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UNIDADE
Curso de Graduação 
Filosofia
2
A ESCOLÁSTICA
2.1 Elementos da Escolástica
2.2 Tomás de Aquino (1225-1274) : Dados bibliográficos e o contexto cultural e filosófico
Unidade 2 - A Escolástica
A escolástica compreende o período que segue do século IX ao 
XV. O representante mais importante dessa época é São Tomás de 
Aquino e, portanto, daremos maior ênfase à sua obra, que por ser 
muito vasta, nos leva a eleger falar sobre a sua filosofia prática.
A patrística compreende os períodos II a VII e é representada pelos 
padres da Igreja, que dá origem ao nome. São eles os mestres da 
doutrina cristã da época.
A escolástica, correspondendo aos séculos IX ao XV, é representada 
pelos mestres das escolas de filosofia que se fundam nesse 
período, sendo os mestres da doutrina cristã chamados, por este 
motivo, de escolásticos.
Unidade 2 - A Escolástica
2.1. 
Elementos da Escolástica
- Uma forte relação com a dialética, com a arte do diálogo e da 
refutação.
- Seu grande foco é mais a filosofia cristã do que a teologia. Seu 
maior representante é Santo Tomás de Aquino. Ao contrário de 
Agostinho, a intenção maior de Tomás de Aquino é libertar a razão 
da fé. A razão não pode penetrar nos mistérios da fé, mas pode 
embasar os argumentos sobre a fé, tornando-se prática, útil. 
- A escolástica é dividida em pré-tomista, tomista e pós-tomista, 
tamanha a importância do pensador para esse momento do 
pensamento.
Unidade 2 - A Escolástica
2.2. 
Tomás de Aquino (1225-1274) : Dados bibliográficos e o contexto cultural e filosófico
Santo Tomás de Aquino nasceu em Roccasseca, no sul do Lácio, em uma 
família aristocrática, no ano de 1221. Seu pai, Landolfo, com efeito, era conde 
de Aquino e possuía laços de sangue com as famílias reais de França, Sicília 
e Aragão. Recebeu a primeira educação no mosteiro de Monte Cassino, 
berço da Ordem dos Beneditinos, e posteriormente, em 1239, ingressou 
na universidade de Nápoles. No ano de 1243, ingressou secretamente na 
Ordem dos Dominicanos, recebendo o hábito um ano depois, em 1244, e a 
ordenação em 1250. De 1245 a 1252, deu continuidade aos seus estudos, 
nas universidades de Nápoles, Colônia, onde foi discípulo de Santo Alberto 
Magno, e Paris. Na Universidade de Paris, obteve o título de Magister em 
Teologia. Perambulou, depois desse período, por várias universidades 
europeias, ensinando, escrevendo e se engajando no debate intelectual da 
época. Data desse período a redação de sua obra maior, a Suma Teológica 
(Summa theologiae), que permaneceu, porém, inacabada, em virtude 
dos problemas de saúde que o atormentavam. Faleceu em 1254, em um 
mosteiro em Fossanova, quando se encontrava em viagem para Lyon, a fim 
de participar do concílio que lá se realizaria a pedido do Papa Gregório X.
Conta-se que Tomás, no final de sua vida, teve uma profunda experiência 
mística que o marcou profundamente e que o levou a considerar todo seu 
trabalho intelectual anterior como algo de insignificante e pequeno. De 
fato, relata-se que seu discípulo, Reginaldo de Piperne, vendo a saúde de 
seu mestre declinar e temendo que ele viesse a falecer deixando sua obra 
magna incompleta, instou-o a concluir o seu trabalho. Ao que Tomás teria 
respondido: “Raynalde, non possum, quia omnia quae scripsi videntur mihi 
paleae." 
O horizonte histórico-cultural do século XIII. O ambiente histórico em que se 
dá a formação intelectual e filosófica de S. Tomás de Aquino e a elaboração 
de seus escritos, o século XIII, foi caracterizado por dois acontecimentos 
decisivos e de importância extraordinária para o mundo ocidental: a criação 
das universidades (Bolonha, Paris, Oxford etc.) como centros de estudo que 
institucionalizaram o ensino superior, voltado para uma formação científica 
e filosófica ampla ou universal, e a introdução, no seio da Europa católica, 
das obras completas de Aristóteles.
Como é sabido, a penetração do aristotelismo no Ocidente cristão se deu 
fundamentalmente por meio da ação contínua e sistemática de alguns 
tradutores árabes profissionais pertencentes à cidade espanhola de Toledo, 
no século XII. Esses tradutores verteram as obras aristotélicas do grego para 
o árabe e do árabe essas versões foram traduzidas para o latim. Mais ainda: 
o profuso exercício das traduções não se limitou ao conjunto enciclopédico 
dos escritos peripatéticos, ao Corpus aristotelicum, mas se estendeu 
também aos tratados interpretativos dos principais comentadores árabes 
e judeus de Aristóteles, como Avicebron, Avicena e Averrois, este último 
sendo, quiçá, o maior intérprete do pensamento aristotélico no medievo, ao 
lado de S. Tomás.
 
Ora, para Averrois, que devotava uma monumental admiração pelo gênio 
do Estagirita, a filosofia aristotélica representava a consumação mesma 
do saber filosófico, um sistema coeso e inabalável que encarnava em si a 
própria verdade: “Aristotelis doctrina est summa veritas; finis intellectus”.
A irrupção do aristotelismo é, pois, como se vê, um evento cultural decisivo no 
contexto do século XIII. Como observa Lima Vaz: “É a partir desse momento 
que, em vagas sucessivas, a grande corrente aristotélica, arrastando 
consigo um complexo material da tradição filosófica grega, vai penetrar 
irresistivelmente em todos os centros de estudo do ocidente latino e, 
sobretudo, em Paris, coração intelectual da cristandade e cuja universidade 
acaba de ser constituída.” 
Unidade 2 - A Escolástica
Ora, o confronto inicial produzido pelas teses cardeais do aristotelismo, 
até então ignoradas pelo mundo cristão (até o século XIII, as únicas obras 
aristotélicas conhecidas pela cristandade eram aquelas pertencentes 
ao Órganon), com os princípios e dogmas fundamentais da organização 
doutrinário-religiosa do cristianismo católico, foi perturbador e problemático.
De fato, como compatibilizar o conceito de matéria como ente eterno e 
incriado, espécie de divindade inerte, pertencente à física aristotélica, com 
a concepção da criação do mundo por Deus a partir do nada (creatio ex 
nihilo)? Ou como harmonizar a visão sustentada, no âmbito da psicologia, por 
aristotélicos mais ortodoxos e radicais, como Averróis, da impossibilidade 
racional da sobrevivência da alma após dissolução do corpo, com o dogma 
da imortalidade pessoal?
Em virtude desses choques, que colocavam em crise os fundamentos 
de determinadas concepções dogmáticas cristãs, nada mais natural que 
as primeiras atitudes das autoridades eclesiásticas da época fossem a 
condenação e a proibição do ensino e da circulação das obras aristotélicas nas 
universidades católicas. É o que aconteceu, de fato, em 1210, primeiramente, 
no concílio provincial de Paris, sob pena de exclusão; posteriormente, em 
1215, como regulamento incluso nos estatutos da universidade de Paris; e, 
finalmente, em 1231, por meio de um decreto expedido pelo Papa Gregório 
IX.
No entanto, a reação das autoridades eclesiásticas não foi capaz de impedir 
a profusão triunfante do aristotelismo, o que engendrou, consequentemente, 
a necessidade iminente de uma assimilação das categorias científico-
filosóficas de Aristóteles por parte do pensamento especulativo cristão, 
sob pena de se desestabilizarem ainda mais os alicerces sobre os quais se 
erguia a cosmovisão cristã do mundo.
É desse ingente e monumental esforço intelectual e filosófico de assimilação 
do pensamento aristotélico que se originou o apogeu do movimento 
escolástico, “novo e decisivo capítulo na história das relações entre 
cristianismo e filosofia”, capítulo do qual S. Tomás é, sem dúvida nenhuma, 
o maior expoente.
Fonte
Tomás de Aquino.
https://filosofiapuntes.blogspot.com/2019/01/santo-tomas-de-aquino-vida-y-obra-1225.html
Unidade 2 - A Escolástica
2.2.1
A metafísica de Tomás de Aquino 
São Tomás de Aquino assume integralmente 
a concepção aristotélica da Metafísica como 
ciência das primeiras causas e dos primeiros 
princípios, ciência do ser enquanto ser e ciência 
do que é imóvel e separado. Se não, vejamos.
Tomásde Aquino considera que todo o 
conhecimento verdadeiro é sempre uma etiologia, 
vale dizer, uma explicação pelas causas. Vere 
scire, per causas scire. Ora, por oposição às 
outras ciências, que abordam apenas causas 
e princípios mais imediatos, a metafísica ou 
filosofia primeira pretende levar às últimas 
consequências o discurso etiológico e alcançar 
aquilo que constituiria as causas primeiras de 
tudo aquilo que é. Como esclarece o Aquinate 
em Contra gentiles (III, 25): “Há em todos os 
homens um desejo natural de conhecer a causa 
daquilo que eles percebem (Naturaliter inest 
omnibus hominibus desiderium cognoscendi 
causas eorum quae videntur). Então, é devido à 
admiração experimentada diante dos objetos 
percebidos e cujas causas permaneciam ocultas, 
que os homens se veem a filosofar; encontradas 
as causas, eles repousam. E a investigação não 
para até que cheguemos à primeira causa; pois 
consideramos que conhecemos perfeitamente 
quando conhecemos a causa primeira (perfecte 
nos scire arbitramus quando primam causam 
cognoscimus)”. 
A Metafísica é, igualmente, ontologia, isto é, 
ciência do ser enquanto ser. Isso significa, como 
Aristóteles já havia percebido, que a Metafísica 
é a ciência mais universal e compreensiva de 
todas. A Metafísica tem, pois, o mais universal 
dos objetos, o ser como tal, do qual as ciências 
particulares exploram apenas aspectos parciais. 
Em seu comentário à Metafísica de Aristóteles (IV, 
I, 1, n. 529-532), Tomás explana da seguinte forma 
essa questão: “Aristóteles declara inicialmente 
que existe uma certa ciência que considera o ‘ser 
enquanto ser’ (ens secundum quod ens) a título 
de sujeito e que considera igualmente ‘o que 
nele é, por si’, isto é, seus acidentes próprios. Diz 
‘enquanto ser’, pois as outras ciências que têm 
por sujeito seres particulares tratam, na verdade, 
do ser, sendo ser todos os sujeitos das ciências; 
entretanto, não consideram o ser enquanto ser, 
mas somente enquanto ele é tal ser: número, linha, 
fogo ou algo semelhante. Precisa igualmente 
o ‘que nele é por si’, e não simplesmente o que 
nele é, para deixar entender que não cabe a uma 
ciência considerar o que se encontra de maneira 
acidental em seu sujeito, mas somente o que aí 
se encontra essencialmente. A geometria, com 
efeito, não pergunta, a propósito do triângulo, 
se este é de cobre ou de madeira, mas o estuda 
de modo absoluto, à medida que este tem três 
ângulos etc. assim, portanto, não convém que 
esta ciência cujo objeto é o ser se ocupe de tudo 
que se refira acidentalmente a ele... Quanto à 
necessidade de uma tal ciência ter por objeto 
o ser e seus acidentes, decorre de que essas 
coisas não podem permanecer ignoradas, visto 
que delas depende o conhecimento de outras 
coisas, como o conhecimento das coisas 
particulares depende do conhecimento das 
comuns. Mostra ele, agora, que esta ciência 
não é uma das ciências particulares pela razão 
seguinte. Nenhuma ciência particular considera 
o ser universal enquanto tal, mas somente uma 
certa parte do ser, separada das outras, da 
qual estuda a propriedade essencial; assim, as 
ciências matemáticas tomam por objeto um 
certo ser, ou seja, o ser quantificado. A ciência 
comum, por sua vez, considera o ser universal 
enquanto ser; ela não se confunde, portanto, 
como nenhuma das ciências particulares”.
Finalmente, a Metafísica é ciência do que é 
imóvel e separado, distinguindo-se, assim, das 
outras duas ciências teoréticas reconhecidas 
pelo aristotelismo: a matemática e a física. 
Com efeito, a matemática trata de entes 
imóveis, mas que não são separados (de fato, 
o ente matemático só existe como tal a partir 
da abstração operada pelo intelecto); já a física 
trata de entes separados, mas que não são 
imóveis (de fato, a característica mais universal 
do ente físico, além das qualidades sensíveis, 
Unidade 2 - A Escolástica
é o movimento). Só a Metafísica trata do que é 
imóvel e separado e como a substância imóvel e 
separada mais eminente é Deus, a metafísica é 
teologia.
Pois bem, para Tomás, a Metafísica compreendida 
a partir dessas caracterizações tem como seu 
ponto de partida privilegiado o mais fundamental 
de todos os conceitos: o conceito de ser. O ser é, 
de fato, o termo primordial e incondicional do qual 
parte, na obra tomásica, a reflexão metafísica. 
Trata-se, evidentemente, não deste ou daquele 
modo de ser específico, mas do ser mesmo ou 
enquanto tal, do ser tomado no mais elevado nível 
de abstração intelectual e, portanto, despojado 
de todos os seus aspectos quantitativos (materia 
signata) e qualitativos (materia sensibilis). O ser 
assim compreendido é, segundo Tomás, o objeto 
primeiro do pensamento humano, vale dizer, o 
conteúdo precípuo e primordial de toda ação 
intelectiva humana. Como ele diz em De veritate, 
q. 1, a. 1, “aquilo que a inteligência capta de 
início como seu objeto mais conhecido e em que 
resolve todas as suas concepções é o ser”.
Com essa formulação filosófica, Tomás 
pretende deixar claro tanto a primazia quanto 
a universalidade da noção de ser. O ser é 
verdadeiramente o ens primum cognitum, o 
objeto primário da atividade cognitiva, de forma 
que todas as atividades de nossa vida intelectual 
repousam, de uma forma ou de outra, sobre essa 
noção primitiva e verdadeiramente originária. 
Dito de forma mais clara, afirmar que o ser é 
noção primitiva que sustenta todas as atividades 
intelectivas é afirmar que não se pode pensar 
sem o ser.
Tal asserção pode ser comprovada já no plano 
da mais elementar operação intelectual, a 
simples apreensão de um objeto de pensamento 
qualquer: esta mesa, este livro, um triângulo, um 
homem, um sentimento. Quando simplesmente 
apreendo esses objetos, apreendo-os como 
sendo alguma coisa e, caso eles não fossem, 
i. e., caso não possuíssem ser, não poderia de 
modo algum apreendê-los, pois não haveria nada 
a que pudesse ligar meu pensamento. Mesmo 
uma negação ou uma privação só podem ser 
apreendidas ou concebidas a partir de uma 
referência ao ser.
Essa primazia da noção de ser em nossa 
vida intelectiva se torna ainda mais patente, 
segundo a reflexão tomásica, se consideramos 
aquele que é o ato perfectivo do intelecto e, 
portanto, o procedimento crucial no processo 
do conhecimento: o juízo. Com efeito, o juízo 
nada mais é do que a síntese ou união de dois 
termos (um sujeito e um predicado) no ser. O ser 
pode aparecer de maneira explícita em um ato 
judicativo, como, por exemplo, em uma asserção 
do tipo: “Pedro é pálido”; ou pode aparecer de 
maneira implícita, como numa asserção do tipo: 
“O sol brilha”. Isso significa que sempre que 
julgamos, sempre que afirmamos algo de alguma 
coisa, o fazemos em relação ao ser. Segue-se 
disso que, abolindo a noção de ser, abolimos a 
própria possibilidade do pensamento.
Se o ser é o objeto mais primitivo e mais universal 
do pensamento humano, no sentido em que ele 
é 1) o que é primeiramente apreendido pela 
inteligência e 2) o que se encontra presente 
em todas as nossas operações intelectuais, 
ele é, por conseguinte, o conteúdo principal do 
pensamento metafísico, de vez que a metafísica 
se pretende justamente como a ciência do que 
é primeiro e mais universal.
Levando em conta o que foi dito acima, percebe-
se que, na metafísica proposta por Tomás de 
Aquino, a noção de ser já se encontra presente 
em qualquer operação intelectual e, portanto, é 
um dado do próprio senso comum. O ser, de fato, 
é algo que se insinua nos nossos pensamentos 
cotidianos e nos usos ordinários que fazemos 
da linguagem. No entanto, trata-se, aí, de uma 
noção vaga e confusa de ser, que carece de 
rigor e de consistência filosóficas. 
Para passarmos de noção pré-filosófica de 
ser, própria do senso comum, e alcançarmos 
a intuição propriamente metafísica do ser é 
preciso um trabalho de purificação intelectual, 
que pode ser definido como um exercício de 
abstração progressiva.
Unidade 2 - A Escolástica
De fato, nossa inteligência se volta, a princípio,de forma espontânea, para os entes particulares 
que caem sob a apreensão de nossos sentidos. 
Já nesse nível apreendemos o ser, mas de forma 
confusa, empírica e particularizada. No entanto, 
se submeto aquilo que apreendo empiricamente 
a generalizações progressivas, submetendo o 
objeto de minha sensação a ideias cada vez 
mais amplas, alcanço, ao termo desse processo, 
a noção de ser puro como a mais universal 
de todas. Suponhamos, por exemplo, que eu 
tenha a percepção de um sujeito individual de 
nome “Pedro”. Ora, aplicando o procedimento 
da abstração e da realização de sucessivas 
generalizações, teríamos as seguintes gradações, 
seguindo o esquema lógico da célebre árvore de 
Porfírio: Pedro (indivíduo) – homem – animal- ser 
vivo (animado) – corpo – substância – ser. 
Nesse procedimento intelectual de generalização 
gradativo, o ser é atingido como o termo final de 
uma abstração máxima, portanto, como o termo 
mais universal de todos e que contém todas as 
determinações e diferenças. Mas isso não é tudo: 
submetendo a noção de ser assim apreendida por 
meio do procedimento da abstração intelectual a 
uma análise ulterior, chegamos à identificação 
de uma diferença filosófica fundamental que 
é inerente à estrutura do ser. Com efeito, “ser” 
pode significar, primitivamente, duas coisas. Em 
primeiro lugar, o que algo “é” (quid est), isto é, o 
conjunto de notas próprias que determina uma 
coisa e que é responsável por sua definição e, 
por conseguinte, por sua essência. Como explica 
Tomás, no De ente et essentia, c. 2, “é manifesto 
que a essência é aquilo que se entende pela 
definição de uma coisa”. Assim, por exemplo, 
quando raciocinamos sobre um quadrado, 
pensamos necessariamente em um polígono de 
quatro lados, pois ser um quadrado é, antes de 
qualquer outra coisa, ser um polígono de quatro 
lados, o que constitui sua definição ou natureza. 
A essência é o que define necessariamente o 
que algo é e o que distingue algo das demais 
coisas. Entretanto, Tomás, a partir da concepção 
criacionista bíblica, considera que, excetuando-
se o caso de Deus, a mera definição de algo, a 
sua essência, não implica que esse algo, de fato, 
exista efetivamente no real, já que a existência 
de uma coisa não está incluída necessariamente 
na definição que dela formamos. “Toda essência 
ou quididade pode ser compreendida sem que 
se tenha conhecimento de sua existência: posso, 
com efeito, compreender o que é um homem ou 
um fênix e ignorar, entretanto, se eles existem 
efetivamente na realidade” (De ente et essentia, c. 
5). Disso se segue um segundo aspecto do ser no 
plano de sua inteligibilidade: aquilo pelo qual algo 
é (quo est), vale dizer, o seu ato de existir (actus 
essendi), ato pelo qual uma coisa ou essência é 
posta fora do nada ou fora de suas causas (extra 
nihilo, extra causas).
Para Tomás, o objeto da reflexão metafísica é não 
a essentia, mas o ens enquanto actus essendi, 
portanto como esse tomado em sua acepção 
simples e absoluta (existir). Como viu Gilson, a 
compreensão da distinção real entre essência 
e existência é a grande inovação filosófica 
introduzida por Tomás na história da filosofia – 
inovação que se tornou possível apenas graças 
à revelação bíblica do Deus criador e onipotente. 
A passagem bíblica crucial que Gilson considera 
que está na base dessa inovação filosófica é 
Êxodo 3, 15, razão pela qual ele caracteriza a 
metafísica tomásica de “metafísica do êxodo”. 
A passagem bíblica se refere à revelação de 
Deus a Moisés no monte Horebe, no meio de uma 
sarça ardente, revelação em que Deus, diante 
da dúvida de Moisés acerca de como anunciar 
o nome divino aos hebreus, se apresenta como 
o próprio ser. Eis o relato contido no texto 
bíblico: “Disse Moisés a Deus: eis que, quando 
eu vier aos filhos de Israel e lhes disser: O Deus 
de vossos pais me enviou a vós outros; e eles 
me perguntarem: Qual é o seu nome? Que lhes 
direi? Disse Deus a Moisés: Eu Sou o que Sou 
(ego sum quid sum). Disse mais: Assim dirás 
aos filhos de Israel: Eu Sou me enviou a vós 
outros (Qui es misit me ad vos)”.
Na interpretação proposta por Gilson dessa 
passagem e que, segundo o estudioso francês, 
Tomás de Aquino assumirá no desenvolvimento 
de sua reflexão metafísica, o ponto fundamental 
está no fato de que Deus se identifica com 
o próprio ser, apontando, portanto, para a 
concepção de que, em Deus, a essência se 
Unidade 2 - A Escolástica
confunde com a própria existência. Como diz 
Gilson em O espírito da filosofia medieval (p. 68-
69): “Para saber o que é Deus, é a Deus mesmo 
que Moisés se dirige. Querendo conhecer seu 
nome, pergunta-o a ele, e eis a resposta: Ego sum 
qui sum. Ait: sic dices filiis Israel: qui est misit me 
ad vos (Ex 3, 14). Aqui também nem uma palavra 
de metafísica, mas Deus falou, a causa está 
entendida, e é o Êxodo que coloca o princípio a 
que a filosofia cristã por inteiro se prenderá. A 
partir desse momento, está entendido de uma 
vez por todas que ser é o nome próprio de Deus 
e que, de acordo com a palavra de santo Efrém, 
retomada mais tarde por são Boaventura, esse 
nome designa sua essência mesma. Ora, dizer 
que a palavra ser designa a essência de Deus e 
que Deus é o único cuja essência essa palavra 
designa, é dizer que em Deus a essência é idêntica 
à existência e que ele é o único em que essência e 
existência são idênticas. É por isso que, referindo-
se expressamente ao texto do Êxodo, são Tomás 
de Aquino declarará que, entre todos os nomes 
divinos, há um que é eminentemente próprio de 
Deus - Qui est-, justamente porque não significa 
nada além do próprio ser: “non enim significat 
formam aliquam, sed ipsum esse”. Princípio de 
uma fecundidade metafísica inesgotável e de 
que os estudos subsequentes se contentarão em 
considerar as consequências. Só há um Deus e 
esse Deus é o ser; é essa a pedra angular de toda 
a filosofia cristã, e não foi Platão, não foi nem 
mesmo Aristóteles, foi Moisés quem a colocou.”
A partir dessa formulação, Tomás de Aquino 
considera que apenas Deus é (ou existe) no 
sentido rigoroso do termo; todas as demais 
coisas, na medida em que são criadas, apenas 
têm ser ou participam do ser. Isso significa que 
todos os entes criados não são necessários, mas, 
antes, contingentes, isto é, que todos os entes 
criados são, mas poderiam não ser, na medida 
em que, neles, a distinção entre existência e 
essência é real.
A metafísica tomásica é considerada uma 
metafísica do ser (esse) e não uma filosofia das 
essências porque confere primazia ontológica ao 
ato existir, em detrimento da essência. Com efeito, 
na visão de Tomás, é por meio do ato de ser que 
a essência se realiza e se efetiva (actus essendi); 
a essência, como tal, é mera possibilidade de 
ser, é mera potência ou poder-ser. Aplicado ao 
mundo como um todo, esse teorema desemboca 
na concepção de que o universo não pode existir 
em virtude de si próprio e não é, pois, eterno, 
devendo receber o seu ser (sua existência) de um 
outro, que existe necessariamente: Deus. Aqui se 
encontra a grande diferença entre a filosofia cristã 
que Tomás pretende fundamentar a partir de um 
repensamento do aristotelismo e o aristotelismo 
ortodoxo proposto pelos averroístas. 
Pois bem, reconhecendo a primazia do ato de ser 
(existentia) sobre a essência e identificando no 
ato de ser a possibilidade de todo o discurso, a 
metafísica tomásica pode ser definida como uma 
metafísica existencialista. A filosofia tomásica, 
porém, reconhece que o ato de ser como tal 
é um mistério, um dom gratuito que causa 
estupefação e que não pode ser completamente 
conceptualizado.
Unidade 2 - A Escolástica
2.2.2
A filosofia prática de Tomás de Aquino
Para que possamos entender melhor as ideias de Aquino, precisamos dividir 
em quatro as ordens das ciências por ele consideradas:
• ciências da ordem da natureza [rerum naturalium], como, por exemplo, a 
ciência da natureza, a Matemática e a Metafísica; 
• ciência da ordem que podemos produzir em nossos pensamentos,como, 
por exemplo, a Lógica;
• ciências da ordem que podemos produzir em nossas deliberações, 
escolhas e ações voluntárias, como, por exemplo, a moral, a Economia e a 
Ciência política; e
• ciências das artes que produzem ordem nos produtos feitos pelo homem, 
como, por exemplo, a tecnologia (FINNIS, John. Aquinas: Moral, Political, 
and Legal Theory. New York: Oxford University Press, 1998, p. 21).
Tomaremos como tema o estudo das ações, já que precisaríamos de muito 
vocabulário para adentrar as questões de ordem Metafísica, por exemplo.
- Para Tomás de Aquino, a razão atua como uma espécie de regra sobre as 
emoções. Há exceções à regra: 
- Permitir que as emoções sejam os motivos de nossas escolhas não é o 
mais acertado, mas podem-se seguir as emoções, quando nenhuma das 
assertivas racionais forem suficientemente boas.
- Precisamos dirigir nossa vontade para ações que sejam boas em si 
mesmas. Por isto, devemos observar que o critério de condução da razão 
para obtenção de fins é evitar o mal e buscar o bem. 
Esse preceito que nos impele a fazer o bem e não o mal é diretivo e 
não imperativo. Ou seja, não é propriamente um preceito moral. Mesmo 
pessoas sem moral farão uso de tal preceito, já que ele visa, antes do mais, 
a preservação da vida. O bem, então, é aqui considerado como a tendência 
natural das coisas, uma ordem sem a qual padeceríamos. Tender ao bem 
significa, para Tomás de Aquino, a manutenção dessa ordem vital. Fazer o 
mal, desarranjar a ordem e instalar o caos que ameaça a vida é um grande 
infortúnio que o homem pode vir a escolher. Não há nada, então, que 
justifique esse princípio moral de maneira secundária, ele é auto-evidente, 
acontece mesmo a partir das experiências que vivenciamos. Eles podem 
ser defendidos, mas não necessitam de justificação, justamente por sua 
auto-evidência.
Unidade 2 - A Escolástica
2.2.3
A Ética de Tomás de Aquino
Aristóteles usa o termo eudaimonia, felicidade, para dizer o bem supremo, 
que Aquino chama de “beatitude” ou “felicitas”.
O problema para Tomás de Aquino é pensar uma felicidade que possa ser 
vivida nessa vida e não em uma próxima, o que não estaria ao alcance da 
razão. Trata-se de encontrar uma beatitude imperfeita ou um bem perfeito 
imperfeito. O que Aquino está a nos dizer é que a felicidade, assim como a 
virtude, pode, sim, ser alcançada nessa vida, com o esforço e a condução 
da vontade. Entretanto, uma espécie de felicidade perfeita é capaz, também, 
de ser contemplada nessa existência. Ela consiste na visão da essência 
divina. Nenhuma criatura pode obter essa visão por seus próprios poderes. 
É necessária a graça divina para que essa visão ocorra.
A realização completa [felicitas], uma condição na qual todos os desejos 
humanos são realizados e em que todos os esforços humanos encontram 
finalização, consiste em uma ininterrupta visão de Deus, só alcançável depois 
da morte (SummaTheologiae, I-II,q. 5a. 5c.).
Então, Tomás de Aquino está nos mostrando como vislumbrar, mesmo 
que com olhos levemente abertos, aquilo que nos agracia depois da 
morte. Entretanto, existe apenas uma forma imperfeita de felicidade nessa 
existência sublunar que possa ser vivenciada no cotidiano. 
No Tratado dos Hábitos, seguindo Aristóteles e não a ética dos estóicos, 
Aquino vai falar dos elementos necessários para que possamos alcançar 
uma vida feliz. Indica algumas disposições universais, tais como: a 
prudência, a justiça, a temperança e a coragem. Todos esses elementos 
funcionam como auxiliares da razão. Contudo, “quando a razão trata de 
casos particulares, ela precisa não somente do universal, mas também de 
princípios que se apliquem a particulares. (Guia de estudos)”.
É necessário que o homem disponha, portanto, de um exercício do hábito. 
Todos esses universais auxiliam a razão, mas, no dia a dia, vivemos casos 
particulares, nos quais as paixões e as concupiscências nos assolam. Se 
não nos educarmos em nossos hábitos, em nossas formas de pensar e 
agir, dificilmente nos desvencilharemos das paixões, das emoções, como 
impulsionadoras do agir. E onde está o mal nisto? Em que nem a emoção 
e nem a paixão são suficientemente dotadas da capacidade de nos tornar 
melhores, no sentido de uma conduta que possa nos guiar para uma retidão 
de caráter, seguindo para o bem, ou seja, para uma boa vida em conjunto. 
A paixão abre um espaço de confusão, de sentimentos desordenados, e 
acaba nos conduzindo para ações desencontradas. O que nos fornece 
uma vida moral é educarmo-nos, com o auxílio dos elementos universais 
da razão, para as situações particulares, escolhendo aquilo que é mais 
harmonioso para a nossa vida.
De acordo com Aquino, ninguém escolhe uma desarmonia, o egoísmo, 
quando exercitado na arte das virtudes, quando trabalhado em seus hábitos. 
O egoísmo é fruto de uma vontade pouco exercitada. 
Outro elemento importante para Aquino é o amor. Para ele, o amor tem que 
ser, antes de tudo, amor por si mesmo. O homem deve querer ser feliz. E, 
para isto, precisa aprender a amar. Sim, amar é como a vontade, precisa de 
treinamento do hábito, igualmente. E, para ele, nenhum homem quer outra 
coisa senão a felicidade. Através do amor, que se dirige a todos na medida 
em que parte de si mesmo, o bem de cada um está entrelaçado com o bem 
Unidade 2 - A Escolástica
de todos. Não há, para Tomás de Aquino, maior felicidade do que esta: a 
comunhão entre os cristãos através das virtudes e do amor. 
A razão, como vimos, desempenha um importante papel, junto às virtudes. 
É a razão que julga que o bem comum é melhor que o individual e tende, 
assim, para o universal. É a razão que nos permite pensar que o homem 
individual, com suas imperfeições e inclinações, pode se tornar o homem 
da humanidade cristã. 
A ética de Tomás de Aquino consiste basicamente nisto, no bom uso da 
vontade, através do bom uso da razão. 
Unidade 2 - A Escolástica
2.2.4
Direitos
A felicidade depende, como dissemos, do bem comum. Assim como a 
felicidade, também a justiça precisa do bem comum. O objeto da justiça, 
para Tomás de Aquino, é o direito dos outros. 
Para ele, a justiça diz respeito ao que é direito de todos, ao que diz respeito 
a todos. Somente posteriormente se pode falar em direitos individuais e 
pensar em um indivíduo. O que deve ser dimensionado, antes de mais nada, 
é o todo, o universal. Tudo o que é de direito da humanidade é bom para 
mim. Não posso ser morto, nem ferido, nem roubado, etc. Não posso ser 
lesado como ser humano, assim como nenhum homem pode, porque isto 
não é bom em hipótese alguma, para homem nenhum. 
Para Aquino, há uma série de deveres, mas apenas um dever a outra 
pessoa se trata de um dever de justiça. O conceito de justiça pressupõe, 
para Aquino, o conceito de igualdade. A justiça só é possível porque todos 
os homens, em sua concepção, são iguais, universais. E, além de iguais, 
são livres: “Scriptum super Libros Sententiarum Petri Lombardiensis: “natura 
omnes homines aequales in libertate fecit” (apud FINNIS, 1998, p. 170).
Como fruto de seu tempo, Aquino exagera na distinção de gêneros e, 
apesar de dizer que todos são iguais e livres, considera que o homem 
possa deliberar melhor, por ter uma menor participação das emoções em 
suas decisões. As mulheres, para Aquino, não possuem uma firmeza de 
razão tão grande quanto a do homem. A justificativa disto estaria na própria 
constituição física e de alma de ambos. Então, a mulher é naturalmente 
sujeita ao homem, porque neste prepondera a razão. Esses são os termos 
de Aquino.
[ DICA ] 
Ouçam a música de Jorge Bem Jor, intitulada “Assim Falou 
Santo Tomás de Aquino” (link abaixo), e debatam sobre a 
letra no fórum da turma. Debatam também sobre a noção 
de razão e sobre a noção de amor para Aquino.
https://www.youtube.com/watch?v=RLvkpLnWqg8
https://www.youtube.com/watch?v=RLvkpLnWqg8
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