Prévia do material em texto
SIMULADO TERCEIRO ITA
PORTUGUÊS
PROFESSOR JOIÃO FILHO
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
“(...) de um lado, a preocupação com os problemas sociais; de outro, com os problemas individuais, ambos referidos ao problema decisivo da expressão, que efetua a sua síntese. O bloco central da obra de Drummond é, pois, regido por inquietudes poéticas que proveem uma das outras, cruzam-se e, parecendo derivar de um egotismo profundo tem como consequência uma espécie de exposição mitológica da personalidade.”
(Antonio Candido. Inquietudes na poesia de Drummond. Vários escritos. S. Paulo: Duas Cidades, 1977, p. 96)
1) Sobre as considerações acerca da poética de Drummond, realizadas por Antonio Candido, na citação acima, analise as estrofes abaixo:
I. “Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto
passaria sobre o meu corpo.”
II. “Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.”
III. “O jardim tornou-se fantástico.
As flores são placas cinzentas.
E a areia, sob pés extintos,
é um oceano de névoa.”
IV. “E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?”
V. “Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.”
As estrofes que não contemplam as considerações de Antonio Candido são:
a) I e IV.
b) III e V.
c) II e III.
d) II e IV.
e) I e III.
2) Confidência do Itabirano
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e
[comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e
[sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!
ANDRADE, C. D. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003.
Carlos Drummond de Andrade é um dos expoentes do movimento modernista brasileiro. Com seus poemas, penetrou fundo na alma do Brasil e trabalhou poeticamente as inquietudes e os dilemas humanos. Sua poesia é feita de uma relação tensa entre o universal e o particular, como se percebe claramente na construção do poema Confidência do Itabirano. Tendo em vista os procedimentos de construção do texto literário e as concepções artísticas modernistas, conclui-se que o poema acima
a) representa a fase heroica do modernismo, devido ao tom contestatório e à utilização de expressões e usos linguísticos típicos da oralidade.
b) apresenta uma característica importante do gênero lírico, que é a apresentação objetiva de fatos e dados históricos.
c) evidencia uma tensão histórica entre o “eu” e a sua comunidade, por intermédio de imagens que representam a forma como a sociedade e o mundo colaboram para a constituição do indivíduo.
d) critica, por meio de um discurso irônico, a posição de inutilidade do poeta e da poesia em comparação com as prendas resgatadas de Itabira.
e) apresenta influências românticas, uma vez que trata da individualidade, da saudade da infância e do amor pela terra natal, por meio de recursos retóricos pomposos.
3) Canção amiga
Eu preparo uma canção,
em que minha mãe se reconheça
todas as mães se reconheçam
e que fale como dois olhos.
[...]
Aprendi novas palavras
E tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
ANDRADE, C. D. Novos Poemas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1948. (fragmento)
A linguagem do fragmento acima foi empregada pelo autor com o objetivo principal de
a) transmitir informações, fazer referência a acontecimentos observados no mundo exterior.
b) envolver, persuadir o interlocutor, nesse caso, o leitor, em um forte apelo à sua sensibilidade.
c) realçar os sentimentos do eu lírico, suas sensações, reflexões e opiniões frente ao mundo real.
d) destacar o processo de construção de seu poema, ao falar sobre o papel da própria linguagem e do poeta.
e) manter eficiente o contato comunicativo entre o emissor da mensagem, de um lado, e o receptor, de outro.
4) PROCURA DA POESIA
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
(...)
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
(...)
Carlos Drummond de Andrade, "A rosa do povo".
No contexto do livro, a afirmação do caráter verbal da poesia e a incitação a que se penetre "no reino das palavras", presentes no excerto, indicam que, para o poeta de "A rosa do povo",
a) praticar a arte pela arte é a maneira mais eficaz de se opor ao mundo capitalista.
b) a procura da boa poesia começa pela estrita observância da variedade padrão da linguagem.
c) fazer poesia é produzir enigmas verbais que não podem nem devem ser interpretados.
d) as intenções sociais da poesia não a dispensam de ter em conta o que é próprio da linguagem.
e) os poemas metalinguísticos, nos quais a poesia fala apenas de si mesma, são superiores aos poemas que falam também de outros assuntos.
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES:
MÃOS DADAS
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao amanhecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo (1940)
5) Considere as seguintes afirmações sobre o texto.
I. Trata-se de um poema em que o eu lírico afirma seu desejo de que a poesia possa reconstruir aquilo que, tendo sido destruído no passado, permanece atual em sua memória.
II. O poeta manifesta a confiança de que sua nova poesia poderá superar os problemas pessoais que quase o levaram ao suicídio e o fizeram desejar isolar-se.
III. O poeta convoca outros poetas para que, juntos, possam se libertar das velhas convenções que prejudicam a poesia moderna.
IV. Os versos da 1a estrofe indicam o anseio do eu lírico de que sua poesia se aproxime dos homens e ajude a transformar a vida presente.
V. Na 2a estrofe, o eu lírico nega que a poesia desse momento histórico deva tratar de temas sentimentais ou amorosos.
São corretas apenas as afirmações
a) I, II e III.
b) I e IV.
c) II e III.
d) III e IV.
e) IV e V.
6)
Considerando o poema "Mãos dadas", no conjunto da obra a que pertence ("Sentimento do mundo"), é correto afirmar que Carlos Drummond de Andrade
a) recusa os princípios formais e temáticos do primeiro Modernismo.
b) tematiza o lugar da poesia num momento histórico caracterizado por graves problemas mundiais.
c) vale-se de temas que valorizam aspectos recalcados da cultura brasileira.
d) alinha-se à poética que critica as técnicas do verso livre.
e) relativiza sua adesão à poesia comprometidacom os dilemas históricos, pois a arte deve priorizar o tema da união entre os homens.
7) No poema "Procura da poesia", Carlos Drummond de Andrade expressa a concepção estética de se fazer com palavras o que o escultor Michelangelo fazia com mármore. O fragmento a seguir exemplifica essa afirmação.
"(...)
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
(...)
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
trouxeste a chave?"
Carlos Drummond de Andrade. A rosa do povo. Rio de Janeiro: Record, 1997, p. 13-14.
Esse fragmento poético ilustra o seguinte tema constante entre autores modernistas:
a) a nostalgia do passado colonialista revisitado.
b) a preocupação com o engajamento político e social da literatura.
c) o trabalho quase artesanal com as palavras, despertando sentidos novos.
d) a produção de sentidos herméticos na busca da perfeição poética.
e) a contemplação da natureza brasileira na perspectiva ufanista da pátria.
8) Leia o poema "Consolo na Praia", de Carlos Drummond de Andrade.
"Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens cão.
Algumas palavras duras,
Em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humor?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
Murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez nas águas
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho."
Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as seguintes afirmações a respeito desse poema.
( ) É um verdadeiro "consolo", na medida em que sugere a possibilidade de reverter em felicidade os maus momentos da vida e, inclusive, de esquecê-los.
( ) Critica os tímidos e sem iniciativa, que não usam mecanismos eficientes para impedir situações agressivas.
( ) Sublinha a inexorável passagem temporal que tudo arrebata.
( ) É uma espécie de balanço da vida, em que são colocados, de um lado, o vivido e, de outro, o não-alcançado.
( ) Alude à ineficácia das atitudes de pessoas sensíveis e retraídas diante de forças mais poderosas.
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é
a) F - F - V - V - V.
b) V - F - F - V - V.
c) F - V - F - V - F.
d) V - V - F - F - F.
e) F - F - V - F - V.
9) O livro "Claro Enigma", uma das obras mais importantes de Carlos Drummond de Andrade, foi editado em 1951.
Desse livro consta o poema a seguir.
Memória
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. "Claro Enigma", Rio de Janeiro: Record, 1991.)
Sobre esse texto, é correto dizer que
a) a passagem do tempo acaba por apagar da memória praticamente todas as lembranças humanas; quase nada permanece.
b) a memória de cada pessoa é marcada exclusivamente por aqueles fatos de grande impacto emocional; tudo o mais se perde.
c) a passagem do tempo apaga muitas coisas, mas a memória afetiva registra as coisas que emocionalmente têm importância; essas permanecem.
d) a passagem do tempo atinge as lembranças humanas da mesma forma que envelhece e destrói o mundo material; nada permanece.
e) o homem não tem alternativa contra a passagem do tempo, pois o tempo apaga tudo; a memória nada pode; tudo se perde.
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES:
Leia estes poemas.
Texto 1 - AUTO-RETRATO
Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico* profissional.
(Manuel Bandeira. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1983. p. 395.)
(*) tísico = tuberculoso
Texto 2 - POEMA DE SETE FACES
Quando eu nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
(....)
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo
mais vasto é o meu coração.
(Carlos Drummond de Andrade. Obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1964. p. 53.)
10) No verso "Meu Deus, por que me abandonaste" do texto 2, Drummond retoma as palavras de Cristo, na cruz, pouco antes de morrer. Esse recurso de repetir palavras de outrem equivale a
a) emprego de termos moralizantes.
b) uso de vício de linguagem pouco tolerado.
c) repetição desnecessária de ideias.
d) emprego estilístico da fala de outra pessoa.
e) uso de uma pergunta sem resposta.
11) Esses poemas têm em comum o fato de
a) descreverem aspectos físicos dos próprios autores.
b) refletirem um sentimento pessimista.
c) terem a doença como tema.
d) narrarem a vida dos autores desde o nascimento.
e) defenderem crenças religiosas.
12) O memorialismo é um tema relevante na poesia de Carlos Drummond de Andrade. Na "Antologia poética", o autor cultivou esse tema quando faz referência a
a) acontecimentos políticos apresentados como motivos de reflexão.
b) transformações tecnológicas interpostas no cotidiano do homem urbano.
c) indagações sobre a função da poesia num mundo dilacerado por conflitos.
d) situações amorosas marcadas por desacertos e desarmonias.
e) entes familiares harmonizados com a paisagem provinciana.
13) "Esse incessante morrer que nos teus versos encontro
é tua vida, poeta, e por ele te comunicas
com o mundo em que te esvais. (...)
Não é o canto da andorinha,
debruçada nos telhados da Lapa,
Anunciando que tua vida passou à toa, à toa.
Não é o médico mandando exclusivamente
tocar um tango argentino,
Diante da escavação no pulmão esquerdo
e do pulmão direito infiltrado.
Não são os carvoeirinhos raquíticos
voltando encarapitados nos burros velhos.
Não são os mortos do Recife
dormindo profundamente na noite. (...)
Que o poeta Manuel Bandeira escute este apelo
de um homem humilde."
(Carlos Drummond de Andrade: "Ode no cinquentenário do poeta brasileiro")
A partir da leitura do texto analise as proposições a seguir:
1) Drummond homenageia Bandeira com um exercício de intertextualidade, abordando o universo do poeta pernambucano com suas próprias palavras. Essa homenagem não gerou imitação. Bandeira está na vertente mais clássica do modernismo; já Drummond assimilou as conquistas de vanguarda.
2) Drummond alude à frequente tematização da morte nos poemas confessionais de Bandeira, ao clima de melancolia e desejo insatisfeito que percorre a obra deste.
3) A intertextualidade é explorada, utilizando os versos de ANDORINHA, de PNEUMOTÓRAX, de PROFUNDAMENTE, de VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA (de Libertinagem) e dos MENINOS CARVOEIROS e de COTOVIA (de Ritmo Dissoluto).
4) O poema adota a paródia e o lirismo exacerbado, dentro dos preceitos da estética modernista.
Está(ão) correta(s):
a) 1, 3 e 4 apenas
b) 1 apenas
c) 2 apenas
d) 1 e 2 apenas
e) 2, 3 e 4 apenas
14) Ao preparar-se para a prova de literatura, você deve ter lido o seguinte poema de Carlos Drummond de Andrade:
Quadrilha
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi paraos Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes
A interpretação que você faz de uma obra literária baseia-se no seu grau de leitura, de conhecimento, de amadurecimento pessoal e nas experiências que você já teve ou sobre as quais já pensou, desde que ela mantenha coerência com o texto.
Nas alternativas abaixo, apresentamos algumas interpretações possíveis para "Quadrilha". Cabe a você, refletindo sobre elas, assinalar aquela que NÃO apresenta coerência com o texto e com seus conhecimentos de literatura.
a) A estrutura oracional do poema, em que o objeto de um verbo está representado no sujeito do verbo seguinte, remete-nos à dança em que há uma constante troca de pares. Essa ideia é reforçada pelo título.
b) O ponto final, no terceiro verso, indica a "quebra", o limite entre o mundo das lembranças, dos sonhos (antes do sinal de pontuação) e o da realidade (depois dele).
c) Lili, a única na trama que não amava ninguém, casou-se por interesse, uma vez que o seu par é indicado pelo sobrenome.
d) As personagens que antes apareciam com suas vidas entrelaçadas, ao final dispersam-se, o que conota a ideia de desencontro, tema bastante presente na poética do autor.
e) O eu-lírico do poema aparece com o nome de J. Pinto Fernandes, daí o conteúdo do último verso, já que o eu-lírico é uma entidade externa ao poema.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
ROMARIA
Os romeiros sobem a ladeira
cheia de espinhos, cheia de pedras,
sobem a ladeira que leva a Deus
e vão deixando culpas no caminho.
Os sinos tocam, chamam os romeiros:
Vinde lavar os vossos pecados.
Já estamos puros, sino, obrigados,
mas trazemos flores, prendas e rezas.
......................................................................
Jesus no lenho expira magoado.
Faz tanto calor, há tanta algazarra.
Nos olhos do santo há sangue que escorre.
Ninguém não percebe, o dia é de festa.
No adro da janela há pinga, café,
imagens, fenômenos, baralhos, cigarros
e um sol imenso que lambuza de ouro
o pó das feridas e o pó das muletas.
Meu Bom Jesus que tudo podeis,
humildemente te peço uma graça.
Sarai-me, Senhor, e não desta lepra,
do amor que eu tenho e que ninguém me tem.
......................................................................
Jesus meu Deus pregado na cruz,
me dá coragem pra eu matar
um que me amola de dia e de noite
e diz gracinhas a minha mulher
......................................................................
Os romeiros pedem com os olhos,
pedem com a boca, pedem com as mãos.
Jesus já cansado de tanto pedido
dorme sonhando com outra humanidade.
(Carlos Drummond de Andrade)
15) O poema "Romaria" insere-se no livro ALGUMA POESIA, que Drummond publicou em 1930. Esta data marca, no Modernismo, o início de uma fase caracterizada pela(o):
a) Era Vargas, com uma literatura mais construtiva e mais politizada na prosa - José Lins do Rego, Graciliano Ramos.
b) redemocratização do país e fim do Estado Novo, com o regionalismo abordando problemas humanos universais - João Guimarães Rosa.
c) anarquia, com manifestos que rejeitavam as estruturas do passado, predominando, na poesia, o verso livre.
d) preocupação dos poetas com o policiamento da expressão e com a estética - João Cabral de Mello Neto, Ferreira Gullar.
e) nacionalismo exacerbado, com uma poesia mais voltada para as causas sociais, cultivando o rigor na rima e na métrica.