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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIENCIAS SOCIAIS APLICADAS / CCSA DEPARTAMENTO DE SERVIÇO SOCIAL CADYDJA LAYANY FREIRE DESAFIOS E PERSPECTIVAS DO TRABALHO DO SERVIÇO SOCIAL NO HOSPITAL DE PEDIATRIA DA UFRN E A DISCUSSÃO EM TORNO DA EBSERH. NATAL/RN 2013 Cadydja Layany Freire DESAFIOS E PERSPECTIVAS DO TRABALHO DO SERVIÇO SOCIAL NO HOSPITAL DE PEDIATRIA DA UFRN E A DISCUSSÃO EM TORNO DA EBSERH. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Serviço Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como requisito para obtenção de título de Bacharel em Serviço Social. Orientadora: Profª. Josivânia Estelita Gomes de Sousa NATAL/RN 2013 Cadydja Layany Freire DESAFIOS E PERSPECTIVAS DO TRABALHO DO SERVICO SOCIAL NO HOSPITAL DE PEDIATRIA DA UFRN E A DISCUSSÃO EM TORNO DA EBSERH. Trabalho de conclusão de Curso apresentado ao Curso de Serviço Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como requisito para obtenção de título de Bacharel em Serviço Social. Aprovada em ___/____/____ BANCA EXAMINADORA _____________________________________________________ Profª Josivânia Estelita Gomes de Sousa - UFRN (Orientadora) ____________________________________________________ Msª Jussara Keilla Batista do Nascimento (Assistente Social) ___________________________________________________ Prof°Esp. Fernando Gomes Teixeira - UFRN Dedico este trabalho ao meu Deus, por me proporcionar uma vida maravilhosa, e me dá forças todos os dias para continuar seguindo em frente, diante de todas as adversidades que me são apresentadas. Ao meu noivo, que nunca me deixou só nos momentos mais difíceis e felizes da minha vida. Você é tudo, ou melhor, muito mais, que um dia eu sonhei para mim A toda minha família, que sempre acreditou em mim, e me deram a base de tudo o que sou hoje. Espero nunca decepcionar vocês!! Aos meus amigos, que são as melhores pessoas que existem no mundo!! AGRADECIMENTOS Me lembro, como se fosse hoje, o dia que passei no vestibular, foi um dos dias mais felizes da minha vida. Quatro anos depois, estou concluindo essa etapa, e cheia de expectativas para meu futuro profissional. Agradeço a Deus, por isso, assim como pela oportunidade maravilhosa de viver, de ser feliz e de conhecer pessoas lindas e especiais. Agradeço a minha mãe, por sempre ter me apoiado e me proporcionado um leal e verdadeiro amor, minha única e especial avó por ter me mimado e me dado todo o carinho e amor que uma pessoa pode ter. Vocês são extremamente importantes para mim, obrigado por sempre terem acreditado em meu potencial. Agradeço de todo o meu coração a pessoa que me faz feliz todos os dias, que é meu companheiro por quase 5 anos, meu melhor amigo, meu amor, Josué Lucas. Meu lindo, não sei o que faria sem seu apoio nos momentos mais difíceis, sem sua compreensão. Obrigada por me fazer rir quando tive vontade de chorar, não tenho palavras suficientes para agradecer toda sua paciência, seu carinho e amor. Tenho sorte de ter você, meu presente de Deus. Aos meus amigos queridos que me proporcionaram e continuam proporcionando momentos maravilhosos e inesquecíveis. Minha amiga mega competente Priscila Monick, que foi a primeira pessoa a me falar dessa profissão tão bela, ao qual escolhi, assim como esteve ao meu lado, me apoiando e me incentivando, sempre com muita calma e compreensão. Te admiro e tenho muito orgulho de ser sua amiga, muito obrigada por tudo. No ano de 2008 conheci essa pessoa que veio a se tornar tão importante para mim, minha madrinha de casamento, Luciana. Você é uma pessoa incrível e abençoada, com a qual passei, e continuo passando momentos super divertidos e agradáveis. Bruninha, minha amiga que tanto gosto, a pessoa mais meiga e carinhosa que existe. Clarissa, sempre divertida e companheira, que tanto me incentiva a vencer desafios, obrigada pelo seu carinho. Tenho muito orgulho de sua capacidade e inteligência. Edvane, que é a pessoa mais forte que conheço na vida, eu tenho fé que Deus vai te dá todo o conforto que você merece, neste momento difícil. Espero um dia ver você feliz novamente, assim ficarei feliz também. Kallyne, pela amizade e carinho. Ao longo do curso, conheci pessoas excepcionais, inteligentes e amorosas. Karla Rafaella, companheira de trabalhos desde o primeiro período (e minha primeira amiga no Curso). Larissa Andrade, que me cativou desde o primeiro momento que a conheci. Thaysi Cruz, que é sempre “do contra” e implicante (risos), porém uma pessoa batalhadora e divertida. Tallyta Pereira, nunca esquecerei dos momentos engraçados e divertidos, e do seu sorriso contagiante que me alegrava todas as manhãs. Vocês alegraram meus dias durante esses 4 anos! Amigas divertidas e especiais, Geilza Justino, Sheyla Priscila (minha querida “chata” de todos os dias rsrs), Thauana Silva, Paula Oliveira, Ana Patrícia, Karla Katielle, Angélica Monte, Amanda Paiva, Thaysa Diógenes, Rafaella Lemos. Vocês são demais, e cada uma tem um espaço em meu coração!! Laércia Brenda e Milena Monteiro, minhas companheiras de vício por seriados, o curso acabou, mas o carinho por vocês não. Renata Leão e Priscila Henriques, pessoas muito competentes que tive o prazer de conhecer melhor e de passar momentos alegres, apreensivos e de desabafos. Que nossa amizade continue, independente de Comissão de Formatura. Minha companheira de estágio, Nicolle, meus sinceros agradecimentos pelas conversas significativas, e pelos momentos de descontração, durante esse processo tal enriquecedor, você será uma ótima profissional, tenho certeza disto. Minha supervisora de estágio, Thélia Paiva, que foi e será sempre meu exemplo de profissional. Muito obrigada pelos conhecimentos repassados e por ter me proporcionado um estágio de muito aprendizado. Quero agradecer também as minhas queridas professoras e orientadoras de estágio I e II, Jussara Nascimento e Josivânia Estelita. Josivânia, tive muita sorte de ter você como orientadora de TCC, você é a competência em pessoa e não sei como você consegue dá conta de tudo, com tanta eficiência. Jussara meus agradecimentos pelas orientações e interesse em nos proporcionar um estágio de qualidade, você foi nota 10! Prof. Fernando que sempre muito gentil e interessado aceitou de imediato meu convite para participar de minha banca. Parabéns a vocês três por serem mestres competentes e compromissados com a profissão!!! Obrigada pessoas maravilhosas que tanto admiro e amo! Cadydja Freire “A saúde é um elemento potencial de consenso, a forma de distribuição desse direito consensual é que é o motivo de dissenso” AROUCA RESUMO O presente trabalho realiza um estudo sobre o Serviço Social na área da Saúde, mais especificadamente no Hospital de Pediatria Professor Heriberto Ferreira Bezerra (HOSPED), que está sob a gestão temporária da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), até passar a ser administrado pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH). Sobre tal questão, a leitura ainda apresenta uma breve discussão sobre as consequências aos hospitais universitários. O estudo tem como objetivos: apreender acerca do trabalho profissional do Serviço Social na área da saúde, seus desafios e perspectivas em um hospital2007). Como a profissão emerge socialmente na direção dos preceitos estabelecidos pela igreja católica, sua ação era voltada para o assistencialismo, de forma caritativa. Passou a ser visualizada como o ofício “das moças boazinhas”, que desejam fazer o bem e ajudar as pessoas. Como a origem da profissão está intimamente ligada à igreja, seus pressupostos permaneceriam por muito tempo na intervenção dos profissionais. Terá particular destaque na estruturação do perfil da emergente profissão no país a Igreja Católica, responsável pelo ideário, pelos conteúdos e pelo processo de formação dos primeiros assistentes sociais brasileiros. Cabe ainda assinalar, que nesse momento, a questão social é vista a partir de forte influência do pensamento social da Igreja, que a trata como questão moral, como um conjunto de problemas sob a responsabilidade individual dos sujeitos que os vivenciam, embora situados dentro de relações capitalistas. Tratasse de um enfoque individualista, psicologizante e moralizador da questão, que necessita para seu enfrentamento de uma pedagogia psicossocial, que encontrará no Serviço Social efetivas possibilidades de desenvolvimento (YASBEK Apud PIANA, 2009, p. 87). A atuação juntos às famílias estava voltada para a ação disciplinadora de comportamentos junto aos indivíduos sociais, numa perspectiva de controle social da classe trabalhadora pela ordem burguesa. Por muito tempo o conservadorismo e o tradicionalismo 24 predominaram na profissão no Brasil, e o “estigma” passou a ser, em um processo lento, superado com a contribuição do movimento de reconceituação, no ano de 1965. Contudo, a ruptura com o conservadorismo só aconteceria na perspectiva de intenção de rompimento de tais padrões. (NETTO, 2001). A profissão no Brasil é fortemente marcada pelos ideais europeus e, mais tarde, pelos americanos, a partir de uma aproximação com as escolas de Serviço Social da América Latina. Assim, a atuação é influenciada pelo positivismo, funcionalismo e fenomenologia. Abordando e trabalhando nas áreas de estudos de caso, de grupo e de comunidade, bem como outras metodologias, adotadas com o decorrer dos anos. Com a institucionalização da profissão pelo estado, o profissional vai trabalhar na mediação das questões sociais desenvolvidas no capitalismo. A intervenção profissional é, geralmente, ocasionada pelos serviços sociais prestados através de meios institucionais com os quais se relaciona o assistente social por meio de um contrato de trabalho. (IAMAMOTO e CARVALHO, 2005). Um dos marcos iniciais da intervenção da categoria foi no Centro de Estudos e Ação Social (CEAS) que tinha como intuito, promover a formação de seus membros pelo estudo da doutrina social da igreja. Percebemos aqui a forte influência dos pressupostos da igreja na profissão: acreditava-se que somente com a “ordem social” os problemas seriam resolvidos, e para isso, era necessária a prática caritativa da sociedade. (IAMAMOTO e CARVALHO, 2005). A partir dos anos 1980, a categoria passou a construir o projeto ético-político da profissão, como também começou a construir novas bases teóricas, metodológicas e práticas que dariam sustentação a princípios e diretrizes profissionais direcionados para a justiça social, defesa da democracia e se articulando publicamente a classe trabalhadora e a defesa dos seus direitos. (BRAVO, 2007). O Serviço Social, juntamente com os movimentos sociais e outras categorias profissionais, passou a exigir respostas mais eficientes do estado para o trato de tantas desigualdades sociais observadas no país. Portanto, em uma conjuntura de mudanças e de lutas, o tradicionalismo presente na profissão foi, aos poucos, posto de lado, o que deu lugar à uma categoria propositiva e com claro objetivo de justiça social. Com o passar dos anos esse cenário profissional sofreu profundas alterações, e o que era apenas um trabalho voltado para “amenizar” os conflitos sociais, veio a se consolidar 25 como uma profissão comprometida com os interesses da classe trabalhadora, participando e defendendo diariamente os direitos humanos e sociais da população. Apesar do rompimento com o tradicionalismo, décadas depois, ainda se percebia certa dificuldade em compreender o real trabalho do assistente social, no sentido de saber quais são as funções a atribuições do mesmo, seja pela população, ou até mesmo por outras categorias profissionais. Tais ações geram consequências graves para a atuação da profissão, já que frequentemente são postas atividades que não são próprias da classe. Esta é uma problemática grave, perpassada atualmente pela ocupação em seus campos. Baseado nessa premissa que se justifica a necessidade de conhecer profundamente o Código de Ética, para que a atuação esteja centrada na defesa não só dos interesses dos usuários, como também na defesa do próprio direito como profissional graduado e legitimado socialmente. Na área da saúde, este quadro é bastante comum, conforme abordagem a seguir. O Serviço social começa a dar os primeiros passos na área da saúde por volta da década de 1940, quando sua intervenção perpassa a execução pragmática das políticas públicas para outros campos ocupacionais. É interessante notar que o estado ampliou suas linhas de atenção à população nas áreas mais diversas, tendo em vista o acirramento cada vez maior das questões sociais. Contudo, as ações tomadas pelo estado não advinham de “preocupação”, mas sim como uma forma de “apaziguar” os conflitos sociais. (BRAVO, 2007). A política de saúde sempre foi uma das mais difíceis de acessos no país – não que as outras políticas não possuam dificuldades, elas possuem e muitas –, como visualizado no capítulo anterior. Nesta área, o trabalho desenvolvido pelo Serviço social também está inserido no conflito dos interesses sociais do estado, do mercado privatista e da classe trabalhadora, como se fosse um elo de mediação entre as três bases da sociedade. Com o golpe militar, o espaço de atuação para o assistente social foi restringido, principalmente, à execução de políticas sociais e dos programas de desenvolvimento de comunidade. A atuação, neste período, foi bastante tensionada pela conjuntura política da época. O processo de renovação do Serviço social chegou tardiamente no Brasil, e a primeira direção foi a perspectiva modernizadora, que se ajustou à conjuntura política da ditadura, propiciando assim pouca ou nenhuma alteração no fazer profissional na saúde (BRAVO, 2007). Bravo (1996) ressalta que as ações permaneceram burocratizadas e baseadas na seletividade. É o que podemos perceber no seguinte trecho: 26 Durante a década de 60, o Serviço Social não questiona a origem da questão social nas instituições, tendo como meta o controle sobre o comportamento do trabalhador. Responsabilizando-o pelo seu estado de saúde. O surgimento da vertente “intenção de ruptura”, proveniente do processo de renovação do Serviço Social ocorrido entre 1965-1975 após o processo de laicização da profissão, não abala durante a década de 70 a vertente “modernizadora” que norteia as ações na saúde. (RIBEIRO, 2008, p.08) O projeto de reforma sanitária, em 1970, passou a emergir em confronto na sociedade, porém foi perdendo espaço para o projeto do mercado privatista, e o embate entre esses dois projetos atualmente continuam em debates. O estado ainda não adquiriu autonomia plena diante do mercado, tendo em vista que, quase sempre, está a favorecer os interesses dos setores privados, e os grandes interesses do capital. (CFESS, 2010). Com o fim da repressão imposta pelo golpe militar, e com o país vivendo uma relativa democratização, a profissão do assistente social começou a avançar em seu processo de renovação, surgindo então a perspectiva de intenção de ruptura, que emergiu de dentro da academia. Com um cenário favorável, talprobabilidade proporcionou debates fervorosos entre os membros da categoria para a construção de uma ocupação com direção crítica acerca da realidade social e seu compromisso com a classe trabalhadora. (NETTO, 2001) No processo de ruptura com o conservadorismo, o Serviço Social passou a tratar o campo das políticas sociais, não mais no campo relacional demanda da população carente e oferta do sistema capitalista, mas acima de tudo como meio de acesso aos direitos sociais e à defesa da democracia. Dessa forma, não se trata apenas de operacionalizar as políticas sociais, embora importante, mas faz-se necessário conhecer as contradições da sociedade capitalista, da questão social e suas expressões que desafiam cotidianamente os assistentes sociais, pensar as políticas sociais como respostas a situações indignas de vida da população pobre e com isso compreender a mediação que as políticas sociais representam no processo de trabalho do profissional, ao deparar-se com as demandas da população. (PIANA, 2009, p.86) É nessa transição que se percebe um amadurecimento teórico da categoria, resultado dos diversos questionamentos dos profissionais de Serviço social nos fóruns e seminários sobre o papel da profissão, e diante de toda a conjuntura política e social daquela época. Com o crescimento dos movimentos sociais, o setor de assistência social, a população e várias classes profissionais passaram a reivindicar a viabilização de direitos e um Estado que tivesse obrigação de responder tais demandas. (NETTO, 1991). No ano de 1990, o projeto ético-político estava em desenvolvimento, bem como a contrarreforma do estado, privatizando empresas públicas e influenciando uma atuação 27 estatal voltada para prover os serviços mínimos para a população. Este é o lema da política neoliberal, e tais ações influenciaram no campo de trabalho, tendo em vista que proporcionaram empregos precarizados, baixos salários, entre outras problemáticas. Fica difícil garantir os direitos dos usuários, por exemplo, quando não há uma sala adequada para o atendimento, onde não se possa resguardar o sigilo profissional. (BRAVO, 2007). O Estado passou, então, a responsabilidade de atender as expressões das questões sociais para o terceiro setor, e todas estas mudanças repercutiram na intervenção profissional. Tal ação é só uma das muitas maneiras de o estado isentar-se da sua responsabilidade para com tais ações. (MONTANO, 2002). Atualmente, o campo da saúde é um grande requisitador da profissão do assistente social e, apesar de mudanças ocorridas, muitos desafios e obstáculos ainda rondam a sua rotina. Um exemplo está no desvio de função dentro das unidades de saúde, crescimento de demandas e número de profissionais deficientes para atender estes usuários, bem como uma relativa perda de autonomia – mais notável no setor privado. Nesse sentido, também se espera do profissional que Mais do que nunca, os assistentes sociais estão desafiados a encarar a defesa da democracia, das políticas públicas e consubstanciar um trabalho – no cotidiano e na articulação com outros sujeitos que partilhem destes princípios – que questione as perspectivas neoliberais para a saúde e para as políticas sociais, já que este macula direitos e conquistas da população defendidos pelo projeto ético-político profissional (CFESS, 2010, p. 31). Muitos são os desafios encontrados para a intervenção do assistente social nesse campo, no entanto muitas conquistas já foram efetivadas. Atualmente um grande leque de profissionais está voltado para a defesa da profissão nos espaços sócio-ocupacionais, bem como participa ativamente dos fóruns de discussões que ocorrem no país acerca da defesa da categoria. No âmbito da saúde, espera-se que o assistente social deve: Estar articulado e sintonizado aos movimentos dos trabalhadores e de usuários que lutam pela real efetivação do SUS; Conhecer as reais condições de vida e trabalho dos usuários, bem como os determinantes sociais que interferem no processo saúde-doença; facilitar o acesso de todo e qualquer usuário aos serviços de saúde da instituição e da rede de serviços e direitos sociais, bem como de forma compromissada e criativa não submeter à operacionalização do seu trabalho aos rearranjos propostos pelo governo que descaracterizam a proposta original do SUS de direito, ou seja, contido no projeto de reforma sanitária; buscar a necessária atuação em equipe, tendo em vista a interdisciplinaridade da atenção em saúde; tentar construir e/ou efetivar, conjuntamente com outros trabalhadores de saúde, espaços nas 28 unidades que garantam a participação popular dos trabalhadores de saúde nas decisões a serem tomadas (CFESS, 2010). No cotidiano, o profissional tem que lidar não somente com empregadores – e todas as dificuldades inerentes dessa relação, tais como falta de autonomia, restrição de direitos –, mas também, muitas vezes, ele precisa reafirmar aos usuários os seus direitos, que mesmo básicos, não sabem que lhes possuem, muito menos que o estado é responsável pelo provimento de tais. Nessas situações temos: - a ignorância por parte dos usuários e dos próprios profissionais do que é garantido como direito do cidadão e dever do Estado; - a focalização das políticas dificultando a crítica, a organização e o controle social porque atinge exatamente o “não-cidadão” --- o miserável ou mais pobre, o menos culto, o completamente despolitizado, etc. - o direito do cidadão, frequentemente, é enfrentado e discutido de forma fragmentada, direito do paciente, direito à renda mínima, direito à habitação, etc. --- levando a uma discussão do direito do indivíduo, em separado, e à negação do direito do cidadão e/ou dos direitos nas suas inter-relações, conexões e interdependência (VASCONCELOS, 2007, p. 23). É importante frisar que a ignorância por parte da população só beneficia o estado, numa relação em que é possível questionar: como podemos garantir e defender os direitos dos usuários, se eles nem ao menos sabem que tem? A resposta é objetiva: não há como. Justamente nessa perspectiva entra o trabalho do Serviço social, que é não só de garantir, mas orientar, explicar, mostrar ao usuário que ele possui direitos segurados pela lei, e que tais podem ser exigidos. Passamos então, a partir de agora a conhecer o trabalho executado pelas assistentes sociais do Hosped, um trabalho nada fácil, mas que diante de tantas problemáticas envolvendo os campos de atuação atualmente, pode-se dizer que a intervenção, neste espaço, consiste na defesa dos interesses dos cidadãos, um trabalho de muita responsabilidade e dedicação. Não se sabe ao certo quando o Serviço social se estabeleceu na instituição. Quando inaugurado o prédio, o setor era instalado em uma sala muito pequena, e voltava-se basicamente para atender os acompanhantes das crianças, que já apresentavam dificuldades, uma vez que a rede sócio-assistencial ainda não estava em pleno desenvolvimento (FREIRE e SILVA, 2012). Presentemente há três profissionais em atuação na unidade: duas no setor da enfermaria e uma no ambulatório. Na enfermaria, que foi realizado o meu estágio curricular obrigatório, 29 as assistentes possuem uma jornada de trabalho que se estendia de segunda a sexta-feira, das 8h ás 17:30h, sendo uma para o turno da manhã e outra para o turno da tarde. No ambulatório, o horário é mais reduzido, tendo em vista que após as 16h não há mais consultas, portanto, não há mais usuários. Quanto ao vínculo empregatício, somente uma delas não é concursada, sendo terceirizada. Esta foi aprovada em um processo seletivo organizado pela Fundação Norte Riograndense de Pesquisa e Cultura (FUNPEC) e encontra-se em atividade na instituição há quase dois anos. As outras profissionais trabalham no hospital há mais de dez anos. O Serviço Social tem como algumasde suas funções: realizar entrevista social e arquivá-la em arquivo próprio, mantendo o caráter sigiloso dos dados do usuário; informar e esclarecer os usuários sobre o TFD/SESAP; encaminhar ao INSS o formulário do BPC, quando necessário; emitir declaração ao STTU para o usuário do HOSPED que dela necessite, solicitando a gratuidade nos transportes coletivos; fornecer formulário para pedido de medicação na UNICAT, quando encaminhado pelo médico; realizar comunicação via telefone ou ofício com outras instituições sociais de Natal, municípios do RN e outros Estados do Brasil, quando necessário (Prefeituras, Secretarias, Promotorias, Hospitais, SOS, Conselho Tutelar, entre outros); viabilizar junto às instituições responsáveis, a documentação da criança ou adolescente (Registro de nascimento, RG e CPF), sempre que necessário, facilitando assim a continuidade do serviço (FREIRE e SILVA, 2012, p. 16). A sala do Serviço social da enfermaria fica próximo à entrada do hospital, mas anteriormente ficava um pouco mais recolhida. Entretanto, vale considerar a importância de que a sala fique visível, uma vez que todos os usuários são atendidos por este setor, logo quando dão entrada no hospital. Há dois anos a sala foi transferida para um local próximo a recepção, um espaço pequeno, mas com boa estrutura, incluindo ar condicionado, armário de arquivos, mesa, computador e cadeiras. É importante afirmar que tal estrutura é somente adequada para uma profissional, sem condições para que duas encarregadas atuem simultaneamente ali. Também não há lugar para o atendimento em grupo, como no caso de acompanhantes. Para isto o Serviço Social – além das outras áreas – utiliza outro local, que fica localizado no primeiro andar. A rotina profissional na enfermaria consiste em prestar atendimento às diversas expressões da questão social apresentadas diariamente por acompanhantes no Hosped. Inúmeras são as problemáticas, e maior ainda é o desafio de oferecer às famílias que procuram o serviço um trabalho que realmente possa auxiliá-los a alcançar seus direitos. 30 A humanização é uma característica bem visível no hospital, não apenas no trabalho do Serviço Social, mas nas outras especialidades. Percebi durante minha estadia na instituição que o atendimento de qualidade e comprometido com o bem estar da criança é tido como prioridade. Continua sendo necessário esta relação tanto ou mais que este ambiente. Porém, humanizar não é simplesmente implantar normas ou técnicas que possa ser aplicadas, indistintamente. Humanizar é resgatar a preocupação com a necessidade, uma maneira de entender o sofrimento dos pacientes e familiares. Em outras palavras, é colocar-se no lugar. É ainda desenvolver estratégias para lidar com eventuais, como a perda da autonomia, medo de sentir dor, falta de privacidade, solidão, fantasia de morte, falta de respostas. Os pacientes precisam de aparelhos, tubos, monitores. Mas também necessitam de uma medicina de atenção e carinho. (CORTES, 2005, p.57) Um exemplo: caso a criança esteja envolvida em alguma problemática social de negligência ou suspeita de abuso, os médicos não dão alta medida, mesmo que a criança não esteja mais enferma. É conhecido que isso precisa ser visto como um dever de todo profissional, e não como ato de caridade, pois as crianças têm seus direitos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente, e são puníveis qualquer ato ou ação que negligenciem atendimento e possa prejudicar de alguma forma o adolescente e a criança. Neste sentido, a garantia de prioridade compreende: a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias; b)precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública; c) preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas; d) destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e à juventude. Art. 5º Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais. (BRASIL, 1990). É comum observar o que se conhece como “alta a pedido”, quando o usuário pede alta, mesmo quando não autorizado pelos médicos. Todas estas questões recaem sobre o Serviço Social, que tem a missão de conversar com o(a) acompanhante da criança para saber o que motivou o pedido. Alguns motivos são a desinformação quanto ao tratamento e procedimentos, aspectos culturais e religiosos, necessidade de sobrevivência/manutenção familiar, além da demanda das mães de cuidados com os filhos, com a casa. (CFESS, 2010). 31 Quando este fato acontece, as assistentes sociais conversam com o(a) acompanhante da criança para tentar encontrar uma solução para a situação, e este trabalho é feito com a colaboração de outros profissionais, tais como psicólogos, enfermeiros e médicos. Quando realmente se esgotam todas as possibilidades, e o(a) acompanhante não mudou sua decisão, lhe é avisado que o Serviço Social comunicará o fato ao Conselho Tutelar da respectiva região de moradia, bem como o(a) acompanhante assinará um termo de compromisso, no qual se declara totalmente responsável pelas consequências de sua decisão de alta. É preciso salientar que, em muitas situações, o(a) acompanhante volta atrás na decisão. Acerca desta demanda posta para o Serviço Social, observamos: A alta a pedido também é uma situação que recai sobre a equipe e, muitas vezes, sobre o profissional de Serviço social. Algumas reflexões são importantes sobre o significado da alta e da autonomia do usuário no serviço de saúde e que procedimentos a equipe deve adotar coletivamente. O usuário, na condição de sujeito protagonista da sua história, deve ser autônomo para decidir sobre os rumos do tratamento de saúde a ser adotado e a que procedimentos deve ser submetido. No caso de solicitação de alta, o usuário deverá ser abordado pela equipe de saúde. (CFESS, 2010, p. 48) No que se refere à internação da criança no hospital, a família muitas vezes já vem encaminhada do próprio ambulatório do hospital e se apresenta na recepção, onde realiza todos os procedimentos relativos ao internamento e é conduzida para a sala do Serviço Social, onde será feita entrevista social, instrumento bastante usado no ofício. Os instrumentais mais utilizados pelas profissionais são o estudo de caso, a observação participante, o livro de anotações dos atendimentos e o relatório social. Acerca da importância desses recursos para a rotina profissional, verificamos que (...) foi dito que a instrumentalidade é uma propriedade e/ou capacidade que a profissão vai adquirindo na medida em que concretiza objetivos. Ela possibilita que os profissionais objetivem sua intencionalidade em respostas profissionais. É por meio desta capacidade, adquirida no exercício profissional, que os assistentes sociais modificam, transformam, alteram as condições objetivas e subjetivas e as relações interpessoais e sociais existentes num determinado nível da realidade social: no nível do cotidiano. Ao alterarem o cotidiano profissional e o cotidiano das classes sociais que demandam a sua intervenção, modificando as condições, os meios e os instrumentos existentes, e os convertendo em condições, meios e instrumentos para o alcance dos objetivos profissionais, os assistentes sociais estão dando instrumentalidade às suas ações (GUERRA, 2000. p. 02) 32 A maioria das informações sobre a família da criança é obtida mediante a entrevista social, na qual são aplicadas perguntas acerca das condições de moradia, renda, escolarização, trabalho, benefícios sócioassistenciais, entre outras esferas. A investigação é elaborada pela profissional da enfermaria, quandofoi trabalhar na instituição, e utilizou como base em outros questionários de sua ocupação anterior, bem como na percepção e experiência pessoal. Sobre a entrevista social, temos que A entrevista nada mais é do que um diálogo, um processo de comunicação direta entre o Assistente Social e um usuário (entrevista individual), ou mais de um (entrevista grupal). Contudo, o que diferencia a entrevista de um diálogo comum é o fato de existir um entrevistador e um entrevistado, isto é, o Assistente Social ocupa um papel diferente –e, sob determinado ponto de vista, desigual – do papel do usuário. O papel do profissional entrevistador é dado pela instituição que o contrata – no momento da interação com o usuário, o Assistente Social fala em nome da instituição. Ambos os sujeitos (Assistente Social e usuário) possuem objetivos com a realização da entrevista – objetivos esses necessariamente diferentes. Mas o papel de entrevistador que cabe ao Assistente Social coloca-lhe a tarefa de conduzir o diálogo, de direcionar para os objetivos que se pretendem alcançar. (SOUSA, 2008, p. 08). As profissionais também utilizam o prontuário para fazer anotações sobre a família e o(a) paciente, de forma que todos da equipe tem acesso aos dados obtidos. Somente o estritamente necessário é escrito, exercendo assim o sigilo profissional. É importante salientar também que todas as informações dos usuários contidas no questionário ficam guardadas na sala dos responsáveis, sem o acesso das outras equipes. O Serviço Social da enfermaria funciona 12 horas diárias, e cada profissional trabalha numa jornada de seis horas diárias, conforme previsto por lei. Porém, em diversas vezes, observei que a demanda não se restringe somente a essa carga, a exemplo de muitas assistentes em seus campos de trabalho, que frequentemente levam tarefas para casa. Desse modo, fica evidente que apenas um encarregado por turno torna-se insuficiente. Outro problema apontado reside no plantão do hospital, uma vez que o Serviço Social precisa atender as demandas que acontecem no turno da noite, e uma vez que acompanhantes de adolescentes, principalmente, que só podem ficar no período noturno – em razão de trabalho, tarefas domésticas ou/e outros filhos –, e que também proporcionaria a existência de residência em Serviço Social, medida que traria benefícios para a unidade, bem como a oportunidade de experiência profissional para os recém-formados em cursos de graduação. 33 No hospital existe residência nas mais diversas áreas, a saber: farmácia, medicina, odontologia, psicologia, entre outras. Nesta última, por exemplo, com as residentes a equipe consegue atender melhor as demandas apresentadas, pois as tarefas são divididas. O mesmo não acontece com o Serviço Social. Outra possibilidade está na contratação de um número maior de profissionais. Contudo, este aspecto é uma realidade mais distante para a instituição neste momento, tendo em vista que ela está em processo de transição na gestão, e passará a ser administrada pela EBSERH 5 . O Serviço Social do HOSPED lida com diversas expressões da questão social na assistência a famílias que apresentam condições precárias de sobrevivência. Algumas, por exemplo, vivem em condições extremas de pobreza e não são beneficiadas por programas sociais, como o “Bolsa Família”. Em casos assim será emitida uma declaração de encaminhamento para o Centro de Referência de Assistência Social mais próximo à moradia da família, bem como estas pessoas serão orientadas acerca de benefícios sociais desconhecidos por elas. Ao Serviço Social também chegam muitos casos de Tratamento Fora de Domicilio 6 (TFD), mesmo não sendo uma tarefa de sua responsabilidade o preenchimento dos papéis burocráticos relacionados. Entretanto, cabe ao encarregado a missão de orientar o usuário para que ele possa procurar tal programa, disponibilizado pela Secretaria Estadual de Saúde. Sendo assim, em muitas situações, a assistente social media o contato com outras profissionais dos referidos hospitais para onde a criança é encaminhada, de modo que possa ser realizado um trabalho em conjunto no atendimento, da melhor forma possível. A principal ação nessas situações é conseguir um lugar para as famílias se instalarem, uma vez que o programa não cobre estadia. Há uma ajuda de custo para as famílias, que muitas vezes provém do interior, mas mesmo assim é complicado se manter com tal auxílio em uma cidade desconhecida. Outro tipo de demanda que ocorre com frequência é o de suspeita ou confirmação de abuso sexual contra crianças e adolescentes, como também os casos de negligência. Em muitas situações, a assistente social conversa com a família para tentar verificar o nível das 5 Tal empresa será o foco do terceiro capítulo. 6 O Tratamento Fora de Domicílio – TFD, instituído pela Portaria SAS nº 55/1999, é o instrumento legal que viabiliza o encaminhamento de pacientes portadores de doenças não tratáveis em seu município/estado de origem a outros municípios/estados que realizem o tratamento necessário (Portal da Saúde, 2013). 34 relações familiares entre os envolvidos, sempre com perguntas elaboradas minuciosamente, de forma que a individualidade de cada um seja respeitada, como segue a ética profissional. Em casos de negligência, bem como suspeita ou confirmação de abuso, o Conselho Tutelar é imediatamente comunicado, já que este órgão é importante na defesa dos direitos da criança e do adolescente. Há, entretanto, conselhos que não são bem preparados para lidar com algumas situações, que usam do senso comum e opiniões próprias acerca de algo. Por outro lado, existem conselhos atuantes em suas funções, realizando um trabalho de proteção e defesa dos direitos diretamente relacionados com os princípios do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Destaca-se aqui a importância do aperfeiçoamento profissional dos conselheiros, como também a conscientização da prefeitura em proporcionar um ambiente com condições dignas de trabalho. Acerca de algumas das atribuições do Conselho Tutelar, temos: Art. 136º São atribuições dos Conselhos Tutelares: I - atender as crianças e adolescentes nas hipóteses previstas nos arts. 98 e 105, aplicando as medidas previstas no art. 101, I a VII; II - atender e aconselhar os pais ou responsável, aplicando as medidas previstas no art. 129, I a VII; III - promover a execução de suas decisões, podendo para tanto: a) requisitar serviços públicos nas áreas de saúde, educação, serviço social, previdência, trabalho e segurança; b) representar junto à autoridade judiciária nos casos de descumprimento injustificado de suas deliberações. IV - encaminhar ao Ministério Público notícia de fato que constitua infração administrativa ou penal contra os direitos da criança ou adolescente; V - encaminhar à autoridade judiciária os casos de sua competência; (BRASIL, 1990). A autonomia profissional do Serviço Social do HOSPED é evidente. No entanto, em determinadas situações não se pode garantir que todas as necessidades sejam atendidas, pois irá depender também do trabalho dos outros profissionais e das redes. A direção do Hosped propicia autonomia aos profissionais, e em casos muitos complexos, é realizado um estudo de caso, onde profissionais de diversas especialidades se reúnem para discutir os possíveis encaminhamentos para a situação. A atuação multiprofissional é outra característica do hospital. Há casos que envolvem mais de uma especialidade médica, como pediatria, psicologia, odontologia e nutrição, 35 especialmente os que envolvem negligência e suspeita ou confirmação de abuso sexual. A participação do assistente social é de suma importância nesse contexto, pois geralmente existem dificuldades de profissionais da saúde na compreensãodos aspectos sociais que envolvem família. O Serviço Social se destaca neste processo em virtude da ação crítica afastada do tecnicismo. (...) a sua participação na equipe permite compreender o paciente além da sua doença, como vive e como ele e sua doença se relacionam com o mundo, estabelecendo uma relação interativa entre o corpo, mente e sociedade. (NASCIMENTO-SCHUILZE, 1997, p. 227) O assistente social não realiza seu trabalho de forma isolada, ele interage com uma grande equipe de trabalho em qualquer área de sua atuação, assim sua inserção na área de trabalho é parte de um conjunto de especialidades que são acionadas como um todo para a realização dos fins das instituições empregadoras sejam empresas ou instituições governamentais. (IAMAMOTO, 1998, p. 63) É importante esclarecer que o trabalho do Serviço Social em conjunto com a psicologia também é voltado para a família, não somente para as necessidades expressas no ambiente hospitalar. É a partir desse núcleo que os profissionais podem entender melhor as problemáticas pelas quais a criança vive em seu domicílio, ou seja, analisando a totalidade daquela situação e articulando com as diversas formas que proporcionem o bem-estar e a garantia de seus direitos. A família possui um papel fundamental na formação físico-moral- emocional e espiritual do ser humano. A família é o lócus onde há o encontro das gerações e dos gêneros, onde se aprende a arte da convivência e a prática da tolerância, e entre suas funções pode-se relacionar a promoção e a transmissão de valores, a construção da identidade do indivíduo e o apoio emocional e afetivo aos seus membros. (ÁLVARES e FILHO, 2008, p. 08). Um problema perceptível o longo do estágio reside no déficit muito grande, em relação aos acompanhantes, no que se refere ao conhecimento dos seus direitos. Nesse sentido, o trabalho da assistente social é reforçado, mas ainda há lacunas, tendo em vista a quantidade de demanda para poucas profissionais. Uma das principais demandas postas para o Serviço Social do HOSPED está na busca por orientação para um determinado problema. Os usuários, mas precisamente, os acompanhantes, necessitam de informações e orientações quanto á serviços sócios assistenciais e conhecimento acerca de seus direitos. O principal instrumento utilizado na captação de informações sobre 36 os usuários é a entrevista social, com ela conhecemos o perfil social e econômico das famílias, bem como, é revelado várias problemáticas da situação da família.Assim, a atuação do Serviço Social está centrada na captação dessas demandas, para que possa propor possíveis soluções. Muitas vezes, estas problemáticas não são ditas pelos acompanhantes, por isso a experiência e a percepção dos profissionais são de suma importância, já que consiste em identificar fatos que não são explicitados pelos usuários. (FREIRE e SILVA, 2013, p.07) Tendo em vista tal problemática apresentada, meu projeto de intervenção 7 estava centrado na perspectiva de divulgação de informações sobre os direitos dos acompanhantes. Destacamos desse modo, que o trabalho do serviço social está focado na defesa e garantia dos direitos, e por isso precisa relacionar-se diretamente com os documentos normativos da profissão. No próximo tópico será discutido um pouco mais sobre o Serviço Social do HOSPED e a sua relação com o Código de Ética e o Projeto Ético-Político da profissão. 3.2 – A relação do trabalho do Serviço Social com o Código de Ética (1993) e o Projeto Ético-Político da Profissão Com o processo de renovação do Serviço Social no decorrer da história do país, a categoria chegou ao Código de Ética de 1993, que representou avanços no que se diz respeito à defesa da democracia e intensificou a íntima relação da profissão com a luta pelos direitos e busca por uma sociabilidade igualitária. Construído ao longo dos anos 1990, período de ênfase neoliberal no mercado e na sociedade, da supressão dos direitos básicos, aconteceram retrocessos no que se refere aos direitos mínimos de educação, saúde e moradia, entre outros. O Código é resultado do debate gerado pela categoria acerca dos caminhos seguidos pela profissão, como também o esclarecimento da direção profissional a ser seguida. Ele supera com todo o funcionalismo e pragmatismo presente na categoria da profissão na década de 1930 e torna-se um importante meio de legitimação da profissão. (...) As mudanças ocorridas na profissão foram embasadas na necessidade de acompanhar as transformações econômicas, políticas e sociais da realidade brasileira. Desta forma, o Código de Ética de 1993 é ímpar na adesão e identificação da categoria. Assim sendo, esse último código de ética representa a direção dos compromissos assumidos pelo Serviço social nas últimas décadas do seu percurso histórico, o projeto ético-político 7 Pelo menos, duas vezes por semana, passávamos em duas enfermarias distintas falando um pouco sobre os serviços dos CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), TFD, DISQUE DENÚNCIA, CONSELHO TUTELAR, entre outros. Bem como, distribuindo cartilhas. (FREIRE e SILVA, 2012). 37 hegemônico, pode-se nele observar claramente uma perspectiva crítica à ordem econômica-social estabelecida e a defesa dos direitos dos trabalhadores. (FARIAS, 2012, p. 07). O Código de Ética da profissão é um instrumento de suma importância para o trabalho do Serviço Social em qualquer área e em qualquer esfera. Neste Código constam não só os deveres do setor, como também os direitos como profissionais liberais e assalariados. O Código possui onze princípios fundamentais, nos quais baseiam a direção profissional que o assistente social deverá seguir em sua intervenção diária. (...) A aprovação do atual Código de Ética, em 1993, representa um marco para a categoria, pois, afirma não só um conjunto de normas, mas um novo perfil profissional, cuja direção social, fundamentada sob a Teoria Social Crítica, possibilita o enfrentamento de antigas e novas expressões da questão social através da utilização de estratégias que ampliem os limites impostos à cidadania e democratizem as políticas públicas e seu acesso diante do padrão de acumulação vigente e do modelo de proteção que lhe é inerente. (FREIRE e SILVA, 2012, p. 05) Conhecer o Código de Ética é fundamental, tendo em vista que o documento oferece base para a atuação nas expressões da questão social apresentadas no campo de trabalho, assim como propicia reivindicar os direitos frente às instituições empregadoras para que a atividade seja legitimada e respeitada, tendo em vista que as condições de trabalho influenciam as formas de responder as necessidades e demandas sociais dos usuários. O assistente social não pode oferecer uma resposta qualificada à situação de vulnerabilidade social em que um determinado indivíduo se encontra, sem a disposição de um telefone, uma impressora e um computador – para que sejam feitos os encaminhamentos necessários, que se possam procurar endereços, telefones das redes sócioassistenciais. Enfim, tudo isso finda na base de materialização profissional. Assim temos: Obedecer aos preceitos da Lei e da Ética (...) Respeitar a política administrativa da instituição empregadora (...) Zelar pela família (...) encorajando medidas que favoreçam sua estabilidade e integridade (...) Participar de programas nacionais e internacionais destinados à elevação das condições de vida e correção dos desníveis sociais (...) Agir, quando perito, com isenção de ânimo e imparcialidade (FARIAS apud BARROCO, 2006, p. 129). O trabalho do Serviço social do Hosped está baseado nos princípios deste código, bem como na defesa de seus direitos e dos usuários frente à instituição. Mesmo tendo autonomia profissional e trabalhando com outros ramosda saúde, as assistentes sociais enfrentam alguns 38 problemas, como por exemplo, o fato de alguns profissionais apresentarem certa dificuldade para entender as responsabilidades do Serviço Social. Acerca disso, segundo o Código de Ética, deve-se Art. 2º - Constituem direitos do/a assistente social: a) Garantia e defesa de suas atribuições e prerrogativas, estabelecidas na Lei de Regulamentação da Profissão e dos princípios firmados neste Código; b) Livre exercício das atividades inerentes à Profissão; (CFESS, 1993) Em seu campo de atuação, o profissional é levado diariamente a explicar suas atribuições para empregadores e/ou outros funcionários. No Hosped não é diferente. É importante destacar aqui que este fato não acontece com frequência, apenas algumas categorias de trabalho que não compreendem como se dá a ação do Serviço Social. A falta de entendimento advém geralmente dos funcionários dos serviços gerais no hospital. Entretanto, o aspecto não é exclusivo da categoria, pois outras ocupações de nível superior também não conhecem ou manifestam não desejar conhecer a respeito da profissão do assistente social. Além disso, como em qualquer outro espaço sócio-ocupacional, o Serviço Social do Hosped sofre com o atendimento de demandas que não fazem parte de suas atribuições privativas ou até mesmo competências. Sobre isso, temos: A equipe de saúde e/ou os empregadores, frente às condições de trabalho e/ou falta de conhecimento das competências dos assistentes sociais, têm historicamente requisitado a eles diversas ações que não são atribuições dos mesmos, a saber: marcação de consultas e exames, bem como solicitação de autorização para tais procedimentos aos setores competentes; solicitação e regulação de ambulância para remoção e alta; identificação de vagas em outras unidades nas situações de necessidade de transferência hospitalar (CFESS, 2010, p. 46-47). Não quero, aqui, deixar entender que as assistentes sociais exercem fielmente o que é demandado nos documentos normativos, que nunca ultrapassaram suas atribuições e competências. Pude observar determinadas situações em que foram realizadas ações que não condizem com as funções do Serviço Social, como por exemplo, a solicitação de ambulância para alta de pacientes. Neste caso é preciso levar em consideração que o telefone do Serviço Social é o único que faz chamadas para os municípios e outros estados. Esse fato acontece quando há casos de pacientes oriundos do interior. Quando os pacientes são da capital, quem fica responsável pelo controle da ambulância é o setor de enfermagem, bem como pela identificação de vagas de leito no hospital. 39 Teve casos em que a assistente social ligava para os usuários para lembrar a data da consulta. A responsabilidade dessa tarefa se justifica pelo fato de que existe o caso de que algumas famílias são difíceis de localizar, então se torna necessário o contato com o Conselho Tutelar, ou qualquer outro órgão para tal fim. Diante do fato daquele setor estar em posse dos dados disponibilizados pela família, através das entrevistas sociais, recai sobre o setor a responsabilidade do contato. Contudo, as profissionais deixam bem claro para os outros funcionários quando determinada função não é de sua competência. Qualquer profissional está sujeito a enfrentar situações como esta, e em determinados casos os mesmo desempenham funções que não lhes são de sua responsabilidade, mesmo estando comprometidas com o Projeto Ético-Político e o Código de Ética. Existem as particularidades, bem como razões específicas para não se realizar determinado procedimento. No primeiro dia de estágio presenciei esse fato. (…) muitas vezes lhe é atribuído funções que não é de sua competência, e ela relata que não as faz, informando que tal assunto não é atribuição dela, como por exemplo, uma televisão quebrada na enfermaria (os pacientes procuram o Serviço Social para resolver), mas esta “ideia” de que é o Serviço Social que tem que resolver ás vezes, não parte somente do usuário, mas também de muitos profissionais que não sabendo ou até mesmo não se interessando pela problemática em questão, orienta que procure logo o Serviço social, para que possa ser resolvido. Quando isto acontece, segundo ela é necessário explicar para a pessoa, seja outros profissionais, ou o usuário que aquela não é função do Serviço Social, e que tal setor do hospital é que resolve. Por isto, a assistente social enfatiza a importância de se ter a consciência e o aprendizado de suas atribuições e competências profissionais, como está explicitado no Código de Ética, a leitura de tal documento torna-se extremamente necessário, não só antes do estágio curricular obrigatório, mas também em toda carreira do assistente social. (FREIRE, 2012, p. 03) Estas situações se configuram como problemas graves, pois os profissionais não podem ficar a mercê das instituições empregadoras. É claro que quando pensamos, por exemplo, na esfera privada essa dificuldade é intensificada, tendo em vista as relações de poder características desse âmbito. É nesta situação que os profissionais devem se articular intensamente com os Conselhos Regionais, para defesa do exercício da profissão. Alguns dos deveres bastante evidentes, que as assistentes sociais da instituição seguem, estão descrito logo abaixo, no Art. 3º: a) desempenhar suas atividades profissionais, com eficiência e responsabilidade, observando a legislação em vigor; 40 b) utilizar seu número de registro no Conselho Regional no exercício da Profissão; c) abster-se, no exercício da Profissão, de práticas que caracterizem a censura, o cerceamento da liberdade, o policiamento dos comportamentos, denunciando sua ocorrência aos órgãos competentes; (CFESS, 1993) Um aspecto imprescindível do Serviço Social refere-se ao sigilo profissional, contido também no Código, com um dos direitos do profissional. Art. 15 - Constitui direito do/a assistente social manter o sigilo profissional. Art. 16 - O sigilo protegerá o/a usuário/a em tudo aquilo de que o/a assistente social tome conhecimento, como decorrência do exercício da atividade profissional. Parágrafo único: Em trabalho multidisciplinar só poderão ser prestadas informações dentro dos limites do estritamente necessário Art. 17 - É vedado a o/à assistente social revelar sigilo profissional. (CFESS, 1993) Conforme visto anteriormente, todos os documentos do Serviço Social ficam arquivados na sala da assistente social do Hosped. Somente as profissionais tem acesso. Existe uma preocupação na garantia do sigilo, e quando há estudos de caso, bem como o trabalho multiprofissional, só o que é julgado como estritamente necessário é revelado. Manter o sigilo profissional não é só um direito, como também um dever, e no Hosped esta questão é bastante respeitada. Todos esses elementos que foram apresentados estão relacionados com a busca pela efetivação do PEP, resultado de uma maturidade profissional, compreendido no final da década de 1970 e início dos anos 1980. Mudanças no perfil profissional aconteceram, como a inserção acadêmica e científica da profissão, militância política na profissão contra a ditadura, desenvolvimento de entidades organizativas e principalmente a mudança no perfil profissional. (NETTO, 2001). Vale salientar que tal processo não aconteceu repentinamente. A maturidade e elaboração de novos suportes metodológicos é resultado de um contexto desenvolvido no decorrer dos anos, e o movimento de reconceituação foi um importante difusor de dúvidas e questionamentos acerca do fazer profissional. Porém, esse fato é mais nítido na perspectiva de intenção de ruptura, já que as outras vertentes se adequam ao contexto político da época. O Projeto Ético-Político da profissão propõe uma perspectiva crítica de análise, voltada para adefesa de direitos, ou seja, uma intervenção propositiva e relacionada com a democracia social. Muitos dizem que o projeto profissional está em crise, tendo em vista os 41 desafios postos à profissão, decorrente do neoliberalismo e dos campos precarizados de trabalho. (NETTO, 2001). Nesse aspecto, o processo de inviabilização do Projeto Ético-Político diz respeito à desvalorização e precarização da formação profissional, assinalada pelo aumento no ensino de graduação à distância; aos objetivos e funções profissionais no plano assistencial, configurando uma enorme regressão; e aos requisitos (teóricos, práticos e institucionais) para o seu exercício, que podem trazer dificuldades para a materialização dos princípios ético-políticos postos no projeto. Na condição de trabalhador assalariado, os profissionais do Serviço Social, como os demais trabalhadores, estão submetidos ao processo de mercantilização que subordina o trabalhador aos ditames do trabalho abstrato, impondo condicionantes socialmente objetivos à autonomia do assistente social a condução do seu trabalho e na integral implementação do projeto profissional. (FREIRE e SILVA, 2012, p. 03). Atualmente há uma discussão sobre a existência ou não de uma crise no PEP, ocasionada pelas diversas expressões do capitalismo frente à classe trabalhadora e o exercício profissional. As precariedades dos campos de trabalho, os desvios de funções, a existência de cursos de Serviço Social que não fazem relação com os reais objetivos profissionais, a falta de reconhecimento do trabalho do setor, entre outras problemáticas. Netto (apud OLIVEIRA e MOURA, s.d.) relata que tal crise no projeto é resultado da conjuntura contraditória imposta pelo capitalismo. A centralização das funções no plano assistencial reduz o Serviço Social à profissão da assistência, ocasionando enorme regressão. Uma segunda causa que inviabiliza o PEP está no que se refere aos requisitos – teóricos, práticos e institucionais – para seu exercício. Fica claro que aqui se insere, entre outros componentes, toda a problemática da formação profissional. Mesmo levando em consideração as problemáticas debatidas, e sabendo que o PEP atravessa dificuldades de efetivação por parte de alguns profissionais, acredito que o mesmo não está em crise. Tendo em vista que ao longo dos anos a categoria profissional foi construída cada vez mais consciente de seus direitos, com perspectiva crítica acerca não somente dos direitos sociais, mas também sobre as mazelas sociais com as quais se lidam diariamente. Apreendemos um saber interventivo que nos coloca em caminhos bem diferentes dos objetivos iniciais da profissão. É importante enfatizar aqui, as lutas travadas pelo Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) e Conselho Regional de Serviço Social (CRESS) na defesa da profissão, da materialização do PEP e do Código de Ética de 1993. Também se destacam os seminários e 42 congressos realizados anualmente no país, em que se discutem os rumos da profissão e as questões inerentes à intervenção profissional. A categoria está no caminho da sociedade capitalista, permeado por problemáticas, porém com diversas possibilidades de efetivação do PEP. Assim temos: Somos cientes das dificuldades que é a implementação do projeto ético- político da profissão, no entanto cremos que a hegemonia de projeto profissional ainda não está em crise haja vista as lutas da categoria, e a ampla organização da profissão lutando por uma sociedade cujo valores vão além da individualidade, valores que primam por uma sociedade sem exploração do homem pelo homem. Entretanto, o projeto passa por muitas vezes por inúmeras dificuldades de implementação, como o avanço no número de assistentes sociais que estão sendo formada em escolas de serviço social à distância, que valoriza o tecnicismo como formação acadêmica. Mas a organização da categoria através do CFESS/CRESS, ABEPSS, e ENESSO constatamos que a construção e a hegemonia do projeto ético político não está em crise, pois uma categoria que mesmo pressionada pela forte política neoliberal, vem resistindo diariamente à barbárie capitalista. (OLIVEIRA e MOURA, s.d., p.07) Um dos desafios atuais do serviço social é compreender, analisar e situar os direitos numa perspectiva de totalidade, e ser capaz de identificar suas múltiplas determinações, bem como reconhecer suas contradições no espaço de construção da sociabilidade humana (NETTO, 2001). Não há dúvidas de que o capitalismo contemporâneo,em sua fase destrutiva, atua com força brutal em seus projetos de contra-reforma, mas considero agora utilizar nossa inteligência e nossa capacidade de mobilização para produzir, conjuntamente com outros sujeitos individuais e coletivos, estratégias com potencial para enfrentar este processo, para que possamos manter a hegemonia do projeto profissional, mesmo em um contexto adverso. (RAMOS apud OLVEIRA e MOURA, s.d., p. 06) Iamamoto (1999) e Netto (2001) consideram de suma importância a capacitação permanente dos estudos para consolidação da proposta da categoria, pois a reatualização profissional, bem como a participação nos debates da profissão, nos faz questionar a conjuntura social encontrada atualmente, como também faz entender nosso importante papel na luta social ao lado dos trabalhadores. No que se refere à materialização do PEP no fazer profissional do Hosped, acredito que elas atuam em conformidade com os princípios propostos, pois há uma preocupação em repassar aos usuários os seus reais direitos, e acredito que uma atuação ligada ao PEP e ao 43 Código de Ética só é possível quando o profissional está em consonância com os debates acerca das diversas temáticas da questão social e com o aprimoramento profissional. Os empregadores possuem um papel importante na parceria com os assistentes sociais para a prestação de um serviço mais qualificado, destinado àqueles que necessitam de respostas de determinada demanda. O aspecto se repete nas condições de trabalho do profissional, já que se trata de um trabalhador assalariado e está sujeito as diversas formas de relações sociais nas instituições privadas e públicas. (FREIRE e SILVA, 2012). No decorrer dos anos são percebidas mudanças nas áreas de atuação do assistente social. O capitalismo, com seu modo opressor de direitos e não socialização justa dos lucros obtidos com a classe trabalhadora, acaba por ocasionar transformações, geralmente negativas, para as áreas de direitos sociais, e a saúde é uma delas. Para entender melhor o contexto das mudanças nos espaços ocupacionais, mas especificadamente nesta área, vamos a partir do próximo capítulo conhecer a EBSERH, a empresa de caráter pública que administrará os hospitais universitários, e causa de diversos movimentos sociais no Brasil, por entender que essa gestão é o início de uma possível privatização. 44 4 A EBSERH E OS HOSPITAIS UNIVERSITÁRIOS. Neste capítulo será discutida a polêmica que envolve a EBSERH e suas consequências para os hospitais universitários brasileiros, assim como problematizar de forma crítica a empresa, resultado de mais um ataque neoliberal à política de saúde. Por último, será abordada discussão para o Serviço Social e a importância de mobilização da categoria na luta a favor dos direitos sociais e da democratização do acesso à saúde. 4.1 - Conhecendo a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) e suas consequências para os Hospitais Universitários. A eleição de Lula foi uma vitória para muitos brasileiros, já que pela primeira vez um “homem do povo” conseguia chegar à presidência do Brasil. Porém, com o passar do tempo muitos foram se decepcionando com o governo, que ora privilegiava a classe trabalhadora, ora o mercado. Não trarei aqui um balanço dos pontospositivos e negativos do governo, já que não é o propósito no momento, mas para entender os motivos que criaram a EBSERH é necessário explicar as razões que levaram o governo a tomar a medida, que é motivo de grande indignação dos movimentos sociais atualmente. Há muito tempo os governantes propõem uma forma de não colocar as responsabilidades para o estado, ao mesmo tempo em que se assiste o tratamento de negligência dos direitos mais básicos da população. O processo de reforma do Estado favorece o mercado privatista nas mais diversas áreas, e a situação da saúde e outras políticas públicas atualmente é resultado de múltiplas ações como essa: (...) Organizações Sociais assumindo a gerência de unidades de saúde públicas; A redução drástica de financiamento para os Hospitais públicos de alta complexidade; O congelamento do salário dos professores universitários; A tentativa de criação de Fundação para gerenciar os Hospitais Universitários e que foi rejeitada na Câmara; A aprovação do fundo de Previdência privada para o funcionalismo público; A medida provisória seguida da lei que criou a Empresa Brasileira de Serviços 45 Hospitalares (EBSERH) em substituição à Fundação rejeitada anteriormente (SILVA, 2012). Tudo começa com uma questão levantada em meio à sociedade e ao governo de que os hospitais universitários estariam em crise, e este fato advém da estrutura socioeconômica do Brasil imposta pelos governantes, resultado da contrarreforma e do avanço do neoliberalismo (CISLAGHI, 2011). (...) A EBSERH representa a tentativa de implantação dessas velhas políticas. Expressa uma das múltiplas medidas em andamento da profunda e velha REFORMA DO ESTADO que está em curso, ESPECIALMENTE NA ÁREA DE SAÚDE, e que foi repudiada pela sociedade brasileira. Essas políticas levaram o mundo à catástrofe financeira que retirou trilhões de dólares dos cidadãos levando nações inteiras à miséria com a maior transferência de capital do setor público para o setor privado já vista na história do último século. (SILVA, 2012, p. 01). . A EBSERH surgiu por influência de uma empresa pública de direito privado que geria hospitais em São Paulo e em Porto Alegre, como é relatado logo abaixo: No Brasil foram considerados exemplares as experiências de São Paulo baseadas em organizações sociais e do Hospital das Clínicas de Porto Alegre, que é uma empresa pública de direito privado. Nas palavras do diretor de Hospitais Universitários e Residências em Saúde da Secretaria de Educação Superior do MEC, José Rubens Rebelatto “este encontro nos indicará caminhos para o processo de reestruturação que está em curso referindo-se ao REHUF – Programa Nacional de Reestruturação dos Hospitais Universitários Federais”. No mesmo evento, anunciou-se o empréstimo de 756 Milhões, 103 milhões para financiamento desde programa, recursos oriundos do Banco Mundial e 104 milhões, que serão divididos entre 46 unidades hospitalares no país até 2012. (CISLAGHI, 2011, p. 56). Os elevados gastos com os HUF, decorrente da estrutura e lógica orçamentária, das quais estas instituições necessitam para a realização de cirurgias complexas, alta tecnologia para a realização de exames, contrato de pessoal terceirizados para a contratação de funcionários, entre outros elementos, são os principais motivos relatado pelo governo em criar a EBSERH. Temos assim: (...) O primeiro diagnóstico apresentado é que esses hospitais seriam caros. Responsáveis por cerca de 10% dos atendimentos na maioria dos países podem ser responsáveis por desde 9% até 40% do total de gastos na área da saúde. Segundo dados da ABRAHUE, Associação Brasileira de Hospitais 46 Universitários e de Ensino, a realidade brasileira em 2001 era de que 9% dos leitos, 12% das internações e 24% dos recursos do SUS estariam nessas instituições. Essa realidade, porém, decorre dos altos custos da alta complexidade dos procedimentos realizados por esses hospitais. É necessário levar em consideração que esses hospitais realizaram no mesmo período 50% das cirurgias cardíacas, 70% dos transplantes, 50% das neurocirurgias e 65% dos atendimentos na área de malformações craniofaciais, o que justifica seu alto custo de manutenção. (CISLAGHI, 2011, p. 56) Na citação acima percebemos claramente que os benefícios destes hospitais para o país não são levados em consideração. Nesta análise realizada pelos governantes, tais benefícios não são tidos como prioridades, mas sim o valor que os mesmos possuem. Deve haver controle para avaliar se estas ações estão mesmo sendo realizadas, e se os recursos financeiros estão sendo investidos, isto é, tem que haver um controle social neste campo. Porém, é notável que estas instituições proporcionam diversos tipos de exames e cirurgias complexas. Alguns exames que são realizados no HUOL, e que também faz parte da rede hospitalar da UFRN, não tem na rede privada de Natal, assim como não tem em outros hospitais da rede pública da cidade. Esta situação ocorre em outras cidades brasileiras, com outros hospitais universitários. Sendo assim, fica claro que há realmente muitos gastos. Contudo, existem recursos para suprir tal demanda, o que não existe é o investimento e interesse nesta questão. Se existe mesmo uma “crise” dos hospitais, então por que as possíveis saídas não foram debatidas juntamente com os Conselhos de saúde e Conferências de Saúde, exercendo assim a participação popular nas decisões governamentais? Participação que está prevista na Lei Nº 8.142, de 28 de dezembro de 1990. O Programa Nacional de Reestruturação dos Hospitais Universitários Federais foi uma medida do governo federal para organizar e controlar o orçamento dos hospitais universitários. Foi criado em 27 de janeiro de 2010, com diretrizes e objetivos, e a EBSERH faz parte deste programa. A criação da EBSERH integra um conjunto de medidas adotadas pelo Governo Federal para viabilizar a reestruturação dos HUF. Por meio do Programa Nacional de Reestruturação dos Hospitais Universitários Federais (REHUF), instituído pelo Decreto nº 7.082, de 27 de janeiro de 2010, foram empreendidas ações no sentido de garantir a reestruturação física e tecnológica e também de solucionar o problema de recursos humanos destes hospitais, cumprindo o Acórdão do Tribunal de Contas da União,que desde o ano de 2008 exigiu a substituição dos servidores contratados pelas fundações de apoio para os Hospitais Universitários Federais. (MEC, s.d). . 47 A Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares foi criada em 2011, por meio da Lei Nº 12.550 e se configura como uma empresa pública ligada ao Ministério da Educação. Esta questão se constituiu como meu primeiro questionamento em relação ao tema, tendo em vista que há, de maneira geral, os que dizem que ela é um “início de uma privatização”. Por que então se denomina empresa de caráter pública? De acordo com a Lei n°12.550, a EBSERH é de personalidade jurídica de direito privado e patrimônio próprio. Para entender melhor, temos: O direito privado, regime que é comum às fundações, e às empresas estatais, significa que há regras administrativas que são semelhantes às das empresas privadas. No entanto, a função pública é definida na Lei. Não pode haver distribuição de lucro, nem sócios privados (inciso II do art. 5º do Decreto- Lei no 200, de 25 de fevereiro de 1967). A governança é pública; não há representantes privados no Conselho de Administração; o terreno de atuação é o SUS. (CARVALHO, s.d, p.03) Entende-se que a empresa é de caráter público, pois foi criada e é gerida pela união, não havendo investimento privado em sua constituição. Porém, sua gestão é semelhante às empresas privadas, funcionando como uma junção dos órgãos públicos e particulares. Com base em Cislaghi (2011), a EBSERH promoverá a privatização dos hospitais universitáriospor seguir os critérios econômicos ao invés dos sociais, o que vai de contra ao proposto pela Lei 8.080/1990. Um dos motivos citados para criação da empresa é o discurso do alto custo dos hospitais universitários, com isso fala-se de uma suposta crise. Na gestão neoliberal não há o interesse, por exemplo, em concursos públicos. Ao contrário, o que se almeja é a contratação de empresas terceirizadas, com obtenção de lucro para o mercado: Na verdade, essa suposta crise vivida pelos Hospitais Universitários tem sido motivada não, por fracasso do sistema, mas pela escassez de recursos, ou seja, por serem repassados poucos recursos à saúde pública. O Estado tem visto essa suposta crise dos HU’S como uma oportunidade de cada vez mais abrir mão de sua responsabilidade para com a classe trabalhadora e se comprometer a contribuir com as condições de acumulação do capital (PAIVA et al, 2013. p.06) Contudo, a principal crítica é que a EBSERH é inconstitucional e esbarra no Art. 207 da Constituição Federal de 1988: as universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. Todas as lutas travadas pela sociedade para que tivéssemos uma Constituição cidadã vão de contra ao proposto pela EBSERH, e o 48 Art. 207 é bem claro quando se refere à autonomia universitária que, portanto, deve ser respeitado e garantido pelo governo. Esta questão tem gerado grandes discussões em todo o Brasil, e mesmo com tantas reivindicações e movimentos realizados em Natal, a reitora da UFRN aderiu ao contrato com a empresa. Algumas adesões pelas universidades já consumadas foram a Universidade Federal do Maranhão, Universidade de Brasília e Universidade Federal do Piauí. Segundo a Lei Nº 12.550, são competências da EBSERH: Art. 4 o - Compete à EBSERH: I - administrar unidades hospitalares, bem como prestar serviços de assistência médico-hospitalar, ambulatorial e de apoio diagnóstico e terapêutico à comunidade, no âmbito do SUS; II - prestar às instituições federais de ensino superior e a outras instituições congêneres serviços de apoio ao ensino, à pesquisa e à extensão, ao ensino- aprendizagem e à formação de pessoas no campo da saúde pública, mediante as condições que forem fixadas em seu estatuto social; III - apoiar a execução de planos de ensino e pesquisa de instituições federais de ensino superior e de outras instituições congêneres, cuja vinculação com o campo da saúde pública ou com outros aspectos da sua atividade torne necessária essa cooperação, em especial na implementação das residências médica, multiprofissional e em área profissional da saúde, nas especialidades e regiões estratégicas para o SUS; IV - prestar serviços de apoio à geração do conhecimento em pesquisas básicas, clínicas e aplicadas nos hospitais universitários federais e a outras instituições congêneres; V - prestar serviços de apoio ao processo de gestão dos hospitais universitários e federais e a outras instituições congêneres, com implementação de sistema de gestão único com geração de indicadores quantitativos e qualitativos para o estabelecimento de metas; e VI - exercer outras atividades inerentes às suas finalidades, nos termos do seu estatuto social. (BRASIL, 2011). De acordo com as competências propostas é visto que a EBSERH tem o intuito de responder e melhorar os serviços prestados pelos hospitais universitários. Mas será que a criação desta empresa realmente é a resposta adequada para a melhoria no atendimento prestado pelos hospitais? Provavelmente não, mas para termos um retorno mais qualificado é necessário avaliar seu processo de gestão, bem como suas vantagens e desvantagens para estas instituições. A lei de criação da EBSERH prioriza o caráter público da empresa, deixando claro a todo o momento sua relação com o SUS. Como no seguinte artigo e incisos: Art. 3 o - A EBSERH terá por finalidade a prestação de serviços gratuitos de assistência médico-hospitalar, ambulatorial e de apoio diagnóstico e 49 terapêutico à comunidade, assim como a prestação às instituições públicas federais de ensino ou instituições congêneres de serviços de apoio ao ensino, à pesquisa e à extensão, ao ensino-aprendizagem e à formação de pessoas no campo da saúde pública, observada, nos termos do art. 207 da Constituição Federal, a autonomia universitária. § 1o As atividades de prestação de serviços de assistência à saúde de que trata o caput estarão inseridas integral e exclusivamente no âmbito do Sistema Único de Saúde - SUS. § 2 o No desenvolvimento de suas atividades de assistência à saúde, a EBSERH observará as orientações da Política Nacional de Saúde, de responsabilidade do Ministério da Saúde. (BRASIL, 2011). Com a implantação da EBSERH, muitos trabalhadores terceirizados perderão seus empregos, tendo em vista que a empresa realiza concurso público para provimento de cargos, bem como processo seletivo simplificado para a contratação de pessoal técnico e administrativo. Além do mais, alguns funcionários trabalham na instituição há muito tempo, e já possuem vínculo com o hospital, estando atualizados sobre o funcionamento de seus serviços, e muitos deles, serão demitidos. Não estou me posicionando a favor da terceirização de profissionais ao invés da realização de concursos públicos. Ao contrário, apoio a luta pela realização de muitos concursos, contudo este não é o objetivo do capital. Se for preciso que ocorra um processo seletivo para contratação de novos funcionários, também é essencial que isso seja feito não pela EBSERH, mas pelo próprio governo através de um concurso público que garanta realmente estabilidade e compromisso com o empregado da instituição. A prestação de serviços privados dentro de instituições públicas, especificadamente nas universidades federais, atualmente é bastante comum. Como é o caso, por exemplo, do que ocorre na UFRN, que possui contrato com uma empresa terceirizada, contando com trabalhadores no quadro administrativo, assim como na área de segurança dos prédios da universidade. Isso é motivo de muitas críticas por parte do quadro acadêmico e estudantil, pelo fato de se ter uma empresa privada que presta serviços para uma universidade pública, o que não deixa de se visualizar como um retrocesso do que está exposto na Constituição Federal de 1988. No que se refere à EBSERH, será realizado um processo seletivo simplificado, semelhante às empresas terceirizadas, já que os contratos da empresa com os funcionários são por tempo determinado. 50 Art. 11 - Fica a EBSERH, para fins de sua implantação, autorizada a contratar, mediante processo seletivo simplificado, pessoal técnico e administrativo por tempo determinado. § 1 o Os contratos temporários de emprego de que trata o caput somente poderão ser celebrados durante os 2 (dois) anos subsequentes à constituição da EBSERH e, quando destinados ao cumprimento de contrato celebrado nos termos do art. 6 o , nos primeiros 180 (cento e oitenta) dias de vigência dele. § 2 o Os contratos temporários de emprego de que trata o caput poderá ser prorrogados uma única vez, desde que a soma dos 2 (dois) períodos não ultrapasse 5 (cinco) anos. Art. 12. A EBSERH poderá celebrar contratos temporários de emprego com base nas alíneas a e b do § 2º do art. 443 da Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, mediante processo seletivo simplificado, observado o prazo máximo de duração estabelecido no seu art. 445. (BRASIL, 2011). O que pode mudar, neste caso, é a atribuição de mudanças salariais para os profissionais mais favoráveis pela EBSERH. Este aspecto chama bastante atenção dos candidatos. Porém, para quem almeja a tão sonhadaestabilidade no setor público, é desmotivante realizar tal concurso. Pode haver também pontuação para experiência profissional, de caráter classificatório no processo seletivo. A incoerência da Lei que da EBSERH é tamanha que para “regularizar” a situação dos terceirizados opta-se por impor a todos os profissionais contratados o mesmo regime precarizante de trabalho que o TCU (tribunal de contas da união) condenou. Esse é o regime CLT (consolidação das leis trabalhistas), o mesmo tipo de contrato firmado por empresas privadas com seus funcionários, que substituirá o RJU (regime jurídico único), que é o contrato dos servidores públicos concursados. (Cartilha Nacional em Defesa dos Hospitais Universitários, s.d., p. 14). A EBSERH nada mais é que uma estratégia do governo nessas instituições hospitalares com um discurso de público, mas com um viés privado. Com a aprovação em concurso público, o indivíduo tem que ter seu regime como de um servidor público. Embora ele esteja atuando em uma instituição pública, o seu regime trabalhista será igual ao de um sistema privado. (PAIVA et al, 2013). A finalidade da implantação da EBSERH gira em torno do argumento de que com a modernização da gestão será mais fácil resolver os problemas ligados à parte financeira pelo fato dela se articular procurando incentivos e parcerias com a iniciativa privada, portanto, sendo mais fácil utilizar os recursos públicos (humanos, físicos e financeiros) para atender ao interesse da iniciativa privada, favorecendo um amplo sistema de corrupção, essa é a realidade. (PAIVA et al, 2013, p. 07) 51 FIGURA 3 – EBSERH: Não à privatização da Saúde! Fonte: http://erem2012sm.wordpress.com/2012/09/25/debate-sobre- ebserh-vai-esquentar-o-erem/ A imagem representa, a meu ver, a ilustração de como a “saúde vendida” é imposta pelo neoliberalismo. Ela contempla um mercado de alto lucro. Há sempre, por trás destas ações, discursos centrados na demagogia. Contudo, a teoria e a prática, neste caso, são dimensões bem diferentes. Segundo Silva (2012) as principais problemáticas envolvendo a gestão da empresa para os hospitais universitários se baseiam em: A perda da autonomia para gerenciar seus hospitais de ensino, pois os mesmos serão gerenciados por uma empresa externa; A separação entre ensino e pesquisa da assistência, visto que a assistência ficará sob uma gestão independente embora se indique que a empresa apoiará o ensino e a pesquisa; A criação de dois grupos de funcionários na universidade: um grupo contratado pelo RJU e gerenciado pela universidade e que estará em progressiva extinção e o outro grupo gerenciado pela empresa com pessoal contratado sob regime da CLT. A possibilidade de a universidade ter que alienar seus hospitais de ensino para a empresa. (SILVA, p. 10, 2012). As últimas lutas presenciadas no Brasil afirmam que nem tudo está perdido, já que muitas conquistas foram alcançadas através das reivindicações dos movimentos sociais e/ou estudantis. Quem não se lembra, por exemplo, da “Revolta do Busão 8 ”, e atualmente do movimento do “Passe Livre 9 ”? Apesar de não ter sido um movimento ligado diretamente à área da saúde, aqui se assemelha por se pautar na luta por direitos, por respostas justas à população. Houve, com isso, um receio por parte dos governantes, e a notícia se espalhou por todo o mundo, trazendo conquistas para todos. Meu ponto de análise se baseia em defesa da saúde, pois a sociedade 8 Ocorrido aqui em Natal/RN, e em várias capitais brasileiras. Os movimentos foram notícias em meios de comunicação em diversos países. 9 Movimento dos estudantes de Natal para implementação do Passe Livre em Natal/RN. 52 tem que continuar na luta e exigir do governo propostas e soluções que atendam seus direitos mais básicos. Fazendo parte da rede de mobilizações contra a EBSERH há uma Campanha Nacional em Defesa dos Hospitais Universitários, organizada pela representação nacional dos estudantes da saúde, através das executivas dos cursos de Farmácia, Enfermagem, Psicologia, Medicina e Serviço Social. Uma das correntes dessa campanha é a ênfase e a preocupação com as consequências da empresa para o tripé da universidade pública federal: ensino, pesquisa e extensão. O fato é que em virtude destes hospitais serem campos de estágio para muitos cursos de graduação – e como os novos profissionais contratados pela EBSERH não estarão ligados à universidade – pode haver uma diminuição dos campos de estágio, já que os mesmos não terão compromisso com o ensino e a pesquisa. FIGURA 4 - No dia 7 de abril de 2012, cerca de 40 estudantes de Farmácia de todo o Brasil promoveram um ato contra a implementação da EBSERH no Hospital das Clínicas da UFMG. Fonte: http://emdefesadoshus.blogspot.com.br/ Existe também um abaixo assinado circulando pela internet e pelas universidades públicas. Ocorreu um plebiscito entre os dias 02 a 15 de abril de 2013, e o objetivo era colher o máximo de assinaturas possíveis online e presencial, para entregar o documento ao Ministério da Educação. O documento foi organizado pela Frente Nacional Contra a Privatização da Saúde. Estima-se que mais de 60 mil pessoas se posicionaram conta à empresa. 53 O Ministério da Educação divulgou online um documento em formato de perguntas e respostas, esclarecendo algumas atribuições e respostas sobre a empresa. Neste arquivo é afirmado, mais uma vez, que a EBSERH não é privatização, mas uma forma de “agilizar, dinamizar e trazer mais qualidades para a saúde”. (MEC, s.d, p.05) Pergunta: É verdade que a EBSERH faz parte de um projeto do Governo Federal de privatizar os HUF? Resposta: Não. A EBSERH, vinculada ao Ministério da Educação, é uma empresa 100% pública, totalmente comprometida com o SUS, mantendo a autonomia universitária e priorizando, além da assistência, o ensino, a pesquisa e os programas de extensão. A EBSERH foi concebida sob a ótica de uma empresa pública absolutamente nova, pois não se configura como nenhuma estatal conhecida em nosso país. Para citar um diferencial, é a única empresa estatal a trabalhar com um conjunto de servidores do regime jurídico único (estatutários) cedidos em grande amplitude para a EBSERH, convivendo com servidores celetistas (CLT) na empresa, com vantagens para todos. A EBSERH observará as orientações da Política Nacional de Saúde, de responsabilidade do Ministério da Saúde. (MEC, s.d, p.07.) Percebemos que o governo federal não admite a hipótese de privatização, enfatizando sempre que possível que a EBSERH é 100% pública, assim como afirma que a autonomia universitária permanecerá a mesma. Isso não ocorre, pois a gestão financeira e administrativa não será mais das universidades. FIGURA 5 – Diga Não à EBSERH!. Fonte: http://www.adufpi.org.br/noticias/boletim-adufpi-entidades-preparam- plebiscito-sobre-a-ebserh Há também o discurso de que a adesão da universidade com a empresa não é obrigatória, o que na prática não ocorre, pois o que se vê é outra coisa. A resposta do Ministério da Educação confirma este fato, já que aos poucos hospitais não poderão mais contratar funcionários. 54 As universidades federais que não aderirem à EBSERH continuarão recebendo recursos do REHUF. Entretanto, na medida em que a solução apontada pelo Governo Federal para a recomposição da força de trabalho dos HUF foi a criação da EBSERH, as universidades que não aderirem à empresa não terão condições de cumprir o acórdão do TCU na substituição do pessoal terceirizado, considerado irregular, que absorve mais de 50% dos recursos destinados à manutenção da maioria dos hospitais.universitário, realizar uma crítica acerca da atuação desses profissionais a luz do Projeto Ético-Político Profissional, conhecer e divulgar a opinião desses Assistentes Sociais sobre a EBSERH. Os procedimentos metodológicos utilizados foram a pesquisa documental do Código de Ética, Estatuto da Criança e do Adolescente, e outros documentos de ordem jurídica com relação à temática, e a pesquisa bibliográfica que trata da atuação do Serviço social na área da saúde, à importância da articulação com os documentos normativos; as consequências da política neoliberal na saúde e sua influência para o exercício da profissão e observação participante resultado do meu estágio curricular obrigatório na referida instituição. Um aspecto observado foi a importância deste profissional para a instituição, bem como para o setor da saúde. As mudanças no campo afetam o trabalho do assistente social, e uma dessas mudanças é a EBSERH. Existem outros desafios ainda a serem superados, o que justifica a necessidade de se ter o Projeto Ético Político como direção, além da constante capacitação profissional. Diante disso, é necessário não se acomodar com as diversas problemáticas que permeiam o cotidiano do assistente social na saúde, que são inúmeras, e serão abordadas neste trabalho. Palavras Chaves: Saúde, Serviço Social, Projeto Ético Político, EBSERH (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares). ABSTRACT The present work accomplishes a study on the Social Service in the area of the Health, more specifically in the Hospital of Pediatrics Teacher Heriberto Ferreira Bezerra (HOSPED), that is under the temporary administration of the Federal University of Rio Grande do Norte (UFRN), until passing to be administered by Company Brazilian Services Hospitalares's (EBSERH). On such subject, the reading still presents an abbreviation discussion on the consequences to the academical hospitals. The study has as objectives: to apprehend concerning the professional work of the Social Service in the area of the health, their challenges and perspectives in an academical hospital, to accomplish a critic concerning those professionals' performance the light of the Professional Ethical- political Project, to know and to publish the opinion of those Social workers on EBSERH. The used methodological procedures were the documental research of the Code of Ethics, Statute of the Child and of the Adolescent, and other documents of juridical order regarding the theme, and the bibliographical research that he/she treats of the performance of the Social Service in the area of the health, to the importance of the articulation with the normative documents; the consequences of the neoliberal politics in the health and his/her influence for the exercise of the profession and observation participant result of my apprenticeship obligatory curricular in the referred institution. An observed aspect was this professional's importance for the institution, as well as for the section of the health. The changes in the field affect the social worker's work, and one of those changes is EBSERH. Other challenges still exist the they be overcome, what justifies the need to have the Political Ethical Project as direction, besides the constant professional training. Before that, it is necessary not to make comfortable with the several problems that permeate the daily of the social worker in the health, that you/they are countless, and they will be approached in this work. Key Words: Health; Social Service; Political Ethical Project and EBSERH (Brazilian Company of Service Hospitalares). LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS ABEPSS.............Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social AIS ..................... Ações Integradas de Saúde CAP .................... Caixa de Aposentadorias e Pensões CEAS ................. Centro de Estudos e Ação Social CEME.................Central de Medicamentos CFESS ................ Conselho Federal de Serviço Social CLT.....................Consolidação das Leis de Trabalho CNS .................... Conferência Nacional de Saúde CRESS ............... Conselho Regional de Serviço Social EBSERH ............ Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares ECA.................... Estatuto da Criança e do Adolescente ENESSO.............Encontro Nacional de Serviço Social ESF ..................... Estratégia Saúde da Família FUNASA............Fundação Nacional da Saúde FUNPEC ............ Fundação Norte-Riograndense de Pesquisa e Cultura HOSPED ............ Hospital de Pediatria HUAB ................ Hospital Universitário Ana Bezerra HUF.................... Hospitais Universitários Federais HUOL ................ Hospital Universitário Onofre Lopes HUPES................Hospital Universitário Prof. Edgard Santos IAP......................Instituto de Aposentadorias e Pensões INAMPS ............ Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social INPS ................... Instituto Nacional de Previdência Social INSS....................Instituto Nacional do Seguro Social IPAI .................... Instituto de Proteção e Assistência à Infância MEC....................Ministério da Educação MEJC ................. Maternidade Escola Januário Cicco PEP ..................... Projeto Ético-Político Profissional PIASS ................. Programa de Interiorização das Ações de Saúde e Saneamento PIB ..................... Produto Interno Bruto PREV-SAÚDE ... Programa Nacional de Serviços Básicos de Saúde REHUF...............Reestruturação dos Hospitais Universitários Federais SAME.................Serviço de Arquivo Médico SESP .................. Serviço Especial de Saúde Pública STTU..................Secretaria de Transportes Urbanos SUDS ................. Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde SUS .................... Sistema Único de Saúde TFD .................... Tratamento Fora de Domicílio UFBA..................Universidade Federal da Bahia UFRJ...................Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRN ................. Universidade Federal do Rio Grande do Norte UNICAT.............Unidade Central de Agentes Terapêuticos LISTA DE FIGURAS Figura 1: Entrada do HOSPED ....................................................................................... 29 Figura 2: Espaço ambulatorial ........................................................................................ 30 Figura 3: EBSERH: Não à privatização da Saúde! ......................................................... 61 Figura 4: No dia 7 de abril de 2012 ................................................................................ 62 Figura 5: Diga Não à EBSERH ...................................................................................... 63 Figura 6: Cartaz............................................................................................................... 64 Figura 7: Cartaz EBSERH x universidades .................................................................... 66 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 1 2 TRAJETORIA DA POLÍTICA DE SAÚDE E DO ATENDIMENTO PEDIÁTRICO, NO BRASIL E NO RIO GRANDE DO NORTE ............................. 5 2.1. AVANÇOS E RETROCESSOS DA POLÍTICA DE SAÚDE BRASILEIRA ......... 5 2.2. CONTEXTO HISTÓRICO DA SAÚDE PEDIÁTRICA NO BRASIL, RIO GRANDE DO NORTE E NATAL/RN .......................................................................... 12 2.3. HOSPITAL DE PEDIATRIA: HOSPED - O LÓCUS DA PESQUISA ................. 17 3 O FAZER PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL NO HOSPITAL DE PEDIATRIA DA UFRN E A RELAÇÃO COM O CÓDIGO DE ÉTICA E O PROJETO(MEC, s.d) FIGURA 6 – Cartaz. Fonte: http://portal.andes.org.br/imprensa/noticias/imp -ult-1682797530.jpg A empresa ainda não administra os hospitais da UFRN, mas há uma previsão de que seja lançado um edital para a contratação de profissionais em breve, e as mudanças que poderão ocorrer já foram explicitadas mais acima, tais como a questão da instabilidade de trabalho para os contratados por contrato temporário, a questão de atingir metas, características marcantes do mercado privatista. Enfatiza-se aqui a posição do Conselho Nacional de Saúde, que foi contra a EBSERH. Em seu relatório final da 14° Conferência Nacional de Saúde, é relatado: rejeitar a criação da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, impedindo a terceirização dos hospitais universitários e de ensino federal. Existe também um processo judicial contra a empresa, que foi proposta pelo Procurador Geral da República, Roberto Gurgel, onde é questionada a autonomia universitária, bem como os contratos temporários e o regime de trabalho. Neste processo é relatado que a EBSERH viola elementos constitucionais ao atribuir à empresa um serviço público. No processo, o procurador requer a declaração da inconstitucionalidade dos artigos 1º a 17 da norma, que tratam das atribuições, gestão e administração de recursos da empresa. E dos artigos 10, 11 e 55 12, que tratam da forma de contratação de servidores da empresa pela CLT, de processo seletivo simplificado e de contratos temporários. Segundo o artigo 3º da Lei 12.550/2011, a EBSERH tem por finalidade prestar “serviços gratuitos de assistência médico-hospitalar, ambulatorial e terapêutico à comunidade” e a prestação às instituições públicas federais de ensino ou instituições congêneres de serviços de apoio ao ensino, à pesquisa e à formação de pessoas no campo da saúde pública. O parágrafo 1º do artigo 3º da norma estabelece que as atividades da EBSERH estão “inseridas integral e exclusivamente no âmbito do Sistema Único de Saúde”. Segundo o autor da ADI, a lei viola, entre outros dispositivos constitucionais, o inciso XIX do artigo 37 da Constituição. Esse inciso fixa, entre outras regas, que somente por lei específica poderá ser “autorizada a instituição de empresa pública”, cabendo à lei complementar definir as áreas de atuação dessa empresa. (SUPERIOR TRIBUNAL FEDERAL, 2013). A grande parte dos profissionais da saúde, professores e estudantes se mostram contra a empresa, conforme ilustrado pelos trechos abaixo: Cristina Melo, doutora em Saúde Pública e professora de enfermagem da UFBA há 28 anos, faz coro às críticas e afirma que este modelo de gestão é a destruição da ideia política de um sistema universal de saúde. “A precarização é um projeto político intencional de Estado para que os serviços públicos não funcionem para o povo. A estratégia é impedir que o SUS aconteça na prática, para depois afirmar a inviabilidade do seu projeto. E, assim, legitimam-se as privatizações, que tratam a saúde como negócio. Não é a toa que hoje todo mundo almeja um plano de saúde”, argumenta Melo (MELO apud LÔBO, 2013) Cássia Virgínia Maciel, auxiliar de enfermagem na Maternidade Climério de Oliveira da UFBA e coordenadora de comunicação do Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos (Assufba), declarou que houve tentativas de desqualificação dos trabalhadores do Complexo HUPES e dos serviços prestados, como forma de justificar a vinda da EBSERH. “Os trabalhadores estão inseguros com a contratação via CLT e sem um plano de carreira. Ficaremos a mercê da descartabilidade da empresa”, conclui. ((MELO apud LÔBO, 2013) Como professor titular dessa universidade (UFRJ) e nela militando desde 1960, não posso me curvar vendo nossa universidade, a começar pelos nossos hospitais, sendo ameaçada pela volta dessas políticas, sendo colocada “de encontro à parede” com ameaças de ser estrangulada pela falta de recursos orçamentários se não aderir á essas políticas de “publicização”. (SILVA apud LÔBO, 2013) Se levarmos em consideração que o Serviço Social é parte ativa na luta junto aos movimentos sociais contra a empresa, é de se acreditar, pelo menos, que sua grande maioria é contraria a gestão da EBSERH. É importante frisar que as assistentes sociais que trabalham 56 nestes hospitais, pela terceirização, terão seus trabalhos interrompidos, tendo que passar novamente por um processo seletivo, caso desejem continuar trabalhando no hospital. O assistente social perpassa e é influenciado pelas transformações que ocorrem na saúde. Porém, cabe ao profissional ter em vista na sua atuação a defesa do projeto de reforma sanitária, observando-se que este projeto é um grande passo para promover um sistema de saúde mais acessível para todos, bem como estabelecer a integração das demais políticas sociais (CFESS, 2010). FIGURA 7 – Cartaz EBSERX x universidades. Fonte: http://www.ufalsindical.com/2013/08/a-ebserh-e- apontada-como-projeto-de.html. O desafio então se coloca na defesa de fazer cumprir os princípios da Reforma Sanitária em consonância com o projeto ético político profissional, pois o Serviço Social, conjuntamente com outros segmentos que defendem o Sistema Único de Saúde (SUS), precisam criar estratégias e experiências nos serviços de saúde que consolidem este direito social, atentando que o assistente social que pretenda ter como norte o projeto- ético político profissional necessita estar articulado ao projeto da reforma sanitária (CFESS apud MATOS et al, 2010). Desse modo, o Serviço Social possui um importante papel nessa luta. Entretanto, o êxito depende não somente da categoria, mas ao contrário, de toda sociedade brasileira, dos estudantes e professores. É necessário repassar à população essa luta, já que alguns não entendem as consequências da empresa para os hospitais públicos. Falamos aqui sobre um processo de desconhecimentos por parte de algumas classes. A presença da população nesta batalha é essencial. 57 Considero a empresa como uma forma de privatizar o serviço de saúde, e o discurso de que a empresa é 100% pública é pura demagogia para alienar as massas populares. Esta é mais uma ofensa neoliberal que está centrada apenas no mercado. Dizer que não há recursos para provir os custos é só uma forma de tentar responder, de forma simplória, às muitas críticas que são conferidas a empresa. O SUS deve ser defendido e garantido em toda sua amplitude, e uma empresa “pública” de direito privado nesta área, não traz avanços ou ganhos para o sistema de saúde público brasileiro. 58 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Desde muito antes do meu estágio obrigatório, tive em mente as dificuldades de se trabalhar nesta área, bem como a difícil materialização do Projeto Ético-Político e do Código de Ética. Contudo, quando cheguei na prática, minhas concepções mudaram e outras se intensificaram. Mudaram na perspectiva de que diante de tantas problemáticas, pensava ser muito mais difícil na prática, ter sua atuação baseada nos princípios do Código, devido à questão da ofensiva neoliberal, da falta de autonomia, da precarização do trabalho, entre outros elementos. Porém, entendi e compreendi que não cabe aos profissionais se acomodarem diante das situações adversas. Não quero aqui colocar a profissão no sentido de transformadora dos problemas sociais, salvadora e defensora dos indefesos, de forma alguma. Acredito que a mudança na sociedade e a defesa dos direitos humanos e sociais não cabe somente ao Serviço Social, mas a todas as profissões, de todas as classes sociais. Mas há profissionais, assim como de todas as especialidades que, por diversos motivos já comentados, não atuam como proposto nos documentos normativos. O presente estudo constatou que uma intervenção com umaperspectiva crítica e requalificação profissional é essencial para a prática profissional de um assistente social. Este fato pode trazer inúmeros questionamentos. Ora, se o profissional não tem uma sala adequada para atendimento individualizado, se não tem autonomia em seu campo de trabalho, como então pode garantir os direitos dos cidadãos, se nem mesmo o seu é garantido? Não desejo aqui oferecer instruções de como se deve atuar diante desses desafios, afinal ainda não tenho prática suficiente para propor alternativas de atuação, como também não acredito que um assistente social deve seguir um manual de instruções de como atuar. Mas acredito que é necessário estar em consonância com os Conselhos Regionais e Federais de Serviço Social, participando ativamente da defesa da profissão, fiscalizando e trabalhando para a defesa da categoria. O Serviço Social do Hosped trabalha nesta perspectiva de intervenção, de defesa e de aprimoramento profissional. As assistentes sociais se atualizam sempre que podem, participando de debates e discussões acerca da profissão, e são conscientizadas sobre os documentos normativos, trabalhando para garantir aos seus usuários os seus respectivos direitos, prestando informações que os auxiliem para efetivação de seus objetivos. 59 É óbvio que existem dificuldades neste trabalho, conforme descritas anteriormente. Entretanto, tais dificuldades não se mostram como obstáculos insuperáveis pelas profissionais. Muito pelo contrário, elas estão sempre tentando superar tais desafios, conversando com outros profissionais, funcionários e com a própria diretora da instituição. O trabalho interdisciplinar favorece o conhecimento da profissão para as outras categorias, faz com que seja visto, entendido e tenha sua valorização pela parte da equipe. A interdisciplinaridade favoreceu, por exemplo, que uma das profissionais ministrasse aulas para os alunos de medicina sobre leis, direitos sociais, entre outros assuntos. A meu ver, um assistente social é um profissional que pode abordar o ECA, por exemplo, em toda sua amplitude social, não querendo desmerecer o trabalho de outros profissionais. A EBSERH irá propiciar mudanças para o trabalho destas profissionais, que irão atuar como funcionárias de uma empresa privada, e sabemos que o trabalho neste campo não é dos mais favoráveis para se tratar dos direitos sociais. Fica, portanto, à lógica dos empregadores, que reproduz, media e ameniza os conflitos sociais sem postura crítica e propositiva. Em suma, este trabalho me proporcionou maior aprendizado acerca da área, bem como maior entendimento sobre uma prática profissional eficiente e de qualidade, tendo o Projeto Ético Político e o Código de Ética como direcionadores. O assistente social deve ser comprometido com seu trabalho, mesmo diante das adversidades impostas em seu cotidiano. As mudanças que ocorrem nesta área afetam diretamente ou indiretamente sua atuação, porém não deve ser fator determinante para que se possa desempenhar seu papel com qualidade. Acredito que uma categoria comprometida com a justiça social e a classe trabalhadora são questões elementares para o exercício da profissão. 60 REFERÊNCIAS REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Brasil, 2011. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/Lei/L12550.htm. Acesso em 28 de setembro de 2013, ás 13h. ÁLVARES, Luciana de Castro. JOSÉ FILHO, Mário. O Serviço Social e o Trabalho com famílias. Serviço Social & Realidade, Franca, v.17, n. 2, p.9-26, 2008. Disponível em http://seer.franca.unesp.br/index.php/SSR/article/viewFile/69/84. Acesso em 21 de setembro de 2013. BRAVO, Maria Inês Souza. Serviço Social e Reforma Sanitária. 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Na sua opinião, o número de profissionais é suficiente no atendimento dos usuários? 20. Quais as atividades exercidas na instituição pelo profissional? 21. Quais as principais demandas que chegam para o Serviço Social? 22. Quais as principais dificuldades no atendimento dessas demandas? 23. Possui autonomia na resolução das mesmas? 24. Quais instrumentais são utilizados com mais frequência? 25. Na sua concepção, quais os principais entraves quanto à materialização do Código de Ética da profissão? 26. O que é fundamental no Projeto Ético-Político para seu exercício profissional? 66 27. Como você avalia suas condições de trabalho? E como as mesmas interferem no atendimento as demandas? 28. Do seu ponto de vista, qual o perfil que o profissional necessitar ter para trabalhar nesta área? 29. Quanto aos serviços desta instituição, como você avalia? 30. Como você se avalia profissionalmente? ACERCA DA EBSERH 31. Você está por dentro da discussão acerca da EBSERH? 32. Participou de alguma reunião ou discussão nesta área? 33. Qual sua opinião sobre esta empresa? 34. Na sua concepção, esta empresa proporcionará mudanças, se sim, quais para o exercício da profissão, nesta instituição? 35. Como você acha que será atingido pela EBSERH? 36. Do seu ponto de vista, você acredita que devido a tantas mobilizações pelo país contra a EBSERH, ainda é possível reverter à intervenção desta empresa na saúde? Se sim ou se não, explique.ÉTICO-POLÍTICO .................................................................................. 23 3.1. O TRABALHO DO SERVIÇO SOCIAL NO HOSPED: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ............................................................................................................ 23 3.2. A RELAÇÃO DO TRABALHO DO SERVIÇO SOCIAL COM O CÓDIGO DE ÉTICA (1993) E O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO DA PROFISSÃO .......................... 36 4 A EBSERH E OS HOSPITAIS UNIVERSITÁRIOS ............................................. 44 4.1. CONHECENDO A EMPRESA BRASILEIRA DE SERVIÇOS HOSPITALARES (EBSERH) E SUAS CONSEQUÊNCIAS PARA OS HOSPITAIS UNIVERSITÁRIO44 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................... 58 REFERÊNCIAS ............................................................................................................ 60 APÊNDICE....................................................................................................................64 1 1 INTRODUÇÃO Em uma retrospectiva das políticas de saúde no Brasil, a luta por melhores condições de atendimento e por um sistema de saúde igualitário voltado para a população mais pobre foi uma luta que atravessou décadas. Constatado como um terreno de bastante lucratividade para os grandes empresários, um sistema de saúde universal não era, nem de longe, o que eles desejavam, conforme será explicado no primeiro capítulo. Apesar das transformações consideráveis ocorridas nesse plano, afinal mesmo que o Sistema Único de Saúde (SUS) seja marcado por críticas e contradições, e que a teoria e a realidade são dimensões bem diferentes na atual contemporaneidade, é reconhecido como um sistema que representou um avanço na saúde pública brasileira, exemplo para diversos outros países, e que garante acesso para todos, sem discriminação de classe, gênero ou cor, como mostra o seguinte trecho, da Constituição Federal de 1988: Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. (BRASIL, 1998). O que nós percebemos é que a saúde sempre foi uma área permeada por contradições e obstáculos, por exemplo, o acesso à atenção básica é um problema comum nos dias atuais, motivo de críticas pelo fato de não conseguir atender e oferecer um atendimento de qualidade à população, sendo conhecida como a “porta de entrada” do SUS (ARAÚJO, et al, 2005). Por este motivo, foi criado em 1994 o programa Estratégia Saúde da Família 1 (ESF). Contudo, enfrenta dificuldades para a sua efetivação, uma vez que faltam profissionais nas equipes e as mesmas são responsáveis por um número muito alto de famílias. No tripé da seguridade social a saúde é direito de todos. Porém, o seu acesso no país é condicionado pela falta de investimentos, o que ocasiona postos de atendimento e unidades hospitalares precarizados, não só em estrutura física, como também na falta de materiais de trabalho. Como os profissionais que trabalham em tais condições podem oferecer um atendimento que abrange as necessidades dos usuários? A resposta é simples: não pode, por mais que os mesmos tenham compromisso com seus trabalhos. _________________________ 1 A Saúde da Família é entendida como uma estratégia de reorientação do modelo assistencial, operacionalizada mediante a implantação de equipes multiprofissionais em unidades básicas de saúde. 2 Nessa área tão contraditória, o Serviço Social tem um importante papel: garantia de direitos. O trabalho é ainda mais dificultado quando o assistente social está inserido em um espaço privado, com todas as dificuldades referentes à falta de autonomia, desvio de funções, e, em alguns casos, sendo um mero executor de um trabalho administrativo burocrático. Tais fatos não caracterizam exclusivamente o setor privado. Contudo, nestes determinantes sócio- ocupacionais, um trabalho nitidamente relacionado com o Código de Ética e os documentos normativos da profissão torna-se um pouco mais conflituoso, mas não impossível. Como objetiva o SUS, o profissional da saúde deve ter uma visão generalista das situações. No caso do Serviço Social, deve articular os princípios dos projetos que são referências a Reforma Sanitária e do Projeto Ético-Político da Profissão, para que as respostas aos usuários sejam dadas, e buscar as alternativas cabíveis em cada caso. (FARIAS, 2007, p.99). O Serviço Social deve estar comprometido com seus usuários, com o atendimento das demandas e com um trabalho interdisciplinar que visa oferecer ao cidadão o que lhe é garantido por lei. Afinal a saúde é resultado de uma série de condicionantes, pois: A saúde seja entendida como resultado das condições de vida das pessoas. Isto é, que a saúde não é conseguida apenas com assistência médica, mas principalmente pelo acesso das pessoas ao emprego, com salário justo, à educação, a uma boa condição de habitação e saneamento do meio ambiente, ao transporte adequado, a uma boa alimentação, á cultura e ao lazer; além, evidentemente, do acesso a um sistema de saúde digno, de qualidade e que resolva os problemas de atendimento das pessoas quando necessitem (RODRIGUES NETO apud TASSINARI, 2011, p.10) A Reforma Sanitária, que está em seus princípios intimamente ligada ao Projeto Ético Político do Serviço Social, ainda encontra obstáculos para sua efetivação, dificuldades estas geradas e influenciadas por uma sociedade que coloca o Capital em primeiro plano. As políticas sociais de caráter focalista servem, apenas, para amenizar os conflitos sociais, trazendo em sua constituição a seletividade do acesso. (BRAVO, 2007). No campo da saúde, a atuação da categoria é condicionada por infindáveis determinantes na atuação da categoria, desde a precarização do trabalho, os baixos salários até o exercício de atividades que não lhes são de competência, e isso ocorre tanto no meio privado quanto no público. Há também o problema da falta de reconhecimento acerca do que é o trabalho do Serviço Social, sendo muitas vezes visto apenas como local onde se consegue _____________________________ Estas equipes são responsáveis pelo acompanhamento de um número definido de famílias, localizadas em uma área geográfica delimitada. (Portal da Saúde, 2013) 3 uma ambulância para o transporte de pacientes, ou até mesmo de um agente responsável pelas condutas morais e éticas dos usuários no hospital. Ressalta-se aqui, a importância do fazer profissional estar baseado no Código de Ética e fundamentado no Projeto Ético Político da profissão com vistas à sua efetivação. No Rio Grande do Norte, a UFRN possui, ao todo quatro hospitais: Maternidade Escola Januário Cicco (MEJC), Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL), e HOSPED, localizados em Natal/RN, e o Hospital Universitário Ana Bezerra (HUAB), que está localizado em Santa Cruz, interior do Estado. Não há como negar a grande importância que estas instituições possuem para a saúde da população do estado, cada um em sua respectiva área de atuação. Esses hospitais oferecem diversas cirurgias que são referências em muitas especialidades médicas e consolidam campos de estágios para alunos de graduação e pós-graduação. Contudo, a gestão dos hospitais universitários em breve não pertencerá mais à UFRN, ficando responsável pela administração, a EBSERH. Meu interesse pelo respectivo tema desta monografia surgiu nos primeiros anos do curso, e foi intensificado pelo estágio curricular obrigatório na área. No Hosped tive a excelente oportunidade de acompanhar o trabalho das assistentes sociais, o que consistiu numa experiência de grande aprendizado. Desse modo, o estudo apresenta, como objeto investigativo, a saúde como campo de trabalhodo Serviço Social, e tem como objetivo geral a análise da atuação dos assistentes sociais no setor, mais especificadamente, no Hosped. Além disso, o trabalho almeja ainda propiciar uma discussão acerca da EBSERH e suas consequências para estas instituições universitárias. Dentre os objetivos específicos: Realizar uma crítica acerca da atuação desses profissionais a luz do Projeto Ético-Político Profissional (PEP) e conhecer a EBSERH, problematizando-a e discutindo suas possíveis consequências para tais hospitais. Os procedimentos metodológicos empregados foram a pesquisa bibliográfica sobre a temática do Serviço social no campo da Saúde, no que se referem à atuação do assistente social na área, bem como os desafios do fazer profissional. A pesquisa documental consistiu na utilização do Código de Ética, Estatuto da Criança e do Adolescente, Constituição de 1988, Lei 12.550 (Lei de Criação da EBSERH), Lei 8.069/1990, entre outros documentos oficiais. No âmbito do resultado do estágio curricular obrigatório na instituição, cito ainda a observação participante 2 . Como opção metodológica utilizei a pesquisa qualitativa, descrita como: 4 Tem como objetivo situações complexas ou estritamente particulares. Os estudos que empregam uma metodologia qualitativa podem descrever a complexidade de determinado problema, analisar a interação de certas variáveis, compreender e classificar processos dinâmicos vividos por grupos sociais, contribuir no processo de mudança de determinado grupo e possibilitar, em maior nível de profundidade, o entendimento das particularidades do comportamento dos indivíduos (RICHARDSON, 1999, p. 80) A monografia é estruturada em três capítulos: o primeiro, intitulado “Trajetória da Política de Saúde e do atendimento pediátrico no Brasil e no Rio Grande do Norte” discute acerca da política pública de saúde no Brasil, o contexto histórico da área pediátrica, onde apresento o contexto histórico nacional, chegando até o estado, e os primeiros hospitais especializados na cidade. Na abordagem se inclui também o Hosped, meu lócus de pesquisa, contextualizando sua importância para a cidade. O segundo capítulo se intitula “Fazer Profissional do Serviço Social no Hospital de Pediatria da UFRN e a relação com o Código de Ética e o Projeto Ético Político”, e nele é abordado como se dá o trabalho das assistentes sociais do Hosped, seus desafios e perspectivas, relacionando a atuação com base no Código de Ética e no PEP. No terceiro capítulo, “A EBSERH e os Hospitais Universitários”, trago uma explanação sobre a empresa, conhecendo-a e problematizando-a, bem como uma discussão de suas possíveis consequências para os Hospitais Universitários Federais (HUF). Nas considerações finais estão minhas análises pessoais acerca deste trabalho e da pesquisa em geral. Observa-se que a atuação do assistente social na saúde é de extrema importância para uma unidade e seus usuários, e que os documentos normativos constituem- se como instrumentos que darão suporte a este trabalho repleto de desafios, mas que apresenta diversas possibilidades. _________________________ 2 Inicialmente, minha pesquisa estava centrada nas entrevistas com as profissionais do Hosped. Assim, submeti o projeto três vezes ao Comitê de Ética, e o mesmo foi recusado todas as vezes, por motivos que nada condiziam com a realidade da pesquisa. O motivo alegado pelo Comitê, na primeira vez, foi devido a questão da EBSERH, para eles, eu não poderia questionar as profissionais sobre isso, pois a empresa ainda não administra a instituição. Argumentei que desejava apenas saber a opinião pessoal das profissionais, mas não teve resultado. Submeti novamente duas vezes e, e não obtive a aceitação pelo Comitê. Assim, esta monografia tornou-se bibliográfica. VER: Apêndice. Questionário que seria utilizado nas entrevistas. 5 2 TRAJETORIA DA POLÍTICA DE SAÚDE E DO ATENDIMENTO PEDIÁTRICO, NO BRASIL E NO RIO GRANDE DO NORTE E A RELAÇÃO COM O CÓDIGO DE ÉTICA E O PROJETO ÉTICO POLÍTICO. A presente discussão tem o objetivo de debater a história da Saúde Pública no Brasil. Tal política passou por retrocessos e avanços e hoje está centrada numa perspectiva universal, porém com muitas problemáticas em sua gestão. No contexto sobre o atendimento pediátrico no Brasil e no Rio Grande do Norte, este capítulo faz ponte com o desenvolvimento das instituições infantis no Estado, bem como atua na discussão a respeito das dificuldades para a sua implementação. Por último, iremos conhecer o locús da pesquisa, o Hosped. O texto subdivide-se em três tópicos, com os referidos assuntos já citados, que contribuem para uma análise posterior da atuação do assistente social na política de saúde em um hospital infantil. Para tanto, neste capítulo são referenciados os trabalhos dos autores Simões (2010), Oliveira (2010) e Bravo (2007). 2.1 – Avanços e retrocessos da política de saúde brasileira Desde o período da colonização brasileira existem relatos acerca das problemáticas formas de acesso à saúde, situação que se tornou ainda mais difícil com a chegada da corte portuguesa no país. Entre os principais aspectos destacados, a proliferação de doenças foi possibilitada por tal presença, uma vez que resultava no crescimento do comércio, na entrada de produtos e insumos, bem como aumento do fluxo de pessoas e, por outro lado, as terras brasileiras não estavam preparadas para tantas mudanças (FUNASA, 2013). Todo esse contexto de transformações propiciou o surgimento de doenças, a exemplo da varíola, cólera e febre amarela. A ausência de médicos contribuiu para o quadro, uma vez que estes profissionais não aceitavam migrar para o Brasil diante de tantas dificuldades para exercer a profissão e os baixos salários. A camada mais pobre da população ficava a mercê de remédios naturais, de curandeiros e da ajuda voluntária de algumas pessoas da sociedade (MORAES, s.d). Um fator que impulsionava drasticamente a situação era o déficit do saneamento, tendo em vista que a junção de condições precárias de moradia, fossas ao céu aberto e alimentação 6 deficiente só faziam crescer as expressões da questão social 3 . Posteriormente, a classe trabalhadora passou a requerer melhores condições sanitárias, e o Estado, que estava com uma maior intervenção nessa área, começa a dar os primeiros passos rumo à criação de uma “política de saúde”. Por volta do século XIX, um relativo avanço na criação de vários institutos de pesquisas e laboratórios de análises clínicas começa a ser percebido, bem como o crescimento da pesquisa epidemiológica e sanitária dos médicos sanitaristas, fator que favoreceu a descobertas de várias vacinas e métodos de controle de proliferação de doenças no país (MORAES, s.d). O descaso e a pressão das autoridades propiciaram respostas violentas por parte da população, que não entendia as medidas tomadas pelo Estado, o que culminou com a revolta da vacina em 1904. Na verdade tal revolta da população foi propiciada pela falta de comunicação entre Estado e sociedade, mais especificadamente, da população mais carente que não tinha acesso às informações sobre saúde pública, então quando o governo resolveu obrigar as pessoas a se vacinarem, os mesmos ficaram bastante receosos, tendo em vista que o governo não discutia com a população os meios de controle de doenças (bem como outras questões elementares resolvendo as diversas políticas), assim a população ficou sem entender os reais motivos da vacinação, e não aceitaram as medidas do governo (MORAES, s.d). A saúde nunca representou uma área de grande interesse para as autoridades, ao longo dos governos, o que ainda hoje é perceptível, e apesar de algumas mudanças, não havia pleno acesso das classes mais pobres a um sistema realmente universal. O que se nota com o decorrer dos anos é uma amenização dos diversosproblemas sociais que acometiam a sociedade brasileira e, contudo, estas ações só foram motivadas pela pressão popular e pelas greves trabalhistas. (BRAVO, 2007). Em 1923, numa tentativa de estreitamento das relações entre Estado e sociedade, foram criadas as Caixas De Aposentadorias e Pensões (CAPs), que inicialmente eram exclusivos para trabalhadores das estradas de ferro, sendo posteriormente criadas para as demais classes trabalhistas. As CAPs abrangiam assistência médica somente a esta parcela restrita da 3 A questão social não é senão as expressões do processo de formação e desenvolvimento da classe operária e de seu ingresso no cenário político da sociedade, exigindo seu reconhecimento como classe por parte do empresariado e do Estado. “É a manifestação, no cotidiano da vida social, da contradição entre o proletariado e a burguesia, a qual passa a exigir outros tipos de intervenção mais além da caridade e repressão”. (CARVALHO e IAMAMOTO, (1983, p.77) 7 população mediante contribuição de uma determinada porcentagem do salário. (SIMOES, 2010). Posteriormente, durante a Era Vargas (1930), são criados os Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAPs) como resultado de pressões trabalhistas ocorridas em todo o Brasil. Houve então a substituição das caixas pelos institutos, e os contribuintes passaram a ser separados por categorias profissionais. Neste novo formato o Estado entra como contribuinte, o que difere do antigo regime das caixas. (VARGAS, 2008). Foram notados muitas conquistas trabalhistas e o acesso a variados serviços, mas estas vitórias favoreceram em maior grau os portadores de carteira de trabalho. A conjuntura brasileira estava centrada numa grande instabilidade econômica e o mercado agroexportador estava tendo dificuldades de se manter. Os reflexos da economia foram sentidos numa grande parcela social do país. (SIMÕES, 2010) Getúlio Vargas é conhecido até hoje como o presidente que mais privilegiou os direitos trabalhistas no Brasil. Porém é importante frisar que isso se deu devido às expressivas manifestações que assolavam o país naquela época. A questão da saúde neste governo obteve avanços importantes para a classe trabalhadora, contudo quem não tinha acesso aos serviços previdenciários continuava a recorrer a hospitais filantrópicos e à caridade pública. O mesmo ficou popularmente conhecido como o “pai dos pobres”, e tinha como características de sua gestão o nacionalismo e o populismo, enfatizando o amor à pátria e ao povo. Algumas de suas principais realizações como presidente foram a criação da Justiça do Trabalho (1939), a instituição do salário mínimo e a Consolidação das Leis do Trabalho, também conhecida por CLT. Os direitos trabalhistas também são frutos de seu governo, tais como a carteira profissional, férias remuneradas, entre outros. (VARGAS, 2008). Na conjuntura da década de 1930, a sociedade brasileira passava por inúmeras transformações. Graças ao desenvolvimento do capitalismo e ao processo de industrialização, estes acontecimentos agravaram cada vez mais às expressões das questões sociais. Neste período, a saúde estava dividida em dois subsetores: Saúde Pública, responsável pela promoção e prevenção da saúde, com também organizações de campanhas sanitárias, e a Medicina Previdenciária, onde somente quem tinha acesso eram trabalhadores devidamente regulamentados na previdência social (BRAVO, 2007). Em 1941, ocorre um fato de suma importância para a construção de uma sociedade mais conscientizada acerca dos direitos, a 1º Conferência Nacional de Saúde (CNS), que discutia a defesa sanitária da população, assistência social aos indivíduos e às famílias, 8 proteção da maternidade, da infância e da adolescência. Em 1949, surge o Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), com objetivo de formular estratégias de controle e prevenção de doenças (CANDIDO, 2006). Mesmo com a criação do Ministério da Saúde, no ano de 1953, não houve muita eficiência por parte do mesmo, tal fato ocorreu principalmente por falta de investimento. O contexto neste período é de relativo investimento na saúde, contudo a população enfrentava ainda inúmeros obstáculos no acesso à saúde como a falta de funcionários, equipamentos essenciais e as precárias unidades de atendimento. Entretanto, no governo de Eurico Gaspar Dutra, ainda na década de 1950, um investimento maior é verificado no que se refere à modernização e sofisticação de equipamentos hospitalares, nesta época também ocorre a 2º CNS, que discutia temas relevantes à saúde do trabalhador (CANDIDO, 2006). A situação do Ministério foi dificultada ainda mais em 1964, no período da ditadura brasileira, quando ocorreu um reducionismo de verbas para a saúde pública. Este período é marcado pelo aumento da repressão, cerceamento da liberdade e negação de direitos. Houve muita violência com a população que se mostrava contrária às medidas dos governantes. Economicamente o país passou pelo chamado “Milagre Econômico”, que foi um período de bastante crescimento da economia brasileira. O PIB brasileiro crescia a uma taxa de quase 12% ao ano, e a inflação beirava aos 18%. Através de investimentos internos e empréstimos do exterior, o país cresceu e estruturou uma base de infraestrutura. (VARGAS, 2008). O Brasil passou a ser presidido por militares, dentre eles é possível citar o Marechal Castelo Branco (1965-1967), Marechal Costa e Silva (1967-1969) e Emílio Garrastazu Médici (1969-1974). Contudo, este último é caracterizado como o mais repressivo, ficando o período de seu governo conhecido como “anos de chumbo”. Já o presidente Castelo Branco usou do autoritarismo do seu cargo para extinguir partidos políticos e cassar mandatos. A gestão de Costa e Silva foi marcada por manifestações em todo o país contra a ditadura (FAUSTO, 1996). Contudo, o que acontecia no país naquela época, os mais prejudicados eram os sujeitos das camadas mais carentes da população, que ficava às margens da sociedade e a mercê do assistencialismo. Ainda no período entre a década entre 1960 e 1970, a 3º CNS que propunha ampliação do plano nacional de saúde entre os três governos, e a 4º CNS, que discutia a municipalização dos serviços de saúde e condições sanitárias do país. (CANDIDO, 2006).) http://www.suapesquisa.com/o_que_e/inflacao.htm 9 Em 1966 foi criado o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), concentrando toda a gestão no Estado. Com o INPS, os IAPs são extintos. O país permanecia sob o regime ditatorial e os direitos básicos à saúde continuavam tensionados. Porém, aconteciam no país movimentos populares organizados, e o governo repreendia com violência a qualquer tipo de manifesto da população. No ano 1971, surge a Central de Medicamentos (CEME), que tinha como objetivo distribuir medicamentos para a população de forma gratuita. Contudo, o projeto não funcionou da maneira como esperado, por questões burocráticas e de poder. Não havia medicamentos essenciais para a população, assim como nem todos conseguiam adquirir os produtos, diante da burocracia para sua aquisição. (CÂNDIDO, 2006). Em 1974, o INPS dá lugar ao Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS), oferecido aos contribuintes da previdência. A grande parte do atendimento aos beneficiários se dava por meio da rede privada de saúde. O Ministério da Previdência e Assistência Social via INAMPS, continuava predominando com as ações curativas, permanecendo a instabilidade do esquema de custeio das despesas previdenciárias e persistindo o padrão de privatização da medicina. Esta situação revela que o regime não conseguiu realizar as mudanças necessárias no sistema previdenciário e de saúde, caracterizando-se assim sua inoperância diante dos problemas econômicos, sociais e políticos que se explicitaramna década de 1970. (BRAVO, 2007, p. 66) É nesta década que surge no meio universitário a proposta da Reforma Sanitária, que tinha, dentre outros objetivos, a universalização das políticas sociais e o acesso igualitário e de qualidade a saúde para os brasileiros. O Movimento Sanitário, apesar de ter se constituído, no seu início, de um conjunto de intelectuais e técnicos de proporções reduzidas, ao longo dos anos ganhou o reforço e a contribuição das lutas específicas de diversos setores da sociedade civil (sindicatos, partidos, associações), ainda que de forma não orgânica, muitas vezes. [...] Uma das questões que se coloca para o movimento sanitário é como tornar efetiva a presença da sociedade civil nas políticas de saúde, ou seja, como se articular de forma mais orgânica com os diversos setores da sociedade civil. (BRAVO, 2007, p. 29) No ano de 1975 aconteceu a 5º CNS que focava a participação da população. No ano seguinte foi criado o Programa de Interiorização das Ações de Saúde e Saneamento (PIASS), com o objetivo de estruturar a saúde pública. Tinha como frente de ação a assistência individualizada e integrada à saúde, o saneamento básico de forma simplificada e 10 alimentação e nutrição do segmento populacional mais carente. No ano posterior, durante a 6º CNS, a discussão pautava a política nacional de saúde. (CANDIDO, 2006) No período compreendido entre 1979 até 1985, o país passou por outra crise econômica, o qual resultou na redução de verbas públicas e a previdência enfrenta problemas de cunho financeiro (MORAES, s/d). Em 1980, ocorreu a 7º CNS com o objetivo discutir o desenvolvimento do Programa Nacional de Serviços Básicos de Saúde (PREV-SAÚDE), que não chegou a ser colocado em prática no Brasil. (CANDIDO, 2006). Nos anos de 1980 a 1990, o país vivia sob uma forte crise econômica, houve cortes nas verbas destinadas às políticas sociais. O rebatimento atinge a saúde, o que provocou um acesso limitado a diversas especialidades médicas, hospitais e unidades de saúde em precárias condições de estrutura, dentre outros agravos. Apesar da conjuntura social não se apresentar favorável, a sociedade já não se encontrava sob um governo ditatorial e vivia uma relativa democratização. No ano de 1983, foi criado as Ações Integradas de Saúde (AIS), com o objetivo de integrar as ações curativas, educativas e preventivas. (CANDIDO, 2006). A 8° CNS, realizada em março de 1986, foi um grande marco na questão saúde e propiciou uma conscientização política e de direitos para diversas categorias profissionais, como podemos perceber no seguinte trecho: Na VIII CNS, realizada em Brasília, em 1986, foram debatidos inúmeros temas inovadores, sobretudo sobre a instituição de um sistema único de saúde e a relação entre a saúde pública e a sociedade civil. O sistema único descentralizado da previdência social deveria centralizar as políticas governamentais para o setor e, ao mesmo tempo, regionalizar o gerenciamento da prestação de serviços, priorizando o setor público e universalizando o atendimento. (SIMÕES, 2008, p. 127). Esta conferência é importante, tendo em vista que propagou os ideais de direitos e deveres para com a saúde da população. A pressão popular foi um fator importante para o surgimento do Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde (SUDS), que se baseava no princípio de integração dos serviços do setor, constituindo uma rede hierarquizada e regionalizada. Este sistema já contava com a participação da comunidade para a prestação de serviços locais. Posteriormente, com o surgimento do SUS, a função de organizar as ações do Ministério da Saúde ficou com o novo sistema. (BRAVO, 2007). No ano de 1990 dois projetos antagônicos estavam em pauta: o da reforma sanitária, que dentre outros objetivos lutava pela garantia de direitos e universalização das políticas sociais: “(...) sua preocupação central é assegurar que o Estado atue em função da sociedade, 11 pautando-se na concepção de Estado democrático e de direito, responsável pelas políticas sociais e, por conseguinte, pela saúde” (BRAVO, 2007, p. 101), e o projeto saúde, ligado ao mercado privado, que “(...) consiste em garantir um mínimo aos que não podem pagar, ficando para o setor privado o atendimento dos que têm acesso ao mercado (BRAVO, 2007, p. 101)”. Ao meu ver, os projetos representam claramente os dois interesses do poder no país. Os poderes privado x público simbolizam as relações sociais na qual se encontram a sociedade brasileira, diferenciando-se em seus interesses. Há sempre um debate entre os dois, nos mais diversos setores sociais, para que seus projetos se tornem hegemônicos. É bem notável que o projeto privatista é sempre, ou quase sempre, o mais priorizado. É também neste período que houve um ganho para toda a sociedade, que foi a aprovação em 19 de setembro de 1990, da Lei Orgânica da Saúde (Lei n° 8.080/90), acontecimento que garantiu o acesso universal para todos os brasileiros. Em 1988, com a promulgação da Constituição Federal, o SUS, como explicitado anteriormente, tornou-se um sistema acessível a todos. Tendo como atribuições previstas nos art.° 200: I - controlar e fiscalizar procedimentos, produtos e substâncias de interesse para a saúde e participar da produção de medicamentos, equipamentos, imunobiológicos, hemoderivados e outros insumos; II - executar as ações de vigilância sanitária e epidemiológica, bem como as de saúde do trabalhador; III - ordenar a formação de recursos humanos na área de saúde; IV - participar da formulação da política e da execução das ações de saneamento básico; V - incrementar em sua área de atuação o desenvolvimento científico e tecnológico; VI - fiscalizar e inspecionar alimentos, compreendido o controle de seu teor nutricional, bem como bebidas e águas para consumo humano; VII - participar do controle e fiscalização da produção, transporte, guarda e utilização de substâncias e produtos psicoativos, tóxicos e radioativos; VIII - colaborar na proteção do meio ambiente, nele compreendido o do trabalho. (BRASIL, 1988) É importante destacar que tais atribuições previstas na Carta Constitucional brasileira devem ser direcionadas a todos os sujeitos e usuários de saúde, e uma parcela importante da população que necessita de atendimento, inclusive em caráter de prioridade, são as crianças e adolescentes. A saúde pediátrica será ponto de análise no próximo tópico.. 12 2.2 – Contexto Histórico da Saúde Pediátrica no Brasil, Rio Grande do Norte e Natal/RN Entende-se por pediatria como a área da medicina responsável pelo cuidado de crianças e adolescentes até 18 anos. Estima-se que o ramo surge ao final do século XIX como uma forma de tratamento para crianças, tendo em vista o alto grau de mortalidade infantil no mundo. Ela não atende a um campo específico da medicina, mas sim toda a fase do desenvolvimento da criança e os anos da adolescência (OLIVEIRA e ROGRIGUES, 2004). Na Europa, surgiu em meados da década de 1870 o Movimento para a Saúde da Criança e este tinha como perspectiva central preservar a vida das crianças e reivindicar um atendimento mais específico, voltado, para as moléstias que acometiam os pequenos. Tal fato foi ocasionado pelas taxas crescentes de mortalidade infantil no país. O cuidado para com os indivíduos foi focado, inicialmente, nos recém-nascidos, com a criação de incubadoras, o que proporcionou maior chance de vida para muitos neonatos. (OLIVEIRA e ROGRIGUES, 2004). Em meados do século XIX, as crianças eram ignoradas pelos médicos, não havia instituições que se dedicassem aos cuidados com as crianças. Esperava-se que as crianças nascidas prematuramente fossem ao êxito letal, assim como também aquelas crianças nascidas com malformações. Havia um sentimento de que a seleção natural se encarregaria das crianças“menos adaptadas” à sobrevivência, tal como sugerido pelo termo “fracote” atribuído às crianças prematuras. (OLIVEIRA e RODRIGUES, 2005, p. 02). Em 1922, foi inaugurado em Chicago, Estados Unidos (EUA), o primeiro centro para atendimento a prematuros, um evento importante para o alastramento da pediatria em todo o mundo. É também neste momento que passaram a ocorrer inovações em equipamentos hospitalares. (PEREIRA, 2005). Os avanços médicos e tecnológicos da época propiciaram grandes transformações no cuidado neonatal durante e após o parto. As fundações que antes eram designadas para prestar assistência a crianças abandonadas foram modificadas e transformadas em hospitais infantis e os pediatras assumiram um grande papel no tratamento neonatal. Na primeira década do século XX, ocorreu a contribuição dos pediatras para a ciência no tocante à neonatologia, com estudos sobre a alimentação (natural e artificial) e a prematuridade. (OLIVEIRA e RODRIGUES, 2005, p. 03). 13 No Brasil, a pediatria surgiu por volta do ano 1899, mas houve um processo gradual de reconhecimento desta ciência medica. Carlos Arthur Moncorvo de Figueiredo é considerado o “pai” da especialidade no Brasil e criou o primeiro curso no país. Também fez de sua residência, um local para o atendimento de crianças, no Rio de Janeiro. A abertura desta clínica é considerada como marco do surgimento pediátrico no país. Ainda neste período é criado o Instituto de Proteção e Assistência a Infância no RJ, por Moncorvo. Representante do modelo assistencial filantrópico, Moncorvo Filho acreditava na ciência como promotora da assistência a população visando à preservação de problemas futuros. A primeira iniciativa que tomou visando à fundação de um instituto que privilegiasse suas ideias foi pesquisar as instituições, fossem elas públicas ou privadas, existentes na antiga capital da república, que tinham por fim amparar e recolher as crianças desvalidas. Em consonância com o modelo de conhecimento de sua época, Moncorvo Filho, lançou-se na investigação de seu objeto, tratando de apontar as deficiências dos estabelecimentos existentes e de sustentar a necessidade de uma instituição que tivesse como pilares a assistência filantrópica e os preceitos higiênicos. (GARCIA e JÚNIOR, 2010, p. 06). Algumas das ações desenvolvidas no instituto eram “proteger as crianças pobres, doentes, defeituosas, maltratadas e moralmente abandonadas, difundir entre as famílias pobres e proletárias, noções elementares de higiene infantil” (GARCIA e JÚNIOR, 2010, p. 07). Um fato, no mínimo curioso, era que o referido instituto promovia anualmente, a cada comemoração do dia das crianças (nas datas de 12 de outubro) um concurso denominado de Robustez, com o objetivo concurso de premiar as crianças, mais especificadamente, os bebês mais saudáveis. As crianças tinham que ser alimentadas, exclusivamente, pelo leite materno, e as mães teriam que comprovar atestado de pobreza. O vencedor ganhava uma boa quantia de dinheiro. Notamos aqui, uma aproximação com os ideais eugenistas que assolavam a época, que propagavam ideias que somente os brancos eram os exemplos perfeitos de saúde, tendo em vista que os brancos eram, geralmente, os vencedores. (OLIVEIRA, 2010) Neste sentido, a criança torna-se então, um ser que adquiria mais atenção da medicina, atenção esta que não foi evidenciada ao longo dos anos, mas gradativamente, e mesmo com tantas problemáticas foi ganhando espaço. O saber higienista passou a ecoar em instituições com a escola, o hospital, a família, etc. Sob o argumento da proteção à infância, normatizando condutas, docilizando corpos e delimitando fronteiras entre o normal e o 14 patológico. Segundo os higienistas, as famílias deveriam ser núcleos particularizados, lares ‘’santos’ ’em que a mulher seria a ‘’rainha do lar’’ e a criança o ‘’reizinho da casa’’ onde qualquer desvio poderia implicar na culpabilizacao desta família que não foi suficientemente boa (e competente) para educar o seu filho, justificando a intervenção do Estado. (GARCIA e JÚNIOR, 2010, p. 03). Esta citação nos remete que a divisão de classes e funções dentro de uma família origina-se desde os primórdios da civilização. Cada pessoa exerce um papel no âmbito familiar: para a mãe sempre foi destinada a função de cuidar do lar e das crianças, aspecto que ainda se observa nos dias atuais. As mulheres são, em sua grande parte, as responsáveis pelo acompanhamento dos filhos em hospitais, esta questão é explicada em sua grande parte pela questão de gênero. A criança foi obtendo, aos poucos, papel central nas discussões médicas, e a pediatria foi se expandindo, porém em número pequeno se comparado às outras especialidades. Em 1908, Carlos Arthur Moncorvo de Figueiredo criou a primeira creche popular para crianças carentes, sendo considerado um grande benfeitor do atendimento aos mais necessitados, reconhecido até hoje na área médica por suas grandes contribuições ao ramo. (GARCIA e JÚNIOR, 2010). Percebe-se que a filantropia era à base de acesso dos mais necessitados socialmente, e que o Estado sempre foi um negador de direitos mínimos de sobrevivência. A filantropia revelou-se como a melhor estratégia para dar conta à assistência à população pobre: atendendo a realidade da sociedade moderna em que o Estado liberal era solicitado apenas para a fiscalização, coube a iniciativa privada a execução de projetos voltados para o bem-estar da população através de iniciativas particulares em que seus idealizadores estavam imbuídos de um sentimento patriótico. (GARCIA e JÚNIOR, 2010, p. 05). Em 1910, foi criada a Sociedade Brasileira de Pediatria, que estava voltada para o estudo das doenças e problemas infantis. Esta sociedade foi importante, pois organizou e formulou aspectos essenciais a profissão aqui no país. (GARCIA e JÚNIOR, 2010). Apesar de toda dificuldade da população no acesso a saúde pública, o ramo da pediatria foi criando seu espaço na sociedade brasileira. Consultórios foram sendo construídos em todo o país, porém o número de profissionais, comparado aos outros ramos da medicina, ainda se mostrava insuficiente. Tais dificuldades eram ainda mais intensificadas quando a criança era de baixa renda. Nesta época a procura por hospitais filantrópicos era bastante crescente. 15 No Rio Grande do Norte, a situação era ainda mais difícil, por ser um estado que não tinha muita visibilidade em relação às grandes metrópoles, fato que colocava a saúde pediátrica em um quadro quase inexistente. O início da atenção à criança no RN ocorreu em sua maior parte pela filantropia social de médicos e pessoas da alta sociedade norte rio- grandense (OLIVEIRA, 2010). Em 12 de outubro de 1917, ocorreu a fundação do Instituto de Proteção e Assistência a Infância (IPAI), que foi o pioneiro no atendimento de saúde pediátrica no estado. Posteriormente o instituto passaria a se chamar Hospital Infantil Varela Santiago, em homenagem ao Dr. Varela Santiago, que oferecia atendimento gratuito às crianças carentes da cidade e do interior. Em relação à estrutura do instituto observamos: O Instituto de Proteção e Assistência a Infância, fundado por Varela Santiago em 12/07/1917, e um índice de capacidade realizadora. Os serviços de assistência médica e profilaxia constam de um ambulatório com as clinicas medicas, cirúrgicas, dentarias e de olhos, nariz, garganta e ouvidos, um laboratório de análises clinicas e microscópicas, um gabinete de fisioterapia, uma farmácia, uma seção hospitalar com duas enfermarias. (OLIVEIRA apud CASCUDO, 2010, p. 28). Era uma instituição filantrópica, mantida pela sociedade e com o grande empenho do Dr. Varela Santiago. O IPAI logo se tornou referência para atendimento infantil no Rio Grande do Norte. O governador do estado, Dr. Antônio Jose de Meloe Sousa, doou o terreno para a construção da sede própria do hospital, que iniciou suas atividades no dia 11 de março de 1923, na Avenida Deodoro, onde permanece até os dias atuais. (OLIVEIRA, 2010). Em 1930, os atendimentos no instituto são interrompidos devido ao movimento revolucionário, ocorrido na capital, ficando com a responsabilidade de atender as crianças, o Hospital Juvino Barreto. A unidade não tinha condições físicas nem profissionais de oferecer um atendimento qualificado para os pequenos usuários, já que os funcionários lidavam somente com adultos. O quadro político da época, no panorama estadual, evidenciava diversos conflitos e repressões: o então governador Juvenal Lamartine atacou os partidos e a imprensa de oposição, criando diversos conflitos em seu mandato. Os problemas de ordem social estavam cada vez mais visíveis em meio a tantas dificuldades de acesso da população a saúde, educação e moradia. Com isso, o atendimento pediátrico mostrava-se insuficiente para a população, e recebia pouca ou nenhuma atenção dos políticos que estavam no poder. 16 O Hospital da Caridade Juvino Barreto – atualmente Hospital Universitário Onofre Lopes – era dirigido pelo médico Dr. Januário Cicco. Com a transferência dos pacientes para o Juvino Barreto, as despesas hospitalares aumentaram significativamente, motivou que impulsionou a doação, pelo prefeito de Natal na época, Omar O’Grady, de um terreno para a construção da maternidade, cuja construção foi iniciada em janeiro de 1932 (OLIVEIRA, 2010). Neste processo histórico, a capital potiguar desenvolvia sua economia e infraestrutura com ações voltadas para a exportação de produtos, principalmente frutas. O IPAI voltou a funcionar em julho de 1932, e o atendimento retornou aos poucos, ocorrendo também a construção de novas instalações. Em 1935, o Hospital Juvino Barreto torna-se o Hospital Miguel Couto e de acordo com Oliveira (2010) passou então, a atender também ao público infantil. Em 12 de outubro de 1936, depois de várias ampliações e reformas, foi inaugurado o Hospital Infantil Varela Santiago (antigo IPAI). A maternidade de Natal foi inaugurada em 12 de fevereiro de 1950, apesar de sua construção ter se iniciado muitos anos antes, o prédio da Maternidade foi cedido para ser Quartel General das Forças Aliadas e Hospital de Campanha na II Guerra Mundial, o prédio só foi desocupado em 1947, e após alguns meses da sua inauguração recebeu o nome de Maternidade Januário Cicco (OLIVEIRA, 2010). As enfermidades mais recorrentes nas crianças potiguares eram a coqueluche, varicela, difteria, entre outros. O estado apresentava altos índices de mortalidade infantil, principalmente por desidratação e desnutrição. Apesar de algumas iniciativas para a proteção e atendimento às crianças carentes, como a criação do Pavilhão de Assistência à Infância, que oferecia assistência hospitalar e abrigava crianças desamparadas, o atendimento pediátrico no RN ainda não era suficiente para as demandas apresentadas. (OLIVEIRA, 2010). Em 1957, o Dr. Varela deixou a presidência e a direção do hospital infantil, e quem assumiu o cargo foram Aluízio Alves e Dr. Silvino Lamartine, respectivamente. Na maternidade, o então médico Januário Cicco, convidou o professor Heriberto Ferreira Bezerra para trabalhar no berçário da maternidade. (OLIVEIRA, 2010). Uma das problemáticas mais evidentes naquela época referia-se ao atendimento de urgência para as crianças, conforme relatado na seguinte fala: (...) não tinha pronto socorro, quer dizer, não tinha pronto socorro infantil, e a gente trabalhava em casa. Cansei de trabalhar a noite, atender dois, três 17 chamados noturnos. Atender crianças até distantes, no bairro do alecrim, porque não tinha (atendimento) em outros cantos. (MARQUES apud OLIVEIRA, 2010, p. 43). Para as famílias mais carentes restavam, muitas vezes, o apelo para os médicos, tendo em vista o quadro apresentado anteriormente e somando-se a este fato todos os problemas de saneamento na cidade. Atendendo nas dependências da Maternidade com um grande número de demandas, o espaço tornou-se cada vez mais insuficiente, necessitando, portanto, expandir o atendimento para outro prédio que comportasse melhores estruturas. Surgiu, nessa perspectiva, o Hospital de Pediatria, que mais tarde seria incorporado a UFRN e passaria a se chamar Hospital de Pediatria Professor Heriberto Ferreira Bezerra (HOSPED). No próximo tópico será explanado a importância dessa instituição à saúde pediátrica do estado. 2.3 – Hospital de Pediatria: HOSPED - O lócus da pesquisa Como foi relatado no tópico anterior, o atendimento infantil passa a acontecer no ambulatório da Maternidade Januário Cicco, sendo o berçário, o responsável inicialmente da requisição de pediatras. Em 1956, é formada a primeira turma de médicos pediatras do Estado, e o campo de aprendizado e atuação foi na Maternidade (OLIVEIRA, 2010). O Dr. Heriberto Ferreira Bezerra continuava no comando das ações. Começamos do nada e aos poucos fomos ocupando áreas da própria maternidade, por exemplo, os ambulatórios de pediatria e depois os internamentos, de maneira muito incipiente. Tudo isso funcionou num pedaço da maternidade, numa pequena área. A pediatria como disciplina de faculdade de medicina começou a funcionar em 1961 ainda sem ambulatório com os doentes vindos de fora, depois a pediatria recebeu, pela boa vontade do diretor, o ambulatório que começou a funcionar num pedaço da maternidade desde 1962. (BEZERRA apud OLIVEIRA, 2010, p.53). Alguns anos depois, em 1958, foi criada a UFRN, federalizada em 18 de dezembro de 1960 através da Lei Nº 3.849. O primeiro reitor foi o professor Onofre Lopes da Silva, e o HOSPED seria campo de atuação de muitos alunos da UFRN. Com o passar dos anos, as dependências da maternidade não suportavam o grande número de atendimentos relacionados à pediatria, o que impulsionou a luta por uma área própria. 18 Em 1962 aconteceu a ampliação da área de atendimento pediátrica, bem como a criação do Departamento de Pediatria. O Dr. Heriberto conseguiu ajuda do reitor da universidade, Dr. Onofre Lopes, para que fosse executada a ampliação. É interessante destacar que a amizade com pessoas que detêm certo tipo de cargo de influência na sociedade possibilita certos ganhos pessoais e públicos, e isso acontece desde muito tempo. Diversas consultas e atendimentos são marcados assim no Brasil. (OLIVEIRA, 2010). Na década de 1960, com o Brasil condicionado à ditadura os direitos políticos e sociais reprimidos arduamente pelos militares, na capital, a história não foi diferente do que acontecia no resto do país. O governador do estado, Aluízio Alves, passou a apoiar os militares, enquanto que o prefeito, Djalma Maranhão, posicionou-se contra o movimento imposto pela ditadura, e incentivou o povo a resistir à opressão imposta e lutar pela democracia. (OLIVEIRA, 2010) O hospital foi inaugurado na década de 1970, com próprias dependências e instalações. Com isso, o atendimento infantil foi intensificado, oferecendo mais conforto e qualidade para os usuários. Na verdade quando o hospital foi inaugurado, em 1972, pela primeira vez a gente passou a dispor de um centro cirúrgico onde arem feitas as cirurgias infantis. Isso foi um grande marco, um grande espaço, porque até então se utilizava o centro cirúrgico da MEJC, um centro cirúrgico geral e a gente passou de um centro cirúrgico lá unicamente voltado à criança, esse também foi um grande marco. (NEI apud OLIVEIRA, 2010, p. 63). Um acontecimento, nesse período, que possibilitou reatualizações de práticas médicas voltadas para pediatria em Natal, foi o Navio Hope (navio-escola), um “intercâmbio” entre profissionais, com ações resultantes da parceria da UFRN com a Universidade do Arizona (EUA). Acerca do navio Hope, é relatado:(...) a gente participava de aula no navio Hope, ajudou muito, tinha muitos médicos pediatras, veio até um médico que passou muito tempo na pediatria, Dr Duncan, que ajudou muito a pediatria, incentivou muito as práticas atualizadas (MARQUES apud OLIVEIRA, 2010, p.64). Após muitos anos na direção do hospital, Dr. Heriberto foi substituído por Drª Eleide. Na nova gestão, a unidade ampliou as suas instalações físicas. Um fator que contribuiu para o aumento na disponibilidade de médicos pediatras na instituição foi a residência, que 19 possibilitou não só um atendimento mais abrangente, mas serviu de local para exercício da prática médicas dos recém-formados no curso de medicina. Após um longo período de tentativas, o hospital de pediatria foi incorporado à UFRN, fazendo parte da rede hospitalar de hospitais universitários de Natal. Foi reconhecido como hospital de ensino universitário pelo Conselho de Administração (CONSAD), através da Resolução N.º 038/94, de 24 de Novembro de 1994, e a homologação do Conselho Universitário (CONSUNI), por meio da Resolução N.º 02/95, de 28 de abril de 1995. No dia 23 de maio de 1995, foi inaugurado e oficializado como hospital pertencente à Universidade (OLIVEIRA, 2010). A primeira diretora foi Drª Jozana do Rosário de Moura Caetano, que continua até os dias atuais à frente do Hosped. O hospital de pediatria ganha o nome de Hospital de Pediatria Professor Heriberto Ferreira em 20 de maio de 2005, através da Resolução Nº 009/2005, do CONSAD. O hospital tenta ainda, mesmo após sua oficialização pelo Ministério da Educação, ser reconhecido como hospital da rede do SUS, já que se encontra bastante ligado à Maternidade Januário Cicco, conforme descrito. Outro desafio a enfrentar é do reconhecimento, da nossa autonomia como hospital universitário, porque continuamos na imprecisão, quer dizer, existe o hospital universitário reconhecido pelo MEC, mas não existe para o Ministério da Saúde. Para o Ministério da saúde o hospital continua sendo uma instituição prestadora de serviços, mas o vínculo é da maternidade [...] (CAETANO apud OLIVEIRA, 2010, p.71). A estrutura física do HOSPED atualmente compreende: 39 leitos no setor de enfermaria clínica, sendo seis cedidos à MEJC para gestantes de alto risco, e a enfermaria cirúrgica, com oito leitos, totalizando 47 leitos. Sua estrutura física conta com enfermaria clínica, centro cirúrgico, sala de pequenas cirurgias, e os setores de farmácia, nutrição, serviço social, brinquedoteca, serviços gerais, psicologia, recepção, ambulatório especializado, Serviço de Arquivo Médico (SAME) e o setor administrativo, em prédio anexo (FREIRE e SILVA, 2010). 20 FIGURA 1 – Entrada do HOSPED. Fonte: Imagem cedida pela Instituição. O HOSPED tem como Missão: “Assegurar o direito a uma assistência diferenciada, humanizada e de qualidade, à clientela infanto-juvenil usuária do sistema público de saúde, integrada ao ensino e a pesquisa em saúde da criança e adolescente” E como visão estratégica: “Exercer plenamente as funções acadêmicas - ensino, pesquisa e extensão – num contexto assistencial diferenciado e de qualidade, assegurando a referência especializada, a clientela infanto-juvenil usuária do sistema público de saúde”. (UFRN, 2013) O Hosped atende crianças e adolescentes até os 16 anos. Porém, em algumas situações, também atende a faixa etária dos 18 anos. Isso acontece porque há muitos adolescentes que cresceram praticamente dentro do hospital, em virtude de tratamentos prolongados, então muitos médicos continuam a atendê-los mesmo crescidos. A demanda é praticamente das famílias carentes provenientes do interior do Estado, é possível constatar situações precárias de sobrevivência. Durante a observação participante no estágio curricular obrigatório, em diversas vezes presenciei situações de extrema pobreza, de negação de direitos mínimos, tais como alimentação, vestuário, habitação e outros aspectos. O hospital atende em nível ambulatorial e enfermaria, há também o chamado “hospital- dia”, onde as crianças que necessitam comparecer a unidade para algum tipo de procedimento quinzenal, por exemplo, são atendidas. Algumas das especialidades médicas contempladas pelo atendimento no ambulatório são cardiologia, dermatologia, endocrinologia, gastroenterologia, hematologia e pediatria. 21 FIGURA 2 – Espaço Ambulatorial. Fonte: Imagem cedida pela instituição A enfermaria atende, quase sempre, casos de problemas renais, fibrose cística 4 , pneumonia, entre outras doenças. É hospital de referência em neuropediatra, bem como em outras especialidades médicas. Contudo, a consulta é um procedimento bastante difícil de conseguir. O paciente necessita de encaminhamento emitido pela Secretaria de Saúde do município de origem e enfrentar uma longa fila de espera. Há poucos profissionais nesse ramo da medicina em Natal. Como o HOSPED é campo de estágio para diversas áreas, há muitos programas interdisciplinares em funcionamento, dentre alguns deles: Assistência ao Paciente Portador de Obesidade: Resp. Dr. Ricardo Arraes - endocrinologia; Assistência ao Paciente Portador de Diabetes Tipo I: Resp. Dr. Ricardo Arraes - endocrinologia; Anomalias de Diferenciação Sexual: Resp. Dr. Ricardo Arraes - endocrinologia; Assistência ao Paciente Portador de Fissuras Labiopalatais: Resp. Dr Leonardo Spencer - cirurgião; Percebi, ao longo das observações participantes, que os profissionais realmente são comprometidos com a prestação de um atendimento humanizado e de qualidade para os 4 Também conhecida como Mucoviscidose, é uma doença genética, causada por um distúrbio nas secreções de algumas glândulas, nomeadamente as glândulas exócrinas. (Fonte: fibrosecistica.com) 22 pequenos usuários. O hospital também é referência no atendimento a crianças com suspeita de abuso sexual, ou nos casos em que já foi diagnosticado. É o chamado “hospital porta aberta”, ou seja, que não precisa do encaminhamento de outra instituição ou secretarias de saúde, pois a equipe atende casos desse tipo, prestando toda a assistência para a criança e a família. Juntamente com uma equipe multiprofissional de assistentes sociais, médicos, psicólogos, nutricionais, odontólogos e diversos outros, a criança é atendida de todas as formas que necessita. Este consiste em um diferencial bastante positivo da instituição presenciado logo nos primeiros dias de estágio. É no contexto de atendimento multiprofissional que a profissão de Serviço Social se insere no Hosped. O trabalho das profissionais é de suma importância, especialmente na perspectiva de defesa de direitos na instituição. Aliás, a saúde é um campo muito vasto de negação dos direitos mais básicos. No capítulo a seguir será analisado o trabalho do Serviço social no Hosped, bem como a relação do fazer profissional com os documentos normativos da profissão. 23 3. O FAZER PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL NO HOSPITAL DE PEDIATRIA DA UFRN. A partir de agora analisarei a atuação do Serviço social no Hosped, suas perspectivas e seus desafios. No segundo tópico será feita a relação da atuação das profissionais com os documentos normativos da profissão, importantes instrumentos para se garantir a efetividade e eficácia do fazer profissional. 3.1 – O Trabalho do Serviço Social no HOSPED: desafios e perspectivas O trabalho do Serviço Social, no primeiro momento de sua inserção na conjuntura brasileira estava voltado para a execução pragmática de políticas sociais. Não há uma perspectiva de análise crítica das reais necessidades da população. Muito pelo contrário, há apenas um trabalho técnico voltado para a mecanização de ações burocráticas. (BRAVO,