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INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA © Editora Bereana, 2023 1ª Edição – novembro de 2023 SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: Instagram do Instituto Bereana: institutobereana Instagram do Professor Danilo Moraes: prof_danilomoraes Canal do YouTube: institutobereanaoficial Página do Facebook: institutobereana INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 3 APRESENTAÇÃO Nós, do Instituto de Educação Teológica Bereana, temos por objetivo capacitar e aperfeiçoar os membros das Igrejas locais no exercício de suas funções ministeriais, bem como, instruir biblicamente todo aquele que deseja se apresentar diante de Deus como um obreiro aprovado. Nosso projeto pedagógico visa alcançar, de forma pertinente e oportuna, as necessidades e desafios da Igreja Cristã, provendo cursos bíblicos e teológicos amparados na inspiração e autoridade da Palavra de Deus. Como Instituição Cristã, visamos não somente o preparo intelectual e espiritual de nossos alunos, mas desejamos contribuir em sua inclusão social, capacitando-o para exercer, através de sua vocação, uma influência cristã abrangente em todas as áreas de nossa sociedade. Nossos Objetivos Procurando sempre um padrão de excelência superior em todos os âmbitos e com meta de aprimoramento constante, a Instituto de Educação Teológica Bereana é, uma instituição organizada, planejada e preparada para formar homens e mulheres que darão frutos sem medidas para a expansão do Reino de Deus. Apresentamos como missão primordial promover o conhecimento do Senhor e de sua gloriosa Palavra; educar pessoas que possam instruir os cristãos brasileiros no caminho da verdade; e auxiliar as igrejas evangélicas na preparação de seus obreiros. Para tanto, o Instituto de Educação Teológica Bereana oferece cursos livres nas áreas de teologia, e especializações, para a difusão, expansão e preservação do evangelho de Cristo e seu Reino. Nossos Diferenciais O Instituto de Educação Teológica Bereana possui um avançado ambiente virtual de aprendizagem, em constante reciclagem, sempre atentando para as novas ferramentas que surgem com o avanço da tecnologia em favor da pedagogia. Nossos cursos são desenvolvidos por uma equipe multidisciplinar comprometida com a qualidade do conteúdo oferecido, assim como com as ferramentas de aprendizagem: interatividades pedagógicas, avaliações online com resultados simultâneos, plantão de dúvidas via telefone (WhatsApp), atendimento via internet, emprego de redes sociais, e grupos de estudos com alunos, o que proporciona excelente integração entre professores e estudantes. Além disso, nosso trabalho com o ensino teológico a distância apresenta uma série de vantagens aos alunos: garantia de rendimento igual ou melhor que os do método presencial; maior flexibilidade dos horários de estudo; oportunidade de formação adaptada às exigências atuais, principalmente às pessoas que não puderam frequentar seminários convencionais; otimização do tempo livre às pessoas sem disponibilidade de horários; desenvolvimento da autonomia do alunado sem desampará-lo em suas necessidades; economia financeira, pois evita gastos com locomoção. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 4 Os cursos presenciais possuem uma equipe treinada e um corpo docente de especialistas, mestres e doutores. Missão O Instituto Bereana, em sua missão fundamental, se ocupa em preparar líderes da igreja para servirem ao reino de Deus no cumprimento de Sua vontade. Para que os líderes sejam bem preparados. Acreditamos, que um líder, homem ou mulher, bem preparado estará em condições de servir dignamente à causa do Evangelho. Assim seus alunos aprendem e são aperfeiçoados no uso e compreensão das Escrituras e da fé cristã; na comunicação eficaz da fé cristã; na edificação e preparo da igreja para o culto e serviço cristão, inclusive fomentando o espírito cooperativo denominacional; na vivência como cidadãos deste mundo; no desenvolvimento de uma vida cristã piedosa e devocional; na vivência dos princípios de mordomia cristã; enfim, em tudo o que lhes dê condições de serem obreiros fieis e bem preparados para também preparar outros na vivência sadia e eficaz para o engrandecimento de nosso Deus como o Senhor de tudo e acima de tudo e todos. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 5 SUMÁRIO APOLOGÉTICA CRISTÃ .................................................................................................................................. 9 O QUE É APOLOGÉTICA? .......................................................................................................................... 9 COMO PODEMOS RESPONDER AO ATEÍSMO ...........................................................................................27 COMO UM DEUS BONDOSO PODE PERMITIR O MAL E O SOFRIMENTO? .................................................45 PODEMOS CRER NA RESSURREIÇÃO DE JESUS? .......................................................................................62 BIBLIOGRAFIA .........................................................................................................................................91 COSMOVISÃO CRISTÃ .................................................................................................................................93 INTRODUÇÃO..........................................................................................................................................93 A Igreja versus o Mundo .............................................................................................................................95 Modernismo ...........................................................................................................................................97 Pós-modernismo .....................................................................................................................................98 Pós-modernismo e Igreja ........................................................................................................................99 Tolerância Intolerante ...........................................................................................................................100 A verdade da Palavra de Deus ...............................................................................................................101 QUE É COSMOVISÃO? ...........................................................................................................................105 Por que as cosmovisões são importantes? ............................................................................................105 Quantas cosmovisões existem? .............................................................................................................106 Em que diferem as cosmovisões? ..........................................................................................................107 Em que acreditam os ateístas? ..............................................................................................................107 Em que acreditam os panteístas? ..........................................................................................................108 Em que acreditam os teístas? ................................................................................................................108 Que é confusão de cosmovisões? ..........................................................................................................109 Como formular as perguntas certas? .....................................................................................................114 A NATUREZA DE UMA COSMOVISÃO CRISTÃ .........................................................................................116 Filosofia Verdadeira Versus Falsa ..........................................................................................................117que uma pessoa siga as leis da razão. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 26 Uma das grandes contribuições feitas pelo falecido Francis Schaeffer foi sua ênfase na necessidade de uma abordagem racional para a apologética. Na sua obra Escape from Reason [Fuga da Razão], ele mostrou a futilidade dos quem tentam rejeitar a razão. Ele sempre criticou aqueles que fazem uma “dicotomia entre a razão e a não-razão.” Ele também critica aqueles que abandonam a razão para descer um andar para o materialismo ou subir um andar para o misticismo. 3. Você não pode provar Deus ou o cristianismo pela Razão De acordo com esta objeção, a existência de Deus não pode ser provada pela razão humana. A resposta depende do que se entende por “provar”. Primeiro, se “provar” significa demonstrar, com certeza matemática, então a maioria dos teístas2 concordam que a existência de Deus não pode ser provada neste sentido. A razão para isso é que a certeza matemática lida apenas com o abstrato, e a existência de Deus (ou qualquer outra coisa) é uma questão de existência concreta e real. A certeza matemática baseia-se em certos axiomas ou postulados que devem ser assumidos a fim de se obter uma conclusão necessária. Mas se a existência de Deus deve ser assumida a fim de ser provada, então a conclusão de que Deus existe é apenas baseada na suposição de que Ele existe, caso em que não é realmente uma prova a todos. A certeza matemática é dedutiva em sua natureza. Alega a partir de premissas dadas. Mas não se pode concluir validamente algo que não já esteja implícito na(s) premissa(s). Neste caso, seria preciso assumir que Deus existe na premissa de modo a validamente inferir esta conclusão. Mas isso é petição de princípio. Segundo, se por “provar”, no entanto, queremos dizer “dar provas suficientes para” ou “dar boas razões para”, então parece lógico que se pode provar a existência de Deus e da verdade do cristianismo. De fato, muitos defensores têm oferecido tais provas e as pessoas tem se tornado cristãs, depois de ler seus escritos. 4. Ninguém é convencido de verdades religiosas pela razão Segundo este argumento, ninguém é persuadido a aceitar uma verdade religiosa através da razão. São fatores psicológicos, pessoais e subjetivos que levam a decisões religiosas, não argumentos racionais. Mas essa acusação é manifestamente falsa por várias razões. Primeiro de tudo, quem já se tornou um crente, por pensar que era irracional e absurdo fazê- lo? Certamente, a grande maioria das pessoas que acreditam em Deus ou aceitam a Cristo fazem-no porque acham que isso é razoável. Em segundo lugar, esta objeção confunde dois tipos de crenças: a crença em e crença de que. Certamente, a crença religiosa em Deus e em Cristo não é baseada na evidência e na razão. Mas sem 2 O teísmo (do grego Théos, "Deus") é uma crença na existência de deuses, seja um ou mais de um, no caso de mais de um, pode existir um supremo. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 27 elas, isso não acaba. Toda pessoa racional olha para ver se há indícios de que o elevador tem um piso antes de entrar no mesmo. Da mesma forma, todas as pessoas racionais querem provas de que um avião pode voar antes de entrar nele. Assim, a crença de que é anterior à crença em. A apologética lida com o primeiro tipo. Ela fornece provas de que Deus existe, de que Cristo é o Filho de Deus, e de que a Bíblia é a Palavra de Deus. A decisão religiosa é um passo de fé, à luz das provas, não um salto de fé no escuro - na ausência de provas. COMO PODEMOS RESPONDER AO ATEÍSMO Enquanto o politeísmo dominou grande parte do pensamento grego antigo e o teísmo dominou a posição cristã medieval, o ateísmo floresceu no mundo moderno. É claro que nem todos que não têm fé num ser divino querem ser chamados de “ateus”. Alguns preferem a atribuição positiva “humanistas”. Outros talvez sejam mais bem descritos como “materialistas”. Mas todos são não- teístas, e a maioria é antiteísta. Alguns preferem o termo mais neutro “ateístas”. Ao contrário do teísta, que acredita que Deus existe além do e no mundo, e do panteísta, que acredita que Deus é o mundo, o ateu acredita que não há Deus neste mundo e nem no além. Só existe um universo ou cosmo e nada mais. Já que os ateus têm muito em comum com os agnósticos e céticos, são muitas vezes confundidos com eles. Tecnicamente, o cético diz: “Eu duvido que Deus exista” e o agnóstico declara “Eu não sei (ou não posso saber) se Deus existe”. Mas o ateu afirma que sabe (ou pelo menos acredita) que Deus não existe. Uma vez, porém, que ateus são todos não-teístas e já que a maioria dos ateus partilha com os céticos a posição antiteísta, muitos dos seus argumentos são iguais. É nesse sentido que o ateísmo moderno baseia-se muito no ceticismo de David Hume e no agnosticismo de Immanuel Kant. Variações do ateísmo. Em geral, há tipos diferentes de ateísmo. O ateísmo tradicional (metafísico) afirma que nunca houve, não há e jamais haverá um Deus. Há muitos que defendem essa posição. Ateus mitológicos como Friedrich Nietzsche, acreditam que o mito “Deus” jamais foi um Ser, mas o modelo vivo pelo qual as pessoas viviam. Esse mito foi morto pelo avanço do INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 28 entendimento e da cultura do homem. Houve uma forma passageira de ateísmo dialético defendido por Thomas Altizer que propôs que o Deus transcendente do passado morreu na encarnação e crucificação de Cristo, e essa morte foi posteriormente realizada nos tempos modernos. Ateus semânticos afirmam que a discussão sobre Deus está morta. Essa posição foi defendida por Paul Van Buren e outros influenciados pelos positivistas lógicos que desafiaram seriamente a significância da linguagem sobre Deus. É claro que os que apoiam esta última posição não precisam nem ser ateus verdadeiros. Podem admitir a existência de Deus e ao mesmo tempo acreditar que não é possível falar sobre ele em termos significativos. Essa posição foi chamada “acognosticismo”, já que nega que possamos falar de Deus em termos cognitivos e significativos. O ateísmo conceitual acredita que há um Deus, mas ele está escondido da nossa visão, obscurecido por nossas construções conceituais. Finalmente, ateus práticos confessam que Deus existe, mas acreditam que devemos viver como se não existisse. A questão é que não devemos usar Deus como muleta para a incapacidade de agir de forma espiritual e responsável. Existem outras maneiras de designar os diversos tipos de ateus. Uma maneira seria por meio da filosofia que expressa seu ateísmo. Dessa maneira pode-se falar de ateus existencialistas (Sartre), ateus marxistas (Marx), ateus psicológicos (Sigmund Freud), ateus capitalistas (Ayn Rand) e ateus comportamentais (B. F. Skinner). Para propósitos apologéticos, a maneira mais aplicável de considerar o ateísmo é no sentido metafísico. Os ateus são pessoas que dão razões para crerem que não existe Deus no mundo nem além dele. Assim, estamos falando sobre ateístas filosóficos em vez de ateus práticos, que apenas vivem como se não houvesse Deus. Argumentos a favor do ateísmo. Os argumentos a favor do ateísmo são em grande parte negativos, apesar de alguns poderem ser formulados em termos positivos. Os argumentos negativos se dividem em duas categorias: 1) argumentos contra as provas da existência de Deus, e 2) argumentos contra a existência de Deus. Na primeira categoria de argumentos, a maioria dos ateus se baseia no ceticismo de Hume e no agnosticismo de Kant. Os ateus oferecem o que consideram ser razões boas e suficientes para acreditar que não existe Deus. Quatro desses argumentos geralmente são usados pelos ateus: 1) a existência do mal; 2) a aparente falta de propósito da vida; 3) ocorrências aleatórias no universo; e 4) a primeira lei da Termodinâmica — segundo a qual “energia não pode nem ser criadanem destruída” como evidência de que o universo é eterno e, logo, não precisa de um Criador. Respostas aos argumentos. A existência do mal. O raciocínio do ateu é circular. O ex-ateu C. S. Lewis argumentou que, para saber que há injustiça no mundo, é preciso haver um padrão de justiça. Então, eliminar Deus efetivamente por causa do mal é postular um padrão moral supremo para declarar que Deus é mau INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 29 (Cristianismo puro e simples). Mas, para os teístas, Deus é o padrão moral supremo, já que não pode existir uma lei moral suprema sem um Provedor Supremo da lei moral. Os ateus argumentam que um Deus absolutamente bom deve ter um bom propósito para tudo, mas não há um bom propósito para a maior parte do mal no mundo. Logo, não pode haver um Deus absolutamente perfeito. Os teístas mostram que só porque não sabemos o propósito das ocorrências do mal não significa que não exista um propósito bom. Esse argumento não refuta Deus necessariamente; apenas prova nossa ignorância do plano de Deus. Seguindo esse raciocínio, só porque não vemos um propósito para todo o mal agora, não significa que jamais saberemos. O ateu é prematuro no seu julgamento. Segundo o teísmo, um dia de justiça está chegando. Se existe um Deus, ele deve ter um bom propósito para o mal, mesmo que não o conheçamos. Pois o Deus teísta é onisciente e sabe tudo. Ele é totalmente benigno e tem uma boa razão para tudo. Assim, pela própria natureza deve ter uma boa razão para o mal. Falta de propósito. Ao supor que a vida não tem propósito, o ateu está sendo mais uma vez um juiz presunçoso e prematuro. Como se pode saber que não há um propósito supremo no universo? Só porque o ateu não sabe o verdadeiro propósito da vida não significa que Deus não tenha um. A maioria das pessoas passa por situações que não fazem sentido na hora, mas eventualmente demonstraram ter grande propósito. O universo aleatório. O suposto caráter aleatório do universo não refuta Deus. Algumas casualidades são apenas aparentes, não reais. Quando O DNA foi descoberto, acreditava-se que ele se dividia aleatoriamente. Agora todo o mundo científico conhece o incrível e complexo padrão envolvido na divisão da molécula de hélix dupla conhecida como DNA. Até casualidades reais têm um propósito inteligente. Moléculas de dióxido de carbono são exaladas aleatoriamente com o oxigênio (e nitogina no ar), mas por um bom propósito. Se não fosse assim, inalaríamos os mesmos gases venenosos que exalamos. E algumas coisas que parecem ser inúteis podem ser o produto de um processo útil. O estrume de cavalo é um bom adubo. Segundo a cronologia do ateu, o universo absorve e neutraliza muito bem seus “lixos”. Até onde sabemos, pouco do que se considera lixo é realmente desperdiçado. Mesmo que exista tal “lixo”, ele pode ser um subproduto necessário de um processo bom num mundo finito como o nosso, assim como serragem resulta da extração e processamento da madeira. A eternidade da matéria (energia). Os ateus geralmente citam de modo incorreto a primeira lei científica da termodinâmica. Ela não deve ser formulada: “Energia não pode ser criada nem destruída”. A ciência como ciência não deve ocupar-se com afirmações de “pode” ou “não pode”. A ciência operacional lida com o que é ou não é, baseada na observação. Uma observação só nos diz, conforme a primeira lei, que “a quantidade de energia real no universo permanece constante”. Isto é, INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 30 apesar da quantidade de energia utilizável estar diminuindo, a quantidade de energia real permanece constante no universo. A primeira lei não diz absolutamente nada sobre a origem ou destruição de energia. Ela é apenas uma observação sobre a presença contínua de energia no cosmo. Ao contrário da segunda lei da termodinâmica, que diz que a energia utilizável do universo está se esgotando e, logo, devemos ter um começo, a primeira lei não afirma que a energia é eterna. Portanto, ela não pode ser usada para eliminar um Criador do cosmos. As crenças do ateísmo. Os ateus não têm crenças idênticas, assim como os teístas. Mas há um núcleo de crenças comuns à maioria dos ateus. Então, apesar de nem todos os ateus acreditarem no que se segue, tudo que segue é aceito pela maioria dos ateus. E a maioria dos ateus acredita no seguinte: Sobre Deus. Os verdadeiros ateus acreditam que apenas o cosmos existe. Deus não criou o homem; as pessoas criaram Deus. Sobre o mundo. O universo é eterno. Se não foi eterno, então surgiu “do nada e por nada”. É autossuficiente e autoperpetuador. Nas palavras do astrônomo Carl Sagan: “O Cosmo é a única coisa que existe, existiu, e tudo que jamais existirá.” (Sagan, Cosmos, 4). Quando indagado sobre o que causou o mundo?”, a maioria dos ateus responderia com Bertrand Russell que ele não foi causado; simplesmente existe. Apenas as partes do universo precisam de uma causa. Elas dependem do todo, mas o todo não precisa de uma causa. Se pedirmos uma causa para o universo, então devemos pedir uma causa para Deus. E se não precisamos de uma causa para Deus, então também não precisamos de uma causa para o universo. Se alguém insistir que tudo precisa de uma causa, o ateu apenas sugere a regressão infinita de causas que jamais chega à primeira causa (i.e., Deus). Pois se tudo deve ter uma causa, então a “primeira causa” também precisa ter. Nesse caso não é mais a primeira, e nada mais o é. Sobre o mal. Ao contrário dos panteístas que negam a realidade do mal, os ateus a afirmam convictamente. Na verdade, enquanto os panteístas afirmam a realidade de Deus e negam a realidade do mal, os ateus, por outro lado, afirmam a realidade do mal e negam a realidade de Deus. Eles acreditam que os teístas são incoerentes ao tentar apegar-se às duas realidades. Sobre os seres humanos. O ser humano é matéria em movimento sem uma alma imortal. Não há mente a não ser o cérebro. Nem alma independente do corpo. Apesar de nem todos os ateus serem materialistas rígidos que identificam a alma com o corpo, a maioria acredita que a alma é dependente do corpo. A alma, na verdade, morre quando o corpo morre. A alma (e mente) pode ser mais que o corpo, da mesma forma que um pensamento é mais que palavras ou símbolos. Mas, como a sombra de uma árvore deixa de existir com a árvore, a alma também não sobrevive à morte do corpo. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 31 Sobre a ética. Não existem absolutos morais, certamente nenhum absoluto divinamente autorizado. Talvez existam alguns valores geralmente aceitos e duradouros. Mas leis absolutamente obrigatórias também parecem implicar um Provedor de Leis absoluto, o que não é uma opção. Já que valores não são descobertos por alguma revelação de Deus, eles devem ser criados. Muitos ateus acreditam que valores morais emergem do processo de tentativa e erro, da mesma forma que as leis de trânsito se desenvolveram. Geralmente a ação correta é descrita em termos do que trará o maior benefício a longo prazo. Alguns reconhecem sinceramente que situações relativas e mutantes determinam o que é certo ou errado. Outros falam sobre o comportamento conveniente (o que “funciona”), e alguns exercem toda sua ética em termos de interesse próprio. Mas praticamente todos os ateus reconhecem que cada pessoa deve determinar valores pessoais, já que não há Deus para revelar o que é certo e errado. Conforme o Manifesto humanista declara: O humanismo afirma que a natureza do universo retratada pela ciência moderna torna inaceitável qualquer garantia sobrenatural ou cósmica dos valores humanos (Kurtz, p. 8). Sobre o destino humano. A maioria dos ateus não vê destino eterno para pessoas, apesar de alguns falarem de um tipo de imortalidade coletiva da raça. Mas, apesar da negação da imortalidade individual, muitos ateus são utopistas. Acreditam num paraíso terrenofuturo. Marx acreditava que a dialética econômica da história produziria inevitavelmente um paraíso comunista. Outros, como Rand, acreditam que o capitalismo puro pode produzir uma sociedade perfeita. Ainda outros acreditam que a razão humana e a ciência podem produzir uma utopia social. No entanto, quase todos reconhecem a mortalidade final da raça humana, mas se consolam na crença de que sua destruição está a milhões de anos de acontecer. Avaliação. Contribuições positivas do ateísmo. Mesmo do ponto de vista teísta, nem todas as posições expressas por ateus são falsas. Os ateus já ofereceram muitas percepções sobre a natureza da realidade. A realidade do mal. Ao contrário dos panteístas, os ateus não ignoram a realidade do mal. Na verdade, a maioria dos ateus tem uma percepção aguçada do mal e da injustiça. Indicam corretamente a imperfeição deste mundo e a necessidade de adjudicação da injustiça. Neste caso, eles estão absolutamente certos ao dizer que um Deus amoroso e onipotente certamente faria algo sobre a situação. Conceitos contraditórios de Deus. Ao afirmar que Deus não é causado por outro, alguns descreveram Deus como se fosse um ser autocriado (causa sui). Os ateus mostram corretamente essa contradição, pois nenhum ser causa a própria existência. Fazer isso seria existir e não existir ao mesmo tempo. Pois causar existência é passar da inexistência à existência. Mas a inexistência não pode causar existência. Nada não pode causar algo. Nesse ponto os ateus estão absolutamente corretos. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 32 Valores humanos positivos. Muitos ateus são humanistas. Juntamente com outros eles afirmam o valor da humanidade e da cultura. Buscam sinceramente as artes e ciências e expressam profunda preocupação por questões éticas. A maioria dos ateus acredita que o racismo, o ódio e a intolerância são errados. Muitos ateus louvam a liberdade e a tolerância e têm outros valores morais positivos. A oposição leal. Os ateus são a oposição leal dos teístas. É difícil ver as falhas do próprio pensamento. Os ateus servem de corretivo para raciocínios teístas inválidos. Seus argumentos contra o teísmo devem fazer cessar o dogmatismo e abrandar o zelo com que muitos crentes desprezam espontaneamente a incredulidade. Na verdade, os ateus desempenham um papel importante de corretivo para o pensamento teísta. Monólogos raramente produzem um raciocínio refinado. Sem ateus, os teístas não teriam uma oposição significativa com que dialogar e explicar seus conceitos de Deus. Enquanto aqueles que creem em alguma forma de Deus atribuem de alguma maneira a existência deste mundo a esse Deus (ou deuses), o ateu, o agnóstico e o cético apresentam uma explicação naturalista e alternativa para este mundo. Definição de Ateísmo A palavra ateísmo vem do grego, sendo formada pelo prefixo a (não ou nenhum) e pelo substantivo theos (deus ou Deus). Um ateísta é alguém que crê que existem provas em favor da inexistência de Deus. Para o ateísta pode-se explicar toda a existência a partir do natural, em vez de a partir do sobrenatural. Um ateísta tem convicção de que toda crença, prova e fé religiosas são falsas. Ao contrário dos agnósticos, o ateísta assume uma posição bem clara, argumentando que as provas relativas à existência ou inexistência de Deus são mutáveis, mas que os indícios favorecem a pressuposição da não existência de Deus. Agnosticismo Agnosticismo é uma palavra de origem grega, sendo formada pelo prefixo a (não ou nenhum) e pelo substantivo gnosis (conhecimento, geralmente adquirido pela experiência). Um agnóstico é alguém que crê que não existem indícios suficientes para se provar ou refutar a existência ou inexistência de Deus ou deuses. Os agnósticos criticam o teísta e o ateísta por seu dogmatismo e pela presunção de tal conhecimento. Existem dois tipos de agnósticos. Um tipo afirma que não há provas suficientes, mas deixa aberta a possibilidade, em algum momento, se chegar-se a ter mais provas de modo que se saiba com segurança a respeito. O segundo tipo está convencido de que, objetivamente, é impossível a quem quer que seja chegar a ter certeza sobre a existência ou a não existência de Deus ou de deuses. Ceticismo INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 33 Ceticismo vem do latim scepticus (indagador, pensativo, aquele que duvida). Por sua vez, a palavra latina vem do grego scepsis (indagação, hesitação, dúvida). Os gregos empregaram a palavra para se referir a uma determinada escola de pensamento filosófico, os céticos, que ensinava que, por ser o conhecimento verdadeiro inatingível, deve-se suspender o juízo em questões pertinentes à verdade. Uma proposição sobre um método de se chegar ao conhecimento: que cada hipótese se submeta continuamente à experimentação; que um método confiável, ou o melhor, ou o único, de se chegar ao conhecimento das questões acima mencionadas é duvidar até que se ache algo indubitável ou algo tão indubitável quanto possível; que, sempre que as provas não forem conclusivas, suspenda- se o juízo; que o conhecimento de todas ou de algumas questões repouse, em algum ponto, em postulados ou pressuposições não comprovados, o papel do ceticismo é lembrar aos homens que é impossível conhecer com certeza absoluta. O cético não afirma nem nega a existência de Deus, e em contraste com o agnóstico duro, o cético não diz que é impossível saber, o agnosticismo, também, é uma forma de dogmatismo — o dogmatismo negativo. O cético afirma que está tomando uma atitude muito mais experimental para com o conhecimento. Não tem certeza se Deus existe ou não existe, nem tem certeza se pode ou não conhecer a Deus. Na realidade, o cético total não tem certeza de coisa alguma. Devido à sobreposição de definições para ateísmo, agnosticismo e ceticismo, às vezes é difícil, e até mesmo desnecessário, distinguir o uso que se faz desses termos. O mais importante a se lembrar é que a maioria das pessoas não religiosas, embora empreguem um desses três termos para si mesmas, geralmente não têm uma clara compreensão de como suas próprias ideias se enquadram em uma categoria, nem tampouco as demais. Uma pessoa pode ser considerada uma ateísta, mas, na prática, enquadrar-se na definição comum de agnóstico. Uma outra pessoa poderá ser considerada cética, mas que admita a possibilidade de mudança de modo a vir a aceitar algumas verdades universais. Se alguém questiona todas as coisas, o título “cético” lhe cabe. Mas visto que possa algum dia vir a ter alguma certeza, é mais adequado ver essa pessoa como um agnóstico. No entanto, se a essa altura a pessoa não crê em Deus, será que “ateísta” é a palavra mais adequada? Embora os três termos nos sejam úteis (como quando lemos outras obras de filosofia), os termos são relativamente sem importância na maioria dos contatos pessoais. Embora o termo ateísmo como designação da crença de que Deus (ou deuses) não existe (m) tenha sido empregado a partir do final do século dezesseis, Nicolau Maquiavel (falecido em 1527) já havia promovido uma ética social que não dependia da crença em um Deus supremo, ou de sua existência. As ideias de muitos filósofos, sendo que nem todos eles foram ateístas de fato, ajudaram a dar forma à filosofia ateísta de hoje. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 34 Num rápido e limitado vislumbre da história do ateísmo, recapitularemos algumas das contribuições feitas ao ateísmo contemporâneo por Hegel, Feuerbach, Marx, Comte, Nietzsche, Jaspers e Sartre. Ideias propostas por filósofos como Bayle, Spinoza, Fichte e Hume, embora não mencionados aqui, também contribuíram para o desenvolvimento do pensamento ateísta contemporâneo. George W. F. Hegel (1770-1831) foi o homem cujos escritos se tornaram uma inspiração para o movimento ateísta contemporâneo. Foi um dos primeiros filósofos de renome a propor a ideiasde que Deus dependia do mundo pelo menos tanto quanto o mundo dependia de Deus. Ele afirmou que sem o mundo Deus não é Deus. De alguma forma, Deus precisava de sua criação. Esse foi o primeiro passo para se dizer que visto que Deus não era suficiente em si mesmo, ele era, então desnecessário, e no final das contas, imaginário. Ludwig Feuerbach (1804-1872) foi um antigo e destacado filósofo ateísta. Ele negou todo sobrenaturalismo e atribuiu toda discussão acerca de Deus à discussão acerca da natureza. Para ele, o homem não depende de Deus, mas da natureza. Feuerbach divulgou o conceito que é às vezes chamado de “projeção da ideia de Deus”. Ele postulou que a ideia de Deus surgiu como consequência do desejo humano de ter alguma espécie de Ser sobrenatural como explicação para a existência do próprio homem e para os eventos que o homem observa ao seu redor. Esse desejo, ou anseio, foi a semente a partir da qual cresceu o mito de Deus. Feuerbach pensava que essa hipótese provava que Deus de fato não existia. Hegel e Feuerbach tiveram forte influência sobre Karl Marx (1818- 1883) e seu colaborador, Friedrich Engels (1820-1895). Marx, um ateísta declarado, pregava que a religião é o ópio do povo e a inimiga de todo progresso. Um aspecto da tarefa da grande revolução do proletariado é a destruição de toda a religião. Augusto Comte (1798-1857) foi um contemporâneo de Marx e Engels, porém um pouco mais velho. Cria que Deus era uma superstição irrelevante. Frequentemente faz-se referência a Friedrich Nietzsche (1844-1900) como o pai da Escola da Morte de Deus. Ele lançou os alicerces para os niilistas que viram mais tarde a ensinar que, uma vez que Deus não existe, o homem deve idealizar o seu próprio modo de vida. Karl Jaspers (1883-1969) e Martin Heidegger (1889-1971) foram dois proeminentes pensadores existencialistas que discutiram a natureza ambígua (e, portanto, desprovida de sentido) da transcendência religiosa. De sua parte, Heidegger também enfatizou que a salvação de uma pessoa está em sua própria independência como um indivíduo separado de todos os demais indivíduos, inclusive, é claro, de qualquer espécie de Deus. Jean-Paul Sartre (1905-1981) foi o mais popular proponente do existencialismo. Ele argumentava que o homem não apenas cria seu próprio destino, mas também que cada homem tem INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 35 somente a si mesmo como a única justificação para sua existência. A vida é desprovida de qualquer significado último, objetivo e eterno. Um indivíduo simplesmente existe, sem ter relação com os demais. Um bom exemplo da perspectiva ateísta encontra-se no Manifesto Humanista (1933). Foi redigido e assinado por humanistas seculares de renome, os quais declaram, num ponto do manifesto, que “o humanismo é a fé no valor supremo e na auto-aperfeiçoabilidade da personalidade humana”. Embora tenha havido muitos outros importantes pensadores na história do ateísmo, esses representam os mais influentes que contribuíram para dar forma ao pensamento ateísta contemporâneo. Argumentos Contra a Existência de Deus Iremos agora apresentar um resumo dos cinco tipos de argumentos que a maioria dos não- teístas empregam para negar a existência de Deus, e, então, apresentaremos uma resposta cristã para cada um deles. Linguagem Exemplo: Não faz sentido falar sobre Deus. “Existem apenas dois tipos de declarações significativas. Uma declaração pode ser exclusivamente uma definição (todos os triângulos têm três lados), sem nos informar acerca do mundo real (se existem de fato triângulos). Ou uma declaração pode ser feita acerca da realidade por conter informação (isto é um triângulo) empiricamente verificável (isto é, que se pode testar pelos sentidos). Falar sobre Deus em declarações que sejam exclusivamente definições não nos informa se Ele, de fato, existe. Todavia, pelo fato de Ele não ser empiricamente verificável não podemos fazer declarações verificáveis a Seu respeito. Visto que declarações que são exclusivamente definições e declarações empiricamente verificáveis são os únicos tipos de declarações significativas que existem, falar sobre a existência de Deus é algo sem sentido ou (como frequentemente se tem dito) é algo absurdo. Na verdade, esse argumento não nega que Deus exista, mas declara que toda discussão a seu respeito é fútil. Conhecimento Exemplo: Não se pode conhecer o real. “Podemos conhecer as coisas no mundo real através do uso dos sentidos e da mente. No entanto, visto que nossos sentidos são imperfeitos e seletivos e que nossa mente é influenciada por tudo o que experimentou anteriormente, nossa percepção de uma coisa é, desse forma, afetada. Portanto, podemos conhecer um objeto conforme ele é para nós, mas não como ele é em si mesmo.” INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 36 Esse argumento não vai especificamente contra a existência de Deus, mas pode ser empregado para negar que se possa conhecer objetivamente a respeito de Deus. Conceitos Morais Exemplo: O Deus cristão não poderia permitir o mal. “Caso houvesse um Deus Todo-poderoso, então ele poderia destruir todo mal. Caso ele fosse totalmente bondoso, então ele iria querer destruir todo mal. Caso esse Deus Todo-poderoso e totalmente bondoso existisse, então ele teria destruído todo o mal. O mal existe. Portanto, o seu Deus Todo-poderoso e totalmente bondoso com toda certeza não existe. Ou, caso exista, é incapaz de acabar com o mal.” Esse não é um argumento contra a existência de todos os deuses, mas apenas contra a existência desse “Deus Todo-poderoso e totalmente bondoso”. A partir dessa questão surgem todos os demais problemas acerca do mal. Entre tais questões pertinentes encontram-se o sofrimento dos inocentes, as calamidades naturais, etc. Métodos Científicos Exemplo 1: Deus é resultado da vontade humana (Psicologia). “O ser humano se sente insuficiente em si mesmo. Ele anseia por Alguém que seja suficientemente grande para salvá-lo das tragédias da vida. Ele deseja que Deus exista. Deus surge a partir da mente humana. Portanto, Deus não tem qualquer realidade objetiva. Ele não existe.” Exemplo 2: Deus é resultado de crença supersticiosa (Sociologia). “O homem primitivo não conseguia explicar, em termos naturais, o mundo ao seu redor. Ele inventou Deus para explicar o desconhecido. Hoje em dia a ciência tem demonstrado que as leis naturais governam o nosso mundo. As leis naturais explicam todas as coisas. Já não precisamos mais da crença em Deus como explicação para as coisas. Portanto, Deus não existe.” Lógica Exemplo 1: A onipotência de Deus é contraditória. “Não pode existir um Deus onipotente (todo-poderoso). Um Deus assim seria derrubado pelas seguintes questões contraditórias (antinomias): 1. Pode Deus criar uma pedra tão pesada que nem ele consiga erguer? 2. Pode Deus fazer com que 2+2 = 6? 3. Pode Deus fazer com que ele mesmo deixe de existir e, então, fazer com que volte à existência? 4. Pode Deus fazer um círculo quadrado? INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 37 Caso Deus seja todo-poderoso, deve ser capaz de realizar tais coisas. Mas, ao fazê-las, estará inviabilizando sua própria onipotência. Logicamente ele não existe. Exemplo 2: Os atributos de Deus se contradizem mutuamente. “Como um ser pode ao mesmo tempo ter amor e ira? Como Deus pode ser simultaneamente alguém que ama totalmente (dando ao homem o livre-arbítrio), e conhece todas as coisas (predestinando as ações humanas através de sua presciência)? Como Deus pode ser totalmente bom e, ainda assim, totalmente livre (capaz de escolher o mal)? Pelo fato de que, do ponto de vista lógico, os atributos de Deus se contradizem mutuamente, certamente ele não existe.” Respostas Cristãs ao Ateísmo Defrontar-se, de uma só vez, com uma variedade de argumentos contra a existência de Deus pode seralgo chocante. Muitos estudantes cristãos que não estão familiarizados com a filosofia secular, às vezes não conseguem responder a esses argumentos, quando pela primeira vez são confrontados com eles. Temos apresentado alguns dentre os argumentos mais comuns que representam a atitude cética/agnóstica/ateística dominante em muitos ambientes seculares da atualidade. Temos descoberto que a maioria dos argumentos contrários à existência de Deus podem ser refutados pelos simples princípios que apresentaremos abaixo. Refutação do Ceticismo O ceticismo é uma ferramenta poderosa nas mãos de um agnóstico ou ateísta. Como vimos nas divisões que tratam de definições e história, emprega-se o ceticismo em muitas áreas do pensamento não teísta. Frequentemente ele é pressuposto, ou então declarado abertamente, como parte de um argumento contra a existência de Deus. Em última instância, o ceticismo é sem sentido. Ele se refuta a si mesmo. Se alguém declara: “Você nunca pode ter certeza de coisa alguma”, tal pessoa está pegando a si mesma em sua própria armadilha. Se não pudermos ter certeza de coisa alguma, então não poderemos estar certos quanto à afirmação de que “nada é certo”. Mas caso essa afirmação seja objetivamente verdadeira, poderemos, então, ter certeza quanto a uma coisa: essa afirmação. Mas caso possamos estar certos quanto à afirmação, então conclui-se que a afirmação é falsa. Tanto o niilismo quanto o ceticismo são filosofias que se contradizem a si mesmas e que se refutam a si mesmas. Caso a verdade não exista (niilismo), então a verdade postulada do niilismo não poderia existir. Caso o conhecimento fosse impossível (ceticismo), como poderíamos chegar a saber disso? Ou seja, aparentemente algumas coisas podem ser conhecidas. A afirmação do cético, de que não podemos saber coisa alguma, é, em si mesma, uma alegação acerca do conhecimento. Se a alegação do cético for falsa, então não precisaremos nos preocupar com INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 38 a acusação do cético. Do outro lado, se foi verdade, então sua posição será contraditória em si mesma, porque sabemos pelo menos uma coisa - que não podemos saber coisa nenhuma. Os cristãos que frequentemente têm contatos com não-crentes (agnósticos ou ateístas) descobrem que muitos argumentos contra a existência de Deus ou contra as asseverações do cristianismo são basicamente afirmações de que não se pode conhecer. São argumentos essencialmente céticos e refutam-se a si mesmos. Esse único princípio é suficiente para responder a inúmeros argumentos antiteístas. Refutação do Argumento da Linguagem Da mesma forma como acontece com o ceticismo, o argumento da linguagem refuta-se a si mesmo. Dizer que não se pode falar de modo significativo sobre Deus é falar de modo significativo sobre Deus. Ou essa afirmação (“Não se pode falar de modo significativo sobre Deus”) é significativa, caso em que ela nos fornece informação significativa sobre Deus, ou é, ela própria, desprovida de significação, caso em que não precisamos dar-lhe atenção. No dizer de Geisler: ...os princípios de verificabilidade empírica, tal como foram postulados por Ayer, contradizem-se a si mesmos. Pois não são exclusivamente definições nem são estritamente fatos. Por essa razão, tais princípios caem, com base em seu próprio raciocínio, na terceira categoria de afirmações irracionais ou absurdas... a tentativa de se limitar o significado ao que se pode definir ou verificar é fazer uma afirmação quanto à verdade, afirmação que deve ser mesmo sujeita a algum teste. Caso não se possa testá-la, então ela se torna um ponto de vista (GÉISLER, Norman. Christian Apologetics (Apologética Cristã). Grand Rapids, Baker, 1976, p. 23). Refutação do Argumento do Conhecimento Quem abraça totalmente a ideia de que não podemos conhecer o real é um outro exemplo de alguém que se refuta a si mesmo. É razoável que digamos que não conhecemos tudo sobre o real, mas é refutar-se a si mesmo afirmar que nada se conhece sobre o real. Caso alguém de fato nada conheça sobre o real, então sua afirmação (“Nada conheço sobre o real”) é falsa: com efeito, ele conhece a veracidade de sua afirmação. Sua afirmação não poderá ser verdadeira a menos que, contraditoriamente, também seja falsa. O filósofo cristão Warren Young coloca essa questão assim: A base da possibilidade de se conhecer repousa sobre uma crença na racionalidade da mente humana. À parte da crença na racionalidade, o conhecimento é impossível. A menos que se aceite a habilidade organizadora da mente, é impossível conhecer. Os dados organizados pela razão são os dados da experiência humana. Apesar da rejeição, pelo cético, da confiabilidade da experiência, sua resposta não é final. O homem não é apenas enganado por seus sentidos, mas em quase todos os casos INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 39 ele sabe que está sendo enganado. Sua razão leva-o a compensar o possível engano, a interpretar corretamente os dados dos sentidos, e, assim ele é capaz de conhecer (YOUNG, Op. cit., p. 62). Geisler também trata desse dilema ao analisar o agnosticismo absoluto. Ele escreve: O agnosticismo absoluto refuta-se a si mesmo; ele se resume à afirmação auto- destrutiva de que “sabe-se o suficiente sobre a realidade a fim de se afirmar que nada se pode saber sobre a realidade.” Essa declaração tem dentro de si mesma tudo o que é necessário para provar que é falsa. Pois se alguém conhece algo sobre a realidade, então certamente não pode afirmar ao mesmo tempo que toda a realidade é incognoscível. E fica claro que se alguém conhece absolutamente nada sobre a realidade, então não possui absolutamente qualquer base para fazer uma afirmação sobre a realidade. Não basta dizer que seu conhecimento sobre a realidade é pura e completamente negativo, isto é, um conhecimento do qual não se possa afirmar de modo significativo que algo não é — com isto se conclui que o agnosticismo absoluto refuta-se a si mesmo, pois presume algum conhecimento sobre a realidade a fim de negar qualquer conhecimento sobre a realidade (GEISLER, p. 20). Refutação do Argumento de Conceitos Morais O argumento do problema do mal e de suas várias formas e desenvolvimentos é, provavelmente, o argumento usado com mais frequência contra a existência de Deus. Livros e mais livros têm sido escritos em busca de uma solução cristã para o problema. Livros e mais livros têm sido escritos para estudar em profundidade as ideias, quanto ao conceito, formuladas por não-cristãos. Muitos sub-argumentos contra a existência de Deus têm origem nesse argumento básico. Por que Deus permite que criancinhas sofram e morram? Por que Deus permite a ocorrência de catástrofes naturais? etc. Ao compreender os problemas básicos que envolvem a questão, pode-se aprender os princípios para se responder às diferentes formas que a questão assume. Um bom método para se achar respostas para tais argumentos é examinar cada passo do argumento e verificar se fala ou não a verdade. Se apenas um único passo do argumento for inválido ou não verdadeiro, então o peso de todo o argumento se reduz a nada. Quando examinamos este argumento, nada há de que discordemos em seu primeiro passo: “Caso houvesse um Deus Todo- poderoso, então ele poderia destruir todo mal.” Começamos a ter problemas com a segunda premissa: “Caso ele fosse totalmente bondoso, então ele iria querer destruir todo mal.” São dois os problemas existentes aqui. Um Deus todo-bondoso poderá ter usos benéficos para o mal. Segundo, quem assim questiona leva em consideração o elemento tempo. E se Deus quiser fazer uso do mal por algum tempo e, então, finalmente destruí-lo? Tal hipótese permitiria a existência de um Deus bom e ao mesmo tempo também permitiria a existência do mal na época presente. Sob esse ponto de vista poderá haver uma disputa acerca do mal, visto que algumas coisasque acontecem no mundo parecem contrárias àquilo que um Deus amoroso permitiria. Mas o INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 40 problema deve ser, de alguma forma, solucionável, visto que os acontecimentos que condenamos e a lei moral pela qual os condenamos podem ser atribuídos a uma mesma origem. Se Deus é aquilo que o cristianismo afirma ser, então ele é o Deus de Amor e de Justiça, e também é o Deus que aparentemente permite o sofrimento inútil, isso significa que deve existir uma reconciliação entre as duas ideias, (Talvez, por exemplo, o sofrimento não seja inútil.) Assim sendo, o mal é um problema para o cristianismo, mas não uma objeção a ele. O ponto de vista que reconhece um problema mantém a esperança de uma solução. Refutação dos Argumentos dos Métodos Científicos Afirmar que o desejo humano de que Deus exista prova que Deus não existe é algo totalmente ilógico. O fato de eu desejar que meus filhos cresçam como cristãos consagrados não é prova de que crescerão como ateístas. A minha vontade não faz as coisas existirem, nem as impede de existirem. Os argumentos em favor da existência de Deus têm que ser analisados com base em seus próprios méritos, não importando se o homem deseja que Deus exista. Será que o fato de que os ateístas desejam que Deus não existe prova que ele, de fato existe? É claro que não. Deve- se examinar as provas. De igual modo, a ideia de que o homem (ou pelo menos alguns homens) baseou sua crença em Deus a partir da superstição nada esclarece sobre se esse Deus de fato existe ou não. De acordo com esse argumento, a religião se originou em meio ao temor, superstição e ignorância; e o medo do desconhecido, numa era de ignorância a respeito das causas científicas, levou o homem à superstição. Os lógicos criticam o argumento precedente como um exemplo de falácia genética, o erro de presumir que se provou uma ideia simplesmente porque se conseguiu identificá-la com sua origem. Talvez haja interesse (e, com toda certeza, há interesse pelo menos por parte dos psicólogos e historiadores) em se saber, com segurança, como surgiram nossas convicções religiosas e o que lhes deu o ímpeto inicial. Mas como prova do ateísmo, tais fatores são irrelevantes. Dessa maneira, os indícios de que uma ciência em particular tenha tido origem na magia ou na alquimia não implica que essa ciência seja inválida hoje em dia. Principiemos pela acusação de que o cristianismo representa um ponto de vista pré-científíco e “mágico” acerca do mundo. Não há dúvida de que o cristianismo é pré-científico no sentido de que teve início antes do surgimento da ciência moderna. Nesse sentido, a matemática, a lógica, a história e muitos outros ramos do conhecimento também são pré-científícos. Mas rejeitamos a afirmação de que o cristianismo esteja em oposição a uma compreensão genuinamente científica do universo. Quanto à acusação de que o cristianismo representa uma compreensão “mágica” sobre o universo, aqui a palavra “mágica” ou simplesmente tem o sentido de não científico ou anticíentífico, ou então INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 41 possui alguma relação com antigas crenças em magia. Aqui ocorre uma confusão. A magia, conforme praticada durante muitos séculos, era uma tentativa de exercer poder sobre a natureza por intermédio de palavras, rituais, mistura de materiais, etc. Era, em essência, uma tentativa de uma espécie de tecnologia, uma tentativa de controlar as forças que proporcionariam poder, riqueza e conhecimentos secretos aos homens. Sendo uma tentativa de satisfazer a curiosidade e conferir poder sobre a natureza, foi a ancestral da ciência e não da religião. De outro lado, o cristianismo crê que determinados acontecimentos maravilhosos têm ocorrido, algumas vezes como resposta à oração. Mas esses acontecimentos são o resultado da vontade da Pessoa que criou a natureza e suas leis, e não se pode predizer as ações dessa Pessoa, nem exigir que ela faça algo, nem forçá-la a alguma coisa. Algumas vezes os resultados desses acontecimentos poderão ser benéficos aos seres humanos, mas o seu propósito é revelar algo a respeito de Deus ou confirmar alguma revelação. A atitude e a atmosfera da magia se opõem totalmente à atitude e atmosfera do cristianismo. De um lado está o mágico, com seus conhecimentos secretos, forçando certas coisas ocorrerem por meio de palavras ou poções mágicas. De outro lado está o cristão com uma mensagem para todos os homens, orando para que se faça a vontade de Deus, algumas vezes obtendo uma resposta maravilhosa paia sua oração. Um grande abismo separa a magia do cristianismo. Refutação dos Argumentos da Lógica São inúmeros os argumentos que buscam demonstrar a autocontradição do Deus cristão. Quase todos, no entanto, se ocupam dos atributos de Deus. O alvo mais popular é a onipotência de Deus, isto é, o poder infinito. Relacionamos apenas alguns dos argumentos que supostamente negam a onipotência de Deus. O que significa a afirmação de que Deus é todo- poderoso? Será que com isso estamos dizendo que ele é capaz de fazer tudo o que pudermos imaginar? Não. Quando afirmamos que Deus é todo-poderoso, estamos dizendo que qualquer coisa que seja passível de ser feita, Deus pode fazer. Ele não pode fazer aquilo que é lógica ou intrinsecamente impossível. A onipotência não significa que Deus possa fazer qualquer coisa, mas que ele pode, com poder, fazer qualquer coisa que o poder seja capaz de fazer. Ele tem todo o poder que existe ou que possa existir. Pode Deus fazer com que dois mais dois seja igual a seis? Essa é uma pergunta que os céticos e as crianças frequentemente fazem. Nossa resposta é indagar quanto poder seria necessário para produzir esse resultado. Não é muito difícil de se perceber o absurdo da pergunta. Será que a potência, ou a força, de uma tonelada de dinamite faria com que dois mais dois sejam igual a seis? Ou será que seria necessário o poder de uma bomba atômica? Ou de uma bomba de hidrogênio? Quando se fazem INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 42 tais perguntas, logo se percebe que os fatos da tabuada não dizem respeito à questão do poder. O poder não tem nada a ver com isso. Quando asseveramos que Deus é onipotente, estamos falando sobre poder. Esse tipo de argumento lógico é logicamente inconsistente. Tal argumento é conhecido como a falácia das premissas contraditórias. Quando premissas contraditórias estão presentes num argumento, uma premissa anula a outra. É possível que ou uma ou a outra seja verdadeira, mas não que ambas sejam simultaneamente verdadeiras. Observe as premissas contraditórias nas seguintes perguntas: “Caso Deus seja todo-poderoso, será que ele consegue deixar de existir, e, então, voltar a viver tendo o dobro do poder que tinha anteriormente?” “Será que Deus pode criar uma pedra tão pesada que não consiga levantá-la?” Em vez de dizer que Deus não tem poder para fazer as coisas que acabamos de mencionar, estaria mais de acordo com a verdade simplesmente dizer que tais coisas não podem ser feitas de modo algum! Deus é infinito em poder, mas o poder só se relaciona de modo significativo com aquilo que pode ser feito, com aquilo que é possível de se realizar — não com o que é impossível. É absurdo falar de qualquer poder (mesmo de poder infinito) como sendo capaz (tendo poder) de fazer aquilo que simplesmente não pode ser feito. Deus pode fazer o que quer que seja possível de ser feito, mas ele fará apenas aquilo que estiver em harmonia com sua natureza. Em vez de dizer que Deus não pode (ou não consegue) fazer um triângulo com quatro lados, seria mais exato (ou, talvez, mais significativo) dizer (à luz do fato de que a palavra “triângulo" significa uma figura com três lados e que não pode se referir a figura alguma com quatro lados) que fazer triângulos com quatro lados é algo que simplesmente não dá paraser feito. A vista da refutação exaustiva acima apresentada, refutação essa acerca dos problemas sobre a onipotência de Deus, não parece necessário examinar as outras afirmações quanto às autocontradições da pessoa de Deus. Contudo, um rápido exame revelará que essas alegadas contradições não são, na verdade, contradições. O Deus cristão possui uma natureza harmônica de atributos complementares. Nenhum atributo anula qualquer outro. Se apenas examinarmos as pressuposições dos argumentos, poderemos enxergar os problemas. Por exemplo, o cético pressupõe que o amor e a ira (o derramamento da justiça) de Deus excluem-se mutuamente. A isso poderíamos responder fazendo uma comparação com a experiência humana. Ninguém afirmaria que a disciplina imposta por um pai a seu filho ou a punição imposta por um juiz a um criminoso comprova que o pai ou o juiz não tem qualquer amor. Pelo contrário, a justiça de ambos deveria agir em harmonia com o seu amor. Ainda que concordemos que faz parte do amor divino dar ao ser humano o livre-arbítrio, não podemos concordar com que a presciência cause a predestinação. Apenas saber o futuro não implica predeterminá-lo. Finalmente, para ser uma liberdade autêntica, a liberdade experimentada pelo Deus INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 43 infinitamente bom e eterno (imutável) não precisa incluir a possibilidade de escolher o mal. Liberdade não significa liberdade para contradizer a própria natureza. A natureza divina é imutavelmente boa, santa e perfeita. (Aqui a palavra perfeita é empregada no sentido de completa.) A vontade de Deus é a auto-expressão da sua natureza e, como tal, é necessariamente boa, santa e perfeita. Qualidades como o amor e a justiça não são incompatíveis em Deus. São qualidades diferentes, mas nem tudo que é diferente é incompatível. Aquilo que é diferente e, às vezes, pelo menos na aparência, é incompatível para este mundo, não é obrigatoriamente incompatível para Deus. Por exemplo, pode existir algo como amor justo ou justiça amorosa. De igual modo, Deus pode conhecer totalmente e amar totalmente, pois o seu conhecimento infinito pode ser exercido ao permitir que os seres humanos tenham a liberdade para fazer o mal, sem coagi-los (de acordo com o seu amor) a agir contra a vontade, de modo que através de tudo isso ele alcance (por poder infinito) o maior bem para todos (de acordo com sua justiça). Embora mal tenhamos tocado a superfície dos vastos campos do ateísmo, agnosticismo e ceticismo, tentamos apresentar respostas cristãs aceitáveis, que irão responder a alguns dos mais importantes argumentos contra a existência de Deus. Como cristãos num mundo não cristão, alternativamente defendemos o evangelho (1 Pe 3.15) e agressivamente proclamamos a verdade (At 2.14-39). Deus não ignora a lógica e a história. Sua Palavra continuará de pé muito depois de os pensamentos humanos tiverem se transformado em cinzas (1 Pe 1.25), Ateísmo: Uma Filosofia sem Esperança? Se Deus não existe, então nós devemos em última instância viver sem esperança. Se não há Deus, então em última instância não há esperança de libertação das deficiências de nossas existência finita. Por exemplo, não há esperança de libertação do mal. Apesar de muitas pessoas perguntarem como Deus poderia criar um mundo envolvendo tanto mal, de longe a maior parte do sofrimento no mundo é devida a própria desumanidade do homem para com o homem. O horror de duas guerras mundiais durante o último século efetivamente destruíram o otimismo ingênuo sobre o progresso humano do século 19. Se Deus não existe, então estamos presos sem esperança em um mundo cheio de sofrimento sem propósito e sem redenção, e não há esperança para a libertação do mal. Ou novamente, se não há Deus, não há esperança de libertação do envelhecimento, doenças e morte. Apesar de ser difícil para vocês como estudantes universitários contemplarem, o fato certo INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 44 de que a menos que você morra jovem, algum dia você - você mesmo - será um homem velho ou uma mulher velha, lutando uma batalha sem vitória contra o envelhecimento, lutando contra o inevitável avanço de deterioração, doença e talvez senilidade. E final e inevitavelmente você morrerá. Não há vida além do túmulo. Ateísmo é portanto uma filosofia sem esperança. Em uma famosa citação, o filósofo ateu Bertrand Russell lamentou, Que o homem é o produto de causas que não tinham previsão do fim que estavam atingindo; que sua origem, seu crescimento, suas esperanças e temores, seus amores e suas crenças, nada mais são que o resultado de colocações acidentais de átomos; que nenhum fogo, heroísmo, intensidade de raciocínio e sentimento pode preservar a vida de um indivíduo além do túmulo; que todos os trabalhos das eras, toda a devoção, toda a inspiração, todo o brilho do gênio humano, estão destinados à extinção na vasta morte do sistema solar, e que o templo das realizações do homem deve inevitavelmente ser enterrado por baixo dos escombros do universo em ruínas – todas essas coisas, se não além de disputa, são tão certas, que nenhuma filosofia que as rejeita pode ter esperança de permanecer. Somente dentro do cadafalso dessas verdades, somente sobre o firme alicerce do desespero obstinado a habitação da alma pode ser construída com segurança.3 Sartre, Camus, e muitos outros ateus tem eloquentemente expressado o desespero para o qual o ateísmo leva. Nesse sentido o ateísmo é desesperançoso. Ironicamente, o cristianismo, por contraste, não somente provê esperança de libertação do mal e do envelhecimento, doença e morte, mas também supre a esperança com o que você mesmo estima: libertação das mãos de um Deus justo e santo. Este foi o grande insight de Martinho Lutero. A mesma justiça de Deus que moldou sua condenação como um pecador longe de Cristo, tornou-se uma fonte de salvação para ele como alguém que pela fé é unido com Cristo. Pois quando você confia em Cristo como seu Salvador e Senhor, Deus considera você com a justiça de Cristo. “Portanto agora não há nenhuma condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus” (Rm. 8.1). A maioria dos ateus admitem que o ateísmo não pode ser provado; na verdade, muitos insistem nisso. Mas então como eu posso saber que o ateísmo é verdade? A esperança cristã é firmemente fundada, não somente no testemunho do Espírito Santo, mas nos argumentos da teologia natural e a evidência para Jesus e sua ressurreição. Mas a esperança do ateu é, por sua própria confissão, sem um fundamento forte. Então o que acontece se a esperança do ateu for sem fundamento? E se o ateísmo estiver errado? 3 Bertrand Russell, “A Free Man’s Worship”, em Basic Writings of Bertram Russell, editado por Robert E. Egner e Lester E. Denonn, 1961, p. 67. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 45 COMO UM DEUS BONDOSO PODE PERMITIR O MAL E O SOFRIMENTO? Por que o mal? Há uma imensa quantidade de livros escritos ao longo dos séculos na tentativa de apresentar uma explicação para a origem do mal, seus efeitos sobre a humanidade e como corrigi-lo. As recomendações que propõem vários modos de explicar e de resolver o problema do mal são tão diversas quanto os teólogos e os filósofos que as têm proposto. Nosso foco será a questão do mal em relação à existência de Deus: “Se Deus existe, por que o mal?”. Para estreitar ainda mais o foco, não INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 46 estamos nos referindo a qualquer espécie de Deus, mas especialmente ao Deus do teísmo, descrito na Bíblia. Temos evidências da existência de um Ser moral infinitamente poderoso, eterno e inteligente. Todavia, parece que se esse Deus criou todas as coisas, e se o mal é real, então ele também deve ser o autor do mal. Portanto, quando consideramos queeste Deus é infinitamente poderoso e poderia pôr fim ao mal, e que é infinitamente bom e deveria pôr fim ao mal, parece não fazer sentido que o mal exista. Na verdade, esse dilema se torna mais intenso à luz da declaração da Bíblia de que Deus é amor e justiça. Se isso é verdade, por que ele não põe fim ao mal? A existência do mal parece contradizer a descrição da Bíblia da natureza e dos atributos de Deus. Consequentemente, é nossa tarefa mostrar que a Bíblia afirma corretamente tanto a existência do mal como a de Deus, e define com precisão tanto a natureza do mal como real quanto a natureza de Deus como todo-poderosa, boa, amorosa e justa. Logo, se Deus existe, como os teístas declaram, por que existe o mal? E, se existe o mal, onde está o Deus do teísmo quando o mal corre livre e solto, por que ele não faz nada a esse respeito? Onde está Deus? No best-seller Quando coisas ruins acontecem a pessoas boas, o rabino Harold Kushner levanta as seguintes perguntas com respeito ao Deus da Bíblia e o Holocausto: Onde estava Deus quando tudo aquilo estava acontecendo? Por que ele não interveio para por fim? Por que não exterminou Hitler em 1939 e não poupou milhões de vidas e evitou sofrimentos indizíveis, ou por que ele não enviou um terremoto para demolir as câmaras de gás? Onde estava Deus? O rabino Kushner conclui que o problema essencial com Deus é a sua natureza imperfeita e finita. Diz: Há algumas coisas que Deus não controla [...] Você é capaz de perdoar e amar a Deus mesmo quando descobriu que ele não é perfeito? [...] Você pode aprender a amar e a perdoá-lo a despeito de suas limitações? Faltava realmente poder a Deus para eliminar Hitler? Não teria recursos para demolir os edifícios das câmaras de gás? O Criador do universo não tem poder para deter um exército nazista? Em primeiro lugar, por que Deus permitiu que essa carnificina ocorresse? Antes de tratar destas perguntas, permita-nos mostrar por que somente o teísmo pode ao menos começar a fornecer respostas significativas. Quem pode responder? INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 47 Deve-se lembrar que o teísmo não é a única cosmovisão que precisa dar respostas aceitáveis às perguntas relativas ao problema do mal. O ateísmo e o panteísmo também precisam explicar coerentemente a origem e a natureza do mal dentro da estrutura de suas respectivas cosmovisões. O panteísmo afirma Deus e nega o mal. O ateísmo afirma o mal e nega Deus. O problema para o teísmo é afirmar tanto a existência de Deus quanto a do mal — o que parece incompatível. Se Deus não existisse (ateísmo), ou se o mal não fosse real (panteísmo), não haveria necessidade de tratarmos desse assunto. Apenas quando um lado declara que o mal é real e que o Deus todo-poderoso e todo-bondoso existe exige-se uma explicação. Pretendemos demonstrar que é reconhecer o mal e declarar que não há Deus é uma concepção auto-anulável. Também explicaremos por que os ateístas e panteístas não podem oferecer respostas intelectualmente aceitáveis às perguntas referentes ao problema do mal. Os panteístas, ignoram o problema do mal o chamando de ilusão. Mas se o mal é ilusão, de onde veio a ilusão e por que parece tão real? A dor e o mal são aspectos da vida que todas as pessoas deste planeta experimentam em determinado grau. Seria mais fácil dizer que em vista da persistência universal da realidade do mal, é ilusão crer que o mal é apenas uma ilusão. Os panteístas não oferecem nenhuma explicação substancial para o problema do mal nem nenhuma justificativa inteligente para chamar o mal de ilusão. Concluímos, portanto, que o panteísmo carece de capacidade explanatória para tratar do problema relativo ao mal. Os ateístas (e naturalistas) também precisam explicar por que o mal existe e por que o consideram um problema que precisa ser tratado. O próprio fato de o mal ser perturbador para os ateístas ou naturalistas conduz logicamente a um padrão de bem ou justiça além do mundo. Vamos observar novamente com que C. S. Lewis, quando ateu, se debatia — a validade racional de enquadrar o mal e a injustiça em sua cosmovisão ateísta. O meu argumento contra Deus era de que o universo parece ser muito cruel e injusto. Mas de onde tirei essa ideia de justo e injusto? Ninguém diz que uma linha é torta se não tiver uma ideia do que seja a linha reta. Com o que eu comparava este universo quando o chamava de injusto? Se todo o panorama fosse mau e absurdo de A a Z, por que eu, que sou necessariamente parte do panorama, reagi violentamente contra ele? Nós nos sentimos molhados, se cairmos na água, porque não somos animais aquáticos: um peixe não se sente molhado [...] Assim é que ao mesmo tempo em que tentava provar que Deus não existe (em outras palavras, que a realidade é totalmente absurda) verificava que era obrigado a admitir que uma parte da realidade, a minha ideia de justiça, não era absurda e tinha muito sentido. O ateísmo consequentemente, é uma coisa por demais simplista. Se todo o universo não tem sentido, nunca descobriríamos que ele não tem sentido, do mesmo modo INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 48 que, se não houvesse luz no universo, nem, consequentemente, criaturas com olhos, nunca saberíamos que era escuro. A palavra escuro seria uma palavra sem sentido.4 Imagine uma vez mais um universo sem luz (sem padrão final do que é justo e bom) e criaturas sem olhos (sem conceito inerente do que é bom ou mal). Nessa realidade ateísta teórica, o conceito de trevas (mal ou injustiça) é sem sentido afinal. Se, como os ateus dão a entender, o mal enfim é sem sentido, então qual é o problema? Se formos meramente parte de um processo molecular cego, como os ateístas podem levantar-se acima desse processo e dizer que alguns aspectos dele são maus e outros são bons? Átomos são simplesmente átomos; não há átomos maus no universo. Portanto, o ateísmo não pode oferecer nenhuma definição lógica de mal sem apelar para um padrão último de bem. Se tentarem fazer isso, acabarão declarando a existência real daquilo que afirmam não existir — o bem supremo (Deus). Diante das convicções do ateísmo e do panteísmo, fica claro que se alguém está sinceramente procurando uma explicação para a origem e a natureza do mal, é preciso fazer justiça e ouvir o que afirma o teísmo. Entre as três cosmovisões que estamos considerando — o ateísmo (ou naturalismo), o panteísmo e o teísmo —, apenas o teísmo é capaz de tratar suficientemente destas questões. Deve- se ter sempre essa verdade em primeiro plano quando procuramos explicar a presença e a persistência do mal no universo teísta. Como teístas cristãos, não estamos reivindicando saber todas as respostas a todas as perguntas. Mas estamos dizendo que conhecemos as respostas a algumas das questões mais essenciais desta vida. Há questões que não podem ser respondidas, mas há também algumas respostas que não podem ser questionadas! Que é o mal? E fácil fazer perguntas, mas as respostas muitas vezes podem ser superficiais ou equivocadas se não se perceber plenamente a profundidade da pergunta. Isso é verdade tanto para quem pergunta quanto para quem responde. Como já ouvimos de Peter Kreeft: “Não há nada mais fora de propósito que a resposta a uma pergunta não plenamente entendida, plenamente apresentada. Somos extremamente impacientes com perguntas e, portanto, extremamente superficiais em avaliar perguntas”.5 Uma vez que estamos dedicados a responder perguntas acerca do problema do mal e da existência de Deus, estamos incumbidos de investigar mais profundamente as implicações e inferências dessas questões. Sem definição e entendimento adequados da natureza do mal, as respostas que viermos a dar podem parecer superficiais. Portanto, pretendemos não somente 4 Cristianismo puro e simples, p. 20-21. 5 Making sense out of suffering, p. 27. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICABEREANA 49 responder às perguntas associadas ao mal, mas também analisar o que se quer dizer com o conceito. Além disso, defenderemos a única análise cristã da causa original do mal e a prescrição que ela faz para a cura permanente do mal. Na oportunidade, também mostraremos como a soberania de Deus é capaz de redimir todo mal para um bem maior. Numa visão superficial parece fazer sentido crer que, se Deus criou tudo, e se o mal é real, Deus criou o mal. Mas isso não é verdade. Deus não criou coisas más, as coisas em si não são más. Quando Deus criou tudo, disse que todas as coisas da sua criação eram boas. Como já mencionamos, não há moléculas ou átomos maus no mundo. Quando pensamos em pessoas más, não cremos que suas más ações sejam consequência de uma estrutura molecular má. Então, o que é mal? O mal pode ser real sem ser uma substância, isto é, o mal é a ausência ou perda real de algo que deveria estar presente. A cegueira não é uma substância, ela é a falta real da visão. Uma pessoa cega carece de integridade física, e nós enxergamos essa deficiência física como má ou negativa porque supostamente todos devem ver. Não obstante, não concluímos que as pessoas cegas são moralmente más porque não enxergam. Para que um indivíduo seja moralmente mau, ele deve ter carência de integridade moral ou bondade. O mal, portanto, é a ausência ou a privação de algo que deveria estar presente, mas não está. Por exemplo, se um pai abusa de uma filha quando, ao invés, deveria amá-la, podemos chamá-lo de mau porque o abuso está presente e o amor ausente, quando o amor é que deveria estar presente. Este exemplo nos ajuda a definir o mal em termos relacionais. Coisas boas em relações erradas podem resultar no que chamamos de mal. Certas formas de câncer são consequência de crescimento descontrolado de células. As células são boas para o nosso corpo, mas quando a atividade delas fica fora de controle, e elas não se relacionam uma com as outras como deviam, consideramos isso uma forma de mal. Do mesmo modo, a energia nuclear pode ser usada por engenheiros para gerar eletricidade e iluminar uma cidade (relação boa) ou ser usado por terroristas para destruir uma cidade com pessoas inocentes (relação má). Quando as pessoas exercem o livre arbítrio, a capacidade de fazer uma decisão não compulsória entre duas ou mais alternativas, elas realizam seu potencial para o bem ou para o mal. Quando alguém usa a liberdade para tratar mal o outro, chamamos isso de mal. Pense nisto: o que nos incomoda quando ficamos sabendo de um pai que abusa de uma criança ou, ainda, de uma pessoa atirando em outra num estacionamento? Por que temos a consciência de afronta quando lemos sobre conduta bárbara e impiedosa como assassinato de homens, mulheres e crianças inocentes em lugares como Auschwitz e Treblinka? Não hesitamos em rotular essas ações de más. Por natureza cremos que as pessoas não devem tratar as outras dessa maneira. Quando se visita um lugar como o Museu do Holocausto — quando se examina o que os nazistas fizeram a pessoas inocentes — na maioria das vezes experimenta-se uma profunda sensação INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 50 de injustiça e perda. Alguma coisa dentro de cada um de nós chora pela desumanidade de atos como esses. Portanto, o mal moral pode ser entendido como a relação corrompida entre dois ou mais seres humanos — uma relação que não é o que deveria ser. Não perca de vista a importância disto: para que o mal moral exista, o agente moral e a lei moral também devem existir. Para resumir, consideramos o mal a ausência real ou privação do que é bom. O mal não é uma substância. Da mesma maneira que, quando desligamos a luz de uma sala, as trevas aparecem, assim também o mal aparece quando o bem não está onde deveria estar. O mal é análogo à ferrugem que aparece no carro ou aos buracos causados pela traça na roupa. A ferrugem corrói o bom metal que deveria estar ali, e a ausência do bom metal pode ser entendida como mal. Os buracos numa roupa comida pela traça a deixaram carente de integridade, ou de tecido bom, resultando no mal. O mal, portanto, é um parasita ontológico6 e não existe em si ou por si mesmo. O mal só pode existir em algo como corrupção do que deveria estar ali. Em termos relativos, o entendimento corrompido da natureza humana (quem somos) e a rejeição das obrigações morais (como devemos nos comportar) são as causas primárias do que chamamos mal. Deus criou o mal? Como cristãos teístas, cremos que o maior bem em toda a realidade é Deus. Além do mais, sabemos que somos seres finitos e, uma vez que é intrinsecamente impossível para seres finitos se transformarem no bem maior (um Deus infinito) a melhor e mais próxima experiência que podemos ter é estar em relação de amor com Deus (Mt 22.36,37). Por essa razão, Deus oferece a todas as pessoas o seu amor. É o amor de Deus que traz integridade e santidade à vida humana. Ao contrário, o maior mal que alguém é capaz de experimentar é estar separado dessa relação de amor com Deus. Entretanto, para nos comprometermos numa relação de amor com Deus, precisamos ser livres para rejeitar seu amor, pois o verdadeiro amor é sempre persuasivo, nunca coercitivo. Portanto, o componente essencial de qualquer relacionamento de amor, até o relacionamento com Deus, é a liberdade. Para Deus fazer o universo onde o maior bem (relacionamento de amor com ele) fosse factível, ele também teria de criar criaturas livres, capazes de escolher ou rejeitar o bem maior. Mas Deus não poderia criar algum outro tipo de mundo onde o amor ainda seja possível e não haja mal nem livre escolha — um mundo melhor que o mundo teísta? Uma vez levantada essa ideia, como C. S. Lewis assinalou, ela necessariamente implica um padrão pelo qual o mundo deve ser avaliado. Posto de volta o padrão na equação, temos o teísmo.7 O Deus da Bíblia revelou na criação 6 Ontologia é a disciplina que trata da natureza do ser. 7 Isso porque esse padrão deve transcender este mundo, deve ser imutável (para ser possível a avaliação) e deve ser eterno. Somente a cosmovisão teísta se harmoniza. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 51 que este mundo, com criaturas livres, capazes de aceitar ou rejeitar seu amor, não é o mundo melhor, mas é o melhor modo para o melhor mundo possível — o céu. Não há nenhum modo de criar um mundo onde as pessoas sejam livres para amar a Deus a fim de experimentar o bem maior, mas não sejam livres para rejeitar o amor de Deus — o maior mal. Deus criou a liberdade como uma coisa boa, todavia o mal pode surgir dessa coisa boa. Portanto, Deus não é o autor direto do mal, ele criou o potencial para o mal quando criou criaturas livres, o que também lhes faz possível experimentar o seu amor (o bem maior). Deus não criou robôs, criou seres humanos com o poder de escolher livremente entre o bem e o mal. Se ele criou seres humanos já predispostos (além do controle deles) para amá-lo, isso não seria o verdadeiro amor. Se programarmos o nosso computador para nos dizer que ele nos ama cada vez que o ligamos, na verdade estamos dizendo a nós mesmos que nos amamos. O computador estaria apenas reproduzindo nossos pensamentos, não seria livre para nos dizer coisas diferentes. Não estaríamos comprometidos numa relação de amor, mas numa forma grave de narcisismo. Um relacionamento de amor deve deixar aberta a possibilidade de o amor ser rejeitado — e, portanto, o mal ser escolhido. Quando as pessoas rejeitam o amor de Deus, percebem o mal potencial dentro delas mesmas, o que afeta todos os outros relacionamentos nos quais elas entram. Dizer que seria melhor se Deus não criasse nada, em vez de algo, não faz sentido porque não há base comum para comparar nada com alguma coisa. Deus poderia ter criado seres não-livres, isso tornaria o bem maior, a relação de amor com ele e com os outros, impossível. Seo pecado (uma espécie de mal) se define essencialmente como a rejeição do bem que deveria existir (neste caso o amor a Deus), é impossível para Deus ter criado um mundo onde as pessoas fossem livres e o pecado não fosse possível. Finalmente, se a “salvação” se define como Deus oferecendo livremente às pessoas um caminho de volta para a relação de amor com ele depois de terem rejeitado a relação com o pecado, e se o amor requer livre escolha, também é impossível salvar pessoas contra a vontade delas. Deus não pode forçar seu amor a ninguém porque amor forçado não é amor, é uma contradição. Está claro, portanto, que a criação de seres livres tem o potencial inerente para o mal ocorrer. C. S. Lewis referiu-se habilmente a essa questão do livre arbítrio e da total inutilidade de tentar contestar Deus achando que ele poderia ter criado um mundo melhor. Alguns julgam que podem imaginar uma criatura que fosse livre mas que não tivesse possibilidade de agir mal; eu não posso. [...] A felicidade que Deus destinou a suas criaturas superiores é a felicidade de serem livres e voluntariamente unidas com Ele e entre si mesmas [...] E claro que Deus sabia o que aconteceria se elas fizessem uso de sua liberdade para o mal: aparentemente Ele julgou que valeria a pena correr o risco. Talvez nos sintamos inclinados a discordar dele. Mas há uma dificuldade em discordar de Deus. Ele é a fonte de toda a nossa faculdade de raciocinar: não poderíamos estar certos e Ele errado, assim como uma corrente d’água não pode INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 52 estar acima de sua nascente. Quando discutimos com Ele, discutimos com o próprio poder que nos deu a capacidade de discutir: é como cortar o galho onde estamos sentados. Se Deus julga que a guerra no universo é um preço que vale a pena ser pago para haver vontades livres, ou seja, para fazer um mundo que vive por si mesmo, em que as criaturas podem fazer o bem ou o mal, e onde algo realmente importante pode acontecer, ao invés de um mundo de brinquedo que apenas pudesse se mover quando Ele apertasse os botões, então devemos considerar que vale mesmo a pena correr esse risco.8 Por que Deus não impede o mal? Se é preciso permissão de Deus para o mal potencial e para sua realização, por que, então, ele não detém o mal quando realizado? Porque a liberdade nos capacita a rejeitar o amor de Deus e também a rejeitar e maltratar os outros. Desse modo, não é Deus que realiza o mal potencial — nós o realizamos quando livremente preferimos rejeitar seu amor. O máximo poder latente para o mal reside em nossa capacidade de recusar a amar Deus. Para Deus deter o mal é necessário eliminar essa capacidade: nossa livre escolha. Mas a eliminação de nossa livre escolha significaria que não mais poderíamos experimentar o bem maior — o amor divino. Se Deus nos impedisse de ter a capacidade de experimentar o bem maior seria o mal maior. A questão real, portanto, é: “Queremos de fato que Deus suprima nosso livre arbítrio?”. Levando essa solicitação a seu aspecto prático, considere as seguintes situações. Digamos que você decida começar a fumar. Mas visto que Deus sabe que é melhor você não fumar, ele decide que você não seja livre para fumar. Cada vez que você fuma, Deus transforma seu cigarro num canudinho de fazer bolhas. Em vez de a casa ficar cheia de fumaça, ficará cheia de bolhas! Ou talvez você goste de pisar fundo no acelerador quando dirige. Sabendo que você sempre excede o limite de velocidade, mesmo que pouco, Deus garante o aparecimento de um policial toda vez que isso acontece, o que lhe garante multas até que pare de exceder a velocidade ou perca sua carteira. Ou quem sabe você goste de beber umas cervejas. Mas Deus, sabendo que você não pode com bebida, decide transformar toda cerveja que você vai beber num copo bem grande de leite. O que estamos tentando mostrar é que quase todos nós, se não todos, nos preocupamos com o mal produzido pelas escolhas livres que os outros fazem, não com o mal que ocorre em consequência de nossas próprias escolhas. Ao reclamar do mal que advém do livre arbítrio, não 8 Cristianismo puro e simples, p. 26-27. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 53 estamos em essência dizendo que Deus deveria impedir as escolhas livres dos outros, mas deveria deixar intactas as nossas próprias escolhas livres? No capítulo 13 de Lucas, há o registro de uma conversa de Jesus com um pequeno grupo de pessoas que o abordara, perguntando a respeito do massacre de pessoas inocentes nas mãos de Pilatos. Também queriam saber sobre o trágico acontecimento de uma torre que caíra e matara dezoito pessoas. Jesus respondeu, mas não do modo que eles esperavam. Ele não explicou por que aqueles fatos ocorreram. Em vez disso, redirecionou a pergunta de volta aos arguidores. Seus breves comentários implicam advertência quanto ao perigo iminente que enfrentariam se não reconhecessem e não se preocupassem com o mal no próprio coração. Em essência, Jesus disse: “O mal que está no mundo os perturba de fato? Se vocês estão perturbados com o mal, comecem com o mal que está bem próximo de vocês — o mal em seu próprio coração. Deixem o resto do mundo com Deus e fiquem mais preocupados com seus próprios modos maus e as consequências que vocês enfrentarão se não os confessarem e não se voltarem para Deus!”. Se quisermos ver Deus impedir o mal, devemos pedir-lhe para começar em nós. Qual a finalidade do mal e do sofrimento? Quando o rabino Harold Kushner conclui que Deus é imperfeito, automaticamente presume algum padrão de perfeição pelo qual avalia Deus. Entretanto, Kushner deixa de reconhecer o problema filosófico que esse tipo de conclusão levanta. É essencialmente a mesma que C. S. Lewis enfrentou na sua luta para ser intelectualmente sincero na condição de ateu tratando do problema do mal. Quando Lewis reconheceu que o mundo era injusto, foi forçado a pressupor um padrão de justiça que está além do mundo. O mesmo princípio aplicase à conclusão do rabino Kushner. Para dizer que Deus é imperfeito, Kushner deve ter presumido um padrão de perfeição além de Deus. No entanto, Kushner nega que exista o padrão que ele alega ser perfeito. Isso nos leva de volta à posição que assumimos no começo: se esse Ser perfeito existe, por que há o mal e o sofrimento no mundo? Considerando a largura e a profundidade do problema do mal, concordamos com Peter Kreeft quando diz que a existência do mal e do sofrimento é mais um mistério do que um problema. Comparou-o ao amor e disse que, uma vez que estamos envolvidos subjetivamente, achamos difícil compreender plenamente todas as razões por que o mal acontece. Teorizar a respeito da dor é uma coisa quando estamos bem, mas é outra totalmente diferente quando a sofremos. Portanto, reconhecemos nossa explicação incompleta para justificar todos os propósitos que o mal e a dor possam ter na vida de um indivíduo. Entretanto, conhecemos alguns bons propósitos produzidos pela dor e pelo sofrimento. Antes de mencioná-los, queremos tratar da crítica de que não saber os propósitos do mal e da dor implica que Deus não tem propósitos bons para as pessoas que sofrem. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 54 Nosso desconhecimento de todos os bons propósitos que Deus tem para a dor e para o sofrimento não significa que não haja bons propósitos. Nossa ignorância não significa que Deus (um Ser infinito) não conheça. A única conclusão lógica que se pode tirar é que, se Deus é todo-bondoso e onisciente, ele deve conhecer os bons propósitos para a dor e para o sofrimento no mundo. Não segue disso que o mal demonstra que Deus é imperfeito e limitado, segue que nós somos imperfeitos e limitados. No que se refere ao mal e ao sofrimento, podemos não conhecer todos os propósitos de Deus, mas podemos conhecer alguns deles. Alguma dor física é necessária para o desenvolvimentoPressuposições Bíblicas .........................................................................................................................119 Filosofia e Sabedoria .............................................................................................................................121 CRISTIANISMO E OS ELEMENTOS BÁSICOS DE FILOSOFIA ......................................................................122 Os Elementos Básicos de uma Cosmovisão............................................................................................122 Epistemologia .......................................................................................................................................122 Epistemologia Cristã .............................................................................................................................127 Metafísica .............................................................................................................................................129 INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 6 Ética......................................................................................................................................................130 Política ..................................................................................................................................................132 O MANDATO CULTURAL ........................................................................................................................136 A SOBERANIA DAS ESFERAS...................................................................................................................142 BIBLIOGRAFIA .......................................................................................................................................145 ARQUEOLOGIA ÍBLICA ...............................................................................................................................146 INTRODUÇÃO........................................................................................................................................146 1. A Arqueologia e a Bíblia ........................................................................................................................146 1.1 Panorama geral e funções da Arqueologia Bíblica ............................................................................146 1.1.1 A Arqueologia Bíblica e o Antigo Testamento ...........................................................................146 1.1.3 A escola arqueológica Minimalista ............................................................................................153 1.1.4 Os Resultados ...........................................................................................................................154 1.2 Os Códigos Legais do Antigo Oriente e o Antigo Testamento ...........................................................154 1.2.1 O Oriente Médio e o Antigo Testamento ..................................................................................158 1.3.1 Escritos de Povos Antigos .........................................................................................................159 2. As narrativas patriarcais e a arqueologia ...............................................................................................164 3. Sodoma e Gomorra ...............................................................................................................................179 3.1 Incredulidade e negação .................................................................................................................179 3.2 O Que Disseram os Geólogos...........................................................................................................180 3.3 A historicidade de Sodoma e Gomorra ............................................................................................181 3.4 A Procura de Sodoma e Gomorra ....................................................................................................181 4. O Êxodo ................................................................................................................................................184 4.1 O Êxodo e a arqueologia ..................................................................................................................184 4.2 O caminho da terra dos filisteus ......................................................................................................187 4.3 A rota do êxodo e as imagens de satélites .......................................................................................187 4.4 O coração endurecido do Faraó .......................................................................................................188 4.5 Teria Israel atravessado o “Mar Vermelho”? ...................................................................................189 5. As principais cidades de Canaã e a Arqueologia .....................................................................................191 5.1 A cidade de Ai .................................................................................................................................191 5.2 A cidade de Hazor ...........................................................................................................................193 5.3 A cidade de Jericó ...........................................................................................................................194 5.4 A Cidade de Siquém ........................................................................................................................196 5.5 O que estas descobertas podem provar? .........................................................................................197 6. A monarquia e a Arqueologia ................................................................................................................199 6.1 Saul, Davi e Salomão .......................................................................................................................199 INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 7 6.2 A cidade de Ecrom...........................................................................................................................202 6.3 As cartas de Laquis ..........................................................................................................................202 6.4 Selo de barro com impressão digital ................................................................................................202 7. Os Manuscritos do Mar Morto ..............................................................................................................203 7.1 O que são os manuscritos? ..............................................................................................................203 7.2 Qumran e sua relação com eles .......................................................................................................204 7.3 Como chegaram até as grutas .........................................................................................................204 7.3.1 A descoberta ............................................................................................................................205 7.3.2 Data das descobertas ...............................................................................................................206 7.3.3 País em que foram achados ......................................................................................................206 7.3.4 Onde se encontram ..................................................................................................................207 7.3.5 Os atuais donos ........................................................................................................................207 7.4 Israel Adquire os Principais Manuscritos da Gruta ...........................................................................208do caráter. Por exemplo, a compaixão não se atinge sem a miséria, nem a paciência sem a tribulação. Não se adquire coragem sem o temor, e a persistência é provocada pela privação. Em resumo, algumas virtudes seriam totalmente ausentes sem o mal físico. A edificação do caráter só acontece com aflição. Foi Helen Keller que disse: “O caráter não pode ser desenvolvido na comodidade e na quietude. Somente através da provação e do sofrimento a alma pode ser fortalecida, a visão clareada, a ambição inspirada e o sucesso alcançado”. A coragem seria desnecessária sem a presença do mal ou do perigo. Consequentemente, o bem maior do desenvolvimento da virtude é impossível sem a presença do mal. Pode parecer um preço alto para pagar, mas quando o produto final surge em forma de integridade pessoal e de caráter, vale o preço da dor suportada. Um pouco de dor física é necessário para ensinar aos indivíduos que certos tipos de conduta são errados e têm consequências morais e físicas. A decisão habitual de preferir vícios como orgulho, ira, ciúme, avareza, glutonaria, luxúria e preguiça são manifestações da recusa de dominar os impulsos físicos e psicológicos. Deixar de aprender a desenvolver e usar o domínio próprio resultará na redução do interesse pela virtude e do desejo de cultivar uma boa personalidade. Ensinar as crianças a lidar com esses maus hábitos em casa, na escola e na sociedade implica um nível pessoal de sofrimento chamado disciplina. As punições são quase sempre necessárias para ensinar os indivíduos que eles estão andando sobre bases moralmente perigosas. Somente por meio da dor da disciplina uma criança pode aprender o domínio próprio. Um pouco de dor é necessário para nos advertir de um perigo iminente maior. A dor é usada como sistema de advertência para nos ajudar a permanecer vivos. As pessoas portadoras de lepra participaram de experimentos que visavam a ajudá-las a se proteger de se causarem danos ainda maiores. Um dos efeitos da lepra é a perda da sensibilidade nas extremidades e, quando alguém com lepra inadvertidamente toca um prato muito quente ou corta a ponta dos dedos com um serrote, não sente a dor associada com esses atos e pode acabar se queimando ou se mutilando sem perceber. Os pesquisadores colocaram pequenos sensores e transmissores elétricos nas pessoas leprosas para adverti-las de perigos iminentes. Por exemplo, quando chegavam muito próximo de alguma INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 55 superfície quente, as unidades elétricas lhes davam um choque para adverti-las de não tocar o objeto. Porém, depois de algum tempo, as pessoas que participaram desse experimento não gostaram de receber o tratamento de choque, e os pesquisadores reduziram a intensidade da descarga da unidade elétrica — a fonte da dor. Em consequência desses experimentos, os pesquisadores aprenderam que para a dor funcionar adequadamente para advertir alguém do perigo, tinha de vir com a intensidade certa e estar fora do controle dos indivíduos. Esse tipo de pesquisa é um incentivo para ver a dor como bênção em vez de aflição. Um pouco de dor é necessário para nos ajudar a evitar sofrimento maior. A dor de suportar sentado na cadeira do dentista é em geral necessária para poupar o indivíduo de sofrimento e dor ainda maiores. Quando alguém ignora suas necessidades de saúde (descanso devido, dieta, exercício etc.), é bom que o corpo reaja de maneira dolorida para que esse indivíduo saiba que algo está errado antes que a situação se torne pior. Finalmente, um pouco de dor é usado por Deus para obter nossa atenção moral. Da mesma forma que um pai que ama o filho e o disciplina para chamar-lhe atenção, Deus também age. Algumas pessoas têm de ter os músculos estirados antes de se voltar para Deus. A maioria das pessoas se volta para Deus em tempos de sofrimento, não quando tudo está indo bem. Lewis disse: Deus cochicha conosco nos prazeres, fala-nos à consciência, mas grita conosco nas nossas dores: a dor é o seu megafone para acordar um mundo [moralmente] surdo [...] Enquanto o homem mau não encontra o mal inconfundivelmente presente em sua própria existência, na forma de dor, ele permanece enclausurado na ilusão [...] Sem dúvida, a dor como megafone de Deus é um instrumento terrível, pode levar a uma rebelião final e sem volta. Mas dá a única oportunidade que um homem mau pode ter para se emendar. Remove o véu, planta a bandeira da verdade dentro da fortaleza de uma alma rebelde.9 Por que há tanto mal e sofrimento? Já mostramos alguns bons propósitos da dor e do sofrimento, mas por que Deus permite que exista tanto mal no mundo? Não poderia haver menos inanição, menos abuso de crianças, menos estupro, violência, assassinato etc.? De certa forma, já nos referimos a essas questões assinalando que para impedir o mal, Deus precisa impedir o livre arbítrio, e impedir o livre arbítrio é impedir o bem maior — o que é o mal maior. Mas vamos considerar outra abordagem ao responder a esta pergunta. Imagine que você esteja para ir a uma festa e, antes de sair de casa, seja acometido de dor de dente. Embora sinta certo desconforto, você decide ir à festa de qualquer jeito. Mas quando chega à festa e a noite vai passando, sua dor de dente piora. Agora vamos associar alguns valores quantitativos 9 The problem of pain, p. 93,95. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 56 a essa dor que você está sofrendo. Digamos que o nível mínimo de dor que uma pessoa pode suportar antes que o cérebro registre a dor causada no dente seja igual a cinco unidades de dor. Digamos também que a intensidade máxima de dor que uma pessoa pode suportar seja cem unidades de dor. Quando você entrou na festa, seu cérebro registrou quinze unidades de dor. Duas horas mais tarde, ela subiu para 75 unidades. Após mais trinta minutos, atingiu o limite, registrando cem unidades de dor. Digamos também que há 25 pessoas na festa (inclusive você), e por alguma estranha coincidência, as outras 24 também estão com dor de dente, que finalmente se intensifica, atingindo cem unidades de dor. Nossa pergunta é: “Como se sofre tanta dor nesse lugar nessa hora?”. Em um sentido, a quantidade total de dor na sala é vinte e cinco vezes cem, ou seja, 2 500 unidades, mas seria errado dizer que uma pessoa dessa festa está sofrendo 2 500 unidades de dor. Deve-se ter em mente que ninguém está sofrendo a intensidade de 2 500 unidades de dor. Essa dor composta não está na consciência de um indivíduo. Acrescentar vinte e cinco, dois mil e quinhentos ou vinte e cinco milhões de sofredores a esse cenário não aumenta mais a dor, aumenta apenas a quantidade de pessoas que sofrem a dor. Por esta razão, a pergunta certa a fazer não é “Por que há tanta dor e sofrimento?”, mas: “Por que tantas pessoas experimentam dor e sofrimento?” Entenda que não estamos fazendo uma tese a respeito da quantidade de sofrimento no mundo. Apenas queremos mostrar que por mais terrível que seja ver um indivíduo sofrer o máximo de dor possível, ainda reflete o fato de que a dor e o sofrimento são limitados à experiência de uma só pessoa e somente enquanto essa pessoa está sofrendo. O interessante a respeito da solidariedade do sofrimento humano é o efeito psicológico positivo que o sofrimento tem sobre os que sofrem: quanto mais pessoas compartilham o mesmo tipo de dor, mais fácil lhes é enfrentá-la. A dor pode ficar insuportável quando não há ninguém por perto que verdadeiramente entenda e possa se relacionar com o sofredor. Ironicamente, a intensidade do sofrimento é, com efeito, diminuída quando mais de uma pessoa o experimenta. Por que as inundações, os furacões, o câncer, a aids etc.? O teísmo cristão não afirma que Deus tenha criado o melhor mundo possível. Mas afirma que Deus criou o melhor meio para o melhor mundo possível. Segue, portanto, que a espécie de mundo físico em que vivemos, com malesnaturais, é compatível com o “melhor meio” para obter o melhor mundo possível. Nesse melhor meio para o melhor mundo possível, o mal físico resulta tanto direta como indiretamente das leis que regem o universo físico e das decisões dos agentes morais. Deus criou o mundo de modo que as leis naturais operem para o benefício global da humanidade. Não obstante, o mal natural pode resultar do entrelaçamento dos sistemas no continuum espaço-temporal. Onde quer que duas ou mais coisas venham a competir no mesmo lugar e no mesmo tempo, sempre haverá conflitos. Se um caminhão e um carro passam juntos num cruzamento com a mesma trajetória, INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 57 mas viajando em direções opostas, haverá colisão se pelo menos um dos veículos não parar ou não se desviar do caminho. O resultado acarretará uma forma de dor física. Isso é inerente a um mundo de forças físicas. O mal físico também pode resultar de subprodutos naturais de processos que mantêm o equilíbrio total adequado da natureza. Quando o ar quente e o ar frio de misturam, às vezes produzem o relâmpago como um bom subproduto de um temporal. As tempestades são muito boas para a relva e para as colheitas. À medida que o relâmpago viaja através do ar, produz óxido nítrico (uma forma de fertilizante). Isso é bom porque a chuva vai derramar óxido nítrico (fertilizante) e ajudar a produzir relva e colheitas sadias. Contudo, o mesmo relâmpago algumas vezes atinge pessoas ou edifícios e outros objetos, o que poderia causar um mal físico. Do mesmo modo, os terremotos são parte necessária de um mundo físico. O alívio da pressão interna da terra é o que impede o planeta de explodir. O equilíbrio de forças também é necessário para manter os oceanos e as montanhas onde estão. Além disso, o movimento das placas tectônicas da terra recicla nutrientes que elas coletam do oceano e os leva de volta aos continentes. Nenhum desses males subprodutos é consequência planejada do processo natural, mas todos eles são a consequência necessária da realização de outros bens naturais. E possível que enchentes, secas, terremotos, furacões e outros desastres naturais sejam todos subprodutos necessários deste mundo físico — e que este mundo físico seja necessário para o melhor empreendimento moral. As consequências das escolhas livres dos agentes morais são outra causa do mal físico. Já tratamos deste assunto, mas aqui gostaríamos de enfatizar o princípio da solidariedade humana de maneira negativa. Nossas escolhas morais não afetam somente a nós, afetam outras pessoas também. Se dois “adultos responsáveis” decidem ter um caso amoroso e um deles é casado e tem filhos, as consequências afetam toda a família. Outros exemplos da solidariedade da humanidade são as doenças sexualmente transmissíveis, o uso de drogas e álcool, a pornografia etc. Independente da causa, o efeito das escolhas individuais na sociedade como um todo foi, e continua sendo, devastador. Considerando problemas tais como defeitos congênitos, câncer, doenças do coração etc., voltamos à ciência e à segunda lei da termodinâmica. De acordo com essa lei universal da física, tudo no universo está em estado de deterioração crescente. Infelizmente, isso inclui os organismos vivos. Portanto, à medida que o tempo aumenta, também aumenta a deterioração. Segundo o teísmo cristão, quando Deus criou os primeiros seres humanos, eles eram geneticamente puros. Depois de terem preferido romper a relação com Deus, as consequências de sua escolha livre foram a deterioração progressiva de toda o reino física, até o próprio corpo deles. Um modo de ilustrar o efeito da deterioração progressiva do reino físico é mostrar o que acontece quando se faz cópia de uma cópia. Digamos que a página que você está lendo é a página original que veio da impressora. Imagine que você tome essa página original e faça uma fotocópia INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 58 dela. Pegue a cópia e faça mais uma cópia da cópia. Se continuar fazendo cópia após cópia, cada nova cópia reproduzida da antecedente, depois de algum tempo poderá ver quanto a cópia ficou deteriorada comparada com a original. Agora, aplique essa ilustração à genética. Dos primeiros seres humanos até os que vivem hoje, muitas distorções de cópias e erros aconteceram. Junte este fato à deterioração sempre crescente do ecossistema e vai deparar com todo tipo de dificuldades genéticas que podem resultar em várias aflições físicas. Por fim, seriamos remissos se não incluíssemos uma das explicações fundamentais para a causa do mal físico. De acordo com o teísmo bíblico (cristão), Deus permitiu que este mundo fosse ocupado por seres espirituais maus com livre arbítrio. As decisões e ações desses seres também devem fazer parte da equação referente à explicação do problema do mal físico. Alguns males físicos resultam da livre escolha dos seres espirituais maus. Enquanto houver seres livres (humanos ou espirituais) cometendo atos maus, haverá consequências morais e/ou físicas sobre este mundo causadas pelo comportamento deles. Os males naturais são parte inevitável do mundo natural, e o mundo natural é essencial para as condições (ao menos não incompatíveis com elas) de plena liberdade necessárias para atingir o melhor mundo possível. Apenas o teísmo bíblico pode explicar adequadamente a presença do mal neste mundo. “O mal físico é essencialmente ligado ao mal moral. O mal moral é o melhor meio de produzir um mundo moral idealmente perfeito. O mal físico é necessário por diversos aspectos: é condição, consequência, componente, e advertência num mundo moralmente livre. O mal não determinado direta ou indiretamente pela liberdade humana é atribuído aos espíritos maus.”10 Portanto, concluímos que os males físicos são um aspecto necessário e concomitante da melhor espécie de mundo para alcançar o melhor de todos os mundos morais. Foi um Deus soberano que permitiu à humanidade exercer a liberdade. Deus soberanamente desejou que os seres humanos tivessem controle sobre suas próprias decisões morais. Em fazendo assim, ele providenciou para o bem maior, mas também nos deu o poder de cometer atos maus. Deus pode ser soberano e ainda assim permitir a liberdade humana? Espero que agora, tendo um entendimento melhor do problema do mal, possamos voltar à conclusão do rabino Harold Kushner mencionada anteriormente. Kushner crê que Deus não está no controle de todas as coisas, por isso infere que a soberania de Deus não pode coexistir com a liberdade humana e vê a liberdade humana como a desistência de Deus de exercer seu controle no mundo. Vejamos a falácia do tipo de pensamento de Kushner, 10 Norman L. GEISLER, Philosophy of religion, p. 402. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 59 ... toda ação moral [tem de] ser ou a) causada por algo de fora, b) ou não ser causada, ou c) ser auto-causada. Mas causar uma ação moral de fora seria violação da liberdade. Seria determinismo, e seria eliminar a responsabilidade individual pela ação. Em última análise, seria tornar Deus diretamente responsável por realizar atos maus. E não ter sido causado tornaria o ato gratuito, arbitrário, irresponsável e imprevisível. Mas os atos humanos são previsíveis e responsáveis (Deus sabe o que o homem vai fazer com a sua liberdade e o considera responsável por ela). Logo, os atos morais humanos devem ser auto-causados ou autodeterminados...11 A autodeterminação não é contraditória nem irresponsável. Um homem é responsável pelo que ele vem a ser pela escolha moral. Isto significa que ele é responsável por sua própria livre determinação moral [...] Deus determinou que o homem fosse uma criatura com autodeterminação. Deus fez que o homem tivesse autocausalidade de pensamento e de ação moral. A liberdade humana é delegada soberanamente. O Soberano fez o homem soberano sobre o próprio destino moral. Nãoobstante, Deus está no controle de todo esse processo porque 1) Deus por sua própria presciência vê o que a liberdade fará e pode produzir um bem maior dela; 2) Deus está no controle soberano do fim em que as escolhas livres dos homens se transformarão permanentemente de acordo com a própria vontade deles. Desse modo a livre escolha do mal trará escravidão eterna à autonomia da própria vontade má de uma pessoa, e a liberdade para fazer o bem trará libertação eterna para o infinito bem. Em resumo, Deus (a causa primeira) está operando na autocausalidade da liberdade humana (a causa secundária) e por meio dela para produzir o maior número (a causa final) de acordo com a perfeição absoluta de Sua própria natureza (a causa exemplar).12 Para ter uma ideia do que estamos dizendo, considere esta ajuda visual. Pusemos Deus dentro do continuum espaço-tempo e o mostramos como ele é, existindo na eternidade e soberano sobre todas as coisas. Deus é o único ser totalmente livre e independente que existe, todos os seres humanos são dependentes e contingentes de sua própria natureza. Dentro do continuum espaço-tempo as criaturas existem e agem livremente de acordo com a própria vontade. A seta que se desloca para a direita representa a progressão de tempo na régua marcada com os dias da semana. As setas que saem da eternidade e surgem no tempo representam as proclamações eternas de Deus. Ele decreta desde a eternidade, mas os resultados desses decretos ocorrem no tempo. Por exemplo, um médico que prescreve um certo remédio para dez dias emite uma receita (decreto), e essa receita acontece no decurso do tempo. De modo semelhante, Deus prescreve desde toda a eternidade e suas prescrições acontecem no decorrer do tempo. 11 Atos auto-causados não são contradição, como é o caso de seres auto-causados. E possível alguém causar sua própria transformação (é o que faz a livre escolha), mas é impossível alguém causas sua própria existência. Ou melhor, podemos causar nossas próprias ações, mas não o nosso próprio ser. 12 Norman L. GEISLER, Philosophy of religion, p. 401-402. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 60 Agora vamos supor que os sete dias de nossa ilustração representam os acontecimentos que ocorreram durante a semana em que Jesus Cristo foi crucificado. Durante essa semana, certos indivíduos fizeram escolhas livres específicas que afetaram o próprio destino deles e causaram a morte de Jesus. Judas escolheu livremente trair Jesus e entregá-lo às autoridades por trinta moedas de prata. Os discípulos de Jesus livremente escolheram abandoná-lo. As autoridades religiosas livremente escolheram entregá-lo às autoridades romanas e exigiram que ele fosse executado. A multidão livremente escolheu que Pilatos soltasse Barrabás e crucificasse Jesus. Pilatos escolheu livremente condenar Jesus à morte por crucifixão. Isto nos leva ao dia cinco, o dia em que Jesus foi crucificado. Depois da morte de Jesus, ele foi sepultado numa tumba. Seus amigos choraram sua morte, e aqueles que livremente escolheram tomar parte da sua morte cumpriram a tarefa que resolveram fazer. O tempo passou e a crucificação, a morte e o sepultamento de Jesus ocorreram. Nada nem ninguém na terra podem reverter e mudar os acontecimentos que levaram Jesus Cristo à morte. Do ponto de vista humano, parece que Deus estava ausente e não teve o controle para salvar seu próprio Filho do sofrimento que suportou das mãos dos homens maus. Entretanto, Deus terá a palavra final nessa situação, como em todos os assuntos! Como sempre, Jesus submeteu-se ao plano de seu Pai e obedeceu à autoridade terrena sobre ele. Essas autoridades escolheram livremente matar Jesus por crucifixão, pensando ter o controle de seu destino final. Fizeram sua escolha, e Deus considerou-os responsáveis por suas ações. Contudo, visto que Deus é soberano sobre todas as coisas, ele tem a palavra final, e havia decretado desde a eternidade que Jesus ressurgiria dos mortos três dias depois de ser crucificado. Com a ressurreição, Deus controla o destino final de Jesus sem violar a liberdade dos indivíduos maus que sentenciaram Jesus à morte de cruz. Tanto a soberania de Deus como a responsabilidade dos seres humanos existe sem contradição. A chave para tudo isso é que Deus está fora do tempo, mas pode agir no tempo. Deus usa as escolhas livres dos seres humanos para cumprir os seus propósitos. Mesmo quando as pessoas más cometem atos cruéis e injustos livremente, jamais podem obstruir os propósitos de um Deus soberano. Como disse C. S. Lewis: INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 61 A crucificação em si é o melhor, assim como o pior, de todos os acontecimentos históricos, mas o papel de Judas permanece simplesmente mau. Podemos aplicar isso primeiramente ao problema do sofrimento de outras pessoas. Um homem misericordioso deseja o bem de seu próximo e desse modo faz “a vontade de Deus”, cooperando conscientemente com “o bem simples”. Um homem cruel oprime o seu próximo e assim faz o mal simples. Mas fazendo esse mal, ele é usado por Deus, sem o seu próprio conhecimento ou consentimento, para produzir o bem complexo — de forma que o primeiro homem serve a Deus como filho, e o segundo, como uma ferramenta. Você certamente vai cumprir o propósito de Deus, não importa como aja, mas para você faz uma grande diferença servir como Judas ou servir como João.13 Um meio mais simples, mas preciso, de entender como algo pode ser determinado e ainda assim ser livremente escolhido é assistir a um videoteipe. Por alguma razão você não pode ver o final do campeonato de futebol ao vivo pela TV e pediu que alguém o gravasse em vídeo para você. Quando finalmente teve tempo para sentar-se e assistir ao vídeo, você passou a ver um jogo já determinado. Mas cada jogada e ação que você está observando foram livremente escolhidas. Depois de considerar a natureza do Deus do teísmo cristão e as opções lógicas referentes ao mal, concluímos que Deus tem a capacidade de intervir se e/ou quando ele determina. Se decidir não intervir, podemos presumir que ele está permitindo que o mal persista a fim de alcançar um bem maior, mesmo que não tenhamos nenhum conhecimento do bem maior. Além disso, Deus é capaz de redimir as nossas más escolhas, ou o mal que os outros escolhem que façamos, como parte do seu plano soberano de produzir um bem maior. Deus permitiu que o mal acontecesse com seu Filho, todavia, teve a palavra final quando cumpriu seus propósitos produzindo um bem maior na vida de Jesus e de todos os que creem nele. Essa vitória sobre o mal é o tema central da mensagem cristã, conhecida como evangelho ou boas-novas. Como vimos, o ateísmo e o panteísmo não conseguem fornecer dentro da estrutura de suas próprias cosmovisões respostas aceitáveis às perguntas que dizem respeito ao problema do mal. Se Deus não existe (ateísmo), ou se o mal não é real (panteísmo), por que, então, se importar com o mal? Para os ateus, o mal é meramente problema da ignorância humana, e a resposta ao problema é a educação. Para os panteístas, o mal é uma ilusão e não precisa de nenhuma solução, porque não é um problema real. Apenas quando alguém afirma que o mal é real e que Deus todo-bom, todo-conhecedor e todo-poderoso existe, deve-se dar explicação. O teísmo cristão reconhece que o mal está ancorado em cada coração humano e se manifesta num estilo de vida centrado no eu. 13 The problem of pain, p. 111. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 62 PODEMOS CRER NA RESSURREIÇÃO DE JESUS? Por que procurais entre os mortos aquele que vive? (Lc 24.4). Pretendemos fazer uma síntese dos elementos cruciais de uma defesa histórica em favor da ressurreição de Jesus, de modo que você pode compartilhá-la com qualquer pessoa que lhe pergunte por que você crê no Deus da Bíblia. Essa defesa envolverá dois passos: primeiro, determinarqual é a evidência a ser explicada e, segundo, deduzir qual é a melhor explicação para a evidência. As evidências podem ser resumidas em três fatos independentes: (1) o sepulcro vazio; (2) as aparições de Jesus após sua morte e (3) o início da convicção dos discípulos na ressurreição de Jesus. Além disso, a melhor explicação para esses três fatos é que “Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos”. Chamo a isso de hipótese da ressurreição. A importância ou o significado da ressurreição de Jesus será dado pelo contexto em que ela ocorre: Ela vem como uma justificação das radicais alegações pessoais de Jesus, pelas quais ele fora condenado por blasfêmia. Vamos primeiro dar uma olhada nas evidências a serem explicadas e, então, na melhor explicação para essas evidências. Evidências da ressurreição Se os três fatos mencionados anteriormente — (1) o sepulcro vazio; (2) as aparições de Jesus após sua morte e (3) o início da convicção dos discípulos na ressurreição de Jesus — podem ser tidos como algo estabelecido, e se não há nenhuma outra explicação natural e plausível para eles que seja tão boa quanto a da hipótese da ressurreição, então temos motivo para deduzir que a ressurreição de Jesus é a melhor explicação para os fatos. Assim, vamos examinar as evidências que sustentam cada um desses três fatos. Nos dias de Jesus era evidente o que não significam várias palavras do grego, do aramaico e de outras línguas, utilizadas para designar a ressurreição. Ressurreição não significava vida após a morte em alguma forma desencarnada, não significava a imortalidade da alma seja no inferno ou no paraíso, e também não significava reencarnação. Significava a reversão da morte, a restauração a alguma forma de imortalidade no corpo. Muitos pagãos acreditavam em uma vida desencarnada após a morte, mas eles consideravam a ressurreição impossível. Alguns judeus (não todos) esperavam a ressurreição dos justos no último dia — mas jamais a ressurreição de alguém antes disso. O corpo ressurreto poderia diferir dos nossos, mas tinha que ser um corpo. Nem um fantasma nem uma alma INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 63 desencarnada nem mesmo um espírito de um plano superior de consciência teria sido chamado de “ressurreto”. O fato do sepulcro vazio Vejamos aqui cinco linhas de evidência que sustentam o fato de que o sepulcro de Jesus foi encontrado vazio por um grupo de suas seguidoras, no domingo posterior à sua crucificação. A evidência do sepultamento de Jesus Primeiro, a confiabilidade histórica do sepultamento de Jesus sustenta o fato do sepulcro vazio. Agora, você pode se perguntar: Como o sepultamento de Jesus prova que seu sepulcro foi encontrado vazio? E a resposta é: Se a narrativa do sepultamento for basicamente precisa, então o local em que ficava o sepulcro era conhecido em Jerusalém, tanto por judeus quanto por cristãos, uma vez que os dois grupos estavam presentes quando Jesus foi sepultado. Mas nessa hipótese, o sepulcro tinha que estar vazio quando os discípulos começaram a proclamar que Jesus ressuscitara. Por quê? Primeiro, porque os discípulos não poderiam ter crido na ressurreição se o corpo de Jesus ainda estivesse no sepulcro. Teria sido algo totalmente contrário aos judeus, para não dizer estúpido, acreditar que um homem tivesse ressuscitado dos mortos se o seu corpo ainda estivesse no sepulcro. Segundo, ainda que os discípulos tivessem proclamado a ressurreição de Jesus apesar de o sepulcro não estar vazio, dificilmente alguém teria acreditado neles. Um dos fatos mais notáveis sobre a incipiente crença dos cristãos na ressurreição de Jesus foi que ela floresceu na própria cidade em que Jesus tinha sido publicamente crucificado. Enquanto as pessoas de Jerusalém pensassem que o corpo de Jesus escava no sepulcro, poucas teriam estado preparadas para acreditar em um absurdo como o fato de que tinha ressuscitado. E terceiro, ainda que elas tivessem acreditado nisso, as autoridades judaicas teriam trazido a verdade à tona simplesmente apontando para o sepulcro de Jesus ou, talvez, exumando o corpo como prova definitiva de que Jesus não havia ressuscitado. Sugerir, como fizeram certos críticos, que as autoridades judaicas não consideravam essa história de Jesus ter ressuscitado como algo que merecesse atenção é uma alegação fantasiosa e contrária às evidências. Elas estavam profundamente interessadas em esmagar o nascente movimento cristão (lembre-se que até contrataram Saulo de Tarso para perseguir os cristãos judeus!). Elas com toda certeza teriam checado o sepulcro à procura do corpo. E mesmo que não desse mais para reconhecer os restos mortais que estivessem no sepulcro, o ônus da prova recairia sobre quem dissesse que aqueles não eram os restos mortais de Jesus. Mas parece que nunca houve essa discussão em torno da identificação do corpo de Jesus. Como veremos, a discussão entre os judeus não cristãos e os judeus cristãos se localizava em torno de outra questão. Assim, se a história do sepultamento de Jesus é histórica, então é uma inferência muito próxima para o fato do sepulcro vazio. Justamente por isso os críticos que negam o sepulcro vazio se INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 64 veem compelidos a argumentar contra o sepultamento. Infelizmente para eles, o sepultamento de Jesus no sepulcro é um dos fatos mais consolidados acerca de Jesus. Vejamos dois pontos: 1. O sepultamento de Jesus é relatado em fontes independentes e extremamente precoces. O relato do sepultamento de Jesus em um sepulcro, por José de Arimateia, é parte do material da fonte de Marcos para a história da paixão (a história do sofrimento e morte de Jesus). Marcos é o mais antigo dos quatro evangelhos, assim, trata-se de uma fonte bem precoce, a qual a maioria dos estudiosos crê ser baseada em relatos de testemunhas oculares. Além disso, Paulo em 1 Coríntios 15.3-5 cita uma antiga tradição cristã que ele recebeu dos primeiros discípulos. Essa tradição provavelmente foi transmitida a ele o mais tardar na época de sua visita a Jerusalém, em 36 d.C. (G1 1.18), se não antes, em Damasco. Portanto, ela remonta aos primeiros cinco anos posteriores à morte de Jesus, em 30 d.C. A tradição é uma síntese da pregação cristã primitiva e pode ter sido usada para o ensino cristão. A forma que possui deve tela tornado apropriada para a memorização. Eis o que ela diz: Que Cristo morreu por nossos pecados, de acordo com as Escrituras. E foi sepultado, E ressuscitou ao terceiro dia, de acordo com as Escrituras, e apareceu a Pedro, e depois aos Doze. Observe que a segunda linha da tradição diz respeito ao sepultamento de Jesus. Porém, pode ser que alguém pergunte: O sepultamento mencionado na tradição transmitida por Paulo é o mesmo sepultamento feito por José de Arimateia? A resposta para essa pergunta fica clara pela comparação entre a formula de quatro linhas transmitida a Paulo e as narrativas dos evangelhos, por um lado, e os sermões de Atos, por outro: INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 65 Essa incrível correspondência entre tradições independentes é uma prova convincente de que a fórmula de quatro linhas transmitida a Paulo é uma síntese ou esboço dos acontecimentos básicos da paixão e ressurreição. Jesus, incluindo seu sepultamento em um sepulcro. Assim, temos evidência de algumas das fontes mais precoce, e independentes. Mas isso não é tudo! Mais testemunhos independentes acerca do sepultamento de Jesus por José de Arimateia também podem ser encontrados em fontes que estão por trás de Mateus e Lucas e do Evangelho de João. As diferenças entre o relato do sepultamento em Marcos e os relatos de Mateus e Lucas sugerem que estes tiveram outras fontes| além da de Marcos. Além disso, temos outra fonte independente para sepultamento no Evangelho de João. Por fim, temos primeiros sermões no livro de Atos, que provavelmentepreservam as primeiras pregações dos apóstolos. Esses sermões também mencionam que Jesus foi sepultado em um sepulcro. Logo, temos a incrível quantidade de pelo menos cinco fontes independentes para o sepultamento de Jesus, algumas das quais são extraordinariamente antigas. 2. Como era membro do Sinédrio que condenou Jesus, é improvável que José de Arimateia seja uma invenção dos cristãos. José de Arimateia é descrito como um homem que era membro do Sinédrio. O Sinédrio era uma espécie de tribunal judeu, composto por 70 líderes do judaísmo que presidiam em Jerusalém. Havia uma hostilidade compreensível na igreja primitiva em relação aos membros do Sinédrio. Aos olhos dos cristãos, eles haviam maquinado judicialmente o assassinato de Jesus. Os sermões de Atos por exemplo, chegam ao ponto de dizer que líderes judeus crucificaram Jesus (At 2.23,36; 4.10)! Dado seu status de membro do Sinédrio, José de Arimateia é a última pessoa que se podia esperar que cuidasse devidamente do corpo de Jesus. Assim, o sepultamento de Jesus por José de Arimateia é muito provável, uma vez que seria quase inexplicável imaginar o motivo por que os cristãos teriam inventado tal história sobre um membro do Sinédrio que fez o que era correto por Jesus. Por essas e outras razões, a maioria dos críticos do Novo Testamento concordam que Jesus foi sepultado por José de Arimateia. De acordo com o falecido A. T. Robinson, da Universidade de Cambridge, o sepultamento de Jesus em um sepulcro é “um dos fatos mais antigos e comprovados sobre Jesus”.14 Porém, se essa conclusão for correta, então, é muito difícil negar o fato do sepulcro vazio. Os relatos independentes do sepulcro vazio A segunda linha de evidência com respeito ao sepulcro vazio é esta: 14 John A. T. Robinson, The Human Face of God. Philadelphia: Westminscer, p. 131. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 66 A descoberta do sepulcro vazio de Jesus é um fato relatado de forma independente em fontes muito antigas. A fonte do relato da paixão do Evangelho de Marcos provavelmente não terminou com o sepultamento de Jesus, mas com a descoberta do sepulcro vazio pelas mulheres. Pois as histórias do sepultamento e do sepulcro vazio são na realidade a mesma história, formando uma narrativa suave e contínua. Elas estão ligadas por laços gramaticais e linguísticos. Além disso, parece improvável que os primeiros cristãos fizessem circular uma história sobre a paixão de Jesus que terminasse com o seu sepultamento. A história da paixão fica incompleta sem a vitória no final. Daí o motivo da fonte de Marcos provavelmente ter incluído e poder ter terminado com a descoberta do sepulcro vazio. Já vimos que em 1 Corintios 15.3-5 Paulo cita uma tradição extremamente antiga que se refere à morte e ressurreição de Cristo. Embora o sepulcro vazio não seja explicitamente mencionado, uma comparação da fórmula de quatro linhas com as narrativas dos evangelhos de um lado e com os sermões de Atos do outro revela que a terceira linha é, de fato, uma síntese do relato do sepulcro vazio. Além disso, duas outras características da tradição paulina implicam o sepulcro vazio. Primeiro, a expressão “foi sepultado” seguida da expressão “ressuscitou” implica o sepulcro vazio. A ideia de que um homem pudesse ter sido sepultado e depois ressuscitado, mas seu corpo ainda ter permanecido no sepulcro é uma noção peculiarmente moderna! Para os judeus do primeiro século não haveria a menor dúvida de que o sepulcro de Jesus estaria vazio. Portanto, quando a tradição afirma que Cristo “foi sepultado; e ressuscitou”, nela está automaticamente implícito que um sepulcro vazio foi deixado para trás. Dadas as remotas data e origem dessa tradição, os que a esboçaram jamais poderiam ter acreditado em algo que dissesse que o sepulcro não estava vazio. Segundo, a expressão “ao terceiro dia” implica o sepulcro vazio. Embora bastante sintetizada, uma vez que ninguém de fato viu Jesus ressuscitar dos mortos, por que os primeiros discípulos proclamavam que Jesus tinha ressuscitado “ao terceiro dia”? Por que não no sétimo dia: A resposta mais provável é que foi no terceiro dia que as mulheres encontraram o sepulcro vazio e, com isso, naturalmente a própria ressurreição veio a ser datada nesse dia. Logo, temos evidências extraordinariamente antigas e independentes para o fato do sepulcro vazio. A descoberta do sepulcro vazio não pode ser relatada como um desenvolvimento posterior e lendário. E mais! Existem boas razões para perceber a presença de fontes independentes para o relato do sepulcro vazio nos outros evangelhos e em Atos. Mateus claramente trabalha com uma fonte independente, pois ele inclui o relato dos guardas no sepulcro, algo que é exclusivo de seu evangelho. Além disso, seu comentário sobre como o rumor de que os discípulos haviam roubado o corpo de Jesus era uma história [que] tem sido divulgada entre os judeus “até o dia de hoje” (Mt 28.15) demonstra que Mateus está respondendo a uma tradição anterior. Lucas também possui uma fonte INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 67 independente, pois ele conta a história, que não se encontra em Marcos, dos dois discípulos que foram ao sepulcro para verificar o que as mulheres contaram sobre o sepulcro estar vazio. A história não pode ser considerada uma criação de Lucas, pois o mesmo incidente é relatado de forma independente em João. E, mais uma vez, dada a independência de João em relação aos outros três evangelhos, temos ainda mais um relato independente do sepulcro vazio. Por fim, nos sermões do livro de Atos, temos mais uma vez referências indiretas ao sepulcro vazio. Por exemplo, Pedro traça um nítido contraste entre Davi que ‘morreu e foi sepultado, e o seu túmulo está até hoje entre nós” e Jesus: “Foi a este Jesus que Deus ressuscitou” (At 2.29-32; compare com 13.36-37). Os historiadores pensam ter feito uma descoberta histórica útil, lucrativa quando possuem dois relatos independentes do mesmo acontecimento. Mas no caso do sepulcro vazio temos não menos do que seis relatos independentes, sendo que alguns deles estão entre os materiais mais antigos que se encontram no Novo Testamento. A simplicidade do relato de Marcos A terceira linha de evidência em prol do sepulcro vazio é que o relato de Marcos é simples e carece de desenvolvimentos lendários. Como o relato do sepultamento, o relato de Marcos sobre o sepulcro vazio é incrivelmente simples, despido de temas teológicos capazes de caracterizar alguma lenda que tivesse surgido posteriormente. Por exemplo, a ressurreição em si não é testemunhada nem descrita, e não há qualquer reflexão acerca do triunfo de Jesus sobre o pecado e a morte, não há utilização de títulos divinos, não há citações de profecias cumpridas ou mesmo descrições do Senhor ressuscitado. Isso é muito diferente de uma ficção criada por cristãos — apenas compare o modo como a ressurreição é retratada modernas peças sobre a paixão! Para fazer uma ideia de quão comedida é a narrativa de Marcos você tem apenas que ler o relato no evangelho apócrifo de Pedro, descreve a triunfante saída de Jesus do sepulcro como uma figura de proporções gigantescas, cuja cabeça alcança as nuvens, sustenta por anjos gigantescos, seguida por uma cruz que fala, anunciada por uma voz vinda do céu e testemunhada pelos guardas romanos; líderes judeus e uma multidão de espectadores! Isso demonstra quão real as lendas se parecem: elas são coloridas por acréscimos teológicos e apologéticos. Já o relato de Marcos, por contraste, inflexível em sua simplicidade. A descoberta das mulheres A quarta linha de evidência é que o sepulcro provavelmente foi encontrado vazio pelas mulheres. A fim de entender esse ponto, precisamos entender duas coisas acerca do lugar da mulher na sociedade judaica. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 68 Primeiro, mulheres nãoeram consideradas testemunhas de crédito. Essa atitude em relação ao testemunho de mulheres é evidente na descrição fornecida por Josefo, historiador judeu regras para testemunhos admissíveis: “Que o testemunho de mulheres não seja admitido, em função da leviandade e atrevimento desse sexo” (Antiguidades iv.8.15). Na Bíblia não se encontra; regulamento como esse. Antes, é um reflexo da sociedade patriarcal do judaísmo do primeiro século. Segundo, as mulheres ocupavam um baixo nível na hierarquia social da sociedade judaica. Comparadas aos homens elas eram consideradas como cidadãos de segunda classe. Considere estes termos rabínicos: “Que as palavras da Lei sejam antes queimadas do que entregues às mulheres” (Sotah 19a) e também: “Feliz aquele cujos filhos são homens, mas infeliz aquele cujos filhos são mulheres” (Kiddushin 82b). A oração diária de todo homem judeu incluía a seguinte bênção: “Bendito és tu, Senhor nosso Deus, soberano do universo, que não me criou gentio, escravo ou mulher” (Berachos 60b). Assim, considerando o seu baixo status social e a incapacidade de servir como testemunhas legalmente reconhecidas, é um tanto surpreendente que tenham sido mulheres que encontraram, como principais testemunhas, o sepulcro vazio! Se o relato do sepulcro vazio não fosse verídico, ou seja, se fosse uma lenda, nessa lenda provavelmente seriam os discípulos que seriam postos como aqueles que encontraram o sepulcro vazio. O fato de que mulheres, cujo testemunho era considerado sem valor, foram as principais testemunhas do sepulcro vazio somente pode ser explicado plausivelmente se, gostassem ou não as pessoas, elas de fato foram as que encontraram o sepulcro vazio, e os evangelhos fielmente registram, então, o que para eles era um fato muito embaraçoso. A primeira reação dos judeus Por fim, a primeira reação dos judeus à proclamação da ressurreição de Jesus pressupõe o sepulcro vazio. No Evangelho de Mateus encontramos uma tentativa de refutar a primeira reação dos judeus à proclamação da ressurreição pelos cristãos: Enquanto as mulheres estavam a caminho, alguns dos guardas dirigiram-se à cidade e contaram aos chefes dos sacerdotes tudo o que havia acontecido. Quando os chefes dos sacerdotes se reuniram com os líderes religiosos, elaboraram um plano. Deram aos soldados grande soma de dinheiro, dizendo-lhes: “Vocês devem declarar o seguinte: ‘Os discípulos dele vieram durante a noite e furtaram o corpo, enquanto estávamos dormindo’. Se isso chegar aos ouvidos do governador, nós lhe daremos explicações e livraremos vocês de qualquer problema”. Assim, os soldados receberam o dinheiro e fizeram como tinham sido instruídos. E esta versão se divulgou entre os judeus até o dia de hoje. Mateus 28:11-15 Nosso interesse não está tanto na história que Mateus conta sobre os guardas do sepulcro quanto está na observação ocasional que ele faz no final do relato: “E essa história tem sido divulgada INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 69 entre judeus até o dia de hoje”. Ela revela que o autor estava preocupado em refutar a explicação dada pelos judeus à ressurreição, que foi amplamente divulgada. Ora, o que os judeus incrédulos estavam dizendo em resposta à proclamação dos discípulos de que Jesus havia ressuscitado? Que eles estavam embriagados com vinho? Que o corpo de Jesus ainda estava no sepulcro? Não. Eles estavam dizendo que os discípulos haviam roubado o corpo. Pense um pouco nisso. “Os discípulos dele vieram de noite e levaram o corpo enquanto dormíamos”. As autoridades judaicas não negaram que o sepulcro estava vazio, mas, antes, meteram os pés pelas mãos, volvendo-se em uma série de absurdos para tentar explicar o fato de forma a desmenti-lo. Em outras palavras, a alegação dos judeus de que os discípulos haviam levado o corpo pressupõe que havia um corpo faltando. Se tomadas em conjunto, essas cinco linhas de evidência constituem uma poderosa defesa de que o sepulcro de Jesus foi, de fato, encontrado vazio naquele primeiro dia da semana, por um grupo de seguidoras dele. Como fato histórico, isso parece estar bem consolidado. Segundo Jacob Kremer, um crítico do Novo Testamento que se especializou no estudo da ressurreição: “Decididamente a maioria dos estudiosos sustenta firmemente a confiabilidade dos registros bíblicos sobre o sepulcro vazio”. De fato, em uma pesquisa feita com mais de 2.200 publicações em inglês, francês e alemão sobre a ressurreição, desde 1975, Gary Habermas descobriu que 75 por cento dos estudiosos aceitava a historicidade da descoberta do sepulcro vazio. A evidência é tão convincente que uma série de estudiosos judeus, como Pinchas Lapide e Geza Vermes, declaram-se convencidos que o sepulcro foi encontrado vazio com base nas evidências. Mas ainda há mais coisas por vir. O fato das aparições de Jesus depois da morte. Em 1 Coríntios 15.3-8, Paulo escreve: Porque primeiro vos entreguei o que também recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; e foi sepultado; e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; e apareceu a Cefas, e depois aos Doze. Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, e a maior parte deles ainda vive, mas alguns já faleceram. Depois apareceu a Tiago, e a todos os apóstolos. E, depois de todos, apareceu também a mim, como a um nascido fora do tempo certo. Essa é uma afirmação realmente notável. Temos aqui uma carta indiscutivelmente autêntica de um homem pessoalmente conhecido pelos discípulos que relata que eles de fato viram Jesus vivo após sua morte. Mais do que isso, ele afirma que ele mesmo também testemunhou uma aparição de Jesus. O que devemos fazer diante dessas afirmações? Jesus realmente apareceu vivo para algumas pessoas após sua morte? Para responder a essa pergunta, vamos primeiro considerar as evidências em favor da ressurreição de Jesus. Mais uma vez, o espaço não me permite examinar em detalhes todas as INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 70 evidências favoráveis às aparições de Jesus após a morte. Mas eu gostaria de examinar três principais linhas de evidência. A lista de testemunhas oculares de Paulo Em primeiro lugar, a lista fornecida por Paulo das pessoas que testemunharam as aparições de Jesus, após a ressurreição, garante que tais aparições ocorreram. Em 1 Coríntios 15, Paulo fornece essa lista de testemunhas oculares. Vamos examinar rapidamente cada uma dessas aparições e verificar se é plausível que um evento como esse tenha de fato ocorrido. 1. A aparição a Pedro. Não temos nenhum relato nos evangelhos, que fale da aparição de Jesus a Pedro. Mas essa aparição é mencionada aqui em uma antiga tradição citada por Paulo, que se originou na igreja de Jerusalém, e que é confirmada pelo próprio apóstolo Paulo. Como sabemos a partir de Gálatas 1.18, Paulo passou cerca de duas semanas com Pedro em Jerusalém, três anos após sua conversão na estrada para Damasco. Assim, Paulo sabia pessoalmente se Pedro podia ou não ter tido essa experiência. Além disso, a aparição a Pedro é mencionada em outra tradição antiga que se encontra em Lucas 24.34: “É verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão”. O fato de que Lucas está passando adiante uma tradição anterior fica evidente aqui, pela forma como ela foi inserida em sua história sobre aparição no caminho para Emaús. Portanto, embora não tenham, nenhum relato sobre a aparição a Pedro, esse fato está bem comprovado historicamente. Em consequência disso, praticamente todos críticos neotestamentários concordam que Pedro testemunhou uma aparição do Jesus ressurreto. 2. A aparição aos doze. Sem dúvida alguma, o grupo referido aqui é o grupo original dos doze apóstolos escolhidos por Jesus durante seu ministério — menos, é claro, Judas, cuja ausência não afetou o título formal do grupo. Dentre as aparições de Jesus esta é a mais bem comprovada. Tambémé a que foi incluída na fórmula tradicional bastante antiga que Paulo cita, sendo que o próprio Paulo teve contato com integrantes do grupo dos Doze. Além disso, temos relatos independentes dessa aparição em Lucas 24.36-42 e João 20.19-20. Inquestionavelmente, a característica mais notável desses relatos das aparições de Jesus são as demonstrações físicas de Jesus mostrando suas feridas e comendo diante dos discípulos. O propósito de demonstrações físicas é mostrar duas coisas: primeiro, que Jesus ressuscitou fisicamente; segundo, que ele era o mesmo Jesus que foi crucificado. Não pode restar a menor dúvida de que essa aparição de fato aconteceu, pois ela é atestada em uma antiga tradição cristã, confirmada por Paulo, que havia tido contato pessoal com os Doze, além de ser descrita em relatos independentes registrados em Lucas e João. 3. A aparição a mais de quinhentos irmãos. A terceira aparição vem de modo mais chocante: “Depois aparece subindo ao céu sob o olhar de mais de quinhentos irmãos de uma só vez”! Isso é surpreendente, pois não temos nenhuma menção a essa aparição em outro lugar do Novo Testamento. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 71 Isso pode nos tornar um tanto céticos acerca dessa aparição, mas o próprio Paulo aparentemente teve contato pessoal com esses irmãos, uma vez que sabia que alguns deles haviam morrido. Nota-se isso pelo comentário intercalado por Paulo: “e a maior parte deles ainda vive, mas alguns já faleceram”. Por que Paulo acrescenta esse comentário? C. H. Dodd, grande estudioso do Novo Testamento da Universidade de Cambridge, afirma. “Dificilmente pode haver algum propósito em mencionar o fato de que a maior parte dos 500 ainda estava viva, a não ser o de que Paulo estava na verdade dizendo: ‘As testemunhas estão aqui para serem questionadas”. Observe que Paulo jamais poderia ter dito isso se tal fato não tivesse ocorrido. Ele não poderia ter desafiado as pessoas a conversar com as testemunhas se o fato nunca tivesse acontecido e se não existissem testemunhas dele. Porém, evidentemente havia testemunhas desse fato e Paulo sabia que algumas delas tinham morrido neste ínterim. Portanto, o fato tem que ter acontecido. Penso que essa aparição não é relatada nos evangelhos porque ela provavelmente aconteceu na Galileia. À medida que se reúne as várias aparições registradas nos evangelhos, parece que elas ocorreram primeiro em Jerusalém, depois na Galileia e, então, novamente em Jerusalém. A aparição aos mais de quinhentos irmãos teria acontecido fora desse trajeto, talvez na encosta de algum monte perto de uma vila na Galileia. 4. A aparição a Tiago. A próxima aparição foi uma das mau incríveis: Jesus apareceu para Tiago, seu irmão mais novo. O que torna esse fato mais incrível é que aparentemente nem Tiago ou nenhum dos irmãos mais novos de Jesus acreditavam em Jesus durante o tempo de seu ministério (Mc 3.21,31-35; Jo 7.1-10). Eles não acreditavam que ele era o Messias, ou um profeta ou nem mesmo alguém especial. Pelo critério do constrangimento, este é sem dúvida alguma um fato histórico da vida e do ministério de Jesus. Mas após a ressurreição, os irmãos de Jesus apareceram no aposento superior onde estava reunida a comunidade cristã (At 1.14) Não há mais menção a eles até Atos 12.17, na história da libertação de Pedro da prisão por um anjo. Quais foram as primeiras palavras de Pedro? “Anunciais isso a Tiago e aos irmãos”. Em Gálatas 1.19 Paulo conta de sua visita de duas semanas a Jerusalém, cerca de três anos depois da experiência na estrada para Damasco. Ele conta que além de Pedro, ele não vira nenhum dos outros apóstolos, exceto Tiago, o irmão do Senhor. Paulo no mínimo deixa implícito que Tiago estava agora sendo reconhecido como um apóstolo. Quando Paulo visitou Jerusalém novamente, quatorze anos mais tarde, ele diz que havia três “colunas” da igreja em Jerusalém: Tiago, Cefas e João (G1 2.9). Por fim, em Atos 21.18 Tiago é o único líder da igreja em Jerusalém e do conselho de presbíteros. Não ouvimos mais nada sobre Tiago no Novo Testamento. Porém, por palavras de Josefo, o historiador judeu, ficamos sabendo que Tiago foi apedrejado até a morte, ilegalmente, pelo Sinédrio, em algum período após o ano 60 d.C. (Antiguidades 20.200). INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 72 Não apenas Tiago, mas também os outros irmãos de Jesus passaram a crer nele e foram atuantes na pregação da mensagem cristã, como podemos ver por 1 Coríntios 9.5: “Não temos nós o direito de levar conosco esposa crente, como também fazem os demais apóstolos, os irmãos do Senhor e Cefas?” Ora, como isso pode ser explicado? Por um lado, parece ser certo que os irmãos de Jesus não criam nele durante seu ministério. A crucificação de Jesus apenas confirmaria na mente de Tiago o fato de que as pretensões messiânicas de seu irmão mais velho eram ilusórias, justamente como ele havia pensado. Por outro lado, é igualmente certo que os irmãos de Jesus se tornaram cristãos ardorosos, atuantes no ministério. Muitos de nós têm irmãos. O que seria necessário para que acreditássemos que nosso irmão é o Senhor, a ponto de morrermos por crer nisso, como fez Tiago? Pode restar alguma dúvida de que a razão para essa extraordinária transformação só pode estar no fato de que Jesus apareceu a Tiago? Até mesmo Hans Grass, um cético crítico do Novo Testamento, admite que essa conversão de Tiago é uma das provas mais irrefutáveis da ressurreição de Cristo. 5. A aparição a todos os apóstolos. Essa foi provavelmente uma aparição a um círculo limitado de missionários cristãos um pouco mais amplo do que os Doze apóstolos. Para informações sobre esse grupo, veja Atos 1.21-22. Uma vez mais o fato dessa aparição é garantido pelo contato pessoal de Paulo com os próprios apóstolos. 6. A aparição a Saulo de Tarso. A última aparição é tão extraordinária quanto a aparição a Tiago: “E, depois de todos, apareceu também a mim, como a um nascido fora do tempo certo” (l Co 15.8). A história da aparição de Jesus a Saulo de Tarso na estrada para Damasco é relatada em Atos 1.1-9 e mais tarde contada de novo, por duas vezes. O fato de que este acontecimento é comprovado além de qualquer dúvida pelas referências que Paulo faz a ele em suas próprias cartas. Esse acontecimento mudou toda a vida de Paulo. Ele era um rabino fariseu, um respeitado líder judeu. Odiava a heresia cristã com todas as suas forças e fazia tudo o que estivesse ao seu alcance para acabar com ela. Ele mesmo conta que foi responsável pela execução de cristãos. Então, de repente, ele abre mão de tudo isso. Deixa sua posição de respeitado líder judeu e se torna um missionário cristão e abraça uma vida de pobreza, labuta e sofrimento. Foi açoitado, espancado, apedrejado, deixado para morrer, passou por três naufrágios e viveu em constante perigo, privações e ansiedade. Por fim, fez o sacrifício supremo e foi martirizado por sua fé em Roma. E tudo isso porque naquele dia, na estrada para Damasco, ele vira Jesus, nosso Senhor (1 Co 9.1). Em síntese, os testemunhos de Paulo tornam historicamente certo que vários grupos e pessoas presenciaram aparições de Jesus depois de sua morte e sepultamento. Relatos independentes do evangelho INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 73 Além disso, há relatos dos evangelhos que fornecem registros múltiplos e independentes das aparições de Jesus após a morte, até mesmo das mesmas aparições mencionadas na lista de Paulo. A aparição a Pedro é mencionada de forma independente por Paulo e Lucas (1 Co 15.5; Lc 24.34) e universalmente reconhecida pelos críticos. A aparição aos Doze é relatada de modo independente por Paulo, Lucas e João (1 Co 15.5; Lc 24.36-53; Jo 20.19-31) e, também, não é contestada por ninguém. A aparição para as seguidoras de Jesus é relatada de forma independente por Mateus e João (Mt 28.9- 10; Jo 20.11-17)e também é objeto de ratificação pelo critério do constrangimento, dada a baixíssima credibilidade atribuída a testemunhos de mulheres. É consenso geral que a ausência dessa aparição na lista de aparições mencionadas por Paulo é reflexo do desconforto em citar testemunhas femininas. Por fim, o fato de que Jesus apareceu aos discípulos na Galileia é objeto de relatos independentes por Marcos, Mateus e João (Mc 16; Mt 28.16-20; Jo 21). Tomadas em sequência, as aparições seguem o padrão de Jerusalém, Galileia e então Jerusalém novamente, estando de acordo com as peregrinações dos discípulos à medida que eles voltaram à Galileia depois da Páscoa e então viajaram de novo para Jerusalém, dois meses após o Pentecostes. O que devemos concluir a partir dessas evidências? Podemos até chamar essas aparições de alucinação, se quisermos, mas não podemos negar sua ocorrência. Até mesmo o cético crítico Gerd Lüdemann é enfático em dizer: “Pode ser considerado historicamente certo que Pedro e os discípulos passaram por experiências após a morte de Jesus nas quais Jesus apareceu a eles como o Cristo ressurreto”.15 As evidências tornam certo que, em ocasiões separadas, diferentes indivíduos e grupos passaram pela experiência de ter visto Jesus ressuscitado dos mortos. Essa conclusão é virtualmente incontestável. A natureza física das aparições Em terceiro lugar, as aparições de Jesus foram físicas e corpóreas. Até aqui as evidências que apresentamos não dependem da natureza das aparições de Jesus. Deixamos em aberto a questão de elas serem de natureza física ou meras visões. Resta ser visto se mesmo experiências visionárias do Cristo ressurreto podem ser plausivelmente explicadas em bases exclusivamente psicológicas. Porém, se as aparições foram de natureza física ou corpórea então uma explicação exclusivamente psicológica se torna algo próximo do impossível, Assim, vale a pena examinarmos o que se pode saber acerca da natureza dessas aparições. 1. Paulo deixa implícito que as aparições foram físicas. Ele faz isso de duas formas. Primeiro, Paulo concebe o corpo ressurreto como físico. Todos reconhecem que ele não ensina a 15 Gerd Lüdemann, What Really Happened to Jesus?, trad. John Bowden. Louisville: Westminster John Knox Press, 1995, p. 80. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 74 imortalidade apenas da alma, mas sim a ressurreição do corpo. Em 1 Coríntios 15.42-44 Paulo descreve as diferenças entre nosso corpo atual, terreno e nosso corpo futuro, ressurreto, que será como o de Cristo. Ele traça quatro contrastes essenciais entre o corpo terreno e o ressurreto: - O corpo terreno é: mortal, marcado pela desonra, marcado pela fraqueza e natural. - O corpo ressurreto é: imortal, marcado pela glória, marcado pelo poder e espiritual. Ora, apenas o último contraste poderia possivelmente nos fazer pensar que Paulo não cria na ressurreição física do corpo. No entanto o que ele quer dizer por meio das palavras aqui traduzidas como “natural” e “espiritual”? A palavra traduzida como natural literalmente significa “próprio da alma”. Ora, obviamente Paulo não quis dizer que nosso corpo atual é “feito da alma”. Antes, por essa palavra ele quis dizer pertencente à natureza humana”. Semelhantemente, quando ele disse que o corpo ressurreto será “espiritual”, ele não quis dizer que ele será “feito do espírito”. Antes, ele quis dizer “voltado para o Espírito”. Essa palavra é usada no mesmo sentido de quando falamos que alguém é uma pessoa espiritual. Na verdade, observe o modo como Paulo usa exatamente as mesmas palavras em 1 Coríntios 2.14-15: O homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois lhe são absurdas; e não pode entendê-las, pois se compreendem espiritualmente. Mas aquele que é espiritual compreende todas as coisas, ao passo que ele mesmo não é compreendido por ninguém. A expressão homem natural não significa homem fisicamente falando, mas sim homem voltado para a natureza humana. E aquele que é espiritual não significa alguém que seja intangível, invisível, mas sim alguém voltado para o Espírito. O contraste é o mesmo de 1 Coríntios 15. Nosso corpo atual, terreno, será libertado da sua escravidão à natureza humana pecaminosa e se tornará por sua vez dirigido e sustentado pelo poder do Espírito. Assim, a doutrina de Paulo sobre a ressurreição do corpo implica uma ressurreição física. A segunda forma pela qual Paulo deixa implícito que as aparições foram físicas está no fato de que ele, e a bem da verdade todo o Novo Testamento, fazem uma distinção entre uma aparição e uma visão de Jesus. As aparições de Jesus logo cessaram, mas visões dele continuaram no tempo da igreja primitiva. Ora, a questão é a seguinte: Qual a diferença entre uma aparição e uma visão? A resposta do Novo Testamento parece ser clara: uma visão, embora fosse causada por Deus, acontecia exclusivamente na mente da pessoa, enquanto uma aparição acontecia no mundo exterior, real. Compare a visão que Estêvão teve de Jesus, em Atos 7, com as aparições do Cristo ressurreto. Embora Estêvão tenha visto uma imagem identificável de um corpo, o que seus olhos viram foi a visão de um homem, e não um homem que estava fisicamente lá, pois nenhum dos demais presentes viu absolutamente nada. Por contraste, as aparições da ressurreição aconteceram no mundo real e INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 75 puderam ser testemunhadas por todos os presentes. Paulo podia com razão considerar sua experiência na estrada para Damasco como uma aparição, mesmo tendo ela acontecido após a ascensão de Jesus, uma vez que ela envolveu certas manifestações no mundo exterior, como uma luz e uma voz, algo que também foi testemunhado pelos que acompanhavam Paulo, ainda que em graus variados. Portanto, essa distinção entre uma visão e uma aparição de Jesus também implica que as aparições foram físicas. 2. Os relatos dos evangelhos mostram que as aparições foram físicas e corpóreas. Novamente devemos destacar dois pontos. Primeiro ponto, toda aparição do Cristo ressurreto relatada nos evangelhos é uma aparição física, corpórea. O testemunho unânime dos evangelhos a esse respeito é bastante impressionante. Se nenhuma das aparições tivesse sido de natureza física, corpórea em sua origem, então seria muito estranho o fato de termos um testemunho inteiramente unânime nos evangelhos de que todas as aparições foram físicas, sem a presença do menor traço de supostas aparições originais que não fossem físicas. Uma total corrupção de uma tradição oral desse porte em tão curto espaço de tempo, enquanto as testemunhares oculares ainda estavam vivas, é altamente improvável. Segundo ponto, se todas as aparições fossem de fato visões, então estaríamos completamente perdidos no que diz respeito a explicar o surgimento dos relatos dos evangelhos. Pois aparições físicas, corpóreas, seriam consideradas como uma completa tolice para os gentios e uma pedra de tropeço para os judeus, uma vez que nenhum dos dois grupos aceitava a ressurreição física dos mortos. A mentalidade helênica considerava a morte do corpo físico como uma libertação, uma vez que esse corpo era um empecilho para a alma. A mentalidade judaica excluía a possibilidade de qualquer ressurreição física para a glória e imortalidade que fosse anterior à ressurreição geral que aconteceria no fim do mundo. Portanto, os dois grupos teriam sido bastante cínicos em relação a relatos sobre aparições reais, corpóreas de alguém que tivesse ressuscitado dos mortos. Porém, ambos teriam aceitado de bom grado histórias sobre visões de pessoas mortas. Logo, se as aparições tivessem sido meras visões, então seria inexplicável o motivo de ter surgido uma tradição unânime sobre aparições físicas. Francamente falando, o único motivo para negar que a natureza das aparições após a ressurreição tenha sido física, corpórea, é um motivo decaráter filosófico, e não histórico: Tais aparições seriam milagres de proporções fabulosas, algo que muitos críticos não conseguem engolir. Porém, nesse caso precisamos traçar de novo nossos passos para pensar na evidência da existência de Deus. Se Deus existe, não há uma boa razão para sermos céticos em relação a milagres. Como muito bem colocou o filósofo agnóstico australiano Peter Slezak, em nosso debate, para um Deus capaz de criar um universo inteiro, a bizarra ressurreição seria brincadeira de criança! INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 76 Portanto, com base nessas três linhas de evidências, podemos concluir que o fato de que Jesus apareceu após a morte a vários grupos e indivíduos, sob as mais variadas circunstâncias, é algo historicamente consolidado, sendo que, além disso, essas aparições foram físicas, corpóreas. O fato das origens da fé cristã O terceiro fato a ser explicado é a própria origem da fé cristã. Todos sabem que o cristianismo passou a existir em algum momento da metade do primeiro século depois de Cristo. Por que veio a existir? O que fez esse movimento começar? Mesmo estudiosos mais céticos do Novo Testamento reconhecem que a fé cristã deve suas origens à crença dos primeiros discípulos no fato de que Deus havia ressuscitado Jesus de Nazaré dos mortos. De fato, eles amarraram praticamente tudo a essa crença. Para dar apenas um exemplo disso, vamos pegar a crença no fato de que Jesus era o Messias. Nenhum judeu conceberia um Messias que, em vez de triunfar sobre os inimigos de Israel, seria vergonhosamente executado por esses inimigos como um criminoso. Esperava-se que o Messias fosse uma figura triunfante que inspiraria o respeito de judeus e gentios e estabeleceria o trono de Davi em Jerusalém. Um Messias que falhasse em libertar e reinar, que fosse derrotado, humilhado e executado por seus inimigos é uma contradição dos termos. Nenhum dos textos da literatura judaica fala de um Messias como esse. Portanto, é difícil exagerarmos o tamanho do desastre que a crucificação foi para a fé dos discípulos. A morte de Jesus na cruz significa o fim humilhante de quaisquer esperanças que eles tivessem acalentado de que ele fosse o Messias. Porém, a crença na ressurreição de Jesus reverteu a catástrofe da crucificação. Pelo fato de Deus ter ressuscitado Jesus dos mortos, Jesus era visto como o Messias afinal. Assim, Pedro proclama em Atos 2.23-36: “ele, que foi entregue pelo conselho determinado e pela presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o pelas mãos de ímpios; e Deus o ressuscitou [...] Portanto, toda a casa de Israel fique absolutamente certa de que esse mesmo Jesus, a quem crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo”. Foi com base na crença em sua ressurreição que os discípulos puderam acreditar que Jesus era o Messias. Portanto, não é surpresa o fato de a crença na ressurreição de Jesus ser algo universal na igreja primitiva. A fórmula tradicional citada em 1 Coríntios 15.3-7 — na qual o evangelho é definido como a morte, o sepultamento, a ressurreição e as aparições de Jesus — mostra que essa compreensão do evangelho remonta diretamente ao próprio começo da igreja em Jerusalém. Assim, as origens do cristianismo dependem da crença dos primeiros discípulos de que Deus havia ressuscitado Jesus dentre os mortos. Mas a questão é: Como se explica a origem dessa crença? Como afirma R. H. Fuller, mesmo o mais cético dos críticos deve pressupor um misterioso “x” para que o movimento se iniciasse. Mas que “x” foi esse? INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 77 Resumo Agora estamos prontos para resumir os três pontos que levantamos: Primeiro, vimos que numerosas linhas de evidência histórica provam que o sepulcro de Jesus foi encontrado vazio por um grupo de suas seguidoras. Segundo, vimos que várias linhas de evidência histórica estabelecem que em diversas ocasiões e em diferentes locais vários indivíduos e grupos de pessoas viram Jesus aparecer vivo dos mortos. E por fim, terceiro, vimos que as próprias origens da fé cristã dependem da crença dos primeiros discípulos de que Deus havia ressuscitado Jesus de Nazaré dos mortos. Uma das coisas que mais causa espanto, é perceber que esses três grandes fatos, independentemente consolidados, representam a visão da maioria dos críticos neotestamentários de hoje. O único ponto de séria discordância seria em torno da natureza física das aparições após a ressurreição. Porém, a pesquisa atual firmemente sustenta os três fatos do modo como apresentado. Assim, esses fatos não são conclusões da pesquisa de conservadores ou evangélicos; são três conclusões da crítica neotestamentária predominante. Como vimos, a vasta maioria dos estudiosos que escreveram sobre esse assunto aceita o fato do sepulcro vazio; praticamente ninguém hoje nega que os primeiros discípulos testemunharam aparições de Jesus após sua morte; e há de longe um consenso entre a maioria dos estudiosos no sentido de que os primeiros discípulos ao menos criam que Deus havia ressuscitado Jesus dos mortos. O crítico que negar esses fatos encontra-se hoje na defensiva. Portanto, não se deixe enganar por incrédulos que querem encontrar inconsistências em detalhes circunstanciais dos relatos dos evangelhos. Nossa defesa da ressurreição de Jesus não depende desses detalhes. Todos os quatros evangelhos concordam que: Jesus de Nazaré foi crucificado em Jerusalém, pela mão da autoridade romana, durante a Páscoa, tendo sido preso e condenado por acusações de blasfêmia feitas pelo Sinédrio e, então, caluniado diante de Pilatos sob acusações de traição. Ele morreu no curso de algumas horas e foi sepultado na tarde de sexta-feira, por José de Arimateia, em um sepulcro que foi lacrado com uma pedra. Algumas das seguidoras de Jesus, entre elas Maria Madalena, que tinham presenciado seu sepultamento, foram ao sepulcro no domingo de manhã e o encontraram vazio. Depois disso, Jesus apareceu aos discípulos, inclusive a Pedro, que então se tornaram proclamadores da mensagem de sua ressurreição. Todos os quatro evangelhos atestam esses fatos. Muito mais detalhes podem ser fornecidos por fatos adicionais que são atestados por três dentre os quatro evangelhos. Assim, discrepâncias menores não afetam a nossa defesa. Os historiadores esperam encontrar inconsistências mesmo nas fontes mais confiáveis. Nenhum historiador simplesmente descarta uma fonte por causa de inconsistências. Do contrário, teríamos que ser céticos em relação a todas as INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 78 narrativas históricas seculares que também contivessem inconsistências, algo que seria totalmente descabido. Além disso, em nosso caso as inconsistências não se dão nem ao menos no interior de uma única fonte; eles se dão entre fontes independentes. Mas, evidentemente, ninguém conclui com base em uma inconsistência entre duas fontes independentes que ambas as fontes estejam erradas. Na pior das hipóteses, uma delas está errada, se elas não puderam ser harmonizadas. A questão que nos resta, então, é como explicar melhor os três fatos já estabelecidos. Explicando as evidências Chegamos, então, ao segundo passo de nossa defesa; determinar qual é a melhor explicação das evidências. Os historiadores colocam na balança vários fatores quando estão investigando hipóteses concorrentes. Alguns dos fatores mais importantes que eles levam em conta são os seguintes: 1. A melhor explicação terá um âmbito explicativo mais amplo do que as demais. Isto é, ela explicará mais coisas relativas à evidência. 2. A melhor explicação terá um poder explicativo maior do que as demais. Isto é, ela tornará a evidência mais provável. 3. A melhor explicação será mais plausível do que as demais. Isto é, ela se encaixará melhor nas hipóteses de fundo verdadeiras. 4. A melhor explicação será menos artificial do que as demais.Isto é, não vai exigir a adoção muitas hipóteses a mais que não tenham evidência independente. 5. A melhor explicação será refutada por menos hipóteses aceitas do que as demais. Isto é, não vai entrar em conflito com tantas hipóteses aceitas. 6. A melhor explicação satisfará tão melhor os requisitos 1 a 5 do que as demais que há pouca chance de que uma das outras explicações, após investigação mais profunda, irá se sair melhor em preencher esses requisitos. Uma vez que uma hipótese pode se sair realmente bem em preencher certos requisitos, mas não tão bem em satisfazer outros, descobrir qual hipótese é a melhor explicação em geral pode ser difícil e exige habilidade. No entanto, se o âmbito e o poder explicativo de uma hipótese são muito grandes, de modo que ela se saia bem melhor na explicação de uma variedade maior de fatos, então é bem provável que ela seja a explicação verdadeira. Assim, vamos aplicar esses testes às típicas hipóteses que têm sido propostas ao longo da história para explicar o sepulcro vazio, as aparições de Jesus e as origens da crença dos discípulos na ressurreição, e vamos ver se elas se saem melhor ou tão bem quanto a hipótese da ressurreição na explicação dos fatos. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 79 Hipótese da conspiração Segundo essa hipótese, os discípulos roubaram o corpo de Jesus e mentiram sobre suas aparições, forjando dessa maneira a ressurreição. Essa foi a primeira explicação contraposta para explicar o sepulcro vazio, como vimos, e foi retomada durante o século XVII por deístas europeus. Hoje, entretanto, essa explicação foi completamente abandonada pelos estudos atuais. Vamos ver como ele se sai quando avaliada pelos critérios padrões utilizados para testar hipóteses históricas. 1. Âmbito explicativo. A hipótese da conspiração preenche muito bem esse requisito, pois oferece explicações para o sepulcro vazio (afirma que os discípulos roubaram o corpo), para as aparições de Jesus (afirma que os discípulos mentiram sobre isso), e para as origens da (suposta) crença dos discípulos na ressurreição (afirma, novamente, que eles mentiam). 2. Poder explicativo. Aqui começam a surgir dúvidas em relação a essa hipótese. Tomemos o sepulcro vazio, por exemplo. Se os discípulos roubaram o corpo de Jesus, então não faria o menor sentido inventar uma história sobre as mulheres terem encontrado o sepulcro vazio. Uma história como essa não seria o tipo de história que um homem judeu inventaria. Além disso, a singeleza da história não fica bem explicada pela hipótese da conspiração — onde estão os textos-prova das Escrituras, a evidência da profecia cumprida? Por que não descreve Jesus saindo do sepulcro, como em falsificações posteriores como o Evangelho de Pedro? Nem a controvérsia como os judeus incrédulos fica bem explicada. Por que a guarda de Mateus já não está lá na história de Marcos? Mesmo na história de Mateus a guarda aparece muito tarde: o corpo já poderia ter sido roubado antes que a guarda chegasse, no sábado de manhã, de modo que eles estavam guardando sem saber um sepulcro vazio! Para um álibi infalível contra o roubo do corpo, veja novamente o forjado Evangelho de Pedro, onde a guarda é colocada no sepulcro imediatamente após o sepultamento. Quanto às histórias das aparições, surgem problemas semelhantes. Alguém que as inventasse provavelmente descreveria as aparições em termos das visões de Deus do Antigo Testamento e as descrições da ressurreição do fim dos tempos (como em Daniel 12.2). Mas nesse caso Jesus deveria aparecer para os discípulos em gloria deslumbrante. E por que não haveria uma descrição da própria ressurreição? Por que não haveria aparições e Caifás, o sumo sacerdote, ou aos vilões do Sinédrio, como Jesus previra? Eles então poderiam ser rotulados como verdadeiros mentirosos por negar que Cristo aparecera para eles! No entanto, o poder explicativo da hipótese da conspiração é sem dúvida mais fraco no que diz respeito às origens da crença dos discípulos na ressurreição de Jesus. Pois a hipótese é na verdade uma negação desse fato; ela procura explicar a mera aparência de crença por parte dos discípulos. Porém, como os críticos universalmente reconheceram, não se pode negar com alguma plausibilidade que os primeiros discípulos no mínimo criam sinceramente que Jesus ressuscitará. Eles apostaram suas vidas nessa convicção. A transformação na vida dos discípulos não pode ser explicada com INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 80 credibilidade pela hipótese de uma conspiração. Essa deficiência por si só tem sido suficiente na mente da maior parte dos estudiosos para enterrar de vez a hipótese da conspiração. 3. Plausibilidade. O verdadeiro calcanhar de Aquiles da hipótese da conspiração é, no entanto, sua implausibilidade. Pode ser que alguém levante aqui objeções à inacreditável complexidade de tal conspiração ou o suposto estado psicológico dos discípulos; mas o problema primordial que supera todas as outras objeções é o fato de que é totalmente anacrônico supor que judeus do primeiro século pretendessem fraudar a ressurreição de Jesus. A hipótese da conspiração vê os discípulos através do espelho retrovisor da história cristã, em vez de vê-los através dos olhos de um judeu do primeiro século. Um judeu não tinha qualquer expectativa de um Messias que, em vez de estabelecer o trono de Davi e subjugar os inimigos de Israel, fosse vergonhosamente executado pelos gentios como um criminoso. Além do mais, a ideia da ressurreição era algo simplesmente desvinculado da ideia de um Messias, e até mesmo incompatível com essa ideia, uma vez que não se suponha que o Messias fosse morto. Como tão bem coloca N. T. Wright, se você fosse um judeu do primeiro século e seu Messias favorito fosse crucificado, então você tinha basicamente duas opções: ir para casa ou arranjar um novo Messias. Contudo, a ideia de roubar o corpo de Jesus e dizer que Deus o havia ressuscitado dos mortos dificilmente passaria pelas mentes dos discípulos. Já se sugeriu que a ideia da ressurreição de Jesus poderia ter se originado da influência da mitologia pagã. Perto da virada do século XIX para o século XX, os estudiosos de religiões comparadas coletavam paralelos das crenças cristãs em outros movimentos religiosos, e alguns achavam que isso explicava as crenças cristãs, inclusive a crença na ressurreição, como resultantes da influência de tais mitos. Entretanto, esse movimento logo entrou em colapso, sobretudo devido a dois fatores: Primeiro fator, os estudiosos vieram a perceber que tais paralelos eram falsos. O mundo antigo era literalmente um caldeirão de mitos de vários deuses e heróis. Estudos de religião comparada exigem sensibilidade para suas semelhanças e diferenças, ou a distorção e confusão serão inevitáveis. Infelizmente, aqueles que estavam ansiosos para encontrar paralelos para a ressurreição de Jesus deixaram de colocar em prática essa sensibilidade. Muitos dos paralelos que foram alegados eram, na verdade, histórias sobre a assunção de um herói aos céus (Hércules, Rômulo). Outros eram histórias sobre um desaparecimento, que alegavam que o tal herói desaparecera em uma esfera superior (Apolônio de Tiana, Empédocles). Outros paralelos ainda eram símbolos sazonais para o ciclo do plantio, à medida que a vegetação morre na estação da seca e volta à vida na estação das chuvas (Tamuz, Osíris, Adônis). Outros eram expressões políticas do culto ao imperador (Júlio César, César Augusto). INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 81 Nenhum deles é um paralelo à ideia judaica da ressurreição dos mortos. Na verdade, a maioria dos estudiosos veio a duvidar se existiram, propriamente falando, quaisquer mitos de deuses que morressem e ressuscitassem. Por exemplo, no mito de Osíris, uma dos mais conhecidos mitos simbólicos sazonais, Osíris não volta realmente à vida,7.4.1 Os Manuscritos que foram publicados ......................................................................................209 7.4.2 Os Idiomas em que Foram Escritos ...........................................................................................210 7.4.3 As Datas ...................................................................................................................................210 7.4.4 Duas Cópias de Isaías Descobertas na Gruta .............................................................................213 Conclusão .................................................................................................................................................213 BIBLIOGRAFIA .......................................................................................................................................214 EXEGESE BÍBLICA I .....................................................................................................................................216 PREVENINDO O ANALFABETISMO EXEGÉTICO .......................................................................................216 A TAREFA DA EXEGESE ..........................................................................................................................216 O TEXTO................................................................................................................................................230 PESQUISA..............................................................................................................................................237 ANÁLISE CONTEXTUAL ..........................................................................................................................241 ANALISE FORMAL ..................................................................................................................................249 ANÁLISE DETALHADA DO TEXTO ...........................................................................................................261 BIBLIOGRAFIA .......................................................................................................................................279 EXEGESE BÍBLICA II ....................................................................................................................................281 SÍNTESE.................................................................................................................................................281 REFLEXÃO: INTERPRETAÇÃO TEOLÓGICA E O TEXTO DE HOJE ...............................................................284 APRIMORAMENTO E AMPLIAÇÃO DA EXEGESE .....................................................................................300 DIRETRIZES PRÁTICAS PARA ESCREVER UM TRABALHO DE PESQUISA EXEGÉTICA ..................................303 A CRÍTICA BÍBLICA E SUAS ESCOLAS .......................................................................................................306 TRÊS EXEMPLOS DE TRABALHOS DE EXEGESE ........................................................................................340 INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 8 BIBLIOGRAFIA .......................................................................................................................................363 RELIGIÕES COMPARADAS .........................................................................................................................364 INTRODUÇÃO........................................................................................................................................364 CONHECIMENTO RELIGIOSO .................................................................................................................367 RELIGIÕES COM ORIGEM NA ÍNDIA .......................................................................................................389 HINDUÍSMO ..........................................................................................................................................389 BUDISMO ..............................................................................................................................................398 RELIGIÕES DO EXTREMO ORIENTE ........................................................................................................415 CONFUCIONISMO .................................................................................................................................416 TAOÍSMO ..............................................................................................................................................418 XINTOÍSMO ...........................................................................................................................................421 RELIGIÕES AFRICANAS ..........................................................................................................................424 RELIGIÕES SURGIDAS NO ORIENTE MÉDIO ............................................................................................429 ISLAMISMO ...........................................................................................................................................430 NOVAS RELIGIÕES E NOVAS PERSPECTIVAS ...........................................................................................445 RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS: RELIGIÕES DOS ORIXÁS .........................................................................452 CANDOMBLÉ .........................................................................................................................................453 UMBANDA, A “RELIGIÃO BRASILEIRA” ...................................................................................................456 BIBLIOGRAFIA .......................................................................................................................................459 HISTÓRIA DO PENSAMENTO CRISTÃO .......................................................................................................461 INTRODUÇÃO........................................................................................................................................461 ESCRITURA E TRADIÇÃO ........................................................................................................................461 OS TRÊS TIPOS EM SUA FORMULAÇÃO CLÁSSICA ..................................................................................465 CENTROS DE ATIVIDADE TEOLÓGICA DOS PRIMEIROS SÉCULOS E SEUS PROTAGONISTAS .....................466 DEUS, A CRIAÇÃO E O PECADO ORIGINAL ..............................................................................................476 O CAMINHO E A META DA SALVAÇÃO ...................................................................................................489 O USO DAS ESCRITURAS ........................................................................................................................499 O CURSO DA TEOLOGIA OCIDENTAL ......................................................................................................507 A TEOLOGIA PATRÍSTICA: O PAPEL DE SANTO AGOSTINHO ....................................................................508 A TEOLOGIA MEDIEVAL .........................................................................................................................519 A PARTIR DA REFORMA .........................................................................................................................524 RELEVÂNCIA ATUAL ..............................................................................................................................533 BIBLIOGRAFIA .......................................................................................................................................547 INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 9 APOLOGÉTICA CRISTÃ O QUE É APOLOGÉTICA?mas simplesmente continua a existir no mundo dos mortos. Em geral, os estudiosos vieram a perceber que a mitologia pagã é simplesmente o contexto errado para se entender Jesus de Nazaré. Jesus e seus discípulos foram judeus do primeiro século, e é em contraste com esse pano de fundo que eles devem ser entendidos. O colapso dos paralelos apontados é apenas uma indicação de que a mitologia pagã é o contexto interpretativo errado para compreender a crença dos discípulos na ressurreição de Jesus. Segundo fator do colapso, não há um vínculo causal entre os mitos pagãos e as origens da crença dos discípulos na ressurreição. Os judeus conheciam as divindades sazonais (Ez 8.14-15) e as consideravam abominações. Portanto, não há vestígio de cultos em torno de deuses que morriam e ressuscitavam no Israel do primeiro século. De qualquer modo, e altamente improvável que os primeiros discípulos nutrissem a ideia de que Jesus de Nazaré ressuscitara dos mortos por terem ouvido sobre mitos pagãos sobre deuses sazonais que morreriam e depois ressuscitariam. Portanto, os estudiosos contemporâneos abandonaram essa abordagem. Mas será que talvez os discípulos conceberiam essa ideia sobre a ressurreição com base em influências judaicas? De novo afirmo que é improvável, pois a concepção judaica de ressurreição diferia pelo menos em dois aspectos fundamentais da ressurreição de Jesus. Em primeiro lugar, no pensamento judeu a ressurreição para a glória e imortalidade sempre acontecia após o fim do mundo. Os judeus não acalentavam qualquer ideia que fosse de uma ressurreição que acontecesse no curso da história. É por isso mesmo que, segundo acredito, os discípulos sentiram tanta dificuldade em entender as previsões de Jesus sobre a sua própria ressurreição. Eles pensavam que ele estava se referindo à ressurreição no fim do mundo. Veja a passagem de Marcos 9.9-11, por exemplo: Enquanto desciam do monte, Jesus ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, até que o Filho do homem ressuscitasse dentre os mortos. E eles guardaram o caso em segredo, conversando sobre o que seria o ressuscitar dentre os mortos. Então perguntaram-lhe: Por que os escribas dizem ser necessário que Elias venha primeiro? Aqui Jesus prediz sua ressurreição e o que os discípulos perguntam? “Por que os escribas dizem ser necessário que Elias venha primeiro?”. No judaísmo do primeiro século, acreditava-se que o profeta Elias voltaria antes do grande e terrível dia do Senhor, o dia do julgamento em que os mortos seriam ressuscitados. Os discípulos não podiam compreender a ideia de uma ressurreição que INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 82 ocorresse no curso da história, antes do fim do mundo. Daí porque as predições de Jesus apenas os confundiram. Portanto, dada a concepção que os judeus tinham de ressurreição, os discípulos, após a crucificação, não apareceriam com a ideia de que Jesus já tinha sido ressuscitado. Eles teriam apenas olhado para o futuro, para a ressurreição no último dia e, talvez, seguindo o costume judaico, teriam preservado seu sepulcro como um santuário onde o corpo de Jesus pudesse aguardar até o dia da ressurreição. Em segundo lugar, no pensamento judaico a ressurreição era sempre a ressurreição de todos os justos mortos. Para eles não existia o conceito de ressurreição de um indivíduo apenas. Além do mais, não só não havia qualquer ligação entre a ressurreição individual do fiel e a ressurreição anterior do Messias, não existia em absoluto qualquer crença no sentido de que haveria uma ressurreição anterior do Messias. E por esse motivo que não temos exemplos de outros movimentos messiânicos afirmando que seu líder executado havia ressuscitado dos mortos. Wright tem insistido neste ponto: “Os seguidores dos movimentos messiânicos do primeiro século [...] eram comprometidos com a causa de uma forma fanática [...] Em nenhum outro caso, entretanto, ao longo de todo século, antes e depois de Cristo, ouvimos falar de algum grupo de judeus que dissesse que seu líder executado tivesse ressuscitado dos mortos”. Para os judeus não existia um conceito que sustentasse a ideia da ressurreição de um indivíduo isolado, especialmente do Messias. Portanto, após a crucificação, tudo o que os discípulos puderam fazer era esperar com anseio pelo dia da ressurreição dos mortos para ver seu Mestre de novo. Observe que esse ponto mina não só uma possível teoria da conspiração que suponha que os discípulos proclamaram a ressurreição de Jesus de forma não sincera, mas também qualquer teoria que sugira que, com base em influências pagãs ou judaicas, eles vieram a crer e pregar com sinceridade a sua ressurreição. 4. Menos artificial. Como todas as teorias de conspiração da história, a hipótese da conspiração é artificial em supor que tudo para o que a evidência parece apontar é, na verdade, meramente aparência, algo que pode ser descartado por ser explicado por hipóteses para as quais não existe nenhuma evidência. Especificamente falando, ela postula que havia motivos e ideias nas mentes dos discípulos e ações da parte deles para os quais não há sequer um farrapo de evidência. Ela pode ficar ainda mais artificial à medida que se tenha que multiplicar hipóteses para lidar com as objeções à teoria. Por exemplo, como explicar a aparição para os quinhentos irmãos ou o papel das mulheres no sepulcro vazio e outros relatos da aparição. 5. É refutada por poucas crenças aceitas. A hipótese da conspiração tende a ser refutada por nosso conhecimento geral das conspirações, sendo sua instabilidade e tendenciosidade coisas a se desvendar. Além do mais, ela é refutada por convicções geralmente aceitas, tais como a sinceridade INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 83 dos discípulos, a natureza das expectativas messiânicas dos judeus do primeiro século e assim por diante. 6. Supera outras hipóteses no cumprimento dos requisitos de 1 a 5. A hipótese da conspiração obviamente falha em preencher esse requisito, uma vez que existem hipóteses bem melhores (tal como as hipóteses da alucinação), que não descartam a crença dos discípulos na ressurreição como sendo uma mentira deslavada. Nenhum estudioso defenderia a hipótese da conspiração nos dias de hoje. O único lugar que se lê sobre histórias desse tipo é na impressa popular e sensacionalista ou em ficções que circulam na internet. Hipótese da morte aparente Uma segunda explicação foi a hipótese da morte aparente. No início do primeiro século, certos críticos alegaram que Jesus não estava inteiramente morto quando foi retirado da cruz. Ele foi reanimado no sepulcro e escapou de lá para convencer seus discípulos que havia ressuscitado dos mortos. Hoje tal hipótese também parece ter sido quase que inteiramente abandonada. Mais uma vez vamos aplicar nossos critérios para a melhor explicação: 1. Âmbito explicativo. A hipótese da morte aparente também propõe explicações para o sepulcro vazio, para as aparições de Jesus após sua morte e para as origens da crença dos discípulos na ressurreição de Jesus. 2. Poder explicativo. Aqui essa hipótese começa a afundar. Algumas de suas versões eram na verdade variações da hipótese da conspiração. Em vez de terem roubado o corpo, supõe-se que os discípulos (juntamente com o próprio Jesus!) conspiraram para forjar a morte de Jesus na cruz. Em casos como esse, a teoria compartilha dos mesmos pontos fracos da hipótese da conspiração. Uma versão não conspiratória dessa hipótese era que simplesmente aconteceu de Jesus ter sobrevivido à crucificação, embora os guardas tenham pensado que ele estivesse morto. Mas tal versão também vem acompanhada de dificuldades insuperáveis: Como explicar o sepulcro vazio, uma vez que um homem trancado dentro de um sepulcro não poderia mover a pedra da entrada para escapar? Como explicar as aparições de Jesus após a morte, uma vez quea aparição de um homem meio morto, necessitando desesperadamente de atendimento médico, dificilmente iria induzir os discípulos a concluírem que ele era o Senhor ressurreto que havia derrotado a morte? Como explicar as origens da crença dos discípulos na ressurreição de Jesus, uma vez que o fato de vê-lo novamente apenas os levaria a concluir meramente que ele não havia morrido? Eles jamais pensariam que ele, contrariando o pensamento judeu (bem como seus próprios olhos), havia gloriosamente ressuscitado dos mortos. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 84 3. Plausibilida.de. Nesse ponto a teoria mais uma vez falha miseravelmente. Os executores romanos gozavam de credibilidade quanto a assegurarem a morte de suas vítimas. Uma vez que o momento exato da morte por crucificação é algo incerto, os executores podiam se assegurar da morte fincando uma lança na lateral do corpo da vítima. Foi isso que aconteceu com Jesus (Jo 19.34). Além disso, o que essa teoria sugere é literalmente impossível. O historiador judeu Flavio Josefo conta a respeito de três conhecidos que haviam sido crucificados e retirados da cruz, mas a despeito dos melhores cuidados médicos dois de três deles acabaram morrendo (Vida 75:420¬421). A extensão das torturas que Jesus sofreu foi de tal porte que ele jamais poderia ter sobrevivido à crucificação e ao sepultamento. A sugestão de que um homem tão gravemente ferido viesse a aparecer aos discípulos em várias ocasiões, em Jerusalém e na Galileia, não passa de pura fantasia. 4. Menos artificial. A hipótese da morte aparente, sobretudo em suas versões conspiratórias, pode se tornar imensamente artificial. Somos convidados a imaginar a existência de sociedades secretas, poções administradas na calada da noite, alianças conspiratórias entre os discípulos e membros do Sinédrio, e coisas do gênero, e tudo isso sem sequer um fragmento de evidência para sustentar. 5. Refutada por poucas crenças aceitas. A hipótese da morte aparente é maciçamente refutada por fatos médicos que dizem respeito ao que aconteceria a uma pessoa que tivesse sido açoitada e crucificada. Também é refutada por evidência unânime de que Jesus não continuou entre seus discípulos após ter morrido. 6. Supera outras hipóteses no cumprimento dos requisitos de 1 a 5. Essa teoria também dificilmente se destaca como uma das melhores! Justamente por isso possui poucos defensores entre os historiadores do Novo Testamento nos dias de hoje. Hipótese da remoção do corpo Em uma das poucas tentativas judaicas modernas de lidar com os fatos que dizem respeito à ressurreição de Jesus, Joseph Klausner, em 1922, propôs que José de Arimateia colocou o corpo de Jesus no sepulcro que lhe pertencia temporariamente, devido ao adiantado da hora e pelo fato de o sepulcro de sua família ser mais próximo do local da crucificação. Porém, mais tarde ele teria passado o corpo para um sepulcro comum destinado a criminosos. Sem saber da remoção do corpo, ao encontrar o sepulcro vazio, os discípulos inferiram que Jesus havia ressuscitado. Embora nenhum estudioso defenda essa hipótese nos dias de hoje, já testemunhei tentativas de autores populares de trazê-la de volta. À luz do que já foi dito de outras teorias, seus pontos fracos são evidentes: 1. Âmbito explicativo. A hipótese da remoção do corpo possui um âmbito explicativo reduzido. Ela tenta explicar o sepulcro vazio, mas nada diz a respeito das aparições de Jesus e das INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 85 origens da crença dos discípulos na ressurreição. É necessária a adoção de hipóteses independentes dessa para explicar todo o âmbito das evidências. 2. Poder explicativo. A hipótese defendida por Klausner não tem poder explicativo em relação às aparições ou às origens da fé cristã. Quanto ao sepulcro vazio, essa hipótese enfrenta um problema evidente: Uma vez que José e os eventuais servos que tivesse levado consigo sabiam o que eles tinham feito com o corpo, a teoria falha em explicar porque o engano dos discípulos diante do sepulcro vazio não foi corrigido por quem sabia a verdade, logo que eles começaram a anunciar que Jesus havia ressuscitado — a menos que se recorra a hipóteses forjadas para salvar a pátria, como dizer que José e seus servos morreram subitamente! É possível que alguém diga que o corpo de Jesus já não poderia mais ser identificado. No entanto, essa alegação não é de fato verdadeira. As práticas de sepultamento dos judeus tipicamente envolviam a exumação dos ossos da pessoa falecida um ano depois da morte, para transferi-los para um ossuário. Assim, a localização dos sepulcros, mesmo o dos criminosos, era cuidadosamente observada. Porém, de um modo ou de outro, essa objeção não trata do ponto que interessa. O ponto importante é que as primeiras discussões entre judeus e cristãos sobre a ressurreição de Jesus não se desenrolaram em torno da localização do sepulcro de Jesus ou da identificação do corpo, mas sim em torno do fato de que o sepulcro estava vazio. Se José de Arimateia tivesse removido o corpo de lugar, essa controvérsia entre judeus e cristãos teria tomado um rumo bem diferente. 3. Plausibilidade. Essa hipótese também é implausível por uma série de razões. Até onde podemos contar com fontes judaicas, o sepulcro destinado aos criminosos ficava apenas a 50 a 60 jardas do local da crucificação. Além disso, o costume judaico era sepultar os criminosos executados no mesmo dia da execução; assim, seria isso que José de Arimateia teria tentado fazer. Portanto, ele poderia e de fato teria depositado o corpo diretamente no sepulcro destinado aos criminosos, eliminando assim a necessidade de removê-lo posteriormente ou de violar o sepulcro de sua própria família. Na verdade, a lei judaica nem ao menos permitia que o corpo fosse removido depois, exceto se fosse para o sepulcro da família da pessoa que morrera. José teve tempo suficiente para um sepultamento simples, que provavelmente consistia em lavar o corpo e envolvê-lo em tecido tratado com ervas secas. 4. Menos artificial. A teoria é levemente artificial ao atribuir a José de Arimateia motivos e atividades para as quais não temos absolutamente nenhuma evidência. Ela só se torna totalmente artificial se tivermos que inventar coisas como a morte súbita de José para salvá-la. 5. Refutada por poucas crenças aceitas. A teoria sofre refutação por aquilo que sabemos sobre os procedimentos judeus para o sepultamento de criminosos, como mencionamos acima. 6. Supera outras hipóteses no cumprimento dos requisitos de 1 a 5. E, mais uma vez, não existe um historiador sequer que defenda essa teoria. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 86 Hipótese da alucinação Na obra The Life of Jesus, Critically Examined [A vida de Jesus analisada criticamente], de 1835, David Strauss propôs que as aparições de Jesus foram meras alucinações dos discípulos. O defensor mais destacado dessa teoria hoje é um crítico alemão do Novo Testamento, Gerd Lüdemann. Como essa hipótese da alucinação se sai quando analisada pelos nossos critérios? 1. Âmbito explicativo. A hipótese da alucinação possui um âmbito explicativo reduzido. Não diz absolutamente nada que explique o sepulcro vazio. Portanto, nos obriga a negar o fato do sepulcro vazio (e, juntamente com isso, o sepultamento) ou combinar a ela alguma outra hipótese independente para explicá-lo. Essa hipótese também nada diz para explicar as origens da crença dos discípulos na ressurreição de Jesus. Alguns estudiosos já tentaram chamar a atenção para supostas semelhanças entre as aparições de Jesus e as visões que pessoas enlutadas costumam ter dos que morreram há pouco tempo. Porém, a lição primordial que extraímos dessas visões é que as pessoas enlutadas não concluem que os mortos voltaram fisicamente à vida em consequência dessas experiências, por mais reais e tangíveis que elaspossam parecer — antes, os mortos são vistos no contexto da vida após a morte. Como bem observa Wright, para alguém que vivesse no mundo antigo, visões dos mortos não eram evidência de que a pessoa estivesse viva, mas sim de que estava morta! Além disso, em um contexto judeu era mais fácil encontrar outras interpretações para a ressurreição, mais apropriadas. Dadas as crenças então comuns sobre a vida após a morte, os discípulos, se tivessem tido alucinações de Jesus, possivelmente o teriam visto no céu, no seio de Abrão, onde se acreditava que a alma de um justo permanecia até a ressurreição final. E uma visão como essa não teria levado ninguém a crer que Jesus havia ressuscitado. Na melhor das hipóteses, teria apenas levado os discípulos a dizerem que Jesus fora arrebatado aos céus, mas não ressuscitado. No Antigo Testamento, figuras como Enoque e Elias foram retratadas como não tendo morrido, como tendo sido arrebatadas. Em um documento judeu extrabíblico chamado O testamento de Jó (40) conta-se a história de duas crianças que morreram no desabamento de uma casa. Quando as pessoas que procuravam resgatá-las conseguiram retirar os destroços do caminho não encontraram os corpos das crianças. Nesse meio tempo, a mãe das crianças tem uma visão delas glorificadas no céu, onde tinham sido levadas por Deus. É preciso enfatizar que, para um judeu, a ascensão aos céus não é a mesma coisa que a ressurreição. Ascensão é ser arrebatado ou levado em corpo desse mundo para o céu. Ressurreição é trazer de volta à vida, no universo espaço-temporal, uma pessoa morta. São ideias completamente distintas. Dadas as crenças dos judeus em relação à ascensão e ressurreição, os discípulos, se tivessem tido visões celestiais de Jesus, não teriam pregado que Jesus ressuscitara dos mortos. Na melhor das INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 87 hipóteses, o sepulcro vazio e alucinações os teriam levado a acreditar na ascensão de Jesus para a glória, pois isso era consistente com sua estrutura de pensamento. Mas jamais iriam ter acreditado que Jesus tinha ressuscitado dos mortos, pois isso contrariava as crenças judaicas acerca da ressurreição dos mortos, como já vimos. Portanto, mesmo que com base na hipótese da alucinação, a crença na ressurreição de Jesus continua sem explicação. 2. Poder explicativo. A hipótese da alucinação obviamente nada faz no sentido de explicar o sepulcro vazio e as origens da crença dos discípulos na ressurreição de Jesus. Mas indiscutivelmente tem um frágil poder de explicação no que diz respeito às aparições. Suponhamos que Pedro foi um daqueles que tivesse tido uma visão de alguém ente querido que partira ou que tivesse tido uma visão motivada pela culpa, como imagina Lüdemann. Isso bastaria para explicar as aparições da ressurreição? De fato não, pois a diversidade das aparições ultrapassa os limites de qualquer coisa encontrada em casos descritos em livros de psicologia. Jesus não apareceu apenas uma vez, e sim muitas vezes; não apareceu apenas em um local ou em uma determinada circunstância, mas sim em vários locais e sob uma grande variedade de circunstâncias; não apareceu apenas para um indivíduo, mas para diferentes pessoas; não apenas para indivíduos, mas para diversos grupos de pessoas; não apenas para os que nele criam, mas também para os incrédulos e até mesmo a inimigos. Postular que houve uma reação em cadeia entre os discípulos também não resolveria o problema, pois pessoas como Tiago e Paulo não fazem parte dessa cadeia. Os que explicariam as aparições em termos psicológicos são levados a construir um mosaico, reunindo diferentes casos não relacionados de experiências alucinatórias, o que serve apenas para ressaltar que não há nada parecido com aparições da ressurreição nos livros de psicologia. 3· Plausibilidade. Lüdemann tenta tornar plausível sua hipótese da alucinação por meio de uma psicanálise de Pedro e Paulo. Ele acredita que ambos sofriam de um complexo de culpa que encontrou vazão nas alucinações de Jesus. Mas a psicanálise de Lüdemann é implausível por três razões: primeiro, o uso que ele faz da psicologia profunda baseia-se em certas teorias de Jung e Freud, que são objetos de altas polêmicas. Segundo, os dados para se fazer uma psicanálise de Pedro e Paulo são insuficientes. Uma psicanálise já é algo difícil o bastante para ser feita com pacientes ali, no divã do analista, que dirá dessa tentativa praticamente impossível de analisar figuras históricas. Justamente por isso a tentativa de escrever psicobiografias é algo refutado pelos historiadores atuais. Em terceiro lugar, a evidência que de fato temos sugere que Paulo nunca lutou com um complexo de culpa, como supõe Lüdemann. Perto de 50 anos atrás, Krister Stendahl, um estudioso sueco, apontou que os leitores ocidentais tendiam a interpretar Paulo à luz da luta de Martinho Lutero com a culpa e o pecado. Mas Paulo (ou Saulo), o fariseu, não passou por essa luta. Stendhal escreve: Contraste com Paulo, um judeu muito feliz e bem-sucedido, alguém que pode dizer: “quanto à justiça que há na lei, eu era irrepreensível” (Fp 3.6). Isso foi o que ele disse. Ele não tinha INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 88 dificuldades, problemas ou dramas de consciência. Ele fora um aluno brilhante, o estudante que ganharia a melhor bolsa de estudos do seminário de Gamaliel [...] Em lugar algum nos escritos de Paulo existe o menor sinal [...] de que ele tivesse algum problema de consciência. A fim de justificar o perfil que constrói de um Paulo que carrega um sentimento de culpa, Lüdermann é forçado a interpretar Romanos 7 em termos da experiência de Paulo anterior ao cristianismo. Contudo, essa interpretação é rejeitada por quase todos os comentaristas desde o final da década de 1920. Logo, a psicanálise de Lüdermann é positivamente implausível. Um segundo sentido em que a hipótese da alucinação é implausível é quando toma as aparições posteriores à ressurreição como experiências meramente visionárias. Lüdemann reconhece que a hipótese da alucinação depende do pressuposto de que aquilo que Paulo viveu na estrada de Damasco foi o mesmo que todos os demais discípulos viveram. Porém, esse pressuposto é infundado. Ao se incluir na lista de testemunhas oculares das aparições de Cristo após a ressurreição, Paulo, de modo algum, está deixando implícito que todas elas foram exatamente como a visão que ele teve. Muitos dos opositores de Paulo em Corinto negavam que ele fosse um verdadeiro apóstolo; assim, Paulo estava ansioso para se incluir entre os demais apóstolos que tinham visto a Cristo. Paulo estava tentando trazer a sua experiência para a objetividade e realidade deles, e não o contrário, ou seja, rebaixar a experiência dos apóstolos ao nível de meras experiências visionárias. Portanto, a hipótese da alucinação sofre de implausibilidade com respeito à psicanálise que faz das testemunhas e à grosseira redução das aparições a experiências visionárias. 4. Menos artificial. A versão de Lüdemann para a hipótese da alucinação é artificial por uma série de motivos. Por exemplo, ela presume que os discípulos fugiram para a Galileia, após a prisão de Jesus; presume que Pedro estava tão obcecado pela culpa que projetou uma alucinação de Jesus; presume que os outros discípulos também tinham tendência a ter alucinações e que Paulo tinha dificuldades com a lei judaica e uma atração secreta pelo cristianismo. 5. Refutada por poucas crenças aceitas. Algumas das crenças aceitas pelos estudiosos atuais do Novo Testamento tendem a refutar a hipótese da alucinação, ou pelo menos a refutar o modo como Lüdemann a apresenta. Por exemplo, eles aceitam que Jesus foi colocado no sepulcro por José de Arimateia, que as mulheres encontraram o sepulcro vazio, que é impraticável fazer a psicanálise de figuras históricas, que Paulo estava basicamente feliz com sua vida soba lei judaica e que o Novo Testamento faz uma distinção entre meras visões e uma aparição posterior à ressurreição. 6. Supera outras hipóteses no cumprimento dos requisitos de 1 a 5. A hipótese da alucinação continua a ser uma opção presente nos dias de hoje e, nesse aspecto, superou suas rivais naturalistas. Mas a verdadeira questão é se ela supera a hipótese da ressurreição. Hipótese da ressurreição INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 89 Já vimos como as típicas explicações para o sepulcro vazio, as aparições posteriores à ressurreição e as origens da fé dos discípulos se saem quando avaliadas por critérios padrões para testar hipóteses históricas. Elas são especialmente fracas no que diz respeito ao seu âmbito e poder explicativos e, em geral, altamente implausíveis. Mas será que a hipótese da ressurreição se sai melhor na explicação das evidências? Existe uma explicação melhor do que as implausíveis explicações naturalistas propostas no passado? A fim de responder a essas questões, vamos aplicar os mesmos critérios aplicados anteriormente à hipótese de que “Deus ressuscitou Jesus dos mortos”. 1. Âmbito explicativo. O âmbito explicativo dessa hipótese é maior do que o das explicações concorrentes, como a das hipóteses da alucinação ou da remoção do corpo, pois ela explica todos os três principais fatos em discussão, enquanto as outras hipóteses explicam apenas um. 2. Poder explicativo. Essa talvez seja maior força da hipótese da ressurreição. As hipóteses da conspiração e da morte aparente, por exemplo, simplesmente não oferecem uma explicação convincente para o sepulcro vazio, para as aparições de Jesus e para as origens da fé cristã; de acordo com essas teorias as evidências (por exemplo, a transformação dos discípulos) se tornam bastante improváveis. Por contraste, de acordo a hipótese da ressurreição de Jesus, parece extremamente provável que o sepulcro devesse estar vazio, que os discípulos devem ter testemunhado aparições do Jesus ressurreto e que eles devem ter vindo a crer na sua ressurreição. 3. Plausibilidade. A plausibilidade da ressurreição de Jesus cresce exponencialmente uma vez que a consideremos em seu contexto histórico, a saber, a vida sem comparação de Jesus e suas afirmações radicais, e em seu contexto filosófico, a saber, a evidência em favor da existência de Deus. Uma vez que alguém aceite a visão de que Deus existe, a hipótese de que Deus ressuscitaria Jesus dos mortos não é mais implausível do que as hipóteses concorrentes. 4. Menos artificial. A hipótese da ressurreição possui grande âmbito e poder explicativos, mas alguns estudiosos acusaram-na de ser artificial. Ser artificial, como você deve se lembrar, é uma questão de quantas novas suposições uma hipótese deve fazer que não sejam implícitas pelo conhecimento existente. Com base nessa definição, no entanto, é difícil ver por que a hipótese da ressurreição é tão extraordinariamente artificial. Pois ela requer apenas uma única suposição nova: que Deus existe. Certamente as hipóteses concorrentes requerem muitas suposições novas. Por exemplo, a hipótese da conspiração requer que suponhamos que o caráter moral dos discípulos tinha falhas, algo que por certo não fica implícito pelo conhecimento já existente. A hipótese da morte aparente requer a suposição de que a lança que o centurião cravou no lado do corpo de Jesus fez apenas um arranhão superficial ou é um detalhe não histórico na narrativa, o que de novo vai além do conhecimento existente. A hipótese da alucinação requer que suponhamos alguma espécie de preparo emocional INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 90 dos discípulos que os deixaram predispostos a projetar visões de Jesus ressurreto, algo que também não está implícito no conhecimento que temos. Exemplos como esses podem se multiplicar. Além do mais, para uma pessoa que já crê em Deus, a hipótese da ressurreição nem sequer introduz a nova suposição da existência de Deus, uma vez que esse dado já está implícito no conhecimento que essa pessoa tem. Portanto, não se pode dizer que a hipótese da ressurreição seja artificial simplesmente em virtude da quantidade de novas suposições que ela introduz. Se nossa hipótese é artificial, então deve ser por outros motivos. As hipóteses cientificas normalmente incluem a suposição da existência de novas entidades, tais como quarks, cordas, grávitons, buracos negros e coisas do gênero, sem que essas teorias sejam taxadas de serem artificiais. Os filósofos da ciência acharam notoriamente difícil explicar o que exatamente torna a hipótese da ressurreição artificial. Parece haver um clima de artificialidade acerca de uma hipótese que julgam ser artificial, um clima que pode ser sentido por aqueles que são praticantes experientes da ciência relevante. Hoje penso que a sensação de desconforto que muitas pessoas, mesmo cristãs, sentem a respeito de apelar a Deus como parte de uma hipótese para explicar algum fenômeno está no fato de que fazer isso tem esse ar de artificialidade. Simplesmente parece ser tão fácil, quando alguém se vê confrontado por algum fenômeno sem explicação, apenas levantar a mão e dizer: Foi Deus que fez isso!. A hipótese de que “Deus ressuscitou Jesus dos mortos” é artificial nesse sentido? Não acredito nisso. Uma explicação sobrenatural para o sepulcro vazio, as aparições de Jesus e as origens da fé cristã dificilmente pode ser considerada artificial dado o contexto sem paralelos da própria vida de Jesus, de seu ministério e de suas alegações pessoais. Uma hipótese sobrenatural prontamente se encaixa em tal contexto. Além disso, é precisamente por causa desse contexto histórico que a hipótese da ressurreição não parece artificial, quando comparada com explicações miraculosas de outros tipos. Por exemplo, com a explicação de que um milagre psicológico ocorreu, levando homens e mulheres perfeitamente normais a se tornarem conspiradores e mentirosos dispostos a serem martirizados por suas mentiras; ou que um “milagre biológico aconteceu, algo que impediu que Jesus morresse na cruz (a despeito da lança cravada em seu corpo e assim por diante). São essas hipóteses miraculosas que deveriam nos causar admiração por serem artificiais, e não a hipótese da ressurreição, pois ela faz todo sentido do mundo no contexto do ministério e das alegações pessoais radicais de Jesus. Portanto, a meu ver parece que a hipótese da ressurreição não pode ser taxada de excessivamente artificial. 5. Refutada por poucas crenças aceitas. Não consigo pensar em alguma crença aceita que seja capaz de refutar a hipótese da ressurreição a menos que alguém pense, digamos, na afirmação “homens mortos não ressuscitam” como uma refutação. No entanto, essa generalização baseada no que naturalmente acontece quando as pessoas morrem nada faz no sentido de refutar a hipótese de INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 91 que Deus ressuscitou Jesus dos mortos. Pode de forma consistente acreditar em ambas, ou seja, que os seres humanos não ressuscitam naturalmente dos mortos e que Deus ressuscitou Jesus dos mortos. Por contraste, as teorias concorrentes são refutadas por crenças aceitas como, por exemplo, a instabilidade das conspirações, a probabilidade da morte em consequência da crucificação, as características psicológicas das experiências alucinatórias e assim por diante, como já vimos. 6. Supera outras hipóteses no cumprimento dos requisitos de 1 a 5. Certamente existe pouca chance de alguma das hipóteses concorrentes algum dia superar a hipótese da ressurreição no que concerne ao cumprimento dos requisitos apontados. A perplexidade dos eruditos contemporâneos quando confrontados com fatos como o sepulcro vazio, as aparições de Jesus e as origens da fé cristã sugere que não há no horizonte nenhuma hipótese rival que seja melhor. Uma vez que se abra mão do preconceito contra milagres,é difícil negar que a ressurreição de Jesus é a melhor explicação para os fatos. Conclusão Concluindo, portanto, temos três fatos estabelecidos e independentes — o sepulcro vazio, as aparições de Jesus e as origens da fé cristã — que apontam todos para a mesma maravilhosa conclusão: que Deus ressuscitou Jesus dos mortos. Dado o fato de que Deus existe, essa conclusão não pode ser barrada por ninguém que esteja em busca do sentido da existência. BIBLIOGRAFIA ALAN, Richardson. Apologética cristã. Rio de Janeiro: JUERP, 1983. AZEVEDO, Israel Belo de. Curso Vida Nova de Teologia básica - Vol. 6 - Apologética Cristã. São Paulo: Vida Nova, 2006. BECKWITH, Francis J. Ensaios Apologéticos. São Paulo: Hagnos, 2007. CRAIG, Willian Lane. Apologética Contemporânea: A veracidade da fé cristã. São Paulo: Vida Nova, 2012. CRAIG, Willian Lane. Apologética para questões difíceis da vida. São Paulo: Vida Nova, 2010. CRAIG, Willian Lane. Em guarda: Defenda a fé cristã com razão e precisão. São Paulo: Vida Nova, 2011. FRAME, John. Apologética para a glória de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2011. GEISLER, Norman. Enciclopédia de Apologética. São Paulo: Vida, 2002. GEISLER, Norman. Fundamentos Inabaláveis. São Paulo: Vida, 2003. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 92 McGRATH, Alister. Apologética cristã no século XXI. São Paulo: Vida, 2008. STROBEL, Lee. Em defesa de Cristo. São Paulo: Vida, 2001. TIL, Cornélius Van. Apologética Cristã. São Paulo. Cultura Cristã, 2011. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 93 COSMOVISÃO CRISTÃ INTRODUÇÃO Todo mundo tem uma cosmovisão. Uma cosmovisão é uma série de crenças, um sistema de pensamentos, sobre as questões mais importantes da vida. A cosmovisão de uma pessoa é sua filosofia. “Cosmovisão” e “filosofia” são virtualmente palavras sinônimas. Grandes pensadores tais como Platão, Aristóteles, Agostinho e Tomás de Aquino, cada um deles tinha um sistema de crença com respeito à filosofia, que foi escrito numa forma sistemática. Cada sistema expressou a cosmovisão do filósofo particular. Mas mesmo que elas possam não perceber, todas pessoas (adultas) necessária e inescapavelmente têm uma cosmovisão, um sistema filosófico de pensamento. A cosmovisão delas pode não ser escrita, ou sistematizada como as dos quatro pensadores mencionados acima, mas elas têm uma cosmovisão apesar de tudo. Cosmovisão, visão de mundo, mundividência, é um conjunto ordenado de valores, crenças, impressões, sentimentos e concepções de natureza intuitiva, anteriores à reflexão, a respeito da época ou do mundo em que se vive. Em outros termos, é a orientação cognitiva fundamental de um indivíduo, de uma coletividade ou de toda uma sociedade, num dado espaço-tempo e cultura, a respeito de tudo o que existe - sua gênese, sua natureza, suas propriedades. Uma visão de mundo pode incluir a filosofia natural, postulados fundamentais, existenciais e normativos, ou temas, valores, emoções e ética. Entendemos que a cosmovisão cristã, é a única cosmovisão ou filosofia confiável. O fim principal do homem é glorificar a Deus (1Co 10.31; Rm 11.36), e gozá-lo para sempre (Sl 73.25-28). Sendo assim, estamos obrigados a adotar uma filosofia que honre a Deus. Precisamos, como o apóstolo Paulo declarar, de uma filosofia que esteja de “acordo com Cristo” (Cl 2.8). Temos uma filosofia cristã, que é baseada no axioma da revelação divina: a Palavra de Deus. Visão de mundo cristão, ou cosmovisão cristã refere-se ao conjunto das distinções filosóficas e religiosas que caracterizam o Cristianismo em relação a questões como a natureza da verdade, a existência do homem, o sentido do universo e da vida, os problemas da sociedade, dentre outros. A forma como nós enxergamos o nosso mundo define como nós vamos nos relacionar com ele, como vamos viver, usar nosso tempo, nossos talentos e habilidades, as escolhas que vamos fazer. Tudo isso é definido por nossa cosmovisão, pela forma como nós percebemos a realidade. Por isso que é tão importante nós refletirmos sobre isso. Nem sempre nós estamos cientes de que nossas escolhas não são feitas pelas circunstâncias, elas são feitas a partir da forma como nós enxergamos nossa vida. Quando a gente para pra pensar sobre uma cosmovisão cristã, nós estamos INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 94 falando sobre a forma de ver o mundo sob Cosmovisão cristã é enxergar o mundo com os olhos de Cristo, perceber a realidade não a partir de uma filosofia niilista, não a partir de uma perspectiva espiritualista, mas perceber o mundo a partir dos olhos de Cristo. Como você enxerga o mundo? Como você observa a natureza, a sociedade, as pessoas, o seu trabalho, os seus estudos, o seu lazer? Estudar cosmovisão é algo muito importante. A verdadeira cosmovisão ela nos é dada a partir do próprio ensino de Jesus, dos apóstolos, profetas nas Escrituras. Estude mais sobre cosmovisão cristã, vamos pensar mais sobre essa realidade porque isso vai nos ajudar a olhar para a nossa vida de uma forma diferente, a perceber que há um sentido, um propósito, uma missão, uma vocação. E que nós podemos experimentar a vontade de Deus, que é boa perfeita e agradável. Tudo isso é importante porque quando nós olhamos para ensino de Cristo nós descobrimos que podemos perceber a realidade com olhos totalmente diferentes, uma ótica cristã. O movimento evangélico da atualidade não está mais unido como era no passado. Alguns que se denominam evangélicos andam insistindo abertamente que a fé só em Jesus não é o único caminho para o céu. Eles agora estão convencidos que os povos de todas as crenças estarão no céu. Outros simplesmente estão acovardados, constrangidos ou hesitantes em afirmar a exclusividade do evangelho numa época em que o exclusivismo, pluralismo e tolerância são tidos pelo mundo secular como virtudes supremas. Eles pensam que seria um tremendo fora cultural declarar que o Cristianismo é a única verdade e que todas as outras crenças são erradas. Aparentemente o maior medo que o movimento evangélico tem hoje em dia é de ser visto como posicionado em desarmonia com o mundo. Por que se deu essa dramática mudança? Por que o movimento evangélico abandonou aquilo que outrora aceitava como verdade? Eu creio que é porque, em sua busca desesperada pelo relevante e atual (na moda), os líderes da Igreja na verdade não conseguiram ver para onde se encaminha o mundo contemporâneo e por quê. Nós não estamos mais vivendo no mundo moderno. Este é o mundo pós-moderno. E o pós- modernismo é tão hostil à verdade do Cristianismo quanto o foi o modernismo — talvez mais ainda. As questões filosóficas são diferentes, mas a hostilidade do mundo para com a verdade das Escrituras não diminuiu nem um pouco. Este não é o momento de se fazer amizade com o mundo. E certamente não é tempo de render- se aos gritos do mundo por pluralismo e inclusivismo. A menos que recuperemos nossa convicção de que Cristo é o único caminho para o céu, o movimento evangélico se tornará cada vez mais fraco e irrelevante. É irônico que tantos que estão demolindo a exclusividade de Cristo, assim fazem porque acreditam que isso é uma barreira à “relevância”. Na verdade, o Cristianismo não é relevante de modo INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 95 algum se ele for apenas um dos muitos caminhos para Deus. A relevância do evangelho tem sido sempre sua exclusividade absoluta, sumariada na verdade que só Cristo fez a expiação pelo pecado e, portanto, só Cristo pode fazer a reconciliação com Deus daqueles que creem somente nele. A Igreja primitiva pregou a Cristo crucificado, sabendo que a mensagem era uma pedra de tropeço para os judeus religiosos e loucura para os gregos filósofos (1Co 1.23). Nós precisamos recuperar essa ousadia apostólica. Nós precisamos lembrarque pecadores não são ganhos através de relações públicas bem engendradas, mas o evangelho — uma mensagem inerentemente exclusiva — é o poder de Deus para a salvação. Justamente esta estreiteza coloca o Cristianismo à parte de qualquer outra cosmovisão. Afinal de contas, o ponto central do sermão melhor conhecido de Jesus foi declarar que a estrada para a destruição é larga e bem viajada, enquanto que a estrada da vida é tão estreita que poucos a encontram (Mt 7.14). Nossa obrigação como embaixadores de Deus é justamente apontar a estrada tão estreita. Cristo é, ele mesmo, o único caminho para Deus, e obscurecer o fato é, na realidade, negar Cristo e desacreditar o evangelho em si. Devemos resistir à tendência de sermos absorvidos nas modas e modismos do pensamento humano. Nós precisamos enfatizar, não diminuir, o que torna o Cristianismo único. E para fazer isso de modo eficaz nós precisamos ter uma melhor compreensão de como o pensamento do mundo está ameaçando a sã doutrina na Igreja. Devemos ser capazes de apontar exatamente onde a estrada estreita se afasta da estrada larga. “Ninguém se engane a si mesmo: se alguém dentre vós se tem por sábio neste século, faça-se estulto para se tornar sábio. Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; porquanto está escrito: Ele apanha os sábios na própria astúcia deles” (1Co 3.18-19). “Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” (Jo 14.6) A Igreja versus o Mundo “Irmãos, não vos maravilheis se o mundo vos odeia.” (1Jo 3.13) Por que os evangélicos tentam tão desesperadamente cortejar o favor do mundo? As Igrejas planejam seus cultos de adoração para servir aos “sem-Igreja”. Os produtores cristãos imitam a coqueluche mundana do momento em termos de música e entretenimento. Os pregadores se sentem INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 96 aterrorizados de que a ofensa do evangelho possa fazer alguém se voltar contra eles; então deliberadamente omitem partes da mensagem que o mundo pode não se agradar. O movimento evangélico parece ter sido sabotado por legiões de falsos especialistas mundanos que estão empenhados em tentar fazer o melhor que podem para convencer o mundo de que a Igreja pode ser tão inclusiva, pluralista e de mente aberta quanto a mais politicamente correta pessoa mundana. A busca pela aprovação do mundo é nada mais, nada menos que adultério espiritual. Na verdade, isto é precisamente a imagem que o apóstolo Tiago usou para descrevê-la. Ele escreveu, “Infiéis: adúlteros e adúlteras”, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4.4). Existe e sempre existiu uma incompatibilidade fundamental, irreconciliável entre a Igreja e o mundo. A fé genuína em Cristo implica numa negação de todo valor mundano. A verdade bíblica contradiz todas as religiões do mundo. Jesus disse a seus discípulos, “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim. Se vós fosseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhei, por isso, o mundo vos odeia” (Jo 15.18,19). Observe que o nosso Senhor considerou como certo que o mundo desprezaria a Igreja. Longe de ensinar a seus discípulos a que tentassem ganhar o favor do mundo, reinventando o evangelho para se adequar às suas preferências, Jesus expressamente advertiu que a busca pelas aclamações mundanas é uma característica dos falsos profetas: “Ai de vós, quando todos vos louvarem. Porque assim procederam seus pais com os falsos profetas” (Lc 626). Ele foi mais longe, “Não pode o mundo odiar-vos, mas a mim me odeia, porque eu dou testemunho a seu respeito de que as suas obras são más” (Jo 7.7). Em outras palavras, o desprezo do mundo pelo Cristianismo deriva de motivos morais, não intelectuais: “O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más. Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem arguidas as suas obras” (Jo 3.19,20). É por esta razão que, não importa quão dramaticamente a opinião do mundo possa vir a variar, a verdade cristã não será jamais popular ao mundo. Contudo, virtualmente em toda época da história da Igreja, tem havido gente na Igreja que está convencida de que a melhor maneira de ganhar o mundo é satisfazer os seus gostos. Tal tipo de abordagem tem sempre sido em detrimento da mensagem do evangelho. As únicas vezes que Igreja causou impacto significativo sobre o mundo foi quando o povo de Deus permaneceu firme, se recusou a compactuar e ousadamente proclamou a verdade apesar da hostilidade do mundo. Quando os cristãos se desviam da tarefa de confrontar os enganos do mundo com as impopulares verdades INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 97 bíblicas, a Igreja invariavelmente perde sua influência e impotente se mescla ao mundo. Tanto as Escrituras quanto a história atestam esse fato. E a mensagem cristã simplesmente não pode ser torcida para se conformar com a instabilidade da opinião do mundo. A verdade bíblica é fixa e constante, não sujeita a mudança ou adaptação. A opinião do mundo, por outro lado, está sempre em fluxo constante. Os vários modismos e filosofias mudam radicalmente e regularmente de geração para geração. Ao que tudo indica, o mundo não abraçará por muito tempo qualquer das ideologias que estão atualmente em voga. Se a história servir como indicador, quando nossos netos se tomarem adultos a opinião do mundo terá sido dominada por um sistema completamente novo de crenças e um conjunto de valores totalmente diferente. A geração de amanhã renunciará a todas os modismos e filosofias de hoje, mas urna coisa permanecerá imutável: até que o Senhor mesmo volte, seja qual for a ideologia que ganhe popularidade no mundo, ela será tão hostil às verdades bíblicas corno o foram todas as precedentes Modernismo Pense no que aconteceu no século passado, por exemplo. Cem anos atrás a Igreja estava ameaçada pelo modernismo. Modernismo era urna cosmovisão baseada na noção de que somente a ciência podia explicar a realidade. O modernista, com efeito, começou com a pressuposição de que nada sobrenatural é real. Deveria ter ficado instantaneamente óbvio que o modernismo e o Cristianismo eram incompatíveis no nível mais básico. Se nada sobrenatural era real, então grande parte da Bíblia seria falsa e sem autoridade; a encarnação de Cristo seria um mito (anulando a autoridade de Cristo também); e todos os elementos sobrenaturais do Cristianismo, incluindo o próprio Deus, teriam de ser totalmente redefinidos em termos naturalistas. O modernismo foi anticristão até à sua medula. Não obstante, a Igreja visível no começo do século 20 ficou cheia de gente que estava convencida de que modernismo e Cristianismo podiam e deviam ser conciliados. Eles insistiam que se a Igreja não acompanhasse o passo dos tempos, abraçando o modernismo, o Cristianismo não sobreviveria ao século 20. A Igreja se tornaria paulatinamente irrelevante para o povo moderno, eles diziam, e logo desapareceria. Assim sendo, eles inventaram um “evangelho social” desprovido do verdadeiro evangelho da salvação. Naturalmente, o Cristianismo bíblico sobreviveu o século 20 muito bem, obrigado. Nos lugares onde os cristãos permaneceram comprometidos com a verdade e autoridade das Escrituras, a Igreja floresceu, mas, ironicamente, aquelas Igrejas e denominações que abraçaram o modernismo foram as que se tornaram pouco a pouco irrelevantes e desapareceram antes do fim do século. Muitos INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 98 edifícios de pedra, grandiosos, mas quase vazios, dão testemunho da fatalidade da conformação com o modernismo.Pós-modernismo O modernismo é agora considerado como um modo de pensar do passado. A cosmovisão dominante tanto no círculo secular quanto no acadêmico atualmente é chamada de pós-modernismo. Os pós-modernistas têm repudiado a confiança absoluta dos modernistas na ciência como único caminho para a verdade. Na realidade os pós-modernistas perderam completamente o interesse pela “verdade”, insistindo que não existe tal coisa como verdade absoluta ou universal. O modernismo era de fato insustentável com a fé cristã e precisava ser abandonado, mas o pós-modernismo é um passo trágico na direção errada. Ao contrário do modernismo, que estava ainda preocupado com a possibilidade de convicções básicas, crenças e ideologias serem objetivamente verdadeiras ou falsas, o pós-modernismo simplesmente nega que qualquer verdade possa ser objetivamente conhecida. Para o pós-modernista a realidade é o que o indivíduo imagina que seja. Isso significa que o que é “verdadeiro” é determinado subjetivamente por cada um, e não existe tal coisa como a chamada verdade objetiva, com autoridade que governa ou se aplica universalmente a toda humanidade. O pós- modernista acredita naturalmente que não faz sentido debater se a opinião A é superior à opinião B. No final de contas, se a realidade é meramente uma invenção da mente humana a perspectiva de verdade de uma pessoa é afinal tão boa quanto a de outra. Tendo desistido de conhecer a verdade objetiva, o pós-modernista se ocupa em lugar disso, com a busca para “entender” o ponto de vista da outra pessoa. Então as palavras “verdade” e “compreensão” tomam significados radicalmente novos. Ironicamente, “compreensão” requer que primeiro de tudo desacreditemos na possibilidade de conhecer qualquer verdade afinal. E “verdade” se torna nada mais do que uma opinião pessoal, geralmente melhor guardada para si mesmo. Essa é uma exigência essencial, não negociável que o pós-modernismo faz a todo mundo: nós não devemos pensar que conhecemos qualquer verdade objetiva. Os pós-modernistas frequentemente sugerem que toda opinião deveria receber igual respeito. E, portanto, numa visão superficial, o pós- modernismo parece movido por uma preocupação pela mente aberta para se chegar à harmonia e tolerância. Tudo soa muito caridoso e altruísta, mas o que realmente sublinha o sistema de crenças pós-modernistas é uma intolerância total por toda cosmovisão que faça alegações de qualquer verdade universal, particularmente o Cristianismo bíblico. Em outras palavras, o pós-modernismo começa com uma pressuposição que é irreconciliável com a verdade objetiva, divinamente revelada nas Escrituras. Da mesma forma que o modernismo, o pós-modernismo é fundamental e diametralmente oposto ao evangelho de Jesus Cristo. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 99 Pós-modernismo e Igreja Não obstante, a Igreja atualmente está cheia de gente que advoga ideias pós-modernistas. Alguns deles fazem isso consciente e deliberadamente, mas a maioria o faz sem querer. Tendo embebido em demasia do espírito dos tempos, eles estão simplesmente regurgitando opiniões do mundo. O movimento evangélico como um todo, ainda se recuperando de sua longa batalha contra o modernismo, não está preparado para um adversário novo e diferente. Muitos cristãos, portanto, não reconheceram ainda o perigo extremo colocado pelo pensamento pós-modernista. A influência pós-modernista claramente já infecta a Igreja. Os evangélicos estão baixando o tom da sua mensagem para que as rígidas alegações de verdades do evangelho não soem tão desagradáveis aos ouvidos pós-modernos. Muitos evitam fazer afirmações inequívocas de que a Bíblia é verdadeira e todos os outros sistemas religiosos do mundo são falsos. Alguns que se intitulam cristãos foram ainda mais longe, determinadamente negando a exclusividade de Cristo e abertamente questionando sua alegação de ser ele o único caminho para Deus. A mensagem bíblica é clara. Jesus disse, “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6). O apóstolo Pedro proclamou a uma audiência hostil, “... não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4.12). O apóstolo João escreveu, “quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo 3.36). Repetidas vezes as Escrituras enfatizam que Jesus Cristo é a única esperança de salvação para o mundo. “... há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1Tm 2.5). Somente Cristo pode expiar pecados e, portanto, somente Cristo pode dar salvação. “... o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está no seu Filho. Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida” (1Jo 5.11,12). Essas verdades são contrárias à doutrina central do pós-modernismo. Elas fazem alegações de verdade exclusivas, universais, declarando ser Cristo o único caminho para o céu e errôneos todos os outros sistemas de crença. Isto é o que as Escrituras ensinam. É o que a Igreja verdadeira tem proclamado ao longo de toda sua história. É a mensagem do Cristianismo. E simplesmente não pode ser ajustado para acomodar as sensibilidades pós-modernas. Em vez disso, muitos cristãos simplesmente vão passando por cima das alegações exclusivas de Cristo, debaixo de um silêncio constrangedor. Pior ainda, alguns na Igreja — incluindo alguns dos mais conhecidos líderes evangélicos — começaram a sugerir que talvez o povo possa ser salvo fora do conhecimento de Cristo. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 100 Os cristãos não podem ceder ao pós-modernismo sem sacrificar a essência da nossa fé. A alegação da Bíblia de que Cristo é o único caminho da salvação está certamente em desarmonia com a noção pós-moderna de “tolerância”, mas é, no final de contas, exatamente o que a Bíblia claramente ensina. E a Bíblia, não a opinião pós-moderna, é a autoridade suprema para o cristão. Somente a Bíblia deve determinar o que nós cremos e proclamar isso ao mundo. Nós não podemos abrir mão disso, não importa quanto o mundo pós-modernista reclame que nossas crenças fazem de nós pessoas “intolerantes”. Tolerância Intolerante A veneração da tolerância pelo pós-modernista é uma característica óbvia, mas essa versão da “tolerância” é, na verdade, uma distorção perigosa da verdadeira virtude. Aliás, tolerância nunca é mencionada na Bíblia como uma virtude, exceto no sentido de paciência, longanimidade e mansidão (ver Ef 4.2). De fato, a noção contemporânea de tolerância é um conceito pateticamente fraco comparado ao amor que as Escrituras ordenam aos cristãos que mostrem aos seus inimigos. Jesus disse, “amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam; bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam” (Lc 6.27,28; confira os versículos 29-36). Quando nossos avós falaram de tolerância como uma virtude, eles tinham isso em mente. A palavra então significava respeitar as pessoas e tratá-las com bondade mesmo quando acreditamos que elas estão erradas, mas a noção pós moderna de tolerância significa que nós nunca devemos considerar a opinião de ninguém como errada. A tolerância bíblica é para as pessoas; a tolerância pós- moderna é para ideias. Aceitar toda crença como igualmente válida dificilmente é uma virtude real, mas é praticamente o único tipo de virtude que o pós-modernismo conhece. As virtudes tradicionais (incluindo humildade, domínio próprio e castidade) são abertamente zombadas e até mesmo consideradas como transgressões, no mundo do pós-modernismo. Previsivelmente a beatificação da tolerância pós-moderna tem tido seus efeitos desastrosos sobre a verdadeira virtude em nossa sociedade. Nestes tempos de tolerância,o que era proibido passou a ser encorajado. O que era tido como imoral é agora festejado. Infidelidade marital e divórcio foram normalizados. Impureza é o lugar comum. Aborto, homossexualidade e perversões morais de todos os tipos são aclamados por grandes grupos e entusiasticamente promovidos pela mídia popular. A noção pós-moderna de tolerância está sistematicamente virando virtude genuína na cabeça deles. Uma exceção notável àquela regra se destaca claramente: os pós-modernistas aceitam a intolerância se for contra aqueles que alegam conhecer a verdade, particularmente os cristãos bíblicos. De fato, aqueles que se proclamam os advogados líderes de tolerância atualmente são frequentemente os oponentes mais declarados do Cristianismo evangélico. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 101 Basta dar uma olhada na Internet, por exemplo, e veja o que está sendo dito pelos auto estilizados campeões de tolerância religiosa. O que você vai encontrar é uma grande quantidade de intolerância pelo Cristianismo bíblico. Por que isso? Por que o Cristianismo bíblico autêntico depara com tal feroz oposição de pessoas que pensam ser modelos de tolerância? É porque as alegações de verdade das Escrituras e particularmente as alegações de Jesus de ser o único caminho para Deus — são diametralmente opostos às pressuposições fundamentais da mente pós-moderna. A mensagem cristã representa um golpe fatal à cosmovisão pós-modernista. Mas se os cristãos se deixam enganar ou são intimidados a suavizar as alegações diretas de Cristo e a alargar o caminho estreito, a Igreja não fará qualquer progresso contra o pós-modernismo. Nós precisamos recuperar a distinção do evangelho. Precisamos reconquistar nossa confiança no poder da verdade de Deus. E nós precisamos proclamar com ousadia que Cristo é a única verdadeira esperança para o povo deste mundo. Isso pode não ser o que o povo quer ouvir neste tempo pseudo-tolerante do pós-modernismo, mas é verdade assim mesmo. E precisamente porque é verdade e o evangelho de Cristo é a única esperança para um mundo perdido é que é ainda mais urgente levantarmos acima de todas as vozes de confusão no mundo e dizer desta forma. A verdade da Palavra de Deus “A tua palavra é a verdade”. (Jo 17 .17) O Cristianismo autêntico começa com a premissa de que existe uma fonte de verdade fora de nós. Especificamente a Palavra de Deus é verdade (Sl 19.151; Jo 17.17). Ela é objetivamente verdade — quer dizer, ela é verdade quer fale subjetivamente a um dado indivíduo ou não; é verdade independente de como alguém se sente sobre ela; é verdade para todos universalmente e sem exceções; é absolutamente verdade. Isso, é claro, contradiz a pressuposição básica que governa o pensamento da maioria das pessoas atualmente. A filosofia pós-moderna diz que não existe tal coisa como verdade absoluta ou, se houver, será impossível de ser conhecida. Segundo o pós-modernismo, verdade nada mais é do que uma criação da mente humana; as pessoas determinam sua própria realidade; e, portanto, ninguém tem a verdade. Acima de tudo, o pós-modernista está convencido de que nenhuma religião é superior a outra. Nós não devemos pensar que nossas crenças são necessariamente válidas para mais ninguém. Nem tampouco qualquer posição teológica será, em tempo algum, tida como certa ou errada. O que eu acredito é válido para mim; e seja lá o que for que você crê é igualmente válido para você. E desta forma nós podemos aceitar a religião um do outro, mesmo se nossas crenças totalmente contradizem uma a outra. Esse é o credo do pós-modernista. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 102 Podemos não nos dar conta de quão profundamente esse tipo de pensamento penetrou na consciência contemporânea, mas ele já tomou conta do mundo acadêmico e secular. Dois meses após o dia 11 de setembro de 2001, do dia que ocorreu o ataque terrorista ao World Trade Center [Centro Mundial de Comércio] e ao Pentágono, o ex-presidente dos Estados Unidos da América, EUA, Bill Clinton, proferiu um discurso na Universidade de Georgetown, no qual ele sugeriu que o senso “arrogante de justiça” dos norte-americanos era em parte responsável por ter feito a nação um alvo do terrorismo. Aparentemente, para Clinton, toda a confusão poderia ter sido evitada se todas as pessoas de ambos os lados tivessem simplesmente se dado conta de que não existe tal coisa como uma verdade absoluta ou universal e que, portanto, nenhuma ideologia merece briga. “Ninguém tem a verdade”, disse ele aos estudantes. “Vocês estão numa universidade que basicamente crê que ninguém nunca tem a verdade toda. Nós somos incapazes de alguma vez ter a verdade completa. Os terroristas, sugeriu Clinton, estão sendo brutais e intolerantes apenas porque acreditam serem donos da verdade, enquanto que as atitudes mais tolerantes de nossa sociedade são enraizadas na compreensão de que a verdade absoluta é impossível de ser conhecida. Eles acreditam tê-la, mas nós, porque acreditamos que ninguém pode ser dono de toda a verdade, nós pensamos que todos são importantes.” Essas observações praticamente resumem a atitude da sociedade atualmente. O ceticismo foi entronizado e consagrado, enquanto que a fé confiante foi banida e exorcizada. A única coisa de que podemos estar certos é que nós não podemos estar certos de coisa alguma. Ter convicções fortes sobre qualquer coisa (outra que não seja nossa própria inabilidade de descobrir a verdade), é tido como inerentemente intolerante até mesmo perverso. Além disso, de acordo com o modo de pensar pós- moderno, pouco adianta tentar combater as falsas ideias com as verdadeiras. Afinal de contas, eles dizem se alegarmos que temos a verdade, nós nos tornamos exatamente tão maus quanto os terroristas. Então, em vez disso, a inteligência pós-moderna está fazendo o que pode para tirar de todo mundo a noção arcaica de que verdade absoluta e objetiva é passível de ser conhecida de alguma forma. Este ponto de vista está moldando o mundo em que vivemos. Multidões literalmente e de todo coração acreditam que podem construir sua própria realidade e definir sua própria verdade. Explica também porque as pessoas de hoje em dia são mais voltadas para si mesmas e mais narcisistas do que praticamente as de qualquer outra geração na história. O ex-presidente Clinton estava sugerindo que é arrogância alguém pensar que conhece a verdade absoluta, mas arrogância de fato é aquela da pessoa que pensa que pode inventar sua própria verdade para a ocasião. Quando tudo depende de sua definição de o que é — quando os indivíduos podem reimaginar e reinterpretar tudo subjetivamente de modo que cada pessoa determina o que é certo a seus próprios olhos — a civilização encontra-se em sérias dificuldades. Essa é a direção na qual caminha nossa INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 103 sociedade. Tendo acatado a noção de que verdade absoluta é impossível de ser conhecida, as pessoas se dispõem a aceitar quase qualquer coisa em lugar da verdade. Mesmo na Igreja tem havido uma erosão séria de confiança na verdade objetiva das Escrituras. Dogmatismo sobre qualquer ponto da doutrina é geralmente considerado fora de moda; incerteza e abertura a múltiplos pontos de vista é o estilo próprio entre os pregadores e professores nestes dias. Os movimentos de massa mais populares no meio evangélico atual são ecumênicos em sua confiança, insistindo para que coloquemos de lado a doutrina por amor à harmonia. Tais tendências refletem uma capitulação diante da ideia pós-moderna de que verdade absoluta é impossível de ser conhecida e, portanto, ela não importa muito, afinal de contas. O desprezo do pós-modernismo pela verdade objetiva está se infiltrando na Igreja de formas sutis, também. É só participar de um típico encontro evangélico para estudo da Bíblia no lar e você verá que, com grande probabilidade,será convidado a compartilhar sua opinião sobre “o que este versículo significa para mim,” como se a mensagem das Escrituras fosse diferente para cada indivíduo. É raro o professor estar preocupado com o que as Escrituras significam para Deus. Se realmente cremos que as Escrituras são a Palavra de Deus, por que nós hesitamos em dizer que ela tem um significado objetivo; é absolutamente verdade; e todas as outras interpretações são falsas? Os evangélicos sempre acreditaram que as Escrituras são claras — seu significado essencial é evidente de imediato. Não é um segredo ou um mistério para ser solucionado. A Bíblia é a revelação de Deus para nós. É uma revelação da verdade; não é um enigma. E em todos os assuntos essenciais ela fala com perfeita clareza. Certamente que nas Escrituras “... há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam ... para a própria destruição deles” (2Pe 3.16). Existem também muitos assuntos de importância secundária sobre os quais nós não precisamos discutir muito. Em tais assuntos indiferentes a regra é clara: “Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente” (Rm 14.5), mas a mensagem principal das Escrituras e a mensagem do evangelho em particular é clara e sem ambiguidade. Não “provém de particular elucidação,” e seu significado não está sujeito a preferências individuais. “Porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1.20,21). Repetidas vezes a Escritura faz esse tipo de alegação sobre si mesma: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm3.16,17). Em outras palavras, a Escritura não apenas é inspirada por Deus, mas é também suficiente para nos equipar totalmente com toda a verdade espiritual de que precisamos. É mais segura do que os nossos próprios sentidos (2Pe 1.19). Ela “permanece eternamente” (1Pe 1.25). É garantida INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 104 até cada til e i (Mt 5.18). É imutável e “permanece eternamente” (Is 40.8). Jesus mesmo disse, “Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão” (Mt 24.35). O Cristianismo autêntico sempre sustentou que as Escrituras são a verdade absoluta, objetiva. É tão verdade para uma pessoa quanto o é para outra, independente da opinião seja lá de quem for sobre ela. Ela tem um significado verdadeiro que se aplica a todo mundo. É a Palavra de Deus para a humanidade e seu verdadeiro significado é determinado por Deus; não é alguma coisa que possa ser formatada para encaixar nas preferências de ouvintes individuais. As Escrituras são absolutamente verdadeiras, quer afetem você e eu, quer não. As Escrituras seriam verdadeiras mesmo que não existíssemos. De nenhuma maneira a verdade das Escrituras é decidida pela experiência de alguém. Se ela nos afeta ou não subjetivamente nada tem a ver com seu significado de fato ou veracidade. A mensagem das Escrituras não é maleável. Não é singular para cada pessoa. Não é determinada pela experiência pessoal ou opinião pessoal. Isso significa um forte golpe para um grande segmento dos que professam o Cristianismo atualmente. Multidões estão procurando ouvir a voz de Deus em suas cabeças ou buscando algum tipo de epifania intuitiva na qual a verdade lhe será revelada subjetivamente, mas a única verdade final e absoluta para o cristão — a verdade que supera todas as opiniões particulares, sentimentos pessoais e experiências subjetivas é a verdade objetiva de Deus como revelada nas Escrituras quando corretamente interpretada. A verdade bíblica é objetiva. É verdadeira em si mesma. É verdadeira se sentimos ou deixamos de sentir que é verdadeira. É verdadeira se foi ou não validada pela experiência de alguém. É verdadeira porque Deus disse que é verdadeira. É verdadeira por completo e é verdadeira até o menor til ou i. O Salmo 119. 160 diz, “As tuas palavras são em tudo verdade desde o princípio, e cada um dos teus justos juízos dura para sempre” (Sl 119.160). Esse é exatamente o ponto de partida e o alicerce necessário para uma cosmovisão cristã verdadeira. Abra mão do fundamento da verdade bíblica e seja qual for o sistema de crença que reste não vale a pena ser chamado cristão, mesmo se ele retiver vestígios do simbolismo e da terminologia cristãos. Muitos que se intitulam cristãos atualmente estão precisamente nessa situação. Eles usam linguagem e simbolismo cristãos, mas a fonte real da autoridade deles é algo além das Escrituras. Alguns simplesmente vivem pelo que sentem e moldam suas crenças segundo suas preferências pessoais. Outros alegam que Deus lhes fala diretamente por meio de vozes, impressões fortes, ou sentimentos vagos que eles interpretam como revelações diretas do Espírito Santo. Outros ainda pensam que as Escrituras são escritos improvisados que eles podem modificar ou interpretar da maneira que desejarem. De qualquer modo, a vida e crença deles são comandadas pelas suas INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 105 preferências pessoais. As crenças deles não são realmente diferentes daquelas dos seguidores da Nova Era que acreditam que a verdade é encontrada dentro deles mesmos. Mas o Cristianismo histórico é baseado na revelação objetiva das Escrituras. Essa é a razão pela qual nossa primeira palavra-chave para descrever a cosmovisão cristã é objetividade. Nossa fé está firmada na convicção de que Deus falou e a sua Palavra é a verdade objetiva. O que ele nos deu é absoluto e inabalável. É a verdade pelas quais todas as outras alegações de verdade são medidas. Veracidade: “Agora, pois, Ó SENHOR Deus, tu mesmo és Deus, e as tuas palavras são verdade, e tens prometido a teu servo este bem.” (2Sm 7.28) Autoridade: “Maravilhavam-se da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas.” (Mc 1.22) QUE É COSMOVISÃO? A cosmovisão é análoga à lente intelectual através da qual as pessoas veem a realidade e que a cor da lente é um fato fortemente determinante que contribui para o que elas creem acerca do mundo. Além disso, cosmovisão é um sistema filosófico que procura explicar como os fatos da realidade se relacionam e se ajustam um ao outro. Uma vez reunidos os componentes da lente, ela focalizará o plano geral da realidade que dá a estrutura na qual as partes menores da vida se harmonizam. Em outras palavras, a cosmovisão dá forma ou colore o modo que pensamos e fornece a condição interpretativa para entender e explicar os fatos de nossa experiência. Ainda mais importante que entender o que é uma cosmovisão, e mais crítico, é compreender as consequências lógicas associadas a viver de acordo com as convicções que uma determinada cosmovisão sustenta como verdadeira. Essa reflexão nos leva a nossa próxima pergunta. Por que as cosmovisões são importantes? Uma vez que nossas ideias influenciam nossas emoções, reações e conduta, é particularmente importante para nós conhecer aquilo em que cremos e por quê. Pense no tipo de consequências históricas que advêm direta e logicamente de uma cosmovisão — as crenças ou convicções. Um homem, Adolf Hitler, apelou para o povo de seu país a fim de obter apoio para avançar na realização lógica da cosmovisão deles. Disse: O mais forte deve dominar, não se igualar ao mais fraco, o que significaria o sacrifício de sua própria natureza superior. Somente o indivíduo que é fraco de nascimento pode entender este princípio como cruel. E, se faz isso, é meramente porque é de natureza mais fraca e de mente mais obtusa, pois se essa lei não direcionasse o processo de evolução, o desenvolvimento superior da vida orgânica não seria concebível de forma alguma [...] Se a Natureza não desejaque os indivíduos mais INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 106 fracos se igualem aos mais fortes, deseja ainda menos que uma raça superior se misture com uma inferior, porque nesse caso todos os seus esforços, ao longo de centenas de milhares de anos, para estabelecer um estágio evolutivo mais alto do ser, podem-se traduzir em inutilidade.16 Hitler referia-se a essa solução da natureza como “totalmente lógica”. De fato, era tão lógica para os nazistas que eles construíram campos de concentração para levar a cabo suas convicções acerca da raça humana. Auschwitz era um desses campos de concentração onde os preceitos teóricos foram aplicados ao mundo real. Se estivéssemos visitando Auschwitz hoje, poderíamos andar nos corredores de alguns edifícios onde veríamos o impacto inimaginável que uma cosmovisão pode causar (e de fato causou) sobre todo o mundo. A maioria dos visitantes não está preparada e fica chocada ao ver as fotos de mulheres grávidas e de criancinhas que foram torturadas até a morte por oficiais nazistas. Lembrando os cinquenta anos da libertação de Auschwitz, a revista Newsweek publicou como matéria de capa uma entrevista com o general Vasily Petrenko, o único comandante sobrevivente das quatro divisões do Exército Vermelho, que cercou e libertou Auschwitz: Petrenko era um veterano endurecido de uma das piores batalhas da guerra. “Eu havia visto muita gente morta”, Petrenko diz. “Havia visto muitas pessoas penduradas e muitas queimadas. Mas ainda não estava preparado para Auschwitz.” O que o espantou sobremaneira foram as crianças, algumas ainda em idade tenra, que foram deixadas para trás na fuga rápida. Essas crianças eram os sobreviventes dos experimentos médicos perpetrados pelo dr. Josef Mengele, médico do campo, e os filhos dos prisioneiros políticos poloneses recolhidos após a malfadada revolta em Varsóvia.17 A citação de Mein kampf (Minha vida), bem como este breve excerto do Newsweek, deve ser um lembrete de que as cosmovisões levam a conclusões e consequências. As convicções fortes de homens como Hitler e Mengele mostram que a maneira de ver o mundo (cosmovisão) pode mudar a face deste mundo. Entender o que as diferentes cosmovisões ensinam e a consequência lógica de cada uma é crucial. Por isso, pretendemos tratar de alguns pontos centrais das cosmovisões a fim de averiguar-lhes as convicções e constatar quais têm credibilidade. Mas há muitos outros modos de ver a realidade. Parece que pode haver tantas cosmovisões quantas pessoas há no mundo. Assim, antes de ir aos princípios principais das cosmovisões que discutiremos, vamos identificar quais deles pretendemos examinar. Quantas cosmovisões existem? Podemos colocar a existência das seguintes cosmovisões: teísmo, ateísmo, panteísmo, panenteísmo, deísmo, politeísmo, e o deísmo limitado. Sabemos que todas essas cosmovisões se difundiram em nossa cultura e existem, de uma forma ou de outra, em praticamente todas as 16 Mein Kampf, 161-162. .Jerry Adler, The last days of Auschwitz, Newsweek, 16/1/995, p. 47־17 INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 107 faculdades seculares ou campus universitários do Brasil e de muitas do restante do mundo. Vamos investigar somente as três cosmovisões mais influentes em nossa cultura ocidental: ateísmo, panteísmo e teísmo. Em que diferem as cosmovisões? A discordância mais fundamental entre as cosmovisões baseia-se na existência e na natureza de Deus. A ideia de Deus tem guiado ou enganado mais vidas, mudado mais a história, inspirado mais músicas e poesias e filosofias que qualquer outra coisa, real ou imaginada. Tem feito mais diferença na vida humana neste planeta, tanto individual como coletivamente, do que nada jamais fez. Para obter algum entendimento das diferenças principais existentes entre o ateísmo, o panteísmo e o teísmo, precisamos apenas definir cada cosmovisão e arrolar suas doutrinas principais. O motivo dessa comparação é demonstrar a natureza logicamente impossível das declarações essenciais de verdade que cada cosmovisão tem a respeito de Deus, da realidade, da humanidade, do mal e da ética. Recomenda-se algum estudo adicional de cada cosmovisão, mas os princípios aqui expostos vão servir para o nosso propósito. Em que acreditam os ateístas? O ateísmo acredita que não existe Deus nenhum, seja no próprio universo, seja além dele. O universo ou cosmos é tudo o que existe ou existirá, ele é auto-sustentável. Entre os mais famosos ateus estão Karl Marx, Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud e Jean-Paul Sartre. Seus escritos tiveram tremenda influência sobre o mundo. Esses homens expressaram suas ideias de modos diferentes, mas todos sustentaram a convicção básica de que Deus não existe. Entre os principais ensinos do ateísmo estão os seguintes: • DEUS — Não existe. Existe somente o universo. • UNIVERSO — É eterno; ou casualmente veio a ser. • HUMANIDADE (origem) — Evoluímos, somos compostos de moléculas e não somos imortais. • HUMANIDADE (destino) — Não temos nenhum destino eterno e seremos aniquilados. • MAL (origem) — É real, causado pela ignorância humana. • MAL (destino) — Pode ser derrotado pelo homem por meio da educação. • ÉTICA (base) — É criada pela humanidade e fundamentada na própria humanidade. • ÉTICA (natureza) — É relativa, determinada pela situação. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 108 Em que acreditam os panteístas? Outra visão de mundo importante é a crença de que Deus é o universo. Essa visão se chama panteísmo, manifesta-se na forma popular como Movimento Nova Era. Para o panteísta não há criador além do universo, criador e criação são dois modos diferentes de enxergar a mesma realidade, e em última análise existe apenas uma realidade, não muitas realidades diferentes. Deus permeia todas as coisas e se encontra em todas elas. Nada existe à parte de Deus: Deus é o mundo e o mundo é Deus; Deus é o universo e o universo é Deus. Há diferentes tipos de panteísmo, representados por certas correntes do hinduísmo, do budismo zen e da Nova Era. As ideias desses grupos diferem a respeito de como Deus e o mundo se identificam, mas todos creem que Deus e o mundo são um. Entre os principais ensinos do panteísmo estão: • DEUS — É um, infinito, normalmente impessoal; ele é o universo. • UNIVERSO — É uma ilusão, uma manifestação de Deus, o único que é real. • HUMANIDADE (origem) — O verdadeiro eu (atmã) do homem é Deus (Brahman). • HUMANIDADE (destino) — Nosso destino é determinado pelos ciclos da vida, o carma. • MAL (origem) — É uma ilusão causada pelos erros da mente. • MAL (destino) — Será reabsorvido por Deus. • ÉTICA (base) — Os princípios éticos se baseiam em manifestações inferiores de Deus. • ÉTICA (natureza) — Os princípios éticos são relativos, transcendem a ilusão do bem e do mal. Em que acreditam os teístas? O teísmo ensina que há somente um Ser infinito e pessoal, que está além deste universo físico finito. Os teístas creem que os atributos do Deus da Bíblia podem ser parcialmente conhecidos por meio da natureza, do mesmo modo que os atributos de um artista podem ser reconhecidos em sua pintura. A Bíblia informa-nos que Deus plantou com raízes profundas no coração e na mente de todo ser humano um conhecimento indelével de alguns de seus atributos, conhecimento este claramente perceptível na observação da natureza: “Pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis.” (Rm 1.19-20). A luta pela verdade concentra-se no que Deus revelou a todas as pessoas a respeito de si próprio. De acordo com o teísmo bíblico, esse versículo deixa claro que Deus vai considerarEstai sempre preparados para responder a todo o que vos pedir a razão da esperança que há em vós (1 Pe 3.15). Você não gostaria de ser capaz de defender sua fé com inteligência? Não gostaria de ter alguns argumentos na ponta da língua para apresentar a alguém que diga que os cristãos não têm bons motivos para crerem naquilo que professam? Já não está cansado de se sentir intimidado por incrédulos? Se estiver, então você fez a escolha certa ao decidir estudar apologética! Apologética significa uma defesa. Apologética vem do grego apologia, que significa defesa, como a que se faz em um tribunal. A apologética cristã implica em fazer uma defesa em favor da verdade da fé cristã. A Bíblia na verdade nos recomenda que tenhamos essa defesa pronta para oferecer àquele que nos pedir a razão de nossa fé. Assim como dois competidores, numa partida de esgrima, aprendem a se desviar dos ataques, bem como a atacar o rival, nós também devemos estar sempre “Em guarda”. A passagem de 1 Pedro 3.15 diz: “Estai sempre preparados para responder a todo o que vos pedir a razão da esperança que há em vós. Mas fazei isso com mansidão e temor”. Note bem a atitude que devemos assumir quando estivermos fazendo a nossa defesa: Devemos ser mansos e respeitosos. A apologética também é a arte de não fazer o outro lamentar o fato de você ser cristão! Podemos apresentar uma defesa da fé cristã sem nos tornamos defensivos. Podemos apresentar argumentos em favor do cristianismo sem nos tornarmos argumentativos, ou seja, briguentos. A apresentação de argumentos em defesa da fé cristã é de vital importância que não seja entendida como discussão, bate-boca. Jamais devemos bater-boca a respeito de nossa fé com alguém que não compartilhe dela. Isso apenas enfurece as pessoas e as afasta ainda mais. Argumentar em termos filosóficos não é o mesmo que discutir ou ter uma troca de palavras ásperas; argumentar é apenas apresentar uma série de enunciados ou premissas que levem a uma conclusão. E isso é tudo. Ironicamente, quem tem bons argumentos na sustentação da sua fé se torna menos inclinado a bate-bocas e a sair frustrado da discussão. Quanto melhores forem meus argumentos, menos beligerante eu me torno. Quanto melhor for a minha defesa, menos preciso ficar na defensiva. Se você INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 10 tem boas razões para aquilo em que crê e sabe as respostas para as perguntas e objeções que alguém que não é cristão costuma fazer, não tem motivo para se exaltar. Pelo contrário, você perceberá que estará calmo e confiante, mesmo quando estiver sob ataque, pois sabe que tem as respostas. Se você tem boas razões para aquilo em que crê, então, em vez de sentir raiva, sentirá uma compaixão genuína pelos perdidos, que em geral estão tão desorientados. A boa apologética envolve falar “a verdade em amor” (Ef 4.1 5). A apologética é bíblica? Algumas pessoas pensam que a apologética não é bíblica. Elas dizem que você deve apenas pregar o evangelho e deixar que o Espírito Santo faça a sua parte! No entanto, acredito que o exemplo de Jesus e dos apóstolos afirma o valor da apologética. Jesus apelava para milagres e cumprimento das profecias para provar que suas alegações eram verdadeiras (Jo 14.11). E os apóstolos? Ao falar para outros judeus, eles apelavam para o cumprimento das profecias, para os milagres de Jesus e especialmente para a ressurreição a fim de provar que Jesus era o Messias. Tomemos, por exemplo, o sermão de Pedro no dia de Pentecostes, registrado no segundo capítulo de Atos. No versículo 22, ele apela para os milagres de Jesus. Nos versículos 25-31, ele apela para o cumprimento da profecia. No versículo 32, ele apela para a ressurreição de Cristo. Por meio desses argumentos os apóstolos procuravam mostrar aos outros judeus que o cristianismo era verdadeiro. Ao falar para os que não eram judeus, os apóstolos procuravam demonstrar a existência de Deus por meio da sua obra na natureza (At 14.17). Em Romanos 1, Paulo afirma que apenas com base na natureza todo homem pode saber que Deus existe (Rm 1.20). Paulo também apelava para as palavras de testemunhas oculares da ressurreição de Jesus para mais uma prova de que o cristianismo era verdadeiro (1Co 15.3-8). Fica, portanto, claro que tanto Jesus quanto os apóstolos não temiam dar evidências em favor da verdade daquilo que proclamavam. Isso não quer dizer que eles não confiavam no Espírito Santo para trazer as pessoas a Cristo. Antes, confiavam que o Espírito usava os argumentos e as evidências deles para fazer isso. Por que a apologética é importante? É de vital importância que os cristãos de hoje sejam treinados em apologética. Por quê? Vejamos três razões para isso. 1. Para influenciar a cultura. Todos já ouvimos falar da chamada batalha cultural que acontece hoje na sociedade ocidental. Pode ser que alguns não apreciem essa metáfora militar, mas a verdade é que uma tremenda luta pela alma das pessoas está sendo travada exatamente agora. Esse esforço de guerra não tem matizes somente políticas. Traz também em si uma dimensão religiosa e INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 11 espiritual. Os secularistas têm a tendência de eliminar do mapa a religião da esfera pública. Os chamados novos ateístas, representados por pessoas como Sam Harris, Richard Dawkins e Christopher Hitchens são ainda mais agressivos. Eles pretendem riscar totalmente do mapa qualquer forma de religião. A sociedade ocidental já se tornou uma sociedade pós-cristã. A crença em um Deus genérico ainda é regra geral, mas crer em Jesus Cristo é hoje politicamente incorreto. Quantos filmes produzidos por Hollywood retratam cristãos de forma positiva? E as novelas da Rede Globo? Em vez disso, quantas vezes já não vimos nesses filmes os cristãos sendo retratados como vilões superficiais, preconceituosos e hipócritas? Como a cultura de hoje vê os cristãos que creem na Bíblia? Por que essas considerações acerca da cultura são importantes? Por que nós, cristãos, não podemos apenas seguir a Cristo e ignorar o que acontece na cultura que nos rodeia? Por que apenas não pregamos o evangelho para esse mundo sombrio, as portas da morte? A resposta é porque o evangelho nunca é ouvido em isolamento. Ele sempre é ouvido em contraste com o pano de fundo da cultura na qual nascemos e fomos criados. Alguém que tenha sido criado em uma cultura que olhe para o cristianismo com simpatia será aberto ao evangelho de um modo que outra pessoa, criada em uma cultura secular, não será. No caso de pessoas inteiramente secularizadas, dizer para crer em Jesus é como dizer para acreditar em fadas e duendes! A mensagem de Cristo soa absurda em seus ouvidos. Para perceber a influência que a cultura tem na forma como pensamos, imagine o que você pensaria se um seguidor da religião hindu ou um Hare Krishna, com sua cabeça raspada e aquela roupa alaranjada, abordasse você em um aeroporto ou shopping center e lhe oferecesse uma flor, e convidasse você a se cornar um seguidor de Krishna. Um convite como esse provavelmente soaria bizarro a seus ouvidos, uma aberração, talvez até um pouco engraçado. Agora pense em como haveria uma reação completamente diferente se essa mesma pessoa abordasse alguém em Deli, na índia! Por ter sido criado na índia, é possível que ele levasse esse convite muito a sério. Se essa tendência de cair no secularismo1 é geral hoje, nos Estados Unidos, no Brasil, o que nos espera amanhã já está evidente na Europa de hoje. A Europa ocidental se tornou uma sociedade tão secularizada que é difícil até mesmo ter hoje uma chance justa de ser ouvido. Em consequência disso, missionários precisam trabalhar anos a fio para ganhar meia dúzia de convertidos por lá. O cristianismo é coisa de mulheres idosas e crianças. Nas universidades da Europa, raramente se ouve falar que exista um filósofo cristão. Se o evangelhocada indivíduo, sem levar em conta sua cultura ou sociedade, responsável pelo que revelou de si por intermédio da natureza. Os primeiros dois capítulos da Carta aos Romanos nos ajudam a entender INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 109 exatamente o que Deus revelou claramente: ele é a fonte de poder eterno e infinito que causou e sustém a existência do universo e sua divina natureza é a base para a ética. Entretanto, Deus também diz que essa verdade tem sido suprimida pela má condição moral dos indivíduos, não por causa da ignorância intelectual. Por sua vez, o teísmo é a cosmovisão que sustenta a crença de que o mundo é mais do que apenas o universo físico (ateísmo). Ao mesmo tempo, os teístas não aceitam a ideia de que Deus é o mundo (panteísmo). Creem na existência de Deus e veem sua existência como o componente essencial da cosmovisão teísta. Os teístas estão convencidos de que o universo teve uma Causa Primeira sobrenatural infinitamente poderosa e inteligente, um Deus infinito que está além do universo e nele se manifesta. Esse Deus é o Deus pessoal, separado do mundo, que criou o universo e o sustém. Os teístas creem que Deus pode agir no universo de maneira sobrenatural. As religiões tradicionais, judaísmo, islamismo e cristianismo, representam o teísmo. Entre seus principais funda- mentos estão: • DEUS — É um só, pessoal, moral, infinito em todos os seus atributos. • UNIVERSO — É finito, criado pelo Deus infinito. • HUMANIDADE (origem) — Somos imortais, criados e sustentados por Deus. • HUMANIDADE (destino) — Por escolha seremos eternamente separados de Deus ou viveremos eternamente com ele. • MAL (origem) — É a privação ou imperfeição causada pela escolha. • MAL (destino) — Será finalmente derrotado por Deus. • ÉTICA (base) — Os princípios éticos se baseiam na natureza de Deus. • ÉTICA (natureza) — Os princípios éticos são absolutos, objetivos e prescritivos. Que é confusão de cosmovisões? Nosso juízo de certas questões da vida depende de como vemos o mundo. Nossa cosmovisão influencia nossas conclusões por causa das suposições que fazemos quando a formulamos. Por exemplo, os ateístas, que decidiram que a macro evolução é responsável pela vida que observamos no universo, baseiam sua teoria em suposições puramente naturalistas feitas dentro da cosmovisão ateísta. Consequentemente, concluíram eles que não existe Deus algum. Ao mesmo tempo, os teístas podem olhar as mesmas evidências e mostrarem que a única resposta para a existência de vida inteligente no universo observável é a ação de uma Causa Primeira (Deus) inteligente. Os mesmos fatos do universo são disponíveis para o ateu e para o teísta, todavia, as suas conclusões são inconciliáveis. Essas respostas incompatíveis resultam do que chamamos confusão de cosmovisões. Uma vez que nossos juízos a respeito da vida são influenciados por nossa cosmovisão, e as diferentes INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 110 cosmovisões chegam essencialmente a respostas diferentes às mesmas questões, que caminho tomaremos daqui para frente? Sugerimos lançar um olhar mais próximo na estrutura da lente intelectual (cosmovisão) empregada para interpretar os dados sob investigação e adquirir algum conhecimento de como se constitui essa lente. Entender as hipóteses que constituem a estrutura principal das cosmovisões é um aspecto essencial para aprender a transmitir nossas convicções a várias cosmovisões sem interpretá- las erroneamente através de lentes de outras cores. Portanto, esta lente é o ponto de partida para a busca do terreno comum: os princípios empregados na formulação de toda e qualquer cosmovisão. À primeira vista, as cosmovisões apresentadas acima parecem não compartilhar muitos atributos. Todavia, como as lentes, elas são feitas de superfície curva de vidro e cada uma tem um ponto focal. Por essa razão, somos capazes de encontrar algumas hipóteses comuns sobre as quais construir uma discussão lógica antes de argumentar a respeito de qual interpretação das evidências é a correta. O que queremos dizer é que um bom modo de dialogar com as cosmovisões é fazer as perguntas corretas. Por que é tão importante fazer perguntas? Há muitas boas razões para fazer perguntas sinceras num diálogo. Uma delas é que a pergunta sincera permite ao outro perceber que estamos genuinamente interessados na opinião dele. Lembre- se de que a meta final da apologética (dar razões da nossa fé) é confirmar e defender nossas convicções gentilmente, na esperança de que Deus leve os indivíduos a um relacionamento com ele por intermédio de Jesus Cristo. Apenas vomitar respostas ou desafiar antipaticamente as pessoas com a fé cristã não vai ajudar a construir nenhum relacionamento com aqueles que precisam conhecer a Deus. Portanto, é essencial reconhecer que uma pergunta devidamente colocada, feita em atitude de amor e preocupação, pode ser muito mais eficaz do que apenas tentar provar um ponto e vencer uma discussão. Já se disse com razão que alguém pode ganhar uma discussão, mas perder o oponente nesse processo. Fazer o tipo certo de perguntas pode ajudar a desarmar um diálogo potencialmente explosivo e transformá-lo numa discussão eficaz. Quando se está emocionalmente envolvido numa questão, fica cada vez mais difícil seguir um argumento lógico. A confusão pode ficar tão grande que o resultado é normalmente uma discussão que “produz mais calor que luz”. Nossa tarefa principal é fugir do aspecto emocional do diálogo e procurar estabelecer uma base comum para haver comunicação útil. A sala de aula é simplesmente o tipo de lugar onde as emoções podem fugir ao controle, de modo que vamos usar essa arena para observar o que pode acontecer quando um professor ou um colega de classe questiona o cristianismo. Imagine-se como aluno de uma faculdade cujo professor de biologia sabe que você crê que Deus criou o universo. Um dia ele decide pedir-lhe que justifique sua posição perante a classe e INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 111 pergunte: “Como você consegue acreditar na Bíblia se ela contradiz tudo o que conhecemos como científico? Por exemplo, a ciência demonstrou que é impossível ocorrer milagres. Apesar disso você prefere crer nos milagres registrados na Bíblia a acreditar na ciência. Por quê?”. O que você responderia a esse professor? Quase todos nós fomos ensinados a responder a perguntas com respostas. Entretanto, esta nem sempre é a abordagem mais sábia. Pode acontecer que a pergunta do seu professor de biologia precise ser mais bem entendida. O filósofo Peter Kreeft diz: “Não há nada mais sem sentido que a resposta a uma pergunta não plenamente entendida, ou não totalmente exposta. Somos impacientes demais com perguntas e, por isso, muito superficiais na apreciação das respostas.”18 Em vez de dar uma resposta imediata à pergunta do professor, talvez seja mais sábio esclarecer a posição dele primeiro, fazendo uma pergunta para ele. Mas a sua pergunta tem de ser muito boa, senão poderá ver-se envolvido numa conversa emocionalmente carregada. Por essa razão, queremos apresentar um método que o vai ajudar a fazer os tipos certos de perguntas em circunstâncias difíceis. São perguntas planejadas para neutralizar uma discussão potencialmente carregada de emoção. Antes de tudo, devemos ter em mente que nem toda pergunta é feita com sinceridade. Porém, devemos procurar responder ao que parece uma pergunta insincera da maneira mais amável e verdadeira. Podemos não vencer o proponente da pergunta, mas podemos influenciar os que estão em torno esperando a nossa resposta. É altamente improvável, por exemplo, que um professor diante de uma classe seja convencido da verdade do cristianismo nessa situação. Contudo, Deus pode usar essa situação para influenciar a mente de outros alunos. O princípio essencial que queremos ensinar acerca de fazer o tipo certo depergunta diz respeito à mudança do foco da discussão de uma questão particular para um princípio geral da verdade que subjaz ao assunto em questão. Consideramos isso a chave mestra para desbloquear o diálogo. Uma vez de posse dessa chave, devemos ser capazes de abrir a mente de nossos ouvintes com a mudança de uma simples pergunta. Sugerimos o emprego deste método em todas as situações em que for possível. Contudo, o sucesso dele depende não de fazer apenas algumas perguntas, mas de fazer as perguntas corretas. Mais uma vez imagine-se na aula de biologia que mencionamos antes. Agora, em vez de responder ao professor com uma resposta, vejamos o que acontece se você lhe responder com a pergunta certa. Seu professor perguntou-lhe: “Como você consegue acreditar na Bíblia se ela contradiz tudo o que conhecemos da ciência? Por exemplo, a ciência demonstrou que é impossível ocorrer milagres. Apesar disso você prefere crer nos milagres registrados na Bíblia a acreditar na ciência. Por quê?”. Vamos supor que a esta altura do semestre você já descobriu que seu professor é um naturalista — 18 Making sense out of suffering, p. 27. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 112 crê que fora da natureza não existe nada. Como você espera que ele venha a crer na Palavra de Deus se Deus não existe? Da mesma maneira, como pode um naturalista acreditar em milagres, ou atos de Deus, se não há Deus nenhum que possa agir? Dizer-lhe os motivos por que você crê que a Bíblia é verdadeira — porque ela é a Palavra de Deus — pode servir apenas para isolá-lo dele e do resto da classe. Aonde você pode ir daqui para frente? A esta altura não existe solo comum entre o seu professor e você. Por isso, é hora de fazer a pergunta correta para mudar a discussão desse assunto específico (a credibilidade da Bíblia e dos milagres) para um princípio geral de verdade por detrás dele. Isso exporá a suposição escondida na pergunta do seu professor. Para fazer isso, você precisa pensar em que o seu professor, como naturalista, crê e encontrar um meio de lhe fazer uma pergunta que ponha vocês dois num território compartilhado. Visto que a lógica é uma área fundamental, em que há base comum, sugerimos que você utilize um dos primeiros princípios da lógica, como a “lei da não-contradição” (LNC), por exemplo, para formular a pergunta certa. O professor fez uma afirmação muito confiante e crucial quando disse: “Milagres são impossíveis”. Você pode observar, contudo, que ele nunca lhe deu uma definição de milagre. Logo, para começar certifique-se de que você e seu professor concordam na definição dos termos importantes que vocês vão empregar. Peça-lhe para definir o que quer dizer com milagre. Muito provavelmente ele responderá algo como isto: “Milagre é um acontecimento na natureza causado por algo que está fora dela”. Uma vez que crê que não existe nada além da natureza, ele é forçado a concluir que os milagres são impossíveis. Você acabou de detectar a suposição dele: ele crê que não existe nada fora da natureza e que a ciência demonstrou isso. Além do mais, como naturalista, ele acredita que a ciência se preocupa apenas com a natureza e, por isso, está restrita às causas naturais dos eventos da natureza. Seu professor, portanto, definiu a não existência de milagres, mas não com o emprego do método científico, mas com uma hipótese filosófica. Como pode a ciência provar que algo não existe fora da natureza se, segundo seu professor, a ciência não pode ir além da natureza? Há alguma coisa errada aí! Seu professor está aplicando a disciplina acadêmica errada a essa questão sobre milagres. C. S. Lewis explicou como a ciência não pode provar a falsidade do miraculoso: “[O] método científico meramente mostra (o que ninguém que eu conheça jamais negou) que se os milagres de fato ocorreram, a ciência, como ciência, não pode provar, nem negar, a ocorrência deles. Aquilo em que não se pode confiar para recorrer não é assunto para a ciência: é por isso que a História não é considerada ciência. Não se pode constatar o que Napoleão fez na batalha de Austerlitz pedindo-lhe que venha e realize outra vez a batalha num laboratório com os mesmos combatentes, no mesmo campo de batalha, com as mesmas condições climáticas e na mesma época. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 113 É preciso ir aos registros. Com efeito, não provamos que a ciência exclui os milagres: provamos apenas que a questão dos milagres, como inúmeras outras, exclui o tratamento laboratorial.”19 Seu professor não somente foi não-científico quando afirmou que milagres são impossíveis, mas também cometeu uma falácia lógica chamada: assumir veracidade para não discutir. Comete-se essa falácia quando se discute num círculo. Lewis assinalou que se alguém afirma que é impossível ocorrer milagres, esse alguém precisa ter conhecimento de que todos os relatos de milagres são falsos. Todavia, o único jeito de saber se todos os relatos de milagres são falsos é saber de antemão que jamais ocorreu nenhum milagre de fato, porque isso é impossível.20 A única saída a esse raciocínio circular é estar aberto à possibilidade de que os milagres ocorreram de fato. Pensando nisso, você também pode considerar a possibilidade de pedir a seu professor que defina o termo natural, embora ele não tenha utilizado essa palavra na pergunta que lhe fez. Vamos aplicar a definição de Lewis e ver aonde ela nos leva. “Se o “natural” significa aquilo que pode ser enquadrado numa classe, obedece a uma norma, pode ter paralelo, pode ser explicado por referência a outros eventos, então a própria natureza como um todo não é natural. Se milagre significa aquilo que simplesmente precisa ser aceito, a realidade irrespondível que não dá explicação de si, mas simplesmente existe, então o universo é um grande milagre.”21 A única coisa que o seu professor crê que existe é o universo, e então, por definição, vem a ser o maior milagre de todos. Não estamos querendo dizer que ele vai concordar com você. Estamos demonstrando como lidar com esse tipo de problema. Pedir esclarecimento leva a pergunta original do seu professor de volta a um princípio comum em que você pode conseguir construir pontes da verdade para a visão de mundo cristã. Você pode partilhar com seu professor que se ele concorda com a definição exposta sobre milagre e natural, vocês têm uma convicção comum. De fato, mais tarde você pode justificar como a Bíblia está em harmonia com o método científico, porque ela é coerente com o princípio da causalidade. Em Gênesis 1.1, a Bíblia declara que Deus é a Causa não- causada do universo finito. Esperamos que esse roteiro que acabamos de propor tenha ajudado a demonstrar quanto pode ser útil para orientar a direção de uma discussão fazer o tipo certo de pergunta. Nosso objetivo é transferir o ônus da prova de nós para os que nos questionam. Pedindo esclarecimento e usando a Lei da não Contradição, podemos pedir aos nossos indagadores que definam seus termos, o que por sua vez pode obrigá-los a refletir sobre suas suposições. Conforme se assinalou acima, procurar a definição dos termos milagre e natural e sondar até que as suposições fossem expostas mostrou que 19 Deus no banco dos réus, p. 134. 20 Milagres, p. 96. 21 Deus no banco dos réus, p. 36. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 114 esse professor ou raciocinava em círculo, ou aceitava o maior de todos os milagres — o universo. Esse método e esse processo de raciocínio podem ou não influenciar um professor de faculdade, mas pode por certo fazer diferença no modo que os outros ouvintes vão perceber aquilo em que cremos. Pode ser uma ferramenta muito poderosa, mas não espere ser capaz de dominá-la num período curto de tempo, vai ser necessário prática e perspicácia para usá-la eficazmente em situações da vida real. De novo, o sucesso dele depende não meramente de fazer perguntasquaisquer, mas de fazer as perguntas certas. Como formular as perguntas certas? Fazer as perguntas certas depende de nossa capacidade de conhecer e utilizar com propriedade os preceitos gerais (os primeiros princípios) relacionados ao problema específico que se está discutindo. Lembre-se de que quando as crenças se tornam convicções, o aspecto pessoal introduz um diálogo em que as emoções podem-se aprofundar muito. A pergunta correta pode trazer a conversa de volta à base comum, um primeiro princípio, sobre a qual há mais probabilidade de ocorrer uma discussão sadia. Com isso em mente, estamos chamando as perguntas corretas de perguntas de princípio. Uma pergunta de princípio pode catapultar uma conversa do nível emocional e subjetivo para o nível racional e objetivo. Questionar princípios em vez de crenças pessoais a fim de comprometer as pessoas com conceitos, e não com convicções faz diferença. Lembre-se: nosso primeiro objetivo é trabalhar a partir de suposições compartilhadas. Devemos nos esforçar para encontrar o princípio primeiro relacionado à questão em pauta. Vamos procurar ilustrar o que queremos dizer empregando essa técnica a uma questão conhecida a respeito da capacidade de Deus criar uma pedra maior do que ele possa carregar. Volte novamente a sua escola imaginária. Agora você vai encontrar um aluno chamado Pedro que está irritado porque não se conforma com sua crença aparentemente absurda em Deus. Ele mal pode esperar a oportunidade de o constranger na frente de outros alunos interessados em ouvir mais a respeito de sua fé. Um dia, enquanto almoça com alguns daqueles alunos receptivos, Pedro decide sentar-se à sua mesa e dizer: — Você se importa se eu lhe fizer algumas perguntas? Você reage dizendo que as perguntas dele são bem-vindas. Pedro então pergunta: — Jesus não disse em Mateus 19.26 que “para Deus todas as coisas são possíveis?” — Sim — você responde. Pedro continua — Você acredita que Deus é todo-poderoso e pode fazer tudo? INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 115 Novamente sua resposta é positiva. Pedro imagina que o tão esperado momento está chegando e, com um risinho sarcástico, pergunta: — Certo. Deus pode criar uma rocha tão grande que ele próprio não possa levantá-la? Você avalia a pergunta por um instante e pensa com você: “Se eu responder ‘sim’, estarei admitindo que Deus é poderoso bastante para criar a pedra, mas não o suficiente para movê-la! Porém, se disser ‘não’, estarei admitindo que Deus não é todo-poderoso, porque não pode criar uma pedra de tal magnitude”. Parece que qualquer uma das respostas vai forçá-lo a violar a Lei da não Contradição e contradizer sua concepção de Deus, definida como um Ser todo-poderoso. Parece também que Pedro está usando os primeiros princípios para desacreditar você e sua concepção de Deus. É verdade que Pedro está falando corretamente do poder de Deus, mas estaria ele empregando os primeiros princípios corretamente? Antes de examinarmos as perguntas de Pedro, lembre-se de que agora não é hora de apelar para a ignorância dizendo a Pedro que ele está querendo usar o raciocínio humano e que há coisas que não podemos compreender a respeito de Deus. Nem tampouco deve dizer que de algum modo Deus está isento dessa questão. Isto apenas daria a Pedro mais combustível emocional para pensar em outros assuntos escolhidos para levantar com você e atingir o objetivo dele de desacreditar sua fé na frente dos outros colegas. Em vez disso, você deve concentrar-se nessa questão e pensar numa pergunta sobre princípio que desvie a conversa de uma base emocional instável para um solo conceituai firme. Vamos retomar a pergunta de Pedro e aplicar a ela o que aprendemos com o uso correto da Lei da Não Contradição. Pedro quer que Deus crie uma pedra tão grande que o próprio Deus não a possa erguer. O que Pedro na verdade está pedindo para Deus fazer? Para saber, precisamos definir e esclarecer o emprego das palavras de Pedro. A primeira pergunta que vem à mente é: “De que tamanho é a pedra que Pedro quer que Deus crie?”. Bem, Pedro quer que Deus crie uma pedra tão grande que seria impossível ao próprio Deus movê-la. Ora, que tamanho uma pedra poderia ter para que Deus não fosse capaz de movê-la? Qual é a maior entidade física que existe? Obviamente, a maior entidade física é o universo, e independentemente de quanto se expanda, o universo será sempre limitado, uma realidade física finita — uma realidade que Deus pode “carregar”. Mesmo se Deus criasse uma pedra do tamanho de um universo em expansão constante, Deus ainda seria capaz de erguê-la e controlá-la. A única opção lógica é Deus criar algo que exceda o seu poder de carregar e de controlar. Mas, uma vez que o poder de Deus é infinito, ele teria de criar uma rocha de proporções infinitas! Esta é a chave: Pedro quer que Deus crie uma pedra, e uma pedra é um objeto físico, finito. Como pode Deus criar um objeto que é finito por natureza e dar a ele um tamanho infinito? Há alguma INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 116 coisa terrivelmente errada na pergunta de Pedro. Então vamos aplicar corretamente a Lei da não Contradição para analisá-la. É lógica e concretamente impossível criar uma coisa finita fisicamente e fazer que ela seja infinitamente grande! Por definição, uma coisa infinita, não-criada não tem limites, e uma coisa finita, criada tem. Consequentemente, Pedro acabou de perguntar se Deus pode criar uma pedra infinitamente finita, isto é, uma pedra que tem limites e, ao mesmo tempo e no mesmo sentido, não tem limites. A pergunta dele, portanto, viola a Lei da não Contradição e vem a ser absurda. Pedro achava que estava fazendo uma pergunta muito importante, que poria o cristão num grande dilema. Em vez disso, ele apenas conseguiu mostrar a própria incapacidade de pensar com clareza. Agora que temos entendimento claro da pergunta de Pedro, é só uma questão de formular uma pergunta de princípio a fim de que o erro dele se revele. Que tal esta: “Pedro, qual é o tamanho da pedra que você quer que Deus crie? Se você me disser o tamanho dela, eu lhe direi se ele pode criá- la”. Bem, podemos continuar perguntando até que as respostas se aproximem do tamanho do universo e finalmente introduzam a ideia da infinitude. Uma vez que Pedro chegue ao ponto em que comece a enxergar o que está realmente pedindo para Deus fazer — criar uma pedra infinita —, é necessário mostrar-lhe que está pedindo que Deus faça algo logicamente irrelevante e impossível. Deus não pode criar uma pedra infinitamente finita assim como não pode criar um círculo quadrado. Ambos são exemplos de impossibilidades intrínsecas. Comentando sobre a impossibilidade intrínseca e um Deus todo-poderoso, C. S. Lewis disse: “É impossível [o intrinsecamente impossível] em todas as condições e em todos os mundos e para todos os agentes. “Todos os agentes” aqui incluem o próprio Deus. Sua onipotência significa poder para fazer tudo o que é intrinsecamente possível, não para fazer o intrinsecamente impossível. Pode- se atribuir milagres a ele, mas não, absurdos.”22 Nem toda pergunta que se faz é automaticamente significativa apenas por ser uma pergunta. A pergunta pode parecer significativa, mas devemos testá-la com os primeiros princípios para verificar se é válida. Seja cuidadoso, portanto, não apressado demais, para responder às perguntas. Você pode ficar completamente enrolado ao tentar encontrar uma resposta irrefutável à pergunta que não possui relevância lógica. Lembre-se do que disse Peter Kreeft: “Não há nada mais sem sentido que a resposta a uma pergunta não plenamente entendida”. Faremos bem em prestar atenção nesta advertência e utilizar o nosso entendimento dos primeiros princípios antes de dar nossa resposta. A NATUREZA DE UMA COSMOVISÃO CRISTÃ 22 O Problema do sofrimento, p. 28. INSTITUTO DE EDUCAÇÃOTEOLÓGICA BEREANA 117 Filosofia Verdadeira Versus Falsa Em Colossenses 2.8, o apóstolo Paulo escreve: “Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo e não segundo Cristo”. Nesse versículo, o apóstolo adverte seus leitores contra ser levado cativo por falsas filosofias. Antes, ele diz que eles deveriam adotar uma filosofia “segundo Cristo”. Esse versículo não ensina, como alguns têm dito, que a própria filosofia é indigna do estudo cristão. De fato, o versículo ensina precisamente o oposto. Ele é um imperativo para a busca da disciplina. Para se guardar contra ser cativo por uma filosofia “segundo a tradição dos homens”, a pessoa deve ter uma consciência de tal filosofia errônea. E mais importante, ele deve ter um conhecimento daquela que é verdadeira. Muitos cristãos não estão cientes desse fato. Portanto, eles têm negligenciado o estudo da filosofia em geral. Tristemente, essas pessoas são aquelas que mais provavelmente serão cativas pelas falsas filosofias deste mundo. Nenhuma sociedade pode sobreviver, nenhuma civilização pode funcionar, sem algum sistema unificador de pensamento. O que faz de uma sociedade um sistema unificado? Certo tipo de cola que é encontrado num sistema unificado de pensamento, o qual chamamos de cosmovisão. O fato da questão é que pensamentos moldam sociedades. Cosmovisões, ou filosofias, são importantes. Os cristãos, portanto, precisam estudar filosofia para compreender o mundo em que vive e suas cosmovisões. Porque muitos elementos de uma cosmovisão são filosóficos na natureza, os cristãos precisam se tomar mais conscientes da importância da filosofia. Embora a filosofia e a religião [isto é, teologia] frequentemente usem linguagem diferente e frequentemente [de maneira errônea] cheguem em conclusões diferentes, elas tratam com as mesmas questões, as quais incluem questões sobre o que existe (metafísica), como os humanos devem viver (ética), e como os seres humanos conhecem (epistemologia). Filosofia é importante! Ela é importante porque a cosmovisão cristã tem uma conexão intrínseca com a filosofia e com o mundo de ideias. Ela é importante porque a filosofia está relacionada de uma maneira criticamente importante com a vida, cultura e religião. E ela é importante porque os sistemas que se opõem ao Cristianismo usam os métodos e argumentos filosóficos. Colossenses 2.8 nos ensina que há duas cosmovisões filosóficas radicalmente diferentes: a cristã e a não-cristã. Não há terreno neutro. O filósofo não-cristão está comprometido com uma total independência do Deus da Escritura. Assim, ele vê Deus, o homem e o mundo de um ponto de vista não-bíblico. O filósofo cristão, por outro lado, está comprometido com uma dependência absoluta de Deus e de sua Palavra. Ele filosofa sobre Deus e sua criação de uma perspectiva totalmente diferente. Ele vê Cristo, a Palavra de Deus encarnada, como central para toda a verdade. Nele, escreve Paulo, “todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos” (Colossenses 2.3). Uma filosofia bíblica, INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 118 portanto, deve estar “arraigada e edificada” em Cristo (Colossenses 2.7). O filósofo cristão deve analisar todas as coisas por meio da revelação infalível de Deus, procurando “levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2 Coríntios 10.5). A Bíblia está repleta de ensinos filosóficos. O livro de Eclesiastes é um exemplo primário. O pregador (1.1), o autor do livro, nos apresenta duas cosmovisões distintas e opostas. Ele pode assim o fazer, pois ele esteve pessoalmente envolvido em ambas. Ele escreve como um homem velho olhando para trás em sua vida, e admoesta seus leitores a prestarem atenção à sua instrução (12.lss). Por um lado, ele vê as questões da vida de um ponto de vista do homem que é está debaixo do sol (1.3,9; 2.11). Esse é um homem não regenerado, que somente tem uma consciência de Deus e sua criação por meio da revelação geral, uma revelação que ele suprime. Por outro lado, o pregador apresenta a cosmovisão apropriada do homem regenerado, que faz uso da revelação especial. Esse homem conhece a Deus como Salvador, e possui a verdadeira sabedoria (Provérbios 1.7; .10). Sem essa sabedoria, diz o pregador, todas as coisas na vida são tolas (2.25-26). Sua conclusão é dada em 12.13-14: uma cosmovisão apropriada deve começar com o temor de Deus: “De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem. Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más”. Destituído disso, o homem está destinado à futilidade filosófica, um “correr atrás do vento” (Eclesiastes 4.4). A mensagem do pregador é clara: filosofia correta é Cristianismo correto. Sem uma filosofia biblicamente baseada, o esforço filosófico é inútil. A cosmovisão cristã, baseada na Palavra de Deus somente, não é apenas uma boa filosofia, é a melhor filosofia, ela é a única filosofia que é consistente consigo mesma e que responde as questões da vida e trata com os problemas da vida e nos dá as respostas. Qual, então, é a natureza da filosofia cristã? É uma filosofia que é “segundo Cristo”. Ela procura estudar a arena filosófica inteira por meio da Palavra de Cristo. Ela reconhece que somente o Deus trino da Escritura é sábio: Pai (Romanos 16.27), Filho (1 Coríntios 1.24,30), e Espírito Santo (Isaías 11.2). E a filosofia cristã genuína entende que somente a Palavra de Deus pode tomar uma pessoa sábia (Salmo 19.7). O verdadeiro filósofo cristão, usando a Escritura como seu ponto de partida, crê em Jesus Cristo e se compromete a ir além disso, à uma visão de Deus, da criação, do homem, do pecado, da história e de todas as atividades culturais da raça humana, e nessa visão ele encontra a interpretação correta e o poder motivador para pensar os pensamentos de Deus e fazer a sua vontade segundo ele. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 119 Pressuposições Bíblicas Todas as cosmovisões ou filosofias (como vimos, essas palavras são usadas como sinônimos virtuais) têm pressuposições, que são fundacionais. Numa cosmovisão cristã logicamente consistente, a primeira e absolutamente essencial pressuposição é que a Bíblia somente é a Palavra de Deus, e ela tem um monopólio sistemático sobre a verdade. Esse é o ponto de partida axiomático23. Nas palavras do apóstolo Paulo: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Timóteo 3.16-17). Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens. A palavra da qual o termo “filosofia” (philosophia) é derivado significa “o amor pela sabedoria”. A Escritura nos ensina que somente Deus é sábio (Romanos 16.27; 1Timóteo 1.17). O Espírito Santo é “o Espírito de sabedoria” (Isaías 11.2). E Jesus Cristo, o Filósofo Mestre, é a própria Sabedoria (Provérbios 8.22-36; João 1.1-3,14; 1Coríntios 1.24,30). Nele “todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos” (Colossenses 2.3). E Cristo nos deu esses tesouros em sua Palavra, que é uma parte de sua mente (1Coríntios 2.16). Portanto, se alguém há de ser um filósofo cristão (um amante da sabedoria), ele deve ir até a Palavra de Deus. É nela que uma pessoa aprende “o temor do Senhor [que] é o princípio da sabedoria” (Provérbios 9.10). A Bíblia reivindica ser a Palavra de Deus infalível einerrante (2Timóteo 3.16-17; 2Pedro 1.20-21), e o Espírito Santo produz essa crença nas mentes (1Coríntios 2.6-16). A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida, depende somente de Deus (que é a própria verdade) que é o seu autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a palavra de Deus. Além do mais, nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo, que pela palavra e com a palavra testifica em nossos corações. Simplesmente não há maior autoridade que a Palavra de Deus. Como o autor de Hebreus reivindica: “Visto que [Deus] não tinha ninguém superior por quem jurar, jurou por si mesmo” (6.13). Segundo, a partir do axioma da Escritura, aprendemos, , que há só um Deus, o Deus vivo e verdadeiro e há três pessoas na Divindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e estas três são um Deus, da mesma substância [essência], iguais em poder e glória (veja Deuteronômio 6.4; Mateus 28.19). Também aprendemos que esse Deus trino é autoexistente e independente, possuindo todas as 23 Na lógica tradicional, um axioma ou postulado é uma sentença ou proposição que não é provada ou demonstrada e é considerada como óbvia ou como um consenso inicial necessário para a construção ou aceitação de uma teoria. Por essa razão, é aceito como verdade e serve como ponto inicial para dedução de outras verdades. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 120 perfeições. Deus é espírito, infinito, eterno e imutável em seu ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade. Além do mais, Deus é tanto transcendente (distinto de sua criação) como imanente (onipresente em sua criação) (Isaías 57.15; Jeremias 23.23-24). Nele todas as coisas “vivem, movem e têm [sua] existência” (Atos 17.28). Terceiro, as Escrituras nos ensinam que Deus, em seu eterno decreto, soberanamente pré- ordenou todas as coisas que aconteceriam (Efésios 1.11). Além do mais, ele executa seus propósitos soberanos através das obras da criação (Apocalipse 4.11) e da providência (Daniel 4.35). Não somente Deus criou todas as coisas ex nihilo (a partir de nenhuma substância pré-existente), incluindo o homem, mas ele soberanamente preserva, sustenta e governo tudo da sua criação, trazendo todas as coisas para o seu fim apontado. O teísmo cristão deve ser visto como uma filosofia única da história que vê toda a diversidade de processos e eventos que acontecem no mundo de Deus como não mais, e não menos, do que o desenrolar do seu grande plano pré-ordenado para as suas criaturas e sua Igreja. Quarto, Deus criou o homem à sua própria imagem, tanto metafísica como eticamente (Gênesis 1.26-28). O homem é uma “alma vivente” que consiste de um elemento físico (corpo) e um não-físico (espírito, alma ou mente) (Gênesis 2.7). De acordo com o Cristianismo bíblico, o homem é um ser espiritual, racional, moral e imortal, criado com um conhecimento inato e proposicional, incluindo o conhecimento de Deus, para ter um relacionamento espiritual com o seu Criador. Aqui ele difere de todo o resto da criação. Depois de haver feito as outras criaturas, Deus criou o homem, macho e fêmea, com almas racionais e imortais, e dotou-as de inteligência, retidão e perfeita santidade, segundo a sua própria imagem, tendo a lei de Deus escrita em seus corações. Esse conhecimento inato, é entendido como o sensus divinitatis, ou o sendo da divindade, que está gravada na alma de todos os homens. Esse conhecimento é uma verdade proposicional e inerradicável, e deixa todos os homens sem escusa. Os teólogos se referem a esse conhecimento inato como “revelação geral”. É geral tanto em audiência (o mundo todo) como em conteúdo (teologia ampla), enquanto a revelação especial (as comunicações verbais da Escritura), por outro lado, é específica em audiência (aqueles que leem a Bíblia) e detalhada em conteúdo. A revelação geral, como observado, revela Deus como Criador, deixando assim os homens sem escusa (Romanos 1.18-21; 2.14-15). Mas ela não revela Cristo como o único Redentor. Esse último é encontrado somente nas Escrituras (Romanos 1.16- 17; 10.17). Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência de tal modo manifestem a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis, contudo não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e da sua vontade necessário para a salvação; por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da came e malícia de Satanás e do mundo, INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 121 foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto toma indispensável a Escritura Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo. Quando propriamente estudada, a revelação geral e especial estão em perfeita harmonia. Mas a criação sempre deve ser estudada à luz da revelação especial. A Bíblia somente tem um monopólio sobre a verdade. Como claramente ensinado em Provérbios 8, um entendimento devido da criação só pode ser derivado de um estudo da Escritura. Isso não significa que devemos evitar um estudo da criação. Antes, somos compelidos pela revelação especial a interagir com ela (por exemplo, investigação científica e histórica), como visto no mandato de domínio de Gênesis 1.26-28. Mas somente a Escritura, não o estudo da ciência ou da história, nos dá a verdade. Isso nos traz para a nossa quinta consideração. Devido à Queda do homem, o pecado afetou o cosmos inteiro (Gênesis 3; Romanos 8.18-23). O homem e o universo estão num estado de anormalidade. Os efeitos da Queda têm impedido grandemente a capacidade do homem de filosofar. Metafisicamente falando, o homem ainda é a imagem de Deus, embora a imagem esteja desfigurada. Ele ainda é um ser espiritual, racional, moral e imortal (Gênesis 9.6; Tiago 3.9). O homem caído está num estado de “depravação”, incapaz de fazer algo que agrade a Deus (Romanos 3.9-18; 8.7-8). A imagem ética é restaurada somente através da obra salvífica na cruz de Jesus Cristo (Efésios 4.24; Colossenses 3.10). Para filosofar propriamente, o homem deve ser regenerado (João 3.3-8). Até que ele não nasça de novo, o homem não pode ver o reino de Deus, ou, aliás, não pode ver nada corretamente. Filosofia e Sabedoria Como notado, a Bíblia ensina que a verdadeira sabedoria começa com “o temor do Senhor” (Provérbios 9.10). Assim, uma pessoa que não conhece salvificamente o “Senhor” Jesus Cristo, que é a sabedoria encarnada (1 Coríntios 1.24,30; Colossenses 2.3), não pode ser “sábio” no sentido bíblico (confirme com João 14.6). A Bíblia descreve tal indivíduo como um “tolo”. O “tolo” é uma pessoa que odeia o conhecimento (Provérbios 1.22), é infantil em seu pensamento, pronta para crer em qualquer coisa (Provérbios 14.15), e confiar em si mesmo (Provérbios 28.26), antes do que em Deus (Salmos 14.1). Ele diz “no seu coração: Não há Deus” (Salmos 14.1). O tolo pode ser um indivíduo altamente educado, uma pessoa que é bem versada na disciplina da filosofia; todavia, ele é um tolo, pois ele rejeita o Deus da Escritura, e a Bíblia como a única fonte de sabedoria (Mateus 7.26- 27). Por conseguinte, ele “procura a sabedoria e não a encontra”, pois ele sempre está procurando no lugar errado (Provérbios 14.6). O apóstolo Paulo descreve a natureza dessa tolice, da filosofia secular, em Romanos 1.18- 25. O não-cristão suprime o conhecimento de Deus que ele possui, ele rejeita a Palavra de Deus como o único padrão de verdade, e atribui tudo da criação a outra coisa que não o Deus da Escritura INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 122 (versículos 18-21). Diz o apóstolo, tais tolos se tomaram “fúteisem seus pensamentos”, “seu coração insensato se obscureceu” (versículo 21); “dizendo-se sábios, tomaram-se loucos” (versículo 22). E como filósofos falsos, eles escolheram “adorar e servir a criatura em lugar do Criador” (versículo 25). O filósofo cristão, por outro lado, é um homem sábio. Ele constrói seu sistema filosófico sobre a Rocha de Cristo e sua Palavra (Mateus 7.24-25). Ele vê todas as coisas (isto é, filosofa) por meio dos “espetáculos” da Escritura. Dessa forma, o filósofo cristão não é apenas um homo spiritualis (“homem espiritual”), ele é também um homo sapiens (“homem possuidor de sabedoria”). CRISTIANISMO E OS ELEMENTOS BÁSICOS DE FILOSOFIA Os Elementos Básicos de uma Cosmovisão Como temos visto, uma cosmovisão ou filosofia é uma série de crenças concernentes às questões mais importantes da vida. Portanto, qualquer cosmovisão bem modelada deve ser capaz de tratar adequadamente com os quais elementos ou princípios mais básicos da filosofia: epistemologia, metafísica, ética e política. Primeiro, epistemologia é aquele ramo da filosofia que está preocupado com a teoria do conhecimento. Como conhecemos o que conhecemos? Qual é o padrão da verdade? A verdade é relativa? O conhecimento sobre Deus é possível? Deus pode revelar coisas aos seres humanos? se sim, como? Segundo, metafísica tem a ver com a teoria da realidade. Por que as coisas são como elas são? Por que há algo, ao invés de nada? Como pode haver unidade no meio da diversidade no universo? O mundo é uma criação? É um fato bruto? Há propósito no universo? Terceiro, a ética se preocupa com como alguém deve viver. É o estudo dos pensamentos, palavras e feitos certos e errados. Qual é o padrão para a ética? Há uma lei absoluta à qual todo homem deve se conformar? Há uma razão lógica para perguntamos o porquê alguém “deve” fazer isso ou aquilo? A moralidade é relativa para com indivíduos, culturas ou períodos históricos? Ou a moralidade transcende essas fronteiras? Quarto, política é aquele ramo da filosofia que tem a ver com a teoria de governo. Que tipo de governo é o correto? O governo deve ser limitado? Os cidadãos têm um direito à propriedade privada? Qual é a função do magistrado civil? Epistemologia INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 123 Epistemologia é o componente chave de qualquer sistema teológico ou filosófico. Metafísica, ética e teoria política podem ser estabelecidas somente sobre uma base epistemológica. Sem um padrão, uma base para crença (epistemologia), uma pessoa não pode saber o que uma verdadeira teoria da realidade é; nem ela pode saber como devemos determinar o que é certo e o que é errado; nem pode saber qual é a teoria política apropriada. Uma base epistemológica é sempre primária. Embora a questão de como podemos conhecer a Deus é uma pergunta fundamental na filosofia da religião, por detrás dela descansa, na filosofia geral, a questão última: Como podemos conhecer alguma coisa? Se não podemos falar inteligivelmente sobre Deus, podemos falar inteligivelmente sobre moralidade, sobre nossas próprias ideias, sobre arte, política — poderíamos sequer falar sobre ciência? Como podemos saber alguma coisa? A resposta para essa pergunta, tecnicamente chamada de teoria da epistemologia, controla todas as questões subjetivas que reivindicam ser inteligíveis ou cognitivas. Na história da filosofia, tem havido três principais teorias não-cristãos de conhecimento: racionalismo (puro), empirismo e irracionalismo. PRIMEIRO, o racionalismo puro afirma que a razão, a parte da revelação ou experiência sensorial, fornece a fonte primária, ou a única, da verdade. Os sentidos não são confiáveis, e o nosso conhecimento a priori (o conhecimento que temos antes de qualquer observação ou experiência) deve ser aplicado à nossa experiência para que nossa experiência possa ser feita inteligível. Na epistemologia bíblica (que pode ser chamada de racionalismo cristão, ou escrituralismo), o conhecimento vem através da razão, à medida que uma pessoa estuda as proposições reveladas da Escritura. No racionalismo puro, por outro lado, o conhecimento vem da razão somente. A razão humana, sem nenhuma ajuda, se toma o padrão último pelo qual todas as crenças são julgadas. Até mesmo a revelação deve ser julgada pela razão. Uma falsa suposição feita aqui pelo racionalista é que o homem, a parte da revelação, é capaz de chegar a um verdadeiro conhecimento de pelo menos algumas coisas, incluindo o conhecimento de Deus. Há diversos erros fundamentais no sistema racionalista de pensamento. Primeiro, homens caídos podem e erram em seu raciocínio. A possibilidade de erros formais em lógica é um exemplo. Segundo, há a questão do ponto de partida. Onde alguém começa no racionalismo puro? Platão, Descartes, Leibniz e Spinoza, todos dos quais foram classificados como racionalistas, tinham diferentes pontos de partida. Platão começou com suas Ideias eternas, Descartes com a impossibilidade de duvidar de todas as coisas (seu cogito ergo sum – penso logo existo), Leibniz com seu sistema de mônadas, e Spinoza, que era um panteísta, com seu Deus sive Natura (“Deus, isto é, natureza”). Parece que os racionalistas não concordam sobre um ponto de partida, um axioma sobre o qual o sistema deles deve ser baseado. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 124 SEGUNDO, o empirismo mantém que todo conhecimento origina nos sentidos. De acordo com o empirismo, a experiência ordinária a partir de nossos sentidos físicos produz conhecimento. No empirismo, o método científico de investigação é enfatizado. Certamente, é alegado, os numerosos triunfos da ciência na era moderna demonstram a verdade do método empírico. A ciência, certamente, é baseada na observação, e a observação repetida. Numa epistemologia empírica consistente, a mente é considerada como sendo uma tabula rasa no nascimento. Ela não tem nenhuma estrutura inata, formas, ou ideias. Portanto, todo conhecimento vem através dos sentidos. Enquanto os racionalistas procedem pela dedução, empiristas usam o raciocínio indutivo também. Alguém coleta suas experiências e observações e traça inferências e conclusões delas. O conhecimento empírico é a posteriori, isto é, ele vem depois e através da experiência. Uma pessoa deve ser capaz de cheirar, provar, sentir, ouvir ou ver algo para que ela possa conhecê-lo. Uma vez que algo é experimentado (ou “sentido”), então a mente, que é uma tábua branca antes da experiência, de alguma forma relembra, imagina, combina, transpõe, categoriza e formula a experiência sensorial em conhecimento. Os problemas filosóficos com o empirismo são muitos, alguns dos quais serão expostos aqui. Primeiro, todos os argumentos indutivos24 são falácias lógicas formais. No estudo indutivo, cada argumento começa com premissas particulares e termina com conclusões universais. A dificuldade é que não é possível coletar experiências suficientes sobre nenhum assunto para alcançar uma conclusão universal. Simplesmente porque o sistema depende da coleção de experiências para suas conclusões, ele nunca pode estar certo de que alguma nova experiência ou observação não mudará suas conclusões anteriores. Assim, ele nunca pode ser absolutamente conclusivo. Por exemplo, alguém pode observar 1000 corvos e perceber todos como sendo pretos. Mas quando o corvo número 1001 se toma um albino, a conclusão anterior sobre corvos sendo pretos deve ser revisada. Então também, juntamente com essa linha de pensamento, tenha em mente quão frequentemente os cientistas revisam e derrubam suas conclusões anteriores. O fato é que a ciência nunca pode nos dar a verdade absoluta em tudo; ela trata em grande parte somente com teorias, não absolutos. Foi Einsten quem disse: “Nós [cientistas] não sabemos nada sobre ela [natureza], de forma alguma. Nosso conhecimento é apenas o conhecimento do colegial. Nós conheceremosum pouco mais do que conhecemos agora. Mas a natureza real das coisas — essa nós nunca conheceremos”.25 E o filósofo Karl Popper escreveu: “Na ciência não há conhecimento no sentido que Platão e 24 Um argumento indutivo é aquele no qual se parte de experiências sobre fatos particulares e se infere daí conclusões gerais. Quando dizemos que todos os homens que nascerem irão morrer porque até hoje ninguém deixou de morrer estamos usando um argumento indutivo. Tais argumentos se baseiam na experiência passada para sustentar uma conclusão. 25 Citado em Gordon H. Clark, First Corinthians (Trinity Foundation, 1991), 128. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 125 Aristóteles usaram a palavra, no sentido que implica finalização; na ciência nunca temos razão suficiente para crer que alcançamos a verdade”.26 Segundo, os sentidos podem e frequentemente (talvez sempre) nos enganar. Ninguém pode ter a mesma experiência duas vezes. O antigo filósofo Heráclito fala disso em seu famoso ditado: “Não é possível banhar-se rio duas vezes no mesmo rio”. Coisas finitas continuamente mudam, assim como a água no rio continua a fluir. Em tal sistema, a verificação, que é a inferência de uma conclusão por consequência boa e necessária, não é possível. De fato, o axioma básico do empirismo — que teorias, ideias e proposições devem ser verificadas ou refutadas pela observação sensorial — não pode ele mesmo ser verificado ou refutado pela observação sensorial. Assim, o empirismo descansa sobre uma autocontradição e, portanto, um falso ponto de partida. Terceiro, como temos visto, os empiristas mantém que todos os homens nascem com uma mente branca. Mas isso não é possível. Uma consciência que não é consciente de nada é uma contradição de termos. Aqui também o empirismo é autocontraditório. Quarto, as verdades da matemática não podem ser derivadas a partir dos sentidos; as leis da lógica não podem ser abstraídas ou obtidas a partir da sensação; nem podem os sentidos nos dar ideias tais como “igual”, “paralelo” ou “justificação”. Essas nunca são encontradas na experiência sensorial. Jamais duas coisas que experimentamos são perfeitamente iguais, paralelas ou justas. Antes, essas são abstrações que não têm nada a ver com nossos sentidos. Essas dificuldades categóricas com o empirismo são insuperáveis. O empirismo não pode nos dizer como os sentidos somente podem nos dar concepções. Se o “conhecedor” já não está equipado com elementos conceituais ou ideias (isto é, conhecimento inato), como ele pode conceitualizar o objeto sentido? Embora o racionalismo, com seu conceito de ideias universais, nos dê uma explicação para categorias e similaridades, o empirismo não tem explanação para elas. Sem essas, o discurso racional não é possível. Quinto, assim como o racionalismo puro, o solipsismo é inescapável numa epistemologia empírica. As sensações de alguém são apenas isso: as sensações de uma pessoa. Ninguém mais pode experiência-las. Mas se esse é o caso, ninguém pode estar certo de que há um mundo externo. Qualquer evidência que possa ser oferecida é apenas uma experiência subjetiva. Finalmente, em ética, se assumirmos que o empirismo (na melhor das hipóteses) pode nos dizer o que é, ele nunca pode nos dizer o que deve ser. O “deve” nunca pode ser derivado do “é”. Observações empíricas nunca podem nos dar princípios morais. Um princípio moral pode ser somente uma proibição ou mandamento divinamente revelado. Mesmo no Jardim do Éden, antes da Queda, o homem era dependente da revelação proposicional de Deus para o conhecimento. Pela observação 26 Citado em John W. Robbins, “An Introduction to Gordon H. Clark,” Parte 2, TheTrinity Review (Agosto, 1993). INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 126 somente ele não poderia ter determinado seu dever diante de Deus. Após a Queda, certamente, o problema foi agravado pelo pecado e corrupção. Em 1Coríntios 2.9-10, o apóstolo Paulo distingue entre filosóficas construídas sobre racionalismo puro e empirismo, e revelação proposicional da parte de Deus: “Mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram [empirismo], nem jamais penetrou em coração [mente] humano [racionalismo puro] o que Deus tem preparado para aqueles que o amam. Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito”. Qual foi a conclusão de Paulo? Simplesmente essa: nem o racionalimo puro nem o empirismo podem produzir conhecimento. Antes, manteve o apóstolo, a revelação proposiconal27 é o sine qua non do conhecimento. TERCEIRO, o irracionalismo, promovido por homens tais como Soren Kierkegaard, (numa extensão menor) Immanuel Kant, Friedrich Schleiermacher, e teólogos neo-ortodoxos, é uma forma de ceticismo. Ele é antirracional e anti-intelectual. A verdade real, dizem os céticos, nunca pode ser obtida. As tentativas dos racionais de explicar o mundo nos deixam em desespero. A realidade não pode ser comunicada proposicionalmente; ela deve ser adquirida “pessoal e apaixonadamente” (Kierkegaard). A verdade é subjetiva. Embora o homem nunca possa saber se há um deus que dá propósito e significado para a vida, ele deve todavia dar um “salto de fé” (Kierkegaard). Ele deve viver a vida como se existisse um deus, um ser superior, um universo com sentido, pois não o fazer seria pior (Kant). O irracionalismo se manifesta nos círculos teológicos na neo-ortodoxia de Karl Barth e Emil Brunner. Para esses homens, a lógica deve ser desdenhada. A lógica deve ser restringida para permitir a fé. Afinal, é alegado, a lógica de Deus é diferente da “mera lógica humana”, de forma que podemos encontrar a verdade somente no meio de paradoxos e contradições. Nessa “teologia do paradoxo”, Deus podo até mesmo nos ensinar através de falsas declarações. Tristemente, o irracionalismo tem afetado também a Igreja ortodoxa. A grande maioria daqueles dentro dos círculos cristãos têm sido vítimas do movimento anti-razão, anti-intelectual e anti-lógico. Nesse momento, não há maior ameaça diante da verdadeira Igreja de Cristo do que o irracionalismo que controla toda a nossa cultura. Estamos vivendo, “na era do irracionalismo”. Não obstantes os muitos adversários filosóficos que a Igreja cristão tem que enfrentar, não obstantes as muitas ideias falsas que competem por supremacia, não há ideia tão perigosa como aquelas de que não conhecemos e não podemos conhecer a verdade. O problema com o irracionalismo é que quando alguém divorcia a lógica da epistemologia, ele é deixado com nada. O ceticismo é auto-contraditório, pois ele afirma com certeza que nada pode ser conhecido com certeza. O teísmo cristão por outro lado, mantém que Deus “é a própria verdade”: 27 Por revelação proposicional entende-se que a auto revelarão de Deus também foi feita através de palavras e palavras sugerem informações. Deus através de palavras humanas se comunica e se dá a conhecer ao homem. Para ser mais claro Deus comunicou informações sobre ele mesmo. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 127 Pai (Salmo 31.5), Filho (João 14.6) e Espírito Santo (1João 5.6), e que a verdade é proposicional e lógica. A lei da contradição é um teste negativo para a verdade. A razão diz que uma contradição é sempre um sinal de erro. Declarações contraditórias não podem ser ambas verdadeiras (1 Coríntios 14.33; 1Timóteo 6.20). A lei da contradição (ou não-contradição) declara que A (que pode ser qualquer proposição ou objeto) não pode ser tanto B como não-B ao mesmo tempo e no mesmo sentido. De fato, a Bíblia nos ensina que Jesus Cristo é a Lógica (Logos) de Deus (João 1.1). Ele é a Razão, Sabedoria e Verdade encarnada (1Coríntios 1.24,30; Colossenses 2.3; João 14.6). As leis da lógica não foram criadas por Deus ou pelo homem; elas são a forma de Deus pensar. E visto que as Escrituras são uma expressão da mente de Deus (1Coríntios 2.16), elas são os pensamentos lógicos de Deus. A Bíblia expressa a mente deDeus numa forma logicamente coerente para a humanidade. O homem, como o portador da imagem de Deus (Gênesis 1.26-28), possui inerentemente a lógica como parte da imagem. O homem é o “sopro de Deus” (Gênesis 2.7; Jó 33.4), pois o Espírito de Deus soprou no homem seu espírito. Contrário então ao aparentemente piedoso absurdo dos irracionalistas, a Escritura nos ensina que não há tal coisa como “mera lógica humana”. Lemos em João 1.9 que Cristo, como o Logos (Lógica) de Deus é “a verdadeira Luz que dá luz a todo homem”. Esse sendo o caso, é evidente que a lógica de Deus e a lógica do homem são a mesma lógica. Devemos entender, então, que raciocinar logicamente é raciocinar de acordo com a Escritura (Romanos 12.20), que é ela mesma uma revelação dos pensamentos lógicos de Deus. O homem redimido deve aprender progressivamente a pensar os pensamentos de Deus (2Coríntios 10.5). A lógica é fixa, universal, necessária e insubstituível. A irracionalidade contradiz o ensino bíblico do princípio ao fim. O Deus de Abraão, Isaque e Jacó não é insano. Deus é um ser racional. Epistemologia Cristã Como já estudamos, o ponto de partida da epistemologia cristã é a revelação preposicional dos 66 livros do Antigo e Novo Testamento. Se vamos evitar as falácias do racionalismo puro, as ciladas do empirismo, e o ceticismo do irracionalismo, precisamos de uma fonte de verdade autoritativa. E essa fonte é a revelação preposicional do Deus da Escritura, que “é a própria verdade”. Passagens da Escritura tais como Jó 11.7-9, Provérbios 20.24, Eclesiastes 3.11; 7.27-28; 8.10,17, Mateus 16.17, 1Coríntios 2.9-10, apenas para citar algumas, tomam claro que a parte da revelação divina, o homem não pode verdadeiramente conhecer a Deus ou sua criação. Não pode ser inadequado observar que a epistemologia se tomou a questão mais profundamente perturbante confrontado a mente moderna, simplesmente porque a filosofia moderna rejeitou a solução bíblica e tem procurado respostas de várias outras fontes, todas das quais têm levado INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 128 à conclusão desesperadora de que o homem simplesmente não pode conhecer a realidade e que não há nenhuma verdade última que possa ser conhecida. O ponto de partida para a filosofia cristã é a Palavra de Deus. Esse é o axioma: a Bíblia somente é a Palavra de Deus, e ela tem um monopólio sistemática sobre a verdade. A Bíblia reivindica ser a Palavra de Deus, e o Espírito Santo produz essa crença nas mentes dos eleitos de Deus. A Bíblia deve ser recebida (simplesmente) porque ela é a Palavra de Deus, e embora ela própria abundantemente manifeste ser a Palavra de Deus, nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo, que pela palavra e com a palavra testifica em nossos corações. Algumas vezes isso é referido como “dogmatismo”, “pressuposicionalismo bíblico”, “racionalismo cristão” ou “escrituralismo”. Com muita frequência, todos os críticos dizem que tal pressuposicionalismo nada mais é do que uma questão circular; ela é um raciocínio circular; ela assume o que deve ser provado. Alguém não pode assumir que a Bíblia é a Palavra de Deus, simplesmente porque a Bíblia reivindica ser a Palavra de Deus. Primeiro, é alegado, uma pessoa deve provar que a Bíblia é de fato a Palavra de Deus. Há muitas reivindicações e requerentes falsos. Mas não pode ser racionalmente negado que a Bíblia reivindica ser a Palavra de Deus inerrante e infalível (2Timóteo 3.16-17; 2Pedro 1.20-21). E isso é significante. É uma reivindicação que poucos escritos fazem. Portanto, visto que a Bíblia faz tal reivindicação, explícita e predominantemente, é razoável crer no testemunho da própria Bíblia. Simplesmente, de acordo com a Escritura, não há maior autoridade do que a Palavra auto autenticadora de Deus. Novamente, para citar o autor de Hebreus: “porque ele [Deus] não podia jurar por ninguém maior, jurou por si mesmo” (6.13). Além disso, na epistemologia cristã, não há dicotomia entre a fé (revelação) e a razão (lógica). As duas andam de mãos dadas, pois é Cristo o Logos quem revela a verdade. O Cristianismo é racional. De fato, a fé cristã é totalmente dependente da persuasão da razão (pensamento coerente) para a sua proclamação e entendimento. Deus se comunica conosco numa forma coerente em sua Palavra por meios de declarações racionais e proposicionais. A revelação pode chegar somente a uma pessoa racional. Há uma distinção filosófica importante entre “conhecimento” e “opinião”. Há uma diferença entre o que “sabemos” e o que “opinamos”. Conhecimento não é somente possuir ideias ou pensamentos; é possuir ideias ou pensamentos verdadeiros. O conhecimento é o conhecimento da verdade. Ele justifica a crença verdadeira. Opiniões, por outro lado, podem ser verdadeiras ou falsas. A ciência natural é uma opinião; a arqueologia é uma opinião; a história é uma opinião. Aqui não há nenhuma justificativa para a crença verdadeira. Opinar algo não é conhecê-lo, embora a opinião possa ser verdadeira. Um aluno pode INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 129 supor a resposta correta para uma questão aritmética, mas a menos que ele possa mostrar como alcançar a resposta, ele não pode dizer que a conhece. Na visão bíblica, uma proposição é verdadeira porque Deus pensa que ela é verdadeira. E visto que Deus é onisciente (conhecendo todas as coisas), se o homem há de conhecer a verdade, ele deve conhecer o que está na mente de Deus. A mesma verdade que existe na mente do homem existe primeiro na mente de Deus. Na teoria da verdade coerente, a mente e o objeto conhecimento são partes de um sistema, um sistema no qual todas as partes estão em perfeito acordo, pois elas são encontradas na mente de Deus. Metafísica Metafísica (do grego antigo μετα (meta) = depois de, além de tudo; e Φυσις [physis] = natureza ou física). Como visto, metafísica tem a ver com a teoria da realidade; não apenas o físico, mas também o que transcende o físico. Objetos físicos podem aparecer para os sentidos de várias formas, mas o metafísico está preocupado com o que o objetivo verdadeiramente é. Metafísica é o estudo das questões últimas. Agostinho continuou para ensinar que Jesus Cristo, o eterno Logos de Deus, é aquele que nos dá uma coerência entre o infinito e o finito, o Criador e a criação. Em outras palavras, é Cristo quem revela a solução para o problema do um e dos muitos. A parte de um entendimento apropriado da teologia do Logos (isto é, Cristo como a eterna Palavra que veio para revelar a verdade de Deus ao homem), não há solução real. Drasticamente diferentes das visões não-cristãs de metafísica, a Escritura ensina que todas as coisas existem como elas são porque o Deus trino da Escritura é o Criador e Sustentador de todas as coisas. Pela sua muito sábia providência, segundo a sua infalível presciência e o livre e imutável conselho da sua própria vontade, Deus, o grande Criador de todas as coisas, para o louvor da glória da sua sabedoria, poder, justiça, bondade e misericórdia, sustenta, dirige, dispõe e governa todas as suas criaturas, todas as ações e todas as coisas, desde a maior até a menor. Porque Deus é o Criador há algo ao invés de nada. E porque Deus é o Criador e Sustentador do universo, o mundo não é um fato bruto, nem uma máquina sem propósito. Há ordem, significado e propósito no universo porque ele é a obra proposital do Artesão Mestre. E essa ordem, significado e propósito são encontradas no pacto eu Deus estabeleceu com sua criação (Gênesis 1; 2.15-17; 3.15; 9.9-17; Jeremias 33.19-26). É “nele [que] vivemos, nos movemos e temos nossa existência” (Atos 17.28). INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 130 Ética Embora as pessoas algumas vezes considerem “ética” e “moral” como sendo virtudes sinônimas, tecnicamente,há uma diferença entre as duas. Ética é uma disciplina normativa, que procura prescrever obrigações para a humanidade. Ela tem a ver com o que uma pessoa “deve” fazer. Ética é uma questão de autoridade. Moral, por outro lado, descreve o comportamento padrão de indivíduos e sociedades, isto é, o que as pessoas fazem. A ética de alguém deve determinar sua moral. A ética cristã depende da revelação. O Cristianismo mantém que há somente um padrão ético para a humanidade. A lei moral de Deus obriga para sempre a todos a prestar-lhe obediência, tanto as pessoas justificadas como as outras. E o pecado é apropriadamente definido, como qualquer falta de conformidade com a lei de Deus, ou qualquer transgressão dessa lei. Se não houvesse nenhuma lei de Deus, então não haveria nenhum pecado. Nossa conduta moral, então, deve ser guiada pelo padrão ético da Palavra de Deus. Boas obras são somente aquelas que Deus ordena em sua santa palavra, não as que, sem autoridade dela, são aconselhadas pelos homens movidos de um zelo cego ou sob qualquer outro pretexto de boa intenção. Atrás da validade da lei moral de Deus, está, certamente, a autoridade do Deus que nos dá a lei. O prólogo dos Dez Mandamentos é: “Eu sou o Senhor”. Teologia, e não ética, é primária. A distinção entre certo e errado é inteiramente dependente dos mandamentos de Deus, pois ele é “o Senhor”. O sistema cristão de ética é baseado na própria natureza de Deus. “Sereis santos, porque eu [Deus] sou santo” (Levítico 11.44; 1Pedro 1.16). Como Paulo aponta nos primeiros dois capítulos de sua epístola aos Romanos, o homem tem suprimido o conhecimento inato de Deus e sua Palavra, que ele sabe ser verdadeira, e suplantando-a com os seus próprios falsos sistemas. Já temos observado que o homem foi criado à imagem de Deus. A Queda, contudo, deixou o homem eticamente num estado de depravação. O homem não-regenerado é agora incapaz de fazer algo que agrade a Deus (Romanos 3.9-18; 8.7-8). Seu padrão ético é autônomo; ele não tem nenhum ponto de referência eterno. O homem não-cristão está entre a foice e o martelo: ele está buscando construir um sistema ético sem uma autoridade divina e eterna por detrás dele. Nas palavras de Cristo, o homem caído está edificado sobre a areia (Mateus 7.26- 27). As Escrituras são claras sobre esse assunto. Há um elo bíblico entre as cosmovisões não- cristãs e a prática daqueles que aderem a ela. Salmo 14 declara o assunto claramente. É “o tolo quem diz no seu coração [que] não há Deus”. E, como o salmista continua para dizer, é por causa dessa negação de Deus que eles “têm-se corrompido, fazem-se abomináveis em suas obras, não há ninguém que faça o bem” . Paulo ensina a mesma coisa em Romanos 3. Nos versículo 10-17, ele nos dá um catálogo dos pecados que infectam o não- regenerado. Então no versículo 18, ele resume a denúncia INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 131 dizendo que “não há temor de Deus diante de seus olhos”. Isto é, quando o homem rejeita o Deus da Escritura, isso leva a “obras abomináveis”. Há muitos sistemas éticos não-cristãos. Talvez as duas que têm tido o maior impacto (negativo) sobre o Cristianismo são o legalismo é o antinomianismo, ambas das quais são o que Jesus se referiu como “o caminho espaçoso que conduz a perdição” (Mateus 7.13-14). O legalismo, em sua forma mais consistente, reivindica que o guardar a lei, por si próprio, é o salvador tanto do homem como da sociedade. Ele se preocupa com a conformidade externa a um padrão de lei, um padrão que é sempre, de uma forma ou de outra, uma lei criada pelo homem. Como Paulo escreve, os homens, “procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus” (Romanos 10.3). Essa forma de legalismo foi adotada pelos fariseus dos dias de Jesus (Mateus 15.1-9; 23.1-39). Esse é também o erro do Pelagianismo. Igualmente falso e perigoso é o ensino semi-pelagiano da Igreja Católica Romana, de que a justificação é uma mistura de graça e obras. Pelágio foi um monge britânico do quarto século que propagou esse sistema de legalismo. Seus ensinos foram firmemente combatidos por Agostinho. Algumas vezes, numa forma menos consistente, o legalismo chega na forma de listas não- bíblicas de “faça” e “não faça”. Outras vezes ela é encontrada na mera tradição. Mas ela é sempre humanista na origem. A lei de homem é posta em oposição à lei de Deus. O legalismo implica, juntamente com a afirmação de Protágoras, que “o homem é a medida” de todas as coisas. Mas se o homem é a medida de todas as coisas, então o que um homem crê é tão verdadeiro quanto o que qualquer outro homem creia. Ambos seriam capazes de reivindicar estar certo. Assim, se alguém deles crê que o outro esteja errado, então o segundo homem está necessariamente errado. E se o segundo homem crê que o primeiro está errado, então o primeiro está necessariamente errado. Por conseguinte, ambos estão certos e errados ao mesmo tempo, o que é uma contradição. Jesus fala contra o legalismo em Mateus 15 e Marcos 7. E Paulo o condena no livro de Gálatas. O Antinomianismo (“anti-lei”) toma diversas formas: libertinismo, espiritualismo gnóstico e situação ética. O libertinismo, de uma forma ou de outra, nega que a lei moral de Deus é obrigatória para a humanidade hoje. Tristemente, ela tem encontrado seu caminho na (pseudo) Igreja. “Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça”. Essa, contudo, é uma declaração errônea e um entendimento incorreto do versículo. Embora os verdadeiros crentes não estejam debaixo da lei como pacto de obras, para serem por ela justificados ou condenados, contudo, ela lhes serve de grande proveito, como aos outros; manifestando-lhes, como regra de vida, a vontade de Deus, e o dever que eles têm, ela os dirige e os obriga a andar segundo a retidão. Isto é, em Romanos 6.14, o apóstolo Paulo não nega que os cristãos, ou “os justificados”, estejam obrigados a obedecer a lei de Deus; antes, ele ensina que que eles não estão debaixo da lei INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 132 como uma maldição (confirme Gálatas 3.10-13). Além disso, ele deixa isso claro numa passagem anterior na mesma epístola, onde ele escreve: “Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma! Antes, estabelecemos a lei” (Romanos 3.31). O espiritualismo gnóstico, frequentemente encontrado em algumas Igrejas carismáticas e pentecostais, bem como nas ordens monásticas, eleva os sentidos e experiência místicas acima da lei de Deus. Aqueles que “possuem” tais experiências reivindicam uma fonte ou forma de conhecimento superior. Os mandamentos da Escritura devem ser postos de lado, quando tais experiências ocorrem. O Espírito de Deus, dizem os gnósticos, guia-os a parte (sem a necessidade) da revelação bíblica. De acordo com a Escritura, contudo, o Espírito Santo não é antinomiano. Ele é “o Espírito da verdade”, que guia a Igreja “em toda verdade” (João 16.13). Mas ele assim o faz por meio da Escritura, não a parte dela (João 16.13-15; 1Coríntios 2.10-16). É a Escritura, escreve Paulo, não as experiências místicas, que equipa perfeitamente a Igreja “para toda boa obra” (2Timóteo 3.16-17). Além do mais, escreve Salomão: “O que confia no seu próprio coração [sentimentos] é insensato” (Provérbios 28.26). A situação ética, ou a “nova moralidade”, é uma construção que nega que haja quaisquer verdades absolutas. Antes, “a lei do amor” deve ditar a ética de alguém em cada situação específica. Isto é, o amor sempre “triunfa” sobre a lei, e toma a ação correta. Como observador, na situação ética, o único absoluto, se ele pode ser assim chamado, é “a lei do amor”. Mas essa é uma “lei” definida por concepções distorcidas, não pela Palavra de Deus. Enquanto o “amor”, de um ponto de vista bíblico, é objetivo em natureza — definido por Jesus como “guardar os meus mandamentos” (João 14.15),e por Paulo como “o cumprimento da lei [de Deus]” (Romanos 13.10) — para os que disporcem a ética cristã, ele é meramente pessoal e subjetivo. A “situação” dita; não há norma, nenhum padrão absoluto pelo qual todos devem ser julgados. A situação ética tem mais em comum com altruísmo vago em contradição com a ética cristã, onde o amor é manifesto numa vida de obediência à lei de Deus: “E o amor é este: que andemos segundo os seus [de Deus] mandamentos” (2 João 6). Todos os sistemas éticos não-cristãos são falíveis. Eles não têm nenhum padrão eterno sobre o qual permanecer. Tendo rejeitado a revelação divina, esses sistemas não fornecem nenhum grau certo para quaisquer leis morais (Mateus 7.26-27). O pregador de Eclesiastes sumariza a obrigação ética do homem quando ele escreve: “De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque este é o dever de todo homem. Porque Deus há de trazer a juízo toda obra e até tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau” (12:13-14). Política INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 133 A cosmovisão cristã sustenta que há três instituições bíblicas principais ordenadas por Deus: a família, a Igreja e o magistrado civil (ou Estado). As instituições existem, assim como todas as coisas, para glorificar a Deus (7 Coríntios 10.31). Elas são separadas para funcionar de acordo com uma autoridade, e não como a autoridade. Todas as três devem ser governadas pela Escritura. A família é a instituição bíblica primária. Ela foi a primeira estabelecida (Gênesis 1-2), e, num sentido, as outras duas instituições estão fundamentas sobre a família. A segunda instituição bíblica é a Igreja. Teólogos distinguem entre a Igreja visível e invisível. A primeira, consta de todos aqueles que pelo mundo inteiro professam a verdadeira religião, juntamente com seus filhos. A Igreja invisível, por outro lado, compreende os verdadeiros santos de todos os tempos, mesmo aqueles que ainda não nasceram. A Igreja Católica ou Universal, que é invisível, consta do número total dos eleitos que já foram, dos que agora são e dos que ainda serão reunidos em um só corpo sob Cristo, seu cabeça; ela é a esposa, o corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todas as coisas. A terceira instituição bíblica, que é o nosso presente foco, é o magistrado civil. A diferença entre essa instituição e as outras duas é que ela é, nas palavras de Agostinho, um “mal necessário”. Isto é, o magistrado civil foi feito necessário devido à Queda do homem e o propósito principal do Estado é punir os malfeitores (Romanos 13.1-7; 1Pedro 2.13-17). E para esse propósito o Estado é “ministro de Deus” (Romanos 13.4,6). Deus, o Senhor Supremo e Rei de todo o mundo, para a sua glória e para o bem público, constituiu sobre o povo magistrados civis que lhe são sujeitos, e a este fim, os armou com o poder da espada para defesa e incentivo dos bons e castigo dos malfeitores. Dois erros principais têm se desenvolvido na história da relação Igreja-estado: o papalismo e o erastianismo. O primeiro afirma que a Igreja (a saber, o papa) governa tanto a Igreja como o estado. O último mantém que ambas as instituições estão sob a liderança do magistrado civil. A visão bíblica evita ambos os erros, e ensina que a Igreja e o estado são instituições ordenadas por Deus separadas, sob a lei de Deus. Novamente, elas são separadas para funcionar de acordo com uma autoridade, e não como a autoridade. Em Provérbios 14.34, lemos: “A justiça exalta as nações, mas o pecado é o opróbrio dos povos”. O que constitui a justiça que exalta uma nação? Com a justiça é definida? Primeiro, o Deus trino é justo: “Justiça e juízo são a base do seu [de Deus] trono” (Salmo 97.2). E, escreve o salmista, assim é a Palavra de Deus: “A justiça dos teus testemunhos é eterna.... pois todos os teus mandamentos são justiça” (Salmo 119.144,172). O apóstolo Paulo, em concordância com o Antigo Testamento, escreve: A lei de Deus é “santa, justa e boa” (Romanos 7.12). Parece, então, que de acordo com a Bíblia, uma nação é considerada justa quando ela procura honrar o Deus da Escritura aplicando seu justo padrão (isto é, sua Palavra) a todas facetas dos INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 134 interesses da nação. A lei de Deus é uma perfeita regra de justiça, que obriga para sempre a todos a prestar-lhe obediência, tanto as pessoas justificadas como as outras [para incluir nações]. Há pelo menos cinco valores básicos que são essências para uma nação ser considerada justa: Primeiro: Um Reconhecimento da Soberania de Deus. A soberania de Deus é universal. “O SENHOR tem estabelecido o seu trono nos céus, e o seu reino domina sobre tudo” (Salmo 103.19); “Mas o nosso Deus está nos céus e faz tudo o que lhe apraz” (Salmo 115.3). Pela sua muito sábia providência, segundo a sua infalível presciência e o livre e imutável conselho da sua própria vontade, Deus, o grande Criador de todas as coisas, para o louvor da glória da sua sabedoria, poder, justiça, bondade e misericórdia, sustenta, dirige, dispõe e governa todas as suas criaturas, todas as ações e todas as coisas, desde a maior até a menor. Com respeito às questões nacionais, o reconhecimento da soberania de Deus significa que Deus, não o estado, sociedade, raça, ou Igreja é a fonte de segurança. Diz o salmista: “É melhor confiar no SENHOR do que confiar no homem. E melhor confiar no SENHOR do que confiar nos príncipes [magistrados]” (118.8-9); “Vão é o socorro do homem. Em Deus faremos proezas; porque ele é que pisará os nossos inimigos” (60.11-12). Quando o povo de uma nação olha para o magistrado civil, ou para a Igreja, antes do que para Deus, para satisfazer suas necessidades, eles têm negado a soberania de Deus. Segundo: Governo Limitado. O fato de Deus ser soberano precisa limitar o poder e a autoridade de todas as instituições humanas. Em Romanos 13 e 1Pedro 2, lemos que a autoridade do magistrado é limitada àquela de defesa e justiça. Deus, o Senhor Supremo e Rei de todo o mundo, para a sua glória e para o bem público, constituiu sobre o povo magistrados civis que lhe são sujeitos, e a este fim, os armou com o poder da espada para defesa e incentivo dos bons e castigo dos malfeitores. Terceiro: A Primazia do Indivíduo. A Reforma enfatizou esse princípio. A primazia do indivíduo de forma alguma nega que Deus desde a eternidade entrou num pacto com seu povo, que é a Igreja de Jesus Cristo, e é uma comunhão de santos. Mas Deus cumpre seu pacto historicamente através da salvação de santos individuais. Todo homem, mulher e criança é individualmente responsável diante de Deus. Nem linhagem nem cidadania nacional salva alguém: “Mas a todos quantos o [Cristo] receberam deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus: aos que criem no seu nome, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da came, nem da vontade do varão, mas de Deus” (João 1.12-13). As várias liberdades e proteções individuais que os cidadãos de uma nação devem desfrutar, são derivadas dessa doutrina: liberdade da religião, liberdade da imprensa, liberdade de expressão, e assim por diante. Também derivada dessa doutrina é a responsabilidade individual dentro da INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 135 sociedade. Nenhuma pessoa saudável deve viver de “esmola do governo”. O Estado cristão não deveria se envolver diretamente no bem-estar. Nas palavras de Paulo: “Se alguém não quiser trabalhar, não coma também” (2Tessalonicenses 3.10). Quarto: O Direito de Propriedade Privada. Dois dos Dez Mandamentos, pelo menos implicitamente, ensinam o direito de propriedade privada: “Não furtarás... [e] não cobiçarás” (Êxodo 20.15,17). Se todas as propriedades fossem sustentadas em comum, o roubo e a cobiça não seriam possíveis. Também, em Mateus 20 Jesus ensina a parábola dos trabalhadores na vinha, na qual ele concluideve ser ouvido como algo intelectualmente viável por mulheres e homens que pensam, então é vital que nós, cristãos, moldemos nossas culturas de tal forma que a fé cristã não 1 Secularismo é uma cosmovisão que não abre espaço para o sobrenatural: não crê em milagres, nem na revelação divina, nem em Deus. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 12 possa ser descartada como mera superstição. É nesse ponto que entra a apologética cristã. Se os cristãos puderem ser treinados para fornecer sólidas evidências daquilo em que creem e boas respostas para as perguntas e objeções dos incrédulos, então a imagem que se tem dos cristãos vai pouco a pouco mudar. Os cristãos passarão a ser vistos como pessoas inteligentes e preparadas, a serem levadas a sério, e não meros fanáticos ou palhaços. E o evangelho será uma opção concreta para essas pessoas seguirem. Não estou dizendo com isso que as pessoas se tornarão cristãs por causa de bons argumentos e evidências. Antes, estou dizendo que argumentos e evidências ajudarão a criar uma cultura na qual a fé cristã seja vista como algo razoável. E ajudarão também a criar um ambiente em que as pessoas estarão abertas ao evangelho. Portanto, ter uma boa formação em apologética é uma maneira de vital importância de ser sal e luz nas culturas ocidentais de hoje em dia. 2. Para fortalecer os que creem. Os benefícios da apologética em sua vida pessoal como cristão são imensos. Vou mencionar três deles. Primeiro, saber em que e porque você crê vai lhe dar mais confiança na hora de compartilhar sua fé. Pessoas que não são treinadas na apologética costumam ter medo de compartilhar sua fé ou falar de Cristo por temerem que alguém lhes faça alguma pergunta. Mas quem souber as respostas para essas perguntas não terá medo de entrar na caverna dos leões — na verdade, vai até gostar disso! Um bom treinamento em apologética ajudará a transformá-lo em alguém que testemunha a Cristo sem medo e com ousadia. O segundo benefício é que a apologética também poderá ajudá-lo a manter sua fé em tempos de dúvidas e tribulações. As emoções só levarão você até certo ponto; dali para frente você precisará de algo mais substancial. Alguns pais costumam dizer: “Ah se eu tivesse resposta para as dúvidas de meu filho! Nosso filho tinha uma série de perguntas sobre a fé cristã e não sabíamos respondê-las. Hoje ele está afastado dos caminhos do Senhor”. Na verdade, parece haver mais e mais relatos de pessoas que estão abandonando a fé cristã. Algumas estatísticas dizem que 40% dos jovens cristãos abandonam a fé depois de sua formação universitária. Estamos falando de 40%! O que está acontecendo não é que eles estejam perdendo a fé no ambiente hostil das universidades. Ao contrário, muitos deles já tinham abandonado a fé quando ainda participavam de um grupo de jovens, mas continuaram deixando-se levar até que estivessem fora do alcance da autoridade dos pais. A igreja está realmente falhando com esses jovens. Em vez de fornecer a eles um bom treinamento na defesa da fé crista, nós ficamos envolvidos em lhes proporcionar experiências de louvor carregadas de emoção, ficamos nos preocupando com suas necessidades e em entretê-los. Não é à toa que eles se tornam presas fáceis para um professor que racionalmente ataca a sua fé. No segundo grau e na faculdade, os estudantes são bombardeados com todo tipo de filosofia não cristã INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 13 combinada com um avassalador relativismo e ceticismo, lemos que preparar nossos jovens para essa guerra. Como temos coragem de enviá-los desarmados para essa zona de guerra intelectual? Os pais devem fazer mais do que apenas levar seus filhos à igreja e ler histórias da Bíblia para eles. Pais e mães precisam ser bem treinados em apologética para que sejam capazes de explicar aos filhos, desde pequenos e cada vez com maior profundidade, porque cremos naquilo que cremos. Honestamente falando, acho difícil de entender como casais cristãos, nesses tempos em que vivemos, podem correr o risco de trazer filhos ao mundo sem terem recebido um bom treinamento em apologética como parte de seu ofício de pais. É evidente que a apologética não garante que você e seus filhos vão manter a fé. Existem muitos outros fatores de caráter moral e espiritual que também influenciam nessa questão. Alguns dos websites ateístas mais eficazes trazem ex-cristãos que sabiam apologética e ainda assim abandonaram a fé. Mas se você olhar bem de perto os argumentos que eles usam para justificar o abandono da fé verá que em geral são argumentos fracos e confusos. Ironicamente, algumas dessas pessoas assumem posturas mais radicais — como dizer, por exemplo, que Jesus jamais existiu. Porém, embora a apologética não seja garantia de nada, ela pode ajudar. Existem pessoas que estavam a ponto de abandonar a fé, mas se reaproximaram dela após ter lido um livro de apologética ou assistido a um debate. Quando se está passando por um período difícil e Deus parece distante, a apologética pode ajudar a pessoa a se lembrar de que sua fé não está baseada em emoções, e que, portanto, é necessário permanecer firme na fé. Finalmente, o terceiro benefício é que o estudo da apologética fará de você uma pessoa mais profunda e interessante. A cultura ocidental é tão incrivelmente superficial hoje em dia, tem fixação por celebridades, entretenimento, esportes e conforto pessoal. Estudar apologética fará você deixar tudo isso de lado e ir à busca das questões mais profundas sobre a existência e a natureza de Deus, a origem do universo, a fonte dos valores morais, o problema do mal e do sofrimento e assim por diante. À medida que for buscando respostas para essas questões, você mesmo vai sendo transformado e se tornará uma pessoa mais profunda e bem preparada. Aprenderá a pensar de forma lógica e a analisar o que outras pessoas falam. Em vez de dizer timidamente, “eu me sinto dessa forma sobre tal assunto. Veja bem, é só minha opinião”, será capaz de dizer: “Eis o que eu penso de tal assunto e essas são minhas razões para pensar assim...”. Como cristão, você começará a apreciar com mais profundidade as verdades cristãs sobre Deus e o mundo, e a perceber como todas elas se encaixam para formar uma cosmovisão cristã. 3. Para ganhar os incrédulos. Muita gente concorda com o que eu disse sobre o papel da apologética para reforçar a fé dos cristãos, mas negam que ela seja de alguma utilidade para ganhar os incrédulos para Cristo. Costumam dizer: “Ninguém vem a Cristo através de argumentos!” INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 14 Até certo ponto acredito que essas pessoas são meras vítimas de falsas expectativas. Quando alguém se dá conta de que apenas uma minoria dos que ouvem o evangelho o aceita e passa a crer em Jesus Cristo, não deveria nos surpreender o fato de que a maior parte das pessoas não se deixem convencer pelos argumentos e evidências apresentadas por cristãos. Pela própria natureza da questão, deveríamos esperar que a maior parte dos incrédulos não se deixe convencer por nossos argumentos apologéticos, assim como a maioria não se comove com a mensagem da cruz. E lembre-se, ninguém sabe nada ao certo sobre os efeitos cumulativos desses argumentos; é como uma semente, que é plantada e regada muitas vezes, de forma que nem sequer imaginamos. Assim, não devemos esperar que um incrédulo, já na primeira vez que ouvir nossa defesa apologética da fé, vai logo cair prostrado! É lógico que ele vai relutar. Pense bem no que está em jogo para ele. Mas devemos plantar e regar a semente, com paciência, na esperança de que com o tempo ela floresça e dê frutos. Pode ser que você se pergunte: “Mas por que devo me importar com essa minoria de uma minoria para quem a apologética fará efeito? Primeiro, porque toda pessoa é preciosa para Deus, é alguém por quem Cristo morreu. Assim como um missionárioque é justo para um homem fazer o que ele quiser com as suas possessões (versículo 15). Então há o ensino bíblico sobre a vinha de Nabote em 1Reis 21, ondemos somos ensinados que o magistrado civil está proibido de expropriar a propriedade privada. Essa consideração toma as leis de “domínio eminente” para “projetos públicos” nada mais do que intrusões ímpias. Quinto: O Trabalho Ético. Esse princípio está fundamentado no quarto mandamento: “Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra” (Êxodo 20:9). O trabalho duro não é uma maldição da Queda. Mesmo antes da Queda, Adão foi ordenado a “lavrar e guardar” o Jardim do Éden (Gênesis 2.15). Em Provérbios 14.23 lemos que “em todo trabalho há proveito”. O homem deve trabalhar para viver. O que Max Weber chama de trabalho ético protestante é um conjunto de virtudes econômicas: honestidade, pontualidade, diligência, obediência ao quarto mandamento — ‘seis dias trabalharás’, obediência ao oitavo mandamento — ‘não furtarás’, e obediência ao décimo mandamento — ‘não cobiçarás’. Um reconhecimento da significância do trabalho produtivo origina-se da Bíblia e da Reforma. O trabalho ético também inclui um entendimento apropriado do princípio sabático. O homem deve trabalhar seis dias por semanas, mas ele deve perceber que “o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo que neles há e ao sétimo dia descansou; portanto, abençoou o SENHOR o dia do sábado e o santificou” (Êxodo 20.10-11). Como cristãos, não estamos debaixo da Lei de guardar o dia semanal do sábado, Jesus é nosso descanso; nos apropriamos deste descanso (Jesus) e reconhecemos o princípio bíblico do descanso sabático tirando um dia qualquer para descanso e adoração a Deus. Interessantemente, Isaías 33:22 foi um versículo importante no estabelecimento dos Estados Unidos da América. Delineados esse versículo estão os três ramos de governo: judicial, legislativo e executivo: “Porque o SENHOR é o nosso Juiz [judicial]; o SENHOR é o nosso Legislador [legislativo]; o SENHOR é o nosso Rei [executivo]; ele nos salvará”. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 136 O Cristianismo é um sistema filosófico completo que é fundamentado sobre o ponto de partida axiomático da Bíblia como a Palavra de Deus. Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens. Nesse sistema, cada uma das partes que temos estudado — epistemologia, metafísica, ética e política — é importante. E as ideias encontradas nelas são todas arranjadas num sistema lógico, com cada parte reforçando mutuamente as outras. Se o aluno está preocupado em seguir dos ditames da Escritura, tendo sua mente sendo transformada pelos ensinos da Escritura (Romanos 12.1-2), e levando todo pensamento cativo à obediência de Cristo (2 Coríntios 10.5), então ele deve aprender a pensar como o próprio Logos de Deus pensa: lógica e sistematicamente. Isso feito, o aluno aprenderá a única filosofia viável, uma filosofia “de acordo com Cristo” (Colossenses 2.8), que é fundamentada sobre a Palavra de Deus. O MANDATO CULTURAL Quando Deus determinou criar a raça humana, ele estabeleceu alguns propósitos e parâmetros para um bom relacionamento entre criador e criatura. Esses propósitos e parâmetros são descritos pela Bíblia e por nossa teologia na forma de uma aliança. Deus fez uma aliança com a criatura e estabeleceu pelo menos três diferentes mandatos para a humanidade: o mandato espiritual (seu relacionamento com o Criador), o mandato social (seu relacionamento em família) e o mandato cultural (seu relacionamento com a sociedade). Não é surpresa de ninguém que quebramos os três! O homem negou seu Criador, desobedecendo suas ordens, quebrou os seus elos familiares com mentiras, acusações e esquivando-se de suas responsabilidades (Adão e Eva - marido e esposa - Caim e Abel - irmãos) e desenvolveu o mandato cultural da pior forma possível (poligamia, assassinato, brutalidade, etc.). Verifique Gênesis 4.17-23. Coisas boas aconteceram, mas as ruins prevaleceram: “Caim teve relações com sua mulher, e ela engravidou e deu à luz Enoque. Depois Caim fundou uma cidade, à qual deu o nome do seu filho Enoque. A Enoque nasceu-lhe Irade, Irade gerou a Meujael, Meujael a Metusael, e Metusael a Lameque. Lameque tomou duas mulheres: uma chamava-se Ada e a outra, Zilá. Ada deu à luz Jabal, que foi o pai daqueles que moram em tendas e criam rebanhos. O nome do irmão dele era Jubal, que foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta. Zilá também deu à luz um filho, Tubalcaim, que fabricava todo tipo de ferramentas de bronze e de ferro. Tubalcaim teve uma irmã chamada Naamá. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 137 Disse Lameque às suas mulheres: “Ada e Zilá, ouçam-me; mulheres de Lameque, escutem minhas palavras: Eu matei um homem porque me feriu, e um menino, porque me machucou.” Vamos dar ênfase na quebra do terceiro mandato – o cultural. Como os cristãos podem e devem relacionar-se com o que tem acontecido no nosso mundo? Quais devem ser os nossos limites e a nossa influência na cultura em que vivemos? O que de fato tem acontecido com os cristãos na modernidade? É fundamental que, antes de mais nada, o cristão conheça a sua cidadania: “Eles continuam no mundo... Eles não são do mundo...” (João 17.11,16). Nós somos cidadãos dos céus, mas as nossas passagens para lá ainda não chegaram, e enquanto estamos aqui temos muito o que fazer, sem, no entanto, esquecermos que somos de lá. O problema é que além de sermos muitos parecidos com o pessoal do lado de cá, muitas vezes nos deixamos influenciar com os erros do mundo, desobedecendo o mandato cultural. Observando o que acontece nos Estados Unidos, de onde as missões que nos trouxeram o evangelho saíram, pode-se observar como as coisas estão se deteriorando rapidamente, e mais rápido ainda, chegando aqui. Ao contrário do nosso Brasil, os Estados Unidos nasceram de ideais religiosos, recebendo forte influência da Palavra de Deus. Hoje é proibido falar em Deus nas escolas públicas (professores que por ventura o façam correm o risco de ser demitidos); o mesmo povo que luta por salvar as baleias (o que se deve fazer), luta pela legalização do aborto e igualdade para os homossexuais (algo semelhante acontecendo no Brasil). Onde chegamos!? Ora, estes são apenas exemplos dos extremos. Muitas coisas bem pequeninas têm influenciado comunidades inteiras de cristãos (estou falando de verdadeiros cristãos e não dos que apenas se chamam assim), e essas pequenas influências vão se tornando imensos tropeços. Não estamos defendendo nenhum isolacionismo cristão (a história já comprovou que os monastérios não funcionam). Isto é errado. Mas que os cristãos precisam conhecer melhor o terreno em que estão pisando. Como esta influência nos assalta? Já que nos livramos dos perigos de imperadores malucos como Nero e de ameaças terríveis como o Coliseu, como livrar-nos da má influência cultural? Não é livrar-se da cultura, mas do que é podre nela. O grande problema que temos ao enfrentar a chamada “cultura popular” é que na verdade somos moldados por ela, não só naquilo que pensamos e sentimos, mas na forma como pensamos e sentimos. Como isso aconteceu? Primeiro, filosoficamente. O fato é que os “grandes filósofos” conseguiram destruir toda a base para que o homem continue crendo em verdades absolutas. Tudo é relativo tudo é meia-verdade (não meia-mentira).que tem um chamado para uma obscura minoria étnica, o apologista cristão tem a responsabilidade de alcançar essa minoria de pessoas que irão responder de forma positiva a argumentos e evidências racionais. Em segundo lugar, essa minoria, embora modesta em termos numéricos, tem grande influência. Uma das pessoas dessa minoria foi, por exemplo, C. S. Lewis. Pense no impacto que a conversão desse homem continua a ter até hoje! De qualquer modo, a conclusão geral de que a apologética não é eficaz no evangelismo simplesmente não é verdade. Lee Strobel já perdeu a conta das pessoas que aceitaram a Cristo depois de terem lidos seus livros, The Case for Christ [Em defesa de Cristo] e The Case for Faith [Em defesa da fé]. Sem dúvida muitas pessoas entregam suas vidas a Jesus através de apresentações do evangelho combinadas com apologética. Quando a apologética é apresentada de forma convincente e, com sensibilidade, combinada à apresentação do evangelho e a um testemunho pessoal, o Espírito de Deus fica feliz em usá-la para trazer pessoas a Cristo. Pretendo que este curso seja uma espécie de manual a fim de prepará-1o para cumprir o mandamento de 1 Pedro 3.15· Portanto, é um curso para ser estudado, e não apenas lido. Você encontrará nele vários argumentos. Dessa forma você já estará de antemão preparado para as possíveis perguntas que encontrará quando for compartilhar sua fé. Por exemplo, suponhamos que nosso argumento fosse o seguinte: 1. Todos os homens são mortais. 2. Sócrates é homem. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 15 3· Logo, Sócrates é mortal. Esse é um argumento que chamamos de logicamente válido. Isso equivale a dizer que, se os passos 1 e 2 são verdadeiros, então o passo 3, a conclusão, também é. A lógica é uma expressão da mente de Deus (Jo 1.1). Ela descreve como um ser supremamente racional raciocina. Existem somente cerca de nove regras básicas de lógica. Desde que você as siga, elas garantem a você que, se os passos do seu argumento forem verdadeiros, a conclusão também será. Dizemos, então, que dos passos do argumento se segue logicamente a verdade da conclusão. Você pode, então, se perguntar: Os passos 1 e 2 do argumento apresentado são verdadeiros? Em apoio ao passo 1, podemos apresentar evidências médicas e cientificas em favor do fato de que todo homem é mortal. Em apoio ao passo 2, podemos nos basear em evidências históricas para provar que Sócrates foi homem. Ao longo desse processo, podemos considerar quaisquer objeções aos passos 1 e 2 e respondê-las. Por exemplo, alguém pode negar o passo 2 por acreditar que Sócrates não passava de uma figura mítica, que não existiu de fato. Nesse caso, teremos que demonstrar porque as evidências sugerem que essa crença é equivocada. Os passos 1 e 2 de um argumento são chamados premissas. Se você seguir as regras da lógica e suas premissas forem verdadeiras, então sua conclusão necessariamente será verdadeira também. Ora, um cético convicto pode refutar qualquer conclusão simplesmente refutando uma de suas premissas. Você não tem como forçar alguém a aceitar a conclusão se ele estiver disposto a pagar o preço de rejeitar uma das premissas. No entanto, o que você pode fazer é aumentar o preço de se rejeitar a conclusão, fornecendo sólidas evidências da verdade das premissas. Por exemplo, a pessoa que rejeitar a segunda premissa do argumento apresentado estará abraçando um ceticismo em relação à história que a vasta maioria dos historiadores profissionais acharia infundado. Assim, essa pessoa até pode refutar a segunda premissa se quiser, mas pagará o preço de parecer um maluco. E além disso dificilmente ela poderá chamar de irracional alguém que de fato aceite a segunda premissa como verdadeira. Portanto, ao apresentar nossos argumentos apologéticos para determinada conclusão, nosso objetivo é aumentar o máximo possível o preço de alguém negar sua conclusão. Nosso objetivo é ajudar um incrédulo a ver o que lhe custará em termos intelectuais a refutação da conclusão. Mesmo que ele esteja disposto a pagar o preço, ele no mínimo terá que admitir que nós não somos obrigados a pagá-lo, e com isso pode ser que ele pare de ridicularizar os cristãos, acusando-os de serem irracionais ou de não ter razão para crerem naquilo que professam. E caso ele não esteja disposto a pagar o preço, pode ser então que ele venha a mudar de ideia e aceite a conclusão que apresentamos. As razões para a necessidade de defender a fé INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 16 Há muitas boas razões para fazer apologética. Primeiro de tudo, Deus nos ordena a fazê-lo. Em segundo lugar, a razão exige isso. Terceiro, o mundo precisa dela. Em quarto lugar, os resultados confirmam isso. Deus ordena o Uso da Razão A razão mais importante para se fazer apologética é que Deus nos disse para fazê-lo. Mais e mais o Novo Testamento exorta-nos a defender a fé. 1 Pedro 3.15 diz: “Mas em seus corações reconheçam Cristo como o Senhor santo. Estejam sempre preparados para dar uma resposta a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que vocês tem.” Este versículo diz várias coisas importantes. Primeiro, ele diz que devemos estar preparados. Nós podemos nunca se deparar com alguém que faz as perguntas difíceis sobre a nossa fé, mas ainda devemos estar prontos para esse caso. Mas estar preparado não é apenas uma questão de ter as informações corretas disponíveis, é também uma atitude de disponibilidade e vontade de partilhar com os outros a verdade daquilo em que acreditamos. Segundo, devemos dar uma razão para aqueles que fazem as perguntas (Cl. 4.5-6). Não se espera que cada um precise de pré-evangelismo, mas quando alguém precisar dele, temos de ser capazes e dispostos a dar-lhes uma resposta. Finalmente, isso conecta o pré-evangelismo com fazer de Jesus Cristo o Senhor em nossos corações. Se Ele é realmente Deus, então devemos ser obedientes a Ele “destruindo as especulações e cada sofisma que se levante contra o conhecimento de Deus, e... levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2 Coríntios. 10.5). Em outras palavras, devemos confrontar as questões em nossas próprias mentes e nas ideias expressas de outras pessoas que as estão impedindo de conhecer a Deus. É disso que se trata a apologética. Em Filipenses 1.7, Paulo fala de sua missão como sendo a de “defender e confirmar o evangelho”. Ele acrescentou, no versículo 16: “Estou posto aqui para a defesa do evangelho” (Fp 1.16). E fomos postos onde estamos para defendê-lo também. Judas 3 declara: “Amados, embora fazendo todo esforço para escrever-vos acerca da nossa comum salvação, senti a necessidade de escrever-vos para que batalhem diligentemente pela fé que de uma vez por todas entregue aos santos”. As pessoas para quem Judas escreveu estavam sendo assediadas por falsos mestres e ele precisava incentivá-los a proteger (literalmente, agonizar pela) fé conforme foi revelada através de Cristo. Judas faz uma declaração importante sobre qual deve ser nossa atitude ao fazer isso no versículo 22, quando diz, “tem piedade de alguns, que estão em dúvida.” Apologética, então, é uma forma de compaixão. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 17 Tito 1.9 torna o conhecimento das evidências cristãs um requisito para a liderança da igreja. Um ancião na igreja deve estar “retendo a palavra fiel, que está em conformidade com o ensino, para que ele seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina quanto para refutar quem a contradiz.” Em 2 Timóteo 2.24-25 Paulo declara que “ao servo do Senhor não convém contender, mas ser gentil para com todos, apto para ensinar, paciente quando injustiçado, corrigindo com mansidão os que estão na oposição, esperando que porventura Deus lhes conceda o arrependimento que leva ao conhecimento da verdade.” Qualquer pessoa tentando responder às perguntas dos descrentes serácertamente injustiçado e tentado a perder a paciência, mas o nosso objetivo final é que eles possam chegar ao conhecimento da verdade de que Jesus morreu pelos seus pecados. De fato, o comando para usar a razão faz parte do maior mandamento. Porque Jesus disse: “Amarás o Senhor teu Deus com todo seu coração e com toda tua alma e com toda tua mente. Este é o primeiro e maior mandamento” (Mt 22.37-38). A Razão o exige Deus nos criou com uma razão humana. Ela faz parte de Sua imagem em nós (Gn 1.27. Cl. 3.10). Na verdade, é através dela que somos distinguidos de “animais irracionais” (Judas 10). Deus convida-nos a usar nossa razão (Is 1.18) para discernir a verdade do erro (1 João 4.6), para determinar o certo do errado (Hebreus 5.14), e discernir um verdadeiro de um falso profeta (Deuteronômio 18.19- 22). Um princípio fundamental da razão é o de que nós devemos ter motivos suficientes para aquilo em que nós acreditamos. Uma crença não justificada é apenas isso - não- justificada. Tendo sido criados como criaturas racionais e não “animais irracionais” (Judas 10), espera-se de nós que usemos a razão que Deus nos deu. Sócrates disse: “A vida não examinada não vale a pena viver.” Da mesma forma, a fé não examinada não vale a pena ter. Portanto, cabe aos cristãos “dar uma razão para a sua esperança" (1Pd 3.15). Isso faz parte do grande comando de amar a Deus com toda nossa mente, assim como nossa alma e coração (Mt 22.36-37). O mundo precisa disso Muitas pessoas se recusam a acreditar sem alguma evidência, como de fato deveriam. Uma vez que Deus nos criou como seres racionais, Ele espera que vivamos racionalmente. Ele quer que olhemos antes de saltar. Isso não significa que não há espaço para a fé. Mas Deus quer nos dar um passo de fé na luz - à luz das provas. Ele não quer que saltemos no escuro. Nós deveríamos ter evidência de que algo é verdadeiro antes de colocarmos nossa fé naquilo. Por exemplo, nenhuma pessoa racional entra em um elevador a menos que tenha alguma razão para acreditar que ele vai segurá-la. Da mesma forma, nenhuma pessoa racional entra em um avião que INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 18 tem uma asa quebrada e fumaça saindo do final da cauda. Uma vez estabelecido isso, uma pessoa pode colocar sua fé nele. Assim, a pessoa racional vai querer alguma evidência de que Deus existe, antes que de colocar sua fé em Deus. Da mesma forma, os incrédulos racionais querem provas para a afirmação de que Jesus é o Filho de Deus antes de colocarem sua confiança nEle. Os resultados confirmam isso Há um pensamento equivocado comum entre muitos cristãos de que a apologética nunca ajuda a levar alguém a Cristo. Esta é uma grave deturpação dos fatos. 1. A conversão de Santo Agostinho Houve vários pontos de mudança racional na vida de Agostinho, antes de ele vir a Cristo. Primeiro, ele raciocinou seu caminho para fora do dualismo maniqueísta. Um ponto de mudança significativo aqui foi o sucesso de um jovem cristão debatedor chamado Helpidius sobre os maniqueus. Em segundo lugar, Agostinho raciocinou seu caminho para fora do ceticismo total, vendo a natureza autodestrutiva do mesmo. Em terceiro lugar, se não fosse por estudar Plotino, Agostinho nos informa que ele não teria sequer sido capaz de conceber um ser espiritual, e muito menos acreditar em um. 2. A conversão de Frank Morrison Este advogado cético decidiu refutar o Cristianismo mostrando que a ressurreição nunca ocorreu. A busca terminou com sua conversão e em um livro intitulado Who Moved the Stone? [Quem Moveu a Pedra?], cujo primeiro capítulo foi intitulado “O Livro que se recusava a ser escrito”! Mais recentemente, outro advogado incrédulo teve uma viagem semelhante. 3.A conversão de Simon Greenleaf Na virada do século, o professor de Direito em Harvard, que escreveu o livro sobre evidências legais, foi desafiado por alunos a aplicar as regras de evidências legais no Novo Testamento para ver se o seu testemunho teria valor em um tribunal. O resultado foi um livro intitulado The Testimony of the Evangelists [O Testemunho dos Evangelistas], na qual exprime a sua confiança nos documentos e nas verdades básicas da fé cristã. 4. Os resultados de Debates Muitas pessoas têm sido levadas em direção ou para dentro do cristianismo, como resultado dos debates que temos com ateus e céticos. Após um debate entre Craig e o filósofo da Universidade INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 19 de Berkley Michael Scriven sobre “O Cristianismo é crível?” a plateia da Universidade de Calgary votou 3 contra 1 a favor do cristianismo. O jornal do campus relatava: “Ateu não consegue converter os cristãos do Campus!” Após um debate de Craig sobre a racionalidade da crença no cristianismo com o chefe do departamento de filosofia da Universidade de Miami, a liderança cristã estudantil realizou uma reunião de acompanhamento. O professor ateu compareceu e manifestou dúvidas sobre a sua visão expressa no debate. Foi relatado que cerca de 14 pessoas que tinham assistido ao debate tomaram decisões para Cristo. Depois de um debate de Craig sobre a religião da Unificação do reverendo Moon na Northwestern University em Evanston, Illinois, uma moça Moonie fez algumas questões sobre o Cristianismo. Podia se ver que ela tinha sido convencida de que a Igreja da Unificação não estava ensinando a verdade. Depois de um tempo esta moça entregou sua vida a Cristo. Don Bly, informou que ele era ateu. Ele concordou em ler o livro de Frank Morrison. A evidência para a ressurreição de Cristo convenceu-o e ele entregou sua vida a Cristo. Ele posteriormente criou sua família para Cristo e tornou-se um líder de uma igreja ao sul de St. Louis. 5. Os resultados da leitura de escritos de caráter apologético Várias pessoas foram convertidas à crença de que Deus existe ou à crença em Cristo depois de ler livros apologéticos. Deus usou os seus argumentos como um instrumento para aproximar as pessoas a Cristo. O notável ex-ateu Francis Collins disse: “Após 28 anos como um crente, a Lei Moral ainda se destaca para mim como o mais forte sinal para Deus. Mais do que isso, ela aponta para um Deus que se preocupa com os seres humanos, e um Deus que é infinitamente bom e santo.” Um estudante universitário, escreveu: “Deus me enviou a ler o livro 'Eu não tenho fé suficiente para ser um ateu'... Abri o livro pensando que eu ia detoná-lo com o meu ponto de vista superior e a cerca de um quarto do caminho acabei pedindo perdão a Deus e o aceitando em meu coração. Tenho, desde então, crescido exponencialmente em Cristo, e pensei que em agradecê-lo por seu livro inspirador.” “Acabei de ler Why I Am a Christian [Porque eu sou um cristão], e fiquei encantado. Esse é talvez o mais poderoso e influente livro cristão que já li. Foi exatamente o que eu estava procurando. Forneceu as respostas para as barreiras que estavam me guardando contra a minha fé... Este livro pressionou o botão vermelho da bomba nuclear da minha fé.” Uma boa filosofia deve existir, se não por outro motivo, porque más filosofias precisam ser respondidas. A razão por que nós precisamos defender a verdadeira religião é porque existem religiões falsas. A razão pela qual precisamos levantar-se pelo cristianismo autêntico é que existem formas falsificadas do cristianismo. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 20 Uma apologética em favor da apologética O cristianismo está sob ataque hoje, e deve ser defendido. Há ataques internos, de cultos, seitas e heresias. E há ataques externos, por ateus, céticos e outras religiões. A disciplina que lida com uma defesa racional da fé cristã é chamada de apologética. As objeções à defesa da Fé: Bíblicas e extrabíblicas Muitas objeções têm sido oferecidas contra fazer apologética. Alguns tentam oferecer uma justificação bíblica. Outros são baseados no raciocínioextrabíblicos. Primeiro, vamos dar uma olhada nas que se baseiam em textos bíblicos. Objeções à Apologética de dentro da Bíblia 1. A Bíblia não precisa ser defendida Uma objeção para a apologética feita muitas vezes é a afirmação de que a Bíblia não precisa ser defendida, simplesmente precisa ser exposta. Hebreus 4.12 é frequentemente citado como evidência: “A Palavra de Deus é viva e poderosa...”. Diz-se que a Bíblia é como um leão; não precisa ser defendida, mas simplesmente solta. Um leão pode se defender. Várias coisas devem ser notadas como resposta a isso. Em primeiro lugar, isso nos leva a perguntar se a Bíblia é ou não a Palavra de Deus. É claro, a Palavra de Deus é suprema, e fala por si mesma. Mas, como sabemos que a Bíblia é a Palavra de Deus, e não o Alcorão, o Livro de Mórmon, ou algum outro livro? É preciso apelar para a evidência para determinar quais dos muitos livros em conflito realmente é a Palavra de Deus. Em segundo lugar, nenhum cristão aceitaria sem questionar se um muçulmano declarasse “o Alcorão é vivo e poderoso e mais penetrante que uma espada de dois gumes...”. Nós exigiríamos evidências. Da mesma forma, nenhum não-cristão deve aceitar a nossa alegação sem provas. Em terceiro lugar, a analogia do leão é enganosa. O rugido de um leão fala com autoridade apenas porque sabemos, a partir de um conhecimento prévio, o que um leão pode fazer. Sem os contos admiráveis sobre a ferocidade de um leão, seu rugido não teria o mesmo efeito de autoridade sobre nós. Da mesma forma, sem evidência para estabelecer o crédito à autoridade, não há nenhuma boa razão para se aceitar essa autoridade. 2. Jesus se recusou a fazer sinais para homens maus Alguns argumentam que Jesus repreendeu as pessoas que procuravam por sinais. Por isso, devemos estar contentes simplesmente com acreditar sem evidências. Na verdade, Jesus em uma INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 21 ocasião repreendeu buscadores de sinais. Ele disse: “Uma geração má e adúltera pede um milagre!” (Mateus 12.39 cf. Lucas 16.31). No entanto, isso não significa que Jesus não queria que as pessoas olhassem para a evidência antes de acreditarem, por muitas razões: Em primeiro lugar, nesta mesma passagem, Jesus ofereceu o milagre da Sua ressurreição como um sinal de quem Ele era, dizendo: “Mas nenhum lhe será dado, senão o sinal do profeta Jonas” (Mateus 12.39-40). Da mesma forma, Paulo deu muitas evidências para a ressurreição (em 1 Coríntios 15). E Lucas fala de “muitas provas incontestáveis” (Atos 1.3) da ressurreição. Em segundo lugar, quando João Batista perguntou se Ele era o Cristo, Jesus ofereceu milagres como prova, dizendo: “Ide e anunciai a João o que vedes e ouvis: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, e as boas novas são anunciadas aos pobres” (Mt 11.5). Ao responder aos escribas, Ele disse: “Mas, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar pecados. Ele disse ao paralítico: Eu te digo, levanta-te, toma o teu leito e vai para casa” (Mc 2.10-11). Nicodemos disse a Jesus: “Rabi, sabemos que és um Mestre vindo da parte de Deus. Pois ninguém poderia realizar os sinais miraculosos que estás fazendo, se Deus não fosse com ele” (João 3.2). Em terceiro lugar, Jesus se opunha à busca de sinais e a entreter as pessoas através de milagres. De fato, Ele se recusou a realizar um milagre para satisfazer a curiosidade do rei Herodes (Lc 23.8). Em outras ocasiões, Ele não fez milagres por causa da sua incredulidade (Mt 13.58), não desejando “lançar pérolas aos porcos”. O propósito dos milagres de Jesus foi apologético, ou seja, o de confirmar a sua mensagem (cf. Êx 4.1;. Jo 3.2;. Hb 2.3-4). Ele fez isso em grande abundância, pois “Jesus de Nazaré foi um homem aprovado por Deus entre vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus fez entre vocês por intermédio dele...” (Atos 2.22). 3. Paulo não teve sucesso com seu uso da razão no Areópago e, posteriormente, descartou essa abordagem Os opositores da apologética muitas vezes argumentam que Paulo não foi bem sucedido em sua tentativa de alcançar os pensadores no Areópago (Atos 17), que rejeitou o método e que, posteriormente, disse aos coríntios que ele queria “conhecer a Jesus e a Ele somente” (1 Co 2.2 ). No entanto, esta interpretação é baseada em um mal-entendido do texto. Primeiro, Paulo teve resultados no Areópago, pois algumas pessoas foram salvas, incluindo um filósofo. O texto diz claramente “Alguns homens se tornaram seguidores de Paulo e creram. Entre eles estava Dionísio, membro do Areópago, também uma mulher chamada Damaris, e uma série de outros” (Atos 17.34). INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 22 Segundo, em nenhum lugar, nem em Atos nem em 1 Coríntios, Paulo indica qualquer arrependimento ou pesar pelo que ele fez no Areópago. Esta é uma leitura no texto que simplesmente não está lá. Terceiro, a declaração de Paulo sobre pregar Jesus e Jesus comente não é uma mudança no conteúdo da pregação de Paulo. Isso é o que ele fazia em toda parte. Mesmo para os filósofos “ele pregava a Jesus e a ressurreição” (Atos 17.18, 31). Então, nesse texto, não há nada de original sobre aquilo que ele pregava, era simplesmente assim que ele fazia. Paulo adaptava o seu ponto de partida à situação da audiência. Com os pagãos em Listra, ele começou com um apelo à natureza (Atos 14) e terminou pregando Jesus a eles. Com os judeus, começou com o Antigo Testamento e direcionou-se para Cristo (Atos 17.2-3). Mas, com os pensadores gregos, Paulo começou com a criação e a razão para um Criador e depois falou de Seu Filho Jesus que morreu e ressuscitou (Atos 17.24). 4. Somente a fé, não a razão, pode agradar a Deus Hebreus 11.6 insiste que “sem fé é impossível agradar a Deus.” Isto parece argumentar contra a necessidade da razão. Na verdade, parece que pedir razões, em vez de simplesmente acreditar, desagradaria a Deus. Em resposta a este argumento contra a apologética, dois pontos importantes devem ser levantados. Antes de tudo, o texto não diz que com a razão é impossível agradar a Deus. Ele diz que sem fé não se pode agradar a Deus. Ele não elimina a razão acompanhando a fé ou uma fé racional. Em segundo lugar, Deus de fato nos convida a usar a nossa razão (1 Ped. 3.15). Na verdade, deu “claras” (Rm 1.20) e “convincentes provas” (Atos 1.3) de modo que não tenhamos de exercer uma fé cega. Em terceiro lugar, este texto de Hebreus não exclui a “evidência”, mas na verdade a pressupõe. Pois da fé é dito ser “a evidência” das coisas que não vemos (Hebreus 11.1). Por exemplo, a evidência de que alguém é uma testemunha confiável justifica minha crença no seu testemunho do que viu e eu não. Mesmo assim, nossa fé em “coisas que não vemos” (Hebreus 11.1) é justificado pelas provas que temos de que Deus existe, que é “claramente visto, a ser entendido a partir do que foi feito” (Rm 1.20). 5. Paulo disse que Deus não pode ser conhecido pela razão humana quando ele escreveu, “o mundo pela sua sabedoria não conheceu a Deus” (1 Co 1.21) No entanto, isso não pode significar que não há provas da existência de Deus, uma vez que Paulo declarou em Romanos que as provas da existência de Deus são tão “evidentes” que tornam o próprio pagão “indesculpável” (Rm 1.19-20). Além disso, o contexto de 1 Coríntios não é a existência INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 23 de Deus, mas seu plano de salvação através da cruz. Isso não pode ser conhecido por mera razão humana, mas apenas por revelação divina. Além disso, a “sabedoria” de que fala é “a sabedoria deste mundo” (v. 20), não a sabedoria de Deus. Paulo chamou um sofista de “argumentador deste mundo” (v. 20). Um sofista poderia argumentar só por argumentar. Isto não leva ninguém a Deus. Além disso, a referência de Paulo ao mundo como a sabedoria nãoconhecer a Deus não é uma referência à incapacidade do ser humano de conhecer a Deus através das provas que Ele tem revelado na criação (Rm 1.19-20) e consciência (Rm 2.12-15). Pelo contrário, é uma referência à depravada e louca rejeição do homem à mensagem da cruz. Finalmente, nesse mesmo livro de 1 Coríntios, Paulo dá a sua maior prova apologética da fé cristã - as testemunhas oculares da ressurreição de Cristo, que seu companheiro de Lucas chamou de “muitas provas incontestáveis” (Atos 1.3). De fato, embora o homem conheça claramente por meio da razão humana que Deus existe, no entanto, ele “suprime” ou “sufoca” essa verdade em injustiça (Romanos 1.18). Assim, é a presença de tais fortes evidências que o torna “indesculpáveis” (Rm 1.20). 6. O homem natural não pode entender as verdades espirituais Paulo insistiu que “o homem sem o Espírito não aceita as coisas que vêm do Espírito de Deus ...” (1 Co 2.14). Eles não podem sequer “conhecê-las”. Que uso, então, teria a apologética? Em resposta a este argumento contra a apologética, duas coisas devem ser observadas. Primeira, Paulo não diz que as pessoas naturais podem não perceber a verdade sobre Deus, mas apenas que eles não podem recebê-la. De fato, Paulo declarou enfaticamente que as verdades básicas sobre Deus são “claramente vistas” (Rm 1.20). O problema não é que os incrédulos não estão cientes da existência de Deus, mas que eles não querem aceitá-Lo por causa das consequências morais que isso teria na sua vida pecaminosa. Segunda, 1 Coríntios. 2.14 diz que eles não “conhecem” (gr. ginosko), o que pode significar “conhecer pela experiência.” Em outras palavras, eles conhecem a Deus em sua mente (Rm 1.19-20), mas não aceitaram a Ele em seu coração (Romanos 1.18). A Bíblia diz: “Diz o insensato em seu coração, Não há Deus” (Salmo 14.1). 7. Somente o Espírito Santo pode trazer alguém para Cristo A Bíblia diz que a salvação é uma obra do Espírito Santo. Só ele pode condenar, convencer e converter (João 16.8; Ef 2.1; Tito 3.5-7). Isto é certamente verdadeiro, e nenhum cristão ortodoxo nega isso. No entanto, duas coisas devem ser mantidas em mente. Primeiro, a Bíblia não ensina que o Espírito Santo vai sempre fazer isto aparte da razão e da evidência. Não é “ou o Espírito Santo ou a razão.” Pelo contrário, é o razoável Espírito Santo usando INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 24 uma boa razão para alcançar pessoas racionais. Deus é sempre a causa eficiente da salvação, mas os argumentos apologéticos podem ser uma causa instrumental usada pelo Espírito Santo para trazer uma pessoa para Cristo. Em segundo lugar, os apologistas não acreditam que a apologética salve alguém. Ela apenas fornece a evidência à luz da qual as pessoas podem tomar decisões racionais. Ela apenas fornece evidências de que o cristianismo é verdadeiro. A pessoa ainda deve pôr sua fé em Cristo para ser salva. A apologética só leva o “cavalo” para a água. Somente o Espírito Santo pode convencer-lhe a beber. 8. A apologética não é usada na Bíblia É argumentado que, se a apologética é bíblica, então por que não a vemos ser praticada na Bíblia? Há duas razões básicas para este mal-entendido. Em primeiro lugar, em grande parte, a Bíblia não foi escrita para os incrédulos, mas para os crentes. Uma vez que eles já acreditam em Deus, Cristo, etc., já estão convencidos de que estes são verdadeiros. Assim, a apologética é dirigida principalmente para aqueles que não creem, para que eles possam ter uma razão para acreditar. Em segundo lugar, ao contrário da alegação dos críticos, apologética é usada na Bíblia. 1) O primeiro capítulo do Gênesis confronta os relatos míticos da criação conhecidos naqueles dias. 2) os milagres de Moisés no Egito eram uma apologética que Deus estava falando através dele (Êx 4.1-9). 3) Elias fez apologética no Monte Carmelo, quando ele provou miraculosamente que o Senhor é o Deus verdadeiro, e não Baal (1 Reis 18). 4) Jesus estava constantemente envolvido em apologética, provando com sinais e maravilhas que Ele era o Filho de Deus (João 3.2, Atos 2.22). 5) O apóstolo Paulo fez apologética em Listra, quando ele deu provas da natureza para as nações que o Deus supremo do universo existiu e que a idolatria era errada (Atos 14). 6) O caso clássico da apologética no Novo Testamento é Atos 17, onde Paulo argumentou com os filósofos no Areópago. Ele não só apresentou evidências naturais de que Deus existe, mas também históricas de que Cristo é o Filho de Deus. Na verdade, ele citou pensadores pagãos em apoio da sua argumentação. Objeções à Apologética de fora da Bíblia Essas objeções contra a apologética são orientadas a mostrar a sua irracionalidade, inadequação ou inutilidade. Muitas vêm de um ponto de vista racionalista ou cético. Outros são fideístas, que negam que a razão deve ser utilizada para apoiar a fé de uma pessoa. 1. A razão humana não pode nos dizer nada sobre Deus. INSTITUTO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BEREANA 25 Alguns críticos afirmam que a razão humana não pode nos dar qualquer informação a respeito de Deus. Primeiro, isso diz que a razão não se aplica a questões sobre Deus. Mas essa declaração em si mesma é oferecida como uma declaração razoável sobre a questão de Deus. A fim de dizer que a razão não se aplica a Deus, é necessário aplicar a razão a Deus nessa declaração. Então, o raciocínio a respeito de Deus é inescapável. A razão não pode ser negada sem ser utilizada. Em segundo lugar, a razão puramente hipotética em si não nos diz nada sobre a existência de algo, inclusive Deus. Mas, uma vez que inegavelmente existe algo (por exemplo, eu existo), então a razão pode nos dizer muito sobre a existência, inclusive Deus. Por exemplo, se algo finito e contingente existe, então algo infinito e necessário deve existir (ou seja, Deus). E se Deus existe, então é falso que Ele não existe. E se Deus é um ser necessário, então Ele não pode deixar de existir. Além disso, se Deus é o Criador e nós somos criaturas, então não somos Deus. Da mesma forma, a razão nos informa que, se Deus é onipotente, então Ele não pode fazer uma pedra tão pesada que Ele não pode levantar. Pois, tudo o que Ele pode fazer, Ele pode levantar. 2. A razão é inútil em assuntos religiosos O Fideísmo argumenta que a razão não tem qualquer utilidade em questões que tratam de Deus. Deve-se simplesmente acreditar. Fé, não a razão, é o que Deus requer (Hebreus 11.6). Em resposta a isso, vários pontos podem ser levantados. Em primeiro lugar, mesmo do ponto de vista bíblico, Deus convida-nos a usar nossa razão (Isaías 1.18; 1 Pe 3.15; Mateus 22.36-37). Deus é um ser racional, e Ele nos criou como seres racionais. Deus não insultaria a razão que Ele nos deu pedindo-nos para ignorá-la em questões tão importantes como as nossas crenças sobre Ele. Em segundo lugar, esta posição é fideísta e é auto-refutadora. Pois, ou há uma razão para acreditarmos que não devemos raciocinar sobre Deus ou não há. Se houver, então ela derrota a si mesma usando a razão para dizer que não devemos usar a razão. Se o fideísmo não tem nenhuma razão para não usar a razão, então é uma posição irracional, em cujo caso não há nenhuma razão pela qual alguém deveria aceitar o fideísmo. Além disso, afirmar que a razão é apenas opcional para um fideísta não será suficiente. Pois, ou o fideísta oferece algum critério para quando devemos ser racionais e quando não devemos, ou então sua visão é simplesmente arbitrária. Se ele oferece alguns critérios racionais para quando devemos ser racionais, então ele tem uma base racional para seu ponto de vista, caso em que ele não é realmente um fideísta, no final das contas. A razão não é o tipo de coisa em que uma criatura racional pode optar por participar. Em virtude de ser racional por natureza, uma pessoa deve ser parte do discurso racional. E um discurso racional exige