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AVALIAÇÃO CONTINUADA – PISM 3 – LITERATURA Nome: Leia o texto I e responda as questões 1 e 2: Texto I – IGUAL-DESIGUAL Carlos Drummond de Andrade Eu desconfiava: todas as histórias em quadrinho são iguais. Todos os filmes norte-americanos são iguais. Todos os filmes de todos os países são iguais. Todos os best-sellers são iguais. Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são iguais. Todos os partidos políticos são iguais. Todas as mulheres que andam na moda são iguais. Todas as experiências de sexo são iguais. Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais e todos, todos os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais. Todas as guerras do mundo são iguais. Todas as fomes são iguais. Todos os amores, iguais iguais iguais. Iguais todos os rompimentos. A morte é igualíssima. Todas as criações da natureza são iguais. Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais. Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa. Ninguém é igual a ninguém. Todo ser humano é um estranho ímpar. Questão 01 – No poema Igual-Desigual, de Carlos Drummond de Andrade, é possível inferir que o sujeito poético manifesta um sentimento de: a) Tédio diante da repetição de padrões. b) Alívio pela singularidade do humano. c) Ansiedade diante das reiterações de amores iguais. d) Revolta pelas situações de guerra e fome. e) Horror diante da morte. Questão 02 – Ainda sobre o texto de Carlos Drummond de Andrade, o sujeito poético depara-se com uma objeção expressa pelo seguinte exemplo de recurso de linguagem: a) Reiteração do pronome indefinido “todos”. b) O uso do superlativo em “a morte é igualíssima”. c) AA gradação de adjetivos negativos em “cruéis, piedosas ou indiferentes”. d) A mobilização de conectivo em “Contudo, o homem não é igual a nenhum outro [...]”. e) O uso do item lexical “ímpar” como único adjetivo no último verso. Leia o texto I e responda as questões 3 e 5: Texto 2: POEMA DE SETE FACES Carlos Drummond de Andrade Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres. A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos. O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas. Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. Porém meus olhos não perguntam nada. O homem atrás do bigode é sério, simples e forte. Quase não conversa. Tem poucos, raros amigos o homem atrás dos óculos e do bigode, Meu Deus, por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus se sabias que eu era fraco. Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução. Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração. Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo. Questão 03 – Releia a primeira estrofe do poema: Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. Sobre a expressão “desses que”, presente na segunda linha, é CORRETO afirmar que: a) Sugere que o “anjo torto” é um ser único e incomparável. b) Indica que o anjo é uma versão espiritual da vida humana. c) Indica que o “anjo torto” se assemelha a outros anjos que “vivem na sombra”. d) Sugere que o “anjo torto” deseja endireitar a vida de “Carlos”. e) Indica que o anjo é um ser especial na vida de “Carlos”. Questão 04 – Sobre a segunda e terceira estrofes do poema, NÃO é pertinente afirmar: a) Na terceira estrofe há um contraste entre vida interior (“Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.”) e vida exterior (“Porém meus olhos / não perguntam nada.”). b) O verso “As casas espiam os homens” deve ser interpretado literalmente. c) A descrição das “pernas”, na terceira estrofe, pode ser relacionada ao projeto do modernismo brasileiro de revelar o caráter miscigenado da cultura brasileira. d) Aspectos do cotidiano urbano estão presentes nessas estrofes. e) Há, na segunda estrofe, um nítido contraste entre o adjetivo “azul” e o substantivo “desejos”. Questão 05 – Em relação à penúltima estrofe do poema, é possível afirmar que: a) Nos últimos dois versos da estrofe, há um contraste entre os mundos “exterior” e “interior”. b) A estrofe apresenta uma defesa da “rima” como condição imprescindível a todo fazer poético. c) A rima entre “Raimundo” e “Mundo” tem a função de depreciar o nome “Raimundo”. d) A rima, segundo a estrofe, é um recurso poético capaz de solucionar os problemas da vida. e) O autor não utiliza a rima como recurso poético nessa estrofe. QUESTÕES DISCURSIVAS Texto I Drummond, uma parte de mim Ferreira Gullar Como se sabe, nossa vida não é só nossa, uma vez que, além daquela parte que individualmente vivemos, há partes que outros viveram, como dizia um amigo que gostava de beber: “uma parte de minha vida eu vivo, outra parte me contam”. Claro, o dele era um caso especial de amnésia alcoólica, mas eu mesmo, que não costumo tomar porres, de vez em quando ouço de alguém uma parte de minha vida que não lembro ter vivido. E assim também vivo a vida dos outros, ou seja, sem que este outro saiba que entrou na minha vida e até mudou a minha vida. Foi, por exemplo, o caso de Carlos Drummond de Andrade, que nunca tinha me visto mais gordo quando, em 1949, li Poesia até agora, livro que reuniu todos os seus livros anteriores. Imagine o leitor que eu, nascido e criado em São Luís do Maranhão, mal ouvira falar em poesia moderna. Até bem pouco tempo, minha leitura era Bilac, Raimundo Correia, Vicente de Carvalho, sem falar em Camões, Gonçalves Dias e Castro Alves, entre outros. Poesia para mim, portanto, falava de anjos, estrelas, regatos e flores. Abro então o livro de Drummond e leio “Lua diurética”. Levei um susto. Mas isto é poesia? - perguntei-me. “Ponho-me a escrever teu nome com letras de macarrão”. Fechei o livro desapontado, mas, em seguida, reconsiderei e decidi informar-me sobre a nova poesia [...]. A poesia de Drummond, de certo modo, mudou minha vida, porque me revelou uma nova poesia, que não era mais a dos anjos e das estrelas mas a da vida quotidiana. A poesia que estava na sopa, tomada em algum restaurante sórdido, por alguém com dor de corno. Aprendi que o poeta moderno reconhecia-se um homem comum, igual aos demais, e que encontrava a poesia em situações que qualquer outra pessoa poderia viver. [...] Transferi-me depois para o Rio, mas não procurei, nem a ele nem a nenhum poeta famoso. Um dia, na livraria Agir, lhe fui apresentado por José Condé. Conversava com outros escritores e mal tomou conhecimento de mim. Achei natural, pois já sabia que era tímido e pouco expansivo. Eu não era muito diferente. Impressionaram-me os seus olhos: duas pequenas lentes azuis que pareciam boiar soltas entre as pálpebras. Outra vez, topei com ele ao entrar no elevador do Correio da Manhã, na rua Gomes Freire. Ele saía apressado e mal me viu. A última vez que eu o encontrei foi no enterro de Vinícius de Moraes, muitos anos depois; criticava acidamente a medicina, que não soubera curar com presteza o herpes que lhe havia tomado parte do rosto. Certo dia, um jornal noticiou que eu pretendia candidatar-me à Academia Brasileira de Letras. Alguém ligou para ele e, ao referir-se à notícia, ouviu dele o seguinte comentário: “Duvido. Se bem conheço Gullar, isso não passa de fofoca”. Mal sabia que, nesse particular, eu lhe havia seguido o exemplo. [...] Fonte: GULLAR, Ferreira. Crônicas para jovens. São Paulo: Global, 2011, pág. 105-107. Questão 01 – Na crônica Drummond, uma parte de mim, Ferreira Gullar estabelece uma crítica a um movimento literário que precedeu o modernismo brasileiro. A que período se refere e qual crítica apresenta? Texto II Posfácio de Aílton Krenak na obra Sentimentodo Mundo, de Carlos Drummond de Andrade [...] Só depois de chegar aos 20 anos é que fui ler a nossa literatura brasileira, e Drummond aparece nesse horizonte como ilha de reconhecimento, possibilidades de identificação com a maneira como o poeta estranha o mundo. O poeta, em sua vastíssima obra, estranha o modo de operar desse mundo, o humano em choque com a vida. Eu invoco Drummond como meu escudo invisível, sempre que esse mundo derrapa sob meus pés, pois ele se distingue do tipo de literatura com que tenho contato em geral. Considerando a poética do Drummond, é preciso entender essa pergunta como metafísica. O poeta já colocava em questão a narrativa de que existia um lugar na América do Sul destinado a se chamar Brasil. Ele questionou também a invenção colonial desse lugar. Se Drummond perguntava “onde é Brasil?”, ele podia estar lançando uma pergunta ao espaço, inclusive em busca de uma resposta social a esse lugar, que seriam “os brasileiros”. Quer dizer, além de você inventar um lugar, você ainda produz uma ideia de povo que vai constituir essa parte da humanidade. Eu fico muito feliz de poder comentar essa expressão do Drummond, porque eu nunca acreditei que exista um lugar correspondente à ideia de Brasil. E, menos ainda, que esse punhado de gente, que veio de todos os lugares do mundo, colonizados nesse território, tenha se constituído como “os brasileiros”. Eu penso que a gente há muito tempo vive em um vasto acampamento, ao qual cada vez mais chega gente de fora, com desejos muito diversos uns dos outros, como que indicando que o Brasil é uma invenção, e os brasileiros são uma ficção sociológica. Em sua longa jornada, toda a poesia e as crônicas que o poeta nos dá querem acordar os homens e convocar outros sonhos, outros mundos para além da fúria devoradora de montanhas. O destino nos deu o presente de sentirmos as montanhas como extensão de nosso corpo, cada um na sua pedra, ferro e aço. Um vale que foi desde muito, muito tempo mesmo, o lar de um povo selvagem, minha aldeia dos antigos botocudos, e sua Itabira. O Pico do Cauê, que nem pode mais testemunhar nada. Cratera não fala, diria o poeta. Já teve outros nomes esse vale de lágrimas, antes de sofrer a ofensa do epíteto Vale do Aço. Florestas do rio Doce, evocando um mundo com todas as possibilidades imaginárias, entre vales e montanhas povoados de seres da mata atlântica e do cerrado, aves e peixes e todos os tipos de árvores gigantes. Um mundo possível para além de calçadas de pedra, ferro nas almas, como denuncia o poeta itabirano. Invocar Drummond como escudo invisível é algo cotidiano para mim, que sinto a dor do rio e suporto, nas minhas “retinas tão fatigadas”, o incessante vaivém da pesadíssima máquina de comer mundos. Uma montanha rochosa que avisto, daqui do terreiro desta aldeia crenaque, testemunha a passagem do maior trem do mundo, levando as montanhas para ver – ou “só para te ver?” – o outro lado do Atlântico, e nada deixando atrás de seu ruidoso trilho. Lá vai o trem da vida, diz o mineiro, indefeso ante avalanches de lama e marianas e brumadinhos a perder de vista. (...) Fonte: KRENAK, Aílton. Posfácio. In ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do mundo. São Paulo: Recordo, 2022. Questão 02 – O pensador indígena contemporâneo Aílton Krenak apresenta reflexões acerca da sua relação com a obra de Drummond. De que modo as motivações para ler Drummond apresentadas por Krenak aproximam-se das apresentadas na crônica de Ferreira Gullar?