Prévia do material em texto
UNIDADE Curso de Graduação Filosofia 2 A ESCOLÁSTICA 2.1 Elementos da Escolástica 2.2 Tomás de Aquino (1225-1274) : Dados bibliográficos e o contexto cultural e filosófico Unidade 2 - A Escolástica A escolástica compreende o período que segue do século IX ao XV. O representante mais importante dessa época é São Tomás de Aquino e, portanto, daremos maior ênfase à sua obra, que por ser muito vasta, nos leva a eleger falar sobre a sua filosofia prática. A patrística compreende os períodos II a VII e é representada pelos padres da Igreja, que dá origem ao nome. São eles os mestres da doutrina cristã da época. A escolástica, correspondendo aos séculos IX ao XV, é representada pelos mestres das escolas de filosofia que se fundam nesse período, sendo os mestres da doutrina cristã chamados, por este motivo, de escolásticos. Unidade 2 - A Escolástica 2.1. Elementos da Escolástica - Uma forte relação com a dialética, com a arte do diálogo e da refutação. - Seu grande foco é mais a filosofia cristã do que a teologia. Seu maior representante é Santo Tomás de Aquino. Ao contrário de Agostinho, a intenção maior de Tomás de Aquino é libertar a razão da fé. A razão não pode penetrar nos mistérios da fé, mas pode embasar os argumentos sobre a fé, tornando-se prática, útil. - A escolástica é dividida em pré-tomista, tomista e pós-tomista, tamanha a importância do pensador para esse momento do pensamento. Unidade 2 - A Escolástica 2.2. Tomás de Aquino (1225-1274) : Dados bibliográficos e o contexto cultural e filosófico Santo Tomás de Aquino nasceu em Roccasseca, no sul do Lácio, em uma família aristocrática, no ano de 1221. Seu pai, Landolfo, com efeito, era conde de Aquino e possuía laços de sangue com as famílias reais de França, Sicília e Aragão. Recebeu a primeira educação no mosteiro de Monte Cassino, berço da Ordem dos Beneditinos, e posteriormente, em 1239, ingressou na universidade de Nápoles. No ano de 1243, ingressou secretamente na Ordem dos Dominicanos, recebendo o hábito um ano depois, em 1244, e a ordenação em 1250. De 1245 a 1252, deu continuidade aos seus estudos, nas universidades de Nápoles, Colônia, onde foi discípulo de Santo Alberto Magno, e Paris. Na Universidade de Paris, obteve o título de Magister em Teologia. Perambulou, depois desse período, por várias universidades europeias, ensinando, escrevendo e se engajando no debate intelectual da época. Data desse período a redação de sua obra maior, a Suma Teológica (Summa theologiae), que permaneceu, porém, inacabada, em virtude dos problemas de saúde que o atormentavam. Faleceu em 1254, em um mosteiro em Fossanova, quando se encontrava em viagem para Lyon, a fim de participar do concílio que lá se realizaria a pedido do Papa Gregório X. Conta-se que Tomás, no final de sua vida, teve uma profunda experiência mística que o marcou profundamente e que o levou a considerar todo seu trabalho intelectual anterior como algo de insignificante e pequeno. De fato, relata-se que seu discípulo, Reginaldo de Piperne, vendo a saúde de seu mestre declinar e temendo que ele viesse a falecer deixando sua obra magna incompleta, instou-o a concluir o seu trabalho. Ao que Tomás teria respondido: “Raynalde, non possum, quia omnia quae scripsi videntur mihi paleae." O horizonte histórico-cultural do século XIII. O ambiente histórico em que se dá a formação intelectual e filosófica de S. Tomás de Aquino e a elaboração de seus escritos, o século XIII, foi caracterizado por dois acontecimentos decisivos e de importância extraordinária para o mundo ocidental: a criação das universidades (Bolonha, Paris, Oxford etc.) como centros de estudo que institucionalizaram o ensino superior, voltado para uma formação científica e filosófica ampla ou universal, e a introdução, no seio da Europa católica, das obras completas de Aristóteles. Como é sabido, a penetração do aristotelismo no Ocidente cristão se deu fundamentalmente por meio da ação contínua e sistemática de alguns tradutores árabes profissionais pertencentes à cidade espanhola de Toledo, no século XII. Esses tradutores verteram as obras aristotélicas do grego para o árabe e do árabe essas versões foram traduzidas para o latim. Mais ainda: o profuso exercício das traduções não se limitou ao conjunto enciclopédico dos escritos peripatéticos, ao Corpus aristotelicum, mas se estendeu também aos tratados interpretativos dos principais comentadores árabes e judeus de Aristóteles, como Avicebron, Avicena e Averrois, este último sendo, quiçá, o maior intérprete do pensamento aristotélico no medievo, ao lado de S. Tomás. Ora, para Averrois, que devotava uma monumental admiração pelo gênio do Estagirita, a filosofia aristotélica representava a consumação mesma do saber filosófico, um sistema coeso e inabalável que encarnava em si a própria verdade: “Aristotelis doctrina est summa veritas; finis intellectus”. A irrupção do aristotelismo é, pois, como se vê, um evento cultural decisivo no contexto do século XIII. Como observa Lima Vaz: “É a partir desse momento que, em vagas sucessivas, a grande corrente aristotélica, arrastando consigo um complexo material da tradição filosófica grega, vai penetrar irresistivelmente em todos os centros de estudo do ocidente latino e, sobretudo, em Paris, coração intelectual da cristandade e cuja universidade acaba de ser constituída.” Unidade 2 - A Escolástica Ora, o confronto inicial produzido pelas teses cardeais do aristotelismo, até então ignoradas pelo mundo cristão (até o século XIII, as únicas obras aristotélicas conhecidas pela cristandade eram aquelas pertencentes ao Órganon), com os princípios e dogmas fundamentais da organização doutrinário-religiosa do cristianismo católico, foi perturbador e problemático. De fato, como compatibilizar o conceito de matéria como ente eterno e incriado, espécie de divindade inerte, pertencente à física aristotélica, com a concepção da criação do mundo por Deus a partir do nada (creatio ex nihilo)? Ou como harmonizar a visão sustentada, no âmbito da psicologia, por aristotélicos mais ortodoxos e radicais, como Averróis, da impossibilidade racional da sobrevivência da alma após dissolução do corpo, com o dogma da imortalidade pessoal? Em virtude desses choques, que colocavam em crise os fundamentos de determinadas concepções dogmáticas cristãs, nada mais natural que as primeiras atitudes das autoridades eclesiásticas da época fossem a condenação e a proibição do ensino e da circulação das obras aristotélicas nas universidades católicas. É o que aconteceu, de fato, em 1210, primeiramente, no concílio provincial de Paris, sob pena de exclusão; posteriormente, em 1215, como regulamento incluso nos estatutos da universidade de Paris; e, finalmente, em 1231, por meio de um decreto expedido pelo Papa Gregório IX. No entanto, a reação das autoridades eclesiásticas não foi capaz de impedir a profusão triunfante do aristotelismo, o que engendrou, consequentemente, a necessidade iminente de uma assimilação das categorias científico- filosóficas de Aristóteles por parte do pensamento especulativo cristão, sob pena de se desestabilizarem ainda mais os alicerces sobre os quais se erguia a cosmovisão cristã do mundo. É desse ingente e monumental esforço intelectual e filosófico de assimilação do pensamento aristotélico que se originou o apogeu do movimento escolástico, “novo e decisivo capítulo na história das relações entre cristianismo e filosofia”, capítulo do qual S. Tomás é, sem dúvida nenhuma, o maior expoente. Fonte Tomás de Aquino. https://filosofiapuntes.blogspot.com/2019/01/santo-tomas-de-aquino-vida-y-obra-1225.html Unidade 2 - A Escolástica 2.2.1 A metafísica de Tomás de Aquino São Tomás de Aquino assume integralmente a concepção aristotélica da Metafísica como ciência das primeiras causas e dos primeiros princípios, ciência do ser enquanto ser e ciência do que é imóvel e separado. Se não, vejamos. Tomásde Aquino considera que todo o conhecimento verdadeiro é sempre uma etiologia, vale dizer, uma explicação pelas causas. Vere scire, per causas scire. Ora, por oposição às outras ciências, que abordam apenas causas e princípios mais imediatos, a metafísica ou filosofia primeira pretende levar às últimas consequências o discurso etiológico e alcançar aquilo que constituiria as causas primeiras de tudo aquilo que é. Como esclarece o Aquinate em Contra gentiles (III, 25): “Há em todos os homens um desejo natural de conhecer a causa daquilo que eles percebem (Naturaliter inest omnibus hominibus desiderium cognoscendi causas eorum quae videntur). Então, é devido à admiração experimentada diante dos objetos percebidos e cujas causas permaneciam ocultas, que os homens se veem a filosofar; encontradas as causas, eles repousam. E a investigação não para até que cheguemos à primeira causa; pois consideramos que conhecemos perfeitamente quando conhecemos a causa primeira (perfecte nos scire arbitramus quando primam causam cognoscimus)”. A Metafísica é, igualmente, ontologia, isto é, ciência do ser enquanto ser. Isso significa, como Aristóteles já havia percebido, que a Metafísica é a ciência mais universal e compreensiva de todas. A Metafísica tem, pois, o mais universal dos objetos, o ser como tal, do qual as ciências particulares exploram apenas aspectos parciais. Em seu comentário à Metafísica de Aristóteles (IV, I, 1, n. 529-532), Tomás explana da seguinte forma essa questão: “Aristóteles declara inicialmente que existe uma certa ciência que considera o ‘ser enquanto ser’ (ens secundum quod ens) a título de sujeito e que considera igualmente ‘o que nele é, por si’, isto é, seus acidentes próprios. Diz ‘enquanto ser’, pois as outras ciências que têm por sujeito seres particulares tratam, na verdade, do ser, sendo ser todos os sujeitos das ciências; entretanto, não consideram o ser enquanto ser, mas somente enquanto ele é tal ser: número, linha, fogo ou algo semelhante. Precisa igualmente o ‘que nele é por si’, e não simplesmente o que nele é, para deixar entender que não cabe a uma ciência considerar o que se encontra de maneira acidental em seu sujeito, mas somente o que aí se encontra essencialmente. A geometria, com efeito, não pergunta, a propósito do triângulo, se este é de cobre ou de madeira, mas o estuda de modo absoluto, à medida que este tem três ângulos etc. assim, portanto, não convém que esta ciência cujo objeto é o ser se ocupe de tudo que se refira acidentalmente a ele... Quanto à necessidade de uma tal ciência ter por objeto o ser e seus acidentes, decorre de que essas coisas não podem permanecer ignoradas, visto que delas depende o conhecimento de outras coisas, como o conhecimento das coisas particulares depende do conhecimento das comuns. Mostra ele, agora, que esta ciência não é uma das ciências particulares pela razão seguinte. Nenhuma ciência particular considera o ser universal enquanto tal, mas somente uma certa parte do ser, separada das outras, da qual estuda a propriedade essencial; assim, as ciências matemáticas tomam por objeto um certo ser, ou seja, o ser quantificado. A ciência comum, por sua vez, considera o ser universal enquanto ser; ela não se confunde, portanto, como nenhuma das ciências particulares”. Finalmente, a Metafísica é ciência do que é imóvel e separado, distinguindo-se, assim, das outras duas ciências teoréticas reconhecidas pelo aristotelismo: a matemática e a física. Com efeito, a matemática trata de entes imóveis, mas que não são separados (de fato, o ente matemático só existe como tal a partir da abstração operada pelo intelecto); já a física trata de entes separados, mas que não são imóveis (de fato, a característica mais universal do ente físico, além das qualidades sensíveis, Unidade 2 - A Escolástica é o movimento). Só a Metafísica trata do que é imóvel e separado e como a substância imóvel e separada mais eminente é Deus, a metafísica é teologia. Pois bem, para Tomás, a Metafísica compreendida a partir dessas caracterizações tem como seu ponto de partida privilegiado o mais fundamental de todos os conceitos: o conceito de ser. O ser é, de fato, o termo primordial e incondicional do qual parte, na obra tomásica, a reflexão metafísica. Trata-se, evidentemente, não deste ou daquele modo de ser específico, mas do ser mesmo ou enquanto tal, do ser tomado no mais elevado nível de abstração intelectual e, portanto, despojado de todos os seus aspectos quantitativos (materia signata) e qualitativos (materia sensibilis). O ser assim compreendido é, segundo Tomás, o objeto primeiro do pensamento humano, vale dizer, o conteúdo precípuo e primordial de toda ação intelectiva humana. Como ele diz em De veritate, q. 1, a. 1, “aquilo que a inteligência capta de início como seu objeto mais conhecido e em que resolve todas as suas concepções é o ser”. Com essa formulação filosófica, Tomás pretende deixar claro tanto a primazia quanto a universalidade da noção de ser. O ser é verdadeiramente o ens primum cognitum, o objeto primário da atividade cognitiva, de forma que todas as atividades de nossa vida intelectual repousam, de uma forma ou de outra, sobre essa noção primitiva e verdadeiramente originária. Dito de forma mais clara, afirmar que o ser é noção primitiva que sustenta todas as atividades intelectivas é afirmar que não se pode pensar sem o ser. Tal asserção pode ser comprovada já no plano da mais elementar operação intelectual, a simples apreensão de um objeto de pensamento qualquer: esta mesa, este livro, um triângulo, um homem, um sentimento. Quando simplesmente apreendo esses objetos, apreendo-os como sendo alguma coisa e, caso eles não fossem, i. e., caso não possuíssem ser, não poderia de modo algum apreendê-los, pois não haveria nada a que pudesse ligar meu pensamento. Mesmo uma negação ou uma privação só podem ser apreendidas ou concebidas a partir de uma referência ao ser. Essa primazia da noção de ser em nossa vida intelectiva se torna ainda mais patente, segundo a reflexão tomásica, se consideramos aquele que é o ato perfectivo do intelecto e, portanto, o procedimento crucial no processo do conhecimento: o juízo. Com efeito, o juízo nada mais é do que a síntese ou união de dois termos (um sujeito e um predicado) no ser. O ser pode aparecer de maneira explícita em um ato judicativo, como, por exemplo, em uma asserção do tipo: “Pedro é pálido”; ou pode aparecer de maneira implícita, como numa asserção do tipo: “O sol brilha”. Isso significa que sempre que julgamos, sempre que afirmamos algo de alguma coisa, o fazemos em relação ao ser. Segue-se disso que, abolindo a noção de ser, abolimos a própria possibilidade do pensamento. Se o ser é o objeto mais primitivo e mais universal do pensamento humano, no sentido em que ele é 1) o que é primeiramente apreendido pela inteligência e 2) o que se encontra presente em todas as nossas operações intelectuais, ele é, por conseguinte, o conteúdo principal do pensamento metafísico, de vez que a metafísica se pretende justamente como a ciência do que é primeiro e mais universal. Levando em conta o que foi dito acima, percebe- se que, na metafísica proposta por Tomás de Aquino, a noção de ser já se encontra presente em qualquer operação intelectual e, portanto, é um dado do próprio senso comum. O ser, de fato, é algo que se insinua nos nossos pensamentos cotidianos e nos usos ordinários que fazemos da linguagem. No entanto, trata-se, aí, de uma noção vaga e confusa de ser, que carece de rigor e de consistência filosóficas. Para passarmos de noção pré-filosófica de ser, própria do senso comum, e alcançarmos a intuição propriamente metafísica do ser é preciso um trabalho de purificação intelectual, que pode ser definido como um exercício de abstração progressiva. Unidade 2 - A Escolástica De fato, nossa inteligência se volta, a princípio,de forma espontânea, para os entes particulares que caem sob a apreensão de nossos sentidos. Já nesse nível apreendemos o ser, mas de forma confusa, empírica e particularizada. No entanto, se submeto aquilo que apreendo empiricamente a generalizações progressivas, submetendo o objeto de minha sensação a ideias cada vez mais amplas, alcanço, ao termo desse processo, a noção de ser puro como a mais universal de todas. Suponhamos, por exemplo, que eu tenha a percepção de um sujeito individual de nome “Pedro”. Ora, aplicando o procedimento da abstração e da realização de sucessivas generalizações, teríamos as seguintes gradações, seguindo o esquema lógico da célebre árvore de Porfírio: Pedro (indivíduo) – homem – animal- ser vivo (animado) – corpo – substância – ser. Nesse procedimento intelectual de generalização gradativo, o ser é atingido como o termo final de uma abstração máxima, portanto, como o termo mais universal de todos e que contém todas as determinações e diferenças. Mas isso não é tudo: submetendo a noção de ser assim apreendida por meio do procedimento da abstração intelectual a uma análise ulterior, chegamos à identificação de uma diferença filosófica fundamental que é inerente à estrutura do ser. Com efeito, “ser” pode significar, primitivamente, duas coisas. Em primeiro lugar, o que algo “é” (quid est), isto é, o conjunto de notas próprias que determina uma coisa e que é responsável por sua definição e, por conseguinte, por sua essência. Como explica Tomás, no De ente et essentia, c. 2, “é manifesto que a essência é aquilo que se entende pela definição de uma coisa”. Assim, por exemplo, quando raciocinamos sobre um quadrado, pensamos necessariamente em um polígono de quatro lados, pois ser um quadrado é, antes de qualquer outra coisa, ser um polígono de quatro lados, o que constitui sua definição ou natureza. A essência é o que define necessariamente o que algo é e o que distingue algo das demais coisas. Entretanto, Tomás, a partir da concepção criacionista bíblica, considera que, excetuando- se o caso de Deus, a mera definição de algo, a sua essência, não implica que esse algo, de fato, exista efetivamente no real, já que a existência de uma coisa não está incluída necessariamente na definição que dela formamos. “Toda essência ou quididade pode ser compreendida sem que se tenha conhecimento de sua existência: posso, com efeito, compreender o que é um homem ou um fênix e ignorar, entretanto, se eles existem efetivamente na realidade” (De ente et essentia, c. 5). Disso se segue um segundo aspecto do ser no plano de sua inteligibilidade: aquilo pelo qual algo é (quo est), vale dizer, o seu ato de existir (actus essendi), ato pelo qual uma coisa ou essência é posta fora do nada ou fora de suas causas (extra nihilo, extra causas). Para Tomás, o objeto da reflexão metafísica é não a essentia, mas o ens enquanto actus essendi, portanto como esse tomado em sua acepção simples e absoluta (existir). Como viu Gilson, a compreensão da distinção real entre essência e existência é a grande inovação filosófica introduzida por Tomás na história da filosofia – inovação que se tornou possível apenas graças à revelação bíblica do Deus criador e onipotente. A passagem bíblica crucial que Gilson considera que está na base dessa inovação filosófica é Êxodo 3, 15, razão pela qual ele caracteriza a metafísica tomásica de “metafísica do êxodo”. A passagem bíblica se refere à revelação de Deus a Moisés no monte Horebe, no meio de uma sarça ardente, revelação em que Deus, diante da dúvida de Moisés acerca de como anunciar o nome divino aos hebreus, se apresenta como o próprio ser. Eis o relato contido no texto bíblico: “Disse Moisés a Deus: eis que, quando eu vier aos filhos de Israel e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós outros; e eles me perguntarem: Qual é o seu nome? Que lhes direi? Disse Deus a Moisés: Eu Sou o que Sou (ego sum quid sum). Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: Eu Sou me enviou a vós outros (Qui es misit me ad vos)”. Na interpretação proposta por Gilson dessa passagem e que, segundo o estudioso francês, Tomás de Aquino assumirá no desenvolvimento de sua reflexão metafísica, o ponto fundamental está no fato de que Deus se identifica com o próprio ser, apontando, portanto, para a concepção de que, em Deus, a essência se Unidade 2 - A Escolástica confunde com a própria existência. Como diz Gilson em O espírito da filosofia medieval (p. 68- 69): “Para saber o que é Deus, é a Deus mesmo que Moisés se dirige. Querendo conhecer seu nome, pergunta-o a ele, e eis a resposta: Ego sum qui sum. Ait: sic dices filiis Israel: qui est misit me ad vos (Ex 3, 14). Aqui também nem uma palavra de metafísica, mas Deus falou, a causa está entendida, e é o Êxodo que coloca o princípio a que a filosofia cristã por inteiro se prenderá. A partir desse momento, está entendido de uma vez por todas que ser é o nome próprio de Deus e que, de acordo com a palavra de santo Efrém, retomada mais tarde por são Boaventura, esse nome designa sua essência mesma. Ora, dizer que a palavra ser designa a essência de Deus e que Deus é o único cuja essência essa palavra designa, é dizer que em Deus a essência é idêntica à existência e que ele é o único em que essência e existência são idênticas. É por isso que, referindo- se expressamente ao texto do Êxodo, são Tomás de Aquino declarará que, entre todos os nomes divinos, há um que é eminentemente próprio de Deus - Qui est-, justamente porque não significa nada além do próprio ser: “non enim significat formam aliquam, sed ipsum esse”. Princípio de uma fecundidade metafísica inesgotável e de que os estudos subsequentes se contentarão em considerar as consequências. Só há um Deus e esse Deus é o ser; é essa a pedra angular de toda a filosofia cristã, e não foi Platão, não foi nem mesmo Aristóteles, foi Moisés quem a colocou.” A partir dessa formulação, Tomás de Aquino considera que apenas Deus é (ou existe) no sentido rigoroso do termo; todas as demais coisas, na medida em que são criadas, apenas têm ser ou participam do ser. Isso significa que todos os entes criados não são necessários, mas, antes, contingentes, isto é, que todos os entes criados são, mas poderiam não ser, na medida em que, neles, a distinção entre existência e essência é real. A metafísica tomásica é considerada uma metafísica do ser (esse) e não uma filosofia das essências porque confere primazia ontológica ao ato existir, em detrimento da essência. Com efeito, na visão de Tomás, é por meio do ato de ser que a essência se realiza e se efetiva (actus essendi); a essência, como tal, é mera possibilidade de ser, é mera potência ou poder-ser. Aplicado ao mundo como um todo, esse teorema desemboca na concepção de que o universo não pode existir em virtude de si próprio e não é, pois, eterno, devendo receber o seu ser (sua existência) de um outro, que existe necessariamente: Deus. Aqui se encontra a grande diferença entre a filosofia cristã que Tomás pretende fundamentar a partir de um repensamento do aristotelismo e o aristotelismo ortodoxo proposto pelos averroístas. Pois bem, reconhecendo a primazia do ato de ser (existentia) sobre a essência e identificando no ato de ser a possibilidade de todo o discurso, a metafísica tomásica pode ser definida como uma metafísica existencialista. A filosofia tomásica, porém, reconhece que o ato de ser como tal é um mistério, um dom gratuito que causa estupefação e que não pode ser completamente conceptualizado. Unidade 2 - A Escolástica 2.2.2 A filosofia prática de Tomás de Aquino Para que possamos entender melhor as ideias de Aquino, precisamos dividir em quatro as ordens das ciências por ele consideradas: • ciências da ordem da natureza [rerum naturalium], como, por exemplo, a ciência da natureza, a Matemática e a Metafísica; • ciência da ordem que podemos produzir em nossos pensamentos,como, por exemplo, a Lógica; • ciências da ordem que podemos produzir em nossas deliberações, escolhas e ações voluntárias, como, por exemplo, a moral, a Economia e a Ciência política; e • ciências das artes que produzem ordem nos produtos feitos pelo homem, como, por exemplo, a tecnologia (FINNIS, John. Aquinas: Moral, Political, and Legal Theory. New York: Oxford University Press, 1998, p. 21). Tomaremos como tema o estudo das ações, já que precisaríamos de muito vocabulário para adentrar as questões de ordem Metafísica, por exemplo. - Para Tomás de Aquino, a razão atua como uma espécie de regra sobre as emoções. Há exceções à regra: - Permitir que as emoções sejam os motivos de nossas escolhas não é o mais acertado, mas podem-se seguir as emoções, quando nenhuma das assertivas racionais forem suficientemente boas. - Precisamos dirigir nossa vontade para ações que sejam boas em si mesmas. Por isto, devemos observar que o critério de condução da razão para obtenção de fins é evitar o mal e buscar o bem. Esse preceito que nos impele a fazer o bem e não o mal é diretivo e não imperativo. Ou seja, não é propriamente um preceito moral. Mesmo pessoas sem moral farão uso de tal preceito, já que ele visa, antes do mais, a preservação da vida. O bem, então, é aqui considerado como a tendência natural das coisas, uma ordem sem a qual padeceríamos. Tender ao bem significa, para Tomás de Aquino, a manutenção dessa ordem vital. Fazer o mal, desarranjar a ordem e instalar o caos que ameaça a vida é um grande infortúnio que o homem pode vir a escolher. Não há nada, então, que justifique esse princípio moral de maneira secundária, ele é auto-evidente, acontece mesmo a partir das experiências que vivenciamos. Eles podem ser defendidos, mas não necessitam de justificação, justamente por sua auto-evidência. Unidade 2 - A Escolástica 2.2.3 A Ética de Tomás de Aquino Aristóteles usa o termo eudaimonia, felicidade, para dizer o bem supremo, que Aquino chama de “beatitude” ou “felicitas”. O problema para Tomás de Aquino é pensar uma felicidade que possa ser vivida nessa vida e não em uma próxima, o que não estaria ao alcance da razão. Trata-se de encontrar uma beatitude imperfeita ou um bem perfeito imperfeito. O que Aquino está a nos dizer é que a felicidade, assim como a virtude, pode, sim, ser alcançada nessa vida, com o esforço e a condução da vontade. Entretanto, uma espécie de felicidade perfeita é capaz, também, de ser contemplada nessa existência. Ela consiste na visão da essência divina. Nenhuma criatura pode obter essa visão por seus próprios poderes. É necessária a graça divina para que essa visão ocorra. A realização completa [felicitas], uma condição na qual todos os desejos humanos são realizados e em que todos os esforços humanos encontram finalização, consiste em uma ininterrupta visão de Deus, só alcançável depois da morte (SummaTheologiae, I-II,q. 5a. 5c.). Então, Tomás de Aquino está nos mostrando como vislumbrar, mesmo que com olhos levemente abertos, aquilo que nos agracia depois da morte. Entretanto, existe apenas uma forma imperfeita de felicidade nessa existência sublunar que possa ser vivenciada no cotidiano. No Tratado dos Hábitos, seguindo Aristóteles e não a ética dos estóicos, Aquino vai falar dos elementos necessários para que possamos alcançar uma vida feliz. Indica algumas disposições universais, tais como: a prudência, a justiça, a temperança e a coragem. Todos esses elementos funcionam como auxiliares da razão. Contudo, “quando a razão trata de casos particulares, ela precisa não somente do universal, mas também de princípios que se apliquem a particulares. (Guia de estudos)”. É necessário que o homem disponha, portanto, de um exercício do hábito. Todos esses universais auxiliam a razão, mas, no dia a dia, vivemos casos particulares, nos quais as paixões e as concupiscências nos assolam. Se não nos educarmos em nossos hábitos, em nossas formas de pensar e agir, dificilmente nos desvencilharemos das paixões, das emoções, como impulsionadoras do agir. E onde está o mal nisto? Em que nem a emoção e nem a paixão são suficientemente dotadas da capacidade de nos tornar melhores, no sentido de uma conduta que possa nos guiar para uma retidão de caráter, seguindo para o bem, ou seja, para uma boa vida em conjunto. A paixão abre um espaço de confusão, de sentimentos desordenados, e acaba nos conduzindo para ações desencontradas. O que nos fornece uma vida moral é educarmo-nos, com o auxílio dos elementos universais da razão, para as situações particulares, escolhendo aquilo que é mais harmonioso para a nossa vida. De acordo com Aquino, ninguém escolhe uma desarmonia, o egoísmo, quando exercitado na arte das virtudes, quando trabalhado em seus hábitos. O egoísmo é fruto de uma vontade pouco exercitada. Outro elemento importante para Aquino é o amor. Para ele, o amor tem que ser, antes de tudo, amor por si mesmo. O homem deve querer ser feliz. E, para isto, precisa aprender a amar. Sim, amar é como a vontade, precisa de treinamento do hábito, igualmente. E, para ele, nenhum homem quer outra coisa senão a felicidade. Através do amor, que se dirige a todos na medida em que parte de si mesmo, o bem de cada um está entrelaçado com o bem Unidade 2 - A Escolástica de todos. Não há, para Tomás de Aquino, maior felicidade do que esta: a comunhão entre os cristãos através das virtudes e do amor. A razão, como vimos, desempenha um importante papel, junto às virtudes. É a razão que julga que o bem comum é melhor que o individual e tende, assim, para o universal. É a razão que nos permite pensar que o homem individual, com suas imperfeições e inclinações, pode se tornar o homem da humanidade cristã. A ética de Tomás de Aquino consiste basicamente nisto, no bom uso da vontade, através do bom uso da razão. Unidade 2 - A Escolástica 2.2.4 Direitos A felicidade depende, como dissemos, do bem comum. Assim como a felicidade, também a justiça precisa do bem comum. O objeto da justiça, para Tomás de Aquino, é o direito dos outros. Para ele, a justiça diz respeito ao que é direito de todos, ao que diz respeito a todos. Somente posteriormente se pode falar em direitos individuais e pensar em um indivíduo. O que deve ser dimensionado, antes de mais nada, é o todo, o universal. Tudo o que é de direito da humanidade é bom para mim. Não posso ser morto, nem ferido, nem roubado, etc. Não posso ser lesado como ser humano, assim como nenhum homem pode, porque isto não é bom em hipótese alguma, para homem nenhum. Para Aquino, há uma série de deveres, mas apenas um dever a outra pessoa se trata de um dever de justiça. O conceito de justiça pressupõe, para Aquino, o conceito de igualdade. A justiça só é possível porque todos os homens, em sua concepção, são iguais, universais. E, além de iguais, são livres: “Scriptum super Libros Sententiarum Petri Lombardiensis: “natura omnes homines aequales in libertate fecit” (apud FINNIS, 1998, p. 170). Como fruto de seu tempo, Aquino exagera na distinção de gêneros e, apesar de dizer que todos são iguais e livres, considera que o homem possa deliberar melhor, por ter uma menor participação das emoções em suas decisões. As mulheres, para Aquino, não possuem uma firmeza de razão tão grande quanto a do homem. A justificativa disto estaria na própria constituição física e de alma de ambos. Então, a mulher é naturalmente sujeita ao homem, porque neste prepondera a razão. Esses são os termos de Aquino. [ DICA ] Ouçam a música de Jorge Bem Jor, intitulada “Assim Falou Santo Tomás de Aquino” (link abaixo), e debatam sobre a letra no fórum da turma. Debatam também sobre a noção de razão e sobre a noção de amor para Aquino. https://www.youtube.com/watch?v=RLvkpLnWqg8 https://www.youtube.com/watch?v=RLvkpLnWqg8 http://