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10 Triagem auditiva em neonatos M ônica Cristina Andrade Weinstein Alessandra Spada Durante Triagem auditiva neonatal universal: estado atual Em 2 de agosto de 2010, a Lei n. 12.303/10 dispôs sobre a obrigatoriedade da realização do exame denominado emissões otoacústicas evocadas, tornando a triagem auditiva neonatal obrigatória e gratuita em todos os hospitais e maternidades brasileiros. No percurso dessa conquista, contabilizam-se os esforços multidisciplinares de uma geração de fonoaudiólogos, otorrinolaringologistas e pediatras brasileiros que culminaram na disseminação da prática da triagem auditiva neonatal universal em nosso país. Há uma década, o conceito de implementação de protocolos de triagem auditiva neonatal universal (TANU) era um tópico de debate bastante ativo. Os méritos da triagem fisiológica de todos os recém-nascidos eram contestados em função do potencial para encaminhamentos de falsos-positivos, do estresse que causava nos pais e na equipe multiprofissional envolvida, além dos custos extras nas unidades neonatais. Em favor da TANU, os proponentes argumentavam que a perda auditiva congênita afeta em média dois a cada 1.000 recém-nascidos e que a falta da identificação precoce tem tremendo impacto negativo no desenvolvimento comunicativo, social e emocional do indivíduo. Nos Estados Unidos, a identificação tardia de uma perda auditiva sensorioneural custa ao sistema educacional algo entre 38 e 240 mil dólares por criança da pré-escola ao ensino médio, em termos de intervenção de educação especial (Choo, 2010). Os resultados favoráveis dos programas pioneiros de TANU promoveram, em um curto período, sua implementação em diversos países, incluindo o Brasil. O número de lactentes identificados com perda auditiva congênita em algumas regiões do mundo dobrou, quando comparado aos dados pré-TANU. Ao longo da última década, o debate tem ocorrido em torno da seleção do melhor momento, equipe profissional, equipamento e sistema de banco de dados necessários para implementar a TANU com eficiência e efetividade. Recentemente, esforços têm sido dirigidos para o desafio de reduzir as taxas de não aderência aos programas de acompanhamento dos lactentes que falharam na triagem. Em muitos casos, esse índice atinge 40%. Quem triar e por quê? Embora a incidência da deficiência auditiva seja notadamente maior nos recém-nascidos com indicadores de risco, a triagem auditiva deve ser feita em todos eles, porque se realizada somente naqueles com indicadores de risco, seriam identificados apenas 50% dos deficientes auditivos. Metade das deficiências auditivas diagnosticadas é de causa idiopática. A triagem universal refere-se à triagem de pelo menos 95% dos recém-nascidos de um determinado serviço. Recomendações Com o crescente aumento do número de programas de triagem auditiva neonatal (TAN), o Joint Committee on Infant Hearing (JCIH) (2000-2007) teve a preocupação de traçar oito princípios para controlar a efetividade dos programas. São destacados: a garantia ao acesso à triagem auditiva por medida fisiológica a todos os nascimentos, ao diagnóstico (até 3 meses de idade), à intervenção (até 6 meses de idade) precoce e ao monitoramento auditivo, respeitando os direitos da criança e da família, assegurados por sigilo, escolha informada, decisão e consentimento na prática da lei. Além disso, estipula que os programas de TAN devem prover dados para monitorar a qualidade, demonstrar condescendência com a legislação e regulamentação, determinar custo efetivo, mobilizar e manter suporte na comunidade. Para atingir os parâmetros de qualidade no programa de TAN, é crucial um rígido controle do banco de dados mensalmente, ressaltando o controle dos retestes, avaliação diagnóstica, intervenção e monitoramento audiológico (Tabela 1). No encontro do Newborn Hearing Screening (NHS), realizado em junho de 2010, na Itália, foram destacadas as premissas de padronização de banco de dados e minimização de dados incompletos como requisitos fundamentais para atingir as metas preconizadas pela legislação do programa de detecção e intervenção precoce da perda auditiva (EHDI) (Gaffney et al., 2010). Na maioria dos hospitais brasileiros, a TANU é realizada por meio das emissões otoacústicas evocadas (EOA). Caso o hospital disponha também do equipamento para a realização do exame de potenciais evocados auditivos de tronco encefálico (PEATE), recomenda-se que esse teste seja realizado nos lactentes com indicadores de risco auditivo. O registro do PEATE na intensidade de 35 dB NA permite a identificação da perda auditiva neural nos neonatos. Um modelo de protocolo da TAN pode ser visualizado na Figura 1. Figura 1 Algoritmo da TANU IRDA: indicadores de risco para deficiência auditiva. Aurélio e Tochetto (2010) lembram que a implementação de programas de TAN, tanto em países desenvolvidos quanto nos em desenvolvimento, esbarra em obstáculos, tais como: falta de ambiente adequado para a realização dos testes, poucos profissionais competentes e preparados para tal tarefa, escassez de profissionais que realizem a TAN nos fins de semana, carência de serviços para seguimento e controle e, principalmente, pouca dos à criança surda, tanto por parte dos profissionais, quanto por parte da população em geral. Essa situação dificulta o processo de universalização da TAN e acarreta elevado número de desistências antes da realização de todas as etapas necessárias. Leitura recomendada American Academy of Pediatrics (AAP). Year 2007 position statement: principles and Guidelines for early hearing detection and intervention programs. Pediatrics. 2007; 120(4):898-921. Disponível em: http://www.jcih.org/posstatemts.htm. American Speech-Language-Hearing Association (ASHA). Guidelines for the audiologic assessment of children from birth through 36 months of age. Disponível em: http://www.asha.org/docs/html/GL2004-00002.html. Acessado em: nov. 2010. Azevedo MF. Emissões otoacústicas. In: Figueiredo MS. Conhecimentos essenciais para entender bem emissões otoacústicas e BERA. São José dos Campos: Pulso, 2003. p.35-83. Azevedo M F, Vieira RM, Vilanova LCP. Desenvolvimento auditivo de crianças normais e de alto risco. São Paulo, Plexus, 1995. Bassetto MCA, Ramos CC. Estruturação de um serviço de fonoaudiologia em berçário. In: Andrade CRF. Fonoaudiologia em berçário normal e de risco. V.I. São Paulo: Lovise, 1996. p.269-80. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção a Saúde. Departamento de Atenção Especializada. Manual de normas técnicas e rotinas operacionais do programa nacional de triagem neonatal. Brasília; 2002. Disponível em: www.saude.gov.br. Acessado em 20 out. 2010. Center for Disease Control and Prevention’s Early Hearing Detection and Intervention (EHDI). National goals, program objectives, and performance measures for the early hearing detection and intervention (EHDI) tracking and surveillance sy stem. Disponível em: http://www.cdc.gov/ncbddd/hearingloss/documents/goals.pdf. Acessado em: nov. 2010. Chermak GD, Musiek FE. Managing central auditory processing disorders in children and y outh. Am J Audiology. 1992; 61-5. Costa SA, Azevedo MF, Fukuda Y. Reflexões teóricas sobre a habilidade de localização sonora em crianças. Temas sobre Desenvolvimento. 2003:12-8. Costa SA, Gentile C, Pinto ALPG et al. Roteiro de diagnóstico e acompanhamento do desenvolvimento de crianças de 0 a 36 meses de idade. Pro-Fono. 1992:9-16. Gatanu – Grupo de Apoio a Triagem Auditiva Universal. Disponível em: http://www.gatanu.org. Acessado em: 23 nov. 2010. Gaffeney M, Hostrum WF, Mason C. Reporting EHDI Data: past, present and future. In: Books of abstracts NHS 2010 – Bey ond newborn hearing screening infant and childhood hearing in science and clinical practice. Cernobbio. Italy : Como Lake, 2010. p.3. Hodgson WR. Testing infants and young children. In: Kats J. Handbook of clinical audiology. 3.ed. Baltimore: Williams and Wilkins, 1985. p.642-63. Joint Committee on Infant Hearing (JCIH). Position statement– 2000. American Academy of Audiology ; 2000. Disponível em: http://www.jcih.org/posstatemts.htm. National Institutes of Health (NIH). Consensus statement. Early identification of hearing impairment in infant and young children. NIH, 1993. p.1-23. Northern JL, Downs MP. Development of auditory behavior. Hearing in children. 4.ed. Baltimore: Williams and Wilkins, 1991. Pinheiro MMC, Azevedo MF, Vieira MM, Gomes M. 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Anex o A Indicadores de risco associados com perda auditiva na infância: permanente, congênita, de manifestação tardia (“§”) ou progressiva: • suspeita familiar § de atraso no desenvolvimento de linguagem, fala ou audição; • história familiar § de perda auditiva permanente na infância; • cuidados intensivos em unidade neonatal por mais de cinco dias ou qualquer um dos motivos seguintes, independentemente da duração da estada: ECMO, § ventilação assistida, exposição a medicações ototóxicas (gentimicina e tobramicina) ou diuréticos de alça (furosemida/lasix), e hiperbilirrubinemia em níveis de exsanguíneotransfusão; • infecções intraútero como citomegalovírus§, herpes, rubéola, sífilis e toxoplasmose; • anomalias craniofaciais, incluindo aquelas de pavilhão e conduto auditivo (verruga e pinta), e anomalias de osso temporal; • achados físicos, como mecha branca, que são associados a síndromes com perda auditiva sensorio-neural ou condutiva permanente; • síndromes associadas à perda auditiva progressiva ou de manifestação tardia, como § neurofibromatose, osteopetroses e síndrome de Usher; outras síndromes frequentemente identificadas, incluindo: Waardenburg, Alport, Pendred e Jervell e Lange-Nielson; • desordens neurodegenerativas,§ como síndrome de Hunter, ou neuropatias sensoriomotoras, como ataxia de Friedreich e síndrome de Charcot-Marie; • infecções pós-natais, com cultura positiva, associadas com perda auditiva sensorioneural § incluindo meningite bacteriana e viral (especialmente por herpes e varicela); • trauma cranioencefálico; especialmente fratura do osso temporal § que requeira hospitalização; • quimioterapia §. Anex o B Metas para a detecção e intervenção precoce da perda auditiva. EHDI (Centers for Disease Control and Prevention – CDC): • meta 1: todos os recém-nascidos devem ser triados para perda auditiva antes de um mês de vida, preferencialmente antes da alta hospitalar; • meta 2: todos os lactentes com triagem positiva devem ter uma avaliação audiológica diagnóstica antes dos três meses de vida; • meta 3: todos os lactentes identificados com perda auditiva receberão intervenção precoce adequada antes do sexto mês de vida (médica, audiológica e intervenção); • meta 4: todos os lactentes e crianças com perda auditiva de manifestação tardia, progressiva ou adquirida serão identificados o quanto antes; • meta 5: todos os lactentes com perda auditiva receberão atendimento domiciliar como definido pela Academia Americana de Pediatria; • meta 6: todo estado terá um sistema de controle e vigilância de dados do programa de identificação e intervenção precoce na audição (EHDI) que minimizará perdas ao acompanhamento; • meta 7: todo estado terá um sistema global que avaliará e monitorará o progresso junto aos objetivos e metas do programa de identificação e intervenção precoce na audição (EHDI).