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HIV. APG25 EMILY ABREU-4°P - OBJETIVOS 1. COMPREENDER A ESTRUTURA DO HIV; 2. ENTENDER EPIDEMIOLOGIA, FATORES DE RISCO, VIAS DE TRANSMISSÃO, FISIOPATOLOGIA, QUADRO CLÍNICO, COMPLICAÇÕES, DIAGNÓSTICO, TRATAMENTO. - ESTRUTURA DO HIV O HIV é um retrovírus humano não transformador pertencente à família dos lentivírus. Nesse grupo estão incluídos o vírus da imunodeficiência felina, o vírus da imunodeficiência dos símios, o vírus visna de carneiros, o vírus da imunodeficiência bovina e o vírus da anemia infecciosa equina. Foram isoladas duas formas geneticamente diferentes, porém relacionadas, de HIV, denominadas HIV-1 e HIV-2, de pacientes com AIDS. O HIV-1 constitui o tipo mais comum associado à AIDS nos EUA, na Europa e na África Central, enquanto o HIV-2 causa uma doença semelhante sobretudo na África Ocidental e na Índia. Existem testes específicos para o HIV-2, e o sangue coletado para transfusão é rotineiramente submetido a rastreamento para soropositividade para HIV-1 e HIV-2. A discussão a seguir trata em especial do HIV-1 e das doenças que ele causa, porém a informação geralmente é também pertinente ao HIV-2. A semelhança da maioria dos retrovírus, o vírion do HIV é esférico e contém um cerne eletrodenso em formato de cone, circundado por um envelope lipídico derivado da membrana celular do hospedeiro. O cerne do vírus contém (1) a proteína principal do capsídio p24; (2) a proteína do nucleocapsídio p7/p9; (3) duas cópias do RNA genômico do vírus; e (4) as três enzimas virais (protease, transcriptase reversa e integrase). A p24 é o antígeno viral mais abundante e é detectada por um ELISA amplamente utilizado no diagnóstico da infecção pelo HIV. O cerne do vírus é circundado por uma proteína de matriz, denominada p17, que está localizada abaixo do envelope. O envelope do vírus é cravejado por duas glicoproteínas virais, gp120 e gp41, que são fundamentais na infecção das células pelo HIV. O genoma de RNA do HIV-1 contém os genes gag, pol e env, que são típicos dos retrovírus (Figura 6.40). Os produtos dos genes gag e pol consistem em grandes proteínas precursoras, que são clivadas pela protease viral para produzir as proteínas maduras. Além desses três genes padrão dos retrovírus, o HIV contém vários outros genes acessórios, como tat, rev, vif, nef, vpr e vpu que regulam a síntese e a montagem das partículas virais infecciosas e a patogenicidade do vírus. Por exemplo, o produto do gene tat (transativador) produz um aumento de mil vezes na transcrição dos genes virais e é fundamental para a replicação do vírus. (ROBBINS,10°Ed) - EPIDEMIOLOGIA De 2007 até junho de 2023, foram notificados no Sinan 489.594 casos de infecção pelo HIV no Brasil, sendo 203.227 (41,5%) na região Sudeste, 104.251 (21,3%) na região Nordeste, 93.399 (19,1%) na região Sul, 49.956 (10,2%) na região Norte e 38.761 (7,9%) na região Centro-Oeste. Comparando os anos de 2020 e 2022, o número de casos de infecção pelo HIV aumentou 17,2% no Brasil, destacando-se as regiões Norte (35,2%) e Nordeste (22,9%). Na série histórica, 345.069 (70,5%) casos foram notificados em homens e 144.364 (29,5%) em mulheres. A razão de sexos sofreu alteração ao longo do tempo: em 2007 era de 14 homens para cada dez mulheres e, a partir de 2020, passou a ser de 28 homens para cada dez mulheres. No que se refere às faixas etárias, observou-se, no período analisado, que 114.593 (23,4%) casos são de jovens entre 15 e 24 anos, representando 25,0% e 19,6% dos casos no sexo masculino e feminino, respectivamente.(BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO, 2023). - FATORES DE RISCO ART: Fatores de risco à infecção pelo HIV entre adolescentes e jovens: revisão sistemática. Bossonario, Pedro Augusto. 2022 Quanto aos fatores associados ao HIV na população adolescente e jovem, identificou-se que nessa revisão que, quanto maior a idade do indivíduo jovem, maior o risco de infecção pelo vírus em comparação aos grupos com menor idade. Contudo, a iniciação sexual precoce e sem o uso de preservativo na primeira relação sexual contribuiu para predisposição ao HIV, aumentando a vulnerabilidade à infecção. É necessário considerar outros aspectos que aumentam a predisposição ao HIV, uma vez que houve maior risco de viver com o vírus entre as pessoas com maior consumo de álcool(18-20), que praticavam sexo transacional, que mantinham relações sexuais com parceiros que viviam com HIV. Pessoas com outras doenças sexualmente transmissíveis (DST) correm risco aumentado de contrair infecção pelo HIV. O risco de transmissão do HIV aumenta quando existem DST com ulcerações genitais (ou seja, sífilis, infecção por herpes-vírus simples [HSV] e cancroide) e DST não ulcerativas (ou seja, gonorreia, infecção por Chlamydia e tricomoníase). O HIV aumenta a duração e a recorrência das lesões das DST, eleva os fracassos terapêuticos e provoca apresentação atípica de doenças ulcerativas genitais por causa da supressão do sistema imunológico. (PORTH,10°Ed) - VIAS DE TRANSMISSÃO As três principais vias de transmissão são o contato sexual, a inoculação parenteral e a transferência do vírus de mães infectadas para seus recém-nascidos: •A transmissão sexual constitui o modo predominante de infecção em todo o mundo, respondendo por mais de 75% de todos os casos de transmissão do HIV. O vírus é transportado no sêmen e penetra no corpo do receptor através de escoriações na mucosa retal ou na mucosa oral ou por contato direto com células de revestimento da mucosa. A transmissão do vírus ocorre de duas maneiras: (1) inoculação direta nos vasos sanguíneos que foram lesionados por trauma e (2) infecção das CD ou das células CD4+ no interior da mucosa. Além da transmissão de homem para homem e de homem para mulher, ocorre também transmissão de mulher para homem •A transmissão parenteral do HIV tem ocorrido em três grupos de indivíduos: usuários de drogas intravenosas, hemofílicos que receberam concentrados de fator VIII e de fator IX e receptores aleatórios de transfusão de sangue. Desses três grupos, os usuários de drogas intravenosas constituem, de longe, o maior grupo. A transmissão ocorre pelo compartilhamento de agulhas, seringas e outros objetos contaminados com sangue que contenha HIV. A transmissão do HIV por meio de transfusão de sangue ou hemocomponentes, como concentrados liofilizados de fator VIII e de fator IX, foi praticamente eliminada. Esse resultado positivo deve-se ao uso crescente de fatores da coagulação recombinantes e de três medidas de saúde pública: triagem do sangue e plasma de doadores para anticorpos anti-HIV, critérios de pureza rigorosos para as preparações de fator VIII e fator IX e triagem de doadores com base no seu histórico. •Conforme assinalado anteriormente, a transmissão da mãe para o lactente constitui a principal causa de AIDS pediátrica. As mães infectadas podem transmitir a infecção ao filho por três vias: (1) intra utero por disseminação transplacentária; (2) durante o parto, através do canal do parto infectado; e (3) após o nascimento, com a ingestão de leite materno. Dessas três vias, a transmissão durante o nascimento (intraparto) e no período imediato (periparto). As taxas de transmissão relatadas variam de 7 a 49% em diferentes partes do mundo. O maior risco de transmissão está associado a uma elevada carga viral materna e a baixas contagens de células T CD4+, bem como à corioamnionite. (ROBBINS,10°Ed) O contato sexual é o modo mais frequente de transmissão do HIV. O HIV é encontrado no sêmen e nos líquidos vaginais. Existe risco de transmissão de HIV quando esses líquidos entram em contato com alguma parte do corpo que possa levar o vírus para a corrente sanguínea, inclusive mucosas vaginal e anal, laceração superficial, feridas ou abrasões na pele. O contato com sêmen ocorre durante relações sexuais (vaginal e oral), sexo oral e inseminação por homem infectado. A exposição às secreções vaginais ou cervicaisocorre durante relação sexual vaginal e sexo oral. Como o HIV é encontrado no sangue, o uso de agulhas, seringas e outros dispositivos de injeção de drogas é uma via direta de transmissão. - FISIOPATOLOGIA O HIV entra no corpo por meio das mucosas e do sangue e infecta em primeiro lugar as células T, bem como as CD e os macrófagos. A infecção torna-se estabelecida nos tecidos linfoides, onde o vírus pode permanecer latente por um longo período. A replicação ativa do vírus está associada a maior infecção das células e à progressão para a AIDS. Ciclo de vida do HIV O ciclo de vida do HIV consiste na infecção das células, integração do pró-vírus ao genoma da célula do hospedeiro, ativação da replicação viral e produção e liberação dos vírus infecciosos. Infecção das células pelo HIV. O HIV infecta as células ao utilizar a molécula CD4 como receptor e vários receptores de quimiocinas como correceptores. A necessidade de ligação ao CD4 explica o tropismo seletivo do vírus para as células T CD4+ e outras células CD4+, sobretudo monócitos/macrófagos e CD. Entretanto, a ligação ao CD4 não é suficiente para a infecção. A gp120 do HIV também precisa se ligar a outras moléculas de superfície celular (correceptores) para a entrada na célula. Os receptores de quimiocinas, particularmente CCR5 e CXCR4 desempenham essa função. Os vírus HIV isolados podem ser distinguidos pelo uso de seus receptores: as cepas R5 utilizam CCR5, as cepas X4 utilizam CXCR4 e algumas cepas (R5X4) utilizam ambos os receptores. As cepas R5 infectam de preferência as células da linhagem de monócitos/macrófagos e, portanto, são designadas como M-trópicas, enquanto as cepas X4 são T-trópicas, infectando preferencialmente as células T. Em cerca de 90% dos casos, o tipo R5 (M-trópico) do HIV constitui o vírus predominante encontrado no sangue de indivíduos com infecção aguda e no início da evolução da infecção. Durante o curso da infecção, entretanto, ocorre acúmulo gradual de vírus T-trópicos; são sobretudo virulentos, em virtude de sua capacidade de infectar muitas células T e até mesmo precursores tímicos das células T e de causar maior depleção e comprometimento das células T. O envelope do HIV contém duas glicoproteínas associadas de forma não covalente, a gp120 de superfície e a proteína transmembranar gp41. O passo inicial na infecção consiste na ligação da glicoproteína do envelope gp120 ao CD4, que leva a uma mudança conformacional, produzindo um novo sítio de reconhecimento na gp120 para os correceptores CCR5 ou CXCR4. A ligação aos correceptores induz mudanças conformacionais na gp41, que resultam na exposição de uma região hidrofóbica, denominada peptídeo de fusão, na extremidade da gp41. Esse peptídeo insere-se na membrana celular e nas células-alvo (p. ex., células T ou macrófagos), levando à fusão do vírus com a membrana celular do hospedeiro, um evento que possibilita a entrada do cerne do vírus contendo o genoma do HIV dentro da célula. A necessidade de ligação do HIV aos correceptores pode ter importantes implicações na patogênese da AIDS. As quimiocinas impedem estericamente a infecção das células em cultura pelo HIV por meio de ocupação de seus receptores, de modo que o nível de quimiocinas nos tecidos pode influenciar a eficiência da infecção viral in vivo. Além disso, os polimorfismos no gene que codifica CCR5 estão associados a uma suscetibilidade diferente à infecção pelo HIV. Replicação do vírus. Uma vez internalizado, o genoma de RNA do vírus sofre transcrição reversa, levando à síntese de DNA complementar de dupla fita (cDNA; DNA pró-viral) (ver Figura 6.41). Nas células T em repouso, o cDNA do HIV pode permanecer no citoplasma em uma forma epissomal linear. Nas células T que sofrem divisão, o cDNA torna-se circular, entra no núcleo e integra-se ao genoma do hospedeiro. Após sua integração, o pró-vírus pode permanecer silencioso por meses ou anos, constituindo uma forma de infecção latente. Como alternativa, o DNA pró-viral pode ser transcrito, com formação de partículas virais completas que brotam da membrana celular. Essa infecção produtiva, quando associada a extenso brotamento viral, leva à morte das células infectadas. O HIV infecta as células T de memória e ativadas, porém não é eficiente na infecção produtiva de células T naive (em repouso). As células T naive contêm uma forma ativa de uma enzima que introduz mutações no genoma do HIV. Essa enzima recebeu o nome complicado de APOBEC3 G (para enzima catalítica editora de mRNA apolipoproteína B similar ao polipeptídeo 3 Gtídeo). Trata-se de uma citidina desaminase que introduz mutações de citosina para uracila no DNA viral que é produzido por transcrição reversa. Essas mutações inibem a replicação adicional de DNA por mecanismos que ainda não estão totalmente definidos. A ativação das células T converte a APOBEC3 G em um complexo inativo de alta massa molecular, o que explica por que o vírus é capaz de sofrer replicação em células T previamente ativadas (p. ex., de memória). O HIV também evoluiu para neutralizar esse mecanismo de defesa celular; a proteína viral Vif liga-se à APOBEC3 G e promove sua degradação por proteases celulares. A conclusão do ciclo de vida do vírus em células com infecção latente só ocorre após a ativação celular, e, no caso da maioria das células T CD4+, a replicação e a eliminação do vírus resulta em lise celular. A ativação das células T por antígenos ou citocinas suprarregula vários fatores de transcrição (como o NF-κB), que estimulam a transcrição de genes que codificam citocinas (como a IL-2 e seu receptor). Nas células T em repouso, o NF-κB é mantido inativo no citoplasma em um complexo com a proteína IκB (inibidora de κB). A estimulação das células por antígenos ou citocinas ativa quinases citoplasmáticas, que fosforilam a IκB e a direcionam para degradação enzimática, liberando assim o NF-κB e possibilitando sua translocação para o núcleo. No núcleo, o NF-κB liga-se às sequências reguladoras de vários genes, incluindo os das citocinas que são expressas nas células T ativadas. As sequências de repetição terminais longas que flanqueiam o genoma do HIV também contêm sítios de ligação do NF-κB, que podem impulsionar a expressão do RNA viral. Imagine agora uma célula CD4+ com infecção latente que encontra um antígeno ambiental. A indução do NF-κB nessa célula (uma resposta fisiológica) ativa a expressão dos genes do HIV (um resultado patológico) e leva, em última análise, à produção de vírions e à lise celular. Além disso, o TNF e outras citocinas produzidas por macrófagos ativados também estimulam a atividade do NF-κB nas células T. Por conseguinte, parece que o HIV se desenvolve quando as células T e os macrófagos do hospedeiro são fisiologicamente ativados, um ato que pode ser mais descrito como “subversão interna”. Essa ativação in vivo pode resultar da estimulação antigênica pelo próprio HIV ou por outros microrganismos infectantes. Os indivíduos infectados pelo HIV correm risco aumentado de outras infecções, levando a um aumento da ativação dos linfócitos e produção de citocinas pró-inflamatórias. Estas, por sua vez, estimulam uma maior replicação do HIV, perda adicional de células T CD4+ e mais infecção. Por conseguinte, é fácil entender como, nos indivíduos com AIDS, pode ser estabelecido um círculo vicioso que culmina na destruição inexorável do sistema imune. Mecanismo de depleção das células T na infecção pelo HIV A perda de células T CD4+ infectadas ocorre sobretudo em consequência dos efeitos citopáticos diretos do vírus em replicação. Nos indivíduos infectados, são produzidas diariamente cerca de 100 bilhões de novas partículas virais, e 1 a 2 bilhões de células T CD4+ morrem a cada dia. Como a frequência de células infectadas na circulação é muito baixa, suspeitou-se, durante muitos anos, que a imunodeficiência não era proporcional ao nível de infecçãoe não podia ser atribuída à morte das células infectadas. De fato, muitas células infectadas encontram-se nos tecidos (p. ex., em órgãos linfoides secundários e nas mucosas), e a morte dessas células constitui uma importante causa da perda celular inexorável e eventualmente profunda. Além disso, até certo ponto, o sistema imune pode substituir as células T que morrem, razão pela qual a taxa de perda de células T pode parecer enganosamente baixa; todavia, à medida que a doença progride, a renovação de células T CD4+ é incapaz de acompanhar o ritmo de suas perdas. Além da morte direta das células causada pelo vírus, outros mecanismos podem contribuir para a perda das células T. Esses mecanismos incluem: •A ativação crônica de células não infectadas, em resposta ao próprio HIV ou a infecções que são comuns em indivíduos com AIDS, leva à apoptose dessas células pelo processo de morte celular induzida por ativação. Por conseguinte, o número de células T CD4+ que morrem pode ser consideravelmente maior do que o número de células infectadas. O mecanismo molecular desse tipo de morte celular não é conhecido; •A infecção não citopática (abortiva) pelo HIV ativa a via do inflamassomo e leva a uma forma de morte celular, que foi denominada piroptose (ver Capítulo 2). Durante esse processo, as citocinas inflamatórias e o conteúdo celular são liberados, potencializando, assim, o recrutamento de novas células e aumentando o número de células que podem ser infectadas. Essa forma de morte celular pode desempenhar um papel na propagação da infecção; •O HIV infecta células nos órgãos linfoides secundários (baço, linfonodos, tonsilas) e pode causar destruição progressiva da arquitetura e da composição celular dos tecidos linfoides; •A perda de precursores imaturos das células T CD4+ também pode ocorrer por infecção direta das células progenitoras do timo ou por infecção de células acessórias que secretam citocinas essenciais para a maturação das células T CD4+; •Pode ocorrer fusão entre células infectadas e não infectadas, com formação de sincícios (células gigantes). Em cultura de tecidos, a gp120, expressa em células infectadas em fases produtivas, liga-se a moléculas de CD4 em células T não infectadas, seguida de fusão celular. As células fundidas costumam morrer em poucas horas. Essa propriedade de formação de sincícios é geralmente confinada ao tipo X4 T-trópico do HIV-1. Por essa razão, esse tipo é frequentemente designado como vírus indutor de sincícios (SI), diferentemente do vírus R5; •Embora a acentuada redução de células T CD4+ – uma característica essencial da AIDS – possa ser responsável pela maior parte da imunodeficiência tardia no curso da infecção pelo HIV, há evidências de defeitos qualitativos nas células T, até mesmo em indivíduos assintomáticos infectados pelo HIV. Incluem redução da proliferação de células T induzida por antígenos, diminuição das respostas tipo Th1, defeitos na sinalização intracelular e muito mais. A perda das respostas das células Th1 resulta em profunda deficiência da imunidade celular, levando a um aumento da suscetibilidade a infecções por vírus e por outros microrganismos intracelulares. Há também uma perda seletiva do subgrupo de memória das células T auxiliares CD4+ no início da evolução da doença, o que explica as respostas de memória precárias a antígenos previamente encontrados. A infecção crônica ou latente de baixo nível das células T constitui uma importante característica da infecção pelo HIV. Acredita-se amplamente que o pró-vírus integrado, sem a expressão de genes virais (infecção latente), possa permanecer nas células durante meses a anos. Mesmo com terapia antiviral potente, que praticamente esteriliza o sangue periférico, o vírus latente esconde-se dentro das células CD4+ (tanto células T quanto macrófagos) nos linfonodos. De acordo com algumas estimativas, 0,05% das células T CD4+ nos linfonodos apresenta infecção latente. Como a maioria dessas células T CD4+ consiste em células de memória, elas apresentam vida longa, com tempo de vida de meses a anos, proporcionando, assim, um reservatório persistente do vírus. As células T CD4+ desempenham um papel fundamental na regulação das respostas imunes tanto celulares quanto humorais. Infecção de células não T pelo HIV Além da infecção e da perda das células T CD4+, a infecção dos macrófagos e das CD também é importante na patogênese da infecção pelo HIV. À semelhança das células T, o número de macrófagos infectados pelo HIV nos tecidos ultrapassa acentuadamente o número de monócitos infectados no sangue. Em certos tecidos, como os pulmões e o encéfalo, 10 a 50% dos macrófagos são infectados. É importante ressaltar vários aspectos da infecção dos macrófagos pelo HIV: •Embora a divisão celular seja necessária para a entrada no núcleo e a replicação da maioria dos retrovírus, o HIV-1 pode infectar e multiplicar-se em macrófagos de diferenciação terminal que não sofrem divisão. Essa propriedade do HIV-1 depende do gene vpr viral. A proteína Vpr permite que o complexo de pré-integração do HIV seja direcionado para o núcleo por meio do poro nuclear •Nos macrófagos infectados, ocorre brotamento de quantidades relativamente pequenas do vírus a partir da superfície celular, porém essas células contêm grandes números de partículas virais, que frequentemente estão localizadas em vesículas intracelulares. Embora os macrófagos permitam a replicação viral, eles são muito resistentes aos efeitos citopáticos do HIV, diferentemente das células T CD4+. Por conseguinte, nos estágios avançados da infecção pelo HIV, quando o número de células T CD4+ declina acentuadamente, os macrófagos podem constituir um importante local de replicação viral continuada e reservatório para a persistência dos vírus •Os macrófagos podem atuar como portas de infecção, visto que, em mais de 90% dos casos, a infecção aguda pelo HIV ocorre por cepas M-trópicas •Foi relatado que até mesmo monócitos não infectados apresentam defeitos funcionais inexplicáveis que podem ter consequências importantes na defesa do hospedeiro. Esses defeitos incluem comprometimento da atividade microbicida, diminuição da quimiotaxia, redução da secreção de IL-1, secreção inapropriada de TNF e capacidade precária de apresentação de antígenos às células T. Além disso, os monócitos infectados podem transportar o HIV do sangue para várias partes do corpo, incluindo o sistema nervoso, onde os monócitos infectados infiltrados podem constituir uma fonte do vírus que infecta células da micróglia residentes ; Os estudos realizados documentaram que, além dos macrófagos, dois tipos de CD também constituem alvos importantes para o início e a manutenção da infecção pelo HIV: as CD da mucosa e foliculares. Acredita-se que as CD da mucosa sejam infectadas pelo vírus e possam transportá-lo até os linfonodos regionais, onde o vírus é transmitido para as células T CD4+. As CD também expressam um receptor do tipo lectina, que se liga ao HIV e o apresenta em uma forma intacta e infecciosa às células T, promovendo, assim, a infecção dessas células. As células dendríticas foliculares (CDF) nos centros germinativos dos linfonodos constituem reservatórios potenciais do HIV. Embora algumas CDF possam ser suscetíveis à infecção pelo HIV, as partículas virais são encontradas, em sua maioria, na superfície dos processos dendríticos. As CDF apresentam receptores para a porção Fc das imunoglobulinas e, portanto, capturam os vírions do HIV recobertos por anticorpos anti-HIV. Os vírions cobertos com anticorpos localizados nas CDF mantêm a capacidade de infectar células T CD4+ à medida que atravessam a rede intrincada formada pelos processos dendríticos das CDF. As células T auxiliares foliculares infectadas nos centros germinativos também são reservatórios do HIV. Como os CTL são, em grande parte, excluídos dos centros germinativos, esses reservatóriosvirais não podem ser prontamente eliminados pela resposta imune do hospedeiro. Função das células B na infecção pelo HIV Embora o HIV infecte as células T, os macrófagos e as CD, os indivíduos com AIDS também apresentam anormalidades profundas na função das células B. Paradoxalmente, no início da evolução da doença, ocorre ativação policlonal das células B, resultando em hiperplasia das células B dos centros germinativos, algumas vezes acompanhada de fenômenos autoimunes, como púrpura trombocitopênica imune. A ativação das células B pode resultar de múltiplos mecanismos: reativação ou reinfecção pelo EBV, que é um ativador policlonal de células B; a gp41 viral, que pode promover o crescimento e a diferenciação das células B; e a produção aumentada de IL-6 por macrófagos infectados pelo HIV, que estimula a proliferação das células B. O número de plasmócitos também aumenta, levando à hipergamaglobulinemia e plasmocitose da medula óssea. Apesar da ativação aumentada das células B e do risco de autoimunidade, os pacientes com AIDS não são capazes de desencadear respostas efetivas de anticorpos contra patógenos novos encontrados. Essa incapacidade pode resultar, em parte, da falta de auxílio das células T; entretanto, as respostas dos anticorpos contra antígenos independentes de T também estão suprimidas, e, portanto, pode também haver defeitos intrínsecos nas células B. Devido ao comprometimento da imunidade humoral, esses pacientes são propensos a infecções disseminadas causadas por bactérias encapsuladas, como S. pneumoniae e H. influenzae, que precisam de anticorpos para sua opsonização e eliminação efetivas. - QUADRO CLÍNICO A evolução típica da infecção pelo HIV é definida por três fases, que geralmente ocorrem em um período de 8 a 12 anos. As três fases são infecção primária, fase de latência ou crônica assintomática e AIDS franca. Muitas pessoas, quando são infectadas incialmente pelo HIV, apresentam uma síndrome semelhante a mononucleose conhecida como infecção primária, que pode durar algumas semanas. Essa fase aguda inclui febre, fadiga, mialgia, dor de garganta, sudorese noturna, distúrbios gastrintestinais, linfadenopatia, erupção cutânea maculopapular e cefaleia. Durante a infecção primária, existe aumento da replicação viral, que resulta em cargas virais muito altas, algumas vezes superiores a 1.000.000 cópias/mℓ, e queda da contagem de linfócitos T CD4+. De modo geral, os sinais/sintomas da fase primária da infecção pelo HIV surgem aproximadamente 1 mês após a exposição ao HIV, embora possam aparecer mais cedo. Após algumas semanas, o sistema imunológico atua para controlar a replicação viral e reduzir a carga viral a um nível mais baixo. Essa carga viral permanece, com frequência, nesse nível mais baixo. As pessoas cujo diagnóstico da infecção pelo HIV é feito na fase primária representam uma oportunidade única em termos de tratamento. Alguns especialistas especulam que o tratamento, se for instituído precocemente, reduz o número de células infectadas pelo HIV de vida longa (p. ex., células de memória CD4+). O tratamento precoce também protege o funcionamento dos linfócitos T CD4+ infectados pelo HIV e dos linfócitos T citotóxicos. Por fim, o tratamento precoce poderia ajudar a manter uma população viral homogênea que seria mais bem controlada pelos fármacos antirretrovirais e pelo sistema imunológico. A fase primária é seguida por um período latente durante o qual a pessoa não apresenta sinais nem sintomas da doença. O período latente mediano é de aproximadamente 10 anos. Durante esse período de tempo, a contagem de linfócitos T CD4+ cai gradativamente a partir da faixa normal de 800 a 1.000/μℓ para 200/μℓ ou menos. Dados mais recentes sugerem que a queda do número de linfócitos T CD4+ não é constante com base nos níveis de RNA do HIV e os fatores relacionados com a variabilidade no declínio da contagem dos linfócitos T CD4+ estão sendo investigados. Alguns indivíduos apresentam linfadenopatia nessa fase. De modo geral, a linfadenopatia generalizada persistente (LGP) é definida como aumento crônico dos linfonodos por mais de 3 meses em pelo menos dois locais do corpo, não incluindo a região inguinal. Os linfonodos podem ser dolorosos ou visíveis externamente. A terceira fase, AIDS franca, ocorre quando uma pessoa apresenta uma contagem de linfócitos T CD4+ inferior a 200/μℓ ou uma doença definidora de AIDS. Sem tratamento antirretroviral, essa fase pode evoluir para morte em 2 ou 3 anos ou, em alguns casos, mais rápido ainda. O risco de infecções oportunistas e morte aumenta significativamente quando a contagem de linfócitos T CD4+ cai abaixo de 200/μℓ . A fase final consiste em progressão para a AIDS, caracterizada pela desagregação das defesas do hospedeiro, aumento dramático da carga viral e doença clínica grave e potencialmente fatal. O paciente típico apresenta febre de longa duração (> 1 mês), fadiga, perda de peso, diarreia e aumento generalizado dos linfonodos. Depois de um período variável, surgem infecções oportunistas graves, neoplasias secundárias ou doença neurológica clínica (agrupadas com a designação de doenças indicadoras da AIDS, discutidas mais adiante), e diz-se que o paciente desenvolveu AIDS. Na ausência de tratamento, a maioria dos pacientes com infecção pelo HIV evolui para a AIDS depois de uma fase crônica de 7 a 10 anos de duração. As exceções a essa evolução típica incluem progressores rápidos e não progressores em longo prazo. Nos progressores rápidos, a fase intermediária crônica é reduzida para 2 a 3 anos após a infecção primária. Cerca de 5 a 15% dos indivíduos infectados são não progressores em longo prazo, definidos como indivíduos infectados pelo HIV e não tratados, que permanecem assintomáticos por 10 anos ou mais, com contagens estáveis de células T CD4+ e baixa carga viral (geralmenteoutras infecções oportunistas. Entre os patógenos mais comuns, destacam-se Candida, citomegalovírus, micobactérias atípicas e típicas, Cryptococcus neoformans, Toxoplasma gondii, Cryptosporidium, herpes-vírus simples, papovavírus e Histoplasma capsulatum •A candidíase é a infecção fúngica mais comum em pacientes com AIDS, e as infecções da cavidade oral, da vagina e do esôfago são as suas manifestações clínicas mais comuns. Em indivíduos assintomáticos infectados pelo HIV, a candidíase oral constitui um sinal de descompensação imunológica e, com frequência, anuncia a transição para a AIDS. A candidíase invasiva é rara em pacientes com AIDS e costuma ocorrer quando há neutropenia induzida por fármacos ou uso de cateteres de demora •O citomegalovírus (CMV) pode causar doença disseminada ou pode ser localizado, afetando o olho e o trato gastrintestinal. Antigamente, a coriorretinite por CMV era observada em aproximadamente 25% dos pacientes, porém sua incidência diminuiu acentuadamente em consequência da TAR. A retinite por citomegalovírus ocorre quase exclusivamente em pacientes com contagens de células T CD4+ inferiores a 50/μℓ. A doença gastrintestinal, que é observada em 5 a 10% dos casos, manifesta-se como esofagite e colite, estando esta última associada a múltiplas ulcerações da mucosa •A infecção bacteriana disseminada por micobactérias atípicas (principalmente Mycobacterium avium-intracellulare) também ocorre tardiamente, no contexto da imunossupressão grave. Coincidentemente com a epidemia da AIDS, houve uma elevação dramática na incidência de tuberculose. Em todo o mundo, quase um terço de todas as mortes em pacientes com AIDS é atribuível à tuberculose, porém essa complicação continua sendo incomum nos EUA. Os pacientes com AIDS correm risco de reativação da doença pulmonar latente, bem como de infecção primária. Diferentemente da infecção causada por micobactérias atípicas, a infecção por M. tuberculosis manifesta-se no início da evolução da AIDS. À semelhança da tuberculose em outros contextos, a infecção pode ficar limitada aos pulmões ou pode acometer múltiplos órgãos. A extensão da infecção depende do grau de imunossupressão; a disseminação é mais comum em pacientes com contagens muito baixas de células T CD4+. Mais preocupantes são os relatos que indicam a resistência de um número cada vez maior de microrganismos isolados a múltiplos medicamentos antimicobacterianos •Diversas infecções oportunistas têm como alvo o SNC. Ocorre criptococose em cerca de 10% dos pacientes com AIDS. Conforme observado em outras situações com imunossupressão, a meningite constitui a principal manifestação clínica da criptococose. O Toxoplasma gondii, outro invasor frequente do SNC na AIDS, provoca encefalite e é responsável por 50% de todas as lesões expansivas do SNC. O vírus JC, um papovavírus humano, constitui outra causa importante de infecção do SNC em pacientes infectados pelo HIV. Esse vírus causa leucoencefalopatia multifocal progressiva (ver Capítulo 28) •Outras infecções acometem preferencialmente o trato gastrintestinal e os órgãos genitais. A infecção pelo herpes-vírus simples manifesta-se por ulcerações mucocutâneas que acometem a boca, o esôfago, os órgãos genitais externos e a região perianal. A diarreia persistente, que é comum em pacientes não tratados com AIDS avançada, é frequentemente causada por infecções por protozoários, como Cryptosporidium, Isospora belli ou microsporídeos. Esses pacientes apresentam diarreia aquosa e profusa crônica, com perda maciça de líquidos. A diarreia também pode resultar de infecção por bactérias entéricas, como Salmonella e Shigella, bem como por M. avium-intracellulare. Tumores Os pacientes com AIDS apresentam uma elevada incidência de certos tumores, sobretudo sarcoma de Kaposi (SK), linfoma de células B, câncer de colo do útero em mulheres e câncer anal em homens. Foi estimado que 25 a 40% dos indivíduos infectados pelo HIV sem tratamento acabarão desenvolvendo uma neoplasia maligna. Uma característica comum desses tumores é o fato de eles serem causados por vírus de DNA oncogênicos, especificamente o herpes-vírus humano-8 (SK), o EBV (linfoma de células B) e o papilomavírus humano (carcinoma do colo do útero e anal). Esses vírus podem estabelecer infecções latentes até mesmo em pessoas saudáveis, porém costumam ser mantidos sob controle por um sistema imunológico competente. O risco de neoplasia maligna em pacientes com AIDS está aumentado, sobretudo devido a uma incapacidade de conter as infecções e a uma diminuição da imunidade contra os tumores. Sarcoma de Kaposi: O SK, um tumor vascular que, nos demais aspectos, é raro nos EUA, constitui a neoplasia mais comum em pacientes com AIDS. No início da epidemia da AIDS, até 30% dos homens homossexuais ou bissexuais infectados tinham SK; todavia, nesses últimos anos, com o uso da TAR, houve um acentuado declínio na sua incidência. Em contrapartida, em áreas da África Subsaariana onde a infecção pelo HIV é frequente e, em grande parte, não tratada, o SK é um dos tumores mais comuns. As lesões do SK caracterizam-se pela proliferação de células fusiformes, que expressam marcadores de células endoteliais (vasculares ou linfáticas) e de células musculares lisas. Há também uma profusão de espaços vasculares em fenda, sugerindo que as lesões podem se originar de precursores mesenquimais primitivos dos canais vasculares. Além disso, as lesões do SK exibem infiltrados crônicos de células inflamatórias. Muitas das características do SK sugerem que ele não é um tumor maligno (apesar de seu nome assustador). Por exemplo, as células fusiformes em muitas lesões do SK são policlonais ou oligoclonais, embora as lesões mais avançadas possam exibir, em certas ocasiões, monoclonalidade. O modelo atual de patogênese do SK consiste na produção pelas células fusiformes de fatores pró-inflamatórios e angiogênicos, que recrutam os componentes inflamatórios e neovasculares da lesão, e estes últimos componentes fornecem sinais que auxiliam na sobrevida e no crescimento das células fusiformes. - DIAGNÓSTICOS Os métodos diagnósticos usados na infecção pelo HIV incluem métodos laboratoriais para determinar a existência de infecção e métodos clínicos para avaliar a evolução da doença. O método mais acurado e barato de identificar a infecção pelo HIV é a pesquisa de anticorpos anti-HIV. Os primeiros ensaios comerciais para detecção do HIV surgiram em 1985 para rastreamento de sangue doado para transfusão. Desde então, o uso de testes de detecção de anticorpos foi expandido para incluir a investigação de pessoas com risco aumentado de contrair a infecção pelo HIV. O procedimento do teste de anticorpos anti-HIV consiste no rastreamento com imunoensaio enzimático, também conhecido como ensaio imunossorvente ligado a enzima (ELISA), seguido por um teste confirmatório, o ensaio Western blot, que é realizado se o imunoensaio enzimático for positivo. Tendo em vista as questões psicológicas relacionadas com a infecção pelo HIV e a AIDS, é crucial manter a sensibilidade e a confidencialidade sempre que for implementada a testagem. A reação da cadeia da polimerase (PCR) é uma técnica de detecção do DNA do HIV. A PCR detecta o vírus em vez de o anticorpo contra o vírus. Os testes Western blot e ensaio imunoenzimático detectam os anticorpos anti-HIV. A PCR é útil no diagnóstico de infecção pelo HIV em recém-nascidos/lactentes de mulheres infectadas porque eles apresentam anticorpos anti-HIV maternos (independentemente de estarem ou não infectados). Como a quantidade de DNA viral na célula infectada pelo HIV é pequena em comparação com a quantidade de DNA humano, a detecção direta do material genético viral é difícil. A PCR é um método de amplificar o DNA viral em até 1 milhão de vezes (ou mais) para aumentar a probabilidade de detecção. (PORTH) A contagem de LT-CD4+ é um dosbiomarcadores mais importantes para avaliar a urgência de início da TARV e a indicação das imunizações e das profilaxias para IO. Com esse exame, é possível avaliar o grau de comprometimento do sistema imune e a recuperação da resposta imunológica com o tratamento adequado, além de definir o momento de interromper as profilaxias. A contagem de LT-CD4+ tem importância na avaliação inicial, enquanto a CV-HIV é considerada o padrão-ouro para monitorar a eficácia da TARV e detectar precocemente problemas de adesão em PVHIV. (PROTOCOLO,2018) Os testes rápidos (TR) : são testes simples, que de forma visual demonstram a ligação do antígeno (que fica grudado na placa) com o anticorpo (que pode estar presente na amostra). Esses exames fornecem o resultado em até 30 minutos. Podem ser realizados fora do ambiente laboratorial, com amostra de sangue obtida por punção digital ou fluido oral. Esses testes ajudaram bastante a ampliar o diagnóstico da infecção pelo HIV, por causa da facilidade de obtenção da amostra. Eles possuem uma janela imunológica que pode variar de 1 a 3 meses, portanto, não são muito sensíveis para detecção de infecção aguda. WESTERN BLOT: Esse teste é bastante usado para confirmar o diagnóstico da infecção pelo HIV, já que é mais específico que os testes prévios. Ele detecta a presença de anticorpos produzidos contra diferentes partes (antígenos) do vírus. Ele funciona da seguinte forma: imagine uma membrana que está impregnada de proteínas do HIV que foram separadas por eletroforese. A amostra de soro ou plasma do paciente é incubada nessa membrana e, se lá houver algum anticorpo contra alguma das proteínas do HIV, ocorrerá a ligação antígeno-anticorpo. Essa ligação é detectada por anticorpos secundários, o que resulta na formação de “bandas” nos locais em que os antígenos estão. Dessa forma, conseguimos saber exatamente contra que antígenos os pacientes apresentam anticorpos. TESTE MOLECULAR: Também chamado de carga viral, esse exame é o que detecta a infecção pelo HIV de forma mais precoce. Ele identifica o RNA do vírus, que é o primeiro marcador a aparecer. É um teste útil para ser usado quando não é possível a detecção de anticorpos, como no caso do diagnóstico da infecção pelo HIV em crianças menores de 18 meses (os anticorpos da mãe são adquiridos pelas crianças e podem falsear o resultado). Sabendo dos testes disponíveis e que devemos sempre fazer dois exames, podemos fazer as seguintes combinações para diagnosticar a infecção pelo HIV. - TRATAMENTO A recomendação de início precoce da TARV considera, além dos claros benefícios relacionados à redução da morbimortalidade em PVHIV, a diminuição da transmissão da infecção, o impacto na redução da tuberculose – a qual constitui principal causa infecciosa de óbitos em PVHIV no Brasil e no mundo – e a disponibilidade de opções terapêuticas mais cômodas e bem toleradas. Não existe cura para a infecção pelo HIV. Os medicamentos disponíveis atualmente para o tratamento reduzem a carga viral no corpo, mas não erradicam o HIV. . Esse regime múltiplo é comumente denominado tratamento antirretroviral altamente ativo, ou TARAA (ou HAART, do inglês para highly active antiretroviral therapy) (Fig. 45.16). Há cinco classes de fármacos antirretrovirais; cada um atinge um dos quatro processos virais. Essas classes de fármacos são inibidores da trans- criptase reversa análogos de nucleosídeo ou nucleotídeo (ITRNs), inibidores da transcriptase reversa não análogo de nucleosídeo (ITRNNs), inibidores da protease (IP), inibidores de entrada e inibidores da integrase.(WHALEN,6°Ed) A escolha da associação adequada se baseia em 1) evitar o uso de dois fármacos do mesmo análogo nucleosídico; 2) evi- tar a sobreposição de toxicidades e características genotípicas e fenotípicas do vírus; 3) considerar os fatores do paciente, como sintomas da doença e doenças concomitantes; 4) considerar o impacto da interação entre fárma- cos; e 5) facilitar a adesão ao regime. Os objetivos do tratamento são supri- mir de forma máxima e durável a replicação do RNA HIV, restabelecer e preservar a função imunológica, reduzir a morbidade e a mortalidade rela- cionadas ao HIV e melhorar a qualidade de vida.(WHALEN,6°Ed) A terapia inicial deve sempre incluir combinações de três ARV, sendo dois ITRN/ ITRNt associados a uma outra classe de antirretrovirais (ITRNN, IP/r ou INI). No Brasil, para os casos em início de tratamento, o esquema inicial preferencial deve ser a associação de dois ITRN/ITRNt – lamivudina (3TC) e tenofovir (TDF) – associados ao inibidor de integrase (INI) – dolutegravir (DTG). Exceção a esse esquema deve ser observada para os casos de coinfecção TB-HIV, MVHIV com possibilidade de engravidar e gestantes. A associação de tenofovir com lamivudina (TDF/3TC) além de estar disponível em coformulação e permitir tomada única diária, apresenta um perfil favorável em termos de toxicidade, supressão virológica, resposta de LT-CD4+, lipoatrofia e toxicidade hematológica quando comparada ao AZT. Aparentemente apresenta um perfil favorável em termos de eficácia virológica quando comparada ao ABC, em especial quando a CV >100.000 cópias/mL. A associação TDF/3TC é recomendada para os casos de coinfecção HIV-HBV. INIBIDORES DA TRANSCRIPTASE REVERSA ANÁLOGOS NUCLEOSÍDEOS E NUCLEOTÍDEOS (ITRN) Os inibidores da transcriptase reversa análogos nucleotídeos/nucleosídeos (ITRN) são as principais medicações usadas no tratamento do paciente infectado com o HIV. Certo, mas o que esse nome quer dizer? Pense comigo: eles são parecidos com os nucleotídeos/nucleosídeos (o tenofovir é um análogo da adenosina e a lamivudina e entricitabina da citosina) e, no momento da formação da fita do DNA do HIV, ligam-se à transcriptase reversa e bloqueiam a formação desse novo ácido nucléico. Essa classe é geralmente usada em pares. Outros exemplos de medicações dessa classe incluem a zidovudina, análogo da timidina, e o abacavir, da guanosina. O tenofovir e a lamivudina são ITRN que também têm ação contra o vírus da hepatite B, logo, essas drogas devem ser as preferidas para fazerem parte do esquema de tratamento do paciente coinfectado, já que reduzem o risco de complicações. A respeito dos efeitos colaterais dessa classe, a toxicidade mitocondrial é o mais importante. Ela pode manifestar-se através de neuropatia periférica, lipodistrofia, pancreatite e esteatose hepática. INIBIDORES DA TRANSCRIPTASE REVERSA NÃO-ANÁLOGOS NUCLEOSÍDEOS E NUCLEOTÍDEOS (ITRNN) Os ITRNN ligam-se e inibem diretamente a enzima transcriptase reversa sem “parecerem” um nucleosídeo/ nucleotídeo, por isso seu sítio de ação é diferente dos ITRN. O efavirenz é o representante mais conhecido dessa classe e, antes da introdução do dolutegravir no Sistema Único de Saúde (SUS), ocupava seu lugar fazendo parte do esquema inicial de tratamento do Ministério da Saúde. Outras drogas dessa classe são a nevirapina (NVP), usada em alguns casos de resistencia viral e na profilaxia da transmissão vertical, e a etravirina, também usada em situações de resistência viral. O efavirenz é o grande conhecido dessa classe. É uma medicação que possui alguns efeitos colaterais bem indesejáveis, como terror noturno, confusão mental, sonhos vívidos, sensação constante de estar com “ressaca” e alterações psiquiátricas. Por isso, perdeu seu posto para o dolutegravir no esquema básico inicial. INIBIDORES DA PROTEASE (IP) Como o nome já diz, eles inibem a protease, enzima que quebra proteínas do vírus, impedindo a produção de subunidades funcionais. Dessa forma, o vírus liberado pela célula é imaturo e não infectante. Todas as drogas dessa classe devem ser administradas juntamente com o ritonavir pelo seu efeito booster (que aumenta a meia-vida da droga). Isso leva a uma melhor potência da medicação e à possibilidade de administração das drogas em doses menores e comintervalos maiores. Os principais representantes dessa classe são o lopinavir/ritonavir, darunavir/ritonavir e atazanavir/ritonavir. Atualmente, são mais usados em casos de falha terapêutica em associação com outras drogas. São medicações potentes, mas que estão associadas a efeitos colaterais gastrointestinais e metabólicos, como resistência à insulina, hiperglicemia, diabetes, dislipidemia e hepatotoxicidade. INIBIDORES DA INTEGRASE Os grandes representantes dessa classe são o dolutegravir e o raltegravir. São drogas que atuam na integrase. Como o nome já diz, essa enzima tem a função de integrar o novo DNA do vírus ao genoma do hospedeiro. O resultado do seu uso leva a um bloqueio desse processo, que é essencial para a replicação viral. São medicações bem toleradas, com elevada potência e poucos eventos adversos. Podem estar associadas a ganho de peso, tontura e insônia. O DTG pode bloquear a secreção tubular de creatinina, sem reduzir a filtração glomerular. Muitas vezes, isso acarreta uma elevação da creatinina sérica, mas que não tem relação com uma disfunção renal. INIBIDORES DE FUSÃO Essa classe só tem um representante, que é a enfuvirtida (T-20). Ela liga-se à glicoproteína 41 (gp41), que fica no envelope do vírus, e evita sua fusão com a célula do hospedeiro. Essa medicação é injetável e só é usada em pacientes previamente experimentados com outros antirretrovirais. ANTAGONISTAS DO CCR5 Essa classe também só tem um representante: o maraviroc. Ele liga-se ao CCR5, que é um correceptor que ajuda na entrada do HIV na célula do hospedeiro. Dessa forma, ele bloqueia a entrada do vírus nos linfócitos T CD4+. Assim como os inibidores de fusão, é também usado em casos de resistência viral REF: WHALEN, Karen; FINKELL, Richard; PANAVELIL, Thomas A. Farmacologia ilustrada.Grupo A, 2016. NORRIS, Tommie L. Porth - Fisiopatologia. Grupo GEN, 2021. KUMAR, Vinay; ABBAS, Abul K.; ASTER, Jon C. Robbins & Cotran Patologia: Bases Patológicas das Doenças. Grupo GEN, 2023.