido por 
Hessen e aparentemente bem sucedido na URSS entre os anos 1930 e 1950). O modelo 
de  ciência  planificada  só  encontraria  oposição  das  classes  dominantes  e  seus 
representantes  intelectuais  (que,  de  acordo  com  essa  perspectiva,  já  dirigia  a  ciência 
59
para  os  seus  interesses)  ou  por  aqueles  que,  sob  o  impacto  traumático  da  utilização 
maciça  de  ciência  e  tecnologia  nos  esforços  de  guerra  e  incapazes  de  imaginar  uma 
sociedade  diferente,  viam  o  planejamento  apenas  como  gerador  de  sofrimento  e 
destruição (BERNAL, 1954, pp. 582­585). 
No entanto, a narrativa produzida por Bernal parece não conseguir demonstrar o 
efeito  dos  fatores  externos,  da  estrutura  econômica  e  social  de  determinada  época 
histórica,  na  sua  respectiva  estrutura  cognitiva  –  assim  como  Boris  Hessen,  com  a 
diferença  significativa  de  que  o  físico  russo  evitou  esse  passo  deliberadamente, 
enquanto Bernal se esforça para demonstrar essa dependência. Com a exceção de alguns 
exercícios pouco satisfatórios, como a relação entre o lugar central ocupado pelo Sol na 
astronomia copernicana e a metáfora do le Roi Soleil das monarquias absolutas36, ou, o 
que me parece bastante interessante, embora incompleto, a associação entre a estrutura 
rígida,  hierárquica,  fechada  e  imobilista  da  astronomia  aristotélica  com  a  sociedade 
feudal  e  a  nova  imagem  do  universo  indefinido,  aberto,  dinâmico  e  homogêneo 
vinculada  a  uma  sociedade  capitalista;  em  ambos  os  casos,  as  formações  sociais 
poderiam  ser  definidas  quase  nos  mesmos  termos  das  suas  concepções  astronômicas 
(BERNAL, 1954, pp. 279­344). De maneira geral, as mudanças econômicas e técnicas 
indicam  a  direção  que  deve  ser  seguida  pela  ciência,  mas  não  o  ponto  no  qual  ela 
chegará. Para Bernal, e esse é um argumento decisivo para a concepção externalista da 
história  das  ciências,  o  que  há  de  mais  importante  para  se  compreender  na  ciência 
encontra­se  do  lado  de  fora  das  mentes  dos  cientistas.  Não  se  busca  a  abstração  (o 
método), mas as suas origens materiais.
De  qualquer  modo,  será  apenas  nos  anos  1970  e  1980  que  a  historiografia 
começará  a  avançar  nesse  problema,  partindo  sobretudo  de  estudos  de  caso  mais 
detalhados.  
Ao mesmo  tempo,  na  descrição  apresentada  para  o método  da  ciência, Bernal 
mantém  uma  postura  bastante  tradicional,  próxima  de  abordagens  empiristas 
filosoficamente pobres. Embora considere que o método científico seja uma abstração 
da  forma  de  organização  institucional  da  ciência,  o  autor  limita­se  a  considerar  o 
método  científico  como um caso  especial  das  operações  do  senso  comum,  requeridas 
não  mais  em  situações  cotidianas  de  sobrevivência  e  intercâmbio  material,  mas  nas 
36 Embora a referência explícita a este epíteto só tenha sido utilizada no reinado de Luis XIV, um século 
após a publicação do De revolutionibus orbium coelestium.
60
situações  específicas  de  investigação  dos  fenômenos  naturais.  Assim,  observações  e 
experimentos,  leis,  hipóteses  e  teorias,  aparelhos,  classificação  e medição  e mesmo  a 
linguagem da ciência são derivadas do uso comum. A diferença entre as suas utilizações 
habituais e científicas está simplesmente no maior controle às quais essas operações são 
submetidas.  A  justificável  preocupação  com  a  afirmação  de  uma  história  social  das 
ciências e a óbvia impossibilidade de tratar de todos os temas relevantes em uma mesma 
obra – além da necessidade de uma definição que seja elástica o suficiente para permitir 
falar  de  ciência  em  todas  as  épocas  históricas  –  parece  resultar  na  pouca  atenção 
dedicada aos procedimentos internos da ciência.
No  entanto,  as  grandes  críticas  ao  projeto  de  Bernal  não  decorrem  da  sua 
abordagem  historiográfica,  mas  da  opção  política  que  a  informa.  Foi  a  defesa 
intransigente da planificação como única forma de garantir o progresso – o que na Grã­
Bretanha ficou conhecido como “bernalismo” – que provocou as mais acesas reações. Já 
em  1938,  um  grupo  de  cientistas  britânicos  liderados  por  Michael  Polanyi  –  um 
polímata húngaro que emigrara para a Europa ocidental depois da anexação da Hungria 
à URSS – e John Baker criou a Society for Freedom in Science (SFS) como resposta ao 
surgimento, no interior da British Association for the Advancement of Science, de uma 
divisão  dedicada  a  fornecer  orientações  sociais  para  o  progresso  da  ciência.  Para  os 
líderes da SFS, o “bernalismo” constituía, do ponto de vista teórico, um ataque à ciência 
pura  –  já  que  a  nobre  ciência  seria  reduzida  apenas  à  busca  um  tanto mesquinha  por 
necessidades econômicas e materiais – e, de uma perspectiva mais prática, um perigo à 
autonomia  intelectual  e  à  liberdade  dos  cientistas  de  decidirem  o  tópico  das  suas 
pesquisas  e  a  maneira  adequada  de  conduzi­las  (FULLER,  2007;  POLANYI,  1964; 
WERSKEY, 2007, pp. 412­413).  
As fortes contradições que polarizavam a Europa naqueles anos  imediatamente 
anteriores à Segunda Guerra (e que foram momentaneamente suspensos na união contra 
o  inimigo  comum,  o  nazi­fascismo)  ainda  não  haviam  alcançado  a  escala  global  que 
marcariamo período da Guerra Fria, mas  já  se manifestavam claramente na ciência e 
nas formas de interpretar a sua história. O próprio Polanyi, por exemplo, insistiria que 
existem certos elementos na ciência que são tácitos, não são passíveis de sistematização 
ou formalização e dependem profundamente de julgamentos e compromissos pessoais. 
Essa  tese  servia  imensamente  na  batalha  pela  “liberdade”  contra  a  planificação.  A 
dimensão  tácita  impede a compreensão completa de  todas as operações envolvidas na 
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criação  científica.  Essa  compreensão  parcial,  por  sua  vez,  impede  o  controle  dessas 
operações e a sua devida planificação. A inserção de um componente impossível de ser 
racionalizado não visava atacar a racionalidade da ciência, mas as pretensões socialistas 
de “racionalização da sociedade”. A ideia de uma dimensão tácita na atividade científica 
seria depois parcialmente apropriada por outros autores, como Thomas Kuhn ou Harry 
Collins.
Outro  autor  da  “tradição  marxista”  que  devemos  mencionar  aqui,  por  sua 
importância  na  formulação  de  uma  explicação  da  ciência  que  leve  em  conta  a  sua 
dimensão social, é Edgar Zilsel37. Em trabalho recente, Mauro Condé (2015, pp. 35­42) 
toma  a  chamada  “tese  de  Zilsel”  como  uma  síntese  da  corrente  externalista.  A 
elaboração  dessa  tese  se  dá  de maneira  fragmentária,  uma  vez  que  trajetória  pessoal 
desse historiador e filósofo austríaco (participou do Círculo de Viena) que migrou para 
os Estados Unidos com a ascensão do nazismo e a  iminente anexação da Áustria pela 
Alemanha,  não  permitiu  uma  sequência  na  sua  carreira  acadêmica.  Ao  contrário  de 
outros  intelectuais que  fugiram do nazismo, Zilsel  teve dificuldades  em encontrar um 
posto em uma universidade norte­americana, tendo conseguido produzir alguns artigos 
durante o período que contou com uma bolsa de estudos. Cometeu  suicídio em 1944. 
Deixou  uma  produção  relativamente  pequena,  composta  principalmente  de  textos 
curtos. Minha  análise  estará  fundada  em  uma  breve  exploração  da  “tese  de  Zilsel”  a 
partir  de  dois  artigos: The  sociological  roots  of modern  science  e The Genesis  of  the 
concept of physical law, ambos publicados em 1942.
Nesse  último  texto,  o  autor  faz  uma  história  da  criação  do  conceito  de  “lei 
natural”  passando  em  revista  uma  vasta  literatura. Atravessa  toda  a  cultura  ocidental, 
usando  fontes  da  antiguidade  –  escritos  tão  diversos  quanto Anaximandro  e  a Bíblia, 
com  citações  marginais  ao  monoteísmo  egípcio,  mas  também  Platão,  Aristóteles  e 
Arquimedes  –,  abordando  a  concepção  medieval  e  chegando,  finalmente,  aos 
fundadores da ciência moderna. Ao longo desse percurso, a apresentação das ideias dos 
autores é eventualmente pontuada com observações sobre a “importância das mudanças 
sociais para a história das ideias” (ZILSEL, 1942, p. 267, n. 79)38. O objetivo central 
do  texto  é mostrar  que  o  conceito,  embora  apareça  de  forma  embrionária  em  alguns 
37  Diferentemente  de  Boris  Hessen  ou  John  Bernal,  Zilsel  não  pretendia  “aplicar”  o  materialismo 
histórico  marxista  à  análise  das  ciências.  A  sua  história  social  das  ciências  é  tributária  direta  da 
interpretação marxista sem, contudo, resumir­se a ela.
38 No original: “the importance of social changes to the history of ideas”. Tradução minha.
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textos e possua certas raízes antigas cuja origem pode ser traçada, vai adquirir a forma 
atual  a  partir  da  combinação  de  elementos  que  somente  se  torna  possível  em 
determinado contexto social. 
A transformação da metáfora jurídica e teológica em um conceito central para a 
moderna concepção de ciência, a transformação de uma noção vaga e ambígua em um 
conceito denso e preciso é obra de um novo ambiente social. O difícil deslocamento do 
terreno  da  teologia  para  o  terreno  da  filosofia  natural  é  uma  tarefa  que  se  inicia  em 
Descartes, se prolonga na primeira geração da Royal Society e ganha com Newton uma 
forma mais precisa. É a partir da imensa repercussão da obra de Newton que o conceito 
de  “lei  natural”  se  instala  definitivamente  na  concepção  de  natureza  e  a  metáfora 
jurídica é abandonada em  favor de uma noção estritamente científica  (ZILSEL, 1942, 
pp. 267­274). O entrelaçamento desses campos discursivos (teologia e filosofia natural) 
é  uma  marca  desse  período;  com  efeito,  poderíamos  dizer  que  a  divisão  entre  esses 
campos  e  a  sua  autonomização  também  é  uma marca  desse  período,  algo  que  para  a 
sociedade moderna parece bem estabelecido  e  evidente. No  caso do  conceito de  “leis 
naturais”, esse processo pode ser expresso na visão de Deus como um legislador que, no 
momento  da  criação  do  mundo,  enunciou  as  leis  que  regem  a  natureza  e  que  ela  é 
obrigada e obedecer. 
Depois de se ocupar ao longo de trinta páginas com a descrição dessa trajetória, 
Zilsel  propõe  explicar  porque  esse  conceito  surgiu  em  determinado  tempo  e  lugar  e 
assumiu  determinada  forma.  Antes  de  passar  à  explicação,  ele  afirma  que  não  é 
suficiente  apontar  para  a  força  da  tradição  religiosa  como  fonte  de  concepções 
metafísicas presentes na ciência. Afinal de contas, a noção de “lei natural” não decorre 
diretamente  da  experimentação  e  da  percepção  de  regularidades  nos  fenômenos;  pelo 
contrário, ela é anterior e imprime na observação a busca incessante por regularidades, 
por vezes difíceis de constatar, exigindo soluções matemáticas complexas. Se não basta 
recorrer  à  teologia  (ou  ao  domínio  das  ideias,  em  geral),  como  podemos  explicar  o 
surgimento desse conceito? É aí que Zilsel expõe a sua interpretação externalista. É na 
configuração do Estado que devemos buscar a solução. A forma política do capitalismo 
nascente,  o  Absolutismo,  necessita  de  uma  concepção  diferente  de  lei  e  fornece  o 
modelo  para  a  noção  de  natureza.  A  própria  noção  religiosa  do  “reino  de  Deus”  – 
inspiração  teológica para  a  ciência moderna – decorre dessa  transformação do Estado 
feudal  pulverizado  e  dos  laços  sociais  que  o  sustentam  para  o  Estado  moderno 
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centralizado. O domínio da lei racional é uma necessidade do capitalismo mercantil e do 
Estado moderno, ele determina a visão de mundo dos filósofos naturais desse período. 
Essa explicação macro­sociológica da noção de “lei natural” é um exemplo do projeto 
mais amplo desenvolvido por Zilsel. A sua expressão geral será desenvolvida no texto 
que passo agora a analisar: The sociological roots of science.
O  problema  que motiva  esse  artigo  é  comum  à  grande  parte  da  história  e  da 
sociologia  das  ciências  dos  anos  1930  e  1940.  Por  que  a  ciência  só  se  desenvolve 
plenamente na Europa Moderna? Que motivos impedem a realização completa de uma 
atividade científica em outras civilizações? Distanciando­se do positivismo, o autor faz 
uma importante ressalva: 
Estamos  muito  inclinados  a  considerar  a  nós  mesmos  e  a  nossa 
civilização  como  o  auge  natural  da  evolução  humana.  Dessa 
pressuposição  se  origina  a  crença  de  que  o  homem  simplesmente  se 
torna  mais  e  mais  inteligente  até  que  um  dia  alguns  grandes 
investigadores e pioneiros apareceram e produziram a ciência como o 
último  estágio  de  uma  ascensão  intelectual  linear.  Portanto,  não  se 
percebe  que  o  pensamento  humano  se  desenvolve  de  maneiras 
variadas e divergentes – entre as quais uma é científica. Esquecemos 
como é extraordinário que a ciência  tenha surgido especialmente em 
certo período e sob certas condições sociológicas  (ZILSEL, 2000, p. 
936, grifo meu).39 
De  acordo  com  esse  argumento,  a  principal  tarefa  da  pesquisa  histórica  das 
ciências  é  investigar quais  são essas  condiçõese  como elas determinam as  formas de 
conhecimento  necessárias  e  possíveis.  Em  Zilsel,  essas  condições  dizem  respeito  – 
como já apontei em relação ao conceito de “lei natural” – à estrutura social do início da 
Era Moderna. Dois conjuntos principais de argumentos são mobilizados. Em um plano, 
se  encontram  as  profundas mudanças  sociais  que marcam  a  passagem  do  feudalismo 
para o capitalismo: as cidades se tornam os centros de produção de cultura; a tecnologia 
se  desenvolve  rapidamente,  acarretando  na  maior  utilização  de  máquinas  para  a 
produção e para a guerra; a competição econômica estimula o individualismo e a crítica 
da  autoridade  constituída;  o  restabelecimento  da  atividade  mercantil  impõe  a 
necessidade de contar e calcular, obriga a  retomada da matemática e da  racionalidade 
quantitativa  para  fins  práticos;  essa  racionalidade  dissolve  os  antigos  vínculos 
39 No original: “We are only too inclined to consider ourselves and our own civilization as  the natural 
peak of human evolution. From this presumption the belief originates that man simply became more and 
more intelligent until one day a few great investigators and pioneers appeared and produced science as the 
last stage of a one­line  intellectual ascent. Thus  it  is not  realized  that human thinking has developed  in 
many and divergent ways – among which one is the scientific. One forgets how amazing it is that science 
arose at all and especially in a certain period and under special sociological conditions”. Tradução minha.
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tradicionais e cria novas formas de interação social monetizadas, mediadas pelas trocas 
mercantis  (ZILSEL,  2000,  pp.  936­938;  CONDÉ,  2015,  pp.  37­38).  A  despeito  da 
validade dessas asserções – a bibliografia das décadas posteriores aos  textos de Zilsel 
tem reavaliado, por exemplo, a importância das cidades ou a extensão do renascimento 
comercial para a formação do mundo moderno (WOOD, 2001, pp. 21­35) –, o que deve 
ser ressaltado é a conexão necessária que o autor estabelece entre as estruturas sociais e 
as  formas de produzir conhecimento. Apesar de  reconhecer que, nesse  tipo de  leitura, 
determinada  visão  das  características  da  sociedade moderna  implicará  em  uma  noção 
específica de que  tipo de conhecimento pode ser produzido, o que nos  importa aqui é 
perceber uma estratégia narrativa e explicativa.
Em outra  escala,  uma mudança  complementar  criará  as  demandas  sociais  e  as 
condições  de  emergência  da  ciência  moderna.  Classes  sociais  que  mobilizavam 
racionalidades distintas vão se colocar em contato e produzir um tipo de prática social 
que  identificamos  com  a  ciência.  Ao  analisar  as  transformações  ocorridas  entre  os 
séculos  XIV  e  XVII,  Zilsel  vai  mostrar  como  o  estabelecimento  de  uma  sociedade 
burguesa  irá  romper  com  certas  barreiras  sociais  e  intelectuais  que  impediam  a 
realização  da  ciência.  Em  especial,  sua  atenção  se  volta  para  as  formas  de  interação 
entre  três “estratos sociais” produtores de formas diferentes de conhecimento. O saber 
da escolástica, encastelado nas universidades e solidamente fundado sobre a autoridade 
de autores antigos (Aristóteles, principalmente) e dos “Doutores da Igreja” (Agostinho 
de  Hipona,  Tomás  de  Aquino).  O  humanismo  renascentista,  que  se  volta  contra  a 
escolástica e propõe uma retomada de certas tradições antigas esquecidas ou proibidas 
pelo  saber  oficial.  Sua  condição  social  e  profissional  difere  do  primeiro  grupo:  esses 
autores  surgem nas  cidades  italianas  nos  séculos XIV  e XV, muitos  são  funcionários 
letrados das cortes ou da administração pública ou, em um período posterior,  literatos 
que vivem do patronato de nobres ou famílias abastadas. Da sua posição social deriva – 
afirma Zilsel – os seus objetivos intelectuais. A sua sobrevivência depende, em grande 
medida,  do  sucesso dos  seus  escritos,  da  força  dos  seus  argumentos;  é  através  desses 
escritos  que  os  patronos  ampliam  sua  fama  e  mantém  o  apoio  às  atividades  desses 
homens. Esses dois grupos, apesar de opostos, compartilham posturas fundamentais. No 
âmbito da cisão entre artes  liberais e ofícios mecânicos, entre atividades  intelectuais e 
trabalhos  manuais,  eles  se  posicionam  fortemente  a  favor  da  proeminência  das  artes 
liberais.  Essa  é  também  uma  divisão  de  classes,  já  que  o  trabalho  manual  era 
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considerado  menor,  inapropriado  para  a  nobreza  e  as  classes  dominantes.  O  terceiro 
grupo  é  o  representante  do  “saber  fazer”,  dos  ofícios  mecânicos.  São  os  artesãos, 
marinheiros,  carpinteiros,  arquitetos,  escultores,  mineiros,  construtores  de  navios, 
barbeiros,  cirurgiões,  boticários,  ourives  etc.  Esses  inventores  com  pouca  educação 
formal  (muitas  vezes  analfabetos)  desenvolveram  diversas  técnicas,  artefatos  e 
“trabalharam em silêncio pelo avanço da tecnologia e da sociedade moderna” (ZILSEL, 
2000, p. 941)40. Dentre estes, Zilsel (2000, pp. 940­941) destaca um grupo superior de 
artesãos  que  demandava  maiores  conhecimentos,  são  os  “artistas­engenheiros”,  cujo 
maior representante é Leonardo da Vinci. Esses seriam os “predecessores imediatos dos 
cientistas” (ZILSEL, 2000, p. 942)41. 
Pra  que  os  predecessores  se  tornassem  cientistas,  era  preciso  fazer  confluir 
características desses diferentes grupos; isso é, era necessário o surgimento de um novo 
grupo  capaz  de  realizar  essa  aproximação. A  questão  é  resumida  por Zilsel  (2000,  p. 
945):
No  geral,  a  ascensão  dos  métodos  dos  trabalhadores  manuais  às 
fileiras dos scholars academicamente treinados no final do século XVI 
é o  evento decisivo na gênese da  ciência. O estrato  superior poderia 
contribuir com formação lógica, erudição e interesse teórico; o estrato 
inferior  acrescentou espírito  causal,  experimentação, medição,  regras 
quantitativas  de  operação,  negligência  à  autoridade  escolar  e 
cooperação objetiva.42    
Esse é um processo sociológico. As barreiras que precisavam ser rompidas para 
produzir esse novo conhecimento eram barreiras sociais. A pergunta inicial (“por que a 
ciência  só  se  desenvolve na Europa Moderna?”)  se  transforma  em outra  questão:  que 
condições  sociais  existiam nesse  ambiente  social que permitiram o  surgimento de um 
programa  científico  pleno?  A  busca  por  condições  externas  ao  desenvolvimento  das 
ideias é o motor da explicação. A “tese de Zilsel”  então,  é que as  relações  sociais de 
produção no  capitalismo  tornam possível  a  emergência  da  ciência  (CONDÉ, 2015,  p. 
40;  ZILSEL,  2000,  p.  946).  “A  ascensão  da  ciência  é  normalmente  estudada  por 
historiadores  que  estão  interessados  principalmente  na  sucessão  temporal  das 
40 No original: “worked in silence on the advance of technology and modern society”. Tradução minha.
41 No original: “the immediate predecessors of science”. Tradução minha.
42  No  original:  “On  the  whole,  the  rise  of  the  methods  of  the  manual  workers  to  the  ranks  of 
academically  trained scholars at  the end of  the sixteenth century  is  the decisive event  in  the genesis of 
science. The upper stratum could contribute logical training, learning, and theoretical interest; the lower 
stratum added causal  spirit,  experimentation, measurement, quantitative  rules of operation, disregard of 
school authority, and objective co­operation”. Tradução minha.
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descobertas  científicas. Mas a gênese da  ciência pode  ser  estudada  também como um 
fenômeno sociológico” (ZILSEL, 2000, p. 946)43.  
Em meio à tão vigorosa oposição e mesmo depois da crise do marxismo no final 
da  década  de  1950,  o  insight  da  leitura  marxista,  que  se  contrapunha  tanto  ao 
positivismo  quanto  ao  internalismo,  foi  extremamente  importantepara  o 
desenvolvimento  da  história  das  ciências.  A  tese  geral  de  que  a  ciência,  em  seus 
aspectos mais  teóricos  ou  técnicos,  é  um  produto  do meio  social  se  tornaria  um  dos 
princípios da historiografia das ciências nas décadas  seguintes e  seria  reelaborada por 
diversos autores e correntes teóricas.
No  entanto,  os  marxistas  não  foram  os  únicos  que  contribuíram  para  a 
apreciação  mais  cuidadosa  dos  fatores  externos  à  ciência.  Outra  grande  contribuição 
veio  dos  escritos  do  sociólogo  Robert  King  Merton,  considerado  o  fundador  da 
sociologia da ciência nos Estados Unidos. Seu programa de investigação foi dominante 
entre  o  final  dos  anos  1930  e  os  anos  1960,  justamente  no  período  que  se  atribui  à 
vigência  da  querela  entre  o  internalismo  e  o  externalismo.  As  famosas  normas 
mertonianas e o seu papel na formação do ethos da ciência são objeto de debate, crítica 
e  revisão  por  parte  de  estudiosos  da  ciência  ainda  hoje.  Entre  1938  e  1942, Merton 
publicou  três  textos  que  rapidamente  inauguraram  uma  nova  área  de  pesquisa  e  se 
tornaram referências obrigatórias para as discussões sobre ciência e sociedade: são eles 
Science,  technology and society in Seventeenth Century England, A ciência e a ordem 
social e A ciência e a estrutura social democrática.   
O modelo elaborado por Merton era em grande medida uma tentativa de refutar 
simultaneamente  a  história  marxista  das  ciências  e  a  sociologia  do  conhecimento 
praticada  na  Alemanha  e  que  teve  Karl  Mannheim  como  um  dos  principais 
representantes. Essas duas interpretações possuem em comum a tentativa de relacionar 
ordem social e ordem cognitiva.
Em uma série de artigos escritos desde a metade dos anos 1920 e especialmente 
no  seu  Ideologia  e  utopia,  publicado  em  alemão  em  1929,  o  sociólogo  de  origem 
húngara formulou uma análise sociológica do pensamento e desenvolveu uma teoria da 
determinação  social  do  conhecimento  explorando  a  relação  entre  conhecimento  e 
existência  de  forma  bastante  sofisticada. Mannheim  se  voltou  contra  a  epistemologia 
43 No original: “The rise of science is usually studied by historians who are primarily  interested in  the 
temporal  succession  of  the  scientific  discoveries.  Yet  the  genesis  of  science  can  be  studied  also  as  a 
sociological phenomenon”. Tradução minha.
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tradicional  e  sua  forma  de  interpretar  o  conhecimento  de  forma  independente  do  seu 
contexto  de  produção;  tentou  demonstrar  que  o  conhecimento  não  se  desenvolve  de 
forma autônoma a partir da “natureza das coisas” ou de uma “lógica interna”, mas que 
sofre  influência  decisiva  de  fatores  externos,  inclusive  no  seu  conteúdo,  alcance  e 
intensidade  (MANNHEIM, 1986, pp. 289­290). Como sabemos, Mannheim preservou 
as  ciências  naturais  dessa  leitura,  que  se  aplicaria  ao  pensamento  social,  às  teorias 
políticas,  às  “ciências  culturais”  (na  terminologia  alemã)  e  à  filosofia.  No  entanto, 
apontou para as limitações na epistemologia praticada no mundo germanófono dos anos 
1920 e 1930 – criticando as suas pretensões fundacionalistas – e apontando um caminho 
para  a  investigação  sociológica  do  pensamento.  Para  Karl  Mannheim,  era  ingênua  a 
pretensão da epistemologia de se constituir como um conhecimento anterior à ciência, 
que  lhe  ditaria  os  limites  e  lhe  estabeleceria  as  bases.  A  epistemologia  está  sempre 
atrasada e se constrói a partir dos princípios valorizados por determinado conjunto de 
conhecimentos. Ela é a justificação filosófica a posteriori (ÁVILA, 2012; MAIA, 1992, 
2013; MANNHEIM, 1952, 1986).
A  distinção  entre  sociologia  da  ciência  e  sociologia  do  conhecimento  não  é 
apenas uma questão semântica. Em 1937, Merton publicou um artigo sobre a sociologia 
do conhecimento na revista Isis. Nesse texto, o sociólogo recenseia uma série de livros 
sobre o  tema  (embora concentrado nos  trabalhos de Mannheim),  fazendo­lhes  severas 
críticas.  Essa  perspectiva  estaria  levando  as  implicações  epistemológicas  da 
dependência  do  conhecimento  em  relação  à  posição  social  a  um  “nível  excessivo  e 
estéril”  (MERTON,  2013,  p.  95).  Tal  programa  –  indica  Merton,  recorrendo  a  um 
argumento que seria repetido ao longo do século XX – terá que lidar com o problema da 
verdade da própria perspectiva. “Como pode então Mannheim reivindicar validade para 
seu próprio pensamento?” (MERTON, 2013, p. 105). Se se afirma que todo pensamento 
social é dependente do grupo social que o gerou e corresponde a uma racionalização dos 
interesses  desse  grupo,  como  garantir  a  verdade  dessa  afirmação?  “A  racionalidade 
circular  dessas  doutrinas  é  clara”  (MERTON,  2013,  p.  98). Alcançamos  assim  o  que 
imagina ser o ponto fraco de todo relativismo, a ausência de um ponto axial exterior ao 
discurso  no  qual  ele  possa  estar  fundado,  que  possa  garantir­lhe  sustentação.  Esse 
critério  fundacionalista,  no  entanto,  é  justamente  aquilo  que  a  sociologia  do 
conhecimento (e muitas outras abordagens que compartilham as premissas “relativistas” 
ou “historicistas”) toma por problemático.
68
A  disciplina  “fundada”  por  Merton,  por  sua  vez,  não  pretendia  tornar  o 
pensamento  objeto  de  investigação  sociológica.  O  principal  pressuposto  dessa 
sociologia da ciência é examinar como as diferentes ordens sociais interferem no ritmo 
do  desenvolvimento  da  ciência  (MERTON,  2013,  p.  159). A  ciência  só  teria  sucesso 
quando  praticada  em  determinadas  condições  sociais,  quando  combinada  com 
instituições  que não  atentem contra  o  seu  avanço. A  compreensão desses  processos  é 
vista como essencial para garantir a construção de um programa de ação em defesa do 
desenvolvimento  do  conhecimento  científico  autônomo.  De  modo  a  realizar  esse 
objetivo,  a  ciência  era  analisada  em  seus  aspectos  institucionais,  para  os  quais  a 
contribuição de Merton e dos seus partidários foi enorme. Em seu estudo seminal sobre 
a ciência inglesa do século XVII, originalmente produzido como tese de doutorado na 
Universidade de Harvard, o sociólogo explora essa relação entre o desenvolvimento da 
ciência  e  a  estrutura  social  em  busca  dos  elementos  que  forneceram  as  condições 
culturais  e  materiais  favoráveis  à  atividade  científica  naquele  contexto  (MERTON, 
1970).
No  que  tange  ao  último  conjunto  de  condições  (que  já  eram  objeto  de 
investigação  de  “materialistas”),  Merton  reconhece  uma  importância  relativa  –  e 
quantitativa – das demandas técnicas, econômicas e militares para o direcionamento da 
ciência. “De modo geral, entre 30 e 60 por cento das pesquisas da época [o século XVII 
inglês]  parecem  ter  sido,  direta  ou  indiretamente,  influenciadas  desse  modo” 
(MERTON, 2013, p. 90). Seguindo bastante de perto a correlação aventada por Boris 
Hessen  entre  problemas  técnicos  e  problemas  científicos  e  desdobrando  alguns 
apontamentos  indicados  em The  social  and  economic  roots  of Newton’s Principia  ao 
longo  de  vários  capítulos  do  seu  livro, Merton  enfatiza  também  a  distância  entre  as 
conclusões do físico russo e as suas, quando lidando com questões muito semelhantes. 
A  racionalização  que  permeia  o  capitalismo,  defende  o  sociólogo,  é  um  estímulo  à 
ciência e à tecnologia que está ausente de outros tipos de sociedade (MERTON, 1970, 
p.  142­143).  Nessa  passagem,  Merton  não  se  refere  diretamente  à  URSS,  mas  a 
necessidade de marcar o limite da influência do “provocativo ensaio” de Hessen no seu 
próprio trabalho indica a plausibilidade dessa inferência.
Além  da  clara  diferença  ideológica  (ou  por  causa  dela),  há  uma  substancial 
diferença de interpretação.Em primeiro lugar, Merton insiste na existência de uma larga 
parcela da atividade científica que se desenvolve de forma completamente independente 
69
das pressões práticas,  a  “ciência pura”  (expressão que o  autor  ajudou a difundir). Ela 
seria  estatisticamente  dominante  e  ocuparia  uma  posição  de  destaque  intrínseca  no 
desenvolvimento da ciência  (MERTON, 2013, pp. 81­91). A hipótese defendida pelos 
marxistas, de que a ciência seria totalmente ou predominantemente o fruto de pressões 
sociais,  é  classificada  como  “extremista”  (MERTON,  2013,  p.  81).  Além  disso,  em 
segundo  lugar,  mesmo  onde  a  importância  dos  fatores  extrínsecos  é  reconhecida,  a 
forma como ela se relaciona com o conteúdo da ciência é substancialmente diferente. 
Quanto  ao  conjunto de  condições culturais,  que havia  sido  tratado por  autores 
que interpretavam a história de forma “idealista”, Merton analisa detidamente a conexão 
entre  ethos  protestante  e  ciência  moderna  (as  semelhanças  com  Max  Weber  são 
conscientes  e  declaradas),  tomando  como  objeto  privilegiado  a  formação  da  Royal 
Society  na  segunda metade  do  século XVII44. Trata­se  da  parte mais  original  do  seu 
livro e uma de suas grandes contribuições ao estudo histórico e sociológico das ciências. 
A  análise  detida  dos  valores  que  compõem  a  base  teológica  da  visão  de  mundo 
protestante  aponta  para  uma  correlação  direta  e  não  acidental  com  aspectos 
fundamentais do espírito científico que emerge na época moderna (MERTON, 1970, pp. 
55­79).  A  combinação  de  racionalismo  e  empirismo  seria  encontrada,  articulada  e 
justificada de modo quase  idêntico na  religião  reformada e na  investigação do mundo 
natural; a concepção de que o conhecimento de Deus se daria através do conhecimento 
do mundo,  que  é  a  sua  obra,  marcava  fortemente  os  escritos  de  teólogos  e  filósofos 
naturais; a defesa da capacidade individual e do livre exame do texto sagrado contra as 
interpretações  baseadas  na  autoridade  da  Igreja  era  simétrica  à  defesa  da  livre 
investigação  da  natureza  em  detrimento  da  autoridade  da  doutrina  aristotélica.  A 
integração  valorativa  entre  protestantismo  e  ciência  é  evidenciada  em  praticamente 
todos os pontos que as definem. Além disso, Merton  investiga a  filiação religiosa dos 
membros da Royal Society (e do “colégio invisível” que a antecedeu) de forma bastante 
perspicaz e fundamentada não se contentando apenas com uma mera filiação nominal, 
mas  observando  a  ocorrência  de  aspectos  doutrinários  nos  escritos  desses  autores 
(MERTON, 1970, pp. 112­136).
44 É importante notar que Merton não é meramente um weberiano. A sua sociologia da ciência é bastante 
eclética e incorpora contribuições metodológicas de diversos autores cujas ideias circulavam em Harvard 
nos  anos  1930,  como  o  italiano  Vilfredo  Pareto  e  sociólogo  russo,  fundador  do  Departamento  de 
Soiologia da Universidade de Harvard, Ptirim Sorokin (SHAPIN, 1988).
70
Essa análise, contudo, é fortemente marcada pela circunscrição da pesquisa aos 
aspectos  institucionais  da  ciência.  O  protestantismo  seria  um  dos  responsáveis  pelo 
aumento  do  interesse  pela  ciência  e  à  sua  valorização  na  Inglaterra.  A  emergência 
desses valores daria um ímpeto à investigação do mundo natural, mas não determinaria 
a  sua  forma  ou  conteúdo  (MERTON,  1970;  SHAPIN,  1988,  p.  595).Eles  são  a  base 
historicamente  necessária  (mas  não  indispensável)  para  a  emergência  da  ciência.  De 
maneira  semelhante  ao  que  faria  Alexandre  Koyré  uns  poucos  anos  depois,  Merton 
considera que a visão de mundo religiosa fornecia uma metafísica adequada para a nova 
filosofia  natural.  A  referência  bibliográfica  comum,  que  parece  ser  a  fonte  dessa 
concepção  em  Merton  e  Koyré  (que  aprofunda,  refina  e  complexifica  bastante  essa 
tese),  é  o  livro  de  Edwin Burtt  (1983).  Na  ética  protestante,  a  ciência  encontraria  as 
suposições básicas na qual pode erigir o seu sistema de conhecimentos. No entanto, a 
sua influência se encerra nisso. 
Avaliando  essa  tese,  Steven  Shapin  (1988)  desenvolve  o  argumento  de  que  o 
protestantismo  desempenhava,  na  obra  de  Merton,  um  papel  funcional  no 
desenvolvimento  da  ciência;  um  papel  que  poderia  ser  ocupado  por  outros  “fatores 
culturais” e que não era exclusivo do ethos protestante.  Ao enfatizar o funcionalismo e 
o ecletismo dessa abordagem, Shapin tenta proteger Merton do estigma de externalista. 
No  entanto,  essa  leitura  parece  enfraquecer  a  originalidade  da  posição mertoniana  ao 
ignorar  deliberadamente  a  dimensão  da  integração  valorativa  entre  ciência  e 
protestantismo.  
Na versão mertoniana do externalismo, os fatores externos só podem ser a causa 
da  dimensão  social  da  ciência.  E  o  papel  dessa  dimensão  social  é  deliberadamente 
restringido:  a  sociedade  funciona  apenas  como  facilitadora  ou  inibidora  do 
desenvolvimento  de  ideias  que  possuem  uma  dinâmica  própria.  Há  uma  interdição 
consciente e explícita das  tentativas de utilizar  fatores externos para explicar aspectos 
internos  da  ciência  (MARCOVICH  e  SHINN,  2013;  MERTON,  2013,  pp.  126­145, 
SHAPIN, 1988, pp. 594­596). A ciência só é objeto de sociologia naquilo que ela tem 
de  instituição  social.  Definida  como  conhecimento,  ela  está  fora  do  alcance  do 
sociólogo,  o  seu  aparato  conceitual  é  da  alçada  do  epistemólogo.  Merton  não  se 
preocupa  em  fornecer  uma  definição  tipicamente  sociológica  para  o  conhecimento 
científico,  aceita  aquela  formulada  pelo  positivismo  lógico,  se  posiciona 
confortavelmente  em  relação  à  divisão  entre  “contexto  da  descoberta”  e  “contexto  da 
71
justificação”  como  fora  estipulada  por  Hans  Reichenbach  (ÁVILA,  2012;  MAIA, 
2013).
Terry  Shinn  e  Pascal Ragouet  (2008)  descrevem  a  sociologia  da  ciência  “pré­
kuhniana” derivada dos  trabalhos de Merton  como “diferenciacionista”. É um  tipo de 
abordagem que enfatiza a diferença entre a ciência e outras dimensões da vida social, 
considerando­a uma entidade epistemologicamente superior. Trata­se de uma sociologia 
que  compartilha  com  a  ciência muitas  pressuposições metafísicas  típicas  da  primeira 
metade do século XX. Essa avaliação poderia facilmente ser estendida para setores da 
história das ciências praticadas à época. A sua tarefa seria demarcar as diferenças entre 
o  conhecimento  científico  e  outros  produtos  intelectuais  e  investigar  as  condições 
sociais  que  garantem  a manutenção  dos  valores  supostamente  necessários  para  o  seu 
progresso. Com efeito, a própria discussão sobre as relações entre ciência e sociedade – 
quando  não  pautadas  pela  via  dos  benefícios  sociais  da  ciência  e  da  tecnologia,  vista 
como  seu  produto  direto  –  seria  sintoma  de  que  algo  está  errado  nessa  relação.  A 
sociologia da ciência seria uma espécie de “disciplina de crise”: necessária somente para 
explicar  o  que  vai  mal,  como  certas  influências  sociais  conduzem  a  ciência  ao  erro, 
como determinados  tipos de sociedade impedem o avanço do conhecimento (por mais 
que, formalmente, se esforcem em promover a ciência) e como restabelecer o virtuoso 
caminho da pureza, da separação, da autonomia.
É  imbuído  desse  objetivo  que  Merton  analisa  a  ciência  moderna  de  modo  a 
depreender  dela  o  seu  ethos,  as  prescrições  morais  e  técnicas  que  derivariam  dos 
métodos  da  ciência  e  se  estabeleceriam  como  um  costume  cuja  função  seria  a  de 
garantir  a  eficiência da  investigação  (MERTON, 2013, pp. 181­185). Como sabemos, 
esse  ethos  é  composto  basicamente  por  quatro  imperativos  institucionais:  o 
universalismo  é  a  submissãodos  enunciados  científicos  a  critérios  impessoais  de 
avaliação  e  a  completa  recusa  de  vincular  a  fonte  de  produção  de  uma  alegação  de 
verdade à sua validade (não pode haver “ciência nacional”, nem “ciência proletária”); o 
comunismo é a noção de que as descobertas científicas não pertencem ao cientista que a 
nomeia, o conhecimento científico é patrimônio comum de toda a comunidade científica 
e de toda a humanidade (o que entra em conflito com o processo de patentes e direitos 
autorais que começava a ter um papel importante na época em que Merton escrevia); o 
desinteresse,  garantido  pelo  caráter  público  da  ciência  e  pela  responsabilidade  dos 
cientistas diante dos seus pares, não deve ser confundido com um altruísmo ou com um 
72
alto padrão moral que supostamente caracterizaria os cientistas, mas é uma norma cuja 
função é assegurar a estabilidade institucional; por fim, o ceticismo organizado é uma 
estratégia  metodológica  e  existencial  de  suspensão  do  julgamento,  é  o  exercício  da 
dúvida  e  da  imparcialidade  diante  dos  fatos,  a  negação  de  suposições  a  priori 
(MERTON, 2013, pp. 181­198). 
Assim, tanto os estudos de sociologia histórica quanto as proposições de caráter 
mais normativo de Merton visam expurgar das  análises histórico­sociológicas  sobre  a 
ciência  quaisquer  tentativas  de  atacar  o  conteúdo  da  ciência.  Não  se  trata  apenas  da 
circunscrição disciplinar  da  sociologia  e da história  das  ciências,  da divisão  social  do 
trabalho intelectual que traça os limites de determinado campo de investigação; trata­se 
também  da  demarcação  simultânea  do  próprio  objeto  de  pesquisa.  O  conhecimento 
científico  não  pode  ser  tratado  sociologicamente  nem  historicamente  posto  que  ele  é 
independente do seu contexto. Em resumo: a ciência, naquilo que ela tem de essencial, 
não é objeto da história. 
Esse  argumento,  tornado  mais  explícito  nos  trabalhos  de  Robert  Merton, 
acompanha todo o desenrolar do processo de formulação das diretrizes programáticas da 
história das ciências na primeira metade do século passado. O momento de cristalização 
dessa disciplina se dá sob a égide desse princípio e a própria formulação do vocabulário 
do internalismo e externalismo nesse campo é fruto dessa escolha. A esse respeito, faço 
duas observações.
Em primeiro lugar, a ideia de uma prática autocentrada e mais ou menos infensa 
às perturbações de outros fenômenos não é exclusividade da ciência ou da sua história. 
Na literatura, nas artes, no direito e na filosofia, o problema de compreender a relação 
entre o conteúdo da produção e o seu contexto teve um papel importante. De forma mais 
geral, o trabalho de estabelecimento de fronteiras é vital para a individuação de qualquer 
prática cultural. Estipular o que é  intrínseco e o que é extrínseco é um mecanismo de 
definição  generalizado.  Isso  pode  explicar  em  parte  porque  o  problema  adquiriu  a 
centralidade das discussões teórico­metodológicas da história das ciências precisamente 
no momento da sua afirmação no rol das especialidades do saber humano. O discurso 
das fronteiras, do interno e externo, é um discurso que lida com uma dupla legitimidade: 
a da disciplina (a história das ciências) e a do objeto (as ciências). 
No entanto, além da forma genérica do papel da linguagem da diferenciação em 
diversas  atividades  socialmente  organizadas,  existem  as  evidentes  singularidades  que 
73
marcam cada processo, determinadas pelas especificidades de cada campo. No caso da 
história  das  ciências,  falamos  da  necessidade  de  afirmação  da  própria  ciência  nas 
sociedades  contemporâneas,  a  emergência  de  uma  série  de  discursos  que  articularam 
uma  poderosa  rede  cujo  nó  central  que  supostamente  mantinha  firme  a  civilização 
ocidental era a ciência moderna. A supremacia do cientificismo.
Em segundo  lugar  (e  fruto desse processo de afirmação das ciências no século 
XX), a forma assumida pela historiografia das ciências não foi “natural” ou meramente 
“inevitável”. Ela é fruto da seleção de um repertório de possibilidades de enunciação. O 
que,  por  sua  vez,  implica  na  interdição  de  certas  iniciativas  que  desviavam  desse 
projeto. É o caso da já mencionada sociologia do conhecimento de Karl Mannheim e da 
epistemologia histórica de Ludwik Fleck. O itinerário dessas propostas e o papel ativo 
da afirmação da polarização entre internalismo e externalismo como modos válidos de 
análise  da  história  das  ciências  em  detrimento  de  outras  possibilidades  narrativas  foi 
primorosamente analisado em um trabalho recente de Carlos Alvarez Maia (2013). As 
tentativas de adicionar historicidade ao conteúdo cognitivo da ciência foram duramente 
combatidas,  derrotadas  e  condenadas  a  um  silêncio  do  qual  só  foram  resgatadas  três 
décadas mais tarde. Elas ressurgirão a partir da inflexão gerada pelo surgimento do livro 
de  Thomas  Kuhn  em  1962  e  do  “programa  forte”  da  sociologia  do  conhecimento 
científico em meados dos anos 1970. 
Apesar da  importância dessas  contribuições,  tomadas  como um dos problemas 
centrais da análise de Carlos Maia, devemos atentar para os significados da hegemonia 
das  explicações  a­históricas  da  história  das  ciências,  para  os  motivos  da  vigência 
daquilo  que  esse  autor  chama  de  hiato  historiográfico.  A  manutenção  dessas 
interpretações  não  é  um  erro  histórico,  fruto  da  incompetência  dos  autores  que 
produziam no período (nem dos que defendiam a historicidade por não conseguir com 
que ela vingasse, nem dos que a negavam). Se uma dimensão mais normativa da teoria 
da história não pode se furtar a recriminar essas formas historiográficas (internalistas e 
externalistas)  por  manterem  –  de  forma  deliberada  ou  inconsciente  –  a  historicidade 
apenas  do  lado  de  fora  da  ciência  ou  por  se  contentarem  com  uma  forma  parcial  de 
historicidade (por exemplo, uma relação direta da produção de conhecimento científico 
com a  temporalidade dos produtos  cognitivos combinada com uma  independência  em 
relação  aos  “fatores  externos”),  uma  das  tarefas  de  uma  história  da  historiografia  é 
compreender porque a história das ciências assumiu aquela configuração no período.
74
Seria  um  equívoco  negar  à  história  das  ciências  praticada  sob  as  rubricas  de 
externalismo ou internalismo a condição de história, seja através da justificativa de que 
elas negam a historicidade do seu próprio objeto, seja porque não há uma “comunidade” 
dos  historiadores  da  ciência,  um  circuito  profissional  de  praticantes.  Essa  postura 
empobrece  o  debate  e  reforça  os  argumentos  dos  que  defendem  que  a  história  das 
ciências  não  é  história,  mas  um  campo  à  parte  epistemologicamente  e 
institucionalmente,  posto  que  comprometido  com os  valores  do  objeto  historiado. Ao 
reconhecer nessas correntes o estatuto de conhecimento histórico (sem a arrogância de 
quem  “garante”  as  condições  ou  estipula  os  critérios  definidores  do  estatuto 
epistemológico de certa prática intelectual) e avaliar as condições que possibilitaram o 
surgimento e a estabilização de certos tipos de discurso sobre o passado das ciências (ou 
sobre  as  ciências  do  passado,  o  que  não  é  a  mesma  coisa)  estamos  reforçando  a 
historicidade  da  própria  história,  a  transitoriedade  dos  critérios  através  dos  quais  se 
julga o trabalho historiador.
O  vocabulário  teórico  utilizado  pela  história  das  ciências  entre  as  décadas  de 
1930 e 1970 foi forjado em meio à ampla afirmação da ciência como expressão máxima 
da  civilização  e  o  seu  cultivo  como  obrigação  do  Estado,  uma  noção  que  crescia  no 
imaginário ocidental desde meados do século anterior. Corresponde a uma necessidade 
de demarcação ecriação identitária exigida por setores da sociedade que percebiam na 
ciência,  cada  vez  mais,  uma  dimensão  importante  da  sua  constituição  e  que  se 
articulavam  em  torno  de  um  projeto  de  difusão  dessa  concepção  da  ciência  e  da  sua 
relevância  fundamental.  As  transformações  desse  ideal  científico  após  a  Segunda 
Guerra  Mundial  –  como  a  percepção  do  potencial  destrutivo  da  ciência  e  o 
recrudescimento  de  grupos  que  se  opunham  à  forma  como  se  organizou  o  complexo 
militar­industrial­científico nos anos subsequentes ao conflito (em especial nos EUA) – 
repercutiram  de  forma  mais  consequente  na  historiografia  apenas  a  partir  dos  anos 
196045.
Nesse sentido, no curso de um processo de divisão social do trabalho intelectual, 
a  história  das  ciências  supre  pelo menos  duas  funções  de  importância  capital  para  o 
projeto de consolidação de certo ideal de ciência. Em primeiro lugar, institucionaliza­se 
45 A historiografia do final dos anos 1940 e dos anos 1950 não deixou de referir­se à ameaça nuclear, 
porém, em geral, sua resposta era pela necessidade de mais história das ciências como forma de educar o 
público  e  os decision­makers  para  reforçar  a  divisão  entre  ciência  pura  e  ciência  aplicada  e,  com  isso, 
fazer com que utilizassem a tecnologia da “melhor forma possível”.
75
como  uma  disciplina  com  um  forte  interesse  na  compreensão  do  papel  da  ciência  na 
modernidade  ocidental  (daí  a  sua  ênfase  na  revolução  científica)  e  na  criação  de  um 
passado  que  legitimasse  o  seu  lugar  privilegiado  na  paisagem  dos  saberes.  Embora 
considerassem  científicas  quaisquer  tentativas  de  apreender  a  “natureza”  que  fossem 
(alegadamente)  racionais  e  sistemáticas  (como  a  astronomia  das  antigas  civilizações 
babilônicas ou egípcias), esses autores estavam diretamente preocupados com o suposto 
salto  qualitativo  ocorrido  na  forma  de  compreender  a  natureza  durante  a  revolução 
científica na Europa dos séculos XVI e XVII, ou seja, no estabelecimento do “método 
científico”.  Essa  história  das  ciências  expressava  a  profunda  crença  não  apenas  na 
existência do método científico como também na sua prioridade epistêmica sobre outras 
formas de investigação acerca do mundo natural. 
Ainda nesse processo, era importante recuperar o viés crítico, aberto e libertador 
que  a  ciência  possuía  nos  séculos  XVI,  XVII  e  XVIII,  geralmente  tratando­o  como 
essencial à própria definição de ciência e identificando­o com o método científico. No 
entanto,  trata­se agora de um contexto completamente diferente, de uma configuração 
histórica  na  qual  a  ciência  começa  a  ocupar  o  lugar  de  hegemonia  (se  não  de 
monopólio)  no  interior  dos  Estados  do  capitalismo  desenvolvido  (e  na  URSS).  O 
recurso à história da ciência moderna e o reforço da imagem (já há muito transformada) 
da  ciência  como  permanentemente  dinâmica  e  aberta  a  contestações,  avessa  a 
argumentos de autoridade (baseando as suas afirmações em “verdades”), essencialmente 
antidogmática, servia para legitimar o seu lugar de fundamento da organização da vida 
social.  Elas  cristalizam,  entre  o  público  erudito  (mas  não  só  para  esse  grupo),  certos 
estereótipos sobre a ciência e os cientistas e se aproximam sobremaneira das narrativas 
míticas que julgam destruídas pela ciência que veneram.
Possui  também  uma  função  teórica  (sobre  a  qual  as  posições  conflitantes 
efetivamente divergem). Nem o internalismo e nem o externalismo se preocuparam em 
fornecem  uma  concepção  completa  de  história  ou  uma  teoria  exaustiva  da  ciência. 
Transpuseram para a forma de conhecimento que desenvolviam uma série de conceitos 
e valores elaborados em outros ambientes intelectuais (especialmente na filosofia ou nas 
próprias  ciências,  de  onde  saíram  muitos  autores  que  produziram  no  período), 
adaptando­os  aos  seus  padrões  intelectuais.  Isso  não  significa  que  repetiam 
acriticamente  noções  estranhas  à  sua  forma  de  produção  de  conhecimento,  mas  que 
compartilhavam  essas  noções,  tomavam  como  não­problemáticos  certos  valores  em 
76
relação à ciência. Mais do que isso, a história das ciências era um participante ativo no 
processo  de  consolidação  e  capilarização  de  uma  determinada  imagem  de  ciência.  O 
ponto  em disputa  encontra­se  justamente naquilo que esse corpus  textual produziu de 
mais original: teorias da mudança científica. É o ponto de fuga para o qual convergem 
questões de teoria da história, de teoria da ciência e da própria ordem social em torno do 
problema  da  causalidade.  Qual  a  causa  de  uma  nova  teoria,  de  um  novo  objeto  de 
pesquisa, de uma nova técnica de medição astronômica? Em suma: qual a causa de uma 
transformação histórica? Não é difícil perceber, ao final desse percurso, em que diferem 
as interpretações que tem nos ocupado ao longo desses dois capítulos. 
Ao  ressaltar  essa  perspectiva,  endosso  o  argumento  de  que  as  formas  de  lidar 
com  questões  de  ciência  são  também  formas  de  encarar  a  sociedade  e  as  disputas 
políticas.  Como  já  afirmei,  a  história  das  ciências  é  sempre  um  empreendimento 
engajado  nas  causas  do  seu  tempo.  Embora  as  escolhas  teóricas  sejam  por  vezes 
influenciadas  pelas  divisões  entre  os  dois  grandes  sistemas  político­econômicos  do 
século XX, o socialismo e o liberalismo (com o eco das polarizações de outras ordens, 
como entre idealismo e materialismo ou entre iluminismo e romantismo), as propostas 
não  são  meras  reelaborações  das  filiações  políticas  dos  seus  autores.  Para  além  das 
discussões  ideológicas,  entre  a  “liberdade  individual”  do  cientista  e  a  necessidade  de 
planejar o avanço da ciência de acordo com os “interesses da sociedade”, há um grande 
consenso ideológico (e metafísico) em torno do cientificismo. Nenhuma agenda política 
poderia vingar (talvez sequer ser concebida) sem o apelo à autoridade da ciência.
Parte II: Da Big Science à tecnociência
77
3. A comunidade científica como solução política
Conforme aprendemos com a narrativa padrão da historiografia das ciências, a 
querela  entre  o  internalismo  e  o  externalismo  foi  supostamente  ferida  de  morte  pela 
proposta teórica apresentada por Thomas Kuhn e agonizou até morrer esquecida no final 
da  década  de  197046.  De  Bourdieu  a  Latour,  as  tentativas  de  teorizar  as  ciências  em 
décadas mais  recentes  têm  oferecido  alternativas  à  velha  dicotomia,  sempre  tentando 
superar  ou  ultrapassar  a  divisão  entre  externo  e  interno,  considerada  superficial  e 
infrutífera  para  a  compreensão  dos  fenômenos  que  designamos  por  ciência.  O  que 
ofereço  aqui,  no  entanto,  não  é  nem  uma  descrição  do  cortejo  fúnebre,  nem  uma 
autópsia dos fatores  internos e externos. Pelo contrário, minha intenção é perseguir os 
seus traços; perceber como eles foram reconfigurados pela historiografia contemporânea 
em um momento de profundas transformações no capitalismo, nas ciências e nas formas 
de interpretá­las.
Meu ponto de partida é a publicação de A estrutura das revoluções científicas; 
com  isso,  a  escolha  metodológica  está  demarcada,  pois  é  a  historiografia  que  se 
enquadra  na  “tradição  kuhniana”  que  será  o  alvo  das  análises  empreendidas  nos 
próximos capítulos desta tese. Por “tradição kuhniana” entendo a produção histórica que 
– realizando uma leitura eminentemente sociológica da contribuição de Thomas Kuhn – 
tomou para si a herança de estabelecer “um papel para a história” na explicação efetiva 
das ciências. Como ficará mais claro no decorrer dos capítulos, os historiadores (em sua 
grande maioria) não seguiram o modelo de história das ciências delineado na Estrutura,a obra não se tornou um manual de como abordar o passado das ciências47; não se pode 
46  Até  os  anos  1980,  proliferam  as  análises  que  consideram  a  contribuição  kuhniana  um  ponto  de 
inflexão não apenas para a história das ciências, mas para a filosofia das ciências (REISCH, 1991) e para 
a  sociologia  das  ciências  (MARTINS,  1972).  A  partir  da  década  de  1990,  começam  a  surgir  mais 
fortemente as abordagens que reconsideram o alcance da ruptura efetuada por Kuhn e passam a buscar – 
como  é  o  caso  aqui  para  a  questão  dos  fatores  internos  e  externos  –  continuidades  com  a  tradição 
historiográfica e filosófica anterior (REISCH, 1991; FULLER, 1992; MAIA, 1996). Na seção especial da 
revista Social Studies of Science dedicada ao cinquentenário da Estrutura, a maioria dos autores ressalta a 
importância da obra ao mesmo tempo em que a identifica como uma reelaboração (por vezes ingênua) das 
ideias  de  Fleck,  Polanyi,  Conant, Wittgenstein,  Koyré  ou  Peter Winch  (Cf.  COLLINS,  2012;  DEAR, 
2012; PICKERING, 2012; TURNER, 2012; SISMONDO, 2012). Há mesmo quem julgue que o principal 
feito  de  Kuhn  foi  colaborar  (involuntariamente)  com  a  epistemologia  popperiana  (SPRINGER  DE 
FREITAS, 1998).
78
falar  de uma “historiografia kuhniana” do mesmo modo que  se  fala,  por  exemplo,  de 
uma “historiografia marxista”. Por isso a escolha da expressão “tradição kuhniana”, que 
deve  refletir  mais  uma  inspiração,  um  tipo  de  leitura  conscientemente  enviesado  e 
seletivo. Que  incluí certamente a apropriação de certos princípios metodológicos, mas 
que  se  atém  principalmente  à  proposta  de  elaboração  de  uma  nova  imagem  para  a 
ciência e para o papel da história nesse processo.
Supostamente,  essa  historiografia  recusava  a  divisão  entre  internalismo  e 
externalismo e, principalmente, o lugar secundário reservado para a história das ciências 
na  estratégia  determinada pelo positivismo  lógico do Círculo de Viena desde os  anos 
1920 e 1930; uma posição que a historiografia produzida sob a égide da divisão entre 
internalismo  e  externalismo  não  conseguiu  romper48.  Especificamente,  tratarei  dessa 
historiografia a partir de dois livros.  No capítulo seguinte deste trabalho, o foco será o 
texto de Simon Schaeffer e Steven Shapin, Levianthan and the Air­pump, publicado em 
1985. Serão os problemas historiográficos apontados por essa obra que nos servirão de 
guia. A partir deles, abrirei espaço pela historiografia das ciências da década de 1980 e 
da  primeira  metade  dos  anos  1990,  inserindo  na  discussão  e  na  análise  autores  que 
compartilham  sensibilidades  historiográficas  e  que  forjaram  parte  importante  (talvez 
hegemônica) da disciplina nesse período. No capítulo 5, que encerra a Parte 2, realizarei 
uma  leitura  similar  tendo  como  foco  o  livro Objectivity,  de  Lorraine  Daston  e  Peter 
Galison.
De  modo  a  avaliar  a  inovação  proporcionada  pela  interpretação  kuhniana  em 
relação  ao  problema  dos  fatores  internos  e  externos,  seus  possíveis  contatos  com  o 
modo  de  produção  das  ciências  no  período  em  que  foi  escrito  e,  posteriormente,  o 
quanto  a  historiografia  que  reivindicou  a  sua  herança  constituiu  também uma  ruptura 
com  essa  interpretação,  farei  uma  breve  incursão  pela  contribuição  kuhniana.  A 
intenção  aqui  não  é  desenvolver  uma  interpretação  original  da  Estrutura  ou  do 
momento  de  sua  produção;  apenas,  de  forma  mais  modesta,  retomar  alguns  dos 
argumentos oferecidos por autores que realizaram importantes  leituras da contribuição 
47 Felizmente, levando em consideração as críticas que Kuhn dirige aos manuais.
48  Para  esses  autores,  Kuhn  conseguiu  derivar  diretamente  da  avaliação  das  práticas  científicas  do 
passado uma nova imagem da ciência, mais “relativista”, embora, simultaneamente, mais “realista”. Seus 
críticos  irão alegar, pelo contrário, que ele partiu de uma concepção filosófica  relativista em relação às 
ciências e tentou aplicá­la ao material histórico (sobre a distinção entre relativismo aplicado e relativismo 
derivado, cf. OLIVA, 2012). 
79
de Kuhn à historiografia das ciências, ressaltando aqueles aspectos mais relevantes para 
o propósito desta pesquisa49.
Um dos pontos que diversos autores enfatizam – com certa ironia – ao relatar o 
surgimento da obra de Kuhn é que A estrutura das revoluções científicas foi concebida 
para  figurar  na  International  Encyclopedia  of  Unified  Sciences,  um  projeto  editorial 
idealizado por Otto Neurath no final dos anos 1930 e organizado primordialmente por 
membros do Círculo de Viena que haviam emigrado para a Inglaterra e os EUA com a 
ascensão do nazismo na Áustria. O Comitê Organizador  (Committee of Organization) 
incluía,  entre  outros, Otto Neurath  (editor­chefe),  Rudolf  Carnap  e  Phillip  Frank. No 
Comitê Consultivo  (Advisory Committee), nomes como Hans Raichenbach50  e Herbert 
Feigl,  além  de  Niels  Bohr,  Bertrand  Russel,  Alfred  Tarski  e  Ernest  Nagel  e  outros 
importantes filósofos e cientistas da época51.
O  ambicioso  projeto  foi  publicado  entre  1938  e  1970,  ano  em  que  foi 
interrompido  e  permaneceu  incompleto.  Bem  ao  espírito  do  empirismo  lógico,  a 
enciclopédia  pretendia  contribuir  para  a  compreensão  dos  mais  diversos  campos 
científicos, da sua história, sociologia e fundamentos filosóficos, além de ditar­lhes um 
plano  geral  de  desenvolvimento  (REISCH,  1994)52.  A  estrutura  das  revoluções 
científicas  correspondia  ao  segundo  número  do  segundo  volume,  dedicado  aos 
Fundamentos  da  Unidade  da  Ciência.  Talvez  essa  inserção  explique  em  parte  o 
didatismo e esquematismo da obra e também a surpresa do autor, explícita no posfácio à 
segunda  edição,  ao  rebater  as  leituras  que  consideravam  sua  aproximação  relativista. 
Kuhn  pensava  o  seu  trabalho  como  internalista  no  campo  da  historiografia  e, 
49 Como sabemos, a bibliografia sobre Kuhn e, especificamente, sobre a Estrutura, é assustadoramente 
gigantesca (uma busca por “Thomas Kuhn” no Google Scholar, por exemplo, retorna aproximadamente 
51.800  resultados;  se  usarmos  “The  structure  of  scientific  revolutions”  como  palavras­chave  da  busca, 
62.400  resultados.  Para  efeito  de  comparação,  uma  busca  por  “The  logic  of  scientific  discovery”  gera 
18.600 resultados). Aqui sigo parcialmente os argumentos historiográficos desenvolvidos pelo professor 
Carlos Alvarez Maia (1996; 2001; 2013), especialmente em dois aspectos: a) o papel desempenhado pela 
nova forma de gestão estatal da ciência e da tecnologia nos EUA na concepção de história das ciências 
presente na obra de Thomas Kuhn e b) a consequência de “domesticação” e subordinação da atividade 
historiadora que essa nova estrutura científica acarretou. Devo muitas das ideias presentes nessa seção aos 
estudos de Steve Fuller (1992; 1997; 2000) sobre a obra de Thomas Kuhn e sua relação com os problemas 
da science policy estadunidense do pós­Guerra. 
50 Que não foi membro do Círculo de Viena, mas de sua “filial” alemã, o Círculo (ou Escola) de Berlim, 
e cujas influências decisivas no programa do positivismo lógico são inegáveis.
51 A lista completa dos membros foi consultada na edição norte­americana de 1970 de A estrutura das 
revoluções científicas. Cf. KUHN, 1970.
52 O  projeto  da  enciclopédia  foi  sempre  inconstante,  repleto  de  atrasos,  interrupções  e  toda  ordem de 
problemas. Ele nunca conseguiu se firmar como uma série coerente de publicações, a maioria do que foi 
produzido acabou tendo vida própria na forma de monografias (como foi com A estrutura das revoluções 
científicas).
80
filosoficamente, como uma continuidade em relação ao projeto do positivismo  lógico, 
embora seguindo uma direção diferente53.
A leitura da obra de Kuhn como ummanifesto revolucionário em favor de uma 
imagem  de  ciência  diametralmente  oposta  à  oferecida  pelo  empirismo  lógico  foi 
formulada à revelia do autor. Essa é, obviamente, uma chave de leitura possível – e não 
temos  nenhuma  razão  para  atribuir  ao  próprio  Kuhn  qualquer  tipo  de  prioridade 
interpretativa sobre a sua obra, a auto­exegese é uma avaliação entre outras – que serviu 
para ancorar as pretensões de ruptura da geração subsequente à de Kuhn (especialmente 
a  sociologia  do  conhecimento  científico  e  a  “guinada  pragmática”  da  filosofia  da 
ciência)54. A contribuição original  e  transformadora da  teoria kuhniana da ciência não 
pode  ser  descartada.  Neste  trabalho,  a  obra  de  Kuhn  é  tomada  como  um  ponto  de 
inflexão, uma abertura para novas formas de investigação histórica das ciências que, ao 
mesmo  tempo,  traz  consigo  marcas  de  velhas  formas  supostamente  abandonadas.  A 
dinâmica  histórica  permite  o  convívio,  nem  sempre  pacífico,  de  continuidades  e 
rupturas.  Como  conceber  a  história  sem  encarar  a  presença  das  tradições  mortas  – 
sempre apropriadas, reelaboradas – a oprimir o cérebro dos vivos?
Tão importante quanto perceber a inserção da Estrutura em um poderoso projeto 
intelectual  é  apontar  as  condições  históricas  da  sua produção. Perceber  a  combinação 
entre a tradição filosófica do positivismo lógico e as profundas transformações sociais 
do período pós­guerra talvez ajude a compreender a posição ambígua de Thomas Kuhn, 
a tensão presente na sua obra que possibilitava leituras tão díspares. 
O livro de Kuhn foi gestado nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial e 
nos primeiros anos da Guerra Fria, quando a forma geral do capitalismo consolidava sua 
feição  keynesiana. A  reestruturação  dos Estados  nos  países  centrais  buscava  soluções 
tanto para a falência do liberalismo clássico (experimentada duramente durante a crise 
dos anos 1930), quanto para a alternativa comunista que assomava no  leste  (DAHL e 
LINDBLOM, 1971). Assim, o que se seguiu foi uma combinação de Estado, mercado e 
instituições  democráticas  que  variou  de  formas  de  “liberalismo  embutido”  até  bem 
53  A  correspondência  trocada  entre  Carnap  e  Kuhn,  por  ocasião  do  convite  para  contribuir  para  a 
Encyclopedia of Unified Sciences, mostra como o principal filósofo do Círculo de Viena concordava com 
grande parte da teoria da ciência esboçada na Estrutura (REISCH, 1991). 
54  Steve  Fuller  (1992)  traça  brevemente  a  trajetória  dessa  interpretação  a  partir  da  primeira  resenha 
publicada sobre a obra de Kuhn, ainda em 1964. Muitos autores destacaram a contrariedade de Thomas 
Kuhn em ter sido tomado como precursor do construtivismo, da sociologia do conhecimento científico e 
dos science studies (CONDÉ e OLIVEIRA, 2004; GOLINSKI, 2005; ZAMMITO, 2004).  
81
sucedidas  experiências  de  Estados  de  bem­estar  social,  conferindo  taxas  elevadas  de 
crescimento  aos  países  desenvolvidos  com  relativa  distribuição  da  riqueza  em 
praticamente todo o mundo desenvolvido. Essa forma “híbrida” de organização política 
e econômica dos Estados teve também impacto nas Políticas de Ciência e Tecnologia. 
Com efeito, a ciência desempenhou um papel  fundamental no sucesso da manutenção 
do bom desempenho da economia capitalista global no período e também se beneficiou 
desse  crescimento.  Segundo  Carlos  Alvarez  Maia  (2013,  p.  41):  “Uma  fórmula  que 
resume bem as mudanças historiográficas nesse quadro seria:  ‘existe uma história das 
ciências para 0,2% do PIB e outra para 2,7%’”. 
O novo pacto entre ciência e Estado – formulado nos EUA ainda em meados dos 
anos 1940 e largamente exportado – foi tão bem sucedido porque conseguiu sintonizar­
se  com  a  virada  em  direção  a  um  Estado  de  bem­estar  social,  no  qual  o  confortável 
crescimento permitia financiar a ciência a taxas crescentes baseado na confiança de que 
ela  proporcionaria  ainda  mais  bem­estar,  sem  exigências  imediatas.  Em  um  livro 
marcado pelo excessivo otimismo em relação ao papel da ciência (não apenas na criação 
de “produtos” capazes de resolver os problemas sociais, mas na  forma de organização 
da ciência como modelo que torna obsoletas as instituições democráticas modernas), o 
cientista político Don K. Price afirma que “a ciência está começando a alterar a relação 
básica entre o poder político e econômico” (PRICE, 1965, p. 24)55. 
Apesar  dessa  confiança,  é  preciso  notar  que  o  monstruoso  aparato  científico­
militar­industrial montado pelos EUA para  o  esforço de guerra  gerava  todo o  tipo de 
sentimento  duvidoso,  desde  o  orgulho  nacionalista  até  o  pânico  das  teorias  da 
conspiração  caipiras56.  Obviamente,  essas  reações  não  eram  sem  propósito.  Os 
acontecimentos  de Auschwitz  e Hiroshima  dependiam diretamente  da  participação  de 
cientistas  e  engenheiros. No mesmo  ano  que A  estrutura  das  revoluções  científicas  é 
publicada,  a  Crise  dos  Mísseis  de  Cuba  reacende  nos  corações  e  mentes  de  todo  o 
mundo  a  paranoia  nuclear  e  o  medo  do  holocausto  global  pelas  mãos  dos  governos 
armados de tecnologias de destruição em massa57.
55  No  original:  “science  is  beginning  to  alter  the  basic  relation  of  political  and  economic  power”. 
Tradução minha. 
56 Lembremos, por exemplo, da adaptação da Guerra dos Mundos por Orson Welles, que levou milhares 
de  pessoas,  que  acreditavam  estar  ouvindo  a  transmissão  real  de  uma  “invasão  marciana”,  à  histeria 
coletiva em 1938.
57 O historiador Eric Hobsbawm resumiu formidavelmente esse espírito: “Nenhum período da história foi 
mais penetrado pelas ciências naturais nem mais dependente delas do que o século XX. Contudo, nenhum 
82
Depois  da  guerra,  essa  imensa  estrutura  foi  mantida  e  redirecionada  para  a 
pesquisa  básica  em  praticamente  todas  as  áreas,  com  óbvia  predileção  para  “setores 
estratégicos”. A Guerra Fria foi decisiva para manter essa mentalidade e sustentar essa 
agenda  política.  O  principal  documento  para  compreender  esse  processo  de 
reorganização no âmbito das Políticas de Ciência e Tecnologia é o chamado “Relatório 
Bush”,  encomendado  diretamente  pelo  presidente  Franklin  D.  Roosevelt  ao  físico  e 
engenheiro  Vannevar  Bush  ainda  em  1944,  já  com  o  objetivo  de  planejar  o 
direcionamento  dessa  estrutura  após  o  fim  da  guerra  (CASTELFRANCHI,  2008,  pp. 
29­36;  STOKES,  2005,  pp.  16­25).  Quando  da  encomenda,  Bush  ocupava  uma 
importante posição na administração e formulação de Políticas de Ciência e Tecnologia 
e já estivera à frente de diversas instituições de pesquisa ligadas ao governo. Durante a 
Segunda  Guerra,  ele  foi  um  dos  responsáveis  por  formular  as  diretrizes  que 
aproximaram  pesquisa  científica  e  esforço  bélico,  ocupando  um  papel  decisivo  no 
Projeto  Manhattan  e  dirigindo  o  Office  of  Scientific  Research  and  Development 
(Escritório de Pesquisa e Desenvolvimento Científico). Suas credenciais e sua posição 
privilegiada o  tornavam apto para uma tarefa de  tamanha envergadura. Mobilizando o 
aparato que estava ao seu alcance, Vannevar Bush instituiu comissões que o ajudaram a 
compor o relatório.
Obviamente, o sucesso dessa empreitada não pode ser atribuído exclusivamente 
à competência do Dr. Bush ou da sua equipe, mas às condições históricas singulares que 
conformavam  as  Políticas  Públicas  de  Ciência  e  Tecnologia  após  a  Segunda  Guerra 
Mundial.  
Sugestivamente  intitulado  Science  –  The  endless  frontier,  o  relatório  ficou 
pronto em julho de 1945, depois da morte do presidente Roosevelt (foi entregue ao seu 
sucessor, Henry Truman) e poucos meses antes do fim da guerra. De forma exemplar, 
ele sintetizou a mentalidade científica do período e definiu as linhasgerais da Política 
de Ciência  e Tecnologia que  seria  seguida pelos EUA e  copiada por vários países do 
Ocidente. Uma análise desse importante documento me parece útil para enraizar o livro 
de  Thomas  Kuhn  em  sua  historicidade;  afinal,  é  contra  esse  pano  de  fundo  que  ele 
emerge  e  ganha  notoriedade.  O  objetivo  não  é  a  comparação  desses  dois  textos,  tão 
distintos  nos  seus  objetivos,  públicos,  espaços  de  circulação  e  apropriação, mas  uma 
período,  desde  a  retratação  de Galileu,  se  sentiu menos  à  vontade  com  elas”  (HOBSBAWM,  2006,  p. 
504).
83
avaliação das visões de ciência que eles apresentam. Se, em grande parte, o trabalho de 
Kuhn  pretendia  utilizar  a  história  das  ciências  contra  a  visão  dominante  de  ciência  à 
época, não só nos debates filosóficos, mas entre cientistas e no “senso comum”; se, da 
mesma forma, tal conceito de ciência tinha “implicações profundas no que diz respeito à 
sua natureza e desenvolvimento” (KUHN, 2001, p. 20), devemos perceber essa imagem 
de ciência em sua expressão política mais efetiva. 
Nesse  sentido,  o  texto  do  Dr.  Bush  não  pretende  apresentar  nenhuma  grande 
novidade  no  que  tange  especificamente  à  imagem  da  ciência58.  Ele  capturou  ideias 
relativamente  consolidadas  e  se  aproveitou  de  um  momento  extremamente  propício. 
Yurij Castelfranchi caracteriza esse personagem como um dos principais representantes 
da “visão cowboy” da ciência. Um modelo no qual “cabe ao Estado estimular a abertura 
de  novas  fronteiras  do  conhecimento  científico,  enquanto  a  iniciativa  privada  tem  o 
papel  de  colonizar  os  novos  faroestes  cognitivos  e  torná­los  produtivos” 
(CASTELFRANCHI, 2008, p. 29)59.
Um golpe certeiro. O presidente dos Estados Unidos da América, o país que saiu 
da Segunda Guerra Mundial como o mais poderoso do mundo, entregou­lhe de bandeja 
a  oportunidade  para  que  ele,  Bush,  colocasse  a  ciência  no  centro  desse  império.  De 
maneira  quase  inocente,  o  presidente  Roosevelt  pergunta,  na  carta  que  solicita  o 
relatório:  como  a  experiência  acumulada  pelos  institutos  de  pesquisa  criados  para  a 
guerra  poderia  servir,  em  tempos  de  paz,  para  incrementar  a  saúde  da  Nação,  gerar 
novos empregos e elevar o padrão de vida (ROOSEVELT, 1944)? Ora,  tudo que uma 
pessoa  na  posição  de  Vannevar  Bush  poderia  querer  se  realizava  e  a  resposta  não 
poderia ser outra: dê­nos o recurso que a ciência fará o resto! Para isso, no entanto, era 
preciso recorrer a uma poderosa retórica, já há muito versada em cantar a superioridade 
da ciência e dar­lhe nova roupagem. Não era preciso, a aquela altura do século XX, criar 
novos argumentos para convencer quem quer que fosse que a ciência era importante e 
poderosa e que o progresso científico era essencial para o bem estar da população e a 
segurança  nacional.  O  que  era  preciso  era  criar  um  argumento  inescapável  que 
mostrasse  como  a  ciência  era  uma  responsabilidade  social  direta  do  Estado  e, 
58 De acordo com David Hollinger (1990, p. 902), “Bush was merely codifying two popular beliefs that 
dominated American discourse about science and society in the 1920s and 1930s”. Poderíamos estender 
esse argumento e afirmar que Bush manipulava argumentos muito mais antigos e geograficamente difusos 
presentes na “tradição Ocidental”. 
59 O vocabulário do  faroeste  já  estava presente nos documentos que compõem o Relatório Bush,  com 
referências aos “pioneiros” e as “fronteiras” (ROOSEVELT, 1944; BUSH, 1945).
84
simultaneamente,  como não  se  poderia  interferir  na  autonomia  da  pesquisa  científica; 
isso foi feito de maneira irretocável.
A ciência deveria ser maciçamente financiada pelo Estado seja pela formação de 
instituições  próprias  (no  caso  americano,  muitas  delas  ligadas  ao  Departamento  de 
Defesa e ao Pentágono) ou pelo apoio à iniciativa privada (universidades e institutos de 
pesquisa). Seu desenvolvimento ocorre de maneira  lenta e desinteressada por meio da 
pesquisa básica  (qualquer semelhança com o ethos mertoniano não é coincidência). O 
estudo  de  temas  e  fenômenos  aparentemente  distantes  da  experiência  cotidiana  pode 
trazer  benefícios  inesperados  e  deve  ser  preservado.  A  liberdade  de  pesquisa  e  a 
autonomia  dos  pesquisadores  é  um valor  supremo. O  progresso  da  ciência  é  fruto  da 
atividade  livre  de  intelectos  livres,  trabalhando  em  áreas  de  sua  própria  escolha  e 
predileção.  Além  disso,  o  incentivo  deve  ser  constante  para  que  as  novas  gerações 
ingressem,  em  número  cada  vez  maior,  em  carreiras  científicas.  A  pena  para  o 
desrespeito a esses princípios poderia ser altíssima, colocando em risco a soberania e a 
segurança  nacional  e,  em  última  instância,  o  futuro  da  humanidade;  afinal,  “sem 
progresso  científico  nada  que  for  conquistado  em  outras  direções  poderá  assegurar 
nossa  saúde,  prosperidade  e  segurança  enquanto  nação  no mundo moderno”  (BUSH, 
1945).
Outro  ponto  fundamental  é  a  cadeia  linear  seguida  pelo  desenvolvimento  da 
ciência. A pesquisa básica leva à ciência aplicada e essa leva à tecnologia. Ao travar a 
busca  desinteressada  e  curiosa  pela  verdade,  onde  quer  que  ela  leve,  interrompe­se  o 
fluxo  natural  do  desenvolvimento  que  tem,  no  seu  extremo,  os  avanços  necessários  à 
saúde, à indústria, etc. Para garantir o bem­estar público, a ciência deve ser preservada e 
incentivada  em  seu  percurso  de  desenvolvimento.  O  determinismo  do  relatório  é 
impressionante,  com  sua  insistência  na  relação  automática  entre  as  três  “fases”  do 
desenvolvimento científico e delas para a promoção do bem comum. A citação seguinte 
é bastante representativa do tom da argumentação e do seu conteúdo:
Os avanços na ciência, quando colocados em prática, significam mais 
empregos,  salários  maiores,  jornadas  de  trabalho menores,  colheitas 
mais  abundantes,  mais  tempo  para  a  recreação,  para  o  estudo,  para 
aprender a viver sem o trabalho mortalmente fatigante que tem sido a 
sina do homem comum há eras. Os avanços na ciência também trarão 
padrões  de  vida  mais  elevados,  levarão  à  prevenção  ou  à  cura  de 
doenças,  permitirão  a  preservação  dos  nossos  recursos  naturais,  que 
são  limitados,  e nos darão meios de nos defender de agressões. Mas 
para  atingir  esses  objetivos  –  garantir  um  alto  nível  de  emprego, 
85
manter  uma  posição  de  liderança  mundial  –  o  fluxo  de  novos 
conhecimentos  científicos  deve  ser  contínuo  e  substancial  (BUSH, 
1945).
Para  que  o  automatismo  derivado  dessa  concepção  não  acarretasse  em  um 
controle direto da atividade científica por parte da burocracia estatal desejosa de novas 
aplicações práticas dos avanços científicos em ritmo cada vez maior (o que geraria, por 
sua  vez,  índices  cada  vez  maiores  de  frustração  com  a  incapacidade  da  ciência  de 
responder  na  velocidade  necessária  aos  incessantes  problemas  sociais),  era  preciso 
limitar o controle externo ao mínimo possível60. A proposta de Vannevar Bush prescreve 
a criação de um órgão central de administração da pesquisa científica controlado pelos 
próprios cientistas (chamada no relatório de National Research Foundation e que seria 
criada, depois de uma intensa disputa política travada no parlamento americano, sob o 
nome  de  National  Science  Foundation  [NSF]).  Carlos  Alvarez  Maia  (2013)  mostra 
como  essa  disputa,  que  se  arrastou  ao  longo  de  cinco  anos,  gira  primordialmente  em 
torno  do  poder  de  decisão  no  interior  da  futura NSF61. O  desenrolar  desse  processo 
evidencia “a difusão do mito da ciência ‘pura’, no qual a ciência teria um crescimento 
dependente só de seus parâmetros internos” (MAIA, 2013, p. 44). Ecampo da ciência não é uma preocupação exclusiva dos seus 
analistas.  Ela  interessa  diretamente  aos  próprios  cientistas  e  aos  formuladores  e 
administradores de Políticas de Ciência e Tecnologia. Esses grupos gastam grande parte 
do seu tempo com esforços para garantir a especificidade da ciência em relação a outras 
atividades  técnicas  ou  intelectuais  e  proteger  as  fronteiras  do  seu  território  social  e 
epistêmico.  Parte  expressiva  da  historiografia  das  ciências  nas  últimas  décadas  tem 
11
refletido sobre as formas através das quais os atores sociais envolvidos na produção de 
conhecimento  científico  desenham  os  contornos  de  um  espaço  no  interior  do  qual  a 
prática  da  ciência  é  possível1.  Isso  explica,  em  parte,  o  sucesso  da  expressão 
comunidade  científica  na historiografia  e  em várias modalidades de discursos  sobre  a 
ciência. No entanto, não acredito que devamos insistir em dois tipos de demarcação: o 
analítico,  sustentado  por  filósofos,  historiadores,  sociólogos,  e  o  prático,  fruto  da 
atividade dos próprios cientistas (GIERYN, 1983). O trabalho analítico é uma atividade 
prática.  Em  algumas  circunstâncias,  visa  endossar  e  reforçar  a  visão  dos  cientistas, 
garantindo­lhe  outras  instâncias  de  legitimidade,  outros  conjuntos  de  argumentos  de 
defesa; em outras, visa criticá­las, atacá­las, substituí­las, reformá­las.
Vista  sob  esse  ângulo,  a  história  da  demarcação,  a  história  da  delimitação  e 
atribuição de funções aos fatores “internos” e “externos” da ciência é um aspecto crucial 
da história do conceito de ciência. No entanto, não será através da análise conformada 
pelos métodos dessa disciplina venerável que é a história dos conceitos, à maneira de 
Koselleck  (2006),  que  prosseguirei.  Apesar  disso,  prossigo  achando  profundamente 
inspiradora a  ideia de que “na multiplicidade cronológica do aspecto semântico reside 
[...] a força expressiva da história” (KOSELLECK, 2006, p. 101). O jogo entre o espaço 
de experiência e o horizonte de expectativa se realiza também no discurso, essa trama 
heterogênea eivada pelas relações de força que atravessam o tempo no qual é criado e 
consumido. Como prossegue o autor: “[o]s momentos de duração, alteração e futuridade 
contidos em uma situação política concreta são apreendidos por sua realização no nível 
linguístico”  (KOSELLECK,  2006,  p.  101).  O  reconhecimento  da  pertinência  desses 
argumentos não significa uma adesão a essa perspectiva, nem nos impede de criticar a 
persistência  da  polarização  entre  linguagem  e  mundo  presente  na  concepção  de 
Koselleck,  que  implica  na  cisão  tão  marcada  entre  história  dos  conceitos  e  história 
social (embora, de acordo com o autor, uma se sirva da outra). De qualquer modo, esta 
não é uma história do conceito de ciência, embora me utilize fartamente dessa história e 
pretenda contribuir para algum aspecto da sua compreensão.
Ainda tratando da relação entre a dimensão simbólica e a dimensão material, é 
preciso  aqui  realizar  a  crítica  da  perspectiva  de  certa  vulgata  marxista,  fundada  na 
divisão  rígida  e  estreita  entre  base  e  superestrutura.  Nesta  versão  mecanicista,  as 
1Esse é um aspecto muito importante do livro de Simon Schaffer e Steven Shapin, Leviathan and the air­
pump, que será abordado no quarto capítulo deste trabalho.  
12
manifestações linguísticas, assim como os demais “produtos intelectuais” (arte, cultura, 
ideias)  –  excetuando­se,  na maioria  das  vezes,  as  ciências  naturais  –  fazem  parte  da 
superestrutura,  vista  como  mero  epifenômeno,  determinado  pela  base,  que  seria  a 
organização  material  da  vida  e  da  sociedade,  a  esfera  das  forças  produtivas 
(WILLIAMS, 2005). Assim, o discurso seria mero reflexo de uma estrutura econômica 
e  social  que  o  ultrapassa  e  o  determina.  O  marxismo  vulgar  guarda  um  curioso 
paradoxo:  se  trata  de  um  pensamento  social  que  afirma  a  irrelevância  de  todo 
pensamento  social,  sendo  a  superestrutura  apenas  um  reflexo  ideológico  do modo  de 
produção  dominante.  Daí  deriva  parte  da  insistência  radical  desse  marxismo  na  sua 
“dimensão científica” (mais precisamente, cientificista), colocando­se em contraposição 
ao pensamento de caráter ideológico e mistificador e à “ciência burguesa”.
Essa visão, da qual parecemos já ter nos livrado há muito tempo, ainda aparece 
para nos assombrar.
É  evidente  que  o  materialismo  histórico  acentua  o  caráter  historicamente 
dependente  do  pensamento,  como  também  a  sua  dimensão  prática.  “A  produção  das 
ideias,  das  representações,  da  consciência  está  em  princípio  diretamente  entrelaçada 
com a atividade material e o intercâmbio material dos homens, linguagem da vida real” 
(ENGELS e MARX, 2009, p. 31). No entanto, nesse último caso, não se trata de uma 
redução do pensamento a um efeito da estrutura social. Encarada de forma a repelir todo 
mecanicismo  e  todo  dogmatismo,  o  materialismo  histórico  torna­se  uma  tese 
sociológica extremamente fértil, que ocupará uma posição importante na nossa tradição 
intelectual e que servirá de inspiração constante neste trabalho.
Teria muitas outras dívidas  teóricas para confessar. Essa digressão, no entanto, 
não  serve  apenas para prestar  um  tributo, mas para  ressaltar  a  concepção do discurso 
como uma prática  social. Como um campo de batalhas. Um  lugar demarcado por  sua 
própria  ordem,  mas  que  não  escapa  à  historicidade.  É  desta  maneira  que  o  discurso 
histórico sobre as ciências será visto neste texto. É assim que os textos de história das 
ciências  aqui  analisados  serão  lidos,  obras  entrelaçadas  com  o  seu  tempo,  expressão 
semântica  da  historicidade  e  práticas  de  intervenção  na  realidade  social  (CERTEAU, 
2006;  FOUCAULT,  2012).  Esta  perspectiva,  obviamente,  nutre­se  da  história  da 
historiografia. É nesse campo que procuro me inscrever, oferecendo um olhar reflexivo 
sobre  as  obras  de  história  das  ciências  e  enfatizando  a  condição  de  historicidade 
presente  nessas  obras.  A  reflexividade,  no  entanto,  não  pode  ser  sinônimo  de  auto­
13
referência,  de  isolamento  circular.  Assim,  procuro  nesta  tese  cobrir  o  percurso  da 
história das ciências durante grande parte do século XX e adentrar na primeira década 
do  XXI.  Essa  abertura  cronológica,  contudo,  será  contrabalançada  pelos  recortes 
temáticos  e  bibliográficos.  O  problema  que  tratarei  aqui  será  referente  aos  “fatores 
internos” e “externos” na explicação da dinâmica da ciência, é em torno desse recorte 
que  gira  a maior  parte  das  preocupações  teóricas  que  serão  abordadas.  Este  trabalho 
propõe  uma  nova  cronologia  para  o  debate  entre  internalismo  e  externalismo,  o  que 
implica uma visão um pouco diferente do material avaliado. Em relação a ele, a escolha 
feita nesta tese foi a de priorizar alguns livros específicos (especialmente na medida em 
que a discussão avança)  e  restringir o debate a uma  tradição específica no  interior da 
história  das  ciências;  os  livros  analisados  aqui  participaram  daquilo  que  chamei  de 
“tradição kuhniana” e foram influenciados pelos desenvolvimentos dos science studies.
Esta  tese procura  também se engajar no combate por uma história das ciências 
efetivamente  histórica,  um  projeto  que  acompanha  a  guinada  historicista  na 
epistemologia  e  que  implica  necessariamente  na  historicidade  da  ciência.  Felizmente, 
nos últimos anos, esse movimento tem crescido em quantidade e qualidade. Em muitos 
livros e artigos que têm sido publicados no Brasil e fora dele, especialmente nas últimas 
duas décadas, ressalta­se a impossibilidade de produzir conhecimento fora da história, a 
dependência da ciência em relação à história,o autor prossegue, 
afirmando que:
Esse mito  traz como corolário uma ciência  ‘neutra’, que não deveria 
sofrer coerções sociais. Decorre daí a ação política dos cientistas em 
luta  corporativa  pelo  poder  de  gerir  sua  autonomia.  Nessa  luta,  os 
cientistas  atuam  sob  o  modelo  de  uma  ‘comunidade’:  uma 
fraternidade de iguais (MAIA, 2013, pp. 44­45).
A comunidade científica deve ser “protegida” da sociedade, que aparece apenas 
como  uma  fonte  de  atrasos  para  o  avanço  da  ciência.  Qualquer  intromissão  de  não 
cientistas nos assuntos da ciência é visto como potencialmente danoso ao progresso que 
os cientistas tão diligentemente lutam para atingir em benefício dessa mesma sociedade 
(HOLLINGER, 1990, p. 902).
Um  exemplo  bem  acabado  dessa  visão  apareceu  na  revista  Science  em  sua 
edição  de  janeiro  de  1961.  The  moral  un­neutrality  of  science,  transcrição  de  um 
discurso  proferido  por Charles  Pierce  Snow  (famoso  por  sua  reflexão  sobre  as  “duas 
60  A  discrepância  entre  as  promessas  de  progresso  ilimitado  e  a  capacidade  limitada  da  ciência  em 
fornecer  respostas  efetivas  levou  a muito descontentamento  e  frustração  em certos  setores  sociais. Nas 
ocasiões mais delirantes, às suposições de que “o governo” ou “os militares” mantinham em segredo as 
realizações  tecnológicas  relevantes  (armamentos  absurdamente  poderosos,  vírus  mortais  e  coisas  do 
gênero). 
61Segundo Donald Stokes (2005, p. 86): “o projeto organizacional de Bush foi derrotado, ao passo que a 
sua ideologia triunfou”.
86
culturas”) na  reunião anual de 1960 da American Association  for  the Advancement of 
Science  (AAAS)62.  O  tom  do  texto  é  o  da  polarização  entre  os  cientistas  (“o  grupo 
profissional mais  importante do mundo atual” [SCIENCE, 1961, p. 256]63) e o “resto 
do mundo”. O seu objetivo é retirar os cientistas da posição subalterna de “soldados sem 
uniforme”  no  sistema  de  Pesquisa  &  Desenvolvimento  da  Big  Science  eivada  pelas 
tensões  da  Guerra  Fria  e  colocá­los  no  topo  da  cadeia  de  comando.  Esse  período  é 
marcado  pelos  debates  em  torno  das  atribuições  de  autoridade  e  poder  decisório  no 
âmbito da pesquisa  científica. De um  lado,  alguns  setores  do establishment político  e 
econômico  –  diante  da  centralidade  da  ciência  nos  projetos  de  poder  dos  Estados 
nacionais  –  passam  a  considerar  a  ciência  “importante  demais  para  ser  deixada  aos 
cientistas”  (CASTELFRANCHI,  2008,  p.  36).  Do  outro  lado,  os  cientistas  buscavam 
operações discursivas que  legitimassem a  sua  autonomia e  a  sua  autoridade exclusiva 
para legislar e julgar sobre temas de ciência. A transformação do cientista (e do físico, 
em especial) em “recurso militar” e a subsequente sujeição à regras externas de conduta, 
à  disciplina militar  de  obediência  e  hierarquia,  seria  um  abandono  (imperceptível)  da 
plenitude  da  vida  científica.  Embora  Snow  enfatize  que  não  há  distinção  conceitual 
entre  produzir  armas  de  destruição  em  massa  ou  medicamentos  –  a  diferença  é 
estritamente moral  (SCIENCE,  1961,  p.  258)64.  A  estratégia  que  o  autor  emprega  é 
uma aguerrida defesa da disciplina moral dos cientistas que dispensaria qualquer tipo de 
controle externo65. São duas as fontes dessa moral: a busca da verdade como motor da 
investigação e, uma vez bem sucedida essa busca, a certeza do conhecimento66. Tudo 
que a sociedade deve fazer em retribuição pelo gesto abnegado de altruísmo – além do 
pagamento de vultosas somas de dinheiro público – é simplesmente deixar com que os 
cientistas resolvam por si mesmos como gerir os seus recursos.
62  Sobre  o  papel  da AAAS  na  domesticação  da  história  das  ciências  nos  EUA,  ver MAIA,  2001. Os 
cientistas  radicais dos anos 1970, de modo a marcar o caráter elitista e corporativista dessa  instituição, 
apelidaram­na de AAA$ (LÉVY­LEBLOND e JAUBERT, 1973, p. 20). 
63 No original: “the most important occupational group in the world today”. Tradução minha.
64 Esse ponto ecoa a seguinte questão: existe moral dos cientistas, mas não moral da ciência.
65 Um exemplo curioso (para nós, pelo menos) que Snow utiliza para defender a virtude dos cientistas é a 
sua convicção de que os cientistas se divorciam menos do que outros grupos profissionais com o mesmo 
nível de educação e renda (SCIENCE, 1961, p. 256)
66 Aqui,  Snow  recorre  a  um  procedimento  logicamente  inconsistente  (especialmente  para  alguém  tão 
imbuído  de  cientificismo),  mas  sociologicamente  recorrente  e  revelador:  a  passagem  da  denotação  à 
prescrição.  Mesmo  que  aceitemos  que  os  cientistas  sejam  capazes  de  enunciar  verdades  sobre  certos 
aspectos da  realidade, não  teremos nenhuma garantia  lógica que essa verdade nos  ajude a  agir  sobre  a 
realidade. Essa conexão só funciona no interior de uma cultura cientificista, em que a moral é percebida 
como decorrente da “verdade” e essa, por sua vez, é independente da moral.
87
Apontar  para  a  relação  entre  a  mitologia  cientificista  da  “comunidade”  e  a 
posição  política  da  ciência  nos  EUA  do  pós­guerra  é  fundamental  para  uma 
compreensão historiográfica da obra de Kuhn  (e  terá um papel  relevante no problema 
dos fatores internos e externos, com os quais estamos preocupados aqui). 
Outra  fonte  importante  para  a  compreensão  do  ambiente  no  qual  é  forjado  o 
discurso kuhniano sobre as ciências é a sua atividade docente no interior do programa 
de  General  Education  in  Science  da  Universidade  de  Harvard.  Foi  através  desse 
programa que Kuhn afastou­se da sua formação original (nessa época ele já finalizava o 
seu doutoramento em física), teve contato com a história das ciências e desenvolveu as 
ideias que dariam origem à Estrutura (que ele chega a descrever, defensivamente, como 
“uma  tentativa de  explicar  a mim mesmo e  a  amigos  como me  aconteceu de  ter  sido 
lançado  da  ciência  para  a  sua  história”  [KUHN,  2001,  p.  10]).  Esse  novo  plano  de 
ensino  de  ciências  foi  elaborado  sob  o  comando  do  químico,  historiador  da  ciência, 
administrador  e  policy  maker  James  Bryant  Conant67.  Ao  mesmo  tempo  em  que  a 
proposta de uma nova Política de Ciência e Tecnologia era elaborada, uma tentativa de 
transformação  na  educação  científica  no  ensino  superior  dos  EUA  reforçava  o 
argumento da centralidade da ciência na promoção de progresso social – a Universidade 
de Harvard  foi  o  centro  irradiador dessa  iniciativa  (em grande parte  frustrada). Nesse 
modelo, todas as formações superiores deveriam receber cursos básicos de ciências para 
incutir  nas  novas  gerações  uma  imagem  de  respeito  e  admiração  pelas  ciências  e 
determinado conjunto de valores que se supunha ser parte da visão científica de mundo. 
Em suma: era preciso imbuir a elite intelectual americana de certo “espírito científico”. 
Conant tinha a firme convicção de que o estudo histórico das ciências deveria ser parte 
integrante  desse  esforço  de  criação  de  uma  cultura  científica.  Especialmente  após  a 
Segunda  Guerra  Mundial,  essa  seria  uma  das  formas  de  combater  o  medo  e  a 
desconfiança  contra  a  ciência,  fomentando  uma  atitude  positiva.  Sabendo  que  a  elite 
formada por Harvard seria responsável pelos grandes cargos administrativos nas esferas 
pública  e  privada,  Conant  pretendia  criar  “especialistas  em  julgar  especialistas” 
67Conant  teve uma carreira múltipla e bem sucedida. Foi presidente da Universidade de Harvard entre 
1933  e  1953,  trabalhou  na  administração  dos  laboratórios  federais  durante  a  Segunda Guerra Mundial 
(estando envolvido inclusive com o Projeto Mannhatan), foi enviado para a Alemanha Ocidental nos anos 
1950, desenvolveu projetos de avaliação da educação nos EUA e propôsdiversas reformas (geralmente de 
cunho  liberal)  no  sistema  educacional.  Foi  também  autor  de  diversas  obras  de  história  das  ciências  e 
editor das importantes Harvard Case Studies in the History of Science. Além disso, Conant foi o mentor 
de Thomas Kuhn na sua transição da física para a história das ciências.
88
(CONANT apud FULLER,  2000,  p.  23)68. Assim,  se  tratava  de  fornecer  uma  espécie 
bastante  particular  de  alfabetização  científica,  de  um  tipo  que  mantivesse  os  futuros 
financiadores  da  pesquisa  a  uma  distância  respeitosa  da  atividade  cotidiana  dos 
cientistas69.
Segundo Steve Fuller (2000), a teoria da ciência desenvolvida por Thomas Kuhn 
relaciona­se diretamente com a sua longa prática pedagógica nesse programa. A seleção 
cuidadosa de estudos de caso retirados preferencialmente do período anterior à metade 
do século XIX revelava uma tendência a distanciar­se da ciência contemporânea e tratá­
la como mera continuidade de um padrão estabelecido em qualquer atividade digna de 
ser  adjetivada  de  científica. As  gigantescas  diferenças  de  organização  social,  impacto 
político e mobilização de recursos materiais envolvidas na prática da ciência no século 
XVII e no século XX eram virtualmente apagadas. A ciência normal, seja ela praticada 
por Newton ou por Bohr, é sempre resolução de quebra­cabeças. Isso não significa que 
Kuhn  desconsiderasse  a  existência  da Big  Science  (ele mesmo  foi  recrutado  para  um 
laboratório militar durante a Segunda Guerra Mundial); ela simplesmente não era levada 
em conta como relevante para a forma de produção de conhecimento científico.
A  elaboração  do  conceito  de  ciência  normal  parece  guardar  uma  imagem  de 
ciência como portadora de um modelo de desenvolvimento bastante estável ao longo de 
vários  séculos,  mas  que,  simultaneamente,  adapta­se  perfeitamente  ao  modo  de 
produção  de  conhecimento  científico  do  pós­guerra.  Assim,  uma  ciência  industrial  e 
especializada,  firmemente  apoiada na divisão do  trabalho  intelectual  entre  as  diversas 
comunidades  de  especialistas,  mantém  as  características  “essenciais”  que  fazem  com 
que ela um empreendimento tão bem sucedido. Embora a mentalidade científica esteja 
sujeita  a  mudanças  radicais  por  meio  das  mudanças  de  paradigma,  a  estrutura  da 
comunidade científica permanece. E é a comunidade e não a mentalidade que garante o 
sucesso da ciência. 
O  par  conceitual  dominante  de  Kuhn,  “comunidade”  e  “paradigma”,  oferece 
uma superação bastante limitada para a questão dos fatores internos e externos. O que se 
apresenta  como  alternativa  –  o  “sincretismo”  da  obra  de  Kuhn  –  é  uma  “sociologia 
internalista”  (ou  uma  “história  social  dos  fatores  internos”)  na  qual  noções 
68 No original: “experts in judging experts”. Tradução minha.
69Carl Sagan nos relata a sua experiência com o currículo de educação  integral  inserido na reforma da 
Universidade  de  Chicago  no  começo  dos  anos  1950,  na  qual  “a  ciência  era  apresentada  como  parte 
integrante da magnífica tapeçaria do conhecimento humano” (SAGAN, 2006, p. 15).
89
“irracionalistas”  –  como  fé,  compromisso,  dogma  e  conversão  –  são  utilizados  para 
compreender uma organização e uma dinâmica social que se desenvolve exclusivamente 
no interior da comunidade científica70. Politicamente, podemos extrair dessa descrição a 
implicação  da  autonomia  radical  da  comunidade  científica  (FULLER,  1992,  p.  257; 
STENGERS, 2002, pp. 13­15). As influências externas seriam acionadas nos momentos 
de  crise,  nos  quais,  juntamente  com  o  novo  paradigma,  se  configura  uma  nova 
comunidade  que  é  forjada  em meio  a  pressões  sociais,  culturais,  políticas  e  assimila 
questões  “externas”. Na Estrutura, Kuhn apenas  tangencia  esse  tema e, de  forma não 
muito  diferente  do  que  encontramos  nas  descrições  de  alguns  autores  internalistas,  e 
oferece  um  tipo  de  justificativa  que  tem  a  seguinte  estrutura:  “os  fatores  externos 
participam  de  alguma  maneira,  mas  esse  trabalho  não  é  sobre  eles”.  Em  um  trecho 
largamente  citado,  ele  aponta  alguns  “elementos  históricos  significativos”  que 
contribuíram  para  a  crise  na  astronomia  ptolomaica  e  a  ascensão  do  paradigma 
copernicano  e  afirma  que:  “numa  ciência  amadurecida  [...]  fatores  externos  [...] 
possuem importância especial na determinação do momento de fracasso do paradigma” 
(KUHN, 2001, p. 97)71. 
Apesar  do  caráter  historiograficamente  e  filosoficamente  relevante  do  papel 
desempenhado  pelas  revoluções  na  abordagem  kuhniana,  é  a  ciência  normal  que 
desempenha um papel central na produção de conhecimento científico. Nos (geralmente 
longos) períodos de ciência normal é que as banais atividades de resolução de quebra­
cabeças  permitem  um  domínio  maior  do  terreno  coberto  pelo  paradigma.  É  durante 
esses períodos que há efetivamente progresso. 
Tratando  dessa  questão  no  último  capítulo  da  Estrutura,  ao  apresentar  a  sua 
conhecida  concepção  “darwiniana”  e  anti­teleológica  de  progresso72,  Kuhn  discute 
algumas definições do progresso científico e as suas possibilidades nos regimes normais 
70 Essa  “sociologia  internalista”  influenciou  decisivamente  a  configuração  do  campo da  sociologia  do 
conhecimento  científico,  em  especial  a  primeira  geração  dos  “laboratory  studies”,  que  estudavam 
etnograficamente o trabalho dos cientistas, focando principalmente naquilo que eles fazem quando fazem 
ciência – nas práticas que delimitam a “comunidade”.  
71 Para Kuhn,  esse debate  não diz  respeito  apenas  à  escolha  entre  internalismo ou  externalismo como 
eixo  explicativo  das  mudanças  científicas,  mas  também  à  discussão  positivista  da  distinção  entre 
“contexto  da  descoberta”  e  “contexto  da  justificação”,  que  Kuhn  classifica  como  “extremamente 
problemática” (KUHN, 2001, p. 28). O autor retornaria a essa discussão em um artigo do início da década 
de 1970 no qual  tenta  esclarecer  justamente  esse ponto da  sua  argumentação na Estrutura  e  coloca no 
centro do debate a resistência dos “contextos” a um teste empírico efetivamente histórico. Nesse texto, ele 
volta  a  afirmar  que  “outros  fatores  relevantes  [para  a  escolha  entre  teorias]  se  encontram  fora  das 
ciências” (KUHN, 2011, p. 344).  
72 De uma maneira bastante similar às “conjecturas e refutações” de Sir Karl Popper.
90
e revolucionários de atividade científica. Na ciência normal “o progresso parece óbvio e 
assegurado” e, mais do que isso, “a comunidade científica está impossibilitada de ver os 
frutos do seu trabalho de outra maneira” (KUHN, 2001, p. 205). Isso deriva diretamente 
das  especificidades  da  comunidade  científica,  que  lhe  garantem maior  competência  e 
eficácia  na  resolução  dos  problemas  legítimos  postos  pelo  paradigma  e,  portanto, 
capacidade de progredir no interior daquilo que é percebido como prioridade. 
Durante os períodos de crise e  revolução, a concepção de progresso é bastante 
diferente e depende de um  recurso à história do campo de conhecimento em questão. 
Uma  revolução  só  pode  ser  percebida  como  gerando  progresso  quando,  depois  de 
resolvida, os membros do novo paradigma dominante percebem­no como a única forma 
de  solucionar  uma  série  de  problemas  que  esse  próprio  paradigma  indica  como 
relevantes  (uma  “história  reescrita  pelos  poderes  constituídos”,  nas  palavras  de Kuhn 
[2001,  p.  209]).  Retrospectivamente,  atribuem  às  suas  realizações  a  capacidade  de 
avançar onde seus antecessores estagnaram e traçam uma linha de evolução contínua e 
inexorável  da  sua  disciplina  desde  os  precursores  (geralmente  em  algum  lugar  da 
Antiguidade) até os praticantes contemporâneos. A únicaforma das  revoluções  serem 
vistas como progresso é negando a existência de revoluções tais como Kuhn as concebe 
e apelando para a  imagem teleológica  tradicional de ciência que a sua  teoria pretende 
substituir. Conforme afirma o autor em outra passagem:
Grande  parte  da  imagem  que  cientistas  e  leigos  têm  da  atividade 
científica  criadora  provém  de  uma  fonte  autoritária  que  disfarça 
sistematicamente – em parte devido a razões funcionais importantes – 
a existência e o significado das revoluções científicas (KUHN, 2001, 
p. 174. Grifo meu). 
Desse  modo,  Kuhn  não  vê  nenhum  problema  na  manutenção  dessa  imagem 
pelos praticantes de determinada ciência e a justifica pelo seu papel na manutenção da 
coesão da comunidade e na sua “utilidade pedagógica” (KUHN, 2001, p. 10). “É pelo 
fato de o paradigma não ser objeto de um recuo crítico que os cientistas abordam com 
confiança os fenômenos mais desconcertantes”, afirma Isabelle Stengers (2002, p. 14). 
O que aparenta ser um jogo equilibrado entre “interno” e “externo” é um juízo de valor 
bastante claro: ciência se produz apenas dentro da comunidade funcionando em regime 
normal. 
É  preciso  ressaltar  também  que  a  alegada  superação  “sincrética”  operada  por 
Thomas  Kuhn  não  questiona  a  definição  dos  fatores.  Pelo  contrário,  a  metáfora  da 
comunidade  garante  uma  delimitação  rigorosa  daquilo  que  é  do  âmbito  “interno”  e 
91
daquilo que é “externo”. O paradigma impõe rígidas fronteiras, sempre patrulhadas. O 
(pretenso)  isolamento  da  comunidade  em  relação  à  sociedade  –  resultado  da  forma 
específica como ela se configura – deve ser defendido e preservado, pois é o que garante 
à ciência a sua capacidade de progresso. Mesmo nos momentos em que estamos diante 
de  uma  situação  de  acúmulo  irreversível  de  “anomalias”  capazes  de  pôr  em  xeque  a 
viabilidade  de  um  paradigma  dominante,  a  especificidade  da  comunidade  científica 
justificaria  a  sua  exclusiva  autoridade na  escolha entre  teorias  rivais. Kuhn é  taxativo 
em  relação  a  esse  ponto  e  considera  que  “a  própria  existência  da  ciência  depende  da 
delegação  do  poder  de  escolha  entre  paradigmas  a  membros  de  um  tipo  especial  de 
comunidade” (KUHN, 2001, p. 210).   
A  vitória  da  comunidade  científica73,  expressão  cuja  popularização  devemos  a 
Michael  Polanyi  (e  que  está  ausente  do  relatório Bush,  por  exemplo),  como  conceito 
explicativo  central  é  também  a  vitória  da  corporação  dos  cientistas  em  sua  luta  por 
afirmação e conquista do poder. A escolha de Thomas Kuhn por essa solução entre as 
formas possíveis de narrar a história das ciências marca a sua relação com o seu tempo 
histórico (MAIA, 2013, pp. 50­53). Considero que essa avaliação reforça a posição da 
história  da  historiografia  em  sua  busca  pelas  condições  de  produção  do  discurso 
histórico; especificamente, serve ao argumento que sustento nesta tese e que considera a 
história das ciências uma forma de intervenção política na arena pública. Obviamente, 
isso não significa que a obra de Kuhn é mera reprodução historiográfica da acomodação 
entre  esquerda  e  direita  no  âmbito  do  Estado  de  bem­estar,  como  uma  forma  de 
“internalismo  embutido”  que  projeta  inadvertidamente  no  passado  as  questões  do 
presente.  Essas  tensões,  embora  participem  da  construção  da  escrita  da  história,  não 
estão sozinhas. É preciso considerar que há um gesto ativo de interferência, uma espécie 
de  consciência  de  que  descritivo  e  normativo  não  são  tão  facilmente  discerníveis.  E 
claro, não há razão para que se deixe de lado o esforço legítimo de escrever o passado 
das  ciências  (se  estivermos  lidando  com um autor  sério). Um esforço que  só pode  se 
realizar  por  meio  da  mobilização  de  recursos  teóricos,  linguísticos  e  políticos  já 
disponíveis,  que  só  pode  ser  pensado  enquanto  participante  de  um  conjunto 
73 A origem da expressão “comunidade científica” é incerta. Alguns atribuem a sua cunhagem ao próprio 
Polanyi (FULLER, 1992, p. 260). David Hollinger (1990, p. 899) data o seu surgimento um século antes, 
sendo “comunidade científica” um conceito central na filosofia da ciência de Charles Pierce desenvolvida 
nos  anos  1860  e  1870,  embora  enfatize  o  seu  desaparecimento  do  vocabulário  das  discussões  sobre 
ciência nos EUA até o seu retorno (reconfigurado), na década de 1960, quando se torna uma expressão de 
circulação corriqueira.
92
considerável  de  normas  de  conduta  (intelectual,  diga­se)  socialmente  estabelecidas 
(embora nem sempre  com a participação ou  anuência de  todos os  setores  sociais)  em 
meio a amplos processos de resistências, conflitos, negociações, imposições. 
Se  a  leitura  que  apresentei  de Thomas Kuhn parece  tão desfavorável  à  efetiva 
historicização  do  conhecimento  científico,  o  que  restou  do  “papel  para  a  história”? 
Como atribuir a esse autor um papel tão significativo na guinada que marcou a análise 
das ciências no último quartel do século XX? 
Por mais que os esforços de revelar uma continuidade entre a obra de Kuhn e a 
filosofia do Círculo de Viena  tenham chegado a conclusões  importantes  e que devem 
ser levadas em conta, é fundamental retomar uma leitura “revolucionária” da sua obra. 
A  tentativa de posicionar a virada em direção às concepções  renovadas de ciência em 
algum momento dos anos 1970 (ou nos anos 1930, com Fleck e Mannheim) – longe da 
influência direta de Thomas Kuhn – era um sinal de maturidade do campo dos science 
studies,  uma  tentativa  de  ocultar  a  figura  do  “precursor”  e  “andar  com  as  próprias 
pernas”. Uma  avaliação  que  tem  por  objeto  a  história  da  historiografia,  contudo,  não 
pode realizar tal operação sob pena de não compreender o papel que a ambiguidade de 
Kuhn desempenhou em seus “discípulos”.
Kuhn  frequentemente  referiu­se  à  ambiguidade  na  leitura  da  Estrutura  a  um 
“mal  entendido”,  que  ele  tomava  como  indício  da  “comunicação  parcial”  entre 
paradigmas  incomensuráveis.  Ele  indica  esse  tipo  de  situação  tanto  em  relação  à 
filosofia  da  ciência  que  o  precedeu,  quanto  em  relação  aos  desdobramentos  na 
sociologia, na filosofia e na história das ciências que alegavam uma herança kuhniana. 
A resposta ao primeiro grupo aparece principalmente quando Kuhn reage às críticas que 
lhe  foram  dirigidas  por  Sir Karl  Popper,  Stephen Toulmin,  Paul  Feyerabend  e  outros 
importantes  filósofos  da  ciência  durante  o  famoso  Quarto  Colóquio  Internacional  de 
Filosofia da Ciência, em 1965. Nessa ocasião ele chega a “postular a existência de dois 
Thomas Kuhn” (KUHN, 2006, p. 156) que teriam escrito dois livros diferentes embora 
com o mesmo nome e utilizando as mesmas palavras. Em relação aos seus “seguidores”, 
Kuhn  parece  ainda  mais  impaciente,  considerando  muitas  das  ideias  surgidas  nas 
décadas posteriores à publicação da Estrutura e por ela influenciadas (especialmente o 
“programa forte”) como “inadmissíveis”, “desvairadas” e “absurdas” (KUHN, 2006, pp. 
115­151; CONDÉ E OLIVEIRA, 2002). 
93
Não  penso  que  as  ambiguidades  de  interpretação  da  obra  de  Kuhn  sejam  um 
mero  mal  entendido.  Não  precisaríamos  ir  muito  longe  nos  estudos  linguísticos,  na 
teoria  literária  ou  nos  debates  sobre  história  do  livro  e  da  leitura  para  afirmar  a 
centralidade do leitor nas práticas de leitura. As possibilidades de leituras diferentes de 
um  mesmo  texto  dependem  diretamente  de  quando  ele  é  lido,  por  quem  e  em  que 
condições. Não há uma essência única a ser extraída do texto, uma ideia transferida da 
mente  do  autor  para  o  papel  e  que  de  lá  só  poderia  ser  retirada  pela  correta 
interpretação74.  Dessa  forma,  não  acredito  serpossível  julgar  como  maus  leitores 
aqueles que consideram a obra de Kuhn um ponto de inflexão na sociologia (que, com a 
ascensão da comunidade científica ao papel de grande unidade criativa, teria acesso ao 
interior da produção de conhecimento científico), na história (cujos argumentos seriam 
indispensáveis  para  a  compreensão  de  uma  atividade  científica)  e  na  filosofia  das 
ciências  (ela  também  obrigada  a  realizar  uma  “virada  historicista”  caso  quisesse 
continuar a entender a ciência).
Pelo contrário, acredito ser necessário entender a leitura que a geração posterior 
à  Kuhn  realizou  da  sua  obra  e  que  permitiu  que  essa  geração  se  considerasse 
representante da “tradição kuhniana” de análise da ciência. Como lidaremos largamente 
com a historiografia que se origina dessa  tradição, apontarei aqui, apenas brevemente, 
como a  filosofia  e  a  sociologia das  ciências  reagiram ao aparecimento de A estrutura 
das revoluções científicas e porque esse texto foi considerado relevante nessas áreas.
É  na  corporação  dos  filósofos  da  ciência  que  a  Estrutura  causa  o  primeiro 
impacto, ainda nos anos 196075, embora não se  tratasse propriamente de um  livro de 
filosofia  das  ciências.  Era  um  trabalho  que  pretendia  fornecer  subsídios  para  a 
renovação da filosofia das ciências e da epistemologia a partir de implicações teóricas 
retiradas  da  historiografia  das  ciências  produzida  nas  décadas  de  1940  e  1950 
(especialmente os escritos de Alexandre Koyré), uma abordagem capaz de modificar a 
imagem de ciência corrente à época (KUHN, 2001, pp. 19­22 e 27­28; 2011, pp. 27­44). 
Segundo  Paul  Hoyningen­Huene,  um  dos  mais  importantes  intérpretes  da  obra  de 
Thomas Kuhn, a Estrutura ganhou evidência entre os filósofos justamente por desafiar 
74 Do mesmo modo, não precisamos nos alongar na discussão sobre os limites da interpretação. Limites 
que não são dados pelo próprio texto. Se há, virtualmente, infinitas possibilidades de leitura de um texto é 
porque  as  possibilidades  de  injunção  entre  o  texto,  o  leitor  e  o  contexto  são  também,  virtualmente, 
infinitas.
75 Vide o já mencionado Quarto Colóquio Internacional de Filosofia da Ciência.
94
as convicções estabelecidas pela filosofia das ciências (HOYNINGEN­HUENE, 2013, 
p.  24).  O  autor  enumera  alguns  aspectos,  como:  a  crítica  da  ideia  teleológica  e 
cumulativa  do  progresso  das  ciências;  o  abandono  do  método  científico  como  um 
conjunto  coerente  de  critérios  a  partir  dos  quais  é  possível  a  prática  da  ciência;  a 
refutação  do  racionalismo  crítico  de  Popper  pela  ênfase  no  caráter  “tradicionalista”, 
“conservador” e “dogmático” da ciência normal; o deslocamento do agente produtor de 
conhecimento científico, que passa da dimensão individual, do cientista para a dimensão 
coletiva da “comunidade científica” (HOYNINGEN­HUENE, 2013, pp. 24­25)76.
No entanto, nesse momento, as contribuições kuhnianas não foram assimiladas, 
mas  atacadas,  rotuladas  de  relativistas,  irracionalistas  e  –  o  que  para  nós  é  muito 
relevante – historicistas (LAKATOS e MUSGRAVE, 1979; STENGERS, 2002, pp. 12­
13).  Na  filosofia  das  ciências,  a  obra  de  Thomas  Kuhn  é  a  maior  expressão  de  um 
movimento que causaria, nas palavras de Ian Hacking, uma “crise de racionalidade” na 
disciplina  (HACKING,  2012,  p.  59)77. Essa  crise  seria  derivada  da  incapacidade  dos 
filósofos  de  perceberem  a  ciência  como  fruto  de  um  processo  histórico78.  Uma 
incapacidade que é decorrente da ênfase na ciência como um conhecimento que possui 
acesso privilegiado à realidade e segue certas regras, o método científico, que garantem 
o seu isolamento da sociedade. Sem a pretensão de reduzir um conjunto filosófico que é 
extremamente sofisticado, podemos afirmar que a ciência era vista como uma entidade 
epistemologicamente  superior,  um  conjunto  de  enunciados  objetivos  fundados  na 
observação  e  pairando  sobre  a  confusão  dos  assuntos  mundanos.  Essa  imagem  era 
76 É preciso esclarecer dois pontos em relação a esse argumento. Em primeiro  lugar,  já apontei acima 
como  vários  estudos  tem  aproximado  as  concepções  kuhnianas  daquelas  elaboradas  pelos  empiristas 
lógicos  ou  pelos  popperianos.  Em  segundo  lugar,  outros  autores  haviam  produzidos  críticas 
filosoficamente  mais  substantivas  aos  pressupostos  da  filosofia  das  ciências  e  não  tiveram  o  mesmo 
impacto que Thomas Kuhn. Dez anos antes da Estrutura, em 1951, Quine (uma das grandes influências 
filosóficas  de Kuhn)  publicou  o  seu  brilhante  ensaio  “Dois  dogmas  do  empirismo”,  no  qual  desmonta 
pacientemente um pressuposto básico da filosofia das ciências desde pelo menos meados do século XIX 
(transformado em bandeira filosófica pelo Círculo de Viena): a radical oposição entre ciência e metafísica 
(QUINE, 2010, p. 37­71). O seu trabalho, no entanto, não circulou para além dos ambientes profissionais 
da  filosofia das ciências  e  áreas correlatas  e não provocou escândalo. O  impacto de Kuhn parece estar 
mais relacionado ao que ele propõe (vagamente) do que ao que ele critica. 
77 A obra de Kuhn é fruto de um amplo processo de transformação na compreensão das ciências. Não é 
um  evento  isolado.  Entre  outros  filósofos  preocupados  com  as  implicações  filosóficas  da  história  das 
ciências  nos  anos  1960,  podemos  citar  Stephen Toulmin,  Paul  Feyerabend  e  Imre Lakatos  (apesar  das 
evidentes  diferenças  entre  as  teorias  da  ciência  desenvolvida  por  cada  um  e  a  relação  entre  história  e 
filosofia da ciência nas respectivas teorias).
78 Esse  argumento  refere­se muito mais  à  filosofia  das  ciências  de matriz  germânica  e  anglo­saxã,  na 
tradição que remonta à lógica, ao empirismo e ao pragmatismo. O caso francês, por exemplo, é bastante 
diverso. Ao sul do Canal da Mancha e Oeste do Reno, a  relação entre  filosofia e história das ciências, 
naquilo  que  se  chamou  de  epistemologia  histórica,  é  mais  antiga  e  mais  independente  da  inflexão 
kuhniana (fazem parte dessa tradição autores como Bachelard, Koyré, Canguilhem e Duhem).
95
incompatível com a noção de historicidade, uma vez que “as filosofias tanto de Carnap 
quanto  de  Popper  não  levam  em  consideração  nem  o  tempo  nem  a  história” 
(HACKING, 2012, p. 65).
Essa certamente seria uma imagem que agradaria Thomas Kuhn, posto que sua 
obra teria atingido o principal objetivo, o de modificar a imagem dominante de ciência 
de uma maneira certamente semelhante à descrição do processo de  transformação dos 
paradigmas. A estrutura das revoluções científicas pode ser lida como uma coleção de 
fragmentos históricos que  funcionam como anomalias, desvios na  imagem cumulativa 
do progresso científico, causando uma crise no modo normal de operação da  filosofia 
das  ciências.  Desse  modo,  a  geração  precedente,  presa  ao  antigo  modelo,  não  seria 
capaz de avaliar a profundidade das mudanças que ocorriam, cabendo à nova geração de 
filósofos a construção de um novo mundo para que pudessem habitar.
Não  devemos  levar  muito  longe  a  analogia  entre  a  teoria  kuhniana  do 
desenvolvimento  científico  e  a  trajetória  da  sua  própria  contribuição  à  filosofia  das 
ciências79.  A  insistência  nesse  procedimento  levaria  à  afirmação,  certamente 
insustentável, da existência de uma filosofia das ciências funcionando no interior de um 
paradigma80. Aqui,  lanço mão dessa  imagem apenas para  reforçar a  inflexão causada 
nesse campo, a transformação em grande parte das pesquisas realizadas em filosofia das 
ciências, que se desviam do seu “curso normal” e passam a ser orientadas de modo a 
refutar ou confirmar as teses levantadas na Estrutura81.
É  essa  a  contribuição  “revolucionária”  de Kuhn  (mas  não  apenas  dele)  para  a 
filosofia:a  passagem  de  uma  concepção  normativa  e  sincrônica  para  outra 
(pretensamente)  descritiva  e  processual  (HOYNINGEN­HUENE,  1992,  p.  487).  Ian 
Hacking,  um  importante  filósofo  das  ciências  contemporâneo,  é  um  dos  autores  que 
parece  bastante  convencido  de  que  a  intervenção  de  Thomas  Kuhn  teve  um  efeito 
profundo  na  filosofia  das  ciências.  “[V]ejam  só  como  nos  tornamos  historicistas”, 
afirma ele, com alguma satisfação, e prossegue asseverando que o “discurso da filosofia 
79Outros  autores  recorreram  à  metáforas  semelhantes,  citando  a  Estrutura  como  self­exemplifying 
revolutions  (LYNCH,  2012)  ou  como  uma  performance  do  próprio  argumento  central  (JASANOFF, 
2012).
80  Curiosamente,  alguns  dos  membros  influentes  do  Círculo  de  Viena  tentaram  dar  uma  feição 
“científica” à sua filosofia.
81 Alberto Cupani refere­se à inevitabilidade da obra de Kuhn na filosofia das ciências mesmo depois de 
passados tantos anos da sua publicação (CUPANI, 2013, p. 13).
96
da  ciência  foi  transformado  desde  a  obra  de Kuhn. Não mais  demonstraremos  nosso 
respeito pela ciência destoricizando­a” (HACKING, 2012, p. 77).  
A  relação  entre  a  história  e  a  filosofia  das  ciências,  no  entanto,  nunca  foi  tão 
próxima  e  tão  consensual  como  sugeria  Hacking;  apesar  da  disseminação, 
especialmente  nos  Estados  Unidos,  de  programas  de  Pós­Graduação  em  História  e 
Filosofia das Ciências a partir dos anos 1970 e de alguns esforços para que se tornassem 
uma  disciplina  unificada.  O  próprio  Thomas  Kuhn  (2011,  p.  45)  posicionava­se 
favorável à manutenção da separação entre essas disciplinas, sugerindo um aumento na 
comunicação entre elas, mas não a sua fusão.
Essa tensão causada pela obra de Thomas Kuhn na filosofia das ciências causou 
desconforto  no  autor,  que  via  nos  filósofos  interlocutores  privilegiados  e  como  o 
público  preferencial  do  seu  livro  (que,  não  obstante,  era  um  livro  de  história  das 
ciências). Em parte devido a esse desconforto, Kuhn passou grande parte da sua carreira 
discutindo o seu próprio trabalho com filósofos, refinando seus argumentos a partir de 
leituras filosóficas, justificando as suas investigações históricas à luz de uma teoria do 
conhecimento mais abrangente (Cf. KUHN, 2006).
A  relação  de  Thomas  Kuhn  com  a  sociologia  das  ciências  é  sensivelmente 
diferente  –  embora  não  menos  desconfortável  e  ambígua.  Ao  citar  Fleck,  ainda  no 
“Prefácio”  da  Estrutura,  Kuhn  se  refere  à  necessidade  de  colocar  as  suas  ideias  no 
“âmbito da Sociologia da Comunidade Científica” (KUHN, 2001, p. 11, grifo meu). Já 
no  seu  famoso  posfácio  de  1969,  ao  tentar  esclarecer  a  confusão  causada  pela 
polissemia  do  conceito  de  paradigma  e  isolar  a  sua  ocorrência  em  dois  sentidos 
principais, o autor se refere explicitamente a um sentido sociológico do termo, definido 
como “toda constelação de crenças, valores, técnicas, etc..., partilhadas pelos membros 
de uma comunidade determinada” (KUHN, 2001, p. 218)82. Ao mesmo tempo, apesar 
de  ter  sido  educado  em  Harvard  e  da  sua  relativa  familiaridade  com  a  discussão 
mertoniana  sobre  a  sociologia  das  ciências,  essa  tese  não  parece  ter  exercido  grande 
influência  sobre  a  visão  kuhniana  da  ciência83.  A  forma  como  Kuhn  possibilitou  a 
82 Podemos também argumentar que o paradigma é a contrapartida epistemológica de um conceito mais 
claramente sociológico como o de “comunidade científica”  (cuja  importância para a obra de Kuhn está 
além de qualquer suspeita). Embora seja a partir desse conceito, como argumentei acima, que Kuhn isola 
a ciência da sociedade mais ampla, garante a sua autonomia e assegura o caráter “racional” da escolha de 
teorias. A comunidade científica kuhniana é o que permite à referida “sociologia internalista”.
83 Sal Restivo e Randall Collins (1983, pp. 190­191) consideram que Kuhn herdou o funcionalismo de 
Merton.
97
abertura de um novo campo de investigações para os sociólogos – apesar das indicações 
apontadas aqui – é algo mais ou menos oblíquo na sua obra. Como sabemos, o próprio 
Thomas  Kuhn  combateu  duramente  as  consequências  da  abertura  que  lhe  atribuíam 
(KUHN, 2006, pp. 133­151; CONDÉ e OLIVEIRA, 2002; OLIVEIRA, 2004). Apesar 
de  todos  esses  sinais  contraditórios,  não  é  possível  negar  que  a  obra  de  Kuhn 
representou uma inflexão na leitura sociológica das ciências84.
Ainda  no  começo  da  década  de  1970,  o  sociólogo  português  (radicado  na 
Inglaterra) Hermínio Martins chamava a atenção para a disjunção entre a sociologia da 
ciência, cuja matriz principal deriva de Robert Merton, e a sociologia do conhecimento, 
desenvolvida por Karl Mannheim, e  tentava mostrar como a obra de Kuhn – vinda de 
fora  da  sociologia  –  contribuía  para  a  superação  dessa  fissura  e  para  a  reabertura  de 
problemas  propositalmente  abandonados  pelos  sociólogos  (MARTINS,  1972,  pp.  13­
19)85.  Já  neste  século,  Terry  Shinn  e  Pascal  Ragoeut  atribuíram  à  Kuhn  o  papel  de 
“autor  de  encruzilhada”,  sendo  responsável  por  empreender  um  duplo  ataque:  de  um 
lado, contra Merton e, de outro, contra o Círculo de Viena. Com isso, Kuhn iria detonar 
os fundamentos da perspectiva sociológica “diferenciacionista” – que, como já defini no 
capítulo  anterior,  enfatiza  a  superioridade  epistêmica  da  ciência  e  procura  explicar  os 
fatores institucionais e sociais (como o ethos mertoniano) capazes de criar ou preservar 
essa  especificidade  –  e  fornecer  subsídios  para  a  fundação  da  corrente 
“antidiferenciacionista” – que, como sugere o nome, tratam a ciência com uma atividade 
humana  entre  outras,  produto  da  cultura,  socialmente  construída,  sem  superioridade 
hierárquica em relação às diversas manifestações sociais (RAGOUET e SHINN, 2008, 
pp. 47­57). 
Assim, a “nova sociologia da ciência” retém alguns pontos da teoria da ciência 
de Thomas Kuhn, a saber:
(1) Que as comunidades científicas  são complexos  inseparavelmente 
sociais e cognitivos;
(2) Que  os  cientistas  são,  tal  como  todo  ator  social,  arraigados  a 
representações preconcebidas da natureza;
84 Esse ponto foi defendido, de forma  independente, por autores escrevendo em situações diferentes, a 
partir  de  referenciais  teóricos  diferentes,  com  objetivos  diferentes  e  posturas  diferentes  em  relação  ao 
valor da contribuição kuhniana.
85 Sua avaliação, no entanto, parecia mais preocupada com o estatuto epistemológico da sociologia, a sua 
cientificidade,  diante  da  teoria  kuhniana  (ecoando  a  distinção  entre  “ciências  pré­paradigmáticas”  e 
ciências  “paradigmáticas”  e  a  existência  de  um  paradigma  monopolista  e  excludente  como  sinal  de 
maturidade de um campo científico).
98
(3) Que  eles  decidem  a  propósito  de  sua  adesão  paradigmática  em 
função de razões externas à lógica e
(4) Que  o  conhecimento  científico  não  pode  escapar  das  ciências 
sociais,  como  tinham  proposto  os  sociólogos  funcionalistas 
(RAGOEUT e SHINN, 2008, p. 56­57)
O mais notório expoente dessa nova sociologia da ciência é o programa forte da 
sociologia do conhecimento científico, proposto na segunda metade dos anos 1970 no 
âmbito do Science Studies Unit da Universidade de Edimburgo86. Os principais autores 
envolvidos nesse projeto ressaltaram o impacto da abordagem kuhniana. Recentemente, 
David Bloor reconheceu a publicação da Estrutura como um importante estímulo para a 
renovação da sociologia das ciências e afirmou que “Kuhn contou a história da ciência 
em  termos  sociológicos”  (BLOOR,  2009,  p.  433)87.  A  melhor  caracterização  da 
herança  kuhniana  na  sociologia  das  ciências  da  década  de  1970  permanece  sendo 
Thomas  S. Kuhn  and  Social  Science.  Essa  pequena  introduçãode Barry Barnes  é,  ao 
mesmo  tempo,  uma  defesa  da  teoria  kuhniana  da  ciência  (especialmente  contra  as 
filosofias de Lakatos e Popper) e um convite à sua utilização na sociologia (não apenas 
no estudo das ciências, mas na investigação mais ampla da cultura, do conhecimento e 
da  cognição).  Barnes  não  parece  ter  dúvida  do  papel  profundamente  renovador 
desempenhado por essa teoria.
Muitas  teorias  do  conhecimento  são  peças  morais  situadas  em  um 
cosmos  maniqueísta.  A  fonte  da  luz  é  a  experiência;  seu  agente,  a 
“razão”. A fonte da escuridão é a cultura; seu agente, a autoridade. [...] 
Verdade,  validade,  racionalidade,  objetividade  figuram  entre  os 
muitos  filhos  da  luz  vestidos  de  branco;  erro  e  irracionalidade, 
costume, convenção, dogma e muitos outros estão vestidos de preto. O 
princípio  motor  desse  drama  é  o  conflito  incessante  entre  as  duas 
forças opostas e irreconciliáveis. [...] Kuhn, no entanto, não é nenhum 
maniqueísta. (BARNES, 1982, pp. 22­23, grifo meu)88
Não, Kuhn  não  é maniqueísta  e mostra  como  autoridade,  razão,  experiência  e 
dogma são todos elementos que desempenham papéis importantes no desenvolvimento 
do  conhecimento  científico;  a  boa  ciência não  se produz  sem que  se  combinem esses 
elementos  aparentemente  irreconciliáveis.  A  teoria  kuhniana  –  da  forma  como  foi 
86 Alguns autores referem­se a esse grupo como Escola de Edimburgo (Cf. PESTRE, 1996; GOLINSKI, 
2005)
87 No original: “Kuhn told the history of science in sociological terms”. Traduçãominha.
88 No original: “Many theories of knowledge are morality plays set in a Manichean cosmos. The source 
of light is experience; its agent ‘reason’. The source of darkness is culture; its agent authority. [...] Truth, 
validity, rationality, objecivity are to be seen among the many white­apparelled children of the light; error 
and irrationality, custom, convention, dogma and many others are dressed in black. The moving principle 
of the drama is the unremitting conflict of the two opposed and irreconcilable forces. [...] Kuhn, however, 
is no Manichean”. Tradução minha 
99
interpretada  por  Barnes  –  descreve  a  ciência  como  algo  que  é  convencional  e, 
simultaneamente, é uma forma de conhecimento da natureza. Assim, por exemplo, uma 
descoberta  científica  não  é  um  evento,  a  revelação  de  algo  que  estava  invisível  ou 
escondido, pronto e à espera do cientista; a descoberta é um processo que depende tanto 
da  natureza  (a  “coisa  a  ser  descoberta”)  quanto  da  sociedade,  que  transforma  o  seu 
modo de perceber o ambiente que a cerca. A noção da descoberta como evento, embora 
desempenhe  uma  função  na  pedagogia  científica,  estabelece  uma  violação  da  história 
das ciências89. A sociologia, por meio da análise do tipo de comunidade que realiza a 
descoberta,  é  requerida  para  dar  conta  de  uma  abordagem mais  realista  das  ciências 
(BARNES, 1982, pp. 41­45). 
Finalmente,  quero  destacar  um  ponto  que  interessa  sobremaneira  à  discussão 
encampada nesta  tese: o problema das fronteiras da ciência (que nos remete à questão 
do internalismo e externalismo). Aqui, o papel da sociologia ganha enorme relevância. 
A citação é bastante esclarecedora:
A fronteira entre científico e não científico deve ela mesma ser uma 
convenção, gerada por processos sociais. Consequentemente, entender 
onde  essa  fronteira  realmente  incide  requer  não  a  formulação  de 
qualquer  princípio  de  demarcação,  mas  antes  o  estudo  empírico 
daqueles processos sociais que tornam a fronteira visível e a sustentam 
(BARNES, 1982, p. 90).90
Esse ponto deixa claro o tipo de leitura da obra kuhniana que foi realizado pela 
nova  sociologia  das  ciências.  Provavelmente,  Kuhn  tenderia  a  concordar  (não  sem 
ressalvas) com a primeira afirmação; dificilmente encamparia a segunda afirmação com 
os argumentos que lhe subjazem e o projeto sociológico que ela desenha. Essa, contudo, 
é uma das novidades da sociologia do conhecimento científico no que diz  respeito ao 
debate  entre  internalismo  e  externalismo,  ela  problematiza  mais  frontalmente  e  mais 
profundamente  essa  divisão,  não  toma  como  garantida  a  separação  entre  conteúdo  e 
contexto. Antes, passa a questionar essas categorias.
Para  concluir,  é  importante  ressaltar  dois  pontos.  Em  primeiro  lugar,  como 
espero ter deixado claro nas páginas precedentes, a formulação kuhniana não apresenta 
89 Apesar de notar para a importância da posição kuhniana, Barnes a considera extremamente cautelosa e 
conservadora, sugerindo que se abandone o conceito de descoberta caso o objetivo seja estudar 
efetivamente o funcionamento das ciências (BARNES, 1982, p. 45)
90 No original: “The boundary between the scientific and the non­scientific must itself be a convention, 
generated by social processes. Hence  to understand where  this boundary actually  falls  requires, not  the 
formulation  of  any  principle  of  demarcation,  but  rather  the  empirical  study  of  those  social  processes 
whereby the boundary is made visible and sustained”. Tradução minha. 
100
mais do que breves sugestões sobre o tratamento sociológico para as ciências. Não há o 
desenvolvimento de diretrizes a serem seguidas ou de um programa de pesquisa. O que 
Kuhn  faz  é  chamar  a  atenção  para  a  importância  de  uma  abordagem  sociológica  do 
conhecimento científico, tarefa que será levada a cabo pela geração que surge na década 
de  1970.  Consequentemente,  em  segundo  lugar,  a  abertura  proporcionada  por  essa 
leitura  não  bastou  para  essa  sociologia,  ela  se  formou  na  confluência  de  diversas 
abordagens. A estrutura das revoluções científicas é um marco, um catalisador de um 
conjunto  de  condições  intelectuais  e  históricas  disponíveis  naquele  momento  – 
obviamente,  sem  a  sua  contribuição,  o  destino  dos  estudos  sociais  das  ciências  seria 
bastante diferente.
4. O passado da tecnociência
101
Neste capítulo, passarei à análise do Leviathan and the air­pump. O objetivo é 
perceber como as estratégias narrativas dos autores se conectam a um novo momento na 
produção da ciência, como a historiografia responde às transformações que marcaram os 
anos 1970 e 1980 e o fim do pacto cristalizado na solução proposta por Thomas Kuhn. 
O  livro  em  questão  foi  forjado  nesse  ambiente  e  guarda  fortemente  as  marcas  desse 
debate.  É  a  mais  importante  obra  historiográfica  a  incorporar  o  novo  modelo 
sociológico  desenvolvido  a  partir  daquilo  que  chamei  de  “tradição  kuhniana”.  Steven 
Shapin,  um  dos  autores  desse  livro,  fez  parte  do  Science  Studies  Unit  e  esteve 
diretamente  engajado  nos  debates  sobre  a  sociologia  o  conhecimento  científico.  Por 
isso,  as  questões  teóricas  e  implicações  políticas  desse  programa  serão  analisadas  em 
mais detalhe ao longo do texto. Como argumentarei adiante, o livro não é uma aplicação 
retrospectiva  da  sociologia  do  conhecimento  científico.  Trata­se  de  uma  obra  de 
história, o que implica uma especificidade que levaremos em conta. Para chegar a essas 
questões,  começarei  por  identificar  certo mal­estar  intelectual  em  relação  às  ciências 
que surge no final da década de 1960 e se fortalece nos anos 1970.
Uma das condições históricas que contribuíram fortemente para o surgimento de 
disciplinas (ou a reconfiguração de disciplinas mais antigas) que se organizam em torno 
de uma nova visada teórica em relação às ciências – como a sociologia do conhecimento 
científico, os science studies e certa vertente da história das ciências – foi o crescimento 
(em quantidade e em intensidade) de atitudes críticas ao modo de produção de ciência 
após  a  Segunda  Guerra  Mundial.  E  o  pior,  essas  críticas  vinham  de  grupos  sociais 
anteriormente  alinhados  ao  establishmentcientífico:  filósofos,  intelectuais  e  até 
cientistas naturais. Essas críticas, por sua vez, identificavam uma mudança na estrutura 
das  ciências  com  a  formação  dos  complexos  industriais­militares­científicos  que 
caracterizaram  o  surgimento  da  Big  Science  e  direcionam­se  a  essa  estrutura91.  No 
entanto,  essa crítica não pretendia defender a neutralidade do conhecimento científico 
em face dos interesses militares, geopolíticos ou econômicos – como fizeram Vannevar 
Bush  ou  C.  P.  Snow.  Com  efeito,  seu  interesse  é  o  oposto  disso,  uma  tentativa  de 
91 Do ponto de vista do “imaginário”, há também uma frustração evidente na geração criada na cultura 
científica  do  pós­guerra.  Todas  as  imagens  promissoras  de  maravilhas  tecnológicas  incessantemente 
bombardeadas  pela  indústria  cultural  de  massa  (da  Inteligência  Artificial  ao  Teletransporte)  não  se 
cumpriram e pareciam não figurar mais no horizonte de expectativa. Obviamente, elas tiveram um efeito 
importante de manter altas as taxas de adesão ao mito do progresso crescente e indefinido da ciência, à 
dimensão prometeica, à retórica do “milagre”.
102
desmascarar  o  discurso  da  neutralidade  como  uma  estratégia  ideológica.  Herbert 
Marcuse é bastante claro nessa questão afirmando que 
não existem dois mundos: o mundo da ciência e o mundo da política 
(e sua ética), o reino da teoria pura e o reino da prática impura – existe 
apenas um mundo no qual a ciência, a política e a ética, a  teoria e a 
prática estão inerentemente ligadas (MARCUSE, 2009, p. 160).
Nesse  pequeno  texto,  convenientemente  intitulado  A  responsabilidade  da 
ciência,  o  filósofo alemão atinge um ponto que considero central:  a  transformação da 
função social da autonomia da ciência. Se no surgimento da ciência moderna a retórica 
da  cisão  entre  a  ciência  e  os  valores  sociais  tinha  uma  função  progressista  e 
emancipatória, no século XX esse procedimento acarretava numa posição conservadora, 
em  favor  de  um  aparato  repressivo  e  do  potencial  aniquilamento  da  espécie  humana. 
Essa  transformação  pode  ser  encarada  como  análoga  ao  processo  de  mutação  da 
burguesia, que passa de classe revolucionária (entre os séculos XVII e XIX) para classe 
conservadora (a partir de meados do século XIX).  Publicado originalmente em 1966, o 
texto  é marcado  pelo  temor  de  uma  catástrofe  nuclear  de  grandes  proporções  –  uma 
preocupação onipresente no período. As duras críticas de Marcuse prosseguem.
Sua própria “indiferença quanto aos valores” torna a ciência cega para 
o  que  acontece  com  a  existência  humana.  Ou,  formulando  isso  de 
modo diferente, e um pouco menos caridosamente, a ciência  livre de 
valores  promove  cegamente  certos  valores  políticos  e  sociais  e,  sem 
abandonar a  teoria pura, a ciência sanciona uma prática estabelecida. 
O puritanismo da ciência transforma­se em impureza. E essa dialética 
levou  à  situação  na  qual  a  ciência  (e  não  apenas  a  ciência  aplicada) 
colabora na construção da mais eficiente maquinaria de aniquilamento 
da história (MARCUSE, 2009, p. 162).
No  entanto,  ainda  sobra  espaço  no  argumento  do  autor  –  talvez  o  ponto  de 
chegada  da  sua  reflexão  –  para  uma  valorização  da  ciência.  A  oposição  entre 
cientificismo  e  irracionalismo,  ou  entre  tecnofobia  e  tecnofilia,  é  simplesmente  falsa, 
embora  ela  tenha  um  valor  estratégico  para  aqueles  preocupados  em  conservar  a  sua 
posição de poder. Não se trata de uma reedição do luddismo com verniz acadêmico, mas 
de  uma  crítica  ao  modo  específico  de  produção  do  conhecimento  científico  –  que 
obedece a uma lógica imposta externamente92. Os traços iluministas de um projeto no 
92 Embora pareça claro que a ciência traz sempre consigo o seu oposto, que “Skepticism is the skeleton 
in  the  Western  rationalism’s  closet”  (WILLIAMS,  2001,  p.  5),  e  que  essa  é  também  uma  dimensão 
constitutiva da dinâmica científica, o ponto em questão não se refere à mera oposição, desafio, ceticismo; 
mas a construção de alternativas que recuperem para a ciência determinada função social emancipatória – 
embora isso demande uma crítica profunda da estrutura da ciência que soa como ceticismo aos ouvidos 
mais sensíveis do cientificismo. 
103
qual  a  ciência,  socialmente  transformada,  desempenha  um  papel  relevante,  são 
explicitados. A  ciência  não  deve  ser  abandonada,  ela  deve  recuperar  o  seu  telos,  sua 
força progressiva, libertadora.
A ciência está ameaçada pelos seus próprios progressos, ameaçada por 
seu avanço como instrumento de um poder livre de valores, em vez de 
um  instrumento  de  conhecimento  e  verdade.  A  ciência,  como  todo 
pensamento crítico, tem sua origem no esforço de proteger e melhorar 
a vida humana em sua luta com a natureza; o telos interno da ciência 
não  é  nada  mais  que  a  proteção  e  o  melhoramento  da  existência 
humana.  Essa  tem  sido  a  razão  de  ser  da  ciência,  e  seu  abandono  é 
equivalente à ruptura entre a ciência e a razão. A ciência pode de fato 
continuar a crescer, em um sentido limitado, como uma técnica, mas 
perderá sua própria raison d´être.
A  ciência  como  um  esforço  humano  continua  a  ser  a  mais 
poderosa arma e o instrumento mais eficaz na luta por uma existência 
livre e racional. Esse esforço estende­separa além do estudo, além do 
laboratório,  além  da  sala  de  aula,  e  visa  a  criação  de  um  ambiente, 
tanto social quanto natural, no qual a existência pode ser libertada de 
sua  união  com  a  morte  e  a  destruição.  Tal  libertação  não  será  um 
objetivo externo ou subproduto da ciência, mas antes a realização da 
própria ciência. (MARCUSE, 2009, p. 164).
A  mensagem  é  ao  mesmo  tempo  nostálgica  e  utópica,  projeta  um  futuro 
alternativo recuperando uma dimensão (certamente ilusória) do passado.
Paul  Feyerabend  endereça  uma  crítica  semelhante,  sem  a  ilusão  de  um  telos 
intrínseco ou de uma razão de ser essencialista da ciência. Não há nada que garanta à 
ciência o papel de uma força de libertação social ou mental. Para Feyerabend (2011, p. 
94):
Esse tipo de atitude fazia sentido perfeito nos séculos XVII, XVIII e 
até  XIX,  quando  a  Ciência  era  uma  das  muitas  ideologias  que 
competiam entre  si,  quando o Estado ainda não  tinha  se declarado a 
seu  favor  e  quando  sua  atividade  determinada  era  mais  do  que 
contrabalançada por visões e instituições alternativas. Naqueles anos a 
ciência  era  uma  força  libertadora,  não  porque  tivesse  encontrado  a 
verdade,  ou  o  método  certo  (embora  os  defensores  da  Ciência 
presumissem que essa era a  razão), mas porque limitava a  influência 
de  outras  ideologias  e,  com  isso,  dava  ao  indivíduo  espaço  para 
pensar.    
Nesse mesmo  período,  entre  o  final  dos  anos  1960  e meados  dos  anos  1970, 
vários grupos de “cientistas  radicais” começam a surgir93. Ligados ao marxismo e às 
93A existência de organizações de cientistas que direcionam seus esforços coletivos para um tema social 
ou político (à direita e, especialmente, à esquerda) não era uma novidade, sobretudo em torno do debate 
entre  “liberdade”  versus  “planejamento”  (como  comentei  em  relação  à  polêmica  entre  Polanyi  e  o 
“bernalismo” no capítulo anterior) ou em relação às questões levantadas pela utilização bélica da ciência. 
No entanto, nesse período, o número de grupos é impressionante; citarei apenas os principais. Na França, 
as revistas Impascience e Labo­Contestation, o movimento Survivre, o Syndicat National des Chercheurs 
104
dissidências  de  esquerda do movimento  socialista  internacional,  rebentos  da  crise  dos 
partidos  comunistas  ocidentais  após  1956  e  1968  (embora  alguns  permaneçam 
vinculados aos partidos e à URSS), refletem sobre as condições da produção de ciência 
e suasrelações com a ideologia, a economia, o poder e a política, os militares e a guerra, 
o ensino, o meio ambiente, a luta de classes e o “proletariado científico”, o racismo, o 
feminismo,  etc.  A  sua  produção  teve  uma  expressão  relevante,  sendo  algumas  obras 
publicadas por grandes  editoras na França,  no Reino Unido  e nos EUA. Mas não  era 
através das grandes edições que esses movimentos angariavam apoio e faziam as suas 
ideias  circularem,  o  principal  foco  e  meio  de  propagação  estava  na  publicação  de 
periódicos baratos e de produção coletiva – ao modo do  it yourself da contracultura e 
dos fanzines – e na realização de workshops, conferências e encontros entre cientistas, 
trabalhadores  (especialmente  dos  setores  industriais  de  maior  insumo  tecnológico), 
comunidades  atingidas  por  sistemas  tecnológicos  nocivos  ou  de  risco  (como  usinas 
nucleares ou indústrias químicas altamente poluentes). 
No  plano  da  elaboração  sistemática  de  uma  crítica  à  ciência,  esses  grupos 
possuíam grande variedade de perspectivas e de posicionamentos. Acontece que essas 
divergências só podem se manifestar porque se assentam sobre uma base mais ou menos 
sólida  sobre  certos  entendimentos  fundamentais.  Como  o meu  objetivo  não  é  fazer  a 
história  desses  movimentos,  nem  realizar  um  escrutínio  da  sua  diversidade  –  mas 
mostrar  como  eles  contribuíram  para  a  formação  de  um  ambiente  de  contestação  e 
crítica  da  ciência  que  não  se  confunde  com  antiintelectualismo  ou  irracionalismo  – 
utilizarei materiais  nos  quais  há  um  esforço  programático  de  sistematização,  onde  se 
destacam os pontos comuns94. 
Scientifiques  (SNCS)  e  o Centre National  des  Jeunes  Scientifiques  (CNJS);  no Reino Unido,  a British 
Society  for Social Responsability  in Science  (BSSRS), os periódicos Radical Science Journal e Science 
for people; nos EUA, o Scientists and Engineers for Social and Political Action (SESPA) – que editava o 
importante periódico Science for the people, publicação quase artesanal que circulou entre 1970 e 1989 – 
e  o  Science  for  Vietnam,  além  de  grupos  na  Itália,  Espanha,  México  e  a  Federação  Mundial  de 
Trabalhadores  Científicos,  com  pretensões  internacionalistas  e  supra­sindicais  (LÉVY­LEBLOND  e 
JAUBERT, 1973; ROSE e ROSE, 1976a).  
94 Destaco aqui os dois volumes organizados na Inglaterra em 1976 por Hilary Rose e Steven Rose, The 
radicalisation  of  science  e  The  political  economy  of  science,  que  compartilham  o  mesmo  subtítulo, 
Ideology  of/in  the  natural  sciences,  os  mesmos  agradecimentos,  a  mesma  introdução  e  a  mesma, 
sintomática,  dedicatória:  “To  the  heroic  peoples  of  Indochina, who  demonstrated  to  the world  how  to 
struggle successfully against the science and technology of profit and opression” (ROSE e ROSE, 1976a, 
p.  v). Vali­me  também  da  coletânea  francesa  (Auto)critique  de  la  science,  editada  em  1973  por Alain 
Jaubert e Jean­Marc Lévy­Leblond.
105
Uma das questões centrais é que o marxismo oficial, ortodoxo, não dava conta 
do  tipo de crítica que se pretendia  realizar. Ele era cientificista na sua veneração pela 
objetividade  das  ciências  naturais  (que  deveria  ser  o  modelo  para  o  “socialismo 
científico”),  no  modo  de  gestão  tecnocrática  do  Estado  soviético,  nas  repetidas 
declarações de que é o avanço da ciência e da tecnologia que trará as contradições do 
sistema  capitalista  à  termo  (e  que,  no  limite,  o  socialismo  é  apenas  o  resultado  da 
evolução  tecnológica  ou,  na  fórmula  de  Lênin,  “socialismo  é  os  sovietes  mais 
eletricidade”).  A  visão  do  conhecimento  científico  como  um  saber  supra­ideológico, 
localizado acima dos interesses de classe paralisava qualquer tentativa de “recriar uma 
crítica  revolucionária  das  funções  sociais  efetivas  da  ciência  como  elas  existem 
atualmente  nas  sociedades  capitalistas  e  no  socialismo  de  Estado”  (ROSE  e  ROSE, 
1976a, p. xvi)95. 
Isso implicava em elaborar uma versão do socialismo (e do próprio marxismo) 
que incorporasse a visão crítica sobre as ciências. O ponto principal aqui seria atacar o 
problema das ciências a partir de duas direções intimamente ligadas. Duas faces de um 
mesmo processo histórico que transformou o “problema da ciência” no principal desafio 
para  a  construção  de  uma  nova  sociedade  (que  significava,  para  a  maior  parte  dos 
grupos  envolvidos  nos  movimentos  de  radical  science,  superar  o  capitalismo  e  o 
socialismo de Estado de tipo soviético).
De  um  lado,  digamos,  ideológico,  havia  a  tarefa  de  separar  ciência  e 
cientificismo  e  combater  duramente  este  último.  O  cientificismo  foi  descrito  como  a 
nova  religião  oficial  (SURVIVRE,  1973),  a  unir  capitalistas  e  comunistas  no mesmo 
credo comum. Os seus princípios – identidade entre verdade e ciência, realidade como 
conjunto  “formalizável”,  neutralidade  axiológica  da  ciência,  privilégio  exclusivo  da 
ciência e da  tecnologia na solução dos problemas humanos  (incluindo­se aqui aqueles 
causados pela própria  tecnologia), necessidade de credenciais científica para a  tomada 
de decisões, por exemplo – foram retratados como um conjunto de mitos cujas funções 
eram garantir a autoridade  inconteste do discurso científico e monopolizar o poder de 
decisão  sobre  temas  científicos  e  tecnológicos  nas  mãos  dos  experts,  uma  “casta” 
diretamente  vinculada  às  elites  políticas  e  econômicas  (LÉVY­LEBLOND,  1976; 
SURVIVRE, 1973)96. Esse grupo  se  esforçou por  denunciar  como  falsa  e  perigosa  a 
95 No original: “recreate a revolutionary critique of the actual social functions of science as they exist in 
today’s capitalist and state socialist societies”. Tradução minha.
106
associação  automática  entre  ciência  e  progresso  social;  o  cientificismo  consistiria  na 
maior  ameaça  ideológica  depois  de  1945.  A  eliminação  da  dimensão  ideológica  da 
ciência seria um passo decisivo para mostrar que a sua pretensão de neutralidade é uma 
estratégia política e que ela está a serviço da dominação capitalista97.
De outro lado, o segundo problema a ser enfrentado (depois de “retirado o véu 
ideológico”)  seria  explicitar  como  a  ciência  se  liga  constitutivamente  ao  capitalismo 
como  modo  de  produção  e  como  forma  social.  A  sua  etapa  mais  evidente  é  a 
incorporação da ciência à produção capitalista servindo como força produtiva direta no 
processo de renovação contínua requerido pelo modo de produção capitalista. A divisão 
entre  “ciência  pura”  e  “ciência  aplicada”  é  meramente  um  recurso  ideológico.  Na 
prática, esses dois campos estão intimamente conectados no seu objetivo de produzirem 
inovações  –  sejam  elas  conhecimentos,  técnicas  ou  produtos  –  para  abastecer  o 
capitalismo. A unidade entre ciência e tecnologia é realizada pela sua subordinação ao 
capital (ROSE e ROSE, 1976)98. Além de participar como força produtiva, a ciência se 
transforma, sob o capitalismo, em mercadoria; informações, conhecimentos e produtos 
são  postos  à  venda  e  produzidos  de  acordo  com  a  lógica  específica  do  mercado 
(CICCOTTI, CINI e MARIA, 1976).   
A  feição geral que adquire o posicionamento desses  autores  envolvidos  com a 
radical  science  aponta  para  uma  “crise  da  ciência”,  que  estaria  tão  profundamente 
96 A relação entre ciência e religião tem sido exaustivamente mencionada a partir de diversos pontos de 
vista.  Duas  visões  predominam:  a)  o  surgimento  da  ciência  moderna  em  oposição  à  religião  entre  os 
séculos  XVI  e  XVIII  –  tendo  a  ciência  uma  função  “subversiva”,  “emancipatória”,  “progressista”  e 
“contra­hegemônica”,  liberando  a  nascente  sociedade  burguesa  da  “opressão  medieval”,  do 
“obscurantismo” e do“dogmatismo” da Igreja Católica (e os casos de Giordano Bruno e Galileu marcam 
o ápice desse processo); b) a substituição da religião pela ciência como o “quadro mental dominante”, a 
“principal referência cultural”, a “ideologia oficial” das sociedades ocidentais desde o século XIX e, de 
forma  mais  intensa,  no  XX  –  nesse  contexto,  a  ciência  passaria  a  desempenhar  algumas  das  funções 
sociais  que  haviam  sido  da  Igreja  Católica  nos  séculos  precedentes,  sendo  uma  força  conservadora  e 
impondo  o  seu  próprio  dogmatismo.  Essa  leitura  se  tornou  mais  complexa  no  interior  dos  campos 
acadêmicos dedicados ao estudo da ciência e –  sem desconsiderar os conflitos,  tensões e  rupturas – as 
continuidades e interferências foram ressaltadas e a oposição radical entre os dois campos foi relativizada 
(CAMENIETZKI,  2000;  KOYRÉ,  2006;  MARICONDA,  2001;  ROSSI,  1992).  Defendendo­se  das 
críticas  à  sua  versão  da  sociologia  do  conhecimento  científico,  David  Bloor  recorreu  à  analogia  da 
sacralidade da ciência e comparou o “programa forte” a uma heresia, a uma  interpretação desviante do 
Texto Sagrado (BLOOR, 2010).
97 A despeito dos muitos debates que esses autores travam a respeito do conceito de ideologia, de todas 
as restrições que impõem ao seu uso dogmático, permanece latente (e às vezes explícito) a identificação 
do termo com a “mistificação da realidade”.
98 Nesse ponto, os autores endereçam uma dura crítica ao “internalismo acadêmico” de “historiadores, 
sociólogos e filósofos burgueses” que se interessariam pela ciência como um sistema autônomo de ideias 
e que colocariam ênfase em áreas cujo interesse teórico é grande, mas a relevância social seria pequena 
(ROSE e ROSE, 1976).
107
entranhada  na  sociedade  de mercado  que  seus  interesses  se  confundiriam  com  os  do 
capitalismo e estariam distantes dos interesses da massa da população, dos “oprimidos”. 
Para construir uma “ciência para o povo”, os próprios cientistas deveriam tomar a frente 
da  ação,  reconhecendo  que  “a  ciência  é  inevitavelmente  política  e  que  [...]  contribui 
amplamente  para  a  exploração  e  opressão  da  maioria  das  pessoas”  (MEYERS, 
RADINSKY,  ROTHENBERG  e  ZIMMERMAN,  1973,  p.  66)99.  Em  seguida, 
estabelecer  uma  agenda  de  “pesquisa  socialmente  orientada”  com  vistas  ao 
empoderamento popular e à oposição ao sistema dominante de ciências.  
Essa crítica chega, no entanto,  em um momento em que as  contradições desse 
modelo  atingiam  um  ponto  insustentável  e  davam  lugar  a  uma  nova  forma  de 
organização  da  ciência  (em  coordenação  com  as  transformações  da  economia  e  do 
Estado). A década de crise econômica global que tem início em 1973 será determinante 
na formação de uma nova relação entre capitalismo, ciência e tecnologia. Paralelamente 
às críticas endereçadas ao sistema da Big Business Science começam a surgir análises 
que  apontam  para  a  sua  transformação  profunda.  Começam  a  circular  as  noções  de 
tecnociência,  capitalismo  cognitivo,  trabalho  imaterial,  entre  outras  expressões  que 
apontavam a  tendência das próximas décadas. Essa  transformação será  retomada mais 
detidamente  adiante,  quando  será  confrontada  com  a  historiografia  das  ciências  no 
período. 
É certamente difícil avaliar até que ponto esse clima histórico teve participação 
direta na formação das críticas “profissionais”, de sociólogos ou historiadores, uma vez 
que  a  produção  da  radical  science  não  é  alvo  de  citação  ou  comentário  por  parte 
daqueles  que  encampam  as  novas  propostas  de  análise  das  ciências  (excetuando­se 
algumas  poucas menções  feitas  por Barry Barnes  [1974]  aos  trabalhos  do  historiador 
Robert Young,  figura  importante  do  radical  science movement  britânico)  –  e  que,  de 
qualquer  modo,  não  compartilhavam  dos  princípios  ideológicos  que  norteavam  esse 
movimento.  O  cientista  social  Brian  Martin  (1993)  relata,  a  partir  da  sua  trajetória 
pessoal,  o  processo  de migração de muitos  críticos  da  ciência  dos  anos  1970 de  uma 
posição  mais  “militante”  (especialmente  durante  os  primeiros  anos  de  carreira  como 
estudante  de  alguma  disciplina  das  ciências  naturais)  para  uma  crítica  “profissional”, 
99 No original: “la science est inévitablement politique et que[...] elle contribue largement à l’exploitation 
et à l’oppression de la majorité des gens”. Tradução minha.  
108
“acadêmica”  (mais  sofisticada  e  até  radical  do  ponto  de  vista  teórico,  embora  mais 
afastada dos movimentos sociais e da intervenção pública).
O que se pretende mostrar é que havia uma insatisfação em relação ao modo de 
produção  da  ciência  sendo  vocalizado  de  forma  bastante  radical  por  grupos  de 
cientistas. Com isso, tenderíamos a diminuir o caráter subversivo das novas disciplinas 
que surgem sob a rubrica de sociologia do conhecimento científico ou science studies? 
A pretensa  subversão proposta por esses novos modelos de análise das ciências  seria, 
como  em  Thomas  Kuhn,  domesticação?  Seria  mera  adequação  a  um  novo  modo  de 
produção do conhecimento científico? Uma crítica nostálgica a um modelo perdido de 
cientificidade? Estou convencido que a sociologia do conhecimento científico é filha da 
“sociedade  do  conhecimento”.  Bastarda  ou  pródiga?  E,  mais  importante  para  essa 
pesquisa, como a historiografia produzida em contato direto com essas disciplinas e sob 
as contradições impostas por essa configuração histórica reagiu?
Como bem aponta Mario Biagioli (1999), o extremo sucesso da ciência é motivo 
de força e de dificuldade em definir os science studies100. Seu objeto é sólido e vasto, 
porém  seus  princípios  metodológicos  são  extremamente  variados  e  seus  praticantes 
dispersos em diversos campos disciplinares,  instituições e departamentos. Esse campo 
emerge  nos  anos  1980,  a  partir  da  união  de  uma  série  de  esforços  relativamente 
independentes  levados  à  cabo  por  jovens  sociólogos,  historiadores,  antropólogos  e 
filósofos,  além de  representantes  de muitas  outras  disciplinas. Tomados  em  conjunto, 
esses  autores  fazem  parte  de  uma  bibliografia  que  começava  a  se  tornar  disponível 
desde meados dos anos 1970 e que encontrava no periódico Social Studies of Science 
um local de difusão e um espaço de identidade para esse grupo (que não era isento de 
disputas  internas).  O  primeiro  texto  canônico  foi  o  livro­manifesto  de  David  Bloor, 
Conhecimento  e  imaginário  social,  que  apresenta  as  primeiras  regras  de  método  em 
torno das quais os autores que viriam a formar a primeira geração dos science studies 
desenvolveriam um signo de identidade (PESTRE, 1996).
A viga mestra da arquitetura teórica blooriana será o seu princípio de simetria. A 
distinção  entre  verdade  e  erro  é  diluída,  ao menos  sociologicamente.  As  explicações 
correntes  à  época  afirmavam que,  quando  um  cientista  agia  corretamente,  nada  havia 
para ser explicado. Por outro lado, um erro deveria ser explicado em termos de desvios 
100 Para uma avaliação mais detalhada do surgimento dos science studies, Cf. GOLINSKI, 2005; 
BIAGIOLI, 1999; FULLER, 2006.
109
ideológicos ou psicológicos, influências externas etc. Seguindo o princípio de simetria, 
somos  compelidos  a  explicar  sociologicamente  ambas  as  situações.  Não  há  motivos 
para crer que as implicações ideológicas acarretarão apenas em má ciência. A sociologia 
pode, e deve, se ocupar de toda a trama da ciência em suas mais sutis tecnicidades. 
As  ressonâncias  desse  princípio  de  simetria  no  corpo  teórico  do  “programa 
forte” são significativas. Desse mesmo modo, a definição naturalista de conhecimento, 
como sendo “tudo aquilo que as pessoas consideram conhecimento” (BLOOR, 2009 p. 
18) ou definição de objetividadecomo crença institucionalizada criam uma situação de 
inversão da polarização ontológica entre natureza e cultura, mas não fogem do seu raio 
de  ação. Ao passo que o  realismo criou o  cientista  como  sujeito neutro,  transparente, 
através do qual o “fato  fala por si”, o construtivismo blooriano criou uma  imagem da 
ciência  da  qual  a  natureza  não  participa.  Tudo  é  resolvido  por  acordos  sociais, 
negociações. 
Segundo Bloor (2009, p. 117), as teorias do conhecimento não são expressões do 
mundo objetivo e da forma de alcançá­lo, mas reflexos de ideologias sociais. As teorias 
científicas  e  mesmo  a  fria  matemática  são  artefatos  sociais,  que  seguem  protocolos 
linguísticos e culturais sociologicamente localizáveis e explicáveis. Explicar a ciência é 
explicar a sociedade. São as condições sociais de existência que moldam as imagens do 
mundo exterior possíveis em determinado contexto.
Essa ênfase em um relativismo metodológico se apresenta também na teoria da 
verdade esboçada por Bloor. Segundo o sociólogo, o indicador de verdade de uma teoria 
científica é sempre interno à coerência da própria teoria. Não há um modo de fixar de 
forma precisa as relações de correspondência entre teoria e realidade. Como as teorias 
são originadas de coerções sociais, a verdade é também uma forma de convenção social. 
Não há critérios suprassociais de estabelecimento da verdade. Os  testes empíricos não 
são  neutros  e  se  dão  sempre  no  interior  de  um  arcabouço  teórico  pré­determinado. 
Embora não negue a existência da realidade, Bloor indica que ela não cumpre nenhum 
papel nas formulações teóricas ou no estabelecimento da verdade. Isso, no entanto, não 
retira  o  rigor  do  critério.  As  convenções  sociais  são  exigentes  e  se  apóiam  em  uma 
disciplina  severa, não  são “arbitrárias”. Assim, uma análise da verdade de uma  teoria 
deve  buscar  as  causas  sociais  e  os  regimes  de  adaptação  às  condições  convencionais 
(BLOOR, 2009, pp. 64­75).
110
A crítica  às  noções  tradicionais  de  conceitos  como verdade  e  objetividade  e  o 
deslocamento  desses  conceitos  para  o  terreno  de  atuação  da  sociologia  marcam  a 
guinada  em  direção  a  uma  compreensão  da  ciência  a  partir  da  sua  historicidade,  dos 
protocolos  linguísticos  que  constitui  e  utiliza,  dos  acordos  sociais  que  regulam  a  sua 
prática.  De  modo  crescente,  com  o  surgimento  dos  science  studies,  a  ciência  será 
interpretada  como  uma  atividade  cultural  entre  tantas  outras,  como  um  complexo 
enredado na trama social e histórica. 
No entanto, esse projeto sofrerá duras críticas. Autores de uma geração anterior 
irão considerar o “programa forte” e seus correlatos como um desvario relativista, um 
exagero sociológico que encerra todas as questões sobre o conhecimento científico nas 
negociações  sociais.  O  próprio  Thomas  Kuhn  irá  endereçar  um  duro  ataque  a  esse 
grupo. A principal crítica de Kuhn (2006, p. 139) diz respeito ao caráter totalizante das 
explicações  sociais:  “a  própria  natureza,  seja  lá  o  que  for  isso,  parece  não  ter  papel 
algum  no  desenvolvimento  das  crenças  ao  seu  respeito”.Os  science  studies  e,  mais 
frequentemente,  a  sociologia  do  conhecimento  científico  foram  também  acusados  de 
incorrer em uma paradoxal  incoerência: não  levar a  sério o princípio da  reflexividade 
(proposto  por  David  Bloor  [2009]).  Esse  argumento  utilizado  pelos  críticos,  o 
argumento  da  “retorsão”  à  que  se  refere  Isabelle  Stengers  (2002),  pode  ser  assim 
resumido: “vocês afirmam que todo conhecimento é uma construção social, a sociologia 
do conhecimento científico é conhecimento, logo...” (MENDONÇA, 2008, pp. 48­55). 
Ao afirmar, com Barry Barnes (2011), que o relativismo metodológico é a realização do 
projeto  científico  (sua  continuidade)  ou  ao  Bloor  enunciar  a  pretensão  de  que  o 
“programa  forte”  poderia  dar  um  estatuto  científico  à  sociologia  da  ciência,  esses 
autores ajudaram a alimentar os críticos. 
Bloor foi vago ao responder à acusação de inconsistência, de ter “historicizado e 
sociologizado  as  ciências  naturais,  ao  alto  preço  de  ter  naturalizado  a  sociologia” 
(MENDONÇA,  2008,  p.  54).  Refletindo  sobre  um  ponto  semelhante  –  o  suposto 
obstáculo que a sociologia do conhecimento científico poderia oferecer à cientificidade 
da  sociologia  em  geral  –,  Steven  Shapin  recorre  a  Peter  Winch  e  afirma  que  a  sua 
“crítica  aos  empreendimentos que  tentaram basear  o  entendimento da  ação  social  nos 
métodos  da  ciência  natural  foi  decisiva  para  vários  praticantes  da  sociologia  do 
conhecimento científico”  (SHAPIN, 1995, p. 295)101. Para  tomar a ciência como um 
111
objeto de investigação, defende Shapin, as ciências sociais devem construir um modelo 
de  cientificidade próprio,  possuindo objetos  e métodos diversos daqueles das  ciências 
da natureza. Da minha parte, considero essas respostas insatisfatórias. A discussão sobre 
as  diferenças  entre  ciências  sociais  e  naturais  não  faz  parte  dos  fundamentos  da 
sociologia? Porque Winch resolveria essa questão de forma mais apropriada102?
O argumento da retorsão, no entanto, só parece ganhar força quando se atribui à 
sociologia do conhecimento científico algo que ela não se propõe a fazer: denunciar a 
influência  perversa  de  “fatores  sociais”  na  ciência  (numa  tentativa  de  resgatar  a  sua 
pureza),  estudar  a  “dimensão  social  da  ciência”  como  algo  a  ser  combatido  e 
minimizado. Se a ciência é constitutivamente uma atividade social e isso não significa 
fraqueza  nem um  juízo  de  valor  negativo,  se  afirmar  que  a  ciência  é  uma  construção 
social não é uma forma de anticientificismo, então a crítica endereçada à reflexividade 
não deveria causar incômodos.
Assim, a primeira fase dos science studies foi marcada pelo viés sociológico. O 
“programa  forte”  foi  uma  das  suas  expressões,  provavelmente  a  mais  influente;  ao 
explicitar suas principais características, tentei explicitar a atitude geral dos praticantes 
engajados  nesse  campo103.  Nesse  período,  os  science  studies  tomam  de  assalto  os 
temas  da  epistemologia  e,  ao  contrário  de Kuhn,  que  pedia  licença  a  cada  passo  que 
parecesse  muito  heterodoxo  para  essa  disciplina,  subverte  as  suas  posições  e  a 
transforma  radicalmente  tanto  do  ponto  de  vista  teórico  quanto  nas  suas  investidas 
empíricas.  Imbuídos  do  clima  geral  de  crítica  das  grandes  narrativas  do  Ocidente 
Moderno, embora sem citar diretamente a pós­modernidade ou o giro  linguístico, essa 
nova perspectiva sobre a ciência tem como um dos principais legados teóricos a ideia da 
construção social do conhecimento científico104.
Levado  ao  seu  extremo,  o  argumento  construtivista  parece  esquizofrênico. No 
momento  em  que  estamos  completamente  imersos  em  uma  sociedade  científica  e 
tecnológica,  a  saída  crítica  é  dizer  que  a  ciência  se  resume  a  negociações  sociais? 
101  No  original:  “critique  of  enterprises  that  tried  to  base  an  understanding  of  social  action  on  the 
methods of natural science was decisive for several practitioners of SSK”. Tradução minha.
102  Em  que  pese  a  importância  de  A  ideia  de  uma  ciência  social  e  sua  relação  com  a  filosofia, 
especialmente no que tange à aproximação do Programa Forte com a filosofia de Wittgenstein.
103 Pontos de vista semelhantes em sua atitude geral em relação à ciência (apesar dos intensos debates 
que geraram no interior dos sciences studies) podem ser encontrados, entre outros lugares, em BARNES 
E EDGE, 1982; BARNES, BLOOR E HENRY, 1996; COLLINS, 1981.
104 Marx, Durkheim e Mannheim já haviam mostrado como tratar as ideias como produtos sociais. No 
entanto, como ressaltado,a dimensão constitutiva da historicidade 
para os  saberes. Posturas  semelhantes às que defendo nesta  tese. Beneficiei­me muito 
dessa  bibliografia,  incluindo  aí  trabalhos  que  surgiram  enquanto  essa  pesquisa  era 
desenvolvida.  Em  especial,  destaco  aqui  o  livro  ainda  inédito  de  Mauro  Condé  (No 
prelo),  “Um  papel  para  a  história”,  que  destaca  a  emergência  da  historicidade  das 
ciências e os obstáculos à efetivação desse processo em diferentes momentos e tradições 
intelectuais  do  século  passado  e  situa  no  encontro  entre  Ludwik  Fleck  e  Ludwig 
Wittgenstein uma chave frutífera para compreender a ciência em sua historicidade sem 
recorrer  às  soluções  relativistas.  É  preciso  também  ressaltar  que  este  trabalho  se 
desenvolve  em  constante  diálogo  com  o  projeto  levado  a  cabo  há  muitos  anos  pelo 
professor  Carlos Alvarez Maia,  principalmente  seus  dois  últimos  livros, História  das 
ciências: uma história de historiadores ausentes (2013) e Estudios de historia, ciencias 
y  lenguaje  (2011),  este  último  vertido  para  o  português  quando  esta  tese  já  se 
encontrava  em  sua  fase  final  de  escrita.  A  “história  da  história”  proposta  por  Maia 
14
realiza um esforço  relevante para afirmar a plena historicidade da ciência e  integrar a 
história das ciências ao território disciplinar da história. 
Além  dessas  referências  mais  próximas,  dois  trabalhos  se  aproximam  daquilo 
que pretendi fazer aqui. Primeiro, a Introduction à la philosophie des sciences, de Hans­
Jörg Rheinberger  (2014)  que,  apesar  do  nome,  é  um  ensaio  sobre  a  historicização  da 
epistemologia no século XX. Em segundo lugar, o livro Making natural knowledge, de 
Jan  Golinski  (2005),  que  oferece  um  balanço  temático  das  contribuições  da  nova 
historiografia  das  ciências  e  do  papel  do  construtivismo  de  uma  maneira  bastante 
simpática  às  posições  apresentadas.  Por  fim,  é  preciso  fazer  menção  ao  livro A  nice 
derangement  of  epistemes,  de  John  Zammito  (2003),  um  trabalho  que  cobre 
praticamente  o  mesmo  período  abarcado  nesta  tese  e  lida  com  autores  e  problemas 
bastante  semelhantes,  embora defenda uma posição muito diferente da que os  autores 
listados acima apoiam e se esforce em mostrar as fraquezas filosóficas dos argumentos 
dos estudos sobre a ciência “pós­positivistas”  e os seus perigos intelectuais, defendendo 
a necessidade de um conhecimento objetivo na ciência e na sua história.
Ao  contrário  da  maioria  dessas  obras,  no  entanto,  não  pretendo  aqui  sugerir 
como a história das ciências deve ser praticada para garantir a consecução dos objetivos 
que defendo. O texto não tem caráter propositivo, nem há nenhum modelo que possa ser 
retirado  dele. Nos  capítulos  a  seguir,  tento  traçar  a  história  da  disputa  entre 
internalismo  e  externalismo,  extrapolada  para  além  dos  limites  tradicionalmente 
imputados a ela (embora não se opondo a eles). Ao longo dos anos 1970 parece haver 
uma superação da “querela internalismo x externalismo” com a ascensão de uma nova 
historiografia das ciências. O tópico passa a ser tema de curiosidade historiográfica. O 
processo de pacificação da disputa a partir da obra de Thomas Kuhn, A estrutura das 
revoluções científicas, encerrou a polarização entre os grupos. Não há mais internalistas 
ou externalistas2. Defendo que as questões em jogo na disputa não foram efetivamente 
superadas na historiografia até o começo do século XXI.
Em publicação anterior, havia dado pouca atenção à querela, me referindo a ela 
como  meramente  submissa  ao  que  chamei  de  estratégia  positivista,  seguindo  a 
formulação de Alan Chalmers (1994). Afirmava ainda que a disputa se restringia a um 
espaço  epistemológico  extremamente  limitado  e  que  ambos  os  lados  em  disputa 
2 Pelo menos,  não  no mainstream  da História  das Ciências. A  adesão  a  uma  dessas  correntes,  hoje,  é 
interpretada como sinal de amadorismo (SHAPIN, 1992).
15
concordavam  em  pontos  cruciais  sobre  o  papel  da  história  na  explicação  do 
conhecimento científico. Localizava as principais contribuições teóricas do período fora 
da  disputa  e  não  advindas  dela.  Por  fim,  considerava­a  superada  pela  renovação 
historiográfica  dos  anos  1970  (ÁVILA,  2013).  Embora  não  fosse  equivocada  em  sua 
tese geral, essa descrição era apressada e simplista, não era o meu objetivo explorar essa 
historiografia. Neste  texto,  tenho  a  possibilidade  de  rever  com mais  vagar  esse  tema, 
tornando mais complexa a sua interpretação.
O  meu  principal  desiderato,  aqui,  é  explorar  os  papéis  desempenhados  pela 
articulação entre “fatores internos” e “fatores externos” na historiografia contemporânea 
das ciências. Essa consideração deve levar em conta como as transformações na visão 
dessa questão se relacionam diretamente com o ambiente no qual a história das ciências 
é  produzida,  os  públicos  a  quem  se  destina  o  seu  consumo,  as  formas  de  circulação 
desses  discursos.  Como  já  afirmei  acima,  a  investigação  é  conduzida  a  partir  do 
pressuposto  que  a  história  das  ciências  não  se  contenta  em  explicar  o  passado,  mas 
responde também a questões colocadas pelo presente. O recorte escolhido não perde de 
vista uma preocupação mais geral dessa pesquisa, que é a de compreender as diferentes 
maneiras  pelas  quais  as  ciências  foram  tomadas  como  objeto  da  história  nas  últimas 
décadas do século XX. 
Para  realizar  o  que  aqui  se  propõe,  o  texto  se  dividirá  em  duas  partes.  Na 
primeira  parte,  composta  por  dois  capítulos,  realizo  uma  leitura  dos  modos  de 
delimitação e articulação dos fatores internos e externos na vigência da querela entre o 
internalismo  e  o  externalismo  em  sua  datação  clássica.  A  releitura  da  querela  será 
pautada  pela  “função  política”  da  história  das  ciências  em  um  momento,  entre  as 
décadas de 1930 e 1950, de afirmação da importância da ciência no interior dos Estados 
nacionais.  O  primeiro  capítulo  tratará  das  principais  características  historiográficas  e 
ideológicas  do  internalismo  em  meio  a  discussões  sobre  as  nascentes  Políticas  de 
Ciência  e Tecnologia. O  internalismo  será  analisado  como  uma  forma  de  historiar  as 
ciências  que  rejeitava  a  postura  positivista  dos  primeiros  praticantes  da  disciplina  no 
final do século XIX e início do XX. É certo que os historiadores adeptos dessa corrente 
concebiam a ciência como teoria, como uma aventura intelectual; mas eles apontavam 
para  uma  compreensão  das  teorias  do  passado  em  seus  próprios  termos  e  assim 
reivindicavam o combate à teleologia e ao anacronismo. Não se trata de medir o grau de 
16
historicidade conferido à ciência por tal ou qual corrente, mas de perceber as condições 
específicas de historiar as ciências possível em cada configuração histórica.
No Capítulo 2, complementando a leitura iniciada no capítulo anterior, abordarei 
o  externalismo.  Aqui,  destaco  duas  principais  vertentes,  com  relevantes  diferenças 
historiográficas  e  ideológicas. A primeira, mais  antiga  e  também mais  duradoura,  é  a 
interpretação marxista da história das ciências. Tratava­se, naquele período, de um tipo 
de abordagem que visava construir um modelo interpretativo para a história das ciências 
capaz não apenas de explicar essa história, mas de utilizá­la para a apropriação social da 
ciência e para a transformação profunda do mundo. A história dessa vertente não pode 
ser devidamente examinada sem uma avaliação conjunta das disputas ideológicas que se 
agudizam depois do surgimento da União Soviética. O externalismo marxista  se opõe 
tanto ao positivismo quanto ao internalismo. A história social das ciências que emerge 
daí estará profundamenteeles nunca expandiram essas observações à ciência. O antecedente direto dessa 
perspectiva é o livro de Berger e Luckmann, A construção social da realidade, de 1967.
112
Acredita­se  piamente  na  força  das  coerções  e  das  normas  sociais,  mas  duvida­se  da 
“realidade”  dos  fatos  científicos?  Bruno  Latour  formulou  essa  crítica  nos  próprios 
termos do grupo. Não adianta propor uma simetria entre verdade e erro e manter uma 
assimetria  entre  Natureza  e  Cultura.  É  preciso,  diz  ele,  uma  segunda  simetria,  que 
considere não apenas a ciência, mas a própria sociedade como um construto (LATOUR, 
2008).  Ao  mesmo  tempo,  a  críticas  “conservadoras”  não  consideravam  essa 
possibilidade, mas apenas o retorno a uma sociologia mertoniana, a um respeito quase 
religioso com a epistemologia.
Considerar  o  conhecimento  científico  como  um  produto  cultural  que  não  tem 
prioridade  epistemológica  sobre  nenhuma  outra  manifestação  humana  possibilitou  à 
história  utilizar  o  mesmo  princípio.  Isto  é,  os  estudos  históricos  podem  investigar 
exaustivamente os modos através dos quais, no passado, certo tipo de conhecimento se 
entrelaçou  profundamente  com  as  condições  sociais  de  sua  produção.  Além  disso,  o 
princípio da  simetria  também poderia  ser  aplicado  às  realizações  científicas  passadas. 
Não apenas a “má ciência” pode ser investigada como influenciada por fatores sociais, 
mas  também  (e principalmente)  a  “boa ciência”, o  conhecimento vencedor. Perguntas 
anteriormente sem sentido para a história das ciências se tornaram pertinentes e, mais do 
que  isso,  centrais  para  as  novas  abordagens.  Shapin  e  Schaffer  (2011,  p.  3)  puderam 
centrar  seu  estudo  na  seguinte  questão:  “Por  que  alguém  realiza  experimentos  para 
chegar  à  verdade  científica?”105.  Esse  tipo  de  interrogação  só  é  possível  quando 
abandona­se a visão que se acostumou a enxergar a história das ciências como a marcha 
irreversível do progresso, a paulatina conquista da racionalidade contra a ignorância, o 
mito e a superstição em direção à verdade e à realidade. Com essa visão, abandona­se 
também o necessário anacronismo que ela implica. Os atores históricos serão analisados 
por  seus  próprios  critérios,  pelas  condições  de  possibilidade  e  escolha  que  tinham 
disponíveis  em  determinadas  circunstâncias.  Ao  transferir  a  responsabilidade  da 
construção do conhecimento científico da natureza para a  sociedade, o construtivismo 
social  possibilitou  não  apenas  a  renovação  da  história  das  ciências,  mas  tornou­a 
efetivamente histórica106. 
Essa renovação historiográfica se beneficiou também do abandono, por parte dos 
science  studies,  da  filosofia  e  do  imperativo da dimensão normativa  e prescritiva que 
105 No original: “Why does one do experiments in order to arrive at scientific truth?”. Tradução minha.
106  Esse  é  o  argumento  central  de  Jan Golinski  (2005)  para  explicar  o  sucesso  do  construtivismo  na 
historiografia das ciências.
113
caracterizou  a  primeira  metade  do  século  XX.  Essa  guinada  pragmática  possibilitou 
substituir uma busca pela definição de ciência por investigações variadas das múltiplas 
formas de práticas científicas107.Não se perguntava mais o que a ciência é, mas sim o 
que  a  ciência  faz.  O  vocabulário  desse  grupo  marcou  exemplarmente  essa  mudança, 
fala­se,  cada vez mais, de práticas científicas, atividade científica, ciência  tal qual  se 
faz  (LATOUR,  2000;  PICKERING,  1992;  PESTRE,  1996).O  pretenso  abandono  da 
normatividade por parte dos historiadores da ciência, que deixaram de apontar para um 
“ideal de boa ciência” em nome da descrição da ciência do passado sem julgamentos de 
valor – um aspecto notado tanto por críticos (que veem como um equívoco), quanto por 
promotores da nova historiografia (que veem como um avanço teórico e historiográfico) 
– não é procedente. Pelo contrário, toda descrição pressupõe uma prescrição. No entanto 
–  e  tal  vez  seja  isso  que  os  historiadores  tentaram  ocultar  e  o  que  os  críticos  não 
conseguiram perceber – essa normatividade se dá sob novas bases, em nome de regras 
diferentes daquelas que  instituíam o  ideal de boa ciência sacralizado no século XIX e 
reafirmado por parte das  análises da  ciência da primeira metade do  século XX  (cujos 
representantes maiores seriam Robert Merton e Karl Popper). A boa ciência não é mais 
aquela  que  segue  o  método  científico  e  se  organiza  de  acordo  com  um  ethos 
comunalista, universalista, desinteressado etc. Nem mesmo aquela atividade intelectual 
essencialmente  crítica  e  aberta,  onde  a  vida  dos  enunciados  dependia  apenas  da  sua 
capacidade de sobrevivência a sucessivos testes. Para a nova historiografia, esse ideal é 
uma  ficção,  um  mito  de  criação.  A  boa  ciência  é  aquela  que  negocia  com  o  poder, 
procura  aliados  fortes,  insinua­se  na  estrutura  social,  modificando­a.  Aquela  que  se 
torna  dominante  não  por  ser  verdadeira, mas,  ao  contrário,  se  torna  verdadeira  ao  se 
tornar  dominante.  A  boa  ciência  não  deve  ser  julgada  em  termos  morais  ou  ser 
considerada o estágio mais perfeito e elevado da consciência humana, mas em termos de 
desempenho, performance e eficácia e considerada uma “máquina de criar consensos” 
extremamente eficaz.
Steve  Fuller  (2006)  argumenta  que  a  negação  da  filosofia  fazia  parte  da 
estratégia  política  do  grupo  que,  interessado  em  criar  uma  identidade  própria  e  se 
estabelecer  como  uma  disciplina  autônoma,  rejeitou  aquilo  que  via  como  provável 
inimigo  às  suas  pretensões.  Porém,  ao mesmo  tempo,  precisaram  constituir  uma base 
107 Curiosamente, enquanto os science studies queriam se livrar da filosofia em nome de uma recusa da 
normatividade, a própria filosofia das ciências passava, desde os anos 1950, por uma guinada pragmática 
e historicista (HACKING, 2012; QUINE, 2010; RORTY, 1994; ZAMMITO, 2004).
114
filosófica  para  a  sua  prática,  “isso  envolveu  um  desvio  do  papel  do  filósofo  de 
legislador a subordinado” (FULLER, 2006. p. 45)108. Essa transição permitiu domesticar 
a filosofia e torná­la segura para a prática dos science studies.
Por  fim,  penso  que  não  é  possível  compreender  adequadamente  esse  campo 
disciplinar sem apontar alguns traços do momento histórico no qual ele emerge – traços 
que  ajudam  a  desenhar  as  feições  que  assumem  as  interpretações  das  ciências  nesse 
período.  
A passagem da década de 1970 para a década de 1980 é marcada pela ascensão 
do  neoliberalismo  como  política  econômica  hegemônica  de  algumas  das  principais 
potências  globais.Embora  os  fundamentos  da  teoria  neoliberal  tenham  surgido  como 
resposta  ao new deal  no  final dos  anos 1940 na Mont Pelerin Society  – um grupo de 
intelectuais  liderados  por  Friederich  von  Hayek  e  que  contou  com  a  participação 
engajada  de  Karl  Popper  –,  a  sua  transformação  em  solução  para  os  problemas 
atravessados pelo capitalismo e pelo Estado Providência só ocorreria na esteira da crise 
do petróleo, que eclode em 1973109. As novas formas de organização do Estado e da 
economia (ou do Estado em função da economia) tiveram lugar de destaque e irradiação 
global  a  partir  das  administrações  de  Margaret  Thatcher  na  Grã­Bretanha  e  Ronald 
Reagan  nos  Estados  Unidos  da  América110.  Como  sabemos,  a  agenda  neoliberal 
implica na  redução da participação estatal nas atividades econômicas, no  incentivo ao 
livre  comércio  e  na  liberação  dos mercados  através  de  privatizações,  diminuição  das 
regulamentações,  flexibilização  de  direitos  trabalhistas  etc.  Segundo  o  argumento 
corrente  desde meados  da  década  de  1970,  o  Estado  estava  fadado  a  tomar  decisõesequivocadas  no  campo  econômico  devido  a  sua  fragilidade  diante  da  influência  de 
diversos grupos de pressão política e, principalmente, pela sua incapacidade de captar e 
gerir todas as informações necessárias para a condução da economia (HARVEY, 2013, 
p. 30). Há certa “teologia” neoliberal que propaga a superioridade absoluta do mercado 
em termos de eficácia e de capacidade de cálculo (PESTRE, 2014a, p. 263). Isso é mais 
forte no momento em que essas informações se tornam mercadorias sujeitas às regras do 
mercado.  No  entanto,  o  Estado  não  pode  ser  somente  reduzido,  deve  servir  a  novos 
108 No original: “this involves a shift in the role of the philosopher from legislator to underlaborer”. 
Tradução minha.
109 O documento de fundação do grupo não traz um programa econômico específico, se fundando na 
“preservação da sociedade livre”, na defesa dos “valores da civilização” e do “homem ocidental” 
(STATEMENT OF AIMS, 1947).
110 Com a importante e irônica experiência dos Chicago Boys na ditadura chilena do general Pinochet.
115
interesses: é  responsável por  incentivar a criação de mercados em setores econômicos 
pouco atrativos, garantir o cumprimento dos contratos, proteger o direito à propriedade 
privada  etc.  Não  se  trata  apenas  de  “menos  Estado”,  mas  de  uma  readequação  das 
funções estatais. 
A função do Estado deve ser repensada também a partir do aprofundamento de 
dois processos interligados: a “financeirização” e a globalização (ou “mundialização”), 
processos  que  dependem  intensamente  do  desenvolvimento  de  tecnologias  de 
comunicação  e  transporte,  um  ponto  que  nos  interessa  diretamente  e  ao  qual 
retornaremos.
A “financeirização” se refere ao deslocamento da principal fonte de acumulação 
de  capital,  que  passa  da  produção  e  circulação  de mercadorias  –  a  base  produtiva  ou 
“economia real” – para o “capital portador de juros” – a “economia fictícia” ou “virtual” 
(LAPYDA, 2011, p. 49).  Essa fase de valorização do capital monetário, da centralidade 
do  dinheiro  como  mercadoria  relativamente  autônoma  em  relação  ao  campo  da 
produção,  é  acompanhada  de  um  processo  de  “desterritorialização”.  A  economia 
globalizada  não  é  apenas  a  sequência  do  processo  de  integração mundial  que  ocorre 
desde  o  início  da  Era Moderna. Mais  do  que  a  integração  entre  diferentes  regiões,  a 
globalização  (econômica)  se  refere à  transformação da superfície global em um plano 
equivalente  onde  as  transações,  a  transferência  de  capital  e  mesmo  as  atividades 
industriais  podem  ser  livremente  (ou  quase)  transportadas  de  um  ponto  a  outro.  A 
transformação do planeta em unidade econômica (ao menos idealmente) ocorre com o 
apoio de uma forte base institucional de órgãos transnacionais ou multilaterais, como o 
Fundo  Monetário  Internacional  (FMI)  e,  posteriormente,  a  Organização  Mundial  do 
Comércio  (OMC),  cristalizado  em  1989  no  Consenso  de  Washington  (CHESNAIS, 
2008; PESTRE, 2014b, pp. 298­303). Com isso, os Estados nacionais redirecionam suas 
forças  diante  de  uma  forma  de  organização  econômica  que  não  se  limita  mais  por 
fronteiras  territoriais.  Isso  é  tanto mais  sentido  em  países  periféricos,  já  que  aqueles 
Estados  localizados  no  centro  do  capitalismo  global  continuam  fazendo  valer  o  seu 
poder político (e bélico, quando necessário).
O  neoliberalismo  configura  “um  ponto  de  ruptura  revolucionário  na  história 
social e econômica do mundo”, na opinião do geógrafo David Harvey (2013, p. 11)111. 
116
Importa  perceber  que  esse  fenômeno  não  é  apenas  uma  nova  ideologia  ou  uma  nova 
ordem econômica global, mas  uma nova  formação  sócio­histórica. As  transformações 
massivas  atravessadas  pela  economia  capitalista  desde  o  final  dos  anos  1970  são 
suficientes  para  caracterizar  um  novo momento  histórico.  Como  resume  Dominique 
Pestre (2014a, p. 270):
Um momento que se segue a uma fase diversamente qualificada como 
keynesiana,  fordista ou do Estado social e que começa entre os anos 
de  1970  e  1980.  O  vocábulo  é,  então,  um  marcador  cronológico, 
caracterizando um tempo que repousa sobre o conjunto já evocado por 
nós  –  sobre  a  articulação  de  uma  teologia  messiânica,  de  novas 
tecnologias de governo, de uma globalização financeira e de mercado 
[...] O termo indica a substituição de um sistema de organização social 
por outro...112
Esse momento  neoliberal  se  constitui  em  profunda  relação  com  a  ciência  e  a 
tecnologia.  Com  efeito,  ele  se  constitui  a  partir  dessa  relação,  se  define  pelo 
reposicionamento estratégico da ciência e da tecnologia no interior dessa estrutura.
Nessa nova etapa do capitalismo, o modelo de organização de ciência proposto 
por Vannevar Bush foi sendo desmontado e reconfigurado. Esse processo, que continua 
em  operação  e  cujos  resultados  definitivos  ainda  são  difíceis  de  medir,  tem  como 
direção principal a gradativa substituição do Estado e das universidades pelo mercado e 
centros  de  pesquisa  privados  como  locais  mais  importantes  para  a  produção  de 
conhecimento científico, bem como a formação de “parcerias estratégicas” entre centros 
tradicionais de pesquisa e a indústria. “Os pesquisadores universitários [...] empenham­
se,  em  legiões  cada  vez  maiores,  em  projetos  a  prazo  maior  ou  menor  que  refletem 
objetivos industriais explícitos” (FERNÉ, 1994, p. 365). Isso não significou o abandono 
das antigas estruturas, mas o deslocamento do seu centro dinâmico. 
Inovação é  a palavra de ordem. Não  se pode mais  esperar  a pesquisa básica  e 
desinteressada  gerar  resultados  em  sua  exploração  aleatória,  é  preciso  direcionar 
fortemente  e  cobrar  os  resultados,  medir  a  produtividade  quantitativamente.  Os 
principais índices não são novas pesquisas, mas novas patentes. Grupos com interesses 
111 Yurij Castelfranchi  (2008,  pp.  36­41)  não  toma  como  evidente  a  caracterização do  neoliberalismo 
como  passagem  revolucionária  e  coloca  em  discussão  diferentes  opiniões  a  respeito  da  natureza  dessa 
nova etapa do capitalismo.
112 No original: “Un moment qui fait suite à une phase diversement qualifiée de keynesienne, fordiste ou 
à  État  social,  et  qui  commence  entre  les  années  1970  et  1980.  Le  vocable  est  alors  un  marqueur 
chronologique,  caractérisant  un  temps  qui  repose  sur  l’ensemble  de  ce  que  nous  avons  évoqué  –  sur 
l’articulation  d’une  théologie  messianique,  de  nouvelles  technologie  de  gouvernement,  d’une 
globalisation financiére et marchande [...] Le vocable signale le remplacement d’un régime d’organisation 
du social par un autre...”. Tradução minha.
117
distintos – sejam policy makers engajados em políticas de “transferência  tecnológica”, 
cientistas saudosos de uma ilusória “era de ouro” da pesquisa ou sociólogos contrários à 
perversa  “apropriação  privada  do  conhecimento  publicamente  produzido”  –  debatem 
apaixonadamente as consequências do novo modo de produção da pesquisa científica. 
Algumas  perguntas  geram  ansiedade:  Uma  ciência  impulsionada  pelos  anseios  do 
mercado continuará seguindo os mesmos valores? O ideal de objetividade, por exemplo, 
pode  estar  em  risco  quando  o  cientista  não  é  mais  um  funcionário  do  Estado  ou  da 
universidade, cuja autonomia está garantida na pesquisa básica, mas um funcionário de 
uma empresa cujo principal objetivo é o  lucro através da  inserção acelerada de novos 
bens  em um mercado ou mesmo quando  ele  é  o  dono da  sua própria  companhia,  um 
empresário do mercado de bens científicos (ZIMMAN, 1996)? A ciência não é apenas 
um produto cultural como outro qualquer na sociedade, é também um bem econômico 
como outro qualquer no mercado. 
Para  alguns  analistas,  aciência  teria  se  tornado  “pós­acadêmica”  e  o  ethos 
mertoniano  (que  havia  funcionado  como  uma  espécie  de  horizonte  de  valores 
compartilhados  pelos  cientistas)  estaria  sendo  substituído  por  um  novo  conjunto  de 
valores  mais  apropriados  à  nova  configuração  da  ciência  e  ao  novo  papel  social 
desempenhado pelos cientistas  (CASTELFRANCHI,  2008; ZIMAN, 2000). O que ocorre 
desde os anos 1980 é que:
Um pouco por todo o mundo acadêmico ocidental, e especialmente na 
investigação  científica,  dentro  e  fora  das  universidades,  nos  âmbitos 
da  biotecnologia  e  de  outras  ciências  e  tecnociências  da  vida,  estão 
sendo disseminados os  traços  tipicamente característicos dos campos 
comercial e empresarial (GARCIA e MARTINS, 2009, p. 83).
Isso tem implicações óbvias na sociologia e na filosofia das ciências: a própria 
forma  de  caracterizar  essas  mudanças  já  é  mediada  por  essas  abordagens 
(CASTELFRANCHI, 2008, p. 41).
A resposta veio através do conceito de tecnociência. Com essa expressão indica­
se não apenas a fusão e a diluição de fronteiras (tema que interessa especialmente a este 
trabalho) entre os campos da ciência e da tecnologia113, mas um emaranhamento, uma 
indistinção  entre  ciência,  tecnologia  e  capitalismo  neoliberal  (CASTELFRANCHI, 
2008,  p.  9).  Não  existe  mais  uma  grande  ruptura  entre  ciência  e  não­ciência,  mas  a 
113 Para alguns autores, a tecnociência se refere à “conexão fundamental entre a ciência e a tecnologia, 
que leva a que ambos os domínios possam ser pensados conjuntamente” (DAGNINO, 2008, p. 28). Como 
tento mostrar aqui, essa conexão – apesar de fundamental e necessária – não é suficiente para definir o 
fenômeno.
118
identidade radical entre esses três domínios anteriormente tratados como autônomos. O 
conceito  de  tecnociência  “sugere  que  não  há  barreiras  pré­determinadas  para  o  que 
constitui  tecnologia  ou  ciência,  o  social  ou  o  técnico,  ciência  ou  política”  (ASDAL, 
BRENNA  e  MOSER,  2007,  p.  8)114.  Essa  nova  configuração  sócio­histórica  (ou 
sociotécnica)  foi  apontada  como  uma  das  grandes  transformações  do  final  do  século 
XX.  Esse  fenômeno  impõe  novos  olhares,  dentre  os  quais  os  science  studies.  Não  é 
fortuita a associação que Paul Forman (2007) propõe entre a passagem da Modernidade 
à  pós­modernidade  e  a  proeminência  da  tecnologia  sob  a  ciência.  O  autor  é  incisivo 
quanto a este ponto: “a tese deste artigo é que modernidade é quando ‘ciência’ denota 
também  tecnologia;  pós­modernidade,  quando  tecnologia  denota  também  ciência” 
(FORMAN, 2007, p. 4)115.
Não  pretendo  subestimar  a  função  da  cultura  intelectual  pós­moderna  na 
conformação  de  uma  aventura  teórica  ousada  como  o  programa  forte  e  os  science 
studies. No entanto, não pretendo seguir de perto os padrões narrativos pós­modernos, a 
sua cronologia. Através do conceito de tecnociência, tentarei identificar certo ambiente 
simbólico­material  comum  à  emergência  do  neoliberalismo  e  dos  science  studies. 
Talvez  a  leitura  da  pós­modernidade  como  a  “lógica  cultural  do  capitalismo  tardio”, 
com todas as suas contradições e conflitos, poderia desenhar outra genealogia para esse 
campo interdisciplinar, alinhá­lo a determinada filiação epistemológica. 
A pós­modernidade é um fenômeno muitíssimo amplo, pulverizado e de difícil 
definição116.  Para  o  que  aqui  nos  interessa,  podemos  caracterizá­la  como  um 
movimento de recusa das categorias fundantes da Modernidade, especialmente aquelas 
tributárias  da  Ilustração  (LYOTARD,  2004).  As  grandes  narrativas  universalistas  do 
progresso, da verdade, da razão, da justiça, da liberdade, da história e da ciência (que se 
galvanizam na  filosofia hegeliana) são denunciadas como sendo  incapazes de cumprir 
as  suas  promessas  de  emancipação  da  humanidade,  meras  fachadas  retóricas  para  o 
exercício  de  um  eurocentrismo  tacanho  que,  em  nome  dos  universais,  subjugou 
violentamente grande parte do território global117. Alguns autores recuam até o final do 
114 No original: “suggests that there are no pre­determined boundaries for what constitutes technology or 
science, the social or the technical, science or politics”. Tradução minha.
115  No  original:  the  thesis  of  this  paper  is  that  modernity  is  when  ‘science’  denotes  technology  too; 
postmodernity, when ‘technology’ denotes science too”. Tradução minha.
116  Na maior  parte  das  suas  apreciações,  ela  engloba  o  giro  linguístico,  o  relativismo,  a  política  das 
identidades etc.
119
século XIX para marcar  a  primeira  inflexão  em direção  à  pós­modernidade.  Segundo 
Jürgen Habermas,  é  a  crítica  radical  à  razão moderna  (e  seu  subsequente  abandono), 
levada  à  cabo  por  Nietzsche,  que  abre  a  trilha  pela  qual  caminhará  o  discurso  pós­
moderno (HABERMAS, 2007). Embora menos ressentido em relação ao abandono da 
razão  por  Nietzsche,  José  Carlos  Reis  faz  um  diagnóstico  semelhante  da  pós­
modernidade. Para o historiador, “Nietzsche foi um dos primeiros a recusar uma tirania 
da  Razão  sobre  o  sentido  histórico,  abrindo  outra  profunda  fissura  na  identidade 
ocidental” (REIS, 2006, p. 42). 
No entanto, a pós­modernidade não depende apenas de uma crítica filosófica do 
conceito de Modernidade ou das suas características centrais118. Foi com a ocorrência 
de uma série de mudanças profundas nas sociedades ocidentais após a Segunda Guerra 
Mundial que a percepção de falência do projeto Moderno tomou contornos firmes e foi 
possível pensar em uma etapa posterior à Modernidade. Passamos a viver em uma nova 
fase  do  capitalismo. Nos  países  ricos,  esse  novo  capitalismo  foi  definido  como  “pós­
industrial”. Assim, a antiga produção baseada em fábricas que contavam com exércitos 
de operários foi substituída por processos cada vez mais automatizados e a mão­de­obra 
transferida  para  o  setor  de  “serviços”.  Isso  criou  também uma massa  de  profissionais 
com  alto  grau  de  treinamento,  preparados  para  lidar  com  máquinas  cada  vez  mais 
específicas  e  sofisticadas  em  uma  escalada  da  demanda  pela  “expertise”.  À  época, 
algumas avaliações otimistas viam essa transição como acarretando na redução drástica 
das  jornadas e na possibilidade de exercício criativo e  tempo ocioso. A capacidade de 
“pleno emprego”, utopia do início do século XX, foi substituída pela utopia do “fim do 
trabalho”. Na prática, o que ocorreu e ainda ocorre é um processo de “proletarização” de 
todas  as  esferas  produtivas  (inclusive  a  intelectual)  e,  mais  recentemente,  a  nefasta 
distopia do desemprego em massa119.
A tecnociência é uma entidade muitas vezes descrita como resultado da captura 
da  tecnologia  e  da  ciência  pelo  mercado  –  o  que  acarreta  mudanças  nos  próprios 
mecanismos do mercado. Yurij Castelfranchi  (2008) utiliza a metáfora do  líquen,  que 
remete  a  uma  relação  de  co­dependência  e  co­produdução,  não  a  simples  dominação 
117 Para uma perspectiva um pouco distinta da trajetória da “retórica do universalismo” ver, 
WALLERSTEIN, 2006.
118 Rousseau, por exemplo, fez duras críticas à associação automática entre Progresso e Ciência; Marx 
dirigiu seus esforços para uma reavaliação das categorias modernas. Isso não os fez abandonar o projeto 
Moderno.
119 Para uma visão bastante ácida dessa economia, ver GRUPO KRISIS, 2003.
120
exercida pelo mercado  impuro contra uma ciência pura. Para Michel Callon  (1994, p. 
78),  “a  técnica  constitui  um  dos  principais  recursos  na  guerra  a  que  se  entregam  os 
grupos industriais. [...] A inovação tecnológica é, hoje em dia, uma arma decisiva”. Para 
Laymert Garcia dos Santos (2003, p. 232, grifo meu), “o princípio da competitividade 
obriga a racionalidade econômica a atrelar­seà racionalidade científica, ao subordinar 
as decisões de investimento não às taxas de retorno, mas à dinâmica da inovação”. O rol 
de  citações  que  apontam  nesse  sentido  poderia  ser  ampliado.  Não  será  o  caso. Mais 
importante  aqui  é  perceber  que,  ao  se  dotar  de  uma  identidade  tecnocientífica  e, 
simultaneamente,  do  controle  sobre  o  modo  de  produção  de  ciência  e  tecnologia,  o 
mercado (apesar das tensões internas) potencializa a sua inexorabilidade. Ao se colocar 
como  o  local  privilegiado  da  racionalidade,  ao  pautar  as  suas  ações  sob  a  égide  de 
técnica,  a  governamentabilidade  neoliberal  exclui  a  política  em  nome  de  decisões 
“neutras” e “objetivas”. Grande parte da produção crítica sobre esse fenômeno utilizou 
o conceito de tecnociência precisamente como uma ferramenta de combate, de oposição 
ao processo de gestão tecnocrática. Um dos objetivos explícitos é demonstrar que toda 
opção técnica é também opção política: carregada de interesses, negociações, jogos de 
poder. Despolitizadas, ciência e tecnologia estão à mercê dos grupos hegemônicos. Uma 
vez politizadas, é possível pôr em disputa o controle sobre elas.
É  preciso  perceber,  no  entanto,  que  a  tecnociência  não  se  restringe  a  um 
conjunto  de  mecanismos  de  exclusão  e  dinâmicas  de  controle.  Não  se  resume  à 
tecnocracia.  Não  devemos  ignorar  a  sua  dimensão  “interativa”  e  participativa,  a 
contrapartida de um mercado que não é apenas oferta, mas também é demanda120. Em 
função  disso,  a  pressão  por  inovação  e  por  resultados  práticos  para  as  pesquisas  é 
apresentada como “responsabilidade social dos cientistas” que devem prestar contas aos 
contribuintes  ou  aos  consumidores.  Essa  dimensão  não  é  apenas  um  disfarce  que 
garante o respaldo e a legitimidade da tecnociência, ela é constitutiva desse novo modo 
de produção do conhecimento. Segundo Yurij Castelfranchi (2008, p. 225):
No  discurso  da  tecnociência  atual  tecnocracia  e  retórica  da 
participação, delegação aos especialistas e slogans de uma democracia 
“de baixo para cima”, jargão e sensacionalismo convivem numa trama 
discursiva  e  numa  rede  de  práticas  em  que,  ao  lado  do  discurso  da 
necessidade, há uma necessidade do discurso. Junto com um discurso 
de inexorabilidade, há uma incessante produção de diálogos, em cada 
molécula do dispositivo.
120 Assim como o discurso da ciência entre meados do século XIX e meados do XX se constituiu de uma 
face baconiana, operativa e uma contemplativa, do arrebatamento diante das maravilhas da natureza.
121
Esse novo cenário dominado pela  tecnociência  engendra uma nova Política de 
Ciência  e  Tecnologia. Donald  Stokes  (2005)  narra  com  certa  angústia  o  esgotamento 
das políticas públicas inspiradas no modelo delineado no Relatório Bush, caracterizando 
a década de 1980 como um período de “desordem”. Certamente,  isso se deve ao forte 
compromisso desse autor com o papel do Estado na promoção e no  financiamento da 
ciência  e  da  tecnologia,  que  deveria  “manter  sob  controle”  os  “motores  da 
modernização” (STOKES, 2005, p. 15). Diante de tal objetivo; diante da visão do pacto 
entre ciência e Estado no qual cabia a este último, se não guiar o desenvolvimento da 
pesquisa,  fornecer  as  condições  materiais  e  os  enquadramentos  institucionais  para  o 
desenvolvimento da ciência, a situação desde final dos anos 1970 parecia. A Política de 
Ciência  e  Tecnologia  assume  características  bastante  peculiares  à  medida  que  se 
converte em Política de Tecnociência. O Estado se torna mais um agente em uma arena 
de múltiplos  interesses.  A  ligação  orgânica  que  forma  a  tecnociência  retira  do  poder 
público  qualquer  centralidade  que  ele  porventura  possuíra  em  décadas  anteriores. Ao 
identificar como seus os interesses do mercado, a ciência e a tecnologia fazem também 
deslizar a função do Estado, remodelando­a. 
Esse novo ambiente, esse novo arranjo societário que possibilita a emergência da 
tecnociência, essa trama complexa de ciência,  tecnologia e capitalismo, faz implodir o 
modo  “tradicional”  de  contar  a  história  das  ciências,  coloca  novos  desafios  ao 
pensamento histórico, exige dele um novo esforço. A história se (re)escreve em função 
do presente, para dar sentido, profundidade e perspectiva a novos fenômenos. Diante de 
novos  problemas,  os  historiadores  imaginam,  fabricam,  reelaboram  um  novo 
passado.Como  o  passado  das  ciências  será  questionado  vis­à­vis  as  questões  que,  no 
presente,  motivam  essas  investigações?  Conhecemos,  por  exemplo,  as  mudanças  na 
história da escravidão e as transformações do escravo em um agente, sujeito econômico 
racional, quase à imagem do self­made man neoliberal (CHALHOUB E TEIXEIRA, 2009; 
REIS, 2012, pp. 124­138).
Para  enfrentar  essas  questões – não para  resolvê­las  definitivamente, mas para 
sugerir  hipóteses,  ampliar  o  limite  das  explicações,  fazer  repensar  criticamente  esses 
temas  inquietantes – a parte  final desse capítulo  será dedicada à análise do Leviathan 
and  the air­pump,  uma das mais  importantes obras de história das  ciências do último 
quartel do século XX. 
122
O  Leviathan  não  será  abordado  aqui  como  representando  apenas  uma  versão 
histórica  da  sociologia  do  conhecimento  científico.  É  evidente  que  essa  era  uma  das 
ambições  explícitas  dos  autores,  que  pretendiam  que  o  livro  fosse  “um  exercício  na 
sociologia do conhecimento científico” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 15)121. Para 
isso, se valiam de princípios metodológicos desenvolvidos por Bloor e Barnes (e pelo 
próprio  Steven  Shapin),  do  estudo  das  controvérsias  científicas  da  forma  como  foi 
proposto  por Harry Collins,  da  etnometodologia  de Harold Garfinkel,  dos  estudos  de 
laboratório de Bruno Latour, do vocabulário do “segundo” Wittgenstein etc. Para John 
Zammito,  o  Leviathan  é  o  “grande  exemplar  do  Programa  Forte  [...].  Nenhum  outro 
texto no campo possui o status canônico –  igualmente para amigos ou inimigos – que 
esse estudo assumiu” (ZAMMITO, 2004, p. 169, grifo no original)122. Como já afirmei 
acima, os autores não estavam apenas imersos nesse ambiente intelectual e institucional, 
eles possuíam um papel ativo na construção de uma nova visão sobre as ciências.
No entanto, a consecução plena do projeto de utilizar a história como campo de 
teste  empírico  para  teorias  sociológicas  é  inexequível123. Não  estou  negando  que  os 
autores  utilizam  uma  rede  conceitual,  procedimentos  metodológicos  e  mesmo  um 
conjunto de questões provenientes da sociologia e dos science studies. Essa tese não se 
propõe  a  patrulhar  as  fronteiras  da  história  das  ciências,  mantê­las  sob  vigilância  e 
recriminar  os  membros  que  escapam  aos  seus  protocolos.  Pelo  contrário,  tenho 
121 No original: “an exercise in the sociology of scientific knowledge”. Tradução minha. Esse argumento 
é desenvolvido de forma mais alentada na longa introdução preparada pelos autores para a edição de 2011 
do Leviathan and the air­pump (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, pp. xl­xliv).
122 No original: “the grand exemplar of the Strong Program […] No other text in the field has had the 
canonical status – for friends and foes alike – that this one study has assumed”. Tradução minha.
123  Para  Lakatos  (1998),  sob  o  imperativo  da  “reconstrução  racional”  a  história  das  ciências  seria  o 
“laboratório  da  epistemologia”.  Steven  Shapin  parafraseia  ironicamente  o  título  do  famoso  artigo  de 
Lakatos  (History  of  science  and  its  racional  reconstructions)  no  título  do  texto  no  qual  aborda  as 
possibilidades de tratamento empírico da sociologia do conhecimento científico (History of science and 
its sociological reconstructions). Embora Shapin (1982, p. 158)reconheça que tratar a literatura empírica 
como mero  teste de algum programa  teórico  seria  “quite  incorrect” e que ela deve  ser  avaliada “on  its 
own terms”, ele não fornece nenhuma indicação de qual seriam os termos adequados para essa avaliação e 
insiste  na  sua  empreitada  de  avaliar  a  sociologia  do  conhecimento  através  de  trabalhos  históricos;  a 
dúvida  que  permanece  é  se  a  referência  ostensiva  a  Lakatos  por meio  da  ironia  não  esconde, mutatis 
mutandis,  certa  semelhança  de  programa  para  a  história  das  ciências  (isto  é,  ser  um  laboratório,  um 
exercício de modelos, conceitos e teorias elaborados em outros campos epistemológicos). Diversamente, 
Michel de Certeau nos  fala,  em  relação à história  serial dos anos 1950 e 1960, de uma  intervenção  da 
história nos “modelos”, de uma experimentação crítica, da história como local de controle que coloca em 
evidência os limites do modelo. Restaria à história que perdeu a função que possuía até o século XIX, de 
“prover  a  sociedade  de  representações  globais  da  sua  gênese”  ou  “expressar  o  sentido”,  a  tarefa  de 
encontrar o seu lugar em meio às ciências sociais (CERTEAU, 2006, p. 80). Essas perspectivas parecem 
perder força à medida que a história cultural, o “retorno da narrativa” e, especialmente, as obras de Paul 
Ricoeur exploram a relação constitutiva entre história e narrativa.    
123
mostrado  como  o  estabelecimento  de  zonas  de  troca  é  constitutivo  da  história  das 
ciências.  A  relutância  da  corporação  dos  historiadores  em  assumir  as  ciências  como 
objeto  legítimo  fez  com que a história das  ciências  fosse desenvolvida à margem dos 
espaços  institucionais  da  história.  Assim,  a  história  das  ciências  foi  praticada  por 
cientistas  (como  Thomas  Kuhn),  filósofos  (como  Koyré)  e  constituiu  sua  tradição 
disciplinar,  seus  espaços  de  sociabilidade  institucional  e  mesmo  seus  critérios 
epistemológicos  alheios  à  historiografia  strictu  sensu  (MAIA,  2013).  Esta  situação 
forçou  a  história  das  ciências  a  criar  laços  institucionais  e  teóricos  com  outras 
disciplinas que estavam em torno do mesmo objeto, as ciências. Nessas zonas de troca, 
onde  as  barreiras  que  delimitam  as  disciplinas  estariam  abertas,  seria  possível  um 
intercâmbio de técnicas, conceitos, formas de abordagem e até de questões, que podem 
ser depois levadas para o interior dos domínios disciplinares. O fluxo entre os territórios 
é frequente, embora não de forma constante ou homogênea.
Os  science  studies desempenharam,  nos  anos  1980,  um  papel  fundamental  no 
estabelecimento  de  uma  agenda  de  pesquisa,  na  forma  de  colocar  os  problemas,  nas 
ferramentas  conceituais  e  na  própria  concepção  de  ciência.  Grande  parte  da 
historiografia  do  período  não  pode  esconder  o  débito  que  contraiu  com  essa  empresa 
interdisciplinar124.  A  prática  da  história  social  (e  sociológica)  das  ciências  é 
plenamente  possível  e  desejável  –  revigora  o  conhecimento  histórico,  amplia  o  seu 
alcance. Negar as transformações sofridas pela história em contato com outras ordens de 
saber e, em especial, com as ciências sociais e o ideal de cientificidade que as informou 
desde  o  século  XIX,  seria  ignorar  a  história  da  historiografia125.  Contudo,  deslocar 
esses  elementos  em  direção  à  história  e  situá­los  nesse  campo  disciplinar  já  significa 
reconfigurá­los em função da especificidade dessa disciplina126. Contentemo­nos, por 
enquanto,  em  situar  essa  especificidade  no  papel  exercido  pela  narratividade  na 
“arquitetura do  saber histórico”  (RICOEUR, 2007, p. 250)  e  especialmente na  função 
que esse saber produzido sob o signo da narrativa desempenha na sociedade na qual se 
inscreve (e na qual escreve). Dito isto, avaliarei o Leviathan como uma obra de história 
124 Embora uma parte também significativa dos historiadores tenha mantido uma atitude de repúdio ou 
indiferença aos science studies.
125  Convém  evocar  novamente  aqui Michel  de  Certeau  (2006,  p.  65),  para  quem  “cada  sociedade  se 
pensa ‘historicamente’ com os instrumentos que lhe são prórios”.
126 Não pretendo recolocar a eterna e provavelmente insolúvel questão “que é a história?”, nem refazer 
todo o percurso da filosofia crítica da história do século XX em busca da afirmação (e problematização) 
de uma identidade ou de uma essência da história. Interessa­me (evitando o essencialismo ontológico por 
vezes implicado no verbo “ser”) a sua correlata: “que é a história das ciências?”.
124
social  das  ciências  profundamente  marcada  pelo  convívio  com  a  sociologia  do 
conhecimento científico e com os science studies.
A  análise  que  empreenderei  tem,  acima  de  tudo,  um  objetivo  historiográfico: 
inscrever  essa  obra  (e  a  produção  histórica  mais  ampla  à  qual  ela  pertence)  na 
problemática  dos  fatores  internos  e  externos.  Ao  lado  dessa  leitura  que  incorpora  a 
historiografia dos anos 1980 na “tradição”, a pesquisa aponta também para aquilo que 
ela  tem de peculiar.  Joga assim com as continuidades e  rupturas na historiografia das 
ciências  e  se  interroga  reflexivamente  sobre  a  relação  entre  essa  historiografia  e  a 
configuração sócio­histórica na qual emerge. Para  isso, acompanharei mais de perto a 
urdidura do enredo, as estratégias narrativas e os argumentos mobilizados pelos autores 
para  reconstruir  a  polêmica  na  qual  emerge  a  “forma  de  vida  experimental”  como 
dimensão constitutiva da ciência moderna. 
A  trama  do Leviathan  and  the  air­pump  é  bem  conhecida:  o  livro  se  debruça 
sobre  a  controvérsia  travada  na  Inglaterra  da  década  de  1660  entre  Robert  Boyle  e 
Thomas Hobbes. A disputa entre essas eminentes  figuras dizia  respeito ao estatuto do 
experimento  no  conhecimento  científico  e  à  capacidade  do  experimento  de  produzir 
fatos científicos127 seguros e confiáveis. Como resumem os autores, o estudo trata de 
“estratégias  conflitantes  para  a  geração  de  conhecimento  natural  na  Inglaterra  de 
meados  do  século  dezessete”  (SCHAFFER  e  SHAPIN,  2011,  p.  131)128.  Sobretudo, 
estavam em questão os experimentos pneumáticos realizados na bomba de ar construída 
por  Boyle  (também  chamada  de  bomba  de  vácuo  ou  máquina  boyleana  [machina 
Boyleana]). A centralidade da bomba de ar na narrativa é evidente. No título da obra, 
nas  detalhadas  descrições  presentes  ao  longo  do  livro,  no  interesse  em  cada 
componente,  nos  limites  do  seu  funcionamento,  na  circulação  desse  artefato 
127A expressão original utilizada pelos autores, matters of fact, é de difícil tradução. Na única tradução 
brasileira de textos de Steven Shapin preferiu­se manter maior literalidade, traduzindo­se a expressão por 
“matéria  de  fato”  (SHAPIN,  2013c,  p.  91);  uma  tradução  portuguesa  de  uma  conferência  de  Simon 
Schaffer  traduz  mais  simplesmente  como  “facto  científico”  (SCHAFFER,  1999,  p.  415);  a  edição 
argentina  do  Leviathan  escolheu  uma  via  econômica  e  traduz  por  “hecho”  (SCHAFFER  e  SHAPIN, 
1998).  No  trecho  em  que  Bruno  Latour  discute  o  Leviathan,  a  tradução  brasileira  de  Jamais  fomos 
modernos manteve  –  provavelmente  seguindo  o  original  francês  –  a  forma matters  of  fact  (LATOUR, 
1994, p. 23­27). Na primeira ocorrência, no entanto, Latour (1994, p. 23) explica a sua origem em uma 
“metáfora parajurídica” e traduz a expressão por “fato”, embora permaneça utilizando a forma em inglês. 
Edagr  Silsel  (1942)  também  utiliza  esse  conceito.  Optei,  quando  necessário,  por  traduzir  a  expressão 
como “fato científico” devido a sua maior recorrência tanto no vocabulário comum quanto na literatura 
especializada, eventualmente será mantida a forma original em inglês.  
128  Nooriginal:  “conflicting  strategies  for  generating  natural  knowledge  in  mid­seventeenth­century 
England”. Tradução minha.
125
(SCHAFFER e SHAPIN, 2011, pp. 26­40, 225­282). “A bomba de ar é a ‘Big Science’ 
do século dezessete” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 38)129. Em uma longa resenha 
da  segunda  edição  do  Leviathan,  Ian  Hacking  (1991,  pp.  235­241)  considera  esse 
instrumento  científico  o  protagonista  do  livro,  que  é  descrito  como  uma  biografia  da 
bomba de ar. De modo semelhante, Bruno Latour (1994, p. 22) considera a bomba de ar 
o “verdadeiro herói dessa história”130.
Grande  parte  das  análises  desse  livro  deu  ênfase  ao  argumento  que  conecta 
epistemologia e política (GOLINSI, 2005, pp. 21­27, 190­193; LATOUR, 1994, pp. 21­
35; SPRINGER DE FREITAS, 2003; ZAMMITO, 2004, pp. 171­181). Esse argumento, 
afirmado diversas vezes ao longo do livro, foi resumido na frase que abre a conclusão e 
que se  tornou uma das passagens mais conhecidas e citadas da obra: “soluções para o 
problema  do  conhecimento  são  soluções  para  o  problema  da  ordem  social” 
(SCHAFFER  e  SHAPIN,  2011,  p.  332)131.  Assim,  as  propostas  rivais  de  Hobbes  e 
Boyle  eram  tanto  tentativas  de  fundamentar  a  filosofia  natural  (ou  filosofia 
experimental, como queriam os membros da Royal Society) quanto formas de organizar 
a  vida  social  na  Inglaterra  da  Restauração.  “Para  Boyle  e  seus  colegas  [na  Royal 
Society]  a  solução  experimental  para  o  problema  da  ordem  era  possível,  efetiva  e 
segura.  Sua  praticidade,  potência  e  inocuidade  dependiam  da  ereção  de  uma  barreira 
crucial ao redor das práticas da forma de vida experimental” (SCHAFFER e SHAPIN, 
2011, p. 80, grifo meu)132. Dessa maneira, “o matter of fact deve ser visto como uma 
categoria  tanto  epistemológica  quanto  social”  (SCHAFFER  e  SHAPIN,  2011,  p.  25, 
grifo meu)133. 
A  preocupação  com  esse  ponto  por  qualquer  autor  interessado  na  leitura  do 
Leviathan é completamente justificada – pela sua importância para a obra, mas também 
pelo impacto dessa fórmula, que se tornou um dos emblemas da nova historiografia. É 
129 No original: “the air­pump was seventeenth­century ‘Big Science’”. Tradução minha.
130 Em certo sentido, a  leitura  realizada por Latour  (1994, pp. 21­33) cristalizou uma  interpretação da 
obra  de Schaffer  e  Shapin,  não  apenas  conferindo­lhe  o  estatuto  de  clássico  e  situando­lhe  na  base  da 
nova historiografia  da  ciência, mas  atrelando  esse  livro  ao programa de  antropologia  simétrica que  ele 
visava desenvolver, apesar das críticas que o intelectual francês dirige à conclusão demasiado blooriana 
do Levianthan. 
131 No original: “Solutions  to  the problem of knowledge are solutions  to  the problem of social order”. 
Tradução minha.
132 No  original:  “To Boyle  and  his  colleagues  the  experimental  solution  to  the  problem of  order was 
possible,  effective,  and  safe.  Its  practicality,  potency,  and  innocuousness  were  dependent  upon  the 
erection of a crucial boundary around the practices of the experimental form of life”.Tradução minha.
133  No  original:  “the matter  of  fact  is  to  be  seen  both  as  an  epistemological  and  a  social  category”. 
Tradução minha.
126
essa percepção que faz com que “a história das ciências ocupe o mesmo terreno que a 
história da política” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 332)134. Apesar de reconhecer 
isso, não partirei aqui desse argumento para explicar o livro. Ele estará no horizonte dos 
questionamentos que  levantarei  aqui  e não  será  tomado como evidente,  apesar do  seu 
extremo sucesso. O que pretendo é seguir a forma pela qual esses autores chegaram a 
essa conclusão  (que se assemelha a um princípio heurístico, um a priori  em busca de 
confirmação pelo estudo de caso, teste do modelo de explicação proposto da sociologia 
do  conhecimento  científico).  Voltarei  a  minha  sensibilidade  para  o  modo  como  a 
construção narrativa dos autores explora algumas técnicas de produção do espaço. 
O  livro  é  dominado  por  metáforas  espaciais,  geográficas.  Seu  enredo  se 
desenrola  ao  redor  (e  no  interior)  de  locais  muito  singulares,  cujos  limites  se 
constituíam através de um árduo processo e que demandavam constante manutenção e 
ajuste:  a  bomba  de  ar,  o  laboratório  e  a  Royal  Society  de  Londres.  A  metáfora  se 
expande  para  a  circulação:  circulação  dos  aparelhos  e  experimentos  científicos  (e  a 
prática  da  replicação  com  suas  muitas  dificuldades);  circulação  de  relatos  dos 
experimentos que criavam “testemunhas virtuais” (a partir de uma série de tecnologias 
literárias que  serão  detalhadas  adiante).  E  também para  o  controle  do  acesso  a  esses 
espaços, sobretudo através das normas que regulam a constituição de uma “comunidade 
de experimentalistas” na Europa setecentista. Além disso, o tema do espaço aparece de 
uma  forma  nada  metafórica  na  querela  entre  “vacuístas”  e  “plenistas”  que  agitava  o 
ambiente intelectual da época. 
É também com a metáfora do espaço (e suas correlatas) que lidamos ao tratar do 
internalismo  e  do  externalismo.  Aproveitando  essa metáfora,  farei  duas  perguntas  de 
importância capital. Onde  está  localizada a ciência no modelo proposto por essa nova 
historiografia?  Como  o  Leviathan  se  posiciona  em  relação  ao  internalismo  e  ao 
externalismo? 
Nas  décadas  finais  do  século  XX,  o  problema  da  demarcação  se  relaciona 
diretamentecom a diluição da ciência no conjunto da sociedade, sintetizado no conceito 
de tecnociência. Comecei esse capítulo afirmando que o período posterior à publicação 
de  A  estrutura  das  revoluções  científicas  se  caracterizava,  entre  outras  coisas,  pelas 
tentativas  de  superação  da  divisão  da  história  das  ciências  entre  internalismo  e 
externalismo. Defendi  também que  essa  empreitada  não  havia  sido  bem  sucedida  ou, 
134 No original: “history of science occupies the same terrain as the history of politics”. Tradução minha.
127
pelo  menos,  não  tanto  quanto  os  principais  autores  das  décadas  de  1970  e  1980 
acreditavam, daí a necessidade de retornar a esse problema. Essa questão aparece para 
Schaffer e Shapin de modo explícito: a preocupação dos autores é com a construção das 
fronteiras entre ciência e não­ciência. Os autores tentam mostrar que essas fronteiras são 
erguidas  historicamente,  que  não  é  evidente,  óbvio  ou  natural  que  um  determinado 
conjunto  de  práticas  seja  considerado  ciência  e  outro  conjunto  seja  deslegitimado  e 
rebaixado à categoria de “opinião”. O argumento que sustenta essa aparente obviedade, 
dizem os autores, é o nosso pertencimento radical a uma cultura que naturalizou essas 
divisões.  Como  membros  dessa  comunidade,  não  enxergamos  certas  questões  como 
problemas.  A  solução  teórica  encontrada  é  a  de  “bancar  o  estrangeiro”,  exercitar  o 
estranhamento face ao que associamos ao comportamento normal da sociedade (ou da 
natureza).  “Nós  queremos  adotar  uma  suspensão  calculada  e  informada  das  nossas 
percepções  evidentes  das  práticas  experimentais  e  seus  produtos”  (SCHAFFER  e 
SHAPIN, 2011, p. 6)135.
Um dos pontos fortes da obra é  justamente narrar o processo de construção do 
coletivo  de  produção  do  conhecimento,  das  suas  instituições  (a  Royal  Society,  o 
laboratório),  das  novas  práticas  e  conhecimentos  que  ela  cria  (a  nova  ciência),  dos 
novos  produtos,  da  nova  cultura  material  (a  bomba  de  ar),  como  sendo  o  mesmo 
fenômeno.  É  óbvio  que  essa  narrativa,  por  certa  persistência  do  vocabulário  da 
demarcação,  está  repleta  de  remissões  ao  antigo  estilo  que  visava  superar.  Essas 
passagens  de  certa  hesitação  são  significativas,  expressam  a  dificuldadeda  tarefa 
executada por essa historiografia. A insistência “do fenômeno” em se seccionar em “o 
social”  e  “o  natural”,  entre  o  “teórico”  e  o  “experimental”,  entre  o  “discurso”  e  a 
“realidade”, o “interno” e o “externo” se exibe muito evidente para um espírito formado 
na tradição filosófica da primeira metade do século XX136. 
É justamente nos momentos que essa vacilação relampeja na trama que se aguça 
o  interesse  do  historiador  preocupado  em  examinar  os  interstícios  dessa  escrita.  Para 
estimular  uma  leitura  que  privilegia  esses momentos,  dividirei  essas  etapas,  tentando 
desvendar  as  formas  através  das  quais  os  autores  amarram  os  diversos  fios  dessa 
135  No  original:  “We  wish  to  adopt  a  calculated  and  informed  suspension  of  our  taken­for­granted 
perceptions of experimental practices and its products”. Tradução minha.
136 O  seguinte  trecho  fornece  um  exemplo  excelente:  “Now  that  we  understand    aspects  of    Hobbes 
condemnation of experimental practice we can parenthetically discuss his relations with the Royal Society 
as a corporate body” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 131).
128
trama.Em cada um desses momentos, a atividade de produção de fronteiras (boundary 
work)  será  o  foco  principal  da  leitura  aqui  desenvolvida.  Não  pretendo  narrar 
novamente  a  história  da  disputa  entre  Hobbes  e  Boyle  recolocando  as  tradicionais 
polarizações,  tratando  as  diferentes  “dimensões”  como  fenômenos  distintos  que 
obedecem a lógicas próprias, mas ressaltar a especificidade dessa nova forma de narrar 
a história das ciências. 
A  primeira  etapa  que  abordarei  é  a  da  formação  do  corpo  social  da  ciência 
moderna,  responsável  pela  elaboração  coletiva  do  conhecimento  legítimo  –  a 
“comunidade  experimental”  ou  “moral”.  Os  autores  descrevem  a  construção  de  um 
espaço social regulado por uma série de predicados sociais e morais que construíam a 
identidade  do  filósofo  natural.  Essa  nova  configuração  que  emerge  no  início  da  Era 
Moderna representa a si mesma como uma atividade pública e se opõe simultaneamente 
ao  isolamento  do  alquimista  em  seu  gabinete  e  à  clausura  do  monge  em  sua  cela 
(SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 57; SHAPIN, 2013d). “Boyle propunha que os fatos 
científicos fossem estabelecidos pela agregação de crenças individuais. Membros de um 
coletivo  intelectual  tinham  que  assegurar  mutuamente  a  si  mesmos  e  a  outros  que  a 
crença na experiência empírica estava garantida” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 25, 
grifo no original)137. A atividade da ciência moderna é uma atividade coletiva, fruto de 
um processo de “re­localização da filosofia natural no espaço cívico” (SHAPIN, 2013d, 
p.  132).  Não  é  mais  a  reclusão  individual  que  produz  o  conhecimento  profundo  e 
verdadeiro, mas a submissão a normas sociais.
O  entendimento  humano  individual  precisava  ser  disciplinado  pelo 
método,  a  saber  um  instrumento  de  indução  verdadeira.  E  esse 
instrumento  foi  implementado não por um  indivíduo,  e  sim por uma 
coletividade organizada de  forma complexa e que  interagia de modo 
inacessível. (SHAPIN, 2013d, p. 132)138
Assim,  a  constituição  dessa  comunidade  se  refere  à  necessidade  de  certas 
qualidades morais, de certo conjunto de valores indispensáveis à boa prática da filosofia 
natural:  em  uma  palavra,  se  refere  ao  ethos  da  ciência  moderna.  Esse  ethos  não  se 
137 No original:“Boyle proposed  that matters of  fact  be  established by  the  aggregation of  individual’s 
beliefs. Members of an intellectual collective had mutually to assure themselves and others that belief in 
an empirical experience was warranted”. Tradução minha.
138 Nesse mesmo texto, Shapin (2013d, p. 132­139) aponta para a ambiguidade dos repertórios correntes 
em relação à identidade científica no século dezessete, mostrando a permanência da retórica do filósofo 
natural  como  “eremita”  e  “sacerdote  da  natureza”  em  figuras  importantes,  como Robert Boyle  e  Isaac 
Newton. O topos do cientista como um indivíduo isolado, à margem da sociedade (se não fisicamente, ao 
menos  intelectualmente,  voltado  para  os  seus  pensamentos)  ainda  é  forte  na  atual  imagem  social  do 
cientista.
129
identifica  com  as  prescrições  mertonianas  descritas  no  capítulo  anterior.  Os 
experimentalistas elaboram para si uma identidade ligada à sobriedade, à humildade, à 
modéstia. Esses valores garantiam aos praticantes dessa filosofia natural um estatuto de 
nobreza139  (SCHAFFER  e  SHAPIN,  pp.  65­76).  Esse  sistema  organizado  de 
distribuição  de  valores,  julgamentos  e  emoções  –  essa  economia  moral  da  ciência 
moderna  (DASTON,  2014)  –  regula  as  fronteiras  da  comunidade,  credencia  os 
legítimos participantes do coletivo de produção de conhecimento verdadeiro. Uma das 
formas utilizadas para delimitar esse espaço foi através da produção literária de relatos 
de  experimentos.  Esses  relatos,  descrições  minuciosas  das  atividades  empíricas, 
destinavam­se  a  ampliar  o  público  da  nova  filosofia  experimental  por  meio  de 
testemunhas  virtuais140.  Esses  relatos  deveriam  estabelecer  um  pacto  de  confiança 
entre  o  experimentalista  e  essas  testemunhas,  que  passariam  a  acreditar  e  validar  as 
performances  experimentais  e  os  seus  resultados  sem  ter  o  contato  direto  com  a 
operação da bomba de ar, por exemplo. Mais do que isso, os autores enfatizam o papel 
desses discursos na economia moral da comunidade. “A exposição literária de uma certa 
forma de moralidade era uma técnica na fabricação de fatos científicos” (SCHAFFER e 
SHAPIN, 2011, p. 65)141. Logo adiante esse ponto é aprofundado. 
A  tecnologia  literária  de  Boyle  dramatizava  as  relações  sociais 
apropriadas para uma comunidade de filósofos experimentais. Apenas 
estabelecendo regras corretas de discurso os fatos científicos poderiam 
ser gerados e defendidos e apenas constituindo esses fatos científicos 
como as  fundações acordadas do conhecimento a comunidade moral 
de  experimentalistas  poderia  ser  criada  e  sustentada  (SCHAFFER  e 
SHAPIN, p. 69, grifos meus)142.
139 Efetivamente, a maioria dos praticantes da filosofia natural na Europa dos séculos XVII e XVIII era 
de famílias aristocráticas ou de ricos proprietários. 
140  O  caráter  público  da  experimentação  será  retomado  em  seguida,  quando  da  discussão  sobre  as 
instituições da ciência moderna.
141  No  original:  “the  literary  display  of  a  certain  sort  of  morality  was  a  technique  in  the  making  of 
matters of fact”. Tradução minha.
142 No original: “Boyle’s  literary  technology dramatized  the social  relations proper  to a community of 
experimental  philosophers.  Only  by  establishing  right  rules  of  discourse  could  matters  of  fact  be 
generated  and  defended,  and  only  by  constituting  these matters  of  fact  into  the  agreed  foundations  of 
knowledge  could  a moral  community  of  experimentalists  be  created  and  sustained”.  Tradução minha. 
Esse argumento é repetido ao longo o livro para se referir  também à disputa entre tecnologias literárias 
diferentes  em Boyle  e Hobbes:  “in  both Boyle’s  and Hobbes’s writings,  literary  structure  and  process 
dramatize  the  social  relations  and  practices  deemed  appropriate  to  the  production  of  knowledge. 
Differences  in  theories  of  knowledge­production  and  evaluation  are  displayed  in  different  literary 
technologies” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 145).
130
Em uma versão  preliminar  do  segundo  capítulo  do Leviathan,  texto  que  exibe 
pela  primeira  vez  o  uso  do  conceito  de  tecnologias  literárias,  Shapin  (2013b,  p.  91) 
enfatiza que:
A produção de conhecimento e  a  comunicação de conhecimento  são 
normalmente  consideradas  como  atividadesdistintas.  Argumentarei 
em  contrário:  o  discurso  acerca  da  realidade  natural  é  um  meio  de 
gerar conhecimento acerca da  realidade, de assegurar a garantia para 
esse  conhecimento  e  de  determinar  os  domínios  de  certo 
conhecimento em relação a áreas de posição menos certa. Mostrarei o 
status  convencional  de  maneiras  específicas  de  se  falar  sobre  a 
natureza  e  o  conhecimento  natural,  e  examinarei  as  circunstâncias 
históricas  em  que  essas  maneiras  de  falar  foram  institucionalizadas. 
[...] A  etimologia  de  alguns  de  nossos  termos  chave  é  pertinente:  se 
uma comunidade  é um grupo que compartilha uma vida em comum, 
comunicação é um meio de tornar as coisas comuns.
As  fronteiras  dessa  comunidade  eram  estabelecidas  a  partir  da  distribuição 
desigual  das  qualidades  e  habilidades  necessárias  à  prática  da  filosofia  experimental. 
Embora, em princípio, o caráter público desse conhecimento fosse ressaltado, a função 
desse  público  seguia  uma  hierarquia  bem  definida,  ele  não  se  confundia  com  a 
comunidade. Os  protocolos  estabelecidos  deveriam  construir  um  espaço  social  pronto 
para superar o paradoxo de ser simultaneamente coletivo e  isolado, uma vez que  toda 
interferência  social  na  produção  de  conhecimento  era  percebida  como  uma  distorção. 
Desse modo, os  autores  apontam para  a  “desconstrução” da  imagem da ciência  como 
algo público, voltando sua atenção para uma estratégia dupla: de um lado, enunciar que 
o conhecimento científico deve ser público, aberto; de outro  lado, como contrapartida 
necessária, restringir o efetivo acesso público à ciência, regular o espaço social no qual 
a  ciência  é  praticada.  Todo  esse  esforço  de  regulação  e  criação  de  uma  comunidade 
dotada de autonomia é explicado como tendo a função de controlar as possibilidades de 
dissenso  e  consenso,  como  um  processo  de  criação  de  maneiras  apropriadas  de 
expressar  a  divergência  e  conduzir  as  controvérsias.  Essas  convenções  linguísticas  e 
sociais  deveriam  prevalecer  caso  os  experimentalistas  quisessem  efetivamente  fazer 
avançar o seu modo de produção do conhecimento, a sua “forma de vida” (SCHAFFER 
e SHAPIN, 2011, pp. 72­76, 151­154). 
No momento em que o processo de privatização do conhecimento se intensifica 
na  mesma  medida  em  que  as  decisões  se  baseiam  em  escolhas  tecnocráticas,  a 
preocupação  dos  autores  com  essa  dimensão  parece  extremamente  relevante,  pois 
131
aponta  para  o  caráter  histórico  e  contingente  dos  limites  da  participação  pública  na 
produção e no consumo da ciência.
Para  prosseguir  na  análise  dos  procedimentos  envolvidos  nessa  produção  de 
limites,  passarei  ao  exame  das  instituições  onde  a  filosofia  natural  era  praticada.  A 
ênfase nos “estudos de laboratório” é um lugar comum para aqueles familiarizados com 
a  trajetória  da  primeira  geração  dos  science  studies143.  Os  clássicos  A  vida  de 
laboratório,  publicado  originalmente  em  1979  por  Bruno  Latour  e  Steve Woolgar,  e 
The manufacture  of  knowledge,  que Karin Knorr­Cetina  publica  em  1981,  lançam  as 
bases  dessa  empreitada.  A  proposta  elaborada  por  esses  autores  se  distancia  das 
“histórias  de  instituições  científicas”  (laboratórios,  institutos  de  pesquisa,  sociedades 
científicas  etc.)  que  possuem  uma  larga  e  consolidada  tradição.  Esses  espaços  de 
produção  do  conhecimento  científico  não  são  vistos  como  “templos  do  saber” 
(eventualmente  esse  topos  aparece  de  forma  crítica  e  irônica),  mas  como  algo  que 
confere  à  ciência  um  caráter  radicalmente  situado,  local,  contingente  (GOLINSKI, 
2005,  pp.  80­81; LATOUR, 1994,  pp.  26­31; SHAPIN,  2013b). O Leviathan and  the 
air­pump  se  tornou  uma  das  principais  fontes  históricas  para  esse  campo.  Essas 
instituições  que  se  tornaram  sinônimo  de  ciência  emergem  justamente  no  período 
tratado no livro e a escolha desse objeto é uma tentativa de atacar esses problemas antes 
da sua cristalização em entidades bem delimitadas, mostrando – para usar o vocabulário 
latouriano  –  a  ciência  em  ação.  “No  programa  de  Boyle,  deveria  haver  um  espaço 
especial  no  qual  a  filosofia  natural  experimental  seria  feita,  no  qual  os  experimentos 
seriam  realizados  e  testemunhados.  Esse  [espaço]  era  o  laboratório  nascente” 
(SCHAFFER  e  SHAPIN,  2011,  p.  334)144.  Assim,  o  trabalho  de  Simon  Schaffer  e 
Steven Shapin desempenha a função de reler o surgimento da ciência moderna com uma 
sensibilidade que agrada aos science studies.
O  laboratório  é  a  “casa  da  experiência”,  local  onde  são  arregimentados  os 
elementos  humanos  e  materiais  indispensáveis  à  prática  da  ciência  –  ou,  no  século 
XVII, da filosofia natural (SHAPIN, 2013b). É um espaço onde elementos heterogêneos 
convivem e ganham certa coesão: os instrumentos e máquinas, os técnicos que realizam 
143 Jan Golinski (2005, pp. 79­103) fornece uma perspectiva abrangente dos principais desenvolvimentos 
dos estudos de laboratório ao longo dos anos 1980 e 1990. 
144 No original:  “In Boyle’s programme there was to be a special space in which experimental natural 
philosophy  was  done,  in  which  experiments  were  performed  and  witnessed.  This  was  the  nascent 
laboratory”. Tradução minha.
132
o  trabalho  manual,  a  audiência  cuidadosamente  selecionada  e  os  filósofos  naturais, 
verdadeiros  produtores  do  conhecimento.  Mais  importante,  esses  elementos  são 
arranjados segundo uma disciplina estrita e exaustivamente  reiterada através de vários 
dispositivos  que  Schaffer  e  Shapin  (2011,  pp.  18­25,  76­79)  chamam  de  tecnologias 
sociais. Esses dispositivos tinham como principal atribuição garantir a legitimidade do 
conhecimento produzido no interior do laboratório, mas também produzido em outros 
locais  menos  acessíveis  e  levados  ao  laboratório  para  que  lá  fossem  validados 
(GOLINSKI, 2005, pp. 84­94; SHAPIN, 2013b). Assim como no caso da elaboração de 
regras de conduta que garantiam o pertencimento à “comunidade experimental”, essas 
tecnologias  sociais  regulavam uma ecologia do  laboratório,  distribuíam papéis  sociais 
distintos,  organizam  convenções  e  protocolos.  A  emergência  dessas  instituições  se 
apropria de normas sociais já vigentes, recombinando­as, calibrando­as de acordo com 
as suas necessidades específicas. Ao explicar as fontes de legitimidade de um relato na 
Inglaterra  do  século  XVII,  Steven  Shapin  comenta  que  “de  modo  aproximado,  a 
distribuição  da  credibilidade  seguia  os  contornos  da  sociedade  inglesa  e  o  fazia  tão 
claramente que quase nenhum comentador sentia­se obrigado a especificar a base do seu 
valor  de  credibilidade”  (SHAPIN,  2013b,  p.  64).  A  autoridade  provinha  de  critérios 
sociais que circulavam ao longo do corpo social – o ideal de nobreza que indiquei como 
parte constitutiva da identidade do filósofo natural nesse período é sintomático. Ser um 
cavalheiro era tão determinante (ou talvez até mais, em meados do século XVII) do que 
ser versado em filosofia.
A espacialidade adquire no laboratório uma acepção mais literal. Trata­se de um 
ambiente, na maioria dos casos, especialmente construído ou adaptado aos propósitos da 
produção de  conhecimento. Mas,  assim  como no  caso de  suas  convenções  sociais,  as 
suas convenções arquitetônicas foram capturadas de outros espaços – como o teatro ou 
o  fórum.  As  escolhas  por  esses  modelos  derivavam  da  necessidade  de  replicar  no 
laboratório não  apenas os  fenômenos naturais, mas  as  condições de  comportamento  e 
distribuição  social,  a  forma  como  os  grupos  sociais  que  frequentavam  o  laboratório 
percebiam os seus papéis e as normas de conduta (muitasvezes  tácitas) que deveriam 
seguir. Como resume Jan Golinski (2005, p. 88): “o espaço físico do laboratório fornece 
meios  para  organizar  as  interações  entre  seus  habitantes  humanos  enquanto  eles  se 
engajam no trabalho experimental”145. 
133
Essa  série de questões  se  relaciona diretamente  com um problema decisivo no 
estabelecimento  de  um  programa  experimental  de  filosofia  natural:  o  caráter  público 
desse  conhecimento.  “O  pouco  que  sabemos  sobre  os  espaços  experimentais  ingleses 
em meados  do  século  dezessete  indica  que  o  seu  status  como público  ou  privado  era 
intensamente  debatido”  (SCHAFFER  e  SHAPIN,  2011,  p.  335)146.  Esses  debates 
estavam no centro da controvérsia entre Hobbes e Boyle e do sucesso na sua resolução 
dependeria  o  sucesso  de  toda  nova  “forma  de  vida  experimental”.  As  operações 
retóricas  e  sociais  necessárias  a  essa  solução  eram  extremamente  sofisticadas  e 
dependiam de múltiplos recursos. Embora a dimensão pública da filosofia experimental 
fosse  ponto  chave  para  a  própria  legitimidade  desse  conhecimento  da  forma  como  o 
entendiam Robert Boyle  e  os  fundadores  da Royal  Society,  a  “solitude”  e  a  reclusão 
(provavelmente  seria  anacrônico  falar  em  privacidade  antes  da  segunda  metade  do 
século XVIII) eram valores necessários à prática naturalista. Equacionar essas atitudes 
se  tornou um dos  pontos  principais  da  construção desses  espaços  (físicos  ou  sociais), 
muito  do  trabalho  de  construção  de  fronteiras  se  dedicava  a  refinar  essas  noções  e 
superar o paradoxo entre público e privado. Para Schaffer e Shapin essa é também uma 
questão  extremamente  relevante.  “Um  modo  de  assegurar  a  multiplicação  de 
testemunhas  era  realizar  experimentos  em  um  espaço  social.  O  ‘laboratório’ 
experimental  era  contrastado  com  o  gabinete  do  alquimista  precisamente  por  que  do 
primeiro se dizia ser um espaço público e o último privado” (SCHAFFER e SHAPIN, 
2011,  p.  57)147.  Em  uma  passagem  mais  extensa,  os  autores  tentam  definir  o 
laboratório e as controvérsias em torno do seu caráter.
O espaço onde essas máquinas trabalhavam – o laboratório nascente – 
deveria  ser um espaço público, mas um espaço público  restrito, algo 
que  críticos  como  Hobbes  logo  apontaram.  Se  alguém  desejasse 
produzir  conhecimento  experimental  autenticado  – matters  of  fact  – 
deveria  vir  a  esse  espaço  e  trabalhar  aqui  com  outros.  Se  alguém 
desejasse  ver  novos  fenômenos  criados  por  essas máquinas,  deveria 
vir a esse espaço e vê­los com outros. Os fenômenos não estavam em 
exibição  em  qualquer  outro  lugar.  O  laboratório  era,  portanto,  um 
espaço disciplinado, onde práticas experimentais, discursivas e sociais 
145 No  original:  “the  physical  space  of  the  laboratory  provides means  for  organizing  the  interactions 
among its human inhabitants as they engage in experimental work”. Tradução minha.
146 No original: “What  little we do know about English experimental  spaces  in  the middle part of  the 
seventeenth  century  indicates  that  their  status  as  public  or  private  was  intensely  debated”.  Tradução 
minha.
147  No  original:  “In  experimental  practice  one  way  of  securing  the  multiplication  of  witness  was  to 
perform experiments  in a social  space. The experimental  ‘laboratory’ was contrasted  to  the alchemist’s 
closet precisely in that the former was said to be a public and the latter a private space”. Tradução minha.
134
eram  coletivamente  controladas  por  membros  competentes.  Nesses 
aspectos,  o  laboratório  experimental  era  um  local melhor  para  gerar 
conhecimento  autêntico  do  que  o  espaço  externo  no  qual  simples 
observações da natureza poderiam ser feitas (SCHAFFER e SHAPIN, 
p. 39)148.
Dessa maneira, a tensão entre interno e externo parece ter sido deslocada para a 
disputa sobre o caráter da prática científica: público ou privado. Para falar como Fleck 
(embora a analogia não seja completamente adequada), diríamos que se trata de um jogo 
entre circuitos “esotéricos” e “exotéricos”. Não se trata de dentro ou fora da ciência – 
conteúdo ou contexto –, mas de uma ciência praticada dentro ou fora da sociedade, de 
um  conhecimento  produzido  em  locais  sociais  e  físicos  especialmente  destinados, 
desenhados, protegidos, patrulhados para esse fim. Um conhecimento situado nos seus 
locais culturais de produção, coagido pelos arranjos que eles permitem e legitimam. 
Agora  que  sabemos  como  pertencer  à  comunidade  e  adentrar  o  laboratório, 
podemos ter acesso às máquinas. Neste caso, realizar experimentos na bomba de ar149. 
Como já indiquei acima, esse ponto adquire importância crucial no texto de Schaffer e 
Shapin. A  bomba  de  ar  corporifica  a  filosofia  natural  da  forma  como  era  praticada  e 
professada por Robert Boyle e seus colegas. Discutindo o papel da máquina como um 
signo poderoso para aquele grupo, os autores examinam dois aspectos em especial.
Em primeiro lugar, a necessidade expressada por experimentalistas de que outros 
experimentos  e  dispositivos  ocupassem  o  lugar  da  bomba  de  ar  quando  ela  já  não 
conseguisse  mais  atrair  a  atenção  do  público.  Um  tema  relacionado  à  teatralidade 
envolvida  no  processo  de  experimentação  pública  e  aos  efeitos  dessa  teatralidade  nas 
tecnologias sociais, na manutenção das testemunhas necessárias à legitimação do saber 
ali  produzido.  A  escolha  do  que  exibir  dependia  de  uma  equação  que  havia  de  ser 
resolvida. De um lado, a satisfação de uma espécie de audiência que não fazia parte da 
148No original: “The space where these machines worked – the nascent laboratory – was to be a public 
space,  but  a  restricted  public  space,  as  critics  like  Hobbes  were  soon  to  point  out.  If  one  wanted  to 
produce authenticated experimental knowledge – matters of fact – one had to come to this space and to 
work in it with others. If one wanted to see the new phenomena created by these machines, one had to 
come  to  that  space  and  see  them with others. The phenomena were not  on  show anywhere  at  all. The 
laboratory was, therefore, a disciplined space, where experimental, discursive, and social practices were 
collectively controlled by competent members. In these respects, the experimental laboratory was a better 
space in which to generate authentic knowledge than the space outside it in which simple observations of 
natures could be made”. Tradução minha.
149 A operação  efetiva  dos  instrumentos  era  realizada por  “técnicos  invisíveis”. Em artigo posterior  à 
publicação do Leviathan, Shapin (2013b, p. 80, grifo no original) explica: “Em sua maioria, contudo, a 
legião de ‘técnicos de laboratório’, ‘operadores’, ‘assistentes’ e ‘técnicos­químicos’ de Boyle eram atores 
invisíveis. Eles não faziam parte do público que dizia respeito a esses experimentos. Eles faziam com que 
as máquinas funcionassem, mas não podiam produzir conhecimento”. 
135
comunidade  experimentalista, mas  enquadrava­se  nos  requisitos  sociais  e morais  para 
participar  do  público  do  laboratório.  Esse  público  era  alimentado  com  novidades  e 
espetáculos, não estava diretamente  interessado na  repetição exaustiva. De outro  lado, 
as exibições deveriam ser instrutivas, sóbrias e filosoficamente relevantes. Adequadas à 
tarefa  que  desempenhavam.  Elas  deveriam  expressar  a  identidade  e  os  valores  da 
comunidade, retratar as suas formas de conduta, de sociabilidade, sua existência como 
um ente  (coletivo) específico no corpo social,  seu  lugar na hierarquia da produção do 
conhecimento150. Para construir  essa audiência,  eles precisavam domesticá­la, não se 
submeter  às  suas  vontades. A  bomba  de  ar  conseguiu manter  juntos  os  interesses  em 
conflito,  poissatisfazia  a  ambos.  “Nenhum  equipamento  novo  tomou  o  lugar  da 
machina  Boyleana  como  um  emblema  do  programa  experimental  da  Royal  Society” 
(SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 32).
O segundo aspecto é a exploração da fortuna iconográfica sobre a bomba de ar. 
As  gravações  e  desenhos  que  exibem  o  aparelho  são  os  pontos  de  interseção  entre 
tecnologias  materiais  e  literárias,  o  ponto  onde  máquina  e  discurso  se  confundem. 
Deslocando  a  perspectiva  da  questão,  podemos  dizer  que  é  onde  a  distinção  entre 
máquina e discurso não faz sentido. A intrincada configuração de figuras mitológicas, 
objetos  filosóficos,  olhares,  gestos  e  disposição  espacial  dos  elementos  seguia  um 
repertório que deveria ser compartilhado pelos experimentalistas (e pela cultura erudita 
em  geral). A  construção  codificada  das  imagens  que  aparecem  nas  obras  de  filosofia 
natural  desempenhavam  um  papel  disciplinar.  Elas  não  são  meras  ilustrações,  são 
objetos constitutivos de uma forma específica de produzir e comunicar o conhecimento. 
As  representações  iconográficas  da  bomba  de  ar  (e  de  outros  elementos  desse 
programa),  a  difusão  dos  seus  modos  de  funcionamento  e  dos  seus  resultados  em 
imagens  detalhadas,  garantiam  a  ampliação  das  testemunhas  virtuais  necessárias  à 
legitimação desse saber, criavam uma camada mais distante de público. Um público que 
não  tem acesso ao  interior do  laboratório, mas que deve ser convencido do seu poder 
por meios  retóricos  e  pictóricos. A  imagem da  bomba de  ar  é  poderosa,  captura  esse 
movimento complexo.
A  descrição  detalhada  da  máquina  era  um  recurso  literário  central  para  a 
estratégia  de  Boyle  e  é  parcialmente  reconstituído  no  Leviathan151.  Não  considero 
150 Steven Shapin (2013b) brinca com o trocadilho entre pump (bomba) e pomp (pompa) para assinalar 
essa correlação.
136
necessário  repetir essa descrição para explorar a estratégia historiográfica dos autores, 
embora  devamos  notar  alguns  pontos  relevantes.  A  bomba  de  ar  era  um  aparelho 
composto  de  um  globo  de  vidro  assentado  sobre  um  suporte  que  continha  pistões, 
alavancas, cilindros, registros, válvulas e diversos componentes que permitiam bombear 
o  ar  para  fora  do  globo  (e  por  meio  dos  quais  a  bomba  poderia  vazar,  emperrar  ou 
apresentar  funcionamento  deficiente).  A  evacuação  da  bomba  servia  prioritariamente 
para  testar  a  natureza  do  ar  (peso,  elasticidade  etc).  Possibilitava  também  discussões 
sobre a existência do vácuo, sobre o éter, a composição da atmosfera. Na bomba de ar 
cabiam quase todas as questões da filosofia natural do século XVII. De dentro dela saia 
o principal fundamento da nova forma de produção de conhecimento científico, da nova 
“forma de vida experimental”. Além dos experimentos oriundos da própria operação da 
bomba, era possível realizar outros experimentos dentro do globo (como os testes com o 
mercúrio  de  Torricelli).  As  tarefas  de  construção  e  operação  da  bomba  de  ar  eram 
consideradas  extremamente  complicadas,  caras  e  delicadas.  De  forma  sintética,  três 
fatores justificavam a contínua preocupação com essa atividade árdua: “(1) que tanto a 
integridade do mecanismo quanto a seu vazamento limitado eram recursos importantes 
para Boyle na validação de suas descobertas pneumáticas e a  interpretação apropriada 
destas; (2) que a integridade física da máquina era vital para a percepção de integridade 
do conhecimento que a máquina ajudava a produzir; (3) que a sua falta de integridade 
física era uma estratégia usada por críticos, particularmente Hobbes, para desconstruir 
as alegações de Boyle e substituí­las por relatos alternativos” (SCHAFFER e SHAPIN, 
30)152.
A  bomba  de  ar  fornece  também  espessura  e  materialidade  à  história  que  os 
autores  querem  contar.  Ela  resume  a  categoria  de  tecnologia  material,  que  participa 
ativamente na construção de um dos principais argumentos do livro. 
A  solução  dramática  encontrada  pelos  autores  é  deslocar  os  fatos  científicos 
para  fora  da  natureza,  situando­os  como  artifícios,  produtos  dessas  séries  de 
dispositivos,  dessas  três  tecnologias  (material,  social  e  literária).  “Ao  usar  tecnologia 
151 Um trecho da descrição presente no Capítulo 2 do Leviathan (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, pp. 26­
30) aparece em português na tradução do artigo de Steven Shapin (2013b, pp. 93­94) que deu origem ao 
referido capítulo do livro.
152 No original: “(1) that both the engine’s integrity and its limited leakage were important resources for 
Boyle in validating his pneumatic findings and their proper interpretation; (2) that the physical integrity of 
the machine was vital to the perceived integrity of the knowledge the machine helped to produce; (3) that 
the lack of its physical integrity was a strategy used by critics, particularly Hobbes, to deconstruct Boyle’s 
claims and to substitute alternative accounts”. Tradução minha.
137
para  se  referir  às  práticas  literárias  e  sociais,  bem  como  a  máquinas,  nós  desejamos 
enfatizar que todas as três são ferramentas de produção de conhecimento” (SHCAFFER 
e  SHAPIN,  2011,  p.  25,  n.  4)153.  A  seguinte  citação,  embora  extensa,  elucida  essa 
questão.
Apesar  da  utilidade  de  distinguir  as  três  tecnologias  empregadas  na 
produção  de  fatos,  não  devemos  ter  a  impressão  de  que  estamos 
lidando com categorias distintas: cada uma delas incorpora as outras. 
Como veremos, as práticas experimentais que empregam a tecnologia 
material  da  bomba  de  ar  cristalizaram  formas  específicas  de 
organização  social;  essas  formas  sociais  valorizadas  eram 
dramatizadas  na  exposição  literária  de  descobertas  experimentais;  o 
relato  literário  das  performances  da  bomba  de  ar  estendiam  uma 
experiência que era considerada essencial à propagação da tecnologia 
material  ou  mesmo  como  um  substituto  válido  para  o  testemunho 
direto  da  exibição  experimental.  Se  quisermos  entender  como Boyle 
trabalhou para construir fatos pneumáticos devemos considerar como 
cada  uma  das  três  tecnologias  eram  usadas  e  como  elas  se 
interpenetravam (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, pp. 25­26)154.
Do recurso às  tecnologias decorre a organização do enredo e a composição da 
estrutura narrativa. O fato científico, produto dessas atividades, não é uma apenas uma 
lei geral ou uma entidade. Ele é um artifício, uma peça em um jogo de linguagem. No 
entanto,  para  que  a  operação  funcione  ele  precisa  ser  autonomizado,  isolado das  suas 
formas de produção. Deve  apagar os  traços de  sua  construção  e  se  assemelhar  a uma 
evidência. Afinal,  contra  fatos não há argumentos. “Cada uma das  três  tecnologias de 
Boyle  trabalhavam  para  alcançar  a  aparência  dos  fatos  científicos  como  itens  dados. 
Quer  dizer,  cada  tecnologia  funcionava  como  um  recurso  de  objetivação.  [...]  A 
objetividade do fato científico experimental era um artefato de certas formas de discurso 
e certos modos de solidariedade social” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, pp. 77­78). Os 
fatos  são  externos  às  vontades,  interesses  e  limitações  humanas.  Quando  o  aparato 
experimental opera corretamente, eles provêm da própria natureza, sem interferências. 
153 No original: “By using technology to refer to literary and social practices, as well as to machines, we 
wish to stress that all three are knowledge­producing tools”. Tradução minha.
154 No original: “Despite the utility of distinguishing the three technologies employed in fact­making, the 
impression should not be given that we are dealing with distinct categories: each embedded the others. As 
we  shall  see,  experimental  practices  employing  the  material  technology  of  the  air­pump  crystallized 
specificcomprometida com esses debates. 
A  sociologia  de  Robert  Merton  será  a  matriz  da  segunda  vertente  de 
externalismo  abordada  no  capítulo.  Formulada  nos  EUA  no  final  dos  anos  1930  e 
exerceu  domínio  na  sociologia  das  ciências  até  os  anos  1960  e  influenciou 
decisivamente a história das ciências no período. Essa abordagem ofereceu resistência 
ao marxismo e à sociologia do conhecimento teutônica das primeiras décadas do século 
passado.  A  partir  de  uma  perspectiva  funcionalista  e  inspirada  em  Weber,  o 
externalismo mertoniano restringiu o acesso de qualquer elemento externo ao interior do 
conhecimento científico, que permaneceria autônomo. As famosas normas mertonianas, 
que formavam o ethos do cientista, serviam para organizar socialmente a pesquisa, não 
tendo  qualquer  interferência  no  resultado  cognitivo  daquilo  que  era  produzido.  A 
avaliação  do  internalismo  e  do  externalismo  realizada  nesses  dois  capítulos  será 
vinculada  a  outras  disputas,  em especial  à  tensão  entre  liberalismo  e  socialismo  (sem 
que uma se reduza à outra). Pretendo aqui mostrar a formação clássica da querela.
A  Parte  II  aborda  o  aspecto  mais  original  dessa  pesquisa.  Nela,  ressalto  a 
sobrevivência  e  as  transformações  das  dimensões  interna  e  externa  na  nova 
historiografia.  Essas  transformações  ocorrem  em  contato  com  um  novo  modo  de 
produção  do  conhecimento  científico  e  com  um  novo  ambiente  social,  econômico  e 
político no qual as críticas à ciência vão crescer na mesma medida em que cresce a sua 
importância. No Capítulo 3, trato do surgimento de uma “tradição kuhniana” na história 
das  ciências. Para  isso,  será preciso  realizar  uma  leitura da principal  obra de Thomas 
17
Kuhn, A  estrutura  das  revoluções  científicas,  e  de  algumas  das  suas  apropriações. O 
texto  de Kuhn  será  lido  a  partir  de  dois  aspectos  principais. Um  desses  aspectos  é  a 
vinculação  da  teoria  da  ciência  elaborada  por  Kuhn  ao  complexo  industrial­militar­
científico  que  caracterizou  a  Big  Science  no  pós­guerra  (em  especial  nos  EUA).  A 
autonomia  garantida  à  comunidade  científica  será  o  elo  entre  essas  duas  esferas.  O 
segundo aspecto será a alegada superação da disputa entre internalismo e externalismo 
realizada  por  Thomas  Kuhn.  A  dialética  entre  “ciência  normal”  e  “ciência 
revolucionária”  será  avaliada  como  uma  espécie  de  combinação  entre  momentos 
internalistas  (embora  a  noção  de  paradigma  seja  mais  ampla  que  a  de  teoria)  e 
momentos  externalistas,  de  abertura para  a  confluência de  fatores  extracientíficos que 
ajudam a forjar um novo paradigma. Em seguida, tento avaliar a apropriação da obra de 
Kuhn  pela  sociologia  e  pela  história  das  ciências  das  décadas  de  1970  e  1980.  Uma 
apropriação  que  não  se  dá  pela  replicação  de  um modelo,  mas  pela  adesão  a  certos 
insights  sociológicos  presentes  na  abordagem  kuhniana  que  fez  com  que  a  ideia  de 
atribuir  “um  papel  para  a  história”  na  explicação  do  desenvolvimento  da  ciência  se 
tornasse um dos princípios da historiografia que emerge no final da década de 1970.  
No  Capítulo  4,  a  análise  será  centrada  no  livro  de  Steven  Shapin  e  Simon 
Schaffer, Leviathan and the air pump. Esse livro, publicado originalmente em 1985, foi 
escolhido  pela  sua  importância  para  o  desenvolvimento  da  historiografia  e  pela  sua 
preocupação explícita com a superação da divisão das causas explicativas das mudanças 
nas ciências em internas e externas, uma das tônicas da produção do período que viu a 
ascensão  meteórica  dos  science  studies  ao  posto  de  fonte  prioritária  de  análises  das 
ciências.  O  sucesso  do  Leviathan  em  um  momento  de  profundas  transformações  na 
historiografia  das  ciências  –  mudanças  para  as  quais  colaborou  diretamente  –  será 
comparado com as transformações no modo de produção de conhecimento científico e 
suas relações com o Estado em um período de ascensão do modelo neoliberal. Pretendo 
retomar algumas injunções que marcam o período e conformam a história das ciências: 
a  hegemonia  dos  science  studies,  o  fim  da  polarização  geopolítica  e  ideológica  do 
período  da  Guerra  Fria  e  a  consolidação  do  capitalismo  em  escala  global  (e  suas 
implicações para a relação entre ciência e Estado). Ao contar a história da emergência 
da  ciência  moderna  no  século  XVIII  através  de  uma  série  de  tecnologias  (social, 
material,  literária),  os  autores  acionam  dispositivos  discursivos  similares  aos  que  são 
utilizados  para  explicar  a  tecnociência,  a  fusão  entre  ciência,  tecnologia,  economia  e 
18
governamentabilidade  típica  do  final  do  século XX. Aproximam duas  temporalidades 
distintas e usam o presente como chave de compreensão do passado. Assim, ao abordar 
período  marcado  pela  consolidação  da  nova  historiografia  e  pelo  fim  do  pacto 
representado  pela  obra  de  Kuhn,  o  capítulo  deverá  ressaltar  como  as  abordagens 
surgidas nos anos 1980 se apropriam da história das ciências e a reconfiguram.
O quinto capítulo deverá avançar em direção a um período ainda mais recente. 
Avança  para  a  última  década  do  século  XX  e  avalia  o  peso  que  a  “ressaca”  que  as 
Guerras  da  Ciência  produziram  na  escrita  da  história  das  ciências  depois  da  euforia 
epistemológica  advinda  das  décadas  de  1970  e  1980.  O  acirramento  dos  debates  e  a 
seriedade das  acusações dirigidas  aos pressupostos que guiavam a nova historiografia 
das ciências gerou um momento de reflexão, uma crise interna, uma suspeita em torno 
dos  fundamentos  que  legitimavam  as  abordagens  mais  influentes.  Em  face  das 
transformações produzidas nesse cenário, qual o destino dos fatores internos e externos? 
A  resposta  será  buscada  através  da  análise  de  outra  obra  considerada  relevante: 
Objectivity,  de  Lorraine Daston  e  Peter  Galison.  Esse  livro,  publicado  já  na  segunda 
metade  da  década  de  2000,  será  o  fio  que  conduzirá  na  jornada  por  essa  complexa 
trama, chegando por fim a uma visão das coordenadas historiográficas que localizam a 
atual  produção  da  história  das  ciências. Nesse  capítulo,  a  questão  da  historicidade  do 
conhecimento  científico  será  avaliada  a  partir  das  opções  teóricas  e  narrativas  que 
informam o Objectivity. Por se tratar de uma obra muito recente, o seu exame será feito 
a  partir  de  uma  perspectiva  um  pouco  diferente  daquela  presente  nos  capítulos 
anteriores.  Ainda  não  sabemos  os  desdobramentos  que  ela  produzirá,  ainda  não  é 
possível medir plenamente o seu impacto. A hipótese que sustento é que o livro marca o 
fim de uma maneira de escrever a história das ciências. Isso terá reflexos na forma como 
os  fenômenos  internos  e  externos  aparecem  e  se  relacionam.  Poderíamos  colocar  o 
problema  da  seguinte  maneira:  se  a  historiografia  das  ciências  obteve  finalmente 
sucesso  em  incorporar­se  à  historiografia  tout  court,  a  discussão  sobre  a  demarcação 
pode  ser  abandonada,  não  faz  mais  sentido  falar  em  fatores  internos  e  externos.  A 
ciência é compreendida como uma expressão cultural completamente imersa no tecido 
social.
Ao examinar diversas soluções para a questão da historicidade do conhecimento 
científico experimentadas ao  longo do século XX, não pretendo escrever uma história 
teleológica  da  gradual  incorporação  das  ciências  ao  campo  dos  objetos  da  história 
19
através  da  evolução  das  técnicas  de  análise  dos  historiadores  das  ciências, 
progressivamente libertados da visão de uma ciência ahistórica, abstraída da corrosão da 
temporalidade  pelas  mãos  da  lógica  e  da  racionalidadeforms  of  social  organizations;  these  valued  social  forms  were  dramatized  in  the  literary 
exposition  of  experimental  findings;  the  literary  reporting  of  air­pump  performances  extended  an 
experience that was regarded as essential to the propagation of the material technology or even as a valid 
substitute  for  direct  witness  of  experimental  display.  If  we  wish  to  understand  how  Boyle  worked  to 
construct pneumatic facts we must consider how each of the three technologies was used and how each 
bore upon the others”. Tradução minha.
138
A  comunidade,  o  laboratório  e  a  bomba  de  ar  são  apenas  meios  transparentes  para 
carregar um item de conhecimento ao longo de diversos circuitos sociais. 
Mas  os  autores  não  se  contentam  em  dissecar  a  natureza  convencional  desse 
processo, em apontar – por meio do estudo das dificuldades na circulação da bomba de 
ar  e  na  replicação  dos  experimentos  –  para  a  dimensão  radicalmente  local  desse 
conhecimento,  em  demonstrar  que  “o  fato  é  uma  categoria  constitutivamente  social” 
(SCHAFFER  e  SHAPIN,  2011,  p.  225).  Adotando  esse  tratamento  para  as  diversas 
operações de Boyle e os experimentalistas, os autores apontam para uma nova forma de 
encarar historicamente a ciência. Podemos  realizar uma  leitura que encontra paralelos 
com a interpretação de Paul Forman (2007), que demarca a passagem da Modernidade 
para a pós­modernidade a partir inversão da relação de proeminência entre a ciência e a 
tecnologia.  Se,  na  Modernidade,  argumenta  Forman,  a  ciência  incluía  também  a 
tecnologia, na pós­modernidade a tecnologia inclui a ciência. 
A  história  do  surgimento  da  “forma  de  vida  experimental”  e  do  triunfo  da 
ciência  moderna  no  século  XVII  é  recontada  como  um  processo  de  reconfiguração 
permanente de fatores disponíveis socialmente e postos em funcionamento para novos 
propósitos.  A  produção  de  dispositivos  sociotécnicos  não  é  uma  mutação  da  ciência 
contemporânea. É o  fruto  de  um processo que define  a  ciência moderna,  desde  a  sua 
emergência, como  tecnociência. As duas camadas de temporalidade – uma situada em 
meados  do  século  XVII  e  a  outra  no  final  do  século  XX  –  se  superpõe.  A  nova 
historiografia das ciências reconstrói o passado e apresenta uma solução diferente para 
os  temas  contemporâneos.  É  claro  que  o  fato  científico  é  o  fundamento  do 
conhecimento, mas não porque  ele  é  “neutro” ou  independente de  “questões  sociais”. 
Pelo  contrário,  ele  inventa  o  contexto,  o  conteúdo  e  a  demarcação  entre  os  dois  no 
mesmo processo. Ele fundamenta o conhecimento porque se converte em uma unidade 
de sentido histórico e social. Apesar de se valer do princípio de simetria para explicar a 
disputa entre dois modelos de filosofia natural, o livro (se) encerra (com) um juízo de 
valor: “Hobbes was right” (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 344). Não em sua filosofia 
natural,  mas  em  sua  teoria  das  ciências.  A  vitória  da  ontologia  proposta  pelos 
experimentalistas (e da epistemologia a ela associada) não resulta da maior capacidade 
desse programa em produzir conhecimento verdadeiro, mas do seu sucesso em produzir 
consensos sociais em torno dos itens de conhecimento e das formas de organizá­los.
139
Nem  o  nosso  conhecimento  científico,  nem  a  constituição  da  nossa 
sociedade,  nem as  afirmações  tradicionais  sobre  as  conexões  entre  a 
nossa sociedade e o nosso conhecimento são mais dadas como certas. 
A  medida  que  reconhecemos  o  status  convencional  e  artefatual  das 
nossas  formas  de  conhecimento,  nos  colocamos  em  posição  de 
perceber  que  os  responsáveis  por  aquilo  que  sabemos  somos  nós  e 
não a realidade (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, p. 344, grifo meu)155
.
A  cisão  entre  o  “externo”  e  o  “interno”  é  reposicionada,  saindo  do  campo  da 
realidade social para o campo das convenções culturais. O vocabulário da demarcação é 
herdeiro  da  tradição  fundadora  da  ciência  moderna  e  só  faz  sentido  nesse 
enquadramento.  Os  autores  refletem  sobre  a  sua  posição  a  respeito  dessa  divisão  na 
introdução preparada para a edição comemorativa de vinte e cinco anos de lançamento 
do  livro. Afirmam a  sua  insatisfação  com o debate  entre  “fatores  internos”  e  “fatores 
externos”  e  procuram  a  solução  justamente  na  problematização  das  fronteiras. 
Identificam o problema nas  clivagens  ideológicas que dominaram o  clima  cultural  do 
século XX (SCHAFFER e SHAPIN, 2011, pp. xiii­xvii). Assim, o que eles pretendem 
mostrar como saída não é uma tentativa de combinar as abordagens, mas uma forma de 
superá­las,  mostrando­as  como  efeito  de  um  processo  histórico.  Na  narrativa  do 
Leviathan,  os  fatores  internos  e  externos  são  tratados  como  objetos  históricos  e  não 
categorias historiográficas. 
Ao atacar a tradicional agenda de pesquisa da historiografia das ciências – uma 
agenda que já não possuía o mesmo poder de coerção desde Thomas Kuhn – os novos 
historiadores  supõem  reconfigurar  grande  parte  do  aparato  conceitual  que  utilizamos 
para  entender  a  ciência.  Esse  movimento  desloca  as  funções  sociais  e  políticas  da 
história  das  ciências:  a  nova  historiografia  contesta  frontalmente  o  espaço  de  ação 
política das ciências. As correlações de força envolvidas na produção dessas fronteiras 
são  focalizadas  e  cruelmente  exibidas  como meras  formas  institucionalizadas  de  falar 
sobre  o  saber  e  de  praticar  a  ciência.  O  modo  encontrado  para  escapar  dessas 
convenções  foi  seguir  o  princípio  de  simetria  –  não  atribuindo  ao  conhecimento 
vitorioso nenhum privilégio  epistemológico,  nenhum posto  superior  na hierarquia dos 
saberes.  Não  existe  triunfo  da  verdade  ou  marcha  do  progresso,  existem  formas  de 
155 No  original:  “Neither  our  scientific  knowledge,  nor  the  constitution  of  our  society,  nor  traditional 
statements  about  the  connections  between  our  society  and  our  knowledge  are  taken  for  granted  any 
longer. As we come to recognize the conventional and artifactual status of our forms of knowing, we put 
ourselves in a position to realize that it is ourselves and not reality that is responsible for what we know”. 
Tradução minha.  
140
conhecimento  que  se  estabilizam  e  se  cristalizam  ao  arregimentar  recursos  sociais  e 
materiais.
A  simetria  e  as  suas  implicações  filosóficas,  historiográficas  e  políticas  foram 
duramente combatidas. A pressuposição de equilíbrio entre as visões de Hobbes e Boyle 
a respeito do conhecimento é um dos pontos que ofereceu mais resistência a essa forma 
de escrever  a história das  ciências. Alguns críticos  sugerem uma  leitura do Leviathan 
and  the  air­pump  que  obedeça  a  uma  “estratégia  sanduíche”,  que  aproveite  as 
informações  que  o  livro  fornece  e  despreze  as  interpretações  e  explicações  que  ele 
supostamente  retira  dessas  informações;  isto  é,  “omita  a  introdução  e  a  conclusão,  o 
resto  é  simplesmente  história”  (ZAMMITO,  2004,  p.  169).  O  enorme  sucesso  dos 
science  studies  e  da  historiografia  associada  a  eles  foi  surpreendido,  na  passagem  da 
década  de  1980  para  a  década  de  1990,  por  um  ataque  vindo  prioritariamente  de 
cientistas  naturais  atentos  à  situação  das  novas  análises  das  ciências  (e  extremamente 
insatisfeitos com essas abordagens) e filósofos comprometidos com a objetividade. Essa 
reação, que marca o início das Guerras da Ciência,  incide como um duro golpe nessa 
nova proposta. Em certo sentido, ela encerra um ciclo de expansão dessas abordagens e 
marca  o  início  de  um período de  reflexão,  dissidências, meta­análises. Essa  crise  não 
fará  morrer  a  nova  historiografia  dasuniversais.  Pretendo  que  o 
tratamento historiográfico dado às ciências em determinado momento e por determinado 
autor  ou  grupo  de  autores  seja  entendido  como  produto  das  suas  condições  sócio­
históricas específicas.
Desse modo, esta tese pretende se configurar como uma análise das formas pelas 
quais a história das ciências – em sua conformação disciplinar ao longo do século XX e 
início do XXI – forjou o seu objeto em constante tensão com o ambiente intelectual e 
político  que  estava  imersa. Sem dúvida  uma pretensão um  tanto  ambiciosa  que  exige 
um  olhar  panorâmico;  no  entanto,  a  opção  por  examinar  obras  específicas 
(especialmente na Parte II) reduz sensivelmente o alcance dos argumentos que defendo. 
Grande parte da historiografia das ciências produzida no período será deixada de fora do 
texto.  Pretendo  que  esta  tese  seja  (a  começar  pelo  título)  mais  uma  afirmação  da 
capacidade  dos  argumentos  de  tipo  histórico  contribuírem  para  uma  leitura  do 
conhecimento científico. Uma leitura que apenas a história das ciências pode fornecer e 
que considero indispensável (embora não seja excludente, nem possua o monopólio da 
explicação)  para  a  compreensão  efetiva  da  atividade  científica  e  o  exercício  da 
cidadania em tempos de sociedade do conhecimento.
20
Parte I: A ordem dos fatores
1. A centralidade da teoria
Louis Pasteur morreu, em 1895, como um herói nacional francês, com direito a 
funeral de Estado e enterro na catedral de Notre Dame de Paris. Um ano depois da sua 
morte,  no  entanto,  seus  restos mortais  foram  transferidos  para  a  cripta  construída  no 
subsolo  da  ala  oeste  da  mansão  onde  residiu  e  onde  funcionava  o  seu  famoso 
laboratório3.  Esse  aposento  fornece  um  material  extremamente  relevante  para 
compreender o imaginário sobre a ciência na Europa da segunda metade do século XIX 
–  um  imaginário  que  se  estende  às  primeiras  décadas  do  século XX.  Trata­se  de  um 
pequeno salão de teto abobadado, suas paredes estão cobertas com mosaicos em estilo 
bizantino  cujas  figuras  narram  episódios  da  vida  do  grande  gênio  ou  objetos  que 
simbolizam as suas conquistas científicas. Um homem segura um cão raivoso ao lado de 
seringas, microscópios  e  bactérias;  à  esquerda  e  à  direta,  uma  lista  das  suas  grandes 
realizações;  no  alto,  três  anjos  exibem  as  virtudes  teologais  –  “fé”,  “caridade”, 
“esperança”  –  enquanto  um  quarto  traz  consigo  “ciência”4.    No  centro  desse  espaço, 
uma  tumba  de mármore  liso  e  negro  guarda  o  corpo  do Dr.  Pasteur. Ao  fundo,  num 
pequeno  altar,  estão  sepultados  os  corpos  da  sua  esposa,  Marie  Pasteur,  e  de  seu 
colaborador  e  sucessor,  Émile  Roux.  Um  visitante  distraído  poderia  imaginar  que  se 
trata de um espaço religioso, um local de culto e adoração. Ali está o corpo do santo, 
nessas paredes, os milagres que operou em vida e os pios valores que pregava. Talvez o 
engano seja apenas o de identificar o catolicismo como essa religião. Pois é o progresso 
a religião do século XIX.
É  nesse  século  que  um  dos mais  célebres  adeptos  da  religião  do  progresso,  o 
filósofo Auguste Comte5, propõe um programa para o estudo das sucessivas realizações 
do  espírito  humano  na  conquista  de  conhecimentos  positivos,  a  história  das  ciências 
3 Essa casa abriga hoje o Museu Pasteur e está localizada no centro do enorme Instituto Pasteur de Paris. 
O laboratório localizado no subsolo foi permanentemente modernizado e continua em funcionamento.
4Foi, charité, espérance e science, em francês.
5 É significativo dessa atitude “religiosa” que Comte seja autor do Catecismo positivista e fundador da 
Igreja Positivista (ou Religião da Humanidade).
21
(COMTE,  2008).  O  surgimento  da  história  das  ciências  está  ligado  a  essa  visão  de 
progresso.  Esse  primeiro  período  não  deve  ser  negligenciado  ou  tratado  meramente 
como  uma  “pré­história”  da  disciplina,  como  um  momento  de  tentativas  cegas  de 
estabelecer  linhas  de  investigação.  Também  não  é  necessário  –  para  atingir  os 
propósitos  dessa  tese  –  recuar  indefinidamente  em  busca  dos  “pioneiros”,  dos 
“precursores”  ou  das  “origens”  desse  movimento.  A  minha  intenção  aqui  é  apontar 
como  essa  etapa  lança  bases  que  não  serão  abandonadas  facilmente,  como  algumas 
características  definidas  ainda  no  século  XIX  permanecem  na  história  das  ciências 
praticada  posteriormente.  Farei  isso  assinalando  um  ponto  que  reaparecerá  diversas 
vezes ao longo desse estudo, em suas várias manifestações.
A história das ciências se estabelece fora da história tout court. Esse aspecto será 
um dos traços definidores da nossa disciplina. Conquanto hoje essa característica possa 
desempenhar  um  papel  extremamente  benéfico  ao  situar  a  história  das  ciências  na 
confluência  entre  diversos  saberes,  produzido  em  uma  encruzilhada  institucional  e 
epistemológica  e  constituindo­se  em um dos  seus pontos  fortes,  ela  representava uma 
das principais fontes de agitação, de críticas e tentativas de “refundação”. Entre o final 
do século XIX e as primeiras décadas do seguinte, a história das ciências não exibia essa 
componente  multifacetada  que  adquiriria  ao  longo  da  construção  da  sua  identidade 
disciplinar. Algumas das limitações epistemológicas que identificamos nesse período (e 
que se incorporam em certas tradições dessa disciplina) estão diretamente relacionadas a 
essa condição. Não ignoramos que a corrente principal da historiografia no século XIX 
– ocupada em construir a ciência da história – certamente considerava incluir a ciência 
no  rol  das  histórias  que  deveriam  ser  escritas,  seguindo  a  recomendação  feita  por 
Francis Bacon no começo do século XVII (KOSELLECK, 2013, p. 187). No entanto, os 
historiadores profissionais deram pouca atenção ao tema, se é que deram alguma.
Essa  “história  de  historiadores  ausentes”  –  na  expressão  do  professor  Carlos 
Maia (2013) – foi uma criação de filósofos. Comte, na França, e William Whewell, na 
Inglaterra,  são  os  nomes  tradicionalmente  associados  a  essa  fase6.  Este  último  foi 
suficientemente claro ao afirmar que não se trata de “uma simples narração dos fatos da 
história da Ciência, mas [de] uma base para a Filosofia da Ciência” (WHEWELL, 1875, 
p.  8)7.  Ela  não  é  um  fim  em  si  mesma.  Claro  que  o  campo  da  filosofia  é  grande  o 
6 Não  custa  lembrar  que  foi Whewell  que  cunhou  o  termo  scientist,  em  1833. O  surgimento  “tardio” 
dessa palavra aponta para a efetiva centralidade da ciência na vida cultural e  intelectual moderna como 
um fenômeno do século XIX.
22
suficiente para admitir posturas diversas, às vezes opostas e  irreconciliáveis. Seria útil 
perguntar que tipo de filosofia engendra a história das ciências. De maneira geral, esses 
sistemas filosóficos possuíam um compromisso com a ciência que será transferido para 
a  história  das  ciências. Ela  existe  em  função do  seu objeto. Sobre  isso, Paul Tannery 
escreve em 1904: 
Na vida da humanidade, a ciência desempenha doravante um tal papel 
que  sua  história  merece  evidentemente  ser  estudada  e  ensinada  da 
mesma maneira que o são, por exemplo, a história da arte ou aquela da 
literatura. A  evolução  de  um modo  especial  da  atividade  do  espírito 
humano  não  pode,  com  efeito,  ser  negligenciada  vis­à­vis  outras, 
considerando  que  esse  modo  foi,  desde  a  origem,  um  dos  fatores 
essenciais para o progresso da civilização. (TANNERY, 2008, p. 67)8.
Essas  duas  marcas  de  nascença,  autonomia  em  relação  à  comunidade  dos 
historiadores  profissionais  e  compromisso  com  a  ciência,  ecoarão  por  muito  tempo. 
Como resume Carlos Alvarez Maia, apontando para a conexão constitutivaentre elas:
Em linhas gerais, o distanciamento disciplinar da história das ciências 
do continente História ocorreu graças a uma contaminação sofrida por 
sua  proximidade  com  as  ciências  historiadas.  E  esse  contágio 
propagado  pelas  ciências  naturais  contamina  também  a  disciplina 
história, porém produzindo um movimento na direção oposta. Se, por 
um lado, a história das ciências aproxima­se das ciências e incorpora 
os seus mitos, por outro lado, a história afasta­se dessas ciências, e o 
faz  incorporando  também  os  mesmos  mitos.  [...]  O  resultado  dessa 
incorporação da mitologia cientifista é que a história não toma para si 
as  ciências  naturais  por  considerá­las  como  não­históricas  (MAIA, 
2013, p. 12).
Se  tanto historiadores das ciências quanto historiadores  tout court  colaboraram 
para  a  ausência  da  historicidade  no  estudo  das  ciências  (por  respeito  à  metafísica 
cientificista),  não  seria  suficiente  (nem,  talvez,  necessário)  ela  ser  praticada  por 
historiadores. É necessário um abalo nessa metafísica para possibilitar o surgimento de 
uma  “história  histórica  das  ciências”  e  para  o  seu  alojamento  na  historiografia 
profissional. A possibilidade de conferir historicidade às ciências não  foi  sempre uma 
preocupação  para  seus  historiadores,  ela  surge  em  um  momento  específico  e  sofre 
diversas  transformações  (CONDÉ,  2015).  O  exame  desse  processo  mostra  como  a 
história  das  ciências  participa  ativamente  na  construção  das  condições  históricas  que 
7 No original: “not merely a narration of the facts in the history of Science, but a basis for the Philosophy 
of Science”. Tradução minha. 
8 No  original:  “Dans  la  vie  de  l’humanité,  les  sciences  jouent  desórmais  un  tel  rôle  que  leur  histoire 
mérite évidemment d’être étudiée et ensignée au même titre que le sont, par example, l’histoire de  l’art 
ou celle de la littérature. L’évolution d’un mode spécial de l’activité de l’esprit humain ne peut, en effet, 
être  négligée  vis­à­vis  dês  autres,  alors  que  ce mode  a  été,  dês  l’origine,  un  des  facteurs  essentiels  du 
progrès vers la civilisation”. Tradução minha.
23
permitem  o  seu  exercício  pleno,  pelo  menos  de  acordo  com  as  formas  que  hoje 
aceitamos  coletivamente  como  os  critérios  de  pertencimento  ao  campo. Mas  ela  não 
realiza  esse movimento  sozinha,  se  insere  em uma  textura  social  complexa  na  qual  a 
historicidade da ciência emerge como fenômeno. As condições para a ocorrência desse 
processo só terão lugar a partir dos anos 1970, como tentarei mostrar na Parte II desta 
tese.
Mas  não  anteciparei  essa  história.  Por  enquanto,  retomarei  o  fio  da 
historiografia, enfocando o primeiro movimento bem sucedido de institucionalização e 
disciplinarização  da  história  das  ciências,  que  ocorre  por  volta  da  Primeira  Guerra 
Mundial9.  George  Sarton,  que  foi  o  seu  primeiro  personagem  de  destaque,  via  na 
história da ciência (e, nesse caso, o uso do singular é fundamental) a história de toda a 
humanidade,  uma  história  cujo  escopo  cronológico  e  geográfico  se  estendia  quase 
indefinidamente  por  todas  as  eras  e  civilizações.  Principalmente,  seguindo  a  filosofia 
positiva  de  Auguste  Comte,  identificava  a  história  das  ciências  com  o  progresso  da 
humanidade;  a  ciência  seria  o  mais  poderoso  fator  de  evolução  humana10.  E 
estabeleceu para ela um programa que priorizava o conteúdo cognitivo11. Nos Estados 
Unidos em 1915, por exemplo, a história das ciências era uma atividade regular, embora 
não  constituísse  propriamente  uma  disciplina  acadêmica.  Já  existiam  nesse  país  pelo 
menos 176 cursos nessa área, espalhados em 113 instituições. Em sua grande maioria, 
se tratavam de cursos sobre ciências particulares, ministrados por cientistas amadores no 
campo  da  história  e  voltados  para  a  formação  dos  novos  membros  de  determinada 
especialidade  (MERTON  e  THACKRAY,  1972,  p.  483).  O  que  faltava,  lá  como  em 
todo  lugar  nessa  época,  era  um  esforço  de  sistematização  desse  conhecimento  e  de 
profissionalização dessa atividade. Coube a Sarton levar essa tarefa adiante.
O propósito dessa história é o de investigar os fatos e ideias científicas, retraçar 
o progresso da mente humana (SARTON, 1948, pp. 29­55). Ao mesmo tempo em que 
enfatizava a humanidade como personagem, seu foco estava nos “grandes heróis”, nos 
gênios,  homens  à  frente  do  seu  tempo,  cujos  sacrifícios  serviram  ao  avanço  da 
civilização (SARTON, 1918, p. 197). É significativo que, para Sarton, a Introdução aos 
9 Não  podemos  esquecer  a  criação  de  uma  cátedra  de Histoire  Générale  des  Sciences  no Collège  de 
France, em 1892 (LAFFITTE, 2008).
10 Para Sarton, seria Comte o  fundador da história das ciências e o que primeiro  forneceu à expressão 
uma “conception claire et précise, sinon complète” (SARTON, 1913, p. 9). 
11  Apesar  de  ser,  por  vezes,  considerado  um  representante  da  vertente  externalista.  Cf. MARKOVA, 
1977, p. 21. 
24
estudos históricos de Langlois e Seignobos, representantes máximos da escola metódica 
na França, figure entre os grandes tratados sobre o método histórico (SARTON, 1952, 
p.  72).  De  outra  parte,  Sarton  (1948,  pp.  32­40)  não  hesitava  em  ressaltar  o  aspecto 
“orgânico” do desenvolvimento da ciência, querendo com isso dizer que as  interações 
contínuas  entre  a  ciência  e  a  arte,  a  tecnologia,  a  religião,  o  direito,  a  política  e  a 
indústria  produziam  influências  recíprocas.  Apesar  disso,  insistia  ao  historiador  das 
ciências que “o objetivo do seu trabalho é essencialmente estabelecer as conexões entre 
as ideias científicas” (SARTON, 1948, p. 33)12.
Ainda  em  1919,  na  revista  Isis,  da  qual  é  o  fundador,  o  historiador  belga 
escreveu uma espécie de apelo ao mundo do pós­guerra no qual a história das ciências 
ocupava um papel fundamental. É nessa disciplina que se baseava sua proposta de um 
“Novo Humanismo”, na medida em que a ela poderia proporcionar uma mistura entre o 
“espírito histórico” e o “espírito científico”, entre vida e conhecimento, entre beleza e 
verdade (SARTON, 1919, p. 319). A história das ciências, nesse texto emblemático que 
é War  and  civilization,  seria  uma  das  curas  para  o  abatimento  moral  e  o  ceticismo 
provocados pela guerra. Ao ressaltar a neutralidade da ciência através do exame da sua 
história,  poderíamos  livrá­la  da  acusação  de  crimes  de  guerra  e  atribuir  essa 
responsabilidade à sociedade. Poderíamos também retomar a história da civilização em 
seus momentos mais  elevados,  aqueles  das  grandes  realizações  científicas. Por  fim,  o 
alegado espírito da troca livre e desinteressada da ciência, da colaboração internacional 
em busca da verdade independentemente das colorações políticas, cabia na imagem de 
um mundo que buscava reconciliação e reconstrução (SARTON, 1919).
Ao  compartilhar  certa  concepção  de  ciência  e  fazer  a  sua  história,  Sarton  se 
integrava  em  um  projeto  intelectual  em  curso,  mas  também  mirava  o  futuro.  Ao 
incorporar  toda a civilização em um grande encadeamento  intelectual progressivo, em 
um esforço coletivo de buscar a verdade que superava as divisões étnicas, nacionais e 
políticas  e  as  integrava  (sem,  contudo,  apagá­las),  essa história das  ciências projetava 
um futuro diferente do mundo despedaçado e em conflito que havia atingido o seu ápice 
na Primeira Guerra Mundial  (ou  assim parecia,  antes  do profundo  trauma que  seria  a 
Segunda Grande Guerra).
12 No original:  “the  aim of  his work  is  essentially  to  establish  the  connecting  links between  scientific 
ideas”. Tradução minha.
25
O maior  esforço de George Sarton,  contudo,  não  foi  o  de  fundar  um estilo  de 
escritada  história  das  ciências, mas  o  de  inaugurar  propriamente  uma  disciplina.  Ele 
forneceu  uma  identidade  profissional  e  cognitiva  para  o  campo  (MERTON  e 
THACKRAY,  1972).  Criou  as  instituições,  as  carreiras,  os  temas  de  pesquisa,  as 
ferramentas  intelectuais.  Imaginou  uma  função  social  e  intelectual  para  a  sua 
empreitada.  Foi  um  incansável  propagandista  da  causa  da  história  das  ciências. 
Paradoxalmente,  falhou em fazer com o que o seu programa de pesquisa fosse  levado 
adiante. Não deixou seguidores ou criou uma “escola”13. Seu legado foi o de criar um 
ambiente para o desenvolvimento da história das ciências, especialmente nos EUA.
O  surgimento  dessa  disciplina  na  paisagem  de  divisão  intelectual  do  trabalho 
relaciona­se  à  vertiginosa  ascensão  da  ciência  ao  posto  de  fundamento  máximo  da 
Modernidade Ocidental, que ocorre entre meados do século XIX e início do século XX 
e da  qual  emana  a  euforia  epistemológica  e  o  cientificismo que marcam algumas das 
mais  relevantes  investigações  sobre  a  ciência  no  período14.  À  história  das  ciências 
cabia, assim,  legitimar o papel central desempenhado pela ciência,  identificá­la com o 
progresso e com o que há de mais fundamental e precioso no projeto de Modernidade 
do Ocidente.  Um  tipo  de  legitimação  diferente  daquele  desempenhado  pela  filosofia, 
que estava, nesse momento, empenhada em dissecar a linguagem da ciência e depurá­la 
da  metafísica  através  da  análise  lógica  dos  enunciados  científicos,  em  busca  de  um 
fundamento  filosoficamente  rigoroso  para  o  conhecimento  científico.  A  história  das 
ciências recorre à forma narrativa para relatar a trajetória épica dos heróis do saber, os 
grandes homens, responsáveis por conduzir a tocha do progresso e afastar a escuridão. 
Ela “internalizou os valores e reproduziu os ideais metafísicos dessas ciências” (MAIA, 
2013, p. 13). Se a história é responsável por, entre outras coisas, forjar subjetividades, 
construir a identidade dos homens e mulheres em relação à temporalidade, a história das 
13 Na sua famosa entrevista, Thomas Kuhn relata o isolamento de Sarton em Harvard e o modo como ele 
afastava  qualquer  interessado  em  pesquisar  a  história  das  ciências,  exigindo  um  grau  de  erudição 
absurdamente elevado, uma disciplina férrea e um compromisso monástico.
14  Sentimento  semelhante  pode  ser  identificado  também  em  relação  às  realizações  técnicas  (e 
tecnológicas) do período. As profundas transformações decorrentes do mundo industrial afetam todas as 
áreas da vida. Os diversos relatos de observadores e pensadores da época sobre as incríveis mudanças nas 
comunicações e nos  transportes, cujo emblema é o sistema de ferrovias em rápida expansão por  todo o 
mundo  ocidental,  estão  quase  sempre  impregnados  de  “excitação,  autoconfiança  e  orgulho” 
(HOBSBAWM, 2005, p. 97). Não foi à  toa que a locomotiva se tornou um dos símbolos do progresso. 
Mesmo  críticos  desse  projeto  de  modernidade,  como Marx  e  Engels,  não  deixaram  de  reconhecer  os 
espantosos progressos da “civilização burguesa”. Esse movimento arrastou também os Estados europeus, 
que  investiam  na  construção  de  obras  faraônicas  na  área  de  infra­estrutura,  embora  com  implicações 
diferentes daquelas que avaliamos aqui para a Política de Ciência e Tecnologia.
26
ciências  não  escapa  a  esta  sina.  Ela  seleciona  um  determinado  aspecto  da  identidade 
coletiva  no  tempo,  a  relação  com  o  conhecimento  científico,  e  constrói  daí  a  sua 
identidade.
Simultaneamente,  esse  processo  de  afirmação,  legitimação  e  cristalização  da 
posição  epistemologicamente  privilegiada  da  ciência,  “coincide”  com  a  expansão  de 
sistemas  baseados  na  ciência  no  interior  dos  Estados  nacionais.  Justamente  por  essa 
época  começa  a  se  configurar  um  movimento  que  buscava  instaurar  um  novo  pacto 
entre ciência e Estado. Inaugura­se um processo de construção da Política de Ciência e 
Tecnologia  como  parte  das  obrigações  inegociáveis  do  Estado,  processo  que  se 
aceleraria enormemente após o fim da Segunda Guerra Mundial. 
A prevalência de dois modelos ideais e opostos de escrita da história das ciências 
é uma característica que dominou a paisagem intelectual desse campo disciplinar entre 
as décadas de 1930 e 1970. Esses dois modelos, internalismo e externalismo, travaram 
uma  intensa  disputa  na  qual  colocavam  em  questão  as  condições  que  tornavam 
possíveis  uma  narrativa  histórica  sobre  as  ciências.  Ao  iniciado  no  ofício,  cabia 
posicionar­se em um dos lados da disputa. 
Nesse período, parecia bastante evidente aquilo que pertencia ao âmbito interno 
das ciências e aquilo que se chamava de externo. O “lado de dentro” das ciências seria 
composto por pensamento e ideias, teorias e teoremas, fórmulas e conceitos, hipóteses e 
leis, resultados experimentais. Em suma, o conteúdo cognitivo. Do “lado de fora”, por 
sua  vez,  fariam parte  as  instituições  de  pesquisa,  as  agências  de  fomento  e  o  suporte 
material  no  qual  o  conteúdo  se  expressa  (periódicos  especializados,  livros),  as 
comunidades científicas e suas normas, as formas de sociabilidade e comunicação dos 
resultados; mas também a estrutura econômica e social, os regimes políticos, a cultura, a 
religião, as artes. Em uma palavra, o contexto.
Para  interpretar  algumas  das  marcas  distintivas  da  identidade  disciplinar  da 
história  das  ciências  na  primeira  metade  do  século  XX,  quero  destacar  aqui  a  sua 
relação com esse projeto global para a ciência. Quero conectar as práticas  intelectuais 
desses historiadores ao conjunto de práticas sociais em relação às ciências. Para tanto, é 
preciso dar um passo arriscado – que poderia cair na perspectiva assimétrica que tanto 
evito – e recolocar algumas questões estratégicas. O que se ganha com a concepção que 
emerge  do  internalismo? Quem  se  beneficia  do  externalismo? Que modelos  de  pacto 
27
entre  ciência  e  Estado  são  construídos,  sancionados,  reforçados  e  que  modelos  são 
criticados e denunciados pela história das ciências de uma ou de outra matriz? 
Não se trata de uma simples redução da perspectiva internalista, de uma história 
intelectual  das  ciências,  aos  valores  do  liberalismo  e  da  lógica  do  mercado;  ou  da 
história social das ciências, externalista, ao socialismo e à planificação. Não se trata de 
perceber  essas  vertentes  como mero  verniz  historiográfico  de  atitudes  ideológicas  em 
relação às ciências. Trata­se de perceber como essas correntes emergem no interior de 
um  campo  de  possibilidades  específico,  como  elas  são  fruto  de  configurações  sócio­
históricas que as determinam e com a qual estabelecem variadas formas de relação, que 
podem ser de reforço ou de contestação.
Para  isso,  é  preciso  apontar  para  os  principais  traços  que  caracterizavam  a 
relação  entre  a  ciência  e  o  Estado  nas  primeiras  décadas  do  século  XX  de  modo  a 
conectá­la  a  esse  projeto  global  para  as  ciências  do  qual  a  historiografia  das  ciências 
também faz parte.
No período anterior à Segunda Guerra Mundial, ciência e  tecnologia não eram 
objeto de políticas públicas sistemáticas. Obviamente, são bem conhecidos os esforços 
que  fizeram  os  Estados  nacionais  para  financiar  e  apropriar­se  dos  conhecimentos 
científicos  em  áreas  estratégicas,  principalmente  desde  o  final  do  século XVIII,  e  os 
esforços  de  filósofos  naturais  e  cientistas  para  tornar  estratégicas  suas  ciências  e 
arregimentar o Estado para  a  sua causa.  “A  ‘racionalização’ progressiva da  sociedade 
depende  da  institucionalização  do  progresso  científico  e  técnico”,  afirma  Habermas 
(1987, p. 45, grifo meu)15. No entanto, não devemos  superestimaro  lugar da ciência 
nos  projetos  de  organização  do  Estado  antes  do  século  XX,  mesmo  em  países  de 
capitalismo  mais  avançado,  como  Inglaterra,  Prússia,  Alemanha  (depois  de  1871)  e 
França. A  literatura que  trata das Políticas de Ciência e Tecnologia geralmente marca 
em  1945  o  início  dessa  atividade  (ABIR­AM,  1982; MOSELEY,  1978;  SALOMON, 
1977; VELHO, 2011)16.
Russel  Moseley  descreve  minuciosamente,  por  exemplo,  os  arranjos  instáveis 
que  acompanharam  a  instalação  e  consolidação  do National  Physical  Laboratory,  do 
15  O  tom  desse  famoso  ensaio,  Técnica  e  ciência  como  “ideologia”,  é  de  crítica  à  função  dessa 
racionalização no interior das sociedades capitalistas industriais. O trecho citado aparece logo no primeiro 
parágrafo para resumir a posição de Max Weber em relação à modernização; Habermas não compartilha 
integralmente da posição de Weber, mas parece concordar com essa afirmação.
16 Ver também a revista Science and Public Policy.
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Reino Unido,  nos primeiros  anos do  século XX  (o  laboratório  foi  fundado em 1900). 
Mostra  como  vários  personagens  históricos  –  indivíduos  e  instituições  –  foram 
arregimentados  e  se  comportaram  em  relação  ao  papel  do  Estado  na  condução  da 
pesquisa científica. O Estado não foi iluminado pelo espírito do progresso e passou a ter 
fé  na  ciência.  Havia  várias  forças  sociais  em  disputa,  manifestações  de  interesses 
variados e argumentos conflitantes, vitórias e derrotas no âmbito dos projetos sociais (e 
intelectuais) em jogo. 
Os  esforços  de  um  grupo  coeso  e  importante  de  físicos  (apoiados  pela Royal 
Society,  por  exemplo),  que  manipulava  basicamente  dois  tipos  de  argumentos  para 
justificar  o  investimento  dos  fundos  públicos  britânicos  em  uma  “instituição  de 
pesquisa”.  De  um  lado,  ressaltavam  o  papel  fundamental  da  ciência  para  a  atividade 
industrial, destacando a produção de padrões de medida rigorosos, o estabelecimento de 
constantes físicas precisas e a execução de testes das propriedades físicas de materiais 
comumente  utilizados  na  indústria.  De  outro  lado,  citavam  frequentemente  as 
experiências internacionais (especialmente na Alemanha) e a suposta velocidade com a 
qual outros países adquiriam vantagens industriais e econômicas resultantes da pesquisa 
científica,  explorando  o  clima  de  preocupação  com  a  competição  industrial 
internacional (MOSELEY, 1978). 
Mediavam,  assim,  uma  ligação  entre  a  pesquisa  de  ligas  metálicas,  calor  e 
eletromagnetismo e a posição ocupada pelo Reino Unido no quadro do desenvolvimento 
das nações.
De  outra  parte,  esse  projeto  encontrava,  quando  foi  inicialmente  apresentado, 
pouca receptividade e resistências declaradas. O governo reclamava insistentemente dos 
custos  e  se  resguardava  na  ortodoxia  liberal  (que  começava  a mostrar  suas  primeiras 
fissuras),  encontrando eco em setores  influentes da “opinião pública”. Os  laboratórios 
privados e as Universidades pediam a limitação clara das atividades da nova instituição, 
preocupados  com  a  sobreposição  de  funções  e  a  disputa  por  espaço  social.  Nesse 
conjunto  intrincado,  o  projeto  de  um  laboratório  público  de  física  foi  aos  poucos 
ganhando  terreno,  aliando­se  a  setores  influentes  do  governo  (MOSELEY,  1978). As 
frequentes dificuldades na  liberação de  recursos para o National Physical Laboratory, 
no  período  compreendido  entre  1900  e  1914  “refletiam  a  inabilidade  do  governo  de 
apreciar o valor da pesquisa orientada para a indústria” (MOSELEY, 1978, p. 238, grifo 
meu)17.  Não  seria  o  caso  de  perguntarmos  pelos  motivos  históricos  dessa 
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“inabilidade”? A história das ciências não deve tomar como problemático algo que hoje 
nos  parece  evidente,  a  necessidade  de  se  investir  recursos  públicos  na  pesquisa 
científica?
Situação  semelhante  foi  descrita  para o  Império Germânico quando da  criação 
do Instituto Imperial de Física e Tecnologia (Physikalisch­Technische Reichsanstalt) em 
188718, após um longo processo de propostas e contrapropostas que durou quase quinze 
anos  (PFETSCH,  1970).  Apesar  da  existência  de  um  número  considerável  de 
“instituições  científicas”  bancadas  pela  Prússia  ou  pelos  pequenos  estados  que 
formavam a Confederação Germânica e que foram mantidas com subsídio estatal depois 
da unificação  alemã de 1871,  a  criação de uma  instituição pública  com o objetivo de 
centralizar a padronização de medidas e a engenharia de precisão encontrou resistências 
importantes.  Setores  liberais  do  governo  imperial  se mostravam  contra  a  ideia  de  um 
organismo  público  voltado  a  corrigir  as  imperfeições  do  setor  industrial  privado.  Ao 
mesmo  tempo,  um  grupo  de  cientistas  via  com  receio  a  criação  do  Instituto,  pois 
percebiam sua função centralizadora como uma ameaça à  liberdade de pesquisa, além 
de  uma  possível  sobreposição  de  funções  que,  segundo  esse  grupo,  poderiam  ser 
supridas pelas instituições já existentes (especialmente as universidades) ou pela própria 
iniciativa privada que tivesse interesse no estabelecimento de padrões mais rigorosos.
Os defensores do projeto – uma aliança inusitada de forças políticas comumente 
em  conflito  (industriais,  trabalhistas  e  monarquistas  conservadores)  –,  por  sua  vez, 
afirmavam que o desempenho da economia alemã seria positivamente impactado, que a 
manutenção da ortodoxia  liberal frente ao novo contexto internacional seria um erro e 
que o Estado poderia exercer uma intervenção compensatória e reguladora em casos de 
cenários negativos e como prevenção a estes. Aos cientistas descontentes,  respondiam 
argumentando que atribuir ao governo imperial a obrigação da manutenção de pesquisa 
orientada  para  a  indústria  (e  a  economia,  de  modo  mais  geral)  liberaria  forças  para 
serem alocadas em outros tipos de investigação nas universidades, além de tratarem de 
problemas  cujos  investimentos  necessários  ultrapassavam  as  possibilidades  da  grande 
maioria das instituições envolvidas em pesquisa científica à época (PFETSCH, 1970).
17  No  original:  “reflected  the  inability  of  the  government  […]  to  appreciate  the  value  of  industrially 
oriented research”. Tradução minha.
18  Esse  instituto  serviu  constantemente  de  modelo  de  sucesso  para  o  National  Physical  Laboratory 
britânico, já citado, e para o National Bureau of Standards dos Estados Unidos, fundado em 1901.
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Os  princípios  liberais  poderiam  ser  reforçados  por  membros  do  governo 
contrários à proposta – que pregavam maior rigor nos gastos públicos e condenavam a 
natureza  centralizada  da  instituição  proposta  –,  ou  flexibilizados  por  alguns  dos  seus 
frequentes defensores, como os capitães da indústria, por perceber em instituições desse 
tipo uma forma de fazer com que o Estado assumisse os custos de conduzir pesquisas 
que  poderiam  ter  resultados  benéficos  para  as  suas  empresas.  O  grande  inventor  e 
industrial  Werner  Von  Siemens,  por  exemplo,  escreveu  um  memorando  para  o 
parlamento  Imperial,  em  1887,  no  qual  explicita  a  relação  linear  entre  pesquisa 
científica,  progresso  tecnológico,  melhoramento  da  indústria  e  avanço  econômico 
(PFETSCH, 1970, p. 571­572). Assim, a promoção da ciência era apresentada por seus 
defensores como meio para um fim, a manutenção da posição de destaque econômico 
do  Império  Germânico  no  mercado  mundial.  O  sucesso  no  estabelecimento  dessa 
instituição foi, em parte, resultado do sucesso desse argumento.
Uma variação um pouco mais  sofisticada dessa  ideia  foi utilizada  também nas 
tentativas  de  estabelecimento  de  um  sistema  de  financiamento  público  da  pesquisa 
científica na França do período

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