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Defesa Sanitária e Saúde Única Prof. Drª Silvia Adriana Mayer Lentz Arboviroses e Zoonoses 1) West Nile Virus (Febre do Nilo Ocidental) 2) Virus da Encefalite Japonesa 3) Febre Amarela 4) Dengue, Chikungunya e Zika Toxoplasmose Descoberto a cerca de 100 anos na África e em S.Paulo (Splendore, 1908) Capaz de infectar todos os animais de sangue quente Desfecho clínico variável : alta mortalidade em marsupiais e cetáceos / transmissão transplacentária em animais de produção e humanos Toxoplasmose EPIDEMIOLOGIA Esta enfermidade acomete todos os vertebrados de sangue quente (mamíferos e aves), e seus hospedeiros definitivos são os membros da família dos Felídeos. O ciclo biológico do Toxoplasma gondii ocorre em duas fases distintas do parasito. A fase assexuada do protozoário que ocorre nos linfonodos e tecidos dos hospedeiros intermediários (homem), e a fase sexuada que ocorre no epitélio intestinal dos hospedeiros definitivos (felideos). Toxoplasmose Por este fato o T. gondii é considerado um parasito com ciclo heteroxeno, no qual os felídeos são considerados os hospedeiros definitivos ou completos e o homem e outros vertebrados homeotérmicos, os hospedeiros intermediários ou incompletos. Os hospedeiros suscetíveis podem adquirir o parasito através da ingestão de oocistos maduros contendo esporozoítos, que podem ser encontrados em água ou alimentos contaminados ou cistos contendo os bradizoítos em carne crua ou mal cozida. Toxoplasma gondii Taquizoítos - aguda Bradizoítos - crônica Oocistos - intestino de felinos não imunes Oocisto no ambiente - viáveis por até 18 meses Toxoplasmose Www.ulb.ac.be Wwwapacapas.com As formas de transmissão para os seres humanos são a ingestão de cistos em carnes mal cozidas, oocistos em água contaminada, ou na forma congênita. Toxoplasmose Oocisto Taquizoíto Bradizoíto Oocisto Oocisto Oocisto Oocisto Oocisto Oocisto Oocisto Oocisto Bradizoíto Taquizoíto Oocisto Bradizoíto Toxoplasma 1/3 da população mundial está infectada (de forma subclínica) Soroprevalência de 15-85% Toxoplasmose - risco Taquizoítos – presentes em tecidos e fluídos de todas as espécies na fase aguda Bradizoítos: presentes na carne, derivados e visceras – até 50% dos casos humanos são relacionados à essa exposição Oocisto é eliminado não esporulado – o contato direto com o gato geralmente não é de alto risco Porém: o oocisto no ambiente é de alto risco: 10 oocistos podem causar infecção x um gato excreta >100 milhões de oocistos A água também é uma importante via de transmissão. No ano de 2018, um surto de toxoplasmose em Santa Maria, RS, com disseminação do agente através da água de abastecimento, foi o maior já registrado no País, foram confirmados 569 casos em laboratório Toxoplasmose Gato - diarréia no jovem, assintomática, lesão ocular Www.veterinaryvision.com Humanos - Adquirida Aguda - febre Ocular - retinocoroidite, cegueira Meningoencefálica – imunodeprimidos Recrudescimento de infecções pré-existentes Toxoplasmose Www.pediatricneuro.com Www.cpl.yonsei.ac.kr Humanos - Congênita Aborto Prematuro Mal-formações Linfadenopatia Toxoplasmose Diagnóstico Detecção: Inoculação de material colhido de pacientes em camundongos ou PCR Pouco prático! Toxoplasmose Diagnóstico Animais -sorologia = exposição Humanos Sorologia - Imunofluorescência indireta, ELISA Toxoplasmose Toxoplasmose Diagnóstico Humano - adquirida - IgM, IgG em elevação (teste pareado) Humano congênita - IgM no recém-nascido, IgG elevada ou persistente IFI na fase aguda =1:1000 IFI crônico= 1:10-1:500 Mas para o diagnóstico da doença é preciso associar sintomas clínicos com a presença de variação de títulos de IgG (elevação ou redução), num período de duas a três semanas, ou a presença de anticorpos IgM Toxoplasmose Profilaxia Risco - gestante soronegativa Alimentos cozidos, saladas bem lavadas, evitar contato com fezes de gatos limpar a caixa de areia diariamente, higienização Alguns dados de resistência do oocisto Refrigeração – 54 meses;Congelado (-10ºC) – 106 dias; Oocisto – destruído a 60 ºC- 1-2 minutos Uma das formas de reduzir a infecção humana pelo T. gondii é destruir os cistos da carne cozinhando-a até uma temperatura de 67°C por 20’, com garantia de que o calor penetre igualmente no alimento. O congelamento à -13°C por 18 a 24hs, pode ser considerado um meio de destruição dos cistos. Tratamento em humanos O tratamento mais utilizado é a associação de sulfadiazina com a pirimetamina, mas estão disponíveis outras sulfonamidas (sulfamerazina, sulfametazina e sulfapirazina), além de clindamicina, dapsona e atovaquona, tanto para o tratamento de humanos como animais. Algumas confusões em relação a toxoplasmose Eliminar o gato por transmitir toxoplasmose... Pombos e suas fezes como risco para humanos... Sporothrix schenkii Fungo dimórfico: fase leveduriforme (37ºC) e filamentosa (27º) Ampla distribuição no ambiente Esporotricose Esporotricose Humano: ferimentos em jardins e hortas Mordedura e arranhadura de gatos doentes Contato de pele e mucosa com as lesões Veterinários! Penetração associada a ferimentos Gatos: associado a animais que saem de casa em época de reprodução Apresentação: forma cutânea é a mais comum, pode ser sistêmica Esporotricose Sinais no humano: Lesões pápulo-nodulares eritematosas no local da inoculação, evoluindo para úlceras Linfangite ascendente Raro: disseminação hematógena Esporotricose Diagnóstico: histopatológico, isolamento e identificação do fungo Tratamento:cetoconazol, itraconazol por até 4 semanas após o desaparecimento dos sinais clínicos Conduta: uso de luvas e avental descartável no tratamento de casos suspeitos, isolamento do animal, informação do proprietário imunodeprimido Esporotricose Bunyiaviridae Vírus helicoidal, com envelope 100 nm ssRNA Sobrevive no ambiente protegido da luz solar pos até 3 dias Destruído por desinfetantes Hantavirus Hantavirus Replicação no citoplasma Adquire envelope no complexo de Golgi Nas Américas, a hantavirose se manifesta sob diferentes formas, desde doença febril aguda inespecífica, até quadros pulmonares e cardiovasculares mais severos e característicos, podendo evoluir para a síndrome da angústia respiratória (SARA). Na América do Sul, foi observado importante comprometimento cardíaco, passando a ser denominada de síndrome cardiopulmonar por hantavírus (SCPH) - 16 UF (Brasil) Existem várias espécies de hantavírus. Dependendo da espécie, o vírus afeta órgãos diferentes: Os pulmões, causando a síndrome cardiopulmonar por hantavírus - SCPH (hantavírus cardiopulmonary syndrome, HCPS) - + patogênica Os rins, causando febre hemorrágica com síndrome renal (hemorrhagic fever with renal syndrome, HFRS) *Porém, muitos sintomas das duas infecções se sobrepõem. Hantavirus A taxa de letalidade média é de 46,5% e a maioria dos pacientes necessita de assistência hospitalar. Hantavirus Reservatório: roedores silvestres No roedor, a infecção pelo hantavírus é transmitida de forma horizontal e não é letal, o que o torna um reservatório por longo período, provavelmente por toda a vida.) Principais espécies roedores: Necromys lasiurus, Oligoryzomys nigripes, Utiaritensis, e Calomys callidus, Necromys lasiurus Existe uma especificidade vírus-roedor Eliminação prolongada pelas fezes, urina e saliva Hantavirus Oligoryzomys nigripes Reservatório do vírus Juquitiba, presente nas áreas de Mata Atlântica; Calomys callidus Variante Laguna Negra, detectadas em uma área de transição entre Cerrado e Floresta Amazônica Hantavirose Humano: infecção pela inalação aerossóis Trabalhador rural - grupo de risco Menos comum: escoriações, via conjuntival, da boca ou do nariz), por meio de mãos contaminadas com excretas de roedores; Há relato de transmissão humano-humano no âmbito hospitalar; Transmissão pessoa a pessoa, relatada, de forma esporádica, na Argentina e no Chile, sempre associadaao hantavírus Andes Hantavirose: patogenia Incubação: 14 dias (4-42) Fase febril: 3-5 dias Período de transmissibilidade: No homem é desconhecido. Estudos sugerem que o período de maior viremia seria alguns dias que antecedem o aparecimento dos sinais e sintomas. SINAIS CLÍNICOS Fase prodrômica: Pacientes iniciam com manifestações mais frequentes de febre, mialgias, dor dorsolombar, dor abdominal, astenia, cefaleia intensa e sintomas gastrointestinais como náuseas, vômitos e diarreia. Caso surja tosse seca, deve-se suspeitar da possibilidade de evolução para uma fase clínica mais severa, a cardiopulmonar. Fase que precede o aparecimento de sintomas de uma dada doença, na qual a maioria dos sinais clínicos são inespecíficos SINAIS CLÍNICOS Fase cardiopulmonar: início da tosse, que em geral é seca, mas, em alguns casos, pode ser produtiva, acompanhada por taquicardia, taquidispneia e hipoxemia. Tais manifestações podem ser seguidas por uma rápida evolução para edema pulmonar, hipotensão arterial e colapso circulatório. Hantavirose:patogenia Hantavirus tem afinidade por receptores presentes nas junções intercelulares do endotélio vascular do pulmão E nas plaquetas Extravasamento de líquido para interior de alvéolos e pleura. Trobocitopenia INSUFICIÊNCIA RESPIRATÓRIA, COMA ÓBITO Hantavirose - diagnóstico Sorologia ELISA-IgM - mais usado Cerca de 95% dos pacientes com SCPH têm IgM detectável em amostra de soro coletada no início dos sintomas, sendo, portanto, método efetivo para o diagnóstico de hantavirose Detecção do vírus RT-PCR - a partir de sangue ou tecido Imunohistoquímica - fragmento de tecidos (em casos de óbitos) A técnica ELISA-IgG, ainda que disponível na rede pública, é utilizada em estudos epidemiológicos para detectar infecção viral anterior em roedores ou em seres humanos Hantavirose - profilaxia Após a identificação de caso Notificação compulsória Busca ativa de pacientes Local provável de infecção - onde o paciente esteve nos últimos 42 dias Identificação de reservatório Limpeza do ambiente (lixo, entulhos, etc) Impedir acesso aos alimentos (rações, comidas) Vedar frestas Profilaxia: antirratização Galpões devem ser abertos e após varridos Profilaxia: limpeza Desratização peridomiciliar em casos específicos Desinfecção com hipoclorito 10% no foco Hantavirose - profilaxia Hantavirose - Tratamento Forma prodrômica/inespecífica O tratamento dos pacientes com formas leves da SCPH é sintomático. Hidratação, quando necessária, deve ser cuidadosa para evitar sobrecarga de volume. Leptospirose Doença infecciosa febril de início abrupto, cujo espectro clínico pode variar desde um processo inaparente até formas graves. Etiologia da Leptospirose: Bactéria helicoidal do gênero Leptospira Conhecidas 14 espécies patogênicas, com destaque para L. interrogans Mais de 200 sorovares identificados, cada um com hospedeiros preferenciais Qualquer sorovar pode causar diferentes formas clínicas No Brasil, os sorovares Icterohaemorrhagiae e Copenhageni estão ligados aos casos mais graves. Bactérias helicoidais móveis (0,1x6 a 12 µm) com extremidades em forma de gancho. Estruturalmente são Gram negativas, porém não se coram por essa coloração. Leptospira Classificação Sorovar Hospedeiro de manutenção Hospedeiro acidental Bratislava Suínos, equinos Cães Canicola Cães Suínos, bovinos Grippotyphosa Roedores Bovinos, suínos, equinos, cães Hardjo Bovinos Humanos Icterohaemorrhagiae Ratos Animais domésticos, humanos Pomona Suínos, bovinos Ovinos, equinos, cães No Brasil, a leptospirose é endêmica e se torna epidêmica em áreas urbanas durante períodos chuvosos, devido a enchentes, más condições sanitárias e alta infestação de roedores. Profissões como limpeza de esgotos, coleta de lixo e agricultura facilitam o contato com a bactéria. Leptospirose Sinônimos: Doença de Weil, Febre dos pântanos, Febre dos arrozais, porém estes termos mas devem ser evitados por causarem confusão Modo de Transmissão A infecção humana resulta da exposição direta ou indireta à urina de animais infectados. A penetração do microrganismo ocorre através da pele com presença de lesões, pele íntegra imersa por longos períodos em água contaminada ou através de mucosas. Penetração pela mucosa, pele com lesões ou em contato com a água por longo período Viabilidade em água alcalina por várias semanas ou meses www.mmicrobes-edu.org Modo de Transmissão Animais com leptospirúria prolongada e sem lesões = rato e outros roedores; outros animais, inclusive morcegos Ambiente - água, solo Alimentos www.murbanpoor.or.id Modo de Transmissão www.ceropath.org Ocupacional: contato com animais, plantações, lixo e esgoto População em geral: enchentes Modo de Transmissão Reservatórios: Animais sinantrópicos domésticos e selvagens, como roedores; Os principais são os roedores das espécies Rattus norvegicus (ratazana ou rato de esgoto), Rattus rattus (rato de telhado ou rato preto) e Mus musculus (camundongo). Esses animais não desenvolvem a doença quando infectados e albergam a leptospira nos rins, eliminando-a viva no meio ambiente e contaminando água, solo e alimentos. Outros reservatórios incluem caninos, suínos, bovinos, equinos, ovinos e caprinos. O homem é um hospedeiro acidental e terminal da doença. Rattus norvegicus é principal portador do sorovar Icterohaemorraghiae, altamente patogênico para humanos. Período de incubação: Varia de 1 a 30 dias (média entre 5 e 14 dias). Período de transmissibilidade Os animais infectados podem eliminar a leptospira através da urina durante meses, anos ou por toda a vida, segundo a espécie animal e o sorovar envolvido. Suscetibilidade e imunidade A suscetibilidade é geral. A imunidade adquirida pós-infecção é sorovar-específica, podendo um mesmo indivíduo apresentar a doença mais de uma vez se o agente etiológico de cada episódio pertencer a um sorovar diferente do(s) anterior(es) Doença nos animais www.microvet.arizona.edu Febre, icterícia, mastite, aborto, hemoglobinúria, retenção de placenta, animais fracos, uveíte (equino) David Barcellos Doença nos cães Cães:febre, mialgia, hemorragia, icterícia, vômito, diarréia; Causada principalmente pelos sorovares Canicola e Icterohaemorrhaghiae www.ispub.com Doença nos Humanos: Variam desde formas assintomáticas e subclínicas até quadros clínicos graves, associados a manifestações fulminantes. As apresentações clínicas da leptospirose são divididas em duas fases: fase precoce (fase leptospirêmica) e fase tardia (fase imune). Se adquirida durante gestação, a leptospirose pode provocar aborto, até mesmo durante o período de convalescença. Fase precoce: Caracteriza-se pela instalação abrupta de febre, comumente acompanhada de cefaleia, mialgia, anorexia, náuseas e vômitos. Corresponde de 85 a 90% das formas clínicas, mas poucos casos são identificados e notificados nessa fase da doença, em decorrência das dificuldades inerentes ao diagnóstico clínico e à confirmação laboratorial. Podem ocorrer diarreia, artralgia, hiperemia ou hemorragia conjuntival, fotofobia, dor ocular e tosse. Exantema ocorre em 10 a 20% dos pacientes e apresenta componentes de eritema macular, papular, urticariforme ou purpúrico, distribuídos no tronco ou região pré-tibial. *Em menos de 20% dos casos de leptospirose também podem ocorrer hepatomegalia, esplenomegalia e linfadenopatia. A fase precoce da leptospirose tende a ser autolimitada e regride entre 3 e 7 dias sem deixar sequelas. Costuma ser diagnosticada como uma "síndrome gripal", "virose" ou outras doenças que ocorrem na mesma época, como dengue ou influenza. Fase precoce: Fase tardia: ocorre em 15% dos pacientes com leptospirose Manifestações clínicas graves, que se iniciam após a primeira semana da doença; A manifestação clássica da leptospirose grave é a síndrome de Weil, caracterizada pela tríade de icterícia, insuficiência renal e hemorragia, maiscomumente pulmonar (síndrome de hemorragia pulmonar). A icterícia é considerada um sinal característico e apresenta uma tonalidade alaranjada muito intensa (icterícia rubínica) Letalidade: Brasil 9% Diagnóstico O método laboratorial de escolha depende da fase evolutiva em que se encontra o paciente. Na fase precoce, as leptospiras podem ser visualizadas no sangue por meio de exame direto, de cultura em meios apropriados, inoculação em animais de laboratório ou detecção do DNA do microrganismo pela técnica da reação em cadeia da polimerase (PCR). A cultura finaliza-se (positiva ou negativa) após algumas semanas, o que garante apenas um diagnóstico retrospectivo. Diagnóstico Detecção PCR (16SrRNA) Imunofluorescência Colorações Imunohistoquímica Na fase tardia, as leptospiras podem ser encontradas na urina, cultivadas ou inoculadas. Métodos sorológicos são prioritariamente escolhidos para o diagnóstico da leptospirose Ensaio imunoenzimático (ELISA-IgM) MAT: microaglutinação Estes exames devem ser realizados pelos Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacen) - Humanos Diagnóstico Tratamento Antibioticoterapia: penicilina, estreptomicina, tetraciclina As medidas terapêuticas de suporte devem ser iniciadas precocemente com o objetivo de evitar complicações, principalmente as renais, e óbito. Animais: risco de permanecer portador renal Acidificação da urina em cães Tratamento Profilaxia Vacinação: anual com bacterina, sorovar-específica; proteção contra a doença clínica Monitoramento de sorovares prevalentes = vacinação eficaz EPIs Saneamento Controle de roedores Antibioticoterapia: pós-exposição Doença de Notificação Compulsória: Arboviroses e Zoonoses